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Apontamentos de Responsabilidade Civil[1]

Apontamentos de Responsabilidade Civil[1]

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APONTAMENTOS DE RESPONSABILIDADE CIVIL
I CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.1 Conceito de responsabilidade civil; 1.2 Decomposição do vínculo jurídico: distinção entre dever jurídico originário e sucessivo; 1.3 Evolução da responsabilidade civil; 1.4 Responsabilidade penal e civil; 1.5 Espécies e pressupostos da responsabilidade civil.

1.1 Conceito de responsabilidade civil O Direito conjuga o humano e o social, porquanto ele existe em razão das pessoas que se interagem na convivência em sociedade (ubi homo, ibi societas). Sociedade e Direito são realidades conatas e se pressupõem: onde está a sociedade, está o Direito (ubi societas, ibi ius), sendo a recíproca verdadeira, onde está o Direito, está a sociedade (ubi ius, ibi societas), logo onde o homem está, está o Direito (ubi homo, ibi ius). Consequentemente, toda regra jurídica tem por referência a convivência das pessoas na sociedade. Magistral a ensinança de Ihering: Vida humana e vida social significam o mesmo. Isto já os velhos filósofos gregos reconheciam perfeitamente: não há aforismo que exprima de modo mais conciso e cabal a vocação do homem do que a denominação dele como zoon põlitikòn, ser social.1 O Direito tem o propósito de viabilizar a coexistência na liberdade de cada um e de todos no interesse do bem comum, motivado pelos valores da ordem e da justiça, que devem ser estabelecidos na solidariedade, de modo que, no auxílio mútuo, sejam superadas as desigualdades discriminatórias, consoante os objetivos fundamentais estampados no art. 3º, da Constituição Federal. É a busca criteriosa e interrupta do consenso sobre o justo e o injusto o justo e o injusto, o lícito e o ilícito, garantindo a segurança nas relações entre os homens, e ao mesmo tempo permite a cada pessoa encontrar-se e definir-se dentro do seu contexto existencial. Nessa busca incessante cabe à Moral fecundar o Direito, para que ele encontre maior grau de adesão e obediência cívica.

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IHERING, Rudolf von. A finalidade do direito. Tradução de José Antônio Correa. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1979, vol. I, p. 48.

2 A ordem jurídica, leciona San Tiago Dantas, apresenta duplo sentido: “proteger o lícito e reprimir o ilícito. Quer dizer, proteger a atividade do homem que se explica de acordo com o direito; reprimir a atividade do homem que se explica contrariamente ao direito.”2 Sendo assim, a noção de Direito vincula-se à noção de composição dos conflitos de interesses, tendo por escopo o atendimento dos valores da ordem e da justiça, com igualdade e liberdade, essenciais à dignidade humana. A regra jurídica, por conseguinte, além de operar como regra de conduta, também opera como dissipadora de conflitos, valendo como paradigma para o comportamento futuro. Particularmente, o Direito Civil objetiva as relações jurídicas em que pode envolver-se todo cidadão, isto é, refere-se a todos indistintamente na regulação das atividades intersubjetivas em geral, tanto das pessoas naturais como das pessoas jurídicas. Mota Pinto assegura que é o ramo do Direito dirigido à tutela da personalidade humana, visando “facilitar ou melhorar a convivência com outras pessoas humanas – é essa a zona central da vida em sociedade e é ela o campo próprio da incidência do Direito Civil.”3 Miguel Reale pondera que, em um País, a Constituição e o Código Civil são as duas leis fundamentais. A Constituição “estabelece a estrutura e as atribuições do Estado em função do ser humano e da sociedade civil”, enquanto o Código Civil refere-se “à pessoa humana e à sociedade como tais, abrangendo suas atividades essenciais.”4 O Direito Civil é, pois, o direito comum, incidente nas relações humanas partilhadas na vida diária, disciplinando os direitos da personalidade, os interesses familiares e os patrimoniais pertinentes à propriedade dos bens, às obrigações e à responsabilidade civil. Desponta daí, que o modo de composição patrimonial dos conflitos de maneira a reparar o dano (an debeatur) a favor de quem o sofre, pela representação pecuniária equivalente (quantum debeatur), ilustra ao longo do tempo a trajetória da responsabilidade civil, pois ela se assenta no elementar princípio ético de que o dano causado pelo descumprimento de um dever jurídico contratual ou extracontratual deve ser reparado. A regra é primum non nocet (em primeiro lugar não fazer o dano); feito o dano, porque ofende o dever jurídico sintetizado no adágio alterum non laedere (não lesar a outrem), cumpre a obrigação de indenizar. Essa é uma das facetas mais almejadas da concreção do Direito: a busca perene e renovada do justo e do equânime. Ou por outra, a tendência humana, cara ao
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DANTAS, San Tiago. Programa de direito civil. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1979, vol. I, Parte Geral, p. 341. PINTO, Carlos Alberto da Mota. Teoria geral do Direito Civil. Coimbra: Coimbra Editora Ltda., 1976, p. 10. 4 REALE, Miguel. O projeto do Código Civil: situação após a aprovação pelo Senado Federal, 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 2 e 3 .

3 jusnaturalismo, sintetizada na arcaica e simplificada regra sustentáculo da vida honesta, desde a Jura Praecepta do Direito Romano: honeste vivere, neminem laedere, suum cuinque tribuere (viver honestamente, não lesar a ninguém, dar a cada um o que é seu). Nesse contexto, mostra-se atual o sinótico conceito de René Savatier: “Responsabilidade civil é a obrigação que incumbe uma pessoa de reparar o prejuízo causado a outra, pelo fato próprio, ou pelo fato de pessoa e coisas que dela dependam.”5 Detalhando Savatier. a) Dever jurídico que obriga uma pessoa, devedor, a reparar o dano causado à outra pessoa, credor; b) Em razão de ato próprio: confundam-se na mesma pessoa quem causa o dano e quem terá a obrigação de repará-lo; c) Pode o dano ter sido causado por uma pessoa e a obrigação de indenizar recair sobre outra pessoa, no caso o seu responsável; d) Pode ainda o dano ter sido causado por animais ou coisas inanimadas e a indenização ficar por conta de quem tem a sua guarda ou propriedade. Consiste, destarte, na obrigação de o agente causador de um ato lesivo indenizar a vítima, ajustando-se perfeitamente ao conceito genérico de obrigação, que é o direito do credor de exigir certa prestação do devedor. Por conseguinte, o instituto da responsabilidade civil é parte integrante do Direito das Obrigações, aplicando-se a ele o princípio obrigacional de quem deve atender a indenização é o devedor e o seu patrimônio responde pelo débito, como providencia o Código Civil no artigo 391 (Título IV, do Inadimplemento das Obrigações, Capítulo I, das Disposições Gerais) e o artigo 942 (Título IX, Da Responsabilidade Civil, Capitulo I, Da Obrigação de Indenizar). Senão nota-se: a) É fonte de obrigação: do dano nasce a obrigação de indenizá-lo. b) É uma obrigação de dar pecuniária: essa indenização é o equivalente do dano em moeda corrente. c) É a tutela genérica das obrigações de dar, fazer ou não fazer: se impossível restabelecer o stato quo ante pela tutela específica, resolve-se pela tutela genérica das perdas e danos.

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SAVATIER, René. Traité de la responsabilité civile, tome I : Le sources e la responsabilité civile . Paris : Libraire Génerale de Droit et de Jurisprudence, 1939, Introduction, p. 1 : “La reponsabilité civile est l’obligation qui peut incomber à une personne de réparer le dommage causé à autri par son fait, ou par le fait des personnes ou des choses dépendante d’elle. »

4 Assim, a responsabilidade civil é o instituto jurídico de fundamental importância para a resolução dos conflitos de interesses com tríplice função: a de garantia, a de sanção civil e a de prevenção. A função-garantia outorga à vítima do dano o direito de se ver ressarcida. A funçãosanção imputa ao agente causador do dano o dever de compor esse ressarcimento. A funçãopreventiva atua em duas facetas distintas. A uma, opera como coação psicológica, prevenindo a coletividade de novas violações que poderiam eventualmente ser realizadas, pelo próprio causador do ilícito, ou por qualquer outra pessoa. A duas, o desafio de aperfeiçoar o sistema para evitar situações de perigo, o quanto possível, pois afastá-las de todo é impossível. Nota-se, essa terceira função é decorrência natural das duas funções precedentes. Há de se entender, na vida social a pessoa humana tem liberdade para o exercício de seu direito, como tem responsabilidade no exercitá-lo. Jean Paul Satre pontifica que o ser humano ontologicamente não possui liberdade, ele é liberdade em sua essência; “assim, minha liberdade está perpetuamente em questão em meu ser; não se trata de uma qualidade sobreposta ou uma propriedade de minha natureza; é precipuamente a textura de meu ser.”6 Essa liberdade como atributo caracterizador do ser do homem não pode, por parte da lei, sofrer restrições, mas o seu exercício impõe limites, pois sempre coexistem boas e más intenções, sendo fortes e fracos bondosos e maldosos, por isso que a nobreza do exercício da liberdade é medida pelo do fim a que se destina. Nada mais lúcido, portanto, que ao lado da liberdade, como parelha inseparável, está a responsabilidade. José de Aguiar Dias inaugura sua clássica obra, com esta frase: “Toda manifestação da atividade humana traz em si o problema da responsabilidade”, para depois em referência a Marton, completar: “A responsabilidade não é fenômeno exclusivo da vida jurídica, antes se liga a todos os domínios da vida social.”7 Daí a pertinente pergunta de Viktor Emil Frankl: “Quando se resolverão a levantar na costa ocidental [de Nova Iorque] uma estátua da Responsabilidade, a fazer pendant com a estátua da Liberdade, da costa oriental?”8

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SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil, 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995, p. 1-2. 8 FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia e sentido de vida. Fundamentos da logoterapia e análise existencial. Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante [s.d.], p. 106.

que o chama de schuld. é o pagamento espontâneo pela realização da prestação. Desdobra-se em dois momentos. cumpre a prestação de serviços profissionais na defesa dos direitos de “B”. 389 distingue obrigação e responsabilidade: não cumprida a obrigação. e obter a devida indenização pelos prejuízos ante o . seu cliente. então. e no polo ativo o credor. Essa distinção deve-se ao Direito alemão. o Código Civil no art. Reside aqui o débito: “A”. O subjetivo é o pessoal. o objetivo e o espiritual ou vínculo jurídico. outro dever jurídico. entretanto. independe da vontade das partes. Já a responsabilidade. ao contrário.2 Decompondo o vínculo jurídico: distinção entre dever jurídico originário e sucessivo A estrutura da obrigação apresenta três elementos: o subjetivo. cujo objeto imediato é uma prestação de dar. O espiritual é o vínculo jurídico. “A”. O dever jurídico originário nasce pela vontade das partes. é a resposta do ordenamento jurídico ante o inadimplemento de um negócio jurídico bilateral ou unilateral. possibilitando a este exigir daquele o adimplemento da prestação. viola o dever jurídico que voluntariamente assumiu. reside aqui a responsabilidade. que a chama de haftung. qual seja compor o prejuízo experimentado por “B”. aquele que tem o direito de receber a prestação. dever jurídico originário. ao qual se obriga o devedor. O objetivo é o componente material. Não a gosto dos unitaristas que resumem os dois momentos em um único. fazer ou não fazer o quê? A resposta é o bem da vida perseguido pelo credor. que depende com exclusividade de uma ação ou omissão do devedor. secundário. reúne no polo passivo o devedor. devedor. portanto sucessivo. o devedor responde por perdas e danos. enquanto o dever jurídico sucessivo de ressarcimento do prejuízo. Para ele o débito. é o direito do credor de investir contra o patrimônio do devedor. e o objeto mediato ou objeto da prestação é desvendado na resposta à seguinte pergunta: dar. Revela a jurisdicidade da relação obrigacional. primário. defendê-lo em determinada ação. Surge. por intermédio de Alois Brinz. o liame que liga os polos passivo e ativo de uma obrigação. credor. não cumpre a sua obrigação. Como clarifica a seguinte passagem: “A”. dever jurídico sucessivo. O dever jurídico sucessivo (responsabilidade) toma o lugar do dever jurídico originário (débito). o dever jurídico originário e o dever jurídico sucessivo. fazer ou não fazer. Essa obrigação de fazer é dever jurídico originário.5 1. advogado. contrata com “B”. o primeiro a separar esses dois momentos da relação obrigacional. aquele que é obrigado a cumprir a prestação.

os autores alemães demonstram a existência de débito sem responsabilidade. No caso da fiança. via Poder Judiciário. o credor não pode. É o mecanismo da responsabilidade elaborado na figura criada por Marton. é o garante do devedor. antes de se obter o momento da responsabilidade decorre o momento da infração de um dever jurídico próprio de uma obrigação preexistente. na responsabilidade civil extracontratual. indaga-se quem é obrigado. p. Paris: Sirey. Les fundaments de la responsabilitè civile: révision de la doctrine essai d’un système unitaire. abrolha a responsabilidade. apenas no seu primeiro momento: o débito que é o pagamento espontâneo. obrigações prescritas etc. O mesmo acontece na prática do ato ilícito. É o pagamento forçado com o socorro do Poder Judiciário. 263 e 264 : « porquais as-tu manqué à ton devoir en faisant (ou omittant) tel ou tel acte. surge. só então surge a responsabilidade daquele. O fiador não é devedor. 2. Destarte. Falece do momento sucessivo da responsabilidade. Se este não paga a prestação. Demais disso. se insatisfatória será ele condenado. A obrigação é imperfeita ou natural. G. há a responsabilidade.6 inadimplemento voluntário da obrigação. desprovida do momento sucessivo da responsabilidade. a relação obrigacional apresenta dois momentos bem distintos: se o devedor não pagar a prestação espontaneamente. o interrogado estará desobrigado. se pagar é pagamento com direito de retenção. Aqui se encontra a responsabilidade civil contratual. Não apenas. este. tanto contratual como legal ou extracontratual. Para se saber quem é responsável. assim inexigível. ou seja. quando o credor promove ação sobre os bens do devedor.1 Figura criada por Marton Sendo assim. É o caso das dívidas de jogo proibido. descumprindo uma obrigação legal. forçar o pagamento. praticando (ou omitindo) tal ato? Se a pergunta for satisfatoriamente respondida. Logo. a fim de receber seu crédito com o constrangimento do patrimônio do devedor. na qual o órgão mantenedor da norma interroga do violador: “por que faltaste a teu dever. 1938. o fiador tem apenas a responsabilidade e não o débito.9 9 MARTON. isto é. que é o dever de indenizar o dano causado. em razão desse inadimplemento. a responsabilidade. mas não o débito. quando não há um contrato celebrado entre devedor e credor. Há devedor e credor. prestação e vínculo jurídico. Se alguém pratica um ato ilícito. » . no entanto.

Cai a fiveleta o conceito de Victor Emil Frankl. descobrir e realizar valores. que a responsabilidade civil proteja. pois a sociedade atual. pouco. a sua conduta no meio social. reconhece. apenas por viver em uma sociedade de massa.7 Proteção integral da pessoa humana10 Pelo exposto. 10 Muito se fala em proteção à pessoa humana. como uma unitas multiplex. fonte de todas as atividades efetivamente humanas. necessidades biológicas. como a capacidade de amar. Essa é a teologia própria do ser humano. Educar a pessoa humana. adormecida algumas vezes por limitações de ordem pessoal e. a responsabilidade civil açambarca a proteção integral da pessoa humana. impulsionado. Pois bem. . que aponta para a realização de si através da transcendência. reprimida pela violência branca que a sociedade liberal manobra explicita ou implicitamente. Nesse núcleo pessoal noético pertencem os fenômenos que lhes são mais exclusivos. entretanto. abrir-lhe um horizonte de valores e de sentido. é o que se procura nessa oportunidade. mas é um ser livre e responsável. indiscriminadamente. Necessário. conceitua-se a pessoa humana. embora laica. vê-se sob a iminência de risco a todo momento. A pessoa humana aparece centrada em torno de uma realidade pessoal. portanto compreende a faculdade de reagrupar os elementos que compõem a facticidade. enquanto que a dimensão noética corresponde à esfera da existência: liberdade e responsabilidade. a qual deve ser entendida na sua mais ampla concepção. instintos. muitas outras vezes. sobretudo. aqui compreendido o anseio transcendental. apelar para esse núcleo noético. As dimensões somática e psíquica correspondem à esfera da facticidade: impulsos. então. os seus interesses e direitos patrimoniais e da personalidade em todas as suas dimensões. essa pessoa humana. significa. decidir. considerada na sua inteireza. que apresenta um projeto no qual considera salvaguardada a unidade antropológica sem minimizar as diferenças ontológicas – corpo. constitucionalmente. psique e noéses – que se revelam inevitavelmente na análise fenomenológica do ser humano. para usar a expressão tão comum em Santo Tomás de Aquino. com capacidade e possibilidade de resistir e superar os impulsos tendentes a determinar e condicionar o seu comportamento. Nessa dimensão a pessoa humana não é um ser guiado. o direito à liberdade de professar credo religioso.

ganha novo vigor com a sua carga axiológica na defesa da dignidade humana e dos direitos da personalidade.C. Ademais. tida por diligente porque vocacionada a bafejar todos os ramos do Direito com a eficácia de seus valores e princípios.2 Reparação patrimonial 11 LIMA. lei 2ª: si membrum rupsit.11 1. Era a fase da reparação do mal pelo mal. Na Lei das XII Tábuas. Rio de Janeiro: Forense.3. dente por dente. feitio de reação espontânea e natural ou a vingança pura e simples. 6. infringindo no ofensor dano idêntico ao sofrido. São Paulo: RT. estágio atual e perspectivas futuras desse instituto. p. Presta-se também para a boa compreensão do fundamento. por tendência natural. declarando quando e como a vítima poderia ser recompensada pelo seu direito retaliado. em breves pinceladas enfocar o seu escorço histórico que. acompanha o homem desde os mais priscos tempos. Cuida-se. pois a pessoa. a Constituição Federal. Revista e atualizada por Ovídio Rocha Barros Sandoval. sem desprezar os direitos patrimoniais.3 Evolução da responsabilidade civil A evolução da responsabilidade civil realça ainda mais a proteção integral da pessoa humana. que sofra a pena de talião. Ao poder público somente cabia intervir para coibir os abusos.. É a vingança individual. ni cume eo pacit. o grupo reagia contra o agressor pela ofensa de um de seus membros. a responsabilidade era objetiva. 1. Responsabilidade penal e civil não se distinguiam. 1.3. p. 1991. 450 a. 2 ed.1 Reparação do mal pelo mal Nos primórdios da civilização predominava a vindicta. 1998. No mesmo sentido: PEREIRA.8 Nesse desiderato. evolução. não se cogitava a culpa como seu fundamento. assim. Caio Mário da Silva. selvagem talvez porque se fazia justiça pelas próprias mãos. Alvino. Culpa e risco. salvo se existir acordo). 27. talio esto (se alguém fere outrem. a vingança coletiva. em verdade. Estava-se sob a égide da Lei de Talião (talio) sistematizada na fórmula: olho por olho. é vocacionada a ser proprietário. Essa vingança coletiva foi sucedida pela reação privada. o patrimônio mínimo é da essência na precaução de uma vida digna. . encontram-se vestígios da vingança privada. é o critério inserido na tábua VIII. sem arredar a possibilidade de as partes transacionarem. Responsabilidade civil.

Os canonistas elaboraram. proposta pelo tribuno romano Aquilio em 286 a. É a noção de pecado como consciente violação a dever de ordem divina. Ela esboçou a ideia de culpa como fundamento da responsabilidade civil. À Lex Aquilia de Damno. a separação da responsabilidade civil e penal pela Lex Poetela Papiria. que produzissem dano injusto a outrem.C. oblige celui par la faute duquel Il est arrivé. obriga o culpado a repará-lo). é sucedido na contenção da responsabilidade civil à responsabilidade patrimonial. seguiu-se a estruturação da ideia de dolo e culpa como a mais importante contribuição.12 Com a revolução industrial a sociedade transformou-se rapidamente.. a segurança no seu antônimo a insegurança. .9 O período dessa equivalência da punição do mal pelo mal. Foi por meio da teoria subjetiva. A teoria da culpa tornou-se insuficiente para atender os mais variados casos de danos 12 O pensamento de Domat. o damnum iniuria datum: o dano causado a bem alheio. do CC francês: “Tout fait quelconque de l’homme qui cause à autrui un domange.382. empobrecendo a vítima sem enriquecer o ofensor. O sossego e a tranqüilidade transmudaram-se em excitação. A concepção de pena foi substituída pela ideia de reparação do dano sofrido. editada 326 a. Grande a contribuição. Introduziu também a ideia da reparação pecuniária do prejuízo. A culpa ganhou fortes contornos éticos e morais. esboçando a perspectiva de uma composição entre a vítima e o agente causador do dano inserida na solução transacional. então. Na Idade Média. O Senado teria se sensibilizado com os ritos corporais macabros. Essa lei introduziu. do Direito Romano. plantando suas raízes no Direito Romano. nesse entretanto. Deu-se. ligados à ideia do livre-arbítrio e de sua indevida utilização pelos fieis. dessa sorte o causador do dano que tivesse laborado sem culpa seria isento de qualquer responsabilidade. ademais. que a ela se prende a denominação de aquiliana para a responsabilidade extracontratual em oposição à contratual. à luz do jusnaturalismo. inspirou o art. coube desvendar novos horizontes. tendo como principais elaboradores dois exponenciais civilistas franceses Domat e Pothier e como tenazes defensores André Tunc e os irmãos Mazeaud. à luz da moral cristã. à la réparer » (Qualquer fato humano que cause a outrem um dano. tanto que Josserand forjou a frase: “vivemos mais intensamente (Roosevelt) e mais perigosamente (Nietzsche)”. O seu fundamento é a culpa efetiva e provada. banindo-os. que a responsabilidade civil ingressou no Direito moderno.C. Tão grande é a evolução trazida pela Lex Aquilia. o princípio clássico segundo o qual cada um deveria responder pelos seus atos culposos. 1.

reforçando as ideias objetivas. a iniciativa. encontram-se em crise. que clama pela reparação dos danos sofridos. princípio protetor dos fracos: a força. Uma verdadeira revolução. p. ai está o encargo).10 produzidos pelas novas atividades perigosas. em sua tese de livre docente. a lei impõe o princípio justo e salutar “a cada um segundo seus atos e segundo suas iniciativas”. pois as soluções teóricas e jurisprudências até aqui desenvolvidas. 2005. ainda mais desenvolvida. Clama mais. independentemente de culpa. Nos dias atuais. que traz em seu âmago a teoria do risco proveito. ou. terminando por introduzir na legislação. Responsabilidade pressuposta. Do segundo extrai-se a ideia de revolução a permear a história da responsabilidade civil. a comuna ou o explorador da aeronave em seu próprio segurador por motivo dos riscos que criou. 3. HIRONAKA. Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka sugere o que chama responsabilidade pressuposta. elegeu o risco criado nas atividades perigosas como motivação determinante do ressarcimento ante o prejuízo de vítimas inocentes. Louis. apresentada na Faculdade de Direito da USP. erigindo o patrão. para que não fique irressarcível. desenvolveu a teoria sobre o acidente do trabalho em que o empregador. há um sistema já existente que reclama transformação. 86. p. E Lembra logo no pórtico de seu trabalho: Há um novo sistema a ser construído. o berço foi a França com Saleilles e Josserand. responde pelos danos sofridos pelo empregado em consequência e por ocasião da jornada de trabalho. embora socialmente úteis. com sua visão profética. pelo menos. que se adote uma política preventiva ao dano dentro da teoria da responsabilidade civil. e ao longo de toda a história da humanidade. Passou-se a pensar. .14 A ensinança dessa mestra coloca no cerne das preocupações contemporâneas a pessoa humana. a idéia de mérito ou de demérito nada tem a ver no caso. dispensando qualquer consideração a respeito da culpa. Belo Horizonte: Del Rey. 548. Giselda Maria Fernandes Novaes. ibi onus (onde está o ganho. dissociando completamente a responsabilidade da culpa. O primeiro. a ação devem ser por si mesmas geradoras de responsabilidades. uma nova evolução da responsabilidade subjetiva para a responsabilidade objetiva. Mais uma vez.”13 É a responsabilidade civil objetiva que. a máxima: ubi emolumentum. Revista Forense vol. exigindo a revisão em prol da mantença do justo. princípio valioso para uma sociedade laboriosa. Do 13 14 JOSSERAND.

muito tendo que crescer nesse campo dos seguros em geral. sem prejuízo da responsabilidade individual de seus dirigentes (art. 5º. Vai-se além. § 5º). à honra e à imagem das pessoas (art. como também é exemplo a doutrina da seguridade social. de sorte as normas constitucionais estão na cumeada do ordenamento jurídico. que imputa a responsabilidade ao Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) por simples política de proteção ao trabalhador. LX). mediante conduta culposa ou dolosa do empregador. c) Responsabilidade do Estado pela indenização ao condenado por erro judicial e por ficar preso além do tempo fixado na sentença (art. ibide. o seguro obrigatório de veículos. 5º. d) A transmissibilidade aos herdeiros de reparação do dano.15 1. p. inc. 548. 173. por sua vez. 5º. as palavras de Josserand. inc. pela reparação de danos causados ao meio ambiente (art.4 A responsabilidade civil na Constituição Federal Com a promulgação Constituição Federal. f) A responsabilidade civil da empresa nos casos de atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. . b) A previsão de indenização por dano material ou moral pela violação à intimidade. A leitura da responsabilidade civil à luz da Constituição Federal não se resume apenas por estas previsões legais. que deverá. É a mudança do ponto de vista sistemático. § 3º). a saber: a) A reparação do dano material ou moral. V). assim. ainda mais ressaltando a integral proteção à pessoa humana. por publicação ofensiva a terceiro ou à imagem (art. g) Responsabilidade civil das pessoas naturais e jurídicas. Presente.11 que é exemplo. mesmo já afastadas no tempo ainda proveitosas: “nessa matéria [responsabilidade civil] a verdade de ontem não é mais a de hoje. X). à vida privada. Louis. em 5 de outubro de 1988. inc. até o limite da força da herança recebida (art. e) Cúmulo das indenizações por acidente do trabalho e de direito comum. 5º. inc. logo os seus princípios e valores – repita-se – tornam-se 15 JOSSERAND. ceder lugar à de amanhã”. ainda que acanhado. foram introduzidas em seu texto importantes temas de responsabilidade civil. LXXV). 225.

os valores através dos quais aquela comunidade se organizou e se organiza. in Princípios do direito civil contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar. “da consciência social. logicamente.”16 Destacam-se duas novidades. ou normas-guia. do ideal ético. Maria Celina Bodin de. informando. que não eram contempladas pela legislação ordinária do direito anterior.) 1. Ou seja. 3. na seara da responsabilidade civil o empregador respondia apenas por culpa grave ou dolo. Assim. da noção de justiça presentes na sociedade. portanto. Sem essa previsão não era possível a proteção integral da pessoa humana. preservando a primeira parte da Súmula.12 normas diretivas. p. Qualquer que seja o seu grau de culpa terá que suportar o dever indenizatório. Tanto que o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula 229. sem compensar a indenização paga. por se tratar de genuína liberalidade. mormente pelo Supremo Tribunal Federal que arguia a falta de legislação que previsse a sua reparação. até o advento da Constituição. no officium. Assim é. obrigatoriamente. no íntimo da pessoa humana para quem nenhuma crença lhe ilumine a alma. 2006. na fides. hoje revogada no que se refere à culpabilidade: “A indenização acidentária não exclui a do direito comum. ou no seu relacionamento com Deus para quem professa credo religioso. a que se constitui em mero dever de honra e consciência. são elas a previsão do dano moral e o empregador responder por simples culpa nos casos de acidente do trabalho. Doutra feita. que devem informar todo o sistema. a exemplo de cumprir ato de última vontade não expresso em testamento. Grande a resistência na aceitação do dano moral. (ver verbas p. Seu cumprimento é questão de princípios. porque esses princípios e valores são retirados. por meio de seguro obrigatório pelo Instituo Nacional da Seguridade Social (INSS). . passaram a contemplá-lo. ambas as indenizações cumulam-se. penal e civil A responsabilidade moral é uma natura debere. o Direito Privado.5 Responsabilidade moral. no lúcido dizer de Maria Celina Bodin de Moraes. são. O princípio da dignidade humana. pois a partir da sua previsão as legislações infraconstitucionais. em caso de dolo ou culpa grave do empregador. a Carta Magna foi o seu batismo de fogo. São relações fundadas na pietas.” Com a regra constitucional a responsabilidade civil do empregador caiu no regime do Código Civil. 16 MORAES.

Porém. o Direito Penal: a) focaliza a pessoa do delinqüente. Quanto à responsabilidade penal e a civil separam-nas nítidas dessemelhanças. comissiva ou omissiva. b) visa à necessidade de ressarcimento do patrimônio depreciado ou do interesse não patrimonial ofendido. Em suma. c) movimenta a máquina judiciária. nulla poena sine praevia lege (não há crime. tipifica um delito: crime ou contravenção. não individualizada. ou recompensar a vítima pelo interesse extrapatrimonial transgredido (dano moral). eius consulto dati danatio. Concluindo. de sorte quem deposita um óbolo diante da mão tremula que se lhe estende. sempre considerando a apotegma do Direito Penal Liberal: nullum crimen. não permanece alheia de efeitos jurídicos quando do seu espontâneo cumprimento. o agente da conduta típica tem que responder por ela. Enquanto no Direito Civil. repetir Clóvis Beviláqua: . no primeiro caso exigindo a respectiva reparação. a prestação intencional de um indevido absoluto não pode ser repetida. Vale pela clareza e objetividade. não tem direito a repetitio indebiti (repetição do indébito). o delinqüente com a sua conduta perturba a ordem social. no mais das vezes. que pode ou não movimentar a máquina judiciária. o dano é de natureza social. b) objetiva o resguardo do interesse social. tendo como causa a conduta também comissiva ou omissiva do agente. ensejando a responsabilidade penal. Vige o apotegma: cuius per errorem dati retitio est. constituindo uma liberalidade. uma reação do ordenamento jurídico que não se compadece com esse comportamento e a reação é representada pela pena. Pouco importa se a vítima do delito experimentou ou não algum prejuízo. O ordenamento jurídico confere-lhe a soluti retentio (direito de retenção). ferir norma jurídica de Direito Penal. essa espécie não tem nem débito nem responsabilidade. Seu objetivo é o restabelecimento do patrimônio ofendido no status quo ante (dano patrimonial). ato contínuo. que é de Direito Público. Se uma conduta. na outra hipótese resignando-se com o prejuízo sofrido. na consideração do vínculo jurídico que dá juridicidade à obrigação. provocando. isto é. nem pena sem prévia previsão legal). independentemente da vontade da vítima. Ao infringir norma de Direito Público. c) é matéria apenas do interesse do prejudicado.13 Sob a ótica do direito. a norma violada é de Direito Privado e essa violação cria um desequilíbrio no patrimônio ou em outro interesse da vítima juridicamente protegido. o Direito Civil: a) focaliza o dano causado. pois o seu ato provoca quebra da paz e da ordem social de maneira indiscriminada.

que é um interesse do indivíduo assegurado pela lei. em outras no regime da simples reparação de dano.” É a letra do Enunciado 45. não mais um ataque à organização da vida em sociedade. 949.18 No caso de lesões corporais ou outra ofensa à saúde. mas uma ofensa ao direito privado. 4ª ed. no crime. no ato ilícito. mas. principalmente. não podendo restaurá-lo. o que poderíamos chamar a eurritmia social refletida no equilíbrio dos patrimônios e das relações pessoais. 161-162. e no campo civil poderá ser condenado nas despesas de tratamento e dos lucros cessantes até o fim da convalescença da vítima. nesta oportunidade. que se formam no círculo do direito privado. tanto quanto lhe for permitido. O direito penal vê. SERPA LOPES. não simplesmente o agente. revista atualizada pelo prof. o ofensor estará sujeito à pena expendida no art. vol.p. o direito civil vê. cit. que é preciso adaptar-se às condições de vida coletiva ou pô-lo em condições de não mais desenvolver a sua energia perversa em detrimento dos fins humanos. não mais se poderá questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor se estas questões se acharem 17 18 BEVILAQUA. Importante notar. p. como providencia o art. a fim de. p. 272-273. 129. não se podendo questionar mais sobre a existência do fato. pois o ilícito. V. ou sobre quem seja o seu autor. conseguindo. por trás do ato ilícito. em dado momento. Curso de direito civil. 935: “A responsabilidade civil é independente da criminal. São razões de ordem político-legislativa que conduzem o legislador. e o considera um ente anti-social. José Serpa Santa Maria. e ainda a dispor para umas terceiras a acumulação dos dois efeitos jurídicos. o direito civil vê. a incriminar algumas condutas impondo pena ao delinqüente. do Código Penal. aprovado na I Jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: “No caso do art. 935. do Código Civil. Miguel Maria. além de pagar a importância da multa no grau médio da pena criminal correspondente. por trás do crime. e vem em socorro dela.14 O direito penal vê. Clóvis. e contra ele reage no intuito de restabelecer esse equilíbrio necessário à vida do organismo social. satisfazendo o dano causado. um elemento perturbador do equilíbrio social. a regra do art.. ob. quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. assim. . a vítima. e. Rio de Janeiro: Freitas Bastos.17 Na eleição do pensamento de Peirano Facio. o criminoso. Serpa Lopes discorre que é de natureza política e não técnica. a causa determinante da ilicitude incidir na responsabilidade civil ou penal. tanto em um como no outro âmbito. procura compensá-lo. que a sociedade se propõe realizar. é ontologicamente o mesmo. restaurar o seu direito violado.

6 Espécies e pressupostos da responsabilidade civil A responsabilidade civil é o dever jurídico derivado diretamente da lei (extracontratual) ou da inexecução de uma obrigação adrede celebrada (contratual). ou pela exploração de atividade de risco (objetiva). seja por simples imposição legal. matéria a ser desenvolvida de maneira pormenorizada ao tratar das causas de irresponsabilidade. b) O dano a interesses ou direitos alheios. Assim considerando. 129. a reparar o dano patrimonial. patrimonial. moral ou estético causado a outra (credor). Por outro lado. moral ou estético. seja por culpa (subjetiva). b) Quanto ao fundamento: Responsabilidade civil subjetiva implica na conduta lesiva dolosa ou culposa. Responsabilidade civil objetiva a conduta lesiva prescinde de culpa ou dolo. a responsabilidade civil apresenta os seus pressupostos: a) A conduta que é sempre uma ação ou omissão humana. p. . Responsabilidade civil extracontratual decorre da violação de um dever jurídico geral exposto na lei. em razão de ato próprio (direta). 1. ou porque prevista em lei ou na justificativa da teoria do risco. c) O nexo de causa e efeito que é a relação entre a conduta como causa e o dano como efeito. apropositada a classificação de Maria Helena Diniz. Responsabilidade civil indireta o causador do dano é um terceiro vinculado ao responsável pela indenização. a pessoa que produz o dano é a responsável pela indenização. de ato de pessoa por quem responde. ou o dano é causado por animal ou coisa inanimada sob sua guarda ou de sua propriedade. a) Quanto ao fato gerador: Responsabilidade civil contratual deriva do inadimplemento de um negócio jurídico bilateral ou unilateral. c) Quanto ao agente: Responsabilidade civil direta oriunda de ato próprio. conforme segue abaixo.15 categoricamente decididas no juízo criminal”. que obriga uma pessoa (devedor). pelo fato animal ou de coisa inanimada de sua propriedade ou sob a sua guarda (indireta).

por isso perseguida pela tutela específica tal qual convencionada. Não difere quando o inadimplemento é relativo. Válido porque o contrato não produzirá efeitos jurídicos se eivado de nulidade contemporânea à sua formação. A vontade é livre até que se obriga. fundada na autonomia privada. Via de consequência. promana da transgressão de uma obrigação adrede celebrada pelas partes. uma vez obrigada gera efeitos jurídicos: a conduta passa a ser pautada pela obrigação contratada. 2.1 Responsabilidade civil contratual Celebrado o compromisso de compra e venda. Para que ocorra essa espécie de responsabilidade civil é indispensável que preexista um contrato válido entre devedor e credor. porque se perdeu por sua conduta desidiosa. atualização monetária e honorários de advogado..16 II: DAS ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Responsabilidade gerador..2 contratual. 395 dispõe: “Reponde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa [. conforme providencia a última parte do art. no caso de mora. preceitua: “Não cumprida a obrigação. do Código Civil. a responsabilidade civil contratual. uma vez que a obrigação deve ser cumprida no tempo. O dever jurídico originário convencionado pela vontade das partes. Pelo princípio da obrigatoriedade. responde o devedor por perdas e danos [. a prestação não é mais possível ou útil ao credor. o promitente vendedor deixa de entregar o bem objeto mediato da prestação ao promitente comprador. 394. . 2. 389.” A prestação ainda é possível ou útil ao credor.. Há o inadimplemento absoluto ou relativo. do Código Civil..]. lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer. dever jurídico sucessivo imposto pela lei.]” Há o inadimplemento absoluto da obrigação. O art. acrescida das perdas e danos e dos consectários da mora e da sucumbência: juros. porque inadimplido pelo devedor. convola-se na indenização das perdas e danos sofridos pelo credor. dado que o art. por isso se diz que o contrato é lei entre as partes. as partes vinculam-se ao contexto do contrato de forma irresistível.3 extracontratual civil quanto ao fato Responsabilidade civil Responsabilidade civil 2.

vincula o promitente (TJSP – 2ª Câm. a ser apurado em liquidação. Recurso provido. 20.93. Des. o enriquecimento sem causa (CC. podendo acrescentar entre outros o testamento.08. Hipótese de promessa de recompensa.83. Se o contrato tornou-se inexeqüível por culpa da promitente vendedora. cujo montante será o valor atual do imóvel negociado. vinculado o promitente. colimando um determinado objetivo. Se não paga. de Férias – rel. a qual. 62. j. nasce o direito de reclamá-la perante o Poder Judiciário. A declaração de vontade obriga o declarante desde o momento em que se torna pública. Alguém que encontrasse o cão. efetuada publicamente. in JTJ Lex 150/83). Humberto Theodoro. Des. A determinação dá-se no momento em que se preencherem as condições de exigibilidade da prestação. aquele em que há manifestação de vontade de uma só parte em uma única direção. Não diferente a promessa de recompensa mediante sorteio. Pode ainda a responsabilidade civil contratual resultar do descumprimento de obrigação gerada por um ato jurídico unilateral. a renúncia. a gestão de negócios. 337). 3 ed. tornar-se-ia credor da recompensa. no caso o encontro e a restituição do animal. p. Walter Moraes.17 Compromisso de compra e venda – Impossibilidade de transcrição do título no registro imobiliário – Cessão do mesmo lote a outra pessoa – Direito a indenização por perdas e danos – Valor da indenização. Inadimplemento de premiação obtida em sorteio. Responsabilidade civil. como bastas vezes anuncia o comércio varejista em suas propagandas ou publicidades de vendas promocionais. rel. 04.. A oferta de prêmios mediante sorteio configura promessa de recompensa. j. ap. o cheque ao portador.028. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. mais os consectários comuns da sucumbência e da mora (TJMJ. 1993. Curioso painel fixado em pontos estratégicos da cidade trazia este anúncio: “volta Peteleco”. visto que ela se destina à pessoa indeterminada. da Comarca de Belo Horizonte. restituindo-o. Considerando que essa espécie de responsabilidade diz respeito ao contrato e ao ato jurídico unilateral. Verbia gratia. artigos 854 a 860). a promessa de recompensa. Indenização. Rio de Janeiro: Aide Ed. Fernando Noronha e José Jairo Gomes preferem chamá-la responsabilidade . tem esta de responder pela reparação dos prejuízos do promissário comprador. Verba devida. in Humberto Theodoro Junior.08. o pagamento indevido. e oferecia recompensa para quem encontrasse o cão errante.

José Jairo. A tradição.20 O credor que. Fernando. 2006. Só tem cabimento quando estabelecida com caráter de transação (RT 563/146).2002. responde civilmente pelos danos morais e materiais decorrentes de sua atitude. STJ: O CDC é aplicável às instituições financeiras. 22 Sobre responsabilidade civil do advogado consultar: RT 787/143.2002. Juiz Ariovaldo Santini Teodoro. 297. RDA 234/360). 1º.892. j. deve ser arbitrado de forma moderada. art. Tribunal Pleno.” – A cláusula de não indenizar será oportunamente dissertada.11. inescusável. faz surgir o dever de indenizar que. JTJ-Lex 172/9. segundo o princípio do sistema aberto e de acordo com o prudente arbítrio do juiz (1º TACivSP. 1. 2003. consagrou a denominação responsabilidade civil contratual.22 19 NORONHA.I. ou de ato ou omissão com culpa. GOMES. rel. todavia. 14 a 20. por tratar-se de obrigação contratual – Art.2002. 7ª Câm. razão pela qual a ocorrência do fato..10. 772/362. 21 O acórdão refere-se a credor. Por enquanto ficam as observações: não é admitida no CDC. RT 832/239).10.19 São seus pressupostos: a) a conduta que descumpre um negócio jurídico bilateral ou unilateral (ato ilícito contratual). Belo Horizonte: Del Rey.06.. no abuso de seu direito. p. § 2º. b) o dano daí decorrente. 20 “Súm. logo há contrato celebrado entre as partes. p. 125/176. do CC/1916 [atual art. todavia. Juiz Paulo Eduardo Razuk. . 25 e 51. em obediência às regras do Código de Defesa do Consumidor – Súm. Também aborda o abuso de direito. passando a espécie a nomear o gênero. Direito civil: introdução e parte geral. arts. 616/31).21 O advogado somente será civilmente responsável pelos danos causados a seus clientes ou a terceiros. São Paulo: Saraiva. se decorrentes de erro grave. c) o nexo de causa e efeito entre um e outro.2 Jurisprudência Tratando-se de contrato de locação de cofre. devendo as coisas ser restituídas ao stato quo ante.2004. j. 24. 29.18 civil negocial. em sentido largo (STF. Boletim da AASP 613. O dano moral é presumido. 06. Direito das obrigações: fundamentos do direito das obrigações: introdução à responsabilidade civil.536. 12ª Câm. 432. 2. 496. j. rel. do CC. RJTJSP 68/45. sendo considerada nula a cláusula de não indenizar. 749/267. sem que tenha havido culpa concorrente da vítima. Repertório IOB de Jurisprudência 3/12. 187. 405] – Sucumbência recíproca mantida – Recursos improvidos (1º TACivSP. RT 813/268). 297 do STJ – Dano moral não demonstrado – Juros moratórios da citação. e nos contratos de depósito contraria a essência do contrato (ver RT 670/73. o banco depositário é responsável pelos danos materiais decorrentes de assalto. protesta duplicata já paga.

j. . Dessa forma. j. 11ª Câm. realizada por profissional imperito. Juiz Egidio Giacoia. 187. Dir.2003.19 A incorreção de tratamento odontológico. uma vez que remonta a Lex Aquilia deDamno. c) o nexo de causa e efeito entre uma e outra. 593 e segtes. rel.. 2. É também chamada de aquiliana. Direito de vizinhança – Poluição sonora – Dano moral – Indenização – Verba devida em razão do desassossego e desconforto causados pelas turbações acústicas. 653 e segtes. 5ª Câm.06. porém o som excessivo. ato ilícito. por abuso de direito. Privado. em 23. b) o dano daí decorrente. pois.23 2. rel. bem como o novo tratamento protético que foi realizado por outro dentista especializado (TJSP. Comete ato ilícito. ao sossego e à saúde dos que o habitam. que a responsabilidade civil extracontratual procede da ofensa à norma jurídica reguladora da vida das pessoas em sociedade. RT 818/199). 1. São seus pressupostos: a) a conduta que descumpre um dever legal (ato ilícito extracontratual). abrolha a obrigação indenizatória. 836061-0/7. como previsto no art.2004. derivado da vontade do Estado. É o enunciado do art. é abuso desse mesmo direito. porquanto estampado na lei. Des. do CC). Da inobservância do dever legal. Se com advogado é o contrato de mandato (CC. perturbando os moradores vicinais com decibéis acima da regulamentação permitida.277. 05. do mesmo diploma: “O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança. do CC). Conclui-se. Rodrigues de Carvalho. enseja a indenização por dano material. provocadas pela utilização de propriedade vizinha. os valores despendidos no serviço inadequado devem ser reembolsados. arts. RT 830/259).” Há o inadimplemento de um dever jurídico legal. do Código Civil. ainda que seja verbal (contrato de prestação de serviço. Emenda Oficial: o desassossego e o desconforto causados pelas turbações acústicas são capazes de gerar prejuízos ensejadores de danos morais (2º TACivSP. Ap.. Tocar música em estabelecimento comercial é exercício de direito.3 Natureza do dever jurídico violado 23 Nos serviços prestados por profissionais liberais firma-se um contrato. que perturba os vizinhos. art.08.3 Responsabilidade civil extracontratual Determinado estabelecimento comercial passa a promover música eletrônica e o som estridente escapa do local.

p. provada a ofensa à norma e o dano evidencia-se a responsabilidade. 275: “Na responsabilidade civil contratual [. tomando a roupagem contratual ou extracontratual. importa violação de um dever estabelecido pela lei. como aquele ponto de vista faz crer. por sua vez..” CAVALIERI FILHO. No mesmo sentido apregoa Sergio Cavalieri Filho dentre outros. 4 ed. a responsabilidade civil contratual e a extracontratual confundam-se ontologicamente e nos efeitos. ou na ordem jurídica. embasada na dicotomia que separa as duas espécies de responsabilidade civil. para si. Na lição de José de Aguiar Dias. Programa de responsabilidade civil. afinal.” . certos deveres jurídicos. A responsabilidade extracontratual. Para eles as duas espécies conduzem para os mesmos efeitos jurídicos e requerem os mesmos pressupostos a começar pela conduta lesiva timbrada pelo ato ilícito: contratual ou extracontratual. a obrigação de não violar a norma jurídica e. pois a declaração da vontade e a lei vinculam à observância. cumprir a palavra empenhada. em uma ou em outra.24 Essa é a teoria dualista eleita pelo Código Civil. voluntariamente. São eles que criam. a culpa da parte contratante que não cumpre o negócio jurídico celebrado é presumida. Em ambas sempre existe um dever jurídico preexistente.] o dever jurídico violado pelo devedor tem por fonte a própria vontade dos indivíduos. E aqui sobeja importância. O dever jurídico é negativo o de não prejudicar (neminem laedere). Na contratual o dever jurídico dimana da vontade das partes – negocio jurídico bilateral ou unilateral – a declaração de vontade é fonte de direito. todavia forçoso reconhecer que se distinguem especialmente quanto às exigências probatórias. Rio de Janeiro: Forense. De efeito. 8 ed. 34: “O fato de não existir contrato entre a vítima e o responsável não estabelece. 1980. ora do delito (vel ex contractu nascitur vel ex delicto). o dever geral de não causar dano a ninguém. está in re ipsa. O dever jurídico é positivo. São Paulo: Atlas. quanto ao fato gerador a responsabilidade civil ora nasce do contrato. como. Na extracontratual o dever jurídico decorre da vontade do Estado – a lei – imperativo geral e abstrato relativo à conduta humana dirigido a todos indistintamente. Sergio. além da obrigação contratual. a obrigação ampla de não lesar. que a responsabilidade extracontratual se configure na ausência de obrigação anterior. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade. existe. dimana do próprio inadimplemento. Os adeptos da teoria monista ou unitária não aceitam a distinção. p. o seu inadimplemento impõe a responsabilidade. porque. a conduta qualifica-se pelo descumprimento de um dever jurídico precedente. a culpa deve ser provada por aquele que assimilou o 24 DIAS. neminem laedere.. Na responsabilidade civil contratual. o que as distingue é a natureza do dever jurídico transgredido. José Aguiar. quando não se queira descer a especificações. por exemplo.20 Decorrente do exposto. Enquanto que na responsabilidade civil extracontratual.

Toma-se como exemplo o motorista de ônibus que ocasiona acidente por transpor sinal vermelho. 398. porquanto deixa de proceder conforme as normas de assepsia. a lei foi transgredida (extracontratual) e o contrato não foi cumprido (contratual). própria do contrato de prestação de serviço. prevalece o entendimento de que a responsabilidade civil é contratual. Nessa hipótese há concurso entre as duas espécies de responsabilidade. Outro exemplo. mormente nos deveres acessórios de conduta. . é a chamada mora ex persona. por vezes. Entendese inadimplido o contrato. um crucial procedimento. na doutrina e na jurisprudência. embora a transgressão à lei pela conduta negligente. é a denominada mora ex re. que age negligentemente. pois violada a cláusula tácita de proceder no sentido de tomar os cuidados profissionais devidos no desempenho de uma obrigação de fazer. Nas obrigações provenientes do ato ilícito.21 dano.5 Tutela externa do crédito Na tutela externa do crédito. Em tais situações. portanto. Outras diferenças contingenciais podem ser articuladas. a vítima. exposto na lei de trânsito. aqueles deveres secundários à prestação. expressão forjada por Orlando Gomes. Esta é a regra geral. daí o paciente adquire uma infecção. A sua conduta descumpre o dever de parada obrigatória. Nas obrigações contratuais nem sempre há termo para o adimplemento. a do médico contratado para certa cirurgia. Outra distinção é quanto à mora.4 Uma distinção nem sempre fácil Não há como negar. assim ainda a eleição do foro para a ação de reparação de dano. A principal consequência dessa distinção. consoante disposição expressa do parágrafo único do art. causando lesões nos passageiros. ou seja. cuida-se atentar também para a distinção entre as duas espécies de responsabilidade civil. 2. 397. dá-se no momento em que se inicia a fluência dos juros moratórios. o que não deixa de ser. conforme será visto no item relativo à presunção de culpa. desde que o praticou. 2. do Código Civil. por vez ou outra. como no caso de prefixação das perdas e danos que pode ocorrer apenas na responsabilidade civil contratual (cláusula penal compensatória). a dessemelhança entre ambas situa-se em uma zona cinzenta de difícil equação. que admite exceção. e a mora somente decorre após interpelação extrajudicial ou judicial. relata o art. considera-se o devedor em mora.

ninguém se submete a uma relação contratual a não ser que a lei o obrigue ou se a própria pessoa o queira. não interferindo de maneira a prejudicá-lo. deixou de considerar o contrato apenas como instrumento de satisfação de interesses pessoais das partes contratantes. vinculando-se ao seu conteúdo. Hão de respeitar o contrato firmado pelas partes.. e os terceiros não podem comportar-se como se ele não existisse. 2ª Câm. forçoso convir.. Des. o pagamento só confere ao usuário a utilização do local da via pública. Hipótese contrária a Súm. art. Mais do que antes. o inadimplemento dá-se em razão da cumplicidade de terceiro. aqueles que dele não participam. quanto ao terceiro a responsabilidade é extracontratual. 2ª parte). em um mesmo fato convivem as duas espécies. o contrato passou a ter a prerrogativa de oponibilidade contra terceiros. de uso comum do povo. 10. se o contrato decorre do acordo de vontade das partes. 942. isto é. pela introdução de outro princípio: o da função social do contrato (CC. Logo.9.1991. incidindo a solidariedade. honrando o que ela prometera. j. Para aquele que é parte a responsabilidade é contratual.. O atual Código Civil.22 Pelo princípio da relatividade dos efeitos jurídicos (res inter alios acta). garantindo a necessária . No segundo caso. quer impedindo-a de cumpri-lo. Eduardo Luz. porque o contrato não foi executado por fato exclusivo de terceiro. não pode ter eficácia em relação a terceiros e seu patrimônio. 421). No primeiro caso.. dada a importância que ele desempenha para a coletividade. considerando-o também como de interesse da coletividade.]” (TJPR. Subtração de veículos. como no caso de cumplicidade na violação do contrato [. No caso do sistema de vaga certa. de modo que não aproveita e nem prejudica terceiros. portanto por alguém estranho à convenção.] A responsabilidade civil extracontratual (delitual ou quase delitual) pode coexistir com a responsabilidade civil contratual. Estacionamento rotativo de carro em logradouro público. Eis decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná: “[. destacado com o fim de ordenar o espaço público. quer incitando uma das partes a descumpri-lo. rel. tem-se a responsabilidade civil extracontratual. o contrato somente produz efeitos jurídicos entre as partes. 130 do STJ. RT 680/167). Ou seja.6 Jurisprudência Ação ordinária indenizatória. Por lógico raciocínio.. art. quando as duas condutas contribuem para o prejuízo da outra parte inocente (CC. aqueles que nele manifestaram a sua vontade. 2.

pois é certo que a retribuição pelos serviços está devidamente incluída no preço do custo das mercadorias. A regulamentação do poder de polícia nos logradouros públicos. sendo descabido seu pagamento via precatório em virtude da pequena monta. 135/150. 12ª Câm.26 Dano Moral – Indenização – Morte de detento que se encontrava sob a guarda da Administração Pública – Negligência do Estado em zelar pela integridade do presidiário caracterizada – Hipótese em que a verba indenizatória deve ser fixada em termos razoáveis. pode ser cedido para exploração econômica. em estacionamento aberto. vol. não pode acarretar ao ente público a ampliação de sua responsabilidade para responder pela guarda e depósito do bem (TJRJ.05. in BIANCO. A obra fotográfica. RT 836/301). j. “Os shopping centers que oferecem estacionamentos gratuitos a seus clientes não se isentam de responsabilidade por furto de veículos colocados sob sua guarda. nem por isso menos jurídica. 02. rel. A CF. mas como prestação de serviço que podem ser definidos como de segurança” (TJSP. realizada no estado da Paraíba durante a “Semana Santa”..23 rotatividade nos grandes centros urbanos. porque ela representa um homem e é presente de Deus”.88. como exceção aos direitos da personalidade. 206. conhecido programa dominical de televisão utiliza a imagem de consagrado galã de novelas.25 É personalíssimo o direito à imagem e à intimidade. Furto de veículo em estacionamento de supermercado. shopping center. Sousa Lima.. A indenização a título de dano moral deve ser fixada em termos razoáveis. não há contrato de depósito. O fato de ser dito que o produto obtido seria destinado a instituição de caridade. que por usufruírem benefícios. 5º. mas eu não quero que a profanem. RT 841/333). Gamaliel Quinto de Souza. não descaracteriza a ofensa ao direito do autor. mas sempre com o consentimento da pessoa. j. tanto ao sol quanto ao regato. 7ª Câm. Des.11. sua imagem não pode ser utilizada. 14. rel. De igual teor: RJTJSP 137/388. órgão do Ministério Público do Estado de São Paulo. Ementa Oficial: Havendo morte de presidiário que se encontra sob a guarda da Administração Pública. RT 639/60).2005. Na espécie. Des. o direito à imagem. a responsabilidade em indenizar a família da vítima é do Estado. contratado de emissora concorrente. sem obter previamente a indispensável autorização para essa exposição pública. j. O relacionamento existente entre o cliente usuários do estacionamento e a administração do shopping não se caracteriza como contrato de depósito típico. Poética. Laerson Mauro. 26 O direito à imagem. sendo essa objetiva. Sendo um profissional de atividade artística. .2004. têm responsabilidade civil pelo furto ou avaria nos veículos. 9ª Câm. no art. 04. João Carlos. Des. de guarda do bem sob prometida vigilância e proteção. como atração para aumentar a perfomance de empresa com a qual não mantém vínculo contratual (TJRJ.06. a passagem de Álvaro Antônio: “Minha imagem pertence a todo mundo. Revista Justitia. à vida privada e à intimidade. consagrado na mídia. Se. 189-192. X. p. com intuito de angariar maior audiência. garante a inviolabilidade do direito à imagem. sem a sua anuência. rel. respondem concorrentemente o apresentador do programa e a emissora pelo efeito lesivo daí decorrente. obrigação deste de indenizar: RT 832/228. supermercados. nem em 25 A hipótese aparta-se dos estacionamentos ofertados por casas comerciais. fazendo alarde de um leilão de roupa íntima que teria sido usada pelo ator em tradicional peça teatral “Paixão de Cristo”. sendo impossível que a reparação venha a constituir-se em enriquecimento indevido.

3ª Câm. São Paulo: Atlas. Omissão das autoridades do Município. Danos morais e materiais. Inexistência de excludentes de responsabilidade. j. atingem a cidade: “Evidenciada a força maior em razão de situação excepcional de fortes chuvas que assolaram a cidade. ainda antes da metade do século passado. RT 852/350). . Responsabilidade civil.24 valor ínfimo. em que artigo? 27 Diferentemente quando fortes chuvas. rel.420).. passa a constituir uma arma perigosa.27 O veículo automotor. RT 832/351). rel. Municípios e suas autarquias etc. assumem pelo menos o risco de produzi-lo (TJSP.12. j. e Castro Veiga faz a seguinte imagem: “surgiu um tipo novo de doença a que se deu o nome de cronopatia. Incabível o pagamento da obrigação por precatório quando o seu valor for de pequena monta. Atenção: a responsabilidade civil do Estado – União. CC. Responsabilidade civil subjetiva. Rowilson Teixeira. São Paulo: RT. que o automóvel se transformara “num verdadeiro flagelo. a matar mais que a própria peste branca ou a peste céltica”. se não querem o resultado lesivo. 15. cada vez mais sofisticado e veloz. CF. 7 ed. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 2007. Fora do contrato de transporte. (TJRO. Programa de responsabilidade civil. § 6º. quanto à aprovação do loteamento em que foi construída a casa atingida pela inundação” (RT 843/240).2006. imprevisíveis e inevitáveis. Criminal. Estados Membros. tanto no que ser refere a eventuais entulhos que dificultaram a vazão de águas do rio ou entupiam bocas de lobo.28 Para reflexão Em cada jurisprudência transcrita. Câm. Demonstração do dano e do nexo causal. 43. p. Ora. – é objetiva. p.02. Silva Pinto. afasta-se a responsabilidade civil do Município em reparar os danos causados a munícipe por enchentes se inexistem provas de que a Administração municipal tenha agido com culpa. Ver na doutrina: CAVALIERI FILHO. Recurso necessário conhecido e desprovido (TJRN. Des. Inundação em subsolo de hotel. qual a espécie da obrigação inadimplida? E qual conduta do agente causador do dano que implica na sua responsabilidade? Quais os casos de negócio jurídico bilateral e unilateral? Quais são os denominados “consectários comuns da sucumbência e da mora”? A partir de quando os juros da mora são contados na obrigação contratual e no ato ilícito? Em que artigos estão previstos? O que é abuso de direito? Há previsão legal no Código Civil? Se positiva a resposta. como neste caso. art. j. impondo grande risco às pessoas que se encontram nas vias públicas. tão maléfica e nociva quanto a peste que se convencionou chamar de “AIDS”. Des. o acidente de trânsito é responsabilidade civil extracontratual e subjetiva. 12.06. em face da embriaguez. 2007. art. João Rebouças. Especial. in Rui Stoco. 218 e seguintes. 28 Nélson Hungria assinala. 1. 37. Bueiros e galerias pluviais entupidos.94. Civ. rel.2004. As exceções é quando da prestação de serviços. 18. 7 ed. 5ª Câm. Des. Sergio. quando entregue nas mãos de motoristas menos preparados.

deve ser arbitrado de forma moderada. . podem existir contratos verbal e tácito? Pesquise. não se está. uma responsabilidade civil contratual e outra extracontratual. considerando os usos e costumes atuais. qual a modalidade de obrigação que anima esse contrato? Quais os artigos do CC que prevêem a responsabilidade de cada um? É justo que se recrimine o vizinho por ouvir música em som estridente. valendo-se da sua capacidade inventiva. cujo motivo é o entupimento de bueiros e galerias pluviais? Nas duas jurisprudências acima transcritas.9 Responsabilidade civil objetiva. diante da aplicação do princípio da coexistência dos direitos? O que é esse princípio? Como resolver a questão? É personalíssimo o direito à imagem e à intimidade. todavia. do Código Civil? Por que o Estado responde pela morte de detento? Por que o Município responde por enchentes.8 Responsabilidade civil subjetiva. segundo o princípio do sistema aberto e de acordo com o prudente arbítrio do juiz”? Advogado e dentista que prestam serviços a seus pacientes celebram contrato? Se positiva a resposta. Qual o conceito de um e de outro? Direito personalíssimo é sinonímia de direito da personalidade de que tratam os artigos 11 a 21. os acórdãos referem-se às mesmas espécies de responsabilidade do Estado e do Município? As decisões são consentâneas ou contraditórias? Distinga a responsabilidade civil contratual da extracontratual. como é direito de cada um fazer cessar as interferências prejudiciais ao sossego.25 O que significa a expressão: “faz surgir o dever de indenizar que. 2. sobre a morte de detento e a inundação em razão da chuva. Será que essa conduta não está dentro da interferência tolerável? Se cada um tem o direito de ouvir música. portanto. especialmente após o avanço da tecnologia nos aparelhos de reprodução de sons? Qual o conceito jurídico de vizinhança? Pesquise. tomando por exemplos fatos de sua vida. Responsabilidade civil quanto ao fundamento: 2. Por que na responsabilidade contratual é mais fácil a prova da responsabilidade do agente causador do dano? Formule. Além do contrato escrito.

Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Inobservância da placa de “Pare”. e atual. por Carlos Alberto Dabus Maluf e Regina Beatriz Tavares da Silva.30 Reforçando. Sergio. Na culpa. A culpa. o qual implica na ideia de conduta culposa. não respeita o sinal de transito de parada obrigatória. imprudência ou imperícia. mas não quer o dano. quer também quanto à desvalorização do veículo. ou em sentido amplo que açambarca o dolo. Exceto nos casos em que a evidência da colisão fica marcante no veículo. 8ª Câm. essa espécie de responsabilidade civil inspira-se no ato ilícito. ver. invade a pista preferencial e ocasiona acidente com dano a outrem. 21. 2003. volume 5º: 2ª parte.8 Responsabilidade civil subjetiva Um motorista transita pela via tributária. Entretanto. 34 ed. 31 CAVALIERI FILHO.10. São Paulo: Saraiva. Trata-se de responsabilidade civil subjetiva.. o motorista labora com culpa ao contravir o sinal regulamentar de trânsito. pois assim a circunstância o exigia.” (Curso de direito civil: direito das obrigações. admitida a incidência da correção monetária (1º TACivSP. embora o seu entendimento ético-jurídico fosse no sentido de portar-se com cuidado objetivo. violação de um dever que o agente podia conhecer e acatar. para adquirir relevância jurídica deve integrar a conduta. Programa de responsabilidade civil. pela impossibilidade de sua recuperação total. que conforta a sua justificativa na conduta culposa. isto porque a culpa considerada isoladamente tem relevância apenas conceitual. que se opõe ao dolo. Juiz Negreiros Penteado. 30 Atualmente com o avanço da mecânica que proporciona a substituição de peças. p. age com imprudência e o efeito jurídico é contrário à sua vontade. p. avançando por cruzamento de via preferencial – Indenizatória procedente. 7 ed. o agente causador do dano quer a conduta. parando o veículo ante a advertência de normatização do tráfego e neste sentido devesse ser a sua determinação volitiva. Estudo mais pormenorizado de culpa será abordado no pressuposto da conduta. sem deixar vestígio da colisão.1980. rel. JTACSP 70/75). abrangendo o dolo (pleno conhecimento do mal e direta intenção de o praticar) e a culpa (strito sensu). também chamada de teoria da responsabilidade civil subjetiva. É também denominada teoria clássica ou teoria tradicional da culpa. a vontade dirigida para o evento. 2007. j. por sua vez. pode ser considerada em sentido restrito. deve ressarcir as perdas e danos decorrentes. mas que descumpre por negligência. não mais se admite a desvalorização do veículo. imprudência ou imperícia. quando se manifesta pela negligência. no dolo. São Paulo: Atlas. .31 29 Eis a lição de Washington de Barros Monteiro: “Teoria da responsabilidade civil subjetiva – Esta é a teoria clássica e tradicional da culpa.26 2. 23. que pressupõe sempre a existência de culpa (lato sensu). quer tanto a conduta como o dano. 449).29 No exemplo.

É o elemento unificador da responsabilidade civil. pois o incapaz é inimputável. no fato de ser fonte das obrigações. sendo que seus elementos estruturais a antijuridicidade. independentemente de qualquer juízo de censura. isto é. pois. a partir dele é que se justifica a atuação normativa. Compõe o aspecto subjetivo da ilicitude. o dano e a imputabilidade. dando ao advento uma relação jurídica cujo objetivo é o ressarcimento do dano. Compõe o aspecto objetivo da ilicitude. negligência ou imprudência. ainda que exclusivamente moral. por ato ilícito (arts. ou se abstenham de certas ações. que ofende direitos alheios. Na Parte Especial do Código Civil.” Ato ilícito de que trata este artigo é todo ato contrário as normas de Direito Público ou de Direito Privado. A imputabilidade é a atribuição da conduta danosa a determinada pessoa capaz. moral ou estético. causar dano a outrem. como já assinalado. 186 e 187). é todo prejuízo sofrido por uma pessoa. a responsabilidade civil subjetiva está prevista no artigo 927: “Aquele que. violar direito e causar dano a outrem. Já a culpabilidade é o estado do culpável. O dano. . A antijuridicidade é toda ação ou omissão humana adversa ao ordenamento jurídico. do que pode ser imputado ao agente causador do dano a título de dolo ou culpa. Há uma contrariedade entre a conduta humana e a norma jurídica. b) o dano daí decorrente. o agente há de ter liberdade para determinar-se. por ação ou omissão voluntária. Só pode ser atribuída à pessoa capaz por ter discernimento e vontade. 186: “Aquele que. patrimonial. comete ato ilícito.27 Na Parte Geral do Código Civil. fica obrigado a reparálo. a responsabilidade civil subjetiva esteia-se no art. A importância do ato ilícito reside. A pessoa é culpada quando poderia e deveria ter agido em consonância com a prescrição da lei. Sem dano não há responsabilidade. a culpabilidade. Responde à indagação sobre a razão pela qual é atribuído a alguém o dever indenizatório. em qualquer bem ou interesse juridicamente tutelado.” São seus pressupostos: a) uma conduta culposa ou dolosa (culpa lato senso). mas não o faz. Ordenamento jurídico que é constituído por comandos dirigidos às pessoas para que ajam de determinados modos.

com raras exceções à teoria objetiva. dando ensejo a sua devolução por insuficiência de fundos e inscrição do emitente no cadastro de emitentes de cheques sem fundos.. rel.). o que o patrão oferece ao empregado na ida e volta do trabalho.03. no acidente de transito a responsabilidade é extracontratual e subjetiva. sua apresentação antecipada.32 Responsabilidade civil – danos a prédio vizinho – Indenização pleiteada pelo locatário – Possibilidade – Titular de fundo de comércio.681.. assim entendendo. publ. DJMG 03. Indenização – Dano moral – Cheque pós-datado – Apresentação antecipada – Devolução – Inscrição de nome – Cadastro de emitentes de cheques sem fundos (.10... in RJ 317/139).28 c) o nexo de causa e efeito entre um e outro. Civ. em virtude de envio de mensagem eletrônica. art. Juiz Alberto Aluízio Pacheco de Andrade. quando em curso o Código Civil de Bevilaqua.529). publ.] (TAMG. (TJMA.527 a 1. Desa.2005. 2ª Câm. rel. art. j. 3ª Câm. o transporte aparentemente gratuito ou interessado. de 7. Civ. enseja dano moral (TAMG. Juiz Rangel Dinamarco. o incorporou a essa universidade de bens que é seu fundo de comércio (1º TACivSP. 734).03.12. o centro da responsabilidade civil era a culpa. os direitos de vizinhança (CC 16. A violação da honra. 554). Dano moral 32 A responsabilidade civil nos transportes onerosos de pessoas e mercadorias é contratual e objetiva. j. A responsabilidade civil no transporte puramente gratuito é aquiliana e não contratual. 2ª Câm. 24. 1. o contrato de transporte (Lei 2. implica o dever de reparação por danos morais [.03.. ad exemplum.. Juiz Roberto Borges de Oliveira. No sistema anterior. A exceção é o contrato de transporte (CC.10 Jurisprudência Indenização – Dano moral – Envio de mensagem eletrônica – Calúnia. entre outros poucos. havendo ali instalado seu estabelecimento comercial. do corretor que leva cliente ao imóvel que está a venda etc. 2. como se verá logo em seguida. 2ª Câm.2004. Cleonice Silva Freire. Tem legitimidade para cobrar o reembolso do que gastou na reforma do imóvel danificado por culpa do vizinho o locatário que. rel.1912).83. Rel.2004. Veículo de transporte pesado que invade pista em sentido contrário vindo a causar sinistro. por exemplo. RT 580/162). in RJ 317/139). RT 845/327). Sendo o cheque emitido para pagamento em data posterior. respondendo o transportador pelos danos que causar ao carona em razão de culpa grave na condução do veículo. existente uma terceira categoria. Civ. Civil e processual civil. quando diretamente prevista em lei. . Além do transporte gratuito ou de cortesia e o oneroso. 186 e 927 do CC. o fato da coisa animada ou inanimada (CC 16. art. Acidente rodoviário. Inteligência dos arts. imputando falsamente a prática de fato definido como crime.. 20. Como regra geral. DAMG 04.

assume o transportador a responsabilidade de resultado atinente à chegada não só do passageiro. basta a relação de causa e efeito entre o dano experimentado pela vítima e a ação ou omissão do agente.11. I – Demonstrada a culpa do motorista que.2004. que não cogita da conduta culposa ou dolosa do agente causador do dano. 734. não fazendo por isso prova absoluta.10. impõese o dever de indenizar. A responsabilidade civil objetiva. III – Recurso não provido (TJMA. Celebra uma obrigação de fazer. Por isso. Por isso. rel.. 2ª Câm. Boletim de ocorrência. Antônio Guerreiro Júnior. 2ª Câm. RT 835/250). Cabimento. Des. é prevista na lei. 10. Trata-se da responsabilidade civil objetiva. na qual o devedor somente cumpre a prestação se alcançar o fim colimado pelo credor. 2. Ementa da Redação: Tratando-se de extravio de bagagem em transporte ferroviário. por conter uma obrigação de resultado. uma vez que em contrato de transporte. a obrigação de indenizar.29 e material.2006. ao invadir a pista de rolamento em sentido contrário. Civ. II – O boletim de ocorrência não goza de presunção juris tantum dos fatos articulados. Juiz Borelli Thomaz. no caso em testilha. Estabelecida esta causalidade abrolha.. Nessa espécie de contrato vige a denominada cláusula de incolumidade. j. rel. causou grave acidente de trânsito. de pronto. é devida indenização à passageira. 17. j. Responsabilidade civil – Indenização – Transporte rodoviário de passageiros – Extravio de bagagem – Passageira que não indicou o que levava em sua mala – Irrelevância – Transportador que assume responsabilidade de resultado atinente à chegada ao destino contratado não só do passageiro. se inadimplida. é também denominada responsabilidade civil sem culpa. do Código Civil: “O transportador responde pelos danos causados às pessoas transportadas e suas . Presunção juris tantum. mas também de seus pertences – Verba devida. é também chamada de obrigação de fim. Estampa o art. Alguém adquire passagem de uma cidade para outra com determinada empresa. vez que o policial registra o fato de acordo com o que lhe é narrado. ainda que não indicado o que levava em sua mala. Ausência.11 Responsabilidade civil objetiva Outro caso de responsabilidade civil quanto ao fundamento pode ser reproduzido no contrato de transporte. mas também dos seus pertences ao destino contratado (1º TACivSP. RT 858/328). a empresa transportadora responde pelo prejuízo causado ao passageiro sem indagação do pressuposto subjetivo da culpa.

146. deixando-o vivo e atualizado. porque neste a norma já prevê a conseqüência. Outra faceta dessa espécie de responsabilidade civil está prevista na parte final do citado parágrafo único do art.” É a grande novidade do Código Civil de Reale. Equivale afirmar. não 33 Súmula 187 – STF: A responsabilidade contratual do transportador. a solução a ser dada pelo juiz é aquela adrede prevista na norma.35 E modernamente. 2 ed.] ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. Distinguem-se. CC anotado e legislação extravagante. Desde há tempos. p. contra a qual cabe ação regressiva. não praticado com assiduidade. assim por meio de uma profissão ou mesmo de uma associação que. como se sabe. Caio Mário da Silva.]”. as cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados. A norma não prevê a conseqüência. das preferências e privilégios creditórios.. 36 DIREITO. pelo acidente com o passageiro. São Paulo: RT. Dá mobilidade ao sistema do CC. se ocorreu o evento e se dele emanou o dano. também o ato lícito pode ensejar a responsabilização do agente que ao praticá-lo ocasione dano. Não precisa ser uma atividade empresarial. Carlos Alberto Menezes Direito e Sérgio Cavalieri Filho prestam merecida homenagem: “de uma coisa não se tem dúvida: aqui foi adotada a teoria do risco criado cujo maior defensor é o mestre Caio Mário”. risco para os direitos de outrem. A exclusão da culpa traz maior abrangência à responsabilidade civil. não eventual ou casual. . não.. Caio Mário da Silva Pereira pontificava que o Direito moderno já não visava o autor do ato. elegendo uma previsão genérica em cláusula geral34. p. Rio de Janeiro: Forense. definir atividade normalmente desenvolvida e risco.”33 É o que dispõe a primeira parte do art. 24 e 29. sim. difere do ato avulso. sendo nula qualquer cláusula excludente de responsabilidade. Nelson e Rosa. i. parágrafo único: “Haverá obrigação de reparar o dano. 1991. manifestando franca tendência pela doutrina objetiva. considera-se. Comentários ao novo Código Civil. A primeira é toda atividade organizada. Não se investiga nem sequer a antijuridicidade do fato danoso. protegendo de forma mais ampla a vítima inocente de dano. acrescendo que juristas e tribunais. independentemente de culpa. Rio de Janeiro: Forense. Carlos Alberto Menezes e outro. 2003. 34 Cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados apresentam conceitos cujos vocábulos empregados pelo legislador têm densidade semântica intencionalmente vagas e abertas. 927: “[. reclamavam contra a ausência de disposição genérica a permitir a sua afirmação no Direito pátrio. porém a vítima. 141 e seguintes). dando ao juiz a oportunidade de criar solução (vide Nery. mas que seja habitualmente exercida. não é elidida por culpa de terceiro. volume XIII: da responsabilidade civil. por sua natureza. salvo motivo de força maior. 2004. Responsabilidade civil. Abrange todo um domínio de casos. permitindo ao juiz preenchê-las com valores a serem encontrados no julgamento de cada caso concreto. 35 PEREIRA. nos casos previstos em lei [.. 927.36 Duas questões são apresentadas. As cláusulas gerais.30 bagagens.. é. pp.

2. aparentemente. in O direito e o tempo: embates jurídicos e utopias contemporâneas – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Pereira Lima. Código Civil interpretado conforme a Constituição da República. 493º. 2. viver. que permanecem sob o âmbito de incidência da culpa. O que não se mostra razoável é deixar o conceito de risco ao arbítrio do senso comum. não apresentar risco.” 39 TEPEDINO. a chamada LER/DORT. excepto se mostrar que empregou todas as providências exigidas pelas circunstâncias com o fim de os previnir. do CC português: “Quem causar danos a outrem no exercício de actividade. que sempre se revela provável.37 A segunda é o risco. adota o termo perigo. II.050: “Aquele que ocasionar prejuízo a outrem no exercício de uma atividade perigosa pela sua natureza ou pela natureza dos meios adotados. é grande a ocorrência de dano físico. Na parafernália do mundo moderno. que significa a potencialidade da atividade normalmente desenvolvida produzir dano a outrem. são atividades que a experiência tem demonstrado proporcionar elevado número de acidente.31 tem finalidade lucrativa. apesar de a atividade. Rio de Janeiro: Renovar. o que é agravado pela constante imprudência dos motoristas. Risco.050. Rio de Janeiro: Renovar.” 38 CC da Itália. 871: “Uma atividade é uma série contínua e coordenada de atos e não se confunde com um ato único ou com atos isolados. mesmo sendo essa atividade lícita e de utilidade social. permanece sob o manto da incidência da culpa. b) a gravidade de tais danos. p. solidariedade e responsabilidade objetiva. ou seja. o art. do Código Civil italiano38. Traduz-se na circunstância concreta que prenuncia a ocorrência de dano. mormente nas estradas brasileiras que não se coadunam com as normas de segurança. cabe indagar o que não causa risco? Em Grande Sertão Veredas. 809 e MORAES. por si só. sem o caráter da habitualidade. De destacado valor é o primeiro critério. Gustavo e outros. 2006. Rio de Janeiro: Renovar. obra coletiva coordenada por Gustavo Tepedino e Luiz Edson Fachin. Maria Celina Bodin de. ficará obrigado à indenizar se não provar ter adotado todas as medidas idôneas para evitar o prejuízo. obra coletiva coordenada por Gustavo Tepedino e Luiz Edson Fachin. inerente aos movimentos repetitivos (LER: lesão por esforços repetitivos. Podese dizer. cf.39 37 MORAES. É o fator quantitativo.” Norma idêntica é a do art. que risco é perigo. já é um risco. Risco. Maria Celina Bodin de. DORT: Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho). que contém norma análoga. in concreto. Pioneiramente. No senso comum notam-se dissonâncias cognitivas que geram impropriedades. A doutrina italiana elege dois critérios para definir atividade perigosa: a) a quantidade de danos habitualmente causados pela atividade em questão. Para exemplificar toma-se o digitador. registra Guimarães Rosa. é obrigado a repará-los. embora as estatísticas demonstrem ser mais seguro dar a volta ao mundo voando do que fazer uma longa viagem de automóvel. cf. O direito e o tempo: embates jurídicos e utopias contemporâneas – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Pereira Lima. Proveitoso para assim demonstrar é o transporte. perigosa por sua própria natureza ou pela natureza dos meios utilizados. vol. Qualquer atividade isolada. contudo. p. As pessoas confiam muito mais no transporte rodoviário do que no aéreo. solidariedade e responsabilidade objetiva. 2008. . art. pois considera o ponto de vista estatístico. pois não se chegará a critério aceitável.

o mesmo transporte aéreo. inclusive algumas atividades desportivas como a luta de boxe. saliente. entrevista páginas amarelas. 927.32 Outro critério é o que considera o fator gravidade. Ademais. por repetir o preceito legal sem outro esclarecimento mais amplo. pois nesse âmbito o direito tem trabalhado afanosamente determinadas atividades como sendo perigosas para efeitos da concessão do respectivo adicional. Na I Jornada de Direito Civil. prestam-se à responsabilidade objetiva do parágrafo único. Atividades costumeiramente apontadas como de risco relacionam-se ao fornecimento de energia elétrica. ante a caracterização do risco nele previsto. mediante seguro conhecimento dos conceitos aplicados à realidade decorrente. armas de fogo. 2.12 Teorias sobre as atividades de risco 2008. veneno. porém não deixa de servir de parâmetro no sentido de que o risco precisa ser diferenciado. cuja probabilidade de acidente é inferior a um em um milhão. porquanto ocorrendo. de 8 de julho de 2009. não é qualquer risco. os Juízes Federais concluíram pelo Enunciado 38 que a responsabilidade fundada no risco da atividade "configura-se quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano causar a pessoa determinada um ônus maior do que aos demais membros da coletividade. Vale. como soe acontecer com as cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados. edição 2. também importante porque técnico.” O enunciado não é muito esclarecedor. do art. de regra. do Código Civil. a corrida automobilística etc. Embora não vinculado. certas construções edilícias. o magistrado deve consider também a legislação e a jurisprudência trabalhista e previdenciária. 873. p.40 Embora improvável. à fabricação de medicamentos. o fator quantitativo e o fator gravidade. com mais ênfase à energia nuclear. Enfim. De grande valia a jurisprudência que está sendo construída. àquelas ligadas a gás.120. como exemplo. A 40 Revista Veja. É que cabe aos juízes. Ambos. à mineração. ou pelo emprego de método de alto potencial lesivo. material radioativo. É uma figura em construção. . essas atividades serão desvendadas na análise cada vez mais constante dos casos concretos. o desastre aéreo é assaz danoso. a prudente tarefa de selecionar os casos de incidência da teoria do risco. explosivos. raros são os sobreviventes. a recomendação do direito comparado é no sentido de que ao juiz cabe identificar o risco da atividade mediante análise tópica e na realidade local. como controle de recursos hídricos. à distribuição de combustíveis. ao emprego de raios-x.

sobreleva a dificuldade do empregado em produzir prova mormente nos casos de acidentes em razão das suas próprias condições físicas. A teoria do risco profissional enfatiza que o dever de indenizar cabe somente quando o fato lesivo decorre da atividade ou profissão da vítima. Repartem-se os ônus e encargos sociais resultantes da atuação estatal na perseguição do interesse da coletividade. 37. retorna ao angustiante problema do ônus da prova. da Constituição Federal. ibi onus).. Desenvolvida especialmente para os casos de acidentes do trabalho ou por ocasião dele.33 A construção das atividades de risco encontra suporte nas várias teorias elaboradas ao longo de tempo. indistintamente. O risco e a solidariedade social são os suportes dessa teoria. Acanha a incidência da teoria do risco. Se a atuação do ente ou agente do Estado é para o bem de todos. Essa teoria afasta grande número de acidentes do trabalho. O Estado responde pelo risco criado e inerente à sua atividade administrativa. por um ou alguns. o que é proveito? É proveito econômico. aí está o encargo (ubi emolumentum. Abrolham dificuldades. quer pela atividade repetitiva que se torna monótona. que o Código Civil repete no art. que por partilhar encargos. É a previsão do art. A uma. que o dano sofrido. 43. A teoria do risco proveito imputa a responsabilidade a quem tira vantagem da atividade danosa. é justo e equânime. A teoria do risco administrativo foi concebida para respaldo da responsabilidade civil do Estado. se alguém põe em funcionamento uma qualquer atividade. com fundamento no princípio de que onde está o ganho.] o conceito de risco que melhor se adapta às condições de vida social é o que se fixa no fato de que. seja distribuído a todos. lucro. independentemente de determinar se em cada . responde pelos eventos danosos que esta atividade gera para os indivíduos. conduz a mais perfeita justiça distributiva. Para explicar a teoria do risco criado ninguém melhor que o seu paladino Caio Mário da Silva Pereira que a resume na seguinte fórmula: “todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou”. Aplica-se o princípio constitucional da solidariedade social. coadunando com a Ética.. A vítima teria que provar a obtenção de proveito por parte do agente do ato danoso. ou qualquer outro? A duas. cuja redação é deficiente por não se referir às pessoas de direito privado prestadoras de serviços públicos. § 6º. Pela desigualdade econômica. Também restringir a incidência da teoria do risco. O dano só seria reparado por aquele que colhesse algum proveito do fato lesivo. e completa: [. quer pelo seu estado de exaustão. sem qualquer indagação ao pressuposto subjetivo da culpa.

1991. A obrigação de indenizar faz-se presente apenas em face do dano. II. ‘Todo fato do homem obriga aquele que causou um prejuízo a outrem a repará-lo’ (Georges Ripert. IV. 24 e 288. Não poucos são os defensores do 41 PEREIRA. 2 ed. Justifica-se o dever de indenizar mesmo em certos eventos em que não é possível estabelecer o nexo de causalidade. Não se cogita nessa teoria. como os danos nas atividades nucleares. à negligência. o caso fortuito ou força maior. Posição extremada que o ordenamento jurídico reserva tão-só para casos excepcionais. entre o fato e o dano (entre le fait et le dommage). se a atividade se organize de forma empresarial. vol. o que seria caso do risco proveito. Acórdão proferido pelo 6ª Câmara. pois. afastadas todas as causas de irresponsabilidade. Basta que o dano se relacione materialmente com esses atos. a doutrina do risco. portanto. como Jean Carbonnier. explicam: a responsabilidade objetiva ‘não importa em nenhum julgamento de valor sobre os atos do responsável. 86.34 caso. Marty et Raynaud (Droit civil. Responsabilidade civil. então. isoladamente. que a doutrina do risco apresenta uma feição extremada. n. nesta forma: ‘todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou’. Os autores modernos. La Règle Morale. é a teoria do risco integral. assentada no ‘risco criado’. julgado em 17 de fevereiro de 2004. Droit civil. Há de se considerar também. Caio Mário da Silva Pereira esclarece: “Resume. alguns autores usam a expressão responsabilidade automática. Não sem razão. porque todo aquele que exerce uma atividade deve-lhe assumir os riscos’ (Jean Carbonnier. pp. de causalidade.41 A obrigação de reparar o dano surge da atividade normalmente exercida pelo agente. pela relatoria do então Juiz Marciano da Fonseca. vol. n. atividade esta que cria risco diferenciado a interesses ou direitos de outrem. O problema será. o que seria o caso do risco profissional. Fica. Destaca-se de seu corpo: Com a propriedade de sempre. a um erro de conduta. simplifica-se nesta outra. Do mesmo modo não interessa a profissão exercida pela vítima. t. Obligations. Fica. o dano é devido à imprudência. Ao invés de a responsabilidade assentar numa relação causal entre a culpa e o dano. Caio Mário da Silva. assim. 115). desvestida das restrições de ordem técnica. p. e assim se configura a teoria do risco criado. do extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. 292). Rio de Janeiro: Forense. bem define o risco criado. assentado que o dever de reparação funda-se num fato. . mesmo o fato exclusivo da vítima ou de terceiro. I) colocam a questão em termos de causalidade material: ‘responsável é aquele que materialmente causou o dano’ (in RT 826/234-235). nem que tenha revertido em proveito de qualquer espécie ao agente do dano.

A par da premente necessidade de melhor capacitação dos motoristas. que coloca em risco os membros da sociedade. 43) etc. essa triste e violenta realidade enseja responsabilidade civil. conforme as peculiaridades do caso em julgamento. 313. Extrai-se daí que os seus pressupostos são: a) a conduta prevista em lei ou que desenvolve habitualmente uma atividade de risco.. Nelson. SILVA. Até porque sob a ótica jurídica outra solução seria inexeqüível no sistema atual da responsabilidade civil. Direito ambiental constitucional. p. a responsabilidade do Estado e das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos (CF.. Direito ambiental: doutrina e jurisprudência – glosário. a solução que resta é a da responsabilidade civil subjetiva. ambos seriam condenados à indenização. 126. Se os dois motoristas envolvidos em um acidente respondessem objetivamente. 12 e 14). 764.14 Confronto de situações de risco São desastrosas as estatísticas de acidentes de trânsito.13 Fontes objetivas Pois bem. revista do Ministério Público do Estado de São Paulo. 2. arts. apurando qual dos motoristas laborou eficazmente para a eclosão do fato lesivo com a sua conduta culposa. São Paulo: RT. isto é. Responsabilidade civil por dano ecológico e a ação civil pública. 2002. São Paulo: Malheiros. c) o nexo de causa e efeito entre uma e outro. p. José Afonso da.35 risco integral nas atividades relativas ao dano no meio ambiente. CC. Nos acidentes envolvendo dois veículos. É frequente encontrar na jurisprudência referência a uma e a outra dessas teorias. p. . 37. Pergunta-se: como seria atribuído o dever 42 NERY JÚNIOR. In Justitia. vol. 2. Dirigir automotor é situação de risco. incontestavelmente. 4 ed.42 Ver RT 625/251 e 623/31 Ver responsabilidade civil objetiva pura. em apertada síntese a responsabilidade civil objetiva contempla duas situações bem distintas: a) quando tem sua fonte diretamente na lei. as relações de consumo (CDC. maior rigor na fiscalização do trânsito e efetiva melhora nas condições das vias públicas. a exemplo dos artigos 936 a 940. 2004. § 6º. Edis. art. 172. situações em que as duas posições causam risco para os direitos de outrem. b) o dano daí decorrente. MILARÉ. b) quando a sua fonte é a natureza da atividade habitualmente desenvolvida. art. 3 ed.

que a responsabilidade objetiva veio para complementar a responsabilidade subjetiva. De um lado.15 Um sentido de complementaridade Observa-se que a responsabilidade subjetiva convive harmoniosamente com a objetiva. a pouco e pouco. consideradas lícitas porquanto proveitosas à vida social. Trata-se menos do declínio da primeira e mais o surgimento de outro mecanismo para atender novas demandas sociais. a sua abolição total daria em um resultado anti-social e amoral. ambas firmam um espaço próprio de coexistência funcional. É de justiça social. igualmente. Uma não suplanta e nem derroga a outra. pois estariam. 2. que ela se revela. não mais o seu autor. cuja preocupação maior é a vítima inocente de dano. o lícito seria equipado ao ilícito. insuscetível de abarcar toda a construção da responsabilidade civil. Inaugura-se um novo pensamento político. porque somente dessa maneira todos os casos de dano poderão ser indenizados. a fim de atender aquelas demandas em que a exigência da culpa provada representa pesado ônus para quem é lesado na sua pessoa ou no seu patrimônio. Na verdade. diante de uma atividade habitual de risco? Não seria justo. Mas também não há como contestar. Sendo assim. do outro lado. por não distinguir entre o lícito e o ilícito. a Equidade recomenda a teoria do risco. facilitando a todos indistintamente. social e jurídico. sem que uma afaste a outra.36 de cada um indenizar o outro? Se um dirigisse conforme as normas de trânsito e o outro na sua contrariedade ambos responderiam. tal como na responsabilidade do ente e dos agentes do Estado os riscos devem ser partilhados entre todos. somente se atinge a sã justiça reparadora se a responsabilidade subjetiva for complementada pela responsabilidade objetiva. . a culpa subjetiva é noção útil e dela não se pode prescindir. É a socialização ou humanização do Direito. a sempre falada justiça distributiva. Se a meta ideal é sempre reintegrar no estado anterior o patrimônio alterado pelo evento danoso. Decorrente. de sorte a todos beneficiam. destarte. As atividades de risco são conquistas da tecnologia. Não se contesta. nem entre a boa e a má conduta. para que se não atribua ônus apenas à vítima inocente de dano. a Moral mantém a teoria da culpa. pela qual se repartam equitativamente os riscos inerentes à sociedade. com a previsão ampla da objetivação está encerrada a fase do individualismo inerente à culpa.

sendo objetiva a sua responsabilidade.2003. lembrado o Evangelho de Mateus: “Tudo o que quereis que os homens vos façam.44 A casa de shows deve zelar pela segurança do público que recebe. 27ª Câm. da CF.. RT 860/276).12). evitando a sua queda. rel. j. estabelece o dano animal como responsabilidade civil objetiva. está a exigir de todos e de cada um rigoroso dever de cuidado objetivo na interação que caracteriza a vida em sociedade.) (1º TACivSP. como o caso da distribuição de energia elétrica. Em ocorrendo acidente deste tipo. o dever de indenizar dependerá apenas da prova do nexo de causalidade entre ao evento e o dano causado à parte. RT 824/244). nos termos do Código de Defesa do Consumidor. Recurso de ofício e apelo da ré improvidos (TJSP. 1ª Câm. seguida de interrupção do forneciamento de energia – Queima de aparelhos elétricos – Defeito na prestação do serviço – Responsabilidade objetiva da concessionária do serviço público – Obrigação de indenizar caracterizada – Recurso não provido (1º TACivSP. 07. consciente. aliadas a subjetiva e a objetiva. hipóteses de interrupção do nexo causal. j. 20. cabendo a ela o direito de regresso – Proteção à vítima e risco da atividade – Omissão da vigilância que é exercida (..43 Responsabilidade civil – Indenização por dano patrimonial – Abrupta sobrecarga de energia elétrica.12. Juiz Antônio Ribeiro.09. Des. 1º. não no artigo 37. que.j. rel.2006.2004. § 6º. O vetusto preceito romano neminem laedere torna-se mais renovado do que antes. se o consumidor é agredido injustamente por segurança 43 O art. a expansão da responsabilidade civil. Luiz Antônio Alves Torrano. .m. fazei-o vós a eles” (6. 1ª Câm. pois fala da responsabilidade objetiva do Estado e das pessoas jurídicas prestadoras de serviço público.12. é mais específico para a espécie. RT 836/201). clamando verdadeira revolução de comportamento. que adota o valor constitucional da solidariedade.16 Jurisprudência Queda de árvore sobre veículo – Responsabilidade civil do Município – Teoria do risco administrativo – Dever de indenizar reconhecido – Cabe à Municipalidade zelar pela manutenção das árvores existentes em área pública.. Juiz Reinaldo Miluzzi.. j.37 Cuida-se concluir. probo. rel. Responsabilidade civil – Acidente de veículo – Colisão com animal em estrada privatizada – Procedimento sumário – Validade – Legitimação passiva da empresa que administra a rodovia e recebe pedágio – Responsabilidade do dono do animal que não afasta a possibilidade do usuário de exigir a indenização da empresa. 936 ao prever como causas de irresponsabilidade a culpa da vítima ou a força maior.. pois somente resta espaço no meio social para o cidadão diligente. que brada por reciprocidade.. 44 O acórdão no seu corpo refere-se ao artigo 14 do CDC. 2. s.

38 contratado. cabendo. Ademais. qual o valor probatório do boletim de ocorrência? Qual a responsabilidade civil no transporte gratuito? E no oneroso? Em que ponto reside a principal diferença da responsabilidade civil quanto ao fundamento? E quanto ao fato gerador? Basta ao motorista. 1ª Câm. Des.2004. Juiz Antônio Ribeiro. bem como com os constrangimentos e ameaças dos portadores de títulos. ainda que não seja funcionário do estabelecimento comercial. ocasionando prejuízo moral a seus clientes que tiveram desequilíbrio em suas contas correntes com a devolução indevida de cheques.. j.05. Qual a consequência da apresentação de cheque pós-datado antes do seu vencimento? Ao credor assiste o direito de cobrar dívida antes de vencido o prazo estipulado no contrato? Em que dispositivo legal pode ser embasada esta questão? Em termos de responsabilidade civil. Procure imaginar exemplos próprios. Pereira da Silva. respeitar os sinais que regulamentam o trânsito? Ou dever tomar outros cuidados? Nos acidentes de trânsito. 09. RT 855/370). rel. em sede de responsabilidade civil. pensando na sua experiência de vida..2006. incabível é falar em caso fortuito ou força maior para afastar a responsabilidade. Para reflexão O que é honra subjetiva e objetiva? É possível violar a honra alheia sem que a vítima esteja presente? Dê um exemplo. Caracteriza a responsabilidade civil objetiva do banco por dano moral o fato de ter ocorrido roubo de talonários quando estes estavam em poder do estabelecimento bancário. RT 830/245). Distinga antijuridicidade de culpabilidade. j. mormente ser ficou evidenciada a ausência da necessária segurança no transporte de malote (1º TACivSP. lado outro. direito de regresso contra a empresa contratada (TJMG. rel. 10ª Câm. 07. qual a espécie de responsabilidade civil quanto ao fato gerador? E quanto ao fundamento? Quais as outras denominações da responsabilidade civil subjetiva? E da objetiva? Dê um exemplo de cada espécie de responsabilidade civil até aqui estudada. Pode atribuir ao incapaz conduta antijurídica? E conduta culposa? Para recordar: quando se adquire a capacidade jurídica para a prática dos atos da vida civil? . uma vez que se trata de atividade de risco. A terceirização do serviço de segurança não exime a casa de shows de indenizar danos sofridos pelo seu cliente.06.

o seu custo está embutido no valor global da tarifa e repassado aos demais usuários do serviço. . Cleonice Silva Freire. 2. ressalta a distinção entre o transporte oneroso e gratuito. rela. ao passo que neste é extracontratual e subjetiva.18 indireta. sem qualquer contraprestação. O denominado carona assume os riscos da viagem. O art.2005. 230. j. 186 e 927 do CC/2002 (TJMG. Desa. RT 845/327). Esse exemplo presta-se para outra lição. 3ª Câm. da Constituição Federal. o ato danoso é imputado a quem o pratica. ou por ato próprio. o que não pode ser considerado como transporte gratuito.17 Responsabilidade civil direta Na responsabilidade civil direta. outro é ato de liberalidade ou cortesia.17 direta. respondendo o transportador pelos danos que causar ao carona em razão de culpa grave na condução do veículo. Se uma pessoa atua na vida social. É a regra geral. e por culpa lesione a outrem ou deteriore o seu patrimônio. Por motivos óbvios. Inteligência dos arts. vítima do dano.. ou simplesmente o agente responde por ato próprio. responde por ato próprio perante o carona. A responsabilidade civil no transporte puramente gratuito é aquiliana. garante a gratuidade dos transportes coletivos urbanos aos maiores de sessenta e cinco anos de idade.10. Naquele. É dizer. ele próprio responde por esse ilícito extracontratual.39 Espécies de responsabilidade civil Responsabilidade civil quanto ao agente: 2. que agiu culposamente. como visto. § 2º. e não contratual. a conduta lesiva e a obrigação de indenizar confundam-se na mesma pessoa. 20. sem o cuidado objetivo. autor do dano. De efeito. Um é mediante remuneração. a responsabilidade é contratual e objetiva. O motorista. 2. Não contempla a equidade o tratamento paritário dessas duas espécies de transporte.

. Rui.] 45 PEREIRA. expedição de convites e outros preparativos. a contratação para realização da festa e outras despesas do gênero.2000. 2006. referindo-se às JTJLex 180/113.40 Pode-se acrescentar o transporte interessado. p. utensílios. 2009. Ruptura sem motivo justificado. Caio Mário da Silva. devidamente comprovados. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. se a dívida nele representada já havia sido paga. responde civilmente pelos danos morais e materiais decorrentes de sua atitude [. p. Prevalece a tese de que o rompimento em si não gera responsabilidade. protesta duplicata já paga. O credor que. de 07 a 13. 7 ed. no mesmo sentido: RT 741/255. a sua ruptura desmotivada surte como efeito jurídico a obrigação de indenizar. sem qualquer motivo justo (TJSP.. Rui. para se dirigirem ao trabalho ou outros afazeres. a ensejar o dano moral (responsabilidade civil extracontratual. Responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Forense. CAVALIERI FILHO. Casos equiparados ao contrato de transporte. 902. Da mesma maneira. o transporte que o empregador concede ao empregado para conduzi-lo ao trabalho. somente gera responsabilidade quando ocorrem danos. Cabe indenização por dano moral e material. Verbia gratia.284/610. p. 2007. Houve desfalque no patrimônio dele com a aquisição de móveis e utensílios para guarnecerem o futuro lar.2002. Danos morais e materiais. ainda que indireto. 7 ed. de pessoas que trocam condução em dias alternados. . pois no caso do acórdão. 8 ed. 2 ed. tratando-se de responsabilidade civil direta. também do corretor que leva o cliente ao imóvel que está à venda. 46 Confira outro julgado RT 567/174.45 Outro exemplo de responsabilidade civil direta é extraído de interessante caso: Indenização. O namoro não é compromisso sério para ensejar dano. Testa Marchi. vítima no episódio. Ver neste sentido: Boletim da AASP 2. como o caso de compra de móveis e outros utensílios larários.46 A promessa de casamento é compromisso preliminar. Sergio. responde o credor que protesta título de crédito. 6ª Câm. São Paulo: RT. quando se dá algum interesse patrimonial ao transporte. in Scoto. com aquisição de móveis. 902). São Paulo: Atlas. Em sentido contrário: Stoco. 228 e ss. 1991. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. rel.10. a expedição de convites. Dever de indenizar o noivo. além da evidente situação de constrangimento. São Paulo: RT. apenas aparentemente gratuito. a conduta da noiva foi a causa do ato lesivo. subjetiva e direta). j. Programa de responsabilidade civil. p. no abuso de direito.. pelo rompimento de noivado e desfazimento da cerimônia de casamento já programada. Des. é ela responsável pela indenização ao noivo. Casamento já agendado. vigendo a cláusula de incolumidade.02. Rompimento de noivado. com a expedição de convites. 03. 215/93. 779/377. 313.

cabe a estes zelaro e administrar os bens dos filhos. Em conclusão. 936 a 938. que Serpa Lopes chama de complexa. Em outros termos. inc.. com liberdade e responsabilidade. 10ª Câm.634. orientando-os nas regras da moral e dos bons costumes. apesar de o contrato já extinto pela desocupação e entrega do imóvel. j.18 Responsabilidade civil indireta Há situações em que o agente do dano não responde pela indenização. tudo conforme a letra do art. uma conduta pautada ainda na vigência da locação. do Código Civil. RT 813/268). Juiz Ariovaldo Santini Teodoro.41 (1º TACSP. 2. do Código Civil. promana de ato de terceiro. j. rel.10. Pode acontecer que o agente do dano seja uma pessoa e a obrigação de indenizar recaia sobre quem é o seu responsável por tê-la sob sua autoridade e em sua companhia. Responsabilidade do inquilino pelos alugueres durante o tempo necessário para reparar o imóvel. 28. dá-se a responsabilidade civil direta sempre que ao próprio causador do dano cumpre a obrigação de compor a indenização. ou do fato animal. É muito dessa formação familiar que se forja o cidadão honesto e útil para a convivência social. ou da coisa inanimada. bem ainda pelo fato da coisa animada ou inanimada. Juiz Emanuel Oliveira. do mesmo codex. 7ª Câm. I. da personalidade e do desenvolvimento intelectual. assim dispondo os arts. é encargo dos pais a condução da criação e da educação dos filhos não só no sustento. conforme as condições familiares. protegêlos e educá-los como preconiza o art. 932. O exercício do poder familiar é um poder-dever. como na sua formação. 29. modernamente denominada de transindividual. RT 827/308). Pode-se afirmar com absoluta .. pois ao mesmo tempo em que os filhos são submetidos à autoridade dos pais.4.2002. Outra passagem pode ser colhida no contrato de locação. 1. ou quem desfrute de seu trabalho. Ementa Oficial: É de responsabilidade do inquilino os alugueres que os autores deixaram de perceber desde o dia seguinte à desocupação do imóvel até o tempo necessário à reparação dos danos (TACSP. É a responsabilidade civil indireta.2004. proporcionando-lhes condições favoráveis para a formação do caráter. Locação – Reparação de danos – Entrega do imóvel sem condições que possibilitem novo contrato locatício. rel. É contratual porque o dano decorre de um ilícito contratual.

363. Carvalho Santos condicionava a responsabilização na prova da culpa in eligendo e in vigilando do patrão: a má escolha do empregado ou a falta de vigilância quando no desempenho do contrato de trabalho. à família e à sociedade. rel. Agora. para que o filho fisicamente sobreviva. O tutor e o curador são responsáveis pelos danos causados pelos seus pupilos e curatelados. é o ato do próprio substituído. a fim de torná-los úteis a si. além do zelo material.” . Direito civil brasileiro. a regra inserida no art. São Paulo: Saraiva. está prolongando a sua própria atividade de tal modo que a culpa do empregado recai objetivamente sobre ele. no exercício de suas funções. em 14. 182: “O empregado é apenas o instrumento. Não difere aqui a razão ontológica: incapacidade do ofensor conjugada ao respectivo dever de vigilância. Código civil brasileiro interpretado. vol. São Paulo: Atlas. produz o seguinte textos citando Washington de Barros Monteiro e Sílvio Rodrigues: “Incumbe aos pais velar não só pelo sustento dos filhos. em regra. ao recorrer aos serviços do empregado. dado que o preposto. o empregado é um longa manus do empregador.11. Além disso. por lhe ser impossível desincumbir-se pessoalmente delas. 47 Bem posta.48 Sempre foi mais adequada a teoria da substituição. assim a sua responsabilidade deve ser verificada com mais cuidado e prudência.49 Não outra a ratio legis do inciso II. Carlos Roberto. 932: o empregador é responsável por seus empregados no exercício do trabalho que lhe competir durante a jornada de trabalho. por meio da educação. 2007. 49 CAVALIERI FILHO. faz o que competia a este fazer. 932. pois. também o moral. XX. forme seu espírito e seu caráter. porque pratica no desempenho da tarefa que a ele interessa e aproveita – pelo que a culpa do preposto é como conseqüência da culpa do comitente. João Manuel de Carvalho. responsabilizando os pais pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia. O empregador é responsável pelos atos lesivos decorrentes da conduta culposa de seus empregados. segundo a qual o empregador. alguém que o substitui no exercício das múltiplas funções empresariais. p. O encargo envolve. uma longa manus do patrão. RT 389/223). objetiva. principalmente do ponto de vista prático. 12 ed. durante e em razão da jornada de trabalho. por lhes caber precipuamente os deveres de disciplina e vigilância. Programa de responsabilidade civil.42 exatidão: o poder familiar é munus publico. Na égide do Código Civil de Bevilaqua. como pela sua formação. p. consequentemente. por sua conta e risco. 7 ed. uma vez que ao Estado cabe fixar normas para o seu exercício. para que.” 48 SANTOS. 227. volume VI: direito de família. p. I. Sergio. não tem os meios necessários para indenizar. São responsáveis os pais pela reparação dos danos causados pelos filhos menores sob sua guarda.. Não se pode descurar que tutor e curador têm maior limitação no seu poder de direção. 2005. 47 GONÇALVES. Portanto. j.66. do art. de acordo com a sua idade (TJSP. porém. 3ª Câm. Rio Janeiro: Freitas Bastos. Ora. 199º. Des. o ato do substituto. o patrão ou preponente assume a posição de garante da indenização perante o terceiro lesado. sendo de seu interesse o bom desempenho.

do Conselho de Estudos Judiciários dos Juízes Federais: “A instituição hospitalar privada responde. E as duas excludentes referem-se à responsabilidade objetiva. art. a responsabilidade civil objetiva indireta do proprietário ou guardião da coisa animada ou inanimada. pelos atos culposos praticados pelos médicos integrantes de seu corpo clínico. Essa responsabilidade. 936. do CC. RT 667/107). Juiz Barreto de Moura. na forma do art. 2ª Câm. O tratamento legal acerca da responsabilidade civil por fato de animal. 09. que é objetiva. ainda. Também.05.90. rel. É o sentido do enunciado 191. segundo a dicção do citado artigo. RT 731/243).. seriamente comprometido se dependesse unicamente da solvabilidade do agente da conduta lesiva. Des. j. encontra os seus primórdios no Livro do Êxodo (225): “se um homem [. direito que estaria.] deixar seus animais pastarem no campo de outro. atualmente. porquanto visa assegurar à vítima de dano injusto a efetivação de seu direito ao ressarcimento. embora mais atenuada que no contrato de trabalho. III. Na verdade o Código Civil de 2002 trouxe em . O dono ou guardião do animal responde pelo dano que este der ensejo. 8ª Câm. 932. Assim é porque o dono ou guardião do animal somente se livra da responsabilidade se comprovar a culpa da vítima ou a força maior..43 Aquele que se faz substituir no exercício das múltiplas funções da empresa responde pelos atos dos que exercem a substituição precisamente porque seu pessoal se considera extensão da pessoa ou órgão principal. j. O fundamento é o mesmo do patrão. Ver RJTJSP 120/178). na maioria dos casos. do Código Civil. independentemente de vínculo empregatício (TJSP. pois entre ambos existe uma situação de subordinação e de dependência.. Cumpre. 22. o comitente ou preponente é responsável pelos atos do preposto.96.. não mais apenas prega a presunção de culpa em desfavor do dano ou detentor do animal. compensará o dano com o melhor de seu campo e de sua vinha”.05. rel.” Infere-se que a responsabilidade civil objetiva impura e indireta pelo fato de outrem se funda na ideia de garantia. A jurisprudência tem reconhecido que o médico que integra o quadro clínico de um hospital e a pessoa física ou jurídica que mantém o estabelecimento de saúde são respectivamente preposto e preponente. Assim. Aldo Magalhães. a responsabilidade do patrão pelos atos do preposto só pode ser elidida quando o fato danoso por este praticado não guardar relação alguma com sua condição de empregado (1º TACivSP.

RJTJERS 272/280).228). Por se tratar de responsabilidade objetiva.. nos termos do art. 937 e 938. a jurisprudência tende a responsabilizar o conjunto. 217). in Programa de responsabilidade civil. 70022138721. bastando a prova do fato e o dano dele decorrente (TJRJ. rel. a fim de que o uso e gozo não impliquem em prejuízo alheio..2005. Pretende a lei dar segurança aos logradouros públicos e particulares. rel. . Desde o Código Civil de Bevilaqua. Des. Civ. j. 2007.11. 938 do CC/2002. não podendo haver exasperação da verba indenizatória por imputar encargos financeiros a pessoas que não concorreram diretamente com o dano. a responsabilidade civil com relação à coisa inanimada é objetiva. Como no caso animal. O proprietário tem a faculdade de usar. pelo que todos respondem indiscriminadamente. art. 7 ed. que também é coisa para o direito. 2ª Câm. devendo o quantum reparatório amoldar-se harmoniosamente à sua função educativa e compensatória (TJRJ. daí emana o seu dever de cuidado para com essa mesma coisa de sua propriedade (CC.44 seu bojo o entendimento de que se trata de responsabilidade objetiva. em que não se pode precisar o apartamento pelo qual o objeto foi lançado. a responsabilidade civil sem culpa. gozar e dispor da coisa. resta caracterizada a responsabilidade subsidiária do condomínio. Responsabilidade civil pelo fato da coisa – Letreiro de propaganda instalado na fachada de prédio – Queda sobre transeunte – Dever de indenizar do ocupante do prédio. mediante conduta censurável. O proprietário ou possuidor de uma coisa inanimada responde pelo dano derivado de seu uso ou utilização. É a vindicação de que cada qual cuide do que lhe pertence e lhe favoreça. Tratando-se de queda de vaso em condomínio edilício. Des. 1ª Câm. p. pelos danos causados. 29. Mario Guimarães Neto. Sergio Cavalieri.. com fundamento no dever de segurança afeito ao dono. impende prestigiar a solução que já vinha sob a égide do Código revogado. A lei aponta o ocupante do prédio como responsável pelo dano proveniente de coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido. que independe de culpa. lançam ou deixam cair coisas que possam causar danos à pessoa ou ao patrimônio alheio. descabe qualquer discussão em torno da culpa e sues efeitos. 1. Sendo coisas lançadas ou caídas de prédios em condomínio. responsabilizando aqueles que. restando afastada apenas quando comprovada culpa da vítima ou força maior (AP. arts. pois o condomínio forma um conjunto indivisível. RT 848/323).

j. pois. Responsabilidade civil. do CC/2002.2009. atingindo-lhe o nervo ciático e causando-lhe incapacidade permanente. à sucessão ou à reparação por dano material ou moral. Des.” 2. em razão de óbito do genitor em acidente de trabalho por culpa da empregadora – Ao nascituro se asseguram direitos relativos à personalidade desde o momento da concepção. j. especialmente se o poder familiar é exercido conjuntamente (STJ. com base nos arts. direito a indenização por danos materiais e morais em decorrência da perda do genitor. 2º do CC dispõe que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida.10. Ruy Camilo.11. pois permanece o dever de criação e orientação. Responsabilidade civil do Estado. in CC Theotonio Negrão. 2º]. em razão de ato de imperícia de seu funcionário que aplicou medicação intramuscular na região glútea de paciente. 29. com atrofia do membro inferior esquerdo (TJSP. 3ª Câm. São Paulo: RT. rel. Privado.2009.041996. Direito assegurado a nascituro. p.. 10ª Câm. Dir. São Paulo: RT.078/90 e 932. que fixa a responsabilidade indireta da locadora de veículo por ato do locatário: “A empresa locadora de veículos responde civil e solidariamente com o locatário. 7ª ed. DJ 19. p..10. Aluno menor impúbere ferido por colega de escola quando se encontrava do lado de fora da 50 Rui Scoto esclarece: “O art. .45 Outro exemplo é a Súmula nº 492. rel. p. submete-se às regras do clube. III. 2007.97. 10ª Câm. 2007. desde a concepção. do Supremo Tribunal Federal. 4º do CC [atual art.19 Jurisprudência Indenização pelo direito comum. É devida indenização por hospital. 4ª T. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 29 ed. Alegada exoneração de responsabilidade consistente em que o clube cedeu as dependências aquáticas a título de comodato. Juiz Adail Moreira)50 A mera separação dos pais não isenta o cônjuge. seja com relação à personalidade. rel.. 691). Luis Felipe. 286). os direitos do nascituro”.” Tratado de responsabilidade civil: dotrina e jurisprudência. Des. por danos material e moral. Donegá Morandini.2005.10. in Rui Stoco. Min. p. Professor. 16. j. ainda que autônomo. 1º. Clube esportivo. Esses direitos são gerais. Apelação cível. j. com o qual os filhos não residem. mas a lei põe a salvo. desde que venha a nascer com vida nos termos do art. 14 da Lei 8. RT 846/269). Inadmissibilidade. 920. 7 ed. Assiste-lhe. rel. pelos danos por este causados a terceiro no uso do carro locado. vitimado em acidente do trabalho por culpa da empregadora (2º TACivSP. da responsabilidade em relação aos atos praticados pelos menores. 08. Responsabilidade solidária (TJSP. Danos causados a aluno em aula de natação.

12. Ação procedente. 2007. Rui Stoco. alheia à disciplina normativa incidente. JTJ-Lex 254/150).. Responsabilidade civil. Caracterização do acidente de consumo. Des. Morte de menor em parque de diversões. Trabalhadores acampados na empresa. Sentença mantida. Indenização restrita. j. Ação julgada improcendente. Fora das dependências da escola. 7ª ed.1997. Para reflexão Analise todas as jurisprudências até aqui transcritas e as classifique quanto ao fato gerador. cuja responsabilidade não restou evidenciada. Direito Privado. p. 13. São Paulo: RT. público ou privado. “Sindicato responde pelos danos materiais ocasionados por bloqueio que representantes e prepostos seus impuseram a garagem de veículos de transporte coletivo” (TJSP. no entanto. Des. destruição e apossamento de objetos..3. rel.Lex 203/95). junto ao portão de entrada. Público. Vasconcelos Pereira. Inexistência do nexo de causalidade entre o evento e a atuação do Poder Público ou de falta ou falha do serviço. seja qual for a sua natureza. “O aluno fica sob a guarda e vigilância do estabelecimento de ensino. . 2002. com direito de ser resguardado em sua incolumidade física. Mantida a improcedência em relação a um dos co-réus. Pedido formulado por empresa metalúrgica frente a Sindicato e seus dirigentes. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. Responsabilidade do Sindicato e de seus representantes por danos derivados de depredação.10. em horário anterior ao inicio das aulas. respondendo os responsáveis pela empresa privada ou o Poder Público. Recurso não provido. em razão de ter comandado o estabelecimento e a realização da assembléia nas dependências da empresa. Des. 3ª Cãm. 740). moral e estético. rel. enquanto estiver nas dependências da escola. rel. Dir. Recurso não provido (TJSP. inexiste qualquer possibilidade de se manter essa obrigação de resguardo” (TJSP.1999. j. ao fundamento e ao agente. in Rui Stoco. Imputação objetiva da responsabilidade com base no Código de Defesa do Consumidor.5. Reparação por danos morais e materiais até a idade em que a vítima completaria sessenta e cinco anos de idade. Danos materiais e morais. Pedido de indenização por dano material. por qualquer lesão que o aluno venha a sofrer. 5.46 escola. comunicando o malogro da negociação com terceira empresa para que esta voltasse a comprar os produtos da primeira. nos casos de escola pública.. j. Indenização. Direito Privado. aos danos materiais. JTJ. Carlos Roberto Gonçalves. 3ª Câm. ainda que causada por terceiro. Descabimento da discussão relativa à culpa. Dano e nexo de causalidade demonstrado. Distribuição proporcional ao ônus da sucumbência. em horário incompatível. Recurso parcialmente provido para se julgar a ação parcialmente procedente ante a comprovação de responsabilidade do Sindicato e de seus representantes. 2ª Câm.

1 Responsabilidade civil objetiva pura 51 AZEVEDO. direta e indireta. nº 353. em um parque infantil municipal. p. animada ou inanimada.1. e requerer ação de perdas e danos. ano 55. Revista Jurídica. o sindicato foi condenado a ressarcir dano decorrente de movimento grevista? Por que o estabelecimento de ensino é responsabilizado por lesões sofridas por um aluno em razão de agressão de autoria de outro aluno? E se pessoa estranha a escola? De quem é a responsabilidade por acidente de trânsito motivado pela invasão de pista de rolamento por animal? Se aparelhos elétricos são danificados. é subjetivo ou objetivo? Por que? O entendimento é pacifico ou há interpretações dissonantes? Se ao nascituro é assegurado o direito de indenização. em razão de óbito do genitor.51 3. . fica mais fácil a compreensão da proficiente sistematização de Álvaro Villaça Azevedo. 3.2 impura Já expostas as responsabilidade subjetiva e objetiva. dentro de casa.47 A responsabilidade objetiva dos pais. por sobrecarga de energia elétrica. distinguindo a responsabilidade civil objetiva em pura e impura. por que. justificando. tem ele personalidade jurídica? Qual a diferença entre empregado e preposto? Se o direito de greve é constitucionalmente assegurado. março de 2007. por exemplo. cabe ação de perdas e danos? Contra quem? Classifique tal responsabilidade. deriva da lei ou do desenvolvimento de atividade de risco? Indique os artigos de lei aplicáveis em cada caso. pura. Pais que perdem filhos em acidente. Responsabilidade civil. por extensão dos tutores e curadores. A responsabilidade decorrente da coisa. na jurisprudência transcrita. defende direito próprio? Todo rompimento de noivado motiva responsabilidade civil? E de namoro? Qual o dever jurídico derivado da propriedade de coisa? E de pessoa sob sua guarda e companhia? Distinga responsabilidade civil direta da indireta. III – De retorno à objetividade Responsabilidade civil objetiva: 3. Álvaro Villaça. 20 e ss.

No entanto. 14: 52 Ver arts. contaminando o mar por vários quilômetros. 1º. da Lei 6. independentemente da existência de culpa. de 24. afetados por sua atividade. de 17 de outubro de 1977. que será apurada mediante a verificação de culpa (CDC.274. se por motivo absolutamente estranho. que dispõe sobre a responsabilidade civil por danos nucleares. que disciplina a ação civil pública. ocorresse o vazamento de uma usina nuclear.07.938.]”. porquanto a lei assim o determina. 13. nas hipóteses referidas. devidamente autorizada.” E conclui: “O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal. a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros. ainda que isenta de qualquer culpa. O Código de Defesa do Consumidor é um microssistema que disciplina a responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. nos termos desta Lei. o construtor. Em ambos os casos vige a teoria do risco integral. que em razão de um tremor de terra (fato jurídico em sentido estrito extraordinário). Indeniza-se por mero fato jurídico ou até por ato lícito. de 31 de agosto de 1981.453. nos seus arts. 12 desse diploma: “O fabricante. de 6 de junho de 1990.85. prevê no artigo 14. independentemente da existência de culpa. § 4º). . nacional ou estrangeiro. Dispõe o art. art. 14. Excetuada a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais. A Lei 6..347.48 A responsabilidade civil objetiva pura implica indenização mesmo que inexista culpa de qualquer dos envolvidos no evento danoso. 12 a 14. De nada lhe aproveita a prova de estar imune de culpa. e o importador respondem. Essa atividade exercida pela Petrobrás é lícita. a Petrobrás teria o dever de indenizar. a responsabilidade civil pela reparação de dano nuclear causado por acidente nuclear”. A Lei 6.. Suponha-se. regulamentada pelo Decreto 99. E pelo art. que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente. pela reparação de danos causados aos consumidores [. da Lei 7. independentemente da existência de culpa. responderá ela pelos danos. Também assim responde o fornecedor de serviços. o produtor.938. fendesse oleoduto da Petrobrás. pela redação do art. I. Seria grave desastre ao meio ambiente. estabelece no artigo 4º: “Será exclusiva do operador da instalação nuclear. por danos causados ao meio ambiente. As relações de consumo também caracterizam a responsabilidade civil objetiva pura. é o poluidor obrigado. todas as demais atividades consumeristas são objetivas. § 1º: “Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo.”52 Suponha-se ainda. o comerciante é igualmente responsável.

mais adiante: [. de modo que o motorista. por força do artigo 933. a culpa de terceiro. independentemente da existência de culpa. Destaca-se do corpo do acórdão: [. provada esta culpa. No antecedente há um ato culposo. verificando as condições climáticas desfavoráveis. por exemplo..2 Responsabilidade civil impura A responsabilidade civil impura encontra. o empregador responde objetivamente. é responsável por qualquer dano que venha a causa em razão de sua imprudência [. mesmo diante de tais sinais. do Código Civil. Analisa-se a seguinte jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais: Acidente de trânsito – Aquaplanagem – Condutor que. como substrato.] A jurisprudência. Toma-se o artigo 932.49 “O fornecedor de serviços responde.] – Em matéria de acidente automobilístico. E prossegue. Corresponde à responsabilidade civil indireta quando há subjetividade no antecedente e objetividade no conseqüente. não podendo arguir em sua defesa a sua não culpa. pouco importando que o motorista seja . Em síntese. Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Reparação de danos – Proprietário do veiculo solidariamente responsável pelo evento dano causado pelo condutor a terceiros. que está vinculado à atividade do indenizador. abalroando automóvel que trafega em sentido contrário – Culpa caracterizada.. invariavelmente. a responsabilidade civil indireta prevista no artigo 932. deixa de parar o carro ou tomar outra medida de segurança. isto é.]. incisos I a IV. em razão da previsibilidade do evento. perde o controle do veículo e invade a pista contrária. não reduz a velocidade em asfalto molhado. para que no consequente o empregador responda pela indenização na forma objetiva.. tem entendido que a ocorrência de chuva forte e a existência de poças de água em rodovia tornam previsível a ocorrência de aquaplanagem. o proprietário do veículo responde objetiva e solidariamente pelos atos culposos de terceiro que o conduz e que provoca o acidente. perquire-se a culpa do empregado. especialmente desta Corte. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação de serviços... bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. continuando a movimento normalmente o veículo. do empregado. é extracontratual e objetiva impura..” 3.

Cív. Provada a responsabilidade do condutor. com anotações comprometedoras no seu prontuário. o seu mau uso cria a responsabilidade pelos danos causados a terceiros.. somente se o empréstimo fosse para pessoa não qualificada. pois entendeu o acórdão.] se a ofensa tiver mais de um autor. buscando fundamento mais técnico dentro da sistemática da responsabilidade civil. o proprietário o direito de regresso em desfavor do condutor. 934: “Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houve pago daquele por quem pagou [. o que o transporte seja gratuito ou oneroso. sua responsabilidade é objetiva impura. como criador do risco para os seus semelhantes [. salvo nas hipóteses dos incisos I a III. então. 53 CAVALIERI FILHO. 2ª T. condenação pela reparação do dano de ambos solidariamente. pois a actio in rem verso. a vítima dirige a execução apenas contra o proprietário do veículo. Prevalece a tese do colegiado mineiro. Esse direito regressivo na responsabilidade por fato de terceiro. está normatizado no art.. portanto. p. o proprietário do veículo fica solidariamente responsável pela reparação do dano. cit. Terá.2008. que paga integralmente a indenização. como o motorista notoriamente imprudente ou negligente. ninguém responde por fato de terceiro. o credor tem direito a exigir e receber apenas de um devedor solidário (CC. 53 O que restringe a responsabilidade do dono do carro. pois nesse sentido foi cristalizada a jurisprudência pelo Superior Tribunal de Justiça (RSTJ 127/269-271 ver a revista e refazer resumo da jurisprudência) 3. . 24. 198.] (TJMG.. Houve. Dá-se. op. j. in fine: “[. que as duas condutas concorreram para o dano. Desa. do Código Civil. É a letra do artigo 942.. RT 876/299 e segtes... assim o viciado em bebida.]”.3 Direito de regresso: a actio in rem verso Suponha-se agora. Recorda-se. transfere-lhe juridicamente a guarda e por ele passa a responder. Já o proprietário do veículo responde independentemente de culpa por ato de terceiro.50 seu empregado ou preposto. do Código Civil. rela.” Sergio Cavalieri Filho tem entendimento menos lato. Isso porque.. 932. uma vez que sendo o automóvel um veículo perigoso. do art. O condutor do veículo responde por ato próprio culposo. art.6. Tânia Garcia de Freitas Borges. todos responderão solidariamente pela reparação. Sergio. no mesmo sentido RT 868/214 e 877/313). 275). Para ele o empréstimo de veículo a parente ou amigo.

Todavia. 1 e 2.51 O direito de regresso tem a sua mais clássica forma de exercício garantida na sub-rogação. ficaria à margem de qualquer dever ressarcitório. o empregador e o comitente somente poderão agir regressivamente contra o empregado ou preposto se estes tiverem causado dano com dolo ou culpa. que trazem a íntima aproximação afetiva. onde e quando se revelou frágil. 679 (contrato de mandato). com ofensa à justiça e à equidade. de sorte o agente direto do dano. entretanto. prevista nos artigos 346 e seguintes. ir à colação”. “na hiportese do art.. art. vol. 934. parágrafo único (legítima defesa). Eis a oportuna lição de Washington de Barros Monteiro: Cícero apelidou-a [a família] de seminarium reipublicae. sem que o relacionamento. sendo uma inversão da ordem natural das coisas. do Conselho de Estudos Judiciários dos Juízes Federais. se não fosse assegurado o direito de regresso. absoluta ou relativamente incapaz. que deve uni-los. 37 ed. Desse mesmo sentimento se impregna a encíclica Casti Connubii.54 Diante de tal concepção seria incongruente o direito de regresso dos ascendentes perante os descendentes incapazes. mesmo agindo com culpa. assim entendendo pela interpretação 54 MONTEIRO.” A ratio legis dessa exceção inspira-se em valor maior. Curso de direito civil. A responsabilidade indireta por fato de outrem que age com culpa. excetuando a regra: “[. Ascendentes e descendentes são ligados por estreitos laços de solidariedade. Washington de Barros. 2.: direito de família. por Regina Beatriz Tavares da Silva. o enunciado 44. todos do Código Civil. educativa e produtiva – dentre todas as instituições públicas e privadas. admitiria o enriquecimento sem causa (CC. 786 (contrato de seguro de dano). citado por José de Aguiar Dias. Efetivamente. 884). pode. aí floresceu o Estado. expedida por Pio XI a 30 de dezembro de 1930. e atual. 930 (estado de necessidade).” Prossegue art. sofresse grave abalo. . a de maior importância. representando o núcleo fundamental. objetivou enfocar os erros e atentados contra o casamento. o que conduz considerar a família – que deve ser estável. 930. a família. pp. ver. que é a preservação do princípio de ordem moral e econômica que preside as relações familiares. Incide em outras hipóteses. 934. como asseguram os artigos 735 (contrato de transporte). São Paulo: Saraiva.] salvo se o causador do dano for descendente seu. nada podendo reaver do filho.. 2004. Bem por isso. isto é. onde e quando a família se mostrou forte. ao afirmar que a salvação do Estado e a prosperidade da vida temporal dos cidadãos não podem permanecer em segurança onde quer que vacile a base sobre a qual se apóiam e de onde procede a sociedade. procurando reintegrá-lo no plano divino. aí começou a decadência geral. a base mais segura em que repousa toda a organização da sociedade. afetiva. Pontes de Miranda. A encíclica CastiConnubii. preconiza “que o pai.

751. . que equivalem aos artigos 934 e 2.. É uma responsabilidade exclusiva dos pais pelo negligente exercício do poder familiar. e atual. do Código Civil. em que o menor impúbere é representado e o menor púbere. Rio de Janeiro: Renovar. 2006. Imagine exemplos de uma e de outra. pois apequenada a sua capacidade de discernimento. rev. Pelo menos não mais. Por coerência. pois. 11 ed. Da responsabilidade civil. p. do Código Civil revogado. Não dessa forma. quando pela tenra idade o dever jurídico dos pais de guarda e educação é mais exigido.. Mesmo nesta atualidade cujo arsenal de informações vai da via escrita e oral à televisiva e virtual. Ver CDC – artigo específico sobre a matéria Para reflexão Distinga a responsabilidade civil objetiva pura da impura. É válida somente quanto ao menor relativamente incapaz. Representação e assistência não se confundem e o legislador assim distinguiu para patentear. trazendo precoce aptidão de entender as coisas do cotidiano da vida. hipótese em que a vigilância dos pais é amenizada ante o grau de discernimento do filho.55 Ousa-se afirmar que essa lição pode ser recepcionada em termos mais restritos.793. para que os demais concorrentes à herança não sejam prejudicados pela conduta de quem sabe distinguir o que pode e o que não pode fazer no respeito aos direitos alheios. Aqui pode incidir a colação. Trazer à colação a indenização atendida pelos pais não contempla a ética e a equidade. se a criança causa algum dano nada lhe pode ser imputado.010. fugindo.524 e 1. 55 DIAS. a dessemelhança entre essas faixas etárias. O direito deve adequar-se a tão significativa mudança na vida social. assistido. tanto aqueles atinentes à personalidade quanto ao patrimônio. de acordo com o Código Civil de 2002 e aumentada por Rui Belford Dias. os tempos são outros de quando ensinou Pontes de Miranda.52 conjugada dos artigos 1. exposto na imaturidade daqueles com idade até 16 anos. É a pertinente distinção de tratamento preconizada no artigo 4º. do atual Código Civil. José de Aguiar. exatamente na consideração do grau de discernimento. no que tange ao menor absolutamente incapaz. não cabe tratamento semelhante quanto à colação. de maneira irretorquível. em evidente contrariedade à justa expectativa de toda sociedade. na observação diária da vida. dos exemplos do texto.

Mas o 56 REALE. quia duco. quem tem direito de regresso contra o causador direto do dano? E quem não tem? Justifique. encerra valor. sem consciência dos motivos determinantes de meu agir. não teria título para transferir ou transmitir valores a outrem. 378. Miguel. 4.1 conduta. conduzir-se implica possibilidade de escolha. na explicação desse apotegma Miguel Reale aduz: “Educo. é algo dirigido para um fim. ao conceber os conceitos abstratos. ou há dispositivo expresso nesse sentido no Título IX. 4. para o qual ele emprestou seu carro. porque sou capaz de conduzir-me.53 A responsabilidade objetiva impura equivale à responsabilidade objetiva indireta. o escritor Rudolf von Ihering assombrou-se diante da casa do joão-de-barro. somente ela é capaz de conduzir-se. De efeito. assentou duas parêmias que continuam a fazer fortuna: todo homem é pessoa e só o homem é pessoa. 10 ed. o que é específico do homem. há de se provar a conduta eficiente à sua produção e a quem essa conduta pode ser imputada. Filosofia do direito. Trata-se de exceção à regra do artigo 265.1 Conduta A modernidade. A conduta é inerente à pessoa. o dano e o nexo de causa e efeito. 1983. Se eu fosse meramente conduzido. também chamada complexa ou transindividual? Diz a jurisprudência que o proprietário de um veículo é responsável solidário com o motorista. Educo. Constatado o dano. São Paulo: Saraiva. aperfeiçoamento do modo de ser e agir. p.”56 Apenas por metáfora pode-se dizer que outro ser tem conduta. Ao lado do jurista. A responsabilidade civil conjuga três pressupostos: a conduta. do Código Civil? Na responsabilidade indireta impura considera-se a culpa? De quem? E na responsabilidade indireta pura? Na responsabilidade indireta. . Classifique as espécies de responsabilidade civil previstas nos artigos 936 a 940 e 949 a 953 do Código Civil. do Código Civil. IV – Pressupostos da responsabilidade civil 4. justificando.2 dano. um pássaro arquiteto. Capítulo I. 4.3 nexo de causalidade Os pressupostos expressam as condições ou as exigências imprescindíveis para a configuração de determinada figura jurídica.

227 e 228). Interessa ao mundo jurídico a conduta humana que cria. As manifestações de valores religiosos. o comportamento comissivo ou omissivo é o movimento interior da vontade que produz resultado no mundo exterior.54 joão-de-barro apenas repete uma atividade instintiva. sem poder distinguir o que era e o que é o caminho. 2ª edição. em certos momentos. Quem assistiu ao desabamento da ponte e. modifica ou extingue direitos. O aspecto físico não é acompanhado do psicológico. ou a omissão: deixar de regá-las. A vontade está ausente. a conduta é um comportamento humano que se exterioriza por meio de uma ação ou omissão. São Paulo: Saraiva. Na seara do direito não é suficiente o conceito naturalístico da conduta. não transmite como fazer a sua casa. não ensina. apud NORONHA. os atos do sonâmbulo. mesmo sem conhecimento do que seja lícito ou ilícito. Porém. estando na estrada. A conduta é mais do que um comportamento humano que se exterioriza em uma ação ou omissão voluntária. Apresenta dois aspectos: o físico ou material e o psicológico ou subjetivo. sendo necessário que produza efeito jurídico. Direito Penal. Massimo Punzo pergunta se as flores secam tanto quando o jardineiro não as rega. Campinas: Brookseller. É algo causado em seu ser. Em outros termos. É ato comissivo dar ou fazer alguma coisa. como quando as rega com uma solução de sublimado? 5 7 O psicológico ou subjetivo é a vontade que instrui a ação: regar as flores com uma solução de sublimado. ataque epilético. por ilícita. ou omissivo não fazer. . p. comente omissão ilícita” (Tratado de direito privado. pp. 1º volume. que é a consciência daquilo que se está fazendo. Não outra a lição de Pontes de Miranda: Tem-se dito que a omissão não pode ser causa de efeito. hipnose. Sendo assim. Portanto. sob a ótica naturalista. produz o efeito jurídico de transmissão da propriedade. Quaisquer movimentos espontâneos produzidos pelo susto. 119. razão por que não se precisa de explicação para se admitir que a omissão se tenha. Tal raciocínio desatende a que o ordenamento causal do mundo social conta com atos que em determinadas circunstâncias tem de ser praticados. na responsabilidade civil 57 PUNZO. Edgar Magalhães. mero tropeção. não escolhido por ele. artísticos. O físico ou material é perceptível no mundo exterior. não adverte o automóvel. 2003. delírio febril. vol. não são conduta uma vez faltos do elemento anímico. ou transeunte que se aproxima. A aquisição de um bem por meio da compra e venda é conduta. 22. inerente à sua espécie. ou outro veículo. O direito apenas torna-os possíveis. Massimo. porque a inação não muda o mundo exterior. 1963. garantindo-os. a conduta exige voluntariedade. científicos ou meramente estéticos são indiferentes ao mundo jurídico.

126. que percebe no embrião as características de individualidade e singularidade próprias de cada 58 FRANÇA. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. Portanto. 4.” 5 8 Embora aninhado no claustro da mãe. estabelecendo a sua ligação com o dano. como o comportamento voluntário. Demais disso. 1968. após aprovação legislativa. I. que produza dano a outrem. Toda pessoa tem direito de que se respeite sua vida. o § 3º. por isso a Biociência situa o início da vida na concepção. 4º: “Direito à vida. p. 1. foi modificado na parte que preveja o início da personalidade a partir do nascimento com vida. Rubens Limongi França conceitua nascituro como a “pessoa que está por nascer. vol. Manual de direito civil. determina que a personalidade inicia-se com a concepção. em geral. deve ir além. 3 ed. RT 793/280. Mais ainda. o nascituro. Pessoa natural capaz ou incapaz.” Embora esse Pacto não se atenha apenas a regular o domínio civil.55 pouco importa a simples produção de efeito jurídico. de 8 de dezembro de 2004. Nada mais acertado. já concebida no ventre materno. Apoiado na etimologia do vocábulo. comissivo ou omissivo. A Psicologia. . sinete do começo da gravidez. que os tratados e convenções internacionais. O Pacto de São José da Costa Rica estipula no seu art. acrescentou no art. incluído nesse rol o nascituro. no âmbito da responsabilidade civil. deve ser atribuída a uma determinada pessoa. RSTJ 161/395 A Emenda Constitucional número 45. do Código Civil. Esse efeito deve ser lesivo à personalidade ou ao patrimônio de outrem. 2º. imputável a uma pessoa natural ou jurídica. São Paulo: RT. Esse direito deve ser protegido pela lei e. de modo a se constituir no elemento que indica o responsável. de per si ou em grupo. biologicamente. não constitui parte de seu corpo. que é toda pessoa natural ou jurídica que sofre dano. serão equivalentes às emendas constitucionais. Rubens Limongi. ou seja. Daí conceituar-se a conduta. A nidação. o art. não é mais do que uma fase desse desenvolvimento. 5º. essa conduta danosa deve ser acompanhada do nexo de imputação. desde o momento da concepção.2 A vítima A responsabilidade civil deve inquietar-se com a vítima.

as vítimas podem deduzir sua pretensão em juízo. No outro extremo a morte. 167-168. não sendo as vítimas identificadas. que integram um grupo. Chinelato e. 5 9 Assim. Tutela civil do nascituro. parágrafo único. São vitimados os seus sucessores. pela ofensa de um direito da personalidade. em que os sujeitos. 13. penetra na incoerência. ou pela colocação no mercado de produtos com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança dos consumidores. 100. atuando na defesa de direito próprio. . 60 Fundo regulamentado pelo Decreto 1. Outras situações podem ser enfrentadas. de 9 de novembro de 1994. que também suscita problema quanto à vítima na responsabilidade civil. distinto do pai e da mãe. São Paulo: Saraiva. 2000. È como afirma Botella Llusia. da Lei 7. tendo apenas traços de um e de outro. escrita ou televisiva. com a destinação da indenização ao fundo criado pelo art. Nesse caso. p. No mesmo sentido: MARTINS-COSTA. Silmara J. defendendo seu direito. como qualquer outra vida. negar personalidade jurídica ao nascituro beira a aberração. Judith. 6 0 59 Apud ALMEIDA. de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública). como no caso dos interesses coletivos. de sorte. por lógico raciocínio o de cujus não possui nenhum direito à indenização. As vítimas podem estar ligadas por interesses difusos. são determináveis e ligados entre si por uma relação jurídica base. a exigibilidade da reparação do dano moral. Com a morte extingue-se a personalidade jurídica. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS. vol. a liquidação e a execução poderão ser promovidas coletivamente. 119. desde a concepção existe um novo ser. aqueles cujos sujeitos são indeterminados e ligados por circunstâncias do fato. ano 2000.56 ser humano. como no caso de vilipêndio de cadáver. A. classe ou categoria. quando mais de uma pessoa é vitimada pelo evento lesivo. de forma isolada ou em conjunto por meio de litisconsórcio.347. do Código de Defesa do Consumidor. É caso de dano coletivo. como as vítimas de publicidade enganosa ou abusiva por meio da imprensa falada. conforme também dispõe o art. 18. já tem capacidade de se desenvolver. assegura que o desenvolvimento do psiquismo humano tem início ainda no ambiente intra-uterino. Cabe. p. Bioética e dignidade da pessoa humana: rumo à construção do Biodireito.306. Cita-se como exemplo o condomínio.

responde o seu representante legal (CC. 986 deve ser interpretado em sintonia com os arts. art. do Conselho dos Juízes Federais.150). § 2º). art. 933). tendo que ressarci-lo. ou está de forma inadequada. ressalvadas as hipóteses de registros efetuados de boa-fé. na hipótese do ressarcimento devido pelos adolescentes que praticarem atos infracionais. Irregular é aquela cujo ato constitutivo não está inscrito no Registro Público. a irregular e a de fato. 116 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Se sociedade o seu contrato social na Junta Comercial. art. De fato é a que não possui nem mesmo contrato social ou estatuto escrito. Embora excepcional a penetração no âmago da pessoa jurídica.57 4. 985 e 1. Regular é a que tem o seu ato de constituição inscrito no Registro Público. de modo a ser considerada em comum a sociedade que não tenha seu ato constitutivo inscrito no registro próprio ou em desacordo com as normas legais previstas para esse registro (art. a responsabilidade solidária de seu representante legal (ver responsabilidade do incapaz). Tanto pode ser a pessoa natural como a jurídica. do Estatuto da Criança e do Adolescente: “o incapaz responde pelos prejuízos que causar de maneira subsidiária ou excepcionalmente como devedor principal. se houver . art. 1. conforme o teor do enunciado 40. quando demandadas. interpretando o art. 116. 985). A pessoa jurídica pode ser regular. 932).” Não afasta.” Todas essas pessoas jurídicas respondem pelos atos danos praticados em prejuízo alheio. Assim entende o enunciado 209.50. mesmo nesse caso.1. As duas. dado que as sociedades sem personalidade jurídica. se associação o seu estatuo no Cartório de Registro de Imóveis e Anexos (CC. ao relativamente incapaz pode recair a condição de devedor principal. Entretanto. art. Tal qual a vítima. nos termos do art. Se o absoluta ou relativamente incapaz for o autor do dano. no âmbito das medidas sócio-educativas ali previstas. compõem a categoria de sociedade em comum (CC.3 O autor Autor é o responsável pelo evento danoso. independentemente de culpa (CC. irregular e de fato. 12. não poderão opor exceções quanto à irregularidade de sua constituição (CPC. 986). do Conselho dos Juízes Federais: “o art.

pode ser imputada a autoria a pessoa diversa daquela que. Aqui a responsabilidade civil pode ser subsidiária ou solidária. É a responsabilidade civil indireta. integrante de um grupo. a quem cabe imputar a ação ou omissão lesiva. a autoria pode ser simples ou plúrima. mas as suas condutas isoladas não bastariam para a produção do evento lesivo. Ademais. Fica claro ante essas hipóteses. do Código Civil. Responde. dá-se o concurso de agentes. o dano pode ser provocado: a) pela conduta isolada de uma só pessoa. incide a responsabilidade civil solidária. sem unidade de desígnios. quando duas ou mais pessoas são responsáveis pelo dano. e) pela conduta de uma única pessoa. Em ambos os casos.4 De retorno à subjetividade: conduta culposa . que nem sempre os casos são de singelo equacionamento sobre quem deverá compor o prejuízo. Na primeira hipótese. conforme a letra do art. em regra. pelo inadimplemento contratual ou por ofensa à lei. Na outra. matéria que será detalhada no enfoque do nexo de causa e efeito. Em regra. sendo a conduta isolada de cada suficiente para a produção do evento lesivo. c) pela conduta de varias pessoas. sem unidade de desígnios. é o caso da co-autoria e participação. com a finalidade de lesão a bens ou direitos de outrem. uma só pessoa é responsável pelo dano. d) pela conduta de várias pessoas. pode ocorrer a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade (disregard doctrine). tornando-se impossível a sua identificação. É a responsabilidade civil direta. de sorte qualquer uma delas poderia ser a autora do ato lesivo. b) pelo concurso das condutas de duas ou mais pessoas todas cooperando entre si no desígnio de produzi-lo. produziu o dano. a autoria é imputada diretamente ao agente da conduta responsável pela eclosão do dano. Nada obstante. então.58 abuso da personalidade jurídica. ou seja. 50. 4. Assim. pelo dano os bens particulares de seus administradores ou sócios. com sua conduta.

de modo a não causar dano a ninguém. Compete ainda estar presente o nexo de imputação. O art. o contratante a quem o contrato aproveita responde por simples culpa. que é a forma inadequada de atuar. que é a transgressão de um dever jurídico previsto ou previsível. Não se observando esse dever de cuidado objetivo ocorre erro de conduta. Cumpre. como visto. então. além do que exige a imputação. Em termos objetivos. Em termos subjetivos é a possibilidade de o agente conhecer previamente o dever jurídico. do Código Civil. imputável a alguém em decorrência de fato intencional ou não intencional. a conduta culposa bifurca-se em termos subjetivos e objetivos. o que implica na conduta culposa do agente causador do dano. que infrinja bem jurídico alheio. 392. em outros responde por simples culpa. respectivamente doloso ou culposo. o que envolve a ideia de capacidade de discernimento. cautelosa. Para reflexão O que é conduta? . o doador apenas responde por dolo. no ato ilícito previsto no art. tendo condição de cumpri-lo. da sua Parte Especial. completar o seu estudo na apreciação do elemento psicológico. que desencadeia a incidência da cabeça do art. Por sua vez. na prestação de serviço gratuito a entidade filantrópica etc. por consequência a imputabilidade torna-se elemento intrínseco da culpa. Na teoria subjetiva da responsabilidade civil há casos em que só o dolo suscita a obrigação de indenizar. a culpa é a transgressão do dever jurídico preexistente imposto pela lei ou pelo contrato. a expressão conduta culposa designa a culpa em sentido amplo. o agente pode decidir praticar ou não a conduta que transgride o dever jurídico. precavida. de maneira que o agente incide na denominada conduta culposa. Não basta. De fundamental importância a distinção entre dolo e culpa. A vontade assim considerada adquire relevância jurídica ao se exteriorizar no mundo físico por meio de uma ação ou omissão. Somente o ato imputável a alguém qualifica o ato ilícito. e por dolo aquele a quem não aproveita. preceitua que nos contratos benéficos. o homem tem de pautar o que se convencionou chamar dever de cuidado objetivo: a conduta deve ser diligente.59 A responsabilidade civil subjetiva esteia-se. por exemplo. Portanto. Na doação simples. enquanto que o donatário por culpa. Ante tal situação. da Parte Geral do Código Civil. 186. 927. assim no comodato com relação ao comodante e comodatário. Na convivência social.

do Código Civil. a desclassificação da modalidade dolosa de homicídio para culposa deve ser calcada em prova por demais sólida.4. o fez Código Penal no art. Nele. Ente sem personalidade jurídica pode ser titular de direito? 4. quer a conduta e quer o dano. embora não seja este o motivo de sua conduta. Na hipótese de “racha”. ambos são queridos. isto sim. não é extraído da mente do autor. antevê pelas circunstâncias que pode ocorrer acidente grave. em se tratando de pronúncia. pretende vivenciar a emoção do evento. o que significa . na pratica. não se exige que o resultado seja aceito como tal. Diz eventual quando o agente preveja o resultado e admite o risco de produzi-lo. 2º. De efeito. incidindo. a regra exposta na velha parêmia in dubio pro societate. que a aceitação se mostre no plano do possível. A segunda parte do artigo refere-se à conduta de quem assume o risco de produzir o resultado. mas das circunstâncias. primeira parte do artigo em questão: o evento danoso corresponde à vontade do agente. tendo por consecução o ato ilícito. o que seria adequado do dolo direto. mesmo assim não se detém. quem se dispõe a essa direção perigosa na disputa de um “racha”. Se alguém toma de uma pedra e atira contra a vidraça. É o chamado dolo direto. Já os romanistas chamavam-no de dolus malus. O Superior Tribunal de Justiça ensina: Não se pode generalizar a exclusão do dolo eventual em delitos praticados no trânsito. mas.” Conceito recepcionado no âmbito civil. a eventual dúvida não favorece os acusados.60 Qual a conduta que interessa à responsabilidade civil? Todo indivíduo tem conduta? Explique. inclusive. 18: “Diz-se o crime: I – doloso. Há no dolo a consciência da conduta e do resultado. O Código Civil não o conceituou. Todavia. Quem pode ser vítima na responsabilidade civil? E autor do dano? Quando inicia a personalidade jurídica? Faça uma leitura do art. No iudicium accusationis. O dolo eventual. provável (RT 795/567). quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. não quer o dano. prevê a possibilidade de produzi-lo. é o dolo indireto que possui duas formas: dolo eventual e alternativo. aí. em confronto com a Convenção de São José da Costa Rica.1 O dolo Dolo é a vontade livre e consciente de transgredir direito.

diligência ou cuidado como razão ou substrato final da culpa.61 Extremam-se o dolo direto e o eventual. Previsível é o resultado que pode ser previsto. Afirma-se com razão. O dolo alternativo dá-se quando a vontade do agente dirige-se a um ou outro resultado. pois em face das circunstancias concretas podia e devia ter agido de outro modo. assim. que pode advir de sua conduta. Quer a conduta.” Implica na previsão ou previsibilidade do evento lesivo. Programa de responsabilidade civil. consequentemente. 7ª ed. acolhido na seara civil: “Artigo 18: Diz-se o crime: [. vamos sempre encontrar a falta de cautela. de sorte o seu erro é inescusável. 36. 2ª ed. mentalmente antecipado. de violar direito. o evitou? A resposta é simples: porque faltou com a cautela devida. 2007. É a fórmula de Frank: “seja como for. atenção. sem justificativa plausível. São Paulo: Saraiva. no segundo é a vontade apesar do resultado. É previsível aquilo que tem certo grau de possibilidade. Além da previsibilidade não há culpa. Esclarece Sergio Cavalieri Filho: Nesse ponto cabe uma indagação: se o resultado foi previsto. conquanto desacompanhada da intenção de lesar. CARAVALIERI FILHO. 1963. E. penetra-se no âmbito do caso fortuito ou força maior que será estudado no momento oportuno. 4.62 Logo. Previsto é o resultado representado. mas lhe cumpria ter agido diversamente. antecipado e. dê no que der.. na culpa o resultado não querido pode ser previsto ou previsível. p. São Paulo: Atlas. em qualquer caso não deixo de agir”. quando o agente deu causa ao resultado por imprudência. violou aquele dever de cuidado que é a própria essência da culpa. 1º vol. NORONHA. segundo as regras da experiência. 172. Por isso. É o conceito dado pelo Código Penal. Desde o Direito Romano afirmase: culpa est non praevidere quod facile potest evenire (é culpa não prever o que facilmente pode acontecer). negligência ou imperícia. Sem isso não se pode imputar o fato ao agente a título de culpa. Sergio. dizendo-se que no primeiro é a vontade por causa do resultado. Direito Penal. sob pena de se consagrar a responsabilidade objetiva... evitado. que na culpa a atuação do agente merece reprovação. por que o agente não o previu e.4. 61 62 Apud. 2 A culpa em sentido estrito Na culpa a pessoa pauta conduta equivocada. . Magalhães. mas não o resultado danoso. por que o agente não o evitou? Se era pelo menos previsível.61 dizer que tolera a ocorrência do dano. p.] II – culposo. Alguém que atira contra o desafeto para ferir ou matar.

em horário de encerramento das aulas. hipótese que ofende o desígnio da solidariedade (CF. O critério objetivo toma por modelo o bonus pater familias. art.9. Todos são tratados paritariamente: o que se exige de um. É chamada culpa em abstrato. exige-se do outro. contratual e . Assim.. que se encontrava próximo à escola. conforme orientação pacífica jurisprudencial. aquele que reúne as virtudes da probidade e da retidão. Obrigatoriedade de redução da velocidade. RT 848/225-226). Tratase da previsibilidade específica. frequente e involuntariamente. Rubens Cury. I. juntamente com outras crianças. não reduzir a velocidade do veículo nas proximidades de escola. O corpo do acórdão ensina: Não obstante. deve redobrar a sua atenção e diligência. como a reação das crianças é imprevisível. É que. j. Des.62 Não se trata a toda evidência da previsibilidade genérica: quem nasce há de morrer. Não são levadas em consideração as condições subjetivas das pessoas. por laudo oficial [. 8. considerada no momento da conduta. Responsabilidade civil. a ausência de previsão ou de previsibilidade do resultado lesivo denuncia falta de zelo no agir. Corresponde ao reasonable man da common law. nasce para o motorista a previsibilidade de possível acidente. inc. revelando insensibilidade social. pontificando que os homens diligentes e avisados. René Savatier opõe-se ao padrão do bonus pater familias. 18ª Câm. em horário de término das aulas. É coerente concluir. o idealizado homem médio. ainda que brincando na calçada. a culpa do motorista da apelada está de fato caracterizada.]. 3º. A imprevisibilidade do comportamento de uma criança gera a previsibilidade do acidente. Esse critério iguala todos os homens. ao avistá-la. reduzindo a velocidade ou até parando o seu veículo (TJSP. Para aferição da previsibilidade dois são os critérios: o objetivo ou culpa em abstrato e o subjetivo ou culpa em concreto. Para Orlando Gomes a imagem da perfeição domestica projetada na sociedade civil. última figura). O agente é indiferente à sorte alheia. por exemplo. o menos letrado e mesmo o marginalizado que nunca teve acesso aos bancos escolares. Morte.. rel. Hipótese em que restou comprovada a velocidade incompatível para o local.2005. que é um dos valores condicionantes do Estado Democrático de Direito. Considera-se como agiria em tais condições o homem razoável. transgridem um dever legal. da prudência e da diligência.. Atropelamento de menor de oito anos de idade. O erudito.

O juiz na apreciação da conduta culposa. 7. o homem de finanças que promove negócio duvidoso. são pessoas hábeis e precavidas. apreciar a culpa in concreto. a imprudência e a imperícia. analisa o coeficiente pessoal.4. le financer qui lance une affaire douteuse. . Não se indaga. prestigia os dois critérios. A culpa deles reside em dirigir essa habilidade à vontade de violação de um dever.3 Manifestações da culpa em sentido estrito A falta de cuidado objetivo.63 Já o critério subjetivo. a sua idade e até o ambiente em que convive. 63 SAVATIER. Leur faute est d’avoir consacré cette habilité à violer un devoir. 182. » 64 GOMES. as suas circunstâncias. Le roué qui séduit une fille. sem que dissimulem. p. Un coquin peut être très prudent. o seu grau de cultura. exemplifica ele. Et l’on se croit parfois très habile d’éluder volontairemente une obligation. Lúcida a lição de Orlando Gomes: Se alguém somente pode ser considerado responsável quando o ato que praticou lhe pode ser moralmente imputável. nesse passo. porque probos. na culpa em sentido estrito são conjugados os seguintes elementos: a) uma conduta voluntária que leva a um resultado involuntário. Já o patife pode ser bastante prudente em esquivar-se voluntariamente de uma obrigação. b) embora involuntário. Não é possível ignorá-las. t. que seduz uma moça. São Paulo: Max Limonad. A pessoa é considerada consoante as suas aptidões. le commerçant qui détourne déloyalement la clientèle d’un autre. Considera o fato em si. em virtude das diferenças pessoais. objetivando afastar as diferenças que inferiorizam e as equiparações que descaracterizam. contractuel ou moral. Em seguida. suscita três formas de manifestação da culpa: a negligência. as suas potencialidades. o resultado é previsto ou previsível. Em resumo. qual seria o cuidado ordinário a exigir do homem médio. de modo geral.63 moral. o comerciante que deslealmente desvia a clientela do concorrente. o ato que para determinada pessoa pode ser culposo. considera o coeficiente pessoal do agente causador do dano. isto sim. Orlando. René.64 De fato. Ora. é preciso levar em conta. A crise do direito. o seu sexo. o que o homem médio deveria fazer naquele momento. p. o que era exigível do agente nas circunstâncias em que se viu envolvido. sobretudo seu complexo individual. em boa lógica. Daí a necessidade de. que leva ao erro de conduta. Paris : LGDJ. Traité de la responsabilité civile en droit français. c) há uma falta de cuidado objetivo no dever de agir d) essa falta de cuidado é analisada tanto no sentido abstrato como no concreto. necessariamente. 1955. 1. sopesar a culpa apenas no aspecto subjetivo é um critério manco. ou a chamada culpa em concreto. sont généralement habiles et diligents. mas. 4. O canalha. não terá este caráter para outrem. 1951 : « Car des hommes diligents et avisés manquent trop souvent à un devoir légal.

Nada impede que um mesmo fato conjugue a negligência de duas pessoas. Privado. j. a inércia. a conduta do profissional que. Extrai-se da jurisprudência: Caracteriza erro médico. 123. O menor foi atendido com corte profundo e de gravidade não discutida. tal como se fez somente no terceiro dia. É a omissão indevida. Havia grande possibilidade de terem sido atingidas artérias importantes. Juiz Torres Júnior.990-4/9.64 A negligência tem forma negativa (in omittendo). é a inanição. É devida a indenização por danos morais decorrente da negligência atribuída a instituição bancária que procede a abertura de conta corrente realizada por estelionatário. sem tomar as mínimas precauções a fim de verificar a autenticidade da documentação entregue (extinto 1º TACivSP.3. rel. Do corpo do acórdão seleciona-se o seguinte trecho: O raciocínio desenvolvido pela r. por meio de uso de documentos falsos. diante da gravidade da lesão. A conduta correta teria sido encaminhá-lo a um especialista.2002. Não se usam os poderes da atividade. A conduta de quem se omite no socorro devido a outrem quando poderia fazê-lo sem risco à sua pessoa. .. sentença quanto à negligência do médico. é um exemplo. ap. Ai reside a culpa na manifestação da negligência. Nota-se. 5ª Câm. a passividade. censura a omissão de não encaminhar o paciente para o tratamento especializado por médico vascular em hospital com mais recurso. por isso comete ato ilícito. quando a própria coloração do dedo já indicava a necrose e a necessidade de amputação. rel. a amputação do dedo da vítima. O agente deveria agir. in RT 807/263). mas deixa de agir. 2ª Câm. Se tivesse sido atendido pelo vascular já no primeiro momento as conseqüências poderiam não ter sido tão drásticas (TJSP. o que traz como conseqüência. consistente no não encaminhamento do paciente a outro hospital com mais recurso diante da gravidade da lesão. 6. Todavia. passível de indenização. de Dir. Deixou de fazer o que deveria ter feito. in RT 807/235-236). o acórdão não disserta sobre falta de assistência médico-hospitalar. usando documento de terceiro inocente. Caso típico de negligência e a abertura de conta bancária por estelionatário. não encaminha o paciente para um especialista nem a um outro hospital para tratamento adequado. é perfeito. Maia da Cunha. em razão do negligente atendimento que dispensou. Des.

2007.. trata-se de um agir sem o zelo recomendado pelas circunstâncias do fato. ocasionando a colisão. rel. a ação inadequada ou desacompanhada das cautelas necessárias. D. sem cercar-se das cautelas devidas. demonstrando a desacautela do Município em ampliar a capacidade de vazão e em promover a contento a captação das águas pluviais. RT 595/142). rel. 4ª Câm. José Geraldo de Jacobina Rabello. Cív.1.84.65 Se as complicações pós-parto sofridas por parturiente decorreram da falta de limpeza uterina para remover possíveis fragmentos de placenta existentes após o parto. j. 29. o som muito alto que impeça o motorista ouvir os sinais sonoros de trânsito como o apito do agente público. Maria das Neves do Egito de A. É o movimento corpóreo positivo.2004. Responsabilidade civil – Ação de indenização por danos causados em abalroamento de veículos – Abertura de porta quando se aproximava um ônibus – Culpa do motorista do automóvel.12. Ferreira. […] Age com manifesta imprudência o motorista que. RT 868/323). resta caracterizada a negligência do hospital e do médico responsáveis pelo procedimento obstétrico.9. . 1ª Câm.. ensejadora de reparação dos danos morais sofridos em decorrência da falta de atendimento médico correto (TJSP. Desa. transbordamento reiterado de riacho na zona urbana. 7ª Câm. no entanto realizados sem a devida cautela de momento. avançar sinal vermelho. A atenção no trânsito vale também em outros procedimentos mais simples. 11. Eventual excesso de velocidade empreendida pelo condutor desta última é irrelevante em face da preponderância da culpa decorrente da manobra imprudente […] (TJPB. falta de limpeza de terreno baldio por inércia do proprietário. RT 824/203). j. Fartos são os exemplos no cotidiano do trânsito: pedestre que desrespeita a faixa de segurança. rel. não respeitar via preferencial.. falar ao telefone celular. Municipalidade que permite construções em área de risco à segurança dos moradores etc. Des. 6. efetua a transposição de pista asfáltica e acaba por obstruir a trajetória de motocicleta. j. A imprudência tem forma positiva (in comittendo). Ao passageiro que desce do automóvel parado cabe a cautela de verificar se pode abrir a porta sem perigo de colisão com outro veículo que a sue lato transite (1º TACivSP. Juiz Regis de Oliveira. Outros exemplos frequentes de negligência: não sinalizar buracos ou obstáculos nas ruas e estradas. ou a buzina de alerta de outro veículo que reparte o trâfego.

esse agir culposo é nitidamente distinguido e descrito em todos os seus contornos tanto pela doutrina como pela jurisprudência. 29. incluindo a imprudência e a imperícia. cujo direito não autoriza comportamento negligente. Cuida-se observar. . Um eletricista é imperito. VII. que a negligência e a imprudência concorram em um mesmo evento danoso. porque perfeitamente previsível. art. segundo o qual os veículos oficiais em estado de emergência. a possibilidade de acidente (Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo.66 Nada obsta. 24. 18. rel. j. ofício ou emprego. se põe a reparar a rede elétrica de determinado prédio e provoca um curto circuito. j.4. rel. Juiz Camargo Sampaio). na situação. do atual Código Civil. possuem direito de preferência.65 Movimentar no trânsito veículo em precário estado de conservação é negligência. situação que. tampouco se constitui em permissivo de irresponsabilidade civil (TJRO. acatada por Damásio Evangelista de Jesus. por não consertá-lo (conduta negativa). se propõe com ele a trafegar. 65 66 Vide CTB.66 A imperícia pressupõe arte ou ofício.74. dirigi-lo nessa condição é imprudência (conduta positiva) Imprudente se mostra o motorista que. no mesmo sentido RT 871/216). por falta de conhecimento técnico-profissional. não consigna a imperícia. a falta de conhecimento ou habilidade para o exercício de determinada profissão. 159. quando caracteriza conduta irregular nos termos do Código Nacional de Trânsito. Rowilson Teixeira. 5ª Câm.2007. RT 864/376. como o correspondente art. Especial. no fato de o agente deixar arma ao alcance de uma criança. nada mais é do que a inaptidão.2. A conduta negligente e imprudente de policial militar condutor de veículo público gera a obrigação de indenização em danos ao Estado. 2ª Câm. para a qual o agente encontra-se formalmente habilitado. Contudo. não se pode dizer que não agiu. do Código revogado. Igualmente. a imperícia manifesta-se na falta de capacidade para no exercício de uma determinada atividade profissional. Portanto. não eletricista. Outra pessoa. inc. de que a rigor a palavra negligência seria suficiente para ministrar todo o substrato da culpa. entretanto. não desconhecendo a precariedade do veículo. Des. Daí a incensurável observação do penalista Basileu Garcia. 186.. se assim procede é imprudente. letra “d”. que o art. não exclui o dever de cautela e segurança em prol da coletividade.

67 Além disso, basta lançar mão da analogia, pois o Código Penal no seu artigo 18, inciso II, a ela faz referência. É devida indenização por hospital, por danos material e moral, com base nos arts. 14 da Lei 8.078/79 e 932, III, do CC/02, em razão de ato de imperícia de seu funcionário que aplicou medicação intramuscular na região glútea de paciente, atingindo-lhe o nervo ciático e causando-lhe incapacidade permanente, com atrofia do membro inferior esquerdo (TJSP, 3ª Câm. Dir. Privado, j. 08.11.2005, rel. Des. Donegá Morandini, in RT 846/269). STJ, REsp. 228.199-RJ, rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 28. 5.2002, publ. 8.2002 Alguém pode ser perito, reunir as condições para determinado ofício, profissão ou arte, deixando de aplicá-las no caso concreto, é quando o agente labora com negligência. Renomado cirurgião que, no pós-operatório, por negligência deixa gaze no abdome do paciente. Ou sem embargo de possuir a devida perícia, procede temerariamente, com imprudência, o cirurgião que abandona o método tradicional e eficiente para certa cirurgia e faz experimento de nova técnica ainda não comprovada. 4.4.4 Presunção de culpa RT 564/217

A presunção de culpa constitui uma atenuação a teoria clássica da culpa. Em determinados casos a vítima fica em posição desconfortável ante a dificuldade de provar a culpa do agente causador do dano, quedando-se privada da possibilidade de ressarcir-se em face de um dano injusto. Diante dessa censurável situação, surgiram ideias apregoando a necessidade de se adotar a responsabilidade sem culpa. Em reação, os autores clássicos elaboraram a teoria da presunção de culpa, tendo em vista melhorar a posição da vítima, alargando o domínio de incidência da responsabilidade subjetiva. Pode decorrer da própria lei. O artigo 389, do Código Civil, diz que não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, regra repetida pelo artigo 475, do mesmo codex; trata-se de responsabilidade civil contratual subjetiva com presunção de culpa, pois na sistemática do Código no ilícito contratual a culpa está in re ipsa, dimana do próprio fato. É, pois, presumida, sendo que na responsabilidade aquiliana, como regra geral, a culpa deve ser provada pela vítima, como ficou exposto.

68 Excetuando a regra geral, porém, a responsabilidade aquiliana também admite a presunção da culpa, isto acontece somente quando o dano resulta de conduta anormal que, por si só, faz presumir o ato ilícito. Cesare Massimo Bianca afirma que o dano normalmente evitado por uma conduta diligente comporta a presunção da culpa67, por conseguinte é a experiência que demonstra as hipóteses em que cabe essa teoria atenuante da prova da culpa. Não difere a jurisprudência. [...] A culpa do agente não precisa ser cumpridamente demonstrada, quando o dano resulta de conduta anormal, que, por si só, faz presumir a censurabilidade do procedimento. Sendo virtual a falta do causador do dano, a ele é que incumbe o ônus da prova da culpa da vítima, para eximirse do dever de indenizar (TJMG, apelação nº 19.876, da Comarca de Belo Horizonte, rel. Des. Umberto Theodoro, in THEODORO JUNIOR, Humberto. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência, 3 ed. Rio de Janeiro: Aide Ed., 1993, p. 85). Não se trata, a toda evidencia, de desarrimar o pressuposto da culpa, mas propiciar à vítima uma posição de vantagem, o que significa dizer, a presunção de culpa é matéria de prova. O Código de Processo Civil dispõe no art. 333 que o ônus da prova incube ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito (actori incumbit probatio). Pela presunção de culpa inverte-se o ônus. Ao devedor incumbe a prova de que não laborou com culpa no descumprimento do avençado. A presunção é relativa (juris tantum), admite prova em contrário, até porque se fosse absoluta (juri et de juris), não admitindo prova em contrário, seria mero jogo de palavras; dar-se-ia a responsabilidade civil objetiva. Tal expediente técnico-probatório reflete no deslinde da questão, a vítima sai em sensível vantagem, porquanto a prova da culpa mostra-se crucial em não raras circunstâncias, tanto que alguns autores chegam a chamá-la de probatio diabolica. De efeito, a exigência de que a vítima demonstre a culpa, impõe ao juiz tarefa extremamente árdua, verdadeira apreciação psicológica que chega a extravasar o alcance das atividades judiciais, o que levou na literatura francesa Tourneau e Cadiet a forjarem as seguintes perguntas: “que juiz poderia sondar os rins e os corações? Seria isto verdadeiramente justiça? Por seu turno, Josserand assim questiona:

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BIANCA, Cesare Massimo. Danno inguisto: a proposito del risarcimento da lesione di interessi. Rivista de Diretto Civile, v. 5, 2000, p. 581: “Il danno normalmente evitato da una condotta diligente comporta quindi la presunzione di colpa.”

69 Como um operário que se feriu durante o seu trabalho, pode demonstrar a culpa do patrão? Como o pedestre, colhido por um automóvel, num lugar solitário, à noite, na ausência de testemunhas, pode provar – supondo-se que tenha sobrevivido ao acidente – que o carro não estava iluminado ou que corria a uma velocidade excessiva? Como o viajante que, no curso de um trajeto efetuado em estrada de ferro, cai sobre a via, pode provar que os empregados tinham negligenciado no fechamento da porta, logo depois da partida da última estação? 68 Para melhor entendimento do que segue adiante é imperioso esclarecer que na égide do Código Civil revogado (art. 1.521), os casos elencados no art. 932, do atual Código Civil, eram resolvidos pela presunção de culpa, portanto harmonizados na responsabilidade civil subjetiva, com inversão do ônus probante. Hoje os mesmos casos são considerados responsabilidade civil objetiva. É a denominada responsabilidade objetiva impura na sistematização de Álvaro Villaça Azevedo. Apegados a discussão travada desde o Código de Bevilaqua, renomados civilistas entendem que a presunção de culpa é uma responsabilidade civil objetiva, por dispensar a vítima da prova da culpa, cumprindo-lhe provar apenas a conduta e o dano. Não é a melhor exegese. Reforça-se, a teoria de presunção de culpa foi esculpida, em Franca, pelos subjetivistas na elaboração de argumentos contrários às ideias nascentes da responsabilidade civil objetiva. Especificamente, para rebater as ideias objetivas de Saileilles e Josserand na interpretação do art. 1.384, do Código Civil de Napoleão, pontificou Leon Mazeaud: A jurisprudência, ao contrário, não vê no art. 1.384, § 1º, senão uma consagração da idéia de culpa. Se o guarda é responsável pelo dano causado por sua coisa, é porque se presume a sua culpa, ou mais exatamente, porque é culpado de ter deixado esta coisa escapar-se de sua guarda e cometer um dano. Culpa ou presunção de culpa, tal continua a ser o fundamento da responsabilidade do fato das coisas, como o fundamento de toda a responsabilidade civil. Assim, permanecendo-se inteiramente fiel à regra tradicional da culpa, pode-se dar satisfação às vítimas do maquinismo moderno, dispensando-se de provar a culpa da guarda da coisa. O resultado procurado foi atingido sem tocar nos princípios.69
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TOURNEAU, Philippe le. CADIET, Loïc. Droit de la responsabilité. Paris: Dalloz, 1998, p. 754: Quel juge pourrait sonder les reins et les coerus? Serait-ce vraiment justice? JOSSERAND, Lois. Evolução da responsabilidade civil, in RF 86/551. 69 MAZEAUD, Leon. Henri Capitant e a elaboração da teoria francesa da responsabilidade civil. Revista Forense, junho de 1940, vol. LXXXIII, p. 398 e segtes. Conferência proferida em 21 de dezembro de 1937, na Faculdade de Direito da Universidade Imperial de Tóquio, em homenagem à memória de Henri Capitant.

70 No mesmo diapasão o proficiente ensino de Almino Lima: “tratando-se, contudo, de presunções juris tantum, não nos afastamos do conceito de culpa da teoria clássica, mas apenas derrogamos um princípio dominante em matéria de prova”.70 Lapidário Caio Mário da Silva Pereira ao lembrar que a teoria da presunção de culpa é “uma espécie de solução transacional ou escala intermediária, em que se considera não perder a culpa a condição de suporte da responsabilidade civil, embora já se deparem indícios de sua degradação como elemento etiológico fundamental da reparação”. Mais adiante detalha: [...] na tese da presunção de culpa subsiste o conceito genérico de culpa como fundamento da responsabilidade civil. Onde se distancia da concepção subjetiva tradicional é no que se concerne ao ônus da prova. Dentro da teoria clássica da culpa, a vitima tem de demonstrar a existência dos elementos fundamentais de sua pretensão, sobressaindo o comportamento culposo do demandado. Ao se encaminhar para a especialização da culpa presumida, ocorre uma inversão do onus probandi. Em certas circunstâncias, presume-se o comportamento culposo do causador do dano, cabendo-lhe demonstrar a ausência de culpa, para se eximir do dever de indenizar. Foi um modo de afirmar a responsabilidade civil, sem a necessidade de provar o lesado a conduta culposa do agente, mas sem repelir o pressuposto subjetivo da doutrina tradicional.71 Na mesma linha segue Sergio Cavalieri Filho: A culpa presumida foi um dos estágios na longa evolução do sistema da responsabilidade subjetiva ao da responsabilidade objetiva. Em face da dificuldade de se provar a culpa em determinadas situações e da resistência dos autores subjetivistas em aceitar a responsabilidade objetiva, a culpa presumida foi o mecanismo encontrado para favorecer a posição da vítima. O fundamento da responsabilidade civil, entretanto, continuou o mesmo – a culpa; a diferença reside num aspecto meramente processual de distribuição do ônus da prova. Enquanto no sistema clássico (da culpa provada) cabe à vítima provar a culpa do causador do dano, no de inversão do ônus da probatório atribui-se ao demandado o ônus de provar que não agiu com culpa.72

70

LIMA, Almino. Culpa e risco. 2 ed. São Paulo: RT, 1998, p. 72. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil, 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991, pp. 280, 281 e 283. 72 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil, 8 ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 39.
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afastada está a eximente. Discute-se. a responsabilidade civil dimana da mera infração da norma.”73 Dentro dessa ótica. III. na responsabilidade objetiva o que se presume é a própria responsabilidade. III. Ora. mas não é menos verdade redizer. conforme disposição do art. Um empregado. o passado do Código de Bevilaqua e o presente do Código de Reale. Nesse caso. A responsabilidade do empregador era fundada na culpa presumida. eximiase da reparação. São Paulo: Saraiva. 1.4. essa prova elide a presunção de culpa. inc. 4 ed. ocasiona acidente de trânsito. p. categoricamente. inc. pois. Nada favorece ao agente a prova de que não atuou com dolo ou culpa. Agora. de regulamento ou mesmo de determinadas regras técnicas do trabalho.). 73 LISBOA.71 A distinção é feita com propriedade por Roberto Senise Lisboa. VER RT 597/136 Retomam-se os dois sistemas. porque a sua responsabilidade promana da lei como objetiva. por completo. Manual de direito civil. uma vez que o agente não é responsável se provar a sua não culpa.. em nada lhe aproveita a prova de sua diligência e zelo. a presunção de culpa demonstra uma tendência à objetivação. 932. ao destaca os sistemas de responsabilidade analisados sob o prisma da culpa: “responsabilidade subjetiva. volume 2: obrigações e responsabilidade civil. a presunção de culpa é própria da responsabilidade subjetiva. art.5 Culpa contra a legalidade Foi esculpida pela doutrina a teoria da culpa contra a legalidade. 2009. a responsabilidade objetiva não admite tal discussão. que lhe imputa o árduo ônus da prova em contrário. 225. . criando para o agente uma presunção relativa de culpa. justamente por abstrair da culpa para imputar o an debeatur. a culpa do agente causador do dano. do Código Civil de 1916. ofício ou profissão. do Código Civil de 2002.521. responsabilidade subjetiva com presunção de culpa e responsabilidade sem culpa (objetiva. 4. Essa modalidade de responsabilidade civil prescinde da culpa. É verdade dizer. Eis a questão chave: na responsabilidade objetiva o agente que provar ausência de culpa elide a sua responsabilidade? A resposta é não. Roberto Senise. não a culpa. assim entendida se o dever transgredido resulta de texto expresso de lei. Se o empregador provasse que havia adotado toda prudência e zelo para com a atividade de seu empregado. No entanto. ao dirigir o veículo do empregador durante e em razão a jornada de trabalho.

afrouxou sua cautela ou se deixou engolfar em pensamentos ou recordações que determinaram nele. uma diminuição da atenção ou de vigilância quando ao que lhe ia em redor. Pratica de responsabilidade civil.” Dá. continua responsável pelos danos que poderiam prever e evitar. que su conducta prevea y evite la imprudência y el descuido de los demás” (Responsabilidad extracontractual. naquele instante. São Paulo: Saraiva. y Ramos S. quem dirige de conformidade com o Código de Trânsito e o seu regulamento. . p. Que não se descure jamais de sua atenção. Que se acautele sempre. Wilson Melo da.74 Na expressão de Wilson Melo da Silva “o só fato da transgressão de uma norma regulamentar materializa. Nesse sentido Jorge Peirano Facio: “no es suficiente que una persona actúe con toda la diligencia de su parte para evitar la culpa. abroquelado numa preferência que lhe sabia assegurada pelo Código de Trânsito. a mínima desatenção. 1975. es necesario. uma culpa. Da responsabilidade civil automobilística. não exime o motorista de pautar cautelas suplementares. B. Há aqui uma complementação. Rio de Janeiro: Jurídica Universitária. Já é a principal causa da morte dos jovens até 25 anos de idade. ocasionando acidente. O menor descuido. e de sua prudência. pelo menos em parte. o exemplo de o motorista abusar da velocidade além dos limites estabelecidos em determinados locais. Montevidéu: Ed. assim. 341. p. mesmo assim. Só pelo fato dessa transgressão normativa incide em culpa.A. Martinho. 49 e 53. Não é uma posição isolada.. Por isso. 75 SILVA. atuando com toda diligência a ponto de prever e evitar a imprudência alheia. 48. que não se tranqüilize por se saber um profundo conhecedor das normas de trânsito. daí decorrente. poderia acarretar. además.” E aduz: “a teoria da culpa contra a legalidade tem tido sua mais constante aplicação exatamente no campo da responsabilidade civil automobilística. por exemplo. p. um acidente pelo qual teria concorrido. Ônibus escolar estacionado em parada de embarque e desembarque de alunos exige do motorista que o ultrapassa o exercício da previsão: um aluno. aquele que. que os acidentes de trânsito crescem de modo assustador. ainda mesmo que esteja a trafegar na sua devida mão e com o seu carro em perfeitas condições técnicas. em seguida. face à imprudência alheia. levando-o a indenizar pelo eventus damni. 1954. O direito de ultrapassagem. 58 e 125. mormente se criança 74 GARCEZ NETO. Oportuna a severa advertência desse civilista das Alterosas: Quem tem às mãos um volante. 2 ed. pois essa conduta indispensável não exclui as regras de direito comum modeladoras no dever de não lesar (neminen laedere).72 Martinho Garcez Neto resume que essa modalidade de culpa opera-se “quando a simples infração de norma regulamentar é fato determinante da responsabilidade civil”.75 A estatística tem demonstrado. tout court. 1970.

daí a sua culpa pelo evento e sua obrigação de reparar o dano.962. está estampada no próprio fato. 7 ed.] A causa preponderante do acidente foi a invasão da via preferencial pelo veículo do apelante.73 poderá. Irrelevância. invadir o leito carroçável. a justificar apenas a aplicação de penalidade administrativa (RJTJSP 44/89). São Paulo: Saraiva. p. in Wilson Bussada. [. V. Ainda assim o fato de dirigir com a carteira de habilitação vencida: Não é possível reconhecer a existência de culpa concorrente da vítima pelo simples fato de que esta dirigia com a carteira de habilitação vencida. 76 MONTENEGRO. 135. Carlos Roberto. Não obstante.1975. vol. GONÇALVES. No mesmo sentido decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Indenização – Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Culpa – Não a configura o estacionamento em local proibido. De efeito.5. Responsabilidade civil: doutrina. Anaconda Cultural. Filho do autor que dirigia sem estar habilitado para tal. 4ª Câm. por si. Antônio Lindbergh. Danos e indenizações interpretados pelos tribunais. a culpa contra a legalidade deve ser recepciona com reservas. j. Cível. . Outro campo fértil à teoria da culpa contra a legalidade situa-se nos acidentes do trabalho: Culpa contra a legalidade. têmna como inclusa na culpa presumida. não há como presumir a participação culposa da vítima no evento apenas com base em tal assertiva (STJ RDPR 30/334). as duas teorias entendem que a culpa está in re ipsa. Juiz Ulysses Lopes Mendes Silva. sem qualquer consideração a respeito da teoria da “culpa contra a legalidade” aqui não aplicável (TAPA. É o que modernamente chama-se direção defensiva. Procedência. Montenegro e Carlos Roberto Gonçalves76 criticam essa teoria. São Paulo: Jurídica Brasileira. a sua prova. p. 825. isto é. 3. contudo não dar ensejo ao acidente: Acidente de trânsito – Invasão de via preferencial pelo veículo do réu.. p. 1985. Antônio Lindbergh C. sem que se torne necessário a sua demonstração. Infração administrativa que não se confunde com a culpa civil.546). 1996. 9. conforme jurisprudência transcrita.. item 1. rel. Muito embora tal fato seja. 2002. Pode alguém dirigir sem habilitação legal. Responsabilidade civil. Nem sempre a infração de disposição regulamentar mostra-se como causa eficiente do dano. um ilícito. imprudentemente. jurisprudência. Culpa configurada.

a ser vista oportunamente. açambarca situações gerais. sendo.4. A culpa grave é a atuação informada pela inescusável falta de cautela. por ser mais restrita. que se depara com a caça perto de seu companheiro. p. 4. ofício ou profissão. in vigilando e in custodiendo. in custodiendo pela falha no guardar a coisa inanimada ou o animal com o cuidado objetivo. 932 a 934 e 936 a 938). não o conclui. “que se verifica no processo de formação de um contrato. uma dessemelha da outra. como no inadimplemento relativo ou absoluto do contrato. leve e levíssima A graduação da culpa em grave. em idênticas condições. demonstrando adentrada insensibilidade social. in contraendo A culpa diz-se também in eligendo se resulta da má escolha de representante ou preposto. por isso é chamada culpa consciente. desde que amplamente previsível o resultado. causando prejuízo à outra”. é fruto da incúria. o já mencionado homem médio. todavia. a culpa contra a legalidade espécie. comitentes. que preveja a responsabilidade objetiva dos empregadores. 2003. pode atingir a 77 Direito civil: introdução. como se tivesse pretendido o resultado.4. Percebe que atirando no animal. quando uma das partes. Arts. Dessa forma. da irreflexão injustificável à pessoa normal. pois. É o clássico exemplo do caçador. a culpa grave é sinetada pela negligência rematada. É gênero. 5ª ed. in vigilando se decorre da ausência de fiscalização de pessoas sob a guarda e responsabilidade. pais e proprietários ou possuidores de coisas animadas e inanimadas (CC.77 É o caso da responsabilidade civil pré-contratual. perderam significado com o atual Código Civil. . entretanto. indo. 4. frontalmente contra o valor constitucional da solidariedade. a pessoa de inteligência e prudência normais. assim. A presunção de culpa é mais ampla.6 Culpa in eligendo. sem intenção. Francisco Amaral destaca a importância de outra forma de manifestação de culpa. vicinal ao dolo eventual. Rio de Janeiro: Renovar. o regulamento ou dever de obediência a determinadas regras técnicas do trabalho.7 Graus da culpa: grave. a in contraendo. Essas espécies. injustificadamente. É quando. 553. leve e levíssima deve ser procurada na comparação da conduta do causador do dano com aquela que teria revelado. o agente comete a ação ou omissão causadora do dano. pela imperícia grassa ou pela imprudência grosseira.74 A rigor. não se limita como a culpa contra a legalidade às hipóteses de contravir a lei.

Polêmico debate foi travado no julgamento da causa. Ato contínuo. José de Aguiar. Da responsabilidade civil. Debalde fundamentado parecer do penalista Damásio Evangelista de Jesus no sentido da conduta dolosa78. cumpre lembrar a oposição de José de Aguiar Dias. Rio de Janeiro: Renovar.80 78 VARELLA. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. que no mais das vezes é difícil distingui-los. a imprudência é tão grave. Nesse entretanto. 79 DIAS. criminal e do trabalho. ajustaram fazer uma brincadeira. confundir atos praticados de boa fé com os realizados de má fé fere a equidade. atravessaram a rua e derramaram o líquido em Galdino Jesus dos Santos. Continuaram o passeio.75 pessoa. Por isso conclui. 2006. não se confundem. a intenção que a preside. e atual.] pode este actuar com dolo e o juízo de reprovação ser menos severo do que se actuasse com mera culpa. Momentoso homicídio concentrou a atenção dos estudiosos do direito. produzindo-lhe a morte. 1999. p. que culpa é culpa e dolo é dolo. compraram dois litros de álcool acondicionados em vasilhames plásticos. que coloca em serio risco o bem maior. que a culpa consciente e o dolo eventual tanto se avizinham. 2001. Quatro jovens. porém. É mais grave a negligência daquele que não apagou a fogueira que ascendeu na floresta. Às de 5. São Paulo: Editora CD. tidos de boa família. com interessante enfoque sobre a diferenciação da culpa consciente e do dolo eventual. fica mais complexo na bem posta lição do lusitano Fernando Pessoa Jorge: [. que não aceita a equiparação do dolo à culpa grave. no interior de um automóvel passeavam pelas avenidas de Brasília. mas não executaram o fato de imediato. retornaram ao fatídico lugar. índio Pataxó. encontra-se a íntegra do parecer citado. p. do que o dolo de quem causou propositadamente um dano ligeiro em bem alheio.79 O tema. Esconderam o veículo que ocupavam. relegando um dos critérios mais justos da ação humana. p. 80 JORGE. Coimbra: Almedina.00 horas da manhã. Luiz Salem e outra. por Rui Belford Dias. como é mais censurável a atitude do médico que se esqueceu de visitar um doente grave. Fernando Pessoa. do que aquele que conscientemente faltou à visita prometida. riscaram fósforos e incendiaram o desprotegido homem. 112-115. o Tribunal Há de se ver. quando sabia que o estado do enfermo não reclamava a sua presença. daí estimulou a parêmia: Culpa lata dolus equiparatur. 11 ed.. 295 e segtes. contudo confia em sua pontaria. rev.. ao avistarem suposto mendigo que dormia no banco que guarnecia determinado ponto de ônibus. .00 horas da madrugada. Dirigiram-se a um posto de combustíveis. Para ele. Por volta das 3. 359. Ou seja. Prática das ações de indenizatórias: justiça civil. peremptoriamente.

82 O fato de o fogo ateado pelos réus em parte do pasto de sua propriedade ter sido propagado a propriedade vizinha causando danos a ela implica responsabilidade civil deles. apenas.10. p.. j. 2003. aquele Código. vol. 357. 37. Age com culpa o motorista que. 2ª T. rel. Des. a preferência é do veículo que por ela estiver circulando (art.2007. 386. 23. VI. Rio de Janeiro: Forense. de regra. Para o lusitano Fernando Pessoa Jorge o devedor não responde por culpa levíssima na responsabilidade civil contratual. ingressa em rotatória sem atentar para o direito de preferência. a gravidade da culpa não exercia qualquer influência na reparação do dano. RT 822/379). E a culpa levíssima. . Coimbra: Almedina. fixava-se a sua reparação pela sua 81 JORGE. não importando que tenham sido absolvidos no âmbito criminal com base no art. em que o juízo de reprovação é menos rigoroso e até mesmo a culpa levíssima enseja a obrigação de indenizar ( extintoTAPR. pois os textos romanos aludem. pois. diversamente do Direito Penal. 10ª Câm.76 A culpa leve é a ausência de diligência média comum a qualquer pessoa. 9.2003. ofertando-se à colisão em sua lateral esquerda traseira (TJDF. equiparava a culpa ao dolo para fins de reparação do dano e nada se importava com os graus da culpa. 1. a culpa leve e a culpa levíssima implicam em um erro de conduta no qual qualquer pessoa está sujeita a cometê-lo. por ser uma falta de atenção ou insuficiente reflexão comum no cotidiano da vida. 2. 29. 82 ALVES. b. 1999. vinda a interceptar a trajetória de veículo que por ela trafegava.81 dai adágio lex aquilia et levissima culpa venit. É dizer. própria do homem médio. Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais. do Código de Trânsito Brasileiro). rel. Fernando Pessoa. sem tomar as devidas cautelas. José Carlos Moreira. j. Juiz Guido Döbeli. porquanto inerente ao cuidado meticuloso. RT 869/276).10. Jessuíno Rissato. é a falta evitável só por uma atenção muito diligente ou especial habilidade e conhecimento singular. forjado pelos juristas medievais na interpretação da Lex Aquilia de Damno. II. desprezada pelo Direito Penal. uma vez que a esfera penal não vincula a esfera cível. Direito Romano. p. Na vigência do Código Civil de Bevilaqua era de somenos importância a intensidade da culpa. do CPP. apenas na extracontratual. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. portanto a falta que pode ser evitada com a atenção ordinária. à culpa lata e à culpa leuis. Em se tratando de cruzamento com rotatória (ou “balão”). Nota-se. III.

84 Na lucidez de Pontes de Miranda “não se identifiquem o delito (ato ilícito) e a reparabilidade. Daí decorrente. que sentenciava nenhuma responsabilidade sem culpa. e aumentada por Rui Belford Dias. em face do disposto no artigo 944. ou melhor. Não basta o ato ilícito. 5º. desde sempre. ou como assegura Caio Mário: “o dano é elemento ou requisito essencial na etiologia da responsabilidade civil”. p. 85 Na sempre repetida lição de José de Aguiar Dias: “é verdadeiro truísmo sustentar o princípio. chiamata dal Bigot-Préameneu. piu ingegnosa che utili nella pratica. 1991.. p. 179: “La tripartizioni delle cope. 86 DIAS. vol. logicamente não pode concretizar-se onde nada há que reparar”. 43. 85..83 Não acontece no atual Código Civil. que dirige veículo em alta velocidade pelas ruas da cidade. Rio de Janeiro: Renovar. 1895. 2ª ed. o que será visto oportunamente. 5 Dano O dano (damnum) é o útero que gera a responsabilidade civil. leve e levíssima é mais engenhosa que útil na prática.77 extensão e não pelo grau da culpa. parágrafo único. porquanto responsabilidade civil sem dano é enriquecimento sem causa para quem recebe a indevida reparação. Rio de Janeiro: Forense.1 Modalidades de reparação 83 LOMONACO. . Caio Mário da Silva. trovasi abbandonata dal Codice francese e dall italiano. revista e atualizada de acordo com o CC de 2002. que criou a indenização por equidade na consideração dos graus da culpa. porque. Da responsabilidade civil. Napoli: Presso Nicola Jovene & Cº LibraiEditori. e pois sem que se possa reclamar a reparação”. dano é a consequência da conduta humana capaz de produzir lesão a direitos ou a interesses alheios juridicamente protegidos. 53. e o direito brasileiro. sem dano. José de Aguiar. 2006.” 84 PERREIRA. a assertiva é outra nenhuma responsabilidade sem dano. ato ilícito. p. mas nada responde na área civil pela ausência de dano. Giovani. Pode haver delito. vol. p. 5. Um motorista. está superado o princípio da ideologia liberal. 969. Pontes. foi munificente na sua aversão a essa figura que reverbera o injustificado empobrecimento de alguém. o que levou Lomonaco a afirmar que a distinção em culpa grave.86 Dessa forma. Tratado de direito privado. Responsabilidade civil. 11ª ed. Instituizioni di diritto civile italiano. resultando a responsabilidade civil em obrigação de ressarcir. e no âmbito administrativo por violar as normas regulamentares de trânsito. 85 MIRANDA. responde na área penal por colocar em risco a incolumidade pública.

249. Toma-se a lesão causada a uma pessoa. . motivo do presente estudo. como no caso da dação em pagamento (CC. São três as modalidades de reparação: pela convenção das partes. o ordenamento jurídico dota a vítima do direito de pedir a sua reparação frente ao agente causador. RT 682/119). ainda não consolidada. meramente eventual porquanto incerto. a Lei n. 9. É futuro se suscetível de constatação por colocar-se na sequência normal de um fato atual. 5. pois em se tratando de direito disponível as partes podem acordar o que lhe seja mais conveniente. quando a prestação não oferece mais utilidade ao credor. Lucros cessantes – Pretensão que deve ser fundada em bases plausíveis ou verossímeis de modo não compreender os proventos hipotéticos.78 Constatado o dano. chamada de Lei Marco Maciel. não se compadece com o dever de indenizar o dano hipotético ou conjetural. a distinção a fazer é uma só: se o dano é ou não certo. sendo indeterminado quanto à sua quantificação. na obrigação de dar pela busca e apreensão de bens móveis. Ou pela utilização da mediação e da arbitragem. e na obrigação de não fazer na forma do art. que é a reparação em dinheiro e por equivalente. deveria ser mais difundida a jurisdição privada. apesar da boa legislação sobre a matéria. de 23 de setembro de 1996. assim os estragos na lataria de um carro por ocasião do acidente. que consiste num prejuízo temido. ainda se temporária ou permanente. 356 a 359). o que infelizmente no Brasil ainda se mostra de maneira tímida. aquele fundado em um fato preciso e não sobre simples hipótese. 251. quando ainda lhe é útil e possível o seu cumprimento. ambos do Código Civil. Para tanto.307. imaginários ou fantásticos (1º TACivSP.2 Dano indenizável O dano indenizável deve ser o certo ou efetivo. A reparação pela convenção das partes é sempre provável. arts. São exemplos. Posto nestes termos. O dano atual é o contemporâneo à realização do ato lesivo. que lhe poderá produzir incapacidade laboral só verificável por meio de futura perícia. Pela tutela genérica das perdas e danos. que quantificará o grau se parcial ou total. De fato. na obrigação de fazer conforme o art. Pela tutela específica em que o credor persegue a prestação tal qual convencionada. mesmo sem qualquer intervenção de terceiro. pela tutela específica e pela tutela genérica.

criteriosa. da Teoria. Um dos exemplos mais citados é a negligência do advogado que deixa de impetrar o recurso cabível. eventual ou conjuntural.3 A perda de uma chance A perda de uma chance relativiza a assertiva de que somente o dano certo é indenizável. o pintor que envia seu quadro para participar de uma exposição com premiação e o correio. mormente aquelas que se apresentam distantes. . Indeniza-se pela supressão de uma situação favorável que poderia verificar-se. o cavalo poderia ou não vencer o páreo. negligentemente. 11. 5. a chance perdida não é mera expectativa da vítima. Outros exemplos. Portanto. Ou ainda. Chance é possibilidade real e séria. 3ª Câm. p. Nas três situações há uma incerteza: o recurso poderia ou não ser provido. 403 afasta é o dano meramente hipotético. não o entrega em tempo hábil. simples casualidade. JTJ Lex 182/79). cuja reparação cabe arredar pela sua eventualidade. É excluído de reparação o dano meramente hipotético.06. certa é a pert d’une chance que cada um deles inexoravelmente se viu privado. Por estes motivos não vemos óbice à aplicação. isto é. Des. privando o seu constituinte do julgamento pelo superior grau de jurisdição. esta sim. mas por sua exclusiva culpa não chega a tempo de participar do páreo. São Paulo: Atlas. Responsabilidade civil pela perda de uma chance: uma análise do direito comparado e brasileiro. que não se colocam na sequência ordinária dos fatos. não alcançada por fato exclusivo de outrem. é certa.87 Ensina a respeito Judith Martins-Costa: Embora a realização da chance nunca seja certa. Dir.79 Persevera nesse entendimento o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Rafael Peteffi da. Privado. a pintura poderia ou não ser premiada. O que o art. que poderia acolher a sua pretensão. o caso do jóquei que deveria montar o cavalo de corrida que lhe foi entregue pelo proprietário. 2007. aquele que pode não vir a concretizar-se (TJSP. mas se a vítima provar a adequação do nexo causal entre a ação culposa e ilícita do 87 SILVA. Ênio Zuliani. rel. a perda da chance pode ser certa. Pelo critério da seriedade e da realidade da chance perdida é que se distingue o dano conjectural ou hipotético. mas aquela que se esteia em uma possibilidade fidedigna de alguém obter lucro ou evitar prejuízo diante de situação concreta.96. Dá-se quando a realização da chance perdida nunca seja certa. 203. porém a perda da chance. Não é qualquer chance. j.

também.80 lesante e o dano sofrido (a perda da possibilidade séria e real). à qual não foi oportunizada adequada recuperação terapêutica. Rio de Janeiro: Forense..9. podendo ser negociado por preço maior. 2003. O mestre refuta a possibilidade de o dono demandar o prejuízo do prêmio. 190-191. p. em sua clássica obra. que quanto mais real e séria a chance perdida. Deve ter em conta.. de modo que esse mais. o que deve ser objeto de indenização é a perda de uma chance. Essa valorização entra no patrimônio do proprietário. É dizer. j. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. 6ª Câm. Aceita. a álea susceptível de comprometer tal chance. aborda a hipótese de alguém que concorrerá a um certame.90 Outro interessante julgado vem do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. tomo II: do inadimplemento das obrigações. configurados estarão os pressupostos do dever de indenizar. Comentários ao novo Código Civil. na avaliação dos danos. onde apresentará um animal havido como raridade. São Paulo: Atlas. Contudo é necessário que a chance perdue seja real e séria. Judith. 89 Considera-se ainda. . a pessoa a quem a sua custodia foi transferida. 362. de modo a candidatar-se a um grande prêmio. não o prêmio. distancia-se do mero dano hipotético e penetra na seara do dano efetivo. leva-se em consideração. não apenas a existência do fator álea. o que teria retirado a chance de a aluna ser aprovada. Des. com perda de chance de ser aprovada e rompimento de seu equilíbrio 88 MARTINS-COSTA. Ver: SEVI. maior a indenização. assim. contudo.. volume V.2003. Uma estudante ficou em recuperação por não ter obtido nota suficiente para aprovação direta em português. 89 ALVIM. perdendo. um ano de sua vida escolar: Responsabilidade civil – Ensino particular – Dano moral e material – Reprovação de aluna. em um acidente evitável. 2006. 40-41. Jurídica e Universitária Ltda. tendo-se em conta. o caráter atual ou iminente da chance de que o autor alega ter sido privado. em consequência. Maldonado de Carvalho. diante da probabilidade real e séria de vencer. ou seja. 90 TJRJ. tinha o seu valor acrescido. Agostinho. Entretanto. 3 ed. não o grande prêmio oferecido no certame. pela relatoria do Desembargador Maldonado de Carvalho lucidamente sintetiza a questão na parte final do acórdão: [. de forma direta. p. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.88 Agostinho Alvim. deixa o animal perecer. Sérgio. A escola ministrou de maneira deficiente o processo de recuperação. o fato ilícito e culposo deve contribuir. rel. para que outrem perca uma chance de conseguir um lucro ou obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo.. cujo valor pode ser apurado por perícia. mas também o grau dessa álea. p. Comprovada a irregularidade na reprovação da aluna.] Na pert d’une chance. quanto à prova. 1965. que o animal. 17. Responsabilidade civil por perda de uma chance.

Cível. não constitui dor passível de reparação. por assim dizer. Afastado os efeitos da r. danos morais e materiais sofridos pela filha. Leo Lima). Apelo provido em parte (TJRS. é o prejuízo que atinge terceiro. 27. j. Petição inicial. o que originou sofrimento à mãe. em que ocorrendo lesão ou outra ofensa à saúde. Ainda ocorrendo ofensa moral. que não a vítima direta da conduta danosa. o ofensor obrigar-se-á a ressarcir o ofendido etc. sentença. Apelo provido. 02. porém. 3ª Câm. com as lesões e danos sofridos pela filha (1º TACivSP. sentença que extinguiu o processo. A frustração dos pais. conforme sustentou a r. ao postular.2004. Direito próprio. em ação de indenização. Responsabilidade civil. Do corpo do acórdão extrai-se: Depreende-se da inicial que a apelante não está pleiteando direito próprio da filha. Toma-se o art. do Código Civil.11. j.2003. nas circunstâncias. ou seja. dano moral. É o chamado dano por ricochete ou reflexo. autora da ação. Extinção do processo. RT 827/267). .4 Dano direto. 949. o ofensor indenizará o ofendido integralmente de todas as despesas até ao fim de sua convalescença. A filha foi a vítima direta do dano ao se envolver em acidente de trânsito. Indeferimento. reflexo ou por ricochete e indireto Primordialmente. rel. a mãe. Dano material afastado. A escola foi condenada a pagar trinta salários mínimos a título de dano moral. Assim também se ocorrer o perecimento ou deterioração de um bem. o agente do ato lesivo ficará obrigado a indenizar o proprietário. no interior de coletivo. 5ª Câm. Em outras palavras. Des. a filha. mas o direito próprio que se originou de sofrimento personalíssimo.03. Juiz Salles Vieira. impõe-se seja indenizado o dano moral sofrido. Ademais. é aquele em que a vítima sofre os efeitos do dano causado diretamente a outrem. 5. a própria vítima é quem sofre o prejuízo. A genitora é titular de direito próprio e não alheio.. trazendo consequências práticas que devem ser consideradas. É o dano direto. os efeitos jurídicos do dano – além de atingir diretamente a vítima – podem repercutir na esfera de interesses de outras pessoas. quando transportada por ônibus. rel.81 psicológico.

Na mesma situação encontra-se o nascituro. por atingi-lo diretamente em razão dos laços íntimos que os unem. Não se contesta o direito do alimentando pela morte do alimentante. considerando a ofensa feita à sua mulher. perdura a presunção de dependência econômica. 2 ed. não reconhecido. A relação de dependência econômica entre os familiares é essencial para a fixação da pensão. É o caso de o filho menor. 1991.02. Caio Mário da Silva.2004. 2ª Câm. uma vez que sofre dano certo e atual pela perda de credito alimentar que recebia. 1. 50.694: necessidade do alimentando e possibilidade econômica do alimentante. quanto à pensão da filha de uma das vítimas absolutamente incapaz.91 No caso de alimentos outros exemplos podem ser suscitados. sendo devida a verba (1º TACivSP. Absolutamente incapaz é a filha. p.82 É a lição de Sourdat ao afirmar que o marido é legitimado a impetrar ação em seu próprio nome. abrange também cônjuges e companheiros. Contudo. perde uma probabilidade real e séria de acolhimento de sua pretensão alimentar. que seria certa em face da vítima morta. abrangendo os descendentes. se não provada a dependência econômica. com o ônus da prova decorrente da equação binômia prevista no § 1º. A redação é da ementa e pode trazer interpretação equivocada. RT 826/236). a primeira cogitação a fazer é a da perda de uma chance. Todos eles são legitimados à proposição da ação ressarcitória. Responsabilidade civil. não tem legitimidade para pleitear pensão por morte decorrente de acidente 91 92 Apud PEREIRA. de sorte somente se deferem os alimentos àqueles a quem o de cujus os devia. ascendentes e colaterais. do art. Juiz Ribeiro Souza. O sobrinho do falecido. Quanto aos parentes legitimados a receber alimentos. Reconhecida a paternidade. j. instituído herdeiro universal por testamento. não tem direito o herdeiro universal.. pois a privação dos alimentos é consequência do dano por afetar a pessoa cuja subsistência ficou prejudicada. . não uma das vítimas. o ato lesivo retira-lhe a possibilidade idônea de obter uma situação futura mais confortável pela pensão que passaria a lhe ser devida. mas que ainda não os recebem. O direito subjetivo de pedir alimentos resulta da relação de parentesco.92 Da mesma forma. Não havendo demonstração de contribuírem as vítimas para o sustento de seus pais. moradores em Estados diferentes. rel. E há de se demonstrar o pressuposto da dependência econômica. tanto pelo vínculo natural da consangüinidade como pelo vínculo civil da adoção. Rio de Janeiro: Forense. não pode ser presumida a relação de dependência. 18.

Implica no nexo de causa e efeito. II. 948.1998. II] (a indenização no caso de homicídio consiste na prestação de alimentos às pessoas a quem o defunto os devia). Cível. O art. pois o rol é meramente exemplificativo. Para tanto. um decorrente do outro. sendo o primeiro a causa do segundo. é insuficiente para justificar o pedido indenizatório. por sua vez. 1561226MG. Dano moral. j. deixa de cultivar as suas terras e. prevê indenização pelo pagamento de despesas com o tratamento da vítima. A única previsão legal de dano reflexo ou por ricochete encontra-se no caso de homicídio. apresentada no noticiário de jornal que a apontou como perigoso marginal. rel. vende bens a preço vil. . O dano indireto é a possibilidade de advir sucessivos danos. se tratando. 05. Pais da vítima. O fazendeiro.02. RT 814/321). de dano reflexo ou por ricochete é o que se relaciona ao vilipêndio da imagem de pessoa morta. Tal reportagem atingiu a imagem do falecido ao apontá-lo como perigoso marginal. por essa causa. não paga seu credor que. na realidade. É o exemplo do fazendeiro que compra um trator de determinado comerciante. sem prejuízo de outras reparações. Recurso não provido. 18ª Câm. 1º. RT 827/268. REsp. A conduta ilícita do comerciante não pode ser causa do não cultivo das terras e nem da venda de bens a preço vil. Os pais da vítima sofrem o dano moral resultante da morte do filho e tem direito próprio à indenização. A fotografia de pessoa morta. De um evento inicial abrolha uma cadeia de danos. gera o dever de indenizar por danos morais os familiares. Relator Min. Responsabilidade civil. A máquina não lhe é entregue por culpa do vendedor. Outro exemplo. funeral e luto da família. do Código Civil. apenas. dentre tantos.2002. Ruy Rosado de Aguiar. não auferindo renda. não podendo ser acolhida a tese de que a indenização pelo dano moral somente pode ser deferida à vítima do acidente. vez que o simples vínculo sangüíneo com a vítima. Ruy Rosado de Aguiar (STJ. 4ª T.10. 948. este do terceiro e assim sucessivamente. Min. da vítima do evento (TJRJ. se encontrava no local para se candidatar a emprego oferecido. sendo a razão central estabelecer o liame entre o primeiro como causa dos demais.83 com base no art. 1.537. do CC [atual art. rel. quando. mais a prestação alimentícia às pessoas a quem o morto os devia. Des. não excluindo a compensação por dano moral. em tentativa de assalto a empresa de ônibus.. indispensável o pressuposto da econômica dependência daquele que reclama prestação de alimentos de terceiro (RT 675/134). Nascimento Povoas Vaz. j. corpo do acórdão).

em determinada casa de espetáculos.93 Mais uma vez. 528. compromete-se para com B. o tratamento indicado como corretivo. chamado outro médico. e o doente venha a falecer. Um profissional liberal difamado. ALVIM. p.95 É o prejuízo de feitio econômico. os pessoais entre cônjuges. . pressupõe pluralidade de causas. causado pela violação a bens materiais corpóreos ou a direitos incorpóreos que compõem o acervo de uma pessoa. Mário Júlio de Almeida. acarretando sua depreciação. na hipótese de A sofrer uma agressão de C. pianista famoso.94 Não há como excluir nenhum e nem o outro. O comerciante responde pelo inadimplemento contratual.ex. 329. o vocábulo patrimônio é empregado em sentido não consentâneo com o conceito jurídico.. mas sua conduta é muito distante para ser causa dos demais prejuízos: não arar as terras e a venda de bens por preço vil. seja civil. 7ª ed. empresário. mas apenas A. A morte. complicando o seu estado de saúde. Agosrtinho. resultando impossibilitado de cumprir o contrato. que tenha valor econômico. A imprudência do primeiro e a imperícia do segundo contribuíram de forma eficiente para o evento morte. no caso. Não se argumente que a segunda conduta inadequada eliminou o nexo causal com relação à primeira. Pode-se chamar de dano misto. p. seja contraproducente. que exclui os danos considerados remotos. Outro exemplo de limitação do dano indireto. nem por isso este fica obrigado a indenizar o empresário B. Suponha-se mais que. constituindo uma universalidade. patrimônio moral. Há um liame entre as suas condutas. 3 ed.84 Poderia o fazendeiro arar suas terras com trator alugado. 1965. direitos e obrigações redutíveis em dinheiro. no dia X. os direitos do poder familiar e os políticos. Por vezes. Entendem-se os bens. o dano moral por ele sofrido tem consequência também patrimonial. Rio de Janeiro – São Paulo: Jurídica e Universitária Ltda. Direitos das obrigações. p. patrimônio é o complexo das relações jurídicas de uma pessoa natural ou jurídica. injuriado ou caluniado perde clientes. 5. 95 No sentido jurídico. comercial ou no Direito Público. Coimbra: Almedina.. é ofertado por Mário Júlio de Almeida Costa: A. Assas vezes. que passou a ser causa remota. a dar um concerto. recorre-se a Agostinho Alvim para analise de outro exemplo: Suponha-se que certo doente não tenha sido operado com observância das regras de assepsia. os dois médicos respondem. ou mesmo arrendá-las para outro produtor. a ofensa a determinado direito da personalidade pode acarretar dano patrimonial. 1998. 93 94 COSTA. Inexecução das obrigações e suas conseqüências.5 Dano material: dano emergente e lucro cessante Dano material ou patrimonial atinge o patrimônio da pessoa. Nele não se incluem os direitos da personalidade de modo geral.

Sinteticamente. o dano emergente é representado pelas despesas de tratamento (o que efetivamente perdeu). Rio de Janeiro: Forense. trata-se de uma diminuição patente de seu patrimônio. o que afronta o princípio da equivalência. além do que efetivamente perdeu. de modo a não se dar menos do que o efetivo prejuízo sofrido e também não se dar mais do que se deve reparar.96 Suponha-se um dentista lesionado na mão por ato ilícito de outrem. e o lucro cessante. Refere-se à situação futuro. É a teoria da diferença: confronta-se a situação em que o patrimônio foi posto pela conduta lesiva (situação real). o acréscimo patrimonial frustrado. pois se o for. as perdas e danos convertem-se em fonte de enriquecimento (de lucro capiendo)...] as perdas e danos devidas ao credor abrangem. tendo a indenização por objeto reparar o dano. rompendo o binômio dano-indenização..5. o que razoavelmente deixou de lucrar.. Responsabilidade civil. É a letra do artigo 402: “[. Caio Mário da Silva.] o montante da indenização não pode ser inferior ao prejuízo. referindo-se os dois valores ao momento em que se apura a diferença. 2 ed. Refere-se à situação presente.85 O dano material quando atinge o patrimônio presente enseja o dano emergente (damnum emergens) e se o patrimônio futuro enseja o lucro cessante (lucrum cessans). o montante da indenização não pode ser superior ao prejuízo. pelos dias em que.” Dano emergente é o que a vítima efetivamente perdeu. PEREIRA. deixou de trabalhar (o que razoavelmente deixou de lucrar). cit. em atenção ao princípio segundo o qual a reparação há de ser integral.” Pontifica Caio Mário da Silva Pereira: [. p. 332. 1991. ou seja. recuperando-se.. 518. trata-se da diminuição potencial de seu patrimônio. Ao passo que o lucro cessante é o que a vítima razoavelmente deixou de ganhar. . por ser um desfalque no patrimônio presente do credor. p.97 5. Há de atentar para a gravidade da falta e as suas conseqüências. Vige o princípio da restitutio in integrum. Por outro lado. Mário Júlio de Almeida Costa ensina que o dano emergente compreende a perda ou diminuição de valores já existentes no patrimônio do lesado e o lucro cessante diz respeito aos benefícios que ele deixou de obter em consequência da lesão. Sobre essa diferença expressa em dinheiro incidirá a atualização monetária até o 96 97 Op. bem como para a natureza do dano. com a situação em que se encontraria se a mesma conduta não houvesse ocorrido (situação hipotética).1 Critério para fixação do dano emergente A mensuração do dano emergente é mais simples. É a regra do artigo 944: “A indenização mede-se pela extensão do dano.

2 Critério para fixação do lucro cessante Já o lucro cessante enseja maiores dificuldades. de sorte se relaciona a um dano futuro. frente a lo que sólo serian meros sueños de ganancias. 5.98 5. 389). na primavera quando a terra é preparada para receber a semeadura.86 efetivo pagamento por tratar-se de dívida de valor. as circunstâncias de cada caso concreto devem ser consideradas no estabelecimento do quantum debeatur em tema de lucro cessante. segunda edición. para su apreciación. . não há de se falar em lucro cessante. Para que ocorra o lucro cessante. Derecho de daños: principios generales. Se um agricultor é esbulhado no inverno quando a terra descansa. Luís Pascual Estevill professora com clareza: Se intuí que o dano emergente tem uma base firme e o lucro cessante participa de todas as variedades e incertezas dos conceitos imaginários. 975-976: Si intuye que el daño emergens tiene una base firme y el lucro cesante participa de todas las vaguedades y incertidumbres de los conceptos imaginarios. lo que reclama. algo a ganhar. poderá surtir efeitos danosos diferentes. Isto é. existem nuanças a serem consideradas. pois um mesmo fato. responsabilidad contractual. Cada caso concreto deve ser analisado nos seus contornos. por parte del que los exige. dependendo das circunstâncias. Luis Pascual. nem menos. Se. a título de perdas e danos. art. para que não haja enriquecimento ou empobrecimento indevido. entretanto. a indenização é o que se deve prestar para repor a vítima na mesma situação patrimonial em que estaria se não se houvesse produzido o dano. deve-se comprovar haver. uma prova razoável acerca do que poderia ser o verdadeiro lucro desejado de perceber. com certeza. tomo II. esperável. É o escólio de Pontes de Miranda: 98 ESTEVILL. Entretanto. extracontractual y responsabilidad precontractual. frente o que seriam meros sonhos e ganâncias. Portanto.Barcelona: Bosch Casa Editorial. o lucro cessante pode significar a colheita de todo o ano agrícola. dado que apenas se perde o que se deixa de ganhar. o que reclama para sua apuração. o lucro cessante é quase nenhum. p.6 Restitutio in integrum Pelo exposto. a indenização mede-se pela extensão do dano. além dos juros moratórios e honorários de advogado (CC.5. rejeitando-se um critério invariável. de una prueba razonable acerca de lo que podria ser el verdadero lucro dejado de percibir. por parte daqueles que o exige. Sem a prova precisa de ganho. Nem mais.

A perda de um livro integrante de uma coleção deprecia a coleção como um todo. Se. a depreciação de seu patrimônio equivale ao valor do livro. tomo 22. o pretium singulare. adquirível no mercado ou com facilidade. 297. repete a norma. mas o que valia o livro ou a tela na coleção. Pontes.7 Verbas compensáveis O Superior Tribunal de Justiça na diuturnidade de seus arestos afirma que o seguro obrigatório de veículos. Tratado de direito privado. O art. do contrário não é integral. salvo se é possível a prestação na mesma coisa. 5. e não o pretium commune. 5. é o pretium singulare que se há de prestar.714. 45.87 A indenização não é segundo o valor comum. é a letra da lei. dispõe sobre prestação pecuniária à vítima ou aos seus sucessores. § 3º. não se avalia só o que foi destruído. ou a perda que sofreu. o que foi prejudicado já havia vendido a coisa a preço acima do comum. não mais. Campinas: Bookseller. de 25 de novembro de 1998. ou telas de determinada época. do Código Penal. 215. se outro não pode ser reposto em seu lugar.8 Verba não compensável 99 MIRANDA.99 Aqui assim. por exemplo. o Código de Trânsito art. § 1º. pago à vítima ou à sua família. também o seguro facultativo em favor da vítima ou de seus sucessores. quando se manda avaliar o dano causado ao que colecionava livros de determinada matéria. com a redação dada pela Lei 9. Por isso mesmo. 2003. deve ser deduzido da reparação do dano a eles devida. mas pelo valor que em verdade tem para ao lesado o bem que se destruiu. . A perda do mesmo livro.” Por lógico raciocínio. Tanto que estabeleceu a súmula 246: “O valor do seguro obrigatório deve ser deduzido da indenização judicialmente fixada. que pode ser acima do comum. uma particularidade. p. Os dois estatutos demonstram oportuna preocupação com a vítima do dano injusto. O que se indeniza é o que sofreu a pessoa ou seu patrimônio. sendo que a vítima não possuía os demais volumes da coleção. Essa indenização também merece abatimento. É o que se denomina compensatio lucri cum damno. quando vingar contrato neste sentido entre o agente do dano e a seguradora. A indenização há de ser balizada pelo efetivo prejuízo.

Min. Recente decisão do Superior Tribunal de Justiça reafirma posição anterior. pois. Depois de alertar que na compensatio lucri cum damno cumpre que haja um nexo causal. 5. de lesão ou outra ofensa à saúde (art. não há como escapar desse requisito. 100 LOPES. 953. No mesmo sentido REsp. p. de ofensa à capacidade de trabalho (art. j. 948). para o ofendido que não puder provar prejuízo material sofrido (art. A idéia de que a vítima irá lucrar com essa cumulação se esboroa ante esta: transferir o lucro de um lado para colocá-lo a serviço do causador do dano. abrindo-se uma exceção. Não é compensável. 1ª T.11. DJ 4. rel. rel. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. por José Serpa Santa Maria. DJ 7.. parágrafo único). Denise Arruda. de modo definitivo: “É possível a cumulação de pensão mensal em razão de ato ilícito com o benefício pago pelo instituto previdenciário (pensão por morte do segurado). vol.2003. . e atual. II. j. no caso de ter a vítima ou seus herdeiros uma pensão de aposentadoria. Min.88 A pensão previdenciária tem causa diversa da reparação do dano. 2.2006. as perdas efetivamente sofridas e os lucros razoavelmente não auferidos estabelecem a regra geral da cabeça do art. 954).11 Exceções ao critério geral Duas exceções são previstas à regra geral da restitutio in integrum. 944: a quantificação do valor indenizatório pelo dano patrimonial é a extensão desse mesmo dano (restitutio in integrum). 951). e finalmente a indenização por ofensa à liberdade pessoal (art. Obrigações em geral.2006.10 Critério geral Como expendido. Para mais desse critério geral.9 Dano agravado pela vítima A reiterada jurisprudência dos tribunais é no sentido que o dano agravado pela conduta da vítima não é indenizável. 950). RT 559/81. 5..4. Serpa Lopes dá a seguinte explicação: Se para que se dê a compensatio lucri cum damno se torna necessário que o lucro e o prejuízo decorram ambos do ato ilícito. o Código Civil prevê indenização específica para os casos de homicídio (art. RJTJSP 44/140). 3ª T. pela usurpação ou esbulho da coisa (art. com relação aos profissionais da saúde (art. 6 ed.” (STJ. 952). 14.11.12. Castro Filho. Aplicação da Súmula 229/STF. rev. 949).846.2002. 403. 416.100 5. Miguel Maria de Serpa. 1995.

em edição atualizada de sua obra. em edição passada de sua obra. . 12ª ed.. apenas transmitir-se-á a desgraça das vítimas reflexamente atingidas com o falecimento. RODRIGUES. medindo-se a indenização pela extensão do dano. Para se obter a indenização integral da vítima. em virtude de sua extrema severidade. 2002. São Paulo: Saraiva. o Código Civil de Reale introduz substancial modificação. Direito Civil. próprio do individualismo da metade do século XIX. que se desprende e mata um pai de família que transitava pela rua. fala sobre a transferência da ruína de um para outro: A indenização pode ser imensa. O princípio da eticidade. 944 põe a regra geral: “A indenização mede-se pela extensão do dano”. 19 ed. No caso da responsabilidade civil. vol. para se remediar a situação de um. que oferece parâmetros no seu art. Sílvio. não mais acreditando na plenitude hermética do direito positivo. Sílvio. IV. Uma inadvertência mínima – culpa levíssima – pode trazer a ruína do ofensor. 1981-1982. elemento axiológico muito precioso ao Código. distraidamente encostar-se à vidraça. visa corrigir situações em que a culpa mínima possa acarretar indenização acerbada. A culpa passa a ter influência. É o abandono a ideia do formalismo técnicojurídico. a indenização”. Direito Civil. como no Direito Penal. que entende que tudo deve ser resolvido técnica e cientificamente 101 102 RODRIGUES. dispondo que entre outras circunstâncias devem ser levados em conta o grau de culpabilidade do agente. na dosagem da reprimenda legal. Mais específico é o Código Civil de Portugal.102 Desproporção da gravidade da culpa e o dano Bem por isso.101 Ilustra. 4: Responsabilidade civil. O parágrafo único tempera: “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. poderá o juiz reduzir. a despeito do grau insignificante da culpa. Na cabeça do art. no vigésimo andar de um edifício. A muitos pode parecer injusta tal solução. 188. p. vol. eqüitativamente. São Paulo: Saraiva. Abre-se a possibilidade de se utilizar da eqüidade para reduzir a reparação quando houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano.89 Sílvio Rodrigues. 2. De modo que. a situação econômica das partes envolvidas no dano. p. Assim. é possível que se venha arruinar o agente causador do dano. com a hipótese de alguém. 494º. Ante o preceito pátrio utilizar-se do verbo poder surge questão prática: pode ou deve o juiz aplicar a regra do parágrafo único? É mera discricionariedade ou é norma cogente? A resposta está diretamente vinculada a um dos princípios fundantes – expressão forjada por Miguel Reale – do Código Civil de 2002. corre-se o risco de arruinar outro.

se a norma jurídica evidenciar-se deficiente ou inajustável à especificação do caso concreto. 2010. São Paulo: Atlas. com fulcro nos termos do enunciado.90 por meio de normas expressas. 143. estampa a permissão de o juiz decidir por equidade.103 Atualmente agita controvérsia a sua possível aplicação na responsabilidade objetiva. onde e quando previsto. 897. a doutrina propendeu acatar essa interpretação enunciativa. SP: Manole. não se aplicando às hipóteses de responsabilidade objetiva. Claudio Luiz Bueno de Godoy preconiza nesse sentido e. o Código de Processo Civil. São Paulo: Atlas. para o reconhecimento da responsabilidade seja dispensada a indagação da culpa. certos parâmetros legais obrigam-no e deles não pode afastar-se.104 Todavia. Barueri. foi aprovado o Enunciado 46: “Art. 897. 2002. assim. exatamente. embora ao juiz devam ser conferidos amplos poderes para definição da forma e da extensão da reparação. Propender-se. p. . com a supressão da parte final: não se aplicando às hipóteses de responsabilidade civil objetiva. deve ser interpretada restritivamente. por representar uma exceção ao princípio da reparação integral do dano. 944: a possibilidade de redução do montante da indenização em face do grau de culpa do agente. por prescindir da culpa. Assume-se um sentido mais aberto na previsão de cláusulas gerais e princípios legais indeterminados. 790. caindo a fiveleta a pergunta de Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho: “Como explicar que. 105 GAGLIANO. São Paulo: Saraiva. sem apelo a princípios considerados metajurídicos. dessa maneira. 944 do novo Código Civil. No mesmo sentido: VENOSA. que não está obrigado a redução da indenização. Código civil interpretado. deve ser tida como cogente. quando autorizado por lei. de conformidade com os valores éticos. e para a fixação do valor indenizatório ela seja invocada para beneficiar o réu?105 Observe-se. que conferem ao juiz o poder de suprir lacunas e também solucionar.” Abrem-se as portas para a incidência da reparação equitativa na responsabilidade objetiva. Cezar Peluzo (coord. 46 da I Jornada de Direito Civil. p. p. para a busca do que é mais justo e equitativo. Novo curso de direito civil: volume III: responsabilidade civil.” A partir de então. p. 2010. na IV Jornada introduziu modificação: “Enunciado 380 – Atribui-se nova redação ao Enunciado n. no artigo 127. Pablo Stolze. Na I Jornada de Direito Civil promovida Conselho de Juízes Federais.). Nesse sentido considerando. estabelecida no parágrafo único do art. É o caso da norma em comento que. 2007. Código civil interpretado. Aqui um caso de expressa autorização legal para o 103 Para Sílvio de Salvo Venosa é simples discricionariedade concedida ao juiz. Sílvio de Salvo. 104 Código Civil Comentado. 4 ed.

senão o de justiça no caso concreto. é o caso concreto que preconizará se cabe ou não a incidência do parágrafo único o art. O juiz está devidamente autorizado. critério prévio de seleção excludente poderá mostrar-se inadequado em determinadas circunstâncias. não poucos entendem que essa mitigação incide apenas na culpa leve e levíssima. ao tratar da responsabilidade do incapaz. se as pessoas por ele responsáveis não tiverem a obrigação de fazê-lo. Raros os casos. Responsabilidade do incapaz A outra exceção está prevista no artigo 928. . com muita felicidade. do Código Civil. nada impede essa aplicação. Coimbra: Almedina. não é perquirido para reconhecimento do an debeatur. porque o incapaz somente será compelido a reparar o dano no caso de seus responsáveis não estarem obrigados a fazê-lo. tarefa não pouco emaranhada.. não podendo privar o incapaz. De logo cumpre reconhecer. 359.91 julgamento por equidade. supõe-se. quando sabia que o estado do enfermo não reclamava a sua presença.] pode este actuar com dolo e o juízo de reprovação ser menos severo do que se actuasse com mera culpa. Resta aguardar como fazê-la.. Cumpre aguardar a tendência dos tribunais nessa que é mais uma das tantas questões controvertidas em sede de responsabilidade civil. será de ingente dificuldade conciliar a sua aplicação. É mais grave a negligência daquele que não apagou a fogueira que ascendeu na floresta. a rigor. um incapaz exposto com curadoria especial para localização de seus 106 JORGE. E o parágrafo único assegura que a indenização deverá ser equitativa.106 De fato. Preconiza. É uma responsabilidade subsidiária. A equidade não tem outro nome. Subsidiária. De efeito. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. pois levará em consideração o grau da culpa do agente causador do dano o que. no entanto. do que aquele que conscientemente faltou à visita prometida. do necessário para uma subsistência digna. p. se na responsabilidade objetiva prescinde-se da culpa. 1999. 944. ou não dispuserem de meios suficientes. do que o dolo de quem causou propositadamente um dano ligeiro em bem alheio. como é mais censurável a atitude do médico que se esqueceu de visitar um doente grave. afastada as hipóteses em que o causador do dano milita com culpa grave e dolo. dispondo que ele responde pelos prejuízos que causar. Fernando Pessoa. De outro lado. ou as pessoas dele dependentes. Fernando Pessoa Jorge: [.

de 11 a 13 de setembro. caso os tenha. tutores e curadores são também beneficiados por esse limite humanitário. do Código Civil. total ou parcialmente. Equidade que permite ao julgador considerar o que se apresenta como justo no caso singular. se nas mesmas condições tivesse sido praticado por pessoa imputável. cuja proteção volta-se à vítima inocente de dano injusto.” O lusitano Antunes Varela. Deflui daí. isto é. apresenta os seguintes requisitos: a) que haja um facto ilícito. reprovável. calculada por forma a não privar a pessoa não imputável dos alimentos necessários. que autorizam o julgador a se valer de um critério de moderação e equilíbrio na fixação de um dever. . nem dos meios indispensáveis para cumprir os seus deveres legais de alimentos. Assemelha-se. do necessário à subsistência digna. que os pais.107 A indenização equitativa traduz. Esse curador especial não é obrigado a ressarcir prejuízo causado pelo incapaz. A indemnização será. tutelado ou curatelado. não integral. c) que o facto tenha sido praticado em condições de ser considerado culposo. A outra hipótese é de o filho. ainda por força do parágrafo único do artigo em comento. levando-o à miséria. todavia. Ad exemplum: incapaz rico que causasse dano a um pai de família pobre. na verdade. pode esta. é mitigada. b) que esse facto tenha causado danos a alguém. “de modo que a passagem ao patrimônio do incapaz se dará não quando esgotados todos os recursos do responsável. preservando o incapaz e seus dependentes. d) que haja entre o facto e o dano o 107 A eqüidade conjuga princípios imutáveis de justiça. por motivo de equidade. Para tanto. o julgador lançará mão de um critério fundado na moderação e equilíbrio para a fixação da obrigação indenizatória. conforme o seu estado e condição. 2. da I Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal. desde que não seja possível obter a devida reparação das pessoas a quem incumbe a sua vigilância. àquela estampada no artigo 1. como na hipótese antecedente.92 parentes. por analogia. O Código Civil português tem disposição equivalente: “Artigo 489º: Indemnização por pessoa não imputável 1. ser condenada a repará-los. seria inaceitável não indenizar. Se o acto causador dos danos tiver sido praticado por pessoa não imputável. mas se reduzidos estes ao montante necessário à manutenção de sua dignidade” (Enunciado 39. no comento a este artigo do Código Civil de seu país. adesão ao princípio constitucional da proteção à dignidade da pessoa humana. No atual estágio da responsabilidade civil. em Brasília). Entretanto essa indenização.692. também deve ser equitativa. até com certo afastamento do direito objetivo. possuir patrimônio e o seu respectivo responsável não.

como a legítima defesa e o estado de necessidade. 10 ed. para ele o fundamento dessa responsabilidade é encontrado nos princípios de garantia e assistência social. o sofrimento. ardoroso adversário da responsabilidade por dano moral. Outro jurista português. Chega a ter laivos de irrisório a pretensão do embargado (Arquivo do Judiciário 111/1954. anos depois. que seria tratado com maior rigor. 109 ALMEIDA COSTA.110 Melhor fundamento é que. Sergio.93 necessário nexo de causalidade. p. Mário Júlio Almeida Costa. Daí a reiterada orientação do Supremo Tribunal Federal nesse sentido (RF 45/521). 27. p. Programa de responsabilidade civil. o que não se concebe. Como se o dinheiro fosse bálsamo ou anestésico de aplicações da alma. É a corrente dos negativistas fundamentados no pensamento de Savigny.108 Nessa esteira conclui-se.109 Sergio Cavalieri Filho pensa diferente. – volume I – Coimbra: Livraria Almedina. 110 CAVALIERI FILHO. a honorabilidade de uma pessoa são inestimáveis economicamente. pois se insurgia contra a existência de direitos 108 ANTUNES VARELA. Direito das Obrigações. . João de Matos. porque ao incapaz não se lhe pode imputar culpa. Das obrigações em geral. p. embora depois a recompusesse. São Paulo: Atlas. f) que a equidade justifique a responsabilidade total ou parcial do autor. não alcançariam o incapaz. 6 Dano Moral A jurisprudência foi lenta na aceitação do dano moral. 548. assegura que a responsabilidade civil do incapaz funda e mede em um plano de direito equitativo. Mário Júlio de. e) que a reparação do dano não possa ser obtida dos vigilantes do inimputável. E concluía mordaz: Trata-se de um cidadão que deixa abandonado o túmulo de sua esposa e. que não se trata de responsabilidade nem objetiva e nem subjetiva. 7 ed. p. Não é subjetiva. Em um primeiro momento os julgados apegavam-se à tese da sua impossibilidade. exigindo dinheiro para o seu consolo. em face das circunstâncias concretas do caso. O então Ministro Nélson Hungria sempre se alinhou entre aqueles que negavam formalmente a reparação do dano moral. porque o Código Civil estabelece a culpa como regra geral da responsabilidade civil e se assim o fosse as causas de irresponsabilidade que eximem o plenamente capaz pelo afastamento da culpa. 566. o que se procura é a maior proteção da vítima de dano injusto. 7 ed. 2007. 283 e 284). porque a Municipalidade andou tocando na sepultura. arguindo que a dor. achou de se declarar moralmente ferido. no estágio atual da responsabilidade civil. 2000. Coimbra: Livraria Almedina. 1998. Não é objetiva.

ao dispor no artigo 5º. quando trata dos atentados à reputação de uma jovem e dos casos de adultério e fornicação (22. 3 ed. À Constituição Federal coube desmoronar a resistência à sua indenização sob o argumento da ausência de um princípio geral. a admitir a ressarcibilidade do dano moral. sem que o cumulasse com o dano patrimonial: “Responsabilidade civil. O passo seguinte foi dado pelos intermediários. 26. Para eles era inadmissível que os sofrimentos morais dessem lugar à reparação pecuniária. 13-19 e 28-29). 2ª Turma. De dano moral somente o nome. o que se indenizava era o dano patrimonial. moral e à imagem”. Min. o legislador constitucional nada mais fez do que reconhecer o que vêm de anosas eras. p. Rio de Janeiro: Forense. Dano Moral. ao descrever uma assembléia de deuses. o dano moral deita origem em documentos dos mais antigos. a liberdade em suas várias manifestações não estariam no âmbito jurídico da ordem privada. . Wilson de Melo da. Na verdade. um código de leis civis e religiosas enquadrado num grande discurso do Profeta Moisés. assegurado o direito de indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. De efeito. e no inciso X: “são invioláveis a intimidade. se deles não decorresse qualquer dano material (RT 660/116).94 originários ao considerar falso o princípio de um direito do homem sobre sua pessoa. a vida. o dano material” (STF. especialmente no Deuteronômio. a vida privada.111 Já começava. julgando caso de indenização motivado por um adultério. a legitimar o suicídio. além de indenização por dano material. entretanto. É uma fase de transição entre a oposição e a aceitação. própria dos misoneístas. rel. j. 398. O dano moral e sua reparação. RT 599/263). 111 SILVA. Está na Bíblia. Décio Miranda. Assim agindo. proporcional ao agravo. 1983. na oitava rapsódia (versos 266-267). a honra e a imagem das pessoas. não podendo ser indenizáveis. Também na Odisséia de Homero.06. propugnando pela aceitação do dano moral apenas quando repercutisse no patrimônio do lesado. de forma ampla e pelo mesmo fato. O dano moral não é de ser indenizado quando o foi. no tocante à doutrina. de sorte conduziria. inciso V: “é assegurado o direito de resposta. Essa pálida aceitação sinalizou uma evolução no espírito dos negativistas. Os bens sobre a honra. originário de dano moral. entre outras consequências. na expressão de Wilson Melo da Silva.84.

Nos últimos anos. Pesquisador da matéria. Para ele dano moral é a dor resultante da violação de direitos estranhos ao patrimônio. que essa compreensão não é a predominante na doutrina e na jurisprudência. embora afanosamente trabalhado. p. Ambos. no programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Pernambuco.1 Dano moral: conceito Não é unívoco o conceito de dano moral. sem repercussão patrimonial. 112 DEDA. que fortalecem a tese. 6. portanto. como visto. ambos têm por objeto bens interiores da pessoa. Seja a dor física (dor-sensação). Paulo Luiz Netto Lôbo observa: Não há outras hipóteses de danos morais além das violações aos direitos da personalidade. 113 GOMES. 2000. os direitos da personalidade oferecem um leque de oportunidades definidas no sistema jurídico cuja lesão faz incorrer a pretensão de dano moral de modo objetivo. V e X. Artur Oscar de Oliveira. que se chega a indagar da possibilidade do dano moral fora do âmbito dos direitos da personalidade. 3 a 8.95 Conforme o estágio atual admite-se a sua cumulação com o dano material nos termos da Súmula 37 do Superior Tribunal de Justiça: “São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”. rev. sem nenhuma necessidade de recurso à existência da dor ou do prejuízo. tenho trabalhado esse tema. Várias correntes disputam a melhor forma de conceituá-lo. A responsabilidade opera-se unicamente pelo fato violador: é o damnum in re ispsa. o constrangimento que alguém experimenta em conseqüência de lesão de direito personalíssimo. . Orlando. É tão íntima a interação entre eles. o que lhe é inato. Conjugados a lesão a qualquer direito da personalidade e o nexo de causalidade com o dano moral é o quanto basta para surgir o direito à reparação. 1998. e atual. 12 ed. todavia.112 Para Orlando Gomes leva-se em consideração a natureza dos direitos subjetivos violados: “é. incs. Reconhece. direitos da personalidade e dano moral. tanto que a Constituição Federal tratou-os em conjunto no art. ostentam a mesma natureza extrapatrimonial. p.113 De efeito. Rio de Janeiro: Forense. seja a dor moral (dor-sentimento) de causa imaterial. A reparação dos danos morais: (doutrina e jurisprudência). no campo mais amplo do direito civil constitucional. e estimulando investigações de mestrandos e doutorandos. ilicitamente produzida por outrem”. por Humberto Theodoro Júnior. 5º. São Paulo: Saraiva. Artur Oscar de Oliveira Deda considera os efeitos da lesão jurídica. Direito das obrigações. 271.

a qual passa a ser a base de todos os valores morais. sua dor. jan. para fins dos danos morais. o dano moral não está necessariamente vinculado a alguma reação psíquica da vítima. não diretamente vinculados à dignidade. Desse ponto de partida. suas afeições. Assim como a febre 114 LÔBO. sentimentos. conceitua o dano moral. Nenhum dos casos deixa de enquadrar-se em um ou mais de um tipo. como também violados em diferentes níveis. podendo falar hoje em direito subjetivo constitucional. . a reputação. no âmbito civil. Paulo Luiz Netto. filosóficas. religiosas. Daí conceitua o dano moral. E direitos absolutos de natureza não-patrimonial. Dor. hábitos.. convicções políticas. Danos morais e direitos da personalidade. como “a violação do direito da dignidade”. e não causas. Enumera a imagem. que dá uma nova feição ao dano moral e maior dimensão à dignidade humana. da integridade psíquica ou outros direitos da personalidade. 2001. aspirações. vexame. são exclusivamente os direitos da personalidade.96 A rica casuística que tem desembocado nos tribunais permite o reenvio de todos os casos de danos morais aos tipos de direitos da personalidade. vexame e sofrimento sem violação da dignidade. p.. A referência freqüente à dor moral ou psicológica não é adequada e deixa o julgador sem parâmetros seguros de verificação da ocorrência de dano moral. A dor é uma conseqüência. relações afetivas. Fora dos direitos da personalidade são apenas cogitáveis os danos materiais. não é o direito violado. como aquele que “envolve esses graus de violação dos direitos da personalidade. sua consciência.114 Sergio Cavalieri Filho caminha nessa direção. 16 e 17. O dano moral remete à violação do dever de abstenção a direitos absolutos de natureza não-patrimonial. gostos. assim como pode haver dor. inciso III. sofrimento e humilhação podem ser conseqüências. Acrescenta que os direitos da personalidade podem ser realizados em diferentes dimensões. em sentido estrito. correspondem à dos aspectos essenciais da honra. direitos autorais. vexame. considerada esta em suas dimensões individual e social. E completa a sua lição: Nessa perspectiva. O que concerne à esfera psíquica ou intima da pessoa. no artigo 1º. constatando que os direitos da personalidade açambarcam outros aspectos da pessoa humana. a dignidade humana como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. sofrimento. abrange todas as ofensas à pessoa. o que ele denomina de novos direitos da personalidade. seus sentimentos. Direito absoluto significa aquele que é oponível a todos. Prossegue. Revista Jurídica. a essência de todos os direitos da personalidade. o bom nome. da reputação. Pode haver ofensa à dignidade da pessoa humana sem dor. Afirma que a Constituição Federal erigiu. gerando pretensão à obrigação passiva universal. nº 284. ainda que sua dignidade não seja arranhada”. em sentido amplo.

portanto. a promoção de sua 115 CAVALIERI FILHO. a reação psíquica da vítima só pode ser considerada dano moral quando tiver por causa uma agressão à sua dignidade. Esses direitos são transmitidos por sucessão mortis causa. oferece o seguinte conceito: “o dano moral vem a ser a lesão de interesses não patrimoniais de pessoa física ou jurídica (CC.115 Maria Helena Diniz. a capacidade. art. que produz um menoscabo a um bem extrapatrimonial. a própria imagem). a honra. os sentimentos afetivos. devido a uma lesão de um bem patrimonial da vítima. Dessa forma. 7 ed. a intimidade. Abrange. explica o prejuízo causado a um interesse patrimonial que resulte também em dano moral. a liberdade. tal não ocorre com o direito ao corpo. referenciada em Wilson Melo da Silva. provocada pelo fato lesivo”. ou nos atributos da pessoa (como o nome. III). O dano moral indireto consiste na lesão a um interesse tendente à satisfação ou gozo de bens jurídicos patrimoniais. P. ao caráter de sua repercussão sobre o ofendido. cabendo aos herdeiros ou ao cônjuge. o estado de família). Súmula 277 do STJ). ainda.97 é o efeito de uma agressão orgânica.: a perda de coisa de valor afetivo. Programa de responsabilidade civil. a integridade corporal e psíquica. do fato lesivo a um interesse patrimonial. ou seja. Sergio. São Paulo: Atlas. Joeirando a jurisprudência encontram-se exemplos dessas duas espécies de dano moral: A remoção de restos mortais de sepultura perpétua para ossuário geral do cemitério por parte da Administração Pública sem ciência e consentimento da família constitui ato inexplicável e absurdo. sobre o qual subsistem os chamados direitos post mortem. Assim fica explicito. Maria Helena Diniz distingue dano moral direto e dano moral indireto: O dano moral direto consiste na lesão a um interesse que visa a satisfação ou gozo de um bem extrapatrimonial contido nos direitos da personalidade (como a vida. ainda que ausentes o dolo ou a intenção de causar prejuízo (RT 639/155). Apesar de os direitos da personalidade terminar com a morte. Para essa professora da PUC-SP. é aquele que provoca prejuízo a qualquer interesse não patrimonial. p. 52. art. o decoro. a lesão à dignidade da pessoa humana (CF/88. que é pressuposto desse direito ou ao efeito da lesão jurídica. 1º. . ou a ambos. 76 e 77. ou seja. ex. 2007. mas ao interesse. ou a ofensa a um interesse moral que reflita em dano material. a ensejar obrigação de indenizar por dano moral. o critério de distinção entre o dano patrimonial e o moral não poderá ater-se à natureza do direito subjetivo atingido. ou melhor. Deriva. de um anel de noivado.

de mensagem congratulatória ao povo brasileiro pela conquista definitiva da Coupe Jules Rimet. que não elide a responsabilidade do jornal pela publicação de notícia colhida sem cautelas e que atinge a incolumidade moral de uma pessoa. RTJ 125/1. que teve a honra de levantar o precioso troféu. Inarredável o dano moral direto. constitui ilícito indenizável (STF. mas o direito à imagem que decorre dos direitos essenciais da personalidade. No mesmo sentido: A reprodução de fotografia não autorizada pelo modelo não ofende apenas o direito do autor da obra fotográfica. dessa forma. sem autorização. Embora não se cuide de publicidade estritamente comercial. Eis a ementa do acórdão: “A ninguém é dado. por direito próprio. que impõe a reparação do dano.338). Em 1990. Trata-se de dano por ricochete. pois o contrato acertado entre as duas empresas continha cláusula para fins publicitários e de propaganda. séria lesão nos direitos da personalidade. que buliu com a emoção do povo brasileiro. mediante trabalhos e anúncios. há locupletamento ilícito. organização mercantil que explora o negócio de supermercados. afetados que foram os seus sentimentos afetivos. como já explicitado. Absolvição criminal. para promoção de revista com a qual não contratou. Retira-se outro exemplo de interessante episódio. Fazendo-o. para fins publicitários e de propaganda. Calúnia na divulgação de fatos pela imprensa. Entre os jogadores distinguia-se o capitão da equipe Carlos Alberto Torres. fundada em retratação posterior.98 defesa contra terceiros. O povo foi despertado no seu sentimento de nacionalidade. no caso vertente. com envio. agindo. Se a imagem é reproduzida sem autorização do retratado. por meio da televisão. Os crimes contra honra são campo fértil em que vicejam violações aos direitos da personalidade. mas também a exploração comercial com finalidade lucrativa. no caso. contratou a locação dos serviços da empresa HAPP – Haroldo de Andrade Publicidades e Promoções. Obrigação . a Seleção Brasileira disputou e venceu a Copa do Mundo disputada no México. televisar imagem alheia em propaganda lucrativa. o devido ressarcimento será a conseqüência de direito” (RT 464/226 e 227). E foi exatamente esse gesto o escolhido na mensagem televisiva. Entendeu o Tribunal que não houve apenas o intuito de solidarizar-se com o povo brasileiro. A família sofreu. configurando o dano moral direto: Responsabilidade civil. As Mercearias Nacionais S/A.

1ª Região. etc. entre os bens empenhados. Faz jus à indenização por danos morais. §§ 1º e 3º do CDC. RT 807/278 e 279).). Sentença mantida (RJTSP 32/141). j.: casamento.250/67). j. A existência. Des. O desaparecimento de jóias de família empenhadas à Caixa Econômica Federal dá ensejo à caracterização do dano moral indenizável. da Lei 5. É a perda de um bem patrimonial de valor afetivo.04. O dano moral indireto. noivado. 3ª Seção. rel. pois se trata de responsabilidade civil objetiva da empresa fabricante. 12. pelo fato do produto. que enseja a reparabilidade do dano moral indireto. 02. Enfim. em local ermo e à noite. uma obrigação de fazer que a seguradora deixou de fazer.09. rel.2005. se perfeitamente identificada a pessoa visado (RT 748/323). quando solicitada deixou o cliente desamparado. ex. Ora.99 de reparação dos danos morais (art. o consumidor que teve seu veículo novo. incendiado em decorrência de autocombustão do motor. as alianças. não afasta a responsabilidade indenizatória do ofendido por alcunha ou apelido. em face de ofensas dirigidas a pessoa em programa radiofônico. 49. 17. por ter deixado honrar o contrato que incluía serviço de guincho. nos termos do art. também é encontrado na jurisprudência: Responsabilidade civil – Penhor de jóias – Caixa Econômica Federal – Desaparecimento – Indenização – Dano moral – Cabimento – 1. Fagundes de Deus. Caracterizada a injúria. Do corpo do acórdão consta: .. 1.I.308-1. de alianças de ouro amassadas e sem qualquer adorno faz presumir terem eles valor sentimental para a parte autora. 2. que não conseguiu demonstrar a inexistência do defeito causador do sinistro ou que ouve culpa exclusiva da vítima. Embargos infringentes improvidos (TRF. ap. Juiz Luiz Burza. pela ofensa a bem patrimonial. e que. uma vez que tais jóias normalmente se destinam a retratar um vínculo afetivo (p. Revisa Jurídica 335/138). É devida pela seguradora indenização por danos morais.2002. ou seja. 3. no caso o dano moral deriva dos efeitos jurídicos – grande aflição e pavor – ocasionados pelo inadimplemento de cláusula contratual que respalda um interesse econômico. causando-lhe grande aflição e pavor (1º TACSP – 8ª Câm.051. recém adquirido.

Lúcida síntese da pena de Yussef Said Cahali: Na realidade. VER REVISTA JURÍDICA SÍNTESE. circunstâncias ou fatos. prefere-se transmiti-lo a outras pessoas. CC.566 6. advindo do fato naturais dissabores e contratempos. A auto-estima. certamente incutiu fundado temor e verdadeira perplexidade na pessoa do autor. evidenciando-se na dor. É que muitas vezes não se assume o próprio erro. Outras vezes procura-se prevalecer de uma situação. com repercussões na saúde psicológica e. Analisando a índole dos direitos violados na configuração do dano moral. São considerados os efeitos derivados do fato: fundado temor. em linha de princípio. trazendo consequências de difícil e até impossível superação. O episódio não foi um fato corriqueiro da sua vida de relação. na humilhação pública. mesmo que isso não seja ético e. ART. no descrédito à reputação. tudo aquilo que molesta gravemente a alma humana. na tristeza pela ausência de um ente querido falecido. no sofrimento. na angústia. a partir da experiência traumática do incêndio do veículo por autocombustão. a respeitabilidade da pessoa. multifacetário o ser anímico. Receios e temores certamente acometeram o autor e seus familiares. erigir meros transtornos da vida cotidiana em ofensas aos direitos da personalidade.100 A experiência dolorosa do sinistro. Não se está diante de mero ou corriqueiro fato indesejável do cotidiano. no devassamento da privacidade.2 Configuração do dano moral Não sem motivo denuncia-se a indústria do dano moral. ferindo-lhe gravemente os valores fundamentais inerentes à sua personalidade ou reconhecidos pela sociedade em que está integrado. As circunstâncias do fato indicam que o autor experimentou um verdadeiro constrangimento. no desprestígio. verdadeiro constrangimento. verdadeira perplexidade. dissabores. até mesmo. na . 231/1. como dano moral. por vezes. na desconsideração social. física da vítima. objeto de comentários jocosos até no seu ambiente social. VOLUME 257/74. contratempos decorrentes da deterioração de um bem patrimonial. nos traumatismos emocionais. qualifica-se. o conceito familiar e social são contrariados de forma ilícita. mas algo excepcional. porquanto malferem direitos existenciais. não há como enumerá-los exaustivamente. nota-se que essa espécie de dano é reservada para eventos que inspiram seriedade. nas circunstâncias em que se verificou. no desequilíbrio da normalidade psíquica.

o homo medius.116 Nota-se. uma vez que o simples aborrecimento experimentado é insuficiente para abalar o psiquismo da pessoa natural (1º TACiv. as contrariedades e as desilusões. nem muito sensível nem apático às ofensas. 3ª ed. 116 CAHALI. Não bastam para interceder de modo intenso a ponto de provocar o desequilíbrio psicológico daquele que é levemente ofendido. 27. De plano. cada pessoa humana é distinta pelos predicados que lhe são inerentes. representado pelo bonus pater familias. é conveniente perceber que o dano moral é ofensa a interesses relacionados à dignidade humana ou aos direitos da personalidade. como luvas nas mãos a construção engenhosa dos romanos. de sensibilidade mediana. para compensação de ofensa ao direito da personalidade (TJSP. . de perplexidade.2002. j. de Direito Privado. RT 818/195). Dessa maneira.2003.07.05. não raro. p. novamente. no sentido da pessoa de aguçada sensibilidade que a tudo se ofende. Cai. 2005. sendo que o aborrecimento em fase de uma “cantada bisonha” termina consumido pelo natural ridículo da cena repudiada. RT 809/265) Outro interessante caso decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Há no consenso feminino um aguçado instinto de autodefesa para conter investidas dos cortejadores elegantes e ou descortês. 30. pois. No entanto. 7ª Câm. Des. Outro parâmetro está na assertiva de Cahali: “multifacetário o ser anímico”. Não se pode tomar como referência nem o alfenim. uma realidade social que faz supérflua a indenização por dano moral. os percalços e os aborrecimentos. Juiz Nelson Fonseca. Ênio Santarelli Zuliani. Sao Paulo: RT. o homem impassível perante as adversidades porque falto de sentimento. Dano moral. j. as irritações e os dissabores provocados pelo ordinário da vida apartam-se do dano moral. Aquela pessoa comum. nas situações de constrangimento moral.. rel. rel. nem o estóico. não gera indenização por danos morais. a inexistência de critérios objetivos. diante de determinados eventos o julgador coloca-se numa situação de hesitação. o que. Yussef Said. portanto violados esses direitos o dano moral configura-se.101 depressão ou no desgaste psicológico.. 3ª Câm. A multa de trânsito aplicada equivocadamente deve ser considerada nula. é dizer.

destacando-se esta do extinto Tribunal de Alçada de Minas Gerais. Ofensas genéricas e impessoais são afastadas do dano moral. Câm. RT 816/310). tendo como relator o então Juiz Caetano Levi Lopes: Indenização – Notitia criminis – Dano moral – Má-fé – É direito de qualquer cidadão levar ao conhecimento da autoridade policial a ocorrência de um fato tipificado como crime. mesmo se nomeada pessoa certa e determinada. dolo ou má-fé. não nominaram o apelante. quando intentada com temeridade. se destituída de má-fé. Desse modo. Levar ao conhecimento da autoridade policial a ocorrência de fato tipificado como crime é direito de qualquer cidadão. Lecir Manoel da Luz. não existe dano moral quando as expressões tidas como injuriosas. No corpo deste acórdão várias outras decisões são citadas. II – Ocorrência. rel. por parte do noticiador do fato.2003. permitindo-se identificação do destinatário. j. inexiste. I – A representação criminal fundada na alegação de “crime de ameaça”. posteriormente arquivado por sentença. Em outras palavras.10. A notitia criminis.102 De outro lado. afigura-se como lesiva ao patrimônio moral e jurídico do representado.2002. se destituída de má-fé. somente tipifica denunciação caluniosa quando o denunciante tem a certeza moral da inocência do denunciado. assim como desprovida de pressupostos legais e fáticos. ao constranger o representado a responder por inquérito policial. Samoel Evangelista). 0254507. proferidas em assembléias.05. por tratar-se de exercício regular de direito. rel. Des. na hipótese. não gera lesão ao patrimônio moral da pessoa que foi convidada a prestar esclarecimentos sobre os fatos. Em conseqüência. Responsabilidade civil – Ação ordinária de reparação por danos morais. devendo ser pessoal e direta.. culpa e nexo de causalidade entre a conduta do agente e a ofensa à esfera jurídica e moral da pessoa . na unidade policial (TJAC. esta deverá ser direta e pessoal. obrigação de indenizar dano moral (RT 818/273). a ofensa à honra deve ser dirigida contra pessoa certa e determinada. 14. Também não constitui dano moral a notitia criminis levada – de boa-fé – à autoridade policial para a apuração de fato típico diante da ocorrência de evidências. Para que se efetive a ofensa à honra. A notitia criminis. j. Ap. 2ª Câmara. 12. 4ª T. referindo-se apenas à existência de uma “gangue” (TJDF. Des. Cível. de evento danoso. não gera lesão no patrimônio moral da pessoa indicada.

também nada lhe será exigido provar nem sequer eventual prejuízo.] (TJCE.103 representada. A concepção atual da doutrina orienta-se no sentido de que a responsabilização do agente causador do dano moral opera-se por força do simples fato violador (damnum in re ipsa). p. por meio de testemunhos. seu nome ou seu conceito social afrontados. presunção hominis ou facti..3 A prova do dano moral Evidente que danos tão distintos como o patrimonial e o moral não podem exigir o mesmo tratamento probatório. Bem por isso. Revista Jurídica 268/116). que decorre das normas da experiência comum. Seria um plus inaceitável impor à vítima o ônus de comprovar o seu sentimento. o dano moral existe in re ipsa. o dano moral decorre diretamente da gravidade da afronta. Casos tópicos exemplificam: Os bancos. se presentes os pressupostos legais para que haja a responsabilidade civil (nexo de causalidade e culpa) (RSTJ 98/270 e RT 746/183).. 14 do 117 CAVALIERI FILHO.11. 7 ed. rel. 83. Des. Verificado o evento danoso. algo que passa no seu íntimo: a dor. o dever de indenizar [. que é o ato praticado com o firme propósito de causar dano a outrem. por conseguinte. j. o segundo. está demonstrado o dano moral à guisa de uma presunção natural. .1999. provada a ofensa. prescindindo da análise da culpa. como prestadores de serviços aos seus clientes – consumidores finais – estão submetidos às disposições do Código de Defesa do Consumidor. o vexame. a chamada dor-sentimento. E o sofrimento reside no próprio acontecimento funesto. Cível. provado está o dano moral. respondendo objetivamente pelos danos que causarem a terceiros. não. 6. surge a necessidade da reparação. José Mauri Moura Rocha. 10. 2ª Câm. a teor do exposto no art. se a vítima teve sua imagem. não havendo que se cogitar da prova do prejuízo. Programa de responsabilidade civil.. a ensejar. Provado o fato. 2007. Sergio. de modo que. documentos ou perícias.. dispensada qualquer prova. a humilhação etc. Enquanto o primeiro deixa vestígios evidentes que podem seguir os meios tradicionais de prova. No caso em apreço dá-se a emulação. O fato assim o demonstra. São Paulo: Atlas.117 A perda de qualquer parente próximo implica inexoravelmente em sofrimento. Da mesma forma.

pois nos parece ultrapassada a doutrina que identifica o dano moral ao preço da dor (pretium dolis). Desa. embora com essa idade nem consiga perceber o verdadeiro sentido da morte. imagem. neste mesmo sentido 817/360 e 807/278). já que.119 118 119 COELHO. 14. Francisco Vieira. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense. que a dor da mãe ou do pai pela perda do filho independe de prova. A conduta da prestadora de serviços telefônicos caracterizada pela veiculação não autorizada e equivocada de anúncio comercial na seção de serviços de massagem viola a intimidade da pessoa humana ao publicar telefone e endereço residenciais. 2ª Câm. Essa posição isolada encontra pouco espaço na ordem jurídica. quando comprovadamente existente provisão de fundos em conta corrente.02. privando-a de efetuar suas compras. mais fácil será fingir o sofrimento. volume 2. na espécie. São Paulo: Saraiva. No sistema jurídico atual. 2006. Ato antijurídico e responsabilidade civil aquiliana – crítica à luz do novo código civil. LIMA NETO. por ser evidente. in Introdução crítica ao Código Civil.104 referido diploma legal. j. Célia Smith. 417. RT 817/360). configura o dano moral. 2005. a ordem de apreensão do cartão de débito da cliente. Não cabem presunções. rel. o dano é presumido pela simples violação ao bem jurídico tutelado (STJ. Curso de direito civil. Da mesma forma. 4ª T. 247. Nesse passo. 16. Francisco Vieira Lima Neto responde: Discordamos de Coelho. pois uma criança de l ano sofre dano moral quando perde seu pai em virtude de ato ilícito de alguém. Quanto menos doloroso tiver sido o evento danoso para a vítima. é uma ingenuidade imperdoável do magistrado. dentre eles a intimidade. ainda assim haverá dano moral.2003. para quem é ônus da vítima a comprovação da dor-sentimento derivada da ação ou omissão danosa: Os juízes devem ser muito prudentes ao decidir pelo cabimento da indenização.2003. Fernando Gonçalves.118 No arremate do trecho esse nomeado autor assegura que a única função do dano moral é compensar a pungente dor que algumas vítimas sofrem. Lucas Abreu Barroso (organizador). honra e reputação. Diferente é a posição adotada por Fábio Ulhoa Coelho. Afirmar. . p. rela. por exemplo. para que não se deixem enganar pela simulação da dor.09. Fábio Ulhoa. j. pessoa em coma pode ter seu nome difamado e sua imagem indevidamente utilizada e nunca chegar a ter consciência dessa situação. independentemente de prova objetiva do prejuízo sofrido (TJRN.. p. pode ser aceita apenas como exceção em casos muito especiais. Min.. RT 824/180. não se cogita da prova acerca da existência de dano decorrente da violação aos direitos da personalidade.

o acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. pelo se conclui que a responsabilidade da instituição bancária é objetiva. 14 do CDC. caracterizar enriquecimento sem causa da vítima. Evidente a ausência de dor-sofrimento pela perda do companheiro. impõe-se o reconhecimento da responsabilidade objetiva do fornecimento do serviço. No caso em que o dano moral recai sobre pessoa jurídica. fixando-a com moderação. Apelação da CEF improvida. Vencido. Conceder dano moral nessa hipótese atenta contra a equidade e a justa causa. É dever da CEF prestar o serviço aos seus clientes dentro de condições normais de segurança.105 Das posições colocadas resta a certeza de que a regra geral – damnum in re ipsa – não pode ser levada ao extremo. pelo que. Reconhecida a possibilidade de violação do sistema eletrônico e. não tendo o autor comprovado que em virtude da falta do numerário sofreu algum dano moral relevante. 2. 5. quantificar a indenização. O dano moral não presumível do só fato da ocorrência de saque indevido de valores em conta de titularidade do autor. O inquérito policial colheu prova irrefutável de que o sepultamento deu-se no sábado por volta de 13. Para que a pessoa jurídica faça jus a indenização por dano material ou por dano moral. relatando que seu companheiro havia sido atropelado e morto por volta de 18. pelo protesto indevido de título de crédito. no percurso de retorno do trabalho. Vilipendia o binômio Direito e Moral. 3º. Recurso adesivo do autor improvido (RJ 357/164. observando o princípio da razoabilidade. tratando-se de sistema próprio das instituições financeiras. em seu art. O Código de Defesa do Consumidor. cuja raiz comum é a Ética.00 horas e ela foi ao baile de forró na mesma noite. comprovadamente feitas por pessoa que lhe é estranha. o entendimento tem sido no sentido da comprovação da ofensa. no ponto o relator. Assim. de modo que represente reparação ao ofendido pelo dano. contudo. inclui expressamente a atividade bancária no conceito de serviço. ocorrendo saques na conta poupança do cliente. Eis um caso paradigmático: uma senhora procurou a Promotoria de Justiça. como assim dispõe o seu artigo 14 (Súmula 297 do STJ). Compete ao juiz. sem. § 2º. grifo nosso).00 horas de uma sexta-feira. quando o debate da matéria ensejou divergência: Responsabilidade civil – Indenização – Aplicação do Código de Defesa do Consumidor – Saques Fraudulentos – Danos Materiais e Morais – Cabimento – 1. necessária se torna . não resta configurado o direito à indenização. sendo que na quarta-feira seguinte o leito conjugal já era aquecido por novo ocupante. Exceções existem. somente passível de ser ilidida nas hipóteses do § 3º do art.

Não significa a eliminação de um prejuízo. no mesmo sentido 754/423). O tão-só fato da interrupção dos serviços telefônicos não é o bastante para automaticamente inferir-se a ocorrência do alegado dano moral à pessoa jurídica. a jurisprudência está consolidada no sentido de admitir o dano moral à pessoa jurídica. A prova do fato que gerou lesão à reputação da pessoa jurídica é suficiente para a indenização do dano moral. 112). Dano moral. Responsabilidade civil – Danos morais – Pessoa jurídica – Interrupção dos serviços telefônicos – Prova dos prejuízos – Acórdão – Nulidade – Inexistência. DJ 5.08. objetivos que não se descortinam no caso. rel. 389). rel.02. in DJ 12. O tema apresenta controvérsia na doutrina e na jurisprudência. Prova. 3.030/RJ. p. 4ª Turma.2002. mas. Min. nada importando que daí tenha resultado. REsp. rel. Recurso especial conhecido e provido (REsp. pois o chamado preço da dor. p/ acórdão Min. Ari Pargendler.4 Critérios de fixação Tormentoso é o critério para fixação do dano moral na falta de disposições legais expressas. Os embargos de declaração visam à integração e correção do julgado.2002. Carlos Alberto Menezes Direito. Dano moral. p. haja vista que a noção de indenização está intimamente relacionada a ressarcimento de prejuízo causado a uma pessoa por outra ao inadimplir obrigação contratual (CC. A palavra ajustada é compensação ou satisfação. ou mesmo do . ou praticar ato ilícito (CC. Min. impõe-se a condenação. rel. o que é impossível no dano moral. STJ. 186). Min. Precedentes. Cabimento. o sofrimento. art.8. Está assentado na jurisprudência da Corte que “não há falar em prova do dano moral. 204786/SP. 3ª Turma do STJ. Protesto indevido de duplicatas. 1. sob pena de violação ao artigo 344 do Código de Processo Civil”. ou não. na prova do fato que gerou a dor. 299282/RJ. 347). p. sentimentos íntimos que o ensejam. 6.106 a demonstração do efetivo prejuízo econômico sofrido (RT 731/286. 3ª Turma. Necessidade de prova específica a respeito (STJ. A equidade não permite se constitua motivo de enriquecimento sem causa. DJ de 05. Barros Monteiro. Ressalvado o convencimento do Relator. Provado assim o fato. 2. nem que seja compensado com quantia vil. Sálvio de Figueiredo Teixeira. art. sim.2001. 347). prejuízo patrimonial (REsp 169.

que não desempenha função de equivalência. ideal ou moral. isto é. compensá-los. proporciona a este uma reparação satisfativa. Apud NANI. acontece que da violação de sua personalidade emergem directa e principalmente danos não patrimoniais ou morais. de proporcionar uma satisfação em virtude da aptidão do dinheiro para propiciar a realização de vasta sucessão de interesses. 344. não existe. sim. a sanção do dano moral não se resolve numa indenização propriamente dita. A reparação nesses casos reside no pagamento de uma soma em dinheiro. trata-se. já que indenização significa eliminação do prejuízo e das suas conseqüências. arbitrada judicialmente. a sua reparação se faz através de uma compensação. 1 2 0 Na mesma sintonia é a lição do Direito português. cuja lesão desencadeia um dano moral. GIOVANNI ETTORE. . na qual se podem incluir interesses de refinada ordem ideal. sendo possível. É que os interesses. Porque infungíveis são impossíveis de reposição in natura.107 sangue. em certa medida. Rabindranath Capelo de Souza preleciona: Dado que a personalidade humana do lesado não integra propriamente o seu patrimônio. impondo ao ofensor a obrigação de pagamento de uma certa quantia de dinheiro em favor do ofendido. em que na fixação do quantum 120 121 Op. Enriquecimento sem causa. p. Yussef Said Cahali ensina: Diversamente.. 2004. prejuízos de interesses de ordem biológica. apenas podem ser compensados. 1 2 1 Dentro desta ótica de pensamento. que. e não de um ressarcimento. e também não podem ser reintegrados por equivalente. sendo insusceptíveis de avaliação pecuniária. ao mesmo tempo que agrava o patrimônio daquele. espiritual. o que não é possível quando se trata de dano extrapatrimonial. são infungíveis. ganhou espaço na doutrina e na jurisprudência a eleição de um critério eclético. É uma imoralidade. que não exactamente indemnizados. não patrimonial. p. São Paulo: Saraiva. A toda evidência. 42. com a obrigação pecuniária imposta ao agente. cit.

portanto. depois que tenha cometido o ato ilícito. v. a exacerbação da sanção pecuniária é formula que atende às 122 123 VARELA. a conduta do agente. CASILLO. segundo. porém. no caso dos danos não patrimoniais. ou o evento lesivo advindo. Fundamenta-se este autor no exemplo da jurisprudência dos países da common law. I. refletindo-se. que adotam o espírito da punitive ou exemplary damages. eis o texto: O importante. 83. fazendo recrudescer as diferentes formas de violência. 608. Consubstancia-se. os danos sofridos pela pessoa lesada. em seguida: Ora.” . uma natureza acentuadamente mista: por um lado. cit. de modo expressivo. é sublinhar que a função primordial é satisfazer a vítima pelo dano que lhe foi infligido. embora secundária. funciona como intimidatória para evitar repetição da conduta ilícita do agente produtor do dano. e argumenta. em momento em que crises de valores e de perspectivas assolam a humanidade. conforme leciona outro civilista português Antunes Varela: A indemnização reveste. efetivamente. op cit. p. 1 2 2 João Casillo entende que a função primordial é satisfazer a vítima pelo dano sofrido. não lhe é estranha a idéia de reprovar ou castigar.. entretanto. também com intuito de fazer com que o causador sinta uma verdadeira pena.108 debeatur são considerados dois aspectos distintos: primeiro. p. op. no patrimônio do lesante. por outro lado. a fim de que sinta. é uma punição ao agente do ato lesivo. esse posicionamento constitui sólida barreira jurídica a atitudes ou a condutas incondizentes com os padrões éticos médios da sociedade. 1 2 3 Esse valor de desestímulo na reparação do dano moral é também preconizado por Carlos Alberto Bittar: Em consonância com essa diretriz. em importância compatível com o vulto dos interesses em conflito. De fato. visa reparar de algum modo. a indenização por danos morais deve traduzir-se em montante que represente advertência ao lesante e à sociedade de que não se aceita o comportamento assumido. A idéia de sanção é secundária.. é uma recompensa à vítima. no plano civilístico e com os meios próprios do direito privado. mas a idéia de sanção. funcionando mais com caráter intimidatório para evitar o dano. a resposta da ordem jurídica aos efeitos do resultado lesivo produzido. mais do que indemnizar.

Mas se a reparação se tem de fazer em dinheiro. fora de dúvida. tão clara quanto nos Direitos romanistas. no Direito inglês. observada na atualidade como posição dominante na doutrina nacional. de uma indenização tão elevada que possa servir de exemplo aos outros membros da sociedade. e conseguindo alteração do sentimento e da vontade. no sentido de que o comportamento do autor do dano é a tal ponto condenável que ele merece uma sanção complementar Eis porque as perdas e danos “exemplares” (exemplary damages) são também denominados punitve damages. para quem: “Em presença dos danos extrapatrimoniais. ocorre a mesma discriminação. A responsabilidade civil e a responsabilidade penal encontram-se de alguma forma confundidas graças a este paralelismo de funções. Finalmente Sérgio Severo conclui: No Brasil tem prevalecido a teoria da dupla natureza reparatóriapreventiva. como o seu próprio nome indica. porque também esta pode empregar-se na satisfação do prejudicado. Encontra-se aqui. Essa função oferece satisfação à consciência de justiça e à personalidade do lesado. 1 2 4 Nesse trote segue Sérgio Severo. 220 e 221. Trata-se. em face da possibilidade da reparação natural. a idéia de dissuasão (teory of deterrence) muito freqüente no Direito inglês da responsabilidade civil. avultam os pontos de contato entre a indenização e a pena. da responsabilidade civil. isto é. p. ao que parece. Mister se faz que imperem o respeito humano e consideração social. para quem a dupla natureza da satisfação do dano moral arrima-se numa tendência de feedback entre a responsabilidade civil e a penal. apaziguamento. E cita o seguinte texto de Sérgio José Porto: A condenação a perdas e danos “exemplares” (exemplary damages) é. A distinção entre a função reparadora da responsabilidade civil e preventiva da responsabilidade penal não é. Uma forte influência deve ser tributada a Aguiar Dias. ou das conseqüências exteriores da injúria o da calúnia etc. e a 124 Ibide.109 graves conseqüências que de atentados à moralidade individual ou social podem advir. . como nos exemplos da lesão corporal curável. quando possível a restituição das coisas ao status quo. proporcionando-lhe o solatium. uma característica dos direitos da família na Common law. como elementos necessários para a vida em comunidade.

in RT 602/180). A expressão segundo as circunstâncias foi interpretada pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Não deve ser fonte de enriquecimento. de pena. A intensidade da culpa. v. criará ambiente favorável para indenizações mais 125 Os danos extrapatimoniais. porque entranhado de subjetividade (TJRJ – 8ª C.”125 O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo decidiu: Hoje em dia. A união dos dois elementos propostos: rompimento com a cultura não punitiva dos danos extrapatrimoniais e apreciação do grau de culpa do ofensor. tanto punitivo do agente. 186-189 (grifo do texto transcrito). 5º.n. e arbitrada segundo as circunstâncias. incs. – Ap. São Paulo: Saraiva. árduo e delicado. p. 137. 67). quanto compensatório. Des. em relação à vítima (cf. está na inovação dos Tribunais quanto ao grau de culpa do agressor.062. 186-187. a boa doutrina inclina-se no sentido de conferir à indenização do dano moral caráter dúplice. 1996. arbitrar o quantum.110 indenização pode desempenhar um papel múltiplo. socorrendo-se da teoria já evoluída do Direito Penal acerca do tema para. 1998. g. cabe ao juiz investigar a intensidade da culpa. no sentimento daquele que pleiteia a reparação. PEREIRA. Paulo Roberto Ribeiro Nalin dispensa especial ênfase ao grau de culpa do agente produtor do dano moral e argumenta: A base eqüitativa para que o prejuízo extra-patrimonial não seja compensado com montante vil. art. . Assim. as circunstâncias em que ocorreu o evento danoso poderão informar o critério a ser adotado em tal arbitramento. Na esteira desta jurisprudência. Na ausência de critério objetivo de liquidação do dano.). p. então. V e X) deve receber uma soma que lhe compense a dor e a humilhação sofridas. tendo como relator o Desembargador Paulo Pinto: No arbitramento do valor do dano moral é preciso ter em conta o grau em que o prejuízo causado terá influído no ânimo. a vítima de lesão a direitos de natureza não patrimonial (CR. por certo. de satisfação e de equivalência. a violência. nem ser inexpressiva (RJTJESP. p. rel. 36. por meio de sua 8ª Câmara. Paulo Pinto.

d) se tivesse caráter penal. 236: “E stato cosi osservato che. La tutela civile di diritti. E finaliza o texto: Assim (. essa orientação é própria da doutrina italiana. 2ª) punir o causador do dano moral.. nefastos ao convício social. portanto.111 justas. No terreno patrimonial esses conceitos se extremam em face das seguintes observações: a) a pena tem em vista a culpa do delinqüente. duas finalidades a reparação dos danos morais: 1ª) indenizar pecuniariamente o ofendido. Adolfo. Fabrício Zamprogna. Paulo Roberto Ribeiro. 126 NALIN. p. ao nível do prejuízo suportado. Curitiba: Juruá. isto é. Com a quest’ultimo aspectto si dovrà tenere conto della gravità della colpa. si tende ad offrire una qualche forma di soddisfazione e/o di gratificazione alla vittima vittima dell’illecito. 1993. como assegura Shering. c) a pena é.” (MATIELO. ao passo que a indenização tem no ato ilícito apenas uma das diversas causas de que pode surgir. f) a pena pode ser convertida em outro castigo. 1997. A segunda não se compreende sem o dano. dall’altro lato. acrescentando a consideração ao grau de culpa do causador do ato ilícito. enquanto a indenização atende à preocupação de reparar o dano. porque se mede em função dele. a obrigação de indenizar subsiste. dano material e reparação. Con essa. que o enfoque de pena privada na fixação do dano moral merece reservas. inseparável da pessoa do delinqüente. hoje. que a pena privada. 1996. sofre a sorte fatal da própria pena. Porto Alegre: Sagra Luzzatto. Com a primeira.” . logo acima do texto por este transcrito: Devemos e podemos concluir. da un lato. mas está sujeito a indenização. a indenização não seria transmissível aos herdeiros do lesado.) o pagamento de uma soma a título de satisfação ocupa um lugar intermediário entre a indenização e a pena. não obstante. FABRÍCIO ZAMPROGNA MATIELO comunga da mesma opinião: Tem entre nós. 63. na mesma obra citada por Sérgio Severo. alcançando-lhe a oportunidade de obter meios de amenizar a dor experimentada em função da agressão moral. Dano moral.1 2 7 Cuida-se ressaltar. 127 DI MAJO. Milano: Giuffrè. inibindo novos episódios lesivos. b) a pena é sempre uma conseqüência do delito. dell’autore dell’ilectio nonché delle modalitá di questo. e) o irresponsável não está sujeito a pena. anche a sanzionare il comportamento del responsabile della violazione. p. Não se pode olvidar a lição do próprio José de Aguiar Dias. p. Responsabilidade civil: descumprimento do contrato e dano extrapatrimonial. embora inexeqüível. mas a indenização não é. não obstante a magistral defesa de Stark. em um misto de compensação e satisfação. 559). la riparzioni del danno non patrimoniale ha una funzione compósita. vol.dacché è innegalileche il danaro possa anche servire a tale scopo . Sua história é a história do seu progressivo desaparecimento. 3. nel senso di assicurare ad essa un beneficio economico . 1 2 6 Na verdade.e. se o delinqüente não a pode satisfazer. A primeira não se preocupa com a existência do prejuízo. in tale caso. não se aplica por força do dano. pois cogita de impor o mal ao causador do mal.. Di Majo ressalta este caráter duplo: de satisfação ao ofendido e sanção ao ofensor.

129 Opinião acompanhada por outro clássico. donde estar certo Fischer ao afirmar que “da indenização à pena via senão um passo. nós o reconhecemos. com esta tem de comum o implicar em mal para o indenizante. 3ª ed. pode oferecer uma relativa confusão. uma pena privada. na reparação dos danos morais não seja. é apenas o seu fato gerador. A questão. nullum crimen sine lege. p. na responsabilidade civil. se transmite aos herdeiros do ofensor. com esquecimento. 1983. 130 Direito privado. de tal maneira a que se contenha em seu bojo uma punição. do contrario se capacitará forçosamente. Para que. Wilson Melo da Silva: Que a indenização mandada pagar. Com efeito: Para que haja pena. exacerbada. 2. para imposição da pena. A multa penal. p. a circunstância determinante dele. a pessoa do ofendido e não a do ofensor. 92. 181. o quantum da reparação apenas sofre essa variação de conformidade com a maior ou menor extensão do dano. O dano moral e sua reparação. bem as coisas. no entanto. alguns chegam a falar em pena. em castigo. quando encarada pela primeira vez. a simples tentativa. O delito. O dano. no dano. 3ª ed. porém. basta a simples infringência da ampla regra do neminem laedere. se busca ressarcir é apenas a conseqüência. com o fito de desestimular a prática de tais ilícitos. mister se torna. em tese. por isso mesmo. não. do delito e não o delito mesmo. . todavia. não. São Paulo: Revista dos Tribunais. cremos não se pode duvidar. deve ser uma indenização alta. porém. cit. patrimonial ou não-patrimonial. admite conversão.” Consideradas. no cível. 736. para mais ou para menos. Esse é o entendimento de outro destacado clássico. necessário se faz que o dano se tenha tornado efetivo. 572-574: “O delito sempre pressupõe a culpa do agente. Para a existência do dano. e não a culpa do autor.112 compartilha o fim essencial de representar uma prestação imposta a favor e em consideração do lesado. patrimonial ou extrapatrimonial. um texto legal expresso que a comine e um delito que a justifique. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Jurídica Universitária. E se é certo que. p. nem sempre se torna necessária a culpa do agente ou da pessoa por ele responsável. Rio de Janeiro: Forense. se tenha a obrigação de reparar. e que. da reparação do dano. ou seja. de que estaria albergando também ‘enriquecimentos indevidos’130 128 129 Op.. no juízo cível. o ônus. E se o volume da pena varia. 1965. A simples indenização. em cada caso. Vide mesmo autor: Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. Nulla poena sine lege. Arruda Alvim: Quanto à natureza do dano moral. a extensão do prejuízo. vol. 2002. de conformidade com a culpa do agente.128 Ora. pelo juiz. basta às vezes. para que se determine a obrigação de reparar. E o que. Mira-se. para José Aguiar Dias a satisfação do dano moral não deve ser pena. Tal linha de pensamento carregaria consigo uma “missão didática”. p. para graduação do quantum reparador. verdadeiramente. A pena não passa jamais da pessoa do delinqüente.

indenizar-se-á o ofendido mais do que lhe cumpriria receber. E decorrerá o enriquecimento indevido porque tal sanção não é prevista em lei. p. além de violar o princípio da legalidade. Sendo assim. pode fazer com que a reparação do dano moral tenha valor superior ao próprio dano. Importância considerável seria inatendida pelo pobre. inspira-se o nosso sistema jurídico na supremacia do direito legislado. atuará como fator de desestímulo ao ofensor). Demais disso. Evidente. Rio de Janeiro: Renovar. São Paulo: Saraiva. 353. Uma importância pequena seria atendida pelo pobre. Logo. Enriquecimento sem causa. indireta e automaticamente. Esse critério aplica-se também no arbitramento do dano moral. 365: “Ademais. p. GONÇALVES. E aduz. que o julgador. sendo lesante em uma oportunidade um rico. por vezes. Diversamente do direito norteamericano. vol. adicione-lhe um plus a título de pena civil. expressa no preceito constitucional de que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei. não é assimilado pela ordem jurídica. mais adiante: É sabido que o quantum indenizatório não pode ir além da extensão do dano. Esse locupletamento indevido. É preciso considerar as diferenças decorrentes das condições econômicas. Carlos Roberto. p. pois. seria inconciliável. Comentários ao Código Civil: parte especial: direito das obrigações. como pretendem alguns. revertendo a indenização em proveito do lesado. de uma soma que ultrapassa o que representou de agravo para o ofendido. Luiz Rodão de Freitas. a indenização não pode ser elevada apenas para punir o lesante. este acabará experimentando um enriquecimento ilícito. 2002. mas não seria pena para o rico. São Paulo: Saraiva. 11 (arts. 2004. Elementos de responsabilidade civil. da mesma natureza. Se este é moderado. bem como o conteúdo e os limites dos poderes de que se acham investidos os seus juízes e ainda o sistema de seguros dos Estados Unidos da América do Norte. 927 a 965). que a pena não poderia ser idêntica. é que elas podem conduzir ao 131 NANNI. Essa dupla face na fixação do dano moral. Giovani Ettore. e em outra um pobre. A crítica que se tem feito à aplicação. caso se acate a faceta punitiva.” . das punitive damages do critério norte-americano. por ser princípio norteador do direito obrigacional e moderador dessa prática ilegal. entre nós.113 Sem dúvida. 101. daí decorrerá fatalmente o enriquecimento sem causa. preciosa a lição de Carlos Roberto Gonçalves: Não se justifica. com o qual não se compadece o nosso ordenamento.131 Basta o cotejo da seguinte situação hipotética: uma mesma pessoa que sofresse dano moral. raízes históricas e de costume. inspirando-se nas punitive demages do direito norte-americano. depois de arbitrar o montante suficiente para compensar o dano moral sofrido pela vítima (e que. 2003. mas funcionaria como pena para o rico. a indenização revestir-se-á de um plus. No mesmo sentido GOMES.

jamais a aplicação de uma pena 132 Comentários. como a cláusula penal em caso de inexecução completa da obrigação ou de alguma cláusula especial ou simplesmente em razão da mora (art. pode fazer com que a reparação do dano moral tenha valor superior ao próprio dano. logo. a exemplo das penas penais. este acabará experimentando um enriquecimento ilícito. Melhor exemplo. 940). Dessa maneira. previstas na legislação. expressamente.992). 5º. Sendo assim. HERCULANO NAMORA Por esta razão cumpre esclarecer em alto e bom tom. p. REL. um enriquecimento ilícito. 939). do mesmo modo o direito processual civil no caso das astreintes do direito francês. a multa diária do direito pátrio (arts. nem sempre o culpado será punido. 18). as penalidades civis estão. seja também aquele que demandar por dívida já paga (art. representará. nem sempre o responsável pela indenização é o culpado pelo dano.132 De efeito. as sanções pecuniárias ao litigante de má-fé. já mencionado. este pode não ocorrer. Embora seu direito de regresso. 363-365. ou no caso dos sonegados em sede de inventário (art. com o qual não se compadece o nosso ordenamento. 409). XXXIX. cit. as quais poderão ser impostas a requerimento da outra parte ou mesmo de ofício pelo juiz ou tribunal (art. Se a vítima já estará compensada com determinado valor.114 arbitramento de indenizações milionárias. Ademais. na responsabilidade civil. a lei material civil prevê formas típicas de pena privada pecuniária. uma compensação ao lesado. nem pena sem prévia cominação legal. seja ainda pelo credor que demanda o devedor antes de vencida a obrigação (art. da Lei Magna: “Não há crime sem lei anterior que o defina. pois tal viola o princípio constitucional da legalidade. se o empregado não tem patrimônio para responder. VER REVISTA STJ 77 ou 78/99. no entanto. é o caso do culpado ser coberto por apólice de seguro. . na fixação do dano moral o que deve nortear o julgador é uma satisfação. estabelecido no art.” Outro argumento de grande peso e calado é que. para que o ofensor seja punido. sem dúvida. daí não há motivo para sustentar a legitimidade de uma pena sem prévia previsão legal. É o caso do empregador que paga a indenização por ato ilícito do empregado. 621 e 645). 1. além de não encontrar amparo no sistema jurídico-constitucional da legalidade das penas. inc. o que receber a mais. revertendo a indenização em proveito do lesado.

São aquelas condutas especialmente afrontosas. No dano. que faz o seguinte comentário sobre a famosa socialite Carmen Mayrink Veiga. o delito é o seu fato gerador. ao dispor no seu art. sendo destinado a contemplar o número maior de pessoas. aviltantes. destarte.. Assim como é na Lei nº 7. 13: “Havendo condenação em dinheiro. Há pouco tempo fiz um artigo elogiando Camen Mayrink Veiga. Uma perua. Ap.3. Nessas hipóteses. necessariamente. de 9. Nagib Slaib Filho. Des.1999. . não de punição. “Esse deu desfalque na Suíça. Não há como negar. Só não sou alienado quanto à condição humana. sendo seus recursos destinados à reconstituição dos bens lesados. diverso.” Para tanto com a palavra os legisladores. a indenização pelo dano causado reverterá a um fundo gerido por um Conselho Federal ou por Conselhos Estaduais de que participarão necessariamente o Ministério Público e representantes da comunidade.347. Este é o sistema brasileiro. e no juízo civil busca-se ressarcir os efeitos patrimoniais ou extrapatrimoniais do delito. Estive na casa dela. Ou ainda. não punir o delito em si. chegou a seguinte conclusão: “À indenização por danos morais deve dar-se caráter exclusivamente compensatório. realizado em São Paulo nos dias 29 e 30 de agosto de 1997. ser atribuído em beneficio de fundos especificados. de 24 de julho de 1985. um valor a título de punição. o IX Encontro de Tribunais de Alçada do Brasil. o juízo civil é de reparação. Outro critério surgiu em acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Mostrou os álbuns de fotografia. mas elogiei. o qual deverá. aquelas condutas teimosamente reiteradas que reflitam lesão ao bem comum. que disciplina a ação civil pública. jornalista Carlos Heitor Cony. impondo-lhe dano punitivo. há casos tipificados de gravidade. É chato elogiar a Camen Mayrink Veiga. por conhecido escritor. Civil 9. o 133 TJRJ.114. a fim de se observar o milenar preceito da anterioridade da lei ao estabelecer pena. um luxo de um mau gosto desgraçado.922.133 O caso foi motivado pela entrevista concedida à revista Playboy. Ou seja. É uma tristeza.115 ao lesante.800. em geral. que não pode passar despercebido pelo quanto inovador. que a consciência social quer que lhe atribua caráter de exemplaridade. na edição de julho de 1997: Playboy – Em mais de uma ocasião você se definiu como um “alienado”. do sistema inglês e norte-americano que não poderá servir-lhe de modelo. em relação à sociedade de um modo geral. e todos os amigos estão na cadeia. Nessa toada. Cony – Gosto muito de me considerar alienado.” Todavia. aí não. 3ª C. que se estabeleça um valor maior ao da indenização. Rel.

116 coitadinho. Esse deu desfalque (rindo) na Inglaterra, está preso, todo dia rezo para ele sair da cadeia...” O mundo de Carmen Mayrink Veiga é terrível! E todo mundo está chutando esse cachorro atropelado. Ela está doente, tem um problema chato na perna, sente dores, vive à base de cortisona, está enorme, monstruosa de feia. Mas, na hora de fotografia, bota todo aquele sorriso e ainda é uma perua. Arrivista social, alpinista social – tudo o que você quiser você joga em cima dela. Mas no momento em que Carmen Mayrink Veiga está na desgraça, virou saco de pancada, eu me recuso a linchar. Nunca linchei um Judas. Agora ela conseguiu dar a volta por cima? Aí vou em cima dela, entendeu? Talvez eu tenha herdado isso do meu pai: adoro causas perdidas...

Pelo desencontro que ainda causa as ações de dano moral, o juiz de primeira instância julgou improcedente o pedido de reparação, argumentando que a notoriedade da autora (Camen Mayrink Veiga), enseja a possibilidade de padecer críticas menos favoráveis à sua pessoa. Assim sustentou: A liberdade de expressão sobreleva em dias atuais à categoria de preceito constitucional, implica a possibilidade de pessoas manifestarem-se livremente sem a vigilância ditatorial recém abolida. É certo que existem limitações obtemperando tal ideário, mas não chegam a delinear os contornos do embate em tela. Os elogios fervorosos proferidos pelo entrevistado em dado momento, acatados na íntegra pela autora, conferem a ele, na verdade, autoridade bastante de suplantá-los, desconsiderá-los ou, sabe-se lá, reafirmá-los em futuro próximo. Assim, ao brindar a autora com a narrativa de sua aparição na sociedade, demonstrava o entrevistado conhecimento de sua história, para o bem ou para o mal. Quanto às preocupações da autora em relação às suas atividades de consultora de moda, vale ressaltar, trata-se de ofício extremamente vinculado às intempéries da aceitação geral. Dano nenhum à credibilidade da autora foi provocado pelas opiniões do jornalista entrevistado, e nem poderia, porquanto ele mesmo não detém o poder de estabelecer a ordem do bom gosto. Na elaboração de seu voto, o Desembargador Nagib Slaib Filho contraria a fundamentação desta sentença, no que se refere à interpretação dos acontecimentos: É fato público e notório, a dispensar a produção de prova (CPC, art. 334,I), o domínio lingüístico exercido por Carlos Heitor Cony, que se destaca na nacionalidade como autor e jornalista, circunstância, aliás, que não só conduziu à publicação da entrevista – com chamada de capa da revista pela expressão “Na entrevista Carlos Heitor Cony: ‘fui preso cinco vezes e nunca encontrei um comunista na cadeia” – como também agravou o ataque à honra pessoal da autora que, por sua vez, é pessoa

117 conhecida em âmbito nacional, merecedora até mesmo de capa de revista de circulação nacional. Neste contexto, e conduzida pela notoriedade das pessoas envolvidas, a publicação do malsinado trecho da reportagem pela recorrida teve evidente intenção de destacar situação da autora que, naquela perspectiva, representaria contradição de seu passado, a indicar quadro de degradação social e pessoal. É facilmente perceptível ao leitor, que compõe o público-alvo da revista, como até mesmo àqueles que não se destacam pelo grau de intelectualidade, a intensa carga injuriosa de expressões que, em seu conjunto, intentam evidenciar a referida degradação. Ainda que se colha separadamente o significado das expressões utilizadas na entrevista – e o domínio lingüístico exercido pelo entrevistado, e o desejado grau de percepção do editor de revista de tal porte, excluem a utilização culposa – vê-se a carga intensa de vulneração da honra subjetiva da autora: (...) estive na casa dela. É uma tristeza, um luxo de um mau gosto desgraçado (...) (...) uma perua (...) (...) mostrou os álbuns de fotografia, e todos os amigos estão na cadeia (...) (...) o mundo de Carmen Mayrink Veiga é terrível! (...) (...) está enorme, monstruosa de feia (...) (...) nas, na hora da fotografia, bota aquele sorriso e ainda é uma perua (...) (...) arrivista social, alpinista social – tudo o que você quiser você joga em cima dela (...) Não pode esperar a editora que elogios anteriores do entrevistado à demandante pudessem constituir bill of indenity para assaques posteriores, mesmo porque a honra é valor indisponível nas sociedades de fundo liberal. Rejeita-se, também, o argumento da recorrida de que nenhum dano à apelante foi provocado pelas opiniões do entrevistado pela alegada incoincidência entre o público-alvo da revista com o público da autora em sua atividade no mundo da moda. Impossível dissociar a pessoa humana de seus papéis na sociedade quando a ela se faz referência a qualidades negativas que não se resumem ao seu mundo profissional, mas a sua personalidade. Tanto é assim que a revista publicou o malsinado trecho da entrevista, a despeito de agora alegar que seu público é diferente... Segue o acórdão a expor os fundamentos jurídicos, apoiados na Constituição Federal, de modo especial na tutela da dignidade da pessoa humana: Contudo, ao tratar da comunicação social, o art. 220 da Constituição ressalva os valores pela Carta Magna também protegidos, conduzindo o julgador a sopesar os valores em conflito para que nenhum deles reste abandonado.

118 No conflito entre os valores constitucionais de proteção ao direito de informação da imprensa e ao direito à honra, alternativa não resta senão a este dar maior relevância, posto que a Constituição da República erige o valor da dignidade humana como princípio fundamental do Estado Democrático de Direito (art. 1º). Exorbita do poder de informação da imprensa o ataque à honra subjetiva – por apontada degradação pessoal e social – de quem quer que seja – pessoa pública ou não – pois todo ser humano tem impostergável direito à dignidade, bastando lembrar, por adequada, a célebre afirmação de Molière de que colomniez, colomniez, qu’il en reste toujours quelque chose. A ordem jurídica protege a honra não como concessão que o Direito faz à pessoa, mas como reconhecimento da individualidade do ser humano, sujeito do universo da História. Guardando grande mérito, o julgado discrimina cada parcela que compõe a verba indenizatória: Partindo-se da verba de cem salários mínimos – que é o paradigma para a reparação do dano moral decorrente da injusta anotação do nome do consumidor nos cadastros de inadimplentes –, é a mesma majorada em face dos seguintes elementos colhidos nos autos: - mais cem salários mínimos pela relevância de ser o entrevistado pessoa de reconhecido destaque social como Carlos Heitor Cony; - outros cem salários mínimos, porque a pessoa atingida é pessoa de notoriedade pública, no caso, Carmen Mayrink Veiga; outros cem salários mínimos pela utilização de expressões como “perua”, “feia” e “monstruosa”, de maior densidade de dano quando dirigida a pessoa do sexo feminino e da faixa etária da ofendida; e outros cem salários mínimos pela importância que tem a revista “Playboy”, editada pela recorrida, no contexto atual da comunicação social do País. Acolheu-se, ainda, o pedido de publicação de notícia desta condenação, cujo texto não exceda a extensão do trecho da entrevista em comento, a ser apreciado em liquidação do julgado pelo Juízo originário, que também arbitrará o veículo e o modo da divulgação, bem como a cominação pelo eventual descumprimento da obrigação de fazer.134 Percebe-se, o próprio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro não mais seguiu as circunstâncias acima mencionadas no acórdão proferido pela 8ª Câmara, pois aqui o desembargador relator não se referiu à idéia de punição, ou de compensação, nem considerou as
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Maria Celina Boldin de Moraes, op. cit., p. 312-317.

119 condições econômicas das partes envolvidas; também não abordou o grau em que o prejuízo causado teria influído o ânimo da vítima; e ainda não levou em conta a intensidade da culpa ou a violência. Apenas considerou a gravidade do dano e as condições especiais da vítima. Nada mais. Concorda-se, ou não, com estes parâmetros, o certo é que o mérito de explicitação das verbas, que compõem o quantum debeatur, item por item, constitui-se em base racional, conhecida por todos, a partir das quais será possível edificar os princípios da reparação do dano moral, dentro de critérios apropriados para uma unificação que traga mais segurança e uniformidade às decisões. Relevante, outrossim, que o Código Civil assenta-se no princípio fundante da eticidade. Ensina este mestre que a eticidade é o abandono ao espírito dogmático-formalista sinete da legislação revogada, para conferir ao juiz não só suprir lacunas, mas ainda resolver de acordo com valores éticos, quando assim previsto, ou se a regra jurídica for deficiente ou inajustável à especificidade do caso concreto.135 É a busca da justa causa, a aproximação do Direito à Ética, aproximação que torna o Direito mais aceito perante a consciência média da comunidade em geral e dessa forma mais forte e justo. O princípio da eticidade deve ser o norte da conduta de todas as pessoas, natural e jurídica, submetidas a alguma matéria disciplinada pelo Código Civil. Mas se direciona igualmente ao aplicador da lei. Este princípio desdobra-se em três vertentes: protetor do princípio da confiança, indicador da equidade e do dever de proporcionalidade e razoabilidade. Na última vertente deve o juiz fundamentar-se no estabelecer o quantum debeatur do dano moral. Ser razoável é agir conforme a razão, com moderação e cometimento, ponderação e sensatez. 6.5 Dano moral à pessoa jurídica De início, o dano moral à pessoa jurídica era refutado. A honra era entendida como bem personalíssimo, reservada somente à pessoa natural. A pessoa jurídica não pode ser sujeito passivo de dano moral. O elemento característico do dano moral e a dor em sentido mais amplo, abrangendo todos os sofrimentos físicos ou morais, só possível de ser verificado nas pessoas físicas. O ataque injusto ao conceito da pessoa
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REALE, Mikguel. O projeto do código civil, 2 ed., São Paulo: Saraiva, 1999, p. 8.

direitos da personalidade existem.279.120 jurídica só é de ser reparado na medida em que ocasiona prejuízo de ordem patrimonial (RT 716/258). Convenha-se. do Superior Tribunal de Justiça: “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral. com existência distinta das pessoas naturais que a compõem. mas pode quanto à difamação (RT 733/589). que apenas admitia-se o dano moral à pessoa jurídica caso houvesse efetivo prejuízo patrimonial. mas pela vontade de seus órgãos diretivos atua no mundo do direito. todavia. caso atingida na sua credibilidade. É a textualização legal da Súmula 227. aplica-se a proteção dos direitos da personalidade. Exceção a esses. Não tem existência física e nem vontade. pelo protesto indevido de título de crédito. Incluídas está. à invenção. necessária se torna a demonstração do efetivo prejuízo econômico sofrido (RT 731/286). aqueles que se amoldam à sua maneira de ser dentro do ordenamento jurídico. assim as questões concernentes à marca. Também não pode ser sujeito passivo de crime de injuria. É nesse limite a extensão dos direitos da personalidade que são atribuídos à pessoa jurídica. de 14 de março de 1996. . É dizer.” Daí. resguardados por legislação específica. não. do Código Civil. cujas características se vinculam apenas aos atributos do ser humano. inerentes à pessoa natural. a Lei 9. a saúde. que a pessoa jurídica é titular de outros direitos da personalidade. por conseqüência. aos símbolos. verbia gratia. na ordenamento jurídico ao lado da pessoa humana coexiste a pessoa jurídica com capacidade para o exercício de direitos. Cuida-se reconhecer. no que couber. Essa pessoa ideal ou moral evidentemente que não tem os mesmos direitos da personalidade da pessoa natural. à pessoa jurídica não podem ser conferidos direitos da personalidade que contemplem situações existenciais. pois. por decorrência prejudicada no desempenho do papel social a que se destina. À pessoa jurídica. Para que a pessoa jurídica faça jus a indenização por dano material ou por dano moral. a pessoa jurídica sem finalidade lucrativa. ao nome comercial. Em seguida. ao sigilo de correspondência e outros bens incorpóreos imanentes à atividade empresarial. a educação etc. os demais direitos são conferidos com o registro da pessoa jurídica como atributos intrínsecos à sua essencialidade. a integridade física e psíquica. como determina o artigo 52. Outros. houve uma fase intermediária.

é o que se chama de fundo de comércio. dessa forma também o comerciante ambulante tem estabelecimento comercial. exclusiva do ser humano. A empresa tem de zelar pelo seu conceito social. de capital importância para a pessoa jurídica. embora não seja titular de honra subjetiva que se caracteriza pela dignidade. a noção do dano moral não mais se restringe ao pretium doloris. deve ser entendida como o valor social da pessoa perante o meio em que exerce sua atividade. que reflete na sua saúde econômico-financeira. a honra objetiva. Responsabilidade civil – Indenização – Lucros cessantes – Atos ilícitos praticados com claro e evidente intuito de afugentar a freguesia de estabelecimento comercial. abrangendo também qualquer ataque ao nome ou imagem de pessoa. da leitura do artigo 5º. o bom nome e a imagem perante a sociedade. por exemplo. apresenta dois aspectos: o subjetivo ou interno e o objetivo ou externo. a honra subjetiva. É. com vistas a resguardar a sua credibilidade e responsabilidade (RT 725/336). De efeito. da Carta Magna. Ademais. depreende-se sua abrangência a toda violação à imagem ou nome da pessoa natural e jurídica com o propósito de conferir-lhes credibilidade e respeitabilidade. física ou jurídica. são as possibilidades de fazer negócios – atos jurídicos comerciais. o crédito que desfruta. A pessoa jurídica. que se vulgarizou chamá-la de honra profissional. caracteriza-se pela dignidade. É uma universalidade patrimonial de fato. Os italianos chamam de azienda. 136 Ganha credibilidade. mais ainda nesta atualidade de acirrada concorrência.121 A honra. ou busines dos ingleses. os espanhóis de hacienda. obrigando o fechamento temporário do mesmo – Dano moral – Abalo do crédito e da reputação da proprietária no meio comercial – Cumulação deste com dano material – Admissibilidade – Inteligência da Súmula 37 do STJ (RT 723/456). após a Constituição Federal de 1988. inciso X. pertence com exclusividade à pessoa natural (sentimento-estima da própria pessoa). sem dúvida. fazendo jus à indenização por dano moral sempre que o seu bom nome. O primeiro. de caráter privado e individual. A honra objetiva. . 136 Fundo de comércio é o conjunto de bens corpóreos e incorpóreos. decoro e auto-estima. açambarca a reputação. decoro e auto-estima. A segunda. é comum à pessoa natural e à jurídica (respeito-estima que a sociedade tem da pessoa natural e jurídica. Não se confunde com o local onde o comerciante exerce a atividade. reputação ou imagem forem atingidos no meio comercial por algum ato ilícito. é detentora de honra objetiva. conceito social). o seu bom nome comercial.

7. como tal. Nesse mesmo sentido concluiu IX Encontro dos Tribunais de Alçada do Brasil “o dano moral e o dano estético não se cumulam. que se inscreve na categoria de dano moral. de produzir a prova do dano moral perpetrado contra a pessoa jurídica. Queda de trem. no mesmo sentido 47/316. as quais causam dano estético em grau mínimo. quanto àquela a jurisprudência vacila. por participar de aspectos de um e de outro (RT 683/79). e produzir efeitos morais. Se o dano moral à pessoa natural prescinde de prova. ou não. por sua vez. RT 502/51. no caso de a cirurgia reparadora corrigir a cicatriz. deve ser 137 138 RTJ 39/320. tendo como relator o Ministro Fontes de Alencar: Responsabilidade civil. Para certa parcela. e dano moral decorrente do dano estético. cabendo ao agente do ato ilícito o reembolso das respectivas despesas. como já exposto. sem com isso causar prejuízo patrimonial. Bem por isso. diante de cada caso concreto deve-se analisar a necessidade. Esse é uma espécie do gênero dano moral. ficando a escolha do médico e do hospital por conta do ofendido. Danos físicos. Decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: O dano moral pressupõe dor física ou moral. mormente se é. RJTJESP 137/182. O dano estético Também o dano estético vem suscitando divergências ao longo do tempo. 138 ora puramente moral. é in re ipsa. e a título de dano material. Conforme esta corrente. . o dano estético está contido no dano moral e. um dano autônomo. porque ou o dano estético importa em dano material ou está compreendido no dano moral”.137 Assim. ou não. pode gerar a título de dano moral. no dano material. como a queda da auto-estima. a indenização do dano estético é ora puramente patrimonial. consoante decisão proferida pela Quarta Turma. e se configura sempre que alguém aflige outrem injustamente. A vítima sofre danos físicos que resultaram em cicatrizes cirúrgicas. por vezes. O Superior Tribunal de Justiça em um primeiro momento entendia o dano estético contido no dano moral. E. O dano estético. se o dano estético não for passível de correção.122 A prova do dano moral à pessoa jurídica apresenta peculiaridades. o dano estético vai se convertendo em dano patrimonial diante do crescente progresso da cirurgia plástica reparadora e da clínica de reparação.

derivados do mesmo fato. por si. trauma.2001. assim como com o dano moral. RT 802/377). como se fossem coisas diversas. desânimo. Destaca-se do corpo do acórdão: (. não só com o dano material.) a jurisprudência do STJ é firme no sentido de que é possível cumular danos morais com danos estéticos. 77/247 e 248). com a relatoria do Ministro Dias Trindade. Além.123 indenizado.031-6-1. 1ª Câm.2003. independentemente do dano material.10. traduzindo circunstâncias hábeis a causar tristeza.021-ES. j.. para fundamentar o pedido cumulativo. Posteriormente entendeu o dano estético como autônomo e passível de cumulação. ainda que feita uma só cirurgia.. e constrangimento (TACMG. pois não representa desfiguração da paciente nem importa na sua rejeição social. publicado no Diário da Justiça de 19 de agosto de 1991. Se é verdade que nem todo dano moral resulta do dano estético. acrescenta: Por isso. há certa cautela com respeito a esta cumulação: Somente em casos extremamente graves admite-se a cumulação de indenizações por danos moral e estético. vol. decorrente da incapacidade parcial permanente. do distanciamento dos familiares e da sociedade naqueles períodos. pela relatoria do Ministro César Asfor Rocha: Permite-se a cumulação de valores autônomos. rel. um fixado a título de dano moral e outro de dano estético. quando forem passíveis de apuração em separado. em face das constantes internações para realização de cirurgias reparadoras. Foi o que decidiu a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça. não cabe a dupla indenização pelo dano estético e pelo dano moral. Resta caracterizado o dano moral sofrido pela paciente. j. do aumento de consumo de remédios. 23. das dores físicas e psíquicas sofridas e da agravação do quadro clínico psicoterápico – depreção –. ou seja.. com precedentes citados neste acórdão. Juiz Nepomuceno Silva. toda dano estético redunda em dano moral. . janeiro de 1996. a recíproca não é verdadeira. No entanto. com causas inconfundíveis. do dano material que decorre do aleijão ou deformidade (RSTJ. Tal não ocorre se a cicatriz resultante de intervenção cirúrgica revela-se insuficiente. máxime porque essa cicatriz ocorreria. Ap. derivados do mesmo fato quando passível sua apuração em separado (REsp 540. 24.10. evidentemente. Depois de citar aresto precedente da Terceira Turma. in RT 826/189 a191). 339.

Há de se considerar. até menos.124 Teresa Ancova Lopes ensina nesta mesma direção. praticar esportes de trajes mais sumários e. capaz de causar impressão vexatória ou. Para os penalistas o dano estético caracteriza-se na deformidade. como aquela que impede a pessoa de freqüentar praia. 1983. embora em ambas o sinete seja a cicatriz. 2 ed. 127. cinema e televisão. . 500. que o atentado à estética será mais grave quanto mais as ofensas tomarem as partes do corpo que ficam normalmente desnudas. somente entendendo possível a cumulação dos danos moral e estético em situações graves. portanto tem requisito na aparência. De fato. como afirma Hélio Gomes: “nas alcovas conjugais. deformado. O dano moral e sua reparação. a despeito de todas as maravilhas da cirurgia plástica. o Direito Civil considera a cicatriz mesmo quando não enfeie as partes trivialmente expostas do corpo humano. p. é visível. não tem mais do que uma voz estridente. 1999. seu nariz é mutilado. Também em consideração às pessoas. Todavia. Na opinião de muitas pessoas o viajante tem melhor fisionomia com o nariz grego. Para os efeitos civis. RT. e não pode mais fazê-lo senão com movimentos irregulares ou claudicantes. ele não está. pelo menos. não é possível restabelecer seu nariz aquilino. não coincidente nas áreas penal e civil. regiões interditas à contemplação amorosa. E cita intrigante hipótese pela transformação da fisionomia: Um viajante do comércio. É o caso da pessoa qualificada por uma voz quente e sedutora que. o grau do atentado estético. São Paulo: Ed. Isto é. todavia. ou a vítima que se movia graciosamente.139 Entretanto esta resistência à aludida cumulação não pode afetar o conceito de dano estético. também. de desagrado ao seu portador. Wilson Melo da. tudo que o cirurgião pode fazer é um nariz grego. É preciso analisar cada caso em particular a exemplo de certas atividades laborais: se a vítima for uma dançarina. é vítima de um acidente. em conseqüência das lesões. assim no caso de deformações ou desfigurações que acarretem constrangimento para a vítima e sua infeliz rejeição no meio social. suficiente para prejudicar levemente a aparência pessoal ou conduzir a complexos inferiorizantes. p. ou artista de teatro. soam mais intensas nas mulheres do que nos homens. pois. para merecer indenização basta uma deformidade mínima. Jean Corrad assevera que pode resultar inclusive de atentado à voz ou à faculdade de se locomover. SILVA. cogita-se de algo menos exigente ou mais singelo. piscina. Rio de Janeiro: Forense. ou o manequim. Teresa Ancova.”140 Há de se considerar. não há legal nem habitualmente. outrora possuidor de um nariz aquilino. O dano estético: responsabilidade civil. não está contente: seus clientes que ele visitou depois 139 140 LOPES.

Às concepções da relação jurídica como expressão do liame entre sujeitos identificados ou identificáveis. que consista em prejudicar a aparência da pessoa. onde era saudado por todo mundo. do Código de Defesa do Consumidor. Açambarca uma comunhão de pessoas. mas alguns não querem se deixar persuadir e o tomam por um impostor. não o reconheciam mais. c). exemplificativamente ao conferir proteção ao meio ambiente equilibrado (art. No café. 225). 8 Dano Coletivo ou transindividuais O dano coletivo. c) o conceito civil de dano estético é relativo a qualquer cicatriz mesmo pequena.125 de longos anos. passa hoje despercebido. 141 CARRARD. o direito coletivo em sentido amplo triparte-se. b) se possível a remoção da cicatriz. restam três conclusões inarredáveis: a) é provável a cumulação do dano estético e moral. 21. é o prejuízo experimentado por uma comunidade. e se respeita a todas as pessoas e a cada uma delas em particular. O direito difuso é transindividual ou metaindividual. RF 83/401. sendo improvável a identificação individual de todos aqueles que são atingidos. de modo que sua ofensa a todos atinge. As instituições jurídicas evoluíram. à responsabilização objetiva por danos nucleares (art. Jean. prevalece o dano material e se a cirurgia for penosa. cujo objeto da relação jurídica obrigacional ou legal é indivisível. e ele teve que dar longas explicações para os convencer de que era sempre o mesmo homem. assim sua observância a todos aproveita. III: direito individual homogêneo. A Constituição Federal preveja determinadas situações que identificam os direitos e interesses coletivos. Pela leitura do artigo 81. sem deixar vestígio. ainda chamado de difuso. foram acrescidas as relações jurídicas coletivas autônomas. XXIII. e talvez um dano moral. onde era figura conhecida e popular.141 De tudo. genericamente. daí esparge-se para toda a ordem jurídica. II: direito coletivo em sentido estrito. caracterizando-se por não apresentar titular determinado ou determinável. . uma ofensa ao seu futuro econômico. as quais transcendem àquelas. em virtude da transformação de seu nariz. Este viajante do comercio sofre. conforme discriminados nos seus três incisos: I: direito difuso. nos casos extremos bem assinalados nas lições da melhor doutrina e jurisprudência. também o moral.

por conseqüência. cuja titularidade é identificada ou identificável. e na maioria das vezes pela exagerada ganância do lucro. 1998. 23 e 24. isto porque apesar de apresentar origem comum – homogênea – seu objeto é divisível e seus titulares identificados ou indentificáveis.126 O direito coletivo strito sensu é transindividual e de objeto indivisível. Destacam-se dois exemplos de dano coletivo: o atômico e o meio ambiente. Motauri Ciocchetti. mas apresenta como titular um grupo ou classe de pessoas. . no entanto. formados por rochas: no primeiro deles.142 142 SOUZA. enquanto o proprietário do outro morro. não. entidade constitucionaladministrativa. que vêm a causar danos ambientais. a empresa que explora a atividade de extração mineral possui responsabilidade civil na esfera ambiental. São Paulo: CPC. sem qualquer forma de exploração. e seus titulares são indetermináveis. que é exercida segundo os mais rígidos padrões ambientais e de segurança traçados pelos órgãos técnicos. do consumidor. perante a relevância da matéria na atualidade. dado que. Vezes há. p. A Constituição Federal dispõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (artigo 225) e que as condutas consideradas lesivas ao meio ambiente submeterão seus agentes. Temos ai típica hipótese de força maior. com efeitos distintos. Motauri Ciocchetti de Souza articula o seguinte exemplo: Podemos supor dois morros. um sobre cada morro. pessoa natural ou jurídica. não jurídica. No pálio do meio ambiente vige a responsabilidade civil objetiva. em que a natureza recebe agressões não raramente gratuitas pela deseducação geral sobre o assunto. excluindo a ação ou omissão humana. em que a força maior ou o caso fortuito incidem no dano. o proprietário da gleba o mantém em estado natural. Princípios de direito ambiental. há atividade de exploração de minérios (pedreira). inexplorado. Estes direitos não se confundem com o interesse coletivo em sentido lato. Em decorrência. no segundo. que é personificado pelo Estado como pessoa jurídica de direito público. independentemente da obrigação de reparar os danos causados (§ 3º). Com efeito. um direito difuso por tratar-se de um direito transindividual. O meio ambiente é. que é a própria realidade do meio ambiente. é individual. de improbidade administrativa e do patrimônio cultural. no entanto. Pois bem: caem dois raios. O direito individual homogêneo é coletivo apenas na aparência. na essência. Curso Preparatório para Concurso. encontrando-se entre si ligados por uma mesma situação fática. a sanções penais e administrativas. de ambos desprendem-se blocos de rocha.

938/81” (TJSP – 4ª C. em que a responsabilidade civil é devida independentemente de culpa e. São Paulo. Responsabilidade civil por dano ecológico e a ação civil pública. 1979.10. mais ainda. 167/118). Revista de Direito Público. ao afirmar que não se operam o caso fortuito e a força maior como causas excludentes de responsabilidade. de plano. Revista Jutitia. Responsabilidade objetiva. caso explode reator controlador da emissão de agentes químicos poluidores – caso fortutito – ou se um fato da natureza propicie o derramamento de substância tóxica existente no depósito da empresa – força maior – subsiste o dever de indenizar. A questão ambiental. transindividual. que o artigo 14. Não há um conjunto de propriedades individuais. ocasionada pelos despejos. Franklin Pierre: 143 NERY JUNIOR. é como. 6. Responsabilidade civil por dano ecológico. é questão de vida e morte. 49-50/35.143 Responsabilidade civil. em 1855. § 1º. portanto um direito difuso. dispensa a culpa. trazendo em seu bojo a objetividade. contemplando a responsabilidade civil objetiva. propriedade de toda coletividade144. mas a titularidade repousa na coletividade como um todo.1994 – JTJ. § 1º. e no caso de sofrer dano. de 31 de agosto de 1981. 1984. Sergio. . Meio ambiente. – Ap. da Lei 6. pela simples razão de existir a atividade da qual sucedeu o dano. – Rel. Lex. Morte de peixes causada pela elevação do PH da água. Obrigação de indenizar. Poluição comprovada. Art. Justifica-se a adoção do risco integral. Danos. cuidando-se ao titular da atividade a assunção dos riscos dela decorrentes. mas da própria pessoa humana e do planeta que a abriga. e seu sentido teleológico vai além.127 É a teoria do risco integral. Orlando Pistoresi – J. é coisa de todos e indivisível. mesmo a incidência das dirimentes de responsabilidade. 13. Despejos industriais e domésticos lançados in natura em córrego.938/81 – “Independe da existência de culpa o dever de indenizar decorrente de responsabilidade objetiva firmada no § 1º do art. pois na oportuna expressão de Sergio Ferraz o meio ambiente é res omnium. de modo que ninguém é isoladamente seu titular. que eliminam o nexo de causalidade: o caso fortuito e a força maior. esse dano repercute erga omnis.938. Des. Nelson Nery Junior segue a mesma toada. 126/172. do que deriva os legitimados extraordinários. 144 FERRAZ. não há dúvida. da Lei n. não apenas para os animais e plantas. o Cacique Seattle assegurou ao presidente dos Estados Unidos. 14. Verifica-se. atinge a todos indistintamente. Por conseguinte. afasta qualquer mitigação à responsabilidade do poluidor. Nelson. 14 da Lei 6. ainda que tomadas todas as precauções por parte da empresa exploradora para evitar acidentes danosos ao meio ambiente.

in Direito e responsabilidade. . coordenadora Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka. que faz com que valha a pena viver”. dessa maneira. agride os filhos da terra. Daniela. Também chamado de nexo etiológico é a vinculação que une a conduta positiva ou negativa do agente ao dano produzido em desfavor da vítima. quer em razão da ofensa direta à lei (responsabilidade civil subjetiva). não foi o homem quem teceu a trama da vida. quer sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos. na análise de cada caso verifica-se se entre a conduta e o dano existe uma relação certa e direta. quer nos casos de relação obrigacional originada em contrato ou pelo negócio jurídico unilateral (responsabilidade civil objetiva). é o homem que pertence à terra. afastando do agente as condições que não sejam hábeis à produção do resultado danoso. 2000. como novo direito fundamental da pessoa humana ao lado o rol dos demais direitos e deveres individuais e coletivos. o nexo de causalidade é o liame existente entre a conduta humana (causa) e o dano (efeito). Ele é meramente um fio da mesma. por meio do qual é determinada a responsabilização daquele em face deste. quer quanto ao aspecto da dignidade desta existência – a qualidade de vida –.145 Bem por isso.146 8 Nexo de causa e efeito A lei da causalidade é um dos axiomas do pensamento: todo fenômeno tem uma causa. Tudo está relacionado entre si. É um vínculo de relação entre duas coisas.128 De uma coisa sabemos: A terra não pertence ao homem. a Constituição Federal dedicou ao meio ambiente um capítulo singular. disso temos certeza. ou na sua letra: “ecologicamente equilibrado”. como extensão do direito à vida. São Paulo: RT. a conduta foi a causa determinante do dano. a si próprio fará. Cabe afirmar. cujo elenco consta no rol do artigo 5º. aconteça. Em significado ordinário a causa expressa o motivo de algo. 363 e 364. Responsabilidade objetiva pura em face da integral reparação do dano ambiental como pressuposto da dignidade da pessoa humana. Belo Horizonte: Del Rey. Tudo quanto agride a terra. exclui-se o nexo causal. Se a resposta for positiva. Todas as coisas estão interligadas. a conduta não foi causa 145 RODRIGUEIRO. na verdade. Em sentido jurídico. Trata-se. ou se torne possível. de uma situação de fato (quaestio facti) a ser avaliada no caso concreto. in Direito do ambiente. 95. Faz-se o seguinte questionamento: se não houvesse a conduta. Tudo que fizer à terra. Se a resposta for negativa. o dano assim mesmo existiria? Na resposta firma-se o nexo causal. 146 Edis Milaré assevera: “O reconhecimento do direito do meio ambiente sadio. p. o que faz com que uma coisa exista. uma originária e a outra resultante. p. 2002. configura-se. O efeito é consequência da causa. como o sangue que une uma família. Essa lei é própria de toda ciência. reconhecendo o meio ambiente saudável.

não poucas vez de dificílima comprovação. Primeiramente. não é mais de boa ponderação exigir da vítima inocente de dano injusto. a seguir apresenta-se a problemática da identificação do fato que constitui a verdadeira causa do 147 148 DEMOGUE. de acordo com os artigos 1°. Gisela Sampaio da. . exige-se. que em certas situações o liame casual seja até presumido. cabendo à vítima do dano a sua prova. I. é preciso que sem esta contravenção. que diante de certas circunstâncias não tem como prová-lo de modo cabal e absoluto. dano e nexo de causalidade). em certas circunstâncias. A nova realidade social – que tem por princípios fundamentais a dignidade da pessoa humana e a solidariedade social. sempre mais.129 do dano.”147 Conclui-se: o nexo de causalidade é pressuposto cogente a qualquer espécie de responsabilidade civil. Traité des oblegations en général. n. com fundamento na nova ordem constitucional. o processo de objetivação da responsabilidade civil. pois a responsabilidade não se define pelo erro de conduta. sem este fato. III e 3º.”148 Não difere a ensinança de Sílvio Salvo Venosa: Na identificação do nexo causal. existe a dificuldade em sua prova. o conceito de nexo causal mereceu flexibilização. Ou como acertadamente pontua Gisela Sampaio da Cruz: “Assim. um dos elementos da responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Renovar. não é suficiente que uma pessoa tenha contravindo a certas regras. 2005. da Constituição Federal respectivamente – busca a reparação mais ampla possível. tanto que progride. p. com vistas a dar maior proteção à vítima do dano injusto. cujo dano foi o efeito (conduta humana. E essa flexibilidade dá-se diante de embasamentos constitucionais. mormente com a previsão do risco. há duas questões a serem analisadas. é necessário o estabelecimento de um nexo etiológico em que envolva a injuridicidade da ação ou omissão como causa e o dano como efeito. Diante desses princípios. Assim. mesmo porque se está em presença da matéria mais controvertida da responsabilidade civil. 17 e 18. o dano não ocorreria. CRUZ. admitindo-se até a sua presunção. O problema do nexo causal na responsabilidade civil. Todavia. embora o nexo causal constitua. a prova absoluta da relação de causalidade. Assim. Tão-só diante da resposta negativa é que se caracteriza a responsabilidade civil na conjugação de seus três pressupostos: a causa foi a conduta. o dano não teria acontecido. tal qual o dano. vol. IV. 66. É a sempre lembrada lição de Demogue: “é preciso que esteja certo que. não basta que o agente tenha laborado contra jus.

Muitos autores refutam esta teoria. não elidem a responsabilidade. p.. 6ª Câm. 1º vol. no terreno civil. recebe um golpe.. Dessa forma. São Paulo: Atlas. para explicar o fenômeno da causalidade várias doutrinas foram elaboradas ao longo de tempo. p. e vem a falecer. muito trabalhada no Direito Penal.1 Teoria da equivalência das condições Denominada ainda de conditio sine qua non. o nexo de causa e efeito entre a conduta do autor e o resultado morte subsiste ainda que para esse resultado haja contribuído a particular condição fisiológica da vítima. 2 ed. Direito Civil: responsabilidade civil. porquanto conduz ao regressus ad infinitum nas pesquisas dos elementos causais. 8. seu incremento coube à jurisprudência belga. se a vítima. RT 609/112). Vide MORONHA.149 De efeito. Nem sempre há condições de estabelecer a causa direta do fato.130 dano. a partir dos ensinamentos filosóficos de Stuart Mill. desenvolvida no âmbito penal por von Buri. pois se equivalem na causalidade. devido à fraqueza anormal do osso da caixa craniana. no caso concreto. Para melhor explicitar essa censura. portanto tudo que concorre para o resultado é causa.03. Por isso. René Demogue lembra que o 149 150 VENOSA. Ou seja. Consideram-se todos os antecedentes do resultado danoso. por exemplo.83. Juiz Ernani de Paiva. . Sívio de Salvo. todos os eventos são apreciados. 149. como concausas. isolada ou conjuntamente. 48. principalmente quando decorre de causas múltiplas. em 25. 8ª ed. E. São Paulo: Saraiva. matéria. no qual o Direito Civil abeberou-se. 1963. é o que De Page reputa de o causador do prejuízo ser obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da vítima. Formam uma unidade infragmentável. sua causa eficiente.150 Neste sentido: A idade avançada da vítima e a debilidade de sua constituição física. 2008. o agressor responde nos termos do artigo 948. ou mesmo a falta de tratamento adequado. aliás. de sorte que o nexo causal entre a ação ou omissão e o evento danoso não é interrompido pela interferência de outras causas concorrentes. Direito Penal. rel. pois o causador do prejuízo é obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da mesma (1º TACSP. Magalhães. No homicídio. j. nem sempre é de fácil constatação o nexo causal. mormente nas causas simultâneas ou sucessivas. que são isto sim cooperantes.

vol. não produziriam o resultado. diante de certa situação danosa. em matéria civil. deve ser considerada a causa determinante do efeito lesivo. o vendedor da arma também seria responsável. pena de se conduzir a absurdos. rel. destaca-se aquela que seja mais idônea. RSTJ 82/195). Resta. Manual de derecho penal. É a lição expendida na jurisprudência: Ainda que se admita. tradução de Juan del Rosal e Angel Tório. René. 1923.10. extensión que conduce a resultados contrarios a las exigencias del Derecho y al sentimiento de justicia. Segundo a teoria da equivalência das condições. a condição mais adequada à sua produção. para excluir as condições que. essa teoria conjectura uma extensão excessiva do conceito de causa. 8. pois se excluída a venda. eliminadas as menos relevantes ou indiferentes ao efeito danoso.2 Teoria da causalidade adequada Para os adeptos desta teoria causa é a condição que se revela mais adequada a produzir o dano. Francesco. de modo a levar a resultados inconciliáveis com as exigências do direito e com o próprio sentimento de justiça. Em síntese: entre as causas condicionantes da ocorrência do resultado. mais apta. Dentre as condições antecedentes ao evento lesivo. De efeito. conforme se parta de uma ou outra teoria. Bueno Ayres: Uteha.”152 Imagina-se a seguinte situação muito difundida pela doutrina: se alguém lesiona outrem com um tiro de revólver. o resultado não teria ocorrido tal como ocorreu. Utiliza-se o critério da experiência humana. 86. assim. Min. então. 2ª T.151 Neste diapasão é a observação de Francesco Antolisei: “supone una extensión excessiva del concepto de causa. Eduardo Ribeiro. Traité des obligationes en général. j. é uma condição sine qua non do evento 151 152 DEMOGUE. ANTOLISEI. a produzi-lo. . 17. Esta. 12. No exemplo da pancada na cabeça da vítima. como indica a experiência baseada no curso normal das coisas. p.. o fato será reputado ou não causa da morte. Paris. p. 1960. isso não se haverá de fazer em sua absoluta pureza. com a extensão indefinida da cadeia causal (STJ.95. consoante o que geralmente sucede. 4. embora possa ser havido como uma conditio sine qua non. extrema-se aquela mais idônea a produzir o dano.131 nascimento de uma pessoa não pode ser causa de acidente de que foi vítima. a teoria da equivalência das causas. por ter o autor que suportar as fraquezas pessoais da vítima.

causa adequada à sua produção. O meio-termo ilustrado pelo exame de cada caso concreto é a melhor solução (TRF. j. ap. cumpre precisar qual entre as circunstâncias fáticas é a causa eficiente do prejuízo. Coimbra: Livraria Almedina. em favor da chamada ‘equivalência das condições’.060. 7 ed. o critério da experiência humana. Se é certo que não se pode eleger arbitrariamente o fato gerador da responsabilidade. Num prognóstico a posteriore do fato o descumprimento da obrigação na restituição do livro não é causa adequada com relação à lesão sofrida. 403 do CC O Código Penal no art. condição do dano. esta teoria também merece reparo. Ou seja. Suponha-se que alguém empreste um livro a outrem.. Vide no Direito português COSTA. e probabilidade não é certeza. as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato [. de modo absoluto. 8. 2002. segundo as normas da experiência ou pelo curso normal das coisas. que o caráter adequado da causalidade implica em determinado grau de probabilidade. 520/521. Teori Albino Zavascki). pelo qual o autor responderá.04. para ser devolvido no domicílio do primeiro. 1998. em abstrato. p.154 Outra situação hipotética pode esclarecer nitidamente a dessemelhança entre estas duas teorias do nexo causal. o atual artigo 403 repete o revogado artigo 1. como o golpe não é causa idônea para produzir o resultado morte. à visada do Código Civil de Bevilaqua. p.]”. Reza o artigo 403: “Ainda que a inexecução resulte em dolo do devedor. Carlos Alberto. Teoria dos danos diretos e imediatos. mas também que constitua. Há troca de tiros e um projétil o atinge.01.132 causado. Responsabilidade civil. rel. Na verdade. Min. 2000. Direito das obrigações. Já pela teoria da causa adequada.. Argumenta-se. no caminho passa defronte de uma agência bancária que está sendo roubada. entre as várias condições (conditiones sine quibus).2000. 672 e ss e . adotando a teoria da conditio sine qua non.. 7 ed. 27. havendo ‘causalidade múltipla’.13 tem regra expressa sobre o nexo causal.04.004115-1. art. o Código Civil não. com pequeno acréscimo. Contudo. mas não causa adequada. também não é adequado optar. Mário Júlio Brito de Almeida. isto é. é necessário não apenas que o fato tenha sido. 153 154 Vide GONÇALVES. segundo o curso normal das coisas. Em matéria de responsabilidade civil. não sem razão.3. o agressor não responderá. Findo o prazo não se dá a restituição.153 A teoria da causa adequada é seletiva. O dono vai buscá-lo. em concreto. A mora na restituição do livro foi conditio sine qua non da lesão. 4ª Região.

vale afirmar. 341. p. 1965. Terceiro. 3 ed. que se dá o nome de concausa. Isto porque. por analogia. éste no se 155 ALVIM. as expressões danos imediatos e danos diretos são sinônimas. A causa direta e imediata nem sempre é a mais próxima do dano. nada a indenizar.155 Segundo. no magistério de Wilson Melo da Silva. ambas reforçam a idéia de necessidade. não existindo concausa. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. Bem por isso. a este cabe o dever de indenizar. perfaz-se a responsabilidade civil. Na lição de Arturo Alessandri Rodrigues: Es indiferente que la relación sea mediata o immediata. que acabasse por responder por esse mesmo resultado esperado. absorve o prejuízo sem qualquer reparação. Oportuno. ou uma força da natureza. . a culpa de terceiro. há quem desconsidera a força da natureza como interruptiva do nexo de causalidade. a causa mesmo indireta e remota motiva a indenização. foi a que o ensejou. estabelecer premissas. Neste ponto merece consideração a força da natureza. à responsabilidade civil extracontratual. Mas se a interrupção acontece pela força da natureza a vítima fica ao desamparo. de sorte na própria vítima confundam-se as condições de causador e vítima do dano. apenas são excluídos ante o surgimento de uma concausa. A teoria dos chamados danos diretos e imediatos ou teoria da interrupção do nexo causal. o que rompe o nexo causal não é a distância no tempo entre a inexecução e o dano. o concurso de outra causa. porquanto somente quando o dano sofrido pela vítima se ligue diretamente à conduta do agente. Ou seja. pode ser a culpa da vítima. portanto à responsabilidade civil contratual. por si só. Essa causa estranha. os danos indiretos e mediatos não são excluídos. é o desejável meio termo. Jurídica e Universitária. Agostinho. serve também. É a ponderação de Agostinho Alvim: “a expressão direto e imediato significa o nexo causal necessário”. e tal relação não seja interrompida. se a causa estranha for a culpa da vítima. Se a culpa for de terceiro. o aparecimento de outra causa. Interrompe-se o nexo causal sempre que um determinado resultado – que se coloca no curso normal das coisas – não ocorre pelo surgimento de uma causa estranha. em regra são indenizáveis. sim.133 Apesar de este dispositivo referir-se a inexecução das obrigações. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. que interrompe o nexo causal. que en cualquiera forma o condiciones en que el daño se presente. Lo esencial es que el daño sea la consecuencia necesaria y directa del hecho ilicito. neste entretanto. Primeiro. mas a que necessariamente foi a sua causa.

Concorriendo esta circunstancia. ainda que estas não pudessem surgir e produzir o efeito. Há a interrupção do nexo causal advindo uma concausa que conduza ao resultado lesivo.80. quem se conduziu de forma ilícita responde pelos danos daí emergentes. como quiera que aun si el se habria producido. resolvendo cada caso concreto segundo sua livre convicção. Des. a injustiça inicial. RT 552/64. que serão analisadas nesta oportunidade.4 Analise de situações hipotéticas Na abordagem do pressuposto da conduta foram aventadas várias hipóteses (1 Conduta. o nexo de causalidade pode não encontrar solução em uma ou em outra teoria. no mesmo sentido RT 536/117) 156 RODRÍGUES. Santiago do Chile.10. 1943. rel. derivados de outras causas. 157 ALVIM. pois uma ou outra pode ser verdadeira. Evaristo Santos. mas nunca uma das diversas teorias pode ser guias seguros. Jurídica e Universitário. ficando o causador dessa injustiça inicial eximido de responsabilidade. 353. ap.134 hubria producido sin el hecho doloso o culpable. Não apresenta dificuldade. 13. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. rompendo o nexo causal da primeira conduta. 1965. o que Recaséns denomina de lógica do razoável ou do humano. É como amestra Agostinho Alvim: Se se preferir outra solução. ou ter um fundo de verdade. porque suporta a obrigação de indenizar somente o dano direto e imediato. 3 ed. esa relación desaparece: el daño ya no tendría por cuasa el hecho ilicito. j. ponderando todas as circunstâncias que envolvem o fato lesivo. já não é possível obrigar o devedor a responder por outros danos. p. p. . Agostinho. pois ela não tem força ilimitada. Daí o juiz deve procurar a equidade. a causa natural pode ter essa força. Ora. a) Pela conduta isolada de uma só pessoa. o bom senso. se não tivesse a causa primeira. adote-se outra teoria. nº 159. 247. De la responsabilidad extra-contratual en el derecho civil chileno. por ser matéria de fato. Por isso. 8. la relación cuasal existe por mediato o alejado que sea el daño. De lo contrario.156 Sendo dessa forma e dessa forma é. fls 26). Arturo Alessandri. todas as teorias devem ser consideradas.. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. ilustra o caso os danos sofridos por veículos em estacionamento: O dono do estacionamento pago de automóveis responde pelos danos ao veículo e furtos de seus acessórios (TJSP. mesmo que seja ela desencadeante das demais. É a responsabilidade civil direta. limita-se os efeitos da causa inicial. 3ª C.157 Finalmente é bom que se afirme.

Quando pretende devolvê-la. A solução é idêntica: todos são solidariamente responsáveis. volume 573. não ocorre uma relação de causa e efeito entre a culpa do dono do veículo e o dano causado. mas as suas condutas isoladas não bastariam para a produção do evento lesivo. a ambulância sofre violento acidente. . p. armada com revólver.” c) Pela conduta de várias pessoas. 932. embora não dissipam todas. 13. ocasiona o veículo roubado. Ao ser conduzida para o hospital. que é gravemente ferida. Não porque a causa 158 PORTO. atira contra outra.. Mais uma vez. é o caso de co-autoria e participação. logo o atirador não responde. apresentado por Mário Moacyr Porto: (.. e verifica vício oculto. Não responde o alienante da coisa pelo atropelamento.. sem unidade de desígnios. in Revista dos Tribunais.135 b) Pelo concurso das condutas de duas ou mais pessoas todas cooperando entre si no desígnio de produzi-lo. sem unidade de desígnios. Uma pessoa. sendo a conduta isolada de cada um bastaria para a produção do evento lesivo. pois se traduz num ato ilícito a culpa pelo não guarda adequada do veículo. nesta hipótese. Há de se notar que o artigo 942 e seu parágrafo único não se referem à co-autoria e nem à participação. é atropelado no caminho.] se a ofensa tiver mais de um autor.) o dono do automóvel que concorreu com a sua culpa provada para o roubo do seu veículo não é. entretanto. que interrompeu o nexo causal. É o palpitante exemplo para os dias atuais. Pode ocorrer em tal situação hipótese de condutas sucessivas. Mário Moacyr.. As condutas são simultâneas. as condutas são simultâneas. todos responderão solidariamente pela reparação”. Mário Moacyr Porto deve ter se inspirado em Agostinho Alvim. mais adiante ou tempo depois. Aplicada a teoria dos danos diretos e imediatos houve uma concausa sucessiva. Responsabilidade civil decorrente da guarda da coisa. a solução poderia ser pela responsabilização da também da conduta primeira. no qual todos os ocupantes do veículo falecem. o que importa é que seja direto em relação à causa. Não importa que o dano seja indireto em relação à pessoa. É suficiente que a condutas de duas ou mais pessoas.158 Pelas teorias da conditio sine qua non e da causa adequada. mesmo se ausentes qualquer desígnio prévio na produção do dano. responsável pelo dano que. o que torna mais difícil cotejar o nexo causal. pois. resolve pelo artigo 942: “[. Alguns casos esclarecem dúvidas. d) Pela conduta de várias pessoas. podendo cogitar também o parágrafo único deste artigo: “São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas consignadas no art. que faz a seguinte proposição: uma pessoa recebe a coisa.

STOCO 290 Outros dois casos sugeridos pelo mesmo autor: “Suponha-se que um prédio desaba por culpa do engenheiro que foi inábil. não na distância da causa primeira. pois. Pode a culpa residir na conduta da vítima ou do motorista que a atropelou. levando-os a vender bens por preço vil. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. p. A solução encontra-se na possibilidade real de outras causas. Agostinho. responderá o inadimplente ou o fazendeiro? Também não. p. Jurídica Universitária. a saber. São Paulo: Jurídica Universitária. 342 e 345. seja contraproducente. isto é. aparenta como solução mais razoável aquela em que o engenheiro responde pelo desabamento. gerou a falência do proprietário. Certo fazendeiro adquire um trator. nenhum e nem outro. Reforça-se. porque se dá a interferência de outra causa. que não lhe entregue.159 É tradicional TRANSPORTE CUMULATIVO E SUCESSIVO.”160 Os dois casos abordam as denominadas concausas sucessivas. Arruda. 328. a inexecução da obrigação fica como causa muito remota do não cultivo. hipóteses de concausas sucessivas. e o doente venha a falecer. Inexecução das obrigações e suas conseqüências. aqui. o fazendeiro deixasse de pagar seus credores. sim. e a imperícia do medico chamado a corrigir o primeiro erro. A venda dos bens. no que se refere à causa próxima tomar o lugar da remota. a operação menos feliz. Pela inexecução da obrigação de dar – entrega do bem – responde o alienante. uma causa após a outra. poderá ter outras causas. Rio de Janeiro-São Paulo: Ed. que estava guardada em casa. por sua vez.136 primeira colocar-se distante e. rompendo com o nexo de causalidade entre a causa primeira e o dano. embora influenciada pela inexecução da obrigação. 3 ed. pois era possível ao fazendeiro buscar outros meios. o desabamento proporcionou o saque. Na cadeia dos fatos. com base em Pothier. Suponha mais que chamado outro médico. E se pelo não cultivo. 3ª ed. 160 ALVIM. impedindo-lhe o cultivo de suas terras. por não se colocar na sequência normal do desenrolar 159 ALVIM. . o tratamento indicado como corretivo. supõe pluralidade de causas. não pelo saque. complicando o seu estado de saúde. a distância da causa – causa remota – não se exclui por si só. Atualizando outra situação proposta por este último autor. o que. O engenheiro responde por esta falência?” “Suponha-se que certo doente não tenha sido operado com observância das regras da assepsia. o saque deu como conseqüência a perda de uma elevada soma. A morte. em desacordo com os preceitos da arte. mas não pelo fato de as terras não terem sido cultivadas. e abrolha a questão: quem responde? No caso do prédio. Temos. 1965.

todavia: .10. – Ap.137 dos fatos. Diferentemente na morte do paciente. em desacordo com os preceitos da assepsia. 4. não sendo plausível simplesmente que o condomínio responda. há julgados díspares: Não é razoável que aquele que teve o seu imóvel danificado por objetos lançados de prédio de apartamento vizinho ao seu imóvel. aplica-se a teoria da exclusão. Não obstante. 1. Excluem-se os moradores do lado sul. RT 714/153). 338/78 – rel. e a imperícia do médico chamado para corrigir o primeiro erro. rel. de sorte que qualquer uma delas poderia ser a autora do ato lesivo. Respondem os moradores do lado norte. Carvalho Viana. Pela proliferação de prédios de apartamentos passou a ser corriqueiro e recorrente o dano ao proprietário vicinal proveniente dos objetos caídos ou arremessados em lugar indevido. pois daí impossível o arremesso ou queda. A morte supõe pluralidade de causas. inexoravelmente. a quem cabe a responsabilidade? A melhor solução é identificar. 938]) e quem a representa é o Condomínio (TJSP. a saber. provada ou presumivelmente. manifesta se torna a ilegitimidade dos proprietários dessas partes para responderem pelo prejuízo e do síndico do condomínio para responder por todos. Impossível essa identificação. caso identificada. tem sua propriedade danificada pelo arremesso de objetos líquidos ou sólidos.101994. o autor do dano. integrante de um grupo. haja de investigar de qual unidade partiu a agressão. É uma concausa sucessiva autônoma: nem todo desabamento leva a saque. indistintamente (TAPR. 25. 1ª C. A reparação de dano causado pelo arremesso de coisa de edifício sujeito a condomínio sobre a cobertura do prédio vizinho deve ser exigida de quem o causou. RT 530/212-213). ao tratamento corretivo. e) Pela conduta de uma pessoa. do lado norte. j. j. – Ap. tornando-se impossível a sua identificação. A concausa ulterior coloca-se no desdobramento ordinário do primeiro fato. 3ª C. A cirurgia mal sucedida conduz. Pelo saque responde a turba de saqueadores.1978.526 do CC [atual art. O condomínio edilício suscita hipóteses que tais. ou a habitação de onde partiu a coisa. Se o vizinho desse prédio. O Superior Tribunal de Justiça decidiu. Juiz Sílvio Romero. vez que toda a massa condominial é responsável pelo dano proveniente das coisas que caírem ou forem lançados do prédio em que habitam (art. se possível. Havendo no edifício conjuntos ou apartamentos de onde são impossíveis os arremessos. a operação menos feliz. Des.

4 Estado de necessidade. 4ª T. op. situada em edifício de apartamentos. do Código Civil: “Não constituem atos ilícitos: I – os praticados em legítima defesa ou no exercício de um direito reconhecido. II – a deterioração ou destruição da coisa alheia. 64. j.11. No caso do inciso II. Intodução. 1.958] (STJ. que atingiu transeunte nas proximidades do local. a partir de janela de unidade condominial. ou a lesão a pessoa. 10.1 Legítima defesa. 2 As exculpantes: 2. Parágrafo único. antes de aquele produzir os seus efeitos.1 Ilicito civil e ilícito penal. Por sua vez providencia o art. Para analise. Min. 2. conforme interpretação do art. 1. que dirigia em alta velocidade e colheu o automóvel de Miriam estacionado.1 INTRODUÇÃO Estampa o art.68222 – rel. não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo.2 Antijuridicidade. 929: 161 Exemplos retirados e adaptados da lição de Mário Júlio de Almeida Costa.138 A impossibilidade de identificação do autor do dano decorrente de lançamento ou queda de objeto. o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário. 2. Bueno Souza. 9. 1. 188. responderá pela morte. REsp. impõe ao condomínio a responsabilidade reparatória pelos prejuízos causados a terceiro. doença que Saulo ignorava? E se Saulo conhecia a doença? Ou ainda: Saulo coloca um engenho explosivo no automóvel de Miriam que. a fim de remover perigo iminente. cit. cuida-se articular algumas situações fáticas.3 Estrito cumprimento do dever legal. 2.161 IX CAPÍTULO IV: AS CAUSAS DE IRRESPONSABILIDADE 1. é destruído numa colisão com o veículo de Ambrósio. 526.529 do CC [atual art. RT 767/194). Se Saulo produz em Miriam pequena lesão corporal.2 Exercício regular de um direito reconhecido.1998. verificada em resultado de uma doença epidêmica que contraiu no hospital? E se a morte de Miriam foi devida a anestesia que o ferimento tornou necessária? E se Miriam morreu por sofrer de hemofilia. .

preceitua: O possuidor turbado. ou esbulhado. no caso do inciso II do art. E o art.139 Se a pessoa lesada. 188. poderá o credor desfazer ou mandar desfazer. independentemente de autorização judicial. sem prejuízo do ressarcimento devido. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. no art. dispõe o art.2 Efeitos da sentença penal transitada em julgado . não forem culpados do perigo. executar ou mandar executar o fato. 249. 188. p. ou o dono da coisa. tornando-a lícita. os atos de defesa. Por fim. independentemente de autorização judicial. com efeitos jurídicos nem sempre coincidentes. criando duas figuras de autotutela. exercício regular de um direito reconhecido. Parágrafo único. 1. parágrafo único: Em caso de urgência. podendo acrescentar o estrito cumprimento do dever legal (de lege ferenda). o atual Código Civil inovou. 188. assim antes de dissertá-las convém repercutir as consequências da sentença penal transitada em julgado em sede de responsabilidade civil. sendo depois ressarcido. não podem ir além do indispensável à manutenção.210. Ademais. parágrafo único: Em caso de urgência. Nestes dispositivos o Código Civil preveja as causas de irresponsabilidade que arredam a culpa da conduta. se o perigo ocorrer por culpa de terceiro. no art. São figuras comuns ao Direito Penal. pode o credor. E prossegue. 251. contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. São elas: legítima defesa. poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força. 930 completa: No caso do inciso II do art. assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. nº 4. § 1º. estado de necessidade e a autotutela (de lege lata). ou de desforro. Ao abordar a obrigação de fazer. contanto que o faça logo. ou restituição da posse. 12 9. A distinção entre ilícito penal e civil já foi exposta no Capitulo I. quanto à obrigação de não fazer. inciso I).

Do corpo do acórdão consta: [. Silveira Netto).] a absolvição do apelado deu-se por negativa de autoria. 935 do CC (de 2002). se um mesmo fato penalmente típico (crime ou contravenção) gera responsabilidade civil. vigora o princípio da independência da jurisdição civil em relação à penal. visa apenas à melhor solução das diferentes espécies de demandas. que subsiste una. A mitigação vem exposta no próprio art. rel. nem poderia ser a conclusão do Enunciado 45 do Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: “no caso do art.8. 1.2003. 935. a ser paga pelo referido empregador. não se pode mais questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor. 935. É assunto que não mais se discutirá e especialmente em sede de juízo cível (art. do Código Civil. a boa justiça realiza-se impondo que a verdade sobre ele seja uma. meramente técnica. (TJSP. a sua posterior absolvição por negativa de autoria em sede de revisão criminal transitada em julgado.. ). embora dividida em órgãos. 65.525. A norma é motivada pela concepção unitária de jurisdição. do vigente). Dessa maneira. . Des. 5ª Câm. quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. art. 21. em legítima defesa. j. 935. no âmbito civil.140 O atual Código Civil não alterou o sistema do Código Civil revogado (art. Por força do art. pois essa divisão. não mais se poderá questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor se essas questões se acharem categoricamente decididas no juízo criminal. 935. relativa ou mitigada. apenas houve pequena mudança redacional. em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito. não absoluta. porque materialmente idêntico. por disposição do art. lhe dá o direito de recebimento de indenização por danos morais. Também faz coisa julgada civil a sentença penal que reconhecer ter sido o fato praticado em estado de necessidade. de Direito Privado. A independência proclamada é. Outra não é. ao prescrever que. entretanto. do antigo CC. e. do Código de Processo Penal.. sem que se possa voltar a discutir a responsabilidade penal com base no art.” Tratando-se de indivíduo condenado pela prática de delito que teve álibi recusado porque seu empregador prestou informação incorreta.

também é distinta apreciação de sua prova. 9. autorizando. a sentença penal transitada em julgado faz coisa julgada no cível quanto: a) a materialidade. nº 4. do Código de Processo Penal. seus herdeiros ou representantes legais contra o autor do crime ou seu responsável civil. à autoria ou à culpa. 64. que deverá ser superada por novas provas a serem produzidas pelo autor da ação civil. 12). 63. do Código de Processo Civil. do Código Civil. do Código de Processo Civil.2. O fato não existiria no crime e existiria no cível. se a sentença penal absolutória basear-se na falta de prova quanto à materialidade.2 Efeitos da sentença absolutória Na sentença penal absolutória abre-se um leque. dar-se-ia verdadeira contradição.2. §§ 1º e 2º). inc. pois estes não foram parte no processo penal em que se formou o título. que a ação de execução seja dirigida contra o autor do ato ilícito. 68. Ante a distinção. a autoria não seria atribuída ao réu no crime. c) e as excludentes de ilicitude. 935. É o que estampa o art. essas questões não mais poderão ser debatidas no cível. entre lícito civil e penal (Capítulo I. a ação de responsabilidade civil ou a execução da sentença penal condenatória poderá ser promovida pelo Ministério Público. Por outro lado. nada impede a sua apreciação na esfera da responsabilidade civil. o que levaria a perda a regra do art. 32. a eficácia de coisa julgada projeta-se no cível. portanto não abrange eventuais terceiros responsáveis. p. do Código de Processo Penal preveja a hipótese do titular do direito a ser reparado for pobre (CPP. e se no âmbito penal foi decidido por sua inexistência ou excluída a autoria do réu. caso contrário. é dizer. Nem poderia ser diverso. a prova penal é mais severa. como o empregador ou do comitente com relação ao empregado ou preposto. ou da autoria. A absolvição estreando na inexistência de prova da materialidade do crime. mas seria atribuída no cível. pois no crime vige . conforme disposto no art. bem assim o art. se na comarca competente para conhecer a lide. sim. 9. art.141 Uma primeira conclusão. porém. embora não substancial. 475-N.1 Efeitos da sentença penal condenatória A sentença penal condenatória transitada em julgado constitui título executivo na jurisdição civil. uma presunção de inocência. b) a autoria. São legitimados na proposição da ação executiva a vítima. A ratio legis é a seguinte: se o ato ilícito é o mesmo. II. O art. Cria-se. não existir Defensoria Pública.

sem dúvida excepcional. de forma alguma contraditória. de sorte que a culpa levíssima conduz ao decreto absolutório no crime e à procedência da ação no cível. Apesar do caráter conforme ao Direito da actuação do sujeito. Tal situação é. Nesse particular. Se determinado fato deixa de ser ilícito no crime por incidir a legítima defesa. mais saliente mostra-se a dessemelhança nas duas áreas. paradoxal que o Direito considere um acto lícito e imponha ao seu autor a obrigação de indenizar outrem. Quanto à consideração da culpa.3 Sentença absolutória que reconhece excludente de ilicitude A sentença penal absolutória que reconhece uma das causas de irresponsabilidade que afasta a ilicitude da conduta. pois os efeitos jurídicos não são os mesmos. mas não é. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. . faz coisa julgada no cível. o exercício regular de um direito ou o estrito cumprimento do dever legal. p. além do mais outras provas podem ser acrescentadas. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. 1996. isto é. 162 PINTO. prima facie. Cai a fiveleta a lição do lusitano Mota Pinto: Poderá parecer. Carlos Alberto da. vez ou outra. A actividade do agente é secundum jus. 9. Como será demonstrado. Coimbra: Coimbra Editora. ao contrário do que sucede no acto ilícito. indeniza-se por ato lícito. de ser ilícito na esfera cível.162 Daí. Uma e outra podem dar azo à indenização. portanto o juiz cível não está adstrito à exegese dada pelo juiz criminal. Os danos – nestas hipóteses expressamente reconhecidas pela lei da responsabilidade por actos lícitos – não são causados por uma actividade contrária ao sentido em que o Direito resolveu o conflito de interesses. conduzindo à interpretação restritiva. 122. mesmo incidindo uma dessas causas o dever de ressarcimento se impõe. o estado de necessidade. no direito brasileiro a licitude ou ilicitude do ato não é determinante na exclusão ou imputação do dever de indenizar. do Código de Processo Penal. a matéria torna-se muito importante no estudo das excludentes de ilicitude citadas. em que um comportamento rebelde do agente lesa o interesse que o Direito quer fazer prevalecer. pois. em casos especiais. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. 3 ed. por força do art.2.142 plenamente a tipicidade. mas nada impede. sendo o mais comum que a responsabilidade civil abrolhe como efeito jurídico do ato ilícito. Teoria geral do direito civil. deixa. 65. relembrando: in lege aquilea et levissima culpa venit. como adiante será visto. da mesma forma. que a lei eleja o ato lícito como supedâneo do dever ressarcitório.

164 “O que justifica (de iure condendo) a legítima defesa não é a falta de proteção judicial. o outro. seda nata lex. E pode não ser somente um direito. o seu ato será ilícito.163 Para Hegel a agressão é a negação do direito. mormente para quem é responsável pela vida de outros. pelo bem comum da família ou da própria sociedade. a cargo do Estado. porque. Mas se a violência for repelida com medida. t. Suma teológica. Ou como quer Carrara. GARCIA. será lícito [.... ou a inadequação da polícia para o evitamento”. 2-2. portanto. Basileu. Os filósofos da antiguidade clássica falavam dela como um direito sagrado. Pontes. sendo. não.7. a defesa do direito. Cícero traduziu-a na célebre frase: est haec non scripta.. Só se quer o primeiro. Na falta da ação estatal. o particular concorre. p. a afirmação do direito. se está obrigado a cuidar da própria vida. mas a falta de presta intervenção da polícia. porquanto corresponde à necessidade cogente de se resguardar o direito.d]. Historicamente. por constituir uma atitude de proteção ao direito e sendo socialmente útil não pode comportar punição. Instituições de direito penal. Assim.165 163 164 AQUINO.] E não é necessário para a salvação omitir este ato de cometida proteção.. para se defender. antes da de outrem. Não é ela exceção à proibição de matar o inocente. emanada do fato em si. como imperativo da lei natural. I. usar de violência mais do que o necessário. é natural a toda pessoa retomar essa faculdade originária de defesa. ao lado do Estado. Diz Santo Tomás de Aquino que “a ação de defender-se pode acarretar um duplo sentido: um é a conservação da própria vida. 4 ed. a legítima defesa envolve o aspecto da licitude objetiva. I. na ausência momentânea da autoridade do Estado.] se alguém.].” O amor a si mesmo permanece princípio fundamental da moralidade. Santo Tomás. na defesa do direito. o outro é a morte do agressor [. que caracteriza o homicídio voluntário.. apareceu depois da exclusiva defesa individual. São Paulo: Max Limonad [s. pondera Pontes de Miranda.64. De toda forma. mas um dever grave.143 10 – LEGÍTIMA DEFESA A legítima defesa sempre se fez presente nas mais remotas legislações. 300-302. vol. . os jurisconsultos romanos afirmavam que repelir a violência pela violência é permitido em todas as leis. Influenciados nessa ideia. cabe ao particular a defesa do bem jurídico que está sendo agredido. para evitar matar o outro. e a reação é a negação dessa agressão. De retorno ao Doutor da Igreja: [. 165 MIRANDA. na sustentação da defesa pública subsidiária.

porém. o que exige a presença de certos requisitos. A primeira não oferece dificuldade. cit. atual. A toda pessoa é deferida. op. Edição histórica. KOHLER. por conseguinte.144 O Estado de Direito não admite a justiça pelas próprias mãos. como emanação de sua personalidade. Clóvis. ou contra bens. atual ou iminente. 2 v. 365. Por isso. San Tiago. Rio de Janeiro: Editora Rio. os quais são: 1 Ameaça ou agressão injusta da vítima. pois disciplinada é a reação social contra o delito. isto é. . ao mesmo tempo. ou iminente. prestes a acontecer. como ensina San Tiago Dantas. confessa que. 25: “Entende-se em legítima defesa quem.. isto é. embora organizado satisfatoriamente. contra si. “Isto é como um complemento dos direitos da personalidade. atual ou iminente. usando moderadamente dos meios necessários. ou de outrem. a liberdade. o Código Penal o fez no art. reconhece certas situações nas quais o indivíduo pode usar meios necessários a fim de repelir agressão injusta. ou contra terceiros. cumprindo um de seus comandos. é uma faculdade que emana diretamente da personalidade. 166 167 DANTAS.166 Ou como quer Clóvis Bevilaqua referenciando Köhler. apud BEVILAQUA. de ampla incidência no âmbito do Direito Privado. deixa de cumprir o alvará de soltura. a segunda. p. de seus bens. autorizar ao homem certas atividades conservatórias”. não é possível a sua ação protetora evitar todas as violações ao direito. Por isso mesmo deve reagir de forma disciplinada. A agressão é a conduta humana que lesa ou ameaça um bem jurídico. por vingança. 1977..” Dessa forma. p. repele injusta agressão. negando-se a liberar o recluso. Esta somente acontece quando o agressor esteja obrigado a atuar. Comete agressão o carcereiro que. os quais são direitos vivazes e que devem. acontecendo.167 O Código Civil dispensa-se de conceituá-la. 3 Que a repulsa seja moderada. atua conforme a lei. Pode ser comissiva ou omissiva. impostos na letra do Código Penal. sim. quem pratica um ato em defesa própria. A sua conduta é agressão injusta a um direito fundamental da vítima. 2 Que a agressão seja inevitável e impossível a intervenção oportuna da autoridade. o direito de praticar atos que preservem a sua vida e os seus bens. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. não excedendo o necessário à efetiva defesa de um direito próprio ou de outro. a direito seu ou de outrem. 428.

o agente é responsável pelo excesso na legítima defesa. entretanto. mesmo porque não se pode dizer que a agressão é injusta. pois podendo o defendente obter o concurso estatal. Se. não se pode desprezar certa proporcionalidade entre o meio empregado e o valor do bem a defender. Não é preciso que seja culpável. De efeito. É correto concluir. não exige rigor absoluto. nem que tipifique figura delituosa. o defendente posta-se em legítima defesa ao reagir. A defesa ou a repulsa deve ser concomitante à agressão injusta.145 A agressão injusta deve ser ainda contra o que é lícito e permitido. Essa medida. Ainda que o direito de defesa seja amplo. açula um animal raivoso contra a vítima. por exemplo. em parte de sua conduta subsiste a ilicitude. É dizer. opõe-se ao lícito. O Código Civil português preveja a perseverança da legítima defesa. a proporcionalidade que deve existir entre a agressão e a defesa é relativa. Ponderar as circunstâncias que o envolve. Contudo. O ataque de animal feroz não enseja a legítima defesa. o animal é mero instrumento nas mãos do agressor. todavia. caso o excesso resulte de perturbação ou medo não culposo do agente. mesmo que haja excesso. exatamente pela sua irracionalidade. pois no caso a agressão humana é perpetrada pelo fato animal. de modo que evite. Se tardia não encontra albergue na legítima defesa. a defesa não se mostra legítima. quando muito o ataque repelido servirá de atenuante do dever de reparar pela concorrência de culpas. de sorte a injustiça exige racionalidade e o animal age por extinto. o defendente atua de acordo com o direito. há de ser verificada objetivamente em cada caso concreto. portanto contrária ao direito que a condena e a sanciona. o sacrifício da vida humana na defesa de um bem patrimonial. que a ideia de justiça impõe ao direito de defesa. como exigência de humanidade e de interesse social. Se alguém. Providencia o seu . por outro lado deve-se atentar para a situação em que se encontra o defendente. Assim. É uma conduta humana. se de um lado a legítima defesa é moderamen inculpae tutelae. quem reage à prisão decretada pela autoridade judicial – o que não deixa de ser uma agressão. é suficiente que a conduta represente objetivamente uma ameaça ou agressão. mas o estado de necessidade. porém justa – não se coloca na situação dessa causa de irresponsabilidade. dado que ultrapassa os limites da moderação. mesmo assim contra ataca o agressor e o fere ou mata. Opondo-se ao ilícito. completa e limita o critério de necessidade. responde pelo ilícito. Deve ser necessária e proporcional à gravidade da agressão. mormente de pequena monta.

2.3. depende das circunstâncias ou condições de momento. rel. com seus sentidos um tanto embutidos. j. Nos termos do art. repele injusta agressão. é aquela cujo dano foi causado ao próprio agressor. Enfim. .1999. desde que não seja possível fazê-lo pelos meios normais e o prejuízo causado pelo acto não seja manifestamente superior ao que pode resultar a agressão. 25 do Código Penal. 168 169 GONÇALVES. a saber: a) que haja uma agressão atual ou iminente. pois está sob o domínio de violenta emoção. A ausência de quaisquer desses requisitos exclui a legítima defesa (STJ. com nítida intenção de agredir.. que arreda definitivamente o dever ressarcitório. mas não dominar os nervos excitados de quem está em risco de ser morto. O acto considera-se igualmente justificado. É a denominada legítima defesa real. para incidir a responsabilidade. cada caso merece apreciação particular nesse aspecto predominantemente subjetivo. 4ª T.1 Legítima defesa real: dano causado ao próprio agressor A legítima defesa. 2. Suponha-se uma pessoa fisicamente avantajada. justo é admitir que não tenha a reflexão precisa para estimar a extensão de sua repulsa. do que a pessoa sente e vive quando comete o ato.146 art. Tratado de direito civil. quem age diante do rápido desenrolar de um fato que lhe apresenta manifesto perigo. se o excesso for devido a perturbação ou medo não culposo do agente. b) que ela seja injusta. é circunstancial. para a caracterização dessa excludente de ilicitude mister a presença dos seguintes requisitos. usando moderadamente dos meios necessários.169 Sem dúvida. como qualquer e toda obra humana. ainda que haja excesso de legítima defesa. Portanto. 16. com o que faz cessar a agressão injusta. Cunha. esta toma de um pedaço de madeira e lhe aplica golpe certeiro. 337: “Considera-se justificado o acto destinado a afastar qualquer agressão actual e contrária à lei contra a pessoa ou patrimônio do agente ou de terceiro.168 No direito pátrio outra não é a ensinança de Pontes de Miranda para quem o temor. Pontes. atual ou iminente. o medo e outro distúrbio ocasional podem ser articulados pelo defendente. MIRANDA. opera de pleno direito como causa de irresponsabilidade. porém na área civil basta que tenha havido excesso por negligência ou imprudência. O direito.” É o escólio de Cunha Gonçalves ao advertir ser muito mais fácil escrever em um código sábias e prudentes restrições. a direito seu ou de outrem”. c) que os meios empregados sejam proporcionais à agressão. “entende-se em legítima defesa quem. lesionando-o. dirige-se contra outra franzina.

. Não outra a solução se o agente atua em legítima defesa de terceiro. DJ 10. Sepúlveda Pertence). que nada contribuiu para a ocorrência do evento (TFR. isto é. o Tribunal Federal de Recursos. mas a outrem. O Supremo Tribunal Federal proferiu o seguinte acórdão: Responsabilidade civil do Estado – Caracterização – Morte causada a particular por agente da Polícia Rodoviária em serviço. Por conseguinte. 5. subsiste a responsabilidade civil pelos danos causados a terceiro. 2. pressupõe que o dano atinja o próprio agressor injusto. persiste-lhe o direito de se ver indenizado. Os casos a seguir assim demonstram. Des.147 Portanto. a conduta é lícita. se a agressão a esse não foi atribuída à vítima.10. por erro de pontaria (aberratio ictus) lesione não o agressor.2001. A legítima defesa. agindo em legítima defesa própria ou de outrem. publ. não atingido (STF. Jurisprudênica Agindo de acordo com os parâmetros preconizados nos requisitos supramencionados. Teori Albino Zavascki).1 Legítima defesa por erro de execução (aberratio ictus) Pode acontecer que alguém. 2. não é culposa e nem sequer antijurídica. rel. conduzindo à absolvição. que lhe faculte o direito de se ver indenizado pelo dano sofrido. de ter sido o servidor absolvido por legítima defesa de terceiro. . mas terceiro estranho à agressão injusta. que arreda o dever reparatório. 4ª T. mas na área civil persiste o direito de indenização à vítima inocente. j. ao agente da agressão injusta não há qualquer amparo legal.2. Irrelevância nas circunstâncias do caso.8. No caso de legítima defesa própria.1995. da 4ª Região decidiu: Mesmo que o agente tenha praticado o ato em legítima defesa. rel.2 Dano causado a terceiro: legítima defesa por erro de execução e legítima defesa putativa Foi dito que as causas dirimentes de ilicitude não produzem os mesmos efeitos jurídicos no Direito Penal e no Direito Civil. o erro de execução (aberratio ictus) é caso de dirimente no crime. Min. Quando o dano é suportado por terceiro inocente.

porque esta exclui a culpabilidade e a antijuridicidade. É obrigação do Estado reparar o dano causado por seu servidor. em 25. [. ilícita. 2.2005. em 14. Umberto Guaspari Sudbrack. rel. 5ª Câm.2 Legítima defesa putativa Se a aberratio ictus não ilide o dever de indenizar.. atual ou iminente. j. No corpo do acórdão outro julgado é referenciado: Constitucional. 1. a assertiva segunda a qual quem age em legítima defesa está isento de reparar o dano.. esta exclui a culpabilidade e a antijuridicidade. supõe encontrarse em face de agressão injusta.] Ocorre a legítima defesa putativa quando o agente.. 1ª Câm.1999). Des. antijurídica. da mesma forma acontece com a denominada legítima defesa putativa. j. o que possibilita seja pleiteada a reparação de danos no juízo cível [. uma vez que se tal situação existisse de fato tornaria sua ação legítima. Legítima defesa putativa. ao referir à legítima defesa como causa de irresponsabilidade. Des. atual ou iminente. objetivamente. 37. vale dizer.7. 188. O reconhecimento do erro de fato ou legítima defesa putativa. inc.. Em outras palavras. do Código Civil.148 2. restringe-se apenas à legítima defesa real. é verdadeira desde que o agressor seja a . % 6º. que isenta de pena o réu na esfera do Direito Criminal.2... ambas as soluções distanciam daquelas dadas pelo Direito Penal. estando legalmente autorizado à reação. mas a conduta do agente é. rel. por erro de tipo ou de proibição justificado plenamente pelas circunstâncias. Essa causa de irresponsabilidade ocorre na hipótese de alguém. RT 840/380). a direito próprio ou de outrem. indemonstrada a culpa exclusiva da vítima (art.. A alegação de legítima defesa putativa não exclui a responsabilidade civil.] (TJRS. mediante equivoco. da CF) [. julgarse diante de uma agressão injusta. enquanto aquela arreda a culpa. A legítima defesa putativa não guarda similitude com a legítima defesa real. Civil. não exclui a responsabilidade civil de reparar danos causados sem ter havido agressão do ofendido (RF 200/151).8. I. Responsabilidade civil do Estado. Deduz-se que o art. não excluindo a ilicitude do fato. mas a culpabilidade do agente.] (TJRS. Luiz Felipe Silveira Difini. Responsabilidade civil – Homicídio – Legítima defesa putativa – Prova. primeira figura..

81. o defendente ressarcirá a vítima. ou seja. por raciocínio lógico. O seu reconhecimento encontrou severo percalço e traz como caso paradigmático certo furto famélico. A ratio legis é a seguinte: a conduta de quem. que desde remota antiguidade é preocupação dos penalistas. que não o agressor. Sendo antijurídica terá que indenizar a vítima do dano. Também contra ele. por força do art. Se aquele que se defende ou defende terceiro causa dano a outrem. Não pode aquele que com a agressão injusta propiciou a legítima defesa ficar isento de responsabilidade. Suponha-se que “A” está sendo agredido injustamente por “B”. não há como interpretar o parágrafo único sem atentar para a cabeça do artigo. como visto.3 O art.149 pessoa que o sofre. A lei reserva-lhe. . ainda criança. reservando-lhe o parágrafo único do art. responde pela indenização. 930. em compensação. em defesa de quem causou o dano. do Código Civil. embora este se refira ao estado de necessidade. prejudicou direito ou interesse de terceiro inocente não é culposa. cabe a mesma ação regressiva. Afinal. mesmo agindo em legítima defesa. Doutra feita. exceto quando a vítima do prejuízo não tenha dado causa ao ato. com posterior direito de regresso contra “A”. Jurisprudência 3 Estado de necessidade O estado de necessidade. Para evitar que a afronta prossiga. “A” beneficiou-se da conduta de “C”. “C” toma de um bem de “D”. 2. Neste caso. afasta a reparação do dano. inc. do Código Civil. o direito de regresso contra o beneficiado pelo ato. aquele que foi defendido. danificando-o ao golpear “B”. Seria incongruente.2. somente muito depois passou a ser enfocado como um ato incluso nas causas de irresponsabilidade. em Franca. protagonizado por Luiza Menard que subtraiu um pão para saciar a fome de seu filho. Cumprirá a “C” indenizar a “D”. I. 930. o direito de ação regressiva contra a defesa de quem se causou o dano. pois foi ele quem diretamente a lesionou. parágrafo único A legítima defesa. mas é antijurídica.

92-93. faltasse pão por motivo que não lhe podia ser imputado. Demonstrou que por ocasião da subtração. provocando reações daqueles que supunham perigosa a conduta do furtador famélico. o cargo de presidente dá ao juiz um destaque maior que a seus pares. da valorização da mulher e sua igualdade em relação ao homem. A sentença foi recebida com inusitada reprovação. Para as páginas da história. a desditosa mãe foi absolvida. proclamaram que tal decisão ameaçava a segurança dos bens e fortunas amealhadas durante um século de pacífica exploração. . dentro de circunstâncias muito especiais. p. A sua posição progressista. avançou no sentido do direito de greve. para exemplificar caso de responsabilidade civil extracontratual. a fim de se reportar à responsabilidade civil contratual. não sendo nem sequer presidente de sua Câmara. Nota-se que o estado de necessidade conjectura dois direitos em conflito – ou como querem outros. arremessa o seu veículo contra um muro causando dano a terceiro.170 No cotidiano da vida dentro das relações sociais. impediu-lhe que galgasse postos na carreira da Magistratura. impelido pela força dos fatos. 2001. mormente a uma mãe de família. para evitar o atropelamento de uma criança distraída ao atravessar a rua. Privou da amizade de grandes intelectuais como Clemenceau e Émile Zola. desde que não exceda os limites do indispensável. 1920 e MARQUES. Leme –SP. visando evitar o naufrágio iminente e para salvar os passageiros. mas apenas para a vida dos próprios cônjuges. Judicou por vários anos no Tribunal de Paris. bota fora as bagagens. uma mulher acusada de adultério. mitigada pelas torturas da fome. fundamentando a sua sentença no entendimento de que não havia prejuízo público. não conseguia trabalho e sempre gozou de reputação ilibada na sua comunidade. A sentença destacou como lastimável que em uma sociedade organizada. tanto que o Ministro da Justiça foi forçado a declarar que o juiz Magnaud não exprimia a opinião geral da Magistratura. Serviu a França na 1ª Guerra Mundial e como oficial superior recebeu a comenda da Legião de Honra pela sua conduta corajosa. sendo absolutamente necessário para a salvaguarda de um deles. No sistema judiciário francês. Evaristo de. Paul Magnaud foi um juiz polêmico.. em 1898. que não conseguia emprego. acusado de vadiagem. A justiça da França: um modelo em questão. poderá danificar o outro.Editora de Direito Ltda. uma situação de colisão de interesses – e pontifica que. presidido pelo juiz Paul Magnaud. casos existem em que alguém. de segurança no trabalho. além do natural desejo de evitar igual sofrimento ao filho menor impúbere. . Ou o capitão de um navio. Problemas de direito penal e psicologia criminal. Outras vozes. o titular do mais valioso do ponto de vista social. mais radicais. Rio. É o motorista que. Luiz Guilherme. a autora não tinha dinheiro e os gêneros alimentícios de que dispunha estavam esgotados há 36 horas. Analisou a sua intenção dolosa. para concluir pela absolvição. debalde os seus esforços. em outro julgamento absolveu um rapaz. 170 MORAIS. Paul Magnaud imortalizou-se como le bon juge. Ponderou que.150 Submetida a julgamento perante o Tribunal de Chateau-Thierry. pratica ato danoso à pessoa ou ao patrimônio alheio.

isto é. no estado de necessidade – como na legítima defesa – o agente não quer o mal.” O atual Código manteve o mesmo sistema do Código revogado. a necessidade. o mesmo acréscimo repara-se no art. o Código Civil de Bevilaqua representa inestimável fonte de pesquisa e estudos. É outra categoria jurídica comum ao Direito Penal. ao preceituar que não constitui ato ilícito. nas circunstâncias. A exemplo da legítima defesa. direito próprio ou alheio. “a deterioração ou destruição da coisa alheia. I.1 Requisitos Tratando-se. . inc. os danos são causados em circunstâncias excepcionais que não poderiam passar despercebidos no âmbito da responsabilidade civil. a fim de remover o perigo iminente. afasta a culpa. “a lei é poderosa. acrescendo a expressão “lesão a pessoa”. 24: “Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual. mais poderosa. cuja característica fundamental consiste na inexigibilidade de outra conduta. 23. a doutrina da dirimente do estado de necessidade. o Código Civil não conceituou o estado de necessidade. que não provocou por sua vontade.” Nesses casos arguidos e em tantos outros análogos. como se trata. a doutrina e a jurisprudência forjadas sob a égide do Código de 1916 devem ser consideradas. 188. não era razoável exigir-se. porém. sendo que as obras concebidas pelos de juristas da época merecem grande atenção ante a inegável autoridade de seus textos. nem podia de outro meio evitar. dessa forma relevante para o mundo jurídico. cuida-se assentar os seus requisitos: 1. É como assevera Goethe. pois dispõe o art. criando.” o que foi repetido por Ünger: “a necessidade não conhece lei. 188. do mesmo Codex: “Não há crime quando o agente pratica o fato em estado de necessidade”. Se o sistema é o mesmo. inc. no que é secundado pelo Código Civil no art. Na verdade. cujo sacrifício.151 Destarte. age premido por uma situação extraordinária e se sente na necessidade de salvaguardar um bem mais valioso. A existência de perigo iminente ou atual. pois assim a jurisprudência já vinha reconhecendo. Diferente o Código Penal no art. inc. II. ou a lesão a pessoa. que deve ser inevitável. de ato praticado em situações especialíssimas. assim. 2. Aliás.” Trata-se de excludente de antijuridicidade. II. na Parte Geral do Código Civil.

as circunstâncias e o estado psicológico do agente no momento preciso em que age. Gabriel Cesar Zaccaria. ensina Gabriel Cesar Zaccaria de Inellas. Logo. não conforta sua conduta nessa dirimente. Quem age por necessidade não quer o mal. que apenas a conduta lesiva a pessoa ou a coisa alheia é capaz de dirimi-lo. se o perigo já ocorreu ou se é esperado no futuro descaracteriza o estado de necessidade. repita-se. Por isso. Apreciação que contempla. alem de real e efetivo. 2001. e se tal omissão da atuação oficial vir a causar prejuízo a outrem. É o que a doutrina denomina. É a hipótese de um policial acovardar-se. o Estado responderá pelo dano. Cumpre. p. sendo o dano o único meio de que dispõe para se livrar da situação extraordinária que se encontra. aquele que atua em estado de necessidade deve se portar conforme o princípio constitucional da razoabilidade. Não haja excesso do estritamente necessário para o afastamento do perigo. 3. A inevitabilidade significa que a situação de perigo é de tal monta. certa proporcionalidade acerca do valor do bem ameaçado e o direito alheio lesado. Atual é o perigo que se verifica no momento e iminente é o que está prestes a acontecer. assim. Que o bem sacrificado seja de valor socialmente inferior. Atenta-se ainda. 7. . senão diante a danificação de bem alheio. aquele que atua acobertado por essa causa de irresponsabilidade não pode ter sido o causador do perigo. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira.152 2. inevitabilidade de outra conduta. O requisito inicial exige perigo iminente ou atual. 4. Não basta. que deve ser inevitável. Da exclusão de ilicitude.171 171 IENELLAS. não meramente provável ou hipotético. portanto se não agir de pronto o socorro virá a destempo. Ademais. e nessa apreciação comparativa dos interesses ou direitos envolvidos. o agente que tem o dever jurídico de enfrentar o perigo. há de considerar o valor subjetivo deles. 5. que é impossível ser evitado. se ele próprio deu causa fica excluído o estado de necessidade. Que o perigo seja de tal natureza. Não ter o agente concorrido para a criação desse perigo. deixando de prender delinquente perigoso. nem estaria em condições de evitá-lo mediante maior atenção ou prudência.

do art. verdadeira responsabilidade objetiva. em boa hora. determina que a pessoa. Nada cumpre indenizar. cabia-lhe optar a imputação do prejuízo à vítima inocente do dano ou àquele que. Cria-se a figura da indenização por ato lícito. arromba a porta da casa de propriedade da pessoa que negligentemente ocasionou o incêndio. contrario sensu. criando o estado de perigo e o dano recaiu sobre o seu próprio bem. foi ela quem deu causa ao acidente. 929. apenas com oportuno acréscimo “a lesão a pessoa”. não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. Justifica a sua posição ao alegar que a solução do art. a excludente opera plenamente. para evitar um mal maior. pois o sistema manteve-se inalterado. 2. que deixou de incidir apenas nas relações patrimoniais.. João Luiz Alves dissente. II [atual 180. do art. II. O ordinário é que o ato ilícito seja o fundamento da responsabilidade civil. [atual 929] contradiz com o art. como já havia reconhecido a jurisprudência.. É a interpretação que se faz.” Se o titular de um interesse ou direito deteriorado ou destruído criou a situação de perigo. II]: . Nos seus comentários ao Código Civil de Bevilaqua. de sorte que o atual Código manteve o mesmo sistema adotado pelo revogado. todavia nada impede que se impute o dever ressarcitório como consequência do ato lícito. o que está estampado no inc. cause o dano. É o chamado estado de necessidade defensivo. A solução eleita reparte os doutos desde o Código Civil de Bevilaqua. Continua atual. O Código Civil de Reale. indenize o terceiro prejudicado que não deu causa ao estado de perigo. 929 e 930. A preferência recaiu na maior proteção à vítima. Suponha-se que alguém. tal como acontece na legítima defesa putativa ou por erro de execução. O legislador deparou-se com um dilema. ao lado da lesão a “coisa alheia”. do Código Civil: “[.519. de modo que o dano produzido não ultrapasse o estritamente necessário. para salvar uma criança. do Código Civil. não mais se reduzindo a deterioração ou destruição “da coisa alheia”. o que alarga o estado de necessidade. acresceu a expressão “lesão a pessoa”. entendendo que a solução deveria ser diferente. do Código Civil. do Código revogado.153 Daí decorre que a dirimente em questão está a exigir moderação. A vítima do dano laborou com culpa. 160. inc. mesmo agindo em estado de necessidade.1 Arts. 1. 188. A divergência tem foros de atualidade.] o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornem absolutamente necessário. do Código Civil: restrições ao estado de necessidade O art. 929.

constitui ato lícito. 2002. 709. I. 1. pois. do CC. p. Clóvis Bevilaqua.175 172 173 ALVES. A 1935. como ato lícito. 1. ao qualificar esse preceito de irrecusável equidade. a fim de remover perigo iminente. Edição histórica. 180. 188. naturalmente. transcrição com linguagem atualizada. 174 BEVILAQUA. p. 7 ed. expressamente prevista na lei civil.]. e emprestou. desde quando preceito similar constava de seu Código: Se o eminente senador João Luiz Alves nele descobriu contradição. 7 ed. p. Código civil dos Estados Unidos do Brasil. não pode obrigar a quem a executa. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. isto é. 431. portanto. 557. II. . a remoção de perigo iminente. vol. p. Isto porque. ainda assim o art. é porque se colocou no ponto de vista da culpa. por vontade exclusiva da lei. Contradiz. quando o ponto de partida do Código é o do dano. 929 e 930 não deixa de estar em contradição com o art. Rio de Janeiro: Ed. o art. pois enquanto este considera lícito o ato.174 Está acordado nesse sentido Rui Stoco: Em resumo.154 Pensamos que o art. 1977. São Paulo: RT. 160. a indenizar o dano. de seu Código. São Paulo: Saraiva. 175 STOCO. dentro dos limites indispensáveis à sua remoção.172 Abraça o mesmo entendimento Carlos Roberto Gonçalves: “A solução dos arts. nos termos do art.Porque este declara que não constitui ato ilícito. tinham. Essa defesa do critério da indenização é repetida por este autor no comento do art. assim. GONÇALVES. II. Rio. João Luiz. mesmo que tenha sido absolvido na esfera criminal. É uma hipótese de responsabilidade sem culpa e. 1.519 está em contradição com o art.”173 Por seu turno. o dano causado em estado de necessidade não isenta o seu causador. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. embora a deterioração ou destruição da coisa alheia. E mais: responsabilidade pela pratica de ato lícito. 188.519. II. Logo.519 com o art. II. aqueles obrigam o agente a indenizar a deterioração da coisa alheia para remover o perigo iminente. não constitua ato ilícito. para remover perigo iminente”. aos dispositivos intenção diversa da que eles. o ato lícito no sistema geral só promana – ou da inexecução de obrigação ou de delito ou quase delito. Carlos Roberto. Clóvis. de responsabilidade objetiva. porque torna obrigatória a indenização [. segundo nosso entendimento. 665. Rui. 2007. 160. Ora. 929 do mesmo Código concede ao dono da coisa ou à pessoa lesada – desde que não tenha sido o causador do perigo – o direito de ser indenizado pelo prejuízo que sofreu.. defende a atual solução do Código Civil. “a deterioração de coisa alheia. vol. p.. II: 1º .

p. . no estado de necessidade se a vítima lesada não ensejou a situação de perigo.176 Não comunga com essa interpretação Em síntese. Isso estabelece uma doutrina que não pode merecer os aplausos dos juristas informados dos princípios atualmente observados em relação à responsabilidade civil. ao agente causador do dano assiste tão-somente direito de regresso contra o terceiro que deu causa à situação de perigo (STJ.1994. responde perante o proprietário deste pelos danos causados. Para isso. voltar contra o causador do dano. reserva ao agente do dano o direito de regresso contra aquele que. tanto mais que o ato necessário. causou a situação de perigo. Min. José de Aguiar. além de fugir ao critério moderno de reparação do dano. 4ª T. expõe: “Faz coisa julgada no cível a sentença no juízo criminal que reconhece ter sido o ato praticado em estado de necessidade [. do Código Penal. 2. do Código Civil. não era necessário dispor. 1995. 22. Sálvio de Figueiredo). o citado civilista reverbera: Somos de opinião que o sistema do Código de Processo Penal aberra a tradição de nosso direito. vol. o art. 10 ed. não pode. O art. em qualquer das correntes de opinião. afastado como motivo de isenção do dever de indenizar. sempre foi. não sendo elisiva da obrigação de indenizatória a circunstância de ter agido em estado de necessidade. j. atingido pelo ato necessário. mas somente recorrer à talvez problemática responsabilidade de quem criou a situação de necessidade. Da responsabilidade civil. 930. Em casos tais.. Rio de Janeiro: Forense. culposamente.155 José Aguiar Dias suscita à dissensão outro ingrediente.02. Nem se diga que pelo Código de Processo Penal o ato praticado em estado de necessidade só isente o agente em face de quem é culpado pelo perigo. 675. Não há argumento capaz de convencer-nos de que o direito que temos de lesar a outrem em estado de necessidade seja mais forte e mais merecedor de proteção do que o que assiste ao prejudicado de se ver reposto na situação anterior ao dano.]”. 176 DIAS. II. a lei outorga-lhe o direito à indenização. O motorista que. rel. todavia. vem a colidir com automóvel que se encontra regularmente estacionado. o terceiro inocente..2 O art. admitido como escusa do crime. Nossa convicção é que o Código de Processo Penal isentou de qualquer caso de reparação o prejuízo causado em estado de necessidade. 65. ao desviar de “fechada” provocada por terceiro. É o que se pode ver de um sumário estudo do assunto. à luz desse Código. 930.. Assim. do Código Civil Por seu turno. Com fulcro neste dispositivo.

ao tratar das obrigações de fazer e de não fazer. 944. p. 5.. 1975. . nos termos do art. de há muito Wilson Melo da Silva propugnou. a ninguém é permitido fazer justiça pelas próprias mãos.156 A empresa cujo preposto. 86. dispositivo sem similar no Código revogado. que é imputável por ser um ato consciente e voluntário.177 o que coaduna com a regra do art. equitativamente. buscando evitar atropelamento. 160. não arredando. parágrafo único. 177 SILVA. Da responsabilidade civil automobilística. salvo quando a lei o permite. 4ª T. praticado em estado de necessidade. Aldir Passarinho). 10 Autodefesa No atual estágio da civilização não se permite que a pessoa seja juiz e parte ao mesmo tempo.2000. o juiz poderá reduzir. a indenização equitativa é imperativo inarredável. II] (STJ. o ressarcimento. rel. causando danos. que não se encaixam na legítima defesa nem no estado de necessidade. 345: “Fazer justiça pelas próprias mãos. 188. contudo. embora legítima. Com alusão ao quantum debeatur. Há casos. 2 ed. É a regra geral. Min. 930] c/c o art. figura típica no Código Penal. do CC [atual art. querendo exercitá-la conforme lhe permite o direito subjetivo. responde civilmente pela sua reparação. que impõem exceções. mas na autotutela também chamada de autodefesa. O vigente Código Civil acrescenta dois dispositivos inéditos no sistema revogado. do qual o juiz não pode se furtar. que a indenização deveria ser equitativa. Como consequência. 1.” Se alguém tem pretensão que lhe reserva o direito objetivo. do Código Civil. Wilson Melo da. São Paulo: Saraiva. deve invocar o Estado-Juiz para satisfazê-la. por vez ou outra. Dispõe o seu art. Com muito mais razão tal disposição da lei incide no estado de necessidade. sob a rubrica de exercício arbitrário das próprias razões. a indenização. Direito de regresso assegurado contra o terceiro culpado pelo sinistro. procede a manobra evasiva que culmina no abalroamento de outro veículo. para satisfazer pretensão. II. ainda que não se configure na espécie a ilicitude do ato. com fundamento na doutrina italiana. pressupondo na sua conceituação substancial a ausência de culpa de quem o leva a termo. Ora.520 [atual art. De efeito.6. j. dispõe o Código Civil atual que havendo excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano.

em um final de semana. Procurando o Poder Judiciário. O interessado põe-se no lugar que. é o quanto basta para a sua lavoura. sendo depois ressarcido. Outro exemplo pode ser suposto no caso de locação: o locatário. Ou o corpo de bombeiro no uso moderado de força para vencer a resistência do proprietário da casa. que execute o ato à custa deste.157 O art. A análise desses exemplos lembra a lição de Pontes de Miranda: A justiça de mão própria é a aplicação da regra jurídica pelo próprio interessado. que presente evita. retornando um terço das águas do riacho ao seu leito normal. poderá o credor desfazer ou mandar desfazer. 251 refere-se à obrigação de não fazer. Certo fazendeiro cultiva 12 hectares de terra em batata. O seu parágrafo único dispõe: “Em caso de urgência. 249 aborda a obrigação de fazer fungível. isto porque se a justiça fosse chamada a intervir. independentemente de autorização judicial. que procura impedir o ingresso da corporação no combate ao fogo. independentemente de autorização judicial. poderá o credor. a ela não atendeu. até obter a medida corretiva. não o faria em tempo hábil e o credor experimentaria prejuízo injusto. que ao desocupar o prédio. Decide e o faz a manu propria. o fazendeiro. enquadra-se na autodefesa. O seu parágrafo único reza: “Em caso de urgência. sem prejuízo da indenização devida.” Já o art. o fato que lhe é danoso. de pronto e moderadamente. executar ou mandar executar o fato. cuja abstenção comprometera-se o devedor. localizados na parte baixa de um riacho. sofreria sensível prejuízo pela quebra de produção. Seu vizinho constrói uma represa na divisa das propriedades e para enchê-la desvia provisoriamente o leito de água. que consome o imóvel com risco de se alastrar para os prédios vizinhos. sem prejuízo do ressarcimento devido. independentemente de autorização judicial. porém. depois que . permitindo ao credor. autorizando o credor a desfazer o ato. A ação moderada. que devia atender à incidência da regra jurídica. pretenda retirar coisas de propriedade do locador. de sorte a não impedir o direito do vizinho de abastecer a represa. que lhe proporciona irrigação natural. à custa deste e da mesma forma sendo depois ressarcido. Dá-se. havendo recusa ou mora do devedor. que o batatal exige mais de uma irrigação diária.” Os dois exemplos legais demonstram que a autodefesa é caracterizada pela urgência e pela reposição da situação ao estado primitivo a manu propria do credor. quando aquele. É possível imaginar outras situações em que a urgência no cumprimento da obrigação. torne imperiosa a execução de pronto.

a esse. Miranda. João de Matos Antunes. 1. raros são os casos de autotutela. si. com o subtítulo acção directa: “Art. quando sacrifique interesses superiores aos que o agente visa realizar ou assegurar. não estaria justificada a conduta nessa causa de irresponsabilidade.. e para caracterizá-la só se decisão judicial. 3. É lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio direito. Coimbra: Almedina. e não a particulares caberia. ou noutro acto análogo.A ação direta não é lícita.” O lusitano Antunes Varela lista os seguintes requisitos: 1 Fundamento real: é necessário que o agente seja titular de um direito. 4 Valor relativo dos interesses em jogo: não pode o agente sacrificar interesses superiores aos que visa realizar ou assegurar. 2000. no caso particular. 180 Art. I.. destruição ou deterioração de uma coisa. O Code des Obrigations da Suíça também contempla a autotutela nestes termos:180 No direito argentino. l’intervention de l’autorité ne pouvait étre obetenue en temps utile et s’il n’existait pas d’autre moyen d’empêcher que ces droits ne fussent perdus ou que l’exercice n’en fût rendu beaucoup plus difficile. pela impossibilidade de recorrer em tempo útil ao meios coercivos normais.178 O Código Civil português estampa didático dispositivo a respeito.158 a justiça se tornou monopólio do Estado. 1954. 554. para evitar o prejuízo. 2. d’après les circunstances. Em contrário. t. Rio de Janeiro: Borsói. para evitar a inutilização prática desse direito.] 3 Celui qui recourt à la force pour protéger ses droits ne doit aucune réparation. que procura realizar ou assegurar. 313. vol. A acção direta pode consistir na apropriação.179 Dentro dessa perspectiva. ensina Jorge Bustamante Alsina: 178 179 PONTES. p. Das obrigações em geral. favoreceria aquele que atuou dentro limites de seus requisitos. pela impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais. p. 52 [. 2 Necessidade: o recurso à força terá de ser indispensável. . Ele substitui o juiz. quando a acção directa for indispensável. Tratado de direito privado – Parte geral. contanto que o agente não exceda o que for necessário para evitar o prejuízo. VARELA. na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito. 3 Adequação: o agente não pode exceder o estritamente necessário para evitar o prejuízo. II. 336.

188. Aquele é mandamento. Em certas circunstâncias a autodefesa não é senão o exercício do direito de proteger uma pretensão legítima que pode ver-se frustrada irreparavelmente ou dificultada manifestamente sua efetividade pela impossibilidade de requerer e esperar o auxílio ou a intervenção do Estado. e 23. norma de comportamento a que toda pessoa deve submeter-se. O direito subjetivo são as prerrogativas de que uma pessoa é titular. É a expressão juridicamente regulada de fazer justiça com a própria mão. Es la expresión jurídicamente controlada de hacerse justicia por mano propia.159 Esta figura tem um parentesco próximo com o estado de necessidade e a legítima defesa: tem em comum com eles a força da circunstância externa que autoriza agir embora com isso se prejudique outro. [s. Jorge Bustamante. En principio está prohibido hacerse justicia por si mismo. porquanto não deixa de ser uma forma primária e grosseira de realização da justiça. Buenos Ayres: Abeledo-Perrot.]. constituye una regla elemental de la convivencia para impedir que reine el caos y la violencia. que se realiza na pessoa do titular. constitui uma regra elementar da convivência para impedir que reine o caos e a violência. No original :“Esta figura tiene un parentesco próximo con el estado de necesidad y la legitima defensa: tiene con ellas en común la fuerza de la circunstancia externa que autoriza a actuar aunque con ello se dañe a otro. ou em condições muito apertadas. é poder. conforme dispõem respectivamente os arts. que fique bem saliente. Designa o direito enquanto regra: jus est norma agendi. I. o direito admite a autotuela em termos bem restritos. Teoria general de la responsabilidad civil. Para cabo e fecho. p. O direito objetivo é a regra imposta ao procedimento humano. Designa uma faculdade reconhecida à pessoa. inspirando a sua atuação consigo próprio e ao interagir em sociedade. En ciertas circunstancias la autoayuda no se sino el ejercicio del derecho de proteger una pretensión legitima que puede verse frustrada irreparablemente o dificultada manifiestamente su efectividad por la imposibilidad de requerir y esperar el auxilio o la intervención del Estado. Exercer direitos é a movimentação desse poder juridicamente reconhecido. É imposto mediante sanção. exatamente por se restringir a direito próprio tão-somente. contra o mais fraco. a faculdade derivada da norma: jus est facultas agendi.d. vive fora do titular da faculdade. no sentido de obter determinado efeito jurídico. fazendo com que o mais forte se conduza a excessos – que devem ser indenizados – com dano à paz pública. 11 Exercício regular de um direito reconhecido Mais outra figura comum ao Direito Civil e Penal. este. 118-119. Em princípio está proibido fazer justiça por si mesmo. mas com eles não se identifica. 181 ALSINA. 2 ed.181 Figura próxima da legítima defesa e do estado de necessidade.” .

III. São. aqui o fato material corresponde ao abstrato conteúdo de um direito. mesmo se terceiro venha a sofrer dano. 1. sentido mais amplo. referenciando Cuviello. sem nenhuma ressalva. e ao estabelecer que o homem e a mulher são iguais em direitos e deveres. 188. sancionado e protegido pelo legislador. garante a todos. A Constituição Federal. instrumentos práticos elaborados e constituídos pelos homens. insere-se o pressuposto do procedimento culposo e antijurídico. 2ª parte) e no Direito Civil (CC. art. 23. por se consubstanciar na contravenção a uma norma de conduta preexistente. Lá a ordem jurídica é expressa. para que. merece desde logo a proteção jurídica. produzam na realidade social os seus efeitos. como titular. confere as seguintes regras inerentes ao exercício do direito: O fundamento dessa causa de irresponsabilidade encontra-se no enunciado neminem laedit qui suo jure utitur (não causa dano a outrem quem utiliza um seu direito). isto sim. podendo exercê-los. Exerce o direito quem.160 O exercício do direito comporta. nem sequer aos condenados ou aos vis. um se posta no polo oposto do outro. o ato ilícito e o exercício regular de um direito reconhecido são conceitos antagônicos. como titular de dada situação. Serpa Lopes. como por exemplo. tem um direito reconhecido. as normas do direito objetivo não são meros enunciados de ideias com validade intrínseca. assim considerado o possuidor sem título. que são exatamente o cumprimento dos seus propósitos concebidos. relaciona categorias de situações nas quais se percebe o exercício dos direitos. nos incisos do art. Em tema de ato ilícito. O Código Civil outorga direitos e impõe deveres a todas as pessoas naturais e jurídicas. há de se considerar. gozar e dispor da coisa que lhe pertence (CC. como visto. Logo. mediante seu manejo. o proprietário exerce o seu direito de propriedade quando pratica atos correspondente às faculdades de usar. visto que previsto no direito objetivo. II. Mas também o exerce quem. o exercício dos direitos. 2ª parte) vige o princípio de que ninguém poderá ser responsabilizado pelo exercício regular de um direito reconhecido. que assim passam a ser sujeitos de direitos. de maneira que inexiste ato ilícito quando se exercita um direito regularmente reconhecido. 5º.228). nem são somente descrição de fatos. art. . 11. art. enquanto se mantiver dentro da ordem jurídica. De fato.2 Dirimente de responsabilidade civil No Direito Penal (CP.

comercial. objetivando a abertura de via pública. faz e faz com direito. requer a insolvência civil do devedor inadimplente. Mais exemplos de danos permitidos são encontrados em outros ramos do direito. No Direito Administrativo a autoridade pública decretar determinado imóvel de utilidade pública para fim de desapropriação. No Direito do Consumidor os exemplos são férteis. que corresponde ao princípio da facultas agendi. a contrariedade a direito alheio no exercício regular de um direito reconhecido. não pode acarretar indenização o exercício regular de um direito reconhecido. tributário. o direito subjetivo que a ordem jurídica assegura a toda pessoa de querer e realizar ou de agir e reagir até onde o seu direito não atinja o de outrem. Com esta listagem de danos permitidos. ou ao reivindicar que toda propaganda e publicidade integrem o contrato. embora tolhendo uma vista monumental de seu vizinho. Nessas hipóteses. em casos extremos até com o moderado castigo corporal hoje cada vez mais em desuso. No âmbito do Direito Civil. preenchidas as condições legais. ou o refazimento do serviço mal feito. também se pretende demonstrar a que o direito não exclui. uma vez que encerra todas as espécies de direitos subjetivos. pode-se articular o fato de os pais exercitarem o poder familiar ao corrigir os filhos. apesar de os agentes causarem danos a outrem estão desobrigados de indenizar. No Direito Penal. No Direito Comercial o caso de um comerciante requerer a falência de outro. como princípio legal. com débitos superiores ao patrimônio. dos romanos: fiz. ou o prestador de serviços relativos a bens móveis alheios beneficiados ou consertados. pois agem no exercício regular do direito. enquanto não lhe é pago o serviço. o dono que constrói em seu terreno. consumidor. administrativo etc. mas fiz com direito. a prisão em flagrante delito realizada pelo cidadão comum. não se poderia tirar ao direito o poder ser exercido. se o exercício for regular. pretende-se demonstrar que a palavra direito é empregada em sentido lato. Por outro lado. porque lesaria o outro: seria preferir .161 Por conseguinte. É o fecit. O consumidor exercita seu direito ao exigir a troca do produto com vício de fabricação. o possuidor que retém benfeitorias necessárias e úteis até se ver ressarcido como lhe cabe. sed jure fecit. seja civil ou extracivil: penal. ou seja. Pontes de Miranda ensina: “Não é contrário a direito todo exercício de direito que lese. o credor que.

especificamente. terá que se submeter a critérios aceitáveis do ponto de vista racional. art. segundo o espírito da instituição. mas também aplicável o art. Sílvio. pois. I. 3º. enuncia-se com este princípio que quem atua no regular exercício de direito. pela boa-fé ou pelos bons costumes. art. RODRIGUES. cit. O excesso deixa de ser exercício regular de direito. da Lei de Introdução ao Código Civil). como diz este jurista. Se se excede. p. ob. destarte. . incide no abuso de direito. 187.”183 Resta certo. segundo a qual há abuso de direito quando ele não é exercido de acordo com a finalidade social para a qual foi conferido. Pontes. incorre no dever indenizatório. sua conduta equipara-se ao ato ilícito e.3 Consentimento do lesado 182 183 MIRANDA. a possibilidade. daquele que usa de seu direito. Direito civil: Parte geral. das pessoas solidárias na convivência social (CF. A irregularidade do exercício é que estabelece a preferência pelo direito lesado. causando mal desnecessário ou injusto. 2003. 321. obedecendo à sua finalidade. o dever de conter-se nos limites da razoabilidade.2 Princípio da razoabilidade e o abuso de direito À visada da legítima defesa e do estado de necessidade. p 339 – Brookseller. predicados que presidem o ato lícito (CC. São Paulo: Saraiva. II. ao invés de excludente de responsabilidade. t. 11. e ganha foros de ilicitude. 5º. que implica em moderação. É dizer.162 um direito ao outro. ou não. debalde exercitando o direito. em sintonia com o senso normal das pessoas cuidadosas e diligentes que respeitam as finalidades que presidem a outorga dessa causa de irresponsabilidade. convola-se em ato de agressão. Exige-se. devendo o interesse de quem o exerce acomodar-se ao interesse coletivo. É a peroração de Sílvio Rodrigues.”182 11.2.2. 33 ed. do pleno exercício do direito está condicionada em uma regra de ouro: o exercício de um direito reconhecido não pode afastar-se da finalidade para a qual o direito foi concebido. os direitos são conferidos ao homem para serrem usados de uma forma que se acomode ao interesse coletivo. entretanto se o exercício for anormal. por exceder manifestamente os limites impostos pelo fim social ou econômico. A construção é simples: é lícito o exercício regular de direito. última figura). escudado em Josserand: Acredito que a teoria atingiu seu pleno desenvolvimento com a concepção de Josserand.

163 O consentimento do lesado (volent non fit injuria) apresenta aspectos que devem ser considerados, apesar da ausência de previsão legal. O Código Civil de Portugal preveja de forma muito didática, aproveitável ao direito pátrio: “Art. 340º - Consentimento do legado. 1. O acto lesivo dos direitos de outrem é lícito, desde que este tenha consentido na lesão. 2. O consentimento do lesado não exclui, porém, a ilicitude do acto, quando este for contrário a uma proibição legal ou aos bons costumes. 3. Tem-se por consentida a lesão, quando esta se deu no interesse do lesado e de acordo com sua vontade presumível.” O direito protege bens e interesses atingidos pelo ato ilícito, se o lesado consente no dano é porque lhe convém, o que torna a conduta lesiva lícita, desde que o direito lesado seja disponível. Direitos há, entretanto, para cuja lesão é inoperante o consentimento do lesado; são aqueles indisponíveis, como os da personalidade. Não podem ser danificados ou destruídos outros bens, mesmo que privados e disponíveis, a exemplo dos livros didáticos se não mais úteis ao dono, o é para a coletividade, assim a lesão fere o princípio da solidariedade social alentado na Carta Magna, que torna o bem irrenunciável. Considera-se, que a responsabilidade civil tutela também direitos privados disponíveis, aí a eficácia do consentimento opera, desde que esse consentimento seja prévio, pois se posterior à lesão só é possível a renúncia à indenização. O consentimento, ato jurídico unilateral, opera como causa de exclusão do ilícito na conjugação dos seguintes requisitos: 1 Só pode consentir o titular do direito ou interesse afetado e que seja capaz, por exigir capacidade de exercício de direito; 2 Recai sobre direitos e interesses disponíveis; 3 A vontade deve ser real, por ato voluntário, não maculado por violência, erro essencial ou qualquer outro vício; 4 A manifestação pode ser expressa ou tácita. Cabem na órbita do consentimento expresso as práticas esportivas perigosas. E na presumida, as intervenções cirúrgicas urgentes quando o paciente não pode manifestar a sua vontade. O fundamento não repousa no fato de o lesado, consentindo, torna-se participe na causa do dano, e sim que a ingerência permitida de atos que interferem na sua esfera jurídica, mesmo causando dano, trata-se, a toda evidência, de uma interferência lícita.

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Vice-Presidente da República por duas vezes, José Alencar consentiu submeter-se, nos Estados Unidos, a tratamento experimental de combate ao câncer. Teve gastos com viagens internacionais entre outros. A terapia foi baldada. No entanto, seu consentimento operou como causa de irresponsabilidade, não lhe outorgando qualquer reembolso. Não se trata de obrigação de meio como é o caso da atividade médica, porque ninguém pode ser submetido a cobaia, sem prévio consentimento. 4.1.2.1 Consentimento nas atividades médicas O Estado reserva o monopólio profissional da medicina aos médicos, por tal razão reconhece e regulamenta, organiza e estimula, além de fiscalizar a profissão, impondo para o seu exercício condições de preparação técnica a nível universitário, ante a sua exigência de habilitação especial. Tem, pois, que admitir legítimos os atos que a sua prática regulamentar comporta, com os riscos a ela inerentes. Não comente ato ilícito o médico no exercício de seu ofício, ao contrário, a sua conduta é legítima, está escudada pelo exercício regular de um direito (exceto as hipóteses de irregularidades dolosas ou culposas), mesmo se não consegue a cura do paciente, porquanto a medicina é uma obrigação de meio, não de resultado. Se uma pessoa, em estado de inconsciência, necessita de urgente intervenção cirúrgica, é compatível com a teleologia e dogmática da gestão de negócios (CC, art. 861), que o parente mais próximo autorize. E quando impossível tal anuência, o que não coaduna com o espírito do exercício da medicina é deixar de proceder a intervenção, pois aqui se presume o consentimento do paciente. Deixá-lo à míngua de atendimento tipifica a omissão de socorro, que é ato ilícito. Uma situação hipotética clarifica a questão. Um casal sofre grave acidente e é levado à mesa de operação. Um cônjuge morre no transcurso da cirurgia e o sobrevivente necessita de imediato transplante de órgão. Nesta configuração especialíssima, ao médico impõe o dever funcional de agir sem prévia autorização. Caso a rigor a opção tivesse violado o direito dos familiares do consorte morto, é ela plenamente justificada, de sorte o transplante era o único meio de salvar a vida do outro.184

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MARMITT, Arnaldo. Perdas e danos, 2 ed. Rio de Janeiro: Aide, 1992, p. 417.

165 O médico exerce um direito que lhe é reconhecido pela sua formação profissional. A violação do direito alheio encontra conforto na inadiável e imperiosa necessidade de arredar o sobrevivente de perigo atual, isto é, o transplante opera como o meio mais provável de evitar a morte do paciente. Não sobrevém, contudo, a irresponsabilidade do médico que prática a eutanásia ou o chamado homicídio piedoso, mesmo se o doente nele tenha consentido, visto estar em um direito, o direito à vida, que é de si indisponível. De efeito, o direito à vida não importa protegê-lo só do ponto de vista individual, tem importância para a coletividade, por isso o desinteresse pela própria vida não a exclui da tutela estatal ante as exigências ético-sociais. 11.2.3.1 Consentimento nas práticas esportivas

No despertar do mês de maio de 1994, milhões de telespectadores do mundo inteiro assistiram a morte do carismático piloto de fórmula 1, Ayrton Senna, provocando comoção geral. Quase não se acreditava no que a televisão estampava, aconteceu aos olhos de todos, foi uma fatalidade como inúmeras outras precedentes nesta disputa de velocidade. Tal acontecimento refere-se às práticas esportivas, que traz, em algumas atividades, risco ou perigo para aqueles que a elas aderem. Nas práticas esportivas de atividades perigosas, como corrida automobilística, rodeio, páraquedismo, boxe, ou mesmo o futebol, o consentimento é expresso, pela simples participação dos atletas, excluído, é lógico, os casos de culpa e de inobservância das regras da competição ou jogo. Há efetiva formação e manifestação da vontade, ao invés do que sucede com o consentimento presumido, que é ficcionado em função das circunstâncias concretas e da vontade hipotética, no quadro de idênticas circunstâncias.185 Jorge Bustamante Alsina oferece esclarecedor texto: 313.2. Participação numa disputa perigosa. Por exemplo, se uma pessoa aceita acompanhar um automobilista numa disputa, ou toma parte numa luta de boxe, ou numa partida de futebol ou de rúgbi, e fica lesionada em consequência desta participação, tem direito a reclamar indenização mesmo havendo participado voluntariamente e desse modo assumido os riscos próprios dessa atividade? Pode-se entender que consentiu tacitamente em dispensar toda culpa alheia? Pode-se dar a resposta
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COSTA, Mário Júlio de Almeida. Direito das obrigações, 7 ed. Coimbra: Almedina, p. 502. Diferente o entendimento de Antunes Varela: “No caso de certas práticas esportivas mais violentas [...], tem-se entendido que há uma aceitação tácita e recíproca dos riscos de acidentes que esses jogos envolvem desde que sejam observadas as regras do jogo (ob. cit., p. 562).

166 distinguindo-se entre os riscos que são próprios da atividade da qual a vítima comparte, daqueles extraordinários, e que não fazem parte inerente à atividade de que se trata. 314. No primeiro caso poder-se-á dizer que a vítima aceitou tais riscos e que, portanto, nenhuma responsabilidade cabe ao outro: aquele suportará todo dano. Mais ainda, poder-se-á dizer que não cabe culpa nenhuma à vítima que participa duma competição mais ou menos perigosa, porém normal e regulamentada, nem do agente causador do dano que desenvolveu uma atividade normal dentro do risco próprio dela mesma. Outra será a solução se o risco foi extraordinário por ter o agente do dano excedido os limites estabelecidos pela regra do jogo. Neste caso, provada a culpa do agente, a vítima terá direito a ser indenizada. Não há responsabilidade do boxeador que lesa seu adversário com um golpe violento e decisivo, mas lícito segundo a respectiva regulamentação. Em contrapartida deverá responder se intencionalmente ou com reiterada torpeza, aplica golpes baixos, proibidos e causa uma lesão grave interna no seu rival.186 Realmente, em luta de boxe pela disputa do título mundial dos pesos pesados, Make Tayson enfrentou Evander Hollifilder, sendo que este impunha severo castigo àquele, com uma sucessão de golpes dentro das regras da luta (exercício de um direito). Numa atitude desesperada Tayson desferiu feroz mordida na orelha de Hollifilder, decepando-lhe uma parte (abuso de direito). Aqui exemplo didático do que pode e do que não pode segundo as regras da competição. 4.2.2.3 Princípio da razoabilidade No exercício regular de um direito reconhecido o princípio constitucional da razoabilidade invoca o princípio da socialidade, tão alentado por Miguel Reale ao lado dos princípios da eticidade e da operabilidade, que para ele constituem nos três princípios “fundantes do Código Civil.” Cumpre moderação no exercício do direito, lembrando a máxima de que o direito de cada um termina, onde começa o do outro. Há de se coadunar o interesse privado ao interesse público, de modo que a solidariedade social seja norte a orientar a conduta de todos indistintamente, jamais descurando dos direitos fundamentais tão caro ao Estado Democrático de Direito. A ideia de direito absoluto, egoísta por natureza, cede para o moderno princípio da função social, mais altruístico e mais afinado com as aspirações e necessidades impostas pelo tempo presente. O Estado passa a intervir diretamente nas relações intersubjetivas no resguardo do interesse coletivo. Ad exemplum, as obrigações negativas de não fazer classicamente impostas aos
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ALSINA, Jorge Bustamante. Teoria general de la responsabilidad civil, 2 ed. Buenos Ayres: Abeledo-Perrot, [s.d.], p.122-123.

José Jairo. Não poucos acham supérflua a sua inclusão. mas não se confundem. é revogável. é responsabilizado por sua omissão.2. de modo a não prejudicar o vizinho – ganha outros foros. ou a 187 188 GOMES. de sorte quem atua no exercício regular de um direito reconhecido pratica ato no estrito cumprimento do dever legal e. ambos promanam tanto da lei penal como da civil. outros civilistas propugnam pelo consentimento posterior. Coimbra: Almedina.4 Revogabilidade do consentimento O consentimento. administrativa. 2006. que se consubstancia na destinação adequada da propriedade aos fins sociais. pela boa-fé ou pelos bons costumes. Tomam-se os exemplos repetidos do soldado que mata em combate de guerra. COSTA. comercial.187 Via de consequência. do Código Civil. como acontece com a retroatividade do negócio jurídico. quem não cumpre o dever que a lei lhe impõe. Não poucos os seus pressupostos comuns. antecedendo o ato lesivo. no exercício regular de um direito é facultativa. De efeito. dá-se o ato ilícito conforme a regra do art. III. 84. p. à lei descabe punir aquele que cumpre dever por ela imposto. Tanto que a Constituição Federal chega a exigir da propriedade. inc. e assim a define. p. 23. tornando-a útil. tributária etc. ao seu lado o Estado impõe obrigações positivas de fazer. pois ao depois da prática deste. pois não mencionado no enunciado do art. Enquanto a conduta no cumprimento do dever legal é impositiva. ademais.188 Em doutrina. Não parece ser a melhor solução. III e 142. inc. o abuso de direito é instrumento de opressão nas mãos de seu titular. Direito das obrigações. apenas pode verificar-se a renúncia aos efeitos da ilicitude da lesão. que deve ser prévio à lesão. no sentido de sua função social (arts. produtiva. 5 Estrito cumprimento do dever legal O estrito cumprimento do dever legal é causa de irresponsabilidade de lege ferenda. 188. 4..2. divorciada do tempo e do espaço. 501.167 proprietários – como o uso nocivo da propriedade. . do Código Civil. O Código Penal faz sua previsão nos arts. 1998. 187. Direito civil: introdução e parte geral. Trai a sua teleologia e o seu anormal uso enseja a responsabilidade civil do agente. Porém a revogabilidade também deve ser prévia. Isto porque. Mário Júlio de Almeida. 7 ed. o que o torna categoria pura. Belo Horizonte: Del Rey. 182. § 2º e 186). se o direito for exercido de modo a exceder manifestamente os limites impostos pelo seu fim social ou econômico.

liberdade pessoal. Os funcionários e agentes públicos têm o dever de executar e de fazer executar a lei. Entendeu a direção da sociedade devesse excluí-lo do quadro societário.1 Atividades privada e pública Esta causa de irresponsabilidade. 189 NORONHA. denunciou a entidade pela prática de atos ilícitos. Um sócio. Seria ilógico. Pertinente a lição de Ferri. pelos quais o funcionário público abusa do seu poder. que o soldado e o funcionário do Estado respondessem pela indenização diante dos familiares dos mortos. por conseguinte. sem caráter criminoso. transcrita pelo penalista pátrio Edgar Magalhães Noronha: A execução da lei é uma necessidade imprescindível da organização jurídica. que o estrito cumprimento do dever legal é excludente de ilicitude. vida etc.) são secundum jus e. sendo que nos dois casos não cabe qualquer faculdade de escolha. Na esfera privada o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo julgou interessante caso. 17 ed. porquanto quem assim atua não lhe pode ser imputada culpa. por meio de petição dirigida às autoridades competentes. Apresenta-se sob duplo aspecto: 1) atos executados no cumprimento de um dever decorrente de função pública. vol.189 Conclui-se. p. 1. 5. cabe tanto na atividade pública como na privada. a menos que não ultrapassem em excessos. nos casos previstos em lei – muito embora danificando ou suprimindo interesses e direitos individuais (propriedade. Pelo que. usando das faculdades a eles reconhecidas pela própria lei. determinados pelos motivos anti-sociais. depois de se demitir do cargo de direção de uma sociedade civil. que se distingue das outras normas reguladoras da conduta social. 1979. o comando da lei é injunção da qual o soldado e o agente público não podem escusar-se. . Direito Penal.168 aplicação da injeção letal ao condenado. precisamente pela coerção física das suas sanções pessoais ou patrimoniais. sob a alegação de ter promovido o descrédito da instituição perante os órgãos públicos com os quais possuía convênios. 211. São Paulo: Saraiva. portanto. que elimina a culpa. os atos por eles realizados no cumprimento deste dever – mesmo com o uso de armas. 2) atos executados no cumprimento de um dever imposto a particulares.

Não é. daí sua denúncia foi em benefício dos sócios em geral e da própria sociedade. diz respeito às autoridades e seus agentes que praticam ações na execução de suas atribuições.169 O Colendo Colegiado paulista entendeu que o sócio denunciante exerceu direito de petição constitucionalmente assegurado (art. j. Civil. . . RT 626/81). rel. 153. Carlos Ortiz. 153. circulam pelas vias públicas. da CF [atual art. p. a sua punição constituiu em abuso de direitos. 5º. inc. De fato. 12º Câm. in fine [atual art. Mesmo que causem danos a direitos ou interesses alheios. I) do CC e aplicação do art. 5º. Tão-só essa circunstância já afasta a alegação de velocidade incompatível. 138). tendo por finalidade promover a defesa de um direito próprio ou de interesse coletivo (in Pinto Ferreira. que são distintos e ambos eram previstas na CF revogada. porém. São Paulo: Saraiva.. § 3º. Tal circunstância exigia velocidade mais enérgica. seria. É estrito cumprimento do dever legal a denúncia da irregularidade e não exercício regular de um direito. Era ela perfeitamente compatível com a realidade do que ocorria (1º TACSP. 160. Comentários à Constituição brasileira. decorrentes dos direitos inerentes aos seus cargos. distinguem-se os dois conceitos. no Direito Público. Des. Direito de representação é o instrumento pelo qual se manifesta o protesto contra abusos praticados por autoridades. na da pública. a trabalho ou a passeio. em que o associado agiu no exercício do direito de petição e representação. Portanto. competente para apreciar a legalidade do ato – Imposição com base no estatuto social sob alegação de promoção do descrédito da instituição junto às entidades com as quais mantém convênios – Hipótese. faculdade. como parte da sociedade infratora. assegurado constitucionalmente. Se na parma do direito privado a atuação do cumprimento do estrito dever legal refere-se à pessoa natural ou jurídica de direito privado. § 3º. 5ª 190 O atual art. é evidente que não poderia seu motorista conduzir a viatura. de modo geral. Ainda que verídicas as assertivas no sentido de que a radiopatrulha dirigiase a um determinado local para ajudar no cerco a bandidos que fugiam a pé. requerendo a sua punição. cúmplice. mas dever jurídico imposto. pois. XXXIV. 1º vol. 188. em diligência oficial. 188. atual art. pela linha de trem. Eis a ementa do acórdão: Sociedade civil – Exclusão de sócio – Abuso de direito no exercício do poder disciplinar reconhecido pelo Poder Judiciário. O direito de petição é o pedido junto à autoridade competente. confundindo os conceitos de petição e representação. 1989. porquanto se assim não agisse. em velocidade que pudesse ser comparada àqueles outros que. fala apenas em direito de petição. I] (TJSP.190 certo que as irregularidades por ele apontadas efetivamente existiram. ficam dispensados de repará-los. XXXIV). denunciando fatos verídicos consistentes em irregularidades praticadas em detrimento da coletividade – Reintegração determinada – Inteligência do art. I. no mínimo.

rel. é evidente que não poderia seu motorista conduzir a viatura. deve conter-se dentro dos limites da razoabilidade.170 Câm. em diligência oficial. também aqui. a trabalho ou a passeio. que quem atua no estrito cumprimento do dever legal. art. § 6º. p. 189). Juiz Pinheiro Franco.2 Princípio da razoabilidade Convém atentar. pela linha de trem. 5ª Câm. em velocidade que pudesse ser comparada àqueles outros que. Tão-só essa circunstância já afasta a alegação de velocidade incompatível.1989. in Rui Stoco. Se exceder e causa um mal injusto porque desnecessário. Ainda que verídicas as assertivas no sentido de que a radiopatrulha dirigiase a um determinado local para ajudar no cerco a bandidos que fugiam a pé. não padece do direito de se ver indenizada. A vítima inocente do dano. ou seja. então. Tratado de responsabilidade civil. entretanto. a socialização do prejuízo. objetivamente. que responde pelos danos causados pelos seus agentes independentemente de culpa. in Rui Stoco. pois o art. por sua vez. permite-lhe pleitear o ressarcimento do Estado. 189). Pai dos autores morto a tiros por policiais militares – Reação à prisão – Irrelevância dos policiais não saberem da prisão preventiva decretada contra a vítima – Conduta suspeita da mesma que provocou a atuação da polícia – Exercício regular de direito e estrito cumprimento do dever legal – Improcedência da pretensão indenizatória (PJPR. Não cabe ao Estado. cujo correspondente é o art.. 2007.2 Poder familiar. a presente causa de exculpação opera de pleno direito como excludente do dever de indenizar. Tal circunstância exigia velocidade mais enérgica. pelo menos na parte que . Dá-se. j. Outras vezes. 5. do Código Civil. JB 170/172). 37. tutela e curatela 5. 187).. rel. p. 7 ed. assim porque pela regra dos artigos em questão. Afasta-se da excludente e incide no dever de indenizar. o que não acontece nesse caso específico.. o direito de regresso. 7 ed. o que implica em isentar-se do abuso de direito (CC.1.. 5. 43. Juiz Pinheiro Franco. o direito de regresso opera somente quando os agentes atuarem por dolo ou culpa. circulam pelas vias públicas.1. 5. 2007. Tratado de responsabilidade civil. nivela o seu comportamento ao ato ilícito. uma vez que não pode imputar culpa aos seus agentes. Era ela perfeitamente compatível com a realidade do que ocorria (1º TACSP. j.1989.

se chamado em juízo para depor. . estadual ou municipal – em que o superior emite uma ordem ao subalterno. 5.3 Convivência com outras causas excludentes de responsabilidade Uma vez ou outra. Na hipótese de um policial militar lesionar aquele que é pego em flagrante delito. contudo justo.] se tiver mais de um autor a ofensa. todos responderão solidariamente pela reparação” (CC. juntamente com o superior: “[. Quando a ordem é legal não há repercussão. Outra vez a prisão em flagrante serve de exemplo: o oficial de justiça. Pode acontecer que. como acontece com a legítima defesa. Pode ainda essa diligente conviver com o exercício regular de um direito reconhecido. art. prendendo alguém. Se processado pelo delito de desobediência. deve indenizar em caso de dano à vítima. responderá pelo prejuízo a que der causa ausente qualquer responsabilidade ao superior hierárquico. 942.171 excedeu. ao subordinado impende recusar a obediência. invocará a excludente de responsabilidade em exame: estrito cumprimento do dever legal. Assim o advogado que tem o dever legal de guardar segredo profissional. executa a ordem legal.. em cumprimento a mandado de prisão expedido pelo juiz. como para repelir a resistência extravasada em injusta agressão. o exercício regular de um direito e o estado de necessidade. o subordinado exceda-se. 5. convivem em uma mesma conduta duas causas escusativas de responsabilidade: a legítima defesa e o estrito cumprimento do dever legal. não apenas para efetivar um mandado de prisão. mas distingue o estrito cumprimento do dever legal da obediência legal à ordem de superior hierárquico e de autoridade legítima. no sentido de realizar uma conduta positiva (facere) ou uma conduta negativa (non facere). in fine). legitimamente..4 Figuras correlatas: obediência legal à ordem de superior hierárquico e à ordem de autoridade legítima O direito não fica indiferente. desde que milita. O ato é lícito tanto do juiz como do oficial de justiça. que responde apenas pela ordem. A primeira envolve servidores de uma das três esferas dos entes estatais – federal. sobre fato abrangido pelo seu dever de segredo. Se ascender comete ilícito civil. Em sendo manifestamente ilegal a ordem. ponderando respeitosamente suas razões e não poderá ser punido. terá que se negar. portanto lhe causando um dano. na execução da ordem. na presunção de que ela será executada conforme a lei.

37. reconhecendo o estrito cumprimento do dever legal – Circunstância que repercute na área cível. timbrado pelo estado de necessidade. Uma situação hipotética pode ser proposta no caso do corpo de bombeiro. A expressão autoridade legítima pressupõe servidor público. que não seja superior hierárquico. nem sequer. Mesmo assim enseja indenização. diante de um incêndio. o ente público responderá solidariamente por força da disposição constitucional contida no art. e sempre com direito de regresso em desfavor de seu servidor.172 Em ambas as hipóteses de ressarcimento. cuja ordenação dá-se no exercício de sua atividade pública. VER RT 783/266. JB 170/233). excluindo o ilícito e a possibilidade indenizatória – Improcedência (TJSP. Não caberá os civis que atenderam a ordem de demolição do prédio vizinho. mas sim o Estado que. ou apenas endereçada a particular. determinar a terceiros civis a demolição de casa vicinal ao fogo. uma vez que se está perante a inexigibilidade de outra conduta. 4 Fato da vítima Causas excludentes da responsabilidade civil objetiva . O ato é lícito. § 6º. terá direito de regresso contra o corpo de bombeiro. 3 Fato de terceiro. por ser este o único meio de evitar uma tragédia de maiores proporções. com o fito de impedir a sua propagação. pois este atuou com culpa. 652/262 CAPÍTULO V 1 Causas excludentes da responsabilidade civil objetiva : 2 Caso fortuito ou força maior. Jurisprudência Vítima morta a tiros por policiais militares – Absolvição dos agentes na esfera penal. ou a quem não é subordinado. Certos danos podem surgir por ordem de autoridade legítima. 678/348.

A inevitabilidade é a impossibilidade de o devedor impedir que o . É o parágrafo único. tonando-a impossível. São chamadas eximentes gerais o caso fortuito ou força maior. as doenças. por obra humana ou da própria natureza. Estão sob seu manto apenas os acontecimentos decorrentes de causas insuperáveis. que repercute diretamente sobre o liame de causa e efeito. porque não há como evitar ou impedir. é dizer. pessoa ou coisa sob a sua guarda. também operam na subjetiva. eram o caso fortuito e a força maior e as vítimas padeciam os danos advindos. tais causas porque cindem sobre o nexo de causalidade. o homem não é mais resignado. a causa eficiente do dano não é a sua atividade.” A necessidade caracteriza-se pela capacidade do evento causar o dano. sem culpa do devedor. o que escapa ao seu poder. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. Os tempos são outros. A subsunção de situações ao caso fortuito e a força maior reduziu consideravelmente. Os prejuízos decorrentes de causas até então desconhecidas eram atribuídas ao damnum fatale dos romanos. O avanço tecnológico passou a desvendar as causas de muitos eventos. dentre outros acontecimentos.173 As causas de irresponsabilidade vistas até aqui ilidem a ilicitude do ato praticado pelo agente causador do dano. Dá-se o dano por um fato ou ato alheio e exterior. atribuindo parte deles a um agente. 393: “O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. o fato de terceiro e o fato da vítima. mas de uma causa estranha. pois a ilicitude da conduta não é pressuposto dessa espécie de responsabilidade civil. Diante dessas eximentes o dano decorre não da conduta do indigitado agente. 2 O caso fortuito ou a força maior Em um tempo passado. que é pressuposto das duas espécies de responsabilidade civil. afastando o ressarcimento. o homem era resignado. De efeito. sem que o devedor tenha contribuído para isso. por isso dizem respeito diretamente à responsabilidade civil subjetiva. tanto natural como voluntário. porquanto surge como consequência do que vai além de suas forças. guerras e revoluções. do art. o act of Good do direito anglo-saxonico. Já as causas de irresponsabilidade na seara da responsabilidade civil objetiva atuam no nexo causal entre a conduta e o dano. Causas que impossibilitam o cumprimento da prestação. As tempestades. o que possibilitou de melhor forma a reparação dos danos. greves e distúrbios populares. objetivamente responsável. as inundações. os incêndios.

como o furto ou o roubo que desapossa o devedor da coisa objeto da tradição. 143. dans des conditions qui ne pouvaient être prévues par les parties. « . um obstáculo. p. n. que se aproxima da concatenada pelo francês Thépphile Huc. que a boa vontade do devedor não pode vencer. à l’exécution de l’oligation un obstacle que la bonne volonté du débiteur n’a pu surmonter. sinaliza que o devedor não responde pelos prejuízos resultantes do caso fortuito ou de força maior. a greve que retarda a entrega do bem prometido. Paris : Librairie Cotillon. Portanto. que vem a ser a irresistibilidade do evento. e a força maior como “o fato de terceiro. enquanto a força maior 191 HUC. casual. observa-se a distinção que qualifica o caso fortuito como o acontecimento natural. inesperado. 1894. do Código Civil. vis major. passa a ser irresistível.174 evento seja a causa do dano. c’est le fait d’un tiers. pela conjugação da necessidade e da inevitabilidade o evento estranho à conduta do devedor. como fato do príncipe. inevitabilidade relativa. caso fortuito e de força maior são distintos. La force majeure. afastando-o da conduta do devedor. assim o raio que cai e produz incêndio. se foi um evento estranho que causou o dano. que decorre tanto de serem previstos em conjunto. a seca que devassa plantação. vol. pois conceitua o caso fortuito como “o fato de força física ininteligível. que causa o dano. A doutrina. não essencialmente imprevisível. ao atribuir-lhes um único efeito jurídico. a desapropriação. VII. 2. Thépphile. não pode ser resistida pelo particular. Dessemelhança meramente acadêmica. o tempo e o lugar em que as consequências se dão. muito tem debatido a sinonímia. A palavra fortuito significa imprevisto. adotando a correspondência dos dois termos. o nexo de causa e efeito não pode ser imputado à conduta do devedor. . o caso fortuito e de força maior relaciona-se ao nexo de causalidade. qui a créé. Ora. vis major. entretanto. Em pura doutrina. Commentaire théorique et pratique du Code Civil. Vale dizer. Na força maior entra na composição do acontecimento o fato humano. em condições que não podiam ser previstas pelas partes”. 201: « Le cas fortuit c’est le fait d’un force physique inintelligent. que criou para a inexecução da obrigação. advindo da força da natureza ou do fato das coisas. outro a rechaçar a sinonímia. devendo ser apreciadas as condições do devedor.1 Sinonímia entre caso fortuito e de força maior A cabeça do art. pondera o português Cunha Gonçalves. 393. como do caráter comum de ambos.”191 Ontologicamente. o temporal que tudo inunda. de nenhum efeito prático.

um cabo elétrico aéreo que rompe e cai sobre coisas causando incêndio.175 não é fortuita. as ordens da autoridade. os fenômenos naturais como o raio. Cunha. De acordo com tal distinção.2 Elementos objetivo e subjetivo Na prestigiosa doutrina de Arnoldo Medeiros da Fonseca a noção de caso fortuito e de força maior decorre de dois elementos: o objetivo e o subjetivo. O primeiro corresponde ao caso fortuito. e caso fortuito para quem não o possui. São seus exemplos a explosão de uma caldeira de usina.. uma revolução. pois é o fato estranho ao agente ou à sua empresa. p. ao passo que o caso de força maior é o fato previsto ou previsível. Explica com duas passagens: uma tempestade é força maior para quem possui um barômetro. cit. eminentes civilistas procuram a distinção entre o que chamam de fortuito interno e de fortuito externo. o motim popular como o denominado “arrastão” etc. Daí insiste na clássica distinção: caso fortuito é todo fato imprevisto ou imprevisível e superior às forças humanas. Assim. cujos riscos não são suportados por ele ou sua empresa. à força maior. afasta a culpa. porque pode ser prevista. 728-729. normalmente imprevisível. Adota-se um critério misto e alerta: 192 GONÇALVES. É dirimente apenas da responsabilidade civil subjetiva. é força maior. a quebra de peças de uma máquina devidamente revisada. 2. uma revolução. anunciada na mídia. o chamado fato do príncipe (fait du Prince). São seus exemplos o fato exclusivo da vítima. o fortuito interno. Já o fortuito externo não guarda esse nexo de causalidade. o segundo. e igualmente superior às forças humanas. É dirimente da responsabilidade civil subjetiva e objetiva. Op. já o fortuito externo consiste no fato estranho inevitável não relacionado ao agente ou à sua empresa. a greve não anunciada. por estar ligado à própria atividade do agente. insere-se entre os riscos que ele deve responder. que está intrinsecamente relacionado ao próprio agente ou à sua empresa. gerando situações potencialmente danosas à coletividade. a tempestade etc. que se sabe estar na forja.192 Modernamente a doutrina alcandora a distinção que enseja efeitos práticos. . O primeiro tem como caráter a inevitabilidade do evento. e o segundo a ausência de culpa na produção do acidente. O fortuito interno consiste no fato estranho inevitável.

p. que é pressuposto comum tanto da responsabilidade objetivo como da subjetiva. para serem consideradas causas gerais de irresponsabilidade o caso fortuito e de força maior devem interromper o nexo de causalidade. de responsabilidade. Não basta a ausência de culpa. em última análise. ao mesmo passo que a ausência de culpa não satisfaz como critério capaz de caracterizar essas causas de isenção.193 Não destoa Maria Helena Diniz. Da responsabilidade civil. amanhã deixará de sê-lo. ou não. Arnoldo da Fonseca. São Paulo: Saraiva. 195 DIAS. a ausência de culpa distingue-se do caso fortuito ou de força maior. José de Aguiar. Rio de Janeiro: Forense. a priori. ser sempre considerados casos fortuitos. e isentará. Caso fortuito e teoria da imprevisão. que só pressupõe esta última espécie. . conforme se possa. a supressão da reação de causalidade. Desaparecido o nexo causal. lugar não sobra para a dirimente em consideração. pode ser simplificado ainda mais radicalmente: o que anima as causas de isenção no seu papel de dirimente é. ou não. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial. p. Com efeito. Em termos mais precisos. mesmo na simples desatenção até na negligência ou imprudência. ao ponderar que em um e no outro há sempre um acidente que produz o dano e ambos se caracterizam pela presença de dois requisitos: o objetivo que é a inevitabilidade ou a irresistibilidade do evento e o subjetivo que é a ausência de culpa na produção do acontecimento. ou não. 23 ed. em virtude do progresso da ciência ou da maior providência humana.] um fato poderá. ser classificado como de força maior. p.116-117. pelo pressuposto da inevitabilidade e da ausência de culpa do agente. volume 7: responsabilidade civil. a ausência de culpa – que é gênero – integra o elemento subjetivo do caso 193 FONSECA.3 Ausência de culpa Evidente.. O que é hoje caso fortuito. 194 DINIZ. 10 ed.176 Não há acontecimentos que possam. 1943. 111-112. a ausência de culpa compõe o conceito de caso fortuito ou de força maior.195 De fato. Isso para nós. em face do critério misto de Arnoldo Medeiros. 687. uma vez que onde a culpa manifesta-se sob alguma forma. Maria Helena. Curso de direito civil.. não é mais possível falar em obrigação de reparar. Esta noção atende melhor ao que se procura expressar com a noção de caso fortuito ou de força maior e prova. tudo depende das condições de fato em que se verifique o evento.194 Completa a lição Aguiar Dias: [. 2009. 2. 1995.

pode ele arguir o fortuito externo. Se o vendedor for acionado em juízo. Se acionado em juízo. Pois bem. Passagem esclarecedora é colhida na leitura de Valdeci Mendes de Oliveira: João vende determinado equipamento. Na data aprazada o vendedor não entregou a coisa. O vendedor. inteirou-se por telefone. Imagina-se a celebração de contrato de compra e venda (dar de coisa certa). mas o adquirente foi quem incidiu em falta – justificável ou não – que impossibilitou o cumprimento da obrigação.177 fortuito e de força maior – que são espécies. Porém. que o comprador havia se ausentado inesperadamente. Não houve entrega. que não pode ser imputado a ele. natural ou não) que impedisse o cumprimento da obrigação. procurou cumprir a sua prestação. ou então. Logo. basta. Nota-se: para o vendedor inexistiu caso fortuito ou força maior (um acontecimento inevitável. motivada num grave acidente sofrido pelo filho. . O vendeu foi cauteloso. diligente. ou obteve previamente informações da falta do comprador ou do preparo do local para recebimento do equipamento. Logo. por inadimplemento contratual. tomando o cuidado objetiva. no exemplo. um fato estranho inevitável. Mas o gênero – ausência de culpa – poderá ocorrer sem a espécie. demonstrando que foi diligente e pontual. Todavia. de sorte que. não estar presente para receber a prestação. como causa autônoma de irresponsabilidade. poderá articular em defesa a ausência de culpa. Estipulou-se no contrato o dia “D” para a efetiva entrega. não houve a entrega porque o comprador não se encontrava no lugar combinado para recebimento. foi ao local designado pelo adquirente. mas o vendedor foi diligente e pontual. A espécie – caso fortuito ou de força maior – não ocorre sem o gênero: ausência de culpa. Em seu favor não há qualquer fato estranho natural ou não inevitável. no exemplo dado. a ausência de culpa é uma excludente autônoma de responsabilidade contratual. por si só. Nesse dia o adquirente esqueceu de preparar o local adequado para recebimento do equipamento. irresistível. ele não obrou com culpa ao não fazer a entrega do equipamento. viajou e não deixou pessoa encarregada para o recebimento (um filho do adquirente foi hospitalizado em virtude de grave acidente). por motivos justificados. por descumprimento do contrato. poderá ele provar ausência de culpa. pois seu filho sofreu acidente e estava sendo atendido em hospital. que precisa permanecer ou ser instalado em lugar apropriado. Pode não ter existido culpa do contratante-adquirente. Pouco importa. com entrega acordada no futuro. que o adquirente demonstre justa causa para a sua viagem. É sabido que o credor cai em mora independentemente de culpa.

Se o evento for possível resistir ou evitar não se caracteriza como caso fortuito ou de força maior. o esvaziamento foi tão rápido que o réu. na hipótese.196 Exemplo repisado é o da forte chuva que a tudo inunda. Do corpo do acórdão extrai-se o seguinte trecho: Já se decidiu que o estouro do pneu pode caracterizar a culpa civil. Mas o morador ribeirinho não poderá conjugar condições de evitar os seus efeitos. Os defeitos mecânicos nos veículos servem de observação.4 Irresistibilidade ou inevitabilidade do evento Na cômoda companhia de Caio Mário importa esclarecer que a imprevisibilidade não é requisito necessário do caso fortuito e de força maior. Caio Mário da Silva. em seu depoimento pessoal. Nos acidentes de trânsito as alegadas falhas mecânicas. no caso. que bem assina duas circunstâncias dessemelhantes entre si: Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Evento conseqüente de estouro de pneu. 2. os pneus estavam em bom estado de conservação. 1991. fala em 196 PEREIRA. Responsabilidade civil. Paradigmático o acórdão proferido pelo extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. p. . podem constituir ou não caso fortuito ou de força maior. assim. Um acontecimento pode ser previsível. Na espécie sub judice. pois o evento. dispara como força indomável e irresistível. Rio de Janeiro: Forense. o requisito necessário é a irresistibilidade ou inevitabilidade: algo que não se possa vencer. especialmente quanto a este. entretanto o agente do dano não ter como resistir os seus efeitos. que estava em bom estado de conservação – Hipótese de caso fortuito – Indenizatória improcedente. 457/72). ainda que previsível. até rescindir ou resolver o contrato. ainda que absolvido o motorista na esfera penal. Fato previsível. Entretanto. Entretanto. de conformidade com a autonomia privada. Não é.178 As partes podem. mas não haverá de parte a parte indenização por perdas e danos. cumprindo verificar as circunstâncias de cada caso. É verdade que estouro de pneu não se confunde com simples furo de pneu. a imprevisibilidade que caracteriza essa dirimente. reconheceu-se que os pneus estavam precariamente conservados (Revista dos Tribunais. diversamente. vol. 324. verificadas nos veículos neles envolvidos.

cuida-se enfocar situações comuns de incidência dessa causa de irresponsabilidade. pois ninguém se acautela contra o imprevisível. portanto. é de caso fortuito e a improcedência foi bem decretada (TACSP. pois só assim poderá afirmar a sua inevitabilidade..]. mas entendida esta expressão em termos. Dever-se-á considerar apenas os elementos exteriores ao obrigado e ao seu raio de atividade econômica.] teve a impressão de “que havia estourado um dos pneus”. sendo assim a inevitabilidade a condição objetiva fundamental exigida para caracterização do caso fortuito.. objetivo. a própria irresistibilidade do evento é que o torna inevitável. tendo em vista a possível conduta de outros indivíduos.179 pneu estourado [. verificadas em veículos motorizados” (RF 161/249). em relação a qualquer homem prudente. . tendo em vista o objeto da prestação. pela natureza dos fatos. pois. será a razão determinante de sua inevitabilidade. tais como a quebra ou ruptura de peças. uma impossibilidade de evitar objetiva ou absoluta.2. p. mas não inteiramente abstrato. Prossegue o mesmo civilista: “Desse requisito decorre naturalmente que só pode constituir caso fortuito um fato cuja origem seja conhecida. lugar e meio. o modo súbito e inesperado pelo qual se verifique. rel. Neste ínterim. 24. 1943.” Em seguida conclui: Às vezes. como impossibilidade que ocorreria. assim. Mas haverá sempre impossibilidade de impedi-lo. qualquer falha mecânica não é suficiente. e a testemunha [. O caso. 8ª Câm. O critério de apreciação permanece.1981. que a inevitabilidade deve ser tomada dentro das circunstâncias gerais em que haja ocorrido o evento. Arnoldo Medeiros da.197 De maneira. se deixa de conjugar os requisitos descritos: “Como casos fortuitos ou força maior não podem ser consideradas quaisquer anormalidades mecânicas. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial. de modo que a ninguém fosse possível precaver-se ou resistir quanto ao ocorrido. Verifica-se. a imprevisibilidade do acontecimento. Caso fortuito e teoria da imprevisão. 145.. pois. 197 FONSECA. em idênticas circunstâncias de tempo. Juiz Pereira da Silva).. j. É a visão de Arnoldo Medeiros da Fonseca: Exigir-se-á. em condições objetivas análogas. Outras vezes..

mormente à classe hipossuficiente. quando particulares reclamam indenização pelos prejuízos sofridos em razão de enchentes. Diferente o trato jurisprudencial no que tange a morte produzida por raio. Há mais de cinco lustros. RT 564/73). Mas esses fenômenos permitem. . imputável aquém quer que seja (TJSP. Entretanto. As fortes chuvas aparecem muito na defesa do Poder Público. bastas vezes. assim não conclui o acórdão. Em pura doutrina. estadual e federal – descuidam das obras preventivas que poderiam evitar danos e tragédias. e entendeu que o fato da natureza (fortuito externo) foi decisivo na eclosão do dano. são as empresas privadas que se justificam pelo descumprimento de contratos Interessante a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Como os danos provocados resultaram não só da violência das chuvas mas. que as administrações nas três esferas – municipal. com o mesmo embasamento. Sydney Sanches. A conduta oficial. todavia. também. a empresa só deve ser condenada a pagar a metade da indenização devida.2 Fenômeno da natureza Frequente a arguição dos fenômenos naturais como fundamento do fortuitus ou da vis major. Des. prevê-los e preveni-los na adoção na adoção de medidas acautelatórias dentro das possibilidades humanas.180 1. fixando o quantum debeatur pela metade. Reconheceu a culpa dos prepostos da CESP. que não deram ao problema do excesso de afluxo de águas às barragens da Usina de Barra Bonita o tratamento técnico compatível com as circunstâncias do momento. para arredar a responsabilidade civil do causador do dano. de culpa dos prepostos da CESP. rel. não condiz com as causas de irresponsabilidade ora estudas. pelo menos. julgados condenam o Poder Público pela falta do serviço ante a omissão em providências contra danos produzidos pelas fortes chuvas. É comum verificar. Outras vezes. pois sua culpa concorreu com fato da natureza. a culpa do agente causador do dano afasta a dirimente do caso fortuito ou da força maior. como visto.

como por não cumprir uma convenção trabalhista e acontece apenas na sua empresa. Será fortuito se a greve eclode em toda categoria. Não será se por culpa do empregador. Aliás.5 Greve O movimento grevista pode. que lhe prejudique a voz. Caso típico de um cantor contratado para uma apresentação se lhe sobrevier uma faringite. com a desapropriação. ou limita construções em áreas do perímetro urbano. RT 431/174 Ao contrário. sobretudo quando se trata de uma obrigação de fazer intuito persona. Tais proibições para eclodir em caso fortuito ou de força maior terão. por si só. Por si mesma não caracteriza.181 1. se é um cardíaco. excluindo a responsabilidade. o denominado fato do príncipe. que repercute em autentica impossibilidade de execução da obrigação. que perseverar durante todo prazo de que o devedor dispõe para cumprimento da prestação obrigacional. 1. pois ele mesmo dá motivo ao movimento. levando-o a perder o controle do veículo. constituir-se em dirimente. ou não. quando acomete motorista de saúde hígida. necessariamente. se não reúne os pressupostos do fortuito. pois o fato de dirigir veículo nesse estado de saúde é. imprudência. Equipara-se ao caso fortuito. já não configura.6 Extinção do objeto mediato da prestação . como sucede.4 Enfermidade do devedor Pode surgir como caso fortuito ou de força maior a doença do solvens. 1. verbia gratia. 1. muito se debate sobre o mal súbito. que exige cuidados incompatíveis com a obrigação. que reivindica melhores condições de trabalho. ou mesmo a edição de lei nova que impeça a comercialização de determinado produto.3 Ato da autoridade pública Toda medida ou ato da Administração Pública.

com efeitos distintos. É a teoria do risco integral. 1ª parte e 235). Por isso o casus não milita em prol do agente causador do dano. E o autor conclui: a empresa que explora a atividade extrativa terá responsabilidade civil no âmbito ambiental. p. 234. dentro dos mais rígidos padrões ambientais e de segurança traçados pelos órgãos competentes. resolve-se. . 23-24. seja pela exagerada ganância de lucro – como soe acontecer – seja por outro motivo qualquer. fato estranho à empresa exploradora das atividades de extração. 1. um explorado como pedreira. pois se trata de responsabilidade civil objetiva. ter tratamento assemelhado. simplesmente. art. fortuito interno. O outro continua no estado de preservação natural. sob pena de ressarcimento se assim não o fizer. ante a relevância da matéria em que a natureza recebe agressões gratuitas. 198 SOUZA. arts. Se a coisa pertence a gênero ilimitado o devedor deverá buscá-la onde ela exista e adimplir a prestação (CC. mas os fatos naturais não podem e não devem. Em pura doutrina é caso de exclusão de responsabilidade. em que não incide nenhuma causa de irresponsabilidade. sem qualquer forma de exploração. segundo a doutrina e a jurisprudência dominantes. causando danos ambientais. resolve-se a obrigação e não cabe indenização (CC. Trata-se de fortuito externo. 246). Dá-se a força maior. porque inexplorado. Caem dois raios. oleoduto e similares. São Paulo: CPC. 1998. o proprietário do outro morro. que se perde ou deteriora pela incidência de circunstância irresistível e sem culpa o devedor. a obrigação. dessa forma a colheita de café da Fazenda Santana cuja safra foi perdida na totalidade por prolongada seca. Na obrigação de dar coisa incerta abre-se um leque. liberando-se o devedor de qualquer ressarcimento.198 A matéria não deixa de ser controvertida. Mautari Ciocchetti de Souza concebeu a hipótese de dois morros. do consumidor. Motauri Ciocchetti. no caso determinada obra de famoso escultor.7 Em sentido ambiental A culpa não é pressuposto da responsabilidade civil quando no pálio do direito ambiental. evento da natureza como causa. assim reator de usina nuclear são atividades inerentes à empresa. probidade administrativa e do patrimônio cultural. Se. Princípios de direito ambiental. não cabe contestar que se colocam no raio do risco integral. a coisa pertence a gênero limitado. por justiça e equidade. porém. A exploração de gasoduto.182 Na obrigação de dar coisa certa. um em cada morro.

tão exigente quanto ao privado. mantendo viveiros para tanto. em matéria do meio ambiente a solução mais justa é admitir as excludentes em apreço. mas relegam ao absoluto desprezo as medidas de implantação. Assim. pode assumir a responsabilidade por caso fortuito ou de força maior. p. Isto é. Sem contar que seus técnicos consideram com maior ênfase a flora. o bom senso indicam a senda que o Direito deve seguir. 2. escudado em lição de Giorgi. denunciava na vetusta Antiguidade Aristóteles. além de aproveitarem as margens das estradas e os trevos para arborização. Digno de nota são os municípios que.199 Outra exceção é prevista no art. invadidos pelo mato. não fica ele afastado da responsabilização. 393. A legislação obriga os Estados a fornecerem mudas. a prudência. O Estado. consoante sinaliza João Franzen de Lima. por um de seus poderes. Não diferentes os governos estadual e federal que poderiam recuperar as reservas florestais em suas não poucas propriedades rústicas. preveja a exclusão convencional do caso fortuito ou de força maior. frágil na sua política ambiental. devem reservar certo percentual de áreas verdes. se o devedor expressamente responsabilizar-se por eles. não se arredando dos seus princípios e valores fundamentais. 1961. Os extremos. do Código Civil. preceito herdado da sabedoria romana. quando o fato estranho constitui o fortuito externo. 335. são incompatíveis com a Justiça. Rio de Janeiro – São Paulo: Forense. João Franzen de. A moderação. . Concluindo. ao tratar da responsabilidade do devedor moroso. não admiti-las se o fato estranho é um fortuito interno. mas pouco se importam com a fauna.183 Vive-se tempo de graves ultrajes ao meio ambiente. para urbanizá-las em jardins e praças.10 Exclusão convencional O art. o que denuncia a invasão dos pássaros no perímetro urbano. Curso de direito civil brasileiro. em uma demonstração inequívoca que sabem muito exigir e nada cumprir da parte que lhe toca na empreitada de recuperação ambiental. o que ocorre minimamente. parágrafo único. por cláusula expressa. por lei. mas não um estado de fobismo. 399. se o fortuitus ou a vis major suceder durante o atraso do devedor no cumprimento da obrigação. o devedor. do mesmo diploma legal. ficando esses locais relegados ao abandono. urge uma política de efetiva proteção. Lógico o 199 LIMA.

mais do que no acontecimento. em velocidade imoderada. como sucede nos casos elencados no art. e terceiro veículo. causa-lhe diretamente o dano. pois o fato não apresenta um dos requisitos da responsabilidade civil. por isso. para que ocorresse a perda da coisa devida. Não é caso de indenização. podendo importar em causa de responsabilidade e de irresponsabilidade. então a responsabilidade seria eliminada. Aqui a verdadeira causa é a culpa do devedor consistente na mora. na hipótese. por sua vez. opera-se um acréscimo. Os autores são unânimes em afirmar que o fato de terceiro constitui-se em questão tormentosa. o dano teria de qualquer forma sobrevindo à coisa.184 dispositivo. Washington de Barros Monteiro. pelo contrário. nem nada aconteceria à coisa devida. tanto que dá azo a uma justificativa. o nexo de causalidade entre a conduta culposa e o dano. outro que o segue logo após também para. Suponha-se que um veículo pare diante do sinal vermelho. O motorista do segundo veículo foi mero instrumento arremessado contra o outro. com todos os móveis e utensílios. verdadeiro fortuito externo. nada acontecendo à casa do credor. 2 Fato de terceiro De plano adverte-se. teria resguardado a coisa da incidência do acontecimento danoso. o fato de terceiro não é de se confundir com a responsabilidade de terceiro. mas o responsável pelo acidente foi o terceiro que não parou diante do comando semafórico que assim determinava. repete Van Wetter que. são repetidos por Maria Helena Diniz no seguinte hipótese: se o objeto da prestação perde-se porque um raio destrói a casa do devedor. Se. se tivesse sido entregue no prazo. pois se o devedor tivesse cumprido a obrigação no tempo certo. abalroa a traseira do segundo que é atirado contra o primeiro. Nota-se. mas pela conduta de terceira pessoa. não pacificada nos tribunais. pois o fato do terceiro motorista foi de tal intensidade que lhe excluiu a liberdade de ação. sendo essa conduta de tal monta que o agente direto é mero instrumento em suas mãos. entretanto. em que não se opera exclusão de responsabilidade. Incide. nem indireta. na ultima situação a culpa do devedor em razão da mora não seria de nenhuma eficácia. que embatendo contra o primeiro. nem sequer agiu. falta. Nesse caso desaparece o nexo de causa e efeito entre a ação ou omissão do agente direto e o . Dá-se o fato de terceiro quando o dano é causado não pelo agente direto e nem pela vítima. 932. o raio destrói as duas casas. Foi o segundo automóvel.

Entendeu. afirma que o fato de terceiro somente dirime a responsabilidade civil quando se reveste das características análogas às do caso fortuito. sendo imprevisível e inevitável200. assim. 2002.. Carlos Roberto. Bem por isso. ao tentar desviar-se de abalroamento. essa Colenda Corte. só se caracteriza como excludente quando. preceituando este último dispositivo que cabe ação regressiva contra o terceiro que com sua conduta criou a situação de perigo. do evento (RJTJSP 21/50). o direito de regresso contra o terceiro. mas principalmente em inevitabilidade. O fato do terceiro motorista revestiu-se de imprevisibilidade. E coerentemente como juiz decidiu na qualidade de relator ainda ao integrar o extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo: O fato de terceiro exclui a responsabilidade civil do causador direto dano quando equiparável ao caso fortuito.] I – Não há de atribuir-se responsabilidade civil ao condutor de veículo que. a causa predominante. para haver dele a quantia paga na indenização do proprietário do bem danificado. A matéria vem regulada indiretamente pelos arts. constituindo força estranha. reserva-lhe. provocando-lhe dano. 200 GONÇALVES. É que o fato de terceiro.. atingindo outro. 929 e 930. que a primeira culpa. quando é de intensidade que exclui a liberdade deste. ou seja. 7 ed. desgovernado. p. o fato de terceiro não afasta o dever de ressarcimento por parte do causador direto do dano. acaba por causa prejuízo a outrem. Carlos Roberto Gonçalves.. vem a colidir com coisa alheia. afasta-se a teoria risco e firma-se a responsabilidade do terceiro como causador único evento (RT 651/99) do tal do do Fora dessas condições. pois a regra é que o dever de indenizar recaia sobre o causador direto do dano. torna-se. de modo positivo. cujo veículo restou envolvido no acidente como mero instrumento da ação culposa de terceiro. causada pelo fato de terceiro. foi de tamanha força e intensidade que excluiu a liberdade de ação do causador direto do dano. reafirmando a relação de causalidade. que teve. [. no entanto. o prejuízo experimentado pelo dano da coisa danificada não guarda relação de causalidade com qualquer atitude volitiva do referido condutor.185 dano. (RSTJ 67/514). São Paulo: Saraiva. na condição de doutrinador. . Nesse caso. Responsabilidade civil: doutrina/jurisprudência. sendo tal situação diversa daquela em que o condutor do veículo. eximida a sua culpa. 722. II – No caso em tela. senão única. pois..

211. Curso de direito civil. Lá o nexo de causalidade tem uma única causa: a conduta do terceiro. p. ao agente causador do dano assiste tãosomente direito de regresso contra o terceiro que deu causa à situação de perigo (STJ.1 Conceito de terceiro Entende-se por terceiro a pessoa estranha ao agente e à vítima do dano. trazendo coerência à ordem jurídica como um todo harmonioso. É o mesmo tratamento que se dispensa à legítima defesa por erro de execução e ao estado de necessidade. No segundo. Min.1994. 44/89). de mero instrumento passivo da ação de outrem. mesmo por culpa de terceiro. esta é a diferença dos julgados supracitados: em um o carro do agente direto do dano desgovernou-se. p. 4ª T. logicamente não podendo ser nem o ofensor nem o ofendido. RJTJSP 42/103. j. considera-se terceiro qualquer outra pessoa equidistante desse binômio que.11. procurou desviar de “fechada” provocada por terceiro.10 a 5. o fato de terceiro que se constitui em causa de irresponsabilidade deve identificar-se à força maior. ou é mero agente físico involuntário. rel. o credor. influi na produção do dano. agir. não houve qualquer conduta voluntária do motorista. No mesmo sentido: T 523/101. Aqui tem duas causas: a atividade do terceiro e a do causador direto do dano. 3.201 201 LOPES.2. in Boletim da AASP nº 1975. Se o causador direto do dano. Sálvio de Figueiredo. O motorista agiu de maneira voluntária. pagará a indenização. não sendo elisiva da obrigação indenizatória a circunstância de ter agido em estado de necessidade. vem a colidir com automóvel que se encontrava regularmente estacionado. responde perante o proprietário deste pelos causados. . não.1996. 22. 639/117. repita-se. 1995. que o causador direito do dano não passa. Ou como ensina Serpa Lopes. resguardando-lhe o direito de propor demanda regressiva em desfavor do verdadeiro culpado. 563/123. o devedor e do outro lado o polo ativo. ao desviar de “fechada” provocada por terceiro. e atingiu outro veículo. de alguma forma. De efeito. terceiro é aquela pessoa que forma a terceira peça do triângulo. 4 ed. Em casos tais. prejudicando vítima inocente. São duas hipóteses dessemelhantes com efeitos jurídicos diversos. Deve ser de tal intensidade e irresistibilidade.186 O motorista que. Sendo assim.. atuar ou realizar atos voluntários para salvar bem alheio. 86. vol. Miguel Maria de Serpa. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. de 30. 591/237. Imagina-se a estrutura da obrigação no seu elemento subjetivo: de um lado o polo passivo. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil.

pois o Superior Tribunal de Justiça julgou em sentido contrário: A presunção de culpa da transportadora pode ser ilidida pela prova de ocorrência de fato de terceiro. REsp. de fora para dentro do veículo. contra o qual tem ação regressiva. 4ª T. DJ 30. enfim quando ocorre liame de responsabilidade indireta entre o causador do dano e o responsável pela indenização.. j.31. j. no mesmo sentido STJ.. os empregados e prepostos com relação aos empregadores e comitentes. Sendo ato de . A exoneração da responsabilidade civil por ato de terceiro somente terá lugar se for identificada a pessoa causadora do dano e.2002. Tendência que não se consolidou.187 Não poderão ser terceiros os filhos menores com relação aos seus pais. 232.7.3 Uma questão tormentosa Joeirando a jurisprudência notam-se nitidamente julgados contraditórios. a alegação de que o evento que resultou na morte da transportada. 187 do STF. 5ª Câm.” Assim vinha a orientação dos tribunais A responsabilidade civil da empresa de transporte coletivo pela condução de passageiros é de caráter objetivo. Outro fato relacionado à pessoa do terceiro é a sua identificação. pelo acidente com passageiro. rel. “A responsabilidade contratual do transportador. não é elidida por culpa de terceiro. é necessário haver prova de que o comportamento deste seja a determinante exclusiva do resultado danoso e que a sua participação no evento tenha-se dado de maneira total.649. RT 810/264. 15. Min. O arremesso de objeto. Juiz Thiago de Siqueira. Destarte. não se admitindo a participação de forma parcial (RT 736/241) 11. p. consoante dispõe a Súm. não guarda conexidade com a atividade normal do transportador. O terceiro há de ser identificado ou identificável. comprovadas a atenção e cautela a que está obrigada no cumprimento do contrato de transporte a empresa.2003). mormente no contrato de transporte. ocorreu por culpa de terceiro não exclui sua obrigação de indenizar (1º TACSP.8. ainda.2002. Barros Monteiro. Pela Súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. os pupilos e curatelados com relação aos tutores e curadores.6. rel.

Sergio. 29. 2009. 9 ed. p. o fato de terceiro é imprevisível e irresistível. se caracterizar um fortuito externo exime a responsabilidade do transportador. Daí a razão pela qual alguns autores os têm por equivalentes. São Paulo: Atlas. Min. 2002. 3ª T. que pondera para se chegar ao fato de terceiro é necessário estabelecer com precisão: 1º) quem é o terceiro em matéria de responsabilidade civil. Essa posição de mitigação da responsabilidade do transportador em casos especiais não relacionados com o fato do transporte em si. jurisprudência. para quem a presunção da responsabilidade do transportador é tão forte. Assentados estes dois pontos fundamentais. 2007. 164-165. Programa de responsabilidade civil.202 É a tese acordada na regra do art. do Código Civil. p. 292. Castro Filho. no caso. Responsabilidade civil: doutrina.4 Dois conceitos básicos Apropositado o ensinamento de Caio Mário.. o fato estranho à empresa. Sílvio de Salvo. vol.10. RT 823/158). O exemplo reportado por ambos é o disparo de arma de fogo efetuado por alguém do lado de fora do ônibus. É verdade. porém entre essas figuras não é possível ver identidade absoluta. isto é. p.5 Distinção do caso fortuito e da força maior O fato de terceiro assemelha-se à força maior e ao caso fortuito quanto aos seus efeitos.188 terceiro. São Paulo: Atlas. sem qualquer ligação com a organização do negócio. que o fortuito interno não a exclui. salvo motivo de força maior. que atinge passageiro. exclui a responsabilidade do transportador pelo dano causado ao passageiro (STJ. porquanto desempenham a mesma função: a exoneração da responsabilidade. 743. 11. somente o fortuito externo. mas não é menos verdade que o fato de 202 GONÇALVES. 722-723. pois fato imprevisível e inevitável. No mesmo trote avulta Sergio Cavalieri Filho. 11. j. é adotada por Carlos Roberto Gonçalves e Sílvio de Salvo Venosa. ao dispor que o transportador responde pelos danos causados às pessoas e bagagens transportadas. CAVALIERI FILHO. 4. Tem prevalecido as circunstâncias concretas de cada caso. 2º) qual a natureza e extensão do comportamento desse terceiro em relação ao evento danoso.2003. 7 ed. 7 ed. São Paulo: Saraiva. os demais aspectos abrolham naturalmente. Carlos Roberto. Argumentam que. até com relativa facilidade. pois se puder ser previsto e vencido desnatura-se. deixa de ser causa dirimente. há equiparação ao caso fortuito. VENOSA. que corresponde ao fortuito externo. . rel. Direito Civil: responsabilidade civil.

vol. não havendo tal culpa. Curso de direito civil. o transportador só se exime de sua responsabilidade em casos excepcionais. Tratando-se de roubo de carga. apareceria como sendo um caso de força maior.5 Chamamento à autoria Jurisprudência Inexiste responsabilidade por parte da transportadora em acidente de trânsito com vítima fatal. se for invocada a escusativa do caso fortuito e da força maior. No entanto. e não reconhecida. não pode a transportadora se eximir de tal responsabilidade por restar caracterizada a culpa. a sua responsabilidade deve ser excluída pelo caso fortuito consubstanciado na culpa de terceiro (1º TACivSP. 1995. sendo que decorre de existência de culpa por inadimplemento contratual. Sentencia Serpa Lopes: “o fato de terceiro deve ser atribuído a um indivíduo determinado. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. Juiz Massami Uyeda. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil.. Ementa do voto vencido do revisor Juiz Carlos Alberto Bondioli: Caracteriza-se a força maior em caso de roubo de carga quando.189 terceiro cumpre ser imputado a pessoa certa. j. Dessa forma. Miguel Maria de Serpa.2002. Dessa forma. se o evento foi causado por ato exclusivo de terceiro que invadiu a contramão de direção abalroando o veículo da transportadora. quando era previsível tal evento naquela região.7. RT 807/292). 30. RT 806/209). 26. Tratando-se a prestação de serviços de transporte de um contrato de resultado.”203 Mais ainda. na modalidade negligência. Embora seja objetiva a responsabilidade da empresa. pois. apesar de reconhecida. do contrário. o agente direto do dano não disporá de tal actio in rem verso. 3.2002. sendo que os prejuízos a serem ressarcidos decorrem do risco do próprio negócio (1º TACivSP. Sendo a ação intentada em face do agente direto do dano e a responsabilização de terceiro. p. 9ª Câm. 4 ed. o que não sucede na hipótese do fortuitus e da vis major. não se pode afastar a culpa da transportadora por caso fortuito ou força maior. . não há falar em 203 LOPES. ela não é automática. embora previsível. como a ocorrência de força maior.. não é caso de isenção o roubo de motomensageiro. rel. 212. tendo de suportar os feitos da condenação. 6ª Câm. j. Juiz José Luiz Gavião de Almeida. é impossível de ser resistido. cabe a ele ação regressiva contra o causador do dano. não reúne o condão de excluir o agente direto.3. No entanto. uma vez que na conjuntura urbana e hodierna estes casos já são previsíveis. Destarte. rel.

do Código Civil. a instituição bancária deva indenizar o cliente por danos morais.. acarretando o dever de indenizar (TJRJ. Maria Isabel Gallotti Rodrigues. 22. Há de se estabelecer o nexo de causa e efeito entre essa ação ou omissão e o evento danoso que atente contra direito da personalidade ou o patrimônio da vítima.2004. fica caracterizado caso fortuito ou força maior.2203.10. inclusive por atos de terceiros. rel. A reiteração de assaltos no curso da viagem. 12. rel. Des.205 Se o atropelamento foi ocasionado em razão de o automóvel ter sido interceptado por outro veículo que cruzou de inopino trevo em rodovia. tem-se afastada a responsabilidade do motorista que atropelou as vítimas. RT 827/271). Juiz Rubens Cury.2002. . rel. 21. rel.9. 10ª Câm. RT 814/227)204 Tratando-se de contrato de transportes. 6ª Turma. sem qualquer providência das transportadoras. 2. (1º TACivSP. in Boletim AASP 2195/351). 28. Des. j. o que demandaria previsão do risco e sua integração no preço do serviço. 2ª Câm. para incidir na hipótese de indenização por responsabilidade civil. que já se caracteriza como fortuito interno. de forma a excluir a responsabilidade da empresa transportadora (1º TACivSP. José Carlos Varanda. a responsabilidade civil do transportador é objetiva. deve-se nomear perito que faça a avaliação das jóias de forma devida. pois caracterizado o fato de terceiro capaz de eliminar a relação de causalidade entre o dano e o desempenho do causador direto do ilícito (1º TACivSP. Não se pode dizer que. No entanto. 204 205 Pela divergência sobre a matéria esse acórdão merece ser lido na íntegra. para reduzir os riscos a que estão expostos os passageiros. Juiz Gonçalves Rostey. ocorrendo um assalto à agência. uma vez que no contrato de mútuo com garantia pignoratícia leva-se em conta apenas o pesa das pedras e do metal (TFR da 1ª Região. 186. RT 816/232).3. j.1999. é preciso uma ação ou omissão culposa do agente causador do dano.. RT 822/383). ocorrendo o roubo de carga a mão armada. 12 Culpa exclusiva da vítima Pela letra do art.. já tornou previsível o evento.2003. 8ª Câm. rel. Ementa do voto vencido da Des. Maria do Carmo Cardoso: Em caso de roubo. j.. j.9. se o objeto do contrato de mútuo com garantia pignoratícia não é a guarda e a segurança das jóias.1. 2ª Câm. j.190 culpa do transportador. Juiz Cerqueira Leite.

que ela mesma deu causa. extingue-se a obrigação. Diferente não poderia ser. em que entra problema de responsabilidade civil. Entende-se. além de não agir com culpa. que se traduz na causa exclusiva do dano.191 Por isso. no intellegitur damnun sentire (quando alguém experimenta dano. 12. não se presume. por culpa sua. a vítima absorve as consequências do dano. No segundo caso. No primeiro caso. pois se a sua conduta é o único fato gerador do evento lesivo. neste episódio. Demonstrada a imprudência da vítima ao atravessar a via pública e comprovado que o motorista do ônibus. que pressupõe causar prejuízo a outrem. quem sofreu as consequências do fato. equiparável até ao caso fortuito. A culpa exclusiva da vítima na eclosão do evento danoso tem que ser cabalmente demonstrada. O motorista fica isento de compor o prejuízo se uma pessoa atira-se sob as rodas do veículo em movimento. b) ou são diversos. mas de sua exclusiva conduta. a solução é encontrada na velha parêmia romanística: res perit domino (a coisa se perde para o dono). ou seja. vale dizer. como assente no acórdão transcrito. o nexo de causalidade fica eliminado em relação ao indigitado agente. recai a causa do acontecimento apenas sobre a conduta da vítima. utilizou-se dos meios necessários para evitar o atropelamento. por fato da vítima quando o prejuízo por ela suportado devirá não da conduta do agente direto do dano. . pelo próprio conceito jurídico de dano. não se entende que sofra dano). do Código Civil. arreda-se qualquer questão de responsabilidade civil. é motivo escusativo de responsabilidade civil o fato ou ato da própria vítima. de sorte que. improcede a ação de indenização (RT 263/146). resolve-se pela aplicação da regra do art. portanto. 381. pela inevitabilidade.2 Requisitos Para caracterizar o fato da vítima cuida-se a conjugação dos requisitos que lhe são inerentes. É o vetusto preceito do Digesto: quod quis ex culpa sua damnun sentit. Responsabilidade civil – atropelamento e morte por ônibus – Culpa do motorista – Inexistência – Imprudência da vítima – Ação ajuizada pela viúva e filhos menores – Improcedência. ele não é senão mero instrumento do acidente. na tentativa de suicidar-se. entretanto. Duas situações dessemelhantes podem ocorrer: a) agente direto do dano e vítima confundem-se na mesma pessoa.

para exemplificar. 2 ed. articula que uma empresa de transporte urbano não responde pela morte do indivíduo que se joga intencionalmente sob as rodas do ônibus. 928. 932. Montenegro. Rio de Janeiro: Forense. que elimina o nexo de causalidade. é inimputável. Rui Stoco. .208 Não aludem. Terceiro. sem o necessário discernimento (CC. Caio Mário da Silva. Miguel Maria de Serpa. 1991.206 Diferente José de Aguiar Dias. III) sugere o caso fortuito. 4º. 208 PEREIRA. 206-207. Para ele a chamada culpa exclusiva da vítima corresponde ao ato ou fato exclusivo da vítima. Rio de Janeiro: Renovar. De efeito. 3º.207 Portanto. Segundo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. Tem que para caracterizar o fato de terceiro dois aspectos são relevantes: a) definir quem é o terceiro. e aumentada por Rui Berford Dias. pois desloca da vítima para si o nexo causal. se o suicida é um louco. Assim é a lição de Serpa Lopes. Responsabilidade civil. 320-321. que poderá acionar ou o próprio suicida ou o seu curador (CC. e ser. porque é o seu comportamento a causa do dano. Se de alguma forma contribui. 1995. Se inimputável a causa de irresponsabilidade é outra. imputável.209 206 LOPES. no fato de terceiro. Com isso amplia a incidência dessa causa de irresponsabilidade e. também. ao mesmo tempo. 11 ed. à culpa da vítima Antonio Lindbergh C. que o fato da vítima seja ilícito e culpável. isto é. a culpa deixa de ser exclusiva da vítima. 207 DIAS. para Serpa Lopes o inimputável está incluso no fortuito. p. b) e que a conduta desse terceiro é ativa. a vítima deve agir com culpa. portanto sua conduta deve ser sinetada pela licitude. A ele não se pode cogitar de culpa.192 Primeiro. o que se traduz em maior cobertura à vítima inocente. precipuamente. para Aguar Dias. para quem o terceiro requisito não vinga. revista e atualizada por José Serpa Santa Maria. também. é necessário. art. 944. atualizada de acordo com o CC 2002. que o indigitado agente não labore com culpa. o fato de terceiro influi na etiologia da responsabilidade civil. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. Carlos Roberto Gonçalves. p. em quaisquer de suas modalidades. 2006. Da responsabilidade civil. lado senso. 4 ed. revista. uma relação de causa e efeito entre o fato da vítima e o dano e que esse fato constitua a causa única e determinante do prejuízo. p. vol. em conduta culposa da vítima. sem desenvolvimento mental completo (CC. arts. Dessa forma. II). II) ou excepcional. art. Aqui reside uma das diferenças entre o fortuito e o fato de terceiro como será exposto logo em seguida. José de Aguiar. Curso de direito civil. se quem causa o dano é um enfermo ou deficiente mental. Caio Mário não fala.

d. concluindo: “era intuitiva a proibição do emprego das mãos durante o sistema automático de prensagem” (TJSP. 7 ed. São Paulo: RT. p. p. Ênio Santarelli Zuliani). 210 AULETE. para livrar a si própria ou a outrem de perigo iminente. e começou por examinar se lhe tinha ofendido o cérebro. quebrou-lhe um deles a cabeça. Colhe-se interessante passagem colhida.]. Cunha Gonçalves: Deve notar-se que não constitui culpa o fato de uma pessoa se expor voluntariamente ao perigo. não pode atribuir a terceiro o seu dano. 2007. p. 1984. 14. portam-se com certo grau de heroísmo empenhados na ajuda ao próximo vitimado. 211 Gonçalves.3 Vítima que se expõe em perigo Outro fato que pode acontecer é a espontânea exposição da vítima a situação de perigo.193 12. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural Edições. Antônio Lindbergh C. Selecta nacional: curso prático de literatura portuguesa. 121. inibe atos de solidariedade. – Escusa de cansar-se em me procurar os miolhos. rel. . 21 ed. 209 MONTENEGRO. op. em 1925. Júlio Caldas. Veio o cirurgião curá-lo. Lisboa: Livraria Editoral [s. expondo-se espontaneamente a situação de risco ou perigo. 284-285. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. ap. F.. Surge a questão: em caso de experimentarem dano cabe-lhes indenização? Fica a resposta por conta de outro português. em caso de calamidade pública. como frequentemente sucede nos incêndios: mas. Des. 759. STOCO. quem se fere ou queima em tão benemérito esforço.2002. cit. Dir. Tratava-se de um operário que operava máquina de prensar ferro e perdeu quatro dedos. vol.5. II. Privado. p. Cunha. XII. 19. Entendeu a Corte que ocorreu a culpa exclusiva da vítima.210 Esta historieta de bom humor retrata fato senão corriqueiro pelo menos não pouco freqüente protagonizado por pessoas anônimas que. 191 e segtes. t. Passagem interessante foi julgada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. porque quando me fui meter na bulha já os não tinha. 3ª Câm. j. Rui. diante da ausência de defeito da máquina e ter sido a falha humana da vítima o motivo do acidente. Do ressarcimento de danos pessoais e materiais. por Caldas Aulete: Um homem pacato indo apartar uma desordem entre dois vizinhos. atalhou o ferido.643-4/1.211 Este entendimento que coaduna com a ratio juris dessa causa de irresponsabilidade. também.

Mal conservado o muro que cerca a via férrea. em 16 de fevereiro de 1998. dão início ao desatino. por imprudência ao trafegar em passagens clandestinas. o que não se aceita – porque malfere a equidade – é um tratamento desigual apenas pelo fato de um ter sofrido lesão. impende reconhecer o dever de . que serviu de parâmetro: Direito Civil.4 Culpa concorrente Pode a vítima conduzir-se com culpa concorrente à do ofensor. A certa altura da tresloucada competição um acidente. Recurso especial conhecido e provido.194 Hipótese mais complicada pode ser sugerida. e o jovem “caronista” é vítima de ferimentos graves. Parece que. Forois ligados. Mas se sabe. até convencê-lo a permitir sua “carona”. o atropelamento deste resulta de concorrência de culpa: do pedestre. viabilizando a passagem de pedestre. Culpa concorrente. por inobservância do dever legal de conservar muros e tapumes na linha férrea. do Código Civil. Responsabilidade civil. compensando-se. que a cada um a sua própria culpa. da mesma Corte. 945. O exemplo acima abre ensanchas para o estudo da culpa concorrente. aceitou por antecipação grave risco que não afastava a perspectiva de redundar em evento lesivo. às desoras da noite. também. a sua indenização será fixada levando-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do ofensor. 12. Do corpo do acórdão destaca-se outra recurso. Atropelamento por trem. Anuncia o art. motores roncando. a vítima se propôs ao perigo. Partem para a aventura e se juntam a animado grupo contraventor da lei. relatado pelo Ministro Cláudio Santos. Até pode achar maior grau do motorista. que se a vítima concorreu culposamente para que acontecesse o dano. aqui. No caso as duas partes contribuem na eclosão do evento danoso. Um jovem sabidamente arrojado aos perigos da direção dispõe-se a participar de “racha”. Sem dúvida. quanto à ferrovia. por negligência. Ambos são co-participes de conduta ilícita. enquanto o outro saiu ileso. Abalroamento de veículo em linha férrea. por imprudência. Sendo a culpa pelo acidente ferroviário imputável tanto à vítima. e outro insiste em lhe fazer companhia. da empresa que explora a ferrovia. Responsabilidade civil. as culpas concorrem em igual grau. em plena via pública. Não se ignora que é proibido transacionar com aleijões e ainda mais com a morte.

quem estava em melhores condições de evitar o dano. permitindo que o menor ficasse na companhia do irmão. o que se deve verificar é quem teve a melhor ou a mais eficiente. segundo a qual a parte que teve por último a oportunidade de evitar o dano. de quem foi o ato que decisivamente influiu para o dano. Resta. Outro caso ilustrativo foi julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Na prestação de serviços de hotelaria. o vulgarmente denominado “engavetamento”. momento em que ocorreu o trágico infortúnio (TJSP. Julgava-se acidente de trânsito em que os pressupostos do réu atearam fogo no capim existente à margem da rodovia divisa com a sua propriedade. 6ª Câm. a 7ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. à espera do equipamento. j. acidentalmente. pela relatoria do Desembargador Nelson Schiavi. obstruindo a passagem de outros veículos. Em lugar de se apurar quem teve a última oportunidade. razão pela qual tem o dever de indenizar os pais de menor que. De resto. ingressou nessa cortina de fumaça e parou a sua condução sobre a pista de rolamento. caracterizada a culpa concorrente dos pais se estes falharam no dever de vigilância para com seus filhos. fato que possibilitou a ocorrência de sucessivas colisões. igualmente. máxime quando o local não oferece visibilidade. Min. RT 824/205). a imobilização de veículo sobre a pista. assim interpretou esta teoria: Essa doutrina pode ser aperfeiçoada mediante sua transposição do tempo para o espaço. pela reparação dos danos ocasionados aos hospedes nas dependências do estabelecimento. O co-réu. rel. causando fumaça que invadiu a estrada. Ari Pargendler. Tampouco . redobrada cautela destes. é temerária a produção de fogo ao longo da rodovia e. Do corpo do acórdão segue a seguinte conclusão: Na verdade. 16. pois a densa fumaça provocada pelo fogo impedia a visibilidade dos motoristas. 5. RT 852/193-194)... também menor. j. o hotel é responsável.2004.195 indenizar proprocionalmente (STJ. 3ª T. por sua vez.2. isto é. independentemente de culpa. no entanto. Julgando apelação da Comarca de Santa Rita do Passa Quatro. rel.2006. Magno Araújo. Des. Em casos tais. os dois fatos concorreram decisivamente para o evento. apesar da imprudência ou negligência da outra parte. o direito norte-americano elaborou a teoria da causa próxima: the last clear chance. é responsável pelo evento. também.5. sofre acidente mortal em elevador de hospedagem. a exigir.

ambos foram condenados na composição da reparação.196 procede a alegação de que um dos acidentes ocorreu em razão de não ter o preposto da autora guardado distância de segurança em relação ao veículo que lhe seguia à frente. mas a melhor oportunidade e não a utilizou. que inspira o acórdão acima transcrito. É quando uma delas é tão decisiva na intervenção do evento danoso. 946. de si só. que não tinha conseqüências. 149) Dessa forma. O julgado induz a discutir situações em que. determinasse. Da responsabilidade civil. 99. embora haja culpa das duas partes. qual dos fatos. a circunstância de ter sido estacionado o veículo sobre a pista (RJTJESP. com que o outro. e aí adbrolha o problema da fixação do quantum debeatur. o acidente. e aumentada por Rui Berford Dias. isto é. pois. Esta preliminar não pode ser olvidada. Rio de Janeiro: Renovar. leciona: Consideramos em culpa quem teve não a last chance. aceita a culpa concorrente. qual dos atos imprudentes fez. provocada pelo fogo ateado à margem da rodovia.4 Critério para fixação da indenização À vítima impõe o dever de evitar o aumento do dano. Isso é exatamente uma consagração da causalidade adequada. não se deve falar em concorrência de culpa. Noutras palavras: a culpa grave necessária e suficiente para o dano exclui a concorrência de culpa.212 Há casos em que não se pode afastar a concorrência de culpas. quer por atos positivos ou por omissões. por vezes. Para concluir: O que se deve indagar é. foi decisivo para o evento danoso. 11ª ed. torna o fato do outro protagonista irrelevante para sua produção. p. também. José de Aguiar. vol. 4. ou mesmo de minorar o já consumado. a culpa sem a qual o dano não se teria produzido. completado por ele. Na realidade. já que essa não foi a causa do evento. 2006. isto é. ou culpas. atualizada de acordo com CC de 2002. p. revista. embora culposa e porventura interveniente. . ainda que imprudente. Na abordagem dessas situações. e. porque se alguém tem a melhor oportunidade de evitar o evento e não a aproveita. que a outra. deixa de ser relevante. José de Aguiar Dias. se não tivesse intervindo outro ato imprudente. 212 DIAS. uma exclui a outra. Pensamos que sempre que seja possível estabelecer inocuidade de um ato. a causa direta e eficiente do evento foi a existência da densa fumaça.

revista e atualizada por José Serpa Santa Maria. as duas responsabilidades se neutralizam e se compensam. Diferente se as responsabilidades forem desiguais. sustentando que ambas suportariam os mesmos encargos. em 1882.” Porém. b) que os danos também sejam iguais. do Código Civil: “Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra. vol. São seus pressupostos: a) uma lesão para a qual contribuíram a culpa da vítima e a do causador direto do dano. 368. Se as duas partes estiverem em posição de igualdade quanto as suas respectivas culpas.197 Posto o dever da vítima. porque imputáveis tanto ao agente do fato como à vítima. ensina Serpa Lopes. não sobrando margem para qualquer condenação por perdas e danos. 209-210. não há lugar para compensação. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. O princípio básico desse critério é que as culpas se compensam reciprocamente. 1995. cada um responde como incurso em uma condenação por perdas e danos na proporção e na medida da culpa que lhe for imputável. desenvolvido magnificamente por Demolombe ao comentar o Code Napoléon. Aqui. no caso das duas mães. é o da partilha proporcional dos prejuízos. Ao juiz a difícil tarefa de determinar a medida e a proporção da contribuição de cada uma das culpas na eclosão do dano. por existir maior gravidade de uma das culpas. variadas e complicadas. 4 ed. na falta de um destes pressupostos. Miguel Maria de Serpa.213 213 LOPES. até onde se compensarem. e muitas vezes obscuras em cada caso concreto. logo esta carece de legitimidade para pedir a cobertura dos danos experimentados. tendo em vista as circunstâncias. p. a compensação é meio de pagamento indireto como consta da letra do art. Aliás. o que faz surgir o outro critério. pendia pela divisão igualitária. Do Direito Romano vem o critério da compensação. as duas obrigações extinguem-se. Critério talvez mais técnico com certeza mais completo. como se as culpas forem díspares. Curso de direito civil. A primeira contemplação não difere. que pode ser ilustrado pela sentença bíblica proferida por Salomão que. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. . b) que as culpas de ambas as partes sejam do mesmo grau. cumpre relatar os dois critérios encontrados na doutrina.

.5 Condenação criminal Não fica arredada a possibilidade de se articular. justificável a redução proporcional do valor indenizatório. como matéria de defesa. ou qu’ils ont aggravé la situation du débiteur. Responsabilidade civil do Estado – Indenização – Evento danoso causado pela própria vítima – Inexistência de ato do Poder Público passível de causar dano. sendo. à l’augmenter. A idade avençada da vítima e a debilidade de sua constituição física. 44: Le juge peut réduire les dommages-intérêts. 23. vindo a ser atropelada. reconhecida – Redução proporcional do valor indenizatório. Jurisprudência Responsabilidade civil – Atropelamento – Vítima de idade avançada e de constituição física débil – Falta de cautela para atravessar a rua – Fato que não elide a responsabilidade – Culpa concorrente. 570º. como concausas. concorre para o evento. 1.198 É a solução encontrada no art. se a indemnização deve ser totalmente concedida. na hipótese em que as vítimas agiram culposamente.31986.525 do CC. reduzida ou mesmo excluída. os prejuízos devem ser somados e o total repartido entre elas na proporção à gravidade de suas respectivas culpas. em face do já exposto princípio da independência entre as duas instâncias de justiça: cível e criminal: “A condenação de motorista na justiça criminal não impede que na ação cível de indenização seja declarada a concorrência de culpa. Se a vítima não age com a cautela necessária para atravessar a rua em local apropriado. pois o causador do prejuízo é obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da mesma (1º TACivSP. impõe-se a aplicação do disposto no art. mesmo se o causador direto do dano tenha sido condenação no crime. 6ª Câm. cabe ao tribunal determinar. RT 609/112). 1. em razão da culpa concorrente. não elidem a responsabilidade. com base na gravidade das culpas de ambas as partes e nas circunstâncias que delas resultaram. 1. no entanto. » .525 do CC (de 1916) [atual art. ou même n’en pont allouer. j. lorsque la partie lésée a consenti à la lesion ou lorsque des faits dont elle est responsable ont contribué à créer le domange. quando demonstrada a imprudência da vítima (RT 439/112). Ementa Oficial: Se o juízo criminal reconheceu categoricamente que a morte da vítima decorreu de suicídio. Quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para a produção ou agravamento dos danos. a culpa concorrente da vítima. Responsabilidade civil do Estado – Indenização – Morte em virtude de suicídio – Comprovação no juízo criminal – Aplicação do art. 935]. do Código das Obrigações da Suíça.” 12. portanto. 44. 214 Sob a rubica « Réduction de l’indemnite » o Código das Obrigaçoes suiço tem a seguinte regra : “Art.214 Assim também o Código Civil português: “Art.

II. 17. 7ª Câm. Acidente de Trânsito – Indenização – Queda de passageiro ao descer do veículo – Alegação de que este foi posto em movimento durante o desembarque – Inadmissibilidade – Provas que demonstram que o veículo estava parado quando da queda – Fato atribuível unicamente à demandante. Des. 2. rel. Juiz Barreto de Moura. RT 812/233). consistente no dano sofrido pela vítima. na culpa do agente e no nexo de causalidade. 5. que o acidente ocorreu por culpa exclusiva da vítima. Antonio Guerreiro Júnior. Acidente de trânsito. 24. Ação indenizatória – Responsabilidade civil – Acidente do trabalho – Culpa exclusiva da vítima – Ausência de comprovação do nexo de causalidade entre o dano sofrido pelo empregado e a conduta do empregador – Verba devida. 1ª Região. é de se manter a sentença que julgou improcedente a ação de indenização (TJMA. rel. Responsabilidade civil. 30. 37.2002. por falta de atenção – Verba indevida. Indenização. a despeito da aproximação da locomotiva cujo maquinista efetuou vários sinais sonoros antes de atropelá-la.12. j. rel. sentada na linha de trem.. Juiz Evandro Reimão dos Reis. se o evento danoso foi provocado exclusivamente pela própria vítima.10. 2ª Câm. Ementa da Redação: Não há de falar em dever de indenizar se o acidente ferroviário ocorreu por culpa exclusiva da vítima que. acarretando o dever de indenizar os danos morais e materiais decorrentes. daí inexiste ato do Poder Público passível de causar dano (TRF. recusou-se a dali sair.199 Ementa Oficial: É incabível indenização com fundamento no art. 2002. RT 834/339). . Juiz Rubens Cury.2001. Estando comprovado nos autos.. Acidente ferroviário – Responsabilidade civil – Ação Indenizatória – Sinistro que resultou na morte da vítima – Fato que não enseja o dever de indenizar em razão do evento ter ocorrido por culpa exclusiva da vítima que. j. j.. § 6º. RT 808/429). j. Ementa da Redação: O atropelamento fatal de transeunte que atravessa a linha férrea enseja a responsabilidade civil objetiva. 14.681/12. já que esse não podia desviar o trem das linhas de sua locomoção (1º TACivSP.7. Ementa Oficial: Apelação cível. uma vez que não demonstrada a culpa exclusiva ou preponderante da vítima (1º TACivSP. Acidente ferroviário – Responsabilidade civil – Ação indenizatória – Danos materiais e morais – Atropelamento fatal de transeunte que atravessa linha férrea – Inexistência de culpa exclusiva ou preponderante da vítima – Fato que enseja a responsabilidade objetiva ao dever de indenizar. 8ª Câm. recusou-se a dali sair. a despeito da aproximação do locomotiva cujo maquinismo efetuou vários sinais sonoros antes de atropelá-la – Inteligência do art. sentada na linha de trem. 3ª T.. rel. RT 810/260). Ementa Oficial: A ação de indenização com fundamento na responsabilidade civil a certeza há de vir na tríplice realidade.6. da CF. do Dec.2004.

Fato atribuível unicamente à demandante. 5. 9 Outros limites. Fato absolutamente afastado pela prova. 72 1 Autonomia privada O princípio da autonomia privada oferece aos contratantes o poder de livre escolha das estipulações contratuais como melhor lhes convier. Alegação de que este foi posto em movimento durante a descida da demandante.200 Queda de passageira ao descer do veículo. como no caso do seguro obrigatório. mas também importa exceção. RT 854/332). suscitando efeitos jurídicos reconhecidos e tutelados pela ordem jurídica. Ausência de nexo de causalidade entre os danos e a conduta do preposto da empresa ou as condições do veículo. nos serviços públicos ou privados concedidos sob regime de monopólio. 12 Cláusula limitativa do dever de indenizar. que é a escolha do outro contratante.. R.8. ou não. e em que tempo sempre no interesse do contratante. por falta de atenção (TJRS. A liberdade de com quem contratar. VER STOCO P. c) liberdade de fixar o conteúdo do contrato. 750 LIMONGI FRANÇA P. Autonomia privada. 7 Denominação. j. 732 C. . Sumário da exposição. está na premissa de que o contrato é um acordo de vontade e o indivíduo somente contrata com quem quiser. 6 Conceito. Cláudio Baldino Maciel. Mas a abstenção de contratar padece temperamento imposto pela lei. 11 Conclusão. 10 Limites legais. 12ª Câm. VER RT 543/100 Cláusula de não indenizar 1. Distinção entre normas cogentes e dispositivas. que demonstra que o veículo estava parado quando da queda. por meio de acordo de vontade a disciplinar os seus interesses. A liberdade de contratar implica na escolha de contratar. 4 Obrigação principal e acessória. 2 Ordem pública e bons costumes. por exemplo. 10. 8 Incidência na responsabilidade civil contratual. GONÇALVES. Des. P. rel. a saber: a) liberdade de contratar: b) liberdade de com quem contratar. Cív.2006. 185. 3.

que é a escolha de uma das modalidades de contrato reguladas pela lei. 9 A função social do contrato A função social do contrato. o Código de Defesa do Consumidor preveja a tutela coletiva dos interesses difusos. dessa forma. os contratantes podem escolher um contrato nominado ou típico. coletivos e individuais homogêneos. em outras palavras. ampliando ou restringindo os efeitos jurídicos do vínculo contratual. que essa função tão importante da vida social. resulta efeito de interesse coletivo. distintos daqueles previstos em lei. debalde a sua natureza privada. que essa liberdade contratual encontra limites na função social do contrato (CC. Vale lembrar importante lição do Papa Pio XI. XXIII.201 A liberdade de fixar o conteúdo do contrato manifesta-se sob duas vertentes. . A uma. a cláusula de não indenizar. isto são as regras da justiça donde necessariamente resultará. a que se refere à Constituição Federal no art. Toma-se o contrato de adesão. art. 421). Sendo assim. 5º. Bem por isso. 10 Ordem pública e bons costumes Conceitos abertos. se encontrará por sua vez reconduzida a uma ordem sã e bem equilibrada. por força da função social do contrato. são os relativos à ordem pública e aos bons costumes. não fáceis de serem estabelecidos com precisão e nitidez. justo ou injusto. os contratos. repercutem socialmente. por identidade dialética guarda correlação com o princípio social da propriedade. na Encíclica Quardagesimo Anno: Enfim as públicas instituições adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum. pois ambos poderão produzir efeito cascata sobre toda a economia. o interesse coletivo poderá ser afrontado. inc. encontra limites na supremacia da ordem pública e dos bons costumes. contendo cláusula abusiva. diga-se preliminarmente. aos denominados contratos inominados ou atípicos. é lícito aos contratantes introduzirem no contrato alterações ou cláusulas que melhor se coadunarem com os seus interesses. A cada contratação por adesão. qual é a atividade econômica. e mesmo adotando novos tipos contratuais. O contrato. próprias da natureza jurídica do negócio jurídico que celebram. Urge considerar. dando origem. A duas. em que todas as pessoas estão expostas a sua oferta ou publicidade.

As leis que tutelam a ordem pública e os bons costumes são normas de direito objetivo que se impõem como preceitos rigorosos. Possuem uma obrigatoriedade incondicionada. 1980. Seu campo de ação é o reservado à autonomia privada. para que se relacionem em consonância às elevas finalidades que caracterizam o ideal da própria vida humana. 18 e segtes. os quais timbram a conduta das pessoas na vida familiar e social. a vontade geral.215 11 Distinção entre normas cogentes e dispositivas Sobre a distinção entre as normas cogentes e dispositivas. o ordenamento jurídico determina-lhes efeitos. pois apenas são aplicadas quando a vontade individual deixa de se manifestar. Não se confunde com a ordem jurídica. assegurando tranquilidade e segurança aos cidadãos e aos seus bens. por Caio Mário da Silva Pereira. da natureza das relações contempladas e das razões sociais determinantes de cada norma. uma vez que se referem ao recato das pessoas. denominadas de dispositivas ou facultativas. que. 215 BEVILAQUA.202 Por ordem pública entende-se a situação de legalidade normal. Sobre elas dizem os romanos: privatorum conventio iuri publico non derogat (a convenção dos particulares não derroga o direito público). por via de definição ou conceito geral. É da natureza de cada disposição. São. exercida pelo poder soberano do Estado e aceita pela comunidade ante o fato de criar condições essenciais a uma vida social conveniente. Ao lado delas existem outras. Vicente Ráo escreve: Não é possível indicar a priori. Clovis. p. outrora. mas deriva dela. destarte. é espécie. inderrogavelmente. no direito moderno. à honestidade das famílias e à dignidade ou decoro social. o legislador tende a imprimir esse maior grau de eficácia à disciplina de um número sempre crescente de relações. contudo. são as normas supletivas de direito objetivo. inferidos dos preceitos morais. eram regidas pelas normas meramente dispositivas do direito privado. atual. Rio de Janeiro: Rio. que. São chamadas de cogentes ou imperativas. insuscetível de alteração ou de inaplicação pela vontade dos que lhes estão subordinados. princípios condizentes com a moral e a ética social. 2 ed. Já os bons costumes são princípios reconhecidos e tutelados pelo direito. através das quais à vontade individual sobreleva-se. . Teoria geral do direito civil. todas as normas de ordem pública. submetendo ao seu comando a vontade dos particulares. Assim. mas permite que a iniciativa das partes altere esse tipo de relação de modo diverso. Certo é. que esse caráter resulta.

203 Por exemplo, a maior parte das relações de família é hoje regulada por normas de ordem pública, em especial as que, neste sentido, também se vem operando no direito obrigacional, em especial nos contratos de trabalho, de mútuo, de seguros, mesmo na compra e venda, na locação e em outros contratos mais; e igualmente sensível é a transformação, em curso, dos direitos reais e sucessórios, que sofrem, todos, inúmeras restrições, impostas à vontade das partes em benefício da comunhão social.216 Enfim, não há critério absoluto de distinção, contudo as normas cogentes, via de regra, são as constitucionais, as que se referem às bases econômicas ou políticas da vida social, como ainda as de organização da propriedade; outras vezes, são protetoras da pessoa na vida social, como as de capacidade; outras sancionam os direitos individuais e sociais, como as penais e processuais; ainda outras têm feição de polícia judiciária, sempre que rejeitam as ofensas aos bons costumes; por fim há uma classe que assume a feição de ordem pública, em razão de derivar, necessariamente, da essência de um instituto jurídico estabelecido, como aquela que impõe o dever de convivência dos consortes, consectários imediato do casamento.217 12 Obrigações principais e acessórias Dentro desse quadro é que se formam as obrigações e se pode afirmar que, ordinariamente, elas são autônomas, providas de existência própria, são as principais. Excepcionalmente, porém, há obrigações que dependem de outras, são as acessórias, aquelas cuja existência pressupõe a das principais. 13 Sumário da exposição Na aplicação dos conceitos expostos, reiteram-se as premissas da cláusula de não indenizar: a) É eleita pelas partes contratantes dentro do princípio da autonomia privada, por isso própria da responsabilidade civil contratual; b) Não pode contrariar a ordem pública e os bons costumes; c) Não pode modificar as normas cogentes ou imperativas, portanto seu âmbito de incidência são as normas dispositivas ou facultativas;
216

RÁO, Vicente. O direito e a vida dos direitos, 4 ed., anotada e atualizada por Ovídio Rocha Barros Sandoval. São Paulo: RT, 1997, p. 213. 217 BEVILAQUA, Clovis. Teoria geral do direito civil, 2 ed. atual. por Caio Mário da Silva Pereira. Rio de Janeiro: Rio, 1980, p. 19.

204 d) É uma obrigação acessória que adere à principal. 14 Conceito Praticado o ato ilícito, decorre como consequência natural das regras morais e da ordem jurídica, o dever de indenizar o dano dele originado, mas ao agente é permitido, eventualmente, invocar a cláusula de não indenizar para, dessa forma, eximir-se do ressarcimento. A cláusula de não indenizar pode assim ser conceituada como a convenção acessória à principal celebrada entre as partes contratantes, que estabelece a isenção da reparação de eventual dano, futuro e involuntário, por inexecução relativa ou absoluta de uma obrigação. É dizer, ficam arredadas as consequências ordinárias procedentes da inexecução ou da execução imperfeita de um contrato; logo, o devedor alforria-se da reparação do dano que, no futuro, vier a ocasionar involuntariamente no âmbito das relações contratuais. Cita-se, por exemplo, o recurso especial 13.027-RJ, da 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, relatado pelo Ministro Waldemar Zveiter: Danos causados a veículos, em estacionamento de condomínio, cuja convenção contém cláusula de não indenizar, não são ressarcíveis. Isto proque, tratando-se de direito disponível, a cláusula de irresponsabilidade é emanação da liberdade de contratar; todavia, sujeita-se às restrições impostas pela ordem pública. Só pode ser estipulada quando a regra legal aplicável, meramente supletiva da vontade das partes, admite livre manifestação destas (no mesmo sentido REsp. 168.346, rel. Min. Waldemar Zveiter, DJ 6.9.1999). 8 Denominação Cuida-se relembrar a distinção entre obrigação e responsabilidade. Aquela é o dever originário que tem por fonte a lei ou o contrato; esta é um dever sucessivo, decorrente da violação do dever originário. Só há responsabilidade quando do descumprimento de uma obrigação. Sendo assim, a cláusula de não indenizar não afasta a responsabilidade, apenas prevê, pela convenção das partes, a não reparação do dano pela violação da obrigação. Não se cogita de cláusula de irresponsabilidade, mas de cláusula de não indenizar. Não cabe confundir, destarte, as causas de irresponsabilidade com a cláusula de não indenizar. Nas primeiras afasta-se a própria responsabilidade, não há ato ilícito. Entre a ação ou omissão do agente e o dano experimentado pela vítima inexiste nexo de causalidade. Na segunda afasta-se, tão somente, a indenização do dano, fica presente o ato ilícito. Por outro ângulo, as

205 causas de irresponsabilidade fundam-se na lei; enquanto que a cláusula de não indenizar, no princípio da autonomia privada e na liberdade de contratar. 9 A incidência na responsabilidade contratual A cláusula de não indenizar não incide em matéria delitual, isto é, na responsabilidade civil extracontratual, pois as partes nada contratam. Aliás, admiti-la nesta seara, é enfraquecer o dever objetivo de conduta que a lei impõe na vida em sociedade. Seria como que convencionar, de modo geral, que a culpa não é culpa, e o mais grave, que o dolo não é dolo. A questão é, entretanto, controvertida. O mais insigne doutrinador pátrio de responsabilidade civil, José de Aguiar Dias, aceita a cláusula em matéria delitual, ao citar o exemplo dos irmãos Mazeaud, na qual o titular do direito de caça tem como prováveis certos danos às culturas ou plantações do respectivo terreno. O proprietário concedendo-lhe, porém, o direito de caçar, estará a lhe propor estipulação de não indenizar. Louva-se ainda de outra passagem, esta da pena de Josserand, que observa nada impedir que os vizinhos renunciem, por convenção, a demandarem por danos que nos seus respectivos terrenos causem animais de criação ou de caça. E acrescenta que a ordem pública não é transgredida por esse modus vivendi que, ao contrário, visa assegurar a harmonia da vizinhança.218 Já posteriormente, é peremptório: “Não se admite cláusula de exoneração de responsabilidade em matéria delitual. Seu domínio se restringe à responsabilidade contratual e nele mesmo sofre restrições.”219 Mais conveniente, assim a opinião dominante, que essa cláusula é própria da responsabilidade civil contratual.220 Não sendo prevista no Código Civil revogado, nem no atual, a doutrina e a jurisprudência buscam subsídios no direito comparado.
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DIAS, José de Aguiar. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade, 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 242. 219 DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil, 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995, vol. II, p. 671. Esta obra revista, atualizada de acordo com o CC de 2002, e aumentada por Rui Berford Dias, 11 ed., Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 906, acresce a expressão: “em princípio”, o que leva a entender que ameniza a afirmação original. 220 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil, 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991, p. 325 e ss. GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil: doutrina, jurisprudência, 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 744 e ss. CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil, 7 ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 497 e ss. VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil, 9 ed. São Paulo: Atlas, 2009, vol. 4, p. 61. GAGLIANO, Pablo Stolze e outro. Novo curso de direito civil, vol. III: responsabilidade civil, 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 118.

206 O Código Civil italiano estampa previsão expressa no art. 1.229, inserido que está em matéria contratual, por conseguinte refere-se ao devedor, dispondo sua nulidade em caso de dolo ou culpa grave. Nesse norte, é a jurisprudência francesa. Admiti-la na culpa grave e no dolo seria como que assegurar a impunidade às ações e omissões danosas de maior gravidade, o que malfere a própria ideia de ordem pública.221 Se o dolo é a intenção de causar o dano, admiti-la seria o mesmo que aceitar, da parte isentada, a contratação com a prévia intenção de não cumprir a prestação obrigacional; seria incentivar a má-fé. Se a culpa grave é a incivil ausência de vigilância, ou a correspondente falta extraordinária de atenção que se identificaria no caso de que qualquer pessoa pudesse prever o resultado, seria permitir que se atuasse na vida social sem a mínima solicitude, sem o mínimo desvelo ou cuidado de não produzir dano a outrem. E o neminem laedere é uma regra fundamental de toda sociedade civilizada, ou a “regra moral elementar”, no dizer de Georges Ripert.222 Demais disso, vem desde o Direito Romano a sentença: culpa lata dolus equiparatur. Acerca da culpa grave, Aguar Dias, arrimado em Cassvan, criva categoricamente: Admitir que, salvo prova do dolo, a culpa seja afastada pela cláusula parece-nos contradizer a própria ideia da ordem pública. Não é tanto em virtude da responsabilidade delitual, mas da necessidade de impedir o devedor de praticar negligencias por demais grosseiras – o que seria imoral – que se deve deduzir a proibição da cláusula.223 Sílvio Rodrigues é peremptório quanto ao dolo: Seria da maior imoralidade admitir-se a ideia de alguém fugir à responsabilidade pelo inadimplemento da avença, por sua deliberada e exclusiva decisão. Aliás, na hipótese a cláusula seria ineficaz em virtude do disposto no art. 115 do Código Civil [atual art. 122], que veda as condições potestativas. E arremata quanto a culpa grave: [...] parece imoral admitir-se a isenção de uma responsabilidade, quando o inadimplemento foi gerado em falta inescusável do contratante. Daí a razão

221 222

CAVALIERI NETO, Sergio. RIPERT, Georges. A regra moral nas obrigações civis. Campinas: Bookseller, 2000, p. 205. 223 DIAS, José de Aguiar. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade, 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 100-101.

. I. ao invés de deixá-lo exposto no meio fio da rua. Bueno Aires: Editorial BS Aires. 181-182. . Seria como assumir uma obrigação e se furtar a cumpri-la. [s/d]. mostrando-se aplicáveis à espécie as mesmas regras disciplinadoras do contrato de depósito. vol. Direito civil. III. 224 225 RODRIGUES. p. 4. vol. pois contraria à essência e ao próprio objeto da convenção (RT 670/73). Tratado de derecho civil argentino. Se alguém escolhe guardar o seu carro em um estabelecimento aberto ao público. assim inoperante a cláusula de não indenizar em caso de furto ou roubo.224 Em ambos os casos há uma concordância da moral e da ordem pública na imposição de uma censura à pertinência dessa cláusula exonerativa da indenização. São Paulo: Saraiva. no respeitante a seus efeitos pode-se dizer que a falta grave ao dolo se assimila. 80. 2000. É da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: O dever de indenizar decorrente da simples guarda da coisa. Voz discordante SALVAT.207 por que. Raymundo M.225 15 Outros limites A cláusula em testilha revela-se inoperante se afastar obrigações essenciais do contrato. A cláusula contratual que exclua a responsabilidade do estacionamento por danos eventualmente ocorridos no bem ali depositado não pode prevalecer. Sílvio. é porque pretende que seja guardado com segurança. t. p.

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