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serviço social e realidade

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SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE

UNESP – Universidade Estadual Paulista UNESP – São Paulo State University Reitor Prof. Dr. Marcos Macari Vice-Reitor Prof. Dr. Herman Jacobus Cornelis Voorwald Pró-Reitoria de Pós-Graduação Profa. Dra. Marilza Vieira Cunha Rudge Pró-Reitoria de Pesquisa Prof. Dr. José Arana Varela FACULDADE DE HISTÓRIA, DIREITO E SERVIÇO SOCIAL Diretor Prof. Dr. Ivan Aparecido Manoel Vice-Diretor Prof. Dr. Fernando Andrade Fernandes Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social Profa. Dra. Claudia Maria Daher Cosac Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social Prof. Dr. Pe. Mário José Filho

UNESP – Universidade Estadual Paulista UNESP – São Paulo State University

SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE

Serviço Social & Realidade

ISSN 1413-4233 Franca v.16, n.2 p.1-338 2007

SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE Comissão Editorial

Profa. Drª Claudia Maria Daher Cosac (Presidente) Prof. Dr. Pe. Mário José Filho Profa. Drª Maria Ângela Rodrigues Alves de Andrade Prof. Dr. José Walter Canôas Profa. Drª Raquel Santos Sant’Ana Profa. Drª Neide Aparecida de Souza Lehfeld Prof. Dr. Paolo Nosella (Universidade Federal de São Carlos) Profa. Drª Lizete Diniz Ribas Casagrande (USP) Profa. Drª Luzia Aparecida Martins Yoshida (UNICAMP) Profa. Drª Eloísa Cerdan Del Lama (Tradução CERDAN) Prof. Dr. Frederico A. Alem Barbieire (FEI/S. Bernardo do Campo/SP) Prof. Dr. Clifford Andrew Cliff Welch (State University Allendare/EUA)
Publicação Semestral/Semestral publication Solicita-se permuta/Exchange desired

Correspondência e artigos para publicação deverão ser encaminhados a: Correspondende and articles for publicacion should be addressed to:
Faculdade de História, Direito e Serviço Social Rua Major Claudiano, 1488 CEP 14400-690 - Franca –SP Endereços Eletrônico / email publica@franca.unesp.br

SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE (Faculdade de História, Direto e Serviço Social – UNESP) Franca, SP, Brasil, 1993 1993 – 2007, 1 – 29 ISSN 1413-4233

APRESENTAÇÃO
O Serviço Social neste início de milênio, vem passando por inúmeras transformações, que instigam a profissão sob múltiplos aspectos a buscar a compreensão das expressões e manifestação da questão social, para a leitura da realidade social. Novas temáticas e desafios postos aos sujeitos sociais são apresentados pelos autores desta edição. Os artigos trazem reflexões sobre o papel do profissional em lidar com as questões do cotidiano, com discussões sobre o mundo do TRABALHO – SAÚDE – SEGURIDADE SOCIAL – CIDADANIA, bem como a fundamentação teórica acerca da compreensão da realidade na contemporaneidade. Queremos aqui destacar a importância dos diversos autores na condução de suas reflexões, na direção de, a partir de uma determinada realidade eminentemente interventiva, buscarem através de suas pesquisas enveredar pelo caminho da construção do conhecimento “do” e “em” Serviço Social. Todos os textos tangenciam como pano de fundo as relações sociais no mundo do trabalho e a dimensão teóricometodológica do Serviço Social na efetivação dos direitos da população, enfatizando o compromisso da profissão. Podemos ainda dizer que os artigos aqui apresentados desencadeiam a discussão e o processo de reestruturação orgânica da política pública da Assistência Social, levando os leitores à reflexão para construírem um “lócus” privilegiado de intervenção; aproximando-se ao máximo do cotidiano da vida das pessoas.

Por último queremos parabenizar os autores pela abertura e disposição em socializar seus conhecimentos na perspectiva da interdisciplinariedade, gerando novos conhecimentos. Prof. Dr. Pe. Mário José Filho

Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – UNESP – Franca

.. • Os agentes multiplicadores e representantes de Associações do Brasil na área de anomalias craniofaciais: a inclusão digital em pauta The multiplier and representative agents of associations of brazil in craniofacial anomalies area: the digital inclusion on the agenda 87 Michelle Karen de Brunis FERREIRA......... • A percepção dos cuidadores sociais de crianças em abrigos em relação ao processo do cuidar Cláudia Maria Leal MARQUES..... Maria Isabel Silva APARECIDO. Maria Inês Gândara GRACIANO...... • Trabalho e qualidade de vida de pessoas com fissura labiopalatina inseridas no mercado profissional em Bauru 57 Work and quality of life of people with labiopalatine cleft inserted at the professional market in Bauru Lívia Ribeiro Silva dos SANTOS........................... 2007 129 7 . • A (des)proteção social do trabalhador: os casos de acidente de trabalho The social (dis) protection of the worker: the cases of labor accident 11 The perception of the social caretakers of children in shelters in relation to the process of taking care................. Maria Aparecida Tedeschi CANO............ 16(2): 1-338.... Silvana Helena Balthazar GAUDÊNCIO ..................................... Silvana Cunha KOHN..SUMÁRIO/CONTENTS • Perda da Identidade Civil: o resgate à cidadania Loss of the civil identity: the rescue to the citizenship...... Regina Célia Arruda de Almeida Prado VALENTIM ............ Silvana Cunha KOHN... Telma Sanchez VENDRUSCOLO ........... Maria Aparecida Mendes SOARES ......... (10 years later): psychosocial aspects of women with a double day of work 43 Gisele Aparecida BOVOLENTA. 23 “I remain concerned”............. (10 anos depois): aspectos psicossociais de mulheres com dupla jornada de trabalho Cléria Maria Lobo Bittar Pucci BUENO ..... Adalina Duarte de FREITAS..... Franca...... Eliana Fidêncio de Oliveira Serviço Social & Realidade...................... • “Continuo preocupada”......... Silvana Aparecida Maziero CUSTÓDIO....

........................................... Paulo Henrique Miotto DONADELI ............ 2007 8 ....MENDES ....... Claudia Maria Daher COSAC ......................... • O papel do CRAS na efetivação da seguridade social enquanto 195 sistema de proteção social The hole of CRAS in effectveness of the social security while a system of social protection Edilene ............ • Determinismo e práxis: o dualismo do método de Marx Determinism and praxis: the dualism of marx's method Gustavo .. Claudia Maria Daher Cosac ..................................................... • A responsabilidade social empresarial: em busca da eficiência The business social responsibility: in search of the efficiency 161 Patrícia Rachel Pisani MANZOLI....... MENEGHETTI 283 • A organização política do Serviço Social no Brasil: de “Vargas” a “Lula” The political organization of the social service in brazil: from “Vargas” to “Lula”.......................... Denise Freitas DORNELLES ..................................................................... LOPES 207 • Direitos humanos e pobreza na sociedade contemporânea: não há equação possível Human rights and poverty in the contemporary society: there is no possible equation................................................................... • As políticas municipais de apoio ao estudante de ensino superior e seus benefícios sociais The municipal politics of support to the student of higher education and their social benefits 181 Regina Maura REZENDE.................... 235 • Por uma abordagem contemporaneidade sistêmica na compreensão da 263 For a systemic approach in the understanding of contemporaneity Dimas dos Reis RIBEIRO.............................. Franca.. Serviço Social & Realidade.... 16(2): 1-338.........................

.......................................... 299 RESENHA/REVIEW 305 329 ALMEIDA 331 333 SOCIALIZANDO ......... 16(2): 1-338.............................. Normas para Apresentação de Original ................... Índice de Autores/Authors Index ........................................................................................................................... Diálogo sobre o conhecimento Marcelo de .......................................................... Serviço Social & Realidade................................................ Index 335 • MORIN...Maria Izabel da SILVA ..... Edgar........................................... Índice de Assuntos .................................................................... Franca............ 2007 9 . Subject ........

.

prevendo o acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde. a partir de dados imprecisos. investigar. ou ideativo inespecífico resgatar a sua condição de cidadão. Urgência/Emergência. o qual implanta ações em diferentes esferas. Identidade. Esses pacientes. INSTITUIÇÃO: Serviço Social – Unidade de Emergência Referenciada – Hospital de Clínicas/ UNICAMP. embasado no eixo da descentralização. devido ao impacto. bloqueando sua própria identidade. preconiza a saúde como direito do cidadão e dever do Estado. vítimas de violência urbana. e na SUAS (Sistema Único de Assistência Social) o que remete ao atendimento médico e social em grande escala e diversidade de proveniências e * Assistentes Sociais da Unidade de Emergência Referenciada. Resgate. tornando difícil o resgate à sua rede de relacionamento familiar e social. Cidadania. 2007 11 . o Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada. • Introdução A política de saúde brasileira. afetivo. se depara com uma grande demanda de pacientes que chegam sem identificação.PERDA DA IDENTIDADE CIVIL: O RESGATE À CIDADANIA Adalina Duarte de FREITAS* Maria Isabel Silva APARECIDO* Silvana Cunha KOHN* Silvia Helena Balthazar GAUDÊNCIO* • RESUMO: Pela especificidade do atendimento de urgência e emergência e alta rotatividade. A Unidade de Emergência Referenciada da UNICAMP (antigo Pronto-Socorro) realiza seus atendimentos baseando-se nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Pública. Cabe ao Serviço Social através de seu protocolo de atendimento. 16(2): 11-22. Serviço Social & Realidade. que avançou a partir da Constituição Federal de 1988. Franca. sendo planejada e sistematizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde). sofrem a perda de consciência por período indeterminado. pronunciados pelo paciente num momento de alteração comportamental. atribuindo responsabilidade aos governos Federal. municipalização e no controle social que se dá via conselhos. ou com distúrbios psiquiátricos. Estadual e Municipal. confusos. PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social.

etc. como todos os outros pacientes. • Ferimentos com arma de fogo. inicia-se com dados imprecisos e confusos pronunciados pelo paciente num momento de alteração comportamental. ir a busca de uma investigação que. etc. Pela especificidade do atendimento de urgência e alta rotatividade da Unidade de Emergência Referenciada. 2007 . são vítimas da Violência Urbana: • Acidente Automobilístico. • Quedas.casos. • Espancamentos. Todo paciente ao ser admitido na Unidade de Emergência 12 Serviço Social & Realidade. 16(2): 11-22. Esta demanda sem identificação. Franca. Saúde Mental: • Síndrome de abstinência. • Agressões. pelo impacto do choque. Os desvios na busca da identidade podem ser dolorosos. genericamente. • Infarto. • Atropelamento. bloqueando sua própria identidade e tornando difícil descobrir quais os componentes essenciais e quais os secundários de sua personalidade. • Acidente de Moto. • Transtorno Mental. • Ferimentos por arma branca. E alguns problemas clínicos: • Convulsões. Estes indivíduos. afetiva ou ideativa inespecífica. o Serviço Social desta instituição se depara com uma grande demanda de indivíduos que chegam sem identificação e que. sendo assim. • Mal estar súbito. • Tentativas de suicídio. • Perda da memória. cabe ao assistente social envolvido no processo de atendimento de emergência desvendar. muitas vezes. sofrem perda de consciência por período indeterminado. • Acidente de Bicicleta. etc. têm os mesmos direitos ao tratamento médico e à cidadania.

de enfermagem. além do acolhimento e responsabilização. 16(2): 11-22. especificamente ao profissional de Serviço Social. na situação de desconhecido. levando-o a incapacidade. 2007 13 . Justificativa O Programa de Desconhecidos desenvolvido pelo Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada da UNICAMP torna-se imprescindível. O trabalho exige uma ação rápida. considerando que. as quais atuam no processo saúde-doença. a alta rotatividade e a demanda significativa. um intenso trabalho de caráter investigativo e mobilizador. possibilitando o retorno do paciente ao seu convívio familiar. no atendimento de pacientes com perda. a Unidade de Emergência Referenciada.Referenciada. quando possível. mesmo que momentânea. tendo em vista a forma de atendimento caracterizado por urgências e emergências. apresenta-se como protagonista de uma realidade que quebra subitamente o cotidiano. encontra-se em atendimento de emergência e com uma súbita desorganização em nível de comportamento. humor ou pensamento. levantando dados. Franca. Sendo o acesso à saúde preconizado pela Política de Saúde brasileira a todos os cidadãos e. Porém. e do serviço social. contando com a equipe médica. sendo necessário que o Serviço Social aguarde o retorno do coma deste paciente. com o preenchimento do protocolo de desconhecidos e entrevista com o paciente. logo na chegada. cabe o resgate da identidade civil do paciente que. ao ser admitido. muitas vezes Serviço Social & Realidade. desenvolve um trabalho multidisciplinar. mesmo que momentânea. tornando toda e qualquer ação uma missão. de sua identidade civil. utilizando as mais variadas terapêuticas e tecnologias para o sucesso do atendimento. as ações e serviços de saúde são devidas em caráter de necessidade básica. de modo que este possa fornecer dados mais convincentes e claros que darão suporte para o intermédio junto aos recursos da rede. buscando oferecer respostas resolutivas e eficientes que reflitam positivamente na realidade social do paciente e na efetivação de sua cidadania. que envolve. pessoais e sociais. A eficácia deste programa é alcançada principalmente pelo comprometimento dos Assistentes Sociais no atendimento dos pacientes que são admitidos sem identificação e sem referências. de controlar suas atividades usuais.

no primeiro atendimento. ambulâncias de concessionárias das rodovias. para continuidade e complementação do tratamento. esclarecendo a possível situação causadora. Contatar e discutir casos com a equipe multiprofissional. Polícia Militar. bem como. buscando recursos nas instituições que possam auxiliar na identificação do paciente. que. principalmente se constatada rejeição familiar. não fora possível por ausência de recursos tecnológicos e terapêuticos especializados. Franca. Agilizar o atendimento médico. Trabalhar e oferecer apoio sócio-assistencial ao paciente e/ou família. ao receber pacientes vítimas de todos os tipos de violência. Somando-se a esta realidade. a Unidade de Emergência Referenciada. do atendimento médico e um retorno seguro do paciente para sua rede social quando na alta. exigindo permanência por um tempo maior na Unidade de Emergência Referenciada. Investigar casos sociais. oportunizando. Resgate. seu resgate à sociedade. Também é de grande valia os dados fornecidos pelos socorristas (SAMU. ambulâncias de outras localidades.).confusos. 2007 .. Metodologia 14 Serviço Social & Realidade. oferecendo suporte. para que tenham garantido um atendimento humanizado. recebe pacientes encaminhados pela rede. Guarda Municipal e outros. o Hospital de Clínicas da UNICAMP. supera as expectativas quanto ao número de atendimentos em nível regional e até mesmo nacional. sem famílias e sem residência fixa. como parte de um hospital de nível terciário. Objetivo O Programa de Desconhecidos desenvolvido pelo Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada tem como objetivo/meta atingir todos os pacientes que forem admitidos na condição de desconhecido. local onde o paciente fora encontrado e demais fatos. em um menor espaço de tempo. quando requer acompanhamento social de maior especificidade. 16(2): 11-22. das quais as de maior ocorrência são os acidentes de trânsito devido estar localizado nas imediações de três grandes rodovias do estado de São Paulo (Via Anhanguera.. para a agilização da intervenção social. Bandeirantes e Dom Pedro) e outras rodovias que cortam a Região Metropolitana de Campinas. mas que auxiliam na busca de suas referências familiares e sociais.

condições em que foi encontrado. será submetido à avaliação de várias especialidades médicas. CAP’s (unidades de referência secundária e intermediárias de saúde mental. Assessoria de Imprensa e Jurídica do Hospital de Clínicas da UNICAMP. utilizando como diretriz os contatos telefônicos com instituições que forneçam acesso a registros de entrada. Trajetória do Atendimento Hospitalar Em sua totalidade. ou a inclusão em outros recursos sociais. 16(2): 11-22. Estabelecer parcerias junto aos recursos da rede. Manter-se próximo ao paciente. PA (Pronto Atendimento) de Campinas e região. onde estabelecer-se-á parcerias com setores afins. reconhecendo a vital importância da mobilização e agilização nas buscas que facilitarão a identificação e origem do paciente. com equipe multiprofissional e tem como missão tratar de forma intensiva os portadores de transtorno mental grave com idade superior a 14 anos). na tentativa de colher dados que reforcem a situação social. psiquiatria. todo paciente que acessa a Unidade de Emergência Referenciada na situação de desconhecido. neuroclínica. imprensa escrita. Delegacias. Esclarecer e informar à equipe multiprofissional. localização. Outros. Hospitais e Centros de Saúde das localidades que os pacientes foram encaminhados. Polícia Rodoviária. neurocirurgia. Hospitais e Clínicas psiquiátricas. como: clinica médica. Franca. Distritos Policiais. ortopedia. tais como: Setor de Pessoas Desaparecidas. Estratégias de Ação Todo paciente ao ser admitido na Unidade de Emergência Referenciada na condição de desconhecido será incluído no programa. as demais Serviço Social & Realidade. verificando quem o socorreu. as providências sociais que estão sendo tomadas para o estabelecimento de critérios de ação. cirurgia geral. saída e permanência de indivíduos. falada e televisionada. Possibilitar o retorno do paciente junto à família e/ou à sua rede de relacionamentos. Operadoras de telefonia. Secretárias de ações sociais. 2007 15 . Igrejas. SAMIN (Albergues Noturnos de Campinas e região).Levantar a trajetória do paciente à Unidade de Emergência Referenciada. Mídia. Sociedade de Amigos do Bairro. Hospitais e Centros de Saúde de Campinas. Entrevistar e acompanhar os familiares. Tais especialidades encontram-se em atuação direta na Unidade de Emergência. ONG’s.

Referencial Prático do Serviço Social durante a permanência do paciente na Unidade de Emergência Referenciada O paciente que estiver: confuso desorientado ou não contatando: Relacionar. enfermagem. providências. dados de identificação do paciente. discussões com a equipe de apoio. bem como. Franca. contendo nomes. horários. nos casos imediatos relativos ao programa. informações. contatando setores afins. na tentativa de colher dados que reforcem a investigação social. horários e datas. identificação da equipe de apoio que está intervindo (médicos. Dar continuidade à investigação social. fazendo-o de forma clara. Manter-se próximo ao paciente o maior tempo possível. contatos telefônicos. 2007 . etc). 16(2): 11-22. entrevistas. permitindo diagnosticar o distúrbio orgânico e possibilitando a condução adequada do caso. identificação das pessoas com as quais se manteve contato telefônico. em impresso próprio do Serviço Social da UNICAMP. recepção. o que facilita o andamento e acompanhamento do atendimento por outro profissional da área que venha a incumbir-se. Orientar quanto aos benefícios previdenciários (se 16 Serviço Social & Realidade. identificação dos assistentes sociais que estão acompanhando o caso.especialidades que se fizerem necessárias serão bispadas. transporte. notificando todas as providências. Abrir Prontuário de Atendimento Social. O paciente quando contatando: Entrevistar o paciente e fornecer apoio sócio-assistencial. Contatar e convocar família e/ou colateral. através do repasse de informações colhidas com o paciente para a recepção da instituição. Entrevistar família e/ou colateral. Providenciar o preenchimento do Boletim de Atendimento de Urgência. Levar ao conhecimento da equipe multiprofissional as providências sociais que estão sendo encaminhadas para o estabelecimento de critérios de ação.

2007 17 . 4% transferidos para outros hospitais. orientar e esclarecer a família e/ou colateral quanto às normas da transferência. O trabalho mostra a importância da ação voltada ao resgate da cidadania da população vítima de violência urbana ou que apresentam transtornos mentais e clínicos. A faixa etária predominante é de 21 a 40 anos com 47% dos casos. apenas 11% ocorreram procura espontânea da família. convocar e interar a família e/ou colateral sobre a necessidade da transferência. Prevalecendo o gênero masculino com 75% e o feminino com 25%. acompanhamento familiar e/ou da equipe de enfermagem. avisar família e/ou colateral. Franca. dar suporte para a remoção do paciente através de transporte. equipamento especial (se necessário). sendo que 84% dos casos foram equacionados diretamente pela ação profissional do Assistente Social e 5% não foram identificados por envolvimento policial. Acompanhar família e/ou colateral fornecendo apoio sócioassistencial e orientações quanto às rotinas da Unidade de Emergência Referenciada e atividades do Serviço Social. Destes. 36% foram a óbito. endereço do hospital e o médico com o qual manteve contato. de outras cidades 7%. Transferências para hospitais de Campinas. atentar para os encaminhamentos e documentação do paciente. com média anual de 77 casos. 16(2): 11-22. Diante de Condutas Médicas: Internação em enfermarias do Hospital de Clínicas da UNICAMP – Passar o relatório do atendimento social realizado com o paciente ao Serviço Social da enfermaria para o devido acompanhamento. Intermediar contato médico/família.necessário). na perspectiva voltada Serviço Social & Realidade. 20% ficaram internados no HCUNICAMP. Resultados Nos últimos cinco anos de 2003 a 2007 atendemos 385 pacientes que deram entrada na UER como “Desconhecidos”. 14% encaminhados para internação em Hospital Psiquiátrico. 26% retornaram às suas famílias. Hospitais da localidade de origem ou hospitais para tratamento específico – Certificar vaga. Região Metropolitana de Campinas 27%. Sem residência fixa 6% e 5% sem dados. De Campinas atendemos 55%. Deste total.

Lei Orgânica da Assistência Social. to investigate. A. S. 2007. M. A Universalidade de acesso enquanto expressão do direito à saúde: A trajetória histórica do hospital das Clínicas da UNICAMP 1996-1997. starting from imprecise. due to the impact. 166 f. 152-164. confused data. Those patients. v. 8. the Social Service of Referenced Emergency Unit faces a great demand of patients that arrive without identification. Urgency/Emergency. publicada no DOU de 8 de dezembro de 1993. n. na responsabilização e resolutividade como princípios éticos que devem fazer parte do ideário profissional. S. It depends on the Social Service through its service protocol. p. de 7 de dezembro de 1993. Identity. p. 59. n. Revista Serviço Social & Sociedade. Dissertação (de Mestrado em Serviço Social) -Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Serviço Social & Realidade (Franca). 16(2): 11-22. Prática Psiquiátrica no Hospital Geral: Interconsulta e Emergência. M. H. BRASIL. M. Service. • ABSTRACT: For the specificity of the urgency and emergency and high rotation service.à humanização do atendimento em saúde. 11-22. B. Brasília/DF: Projeto Reforsus. Módulo-I: Os Sistemas de Saúde e as Organizações Assistenciais. n. CAMILO. D. R. 16. M. or with psychiatric disturbances. affectionate or idea alteration to rescue his/her citizen condition. TERRA. BOTEGA. Loss of the civil identity: the rescue to the citizenship. F. KOHN. KEYWORDS: Social Citizenship. blocking his/her own identity. R.742. 2007 . São Paulo: Cortez. São Paulo. Serviço Social do Hospital de 18 Serviço Social & Realidade. J. 2. 2002. Gestão Hospitalar. 1999. Presidência da República. suffer the loss of conscience for an uncertain period. victims of urban violence. V. turning difficult the rescue to his/her net of family and social relationship. A. S. I. S. Porto Alegre: Artmed. • Referências APOSTILA: Gesthos. Ministério da Saúde. V. Trajetória do direito à saúde: a experiência de um hospital-escola. N. 2. pronounced by the patient in a moment of unspecific behavior. F. ______. CAMILO. Rescue. GAUDÊNCIO. APARECIDO. FREITAS. R... Franca. 2006. no acolhimento. ed.. C.

Manual e Cartilhas da Política Nacional de Humanização – Humaniza SUS.br/saude/. Portal da Saúde. M. http://www. SUAS Sistema único de Assistência Social. 2007 19 . M.. A. I. 13-40. Andrade. L. G. Franca. A Evolução do Serviço Social no Pronto Socorro do Hospital de Clínicas/ UNICAMP: da atenção ao emergencial em direção à cidadania.. 1986. n.. Campinas..080/90 e Lei n. A. Serviço Social na Unidade de Emergência Referenciada: espaço construído e legitimado. São Paulo: Hucitec. 8.. Campinas: Oficinas gráficas da UNICAMP.gov. S. Sistema Único de Saúde (Comentários ã Lei Orgânica da Saúde.Clínicas da UNICAMP: Uma trajetória Histórica de Legitimidade. CAMPOS. p. CESCHINI. Campinas: Oficinas gráficas da UNICAMP. S. Revista Serviço Social e Saúde da Universidade Estadual de Campinas.mds. D. Revista Serviço Social e Saúde da Universidade Estadual de Campinas. Ano I. http://portal. C. BALTHAZAR. 35-48. 1995. Lei n. KOHN. n. FREITAS. SANTOS. Trabalho apresentado no V Simpósio de Serviço Social Nacional. S. C. Rio de Janeiro 1991. 1. p.. Serviço Social & Realidade. S.142/90).saude. S. 2002. T. 8.gov. L. 2006. 5. Documento interno: diretrizes do Serviço Social do Hospital das Clínicas da UNICAMP. M. CARVALHO.. ed. H. 16(2): 11-22. M. O. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ano V. 2. C.br /suas/. FRATTINI. DIRETORIA DO SERVIÇO SOCIAL DE CLÍNICAS. KOHN. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMBATE À FOME.

2007 .20 Serviço Social & Realidade. Franca. 16(2): 11-22.

SERVIÇO SOCIAL /UER PROTOCOLO DE DESCONHECIDOS Data de Admissão: ___/___/___ Horário: Nome: Pré-matrícula: MASC: FEM: COR: Estatura: Obeso: Médio: Idade aproximada: Cabelos: Curto: Barba: Olhos: Longo: Bigode: Magro: Quando trazido na UER Condições de higiene: Aspectos pés e mãos: Vestimenta: Aspectos Marcantes: Serviço Social & Realidade. Franca. 2007 21 . 16(2): 11-22.

2007 . 16(2): 11-22.--------------------------------------------------------------------------Assistente Social: 22 Serviço Social & Realidade. Franca.Local onde foi encontrado: ---------------------------------------Chegou na UER através de: SAMU: Resgate: Dersa: Auto-Ban: Viatura Policial: Guarda Municipal: Ambulância da cidade: Outros: Identificado através de: Procura espontânea da família: Quem trouxe o pcte na UER Mobilização de Recursos da comunidade: Divulgação na Imprensa: Polícia: Outros:.

A vulnerabilidade das famílias encontra-se diretamente associada à situação de pobreza e ao perfil de distribuição de renda no Brasil. a relação de gênero no cuidar e a falta de percepção das cuidadoras quanto às questões trabalhistas e o preparo profissional para o cuidado. Os Abrigos são instituições governamentais (ou não governamentais) responsáveis por zelar pela integridade física e Enfermeira. O referencial teórico embasou-se em autores que discutem a evolução histórica da assistência à criança. ** * Serviço Social & Realidade. CEP: 14025-220. PALAVRAS-CHAVE: Cuidadores Sociais. vítimas da violência e miséria social.A PERCEPÇÃO DOS CUIDADORES SOCIAIS DE CRIANÇAS EM ABRIGOS EM RELAÇÃO AO PROCESSO DO CUIDAR Cláudia Maria Leal MARQUES* Maria Aparecida Tedeschi CANO** Telma Sanchez VENDRUSCOLO*** • RESUMO: Esta pesquisa foi desenvolvida no município de UberlândiaMG. Professora Doutora da área de Fundamentos do Serviço Social na Universidade de Ribeirão Preto. O COTIDIANO. modalidade-análise temática. em um Abrigo não governamental. Foi utilizada a metodologia qualitativa. Enfermeira. que se sub-divide em: a rotina. A ESPERA e ADOÇÃO. O objetivo desta pesquisa foi o de conhecer a percepção dos cuidadores sociais com relação ao crescimento e desenvolvimento infantil e os cuidados que são oferecidos por eles às crianças institucionalizadas. • Introdução As crianças institucionalizadas em Abrigos são vítimas da miséria social. Pode-se perceber a ligação direta entre o trabalho doméstico das cuidadoras. Crianças. Professora Doutora Livre Docente da área Materno Infantil e Saúde Pública da Universidade de Franca. com a atuação com as crianças. Os resultados da análise do conteúdo evidenciam quatro núcleos de sentido: A CHEGADA. 2007 23 . a ignorância e negligência de suas famílias e esta é uma realidade presente nas famílias brasileiras. baseada na técnica de livre narrativa dos sujeitos a partir de uma questão norteadora: “Como é para você trabalhar aqui no Abrigo cuidando de crianças”. *** Assistente Social. que recebe crianças de 0 a 4 anos de idade. Abrigos. Mestre pela Universidade de Franca. 16(2): 23-42. o abandono e as leis de proteção. que envolve a violência. A análise dos dados foi feita através da análise de conteúdo. Franca. a recreação e os cuidados.

principalmente as crianças que estão em fase de crescimento e desenvolvimento bio-psico-social.emocional de crianças que necessitem temporariamente. acolhimento. O vínculo é um aspecto tão importante no desenvolvimento das crianças que é garantido pelo Estatuto da Criança e Adolescente no Capítulo III-Do Direito a Convivência Familiar e Comunitária-Art. O acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança é o principal indicador de suas condições de saúde. 16(2): 23-42. 24 Serviço Social & Realidade. Existe um acolhimento provisório da criança abandonada e há uma preparação e acompanhamento para que retornem futuramente à família de origem ou façam parte do processo de adoção dentro de um dispositivo jurídico-técnico que tem o objetivo de “proteger a infância” (WEBER. toda a sociedade encontra ou deveria encontrar na família o seu ponto de partida. 19: “Toda criança tem direito de ser criado no seio de sua família e. dentro da nossa competência técnica entendemos que a criança é um ser em desenvolvimento físico. segurança. social. 2005). excepcionalmente. 1990. relação afetiva mãe-filho e rompem os laços de convivência familiar e comunitária. se afastarem do convívio familiar. assegurada a convivência familiar e comunitária” (BRASIL. emocional. p. em família substituta. 2007 . Estas crianças institucionalizadas necessitam de uma família para recebê-las dentro de um tempo menor possível. cultural e portanto o eixo norteador de todo o cuidado à saúde é o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento. O núcleo familiar é de significativa e de incomensurável importância para o ser humano. 20). Suas necessidades básicas são atendidas por profissionais denominados Cuidadores Sociais. aos cuidadores sociais orientando-os promovendo aquisição de competências para atender as necessidades das crianças que incluem: comunicação. mas atuação junto à família. Em nossa vivencia profissional como profissional de saúde de uma equipe multidisciplinar da rede de atendimento integral a saúde da criança. higiene. compete ao enfermeiro não só acompanhamento e avaliação. Na institucionalização em Abrigos estas crianças passam a viver sem a referência do que é ter uma família. Franca. oferecendo toda assistência e vínculos que só a família pode oferecer. ECA.

Todos foram esclarecidos previamente sobre os objetivos da pesquisa e também sobre a necessidade de gravação das mesmas. disciplina e auto-estima. Franca. percebemos que apesar da boa vontade. 16(2): 23-42. A pesquisa foi realizada na cidade de Uberlândia. Diante do exposto o nosso objeto de estudo nesta pesquisa. tenham uma melhor qualidade de vida. Fomos recebidos no abrigo. será o cuidado que é oferecido pelos cuidadores sociais. em dia e horário previamente agendados e houve clima informal e descontraído. aguardando o retorno à convivência familiar e comunitária ou sendo encaminhadas para adoção. afeto. Objetivo Conhecer a percepção dos cuidadores sociais com relação ao ingresso das crianças nos Abrigos e os cuidados oferecidos durante o processo de institucionalização. Para Cruz Neto (1994). p. saúde bucal. às crianças institucionalizadas nos Abrigos. Com esta pesquisa. esperamos estar contribuindo para que as crianças que estão abrigadas. Assinaram o Termo de Consentimento Livre e esclarecido. 120) muitas informações sobre a vida não podem ser quantificadas e precisam ser interpretadas de forma muito mais ampla que circunscrita ao simples dado objetivo. Segundo Triviños (1994. Fizeram parte deste estudo. localizada na região nordeste do Triângulo Mineiro. nutrição. a apresentação da proposta do Serviço Social & Realidade.imunizações. sono. a abordagem qualitativa. Metodologia Para desenvolvermos esta pesquisa. considerada a terceira maior cidade do estado de Minas Gerais. os cuidadores dos Abrigos não estão capacitados dentro da área da saúde para acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças. uma vez que entendemos que o processo de cuidar é um processo interativo entre quem cuida e quem é cuidado. 2007 25 . segurança sexualidade. três cuidadores sociais do Abrigo que é mantido por uma ONG e supervisionado pela Vara da Infância e da Juventude do município. influenciado por fatores políticos. Por outro lado. entendendo que esta facilitaria a compreensão de um aspecto social. buscamos como referencial metodológico. culturais e morais que em uma abordagem quantitativa perderia muito seu significado.

Priorizamos neste trabalho a entrevista semi-estruturada. 2007 . que realizamos através da transcrição das entrevistas gravadas e leitura dos textos transcritos. classificamos os dados organizando os núcleos de sentido e a seguir realizamos a análise final. pois permite que se capte a informação desejada. Franca. grau de escolaridade nível médio. número de filhos e tempo de atividade no Abrigo. com idade entre 20 e 42 anos. A chegada e os maus tratos Neste Núcleo de sentido vamos retratar o ingresso das crianças no Abrigo. A análise dos dados foi feita através da analise de conteúdo. Análise dos Dados Para esta etapa da investigação. além de possibilitar que o entrevistado possa se expressar livremente sobre o tema proposto. Resultados e Discussão Fizeram parte da pesquisa. 16(2): 23-42. seguimos os passos propostos por Gomes (1994) de ordenação dos dados. apud MINAYO. somente uma delas não tem filhos e o tempo de atuação profissional na instituição variou de um ano e um mês a um ano e seis meses. que a violência e os maus tratos no 26 Serviço Social & Realidade. estabelecendo articulações destas com a teoria. 2. método que se propõe a enxergar o mundo e compreender o seu contexto (BARDIN.O Cotidiano. percebemos pelas falas dos atores sociais. que serão apresentados a seguir. Os resultados da análise do conteúdo das falas destas cuidadores sociais evidenciaram os seguintes núcleos de sentido: 1A Chegada e os maus tratos. sujeitos da nossa pesquisa. três cuidadores sociais do Abrigo. Após várias leituras. utilizando os fragmentos das falas do atores sociais. como instrumento de coleta de dados. uma vez que os mesmos devem ser esclarecidos sobre aquilo que se pretende investigar e as possíveis repercussões da investigação. A seguir apresentamos o seguinte questionamento: Como é para você trabalhar aqui no Abrigo cuidando das crianças. 1996).trabalho aos participantes da pesquisa é importante. na qual utilizamos os pressupostos da análise temática. Elaboramos um roteiro com dados sobre o estado civil. grau de escolaridade.

fraqueza e inferioridade (IOSSI. Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (CECRIA. exposto ao abuso de drogas. baixa auto-estima. como pela forma como esta se estrutura para sobreviver e relacionar-se. a desigualdade social.. chegou um aqui que foi espancado. Franca. ambiente conflituosos. um acobertamento da violência ai praticada assim como do agressor. ambivalente em seus sentimentos e condutas. desemprego. dominação. 2004). A violência contra as crianças é um grave problema em nosso país. respeito. Para Iossi (2004) muitos problemas têm dificultado o dimensionamento da violência no Brasil. pela falta de condições da família.núcleo familiar são alguns dos fatores. nossa é dolorido. 1997) são das condições estruturantes materiais e de poder da sociedade humana que decorre a possibilidade ou não da violência contra a criança e adolescente. O ser humano é complexo e contraditório. capaz de construir e de destruir. C-2... desde as diferentes definições do problema.Você vê muita coisa assim revoltante. a diversidade de fonte de inquérito. muitas vezes por cumplicidade ou medo. Violência esta gerada pelas condições de miséria em que vivem as famílias brasileiras que vivenciam no cotidiano.Tem crianças que vieram pra cá por causa dos maus tratos. como podemos ver a seguir: C-1. Para o Centro de Referência. e onde se propicia o seu desenvolvimento.. deixando de ser somente em nível social-jurídico incluindo-se também no universo da saúde pública. O tipo mais freqüente de maus tratos contra as crianças é a violência doméstica e que muitas vezes se prolonga por muito tempo uma vez que a família é o “lócus privilegiado” que protege as crianças. percebidos por eles na chegada a instituição. Em Serviço Social & Realidade. 2007 27 . transtornos de conduta é neste contexto que as crianças são vítimas em potencial. analfabetismo. pois os valores culturais definem o papel do adulto como sendo de força. passividade. até a inexistência de informações populacionais. Pela exclusão que comportam. superioridade e poder social da criança como sendo de submissão. porém há um silêncio. As relações de poder desfavorecem as crianças. 16(2): 23-42. Sobrevivência e relacionamento familiar estão intimamente ligados.

62. 2005). dos quais 23. O Cotidiano Este núcleo retratado nas falas dos atores sociais configurou-se em três subtemas que foram construídos a partir das significações dos discursos dos atores envolvidos: Rotina. 2007 . 8.condições sociais de escassez. tipo de abuso físico sofrido. ou seja. Franca. não conversam até se acostumarem com a convivência aqui no abrigo. 55). Segundo Roque (2006).58% de violência física. Em nossa pesquisa os atores sociais apenas citaram a violência física. que passaremos a discutir a seguir. com as funcionárias e as crianças. podendo passar por danos e ferimentos graves. geralmente do adulto contra a criança. 16(2): 23-42. aproximadamente 245 casos. no município de Jardinópolis-SP. Recreação e Cuidados. C-1.9% de negligência e 113. causando-lhe desde leva dor. deixando seqüelas.No comportamento de algumas crianças por ter visto as brigas dos pais. De certa forma os danos físicos e emocionais também podem ser irreversíveis e se manifestarem em idades mais adiantadas. construir e de respeitar o outro ficam ameaçadas.21% foram de violência doméstica. entre 1995 e 2005. de privações e de falta de perspectivas. educativa e social. Este estado de privação de direitos ameaça a todos na medida em que se produz uma desumanização generalizada (KALOUSTIAN. O impacto dos maus tratos sobre as crianças é influenciado por fatores como a idade. são agressivas. arredias. p. com objetivo de atender as necessidades das crianças carentes. as ações que tramitaram na Instância da Justiça da Infância e da Juventude apontaram que dos 2977 processos. é uma entidade de ação filantrópica. grau de desenvolvimento. freqüência duração. as possibilidades de amar. Rotina As crianças atendidas no Abrigo têm idade de zero a quatro anos. aquela que há uso da força física. 2002. tem 28 Serviço Social & Realidade. gravidade do abuso e relação existente entre a vítima e o agressor (PIRES.51% foram de violência sexual.

Após algum tempo eles acostumam e até sabem a hora da gente de ir embora. apresenta necessidades distintas. a transferência da criança de uma instituição para outra são fatores que ocorrem comumente e que acarretam a descontinuidade dos laços afetivos. respeito e dignidade. a falta de consenso sobre o processo educacional a ser adotado. O retardo no desenvolvimento Serviço Social & Realidade. A criança. 36). dependendo de sua faixa etária e de suas vivências pretéritas. 16(2): 23-42. escovar os dentes. mas sem vínculo com nenhuma religião específica. 1995. Na fala dos atores sociais eles retratam: C 1. e o método empregado pelo programa de abrigamento nem sempre atende de forma personalizada essa demanda. rezo com eles e mais cuidar deles. põe para dormir. As crianças institucionalizadas sofrem uma rotina artificial de relações estereotipadas que fala por elas. Se vem substituir. 2007 29 . sistematizadas. A submissão às rotinas e o convívio restrito as mesmas pessoas. direito a convivência familiar e comunitária. comprometem o desenvolvimento da criança além de limitar suas possibilidades e oportunidades de desenvolver relações sociais amplas e diversificadas. C-2 Cuido deles á noite. as oscilações técnicas no atendimento. As rotinas deveriam ser organizadas. direito a liberdade. Franca. cria muitas confusões na cabecinha deles. depois a gente volta dá o banho nos maiores e o lanche deles. C-1 Bom os cuidados a gente chega de manhã dá o banho nos menores de zero a dois anos e depois a mamadeira. Na fala dos atores sociais a rotina é simples e se desenvolve normalmente. Nos Abrigos. as crianças perguntam se não está cansada. p.O rodízio por turno.orientação de base cristã. de seus conteúdos individuais e da possibilidade de construção de vínculos afetivos (WEBER. buscando garantir condições peculiares e direitos ao desenvolvimento. privando-as de seu espaço subjetivo. a mudança dos cuidadores primários da criança. enquanto os maiores continuam dormindo.

2006). o brincar como experiência criativa na continuidade espaço-tempo. Os laços construídos nas instituições revelam-se frágeis e inconsistentes. 16(2): 23-42. então é difícil. Franca. A criança precisa de atenção diferenciada para satisfazer suas necessidades individuais por afeto e estimulação. por exemplo. sobrando pouco tempo para brincar com as crianças. Recreação A recreação. O brincar facilita o crescimento e. dificultando a formação do vínculo afetivo. muitas atividades essenciais como alimentação. As cuidadoras reconhecem essa necessidade da criança. faz parte do universo infantil. A gente não tem um projeto pra fazer com eles porque são duas cuidadoras de manhã e uma enfermeira. arrumar um projeto pra brincar com eles. 1975). A criança abrigada demora em demonstrar sinais de formação de apegos sociais específicos (TJRGS. além do número insuficiente de 30 Serviço Social & Realidade. é uma forma básica de viver (WINNICOTT. Se a ruptura dos vínculos iniciais é prejudicial. entreter-se. O método empregado pelo programa de abrigamento dificilmente garante o atendimento a essa demanda de forma personalizada. Na relação cuidadores sociais e as crianças as tarefas do dia a dia. o brincar conduz aos relacionamentos grupais. o divertir-se. atenção e afeto. o número de crianças atendidas dificultam o comportamento de apego. portanto a saúde. 2007 . a continuidade dessas rupturas é ainda pior. A recreação retratada nas falas dos atores sociais ocorre no cotidiano das crianças de maneira bastante diversificada pelos horários e cuidadoras e com certa dificuldade: C-1 Quando não está frio a gente leva para fora dar banho de sol e quando está frio ficamos brincando na sala de televisão. do ser criança.cognitivo e o afetivo de uma criança abrigada por longa data denotam malefícios da institucionalização prolongada. gracejar. não dá para atender todas as crianças da mesma forma com o mesmo carinho. mas também sabem que são muitas crianças.

mas a partir das 19h00min é possível elaborar jogos. lazer a ser desenvolvido no dia a dia. Este contexto é retratado nas falas dos atores sociais a seguir: C. temores e desejos que elas não conseguem exprimir através da linguagem. animais brincadeira do dia a dia. com bola. que se refere ao ambiente externo. pipa. Nos Abrigos o cuidado e atenção individual ficam limitados em função do número de crianças que necessitam de atendimento em todas as suas necessidades básicas e o número insuficiente de cuidadores para desempenharem esta função. contar estórias. etc. 16(2): 23-42. Outro aspecto que chama atenção nesta fala é que não existe um projeto de recreação. A importância do brincar aparece na fala de outra cuidadora: C-3 Tem a hora do lazer deles. A falta de tempo. em vez de ser considerado somente como atividade residual. de um espaço para as brincadeiras também aparece na fala desta cuidadora. Entendemos que seu plantão é noturno. entre outros. O jogo/brincadeira é terapêutico em qualquer idade. mas mesmo neste espaço a gente tem pra brincar: pipa. Franca. o espaço é pouco. Ele proporciona um meio para liberar a tensão e o estresse encontrados no ambiente. 2007 31 . Através do jogo/brincadeira. Cuidado Todos os atributos do cuidar são essenciais no processo de desenvolvimento da criança. Brincando aprende-se a conciliar de forma efetiva a afirmação de si mesmo á criação de vínculos afetivo e duradouro. as crianças são capazes de se comunicar e demonstrar suas necessidades. Devido sua importância a recreação deve ser inserida nas atividades do dia a dia das crianças. No nosso entendimento ele é tão necessário quanto se alimentar.A gente dá o carinho também na medida do possível porque não dá pra dar para todos de uma Serviço Social & Realidade.1. Brincar permite desenvolver percepções sobre as outras pessoas e compreender as exigências de expectativa e tolerância.profissionais por plantão. a convivência ao ar livre. bola.

em nossa percepção como pesquisadora. no seu crescimento e desenvolvimento.Estas crianças daqui tem que ser mais especiais que em casa.3.Eu assim. paciência. é hora disso. O cuidado desenvolvido pelas cuidadoras é comparado sempre no cuidado que tem com seus filhos em casa.vez e a gente trata eles como se fossem nossos. porém deixam bem claro que “são muitos e não tem como”. o cuidador retrata em sua fala o cuidado envolvendo: carinho. controles especiais com sua saúde entre outros o que irá favorecer o atendimento a necessidade da criança de forma individualizada. estabelecendo vínculos afetivos. preferências. C. precisa de muito carinho. muita paciência e muito carinho. mas não é daquele jeito nosso. 16(2): 23-42. limitando algumas atitudes das crianças no dia a dia e relacionam este cuidar aqueles com os filhos em casa com está apontado nas seguintes falas: C. Franca. Passo pra eles o carinho. além do carinho e do amor. uma vez que as atividades dos cuidadores em relação aos cuidados com as crianças se organizam nas vinte e quatro horas. da compreensão temos que dar limites na hora certa. educação. no contexto do brigo o cuidado se torna mais abrangente indo além dos cuidados primários. o número de cuidadores em relação ao número de crianças.Trabalho com carinho. promoção à saúde. eu me espelho em casa com os meus filhos e tento tratar eles da mesma forma. não é hora pra isso. C. torna-se necessário redimensionar. porque são muitos e não tem como. não pode fazer isso. No processo do cuidar percebe-se que os cuidados primários são fundamentais para o bom crescimento e desenvolvimento da criança e a qualidade dos cuidados 32 Serviço Social & Realidade. a hora do educar e tem a hora do castigo porque onde não tem disciplina não tem como ter uma convivência e então me espelho em casa e trato eles aqui. conheça a criança nas diferentes faixas etárias e suas peculiaridades tais como: intolerância alimentar. 2007 .2. hábitos de sono e de eliminações.1. A importância do cuidado na vida das crianças se faz no nível de prevenção. atenção. Neste contexto faz-se necessário que o cuidador. permitindo o engajamento na relação cuidador-criança.

interação. com identidade própria. condições essenciais ao adequado crescimento e desenvolvimento destas crianças. os atores sociais fragmentam em dois subtemas: Retorno ao Lar e Adoção. que cuidam deles atendendo suas necessidades na medida do possível. p. afeto. Franca. neste sentido envolvem fatores e situações que muitas vezes requer estudos familiares e processos judiciários que são mais demorados. Incluir os Abrigos em um compromisso com a desinstitucionalização é um desafio. o caráter dos abrigos em ser uma medida provisória e excepcional e de promover a reintegração social é processo complexo. O livro-relatório “O direito à convivência familiar e Serviço Social & Realidade. os entendem. as razões da institucionalização são essenciais para se promover a reintegração social. Retorno ao lar Compreender e cumprir o ECA é um grande desafio para Abrigos. 2004. perceber. A criança abrigada por direito deve ter possibilidade de retornar a sua família de origem ou conviver em família substituta. A reintegração social deveria ocorrer desde o ingresso da criança na instituição. 2007 33 . embora lhes falhe alguns conhecimentos básicos de alimentação de crianças. conhecer a história da família – constituição dinâmica. Pensamos que neste aspecto as cuidadoras se desdobram para oferecer o melhor de si mesmas.dispensados as crianças são de extrema relevância para nossa pesquisa. A contextualização deste núcleo é de alta complexidade. 16(2): 23-42. pois os subtemas retrataram a reintegração familiar e o processo de adoção. A espera Neste núcleo de sentido. A criança necessita estabelecer relações afetivas com os cuidadores e precisam deles para se estruturar como sujeito. pois há necessidade de um trabalho de reorganização da família de origem. são os cuidadores que os escutam. que lhes dão carinho. que lhes proporcionam oportunidades seguras de explorar e conhecer o mundo que as rodeiam. As maiores dificuldades para se alcançar esse objetivo são relacionadas à resistência dos dirigentes e demais funcionários dos abrigos quanto à função social do abrigo no contexto das políticas públicas atuais (IPEA/CONANDA. 374).

O impacto de um período de institucionalização prolongado 34 Serviço Social & Realidade.comunitária: os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil” retratam o perfil das crianças abrigadas em relação á família: 58. 2007 . 60 e 65). 22. promovendo a reinserção deles. diante deste quadro é possível promover a reintegração social possibilitando a criança de usufruir o convívio com sua família de origem mesmo vivendo em um abrigo. a assistente social vem acompanhando até certo tempo. Franca. p. 16(2): 23-42. 5. antes de terem sido analisadas as demais opções viáveis para evitar a institucionalização de crianças e adolescentes (IPEA/ CONANDA. a existência de crianças e adolescentes colocados em Abrigos fora de seus municípios.Alguns vem para o abrigo e são adotados outros a justiça dá uma chance para os pais. aí o juiz devolve. manter estar convivência diante de possuírem família é uma realidade e direito constituído pelo ECA. a escassez de fiscalização das Instituições de Abrigos por parte do Judiciário. porém por impedimento judicial não mantém vínculo. num total de 86. a inexistência de profissionais capacitados para realizar intervenções no ambiente familiar dos abrigados. o entendimento equivocado por parte dos profissionais de abrigos de que a instituição é o melhor lugar para a criança.8% tem família. Neste relatório segundo o Comitê para Reordenamento de Abrigos alguns fatores são determinantes para permanência prolongada de crianças e adolescentes nestas instituições.7% tem família e sem vínculo. mas demora um pouco. do Ministério Público e dos Conselhos Tutelares.2 % das crianças e adolescentes abrigados têm família e mantem vínculo. Alguns desses fatores vêm retratados na fala dos atores sociais da nossa pesquisa: C. aí conforme for reagindo a criança e os pais. 2004. a ausência de políticas públicas de apoio às famílias. entre os quais podem ser citados: o acolhimento de crianças e adolescentes nos abrigos sem decisão judicial.7% crianças abrigadas com família. e a utilização indiscriminada da medida de abrigamento pelos Conselhos Tutelares.1. o que dificulta o contato físico com a família de origem. a demora no julgamento dos processos por parte do Judiciário.

Torna-se necessário a intervenção do trabalho da equipe técnica que deverá ser dinâmico. atitude deverá ser de escuta atenta. compreensiva.Uns ficam aqui. a família tem problemas com a justiça e tem que resolver antes. torna-se necessário que o desenvolvimento deste trabalho seja o mais precoce possível. conhecer suas idealizações.afeta a criança no seu crescimento e desenvolvimento e sua sociabilização é um fator importante que merece reflexão. Este contexto vem relatado nas falas dos atores sociais desta pesquisa: C. ressaltando neste estudo que a criança é a maior interessada em retornar ao seu lar. 16(2): 23-42.2.do abrigo e perspectivas de futura para sua vida são essenciais para que ocorra a saída do abrigo com uma preparação gradativa e o menos traumática possível (MOTTA. e tem os que aguardam adoção. retratado na fala dos atores sociais desta pesquisa: C. interdisciplinar. referências de família: como viveu. A desinstitucionalização é um processo bastante complexo.3. a família. um parente ou avó. outros são adotados e outros vão para outros abrigos. CECIF. analítica e avaliativa buscando meios adequados para alcançar o objetivo de desinstitucionalizar a criança definitivamente. há ausência de uma política de desinstitucionalização da Serviço Social & Realidade. para que o abrigo cumpra com seu papel de proteção e em caráter temporário dessas crianças. Franca. há necessidade da realização de um trabalho com a família de origem objetivando sua reorganização. sentimentos em relação ao abandono.Alguns tem que esperar o pai entrar para pedir a guarda de volta. 2007 35 . O acompanhamento de crianças no processo de desinstitucionalização se faz de forma isolada e fragmentada. Porém para esta pesquisadora. o pai. o comprometimento dos pais em quererem o retorno da criança ao lar é prioritário no cotidiano dessas crianças. cada situação em particular é avaliada conforme a necessidade do momento o que não possibilita um parecer técnico efetivo. 2002).

porém a realidade retrata que as crianças ficam por longo tempo nos abrigos. inclusive sucessórios. (BRASIL. ocorre um cadastramento dos casais. ECA. para que possam promover e manter o direito a convivência familiar.-46: “será precedida de estágio de convivência com a criança ou adolescente. Existem crianças para serem adotadas nos abrigos. 1991).-48: “é irrevogável”. 16(2): 23-42. a intervenção da Vara da Infância e da Juventude não pode exercer o papel somente de fiscalizador há necessidade de ter o papel de parceiro. a integração de várias entidades de apoio para que atuando conjuntamente implementem medidas que atendam o direito dessas crianças á reintegração familiar. com os mesmos direitos e deveres. 2004. A adoção é garantida pelo ECA Art. não ocorre um cadastramento das crianças que estão aptas para serem adotadas. Franca. desde seu início até sua conclusão. p. Adoção As crianças institucionalizadas são acolhidas provisoriamente em abrigos como medida de proteção em curto prazo. Por mais que o poder judiciário se esforce. pelo prazo que a autoridade judiciária fixar. 2007 . poder familiar constitui um conjunto de direitos e deveres dos pais em relação aos seus filhos (PERNAMBUCO. Art. até que as autoridades competentes da Vara da Infância e Juventude deliberem judicialmente para que possam ser adotadas. Torna-se de extrema importância buscar soluções que apóiem os abrigos. somente aquelas cujos pais sejam desconhecidos ou que tiveram decretado a perda do poder familiar por sentença judicial. apesar do processo de adoção visar a criança como o maior interessado. Não são todas as crianças institucionalizadas que estão inseridas no processo de adoção.criança o que dificulta o processo de reintegração familiar. observadas as peculiaridades do caso” e Art. desligando-o de qualquer vínculo com os pais e parentes”. nem sempre consegue atender as demandas que lhe chegam e o que se observa é uma demora no processo de adoção. 36 Serviço Social & Realidade.-41: “atribui a condição de filho adotado. 11). estreitando as relações com as instituições e trazendo o Poder Público para uma discussão sobre a atuação em relação às políticas públicas que poderão ser implementadas visando atender o direito das crianças de reintegração familiar.

medo de adotar crianças sem saber a origem de seus pais biológicos. Segundo Relatório da Vara da Infância e Juventude de Belo Horizonte em 2003 dos 176 casais inscritos o perfil das crianças pleiteadas em relação: • Faixa etária de zero a um ano-61. de acordo com as opiniões de boa parte da população encontradas na pesquisa. 2005. as pessoas: teriam medo de adotar crianças mais velhas pela dificuldade na educação. pois a “marginalidade” dos pais seria transmitida geneticamente. pensam que uma criança adotada. A adoção hoje implica necessariamente em adoções chamadas tardias. não relatei todo o teor da pesquisa e procurei relatar algumas opiniões que mereceram por Serviço Social & Realidade. indicam alguns determinantes para este desencontro de crianças institucionalizadas e postulantes a adoção. teriam medo de adotar crianças que viveram muito tempo em orfanatos pelos “vícios” que traria consigo. Na fala dos atores sociais desta pesquisa também se preocupam com a demora do processo: C. • Sexo-feminino-46%. • Cor . 2007 37 . p.porém muitas delas não têm o perfil das preferências dos casais que pretendem adotá-las. medo que os pais biológicos possam requerer as crianças de volta.Eu acho errado. Diante desta realidade percebemos que as crianças que não estão contempladas neste perfil terão muitas dificuldades de encontrarem uma família que as adote e acredito este seja um dos fatores que contribua para a demora do processo de adoção das crianças abrigadas.optaram exclusivamente por crianças de cor branca-35.9%. porque à medida que vai passando o tempo as pessoas não querem mais adotar as crianças maiores.2%. 77). 16(2): 23-42. Em pesquisa realizada com a população em geral na cidade de Curitiba. de crianças mais velhas. aí elas vão ficando aquelas crianças revoltadas. tristes e até chora e dizem porque minha mãe não me busca? Porque ninguém me quer? É triste. cedo ou tarde traz problemas (WEBER. Franca. porém os mitos que constituem a atual cultura da adoção no Brasil apresentam-se como fortes obstáculos à realização deste tipo de adoção.1.

isto atrapalha. participação fóruns. acho que demora demais a liberar. Vê a família que vai adotar a criança demora muito. que na nossa percepção desenvolvem suas funções de forma empírica. panfletos. pois acredito que muitas destas opiniões poderiam ser modificadas através de esclarecimentos com campanhas. os caminhos são tortuosos e cheios de entraves. Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária: a adoção seja medida excepcional. não podemos colocá-la como a solução para resolver os problemas das crianças institucionalizadas. 2007 . experienciada na sua vida cotidiana. mas com certeza representa um dos caminhos para garantir a criança o direito de ser criado e educado por uma família. 44). que debatessem o tema. 2006. Neste contexto os atores sociais desta pesquisa percebem que há famílias querendo adotar e crianças para ser adotadas. 16(2): 23-42.2.parte desta pesquisadora maior relevância. A adoção é um processo delicado. Considerações Finais No universo do Abrigo as crianças são cuidadas pelos cuidadores sociais. Franca. p. realizada apenas quando esgotadas as possibilidades de reintegração á família de origem e o encaminhamento para adoção requer intervenções qualificadas e condizentes com os pressupostos legais e o superior interesse da criança e do adolescente (BRASIL. acho que tinha que ser mais rápido. cuidando-os da forma como cuidam de seus próprios filhos. fica difícil 38 Serviço Social & Realidade. Considerando que o número de crianças que necessitam de cuidados e o número de cuidadoras para desenvolvê-los.Muito demorado. estratégias que visassem simplesmente maiores informações sobre o tema. Alguns aspectos são relevantes em relação à adoção que subsidiam a posição defendida pelo Plano Nacional de Promoção. sujeitos da nossa pesquisa. porque as crianças vão crescendo e crescem sem o convívio dos pais. Traz conseqüências para as crianças esta demora. então o processo poderia ser mais fácil: C. chegam aqui novinhas e vão para outra instituição e não foi adotada e tem família com ficha querendo crianças.

Serviço Social & Realidade. Franca. VENDRUSCOLO. L. o profissional pode ser também um fomentador da cultura de valorização. S. 16(2): 23-42. moral. promoção e manutenção a saúde. nutrição. M. T.. exercitando o seu papel conscientizador. n. porém percebemos um despreparo no que se refere às etapas do crescimento e desenvolvimento infantil. 16.. compromissados em cuidar das crianças. The perception of the social caretakers of children in shelters in relation to the process of taking care. recreação. Além do papel do cuidador. E independente da finalização de cada caso. 2007. na necessária tomada de consciência sobre o cuidar por parte de quem cuida. o que o qualifica para ser inserido na equipe técnica do abrigo. O profissional Enfermeiro vivencia em sua prática todo o processo do cuidar. necessitando de segurança e autoconfiança para fazê-lo. v. p. M. são expressas pelas diferentes crianças. podendo ser um facilitador para o desenvolvimento de um cuidar mais adequado e compartilhado pela equipe. uma vez que são vitimadas no corpo e na alma. 23-42. 2. higiene. afeto. em vários contextos. emocional e psicológico dessas crianças. Consideramos que o processo do cuidar em decorrência das suas raízes femininas se expressa nos discursos analisados e ecoa na prática da Enfermagem. Tais aspectos evidenciam a necessidade de um cuidado voltado para prevenção. reconhecendo a família como o ambiente de excelência para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. elas retomarão uma nova etapa de suas vidas. Torna-se essencial que os cuidadores sociais compreendam que mesmo as necessidades básicas: de comunicação. A. CANO. C. O processo do cuidar transcende as necessidades básicas e para tanto é preciso buscar formas de fortalecimento físico. pois se irmanam em suas origens. MARQUES. 2007 39 . T. carinho. e neste ambiente os cuidados necessitam serem direcionados buscando perceber que ocorrem numerosas alterações com as crianças e em diferentes faixas etárias.voltar o olhar para o atendimento individual. respeito e promoção da convivência familiar e comunitária. Serviço Social & Realidade (Franca). o cuidado será desenvolvido de forma coletiva. em diferentes idades e de formas singulares. Os atores sociais da nossa pesquisa se mostraram envolvidos. sono.

O. 2006. The theoretical referential was based in authors that discuss the historical evolution of the attendance to the child. ESTUDOS E AÇÕES SOBRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES (CECRIA). escola. v. based on the technique of free narrative of the subjects starting from a leading theme: "How it is for you to work here in the Shelter taking care of children".br. 2007. Acesso em: 22 jan. The DAILY. Pesquisas em ciências humanas e sociais. It can be noticed the direct connection between the caretakers' domestic work and the performance with the children. Ministério da Saúde. 2007 . Lei n.• ABSTRACT: This research was developed in the municipal district of Uberlândia-MG. A. Petrópolis: Vozes. Relatório de estudo. Brasília/DF. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Shelters. The qualitative methodology was used. Plano Nacional de Promoção. that is separated in: the routine. método e criatividade. 1998.51-66. In: MINAYO. São Paulo: Cortez.presidência.. Brasília/DF. • Referências BRASIL. Franca. Children. ed. 16). M. 1993. the recreation and the cares. 4. thematic modality-analysis. Proteção e Defesa do Direito da Criança e do Adolescente à convivência comunitária. The objective of this research was of knowing the social caretakers' perception regarding the infantile growth and development and the cares that are offered by them to the institutionalized children. 8069 de 13 de julho de 1990. in a non-governmental shelter. KEYWORDS: Social Caretakers. ed. CHIZZOTTI. Série 1. the abandonment and the protection laws. 1994.gov. O trabalho de campo como descoberta e criação. Fundamentos e políticas contra a exploração sexuais de crianças e adolescentes. 1997. The analysis of the data was made through the content analysis. CRUZ NETO. the gender relationship in taking care and the lack of the caretakers' perception concerning the labor subjects and the professional preparation for the care. The results of the analysis of the content evidence four sense nuclei: THE ARRIVAL. THE WAIT and ADOPTION. Estatuto da criança e do adolescente. CENTRO DE REFERENCIA. 16(2): 23-42. Brasília: MJ/CECRIA. that receives children from 0 to 4 years old. victims of violence and social poverty. 40 Serviço Social & Realidade.) Pesquisa social: teoria. C. (Org. ______. (Biblioteca de educação. Disponível em www. p. S. 2.

MINAYO. P. 2007 41 . a base de tudo. D. Disponível em: www. Ciências Saúde. 1996.br. M.conanda.br. O direito à convivência familiar e comunitária: os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil. (Org. Tese de Doutorado-Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-Universidade de São Paulo. Tese (Doutorado). S. O desafio do conhecimento. M. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. TRIVINÕS. ROQUE. Porto Alegre. ano IV n. Estudo das famílias de crianças e adolescentes vitima de violência. S.tjrs./mar. Franca.). M. 2007. 2006.gov. Petrópolis.IOSSI.12. KALOUSTIAN. p. M. E. Adoção. PERNANBUCO. L. Disponível em: www. S. Pesquisa social: teoria. 42-49. A. 16(2): 23-42. 2002.br. Acesso em 23 jan. 130p. S.cecif. C. IPEA/ CONANDA. Acesso em: 08 jan. S. 2004. 4 ed. Rio de Janeiro: Vozes. São Paulo: Vozes. 1987. Maus tratos contra crianças e adolescentes: revisão da literatura para profissionais de saúde. Realizado em 23/11/2002. M. Pesquisa Qualitativa em saúde. 8. São Paulo: Cortez. Família brasileira. A. Acesso em: 29 ago.1. 239p. M. Disponível em: www.gov. Envolvimento dos profissionais de saúde do município de Guarulhos-SP na assistência às crianças vítimas de violência domestica.org. Recife. Brasília/DF: UNICEF. São Paulo: Atlas. Ribeirão Preto.). Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. MYAZAKI. que sofreram intervenção da justiça. Arq. As crianças institucionalizadas apresentam marcas muitas vezes profundas e sempre dolorosas. MOTTA. 1994.gov. N.2007. Disponível em: www. C.br. 2004. III Ciclo de palestras: Toda criança em família. Segunda Vara da Infância e Juventude. A. 2005. O. Acesso: 12 jan.. 2006. v. M. Serviço Social & Realidade. em comarca da vara única-Estado de São Paulo – Brasil. em São Paulo. 5 ed. Juizado da Infância e Juventude. S. T. 2007. MINAYO. n. Poder Judiciário do Estado. A. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa.tipe. 2006. método e criatividade. 2004. (Org. C. jan. PIRES.

O brincar e a realidade. 42 Serviço Social & Realidade. Rio de Janeiro: Imago. Franca. 16(2): 23-42. L. Curitiba: Juruá. 2005. D. 2007 . D. WINNICOTT. N.WEBER. 1975. W. 3 ed. Laços de ternura: pesquisas e histórias de adoção.

esta investigação propõe escutar o que de fato se alterou nas vidas de algumas daquelas mulheres. além de conhecer suas estratégias de conciliação – o que em última instância representa uma saída criativa para o não adoecimento psíquico.br.. 1998). Saúde. Docente do programa de Mestrado em Promoção de Saúde. Buscar entender se continuavam com as mesmas queixas e sintomas. uma série de sintomas e queixas basicamente de origem psicossomáticas.“CONTINUO PREOCUPADA”. Decorrida uma década e localizadas seis das 14 entrevistadas. para conhecer o que de fato mudou em suas vidas. que relatavam naqueles idos tempos. que se relacionavam à situação vivenciada por elas. Franca. Naquele ano (1997) foram ouvidas 14 operárias de três * Psicóloga. Doutora em Serviço Social (UNESP). por ocasião de pesquisa de campo no programa de Mestrado em Serviço Social realizado na UNESP (BUENO. Pós-doutorado pelo Instituto Universitário de Estudos de Mulheres (Valência/Espanha). • Introdução O presente trabalho pode ser compreendido como um estudo longitudinal que reflete a situação atual de vida de algumas trabalhadoras do parque industrial da cidade de Franca. quais as estratégias que utilizaram para a conciliação entre o espaço privado e o público.. o cuidado com os filhos. utilizando-se a mesma metodologia e localizando-as no mesmo lócus inicial – as fábricas e indústrias do parque operário de Franca. foi o intuito deste estudo longitudinal com as operárias. no que diz respeito às atividades e responsabilidades domésticas. 43 Serviço Social & Realidade. a continuidade e os desafios do trabalho remunerado e os cuidados que tomaram em relação à saúde e bem-estar. que foram ouvidas há 10 anos. 2007 . da Universidade de Franca (UNIFRAN) e do curso de Psicologia. sendo que. cleria@unifran. (10 ANOS DEPOIS): ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DE MULHERES COM DUPLA JORNADA DE TRABALHO Cléria Maria Lobo Bittar Pucci BUENO* • RESUMO: Baseado em pesquisa realizada há 10 anos com as operárias do setor coureiro-calçadista da cidade de Franca. Trabalho. buscou-se saber o que de fato mudara em suas vidas no que diz respeito ao trabalho. as atividades domésticas e os cuidados com os filhos. 16(2): 43-56. e que se explicava pela sobrecarga de atividades e responsabilidades entre o mundo do trabalho. PALAVRAS-CHAVE: Sofrimento psíquico. algumas destas foram localizadas e entrevistadas 10 anos depois. Subjetividade.

Eram mulheres entre 22 a 37 anos de idade. no caso das operárias. dez tinham filhos. e a análise do discurso para a interpretação dos dados obtidos junto às operárias (FIORIN.importantes indústrias do setor coureiro-calçadista da cidade. 16(2): 43-56. utilizando-se a forma de entrevista semi-dirigida. uma questão. e seus discursos foram registrados e transcritos. náuseas. 1992). o que lhes trazia uma situação de constante preocupação. Há exata uma década estas mulheres me relatavam seus sofrimentos em equilibrar a vida doméstica com o trabalho remunerado. sendo que algumas destas queixas variavam entre sintomas psicossomáticos – tais como. fadiga e estresse. de origem psicossomática ou não. constipação intestinal. Estas operárias carregavam todo o ônus do trabalho domésticos e suas responsabilidades como mães e chefes de família. geralmente as avós ou algum outro parente. o trabalho e a maternidade. como o sentimento de angústia. O interesse principal da pesquisa era compreender sobre o sentimento de culpa que relatavam algumas mulheres ao deixarem seus filhos pequenos para adentrarem o universo do trabalho. crises de ansiedade (taquicardia. Algumas das perguntas que nortearam a investigação naquele dado instante tinham o intuito de conhecer as queixas principais. ainda tinham que lidar com a culpa de terem que ‘abandoná-los’ aos cuidados de terceiros. O pronunciamento mais comum era de que viviam sempre preocupadas entre os afazeres e as obrigações maternas. Franca. a metodologia qualitativa e dialética (MINAYO. dores de cabeça. e me contavam das dificuldades acrescidas para aquelas que tinham filhos pequenos. agravados pela rotina cansativa e extenuante de uma dupla jornada. tristeza. Dentre as 14 entrevistadas. portanto. queixas estas provenientes da tentativa de conciliar os afazeres domésticos. 2000). e como este sentimento afetava suas vidas tanto no âmbito do trabalho. raiva e revolta. sudorese. de desigualdade na divisão do trabalho doméstico. As queixas principais tinham relação direta com a estrutura familiar patriarcal que confere às mulheres a responsabilidade direta e praticamente exclusiva com os cuidados com os filhos e com a casa. e a maioria 44 Serviço Social & Realidade. pois além da ineficiência de creches para acolherem os filhos. sendo uma delas “mãesolteira”. como no pessoal. e às vezes tripla. 2007 . relatadas pelas mulheres. diminuição da atenção) aos puramente emocionais propriamente ditos.

sobretudo entre 2004 e 2005. voltando à sua de origem. havendo aquelas que passavam de duas décadas. e após as devidas explicações iniciais. Roseli e Araci (todos os nomes fictícios). sem mesmo terem sido contempladas com algum tipo de promoção ou cargo de chefia. conseguindo localizar apenas seis delas para este trabalho. Consegui localizar seis das quatorze entrevistadas. faxineiras). pois com o aumento da prole havia ficado mais difícil ainda conciliar a lida doméstica e o cuidado com os filhos. era o curso ginásio incompleto. Duas delas A. Vilma. disse-lhes o motivo para minha volta àquele local de trabalho. Uma década depois voltei às mesmas indústrias no encalço destas mulheres. outras trocaram a fábrica pela costura de sapato manual em casa. algumas trabalhavam em outras localidades. Todas as seis mulheres disseram lembrar-se daquele momento em que a pesquisa de campo fora feita. e S. As que foram reencontradas: Neusa. havia mudado da cidade. com o trabalho remunerado. Rosângela. três na indústria de calçados e as outras duas na indústria de artefatos para calçados. Considerações Preliminares Quando cheguei às indústrias que visitei dez anos antes fiz o mesmo ritual anterior perguntando pelas mulheres que ali trabalhavam. A escolaridade em média. e me relataram que algumas se aposentaram (uma inclusive por hérnia de disco). Outras foram demitidas e tiveram muita dificuldade de se reinserirem no mercado de trabalho em função da recessão econômica que assolou a cidade. era justamente a que tinha mais escolaridade e tempo de experiência em setores administrativo. algumas sendo Serviço Social & Realidade. haviam ‘sumido’. outras haviam tido outros filhos (e uma teve um neto de filha adolescente). no intuito de saber delas o que havia mudado em suas vidas. e a seguir comento sobre o reencontro. Aproveitei para perguntar-lhes sobre as companheiras que não mais estavam presentes.proveniente de trabalhos domésticos anteriores (babás. 2007 45 . iniciados quando muito jovens (12 anos de idade em média). Algumas trabalhavam nas mesmas indústrias há muitos anos. por parte destas ‘sobreviventes’. sendo uma no curtume. e Neuza chegou a comentar que M. e a única que tinha um cargo de chefia naquele momento. A metodologia utilizada foi a mesma do trabalho anterior. sendo solteira e sem filhos aos 40 anos. Franca. Elaine. 16(2): 43-56. ninguém sabia destas. embora tenha tido notícias das outras.

Neuza é a trabalhadora que há mais tempo está na mesma indústria. o que mudou em suas vidas ao longo destes dez anos? – foi a pergunta inicial para que elas pudessem relatar suas biografias. ‘assumiu’ a criança. E quanto a estas seis mulheres. e hoje tá aí. mas não se casou com a mãe desta. em outras fábricas. que está fazendo um curso técnico. dois nascidos nestes dez anos. 16(2): 43-56. hoje aos 49 anos de idade. Acho que eles é (sic) contra mulher mandá. Franca. e acho que é aqui que vou ‘bater as botas” (rindo). e. o que lhe preocupa muito. como ela disse. mas conseguiu trocar de turno. fazendo exatamente o que faz. cuidando da vida. que hoje está com dois anos. orque se for ver por ver. 2007 . sem promoção a nenhum cargo de chefia. mandando. trabalha em uma empresa que terceiriza manutenção e limpeza. e também o seu segundo filho...admitidas tempos depois. Ela se mostrou muito lúcida de sua condição de ‘inamovibilidade’ do lugar onde fora colocada: Parece que tem ‘cola’ aqui! Me pregaram neste posto.. Enfrenta as dificuldades em conciliar o trabalho com as atividades domésticas. sem saber de um nada (sic). de manhã permanece em casa. pousando de chefe. foi um período difícil. de modo que. seu filho ‘engravidou’ uma namorada. Resumidamente apresento-lhes alguns recortes de seus discursos e biografias: Neuza. Sua mãe ou seu pai é quem buscam os meninos. Elaine está com 33 anos e hoje tem três filhos. Engraçado é que vi muita gente entrar depois de mim.só que é eles que manda (sic). completará 30 anos em 2008. avó de uma menina. e às vezes em funções diferentes das que faziam.. e seu marido os recolhem nos sogros. O filho está agora empregado. ó. hoje. e ela teve que assumir todo o encargo e os gastos com a neta. ao encaminhar os meninos à tarde para a escola. e o filho fazendo ‘bicos’ pouco pode contribuir para o sustento da criança. vem para o trabalho. Uma delas confirmou que S. há mais de quinze anos. a única que ainda trabalha no curtume. sei muito mais e faço muito mais que muito homem. pois o marido estava doente. 46 Serviço Social & Realidade.

voltou. pois a noitinha é que ela põe muita coisa em ordem. com muitas dificuldades.mais a tarde. estabilizar esta relação ‘esfrie’ e faça com que ele perca o interesse. e nem seria a primeira. Foi uma concessão que fizeram para conciliar seus afazeres. e as outras mulheres aqui me ajudaram muito a ver isto. e que me ajudaram muito com o Raul (filho). não sei se tinha conseguido. fui ficando mais forte e confiando no que estava acontecendo. Espera ansiosamente o momento em que poderá se aposentar. mas aos poucos fui perdendo esta tristeza. Aí fui vendo que não era a última. em tê-lo ‘abandonado’ (tinha 5 meses quando da entrevista). levando-os para casa. e não sem alguma preocupação caso não se realize seu sonho. 2007 47 . e aos 50 anos está somente ‘ficando’. senão fica doida! Foi muito difícil no começo. na época tinha um bebê. no fundo teme que. Araci é a que melhor se saiu em termos profissionais. A única com escolaridade completa. 44 anos de idade. morou fora da cidade por uns tempos para implantar uma filial. para montarem. embora ela diga que nunca vai dormir antes da uma da manhã. dizia ter a colaboração de seu marido para algumas funções domésticas e com a lida com os filhos. Franca. cursou Economia na Faculdade Municipal. mas com o tempo aprendeu a se organizar: Quando não se tem outra solução. ela e o marido um pequeno comércio. naquele momento. Rosângela. hoje com dez anos e uma menina de seis. onde Ela regressa depois das 22 horas. né. e era motivo de desgaste e de ir muitas vezes trabalhar cheia de conflitos. para voltar a trabalhar. embora seja ele quem queira oficializar a relação: Serviço Social & Realidade. Foi a que mais trouxe dados sobre a culpa que sentia. 16(2): 43-56. como ela mesma diz. com um companheiro. e é a que. nestes dez anos passou de chefia a gerente. seus dois filhos trabalham e estudam. um deles lhe deu muito trabalho com bronquite. e vem economizando recursos para isto. Se não fosse minha mãe e uma irmã. mas isto agora está superado. há cerca de cinco anos. Vilma está com 48 anos. é a mais tranqüila de todas. fez uma especialização em Gestão e Controladoria. já há dez anos. na época solteira. mas por ser ele oito anos mais novo que ela. a gente tem que fechar os olhos do coração e continuar vivendo.

Oficializar para que? Nesta altura da minha vida. pois o trabalho doméstico não é fonte de satisfação e reconhecimento para a mulher. porque senão fico preocupada em terminar meus dias sem ser feliz. marido.você sabe. pelo menos cada um com seu andor. as mulheres revelariam naquele 48 Serviço Social & Realidade... O trabalho. tendo que conciliar a realidade do mundo do trabalho extra-lar. pintou. Desgastadas e cansadas. tenho meus filhos pra criar.. em oposição a educação recebida pelos meninos que os desobrigam aos cuidados com terceiros. filhos. estas mulheres se sentiam como se estivessem alterando a ‘ordem natural’ dos eventos. 2007 . o que é quase sempre mais trabalho pra gente. é como diz aquela música “panela veia é que faz comida boa” (rindo-se muito). a saúde e os sintomas Todas as queixas relatadas naquele ano. Educadas a se sentirem e assumirem estas responsabilidades desde pequenas. prefiro assim. e segundo ela. Franca. hoje com 12 e 15 anos. Está separada do pai de seus filhos há seis anos. segundo sua opinião: É difícil um homem querer uma mulher que já tem dois filhos de outro. mais nova? Ah. vou levando. Também não estou à procura. sua fala mais marcante foi a de dizer que. mesmo porque. ‘juntar escova de dente’? (rindo). teve uns ‘rolinhos’ mas nada sério. Procuro não pensar muito sobre isto. Tive que ‘engolir muito sapo’ para chegar onde estou abrir mão de muita coisa. né. lógico! Ou senão é rapaz muito mais novo que .. de ter tido uma vida pessoal. Mas não pretendo ficar sozinha. sei lá. não. com as atividades domésticas e o cuidado com os filhos pequenos.. não abriria mão do trabalho. cada um com sua dor. e agora voltar para trás para ter o que não tive no momento. com mais filhos. se pintar. referiam-se de maneiras direta com a constante situação de preocupação a que estas mulheres estavam submetidas. 16(2): 43-56. a não ser que ele também venha de um casamento desfeito. senão. cada um com suas conquistas.. apesar do cansaço e muitas vezes da culpa que sentia. Roseli está com 41 anos de idade e seus filhos. Naquele momento. se aparecer.

uma assunção de uma natureza feminina ‘naturalmente masoquista’. tudo o que é propício ou não para o seu gênero. Não é. 2007 49 . eu repito. Acostumar-se com o sofrimento não é o mesmo que querêlo. e quais mudanças foram as mais sentidas. quais seriam os sintomas que elas revelariam dez anos depois? Quando lhes fiz esta pergunta. como se tivessem ‘jogado a toalha’. encontraram a ‘melhor’ forma de continuarem a viver: apenas vivendo. irritação. tonturas. vertigens. relembrando-lhes de algumas respostas por elas relatadas. a meu ver. É como se ousasse afirmar que. outras riram. desistindo da gigantesca luta que teriam – e têm-pela frente. mas. como entende alguns. Não tendo alternativa. dermatite. insônia. quando escutaram de mim o ‘rol’ de problemas que me relataram. 16(2): 43-56. como se costuma analisar friamente e linearmente.momento. gastrite. é uma estratégia de sobrevivência. Roseli: “Nossa! Nem sabia que tinha vivido isto tudo!” (rindo) Neuza: “Não mudou muita coisa não! Só os filho cresceu (sic). algumas se espantaram. construindo a partir destas diferenças. ansiedade e sintomas outros tais como. naturalizando Serviço Social & Realidade. naturalizando-a. Franca. e. de preocupação e em estado permanente de alerta. e somente por isto. e verbalizaram espanto por este dado. o que lhes causava enorme fadiga. estarem em constante situação de estresse. Não é muito distinto da naturalização do discurso social que atribui a homens e mulheres padrões de conduta distintos. apesar de se reconhecerem no discurso proferido dez anos antes. Isto aí tudo que eu disse. inda (sic) mais eu que tive três filhos ‘encarreado’ (sic) um atrás do outro! Mas a gente aprende a levar e se acostuma” O que mais me marcou foi o conformismo nestas falas. Isso em função do aspecto da dupla e até tripla jornada de trabalho que muitas delas revelavam viver. acostumaram-se com a situação estressora. estas mulheres começaram por relatar a respeito de suas vidas. mas os problema (sic) é os mesmo. Agora com os filhos encaminhados na vida e maiores. é interessante registrar que. queda de cabelo. justificados pela diferença anatômica. A diferença é que a gente se acostuma com eles e nem percebe mais” Elaine: “Pra mim foi uma questão de tempo. No tocante à saúde.

de pobre e de negra. tem poder” (1987). ao reproduzir o status quo das mulheres. ainda que num ‘estado paralelo’.aquilo que muitas vezes não está ao alcance de suas mãos. Se o patriarcado evoluiu para a degeneração e a desvalorização de tudo o que se refere ao gênero feminino. há dez anos. quando não permitiam que seus companheiros assumissem aquilo que elas próprias defendiam. uma vez que. chamavam a si a exclusividade com estes. Mais do que o conformismo em si. o mesmo não se verificou quanto ao exclusivismo com os filhos. Não podemos nunca negar a dimensão da classe social e da raça e etnia. mas uma resistência que as permite caminhar e levar adiante seus projetos de vida. ora em tom jocoso. A meu ver um movimento de resistência e poder. o capitalismo veio coroar esta posição. pois embora se vissem e se reconhecessem no discurso. e devemos salientar que estas duas outras. aprisionando mulheres a ocuparem cargos e em categorias profissionais cujo piso salarial seja menor. que a meu ver parece ser a que tem mais consciência de sua tripla condição de exclusão e submissão: a de mulher. são igualmente fatores de exclusão e de opressão. com a categoria gênero. Se os ‘discursos ressentidos’. Franca. ou mesmo que a ascensão a postos 50 Serviço Social & Realidade. como ‘obrigações de mulher’ – a educação e o cuidado com os filhos. é a situação de estranheza num primeiro momento. Esta aparente e paradoxal situação de comodismo pode nos revelar um movimento de resistência muda. como afirma Giddens. ainda que imperfeita. 16(2): 43-56. Exceção outra vez feita. à Neuza. que por sua vez são produtoras e reprodutoras. é atribuindo nomes a funções idênticas. desvaloriza tudo o que delas provém. como se tivessem falando de uma realidade que não a sua. É um movimento surdo e contínuo. Fechavam o reduto em torno de si mesmas. E isto ficou muito claro. (1993) em relação aos homens se dava quanto a divisão das tarefas domésticas e à liberdade que estes outros têm. E a forma mais ‘lógica’ e natural para lidar com esta questão. naturalizando a condição hegemônica masculina. modificar. e longe de reivindicarem em ajuda aos companheiros em relação aos cuidados com os filhos. estas trabalhadoras teciam comentários ora espantadas. juntamente com o gênero. numa análise foucaultinana de “lá onde tem resistência. 2007 .

via de regra. de lazer ou de descanso. 2005. A saúde física e emocional destas mulheres fica. além das mudanças óbvias e já citadas aqui. portanto. trabalho remunerado. Franca. Esta pesquisa teve o intuito de reconhecer quais seriam os novos sintomas produzidos por estas mulheres. Em verdade o trabalho de campo realizado em 1997 e defendido um ano após. seja mais complicado (MADEIRA. e que fora publicado em 2005 sob outro nome “Vivo sempre preocupada 1”. Claro que aqui não defendo ser uma prerrogativa feminina. cuidados consigo mesma – este quase sempre negligenciado. 51 Serviço Social & Realidade. Agrega-se a isto o fato de que a saúde e o bemestar dos filhos e do cônjuge serem. todas elas. Muitas vezes se atentam às suas saúdes. mas refirome a constante preocupação em aliar família. sem exceção. 2007 . que parece ser uma constante em suas vidas. C. em detrimento de si próprias. uma vez que cabe a nós reorganizarmos os arranjos organizacionais e situações vivenciais. para que estas mulheres possam encontrar um canal aberto para discutir sua situação e apresentar propostas cabíveis com sua condição. ou fora dele. O dilema em conciliar (sem culpa) o trabalho e maternidade. Isto é o que chamamos empoderamento das partes da população que costumam ser destituídas de voz e poder. que reflete na vida dos cidadãos. quando a mão dura da enfermidade ou do afastamento compulsório toca-lhes os ombros. Vivo sempre preocupada. No tocante a esta realidade é que acredito que. e que pode ser viabilizado a partir da intervenção profissional no próprio espaço organizacional. M. comprometida.hierárquicos superiores. SAFFIOTI. temos muito a contribuir.. nós profissionais da área social e da saúde. o ensino e a aprendizagem de novas formas de lidar com velhos problemas. tem o seu motivo de ser. 1976). uma vez que o excesso de atividades domésticas e não doméstica. criação dos filhos. Franca: UNIFRAN. Em que pese as inúmeras e significativas mudanças sócio-econômicas em nosso país. 1997. ou se haviam mudado de nome ou de intensidade. L. na vida destas mulheres. 16(2): 43-56. possibilitando o espaço da troca de experiências. Ou se poderiam ter simplesmente desaparecido.. em lugares destinados comumente ao ócio ou ao encontro de 1 BUENO. reserva-lhe quase nenhum tempo de ócio. prioridade. não se livraram da preocupação.

pessoas. e isto inclui família e filhos. e que. e todos. Se antes ela representava uma afronta à ‘dignidade’ da sociedade. p. 2002). pois trata da ‘mulher separada’. o que é para ela. embora aparentando bem menos. ou uma aventura fácil para os homens mais jovens. sobretudo quando ela possui baixa escolaridade e pouca qualificação profissional. homens. 16. ou ainda uma ‘tábua de salvação’ para aqueles muito mais velhos ou ainda com filhos de um primeiro relacionamento. mas aos 50 anos de idade. que apesar dos seus quase trinta anos de dedicação à indústria. de direitos humanos e de saúde: “A promoção da responsabilidade social com o ‘empoderamento’ da população e aumento da capacidade da comunidade para atuar nesse campo” (Cartas de Promoção de Saúde. graduar-se e até cursar uma pósgraduação. como uma ‘ameaça’ aos lares daquelas que continuam casadas. subindo de posto. alcançando sua independência financeira. O exemplo típico é o de Neuza. é sempre uma carga a mais para a mulher. Considerações finais O percurso biográfico destas mulheres corrobora a idéia inicial de que para as mulheres é mais difícil tanto a ascensão aos postos hierárquicos. não fosse a colaboração de seus pais. continuando solteira e tendo maior escolaridade que todas conseguiu com seu esforço. e com a escassez crônica de creches nas indústrias. 16(2): 43-56. diga-se de passagem. A rede solidária e familiar de atenção às crianças é bem a situação que ilustra a vida de Elaine. o que seguramente representaria problemas de ordem econômica em sua vida. Franca. teria que renunciar ao trabalho remunerado. sendo inclusive alguns bem mais jovens e inexperientes que ela. No outro extremo está Araci que. hoje ela pode ser vista para alguns. teve que assistir a muitos passarem à sua frente. apesar da vitória. uma perda afetiva neste plano. como a volta ao mercado de trabalho. não deixa de transparecer que. Há por um lado. não consegui concretizar todos os planos que a deixariam completa. 2007 . segundo sua ótica. Roseli traz outra questão que ainda é de certa forma. pois com o aumento de sua prole. 52 Serviço Social & Realidade. que ainda povoa o imaginário coletivo. consciente e inegável. Agindo assim estamos de acordo com o que está preconizado em muitos tratados e resoluções sociais. uma fonte de preconceito contra as mulheres.

e não somente estes são o que lhes preocupam. negociando funções. já é lugar comum. os empregos. Mas o que menos se alterou foi a presença constante e inquietante de um sentimento de estar sempre se adiantando. Sentimento este traduzido como preocupação excessiva. A situação de estranheza. sendo hoje uma testemunha viva da superação do que lhe parecia impossível. fadiga. elas próprias. Perceber-se a si mesmo como lutadora. responsabilizar o marido para as atividades tidas como exclusivas da mulher. como combativa e com todos os encargos que a má distribuição dos afazeres domésticos e as responsabilidades com a criação dos filhos. e em casos mais extremos sabemos – apesar de não ter sido aqui relatado – da possibilidade do componente estressor. ansiedade. estar na etiologia de casos de depressão e também de pânico. irritabilidade. atitudes e até sintomas. às expectativas e aos acontecimentos cotidianos. conseguiu com sabedoria. 2007 53 . em dez anos muita coisa se modificou: os filhos. que a culpa que sentira ao deixar o bebê Raul. em resultado. revelada pelos comentários jocosos e risadinhas e afirmativas de que tudo ou quase tudo não mudou em essência. a sociedade. os maridos. O que não é comum é perceber que. revelando encontrar no auxilio e incentivo recebidos de outras mulheres a possibilidade de ser uma ‘sobrevivente de si mesma’. esses já crescidos lhes trazem outras fontes de preocupação.Vilma é a representante da mulher que. Não é a toa que foi a que se mostrou mais tranqüila. apesar de sua origem humilde. que as condiciona a se verem presas neste torvelinho mental. 16(2): 43-56. hoje. Finalmente Rosângela aprendeu pela própria experiência. fora minimizada ao dar continuidade à própria existência. a política. Se naquele momento a preocupação mais evidente era com o filho pequeno. estas mulheres quando estimuladas a se lembrarem de seus próprios sentimentos. descrevendo o relacionamento conjugal como uma importante fonte de crescimento e ajuda. mas igualmente a possibilidade de não serem felizes ou de renunciarem aos sonhos que vêm embalando numa gestação sem fim. insônia. os Serviço Social & Realidade. estando mais predispostas aos sintomas secundários trazidos ou agravados pela preocupação: dores de cabeça. tanto seus corpos. ambos fazendo concessões e renúncias para ser viável a vida familiar. fazem-me supor que. seus relacionamentos. Franca. o trabalho e o relacionamento do casal. sonhos.

recebem como alheios a si mesmas, embora os reconheçam legitimamente como seus. Acham graça que tantos contratempos e dificuldades tenham-lhes marcado a vida, sobretudo por perceberem, no estímulo dado pela retomada de seus discursos, que, apesar das evidentes mudanças, no fundo quase nada mudou no que diz respeito à sua condição de subordinação às ‘leis naturais’ que impõe destinos nada semelhantes às mulheres e homens, em que pesem estes também terem suas dificuldades e estereótipos, reconheçamos. Mas evidentemente a carga emocional, o ônus do ser que se reproduz, é infinitamente mais pesado sobre a mulher, portanto ouso afirmar do ônus da maternidade, que sem o aparato devido, sem o apoio social e governamental, sem creches e sem uma divisão igualitária das funções no espaço doméstico, acarretalhe afastamentos provisórios ou definitivos, sub-empregos, ou mão de obra pouco qualificada, comprometendo sua carreira, e alimentando o ciclo de trabalho fragilizado, pobreza e desigualdade. Mesmo que os filhos não sejam mais crianças, mesmo que não se sintam mais culpadas em deixá-los, como outrora, estas mulheres têm em suas trajetórias de vida, a marca da preocupação, a lhes acompanhar o dia a dia a existência. É o que Nick Marshall2 personagem vivido por Mel Gibson no filme “Do que as mulheres gostam” – conclui, quando, por um acidente, passa a ler o pensamento delas: As mulheres vivem sempre preocupadas. Touché!
BUENO, C. M. L. B. P. “I remain concerned”... (10 years later): psychosocial aspects of women with a double day of work. Serviço Social & Realidade (Franca), v. 16, n. 2, p. 43-56, 2007. •

ABSTRACT: Based on research accomplished 10 years ago with the workers of the leather-footwear sector of the city of Franca, this investigation intends to listen what in fact changed in the lives of some of those women, that told basically in those times, a series of symptoms

2

“Do que as mulheres gostam”. Direção: Nancy Meyers. Elenco: Mel Gibson, Helen Hunt, Marisa Tomei, Alan Alda, Ashley Johnson, Mark Feuerstein. Ano de exibição: 2000. Paramount Picture.
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and complaints of psychosomatic origin, that were linked to the situation lived by them, and that was explained by the overload of activities and responsibilities among the world of the work, the domestic activities and the cares with the children. Elapsed one decade and located six of the 14 interviewees, we have tried to know what in fact had changed in their lives concerning the work, which strategies were used for the conciliation between the private and the public space, about the domestic activities and responsibilities, the care with the children, the continuity and the challenges of the paid work and the cares taken concerning health and well-being. Looking for understanding if they remained with the same complaints and symptoms, besides knowing their conciliation strategies – what, ultimately, represents a creative exit to escape from psychic sickness, was the intention of this longitudinal study with the workers, being used the same methodology and locating them in the same initial locus the factories and industries of the labor park of Franca. • KEYWORDS: Psychic Suffering; Work; Health; Subjectivity.

Referências BUENO, C. M. L. B. P. A mulher e a culpa. Relações entre carreira e maternidade. Um estudo realizado com as operárias das indústrias do setor coureiro-calcadista de Franca, SP. 1998. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) -Faculdade de História Direito e Serviço Social-UNESP, campus de Franca, 1998. BUENO, C. M. L. Vivo sempre preocupada. O dilema em conciliar (sem culpa) o trabalho e maternidade. Franca: UNIFRAN, 2005. FIORIN, L. Elementos de análise do discurso. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2000. (Repensando a língua portuguesa) FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Tradução Maria Teresa Costa Albuquerque e J. A. Guillon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1979. GIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: UNESP, 1993. MADEIRA, F. R. Quem mandou nascer mulher? Estudo sobre crianças e adolescentes pobres no Brasil. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos: UNICEF, 1997.
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MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção de Saúde. As cartas da Promoção de Saúde. Brasília, DF, 2002. (série Textos básicos em saúde). MINAYO, M. T. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 1992. (Coleção Temas) SAFFIOTI, H. I. B. A mulher na sociedade de classes: mitos e realidade. Petrópolis: Vozes, 1976 (Sociologia Brasileira)

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A (DES)PROTEÇÃO SOCIAL DO TRABALHADOR: OS CASOS DE ACIDENTE DE TRABALHO Gisele Aparecida BOVOLENTA* Silvana Cunha KOHN** Maria Aparecida Mendes SOARES**
• RESUMO: Desde os primórdios da humanidade o homem exerce a atividade laborativa, como mecanismo de sobrevivência, assegurandolhe “proteção social”. No entanto, a concepção, bem como as relações de trabalho, com o passar dos tempos, mudaram muito. Hoje, temos o mundo do trabalho submetido às leis do capitalismo. Assim, as flexibilizações, terceirizações e informalidades fazem farte deste novo cenário. Aqui, portanto, enfatizamos os casos de acidentes de trabalho, o qual se constitui como um dos Programas de Aprimoramento Profissional na área de Serviço Social, cujo intuito seja conhecer a (des)proteção social vivenciadas pelos trabalhadores brasileiros. PALAVRAS-CHAVE: Proteção Social; Mercado de Trabalho; Acidente de Trabalho.

I Introdução A atividade laborativa acontece desde os primórdios da humanidade, quando por meio do trabalho o homem assegurava sua sobrevivência com a produção de roupas, alimentos e moradia, provendo, assim, suas necessidades essenciais. Isto é, o trabalho garantia-lhe proteção social. O sistema de proteção social “concedido” ao ser humano deve ser compreendido juntamente ao processo político, ideológico e econômico da sociedade, ou seja, toda trajetória histórica de proteção social, enquanto direito, está intimamente relacionada com a dinâmica da relação capital versus trabalho, em que assegurar amparo mínimo – como pré-condição básica de sobrevivência de todo cidadão – perpassou desde o caráter de esmola, caridade e benevolência até a concepção de direito social.

*

Assistente Social e Aprimoranda no Programa de Atendimento Social ao Acidentado de Trabalho da Unidade de Emergência Referenciada (UER) da UNICAMP em 2006. ** Assistente Social e Supervisora do Programa de Aprimoramento Profissional na UER. Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 57

Ideologicamente a concepção acerca do trabalho mudou muito, principalmente quando o trabalho se torna assalariado e submetido às leis da propriedade privada capitalista. Desse modo, nosso intuito, aqui, não é fazer análise ideológica, mas, sim, propor uma discussão acerca da (des)proteção social vivenciada pelo trabalhador brasileiro. Para tanto, enfatizamos o mundo do trabalho a partir da década de 1980/90, devido o grande salto tecnológico – com a robótica, micro-eletrônica, informática e automação – e a ideologia neoliberal legitimada no Brasil a partir desta década, o que molda uma nova realidade ao mercado de trabalho no país. Aquele ao destacar o toyotismo como “novo” modelo de produção capitalista. Esta ao preconizar os ideais acerca do “Estado Mínimo” – como a liberdade e a primazia que o mercado exerce sobre o Estado – reduzindo as funções, o tamanho e o papel dos órgãos estatais. Desse modo, em virtude de tal “combinação”, vivenciamos o mundo do trabalho moldado pela precarização, parcialidade, temporalidade advindos das flexibilizações, terceirizações e informalidade. Além da constante redução do trabalho fabril, estamos diante de uma nova era para a história do capitalismo (de reestruturação produtiva, desemprego estrutural, flexibilização de direitos, representações trabalhistas moldadas pelos ideais do capital, etc) o que suscita desproteção social, gerando uma gama de excluídos das leis trabalhistas e previdenciárias. Estima-se que atualmente 60% dos trabalhadores estejam inseridos no mercado informal, ou seja, a grande maioria dos trabalhadores brasileiros não possui carteira assinada, encontra-se em trabalhos precários, desumanos e insalubres. Dados que fazem o Brasil ocupar o 4º lugar no ranking mundial em acidentes de trabalho. A cada ano quase dois milhões de trabalhadores morrem por acidente de trabalho no mundo, o que representa cinco mil mortes ao dia ou três por minuto. O programa de aprimoramento profissional em Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada (UER) na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) trabalha junto às vítimas de acidente de trabalho, tendo por objetivo a investigação, a decodificação e a compreensão da realidade sócio-trabalhista do acidentado. O objetivo do programa, desenvolvido há 11 anos na UNICAMP, é capacitar e especializar o Assistente Social para o atendimento às vítimas de acidente de trabalho e doença
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profissional, cujo intuito seja acolher, responsabilizar e dar respostas resolutivas aos pacientes vitimizados. Vale ressaltar que todo acidente ocorrido em decorrência do trabalho deve ser registrado. A empresa tem o dever de comunicar o ocorrido com seu empregador, havendo ou não afastamento do trabalho, até o primeiro dia útil seguinte ao da ocorrência e, em caso de morte, de imediato à autoridade competente, sob pena de multa. A notificação é feita por meio da Comunicação de Acidente de trabalho (CAT). Diariamente recebemos inúmeras vítimas de acidente de trabalho, muitas das quais advindas da realidade precária do trabalho, o que instigou-nos como objeto de estudo, a fim de conhecermos, de fato, a gama de desprotegidos de seus direitos sociais. Nossa pesquisa quanti-qualitativa se propõe ao levantamento de índices de acidentes ocorridos no segundo semestre de 2005 – julho a dezembro, quando registramos 611 vítimas de acidente de trabalho na UER. Uma amostra da realidade vivenciada pelos trabalhadores brasileiros. Desse montante, 30% das vítimas não possuíam registro em carteira, ficando expostos e desamparados em face de tal situação; 74% dos acidentes são registrados como típicos (no local de trabalho), o que suscita certa discussão acerca das condições de trabalho no país; a grande maioria das vítimas (74%) é do sexo masculino e em ambos os sexos a idade predominante dos acidentes se dá dos 19 aos 30 anos. Ou seja, dados estes que bem ilustram nosso debate teórico acerca das condições de trabalho do Brasil. Isto é, estamos diante de um novo contexto trabalhista, com novas diretrizes de trabalho ao assistente social, o qual necessita conhecê-la, decodificá-la e entendê-la, a fim de trabalhar rumo a garantia e efetivação dos direitos sociais. A seguir propomos uma análise teórica com ênfase em nossa pesquisa empírica, a fim de, com isso, ilustrarmos as condições de trabalho no país, bem como a desproteção social vivenciada pelo trabalhador brasileiro nesta atual conjuntura. II O histórico da política de proteção social Em linhas gerais, o provimento das necessidades essenciais se dá por meio do trabalho e da sociedade por intermédio do
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Já nos primórdios de nossa sociedade cabia a cada um garantir sua própria proteção e aqueles mais fragilizados ficavam a mercê de ajudas filantrópicas. em 1662. crianças carentes.Estado. etc. Todos eram obrigados a trabalhar sem ter a chance de escolher as suas ocupações e a de seus filhos (POLANYI. No entanto. no entanto. embora poucas e restritas. Esse conjunto de leis era mais punitivo do que protetor. Posteriormente. portanto. com a Lei dos Pobres1. a criação e/ou nascimento da Assistência Social. Somente. de caráter social. ou seja. 16(2): 57-86. as Leis dos Pobres. e. entre 1536 e 1601. 2007 60 . eram ocasionados pelas primeiras e violentas formas de exploração da mão de obra. Contudo. esse conjunto de regulações se identificar com a pobreza. Sob a sua regência. como idosos. por exemplo. na Inglaterra. órfãos. tormentas e pragas. começam a surgir algumas ações estatais. compuseram o Código do Trabalho na Inglaterra. na verdade. com isso. desocupados voluntários e involuntários. que determinam ou deveriam determinar um nível mínimo de condição de vida. que a execução. por meio do trabalho. as primeiras formas de proteção social manifestaram-se de modo fragmentado e desordenado. as primeiras medidas de proteção social que foram impulsionadas por uma monarquia muito preocupada com os efeitos sociais desagregadores. p. destinavam-se a atender apenas aos desastres naturais tais como. Historicamente. protegendo as paróquias mais dinâmicas da invasão de indigentes de paróquias menos ativas. era no trabalho que ele se referenciava. Tanto é assim que. a prática de garantir o mínimo sempre existiu. Vale ressaltar. que. na aparência. até porque 1 As Leis dos Pobres (Poor's Law) formavam um conjunto de regulações précapitalistas que se aplicava às pessoas situadas à margem do trabalho. as quais. 1980. Franca. incorporam a Lei de Domicílio que restringia a mobilidade especial das pessoas. de par com o Estatuto dos Artífices. 97). de modo a garantir condições mínimas de vida. quando regulamenta a instituição de auxílios e socorros públicos aos necessitados. inválidos. devido suas limitações. Esta lei vem marcar. Serviço Social & Realidade. a mendicância e a vagabundagem eram exemplarmente castigadas. as quais possuíam a expressão de caridade. já no período medieval. a despeito de. os limites e as aplicações das políticas de proteção social dão-se de modo muito distinto nos vários países e que a universalidade é o critério que consta como algo em comum nas legislações de tais políticas. em 1601 – já em pleno pós-resnascimento – que vão surgir. devido às questões de cunho moral e religioso existentes. assegurando um conjunto de medidas.

existente até então. possuíam o direito a tais medidas. portanto. a Lei do Parlamento foi uma nova maneira de administrar a Lei dos Pobres. por meio de sua atividade laborativa. e da assistência como confinadora. de pessoas muito próximas e quando muito através de entidades religiosas ou mesmo privadas. eram obrigados a trabalhar por salários irrisórios. foram criadas as workhouses – casas destinadas ao trabalho. com respaldo na Lei do Parlamento. mas que. Nesse primeiro momento. ou seja. Posteriormente. “ajudavam-se”. tinham acesso ou mesmo direito a qualquer tipo de benefício assistencial. 2007 61 . criava-se uma verdadeira rede de solidariedade social isenta do caráter de direito do indivíduo. quando esta reconhece o “direito natural de viver”. em forma de abono salarial ou rendimento mínimo. a Lei do Parlamento foi uma forma de regulação até então inédita na história da assistência social. mutuamente. a quem necessitasse. porém. na verdade. Todos os cidadãos. temos uma proteção social diretamente ligada à solidariedade. Desse modo se a compararmos com as medidas de administração da pobreza. 16(2): 57-86. certa complementação que tanto poderia ser em materiais como em espécie. independentemente de seus ganhos e da sociedade. Por isso. Com isso. emergem na Grã-Bretanha. que se caracterizavam em asilos e em casas de trabalho forçado. Pode-se considerar. Os pobres. Tal prática. cuja finalidade era assegurar que as condições básicas fossem supridas. em geral. como ressalta Pereira (2002). Em geral. as crianças e os inválidos. mediante iniciativas de natureza assistencial era garantido. ou seja. os idosos. mesmo assim. em meados de 1795. Na verdade. as primeiras medidas de proteção social. mas. Franca. ou seja. a “ajuda” era proveniente do meio familiar. De tal sorte que a assistência social por sua vez era considerada uma prática de proteção social inerente à sociedade. funcionavam como verdadeiras prisões – locais Serviço Social & Realidade. pelo indivíduo.os homens. pois estes eram ou estavam “aptos” ao trabalho. pois até então somente os incapacitados ao trabalho. princípios estes que restringiram a prática da proteção social ao campo da filantropia e da caridade. Quando subverte o antigo principio do trabalho em obrigação. como forma de concessão atrelada aos princípios de controle e de reprodução do capital. uma pequena evolução da assistência social. por viverem em grupos. deveria ser complementado o que eventualmente não fora obtido. se dava de modo muito aleatório e dentro das possibilidades de cada um dos grupos.

até porque esta poderia ser considerada um obstáculo na formação da classe operária industrial. 2007 . a mando do sistema econômico. 105). p. uma vez que garantia um mínimo de renda devido ao abono salarial. como era habitual”. É. além de intervir de forma negativa na criação de um mercado de trabalho competitivo. também. era vista como uma espécie de ameaça que a luta de classes – em particular. “a produção social é cada vez mais coletiva. o trabalho torna-se mais amplamente social. quando transfere ao pobre a responsabilidade de garantir sua sobrevivência. No entanto. No caso da Igreja Católica.para onde se encaminhavam os indigentes em condições de trabalhar e que. monopolizada por uma parte da sociedade” (IAMAMOTO. em face do contexto que a Igreja e o Estado respondem com medidas de enfrentamento a pobreza. por volta de 1800. p. portanto. 16(2): 57-86. por sua vez. é conhecida e problematizada. trazendo consigo as forças livres do capitalismo industrial. Franca. Nesta mesma época. ou seja. com uma assistência social limitada e diante das leis impostas pelo mercado. com a promulgação das Encíclicas Papais Rerum 62 Serviço Social & Realidade. o que se designou chamar de “questão social”. enquanto expressão das desigualdades da sociedade capitalista. na discrepância existente entre o trabalho e o capital. como acrescenta Pereira (2002. a barbárie. mas nem sempre foi devidamente discutida e verdadeiramente enfrentada. interpretada sob o ponto de vista do poder. punições e confinamentos. funcionavam como forma de controle da ociosidade e vagabundagem. 2001. Sua gênese encontra-se. Desse modo. oriunda da classe operária – representava à ordem até então instituída. a miséria. a desigualdade e a iniqüidade. A partir desta lógica deixa-se de lado o “direito natural de viver”. Isso explicitou o embate entre as classes antagônicas. 27). no fracasso da Lei do Parlamento. isto é. somente com a Lei do Parlamento “que se começou a pensar num abono salarial mínimo como forma de assistência social incondicional. Tal questão manifesta-se. sem qualquer tipo de proteção social institucionalizada. transparece. Isso resultou. livre de contrapartidas. portanto. a Revolução Industrial expandia-se a passos largos. enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada. de forma mais explicita. que se expandia ao mesmo tempo em que se limitavam as ações da assistência social.

fragmentadas e individuais. uma proteção social vinculada exclusivamente à eventualidade. na lógica do mercado. Isso significa que o “beneficio” deveria ser o menor possível. 2007 63 . menor do que qualquer salário. destinavam-se apenas aos mais fragilizados: idosos. Isto se daria por intermédio das redes de proteção ligadas as Irmandades. até então. isto é. aqui. mais tarde. se acreditava que a natureza se encarregava de selecionar os aptos a viver em sociedade. Serviço Social & Realidade. deixando este de ser dependente de qualquer tipo de “ajuda”. os fracos. já o Estado garantiria direitos por meio de leis trabalhistas e algumas ações pontuais. 16(2): 57-86. que tais medidas. indigentes e. caracterizavam-se como uma espécie de ajuda. Franca. burguesia e Igreja – com relação aos parias da sociedade e que. os ociosos e os doentes seriam incapazes de produzir e reproduzir o progresso. até mesmo como uma forma de controle e solidariedade – do Estado. questionava-se a criação de sistemas de proteção social aos pobres. para com isso não prejudicar nem interferir no ideário capitalista e estimular a inserção do indivíduo no mercado de trabalho. Até então. por sua vez. inaugura-se uma nova fase dessa instituição no trato da “questão social”2. somente no século XVIII se dá à conquista dos direitos civis (direitos 2 Basicamente as Encíclicas Papais salientam a necessidade da conciliação entre as classes sociais. No entanto. por se acreditar que tais sistemas poderiam prejudicar o que se entendia como um processo natural de seleção. tinha a obrigação moral de praticar a caridade.Novarum (escrita no final do século XIX) e Quadragésimo Anno (promulgada da década de 1930 do século XX). aos desempregados. não possuindo nenhum caráter de direito garantido por lei. Associações e o trabalho leigo. permeada por ações isoladas. fazia-se necessária à execução de medidas de proteção social. acreditava-se que as medidas de proteção social eram uma forma de incentivar o ócio e a vadiagem. ou seja. podendo desestimular o trabalho e prejudicar o ideário capitalista. diante deste contexto de miséria e exclusão. Concomitante. Observa-se. os vadios. ou seja. de modo a não deixar o pobre acostumado e os poderes públicos responsáveis por esse “ato benevolente”. Mesmo porque. destacando que o trabalhador deveria respeitar seu patrão e este. o que atrapalharia o curso “natural” da civilização. Desse modo. Vale ressaltar. a priori.

Franca. na herança social e levar uma vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade” (IAMAMOTO. seguro velhice e seguro acidente com contribuições compulsórias (contrariando a ideologia liberal de seguros voluntários) de empregados. direitos estes que vão embasar a concepção liberal clássica. à saúde. Assim. Entretanto isso ocorreu sob o comando de um controle central de seguro saúde. seja como eleitor. de propriedade. introduzia as caixas estatais no país. há a conquista. no século XX. políticos e sociais iriam compor o conceito de cidadania3. de participação. o elemento político compreende o direito de participar do poder político. não coincide no tempo: os elementos civis. à aposentadoria. Temos. na Alemanha no final do século XIX (precisamente em 1883). relacionados à política eleitoral e sindical. por meio de lutas do movimento sindical. de imprensa. Na verdade. de reunião. da classe trabalhadora. em T. Mais recentemente. “que se refere a tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar. 2007 . porém. sendo direitos individuais exercidos de forma coletiva. etc. H. como direito a ter direitos. à educação. os direitos civis. acabando por reconhecer que todos os cidadãos são iguais perante a lei. o sistema implementado pelo então governo conservador do chanceler Otto Von Bismarck (1815-1897). por completo. acesso a uma vida digna). A partir disso. Claro que essa análise deve considerar o processo de luta de classes e o próprio surgimento.). patrões e Estado. a principal função do sistema era desmobilizar a classe trabalhadora. há a conquista dos direitos políticos (liberdade de associação. dos direitos sociais (direito ao trabalho. o conceito de cidadania compreende três elementos interrelacionados. incorporados à tradição liberal. em geral regionalizadas. 64 Serviço Social & Realidade. Marshall uma concepção clássica de cidadania. a qual sentia-se cada vez mais atraída pelos 3 Segundo Marshall. desenvolvimento e consolidação da sociedade capitalista. reconhecido legalmente como um sistema de amparo ao trabalhador contribuinte. No século XIX. cujo desenvolvimento. etc. também. portanto. o elemento social. tendo sido. de ir e vir. de organização. seja como participante de um organismo investido de autoridade política. finalmente. com direitos e deveres legalmente estabelecidos. de igualdade.individuais de liberdade. p. e. de pensamento e o direito a propriedade e de concluir contratos validos) e o direito de justiça. compostos dos direitos necessários a liberdade individual (de ir e vir. em suma. 16(2): 57-86. 2001.). 89).

muito embora. o qual atendia apenas as pessoas empregadas. cada qual o tenha direcionado de uma dada maneira e se expandido de acordo com suas necessidades. Esta lei foi em seguida complementada por outros benefícios e convergiu para a posterior concepção de Seguridade Social. Franca. Em 1911.] A Inglaterra tornou geral o seguro contra o desemprego em 1920 e introduziu as aposentadorias contributivas em 1925. Aos poucos foram promulgadas leis em torno da assistência social. criou-se um sistema de seguro-doença e segurodesemprego como política de proteção social do trabalhador. p. cuja renda fosse inferior a 320 libras por ano. vinculado exclusivamente à atividade laborativa. Desse modo. iniciada na Grã-Bretanha e discutida por William Beveridge.. 16(2): 57-86. associadas ao trabalho e a pobreza. por exemplo. o qual propunha a formação de um sistema complexo e completo de proteção social na ausência do salário. por vezes. que deveria ser fruto do pleno emprego e acessível a todos. Assim. o seguro social de Bismarck ficou conhecido como esquema bismarckiano de proteção social. Crítica esta. A Alemanha acrescentou o seguro contra desemprego a seu sistema em 1927. um dos membros do estudo da reforma da assistência que em seguida foi eleito deputado no país. devido ao contrato de trabalho e prévia contribuição. 2007 65 . enfatizada por Beveridge. 78): O primeiro programa de previdência social da Alemanha incluía aposentadorias e assistência médico-hospitalar. mas excluía o desemprego.. como garantia de uma proteção social institucionalizada. mas deixava as aposentadorias de fora [. o qual fora adotado em vários países.ideais socialistas da social democracia-alemã. Na verdade. proposto pelo então presidente do Serviço Social & Realidade. sabe-se que o seguro social de Bismarck é o berço dos programas de previdência social. em geral. sua área de abrangência conferia caráter basicamente contratual no sentido de garantir acesso aos benefícios mediante o pagamento das contribuições. ficando. Segundo Marshall (1967. o da Inglaterra abrangia a assistência médica e o desemprego (numa escala limitada). o modelo beveridgiano de garantia às condições mínimas de vida. No entanto. portanto.

mas também a produção não podem ser abandonadas a própria sorte. suficiente para assegurar uma certa segurança social. A partir das décadas de 1970 e 1980 devido a problemas oriundos do mercado (alta inflação e baixo crescimento 4 A grande linha de abordagem de Keynes era de que o Estado deveria intervir na economia para garantir o pleno emprego e depois garantir desenvolvimento econômico. O modelo proposto por Beveridge. estimular o crescimento nas economias de mercado. os motivos que ocasionassem a situação de necessidade. que assegurasse a aposentadoria na velhice. Mas. além disso. de William Henry Beveridge (1879-1963). Em razão dessa definição. além de afirmar o Welfare State da Grã-Bretanha a partir dos ideais de Seguridade Social. Seria a garantia de um rendimento mínimo. o plano beveridgiano visava à garantia de um rendimento que substituísse os salários quando estes fossem interrompidos em virtude do desemprego. do acidente. Serviço Social & Realidade. Como sistema de proteção social. este período áureo das políticas de proteção social não durou muito. como garantir o pleno emprego. morte e casamento. que tivessem múltiplas funções. 2007 66 . educação. desconsiderando. direito à saúde. pois segundo sua teoria não se pode colocar em primeiro lugar os interesses do capitalismo. etc. mesmo porque o sistema não teria capacidade de assegurar um equilíbrio econômico. Keynes foi um crítico da tradição clássica ao recomendar que não apenas a distribuição. Seu pensamento servirá de base para o Estado de bem-estar social. pretendia ser abrangente. que prestasse assistência aos que perderam seu sustento em decorrência da morte do provedor e que auxiliasse em despesas eventuais como: nascimento. etc. A produção precisa ser incentivada pela atividade do Estado. Esse plano utilizando-se das teorias Keynesianas4 de distribuição de renda para embasar reformas na estrutura da previdência social em vários países. E. os governos começam a desenvolver políticas de pleno emprego com base na doutrina Keynesiana. não só vinculada à manutenção da renda. 16(2): 57-86. os governos aplicavam em suas políticas econômicas os fundamentos de tal pensamento. expressando a idéia de amparo mínimo que ganha uma nova concepção. Franca. portanto. mas também atrelada a outros mecanismos de proteção social: proteção ao trabalho. unificado e simples de modo a assegurar que todos teriam de alguma forma acesso aos benefícios. permitir acesso à educação. resultou no Plano Beveridge de 1942. da doença. portanto.comitê administrativo interministerial e encarregado do exame geral do sistema previdenciário britânico.

a micro-eletrônica são as expressões por excelência.). representações trabalhistas moldadas pelos ideais do capital. o que leva às mudanças no mundo do trabalho tais como: “trabalhos precários. Franca. desemprego estrutural. 1996. de que a automação. Desse modo. Era necessária uma proteção social assegurada pelo Estado. da terceirização” (ANTUNES. o toyotismo5 ganha destaque nos países capitalistas. o mais rápido. Ricardo Antunes (1996. Isso faz aflorar ainda mais as críticas por parte dos conservadores em relação às políticas de proteção social. que decorrem da flexibilização. Ainda diante deste contexto. Isto causa uma crise na Seguridade Social de Beveridge. fez com que o modelo de produção que tanto particularizou o capitalismo do século XX. 79) acrescenta que: A década de 1980 foi uma década de grande salto tecnológico que vivenciou uma revolução técnica no interior do capitalismo. 16(2): 57-86. estamos diante de uma nova era para a história do capitalismo (de reestruturação produtiva. parciais. 67 Serviço Social & Realidade. por exemplo). p. 2007 . a lógica taylorista de organização do trabalho. principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento das forças produtivas. temporários. o que terá seus reflexos nas políticas de proteção social em geral. a robótica.econômico. etc. enquanto demanda estatal. flexibilização de direitos. não operando mais em grandes estoques. mas sim com um estoque o menor possível. quando em conseqüência destes abalos identificavamse gastos sociais por vezes muitos altos. Além da constante redução do trabalho fabril. o que prevê um reordenamento na sua forma de gestão. Os gastos são considerados excessivamente desinteressantes para o mercado em vigor. e esse enorme salto tecnológico. cuja nova denominação 5Modelo de produção originário no pós-guerra japonês. deixasse de ser o único modelo dominante no processo de trabalho. devido ao retorno do ideário liberal. o padrão fordista de produção fabril. 83). p. o qual possui flexibilidade para modificar (mudar) o processo produtivo em vigor. mas também era preciso uma proteção mínima. qualquer tipo de demanda existente. gerados em boa parte pela gama de mão-de-obra excedente oriunda do próprio sistema capitalista. cujo intuito é atender. Em decorrência disso. ocorrem abalos na estrutura das políticas de proteção social.

o desafio lançado é de construir uma proteção social com caráter redistributivo. nessa época. sabe-se que. Na verdade. mas na realidade acabavam por amortecer os impactos oriundos da pobreza e da exclusão social. 2007 . preocupando-se basicamente em explorar ao máximo as riquezas naturais e a mão-de-obra abundante. 2002. da desagregação das estruturas familiares convencionais. volta-se ao conceito em torno dos mínimos sociais relacionando com o mínimo de renda. Franca. 120). A partir disso. 68 Serviço Social & Realidade. durante muito tempo. uma grande pobreza vivenciada por essa “gente” que. na verdade. Havia. 16(2): 57-86. quando as políticas de proteção social tiveram. Do mesmo modo. portanto. mas sim seres sem alma que deviam obedecer aos seus donos. as políticas de proteção social deveriam assegurar condições mínimas de sobrevivência. todos demandantes da assistência social (PEREIRA. Era preciso manter o equilíbrio social do mesmo modo que era necessário defender o ideário capitalista. no Brasil. Desse modo. o rei designava esmoleres e instituía cofres em órgãos públicos a fim de recolher espórtulas aos mais necessitados. do aumento de contingentes de idosos e de pessoas portadoras de deficiência. uma vez que mudanças sócio-econômicas respondiam pelo aumento do desemprego.seria neoliberalismo. pouco ou quase nada se importava com a pobreza aqui generalizada. há um crescimento dos planos de assistência social em virtude dos retrocessos das políticas de proteção social capitalista. p. o que se entendia por proteção social e que era destinada aos mais expostos socialmente. mesmo porque não era assegurada. A Coroa Portuguesa. Bem sucintamente. Havia uma grande ausência de iniciativas oficiais e a esmola era a única forma pela qual se recorria. não eram considerados seres humanos. em tese. de nenhuma forma. em sua trajetória histórica. Ora. a garantia de condições mínimas de vida. o trabalho era realizado por escravos. sem relação com o trabalho e que garanta um mínimo de condição de vida. o que cria a necessidade rigorosa de critérios de seleção. por outro lado. nos primórdios do nosso processo histórico. grandes influências e impactos das mudanças tanto econômicas quanto políticas ocorridas no cenário internacional. sendo esta.

portanto. 16(2): 57-86. a Constituição Federal de 24/02/1891 trazia alguns apontamentos sobre proteção social quando Serviço Social & Realidade. em meados do século XVIII surgem algumas medidas na área da saúde – medidas de higiene – cuja finalidade era reduzir a peste que devastavam os povoados. mas a determinadas categorias da sociedade. tal instituição muito pouco fazia diante do atual contexto. a pequenas enfermarias. por meio das Irmandades e Congregações. portanto. na verdade. era ainda muito incipiente e deficitária. Vinda de Lisboa e dotada pelos ideários da esmola como ajuda. ela surge em vários pontos do país e a princípio assegurava um dote aos órfãos e caixão para enterros de pessoas carentes. esteve atrelado à questão da ajuda e da caridade. Do mesmo modo. Destarte. Na realidade. Logo. tínhamos uma proteção social emergencial e descomprometida. Sua formulação. além de limitada. uma vez que não era destinada a todos. A promoção de “status” a quem dela participasse era o principal atrativo para tornar-se um membro. Nota-se. 2007 69 . uma vez que se tratavam de ajudas eventuais e consideradas urgentes. as necessidades mais visíveis. Franca. nos primórdios do país. porém. Assim. pois a participação seria alvo de alguns privilégios que garantiria a realização de um bom trabalho. mantiveram a prática da ajuda à população. que o conceito de proteção social. a qual resumiase basicamente e quase sempre em doações de alimentos aos considerados mais necessitados. mesmo trazendo de forma muito vaga o conceito de proteção social. caracterizando-se como um local de abrigo e alimentação. a Carta Imperial de 1824. ou seja. tínhamos uma prática apenas aparente de que algo se fazia pela situação dos necessitados.Paralelamente a isto. visando atender. Contudo. na verdade. a prática da assistência limitava-se. fornece subsídios para a construção de um amparo mínimo instituído como direito e assegurado pela Constituição. os conventos. Até o século XVII. era muito pequena e destinada a poucos. a qual. diante do dado contexto. não necessariamente vinculadas à Igreja. já que o direito somente se fazia cumprir por meio de instrumento jurídico. a Irmandade da Misericórdia foi a primeira e duradoura instituição de amparo social de expressão no país. as quais funcionavam ao mesmo tempo como albergue e hospital.

Do mesmo modo. funcionários civis e empregados de empresas estatais. as quais seriam totalmente custeadas pela nação.] a proteção social no setor privado baseou-se. p. em 1919. um projeto de lei que determinava a criação das Caixas de Aposentadoria e Pensão (CAPs) para os empregados das empresas ferroviárias. temos o início de um seguro social destinado ao setor privado da sociedade. p. que responsabiliza as empresas pelos acidentes de trabalho. a expressão “aposentadoria” para funcionários públicos. da Lei n. primeiramente. em 24/01/1923 é promulgada o Decreto n. num contexto marcado pelo fortalecimento do movimento operário temos a implementação. aqui. porém ainda de forma discriminada. Logo. 1986.. 2007 . é na Carta de 1891 que se alude. considerada a primeira lei brasileira a garantir proteção institucionalizada ao trabalhador. 16(2): 57-86. para fazer jus aos seus benefícios. mas foi com esta carta constitucional que se ganhou mais respaldo para executá-los.” (MALLOY. 49) acrescenta que: [. os empregados do setor 70 Serviço Social & Realidade. Além disso. Em 1923 foi apresentado pelo então deputado paulista Eloy Chaves. Assim. Franca. em critérios legais e administrativos diferentes daqueles dos servidores civis e dos militares. estes esquemas se restringiam ao setor público: militares. Em decorrência. Malloy (1986. para os servidores civis e para os militares. 48). quando solicitada pelos estados. dada a sua grande relevância. Por exemplo. 4682 de 24/01/1923 o qual é considerado o marco da previdência social no Brasil. mesmo que destinado.. Várias leis conferiam direitos sociais aos trabalhadores. desde o início. entretanto. Além disso. O projeto foi aprovado. “Antes de 1923. a determinadas categorias e num contexto em que a saúde e a assistência social ainda possuíam caráter de benevolência. 3724. ao passo que. receber o conjunto de benefícios era.determinava que seria incumbência da União prestar os “socorros públicos”. é com a previdência social que a proteção social brasileira vai se estruturar como um direito ligado diretamente ao trabalho. transformando-se no Decreto Legislativo n. um direito adquirido com a função. a qual destacamos. e deles não se exigiam contribuições. 4682 ou Lei Eloy Chaves. pela primeira vez.

desse modo. procurava controlá-las. Isto se dava por meio da concessão de alguns benefícios e do discurso oficial de “Estado Protetor”. observa-se que a previdência social brasileira não abrangia toda a sociedade. Eloy Chaves atendia aos anseios de uma elite interessada em si própria e controlava. invalidez. na verdade. Mas. trazendo consigo princípios administrativos sobre o quadro de benefícios. maternidade. A Lei Eloy Chaves. doenças. Desse modo. o qual visava apenas legitimar-se enquanto poder e da mesma forma obter prestígio diante das classes populares. além das diferenças administrativas das CAPs de uma empresa para outra. embora tenha sido concisa. 2007 71 . No entanto. mas sim a setores e/ou categorias profissionais específicas. objetivava em manter o status quo. uma divisão de classes: os segurados e os não-segurados. de certa forma. logo de início.privado e os servidores paraestatais deviam contribuir com uma porcentagem dos seus proventos. determinados setores da sociedade assegurando-lhes “um prêmio” ao final da jornada de trabalho. a Constituição de 1934. Isto cria. Serviço Social & Realidade. velhice. trabalho do menor e da mulher. 16(2): 57-86. ampliando. Ao mesmo tempo em que se baseava em modelos estrangeiros de seguro social. dos empregadores e do Estado. sob supervisão do governo) foram criadas como fundo específico para cada companhia ferroviária do país. Suas fontes para captar fundos se dariam com a contribuição dos empregados. Franca. as CAPs (organizações autônomas. O governo populista da época (a Era Vargas) ao mesmo tempo em que aceitava as exigências propostas pelos trabalhadores. Assim. temos em 1923 a criação do Departamento Nacional do Trabalho e da Saúde. tinha como respaldo as sociedades primitivas de ajuda mútua. do Código Sanitário e de uma legislação pouco prática voltada às questões trabalhistas: férias. empregador e empregado. os recursos e estabelecendo responsabilidades aos integrantes do sistema. acidentes. neste mesmo contexto. traz para o país um dos momentos de maior avanço já alcançados pelos sistemas de proteção social. Registramos ainda que. etc. principalmente ao introduzir o sistema de financiamento com participação das três esferas: União.

Assim. isto é. mas ainda com caráter benevolente. 194 – (BRASIL. a responsabilidade estatal na defesa e garantia dos direitos sociais a fim de. medidas de proteção social são implementadas pelo Estado por meio das políticas sociais e da Seguridade Social. o auge da intervenção do Estado nesta área – de amparo mínimo – se dá com a Constituição Federal de 1988 com a instituição do sistema de Seguridade Social. caráter. pelo menos legalmente. na incapacidade do mercado em dar respostas aos problemas que geram. visando um amparo mínimo ao trabalhador brasileiro independente de prévia contribuição. com isso. o sistema de 72 Serviço Social & Realidade. Franca. natureza. estabelecendo seus objetivos. no Brasil. privado. com a participação do Estado. assegurar a equidade e redistributividade na área social. 164). que a Seguridade Social é dever do Estado e direito dos cidadãos. Assim. amplitude. Pois. de certa forma. 1988. vale ressaltar aqui. Porém. exige-se a intervenção do Estado na regulação das relações de trabalho. de modo a defender que os direitos sociais sejam respeitados. no Brasil o tripé da Seguridade Social constitui-se de modo tanto impuro ou misturado. com isso. a qual. fica garantido. 16(2): 57-86. à previdência social e à assistência social” – Art. funcionamento e financiamento como “um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. Com isso. Mas. a Assistência Social vai aos poucos sendo assumida por grandes instituições. em 1960 viria a padronizar os benefícios previdenciários. dirigido por uma pequena elite. 2007 . com a Constituição de 1946 há a promulgação da mais importante lei previdenciária brasileira: a Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS). principalmente nos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs). o que vem ampliar. sempre influenciaram a economia e a política do país. Além da existência de uma crescente massa de excluídos e ignorados – contribuindo. Além disso. para contextualizarmos o cenário em que se deu a conquista dos direitos sociais. Ao passo que. mais tarde. pois até então a concessão de tais benefícios se dava de modo diferente para cada categoria profissional.A proteção destinada ao trabalhador formal ainda permanece centralizada na esfera federal. formado por poderosas famílias que. que o histórico do Brasil aponta nosso país como centralizado. p.

Franca. políticas e culturais. 6 Serviço Social & Realidade. passaram a ter uma vinculação especializada. econômicas. 16(2): 57-86. de par com as contribuições dos salários. p. 1998. algo. o Finsocial/Cofins. então. Além disso.15). portanto. Do mesmo modo. uma vez que “a política econômica e a política social relacionam-se intimamente com a evolução do capitalismo” (VIEIRA. havia a proposta de criar-se o Ministério da Seguridade Social. o que gerou contradições na legislação da Seguridade Social brasileira6. Em face disso. o custeio dos benefícios previdenciários. 2007 73 . Isso acontece de modo bastante desigual e contraditório. a contribuição salarial. o que gera alterações sociais.seguridade é mais uma junção das três políticas que o compõem do que um sistema coeso e unificado. Isso sem falar na contribuição sobre o lucro das empresas. 1992. a Assistência Social. nos termos da Constituição federal. PIS/PASEP e recursos oriundos de loterias e concursos de prognósticos). juntamente à consolidação da Constituição Federal. disparidades de planejamentos e de ações nas três áreas. cuja incumbência se basearia em organizar administrativamente as políticas de saúde. e particularmente no Brasil. Criaram-se. portanto. ou seja: O PIS/Pasep passou a financiar programas do BNDES e de seguro-desemprego. que foi usada para pagar os servidores públicos aposentados (PEREIRA. e os concursos de prognósticos. o processo de globalização visível a partir da década de 80 (mesma década em que acontece a promulgação da Constituição Federal). no que tange ao sistema de proteção social. III Considerações Trabalho importantes sobre o Mundo do No que tange ao campo orçamentário não houve uma integração plena e precisa dos recursos destinados ao sistema de seguridade social “as diferentes fontes que. para financiar as atividades do sistema (Finsocial/Cofins. a saúde. não passou de idealização. 67). uma vez que. acontece de maneira complexa trazendo consigo grandes mudanças nas diferentes áreas da sociedade mundial. concorriam. na verdade. bem típico do sistema capitalista e que terá suas repercussões na legislação brasileira. Isso. não houve no país um órgão específico que congregasse – a fim de administrar conjuntamente – o sistema instituído. p. a intervenção estatal – especificamente no caso brasileiro – em defesa da garantia de um amparo mínimo acompanha e/ou acompanhou o desenrolar político-econômico da sociedade em escala global. previdência social e assistência social.

aqui. assim. ainda vai gerar novas e inovadoras condições de desigualdade social. além de reproduzir as desigualdades existentes no mercado de trabalho. principalmente por meio da ideologia do “Estado Mínimo”. e alcançou o Brasil em 89. apud Draibe (1993. não de governo forte. Há predominância do caráter individual sobre o coletivo e a formulação do Estado Mínimo. quando da introdução do neoliberalismo no Brasil. Ou seja. em linhas gerais a descrevemos como a liberdade e a primazia que o mercado exerce sobre o Estado. 150). Ao cabo de pouco tempo as idéias neoliberais começam a soar como combinações aleatórias de palavras mágicas. Franca. Para tanto. Serviço Social & Realidade. Por conseguinte. Precisamos de parcerias. Espalha-se pelo mundo. Acima de tudo. p. vestuários e moradia. com Reagan. Além disso. Falem de necessidades nacionais. em decorrência dos preceitos neoliberais7. uma redução desse Estado no que tange ao seu tamanho. Repudiem o passado. os neoliberais têm conceitos. 16(2): 57-86. É ruim exigir programas. mas sim propor uma análise mais atual e crítica. com destaque a situação dos trabalhadores em nosso país. vivenciamos uma realidade um tanto distante dos preceitos de proteção social. 1993. embora não haja uma descrição única e precisa sobre a teoria neoliberal. onde o retorno da democracia política foi acompanhado pelo abandono dos modelos econômicos estatizantes. 2007 74 . p. É bom ter prioridades. ou seja. Gastar é ruim. o qual não deve intervir no “livre jogo” do sistema econômico. chegando à América Latina. no começo de 1980. tratem do futuro. em seguida. quando desde os primórdios o homem já assegurava sua sobrevivência por meio da atividade laborativa. Exijam crescimento.A história do trabalho acompanha a história da humanidade. nos Estados Unidos. institui a quebra das conquistas dos trabalhadores e ao desbaratamento do poder dos sindicatos possibilitando. não de demandas de interesses especiais. não distribuição. o 7 O neoliberalismo se implanta na Inglaterra com Thatcher no final da década de 1970 e. com Collor (SERRA. com a produção de alimentos. Nossa intenção. o acesso aos bens sociais. conforme Schneider. não é fazer uma discussão tão histórica sobre o mundo do trabalho. ao seu papel e as funções. enfatizamos o mundo do trabalho a partir da década de 1980/90. 89): Em lugar de ideologia.

rebaixamento salarial e o aumento da competitividade entre os trabalhadores. Os liberais já defendiam o investimento mínimo em áreas sociais, de modo a manter, sob controle, a questão social, expressada por vezes, na diminuição e eliminação de postos de trabalho, na flexibilização, na terceirização, na marginalização e na precariedade da atividade laborativa e desempregos em geral. Atribui-se, assim, um caráter residual às políticas sociais, além de desconfigurar, por completo, as políticas de proteção social. Desse modo, ao dar ênfase ao sistema capitalista – como modelo econômico a ser adotado – formula-se uma combinação perfeita e intimamente relacionada entre o modelo neoliberal – como teoria política em gestação – e a reestruturação produtiva – como redefinição do processo de produção de mercadoria – a fim de, com isso, efetivar as exigências impostas pela reforma capitalista. Do mesmo modo, criam-se meios para redirecionar a atuação do Estado, como por exemplo, as reformas da previdência (emenda 19 e 20).
Nessa conjuntura, as mudanças nas relações entre Estado, sociedade e mercado materializam-se em um conjunto de medidas de ajuste econômico e de reformas institucionais, cujos destaques são os mecanismos de privatização, as pressões do empresariado e da burocracia estatal para suprimir direitos sociais e trabalhistas e a “naturalização” da superexploração do trabalho (MOTA, 2000, p. 37)

Assim, com a finalidade de reduzir e/ou reordenar a ação e intervenção estatal em relação às políticas de proteção social, o sistema capitalista reestrutura também o próprio mercado de trabalho ao flexibilizar as relações de trabalho, aumentar a competitividade, a mão-de-obra, o desemprego, o subemprego, etc. Flexibiliza, também, leis e direitos ora assegurados constitucionalmente, pois
Enquanto a grande indústria fordista necessita do Keynesianismo, a indústria de produção flexível necessita de liberdade de mercado e da abolição de parte dos controles do Estado sobre as condições de uso da força de trabalho. Esta nova concepção, que já se materializa pela supressão de alguns mecanismos de proteção social, é corroborada pela Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 75

ofensiva de mudança na legislação do trabalho (MOTA, 2000, p. 38).

O processo de reestruturação produtiva – preconizada pela reforma capitalista – ocasiona mudanças no mundo do trabalho que “afetam imediatamente o processo de trabalho e, mediatamente, o controle da força de trabalho, operando mudanças de ordem técnica, mas amparadas em práticas essencialmente políticas” (MOTA, 2000, p. 38). Desse modo, sob a ótica neoliberal, engendram-se determinados processos – reestruturação produtiva e mudanças no mundo do trabalho, por exemplo – que culminarão em propostas de reformas, as quais baseiam-se, essencialmente, em redirecionar as ações estatais, com medidas de ajuste, e a atuação das políticas sociais, o que “exige um Estado reduzido que garanta a realização do mercado, centrando suas funções em segurança, fiscalização e arrecadação de imposto” (CABRAL, 2000, p. 129). O objetivo desse processo é ajustar o país ao novo contexto posto pelo capitalismo mundial, o que se designou como sendo a Reforma do Estado. Assim, longe de uma análise simplista, a Reforma do Estado visa, em linhas gerais, adequar as ações estatais, sob orientação do mercado em vigor, em relação ao mercado internacional, em que tal contexto passe a exigir novas formas de ação e atuação por parte do Estado “respondendo às novas condições de competitividade e inserção no mercado mundial” (BEHRING, 2000, p. 43). Concomitante a isto,
Os investimentos na área pública, que historicamente cresceram em vários países, principalmente no âmbito da Seguridade Social, são entendidos, pelo Banco Mundial, como gastos mais quantitativos que qualitativos, não atendendo às necessidades dos segmentos populacionais mais pobres. Entende, ainda, que esta forma de atuação dos Estados nacionais não condiz com os atuais parâmetros da economia mundial globalizada, pois as mudanças tecnológicas têm ampliado as funções dos mercados e obrigado as nações a assumirem competências novas (SIMIONATTO, 1999, p. 14).

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Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007

Caminhava-se na direção de reduzir e/ou flexibilizar direitos, em que se transformam as políticas sociais em pontuais, compensatórias e limitadas, contrariando, desse modo, o legalmente posto, como política universal, redistributiva e justa. Com isso, portanto, o Banco Mundial faz algumas “indicações” ao Brasil ao tratar a temática e conseqüentemente a Reforma do Estado, em que se faz necessário:
a) a delimitação do tamanho do Estado, reduzindo suas funções através da privatização, terceirização e publicização, que envolve a criação das organizações sociais; b) a redefinição do papel regulador do Estado através da desregulamentação; c) o aumento da governança, ou seja, a recuperação da capacidade financeira e administrativa de implementar decisões políticas tomadas pelo governo através do ajuste fiscal; d) o aumento da governabilidade ou capacidade política do governo de intermediar interesses, garantir legitimidade e governar (SIMIONATTO, 1999, p. 14-15).

Assim, a partir desses componentes desenvolvem-se no país propostas de privatização, diferentes formas de terceirização, flexibilização, transferência de responsabilidades – do público estatal ao privado –, reformas administrativas e sociais, etc, o que moldado pela ideologia neoliberal, configura o novo cenário em construção, o qual, por ora, prioriza o sistema econômico mundial em detrimento dos direitos sociais. Desse modo, portanto, as reformas da Previdência Social, ocorridas após a Constituição de 1988, ao justificarem-se, de acordo com os argumentos do governo federal, no déficit de caixa, em sua viabilidade junto ao sistema econômico em vigor e na relação ativo/inativo visam, na verdade, “adequar” o sistema previdenciário brasileiro ao contexto internacional.
Assim, as agências executivas, que são o novo desenho de autarquias públicas, passam a adotar o modelo flexibilizado, com amplo emprego de terceirização e contratação de mão-de-obra precária, além de imprimirem ao seu gerenciamento um tipo de metodologia de controle de qualidade com fixação de contratos de gestão. São, ainda, características desse novo padrão gerencial do Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 77

Estado a intensificação do ritmo produtivo, a desregulamentação, a polivalência no exercício das atividades e a redução de pessoal, acarretando significativas mudanças no mundo do trabalho público. (CABRAL, 2000, p. 128).

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho e as reformas do aparelho estatal, ambas, portanto, sinalizadas num contexto global, terão reflexos e rebatimentos, ainda mais profundos, nas políticas de previdência social e assistência social. Segundo dados apresentados por Pinheiros (2000, p. 01) “no Brasil a proporção da população com mais de 60 anos passou de 4% em 1940 para 8% em 1996. De acordo com as estimativas [...] esta proporção deve alcançar 15% em 2020”. Diante de tal conjuntura, existem, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), um índice de mais de 59% da população economicamente ativa fora ou descobertos pela previdência social brasileira e com isso, ainda, segundo Pinheiros (2000, p. 09) “no futuro, caso não tenham acumulado renda, esse contingente dependerá de benefícios assistenciais, onerando toda a sociedade, ou viverá às custas de suas famílias”. Isto é, haverá uma demanda ainda maior à assistência social, como meio de acesso ao mínimo de subsistência. E, ainda, segundo estudos atuais (2000) da OIT (Organização Internacional do Trabalho) apontam que,
[...] mais da metade da força de trabalho mundial e seus dependentes não estão amparados por qualquer tipo de sistema de seguridade social. Isso significa que, no futuro, esse contingente deverá pressionar por aumento dos gastos públicos em programas assistenciais ou reduzirá a renda média per capta de suas famílias. (PINHEIROS, 2000, p. 01).

Ou seja, uma gama significativa de trabalhadores brasileiros estará desprotegida socialmente. Seja em função do Estado Mínimo, seja em razão da reestruturação produtiva. Ambas, porém, oriundas da ideologia neoliberal, a qual criará “novas” condições de trabalho no país – algo que enfatizaremos neste documentário – quando temos uma realidade trabalhista moldada pela diminuição e eliminação de postos de trabalho, flexibilização, terceirização, marginalização e/ou precariedade da
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atividade laborativa e desempregos em geral, o que gera uma “nova” realidade para o mercado de trabalho em vigor. Em face desta nova realidade, vivenciamos o descumprimento das normas de proteção social, o que gera um mercado de trabalho ainda mais desumano e cruel com precárias e vulneráveis condições trabalhista, algo que a Organização Mundial do Trabalho descreve como “um estado de elevada exposição a determinados riscos e incertezas, combinado com uma capacidade diminuída para se proteger ou defender-se deles e para fazer frente a suas conseqüências negativas” (RODRIGUES, 2004, p. 84). Ou seja, o trabalhador brasileiro está exposto ao trabalho socialmente vulnerável, o qual é isento de direitos e benefícios assegurados pela Constituição Federal, CLT e legislações afins. Assim, portanto, vivenciamos o trabalhador brasileiro, como parte da realidade, em postos de trabalho informais, desumanos e insalubres, pois em face ao desemprego, a “mecanização” da mão de obra e ao desrespeito aos direitos sociais, sujeitam-se à precariedade de muitos postos de trabalho. Aqui, portanto, destacamos os casos de acidentes de trabalho, os quais muitas vezes acontecem em decorrência das más condições de trabalho, além de legislações e fiscalizações limitadas por parte do Ministério do Trabalho e demais órgãos do Estado. Assim, conforme dados publicados na Folha de São Paulo em 04/05/2004, o Brasil ocupa o 4º lugar no ranking mundial de acidentes de trabalho. A cada ano quase dois milhões de trabalhadores morrem em acidente de trabalho no mundo, o que representa cinco mil mortes ao dia ou três por minuto, dado referente apenas ao trabalho formal. Dados, portanto, são ainda maiores, pois há ainda uma parcela, significativa, da população economicamente ativa (a qual estima-se que seja em torno de 60%) inserida em postos informais de trabalho. Nosso trabalho, junto às vítimas de acidente de trabalho na Unidade de Emergência Referenciada (UER) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), instigou-nos a realizar uma pesquisa quanti-qualitiva, a fim de conhecermos a realidade vivenciada pelo trabalhador brasileiro vítima de acidente e da desproteção social vivenciada atualmente pelos trabalhadores brasileiros. Fizemos, portanto, um levantamento por meio de uma amostragem (julho a dezembro de 2005) na Unidade de
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Emergência Referenciada, quando houve o registro de 611 vítimas de acidente de trabalho. Assim, temos que 26% não possuíam o registro em carteira, ficando expostos e desamparados em face de tal situação. Ou seja, os postos formais de trabalho estão sendo “engolidos” e substituídos pelo crescente número de postos informais de trabalho. Decresce dia a dia o número de trabalhadores que ainda tem emprego regular e, portanto, gozam de seus direitos legais. Ao precarizar o trabalho, simplesmente, regredimos no tempo, pois deixamos de preservar todas as lutas conquistadas pela massa trabalhadora. Outro dado importante é o percentual de acidente que acontece durante o trabalho, quando 74% das vítimas se acidentam no local de trabalho, os chamados acidentes típicos. Este fato aponta sobre a situação de trabalho no país, quando, muitas vezes, são impostas ao trabalhador como meio de subsistência, o que desrespeita os preceitos de cidadania. A grande maioria das vítimas é do sexo masculino (74%). Ou seja, são os homens as maiores vítimas dos acidentes, mesmo porque são mais expostos em trabalhos pesados, perigosos e degradantes, o que indagamos, novamente, sobre as condições de trabalho no país, no que tange, por exemplo, as normas de segurança. Mas em ambos os sexos a idade predominante se dá dos 19 aos 30 anos de idade. Felizmente, a grande maioria das vítimas (70%) são liberados da UER em alta médica, por se tratar de acidentes identificados como leves e/ou menos graves. Mas o número dos acidentes de trabalho são considerados elevados no Brasil e precisam ser discutidos. Pois a queda destes índices reduz, por exemplo, os gastos, tantos das empresas quanto do sistema de saúde pública, com saúde curativa, afastamentos médicos, etc. Desse modo, a precariedade vivenciada pelo trabalhador brasileiro diz respeito à situação de desproteção social do trabalho (em virtude da atual conjuntura político-econômica), ou seja, o trabalho encontra-se desprovido de certos direitos e benefícios que amparam o trabalhador ao longo de toda sua vida laborativa, uma vez que, tal atividade constitui-se como mecanismo de prover suas necessidades básicas e fundamentais. Assim, por exemplo, em face de um acidente “devido” ao trabalho, o trabalhador encontra-se desamparado. E, menos acesso tem ainda aos direitos básicos do
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C. etc. 2007. na ausência desta e/ou sem meios de acessá-la. the flexibilizations. we have the labor world submitted to the capitalism law. é que como conseqüência da ideologia do “Estado Mínimo” e de uma política pública restrita de direitos. 2. Here. aposentadorias. décimo terceiro. como meio e/ou direito à proteção social. políticos e sociais) e com isso direito a um trabalho socialmente protegido. Assim. BOVOLENTA. portanto. o trabalhador se torna potencial usuário da política de Assistência Social. E. Today. the conception. Sumariamente. as a survival mechanism. a legislação trabalhista. os assistentes sociais como profissionais da área precisam conhecer esta (nova) realidade social. Serviço Social & Realidade (Franca). KOHN. 16. acima dos interesses do grande capital está o direito de cidadania (como direitos civis. 2007 . a qual aponta diferentes diretrizes de trabalho. um desrespeito aos direitos sociais. O que precisamos ter claro. M. logicamente. • ABSTRACT: Since the humanity's origins the man exercises the labor activity. Franca. como a subsistência se dá meio da atividade laborativa. assuring him “social protection”. por entender que.. sem direitos trabalhistas e em atividades precárias. S. desumanas e insalubres. quando contextualiza o cenário das relações de trabalho no país. as well as the work relationships. o descumprimento as normas de proteção social tem sido discutido por analistas da área. decodificar. entender e trabalhar esta realidade. therefore. deu-se a precarização do trabalho. p. M. De modo que. o profissional possa trabalhar rumo a garantia e efetivação dos direitos sociais. 16(2): 57-86. However.. Por outro lado. como férias. changed a lot. O aprimoramento realizado junto às vítimas de acidente de trabalho dá oportunidade ao profissional de conhecer. Thus. A. outsourcings and informalities are part of this new scenery. whose intention is to know the social (dis)protection lived by the 81 Serviço Social & Realidade. n. A. 57-86. SOARES. v. we emphasized the cases of labor accidents. licenças. which it is constituted as one of the Professional Improvement Programs in the area of Social Service. as time goes by. G. com trabalhadores sem estabilidade de emprego. cuja intervenção junto às vítimas de acidentes de trabalho vise garantir o cumprimento das conquistas trabalhistas ao longo de nossa história. a Constituição Federal.trabalhador. The social (dis) protection of the worker: the cases of labor accident.

8. V. R. IAMAMOTO. S. n. O. J. São Paulo: USP. ARAÚJO. Rio de Janeiro: Graal.Brazilian workers. ano XVII. 7. 1986. 17. • KEYWORDS: Social Protection. 2000. Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação em Política Social do Departamento de Serviço Social da UnB. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. Disponível em: <http:www.abepss. do Brasil. 2000. 2001. Anais do 10° CBAS. M. Referências ANTUNES. n. Reforma do Estado e Seguridade Social no Brasil. Centro de educação aberta. 1996. 1989. ed. 02. M. Dimensões da crise e metamorfoses do mundo do trabalho. fev. R. 87-101. Labor Accident. Módulo 03. MALLOY. 1997. Brasília/DF: UnB. 08. São Paulo: Cortez. 1993. dos Tribunais.htm >. BEHRING. BRASIL. p.org. Revista USP. ______. Atual. 2001. E. 16(2): 57-86.. M. v. Rev. 3. BALERA. um reflexo da crise da Modernidade: o caso brasileiro. 2007 . São Paulo: RT. S. DRAIBE. As políticas sociais e o neoliberalismo. Labor Market. As políticas brasileiras de seguridade social: Previdência Social. A Seguridade Social na Constituição de 1988.662/93 de regulamentação da profissão. Código de Ética do Assistente Social e Lei n. Capacitação em Serviço Social e política social.br/ CO_segprevi. 50. Análise Conjuntural. 4. Rev. ed. R. W. continuada à distância. São Paulo: Cortez. Brasília/DF: Conselho Federal de Serviço Social. 1986. Franca. CABRAL. 1988. O padrão brasileiro de proteção social: desafios à democratização. 82 Serviço Social & Realidade. Política de Previdência Social no Brasil. Acesso em 20 de agosto de 2004. n. Brasília/DF: UnB. Revista Serviço Social e Sociedade. n. BRASIL. Constituição da Republica Federativa Brasília/DF: Centro Gráfico do Senado Federal. A crise dos Sistemas de Proteção Social. S.

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concluiu-se que os sujeitos apresentam. em média. 16(2): 87-128. Trabalho. Teve como objetivo principal avaliar a qualidade de vida de indivíduos adultos com fissura labiopalatina. Qualidade de vida. Para o levantamento dos dados. relações sociais e meio ambiente. residentes em Bauru. em Bauru. uma qualidade de vida de boa a muito boa. além do ensino e pesquisa. Diante dos resultados. em fase final de tratamento no Hospital e inseridos no mercado de trabalho. formado em sua primeira parte por 26 questões fechadas e na segunda por oito questões abertas para coleta de depoimentos. Franca. cuja finalidade. visão e linguagem. * Serviço Social & Realidade. *** Assistente Social especialista na área da Saúde e Reabilitação pelo HRAC/USP e responsável pelo Programa de Atendimento Social a Casos de Bauru do HRAC/USP. utilizou-se o formulário pautado no instrumento internacional de qualidade de vida. 2007 87 . busca por meio de Assistente Social da Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio Palatal (PROFIS/Bauru) e Especialista em Serviço Social na área da Saúde e Reabilitação pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP). bem como índices significativos de satisfação profissional e com a atuação do serviço social do HRAC facilitador do processo de inserção no mercado de trabalho. O universo foi composto por 46 sujeitos e a amostra de 27 casos que aderiram ao estudo.TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA DE PESSOAS COM FISSURA LABIOPALATINA INSERIDAS NO MERCADO PROFISSIONAL EM BAURU Lívia Ribeiro Silva dos SANTOS* Maria Inês Gândara GRACIANO** Regina Célia Arruda de Almeida Prado VALENTIM*** • RESUMO: Esta pesquisa trata-se de um estudo exploratório e descritivo realizado no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP). ** Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e Diretora de Divisão de Apoio Hospitalar do HRAC/USP. no período de agosto a novembro de 2006. é prestar atendimento público e integral à população com anomalias craniofaciais e distúrbios correlacionados à audição. Bauru-SP. psicológico. Fissura • Introdução O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP). Bauru-SP. mediante os domínios físico. o WHOQOL-bref. PALAVRAS-CHAVE: Labiopalatina.

trabalho e comunidade. Adoção: nacional e internacional. local de nossa prática profissional e de pesquisa de campo. buscam formas de enfrentamento individual e coletivo para as expressões da questão social que envolvem o processo de reabilitação global. Este processo envolve a ação de uma equipe interdisciplinar. em sua totalidade. visando a inclusão dessas pessoas numa política de saúde em interface com a assistência social (GRACIANO et al. escola. Os serviços prestados. Atua como mediador entre Hospital. * Dados obtidos pelo Centro de Processamento de Dados do HRAC/USP em junho de 2007. com vistas à garantia dos direitos. dentre elas o Serviço Social área que tem entre seus princípios fundamentais a ampliação e consolidação da cidadania. alimentação. 2007 .439 pacientes matriculados.suas ações colaborar com a melhoria da qualidade de vida de seus usuários. Prevenção e intervenção a casos de abandono de tratamento. 88 Serviço Social & Realidade. saúde. entre outros. dentre eles à saúde e reabilitação. O Serviço Social desenvolve vários programas de prestação de serviços. De acordo com o Centro de Processamento de Dados* (CPD). deste total 501 são residentes em Bauru e atendidos pelo Projeto Bauru. O Serviço Social no HRAC. reabilitação. escola. ao transporte. 16(2): 87-128. Assistência contínua aos pacientes de Bauru: família. ao trabalho. o Projeto Bauru abrange os seguintes programas: Acolhimento e atendimento a casos novos de Bauru. Conforme pontua Graciano et al (2005). composta por diversas áreas. tem como objetivo principal viabilizar o acesso ao tratamento reabilitador de pessoas com anomalias craniofaciais e sua continuidade. o Hospital possui 51. viabilizando o processo de reabilitação. à habitação. O “Projeto Bauru” tem como objetivo principal atender as demandas sociais dos pacientes residentes em Bauru relacionadas à família. 2005). Franca. porém neste estudo iremos enfocar o Programa de Atendimento Social a Casos de Bauru – (“Projeto Bauru”) – realizado pelo Serviço Social Ambulatorial. A partir de nossa experiência neste Programa. prestando-lhes assistência e serviços sociais como direito de cidadania. por meio de uma prática profissional competente e comprometida com os usuários. paciente e comunidade.

especialmente com relação a inserção profissional. 16(2): 87-128. foi constatado a existência de dois importantes estudos. o assistente social trabalha a questão social nas suas mais variadas expressões cotidianas. propusemos a elaboração desta pesquisa sob o tema Trabalho e qualidade de vida de pessoas com fissura labiopalatina inseridas no mercado profissional em Bauru. O primeiro realizado por Bachega (2002) com o objetivo de identificar. descrever e avaliar os indicadores psicossociais e a repercussão deste na qualidade de vida de 67 adolescentes com fissura em comparação com 67 adolescentes sem fissura. Ressalta-se. na área habitacional. p. psicológico. O segundo estudo. na saúde. por possibilitar ao pesquisador a apreensão das principais expressões da questão social. com aprofundamento na área profissional. E. relações sociais e meio ambiente. teve Serviço Social & Realidade. conforme o levantamento bibliográfico efetuado a partir do ano de 2000 para o conhecimento de trabalhos científicos no HRAC relacionados à fissura labiopalatina e qualidade de vida. De acordo com Iamamoto (2001. 27): a questão social é o objeto do trabalho cotidiano do assistente social. os pacientes superaram os limites da deficiência e apresentaram-se satisfeitos com a vida. conseqüentemente. apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura. enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada. todavia. que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva. monopolizada por uma parte da sociedade. por meio da auto-realização. 2007 89 . da saúde e do bem-estar. desenvolvido por Veronez (2007). ambos com idade entre 10 e 19 anos. tais como as que os indivíduos as experimentam no trabalho. relatou limitações dos indivíduos com fissura labiopalatina para o desenvolvimento de uma carreira profissional devido a baixa freqüência escolar. Salienta-se que. por entender que esta investigação permitirá o conhecimento das condições de vida dos sujeitos nos aspectos físico. que apesar do estigma. na assistência social pública. o trabalho torna-se mais amplamente social. na família. de modo a intervir na realidade. buscando o enfrentamento e a minimização dessas expressões. na educação e outras. Desta forma. Franca.

psicológico. com aprofundamento na área profissional. E específicos: caracterizar o perfil socioeconômico. Em seu Art. Deficiência e aspectos legais O termo Pessoa Portadora de Deficiência (PPD) foi designado pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL.298/99 veio legitimar a Lei n. define deficiência como: “toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função 90 Serviço Social & Realidade. avaliar a qualidade de vida mediante os domínios: físico.853/89. Embora não tenha havido correlação entre a qualidade de vida e os aspectos demográficos. Franca. 16(2): 87-128.como objetivo avaliar a qualidade de vida de pacientes adultos com fissura labiopalatina. 1988) ao tratar sobre “deficiência” e encontra-se vigente até este presente momento. 3º. educacional e profissional. Desta forma. O Decreto n. 7. justifica-se pois as pesquisas sobre qualidade de vida em pacientes com fissura labiopalatina revelaram que os autores consideraram para sua avaliação. um conjunto de componentes físicos e psicossociais que podem influenciar nas condições de vida. verificar a concepção de qualidade de vida dos indivíduos. analisando-a a partir das condições sociodemográficas dos mesmos e do instrumento WHOQOL-bref. A autora concluiu que os pacientes possuem índices gerais de qualidade de vida acima da média. os dados apontaram que os pacientes têm boa qualidade de vida e condições de vida correspondentes à população em geral. 3. que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. identificar o grau de satisfação profissional e social e avaliar a atuação do serviço social como facilitador no processo de inserção no mercado de trabalho e manutenção e/ou outros serviços prestados. relações sociais e meio ambiente. Daí nosso interesse por esta pesquisa que tem como objetivo principal avaliar a qualidade de vida de adultos com fissura labiopalatina. residentes em Bauru e em fase final de tratamento no HRAC/USP inseridos no mercado de trabalho. o presente estudo por nós desenvolvido. analisar as dificuldades e/ou facilidades para sua inserção e permanência no mercado de trabalho em função da deficiência. procedentes do estado de São Paulo e em fase final de tratamento. mas em nenhum deles a questão do trabalho diretamente relacionado à qualidade de vida foi explorado anteriormente. Foi realizada no HRAC com 120 pacientes com idade entre 18 e 30 anos. 2007 .

hemiparesia. ostomia. 2007 91 . 16(2): 87-128. hemiplegia. em comparação ao Decreto n. paralisia cerebral. 2006c). 2006c. deve ser considerada como deficiência a fim de assegurá-los o pleno exercício dos direitos sociais e individuais consagrados pela Constituição Federal. As fissuras labiopalatinas e aspectos psicossociais A fissura labiopalatina está prevista na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Serviço Social & Realidade. dentre os quais. fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade. paraparesia. No Art. p. O Decreto n.298/99 (BRASIL. traz em seu artigo 5º. Desta forma o Decreto n. como: física. o enquadramento da deficiência física como: Deficiência física . tetraplegia.296/04 comparado ao 3. 3. o direito à saúde e ao trabalho. 2006). Franca. dentro do padrão considerado normal para o ser humano” (BRASIL. em decorrência do comprometimento funcional que a fissura labiopalatina acarreta aos seus portadores. acarretando o comprometimento da função física. social e econômico (CAMPOS et al. 2006b. 4º.298/99 mantém a mesma definição de deficiência física. dentre eles a Proposta de Enquadramento da Fissura Labiopalatina como Deficiência Física coordenada por profissionais da Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Fissuras Labiopalatais (REDE PROFIS). exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções (BRASIL. estabelece as categorias que a pessoa portadora de deficiência se enquadra. auditiva. triparesia.psicológica. 2006b). Tal proposta afirma que. capazes de propiciar pleno bem-estar pessoal. triplegia. Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (FUNCRAF) e HRAC.alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano. tetraparesia. monoplegia. porém inclui a ostomia e o nanismo. visual. amputação ou ausência de membro. mental e múltipla. nanismo. 2). apresentando-se sob a forma de paraplegia. monoparesia.296/04 (BRASIL. 1). 5. Atualmente diversos estudos estão sendo realizados. p. 5. membros com deformidade congênita ou adquirida.

agrupadas em três categorias. 2004). aliada aos aspectos psicossociais agravantes. 2006a). evidenciando uma maior preocupação com a questão do estigma físico. fenda labial e fenda labial com fenda palatina. De acordo com os autores acima. Franca. Podem estar associadas ou não às fissuras labiais e são deformidades que interferem diretamente nas funções orgânicas e funcionais de seus portadores. deformidades e anomalias cromossômicas.1% dos casos (FREITAS et al. como as regiões orais. 2007 . Já a fissura de lábio (unilateral ou bilateral) é resultante da falta de fusão dos processos nasais da proeminência frontal com o processo maxilar na sétima semana de desenvolvimento embrionário. em centros cuja equipe se preocupe com a reabilitação global do indivíduo. a fatores hereditários. ainda não foram totalmente comprovadas as causas das fissuras. satisfação com resultados e. ocular e craniana. Dentre os tipos de fissuras existentes. sendo: fenda palatina. há a perspectiva de capacidade de superação das dificuldades por meio de uma intervenção interdisciplinar com o paciente e sua família. Porém. 16(2): 87-128. Apesar da existência de diversos estudos realizados nesta área. Todos estes fatores interferem na constituição do sujeito. Graciano et al (2007) também pontua que as fissuras labiopalatinas não determinam diferenças significativas em termos 92 Serviço Social & Realidade. principalmente. como no HRAC. em relação ao aspecto psicológico. também podem ocorrer fissuras atípicas que envolvem outras áreas além do lábio superior e palato. hoje atribuídas. dos processos bilaterais independentes do maxilar por volta da décima segunda semana de vida intra-uterina. Muitos estudos pontuaram os fatores psicossociais que compõem a vida do indivíduo com fissura.Saúde – CID 10 (BRASIL. trabalho. correspondendo a 37. Com base na literatura revisada por Veronez (2007). observou-se que a fissura labiopalatina traz comprometimentos estéticos e funcionais que podem influenciar negativamente na formação da identidade e competência social. nasais. na linha mediana. educação. o mais freqüente é a fissura completa de lábio e palato. a fissura palatina é resultante da falta de fusão. relacionamentos interpessoais. Conforme pontua Abdo & Machado (2005). que inclui as malformações. ambientais específicos e concomitantes com outras síndromes.

entre outras. o trabalho contribui para autoestima. que sofre influências oriundas de distintas fontes. e. parece haver uma estreita relação entre os resultados do tratamento e o grau de aceitação da deformidade facial pelo paciente. também. insegurança e dependência dos pais. psicológicas. Franca. principalmente quanto à forma e ao meio no qual desempenha sua tarefa (KANAANE. conseqüentemente. pontua que na formulação marxiana a força de trabalho é o ponto de partida do processo de humanização do ser social. sua inclusão social. Segundo Borges et al (1997). o trabalho é um processo entre o homem e a natureza. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua capacidade. em que o homem por sua própria ação. afetivas e sociais. Do ponto de vista psicológico. Trabalho e qualidade de vida Segundo Antunes (2003). 1995).de desenvolvimento de personalidade. numa forma útil para sua própria vida. regula e controla seu metabolismo com a natureza. É compreendido. o trabalho é elemento chave na formação de coletividades humanas. o trabalho provoca diferentes graus de motivação e de satisfação no trabalhador. a partir das considerações de Marx (1971). media. 2007 93 . Do ponto de vista sociológico. Seu Serviço Social & Realidade. o que resulta numa ação recíproca entre trabalhador e os meios de produção. cabe aos profissionais da área encontrarem uma forma adequada de propiciar aos portadores de fissura labiopalatina a reabilitação adequada e. como o desenvolvimento pessoal e intelectual são influenciados pelas reações e atitudes da família e colegas. a fim de apropriar-se da maneira natural. cabeças e mãos. ao citar a teoria valor-trabalho de Marx (1971). como processo social de transformações que visa atender às necessidades sociais de reprodução humana. confiança e para determinar o status do ser humano. com algumas características comuns: baixo autoconceito. Considerando que. Esse mesmo autor. As atividades de trabalho modificadas pelo progresso técnico têm implicado mudanças significativas nas condutas e reações dos grupos que os compõem. dificuldade de comunicação. esquiva de contatos sociais. Nesse sentido Kanaane (1995) afirma que o trabalho é uma ação humanizada exercida num contexto social. 16(2): 87-128. mas podem levar a diversas contingências físicas. braços e pernas.

esporte etc. ou seja. à renda.). ainda não existe consenso na aceitação de uma única definição. Conforme pontua Lourenço et al (2006). 57). 2002). Segundo Rocha & Fritsch (2002. Opressão e emancipação. p. individual ou coletivo. um fardo. é. o trabalho. mas que repercutem sobre a totalidade da vida em sociedade. Apesar desses elementos se manifestarem objetivamente no cotidiano das pessoas (trabalhadoras). afetivo. Para Cattani (1996). como ato concreto. a qualidade de vida no trabalho significa uma “estratégia e ação preventiva de melhoria contínua no processo de valorização das pessoas”. Assim a análise da relação do trabalho com a qualidade de vida perpassa por essas questões. alegria etc. aprimoramento e remuneração. condições de vida e o grau de satisfação no âmbito familiar. 2007 . Para correlacionarmos o trabalho e a qualidade de vida. alienação e criação são suas dimensões ambivalentes. qualidade de vida é uma expressão abstrata pertencente a um universo ideológico. por definição uma experiência social. podendo apresentar múltiplas acepções. que não se limitam à jornada laboral. é preciso considerar os elementos objetivos e subjetivos. identidade pessoal. Franca. do ponto de vista acadêmico. social e ambiental. transformação de conceitos e atitudes.) e às condições seguras de trabalho e de moradia. lazer. há uma inter-relação com as questões subjetivas (satisfação. este pode ser visto como uma atividade penosa. às políticas públicas (educação. Desta forma. o trabalho tem um significado amplo na vida das pessoas. O termo qualidade de vida é uma noção eminentemente humana. Baseia-se na 94 Serviço Social & Realidade. pois proporciona aprendizagem. faz parte de uma “família” de conceitos que se aproximam ao bem-estar humano que engloba o modo de vida. conforme relatam os autores acima.papel é de fundamental importância para o indivíduo. um sofrimento ou uma atividade prazerosa que dá sentido à vida. aos direitos sociais. 16(2): 87-128. crescimento. a qualidade de vida só pode ser vivenciada pelos trabalhadores à medida que lhes são facilitados o acesso ao trabalho. liberdade. saúde. crescimento e satisfação profissional (ROCHA & FRITSCH. cultura. tripallium (tortura) e prazer. Dependendo do nível de satisfação dos trabalhadores e das condições de trabalho propiciadas por uma organização. De acordo com Albuquerque (2003).

às políticas públicas de educação. A partir desta perspectiva. reconhecimento social e profissional. o trabalho. Trata-se de um conceito amplo e complexo que engloba diferentes domínios na avaliação da qualidade de vida. lazer. a família. as pessoas serem compreendidas como sujeitos humanos integrais e integradores e de terem respondidas as suas expectativas. 1994. no trabalho. 16(2): 87-128. conseqüentemente. considera-se que o bem-estar conquistado na relação do homem com o trabalho. a privacidade. psicológico. autonomia. concomitantemente interligados com as questões subjetivas. expectativas. esporte. elencados nos Serviço Social & Realidade. aos direitos sociais. entre outras. e às condições seguras de trabalho e de moradia. Ou seja. Os mesmos autores afirmam que a qualidade de vida no trabalho relaciona-se diretamente com as possibilidades concretas de. p. 2007 95 .premissa de oportunizar a melhoria na qualidade de vida. Assim. são fatores preponderantes na qualidade de vida. abrangendo todos os aspectos deste viver: a pessoa. Em suma. o ambiente de trabalho e a saúde. o grupo social. constatou que as medidas de qualidade de vida revestem-se de fundamental importância na avaliação da saúde e. necessidades e desejos. a qualidade de vida só pode ser vivenciada pelos trabalhadores à medida que lhes são facilitados atributos como: acesso ao trabalho formal. como. saúde. padrões e preocupações (WHOQOL GROUP. tanto individual como social. por exemplo. do trabalho dentre outros fatores. o termo qualidade de vida apresenta um conceito multidimensional. em seus aspectos profissional e pessoal. multidimensional e que inclui elementos positivos e negativos: A percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos. deve-se considerar elementos objetivos e subjetivos. afirma Lourenço et al (2006). 42). relações sociais e meio ambiente. motivação e auto-estima. ou seja: físico. A Organização Mundial de Saúde (OMS). liberdade. Da mesma forma. à renda. foi desenvolvido por um grupo de estudo sobre qualidade de vida denominado Whoqol-Group – uma definição de qualidade de vida subjetiva. afeto. cultura. Franca. a partir dos anos 90. para se fazer uma análise relacionada com o trabalho.

tendo como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno. os 27 casos que aderiram ao estudo dentre os 46 agendados. e aprimorar idéias a respeito do assunto abordado (GIL. é por representar. a idade em que são inseridos no mercado de trabalho. Na pesquisa de campo. E a faixa etária. preenchido e assinado pelos participantes após sua leitura minuciosa e concordância para participar do estudo. de nível exploratório e descritivo. no período de agosto a novembro de 2006. representando 58% do universo. 2002). A pesquisa exploratória deu-se por meio de levantamento bibliográfico e documental a fim de proporcionar visão geral. iniciou-se após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP). A escolha dos sujeitos deu-se por meio da amostra probabilística aleatória constituída dos casos que compareceram às entrevistas. procurando-se descobrir a freqüência com que ocorre. Material e Método O universo da pesquisa constituiu-se de indivíduos com fissura labiopalatina em tratamento no HRAC. A definição do critério pacientes com fissura labiopalatina ocorreu por serem consideradas lesões de maior gravidade e ocorrência com grandes comprometimentos estéticos. contendo a finalidade do estudo e um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Utilizou-se a abordagem quali-quantitativa. A descritiva foi desenvolvida mediante a pesquisa de campo. a partir dos 18 anos. na maioria dos casos. totalizando 46 sujeitos conforme levantamento fornecido pelo Serviço Social. 16(2): 87-128. com idade entre 18 e 35 anos e inseridos no mercado de trabalho. utilizou-se para a coleta de dados tanto da entrevista estruturada (Parte I) como da semi-estruturada (Parte II) aplicada junto ao usuário por meio de formulário acompanhado da Carta de Informação ao Sujeito da Pesquisa. bem como as relações e conexões entre as variáveis (GIL. previamente agendados pelo pesquisador. residentes no município de Bauru. 2007 . funcionais e psicossociais. de tipo aproximativo. 2002). com o objetivo 96 Serviço Social & Realidade.objetivos desta pesquisa. ou seja. Franca. O presente estudo.

classe social. 1999). World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-100 e WHOQOL-Bref). composto por 26 questões que avaliam quatro domínios: físico. muito ruim – muito bom). na segunda. gênero. de acordo com Fleck et al (1999). meio ambiente e espiritualidade (FLECK et al. Estes instrumentos foram desenvolvidos pelo grupo de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde. psicológico. Foi aplicado o pré-teste dos formulários com três pacientes.Domínios para avaliação da qualidade de vida (WHOQOLBref): a) Geral: avaliação da qualidade de vida e satisfação com a Serviço Social & Realidade. não existindo visão isolada das partes do estudo. Franca. relações sociais. em busca de um instrumento que avaliasse qualidade de vida dentro de uma perspectiva genuinamente internacional. O WHOQOL-bref é a versão abreviada do WHOQOL-100. O WHOQOL-100 é um instrumento composto por 100 itens que avaliam seis domínios: físico. psicológico. estado civil. freqüência (nunca – sempre) e avaliação (muito insatisfeito-muito satisfeito. relações sociais e meio ambiente (FLECK et al. capacidade (nada – completamente). constatando-se que a reformulação do instrumento era desnecessária. nível de independência. conforme pontua Minayo (1997). 2000). 16(2): 87-128.Perfil socioeconômico: segundo a faixa etária.de revelar o que os sujeitos participantes pensam e avaliam a respeito do objeto pesquisado: trabalho e qualidade de vida. As questões do instrumento de qualidade de vida foram formuladas para uma escala de respostas do tipo Likert. Abrangeu-se cinco eixos de análise: . 2007 97 . por oito questões abertas para os depoimentos. pois busca-se encontrar na parte a compreensão e a relação com o todo e a interioridade e a exterioridade como constitutivas dos fenômenos. escolaridade. ocupação e situação de tratamento. com uma escala de intensidade (nada – extremamente). . O formulário da pesquisa foi composto em sua primeira parte por 26 questões fechadas do WHOQOL-Bref e. a partir do início dos anos 90. Ressalta-se que as questões do formulário foram elaboradas pautadas na versão em português dos instrumentos gerais de qualidade de vida denominados.

16(2): 87-128. vida sexual. . foram calculadas as médias de cada um dos domínios sem correlacioná-las às variáveis elencadas no perfil socioeconômico. As respostas dadas no formulário (parte I) foram analisadas separadamente por domínios. capacidade de locomoção. satisfação consigo mesmo. gênero masculino (70%). capacidade de concentração e de aceitar sua aparência física. c) Psicológico: aproveitamento e sentido da vida. Para se ter uma idéia mais clara do grau médio de qualidade de vida dos participantes.Concepção sobre qualidade de vida. com o acesso aos serviços de saúde e meio de transporte. Resultados: apresentação e discussão Caracterização do perfil socioeconômico. satisfação com o sono. b) Físico: impedimentos devido à deficiência. com a capacidade para o trabalho e com a capacidade de aprendizagem. necessidades sociais e financeiras e mudanças pós-colocação. oportunidades de lazer. realizou-se a tabulação dos dados coletados. com a capacidade de desempenho nas atividades diárias. As respostas abertas (parte II) foram tabuladas após serem classificadas por categorias. colegas). a classe social baixa superior e inferior (71%) e 98 Serviço Social & Realidade. d) Relações sociais: satisfação com relações pessoais (amigos.Trabalho: dificuldades e/ou facilidades de inserção e manutenção no mercado. Franca. apoio de amigos e sentimentos negativos. e) Meio ambiente: segurança na vida diária. conhecidos.Ação do Serviço Social como facilitador no processo de inserção e manutenção do mercado de trabalho e outros serviços. . . parentes.saúde. Após a aplicação dos instrumentais técnicos nos sujeitos da pesquisa. educacional e profissional Os dados obtidos demonstraram que a maioria dos sujeitos concentra-se nas faixas etárias entre 26 e 35 anos (59%). disponibilidade de informações. satisfação com as condições do local de residência. 2007 . energia no dia-a-dia. satisfação profissional e social. satisfação com ambiente físico de trabalho. necessidade de tratamento de saúde.

Quanto ao estado civil. Constatou-se.estado civil solteiro (70%). 2007 99 . facilidades estas não encontradas pela maior parte da população brasileira excluída do Serviço Social & Realidade. conforme o Critério de Classificação Econômica Brasil (ANEP. também revelou uma proporção de adultos com a mesma idade da amostra estudada com o ensino médio. Peter et al (1975) observou que um grande número de adultos com fissura tende a viver na companhia de familiares ou sozinhos. Comparando esses dados com as características da população geral e/ou com fissura labiopalatina destacamos que com relação ao sexo. Franca. Com relação à situação de tratamento. o que confirma a mesma realidade vivenciada pelos sujeitos pesquisados. Contudo. Os resultados da classificação socioeconômica refletem também à realidade brasileira cuja maior concentração dá-se nas classes E. com ênfase atual na área de odontologia (50%) e fonoaudiologia (31%). a maioria solteiros. pois as de lábio e palato são mais freqüentes no masculino como observamos no estudo. em geral. mais tarde que os adultos sem fissura. D e C (71%). 16(2): 87-128. 2007). segundo Brasil (2007). que 37% dos participantes freqüentam atualmente a rede de ensino em busca de seu aprimoramento pessoal e profissional. como vendedores. neste estudo. uma vez que a maioria concluiu as etapas cirúrgicas. Observamos. de acordo com os dados constatados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos socioeconômicos (DEPARTAMENTO. Quanto ao grau de escolaridade. Além disso. exigem pouca ou nenhuma qualificação. observou-se que a maioria dos entrevistados. portanto. auxiliaradministrativos e serviços gerais. também revelou que a maior parte da população brasileira. quanto ao nível ocupacional. que 81% são trabalhadores assalariados (formais e informais) que prestam serviços na área do comércio. quanto à ocupação profissional. portanto que o elemento facilitador foi a proximidade geográfica ao HRAC. casando-se. 2000). portanto trabalhadores assalariados. 100% continuam em processo de reabilitação. ainda. Verificou-se. 41% possuem ensino médio completo. O IBGE (INSTITUTO. desenvolve atividades no setor do comércio. exerce funções que. 2007). Freitas (1974) ressalta que há uma diferença estatística entre os sexos e o tipo de fissura.

16. 2000). Físico III. psicológico. pois para cada indivíduo há uma forma de operacionalizar sua avaliação (WHOQOL GROUP. 24 e 25 Domínio I: Geral As questões do domínio I são do tipo gerais. Franca. 21 e 22 08. as subjetivas. 07. e se referem à avaliação da qualidade de vida e o grau de satisfação com a sua saúde. uma vez que esta seria a medida do estudo de capacidade para a realização de tarefas e a promoção das relações interpessoais (MINAYO et al. 09. emoções. (Tabela 1) Tabela 1 – Quadro geral dos domínios DOMÍNIOS I. fica evidente a necessidade de um levantamento de suas condições de vida englobando aspectos sócio-demográficos considerados importantes indicadores da realidade social. 15. 17 e 18 05. nível de independência. 10. relações pessoais. Para maior compreensão dos dados. segue a relação das 26 questões aplicadas. A caracterização do perfil da amostra justifica-se. Geral II. considerada a variável que mais influencia na qualidade de vida. especialmente. Relações sociais V. 11.acesso à reabilitação. 12.Avaliação da qualidade de vida: domínio I Satisfação Avaliação 100 Serviço Social & Realidade. 1994). 04. às crenças pessoais e. para a avaliação da qualidade de vida dos pacientes. pode se referir aos sentimentos. Portanto. 13. 16(2): 87-128. pois. 2007 . Portanto. Quadro 1 . 23. relações sociais e meio ambiente Refletir sobre qualidade de vida significa considerar diferentes vertentes envolvidas com o bem estar do ser humano. físico. à saúde física. além de questões objetivas. estado psicológico. Psicológico IV. Meio ambiente QUESTÕES 01e 02 03. Avaliação da qualidade de vida mediante os domínios geral. 14. a avaliação da qualidade de vida envolve. realização profissional. 19 e 26 20. bem como os domínios correspondentes. 06.

Satisfeito 1. mediante sua inclusão na sociedade. Como você avaliaria sua qualidade de N vida? (%) 2. o que torna os resultados obtidos no presente estudo ainda mais consistentes. Outros estudos realizados por Bachega (2002) e Veronez (2007) identificaram também que os pacientes com fissura estavam satisfeitos com a sua qualidade de vida. Muito Bom 3 Nem satisf/ Nem insatisf. à boa educação e ao trabalho de familiarização de pais e educadores na formação da pessoa com fissura labiopalatina. Bom 06 (22) . Embora a fissura labiopalatina não prediga um déficit na saúde de modo geral. Domínio II: Físico O domínio físico refere-se aos impedimentos devido à deficiência.Escala de Respostas 1. segundo Stephan (2003). Veronez & Tavano (2005) apontaram que os pacientes associam seu estado de saúde ao processo reabilitador. 2. necessidade de tratamento de saúde. e mesmo reconhecendo o impacto da fissura em suas vidas. tiveram uma boa capacidade de enfrentamento e superação da situação. ressaltando os resultados positivos.satisfeito Insatis – insatisfeito De acordo com o Quadro 1.Muito satisfeito 2. energia no dia-adia. Nem ruim/ Nem bom 5. satisfação com o sono. observou-se que 78% consideram boa ou muito boa a qualidade de vida e 86% estão satisfeitos ou muito satisfeitos com sua saúde. capacidade de locomoção. em função do próprio processo de reabilitação. com a Serviço Social & Realidade. Franca. A superação das dificuldades e boa qualidade de vida podem ainda estar relacionadas. Ruim Questões N=27 Domínio I – GERAL 1.Muito Insatisfeito 4. Quão satisfeito (a) você está com a N saúde? (%) 01 (04 ) 01 03 15 08 02 (07) 03 (11) 15 (56) - (04) (11) (56 ) (30 ) Satisf. Muito Ruim 3. à medida que a deformidade ficava menos visível com o tratamento oferecido pelo HRAC. 16(2): 87-128. 2007 101 5.Insatisfeito 4. uma vez que tais autores perceberam maior satisfação com a saúde em pacientes com fissura.

capacidade de desempenho nas atividades diárias. 16(2): 87-128. 2007 . com a capacidade para o trabalho e de aprendizagem. 102 Serviço Social & Realidade. Franca.

FÍSICO 3. Extremamente 2. Quão satisfeito (a) você está com seu sono? (%) N 17. Você tem energia suficiente para seu dia-a-dia? N (%) N 15. Quão bem você é capaz de se locomover? (%) N 16. Em que medida você acha que sua deficiência (FLP) lhe impede de fazer o que precisa? N 20 01 03 01 02 (%) (74) (04 (04 (11) (07) ) ) 02 15 10 4. O quanto você precisa de algum tratamento de saúde para (04 levar sua vida diária? (%) (74) (11) (11) N 20 03 03 01 ) 10. Muito Pouco 4. Nada Questões .Médio 4.(07) . Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade de desempenhar as suas atividades (%) do dia-a-dia? 18.(56) (37) 5. Nada N=27 Domínio II .Quadro 2 .Completamente 3. 16(2): 87-128. 2007 1.Avaliação da qualidade de vida: domínio II Escala de Respostas Intensidade Capacidade 1. Muito Pouco 2.Bastante 3. Franca.Muito 103 . Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade para o trabalho? (%) N continuação Serviço Social & Realidade. Mais ou menos 5.

1. 16(2): 87-128. visto que. 2007 4.Muito Bom 4.Ruim N=27 Domínio II – FÍSICO 3.Muito Ruim 2.Escala de Respostas 1. com a reabilitação. a 104 Serviço Social & Realidade. Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade para o trabalho? N (%) (63) (33) 13 13 (04) (48) (48) Satisf – satisfeito Insatisf – insatisfeito Pelo Quadro 2. pois encontram-se em fase final de reabilitação. O quanto você precisa de algum tratamento de saúde para (%) levar sua vida diária? 10. Franca. não dependendo de tratamento médico para levar sua vida diária (74%).Muito satisfeito 3.Bom Questões 5. Quão satisfeito (a) você está com seu sono? N (%) (04) (30) (67) (11) (30) (59) 01 17 09 17. a fissura labiopalatina não pode ser considerada como um dano físico de forma generalizada. Você tem energia suficiente para seu dia-a-dia? N (%) 01 (04) 03 08 16 01 08 18 15.Muito Insatisfeito Satisfação Avaliação 3. Em que medida você acha que sua deficiência (FLP) lhe impede de fazer o que precisa? N (%) N 4. Nem satisf/ Nem insatisf. Conforme ressalta Veronez (2007).Nem ruim/ Nem bom 5.Satisfeito .Insatisfeito 2. Quão bem você é capaz de se N locomover? (%) 16. pôde-se também constatar que a fissura labiopalatina não impede os entrevistados em nada de fazer o que precisam. no domínio físico. Quão satisfeito (a) você está N com sua capacidade de desempenhar as suas atividades (%) do dia-a-dia? 18.

Conforme pontua Veronez (2007). é erroneamente confundida com as oportunidades de trabalho. e certamente a reabilitação vem propiciando esse ingresso no mercado de trabalho. não foram encontrados na literatura relatos de comprometimentos físicos em pacientes adultos que passaram ou estão passando pelo processo reabilitador. o aspecto físico reportou-se diretamente à questão da fissura e aos comprometimentos advindos dela. Franca. 63% relataram estar satisfeitos.Avaliação da qualidade de vida: domínio III Escala de Respostas Intensidade Capacidade 105 Serviço Social & Realidade. São poucos os que conseguem trabalhar no que gostam. Quanto à capacidade de desempenhar as atividades cotidianas. continuam apresentando dificuldades de comunicação (PEGORARO-KROOK. Em relação à fissura labiopalatina. nem à capacidade para realização de tarefas. e com relação à satisfação com a capacidade para o trabalho 96% avaliaram como satisfeitos e muito satisfeitos. muitas vezes. pois as chances de se conseguir um emprego que garanta sua subsistência e ao mesmo tempo lhes recompense emocionalmente são remotas. como aproveitamento e sentido da vida. 16(2): 87-128. capacidade de concentração e de aceitar sua aparência física. apresentam em geral boas condições de saúde. 2007 . A concorrência da atualidade impede até mesmo que consiga um trabalho. Quadro 3 . a capacidade para o trabalho. está associada à possibilidade de inclusão das pessoas com fissura labiopalatina no circuito da produção. em alguns casos. seja no que for. conforme observou Blattner (2000). em especial os do presente estudo. Considerando que os pacientes atendidos no Hospital. Quanto à satisfação com a capacidade para o trabalho.grande maioria não permanece com comprometimentos à saúde. além de questões relacionadas ao comprometimento da fala naqueles que. Domínio III: Psicológico O domínio psicológico aborda diversos aspectos subjetivos. satisfação consigo mesmo e sentimentos negativos. 1995).

2007 5.Questões N=27 Domínio III PSICOLÓGICO 5.(22) (59) (19) 02 09 15 (04) . O quanto você consegue se concentrar? 11. Muito Pouco 4.(07) (33 (56) ) 01 - continuação 106 Serviço Social & Realidade. desespero. O quanto você aproveita sua vida? N 02 01 06 11 07 (%) (07) (04 (22) (41) (26) ) . Franca. Mais ou menos 5. Nada 1. tais como mau humor. Com que freqüência você tem pensamentos negativos. Nada . depressão? (%) N (%) N (%) N (%) - . Muito Pouco 2.Completamente 3. Extremamente 2. ansiedade.(04 (07) (59) (30) ) N .01 02 16 08 6.Muito 1. Você é capaz de aceitar sua aparência física? 19. Em que medida você acha N que sua vida tem sentido? (%) . 16(2): 87-128.Bastante 3.06 16 05 7. Quão satisfeito (a) você está consigo mesmo? 26.Médio 4.

relataram que a aceitam muito e completamente (89%) e estão satisfeitos ou muito satisfeitos (89%) consigo mesmo.(15) (04) Satisf.-insatisfeito Os dados obtidos (Quadro 3) comprovaram que cerca de 67% dos entrevistados aproveitam bastante ou extremamente a vida. Você é capaz de aceitar sua aparência física? 19. tais como mau humor.Sempre 5.Escala de Respostas Satisfação Avaliação 3. Em que medida você acha que sua vida tem sentido? 7. em virtude do processo de reabilitação Serviço Social & Realidade. Insatisfeito N=27 Domínio III – PSICOLÓGICO 5.Algumas Vezes 3. 2007 107 1. salientando que esta tem bastante ou extremamente sentido em 89% dos casos.Satisfeito . Franca. Nem satisf/ Nem insatisf. O quanto você consegue se concentrar? 11. Quanto à aparência física. Com que freqüência você tem pensamentos negativos. O quanto você aproveita sua vida? 6. Quão satisfeito (a) você está consigo mesmo? 26. 16(2): 87-128. Apresentaram bastante ou extremamente capacidade de concentração (78%).Nunca Questões 5.Muito Satisfeito 4. ansiedade. depressão? N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) N 05 17 04 01 03 13 11 (11) (48) (41) (%) (19) (63) . 4. desespero.satisfeito Insatisf.Muito Insatisfeito 2. Freqüentemente 2.Muito Freqüente 1.

há uma questão relevante observada por Veronez & Tavano (2005). como o resultado do processo de reabilitação e a intervenção da equipe psico-social do HRAC numa perspectiva interdisciplinar. Domínio IV: Relações Sociais O domínio relações sociais refere-se ao grau de satisfação com relações pessoais (amigos. os bons índices encontrados neste domínio psicológico contrapõem esta afirmativa. Com relação aos sentimentos negativos. 2007 . cabe ressaltar que em estudos com outros instrumentos. Diante de tal afirmativa. após as cirurgias reabilitadoras. Apesar desses autores afirmarem a presença de danos psicológicos advindos das conseqüências da fissura. conhecidos. bem como a participação da família e da sociedade (GARCIA et al. conduzindo à compreensão de que a malformação. BACHEGA. geralmente ocasionados devido às dificuldades que enfrentam no âmbito profissional e pessoal diariamente. que a expectativa do paciente pelos resultados da cirurgia nem sempre está de acordo com o que o cirurgião pode oferecer. 2002). 1999). 1999. colegas). 108 Serviço Social & Realidade. Todavia. obtidos neste domínio. depressão e palpitações. Franca. principalmente quanto à estética facial. vida sexual e apoio de amigos. GARCIA et al. além de uma auto-imagem desfavorável e elevado índice de dependência emocional (TAVANO. ansiedade e depressão. com pacientes com fissura labiopalatina. não repercute mais como um fator depreciativo da auto-estima. surge a necessidade de estudos mais pertinentes à questão da aparência. encontraram danos psicológicos e distúrbios psicossomáticos como ansiedade. de forma a ampliar a compreensão de possíveis insatisfações dos pacientes. 16(2): 87-128. resultados estes também confirmados por Veronez (2007). parentes. Pode-se considerar que vários fatores devem ter levado aos valores acima da média. Verificou-se também que somente 19% dos entrevistados apresentam sentimentos negativos com maior freqüência. conforme relatado na entrevista. como mau humor. desespero. 1994.parcialmente concluído.

Satisfeito 10 (37) 15 (56) 13 Escala de Respostas Questões N=27 Domínio IV . em que consideram satisfeitos ou muito satisfeitos. parentes.RELAÇÕES SOCIAIS 20. pois.Muito satisfeito 10 (37) 09 (33) 07 (26) . Com o apoio que recebe dos amigos.Avaliação da qualidade de vida: domínio IV Satisfação 2. Franca. colegas)? 21. Quão satisfeito (a) você está com suas N relações pessoais (amigos. Quão satisfeito (a) você está com sua vida sexual? 22. (%) conhecidos.Muito Insatisfeito 4. Tavano (2000). Marques (2004). o grau de satisfação é de 74%. necessários no bem estar do sujeito e à vida em sociedade. E. constatou-se que os entrevistados estão satisfeitos ou muito satisfeitos com os relacionamentos pessoais (74%). 1. 16(2): 87-128. Em pacientes com fissura labiopalatina. Com base nos dados obtidos ressaltamos que o domínio relações sociais compreende todas as formas de relacionamento interpessoal. com a aparência e fala Serviço Social & Realidade.Nem satisf/ Nem insatisf. no presente estudo.Insatisfeito 3. Veronez & Tavano (2005). este foi o segundo domínio que mais se destacou em relação aos demais. Quão satisfeito (a) você está com o apoio que você recebe de seus amigos? N (%) N (%) - - 07 (26) 03 (11) 07 (26) (48) Satisf – satisfeito Insatisf – insatisfeito Pelo Quadro 4.Quadro 4 . bem como com a vida sexual (89%). Camargo (1994) e Mesquita (1991) observaram que a malformação não afetou a vida social e os pacientes detectaram significativa melhora nos relacionamentos sociais após as cirurgias reabilitadoras. com uma pontuação maior. 2007 109 5.

uma vez que os pacientes deste estudo consideraram-se bem relacionados socialmente. Tavano (1994). satisfação com as condições do local de residência. Peter et al (1975). com o acesso aos serviços de saúde e meio de transporte. PegoraroKrook (1995). como possuidora de déficit nos relacionamentos sociais. Diante dos dados analisados. 16(2): 87-128. atribuíram às alterações morfológicas e funcionais os problemas nas relações sociais.melhoradas. 110 Serviço Social & Realidade. Por outro lado. pode estar relacionada ao momento do processo reabilitador em que os estudos foram realizados. satisfação com ambiente físico de trabalho. Franca. parece que não se pode mais considerar a pessoa com fissura labiopalatina e reabilitada. 2007 . Aiello et al (2000). Ressalta-se que a diferença dos resultados observada pelos autores sobre as relações sociais da pessoa com fissura. oportunidades de lazer. sentiam um aumento da probabilidade de serem aceitos num grupo social. disponibilidade de informações. Domínio V: Meio ambiente O domínio meio ambiente corresponde à segurança na vida diária.

Bastante 16 (59) 10 (37) 1.Nada 111 . Quão disponíveis para você estão as N informações que precisa no seu dia-adia? (%) 14. Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos serviços de saúde? N (%) 25. Franca. Quão saudável é o seu ambiente físico de trabalho (clima. Em que medida você tem oportunidade de atividades de lazer? N (%) 23.Extremamente 03 (11) 06 (22) Questões N=27 Domínio V . 2007 4. Quão satisfeito (a) você está com o N seu meio de transporte? (%) continuação Serviço Social & Realidade. atrativos)? 12.Avaliação da qualidade de vida: domínio V Escala de Respostas 2.Mais ou menos 5. poluição.Quadro 5 . barulho. 16(2): 87-128.MEIO AMBIENTE 8.Muito Pouco Intensidade 3. Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades? N (%) N (%) 05 (19) 02 (07) 03 (11) 06 (22) 03 (11) 13. Quão satisfeito (a) você está com as N condições do local onde mora? (%) 24. Quão seguro (a) você se sente em sua N vida diária? (%) 9.

16(2): 87-128. barulho. poluição.Nada . Em que medida você tem oportunidade de atividades de lazer? N (%) 23.Muito Pouco Capacidade 5.Médio 09 (33) 11 (41) 09 (33) Questões N=27 Domínio V . Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades? N (%) N (%) 01 (04) 03 (11) 07 (26) 01 (04) 05 (19) 13. Franca. Quão saudável é o seu ambiente físico de trabalho (clima. atrativos)? 12. 2007 4. Quão disponíveis para você estão as N informações que precisa no seu dia-adia? (%) 14. Quão satisfeito (a) você está com as N condições do local onde mora? (%) 24.Completament e 05 (19) 04 (15) 04 (15) 3. Quão satisfeito (a) você está com o N seu meio de transporte? (%) continuação 112 Serviço Social & Realidade.MEIO AMBIENTE 8. Quão seguro (a) você se sente em sua N vida diária? (%) 9.Muito 05 (19) 11 (41) 06 (22) 1. Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos serviços de saúde? N (%) 25.Escala de Respostas 2.

Escala de Respostas

Satisfação 3.Nem satisf./ Nem insatisf.

1.Muito Insatisfeito 2.Insatisfeito

4.Satisfeito 13 (48) 13 (48) 14 (52)

Questões N=27 Domínio V - MEIO AMBIENTE 8. Quão seguro (a) você se sente em sua N vida diária? (%) 9. Quão saudável é o seu ambiente físico de trabalho (clima, barulho, poluição, atrativos)? 12. Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades? N (%) N (%)

13. Quão disponíveis para você estão as N informações que precisa no seu dia-adia? (%) 14. Em que medida você tem oportunidade de atividades de lazer? N (%) 06 (22) 01 (04) 04 (15) 02 (07) 03 (11) 03 (11) 02 (07) 10 (37) 01 (04) 09 (33)

23. Quão satisfeito (a) você está com as N condições do local onde mora? (%) 24. Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos serviços de saúde? N (%) N

25. Quão satisfeito (a) você está com o seu meio de transporte? (%)

Satisf- satisfeito/ insatisf- insatisfeito

De acordo com o Quadro acima, verificou-se que os sujeitos se sentem bastante ou extremamente seguros em sua vida diária (70%), vale ressaltar que o entendimento de segurança foi avaliado pelos sujeitos não somente em termos de proteção ou preservação da ordem pública, mas como a auto-confiança. O ambiente físico de trabalho é considerado bastante ou extremamente saudável (59%), possuindo muito ou completamente acesso às informações que necessitam no cotidiano (56%). A oportunidade de desenvolver atividades de lazer foi
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5.Muito Satisfeito

relatada entre média e muito (55%), exemplificadas como passeios com a família, festas noturnas com os amigos e viagens. Observou-se que a maioria está satisfeita ou muito satisfeita com as condições do local de residência (85%) e uma justificativa para esta avaliação satisfatória pode ser devido residirem no interior, no caso em Bauru, uma cidade de porte médio, com boa estrutura de saneamento básico e de serviços à população e melhores índices de saúde e condições ambientais. Quanto à situação financeira para satisfazer suas necessidades foi avaliada como muito pouco ou médio (59%), uma vez que a maioria pertence aos estratos socioeconômicos baixos o que implica em uma maior responsabilidade na administração do orçamento, priorizando-se as necessidades básicas de alimentação e habitação. O acesso aos serviços de saúde foi avaliado pelos participantes como satisfeito ou muito satisfeito (52%) de uma forma geral e não especificamente voltado ao atendimento prestado pelo Centrinho que tem atingido índice de satisfação melhor. Com relação ao meio de transporte estão satisfeitos ou muito satisfeitos (85%), dependendo a maioria do sistema coletivo urbano especialmente para fins de trabalho ou tratamento, o que revela a qualidade dos serviços prestados nesta área. Medidas dos domínios para avaliação da qualidade de vida O estudo das médias de cada um dos domínios sem correlacioná-los às variáveis do perfil socioeconômico, segue na tabela abaixo.

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Tabela 2 - Medidas-resumo dos domínios

Domínio I II III IV

N 27 27 27 27

Média¹ 73 85 77 79

Desviopadrão 14 11 11 11

Mínimo 44 54 43 55

Mediana² 75 86 80 80

Máximo 94 100 98 100

V 27 64 13 40 63 90 Nota: Os valores da média e mediana equivalem à porcentagem ¹Média – numa distribuição, valor que se determina segundo uma regra estabelecida a priori e que se utiliza para representar todos os valores da distribuição. ²Mediana – numa distribuição, valor da variável aleatório que corresponde ao valor 0,5 da distribuição.

Na avaliação das questões do domínio I (geral) referente à avaliação e satisfação com a qualidade de vida e saúde, a média do grupo foi 73. O domínio II (físico) que abrange impedimentos relacionados à fissura, necessidade de tratamento de saúde, disposição, locomoção, sono, desempenho e capacidade para o trabalho, os sujeitos apresentaram valores médios maiores (85), seguidos do domínio III e IV que se referem respectivamente ao psicológico (77) e relações sociais (79). O psicológico engloba sentido pela vida, concentração, aceitação da aparência física, satisfação e sentimentos negativos. O de relações sociais abrange a satisfação com os relacionamentos pessoais. Desta forma, analisando o valor médio dos domínios I ao IV constatou-se que os pacientes apresentaram um índice de qualidade de vida de bom a muito bom. Somente o domínio V (Meio ambiente) teve valor médio inferior de 64 com um índice de qualidade de vida regular, abrangendo questões referentes à situação financeira, localidade residencial, lazer, acesso a informações e a outros serviços de saúde. Concepção de qualidade de vida Este eixo de análise refere-se à definição do termo qualidade de vida pelos indivíduos, possibilitando verificar o que pensam acerca do assunto pesquisado. De acordo com as respostas abertas coletadas, constatou-se
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que o termo qualidade de vida apresenta um conceito amplo formado por valores subjetivos, atribuídos pelos participantes, segundo a realidade social e/ou principais necessidades que, atualmente, cada um possui. Para Ribeiro (2001), a menção de que qualidade de vida abrange uma ampla variação, desde as questões macro sociais até o mundo particular dos sujeitos, constitui-se num dos vários aspectos de sua própria característica de indefinição. Muitos termos são usados como sinônimos tais como bem-estar, condições de vida, satisfação de vida ou de necessidades. Para a maioria dos participantes, a definição de qualidade de vida está correlacionada ao acesso aos direitos mínimos de cidadania (98%) como saúde, habitação, alimentação, educação e saneamento básico; à oportunidade de se ter um bom emprego (54%); condição econômico-financeira estável (77%) que assegure a obtenção de bens materiais básicos e o acesso ao lazer; ter bom relacionamento familiar, afetivo e social (77%) e satisfação pessoal (31%). Segundo Minayo et al. (2000), o patamar mínimo e universal para se falar em qualidade de vida diz respeito à satisfação das necessidades mais elementares da vida humana: alimentação, acesso à água potável, habitação, trabalho, educação, saúde e lazer, elementos materiais que têm como referencia noções relativas de conforto, bem-estar e realização individual e coletiva. Análise das dificuldades e/ou facilidades para inserção no mercado de trabalho e manutenção, necessidades sociais e financeiras e mudanças póscolocação, e satisfação profissional e social Este eixo tem como objetivo analisar as dificuldades e/ou facilidades para a inserção e permanência dos sujeitos no mercado de trabalho em função da deficiência; identificar as necessidades sociais e financeiras antes da inserção profissional e mudanças após a colocação, no âmbito pessoal e familiar, e identificar o grau de satisfação profissional e social. Dificuldades e/ou facilidades para a inserção e permanência no mercado de trabalho em função da deficiência
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As dificuldades e/ou facilidades enfrentadas para a inserção no mercado de trabalho, podem ser vistas na análise a seguir. Os dados coletados demonstraram que cerca de 40% dos entrevistados encontraram dificuldades para inserção no mercado de trabalho, sentindo-se discriminados pelas pessoas nas entrevistas para emprego em virtude da fissura labiopalatina (50%) em que alegaram ser visto como incapacitados para o trabalho, especialmente por terem fissura. Também pontuaram como dificuldade os distúrbios de fala (25%), como por exemplo, a hipernasalidade (fala fanhosa), que interferem diretamente na comunicação, ressaltando-se que cerca de 31% dos pacientes encontram-se atualmente em tratamento terapêutico com a equipe de fonoaudiologia, visando sua reabilitação global. Outra dificuldade foi o não reconhecimento da fissura como deficiência (12%), não tendo, portanto, acesso às vagas específicas, bem como dificuldades em relação à aparência física (12%). Peter et al (1975) relatou que a sociedade parece valorizar menos o trabalho de pessoas com fissura, dificultando a contratação em empregos formais, embora eles tivessem iguais condições para o exercício de funções laborativas. Em contrapartida, foi relatado pela maioria dos participantes (50%) que a fissura facilitou a sua inserção no mercado, por meio de intervenção do Serviço Social/Projeto Bauru do HRAC (50%), bem como por ter sido considerado pessoa com deficiência (50%) e beneficiado pela Lei de cotas. O Decreto n. 3.298/1999 em seu artigo 36 (BRASIL, 2006c) especifica a proporção de cotas relacionada ao número de empregados, que diz “a empresa com cem ou mais empregados está obrigada a preencher de dois a cinco por cento de seus cargos com beneficiários da Previdência Social reabilitados ou com pessoa portadora de deficiência habilitada (...)”. Por outro lado, 45% dos entrevistados afirmaram não ter sofrido nem facilidade nem dificuldade, ou seja, nenhuma interferência em função da deficiência para o acesso ao emprego. Necessidades sociais e financeiras antes da inserção profissional e mudanças no âmbito pessoal e familiar Ao questionar acerca das principais necessidades vivenciadas pelos participantes e/ou família antes de começarem a trabalhar, cerca de 55% responderam não ter vivenciado esta
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situação em razão de a família não necessitar integralmente de sua renda mensal para arcar com as despesas, visto que a maioria dos relatos são de participantes com idade entre 22 a 30 anos, cujos chefes de família são os pais. Estudos de Peter et al (1975), Garcia et al (1999) e Veronez (2007) consideraram a pessoa com fissura emocionalmente dependente dos familiares por mais tempo, uma vez que eles confiam mais nos seus familiares para receber cuidado e apoio. Novamente fazendo uma reflexão sobre o adulto jovem na atualidade, observou-se que sua independência socioeconômica acontece mais tarde, sendo que a vida em família garante a eles benefícios como conforto e segurança. Os dados do IBGE (INSTITUTO, 2000) confirmaram esta realidade no Estado de São Paulo, portanto são características condizentes à realidade brasileira. Dentre os que vivenciaram tal situação (45%) relataram que as principais necessidades sociais e financeiras sofridas foram: dificuldades para pagamento de aluguel (33%), contas de água e luz (33%) e compra de alimentos (33%) em que foram amenizadas após a inserção no mercado de trabalho. Esses dados, como vimos anteriormente, refletem às dificuldades não só dos pesquisados, mas também à população brasileira, pois a maioria pertence aos estratos socioeconômicos baixos. Quanto às mudanças pós-colocação no âmbito pessoal, constatou-se que houve aumento relevante da condição financeira (25%), propiciou a aquisição de bens materiais (19%), elevação da auto-estima (69%), maior confiança nas habilidades (37%) e sentimento de maior independência e responsabilidade (31%). No âmbito familiar, os dados obtidos comprovaram o fortalecimento dos laços afetivos e familiares (25%), aumento da valorização, respeito e confiança da família (19%), e 19% alegou não ter ocorrido nenhum tipo de mudança. Satisfação profissional e social De acordo com os dados obtidos, a maioria dos participantes (70%) afirmou estar satisfeito com o emprego, considerando bom relacionamento e respeito entre os funcionários e superiores (85%), bom ambiente de trabalho (22%) e identificação com o serviço que executa (14%). Do ponto de vista psicológico, o trabalho provoca diferentes
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Franca. Quanto à existência de discriminação no local de trabalho. sobrecarga de serviço (16%) e busca por melhor emprego (33%). ainda. principalmente quanto à forma e ao meio no qual desempenha sua tarefa (KANAANE. a emancipação e inclusão social dos pacientes. nesse sentido. ressaltando que são respeitados pela equipe de trabalho. O trabalho pode ser fonte de satisfação. e não especificamente devido à fissura labiopalatina. pouco importa se ele se concretiza pelo esforço físico ou mental. Trabalhar significa viver. sair do discurso e da representação para se confrontar com o mundo (CATTANI. bem como são incentivados pela própria chefia à continuidade do tratamento de reabilitação. foi constatado como principal fator a dificuldade de comunicação (fala). 1995). 16(2): 87-128. de forma a garantir o acesso aos direitos de cidadania. falta de recursos/equipamentos para trabalhar (16%). De acordo com os dados obtidos. por ela pesquisados. Segundo Blattner (2000). 2007 119 . Ação do Serviço Social como facilitador do processo de inserção e manutenção no mercado de trabalho e outros serviços prestados Tem como objetivo avaliar a atuação do serviço social como facilitador no processo de inserção do paciente no mercado de trabalho e/ou outros serviços que sejam necessários. alegando existência de trabalho sob pressão o que é prejudicial à saúde (33%). Constatou-se ainda que cerca de 30% está insatisfeito com o emprego. por permitir a participação na obra produtiva geral. ato de criação e. dentre os estigmatizados. o atendimento prestado pelo serviço social no processo de inserção dos usuários no mercado de trabalho foi Serviço Social & Realidade. chacota por parte dos colegas de serviço e quanto à aparência física. observou-se que cerca de 10% dos participantes alegou ter sofrido algum tipo de discriminação relacionado à idade (50%) e à raça (50%). por possibilitar a realização de objetivos ou tarefas úteis para a sociedade. por meio de ações individuais e coletivas. contudo. O Projeto Bauru busca. 1996). Poder ser. observou que a maioria dos pacientes com fissura labiopalatina. e fonte de verdadeiro prazer.graus de motivação e de satisfação no trabalhador. não sofreu qualquer discriminação no ambiente de trabalho por causa da malformação. insegurança na manutenção do emprego (16%). dados também encontrados neste presente estudo.

Conclusão De acordo com os dados obtidos junto aos pacientes residentes em Bauru em fase final de reabilitação e inseridos no mercado de trabalho analisados neste estudo. estando satisfeitos com o tratamento e com o processo de reabilitação. acesso a informações e a outros serviços de saúde. Franca. sendo um serviço que propicia o acesso aos direitos e maior motivação aos usuários. 2007 . Quanto às relações sociais. No domínio físico observou-se que não há interferência negativa da fissura labiopalatina no desempenho das atividades diárias. a aparência física é aceita pelos pacientes. constatou-se insatisfações com a situação financeira.avaliado como excelente (83%) e bom (17%). gênero masculino. educacional e profissional A maioria dos sujeitos concentrou-se nas faixas etárias de 26 a 35 anos. A exceção ocorreu no meio ambiente cujo índice foi considerado regular. psicológico. Dificuldades e/ou facilidades para sua inserção e permanência no mercado de trabalho em função da deficiência 120 Serviço Social & Realidade. com escolaridade do ensino médio completo ao superior incompleto. lazer. Concepção de qualidade de vida dos indivíduos Constatou-se que o termo qualidade de vida foi avaliado segundo os valores e realidade social de cada pesquisado. associado diretamente ao fato de se ter “boa” saúde. foi possível concluir a partir dos objetivos que quanto à/ao: Perfil socioeconômico. 16(2): 87-128. bom relacionamento pessoal e familiar. No psicológico. trabalhadores assalariados e de estratos socioeconômicos baixos. relações sociais e meio ambiente Conclui-se que os sujeitos apresentaram na maioria dos domínios de boa a muito boa qualidade de vida. apresentam bom nível de satisfação com os relacionamentos pessoais. estado civil solteiro. estando satisfeitos no trabalho. Possuem muita confiança nas suas habilidades e baixo índice de sentimentos negativos. Qualidade de vida mediante os domínios: físico. Está também relacionado à condição econômico-financeira estável. bom emprego e satisfação pessoal. No domínio meio ambiente.

M. bem como fortalecimento dos laços afetivos e familiares. P. G. falta de recursos e/ou equipamentos para trabalhar. S. pois nem todos são considerados pessoas com deficiência. além da motivação dos usuários e familiares. VALENTIM.. havendo elevação da auto-estima. a hipernasalidade que interfere na comunicação. R. A. autonomização e inclusão social. os entrevistados estão satisfeitos com o emprego por terem bom relacionamento no ambiente de trabalho e identificação profissional. L. Em contrapartida constatou-se. por exemplo.Constatou-se facilidades para a inserção no mercado de trabalho mediante a intervenção do Serviço Social do HRAC responsável pelo encaminhamento dos pacientes às instituições empregadoras. Work and Serviço Social & Realidade. I. sentimento de maior independência. Algumas dificuldades vivenciadas pelos pacientes ocorreram em função da discriminação por apresentarem distúrbios de fala. Com relação ao cumprimento das cotas previstas para as pessoas com deficiência depende do grau de comprometimento funcional e/ou psicossocial da fissura labiopalatina. SANTOS. 2007 121 . C. Concluiu-se que as principais necessidades sociais e financeiras vivenciadas foram amenizadas após a inserção profissional. GRACIANO. Atuação do serviço social como facilitador no processo de inserção no mercado de trabalho e manutenção e/ou outros serviços prestados O atendimento prestado pelo Serviço Social do HRAC (Projeto Bauru) foi avaliado como bom/excelente especialmente por atuar como facilitador no processo de inserção dos pacientes no mercado de trabalho. 16(2): 87-128. como. R. Franca. Afirma-se que é um serviço que propicia. Grau de satisfação profissional e social Em sua maioria. dentre os insatisfeitos. responsabilidade.. auto-confiança. insegurança na manutenção de emprego. A. por meio de uma prática profissional competente e comprometida com o processo de reabilitação. ambiente de “pressão” e sobrecarga de serviços desencadeadores de estresse. o acesso aos direitos de cidadania.

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.

(Co-orientadora) * Serviço Social & Realidade. Artes e Comunicação (FAAC) / Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Bauru. Docente da Faculdade de Serviço Social de Bauru.OS AGENTES MULTIPLICADORES E REPRESENTANTES DE ASSOCIAÇÕES DO BRASIL NA ÁREA DE ANOMALIAS CRANIOFACIAIS: A INCLUSÃO DIGITAL EM PAUTA Michelle Karen de Brunis FERREIRA* Silvana Aparecida Maziero CUSTÓDIO** Eliana Fidêncio de Oliveira MENDES*** • RESUMO: O presente artigo foi desenvolvido com o objetivo de retratar a temática da Inclusão Digital junto aos Agentes Multiplicadores do HRAC/USP – Pais e/ou Pacientes Coordenadores e os representantes de Associações do Brasil na área de anomalias craniofaciais. Analisar o ambiente que estão imersos os Agentes Multiplicadores do HRAC/USP é de fundamental importância para o desenvolvimento de ações que propiciem o acesso à informação e conhecimento. 2007 129 . 16(2): 129-160. Perda Auditiva. A presente temática foi escolhida devido a sua relevância no cotidiano de nossa sociedade. Ampliando esses Especializanda em Serviço Social na área da Saúde e Reabilitação pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP – Bauru/SP.000 pacientes matriculados. Mestre em Serviço Social pela UNESP de Franca. ** Doutora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Reabilitação – HRAC – USP Campus Bauru. procedentes de todas as regiões do Brasil. Especialista em Gestão de Organizações Públicas pelo Departamento de Engenharia de Produção da Faculdade de Engenharia de Bauru/SP (FEB) – Universidade Estadual Paulista (UNESP). síndrome relacionada e/ou distúrbio da audição. Tem por finalidade o ensino. Franca. Tecnologias da Informação. a pesquisa e a extensão de serviços a pessoas com anomalia craniofacial. onde as fronteiras territoriais cederam lugar às fronteiras virtuais. visando à qualidade dos serviços prestados pelo hospital. contanto atualmente com mais de 70. Mestranda do Curso de Pós-Graduação em Comunicação Midiática da Faculdade de Arquitetura. criado em 1967. • Introdução O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP. (Orientadora) *** Especialista em Serviço Social pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino Bauru/SP. Anomalia Craniofacial. PALAVRAS-CHAVE: Inclusão Digital.

000 pessoas. (Total de coordenadores 473 com cobertura a 10. São atendidos pacientes de todas as regiões do país. O atendimento prestado é integral. representando os portadores de anomalias craniofaciais em suas respectivas cidades.centrinho. nutrição e enfermagem). é excluído do acesso a bens e serviços do mundo globalizado. visa colaborar no processo de capacitação de recursos humanos com enfoque às áreas de assistência social e saúde/reabilitação.usp. 1999). psicologia. 16(2): 129-160. são pais e/ou pacientes adultos que. et al.4 pessoas por família (IBGE. Conta com uma equipe interdisciplinar composta por diversas áreas (medicina. o HRAC/USP disponibiliza em seu portal (www. por meio do trabalho voluntário. realidade esta constatada segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Comitê para Democratização da Informação (CDI). visando à reabilitação e inclusão social.br).números para o núcleo familiar e considerando que a população brasileira possui uma média de 3. Com o objetivo de ampliar o acesso à informação.000 pacientes. 2004). considerados agentes multiplicadores. suportado financeiramente com recursos da Universidade de São Paulo (USP) e Ministério da Saúde especialmente por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). onde este constatou que 85% da população (150 milhões de pessoas) não possuem acesso às ferramentas disponibilizadas pela tecnologia de informação e comunicação (TIC’s). Dezembro 2006)1 A Assessoria às Associações de pais e pessoas com fissuras labiopalatais e/ou congêneres do Brasil. Os Coordenadores. Ibidem. assim como a grande maioria da população brasileira.046 pacientes. 2007 130 . à comunidade e o HRAC/USP. recreação. índice esse também constatado em pesquisa realizada no HRAC (GRACIANO. educação. dentre eles a “esfera digital”. 1 Fonte: Serviço Social de Projetos Comunitários. trabalhando em busca da defesa de seus direitos e interesses comuns. Serviço Social & Realidade. mantendo o Hospital relações de parceria com a Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades CrânioFaciais (FUNCRAF). (Total de associações no Brasil: 43 com cobertura a 28. Franca. fonoaudiologia. dentre elas o computador e a internet.) O público alvo atendido pelo HRAC/USP. os serviços prestados pelo HRAC/USP atingem cerca de 200. odontologia. Serviço Social. facilitam o elo entre a família.

da sociedade civil e das instituições de pesquisa. economia e sociedade. o desenvolvimento dos novos processos de geração e disseminação de conhecimento deve ser um plano para o futuro. emitir declarações de presença e outros. de forma conjunta e articulada com a sociedade. informações sobre coordenadores e associações de pais. Ao invés de soluções em larga escala devem ser realizadas experiências que poderão servir de base para ações de grande amplitude e impacto. bem como a inclusão social. bem como para os coordenadores e representantes de associações de pais e pessoas com fissuras lábiopalatinas. à incorporação desses serviços e também em relação à utilização do portal do HRAC/USP. demografia. da iniciativa privada. Diante do cenário vivenciado atualmente pela sociedade. somos um país notável em tamanho e importância. 2007 131 . viabilizando a acessibilidade do paciente ao tratamento reabilitador.serviços para os pacientes e familiares. verificar retornos. Franca. O HRAC/USP entende que a universalização dos serviços de informação e comunicação é condição fundamental. ainda que não exclusiva. pacientes. como preconiza o Programa Brasileiro para a Sociedade da Informação. fator indispensável Serviço Social & Realidade. contato com ouvidoria. No portal é possível solicitar consulta inicial denominado de caso novo. De acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia (BRASIL. 1999). visando à ampliação do acesso as áreas das tecnologias de informação e comunicação. o processo de inclusão digital visando o acesso à informação e ao conhecimento. é de fundamental importância o desenvolvimento de ações coordenadas e integradas entre as diversas esferas de governo. 16(2): 129-160. Paralelamente aos problemas sociais ainda não solucionados. coordenadores e representantes de associações. buscam-se soluções efetivas para que pessoas dos diferentes segmentos sociais e regiões possam ter acesso às orientações e treinamentos relacionados às tecnologias de informação e comunicação. através da capacitação da população para aquisição – de no mínimo – habilidades básicas para a utilização das ferramentas disponibilizadas pelas tecnologias de informação e comunicação – computador / internet – tornando-se assim. de forma a alavancar o desenvolvimento auto-sustentável e a promoção da cidadania. para a inserção dos indivíduos como cidadãos em um mundo globalizado. como mostra sua geografia. Assim. Devido à falta de conhecimento dos pais.

foi criada. A Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Fissuras Labiopalatais (REDE PROFIS) congrega as 43 associações existentes no país. que definiu como um de seus objetivos o desenvolvimento do portal web (www. Esse processo de organização social é um exemplo de luta pela conquista de direitos garantidos pela Constituição.para a minimização da exclusão social. 2004). especialmente os coordenadores e representantes de associações.redeprofis. numa sociedade em fase de construção da democracia. funcional e psicossocial dos pacientes tem na tecnologia de informação e comunicação uma ferramenta 132 Serviço Social & Realidade.com. 16(2): 129-160. visando à eficácia eficiência e efetividade das ações desenvolvidas. integrar. Propomos assim o desenvolvimento desta pesquisa. Diante do quadro supra citado. As TIC’s – Tecnologias da Informação e da Comunicação – podem prestar enorme contribuição para os programas / projetos sociais. visando o acesso eqüitativo aos benefícios da inserção na sociedade de informação. visando o intercâmbio técnico-científico de ações em defesa dos direitos de cidadania. ampliará a área de abrangência dos mesmos. 2007 . principal ferramenta de integração entre as associações do Brasil. 01/129216). dá-se o nosso interesse em contribuir no processo de inclusão digital de usuários do HRAC /USP.br). representar e defender os interesses institucionais de suas associadas. a Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Lesões Labiopalatais denominada REDE PROFIS cuja finalidade principal é congregar. sobre o acesso a inclusão digital. Ressaltamos que com esse projeto será dada continuidade à pesquisa de políticas públicas “Criação e Implementação de uma Rede Nacional de Cooperação e Intercâmbio Técnico-Científico entre Associações de Portadores de Lesões Lábio-Palatais no Brasil”. uma vez que essas mídias serão utilizadas de forma a favorecer os interesses / necessidades individuais e coletivas. A partir de 2004. Franca. colaborando com o desenvolvimento da solidariedade social (Bauru. O HRAC/USP buscando a excelência em todo o processo de reabilitação estética. tendo como objeto de estudos os coordenadores e representantes de associações de pais e pessoas com fissuras labiopalatinas. (processo FAPESP n. uma vez que.

reciprocamente. por outro.indispensável na implementação de serviços através de seu portal. contudo. Franca. também não se pode analisar a sociedade sem que se leve em consideração às transformações tecnológicas que estão ocorrendo dentro dela. condição hoje indispensável para o exercício pleno da cidadania. Por meio das profundas transformações da economia mundial. são a principal razão para as alterações socioeconômica e políticas no mundo moderno. na mesma medida em que não se pode falar em tecnologia sem considerar as transformações sociais que estão ao mesmo tempo provocando e favorecendo seu desenvolvimento. em termos relativos. e a economia mundial Serviço Social & Realidade. Este projeto propiciará a capacitação de sua população alvo para utilização destes serviços e o acesso as TIC’s. Para avaliar a extensão das transformações causadas pela globalização. são eminentemente contraditórias visto que. 80) cita: [. neste final de século.. As dimensões sócio-culturais do desenvolvimento tecnológico As transformações da economia capitalista. o outro. Sociedade e tecnologia são fenômenos indissociáveis e as transformações que ocorrem num deles altera. ocasionando transtornos na economia global. Nascimento (1996.. Segundo Carvalho (2007). 2007 133 . no mundo econômico. se por um lado abrem oportunidades ao desenvolvimento e ao bem-estar. provocam uma reorganização tanto nas estruturas produtivas como nos fluxos comerciais e financeiros fazendo com que as economias nacionais percam sua importância. provocadas pela globalização e pelo processo neoliberal. configurando uma situação de crescente interdependência mundial no presente contexto de aceleração do desenvolvimento tecnológico. 16(2): 129-160.] globalização refere-se à reorganização das estruturas produtivas e ao aumento dos fluxos comerciais e financeiros. Tais transformações. colocam ameaçados os que não estão “preparados tecnologicamente” a tais transformações. é que se agravam os problemas relacionados à morfologia social. p.

dentre outras conseqüências. 2) Era da Industrialização Neoclássica. intensas e pouco previsíveis. 2007 . Com a globalização. desigualdade e exclusão social. que durou de 1950 a 1990. A mudança era vagarosa. De acordo com Antunes (2000). O processo de globalização desencadeou várias conseqüências. 2005): 1) era de industrialização clássica. tais como: livre comércio entre países. 16(2): 129-160. que as atuais transformações no mundo do trabalho marcam a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade tecnológica. Os avanços tecnológicos que eclodiram na década de 1990 provocam uma revolução na sociedade globalizada. a sociedade adquire uma nova forma de organização social tendo como suporte a tecnologia. previsíveis. compreendendo três fases distintas de acordo com Chiavenato (1997 apud CELESTINO. a automação. As mudanças eram lentas. inclusive. A revolução infotecnológica surgiu com as transformações ocorridas na sociedade no decorrer do século XX. por meio da tecnologia altamente sofisticada para maior produção e menor custo. desaparecimento das fronteiras nacionais. processo que se iniciou com a Revolução Industrial. as relações de trabalho e produção no sistema capitalista. A cultura organizacional deixou de privilegiar as tradições passadas e passou a concentrar-se no presente e o 134 Serviço Social & Realidade. progressivas. ocorrendo à substituição da produção em série e em massa pela flexibilidade da produção. desregularização e privatização de empresas estatais. portanto.torne-se cada vez mais interconectada e relevante. os novos processos produtivos se mesclaram com o fordismo e o toyotismo. A não assimilação das novas exigências tecnológicas transforma-se num dos maiores entraves para o mundo do trabalho. desemprego estrutural provocando grande desestruturação social. A partir desse período as mudanças passaram a ser mais rápidas. melhoria na qualidade dos produtos. visto que trabalhador não consegue se adequar tão rapidamente a estas exigências ficando excluído do mercado. suaves. que cobriu o período de 1900 a 1950. alteração do papel do Estado no qual ele perde a função de produtor de bens e de repositor do sistema produtivo. percebe-se que o salto tecnológico. flexibilidade das normas trabalhistas. reafirmação da concentração de capital e poder nas mãos de uma minoria. a robótica e a micro eletrônica afetou. Franca. Ressalta-se.

sobre o que for de seu interesse. [.. A disseminação da informação por parte dos meios de comunicação é algo avassalador. a microbiologia com grandes inovações no campo da engenharia genética e a revolução energética com a utilização da energia nuclear. são determinadas pelos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) feitos no passado remoto ou recente. pessoas. há três universos. os produtos. Franca. enfim.conservadorismo cedeu lugar à inovação. p. 3) Era da Informação. Este controle permite dominar todos os que dependem do conhecimento tecnológico para se integrar ao mundo informatizado. O avanço científico e tecnológico do mundo contemporâneo tem contribuído para essa panacéia universal (CELESTINO. A dominação ocorre quando há a possibilidade de controle da informação. e acaba nos colocando como “observadores” do progresso desenfreado e muitas vezes perigoso. que se tornaram rápidas. as instituições. 2). O conhecimento tecnológico permite dominar sociedades dependentes que se encontram submetidas às malhas de poder dos detentores deste conhecimento. teve início em 1990.] Assim como máquinas e equipamentos ficam obsoletos. 16(2): 129-160. nações.. sua característica principal são as mudanças. os resultados também ficam. Esta se caracteriza por três grandes avanços técnicocientíficos: a microeletrônica e o progresso da área informacional. Às pessoas tem que se conscientizarem que vivem em comunidade. somados às necessidades e decisões Serviço Social & Realidade. Segundo Schaff (1990) uma nova sociedade se configura: a sociedade passa a ser divida entre quem detém a informação ou não. empresas. 2007 135 . O poder não é apenas de quem possui a informação. em TICs. o conhecimento. inesperadas. Do ponto de vista das políticas públicas. ramos da produção. 2005. imprevistas. construindo verdadeiros bancos de dados sobre outros grupos. Na sociedade informacional os grupos que controlam a produção do conhecimento têm também condições de armazenar informações. que é um ser social. pois esta poderá ser adquirida através de medidas educativas adequadas. Nos países desenvolvidos.

Fala-se que a revolução da informação. de risco ou empréstimo a taxas que fomentam a inovação (tecnológica) com base para o aumento de produtividade na economia.estratégicas nacionais. A desterritorialização é hoje um fato verdadeiro. capital próprio. com raros episódios coerentes e/ou conseqüentes. reproduzindo assim a diversidade. por outro lado. participarem do mesmo mercado. 2006) Perante tantas transformações que essa nova configuração de sociedade impõe. Este fenômeno desencadeia diversos processos na nova estrutura social. na dinâmica das relações sociais. 2007 . simplesmente não há política pública para TICs. não havendo indústria nacional (de classe mundial. aliadas a uma indústria de TICs lastreada por capital próprio. alguns segmentos são integrados à economia e à cultura mundiais enquanto a marginalidade atinge parte considerável da população. mantêm as diferenças. A interpenetração e a internacionalização das culturas trazem novos elementos à dinâmica cultural nunca vivenciados anteriormente na história humana. Segundo Castells (1999). nem lhes dá a mesma identidade. locais e regionais passam de uma posição de exploração dependente a uma inadaptação estrutural à nova economia. característica da sociedade informacional: Uma dualização crescente no interior das sociedades dependentes. Franca. o comportamento do setor é caótico. investimento de porte mundial em P&D e muito menos capital de risco ou taxas decentes de juros. a conseqüência social mais importante deste processo de desenvolvimento técnico-científico encontra-se no campo cultural. 136 Serviço Social & Realidade. Entretanto surge uma indagação: até que ponto será possível eliminar as identidades culturais? O fato das pessoas consumirem os mesmos bens. como o nosso. Nos países em desenvolvimento. Se o mercado mundial pressiona a todos que dele participam a uma uniformização do consumo. as sociedades nacionais. porque. pelo menos ainda). (MEIRA. é difícil dizer o que realmente ocorre. estarem submetidas às mesmas leis econômicas não as uniformiza culturalmente. as manifestações da vida cotidiana. 16(2): 129-160. Nos países pobres. com suas grandes redes e a velocidade cada vez maior da comunicação eliminarão as barreiras artificiais entre as culturas.

Franca. 2007 137 . A reconstituição da unidade mundial através de migrações maciças para os países do centro. vê-se que o acesso à tecnologia de informação e comunicação está limitado a um gripo de privilegiados. as lutas entre grupos religiosos. A forma como está organizada a sociedade global não dá acesso a todos os cidadãos a seus benefícios. Diante deste quadro. O processo de transição histórica à economia informacional será provavelmente dominado pela separação fundamental entre. É o fluxo de pessoas que só consegue ser interrompido por amplas medidas policiais que afetarão fundamentalmente o caráter da democracia dos países adiantados. Segundo Bienaymé (1994). étnicos e de identidade que reagem a esta tendência. de armas. de um lado. o desenvolvimento tecnológico nem sempre significa desenvolvimento social. afirmando sua identidade cultural em temos fundamentalistas. o comércio de órgãos. serem portador de algum tipo de Serviço Social & Realidade. o tráfico de seres humanos (a prostituição. Tentativas de instauração. a lavagem de dinheiro sujo. de culturas comunitárias e de Estados cada vez mais fechados.Uma tentativa desesperada das sociedades excluídas de rejeitar as regras do jogo. grupo este identificado como “excluídos digitais” e vários são os fatores que impedem o acesso das pessoas às novas tecnologias. Dando continuidade ao pensamento do autor. de outro lado. com a internacionalização do capital e maior comunicação entre as diferentes regiões do mundo para alcançar um objetivo comum (a integração ao mercado global) e. o hiato entre a dinâmica da economia global e a estrutura da sociedade informacional está transformando de maneira fundamental as redes sociais das sociedades avançadas. O paradoxo do final do século é a globalização econômica de um lado. uma economia global e uma rede de informações mundiais e. a adoção de crianças. resultando no “analfabetismo digital” para a maioria da população. etc). de outro. de uma “conexão perversa” à economia global caracterizada pela criminalidade: o comércio de drogas. nos países marginalizados. dentre eles. assim como a dos países dependentes. de sociedades civis nacionalistas. 16(2): 129-160.

ensinar. suas habilidades para aprender. podemos citar os seus principais canais de desenvolvimento e viabilidade. trazendo como conseqüência uma grande “massa” de excluídos na esfera digital. sejam os de transferência de renda ou os de crédito pessoal. A grandeza deste fenômeno vai desde o apertar do voto eletrônico aos cartões eletrônicos com as mais diversas finalidades. Em se tratando de Inclusão Digital. conforme demonstrado na figura abaixo: 138 Serviço Social & Realidade. raciocinar e exercer a criatividade. não trouxeram apenas conforto e qualidade de vida. O tardio reconhecimento da importância desse campo que vem evoluindo a passos largos fez com que houvesse em nosso país um grande fosso nas políticas públicas com foco nessa temática. 2007 . os avanços tecnológicos dos últimos 200 anos. A sua expansão e reconhecimento fortalece a cidadania bem como a inclusão social daqueles que se encontram no chamado “apartheid digital”. Essa exclusão é “só mais uma” dentre as muitas que caracterizam a nossa sociedade. A Inclusão Digital A inclusão digital tem sido foco de discussões de toda sociedade moderna.deficiência. O mesmo modificou a capacidade cognitiva do ser humano. De acordo com o Comitê pela Democratização da Informática (CDI). 16(2): 129-160. 2003) A Inclusão Digital (ID) representa um canal privilegiado para a equalização de oportunidades da nossa desigual sociedade em plena era do conhecimento. (MISSÃO. Franca.

(UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Os percentuais dos que estão conectados à Internet são ainda menores 8. sociais e as pessoas que são portadoras de algum tipo de deficiência. tanto aqui como no resto do planeta. ainda se situam as pessoas com deficiência junto como os demais cidadãos “off-line”. sem cidadania. 16(2): 129-160. Segundo Andrade (2004). 1). 2007 139 . Vários são os fatores que impedem o acesso das pessoas às novas tecnologias digitais. ao acesso às novas tecnologias da informação e comunicação.Figura 1 . Com isso pretende-se gerar um avanço na capacidade e na qualidade de vida de grande parte da população. p. 2006) A Oficina de Inclusão Digital realizada em Brasília definiu: Inclusão Digital é gerar igualdade de oportunidade na sociedade da informação. apesar dos avanços. 2006). há cada vez mais o empenho do governo e da sociedade civil através das organizações não governamentais de encontrarem soluções para garantir tal acesso.31% (FUNDAÇÃO. 2003. Franca. A partir da constatação de que o acesso aos modernos meios de comunicação. entre os excluídos. cujos movimentos de defesa de equiparação de oportunidades já reconhecem o papel fundamental de seu direito à informação e. conseqüentemente.5% dos brasileiros têm computador em casa. destaca-se o Comitê pela Serviço Social & Realidade. dentre eles destacam-se as desigualdades econômicas. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o “Mapa da Exclusão Digital”. e constatou-se também que apenas 12. bem como preparar o país para necessidades futuras”. gera para o cidadão um diferencial no aprendizado e na capacidade de ascensão financeira. especialmente a Internet. no qual foi comprovado que temos aproximadamente 150 milhões de excluídos digitais no Brasil.Canais de Inclusão Digital (ID) Fonte: Mapa da Exclusão Digital (FUNDAÇÃO. sem educação. Para combater esta situação. estão às pessoas com deficiência. sem emprego. Diante da constatação de que muitos brasileiros não têm condições de adquirir equipamentos e serviços para gerar este acesso. sem computador e sem net. Porém o que constatamos é que.

Franca. (GUIMARÃES.Democratização da Informática (CDI). Sua atividade principal é a criação de Escolas de Informática Cidadã. Para ele. jornalista e coordenador de atividades nos telecentros da Prefeitura de São Paulo apresentam a inclusão digital. não basta colocar pessoas à frente do computador. 2). 2007 . não como um conceito isolado. utilizando as tecnologias de informação e comunicação (TIC) como instrumento para construção e o exercício da cidadania. Thiago Guimarães. o qual foi fundado no Rio de Janeiro em 1995 e tem como missão: Promover a inclusão social de populações menos favorecidas. deve-se ter a perspectiva de que o uso dos computadores em rede contribua para gerar renda. Para que estas oportunidades não sejam desperdiçadas. facilitar o acesso aos serviços públicos. de um modo mais amplo. ou acontece as duas. mas como dupla inclusão: a digital e a social. Para que a inclusão digital ocorra. Guimarães destaca dois aspectos relevantes: o caráter humano dos projetos de inclusão digital e a dimensão da democratização da informática. Ocorre à inclusão digital quando as tecnologias de informação e comunicação são utilizadas para a inclusão social. Ou seja. Inclusão digital deve ser vista como democratização da informação. 2003: p. o mundo digital pode aprofundar a desigualdade 140 Serviço Social & Realidade. de afirmação de identidade. Bases de um Programa Brasileiro para Sociedade da Informação De acordo com Ministério da Ciência e Tecnologia (BRASIL. ressaltando que inclusão digital não é um processo que brota das máquinas: a máquinas é o meio de conquista de autonomia. ou não existe inclusão digital. A atividade humana de instrução e orientação é fundamental. de exercício da cidadania e de aproximação entre as pessoas. o acesso às técnicas e ao uso da informática. 1999). 16(2): 129-160. integrar o cidadão na esfera pública e. com o objetivo de prover às pessoas que fazem parte de comunidades de baixo poder aquisitivo e/ou com necessidades especiais. melhorar a qualidade de vida das pessoas. é preciso articular as comunidades com projetos culturais e educacionais.

no futuro. deve ser o de universalizar as oportunidades individuais. comercialização e consumo possibilitados por cadeias de valor em rede. Os custos de tal empreitada.que já existe entre os brasileiros. igualmente. Não realizá-los. em um Programa para a Sociedade da Informação como o proposto. sua transformação em conhecimento e sua utilização nas dimensões sociais. regional e global. O papel fundamental do governo. têm forte impacto na forma como se distribui a riqueza entre nações e regiões. no sentido de assegurar um empreendimento privado competitivo de caráter local. será essencial para o desenvolvimento e crescimento das redes digitais no país. mais rapidamente. pois traz a ameaça do “apartheid digital”. A própria expansão da Internet pode ser bloqueada em curto prazo pela limitada Serviço Social & Realidade. 2007 141 . a redução da desigualdade no acesso à informação é e será um direito e. pela absorção da informação. distribuição. implicará. A transformação dos processos de produção. A utilização crescente da comunicação abre um grande potencial para o desenvolvimento humano em todos os níveis. Antes de ser um instrumento compensatório. parte considerável do desnível entre pessoas e instituições já é – e será progressivamente ainda mais – resultado da assimetria no acesso e entendimento da informação disponível na Sociedade e na conseqüente capacidade de agir e reagir de forma a usufruir seus benefícios. em despesas muito maiores e de duvidoso retorno. No Brasil e em todo o mundo. em curto prazo. por maiores que possam ser. Ao mesmo tempo o governo deve dar suporte e incentivar o desenvolvimento tecnológico. também são maiores as oportunidades. institucionais e regionais. Ao mesmo tempo. são investimentos da Sociedade no seu futuro. adotarem políticas de fomento e absorção destes novos processos terão vantagens competitivas enormes no longo prazo. para habilitação da cidadania e inserção do país na nova economia digital. Além de estabelecer as bases para a massificação da comunicação digital na educação pública e nas instituições sociais. na medida em que se amplia à quantidade de informação disponível em rede. Franca. cabe ao governo incentivar e implantar experimentos que sirvam para a criação de uma verdadeira capacitação nacional nas áreas de infra-estrutura de informação e conhecimento digital. econômicas e culturais. 16(2): 129-160. Aquelas que.

para maximizar o impacto do investimento a ser realizado. sua conectividade e apropriação econômica e social. 2007 . sejam domicílios. sistemas e serviços que se possam considerar típicos da próxima geração de infra-estrutura digital de comunicação. O extraordinário impacto positivo que a nova economia e sociedade digital trazem consigo depende fundamentalmente de sua capacidade de ampliar o número de seus usuários. de alcance mundial. e provendo condições para a criação de empreendimentos digitais que poderão ser significativos para o crescimento nacional na nova economia. As características básicas da economia atual estão associadas à informação e ao conhecimento. Os meios de comunicação. exige que novos processos de coordenação sejam postos em prática para intermediar as formas de relacionamento entre os mais variados agentes. Um dos pressupostos do Programa é a estruturação de uma rede digital de comunicação de dados que permita a pesquisa. 16(2): 129-160. é preciso articular a ação de governo e dele com a iniciativa privada e o terceiro setor. criando oportunidades de educação. Franca. O conhecimento. em particular. para todos. As mudanças no cenário sócio-econômico são mais do que suficientes para provocar rupturas que tornam necessária a intervenção do governo para capacitar e rearticular os mais diversos atores sócio-econômicos.penetração social decorrente das diferenças de poder aquisitivo. interoperáveis. sua geração. armazenamento e disseminação. empresas ou instituições. Tal convergência cria novos espaços e. Tal rede deve abranger todo o território nacional. 142 Serviço Social & Realidade. computação e os processos de cooperação estão convergindo rapidamente em torno de redes digitais abertas. pesquisa e desenvolvimento. sobretudo da elevação da produtividade – a ampliar os horizontes do próprio crescimento econômico. dentro de critérios aceitáveis de uso não competitivo ou pré-competitivo da rede. Para tal. ferramentas. desenvolvimento e utilização. principalmente. de ambientes. Algumas experiências internacionais mostram que esses novos processos podem auxiliar – através. são os focos de um Programa para a Sociedade da Informação em qualquer país. Mais do que velocidade da rede deve-se almejar qualidade de serviço e modelos de negócio que garantam sua sustentação independentemente do próprio Programa.

Atividades do Governo. para criação e difusão cultural brasileiras. A ausência de conectividade e/ou de capacitação local retarda. com ênfase nas identidades locais. especialmente para países que têm aspirações maiores. Informação e Mídia. Finanças e Receita Públicas. pelo menos. em Cultura. Comércio. em Aplicações Sociais. para todos os níveis da rede pública de educação. interação e verificação de aprendizado. investir para que a rede e suas aplicações possam ser usadas não só como elemento compensatório das diferenças sociais.Não é possível hoje desconsiderar ou apenas reagir passivamente à inexorável expansão das redes digitais. que são considerados habilitadores e indutores de outros2. dentre os quais destacamos. Tecnologia. Empreendimento. utilizando uma infra-estrutura avançada de comunicações. é preciso garantir a universalização do acesso à Internet. Muitos dos processos em curso dependem de interação de qualidade eficaz e eficiente. utilizar os meios providos pelas tecnologias da informação e comunicação. com perdas econômicas cada vez mais significativas e com impactos crescentes em outras dimensões do desenvolvimento humano. Indústria. externa e interna. Serviço Social & Realidade. 1999): em Educação. 16(2): 129-160. mas como. 2007 143 . Criação e Difusão Tecnológica. priorizando Ciência. dando atenção a projetos e sistemas que possam representar a universalização de tais serviços em todo o território brasileiro. Franca. paralisa ou leva mesmo à extinção desses processos. estabelecer protótipos de serviços de referência em atendimento e de informação em saúde. em Saúde. Adicionalmente. incluindo elaboração e disseminação de conteúdo em rede. (BRASIL. seu fomento e preservação. 2 Os demais compreendem: Meio Ambiente e Agricultura. Investimento. 1999) Os objetivos do Programa Brasileiro para Sociedade da Informação O Programa Sociedade da Informação estabelece um conjunto de objetivos qualitativos globais. (BRASIL. contribuir para a qualidade dos processos de educação à distância. Educação e Cultura.

em Educação para a Sociedade da Informação. com ênfase a projetos e sistemas que possam representar a universalização dos serviços das associações congêneres em todo o território brasileiro rumo à inclusão digital e social. em grande parte com o estímulo da Rede Nacional de Pesquisa (RNP). o impacto das Tecnologias de Computação. em nenhum nível. especialmente das pessoas portadoras de anomalias craniofaciais. onde se deve tratar de um programa de treinamento e formação para o mundo virtual. Comunicação e Cooperação na Sociedade. instalação. 16(2): 129-160. métodos e processos de medida de performance do Programa e suas ações. mais uma vez. 144 Serviço Social & Realidade. em caráter permanente. sem nenhuma distinção. O Brasil tem ampla experiência no estabelecimento e uso de redes tipo Internet. representada principalmente pelos recursos humanos treinados nas universidades e centros de pesquisa. construção. desde a preparação de especialistas em Tecnologias da Informação para projeto. finalmente. ambiente habilitador de competências e de participação social. de forma que se criem as melhores condições possíveis para a apropriação sócio-econômico-industrial das próximas gerações de redes e serviços de computação. a principal preocupação deve se voltar para a formação de recursos humanos. de forma a avaliar. estabelecer critérios. operação e manutenção de sistemas e serviços digitais em rede até a popularização em massa dos elementos essenciais da Sociedade da Informação. Franca. essencial para o acesso de todos ao mundo informatizado e conectado e. comunicação e informação. em parceria com a REDE PROFIS estabelecendo serviços de referencia em atendimento e de informação em saúde. é necessário que se planeje e execute um salto qualitativo onde. 2007 . Depois de uma fase de iniciação da Sociedade ao uso dos serviços e aplicações associados à versão atual da Internet. em Acompanhamento e Avaliação. pesquisa e desenvolvimento.principalmente. É com esses desafios que pretendemos alavancar o trabalho desenvolvido pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP. como no início do projeto da RNP.

utilizando-se de questionário e/ ou formulário. outros foram enviados pelo correio e/ou via e-mail para garantir uma amostra representativa. Identificar a disponibilidade de acesso à internet e demais meios de comunicação. capacitando-os para a construção do exercício da cidadania por meio do acesso às tecnologias de informação e comunicação. Os objetivos específicos da mesma foram: traçar o perfil sócio digital.5%) no que se refere aos coordenadores e 8 (15. para apoio as entrevista dos que compareceram para atendimento no HRAC. Cabe ressaltar que as Associações da Área de Serviço Social & Realidade. habilitar dentre o público alvo. aqueles com perfil para “agentes facilitadores” do processo de inclusão digital de outros pacientes nos seus respectivos municípios. Apresentação e Análise de Dados da 1ª Fase da Pesquisa Nesta primeira fase da pesquisa. identificar as expectativas e as demandas para capacitação e ou aprimoramento digital. constituídos aleatoriamente – com e sem treinamento de informática do HRAC /USP. 16(2): 129-160. Franca. com sujeitos. A segunda fase teve como sujeitos 30 agentes multiplicadores que responderam aos instrumentais e confirmaram sua participação no treinamento oferecido pela instituição. 2007 145 .Apresentação e Análise de dados da Pesquisa A pesquisa teve como objetivo geral promover a inclusão digital e social dos coordenadores do HRAC/USP e representantes de Associações de Pais e Portadores de fissuras labiopalatais do Brasil. O universo da pesquisa foi composto por: (120) pais e/ou pacientes coordenadores que possuíam correio eletrônico cadastrados no Serviço Social de Projetos Comunitários e (43) representantes das Associações cadastradas na instituição e filiadas a Rede PROFIS. REDE PROFIS dentre outros. obtivemos um total de 53 respostas dos agentes multiplicadores. avaliar os resultados do programa de treinamento para o acesso às tecnologias de informação e comunicação disponibilizados pelo HRAC/USP.6%) representantes de associações. A primeira fase da pesquisa aconteceu no período de setembro a novembro de 2006. totalizando 163 agentes multiplicadores. sendo 45 (37.

Concórdia/SC CEFIL .22 20.5 100 % 50 12.77 20. PRÓ-CIDADE . 16(2): 129-160.89 3. Pais. Amigos e Usuários de Implante Coclear – Bauru/SP PROFIS DE CONCÓRDIA .84 9. podemos 146 Serviço Social & Realidade.56 11.Ribeirão Preto/SP AFAM .Associação de Deficientes Auditivos.33 28.00 4.5 100 Diante dos dados apresentados na tabela acima.78 13.Completo Total Conhecimento Informática BASICO AVANÇADO INTERMEDIÁRIO NENHUM Total Representantes de Associações Nº % 04 50 01 12.22 2.33 6.Cascavel/PR ADAP .67 2.66 1.33 26.77 100 47.44 2.Associação Apoio ao Fissurado Lábio Palatal de Presidente Prudente/SP Tabela 1 – Caracterização do Público-Alvo Procedência/Estados São Paulo – SP Santa Catarina – SC Paraná – PR Amazonas – AM Goiás – GO Rio Grande do Sul – RS Minas Gerais – MG Rio de Janeiro – RJ Espírito Santo – ES Mato Grosso – MT Rondônia – RO Total Escolaridade Pós Graduação Ensino Superior Completo Ensino Superior Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Fundam.33 5.5 25 12.67 35.40 3.89 11.67 6.Anomalias Craniofaciais participantes desta pesquisa foram: APOFILAB .22 2.17 7.5 02 25 01 12.89 3.Centro de Apoio e Reabilitação aos Portadores de Fissuras Labiopalatal de Londrina e Região .44 100 % 15.Promoção Social do Fissurado lábio palatal de Concórdia . Franca.89 1.11 100 Total Geral % 43.Associação de Portadores de Fissura Lábio-Palatal de Cascavel .5 Coordenadores Nº 19 01 09 02 01 06 03 01 01 02 45 Nº 07 08 06 13 06 03 02 45 Nº 21 03 16 5 45 % 42.41 11. Incompleto Ensino Fundam.32 5.22 4.5 37.Associação dos deficientes Auditivos e Fissurados .33 6.86 11.67 4.22 13.64 18.56 17. 2007 .77 1.Londrina/PR.77 100 22.Associação Pró-cidadania do Deficiente Pirassununga/SP ADAF .89 13.75 1.66 3.44 08 Nº 05 02 01 08 Nº 04 01 03 08 100 % 62.55 35.Associação de Apoio ao fissurado de Manaus/AM AFIPP .44 100 % 46.

18 100 100 % 87.5 87.67 95.41%).91% de usuários que possuem um maior acesso a informação e conhecimento.34 5.95 34. Estar de fora da era da informática equivale a ser um analfabeto.33 5. com relevância para aqueles que possuem ensino superior completo (18.90 2.61 2. 2007 147 .6 100 6. com nível básico temos 47.32%).14 97.4 9. totalizando 67. O grau de escolaridade constatado vêm reforçar essa realidade. possuindo assim maior destaque quando a temática é a área da saúde. informática e cada vez mais qualidade. e Minas Gerais (11. Paraná (20.52 32.5 12.75%). De acordo com Reis (2007). Franca.43 94.17% e intermediário 35.64 18.56 4.10 100 84.73 32.90 9.68 5.86%) e pós-graduação (22.constatar que o público-alvo da pesquisa é proveniente do Estado de São Paulo (43%).89 6.44 100 % 30. Tabela 2 – Acesso à ferramenta computador Representantes de Associações Disponibilidade de uso: SIM NÃO SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Finalidade de uso: TRABALHO ESTUDO LAZER SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Acesso internet: SIM NÃO SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Local de acesso: Nº 7 7 1 8 Nº 7 2 2 11 11 Nº 7 1 8 8 Nº % 87. é mais revolucionária do que foi a invenção da imprensa.66 94. os usuários pesquisados possuem ensino médio completo (26. seu objetivo de disseminar informação e orientação aos pacientes de sua cidade.67 100 % Total Geral % 88.5 100 % 63. 16(2): 129-160.64%).39 100 % 90. uma vez que. o que vem de encontro com a configuração da realidade brasileira.67 Serviço Social & Realidade.66 34. A ampla troca de informações internacionais que já está sendo possível com o acesso às redes de informação. além de sua própria atividade profissional.84%. requisito fundamental para o exercício das atividades enquanto Agentes Multiplicadores. são línguas. os conhecimentos básicos exigidos. como a Internet.53 97. tendo em vista.18 18.5 100 100 % Coordenadores Nº 40 03 43 02 45 Nº 26 29 27 82 2 84 Nº 38 04 42 03 45 Nº % 88. onde os Estados da região Sudeste e Sul são os mais desenvolvidos do país.5 12. No que se refere ao nível de conhecimento na área da informática.64 30.

como por exemplo.90% e o local de acesso em sua maioria é a residência da própria pessoa (50.70 93.17 100 148 Serviço Social & Realidade. Entretanto 17.47 28.33 100 Obs.04 Coordenadores Nº 31 27 19 19 2 98 11 109 Nº % 28.73%) e atividades voltadas para o estudo e lazer (32.27% possuem como local de acesso seu ambiente de trabalho.67 17. No que se refere à disponibilidade do uso do computador. o que evidencia que este espaço ainda não está totalmente preparado para o mundo virtual da Era Pós-Moderna.67%).33 94. as lan house.33% utilizam outros lugares para ter acesso à internet.73 1 4. o que constata que as pessoas utilizam à internet não somente para trabalho e estudos. Franca.27 63.42 10.57 33. O acesso à internet é de 84.17 5 22.TRABALHO RESIDÊNCIA OUTROS SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL 3 7 1 11 11 27.75 6.30 27. tendo como finalidade ações voltadas para o trabalho (34.64 9. pois a grande maioria da população não possui computador em casa e muito menos acesso a internet.75 93.44 24. 16(2): 129-160.53 90.04 11.32 0. mas também para se relacionarem com outras pessoas.77 17.55 21 95.83 12.68% apontaram ter acesso a essa ferramenta. Tabela 3 – Habilidades na área da informática CURSOS/INFORMÁTICA: WORD EXCEL POWER POINT INTERNET OUTROS NENHUM SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL FERRAMENTAS INTERNET: MSN BLOG ORKUT FOTOLOG OUTROS SUB TOTAL Representantes de Associações Nº % 6 27.76 1.56 48.83 89.27 4 18.24 23.66 18.43 1.47 91.1 100 % Total Geral % 28.43 17.55 22 100 Nº 6 4 5 4 1 20 % 30 20 25 20 5 100 32 9 27 10 9 87 33.44 18. diminuindo assim as fronteiras territoriais.9 10.45 1 4.68 9. Cabe ressaltar que no caso das Associações apenas 27.83 9.53% respectivamente). podemos constatar de acordo com a tabela acima.73 5 22.09 100 100 17 31 12 60 4 64 26.17 8. 2007 .: Finalidade de uso e local de acesso – questões de múltipla escolha.67 50.67 5. Os dados descritos nos mostram uma realidade que ainda não é uma constante em nossa sociedade. que 88.32 18. Outro fato observado é que a finalidade de uso é bem diversificada.25 100 26.53 9.64% e 30.

5 25 100 100 % Coordenadore s N. Franca. 2007 149 .77 1. 2. Agora a nova possibilidade é que podemos compreender o mundo e ele nos compreender simultaneamente.44 8. pelo espaço o mundo nos compreende.67 8.54 16. demonstrando que as fronteiras agora são virtuais e não territoriais.323%. pelo pensamento compreendemos o mundo e.78 100 Serviço Social & Realidade. % 3 3 2 8 8 N. Tabela 4 – Opinião e experiências práticas sobre à Internet Opinião sobre Internet BOA Boa .87%.22 13. 37.11 2 4.77 96. e cursos específicos na área da internet tiveram uma incidência de 18.54 4. podemos observar que os sites de relacionamento tiveram uma incidência considerável de 60. % 5 11.56 4.44 95.77 5.5 37.43 3.44 100 % Total Geral % 9.99 3. o que demonstra que o acesso a esse tipo de curso ainda é restrito devido ao seu valor de custo ser alto.43 100 6.33 4.22 3.44 1 6 2 3 4 2 4 7 2 43 2 45 N. como nos coloca (1997).89 17 3. totalizando 70.77 5.66 3.44 3 6.porém com informações equivocadas Crescimento / desenvolvimento do mundo Desenvolvimento tecnológico Desenvolvimento tecnológico / Praticidade / Perigoso Ferramenta importante no cotidiano Ferramenta importante no cotidiano / Perigoso Meio mais rápido e eficaz da comunicação / informação Meio mais rápido e eficaz da comunicação / informação / entretenimento Meio mas rápido e eficaz da comunicação / informação – Perigoso Necessidade do mundo moderno Valioso instrumento a serviço da informação / conhecimento Veículo importante para comunicação à distância Sub total NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Experiências práticas Representantes de Associações N. desfazendo assim as fronteiras territoriais. tendo como relevância os cursos relacionados às funções essências do sistema Microsoft Office componentes do Windows que atualmente detém a hegemonia no sistema de computação.54 9.44 6.66 7.67 2 4. No que se refere às ferramentas da internet.96 100 Obs.NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL 20 100 8 95 8.43 7.90 4.22%.: questões de múltipla escolha Os dados constatados nesta categoria de análise nos mostram que os pesquisados realizaram algum tipo de curso relacionado à área da informática.90 15. 16(2): 129-160.

Segundo esse autor.77 3.07 100 Nesta categoria de análise foi possível constatar a opinião e experiências práticas dos pesquisados com relação à Internet.89 64.00 8.22 17.44 35. colocando que a inteligência humana não é mais apta para captar e dominar todos os dados que necessita. as redes de computadores carregam uma grande quantidade de tecnologias que aumentam e modificam a maioria das nossas capacidades cognitivas. No que se refere à opinião sobre a rede mundial de computadores. onde a comunicação interativa e coletiva é a principal atração do ciberespaço. os quais ampliam sua capacidade.5 12. resultando na aprendizagem coletiva e na troca de conhecimento entre os grupos. podemos destacar as seguintes incidências: Valioso Instrumento – 16. da percepção.78 2.99 7.09 1.11 20.09%).Sites de Busca Contatos Profissionais Sites Relacionamento Projetos com associados Facilidade de comunicação / agilidade Grupos de relacionamento profissional / estudos Pesquisas escolares / profissional Pós-Graduação em Tecnologia na Educação Poucas Sites de busca / Sites de relacionamento Trabalhos profissionais Sub total NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL 2 2 2 1 7 1 8 25 25 25 12. possibilitando a partilha da memória.89 9.99%.93 32. 150 Serviço Social & Realidade.99%) e para pesquisas escolares/ profissionais (15. A internet é tida como um instrumento de desenvolvimento social. podemos analisar a Internet por meio do conceito utilizado por Lévy (1993).89 15. “O saber é uma dimensão do ser”. Diante desses dados relevantes.5 87.55 67. 16(2): 129-160.22 2.89 1. Ferramenta Importante no cotidiano – 17% e Meio mais rápido e eficaz da comunicação/informação e Boa – 9. da imaginação. Franca. 2004) Tabela 5 – Serviços disponibilizados pelo HRAC/USP Conhecimento/utilização/treina mento Representantes de Associações Coordenadores Total Geral 3 Termo usado para designar o espaço virtual criado pela Rede Mundial de Computadores (Internet).22 11.77 3. onde o autor denominou o computador e a Internet como “tecnologias de inteligência”. (LÉVY. 2007 .5 100 1 1 8 1 5 9 4 29 16 45 2.89 1. restando-lhe buscar auxílio na máquina e no ciberespaço3.77 1.43 16.56 100 3.43% (cada). A Internet é utilizada para Sites de busca e relacionamento (16.

19 56.5 87.Conhecimento dos serviços on line SIM NÃO Utilização dos serviços on line SIM NÃO Treinamento/orientação no HRAC SIM NÃO Importância do treinamento do HRAC SIM NÃO TOTAL GERAL N. Franca.56 Total Geral % 52.89 11. dentre outros.60%. tais como: informações sobre o tratamento. internação (rotina e visitas).81% utilizam os serviços disponibilizados pelo hospital. objetivando sempre a qualidade dos serviços prestados.68 11. hospedagem e transporte. e apesar do HRAC/USP ser uma organização pública deve ser pensada e gerenciada como uma empresa privada.89 100 % 88. 2007 151 . Como aponta Teixeira (2000). os quais colocaram que o mesmo foi de fundamental importância para ampliar seus conhecimentos com relação ao tratamento realizado e áreas afins.67 33.60 43.5 50 50 100 100 N. a concorrência.81 30. 16(2): 129-160. 7 1 7 1 4 4 8 08 % 87.40 92.11 66. Trabalhando nesta perspectiva de integrar os Agentes Multiplicadores a realidade do mundo virtual.33 57. declaração de comparecimento. Tabela 6 – Serviços disponibilizados pela REDE PROFIS Conhecimento/utilização/treinamento Conhecimento da REDE PROFIS SIM Representantes de Associações N. 40 5 30 15 26 19 41 4 45 % 88. tendo a participação de 56.68%).55 100 Por meio dos dados apresentados nesta categoria. pois são eles o “elo” entre o hospital. Desta forma.32 69.5 12.11 8.5 12. podemos ressaltar a importância da instituição estar sempre valorizando o seu capital intelectual. % 3 62. os clientes. bom como o desenvolvimento de seu corpo clínico e administrativo deve visar sempre à mesma qualidade dos modernos centros hospitalares. ouvidoria. 25 % 55. pacientes e comunidade. o conhecimento coletivo – sobre o negócio.83 Serviço Social & Realidade. pois a excelência no tratamento de seus pacientes. e conhecer a realidade através daqueles que a vivenciam é matéria prima essencial para se planejar as ações desenvolvidas pelo Centrinho.78 42. a tecnologia e assim por diante – está se tornado a última fronteira da excelência empresarial.45 7.5 Coordenadores N. onde 69.22 91. podemos observar que os dois públicos-alvos possuem conhecimento do site do HRAC/USP (88. o HRAC/USP realizou nos anos de 2004/2005 um treinamento para esses agentes.

Diante deste quadro.5 100 20 45 12 33 45 44. em tempo real no planeta inteiro.67 73.5 100 37.5 100 % Coordenadore s N.5%). principalmente no que se refere às Associações (37. 16(2): 129-160. % 87. % 82. 37 8 45 N. 7 1 8 N.70 100 Por meio dos dados apresentados pelas tabelas acima. uma vez que.98 100 152 Serviço Social & Realidade. resultam de uma rede intrincada de relações.44 100 26. política e econômica assim como à riqueza. a qual se constitui em ferramenta de viabilidade para a emancipação dos direitos da pessoa portadora de algum tipo de deficiência ou malformação.33 100 47. apresentado algumas características comuns. podemos constatar que ambos conhecem o site da Rede PROFIS. Entretanto a incidência de utilização ainda é baixa. as mesmas compõem a estrutura da Rede PROFIS. 2007 . onde este coloca que a existência social e suas segmentações no mundo pós-moderno dependem de nossa conexão em uma determinada rede. Se estar-em-rede associa-se à existência social.NÃO TOTAL GERAL Utilização dos serviços da REDE PROFIS SIM NÂO TOTAL GERAL 5 8 3 5 8 37.02 16. o não-estar-em-rede associa-se às antigas e novas formas de exclusão. Existem inúmeras redes e estas por sua vez. ou tecnológica. Dimensões básicas da vida (como tempo e espaço) são desconstruídas e a interação local-regional-global expressa um mundo globalizado no quais todos os processos se somam num só processo.22 17. econômica. Franca. Podemos neste momento abordar o conceito de Siqueira (2004). política. faz-se necessário um trabalho de fortalecimento desta Rede. onde estas podem ser de natureza biológica.5 12. dentre eles a Fissura Lábio-Palatal.30 71.17 100 28. Tabela 7 – Papel de Agente Facilitador Representantes de Associações Capacitação p/ exercer as funções de agente facilitador SIM NÃO TOTAL GERAL Disponibilidade para trabalhar t f ilit d N.78 100 % Total Geral % 83. social.83%.5 62. fato este que deveria ser inverso. totalizando 52. de miséria e de violência. A predominância das redes no mundo pósmoderno coloca em xeque categorias e conceitos tradicionais (dentre os quais o de individualismo e o de relações de poder).

89 100 Total Geral % 47. sendo uma ação intencional exercida sobre outrem.46 7.11 100 88.17 45.83 100 Nesta categoria de análise podemos constatar mediante os dados da tabela acima. ou seja. O princípio básico para a fluência deste processo é comunicação. pois a essência básica da existência de ambos é possuir a disponibilidade para estar em contato com os pacientes do HRAC/USP e suas respectivas comunidades. 50% no que se refere às Associações e 46. fato este que não deveria estar ocorrendo. 16(2): 129-160. que ambos se consideram capacitados para exercer as funções de Agente Facilitador.17 52. uma vez que ambos colocaram que possuem facilidade para se comunicar. Refere-se ao processo de compartilhar um mesmo objeto de consciência. é através da comunicação.89 11. Segundo Hohlfieldt (2001).89 91.33 100 % 88.29 92. este conceito exprime a relação entre consciências.11 8.22 48.67 53. pelo seu exercício.como agente facilitador SIM NÃO TOTAL GERAL Facilidade de comunicação SIM NÃO TOTAL GERAL 4 4 8 N. mas daquela onde haja elementos que se destacam de um fundo de isolamento. 40 5 45 46. Franca. 6 2 8 8 % 75 25 100 100 Coordenadores N. objetivando o acesso e multiplicação de informação. Tabela 8 – Conhecimento sobre Inclusão Digital Representantes de Associações Conhecimento sobre Inclusão Digital SIM NÃO Sub total NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL N. Entretanto a disponibilidade para estar exercendo essas funções é mediana. 2007 153 .54 100 Serviço Social & Realidade. que se desenvolvem atividades como o ensino ou o confronto de idéias. O termo comunicação não designa todo e qualquer tipo de relação. 19 22 41 4 45 % 42. 7 1 8 50 50 100 % 87.32 100 47.5 12.68 11.67% quanto aos Coordenadores.5 100 21 24 45 N.

a Inclusão Digital.22%. Por meio do treinamento ocorreram algumas mudanças no cotidiano dos pesquisados dentre elas a amplitude de conhecimento e maior interesse em estar auxiliando os pacientes. facilidade em responder dúvidas. com a ajuda da tecnologia. Diante desse quadro pode-se constatar através de questão aberta. que é a aprendizagem necessária ao indivíduo para interagir no mundo das mídias digitais como consumidor e como produtor de seus conteúdos e processo. que dentre as facilidades e/ou dificuldades apresentadas para o desenvolvimento dessas ações. 16(2): 129-160. enquanto que com os Coordenadores a incidência é de apenas 42. 2007 . A definição apresentada na pesquisa é simples. 75% das Associações possuem algum conhecimento sobre o tema. porém como aborda Santos (2006). porém reflete uma noção básica. antes de tudo. Franca. As ações desenvolvidas enquanto Agente Facilitador foram: encaminhamento de pacientes ao HRAC/USP (20%) e o repasse de informações (80%). o objeto principal da inclusão digital é. RJ e AM tiveram uma incidência de 20% cada. Nesta fase o Estado predominante foi o do Paraná (40%) e os Estados de MG. ou seja. onde este trouxe como benefício à amplitude de conhecimento. Não se trata apenas da “alfabetização digital”. melhorar as condições de vida de uma determinada região ou comunidade. um maior conhecimento na área da informática. foram citadas as seguintes categorias: a falta de recursos para se comunicar com os pacientes. a falta de apoio / desconfiança das pessoas envolvidas no processo. Os pesquisados se consideram em 100% dos casos capacitados para o desenvolvimento das funções de Agente Facilitador e informaram que o treinamento realizado no HRAC/USP foi bom (60%) e ótimo em (20%). 154 Serviço Social & Realidade. Apresentação e Análise de Dados da 2ª Fase da Pesquisa Esta fase compreendeu os sujeitos pesquisados que afirmaram na primeira fase terem participado do treinamento oferecido pelo HRAC/USP. entretanto em alguns casos possuem o apoio junto aos órgãos do município quando solicitado. amadurecimento / crescimento / confiança. diminuição da dependência junto HRAC/USP e.Esta categoria de análise é o foco da temática aqui abordada. Diante dos dados apresentados pela tabela acima.

o mercado não absorverá os extratos pobres da população pela falta de capacitação técnica exigida pelo mundo globalizado. com enfoque para fatos relacionados à fissura labiopalatina. verificouse que se faz necessário uma melhor escolha dessas agentes. 16(2): 129-160. bem como.Desta forma. Diante deste fato. Além disso. a essência dessa função é a facilidade de comunicação. possuem um alto grau de escolaridade e facilidade de comunicação. uma porcentagem relevante dos mesmos colocou que não possuem disponibilidade para estar trabalhando enquanto Agente Facilitador. bem como. A alfabetização digital e a formação básica dependem de políticas públicas que garantam a educação e a qualificação para o trabalho. ampliando a possibilidade de desenvolvimento das suas funções enquanto Agente Facilitador. foi possível concluir que os Agentes Multiplicadores do HRAC/USP se encontram em uma posição privilegiada no que se refere ao contexto da sociedade brasileira. Os mesmo possuem acesso e disponibilidade de uso quando se trata da ferramenta computador e da Internet. uma vez que. a inclusão digital deve ser tratada pelo governo como uma política pública. servindo de motivação para a apreensão de novos conhecimentos. podemos constatar que o treinamento realizado pelo HRAC/USP proporcionou aos envolvidos um maior conhecimento quanto à rotina desenvolvida pelo hospital. No que se refere ao treinamento do oferecido pelo HRAC/USP. onde podemos citar como exemplo a mobilização para que as pessoas com seqüelas profundas em decorrência da malformação possam ser incluídas como pessoa portadora de deficiência. o que proporciona um maior acesso a informação e conhecimento. Segundo Santos (2006). visto que. sugere-se a criação de Curso com módulos relacionados às TIC’s – tecnologias da informação e Serviço Social & Realidade. O poder público deve reconhecer que a info-exclusão proporciona o aumento da miséria e dificulta o desenvolvimento humano. 2007 155 . pode-se notar que este foi de fundamental importância para a ampliação dos conhecimentos dos Agentes Multiplicadores. o que acaba por inviabilizar a relação entre pacientes e HRAC/USP. Entretanto. Considerações Finais Mediante a pesquisa realizada. Franca. a questões referentes à área da saúde. favorecendo a desigualdade social e tornando-se um fator de manutenção do estado de miséria e distanciamento social.

Analyzing the environment where the Multiplier Agents of HRAC/USP are submerged is of fundamental importance for the development of actions that propitiate the access to the information and knowledge. entretanto confundem muitas vezes com mais uma ferramenta disponível no mercado e não como um conceito de direitos a informação e conhecimento. FERREIRA. Franca. constato-se que os Agentes Multiplicadores possuem conhecimento básico do que venha a ser a ID. que deveria ser igual para o conjunto da sociedade. where the territorial borders gave up place to the virtual borders. em seu sentido mais amplo. 16(2): 129-160. a criação de uma lan house monitorada nas dependências do hospital para que não somente os Agentes Multiplicadores. 129-160. Hearing Loss. • ABSTRACT: The present article was developed with the objective of portraying the theme of the Digital Inclusion the Multiplier Agents of HRAC/USP – Parents and/or Coordinating Patients and the representatives of Associations of Brazil in the area of craniofacial anomalies. A igualdade de oportunidades favorece a redução do papel do Estado na esfera econômica e social. S. Outra sugestão é a maior divulgação do site do Centrinho e da REDE PROFIS para os pais e pacientes em geral. não formalmente. 16. que pudesse ser realizado de forma coletiva. 2. expressada nos direitos e obrigações civis e políticos que todos os membros de uma sociedade devem ter. KEYWORDS: Digital Inclusion. bem como. n. Serviço Social & Realidade (Franca). 2007 . M. K. v. mas também os pacientes de um modo geral pudessem ter a disponibilidade de realizar atividades relacionadas ao campo virtual enquanto estão realizando seus atendimentos. The multiplier and representative agents of associations of brazil in craniofacial anomalies area: the digital inclusion on the agenda. seeking to the quality of the services rendered by the hospital. Significa também oportunidade e o envolvimento no espaço público. Information Technologies. • 156 Serviço Social & Realidade. The present theme was chosen due to its relevance in the daily of our society. A. Esta envolve. com a finalidade de fortalecimento do acesso a inclusão digital. F. Craniofacial Anomaly. E. MENDES. mas como uma realidade de suas vidas.conhecimento –. 2007.. p. com o objetivo de integrar os Agentes Multiplicadores do HRAC/USP. CUSTÓDIO. Tendo em vista a temática abordada – inclusão digital –. O. a cidadania.. B. M.

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e Literatura Brasileira no curso de Letras. cada vez mais. * Serviço Social & Realidade. ** Docente do Departamento do Serviço Social e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP – Campus de Franca. Burocracia. Graduada em Ciências Sociais – UNESP – Araraquara/SP. A influência recíproca entre capitalismo e burocracia possui destaque nesta análise sob a luz do sociólogo Max Weber. houve a necessidade das empresas buscarem novos mercados Mestranda em Serviço Social – UNESP/Franca – CEP: 14400-690 – SP. Social Empresarial. 16(2): 161-180. • No século XX foram reconhecidas como legítimas algumas necessidades e demandas sociais. pois. Franca. mas. Projetos Sociais. acompanhou a trajetória do capitalismo brasileiro. 2007 161 . Com a queda dos regimes socialistas do leste Europeu e o fim da Guerra Fria. sendo possível encontrar ações sistematicamente organizadas. PALAVRAS-CHAVE: Responsabilidade Racionalidade. que inaugurou o estudo da sociologia aplicado às organizações e prognosticou a ascensão da burocracia como forma de ordenar as relações humanas entre si e com a organização. analisado no presente artigo. Atua nesta mesma instituição de ensino como docente de Antropologia nos cursos de Serviço Social e Filosofia. revelando que o paradigma de elaboração. Trata-se de um processo muito complexo. propiciando que objetivos fossem atingidos.MBA-FGV-RJ. dando enfoque à idéia de que a entrada do país em um mercado globalizado passa a exigir das empresas condutas que possam não apenas atenuar os efeitos negativos da globalização. não lucrativo. implementação e avaliação de programas e projetos sociais exigem. Especialista em Gerência de Projetos. maior racionalidade na execução das ações e na busca de bons resultados.A RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL: EM BUSCA DA EFICIÊNCIA Patrícia Rachel Pisani MANZOLI* Claudia Maria Daher COSAC** • RESUMO: A ação das empresas no âmbito do cumprimento da função social. Coordenadora adjunta do curso de Serviço Social da Universidade Interativa COC. que também atendam às demandas crescentes do mercado e da sociedade por uma atividade empresarial sustentável do ponto de vista ambiental. Especialista em Fundamentos da Leitura Crítica da Literatura – UNESP-Araraquara/SP. a partir da década de 1990. econômico e social. em que se verificam ações estrategicamente voltadas para o tema responsabilidade social empresarial. as mudanças ocorridas no mundo do trabalho provocaram (e ainda vem provocando) alterações no modelo do desenvolvimento econômico.

Altos déficits públicos. revolução informacional.o que originou o avanço do neoliberalismo e a onda de privatizações. O capitalismo excludente exercido pelas empresas até então passa a ser amparado por ideais éticos que transformam o enfoque da iniciativa privada buscando um desenvolvimento capaz de articular mercado e cidadania. passaram a defender padrões mais éticos de relação com seus públicos de interesse (fornecedores. novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros. O conceito de cidadania difunde-se então a partir deste novo cenário não apenas como temática social. desemprego e desigualdades sociais formam um cenário mundial que requer novas posturas tanto do setor público quanto privado. Do ponto de vista social. Por serem importantes agentes de promoção do desenvolvimento econômico e do avanço tecnológico. funcionários. clientes. A ação das empresas neste âmbito do cumprimento da função social. as empresas no Brasil aumentaram os investimentos em projetos sociais. Sob o rótulo de 162 Serviço Social & Realidade. governo. surgem novos atores sociais: as empresas. mantêm-se atualmente nas pautas do universo político e econômico como uma nova demanda das sociedades complexas. Assim. geraram conseqüências sociais. A partir dos anos 1990. econômicas e até mesmo psicológicas na divisão social do trabalho. novos mercados e a inovação comercial junto à tecnológica e organizacional. tornando-o um comportamento muitas vezes formalizado em projetos de atuação na sociedade civil. acionistas) e práticas ambientais sustentáveis. Com o surgimento de novos setores de produção. a qualidade de vida da humanidade depende cada vez mais de ações cooperativas destas empresas que incorporam de forma progressiva o conceito de responsabilidade social empresarial. 16(2): 161-180. que se origina cada vez mais da desqualificação e despreparo da mão de obra para as funções atuais. sistemática e estrategicamente voltadas para o tema responsabilidade social empresarial. 2007 . mas. acompanhou a trajetória do capitalismo brasileiro. não lucrativo. o impacto mais marcante é o desemprego. Franca. desenvolvimento econômico e justiça social. transformação produtiva. Somente na década de 1990 foi possível detectar ações mais organizadas.

assim como a necessidade de um modelo racional que envolvesse todas as variáveis da organização mais o crescimento e a complexidade. Max Weber. Sua natureza específica. em que tudo deve ser preciso. inaugurou o estudo da Sociologia aplicado às organizações e prognosticou a ascensão da burocracia como forma de ordenar as relações humanas entre si e com a organização. Esta mesma tendência se faz necessária atualmente porque as forças globais de mudança têm alterado significativamente o processo de gestão das organizações. Serviço Social & Realidade. influem na sua estrutura organizacional e na maneira como se relacionam com seus públicos de interesse. sociólogo. constante e rápido. A fragilidade e a parcialidade das teorias Clássica e das Relações Humanas da Administração. 16(2): 161-180. incompleta sobre as organizações. No funcionamento do mecanismo burocrático há uma otimização da organização. Uma das hipóteses é de que tais mudanças não decorrem apenas de condicionamentos infligidos pelo consumidor ou pelo mercado. 2007 163 . um cumprimento de tarefas segundo regras calculáveis e “sem relação com pessoas”. mas da interpretação que os gestores fazem do cenário e do que entendem ser a melhor conduta para a empresa. Franca. foi incluído um conjunto de normas e práticas que se tornou condição para garantir lucratividade e sustentabilidade aos negócios. Através deste cenário. primordialmente. Quando plenamente desenvolvida. passou a exigir modelos mais bem definidos de gestão. que detinham visão extremista. bem recebida pelo capitalismo. o que demonstra um salto qualitativo na inter-relação entre instituições e comunidades. propiciando que seus objetivos fossem atingidos. à época. desenvolve-se mais perfeitamente na medida em que é “desumanizada”. O perfil dos gestores e os fatores estruturais que facilitaram a difusão das normas de responsabilidade social no ambiente corporativo são indícios de que as normas presentes no ambiente institucional penetram nas empresas. revelando que uma precisa da outra para prosperarem. a burocracia moderna se coloca sob o princípio do sine ira et studio. na medida em que consegue eliminar da conduta humana o amor. O cumprimento “objetivo” das tarefas significa.“responsabilidade social”. o ódio e todos os elementos pessoais. irracionais e emocionais que fogem ao cálculo.

implementação e avaliação de projetos sociais. com suas suposições extremamente negativas em relação à natureza humana. Analisando vários aspectos que demonstram essa mudança na filosofia das empresas para uma nova ética empresarial. teve como ponto forte de origem a necessidade de uma abordagem generalista e integrada das organizações. O novo paradigma de elaboração. sendo motivado a produzir por sua própria natureza. fator praticamente não considerado pelas teorias anteriores. a auto-avaliação e a administração participativa. 16(2): 161-180. agora também se volta para os aspectos sociais. exigem cada vez mais racionalidade na execução das ações e na busca de bons resultados. A Teoria da Burocracia concebida por Max Weber. É preciso ter com clareza que o desenvolvimento social é responsabilidade e compromisso do Estado democrático e de uma sociedade civil organizada. demonstra maior competência na busca de conteúdos e estratégias que permitam alcançar resultados mais eficazes. Sem 164 Serviço Social & Realidade. antes de qualquer resultado.É um fenômeno mundial que as empresas venham sendo cobradas pelo cumprimento do seu papel de cidadãs. pregando a descentralização e a delegação. 2007 . Há diversos instrumentos de gestão que buscam atender as novas exigências deste setor. é imediatamente posterior às teorias Clássica e das Relações Humanas na Teoria Geral da Administração. era apenas uma forma de analisar seus desejos e a capacidade de consumo. total e exclusivamente responsável pela organização e uso dos recursos da empresa. punições e recompensas marginais. De um lado. avaliando aquilo que a sociedade necessita. compromisso efetivo com estas ações. Franca. padronizando as atividades e controlando-as através da persuasão. pregava uma administração centralizadora. que agora é dada também aos projetos sociais. Além da visão administrativa existe a dimensão ética e política que atua na esfera coletiva e social exigindo. Há influência recíproca entre capitalismo e burocracia. A dimensão técnica. a Teoria Clássica. é possível perceber que as organizações empresariais ganharam uma nova preocupação: implementar programas de responsabilidade social. a Teoria das Relações Humanas considerava o homem como sendo o maior patrimônio das organizações. coação. De outro. Se o foco das organizações em relação à comunidade até a pouco tempo atrás estava apenas direcionado para o mercado.

É a forma mais racional de exercício de dominação. 2007 165 . fornecedores. para a sociologia. ou seja. É possível encontrar em Weber o princípio da grande mudança organizacional que se faz profundamente necessária para a elaboração de projetos de responsabilidade social. Franca. segundo Weber. esse termo ganha sentido especial. é uma forma prescritiva de delegar responsabilidades e padronizar a comunicação de acordo com normas predefinidas e impessoais. porque nela se alcança tecnicamente o máximo de rendimento em virtude de precisão. clientes. Max Weber (1864 –1920). Apesar da palavra “burocracia” ter. assim. rápido e competente do que outras formas históricas de administração. a burocracia significa o aspecto eficiente. todas as partes envolvidas com a entidade: proprietários. intensidade. assumido sentido pejorativo à idéia de excesso de normas. prestadores de serviço. a base econômica capitalista é essencial para o desenvolvimento da administração burocrática. Em Weber. governo.a organização burocrática. ineficiência administrativa. melhoria da qualidade de vida da comunidade como um todo. confiabilidade. no entanto. leva a empresa a incorporar práticas e dinâmicas que atendam aos anseios da sociedade a qual está inserida. 16(2): 161-180. extensibilidade dos serviços e aplicabilidade Serviço Social & Realidade. a produção capitalista nunca teria sido realizada. Este atributo da accountability traduzido usualmente como “responsabilidade social” se torna um requisito indispensável para obtenção de bons níveis de efetividade por parte da organização. regulamentos. rigor. Por outro lado. Um projeto de ação socialmente responsável precisa ser bem elaborado para atender aos stakeholders. A relação atual entre empresa e cidadão. Weber também saudava o desenvolvimento de leis de propriedade e de instituições de direito em seu tempo. sócios ou acionistas. A burocracia. criando o que seria o princípio do hoje denominado ambiente propício aos negócios e dos marcos regulatórios. no dia-a-dia. diretores funcionários. designou um modelo específico de organização administrativa. A empresa deve desenvolver a capacidade de ouvir os diferentes interesses das partes envolvidas para incorporá-los estrategicamente no planejamento de suas atividades promovendo. continuidade. de desperdício de recursos. disciplina. o meio ambiente e a comunidade.

a característica formal que garante o cumprimento do dever constitucionalmente prescrito e esclarece direitos. desmistificando a idéia de que este campo de atuação requer apenas ações voluntariosas. não há como atingi-la se não identificar as variáveis representativas do processo. etc. propagandas enganosas. Todo projeto precisa ter a base bem estruturada e. Se a qualidade é um processo ou uma filosofia de vida organizacional e pessoal. que permite quantificá-lo e avaliá-lo mais efetivamente. aquelas correspondentes às definições de desenvolvimento e sustentabilidade. tanto com os fornecedores como também com a comunidade e seus próprios funcionários. As empresas. 16(2): 161-180. mas a todo o processo produtivo. deve ser encarado com muita lógica. 2007 . que realmente atenda as necessidades e carências a partir de ações 166 Serviço Social & Realidade. 145). trazendo de volta as características básicas de um sistema social. este tema tornou-se indispensável sob a lógica do mercado globalizado. Por isso à luz de Weber é retomado nesta análise o conceito de burocracia.. que funciona como a entrada e a saída nos processos de gestão da qualidade. que ratifica critérios científicos e evita escolhas aleatórias baseadas em desejos pessoais em detrimento da coletividade. É preciso estar inserido em seu contexto para alcançar a verdadeira dimensão que o engloba. onde os consumidores estão cada vez mais exigentes não só quanto à qualidade do produto e do serviço. naquilo que o caracteriza especificamente. Exatamente por isso o processo de elaboração de projetos sociais. a não utilização de mão de obra infantil. Por ser a responsabilidade social empresarial uma forma de gestão estratégica que vai muito além do marketing social. um dos pilares principais desta estrutura é a educação. Um bom exemplo disso é a não tolerância de lançamentos de dejetos industriais no meio ambiente. são consideradas grandes pólos de interação social. Franca.formalmente universal a todas espécies de tarefas [. a característica impessoal. Educar para um determinado projeto é como mergulhar em seu segmento. atualmente. com começo meio e fim. 1998.] Toda nossa vida cotidiana está encaixada nesse quadro (WEBER. de pessoas com conhecimento amplo e científico para o desenvolvimento objetivado. p. desrespeito as leis trabalhistas. a característica profissional..

A burocracia teve a sua origem nas mudanças religiosas verificadas após o Renascimento. foi quem primeiro definiu a Burocracia não como um sistema social. 16(2): 161-180. 2007 167 . que recebeu o nome de Disfunções da burocracia. Weber concebeu a teoria da Burocracia como algo que tornasse a organização eficiente e eficaz. segundo Weber. Na Burocracia a liderança se dá tipicamente calcada em regras impessoais e escritas e através de uma estrutura hierárquica. originou-se de um novo conjunto de normas sociais morais. Franca. o alcance dos objetivos. sem considerações pessoais. garantindo com ela: rapidez. reside na racionalidade do ponto de vista das atividades desempenhadas na organização. padronização da liderança (decisões iguais em situações iguais) e. Para Weber. esta se manifestava apenas na mecanização dos processos e não na mecanização das atividades dos indivíduos. homogeneidade de interpretação das normas. racionalidade. porém. eminentemente racional e capitalista. redução dos atritos. discriminações e subjetividades internas.efetivadas de acordo com a realidade. ou seja. O sistema de produção. A Teoria Clássica da Administração já abordava a racionalidade. em síntese. a burocracia é uma organização cujas conseqüências desejadas se resumem na previsibilidade do seu funcionamento no sentido de obter a maior eficiência da organização. Serviço Social & Realidade. Weber. o poder é legítimo e depende exclusivamente do grau de especialidade e competência técnica de quem o detém. baseado nos princípios protestantes. Na burocracia existem duas conseqüências previstas e imprevistas. tendo em vista a eficiência na obtenção dos resultados esperados como um sistema de controle social baseado na racionalidade (adequação dos meios para se alcançar os fins). busca amenizar as conseqüências das influências externas à organização. A Burocracia. denominada de “ética protestante”. anomalias e imperfeições no funcionamento dela. harmonizar a especialização dos seus colaboradores e o controle das suas atividades de modo a se atingir os objetivos organizacionais através da competência e eficiência. sem subjetividades. sem a aplicação de juízos de valores. mais importante. A característica principal da Burocracia. sejam estas pertencentes ao Governo ou de domínio econômico privado. mas como um tipo de poder suficiente para a funcionalidade eficaz das estruturas organizacionais.

A gestão da política social sempre está ancorada na parceria entre Estado. já observara a fragilidade da estrutura racional. seja na direção carismática. entre a impressão que nos é dada pela constituição. mais naturais e afetuosas. 1976.A superconformidade é uma disfunção da burocracia isto é. p. 2007 . atuam constantes forças exteriores à estrutura. seja na tradicional. observado nas organizações. que deixam de ser meios para atingir determinados fins e passam a ser fins em si mesmos. O domínio burocrático fomentou a vida moderna na direção da objetividade racional e do homem profissional especializado.. Exatamente por isso esta análise da burocracia torna possível identificar a empresa que não estiver atenta ao novo cenário repleto de fatores e paradigmas de valores. pelas leis e regulamentos. no entanto. 168 Serviço Social & Realidade. pode permanecer presa e voltada apenas para os shareholders. para encorajar o burocrata a seguir normas diferentes das estatuídas para a organização. organogramas e estatísticas. sem dar atenção aos mais diversos stakeholders.] corresponde ao grau de discrepância entre o prescritivo e o descritivo. Weber. tal fenômeno: [. ocorre uma tendência ao enfraquecimento do compromisso dos subordinados com as regras burocráticas. dando origem ao ritualismo e ao formalismo. sociedade civil e iniciativa privada. Conforme Etzioni (1976). isto poderá constranger seus negócios. São fundamentais boas premissas e estratégias para uma gestão realmente eficaz. a solidariedade. e a base deste arranjo está sedimentada em um valor social.. p. Na perspectiva de Riggs (1964. Mas as boas intenções não bastam. e. (ETZIONI. o apego excessivo às normas e regras.. por outro. Assim. Franca. 85). entre o poder formal e o poder efetivo. Outro fenômeno disfuncional. é o formalismo – distanciamento entre o plano formal e o real. e os fatos e práticas reais do governo e da sociedade.] as organizações burocráticas tendem a se desfazer. 123). 16(2): 161-180. em que as relações disciplinares são menos separadas das outras. em face do elevado nível de renúncia necessário à manutenção da capacidade de restringir-se às normas. numa organização burocrática ocorre um dilema típico: por um lado. [..

comprometimento sustentável. que envolve as organizações não governamentais sem fins lucrativos. denominado Terceiro Setor. Atualmente empresários e empresas divulgam nos meios de comunicação a participação em projetos sociais ou o apoio a eles por meio de doações. No âmbito empresarial quando se fala em responsabilidade social a empresa age de forma estratégica através de metas que são traçadas para atender às necessidades sociais de forma que o lucro da empresa seja garantido. Falar em Projetos sociais engloba um amplo setor. 16(2): 161-180. o que as tornam reconhecidas pelo engajamento de seus colaboradores e atingem a preferência dos consumidores. as empresas devem estar atentas ao público que gera e sofre impacto nos seus negócios. A qualidade destes projetos é de extrema importância. 2007 169 . Cada vez mais. Muitas vezes tem-se a idéia de que para fazer e gerir um projeto social basta fazer o bem e ter boa vontade. a transparência nas decisões e negociações além de trazer maior profissionalismo. consolidando-o como serviço realmente eficiente. como em qualquer outro projeto. o Estado. assim como a satisfação do cliente e o bem estar social. Só que a gestão de responsabilidade social abrange muito mais do que simples doações financeiras ou Serviço Social & Realidade. ao adotar um comportamento ético e socialmente responsável as empresas adquirem o respeito das pessoas e das comunidades que são atingidas por suas atividades. Portanto é possível dizer que há envolvimento. A relação estabelecida entre um projeto e cidadãos usuários não pode ser vista de forma assistencialista. a sociedade civil e a iniciativa privada. Isto demonstra que este fator está se tornando ponto importante para o sucesso empresarial. O que se presencia atualmente é um tipo de equilíbrio que se estabeleceu no processo. além de criar novas perspectivas para a construção de um mundo economicamente e socialmente mais próspero. pois. São projetos que cada vez mais exigem alto nível de planejamento. com o mercado competitivo. Em um projeto social também se faz necessário. Franca.Os diversos setores da sociedade estão redefinindo seus papéis adotando o comportamento socialmente responsável através de projetos sociais muito bem estruturados. desenvolvimento. a potencialização de talentos e o desenvolvimento da autonomia de seus atores. controle e avaliação.

forças. tendo em vista a consistência financeira por meio de fontes de renda próprias. Segundo matéria publicada pela revista Veja em 5 de julho de 2006 intitulada “Os santos do capitalismo” é possível verificar que mesmo algumas ações filantrópicas são capazes de fazer reconhecimento do ambiente revelando a realidade na qual a organização está envolvida. Em termos de gestão é preciso identificar com clareza qual é o ambiente no qual a organização opera. Este reconhecimento é necessário justamente para que as ações possam ser objetivas e desta forma alcançar com presteza as transformações almejadas. o imposto sobre a transmissão de grandes heranças pode atingir 70%. para eles muitas vezes. Uma das questões mais importantes na elaboração de projetos sociais é ter claramente definido as diferenças essenciais entre esfera pública e privada. doou 40 destes. suas tendências. interesses. em todas as suas políticas e práticas. sendo que 30. 16(2): 161-180. se concentra em ações esporádicas. faz mais sentido criar fundações com objetivos sociais e colocar os filhos ou herdeiros para comandá-las. Também há a possibilidade de abater do imposto de renda boa parte do dinheiro gasto com caridade. Há definições que englobam a relação ética e socialmente responsável da empresa em todas as suas ações. desta maneira.materiais. ou seja. Franca. Nos Estados Unidos da América. o que levou os EUA ao pioneirismo da moderna filantropia com doações anuais. cerca de 260 bilhões de dólares. Na mesma reportagem. Há metas para a obtenção de resultados efetivos e controles 170 Serviço Social & Realidade. que buscam máxima eficiência e elevados retornos para investimentos sociais. O problema é que na atual conjuntura social a filantropia não busca continuidade das ações. é indicada a doação realizada pela Microsoft de 28 bilhões de dólares e por Warren Buffet. empresário que aos setenta e cinco anos e com fortuna avaliada em 44 bilhões de dólares. ainda coloca em questão a análise marxista sobre a concentração de renda capitalista e exploração do proletariado demonstrando a influência de Bill Gates a toda geração atual de jovens milionários. 2007 . Essas ações filantrópicas são guiadas por critérios empresariais como auto-suficiência. que atuam sobre ela. uma ação social externa à empresa destinada à comunidade. A doação pura e simples nada mais é do que uma prática filantrópica. A reportagem. mas.7 para a Fundação Bill e Melina Gates que financia escolas públicas e pesquisas para a cura do câncer.

a presente era revela velocidade nos processos de mudança organizacional com efeitos poderosos Serviço Social & Realidade. às culturas locais e o empenho na educação. mas. O respeito aos costumes. esses filantropos bilionários da atualidade não querem apenas aliviar o sofrimento dos ainda não incluídos. exatamente por isso esse canal deve estar aberto. aumento nas disparidades e desigualdades sociais. Há fundações que trabalham com objetivos claros por isso as ações filantrópicas e sua administração financeira passam por auditorias. O envolvimento e investimento na comunidade em que a empresa está inserida contribui para a viabilização dos negócios. ambientais e cultura interna que organiza o processo de trabalho. o que obriga o empresário a repensar os sistemas econômicos. Está claro que o capitalismo não comporta segmentos expressivos de pobreza. resultado da compreensão de seu papel de agente de melhorias sociais. mas exige cidadãos com boa formação educacional e vontade de ascensão social. sociais. transformá-los em consumidores e mesmo acionistas do sistema de mercado. O mundo não é estático. nas relações estabelecidas entre elas. Como é possível observar a partir dos relatos apresentados na reportagem da revista Veja. A dicotomia deste processo revela. Da mesma forma as doações não podem perder o foco e se tornarem aleatórias. Justamente por isso de nada adianta ser uma grande empresa no ranking de seus negócios se não for possível contar com uma sociedade que compartilhe das mesmas perspectivas. mas promover a ascensão. buscando o retorno econômico e social de acordo com o que podem gerar. A garantia da eficiência está justamente em ter claro que as fundações não devem ganhar mais que 20% do que emprestam. de acordo com metodologias exeqüíveis. se Karl Marx previa o fracasso do capitalismo justamente porque o sistema estava voltado para a exploração crescente e até mesmo infinita do proletariado para gerar lucros e produtividade. Os projetos devem ser selecionados criteriosamente. ao mesmo tempo em que se assiste aos avanços benéficos. 2007 171 .para impedir o inchaço da burocracia filantrópica. na disseminação de valores sociais devem fazer parte das políticas de envolvimento comunitário por parte da empresa. Franca. 16(2): 161-180. lembrando que o enfoque da qualidade não está só nas coisas e nas pessoas. apresentam relatórios anuais de suas atividades e resultados.

59. Este fenômeno reflete a percepção. Cenário atual da Responsabilidade Social. pouca sofisticação tecnológica e baixos níveis de consciência social. meio ambiente saudável e a outros bens sociais fundamentais. ainda é pequeno o conhecimento sistematizado sobre este tipo de prática que efetivamente está sendo desenvolvida pelas empresas.0%) e em Minas Gerais (81. verificam-se enormes alterações nas condições ambientais (internas e externas) importantes ao desempenho organizacional. 2007 . Já existem alguns indicadores que sinalizam mudança de mentalidade da iniciativa privada na questão da responsabilidade social. escassez. educação. No entanto. Franca. como até agora. Embora o engajamento de empresas em ações sociais já venha ocorrendo no Brasil há algum tempo. definição. hoje a característica comum são períodos de turbulência. Segundo pesquisa nacional conduzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea – em 1998. abundância. certeza. Também é imperativo garantir a todos acesso à alimentação. constatou-se que a participação empresarial na área social aumentou 10 pontos 172 Serviço Social & Realidade. e não apenas do Estado. demonstrou aumento significativo de empresas privadas brasileiras que realizaram ações sociais em benefício das comunidades. Não é mais possível conviver com a exclusão de uma larga parcela da população alijada de acesso aos bens sociais. Entre 2000 e 2004. mas era inferior ao registrado entre as localizadas em São Paulo (66. cresce nos últimos anos a preocupação com o envolvimento mais sistemático da iniciativa privada com a temática da responsabilidade social. Este percentual superava o verificado entre as empresas situadas no Espírito Santo (45.0% das empresas situadas no Rio de Janeiro haviam realizado algum tipo de ação para a comunidade. No período da pesquisa. sofisticação tecnológica e altos níveis de consciência social. realizada pelo Ipea. cada vez mais generalizada na sociedade. emprego. Ao comparar o cenário vivido no mundo há cinqüenta anos atrás. moradia. 16(2): 161-180. incertezas. ambigüidade.0%).sobre as pessoas e a sociedade em geral. Se antes era possível verificar estabilidade.0%). saúde. de que a solução dos problemas sociais é responsabilidade de todos. a Pesquisa Ação Social das Empresas.

2007 173 .1 A pesquisa apresenta uma primeira correlação entre responsabilidade social e situação econômica das empresas: as indústrias que possuem a RSE formalizada em sua estrutura apresentam também uma avaliação proporcionalmente mais positiva da rentabilidade dos seus negócios. Coordenação e planejamento: Anne Louette. Este número foi obtido após a exclusão das empresas que. Em novembro de 2003 a Fiesp-Ciesp (Núcleo de Ação Social) traçou um panorama da Responsabilidade Social Empresarial na Indústria Paulista. e 15% nem mesmo sabiam da existência de tais benefícios. Franca.27% do PIB brasileiro de 2004. Os motivos apontados pela não utilização desses benefícios: o valor não compensatório do incentivo. com as devidas cautelas. pelo cadastramento. uma vez que apenas 2% das empresas que atuam em ações sociais fizeram uso de incentivos fiscais.909 indústrias cadastradas guarda grande correspondência com a distribuição da totalidade dos estabelecimentos industriais existentes no Estado de São Paulo nas faixas de porte acima de 30 empregados. São aproximadamente 600 mil empresas que atuam voluntariamente aplicando cerca de R$ 4. fator apontado por 40% dos empresários. A pesquisa foi direcionada aos estabelecimentos industriais com unidades no Estado de São Paulo que integravam o cadastro da FIESP/CIESP em maio de 2003: um total de 4. 16(2): 161-180.percentuais. As indústrias que possuem mecanismos de gestão de 1 Sobre este assunto ver: Responsabilidade Social Empresarial – Panorama e Perspectivas na Indústria Paulista. o que. Em primeiro lugar.909 indústrias. apresentavam menos do que trinta empregados (as microempresas e as menores empresas do segmento de pequeno porte). a distribuição por porte das 4. Nessa mesma pesquisa é possível encontrar destaque para o fato de que a alta quantia do investimento social privado recebe influência da política de benefícios tributários no Brasil. Este procedimento se justificou por duas razões. possibilita algum nível de projeção dos dados para o total de indústrias do Estado. 16% não associavam as ações desenvolvidas pelas empresas às isenções permitidas. passando de 59% para 69%. Núcleo de Ação Social 2003. Fiesp-Ciesp. Serviço Social & Realidade.7 bilhões o que corresponde ao equivalente a 0.

O resultado reconhecido como mais expressivo por grandes. de um maior grau de profissionalização das ações sociais. mas. o que talvez esteja refletindo a presença. É digno de nota que as grandes empresas estejam percebendo. com intensidade significativa. Entre as pequenas e médias indústrias os resultados (sobretudo os mais complexos e menos convencionais) são percebidos com menor intensidade. Resultados ligados ao fortalecimento do negócio e à promoção do bem-comum são percebidos de forma mais expressiva nas indústrias de maior porte. um aumento de 20. na avaliação de rentabilidade do negócio. nestes segmentos as ações para a comunidade têm sido capazes.).responsabilidade social empresarial através de políticas explicitadas e documentadas apresentam. A respeito do índice de Responsabilidade Social correspondente ao relacionamento com a comunidade foram estabelecidos quatro indicadores com práticas relacionadas a cada um deles. Franca. sobretudo.3%. 2007 . práticas de estímulo e apoio ao voluntariado dos empregados. neste segmento. mas que ainda não há uma percepção clara do seu 174 Serviço Social & Realidade. Dentre os resultados percebidos pela pesquisa Fiesp. os mais relevantes para o enfoque destas presentes reflexões. melhoria nas condições de vida das pessoas etc.9%. que também estão contribuindo para o alcance de seus objetivos e para a elaboração de políticas voltadas ao público. investimento financeiro em ações sociais (% sobre o faturamento da empresa). o que poderia levar a empresa a atingir o índice considerado de 0 a 1. definidos a partir das médias das empresas encontradas na pesquisa. O índice se baseia no número de práticas adotadas pelas indústrias nas seguintes áreas: tipos de ações sociais adotados pelas indústrias. Isto sugere que. demonstram como as indústrias estão percebendo os resultados gerados por suas ações sociais. que suas ações sociais geram não apenas benefícios imediatos. 16(2): 161-180. para si próprias e para a comunidade (melhoria da imagem da empresa. médias ou pequenas empresas é o aporte de satisfação pessoal para o dono ou os acionistas (com índices acima de 0. utilização de parcerias para a realização de ações sociais. de manter e recompensar a motivação dos realizadores. Já as empresas cujas práticas de gestão social estão concentradas apenas entre diretoria e gerência apresentaram rentabilidade máxima de 17.70 na escala de 0 a 1).

condições 2 Sobre este assunto ver: Responsabilidade Social Empresarial – Panorama e Perspectivas na Indústria Paulista.”2 Foi possível perceber que saber lidar com o ambiente externo constitui importante atributo organizacional a partir da compreensão de que este ambiente origina condições econômicas. 175 Serviço Social & Realidade.] trouxeram números expressivos de pedidos de apoio solicitados pela comunidade. maior será o volume de demandas. É extremamente significativa a percepção empresarial desta questão. 2007 . sustentabilidade ambiental e para a colaboração da redução dos problemas sociais que assolam o país. através da pesquisa realizada em 2003 pelo Núcleo de Ação Social. Coordenação e planejamento: Anne Louette. 16(2): 161-180. Núcleo de Ação Social 2003. país de gigante extensão territorial que possui como maior riqueza os recursos naturais. pois demonstra sintonia com o quadro da realidade do Brasil. Este aspecto é percebido com relativa intensidade especialmente entre as grandes indústrias. Fiesp-Ciesp.. A partir desta compreensão surgem os objetivos estratégicos e as práticas que levarão a empresa ao fortalecimento dos seus negócios através do estabelecimento de relações benéficas para todos os envolvidos. Desta forma. Franca. e como maior problema os índices sociais.. Naturalmente. políticas.57 na escala de 0 a 1. demográficas. sociais entre outras. culturais. como um fator que a empresa nem sempre consegue atender. que os resultados [. A pesquisa da Fiesp/Ciesp também identifica. tecnológicas. quanto maior for o investimento social das empresas. atingindo o índice de 0.grau de eficácia para a empresa e para a sociedade. é importante que as indústrias estabeleçam uma comunicação clara com a sociedade a respeito de suas disponibilidades de apoio e prioridades na área social. Os objetivos da adoção de práticas de RSE A importância atribuída pelas empresas para promover a noção de bem comum está amplamente relacionada com a preservação dos recursos naturais. Dentre as dificuldades geradas cabe destacar.

público externo. Franca. As empresas são consideradas grandes pólos de interação social. Ainda que seja uma amostra estatística com quantidade limitada de variáveis. 2007 . Surge desta forma. organismos e organizações governamentais) ganhando desta forma mais eficiência. têm grande responsabilidade em disseminar valores que influenciam mudanças sociais concretas transmitindo. Em um mercado cada vez mais competitivo as empresas devem estar atentas a todos os públicos impactados pelo seu negócio.sobre o panorama e as perspectivas em responsabilidade social na Indústria Paulista. o fato é que o tema tornou-se uma questão de sobrevivência em o mercado globalizado. planejar formas de apoio às empresas interessadas em desenvolver novos conhecimentos e práticas na área da gestão socialmente responsável dos negócios. Seja ela uma tendência de gestão estratégica. a responsabilidade social. Para alcançar esses objetivos descritos acima é preciso primeiramente que as atividades sejam realizadas em parceria (público interno. A empresa que não está atenta a estes fatores constrange seus negócios. perspectiva estratégica de coerência. permanece presa à noção do negócio voltada apenas para os sharholders. pela análise conceitual tratada neste estudo. Em segundo lugar as ações de responsabilidade social devem abrir diálogo produtivo 176 Serviço Social & Realidade. ou mesmo consciência política que não apregoa o capitalismo selvagem e restabelece as relações empresariais com a sociedade. sociedade civil. não basta realizar ações sociais e ter a imagem da empresa vinculada a elas quando os resultados alcançados não são reais ou não alcançam a qualidade esperada. por meio de sua imagem. 16(2): 161-180. e não à atenção aos seus mais diversos stakeholders. ética e transparência. pois. que permite constituir desdobramentos que geram novas atividades. O êxito dos programas sociais pode ser medido pela sua expansão e pela sua flexibilidade. Portanto. São tantos os cruzamentos possíveis entre as variáveis que a possibilidade de avaliação se torna o melhor conjunto de conhecimentos sobre o tema da responsabilidade social empresarial disponível hoje no Estado de São Paulo. ilumina um universo extraordinário de potencialidades. sobretudo. Esta pesquisa ajuda a compreender as tendências em curso na área da Responsabilidade Social Empresarial e.

161-180. P.. há uma visão modificada do homem. giving focus to the idea that the integration of the country in a market that is globalized starts to 177 Serviço Social & Realidade. pressupõe padrões de pensamento. (TAVARES. como qualquer outro. p. 2007. D. o sentido científico da racionalidade. Para a sociologia weberiana a burocracia tornou-se um conceito central o qual foi relacionado neste trabalho com a questão da responsabilidade social empresarial demonstrando que os projetos de natureza social necessitam. analyzed in the present article. de comportamento. Nesta nova gestão. MANZOLI. As instituições capitalistas se materializam embasadas nesta mesma racionalidade. 16(2): 161-180. o entendimento dos processos de tomada de decisões é justamente o processo de compreensão das finalidades de uma organização. COSAC. v. habilidades. A antropóloga Maria das Graças Tavares afirma: Impõe-se um novo modelo de gestão das relações externas e internas das organizações. 05) Pode-se concluir então que há uma mudança significativa nas relações estabelecidas entre as organizações empresariais e a sociedade. sentimentos diversos. p. R. As ações de responsabilidade social devem ser tratadas com o mesmo profissionalismo que qualquer outra ação empresarial e cada vez mais se torna indispensável alcançar com clareza os indicadores qualitativos que as representam. da orientação racional. being possible to detect systematically organized actions starting from the decade of 1990 when it is verified actions strategically focused on the theme business social responsibility. It is a very complex process. The business social responsibility: in search of the efficiency. n. Esta gestão para o ajustamento a um ambiente modificado. M. tanto na posição de consumidor quanto na de produtor. 2007 .para que novos atores possam se manifestar. P. dos até então instalados no interior da organização. • ABSTRACT: The action of the companies in the extent of non-lucrative social function accompanied the path of the Brazilian capitalism. C. 2002. o que desta forma se faz necessário que a responsabilidade social faça parte do desenvolvimento da organização e esteja focada para a promoção da eficiência e da eficácia através da competência profissional. 2. posturas. Franca. Serviço Social & Realidade (Franca). 16.

M. 1964. Responsibility. F. 1985. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil. Max. ______. M. larger rationality in the execution of actions and in search of good results. Social Projects. Rio de Janeiro: Zahar. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas. E. economical and social point of view. WEBER. Administração: teoria. G. propitiating that explicit objectives were reached.demand of the companies a new conduct that cannot just lessen the negative effects of the globalization. The reciprocal influence between capitalism and bureaucracy has prominence in this analysis under sociologist Max Weber's light. M. 1976. Rio de Janeiro: Zahar. P. ed. processo e prática. Franca. W. in: Cultura Organizacional: uma abordagem 178 Serviço Social & Realidade. but that also assists to the growing demands of the market and of the society for a maintainable business activity through the environmental. ETZIONI. • KEYWORDS: Business Social Bureaucracy. 1999. revealing that the new elaboration. Disponível em: Exame: A Empresa do Novo Milênio. that inaugurated the study of the sociology applied to the organizations and predicted the ascension of bureaucracy as a form of ordering the human relationships amongst themselves and with the organization. Parte integrante da edição 701. Parte integrante da edição 701. 1998. CHIAVENATO. 22 (apostila mimeo). D. RIGGS. TAVARES. A. 2007 . implementation and evaluation paradigm of social projects. Organizações Modernas. Módulo S. 1999. Sociologia da burocracia. H. demands more and more. Mills) 5. 1982. Avaliação de projetos e de organizações que operam no campo social. Gerth & C. Ciência e Política. ______. A Nova Ordem. COHEN. 16(2): 161-180. B. Duas Vocações. A Lei do Mais Fraco: a nova ordem na relação das empresas com a sociedade e com o meio ambiente. Disponível em: Exame: A Empresa do Novo Milênio. São Paulo: Cultrix. WEBER. W. p. C. Ecologia da administração pública. Os fundamentos da organização burocrática: uma construção do tipo ideal: In: CAMPOS. Ensaios de sociologia (Introdução de H. Referências CARVALHO. 1971. Rationality. I. São Paulo.

Franca. Serviço Social & Realidade. 2007 179 . 2002.antropológica da mudança. Rio de Janeiro: Qualitymark. 16(2): 161-180.

.

• Introdução A finalidade do ensino superior não se resume apenas em formar técnicos para o mercado de trabalho. para o fortalecimento das relações sociais harmônicas e. atualmente. com recursos próprios ou por meio da adoção de programas de incentivos fiscais direcionados a iniciativa privada. Serviço Social & Realidade. mas visa também verificar os benefícios sociais resultante da implantação dessas medidas. na formação e capacitação de jovens e adultos carentes para o crescimento econômico e cultural da sociedade. Por isso. principalmente. que impedem o ingresso de muitas pessoas no ensino superior. Docente e Diretora do IMESB. estimulando empresas a patrocinarem estudantes universitários. muitos são os obstáculos existentes na realidade brasileira.AS POLÍTICAS MUNICIPAIS DE APOIO AO ESTUDANTE DE ENSINO SUPERIOR E SEUS BENEFÍCIOS SOCIAIS Regina Maura REZENDE* Paulo Henrique Miotto DONADELI1 • RESUMO: O presente artigo tem por objetivo analisar as competências educacionais do Município. para favorecer o ingresso das Doutora em Serviço Social pela UNESP. que reflitam a sociedade como um sistema amplo e diversificado e que contribuam para o seu crescimento. PALAVRAS-CHAVE: Competências Municipais. Membro do Grupo de Estudos “Saúde. Qualidade de Vida e Relações de Trabalho” – QUAVISSS – UNESP – Franca/SP. mas busca construir cidadãos conscientes. Franca. flexíveis e tolerantes. Políticas Educacionais. Considerando que. Bebedouro/SP. O artigo não se preocupa apenas com a análise jurídica do tema. 2007 181 * . o Estado tem que buscar alternativas soluções urgentes. Mestre em Direito do Estado e Professor do Curso de Direito do IMESB. SP. para a efetivação das igualdades e oportunidades para todos. Bebedouro. previstas constitucionalmente e regulamentadas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. não se pode permitir que apenas pequena parte da sociedade usufrua dos benefícios da educação superior. Benefícios Sociais. 1 Advogado. 16(2): 181-194. críticos. Ensino Superior. verificando a possibilidade de atuação do Município no apoio ao estudante de ensino superior. por meio de políticas educacionais de concessão de bolsas de estudos.

em cujo âmbito o Poder Público não pode penetrar. de real responsabilidade do Estado. 2007 . apresentando e fomentando idéias socialmente viáveis e juridicamente possíveis. ainda. o que permitiu ao titular do direito exigir a sua matrícula na escola pública ou requerer que lhe conceda bolsa de estudos em escola particular se houver falta de vagas nos cursos oficiais (FERREIRA FILHO. Estudar temas relativos a educação superior é sempre atual e de grande validade para a vida social.pessoas nas universidades e faculdades do país. organização sindical. conforme prescreve o § 1º do artigo 208. 8). responsabilizando a autoridade competente que foi omissa ou teve uma conduta irregular quanto as obrigações educacionais do Estado. de forma a contribuir para o engrandecimento das Ciências Sociais Aplicadas. Franca. o presente trabalho quer analisar a contribuição que o Município pode oferecer na difusão do ensino superior no país. Por isso. quer por meio de políticas educacionais específicas. A Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. grupo de cidadãos. quer oferecendo um maior número de vagas em instituições oficiais. p. o que implicou na afirmação de que o indivíduo dispõe de uma esfera de ação inviolável. 1998. possibilita a qualquer cidadão. 1995. em seu art. pois reconhece o ensino obrigatório e gratuito como um serviço público essencial. A Constituição Federal elegeu o ensino fundamental obrigatório e gratuito como um direito público subjetivo. A preocupação do constituinte em garantir um ensino 182 Serviço Social & Realidade. 320). entidade de classe ou outra legalmente constituída. colocando a disposição das pessoas uma tutela judicial para fazer valer na prática o direito legalmente reconhecido (HORTA. ao Ministério Público. Essa medida foi um grande passo do legislador constituinte. centro comunitário. 16(2): 181-194. e. p. 5º. sem que isto represente violações as competências educacionais do Município estabelecidas constitucionalmente. O direito ao ensino superior A Educação como direito de todos e dever do Estado e da família está consagrada pelo artigo 205 da Constituição Federal. peticionar ao Poder Judiciário para exigir uma ordem que garanta a efetivação do ensino obrigatório e gratuito. com o objetivo de congregar um entendimento interdisciplinar.

visando oferecer aos estudantes de classe social menos favorecida. que é obrigação do Estado garantir o ingresso aos níveis mais elevados de ensino. IV. considerando que a educação é fonte geradora de inúmeros benefícios para o homem e para a sociedade. não podendo as instituições federais. atingindo os níveis mais elevados do ensino. estaduais ou municipais cobrarem qualquer pagamento dos alunos pelo estudo oferecido. pois ela é primordial para reforçar os alicerces sociais. por questão de ordem financeira. segundo a capacidade de cada um. no artigo 206. (GOLDEMBERG. Franca. no art. 242 da CF. o direito de continuar seus estudos. que não sejam total ou preponderantemente mantidas com recursos públicos”. A exceção a essa regra está prevista no art. No que se refere aos ensinos médio e superior. reforçou a parcela de contribuição do Estado para com o ensino superior ao estabelecer a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais. da Constituição Federal previu apenas a necessidade de se universalizar a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino médio. não se aplica às instituições educacionais oficiais criadas por lei estadual ou municipal e existentes na data da promulgação desta Constituição. 206. p. Esse compromisso do Estado é uma exigência mundial do mercado de trabalho. 169). 1993. 208. 16(2): 181-194. que diz: “O princípio do art. a Constituição Federal. O artigo 208. como uma meta educacional a ser atingida no futuro. DURHAM. Em relação ao ensino superior apenas mencionou. IV.fundamental para todos se explica na necessidade de se escolarizar a população. as autarquias e fundações de ensino superior instituídas por municípios antes de 1988 podem Serviço Social & Realidade. III. V. Essa norma visa garantir o ingresso no ensino superior das pessoas que não tiverem condições de arcar com os custos educacionais. buscando aprofundar o nível de escolaridade da população. 2007 183 . Nesse caso. especialmente. para alcançar a dignidade da pessoa humana e para atingir a justiça e a igualdade entre os integrantes da sociedade. O preceito deixa claro que em referência ao ensino superior o Estado não tem a condições de oferecê-lo a todos. da pesquisa e da criação artística. a Constituição Federal não concedeu este privilégio de ser um direito público subjetivo. Mas.

alegando que em vários países o ensino superior é pago. somente entram os bem preparados – os quais triunfam no exame vestibular. O ensino fundamental objetiva a formação básica do 184 Serviço Social & Realidade. p. Ora. que a única solução para acabar com a injustiça é o fim da gratuidade. 2007 . estes são o mais das vezes formados em caras escolas particulares de primeiro e segundo grau. quando não têm. 16(2): 181-194. compõe-se da educação básica (formada pela educação infantil. tem de entrar nas escolas do sistema privado (1995. custeadas pelo Estado ou pela iniciativa privada. 70). Não é porque atualmente o ensino em instituições oficiais está beneficiando uma parcela economicamente mais favorecida. em regra geral os de melhor nível de ensino. pois muitos municípios não teriam condições financeiras de mantê-las com recursos de seus orçamentos. inclusive por meio de bolsas de estudos. Sim. O presente trabalho tem o intuito de reforçar a opinião da necessidade de se garantir a gratuidade do ensino superior nos estabelecimentos oficiais e de se pensar em alternativas que aumente as oportunidades de pessoas ingressarem no ensino superior. aquela dada por meio de um sistema de ensino. ensino fundamental e ensino médio) e pelo ensino superior. raramente os verdadeiramente pobres. Muitos defendem a privatização do ensino superior ou a instituição da cobrança de mensalidades para auxiliar o custeio das universidades e faculdades públicas. Franca. Os mais pobres mal preparados nas deficientes escolas públicas de primeiro e segundo grau se quiserem fazer curso superior. ainda a complementação de um “cursinho” preparatório para o vestibular.continuar legalmente a cobrar mensalidades. Sobre a gratuidade no ensino superior nos estabelecimentos oficiais Manuel Gonçalves Ferreira Filho tece um comentário: a realidade brasileira mostra que a gratuidade do ensino superior beneficia especialmente os filhos das classes mais abastadas. porque nos estabelecimentos públicos e gratuitos. O sistema superior de ensino A educação escolar sistemática.

atuar prioritariamente no ensino fundamental e médio. o que não impede de investirem em ensino superior. que ocupa um espaço limitado dentro de certo território. 211 da Constituição Federal. o estadual e o municipal. O sistema de ensino não pode ser visto apenas como um agregado de instituições educativas de caráter isolado unidas por uma norma ou força política. p. Cabe aos os Estados e o Distrito Federal. o que caracteriza uma descentralização articulada na área educacional. p. atitudes e valores. e as instituições de ensino superior privadas em todo país pertencem ao Sistema Federal de Ensino e são regidas pela legislação federal e pelas normas do Serviço Social & Realidade. 1961. Franca. O Sistema Nacional de Ensino é representado pela somatória de vários sistemas. a história. 1998. as aspirações comuns da população de onde está inserido (LOURENÇO FILHO. habilidades. a redução das desigualdades existentes e a persecução de um padrão de qualidade do ensino em todo o país. O ensino médio tem por finalidade a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental. p. sob um regime administrativo. mantidas como recursos orçamentários da União. 610). quais sejam: o federal. preparando o aluno para o exercício consciente da cidadania. 16(2): 181-194. fundamentalmente. MARTINS.cidadão. 15). as condições de vida. nas diversas áreas do conhecimento. é um conjunto de instituições com identidade própria. Por fim. a educação superior visa a formação intelectual e a qualificação para o trabalho dos indivíduos. 32). organizar e financiar seu próprio sistema de ensino e dos territórios e coordenar a política nacional de educação. conforme dispõe o § 3 do art. como forma de garantir a equalização das oportunidades educacionais. articulando os diferentes níveis e sistemas de ensino. que tem por finalidade o oferecimento da educação (LOURENÇO FILHO. Cada sistema de ensino pode ser caracterizado como uma complexa unidade. formado por escolas e serviços ligados. 1961. além da função normativa. Essa estrutura reforça o princípio federativo e favorece o regime de colaboração (BASTOS. completando a educação dada no seio da família. Compete a União. Mas. tendo em vista a aquisição de conhecimentos. refletindo a cultura. a ideologia. 2007 185 . As instituições de ensino superior federais.

As instituições de ensino superior estaduais. mesmo que criem e mantenham instituições municipais de ensino superior. 30. § 2. permitiu ao Município o organizar seu próprio sistema de ensino. que terá vigência na área de cada um. ao atribuir essa missão aos Municípios. sem antes cumprir adequadamente este preceito. Percebe-se que o município não tem competência para reger o ensino superior. o que foi muito positivo para o fortalecimento das ações e medidas na área educacional. devendo. O constituinte. para tanto. os Municípios deverão aproveitar a legislação conexa. o Município passou a ter a competência para suplementar a legislação federal e estadual educacional no que couber (art. As competências do município na área educacional e a participação do município no ensino superior O Município. os regulamentos e resoluções dos Conselhos Federal e Estadual de Educação (SILVA. de forma inovadora. Franca. 2007 . Hoje.Conselho Federal de Ensino. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. apenas contava com uma estrutura administrativa. tem a obrigação de atuar diretamente no ensino fundamental e na educação infantil. vinculado ao Ministério da Educação. A Constituição Federal. segundo prescreve o art. 16(2): 181-194. como também. e baixar as normas complementares para o bom funcionamento de suas 186 Serviço Social & Realidade. médio ou superior. 506). 211. fazem parte do Sistema Estadual de Ensino e são regidas pelas leis federais e estaduais e pelas normas do Conselho Estadual da Educação. da Constituição Federal. especialmente. uma vez que antes de 1988. Com isso. mantidas com recursos orçamentários dos Estados. teve como preocupação a necessidade de realizar uma ampla ação de difusão do ensino básico a toda a sociedade. o Município recebeu atribuições próprias na esfera educacional. obedecer a hierarquia das normas. p. constituídas na forma de autarquias ou fundações. Na verdade. perseguindo o objetivo primordial da erradicação do analfabetismo da população brasileira. e as instituições municipais de ensino superior. o que não lhe dava o direito de estabelecer normas educacionais de caráter local. Entende-se que o Município não pode investir em outra etapa do ensino. 2000. II).

o Município cabe atender a todas as reivindicações de seus Serviço Social & Realidade. IV – autorizar. Os Municípios poderão optar por se integrar ao Sistema Estadual de Ensino ou compor com ele um sistema único de educação básica. e. o sistema estadual respectivo. 1997.organizações educacionais (MOTTA. com prioridade. V – oferecer à educação infantil em creches e pré-escolas. Mesmo que o Município implante ou mantenha escolas de ensino superior. automaticamente. as instituições de educação infantil. sob pena de intervenção por parte do Estado a que pertença. 16(2): 181-194. p. e os órgãos municipais de educação. por meio de autarquias ou fundações municipais. criadas e mantidas pela iniciativa privada. as instituições de educação integrarão. pelo contrário. II – exercer ação redistributiva em relação às suas escolas. Franca. 2007 187 . Isto não impede do Município de investir em educação superior. elas pertencerão aos sistemas de educação estadual. A não existência do sistema municipal de ensino não exime o Município da aplicação do mínimo exigido da receita municipal na manutenção e no desenvolvimento do ensino. 11 da LDB dispõe que aos Municípios incumbem as seguintes atribuições educacionais: I – organizar. Se o Município não organizar seu sistema de ensino. manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de ensino integrando-os às políticas e planos educacionais da União e dos Estados. credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino. Os sistemas municipais de ensino compreendem: as instituições de ensino fundamental. médio e de educação infantil mantidas pelo Poder Público municipal. 159). III – baixar normas complementares para o seu sistema de ensino. O art. como se mostrará neste trabalho. o ensino fundamental permitido a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do ensino.

O Poder Executivo Municipal. formado por recursos advindos de fontes de receitas municipais. previamente repassados para essa finalidade. Franca. poderá constar no Plano Plurianual. mas tem a obrigação de serem aprovados em todas as disciplinas que 188 Serviço Social & Realidade. Com base no valor existente no Fundo a Prefeitura Municipal irá estabelecer o número de bolsas a serem concedidas anualmente. O referido Fundo pode ser alimentado por certa porcentagem da receita arrecadada com impostos de competência municipal (IPTU. Para facilitar o custeio das bolsas universitárias é indicado ao Município a criação de um Fundo de Apoio ao Aluno de Ensino Superior. O que o Município não pode é investir no ensino superior contabilizando os gastos nos vinte e cinco por cento da receita resultante de impostos. Os alunos beneficiados pela doação da bolsa de estudo municipal não terão nenhuma contrapartida financeira. que não dispõem de condições próprias para bancar seus estudos. de acordo com que dispõe o art. ISS. diretamente para as instituições de ensino superior. 2007 . ou outro imposto. Para que o município colabore com a formação superior de pessoas residentes em seu território. a previsão de dotação própria para aplicar em concessão de bolsas de estudo no ensino superior para alunos que atenderem a requisitos pré-estabelecidos em lei. compreendida a proveniente de transferências. na Lei de Diretrizes Orçamentária e na Lei Orçamentária Anual do Município. podendo exigir delas algumas contrapartidas. previamente contratadas. inclusive o direito de freqüentarem os níveis mais elevados do ensino. os gastos em educação não precisam ficar limitados a esse percentual. 16(2): 181-194. Mas. por meio de lei específica. destinadas ao desenvolvimento e manutenção do ensino. é indicada a aprovação de leis que conceda bolsas de estudos ou que instituam programas de incentivo fiscal para que a iniciativa privada financie o estudo de alunos carentes. e ITBI) e da receita arrecadada com a transferência estadual do ICMS – Imposto sobre mercadorias e serviços. 212 da Constituição Federal.habitantes. A Prefeitura Municipal repassará os valores das mensalidades escolares. referente às bolsas concedidas aos alunos beneficiados.

e que tenham compatibilidades com as aptidões de cada um. Essa parceria entre sociedade e acadêmicos só pode trazer benefícios para todos. tendo como alguns de seus fundamentos a remercantilização dos bens sociais e a inovação das formas de apropriação do capital. a educação superior teve de se adequar aos novos imperativos. o que mostra a ocorrência do Serviço Social & Realidade. os orçamentos estatais para o ensino superior tem sofrido constantes cortes. vários países. Os investimentos em ensino superior são altos e. em conjunto com a Coordenadoria de Pesquisa e Extensão da IES. passaram a empreender reformas para adequar o Estado e a sociedade à nova ordem mundial. o que causou uma diversificação institucional. Em razão disso. em todo o mundo está ocorrendo um afastamento do Estado das atividades de ensino superior. em razão dos imperativos da política neoliberal. O Estado passou de agente financiador para agente fiscalizador. por isso. desde que não atrapalhem as atividades laborais dos alunos. O neoliberalismo é uma ideologia econômica contrária ao Estado intervencionista. custeia o ensino superior de algumas pessoas e elas retribuem a comunidade em forma de serviços prestados de cunho social ou cultural. poderá inserir os alunos beneficiados em grupos de apoio a atividades educacionais. caso contrário perderão o benefício estudantil. são contrários à rigidez da política fiscal e da racionalização e controle dos gastos público. a sociedade. Franca. visando atender as exigências do mercado. dando a sua parcela de contribuição para o engrandecimento comum. por meio dos tributos arrecadados. que tem encontrado uma sustentação jurídica para expandir. realizadas no Município. fora do horário normal de aula. com o intuito de criar um sentimento de responsabilidade social no acadêmico beneficiado. Com isso. permitindo um crescimento do setor educacional privado. Por influência dos organismos econômicos internacionais. ganhando a economia papel de realce. 16(2): 181-194. por meio da Secretária Municipal de Educação. 2007 189 . que colocam em risco o pagamento dos juros da dívida internacional.estiverem cursando. inclusive o Brasil. Ou melhor. O ensino superior no Brasil e a política neoliberal Atualmente. baseada na competitividade e na contínua avaliação de rendimento e resultado. A Prefeitura Municipal.

muitas pessoas tiveram que recorrer ao ensino particular. Franca. Isso gera um problema financeiro nas instituições de ensino superior. para o fortalecimento de sua independência frente a outros povos. Financiamento do Ensino Superior. O Governo Federal tem tentado resolver esta questão com a criação e implantação de programas de auxílio ao estudante de ensino superior. Mas. que não conseguem abrir turmas ou tem que manter salas com poucos alunos e. Também. em razão do crescimento do ensino médio fez nascer uma procura maior pelo ensino superior. a alunos que preencherem certas condições estabelecidas em lei. que abre créditos para que o aluno consiga se formar e venha a pagar com um prazo de carência para começar a trabalhar na área. mas por falta de vagas nas universidade federais e estaduais. segundo dados do censo da educação superior do ano de 2000. Para continuarem seus trabalhos muitas universidades precisam prestar serviços de pesquisa de interesses de empresas privadas. No entanto. estaduais e municipais. tem-se vagas ociosas que não são preenchidas. como o FIES. o que é pior. Programa Universidade para Todos. pois a realização da pesquisa e da ciência é de extrema importância para a garantia do crescimento econômico e social do país. é necessário ações para popularizar os cursos superiores. Isto é preocupante. sem retorno posterior. Isto mostra uma total exclusão de muitas pessoas do ensino superior. que poderão ser realizados por Estados e Municípios e pela iniciativa privada. Apenas 12% da população brasileira. Isto gerou uma situação complicada. 16(2): 181-194. bem como. O ensino superior tem perdido seu sentido social e público e muitas são as pressões para a privatização das universidades e faculdades federais. 2007 . pois ao mesmo tempo em que se tem um crescimento do número de vagas no ensino superior privado. tinha graduação de nível superior. é um outro exemplo o Prouni. a título gratuito. e não tem condições financeiras de arcar com os gastos de seus estudos. 190 Serviço Social & Realidade. a maioria dos alunos advém das classes menos abastadas. Por isso. essas alternativas são tímidas e precisam de incrementos. enfrentam altas inadimplências.fenômeno da privatização branda ou pseudoprivatização. que oferece bolsas de estudo no ensino superior. ainda. Nos últimos anos.

2007. P. Daí o desabafo: não será uma forma de emperrar a formação de agentes sociais o não investimento no Ensino Superior? Não nos cabe. R. with own resources or through the adoption of programs of fiscal benefits addressed to the private initiative. M. cujo resgate resultará na edificação de cidadãos críticos e propositivos de uma nova ordem social. nesse momento. 2007 . • ABSTRACT: The present article has the objective to analyze the education competences of the Municipal district. 181-194. capazes de romper com as simplistas opiniões apressadas. Considerar-se-á a importante contribuição do Ensino Superior no processo de formação de agentes sociais críticos. 16(2): 181-194. Ampliar a oferta de oportunidades. Estaduais e Municipais. por parte dos segmentos Federais. bem como dos poderes instituídos. 2. pois muitos são os benefícios trazidos pela expansão do ensino superior para a sociedade. REZENDE. stimulating companies to sponsor 191 Serviço Social & Realidade. através de iniciativas inclusivas para a inserção de cidadãos ao ensino superior é um desafio a ser perseguido. verifying the possibility of performance of the Municipal district in the support to the higher education student. H. The municipal politics of support to the student of higher education and their social benefits. through educational politics of concession of scholarships. n. mas trazer a luz perguntas a serem respondidas no caminhar da história. Fomentar a discussão nessa linha é urgente e exige não menos que o tenaz esforço do segmento. Serviço Social & Realidade (Franca). pois melhora o padrão de vida da população. M. É importante formar uma consciência política de que os gastos em educação são investimentos prioritários e eficazes. p. mas de precipitar amplas reflexões acerca da realidade social. 16. DONADELI. Fomentar e implantar projetos integradores deve se constituir em objetivos dos municípios responsável. tecer juízos de valores nessa ordem. Investir em educação é o primeiro passo para o crescimento econômico de qualquer nação..Considerações Finais O trabalho trouxe a discussão sobre a necessidade do Município de atuar mais diretamente em ensino superior. v. Franca. constitutionally foreseen and regulated by the Law of Guidelines and Bases of the National Education. Cabe-nos a função de potencializar o destaque da importância de investimentos.

2007 . Educational Politics. LOURENÇO FILHO. J. D’Ávilla (Org. Comentários à constituição do Brasil. São Paulo: Brasiliense. As constituições brasileiras: análise e proposta de mudança. SILVA.. in the formation and training of lacking youth and adults for the economical and cultural growth of the society. São Paulo: Malheiros.academic students. MOTTA. 16(2): 181-194. 2000. Franca. 1998. MARTINS. E. São Paulo: Saraiva. G. 1998. GOLDEMBERG. 18. J. 5-33. FERREIRA FILHO. In: L. 22. São Paulo: Melhoramentos. 1993. B. M. Brasília: UNESCO. 1997. Curso de direito constitucional positivo. DURHAM. R. Social Benefits. Educação comparada.). J. Higher Education. 8 v. I. 1961. A.. São Paulo: Saraiva. A educação na reforma constitucional. but it also seeks to verify the social benefits resulting from the implantation of those actions. C. Referências BASTOS. E. jun. The article does not just concern about the juridical analysis of the theme. S. HORTA. São Paulo. Direito educacional: educação no século XXI. Curso de direito constitucional. Cadernos de Pesquisa. p. ed. O. • KEYWORDS: Municipal Competences. 104. F. n. 192 Serviço Social & Realidade. Direito à educação e obrigatoriedade escolar. G. 1995. ed. M. B.

garantindo os direitos dos usuários. No entanto. A Constituição Federal de 1988 instituiu a Seguridade Social. a partir da realidade vivenciada pelos profissionais que compõe a equipe técnica mínima do CRAS. devendo este ordenar as ações. composta pelas políticas de Assistência Social. Membro do grupo de estudos “Teoria Social de Marx e Serviço Social” (UNESP/Franca). dada a sua complexidade e amplitude. * Assistente Social da Prefeitura Municipal de Lins. Mestranda em Serviço Social pela UNESP – Franca. • O Papel do CRAS na Efetivação da Seguridade Social enquanto Sistema de Proteção Social Trazer à discussão o tema Seguridade Social não é algo fácil. porém. desta forma. a da pobreza. E aponta a necessidade de que se efetive a Seguridade Social enquanto sistema de proteção social. 2007 . 195 Serviço Social & Realidade. Direito. Saúde e Previdência Social. no município de Lins/SP. a difícil realidade da população residente na área de abrangência deste. seguro desemprego e a aposentadoria. Franca.O PAPEL DO CRAS NA EFETIVAÇÃO DA SEGURIDADE SOCIAL ENQUANTO SISTEMA DE PROTEÇÃO SOCIAL Edilene LOPES* • RESUMO: Este artigo discute. Possibilitando. Sendo as políticas de assistência social e saúde independentes de contribuição. o controle social através da participação da população usuária nos Conselhos. que se apresenta de forma velada. ainda. PALAVRAS-CHAVE: Seguridade Social. sua instituição não garante sua efetivação enquanto sistema de proteção social. com universalidade e equidade no atendimento. que sofre uma cruel forma de violência. estando. É inegável que a instituição da Seguridade Social constituiuse em um avanço no campo das políticas públicas. No campo da Previdência Social. sob responsabilidade primeira do Estado. parte significativa da população brasileira não possui registro contratual na carteira de trabalho. fora da cobertura previdenciária que lhes assegura proteção em casos de doenças e/ou acidentes de trabalho. tal debate se faz necessário. 16(2): 195-206. Proteção Social. Conselheira Municipal de Assistência Social.

Com a reforma da Previdência Social. sendo o valor dos benefícios reduzidos. por induzir uma maior permanência dos trabalhadores em atividade. dessa forma. para a rede básica. 196 Serviço Social & Realidade. por restrições ao acesso e. 16(2): 195-206. 2º . além de retardar a aposentadoria. A Lei n. p. A reforma de Previdência brasileira de 1998 para os trabalhadores vinculados ao RGPS se caracterizou pela redução dos benefícios. ainda. proteção e recuperação. 34). 8. 2007 .080. § 1º . No que diz respeito à saúde. que. Essa dificuldade decorre também da redução dos benefícios dos que já se aposentaram.A saúde é um direito fundamental do ser humano. prioritariamente. contribuindo para agravar a dificuldade de absorção de novas pessoas no mercado de trabalho. devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. O Estado que prejudica o trabalhador pela irregularidade das contribuições previdenciárias é o mesmo que dedica poucos recursos para a fiscalização do mercado de trabalho. Franca. contribuindo. estabelece que: Art. que regula as ações de saúde a nível nacional. nos anos de 1998 e 2002. favorecendo a permanência destes no mercado de trabalho. de 19 de Setembro de 1990. para a prevenção de doenças. não raramente. (SALVADOR. A ação da política de saúde deve voltar-se. são assim forçados a buscar um complemento de renda pelo retorno ao trabalho. 2005.O dever do Estado de garantir a saúde consiste na reformulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção. além de serem desenvolvidas de forma desarticulada com as demais políticas públicas e sociais. os direitos dos trabalhadores foram restringidos. Outro efeito perverso ocorre sobre as remunerações: a maior oferta de mão-deobra tende a provocar uma remuneração média menor. no dia-a-dia da prática profissional nos deparamos com ações que não tem se demonstrado eficientes e eficazes para suprirem as necessidades apresentadas pela população.

é política de Seguridade Social não contributiva.993. com a promulgação da Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS. as políticas públicas. 16(2): 195-206.A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes. para garantir o atendimento às necessidades básicas. Os recursos financeiros destinados foram insuficientes e sendo.O dever do Estado não exclui o das pessoas. o meio ambiente. Porém. o saneamento básico. o trabalho. Esta estabelece em seu Capítulo I – Das Definições e Dos Objetivos. se de um lado garante o atendimento universalizado. a moradia. reduzidos. Parágrafo Único. p. foram seletivas e focalistas. mental e social. Dizem respeito também à saúde as ações que. não garantindo direitos mínimos. ao tratar dos benefícios. No campo da assistência social ocorreu um novo avanço. Se de uma parte afirma princípios. nesta área.§ 2º . com o provimento dos mínimos sociais e atendimento às necessidades básicas da população usuária. pois. a educação. A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) é contraditória. Serviço Social & Realidade. que apontam uma perspectiva de direitos sociais. ao longo das últimas décadas. o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais. embora um pouco tardiamente. por outro. se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico. de outra. realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade. 1997. que: Artigo 1º . a renda. das empresas e da sociedade. em 1. 2007 197 . Isso põe em risco toda a proposta de Seguridade Social. que provê os mínimos sociais. produz uma tradução perversa das suas diretrizes. os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. 3º . por força do disposto no artigo anterior. a LOAS demonstrou-se contraditória. entre outros.A assistência social. Art. 22). o transporte. colocada no horizonte possível da Assistência Social. É realmente um deslocamento da questão (SPOSATI. direito do cidadão e dever do Estado. a alimentação. Franca. da família.

O Estado transferiu sua responsabilidade para a sociedade civil. além do repasse financeiro. aliás. a promoção da família com acompanhamento e desenvolvimento de ações sócio-educativas para que busquem sua emancipação econômica e social. seletivas. o conjunto dos direitos sociais. e sobretudo postos como “financeiramente insustentáveis”. incluindo alternativas de geração de renda. com a inscrição e/ou manutenção dos filhos na escola e cuidados básicos com a saúde. 2007 . são incentivadas ações com a participação de voluntariado e com caráter solidário. redução dos gastos públicos e com o enfraquecimento das políticas públicas. ora grosseiramente mistificados como “injustiças”. São estes direitos os que. como o demonstrou o teórico “clássico” da cidadania moderna (o. 198 Serviço Social & Realidade. através das privatizações. a partir do Governo Collor. diretamente oneram o capital. Podemos tomar como ponto referencial a década de 1990. Ao longo dos anos que se seguiram à promulgação da LOAS. Ora apresentados como “privilégios”. os direitos sociais foram objeto de mutilação. quanto a isto. Franca. sacramentada no governo FHC com o desmonte do Estado. como é facilmente depreensível. redução e supressão em todas as latitudes onde o grande capital impôs o ideário neoliberal. apenas amenizando a situação de vulnerabilidade das famílias atendidas. 16(2): 195-206. pelo Estado. eles podem até mesmo travar princípios elementares da sociedade de classes. quando houve a intensificação da política Neoliberal do Estado. Estes objetivam. liberal Marshall).Os Programas de transferência de renda ainda estão aquém do proposto. O alvo central do ataque do projeto político conduzido pelo primeiro governo FHC foi. estando subordinadas aos interesses do capital e desenvolvidas de acordo com a estrutura econômica e política. das políticas que integram a Seguridade Social. o Brasil de FHC. voltadas à miséria absoluta. do Governo Federal. indiretamente. As políticas sociais desenvolvidas são focalistas. valorizando a iniciativa privada. como é o caso do Programa Bolsa Família. No campo da política pública de assistência social. o que ocorreu foi um desmonte gradativo. As famílias devem cumprir uma agenda mínima de compromissos. apenas reiterou a receita: a governabilidade do país.

não se dá de forma pronta e acabada. em muitos casos com duplicidade de ações. um tratamento diferenciado dos governos anteriores. Dentre as ações previstas em sua criação. não possuíam uma direção única. A implantação do SUAS como sistema único supõe unir para garantir. com a fragmentação das esferas de governo e o paralelismo de gestão. este vem ordenar as ações no campo da assistência que. p. sendo desenvolvidas pelos Estados. longe do ideal. a partir de 2005. Luiz Inácio Lula da Silva. p. não levando em conta a realidade local e a real necessidade da população atendida. Serviço Social & Realidade. dando a esta. 2000. Municípios e União de forma fragmentada e direcionada. embora estejam. passando por um período de construção e se faz necessário o seu aprimoramento contínuo. 2004. até o momento. ainda. de 2004 e da Norma Operacional Básica – NOB.2). Porém. o SUAS. Porém. Sua proposta de implantação vem desde a promulgação da LOAS e da I Conferência Nacional de Assistência Social. apesar de ser um avanço. há de se reconhecer que este tem possibilitado um debate mais claro em torno da política de assistência social. dependia fundamentalmente da flexibilização desses direitos (NETTO. De acordo com o estabelecido através da Política Nacional de Assistência Social – PNAS. está a implantação dos Centros de Referência da Assistência Social – CRAS. Franca. de 2005. é a implantação do Sistema Único da Assistência Social – SUAS. através de Programas que atendiam. Os recursos destinados a assistência social têm aumentado gradativamente. em determinados momentos. Esta política perpetuou-se no governo do atual presidente.conforme a equipe de FHC. com a fragmentação das ações por categorias ou segmentos sociais sem compromisso com a cobertura universal e a qualidade dos resultados (SPOSATI. Um novo avanço que se apresenta. aos interesses de cada esfera de governo. 2007 199 . o que implica em: romper com a múltipla fragmentação programática hoje existente. 81). 16(2): 195-206.

O CRAS é a unidade estatal responsável pela efetivação da proteção social básica. MDS. Da mesma forma. como é o caso do município de Lins. não demonstram clareza sobre o assunto. Os debates sobre o tema tem se dado no espaço de execução da política pública. bem como as políticas públicas com as quais se faz necessário a interface com a política de assistência social. Franca. o que se mostra. p. 2007 . algumas das demais secretarias que integram a administração pública municipal. não atingindo os demais setores e agentes sociais. é fundamenta a identificação destas através de diagnóstico previamente realizado. não havendo divulgação efetiva e o esclarecimento necessário à sociedade no momento de sua implantação. o qual tomamos como exemplo. ao menos na realidade vivida nos municípios de médio e pequeno porte. com ações propostas a partir da realidade apresentada e real necessidade da população usuária. Sua instalação deve se dar em áreas de maior concentração de vulnerabilidade social. é que grande parte da população usuária desconhece a existência do SUAS e não tem clareza do papel do CRAS. envolvendo gestores e equipe técnica. principalmente a de saúde. Dentre as ações previstas para o CRAS. dentro das próprias comunidades e/ou Bairros. A isso se aplica o Judiciário e Conselho Tutelar. 11). entre outros. a fim de “prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições. Passado um ano. interior de São Paulo. As ações estão voltadas para pessoas e/ou famílias em situação de vulnerabilidade social. desemprego. orientação e encaminhamento de famílias em situação de vulnerabilidade para inclusão nesses. Sendo que. bem como diagnóstico. prevista na PNAS 2004. 16(2): 195-206. do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários” (Orientações Técnicas. seja em razão do rompimento e/ou fragilização dos vínculos afetivos familiares ou comunitários. à época. Embora o SUAS seja algo previsto desde a promulgação da LOAS e da I Conferencia Nacional de Assistência Social. 2006. pouca atenção foi dada ao assunto pelos veículos de comunicação. pobreza. está o acompanhamento prioritário às famílias atendidas pelo Programa Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada – BPC. não se estabeleceu um debate amplo sobre o tema. que tem 200 Serviço Social & Realidade. O CRAS possibilita o atendimento descentralizado. para isso.

Porém. Definir essas ações não tem sido uma tarefa muito fácil. Entre eles. Franca.um papel importante no desenvolvimento das ações do CRAS na efetivação da proteção social. as ações a serem desenvolvidas. 16(2): 195-206. pois existem. casos de saúde mental. ainda. quase 100% destes estão relacionados a saúde. encontra-se em processo de construção. O CRAS. muitas dúvidas sobre o papel do CRAS por parte dos profissionais que compõe a equipe mínima. recursos materiais insuficientes e inadequados. A forma como se deu esse processo não levou-se em consideração a estrutura existente e as dificuldades que estes enfrentaram e/ou ainda enfrentam para sua adequação ao novo sistema que traz uma série de compromissos que os municípios devem cumprir. principalmente. como um caminho sem volta. Outro fator é a deficiência na composição da equipe mínima necessária. A implantação do SUAS se estabeleceu. precarizacão da habitação. no município de Lins/SP. analfabetismo. seja por falta de higienizacão pessoal e habitacional. no dia a dia das ações desenvolvidas pelo CRAS. com famílias extremamente fragilizadas devido a situação de desemprego. tem levado ao desenvolvimento de ações emergenciais. além de casos de violência intrafamiliar. obviamente. de acordo com a realidade específica apresentada pela população usuária em sua comunidade e/ou Bairro. através de diagnósticos que não acontecem da noite para o dia. assim como o SUAS. É necessário o conhecimento da população alvo. ausência de moradia ou que vivem em moradias precárias. Temos nos deparado. principalmente no que se refere à locomoção dos técnicos. para o atendimento e acompanhamento das famílias. doenças ocasionais. perda de vínculos afetivos e comunitários. 2007 201 . a implantação do CRAS. o que tem ocorrido é que a rede pública de saúde tem-se demonstrado Serviço Social & Realidade. alcoolismo e uso de outros tipos de substancias psico – ativas e. Algumas dificuldades como a inadequação na estrutura física dos CRAS. que gera um custo muito alto. cabendo a cada município definir. dentre os casos encontrados. Na interface que se estabelece entre a Assistência Social e a Saúde para encaminhamento e acompanhamento dos casos. através da garantia de direitos. dentro do estabelecido pela PNAS/2004 e a NOB/2005. tem nos chamado a atenção o fato de que. no qual os municípios tiveram que se adequar.

uma vez que realizam visitas periódicas. o que contribui para o agravamento do caso. Franca. Muitas dessas famílias apresentam-se com graves comprometimentos na saúde de seus membros que poderiam ter sido evitados se fossem tratados e/ou encaminhados de forma adequada dentro da rede básica. O primeiro atendimento dado é de fundamental importância para a orientação e encaminhamento adequado. a equipe do CRAS tem se deparado com uma política de Saúde Mental ineficaz para o atendimento que se faz necessário. desenvolvendo um papel fundamental na detecção dos casos que requerem uma atenção especial por terem o vínculo estabelecido com as famílias. Sem dúvida alguma. estes agentes tem se demonstrado despreparados no que diz respeito aos encaminhamentos que se fazem necessários em alguns casos que apresentam uma maior complexidade. O número de profissionais disponíveis não tem sido suficiente. Devido ao fato de terem sido submetidos a freqüentes internações em instituições psiquiátricas. O município conta com o Programa de Agentes Comunitários de Saúde. Porém. muitos dos pacientes ficam ociosos. 16(2): 195-206. No que diz respeito especificamente à Saúde Mental. A recusa acaba por ser aceita pelos profissionais que realizam o atendimento ambulatorial. 2007 . ocasionando demora no primeiro atendimento e/ou longo prazo nos retornos. Nesses casos. sem uma avaliação mais profunda. com um quadro mais leve até estágios mais profundos. estão próximos a estas e conhecem sua realidade por morarem também dentro do Bairro e ou comunidade. essas famílias tem seu quadro agravado pela questão social apresentada e verificada através de estudo social realizado pela equipe do CRAS. com isso.ineficiente e ineficaz para suprir a demanda e sanar os problemas apresentados. considerados como principais agentes dentro da rede básica de saúde. a fim de descortinar o pano de fundo do problema que se apresenta e seus desdobramentos. a fim de evitar que o sofrimento da família e do doente se arraste. uma vez que não dispõe de tempo e recurso necessário para um acompanhamento mais próximo. Quando não há um preparo adequado da equipe. os casos encontrados variam desde depressão. sem solução. a fim de reverter o quadro. além de quadros de esquizofrenia. em muitos casos. muitos dos casos são tratados de forma estanque. Muitas sequer tem 202 Serviço Social & Realidade. alguns pacientes se recusam ao atendimento através do Hospital Dia.

2007 203 . cobrando sua devida aplicação a quem de direito.conhecimento do direito ao atendimento gratuito. em relação aos demais setores da sociedade local é notória a olhos vistos. o estigma de viver nesses Bairros. precisa. através da participação da população nos Conselhos instituídos. ainda. ainda. Franca. p. carregando. historicamente. Não podemos nos esquecer que uma das características da Seguridade Social à partir de sua instituição é possibilitar o controle social. um longo caminho a ser percorrido para que a Seguridade Social se efetive de fato enquanto sistema de proteção social. antes de mais nada. lhe dificultando até mesmo a possibilidade de conseguir um emprego formal. apesar dos direitos estabelecidos e do trabalho dos profissionais para efetivação destes. desenvolvem-se as diversidades e as desigualdades. na busca de soluções e acompanhamento do trabalho das autoridades Serviço Social & Realidade. ou chegam a deixar de suprir outras necessidades para adquirirem o medicamento de que necessitam. técnicas de dominação e lutas pela emancipação (IANNI. em seus usos crescentemente político-econômicos e socioculturais. tráfico. Essa população vive uma dura realidade. À medida que se desenvolvem a ciência e a técnica. desenvolvem-se as formas e as técnicas de violência. 16(2): 195-206. conhecidos por terem sido. chegando a não realizar o tratamento de forma adequada pela ausência de medicamentos. marcada pela luta diária na busca dos mínimos necessários à sua sobrevivência. mas não só. Para que a população lute pela garantia desses. existe. prostituição e miséria. A garantia de direitos passa efetivamente pela informação. locais de violência. 2004. A desigualdade social encontrada dentro do território de abrangência do CRAS. conhecê-los e os profissionais que atuam no CRAS tem um importante papel nesse sentido. É necessário o resgate da organização dessas comunidades pobres em torno dos problemas que são comuns às suas famílias para discussão dos mesmos. 170) O quadro que encontramos no contato diário com a população usuária tem demonstrado que. À medida que se desenvolvem as forcas produtivas e as relações de produção próprias do capitalismo. as formas de alienação.

v. p. the difficult reality of the resident population in the mentioned area. 2007 . Right. com ações que possibilitem o protagonismo da população usuária. • ABSTRACT: This article discusses. in the municipal district of Lins/SP. Necessário se faz que o Estado desenvolva seu papel. 195-206. o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber. 16(2): 195-206. And it points the need of effectiveness of the Social Security while it is a system of social protection. Franca. that comes in a veiled way. Mas existe um sistema de poder que barra. proíbe. • 204 Serviço Social & Realidade. Serviço Social & Realidade (Franca). Há que se garantir sua efetiva representatividade. 2007. elas sabem perfeitamente. sejam elas municipais ou não. Social Protection. bem como o desenvolvimento de ações que possibilitem a ampla discussão do sistema de proteção social. muito melhor do que eles. são.71). based on the reality lived by the professionals that compose the minimum technical team of CRAS. na criação e desenvolvimento de políticas públicas de qualidade. As famílias residentes na área de abrangência do CRAS e destinatárias das ações deste. vítimas da mais cruel forma de violência: a da pobreza. que garanta o provimento dos mínimos sociais necessários à uma vivencia digna é um desrespeito a população usuária da Assistência Social. muito sutilmente em toda a trama da sociedade (FOUCAULT. the one of the poverty. Poder que não se encontra somente nas instancias superiores de censura. 16. a isto inclui a adequada estruturação dos CRAS. mas que penetra muito profundamente. 1972. a fim de que se tornem de fato espaços de convivência e crescimento. n. claramente. p. Ora. a fim de que os usuários da Assistência Social se tornem de fato protagonistas na luta por sua efetivação. The hole of CRAS in effectveness of the social security while a system of social protection.constituídas. LOPES. e elas o dizem muito bem. em nossa concepção. invalida esse discurso e esse saber. E. A falta de uma política pública de qualidade. KEYWORDS: Social Security. 2. that suffers a cruel form of violence.

2005. Petrópolis: Vozes. São Paulo. (Org). Tradução Orlando dos Reis. Constituição Federal da República Federativa do Brasil. Petrópolis: Vozes. p. 84-135. ______. Reflexões sobre a violência. 2 (2005): Suplemento – Brasília/DF: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. ed. 2007 205 . CADERNOS ABONG. n. 2005. SOREL. nov. BRASIL. Marco 2005. p. 2004. 81. Serviço Social & Realidade. Serviço Social e Sociedade. 1. Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004. 1979. Cortez. violência e terrorismo. LESBAUPIN. 30: Subsídios à III Conferência Nacional de Assistência Social. ano XXVI. Módulo 01. Crise capitalista contemporânea e as transformações no mundo do trabalho. 7-39. O Desmonte da Nação: Balanço do Governo FHC. Porto Alegre. Curso de Capacitação em Serviço Social e Política Social. 49-152./dez. O. Sociologias. SALVADOR. Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS. R. Franca. 169-184. 2000.Referências ADORNO. 1993. ______. IANNI. jul. 1997. Capitalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. n. Brasília/DF: CEAD-UnB. 2001. CADERNOS DE ESTUDOS DESENVOLVIMENTO SOCIAL EM DEBATE. Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação. 1993. Rio de Janeiro: Graal. Crise Contemporânea. ______. n. n. M. Implicações da reforma da Previdência sobre o mercado de trabalho. nov. Questão Social e Serviço Social. Conselho Federal de Assistência Social. ANTUNES.. 11. I. 2002. FOUCAULT. 1988. S. REVISTA INSCRITA n. 1999. p. G. ano 4. 8. p. Norma Operacional Básica – NOB/SUAS. E. 16(2): 195-206. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Microfísica do poder.

77. mar. Serviço Social & Sociedade. Franca. YASBEK. São Paulo: Cortez. 206 Serviço Social & Realidade. p.SPOSATI. 1989. et al. São Paulo: Cortez. Ano XXV. 16(2): 195-206. 2004. 2007 .11-27. Assistência Social na Trajetória das Políticas Sociais Brasileiras: uma Questão em Análise. C. São Paulo. M. Os Direitos (dos Desassistidos) Sociais. As ambigüidades da assistência social brasileira após dez anos de LOAS. 1991. n. ______. A.

Ou seja. Neste texto será explicitada. sem. 207 Serviço Social & Realidade. Com base neste argumento este texto deseja contribuir com a reflexão sobre a pobreza como violação dos Diretos Humanos numa sociedade em que as bases de produção e reprodução da vida social se assentam em patamares que perpassam pela insegurança. Contemporaneidade.com. considerados pelos organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI e Banco Mundial – BM.dfd@gmail. 2007 .DIREITOS HUMANOS E POBREZA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: NÃO HÁ EQUAÇÃO POSSÍVEL Denise Freitas DORNELLES* • RESUMO: A pobreza não pode ser paisagem das ruas nas grandes cidades. E-mail: uni. por exemplo. • Apresentação A pobreza cresceu assustadoramente no período de 1997 a 2000. Estes não mais e tão-somente circunscritos a domínios territoriais. ou naqueles em situações mais complexas. pela miséria. mas existentes também naqueles países considerados como desenvolvidos. portanto. Professora e Pesquisadora do Mestrado em Políticas Sociais e Cidadania-UCSAL. pela fome. como afirma o economista e sociólogo argentino Bernardo Kliksberg em seu livro “Desigualdade Social na América * Assistente Social. Membro fundadora da ONG Comunidade Morada da Paz (Triunfo/RS) e do Instituto Ekos de Ecologia Humano Social (Salvador/BA). a fluidez com que vem sendo tratada. Coordenadora do Grupo Mãos Dadas de Estudos sobre O Pensamento Social Contemporâneo. Pobreza. Pesquisadora responsável pela Linha de Pesquisa Assistência Social. que se consolida no século XXI. à globalização do risco social. O texto busca apresentar um ensaio reflexivo sobre uma prática recorrente de violação dos direitos humanos através das décadas. Refletir sobre a contemporaneidade de uma prática cruel. mantendo. parte da discussão que circunda essas categorias. países em desenvolvimento como o Brasil. PALAVRAS-CHAVE: Direitos Humanos. Franca. os miseráveis. Práticas Sociais e Interdisciplinaridade onde desenvolve pesquisas sobre Políticas Sociais e Programas de Transferência de Renda (apoio CNPq) do grupo de Pesquisa Questão Social e Políticas Sociais. étnicos e ou culturais. excludente que vem produzindo legiões de pessoas sem acesso as condições mínimas de terem sanadas as suas necessidades básicas. Pós-doutoranda do Centro de Estudos Sociais-CES/Universidade de Coimbra. Em 1997 havia 204 milhões de pobres e em 2000 havia 220 milhões. contudo a adoção de uma definição especifica. 16 milhões de pessoas ficaram pobres ao longo deste período. Globalização. Mestre e Doutora em Serviço Social/PUCRS. 16(2): 207-234.

9 milhões de brasileiros) de extremamente pobres e indigentes que sobrevivem com uma renda familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo (IPEA. 2007 . Os indicadores do Radar Social interessam na medida em que desvela. Para maior aprofundamento ver Kliksberg (2003). Apenas 1% da população é composta de brasileiros ricos (aproximadamente 1. são persistentes. 61% são mulheres que estão em ocupação precária em relação a 54% de homens nas mesmas condições. por exemplo.5% de brancos. segundo dados do IPEA se constatem a existência de pequenos avanços no que diz respeito à exploração do trabalho infantil e a expectativa de vida.1% é composta pela população negra em relação a 20. são 1% que se apropria da mesma soma de rendimentos familiares distribuída entre os outros 50% (aproximadamente 86. Do patamar de pobres e indigentes que tentam sobreviver 44.7% (equivalente a aproximadamente 53. O Brasil.9% (21. 2005.Latina”. 16(2): 207-234. as ONG como o IBASE. com grande concentração desta população nas zonas urbanas das grandes cidades. ou seja. Franca. Em relação ao desemprego a mulher negra apresenta uma desvantagem.5 milhões de brasileiros). O IPEA.6% em relação aos 10% das mulheres brancas e agudiza brutalmente em relação à mulher jovem e negra alcançando patamares de 25% esta 208 Serviço Social & Realidade. por parte do governo. neste caso as mulheres negras representam 41%. com 13. ocupando o penúltimo lugar dentre os demais países.9 milhões de brasileiros) de pobres e 12. é um dos países mais desiguais do mundo. é uma pesquisa do Governo e há disponibilizado em seu site dados que vão até 2003. o restante da população se subdivide entre 31. o Radar Social. órgão do Ministério do Planejamento. o que já era denunciado há muito tempo por analistas e estudiosos do tema e por Organismos Não Governamentais. que somos um país com profundos paradoxos e profundamente desigual. a desigualdade e a pobreza. 2006). Se tomarmos como exemplo o caso Brasileiro embora. BEHRING & BOSCHETTI.7 milhões de pessoas). por exemplo. assim como não é diferente em outras localidades do mundo. dados publicados pelo Radar Social. Orçamento e Gestão desenvolveu um interessante documento que tem como objetivo monitorar a condições de vida no Brasil.

Política Social: Fundamentos e História. 2005. no caso do Brasil. SP. set.diferença1. 9).br/anodamulher/destaques/relatorio_cd.. conforme o meio ambiente. Rocha (2006. Franca. p. 2007 209 . tem identidade. 2006. podendo ser definido de forma genérica como a situação na qual as necessidades não são atendidas de forma adequada.1995. 1 Serviço Social & Realidade. e. também. o Cristianismo estava em franco crescimento e a ideologia da Igreja predominava no consciente coletivo daquela sociedade..senado. 2006). CASTEL. Cortez.asp.. jovem e negra. p. os hábitos culturais e os modos de vida. 1997. onde nesses atos praticavam-se os ensinamentos de Cristo. como se não bastasse o elenco de elementos complexos que a envolve ela é também familiar e geracional2. Ser pobre era estar mais perto da chamada salvação do espírito. era um gesto de caridade e humildade. 2 Para esta reflexão sobre a face da pobreza e o papel das transferências de renda. 185-186..] A pobreza na Idade Média é incomparável à pobreza encontrada nas sociedades modernas. Nessa época. Variam..]” sendo necessário ponderar o que consideramos adequado em termos de condições de vida. Senado Federal. argumenta que a “[. pois ela é urbana.] Pobreza é um fenômeno complexo. ela é feminina. Behring & Boschetti. 2003) Serge Paugam refere que [.gov. A pobreza Para Van Parijs (1997) e Sposati (1999) associar a pobreza ao ponto de vista econômico é uma atitude minimalista e restrita. 1950/2004. 16(2): 207-234. Radar Social. a tal ponto que Os dados aqui apresentados podem ser encontrados nos seguintes documentos: IPEA. PAUGAM. Na Idade Média ser pobre (período compreendido entre o século V ao XV) tinha um significado religioso muito forte.. ver estudo de Dornelles intitulado Políticas Sociais Compensatória ou Emancipatória? – enviado e aprovado para apresentação no Fórum de Políticas Sociais das Universidades do Mercosul – FOMERCO (Aracajú. POLANYI. (VAN PARIJS. Diante desse contexto a pobreza. Brasília/DF: IPEA. 2000. Relatório da Comissão Externa da Feminização da Pobreza e estão disponível em http://www. MAUSS. [.

se e quando sofriam necessidades. ‘pobre’ era praticamente sinônimo de ‘povo comum’. No período que antecede a Primeira Revolução Industrial.] os cavalheiros da Inglaterra julgavam pobres todas as pessoas que não possuíam renda suficiente para mantê-las ociosas. p.]. Com isso. iniciou-se um período de intensas transformações na tecnologia agrária. de compará-la entre regiões cujas condições geográficas são desiguais. 2003. e no povo comum estavam incluídos todos. acontece a Revolução Agrícola que foi caracterizada pelos cercamentos que os grandes produtores rurais fizeram em suas terras com o objetivo de aumentar a produção agrícola e conseqüentemente.. o povo em geral. pois houve uma privação da agricultura familiar e isso acarretou na extinção de sua renda monetária. onde as máquinas reinaram sobre os trabalhadores rurais e impuseram transformações da dinâmica social da Europa. p. a pobreza aumentou significativamente. também conhecida como Lei dos Pobres ou Elisabetana possuía como definição de pobreza: ‘todas 210 Serviço Social & Realidade.] A racionalização da agricultura desenraizou inevitavelmente o trabalhador e solapou a sua segurança social”. e. 110) escreve que [.. menos as classes fundiárias. 16(2): 207-234. 2007 . às vezes. Franca. Em 1601 a Poor Law. [. 116). Tal revolução foi considerada um marco no fim da transição entre o feudalismo e o capitalismo.. Polanyi (2000... [. o Estado se viu na obrigação de criar uma lei que protegesse os operários das indústrias que viviam em condições precárias de vida.. resume em uma frase o impacto dessa revolução naquela sociedade: “[.]. Quando houve a Revolução Industrial. A pobreza no campo aumentou significativamente. Até então.. (PAUGAM. Assim.. acumular maior capital. p. mas não apenas eles. Naturalmente isto incluía os indigentes. 49) Polanyi (2000. o emprego em uma indústria era vista como uma ocupação temporária.é sempre difícil comparar a pobreza entre sociedades que não atingiram o mesmo nível de desenvolvimento econômico. Daí o termo ‘pobre’ significar todas as pessoas que passavam necessidades e.

os pobres eram forçados a trabalhar com qualquer salário que pudessem conseguir e somente aqueles que não conseguiam trabalho tinham direito a assistência social. Associado ao trabalho forçado. (Rio de Janeiro: Campus. em um texto recente. no contexto do capitalismo "selvagem" daqueles anos. 1980. Notre Dame. os enfermos e os órfãos... O valor desse rendimento era condicionado ao preço do pão.. p. 2007 211 . 2000. nunca se pretendeu.. Em 1795.] os pobres “selecionados” eram obrigados a realizar uma atividade laborativa para justificar a assistência recebida” (BERIHNG & BOSCHETTI. Serviço Social & Realidade. em A grande transformação . Durante a vigência da Speenhamland Law.. Franca. em geral e prioritariamente. se seu salário fosse menor do que a renda familiar estabelecida pela tabela. essas ações garantiam auxílios mínimos (como alimentação aos pobres reclusos nas workhouses (casas de trabalho). a Speenhamland Law garantia uma renda mínima àqueles que não podiam trabalhar ou estavam desempregados. incluindo os indigentes’. Indiana: University of Notre Dame. é feita por Karl Polanyi.as origens da nossa época. 2006.] aos quais se incluíam. reconstrói um pouco da história das idéias da pobreza na Europa e no mundo ibérico. [. A análise das polêmicas relativas a estas leis. Helen Kellogg Institute for International Studies.) Roberto daMatta. [. 60 p (Democracy and social policy series. nem se concedeu qualquer assistência sob forma de abono salarial. Behring & Boschetti (2006) escrevem que essas ações assistenciais que recebiam deveriam ter uma contrapartida.] (POLANYI. e Christopher Dunn. as chamadas Leis Elizabetanas tinham como função a manutenção da ordem. working paper #10).. [. On the Brazilian urban poor an anthropological report. p. o indivíduo recebia assistência mesmo quando empregado. Ao comparar a Poor Law e Speenhamland Law3.. os velhos. 48) 3 As “Poor laws” inglesas eram um conjunto de provisões legais estabelecidas na Inglaterra na época da revolução industrial para reduzir os efeitos mais extremos da pobreza. 16(2): 207-234. 1995.. embora a Speenhamland Law de 1795 fosse a menos coercitiva delas. Cf. 101) De acordo com Polanyi (2000).as pessoas que passavam necessidades. Roberto DaMatta.] Sob a lei elisabetana. Polanyi afirma que: [.

onde a pobreza e a precariedade do trabalho se intensificaram. por exemplo. Esta carência pode ser estrutural: SER POBRE. mas justamente pelas péssimas condições de trabalho nas indústrias. Polanyi faz uma interpretação interessante. 2007 .]” (POLANYI.] essa lei introduziu uma inovação social e econômica que nada mais era que o direito de viver [.. Villeneuve-Bargemont (apud CASTEL. como já citamos anteriormente sobre o caso do Brasil. Castel (2001). “[. 5 Dicionário de Latim. p.”. 16(2): 207-234. Constata-se. excludente: “NÃO SER RICO”.. Behring & Boschetti (2006). voluntária: “TORNAR-SE POBRE”. no sistema capitalista.. O termo pauperismo surgiu no século XIX na Inglaterra e significava o empobrecimento em massa da população não por falta de trabalho. voltadas para manutenção da ordem social e controle da população mais carente. Em uma sociedade que preza pela acumulação de riquezas. a pobreza e a desigualdade são crescentes nos países periféricos como os da América Latina. 284) previa o aumento progressivo dos pobres por causa do crescimento industrial. “valer pouco”. Ver mais sobre a temática em Polanyi (2000). que existe uma parcela significativa da população mundial que vive marginalizada por não ter um padrão de vida que atenda às suas necessidades básicas. 100). Franca. Para Estivil (2003). Essa análise leva a refletir sobre a tendência à responsabilização que se impõem aos pobres pela situação em que se encontram. “ter pouca sorte”. que garantia assistência a empregados que recebiam abaixo de determinados rendimentos ou a desempregados. Ser pobre era sinônimo de ser vagabundo. 4 212 Serviço Social & Realidade. p. circunstancial: “ESTAR POBRE”. Porto: 2006. que estabelecia um abono financeiro em complementação ao salário. 2000. Cabe destacar que a palavra pobreza vem do latim pauper que significa possuir pouco5. fingida: “FAZER-SE POBRE”. sobre tudo da Speenhamland Law.. 2001. a palavra “pobre” expressa três tipos de carências: “ter pouco”.Eram leis coercitivas4. E afirmava que “o pauperismo é uma ameaça à ordem política e social. que tinham como base de compreensão da pobreza associada com a vagabundagem. Em períodos pré-Revolução Industrial e durante a Revolução Industrial que vai de 1662-1834.

que por muitos anos fez um estudo sobre a pobreza. em uma determinada sociedade. 16(2): 207-234. A pobreza de acordo com Simmel (2005) não pode ser definida tão-somente como um estado quantitativo em si mesmo. Pobreza moral constata qual a posição social e privação em que se encontra o pobre e questiona a aceitação da pobreza. do início do século XX. Disso pode resultar um processo de banalização da pobreza enquanto estrutura e culpabilização do pobre enquanto efeito cultural e moral. Para discorrer sobre a temática da pobreza. portanto a partir desta afirmativa que as formas como cada sociedade. relativa e construída socialmente (PEREIRINHA. Pauperismo é formado pelas pessoas incapazes de sair da sua situação precária. ou melhor. 2006. SPOSATTI. a partir da base teórica proposta por Simmel.Hobsbawn (2000) caracteriza a pobreza por três conceitos: pobreza social. do qual suas análises suscitaram o ponto de partida para o estudo que na época foi denominada de sociologia da pobreza6. mas como uma relação à reação social que resulta de uma situação especifica. pobreza moral e pauperismo. A importância de sua obra resulta no esclarecimento dos problemas de definição de pobreza e na compreensão proposta dos modos de constituição da categoria pobre e os vínculos que os ligam a sociedade como um todo. cada era societal trata a questão da pobreza está permeado por um conjunto complexo de elementos morais. intitulado – A perspectiva brasileira sobre a pobreza: um estudo de caso do Programa Bolsa Família. 1996. tratando-a de modo a considerar os fatores multipolares que lhes são peculiares referindo-se a questões de cunho fundamentais do ponto de vista interpessoal e de seus vínculos sociais abrindo a perspectiva sóciohistórico de análise. que são percebidas em determinado momento histórico. Com o texto intitulado Les pauvres (Os pobres). será utilizado como base o artigo de Sarah Mailleux Sant’Ana. A pobreza é deste modo. alcançando a satisfação de suas necessidades básicas. Pobreza social abrange tanto a desigualdade econômica como a desigualdade social. 6 Serviço Social & Realidade. Franca. Considera-se. Georg Simmel é um sociólogo do século passado. 2007 213 . 1999). políticos e culturais. ROCHA.

mas essa obrigação não se traduz em um verdadeiro direito (SANT’ANA. Ele observa igualmente que o Estado refere-se ao princípio da obrigação de assistir aos pobres. a priori social. Resultando em uma situação em que o “bem feito” (e não o direito reconhecido). Apenas a coletividade diz Simmel é capaz de mudar as circunstâncias econômicas e culturais fundamentais que provocam a condição de pobreza. Esta ação coletiva Simmel (2005. 95). Considera-se oportuno e pertinente a abordagem de 214 Serviço Social & Realidade. p. de modo que ofereçam menor possibilidade de empobrecimento resultante de fraqueza individual. A pobreza. Franca. p. é relativa porque não corresponde “à relação entre os meios individuais reais. “a tarefa de mudar essas circunstâncias. 85). p. nesse caso seria destinada a uma faixa da sociedade e teria caráter pessoal. é arbitrária e limitada em sua aplicação prática. 60). 16(2): 207-234. que varia de acordo com o status” (2005. 88) chama de “assistência”. ao fazer uma analise sobre a finalidade da assistência a partir da compreensão proposta por Simmel. cabe mais ao doador do que a quem “o recebeu”. pois desconsidera a interdependência dos fenômenos sócio-economicos-culturais. p. que cobriria apenas uma pequena parcela da população necessitada. A ação coletiva afirma Simmel. em relação aos pobres e a pobreza. diz Simmel. p. de falta de oportunidade ou de privações” (2005. Sant’Ana. 2007 . 2007. 7). de forma a permitir que as estruturas sociais fundadas sobre estas diferenciações mantenham o status quo social. mas aos fins vinculados ao indivíduo. o que resulta muito mais em uma ação que sustenta aqueles que (ainda) não estão na precariedade sob tutela e uma falsa cidadania. limitar-se-ia ao mínimo para preservá-los da degradação física assegurando que recebam aquilo que tem direito.Simmel é enfático em afirmar que a definição de pobreza restrita apenas na carência de provisão de meios. Deste modo a pobreza é tratada de forma marginal sendo desencadeado o que atualmente se denomina de uma “perversa” inclusão. considera que: A finalidade desta assistência estaria em mitigar as diferenciações extremas. “mas que não recebam demais” (2005.

a questão da insegurança alimentar.. inclusive alimentação. de gênero. Direitos Humanos Eu pensava que ser cidadão era ser rico [.Simmel sobre a institucionalidade da pobreza. velhice ou outros casos de perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. agora eu sei que ser cidadão é lutar pelos seus direitos. 8). que trás em seu conteúdo elementos muito atuais de analise. É preciso ainda reconhecer que os direitos 7 Reportagem veiculada pela Rede Globo no Jornal Nacional do dia 03/10/2007. pouco acesso à saúde. O “farrapo social”. a precariedade habitacional. no qual a sociedade está se transformando como afirma (SALAMÁ. 1997). 16(2): 207-234. Embora seja importante considerar que não basta afirmar que os direitos humanos são universais. ela é geradora de um processo de desqualificação pessoal.] Mas. 2007 . viuvez. Esse rol de carências leva a crer que a pobreza não pode ser considerada levando-se em conta o caráter do discriminante econômico. dentre outras” (SANT’ANA. p.. e direito à segurança em caso de desemprego. A pobreza inclui “[. se persistente. coletivo e. invalidez. Franca. vestuário. a baixa escolaridade. em texto formatado no início do século XX.. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis. et al. 2007. com danos irreparáveis para todo o tecido social. Muito embora seus elementos podem e não são suficientes para fazer frente à experiência social da pobreza e da precariedade.. habitação. indivisíveis e interdependentes. ausência de reconhecimento social.] falta de autonomia econômica. 7 Pressupõe-se que adequadas condições de vida sejam aquelas preconizadas no artigo 25. étnica. declaração de uma senhora residente no sertão da Bahia ao ser entrevistada. 215 Serviço Social & Realidade. doença. inciso I da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Todo o homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar.

cada cultura tem seu modo particular de formular as grandes interrogações relativas à aplicação dos direitos humanos. para que possamos compor um quadro analítico mais rico para compreendermos de forma mais plena e orgânica os riscos que as pessoas enfrentam em seus lugares.. Ou seja. A partir dessa constatação. Esta é uma construção árdua que.humanos são direitos em movimento. 1998). como tudo em nossa era. F. na prática não se pode escamotear a questão de sua hierarquia. D. escreve ele: [. Serviço Social & Realidade. não tem garantido a assistência necessária. 1996. (SACHS. Entretanto. Hespanha refere que a falta de informação contribui para que além do processo de 8 A necessidade de se inferir sobre as brechas deste sistema que produz pobreza e perpetua as diferentes formas de exclusão é interessante ver estudo de Dornelles. Equador. Franca.2006).. especialmente no que toca à aplicação dos diferentes direitos econômicos e sociais. Para tanto precisamos explorar as fronteiras do saber. não nos introduz certezas. 16(2): 207-234. 2007 216 . Sachs (1996) argumenta muito por conta desta compreensão que. conhecendo e dialogando com diferentes perspectivas e abordagens. é grande a tentação de proceder a arbitragens abusivas. Se há uma riqueza de debates sobre às macro-estruturas sociais. LAFER. que mesmo que se considerem os elementos singulares de cada sociedade. out. intitulado O impacto da reestruturação produtiva sobre as questões sócioambientais: O que queremos dizer quando falamos em desenvolvimento sustentável? – enviado e aprovado para ser apresentado no Congresso Latino Americano de Ciências Sociais – CLACSO (Quito. como de fato são predominantes no contexto em que esta análise se propõe. É importante pensar que a pobreza viola os direitos humanos na medida em que. mesmo assim.] enquanto na teoria os direitos do homem são indivisíveis. buscando alternativas e formas de pensamento mais abertas e flexíveis. mas apenas desafios8. em alguns sistemas as pessoas são obrigadas a terem que provar a sua pobreza e. há pouquíssimos estudos desta natureza que mostram a Sociedade de Risco ‘ao rés do chão’. a violação é transversal a toda e qualquer peculiaridade. Talvez seja necessário repensar a forma de racionalidade moderna.

p.insuficiência de renda se consolide a insuficiência de cidadania ao dizer que. 16(2): 207-234. uma vez que nesse contexto tornam-se Muito embora o conceito de desafiliação utilizado por Castel se aplique muito mais a realidade francesa do que a brasileira. 2007 217 . O autor trabalha com o conceito de surnuméraires10. embora cause também precariedade e vulnerabilidade. por outro não são considerados socialmente úteis. 10 Os sobre numerosos.] acresce o sentimento de vergonha que freqüentemente as pessoas experimentam pela sua condição de pobreza extrema e que as impede também de pedir ajuda” (HESPANHA et al. “inexistentes”.. parte da analise sobre as metamorfoses do trabalho e da coesão social. 2000. 28-29). no seu livro A metamorfose da questão social. se forem considerar os sistemas de seguridade social de França e Brasil. 2001. pois o salário lhes trás a possibilidade de dignidade. trás conceitos que muito auxiliará na perspectiva que as reflexões aqui apresentadas se propõem. elas já se encontram fora do círculo. Quando é constante e insidiosa tornase. “são aqueles que não podem nem mesmo serem considerados explorados porque não possuem competências que possam ser convertidas em valor social” (CASTEL. demonstra que as pessoas preferem um salário a um beneficio. Franca. “O desconhecimento dos direitos sociais [.. mais freqüentemente de infelicidade [. O conceito é portador de uma densidade que pode muito bem contribuir para a compreensão desta temática. desqualificação e dissociação. Há certa resistência na solicitação do auxílio por que isso significa a confirmação da sua desqualificação social e sentem-se humilhados. Alguns programas sociais são mais perversos do que includentes. 2001. A “vulnerabilidade é uma marca de incerteza e. 26). 9 Serviço Social & Realidade. aquelas pessoas que não estão à margem. p. a questão principal centra-se no conceito de exclusão e de desafiliação9. Castel.]” (CASTEL. mas como um suporte de inclusão social. p... o resultado de um processo de invalidação social. Castel (2001) ao desenvolver sua compreensão do trabalho não como uma questão técnica. que de um lado compõe o tecido social por serem numerosos e. Segundo o autor a pobreza como discriminante econômico não é questão essencial. 309). Os sobrantes inúteis.

a globalização surge como um meio de aumentar a produção industrial e o potencial econômico desses países a fim de torná-los mais competitivos no mercado mundial. a globalização é vista como um processo natural do capitalismo. que se baseia numa estrutura institucional própria para atender aos seus interesses. por que variam. Ocorre que a carga concorrencial e a financeirização do capital faz com que na base da globalização haja elementos que contribuam para um processo de produção de pobreza. o que implica necessariamente as relações. Franca. que Castel argumenta que são essenciais para o bem-estar: emprego e habitação. como uns merecem e outros não. a manipulação dos jogos políticos a que as pessoas pobres estão sujeitas. a ausência de respostas a duas áreas essenciais e. mesmo em situações idênticas. 16(2): 207-234. Petras e Veltmeyer (2000) analisam duas linhas de pensamento sobre o impacto da globalização no mundo atual: na primeira. Em segundo. como afirma Arrighi (1996). A segunda aparece como fruto da ideologia dominante. a herança deixada para a contemporaneidade obriga a que se faça um reexame do modus vivendi. estão cada vez mais ficando mais pobres Na atual fase do capitalismo. A contemporaneidade Alguns países não estão só não ganhando. ou ao favorecerem um sentimento de competição entre os “assistidos” na avaliação que fazem de quem é mais necessitado e de quem não o é. 2007 . por que umas e outras não. Diante disso é preciso perceber que determinados planos e programas de combate a pobreza podem estar contribuindo também para a reprodução do individualismo ao conceberem a pobreza como um problema de cada pobre. De acordo com a vertente que vê a globalização como um processo resultante da ideologia neoliberal.incompreensível para as pessoas quais as necessidades elegíveis. 218 Serviço Social & Realidade. Do longo século XX. a concepção de vida e mundo. Esse fenômeno é concebido como uma estratégia deliberada de um projeto político levado adiante por uma classe capitalista transnacional. A pobreza execra a privacidade e atropela a confiabilidade. A desconfiança encontrada é fortalecida por dois fatores.

uma vez que seu único modo de subsistência era a pesca. guerras constantes e disseminadas em diferentes partes do mundo. comprometendo a vida de gerações de pessoas.Se se considerar apenas as últimas décadas do século passado. Rastos e Marcos: população e mudanças ambientais-situação da População Mundial 2001. 4. construção e manutenção de mísseis capazes de destruir algumas vezes o planeta. dia 12 de setembro de 1998. contaminando criticamente o ambiente marinho da região levando milhares de pessoas a miséria. 11 Serviço Social & Realidade. aproximadamente. 12 Sobre essa temática é interessante ver também a resenha da obra de Robert Castel. A pobreza e a miséria têm conseqüências geracionais. PNUD. publicada no jornal a Folha de São Paulo. ¼ não dispõe de habitação adequada. houve mais de 45 grandes acidentes industriais registrados.800 mortos por produtos químico-radioativo. precisaríamos de nada menos que duas Terras em 2050. com aproximadamente 2. Segundo o Relatório WWF13. acidente químico sobre o Rio Reno (Alemanha). como ‘gentilmente’ são chamados os miseráveis. um numero considerável de pessoas tem sua vida afetada por questões sócio-economicasambientais: cerca de 60% necessitam de saneamento básico. ¹/³ não tem acesso à água potável (salubre). 2001. 16(2): 207-234. com perdas de milhares de vida. 13 Relatório do Fundo Mundial para a Natureza. que sem desejarem estarão contribuindo para uma nova categoria social. em 1986 em Chernobil (Rússia) acidente nuclear com repercussões sobre a saúde humana sentida até hoje em diferentes partes do globo. intitulada “inúteis para o mundo”. New York: PNUD. de culturas. estes serão os surnumérareis12. e danos irreparáveis ao patrimônio social e ambiental. Fazendo nesta parte do texto uma alusão aos surnuméraires a que Castel refere em sua obra. 2001. New York: FNUAP.4 bilhões de pessoas que vivem em países em desenvolvimento. Os países mais ricos. a maioria deles em países em desenvolvimento. Franca. Informe sobre el desarrollo humano 2000. para manter a humanidade no estilo de vida atual. em 1984 acidente químico de Bhopal (Índia). Dos. aqui discutida. não mais de pobres. publicada pela socióloga Vera da Silva Telles. com danos nucleares atingindo o Oceano Pacífico. 2007 219 . 20% das crianças não freqüentam a escola até o final do quinto ano e mais de 8% das crianças morrem antes de completar os cinco anos de vida11. onde vivem apenas 20% da Dados retirados dos documentos FNUAP. nem de extremamente pobres.

aquela miséria. infelicidade e baixa auto-estima social. com os gritos. a firma Castel (2001).população do planeta. constata-se que o contrário da igualdade não é a desigualdade. projeta-se uma perda de 17 anos 220 Serviço Social & Realidade. insegurança cultural. 16(2): 207-234. as beiras de ser letal para a nossa sociedade. Esses eventos todos que foram citados são causaconseqüência de um modelo de desenvolvimento que construímos e que se tornou ineficiente. são os responsáveis por 86% das despesas totais com o consumo particular (privado). insegurança de emprego e de renda. A miséria do mundo como um dia escreveu Bourdieu (2000) assola. E neste tempo. O crescimento econômico não reduziu o desemprego na Europa. A pobreza não pode ser paisagem das ruas nas grandes cidades. “efetivo”. o contrário da igualdade é a indiferença. que muitas vezes passam imperceptíveis. Na América Latina. mas cerca de 85% foram no setor informal. enquanto os 20% mais pobres da população mundial representam apenas 13% destas despesas. 2007 . ela se instala quando o olho não mais se choca com a dor do outro. afetando aproximadamente 35 milhões de pessoas. insegurança na saúde. No dizer de Giddens (2002) ao fazer sua analise. “forte” o suficiente para não se colocar em situações de risco ou vulnerabilidade. como destacou Beck (1992). O sistema capitalista. que estacionou em 11% durante uma década. Para nove países da África. traz perda de autonomia. aquela dor. com o pedido de socorro. consome e vulnerabiliza. O risco é sinônimo da eminência de perigo e perigo gera insegurança. A vulnerabilidade quando constante. não falta insegurança: insegurança econômica. e além de não ir mal instaurou o risco como “o espírito de nossa era”. A indiferença é um mal que mata. mas que deixam profundas seqüelas em nossa vida cotidiana. o crescimento criou empregos. é normal ou é culpa mesmo do tal sujeito que sofre e que não foi “competente”. Franca. ameaças à segurança humana e a uma ruptura súbita e prejudicial no padrão da vida cotidiana. a carência. O pior dos estágios desta situação é quando além de não mais se chocar você acredita que aquilo tudo. não vai mal. Diante disso. o risco na sociedade contemporânea é o próprio mecanismo de reprodução social da sociedade. invade.

o fluxo cultural é desequilibrado14.“Não quero que a minha casa fique cercada de muros e que as minhas janelas fiquem fechadas. mas acima de 50% em Guizhou. sendo pesando fortemente numa direção. A distância da renda do quinto da população mundial que vive nos Mahatma Gandhi disse certa vez uma brilhante frase que no meu entendimento ilustra os riscos de um mundo globalizado sem ética e sem respeito à dignidade e a identidade humana. entretanto. o que se constata é a pobreza mundial. No ano de dois mil e oito completam-se nove anos do lançamento do décimo Relatório de Desenvolvimento Humano16 e treze anos da Declaração de Copenhague sobre Desenvolvimento Social. Sony – estabelece novos padrões sociais de Nova Deli à Varsóvia e ao Rio de Janeiro. A língua inglesa prevalece em quase 80% dos sites da Internet. esta é a frase que está no prefácio do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2000. o crescimento da desigualdade entre e dentro dos países. 14 Serviço Social & Realidade. Esta exclusividade cria mundos paralelos. no interior. e o que efetivamente mudou para o bem-estar da humanidade. Quero que as culturas de todas as terras soprem sobre a minha casa tão livremente quanto possível. a exclusão das pessoas e países pobres. as disparidades aumentam entre as regiões costeiras orientadas para as exportações e o interior: o índice de pobreza humana está ligeiramente abaixo de 20% nas cidades litorâneas. 2000). e a persistência de abusos dos direitos humanos. Na China. regredindo-se o tempo de vida aos níveis dos anos 60. contudo só é falado por uma pessoa em cada dez em todo o mundo. “A verdadeira riqueza de uma nação é o seu povo” (RDH. a dos países ricos para os países pobres. 15 O Inglês fala alto. A difusão das marcas mundiais15 – Nike. Os filmes de Hollywood faturaram em 1997 mais de 30 bilhões de dólares em todo o mundo e os analistas estimaram que este número quadriplicou em dois mil e seis. está longe de se configurar a materialidade do que preconiza a Declaração dos Direitos Humanos. A desigualdade tem crescido em muitos países desde o início dos anos 1980. 16 Os relatórios de 2000-2002 serviram de base de consulta para os dados que aqui foram desenvolvidos. 2007 221 . Franca. Hoje.na esperança de vida das pessoas até 2010. Este assalto da cultura estrangeira pode colocar em risco a diversidade cultural e levar às pessoas o receio da perda da sua própria identidade cultural. disse ele . 16(2): 207-234. Mas recuso ser derrubado por qualquer uma delas”.

Nos últimos anos da década de 1990. ao longo das últimas três décadas. demarca a necessidade de uma luta intransigente contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos. A complexidade de situações-problemas que surgem deste hiato como a migração. 222 Serviço Social & Realidade. e chegou em 1997 à cerca setenta e quatro (74) para um (1).] O último período da história da humanidade tratou de desfazer a ilusão de Marshall (1967). 2007 . 2000) Behring & Boschetti (2006. 16(2): 207-234.países mais ricos e o quinto que vive nos países mais pobres em 1960 era de trinta para um. “Mas a globalização é mais do que o fluxo de dinheiro e mercadorias . apenas 1. Em 1998. • 68% do investimento direto estrangeiram enquanto o quinto de menor renda. as 10 maiores empresas de agrotóxicos controlavam 85% de um mercado mundial de 31 bilhões de dólares e as 10 maiores empresas de comunicações. alcançando a proporção de setenta e quatro (74) para um (1). em 1990 passou para sescenta (60) para um (1). • 82% das exportações mundiais enquanto o quinto de menor renda. Franca. os conflitos. o quinto da população mundial que vive nos países de renda mais elevada tinha: • 86% do PIB mundial enquanto o quinto de menor renda.. o hiato da renda entre o quinto mais rico do mundo e o quinto mais pobre mais do que duplicou. 45) escrevem que “[. p.é a crescente interdependência das pessoas em todo o mundo”. apenas 1%. as oportunidades e recompensas da globalização difundem-se de forma desigual e não equitativa. 86% de um mercado de 262 bilhões de dólares. (RDH. apenas 1%.5%. dominando os resultados sociais e políticos. • 74% das linhas telefônicas mundiais. Quando o mercado vai demasiado longe. contundentemente realista. a instabilidade e outros problemas enraizados na e com a pobreza e a desigualdade. Mas. para quem as conquistas da cidadania poderiam se sobrepor à desigualdade.. meios básicos de comunicação atuais enquanto o quinto de menor renda. A globalização caracteriza-se por ser também interdependente em relação aos problemas. apenas 1%. as pressões ambientais.” Esta análise.

compreende-se que não existe uma relação linear entre os atores acima citados – Estados... Sociedade – compreende-se que não é intenção reinventar o contrato social. 1990) 17 Não há equação possível. 2007 223 . Mercado. ausência de perspectiva.quando as motivações do lucro dos atores do mercado ficam fora de controle. chamada Legião Urbana. que hoje não existe mais. entre tantas situações vexatórias. a idéia do contrato russouneano com a Fragmento da música Fábrica da banda brasiliense da década de noventa. Mercado. capaz de se constituir. Behring & Boschetti (2006) ao analisarem o contexto social brasileiro escrevem sobre um contexto que impõe a violência estrutural – a violência que vem de cima com sua flecha certeira atingem os pobres.. são elementos presentes na sociedade brasileira e em todo mundo. “Essa violência ‘de cima’ é composta de três elementos explosivamente combinados: o desemprego. 187). em geral associada às dimensões étnico-raciais e de gênero” (2006. composição de Renato Russo.] deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance [. p. 17 Serviço Social & Realidade. insegurança. nesse contexto. o exílio em bairros decadentes e a estigmatização na vida cotidiana.. Fatores combinados que produz medo. Um novo pacto social precisa ser estabelecido. desafiam a ética das pessoas e sacrificam o respeito pela justiça e direitos humanos. 16(2): 207-234. ausência de possibilidade de futuro. Sociedade [. Franca. ou estaremos fadados a barbárie diante dos modos como os contextos se circunscrevem. Ao iniciar a finalização deste texto. Mas como é possível se o futuro também é o lugar onde sonho e esperança podem se materializar? Parece.] (Fragmento de uma música – Fábrica. Estado. que a dignidade é apenas um atributo a ser compartilhado entre iguais e que distante deles parece nada. de desrespeito à dignidade humana.

que em seu maravilhoso livro Políticas Sociais Fundamentos e História. não interessa. Behring & Boschetti apresentam a análise da tese central de Mandel sobre os ciclos de expansão e estagnação do capital de uma maneira geral. para a “Crítica da Economia Política” – Grundisse .concepção de um Estado feito de nós. portanto se não entendermos as lógicas do mercado não poderemos construir estratégias por que. porque não é invisível e nem é imaleável. contudo. impactando a vida social. 16(2): 207-234. Precisamos desmontar os mitos a cerca do capital. p. Ora. um vínculo estrutural entre desenvolvimento e subdesenvolvimento. A mão invisível do mercado de Adam Smith (1982) poderia claramente ser considerada a mão inoxidável. embora interdependentes. É visível. de modo que o capital em seus mais diferentes ciclos. se os pobres não consomem que importância teria a pobreza para o capital? A aproximação com as teses de Ernest Mandel se deu por intermédio de Behring & Boschetti (2006). apresentam a trajetória da política social nos mais diferentes contextos históricos e econômicos acompanhando os diferentes ciclos do capital. ou seja: no estado de natureza. não conseguiu reverter sua influência mais perversa que foram por longas décadas a produção da miséria. Franca. os homens seriam livres e poucas coisas seriam capazes de lhes afetar a paz.não separa produção e consumo. 113-114) A hipótese geral de Mandel publicada no início da última década do século passado ao se referir ao longo processo de estagnação do capitalismo permanece válida – “uma retomada 224 Serviço Social & Realidade. dura. talvez o maior problema do capitalismo contemporâneo seja de como distribuir a ganância. 2007 . uma vez que a história de cada ator. é inerente ao mundo do capital seu desenvolvimento desigual combinado. a sociabilidade produziu a desigualdade e as tensões. uma vez que produção e consumo são elementos intrínsecos ao capital. anunciando um longo período de estagnação para o início desse milênio. são constituídos de fatores sóciohistóricos imbricados na sua estrutura e diferentes nas suas conseqüências. ou seja. Marx em texto de 1857-1859. portanto. “assim. pesada e excludente. E a miséria para o mercado não produz valor social.” (2006.

uma vez que atribui a pobreza e a extrema pobreza exclusivamente a insuficiência de renda. ecológicas. Na terceira edição do Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 2007 – RNAODM/2007 – é divulgado que o Brasil cumpriu a meta de reduzir pela metade a porcentagem de pessoas que vivem em situação de pobreza extrema. corrobora com esta analise.expansiva. um dólar dia corresponde a cerca de R$ 120. ocorre que se tomarmos a proporção de famílias que vivem na região Nordeste do Brasil. 18 PPC é uma sigla utilizada como indicador que significa Dólares por Paridade de Poder de Compra. p. Se tomarmos as características das famílias19 desta Região. e outras – pergunta-se. independente de conseqüências sociais. e “os apelos midiáticos ao consumo é uma condição para a dignidade social” (BEHRING & BOSCHETTI. Behring & Boschetti (2006) escrevem que críticos e analistas como David Harvey (1993). segundo as autoras. políticas. como já citamos anteriormente neste texto.00 reais mês o que equivale menos da metade do sálario mínimo nacional. o capitalismo orienta-se para o crescimento. e afirmam que tende a se assentar seu desenvolvimento desigual. 329). 2007 225 . 16(2): 207-234. é possível humanizar o leão faminto e insaciável? Muito procedente as analises de Menegat (2003) e Mézáros (2002) para quem o capital esgotou o seu papel civilizatório nesse milênio. 187188). 19 Está se trabalhando com o conceito de família segundo a Lei Orgânica da Assistência social – 8742. uma vez que produção-consumo constitui uma das bases de seu alicerce. que elimina a diferença de custos de vida entre os países. e às decorrentes tendências de barbarização da vida social. p. Para ele. caiu em 52% à proporção de brasileiros que ganham menos de um dólar PPC por dia18. por exemplo. de 07/12/1993. escreve o relatório que “[…] entre 1990 e 2005. Serviço Social & Realidade. O argumento de Mandel refuta de modo contundente hipóteses sobre uma possível humanização do capital. 2006. profunda e ampla dessa economia nos anos vindouros está totalmente excluída” (1990. No mínimo interessante este dado. Franca. suas contradições fundamentais. condição para acumulação. onde inferir sobre as necessidades sociais de modo que estas contribuam para impulsionar a outra ponta do processo é quase uma conseqüência.

a preservação do meio-ambiente e sua organização social. Corsi (2002. p. elevação do padrão da qualidade de vida. 1990. sem dúvida. abordando especificamente os impasses do desenvolvimento na atual fase da chamada globalização do capital corrobora com a analise de que a miséria. necessitam serem revistas em múltiplos aspectos que perpassam desde a sua compreensão até as ações mais simples. sobre balanço da situação dos países periféricos nos últimos trinta anos. Segundo Corsi. uma vez que não havia terreno para discussão acerca desse tema até as últimas décadas do século passado. Art. A questão das desigualdades sociais a partir desse início de século vem ganhando dimensões em escala mundial pois as analises construídas não são mera suposições são sobretudo tristes constatações. a pobreza ou a extrema pobreza. p. 14) ainda afirma ao se referir aos países de economia mais central que mesmo estando estes países no centro do sistema. O interessante estudo desenvolvido por Francisco Luiz Corsi. nem tarda a desaparecer: há fome de sonho. de felicidade. DORNELLES. MANDEL. 16(2): 207-234. e ela continua preponderante (IVO. bastante complexas e não podem serem tratadas de maneira simplista. Franca. 2007. iniciada no final dos anos 1960 e que abriu uma fase de “crise continuada” (HOBSBAWM. 1995). 2003). ALTVATER.” (CORSI. O incentivo a projetos de enfrentamento da pobreza assentar-se-á em mecanismos de articulação e de participação de diferentes áreas governamentais. não governamentais e da sociedade civil. “A situação de miséria vivida por parcela considerável da humanidade e a estagnação econômica de vastas regiões da periferia do capitalismo têm tornado cada vez mais premente a retomada da questão do desenvolvimento. capacidade produtiva e de gestão para melhoria das condições gerais de subsistência. 11). iniciativas que lhes garantam meios. 2007 . a fome não cede. 2002.constata-se que a maioria destas famílias são populosas20 e dadas as condições de vida. 2000. 25. ROCHA. buscando subsidiar. 1997. 20 226 Serviço Social & Realidade. “o contraste entre os ricos e os pobres presentes em quase toda grande cidade do mundo é similar ao que se manifesta entre as regiões pobres e ricas do planeta. 26. Os projetos de enfrentamento da pobreza compreendem a instituição de investimento econômico social nos grupos populares. de dignidade. financeira e tecnicamente. vive-se A seção V da LOAS – DOS PROJETOS DE ENFRENTAMENTO DA POBREZA: Art. dado o contexto em que a miséria e a pobreza rapidamente se globalizam.” Vive-se uma crise geral da sociedade capitalista.

. enquanto em Bangladesch são 55%. 2007 227 . essa busca cega pelo lucro tem implicado a destruição sistemática da natureza. que segundo a mitologia grega. Los Angeles é consideradas simultaneamente uma pomopolis (postmodern city) e uma capital do Terceiro Mundo com todas as contradições e os conflitos correspondentes [... havia visitado. 16(2): 207-234. carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática associado a negligência dos serviços públicos.um momento de globalização crísico como afirma Altvater que. no alargamento da miséria e da pobreza em escalas extratosféricas onde o mundo como escvreveu Milton Santos (1982). 1995. libertando todos os males. As Cidades Invisíveis trata de diálogos de Marco Polo com o grande imperador Kublai Kan. somente 40% da população masculina atinge 65 anos. 22 A obra de Ítalo Calvino – As Cidades Invisíveis – trata de um texto onde muito dos elementos ali trabalhados pelo autor. da vida social como ela é e se apresenta. Num destes diálogos é desenvolvido a noção de brechas que precisam ser cavadas em contextos onde tudo parece imutável. Diante das reflexões que foram arroladas ao longo do texto é necessário um desenvolvimento onde se removam as principais fontes de privação de liberdade. No Harlem a expectativa de vida média é inferior à de Bangladesh: ali. p. Marco Polo. A sazonalidade crisica do capital associado com sua necessidade de expansão extrativista. ao mesmo tempo em que contém o atributo mais valioso do espírito humano. 21 Serviço Social & Realidade. 24-25). a pobreza e a tirania. Pandora. se encontra dividido em dois: os que tem fome e os que não dormem com medo daqueles que tem fome. Franca. A arca contém o conhecimento da realidade da vida. das relações sociais.]. a esperança. que indica a morte da ingenuidade e da fantasia. O contraste entre o rico e o pobre em quase toda a ‘cidade global’ se reproduz na aldeia global. dos desafios que a cidade impõe aos seus visitantes. e o inferno de cada dia sendo reinventado em cada nação que fica mais empobrecida. entre Norte e Sul [. A caixa de pandora21 está aberta. O mundo unificado é um mundo dividido (ALTVATER.]. o interessante é que estes diálogos tratam da liberdade. sobre supostas cidades que ele. A estrela da esperança de Pandora assim como sina expressa na obra de Calvino – As Cidades Invisiveis22 – talvez A caixa de Pandora.. se aplica ao contexto da vida contemporânea. foi quem abriu a caixa que Zeus havia dado à Humanidade.

. e..] a degradação ambiental em conseqüência da externalização dos custos pelas empresas que tem causado problemas de saneamento. 70). daí a urgente necessidade de acreditarmos que as micro-ações produzem impactos. p. 16(2): 207-234. reinventar novas formas de relacionar social. é no terreno da vida de cada dia que geram e gerarão impactos porque as conexões e a interdependência das ações tenderão a mudar a totalidade maior e associado a todo este 228 Serviço Social & Realidade. 1995. a constante injustiça social. (RATTNER. a desigualdade social. economica e culturalmente. Isso significa que mesmo que as mudanças não sejam imediatas. entretanto.. 2007 .esteja em descobrir o que no inferno não é inferno. de saúde e marginalização sócio-cultural. (Ratner. hedonista e indiferente a brutal inexistência de respeito aos direitos humanos. 1995. é possível. Franca. analisa seus efeitos práticos como um processo que efetivamente vem contribuindo para. Ratner (1995) ao fazer uma análise sobre a Globalização escreve que.] A globalização surge como a condição objetiva fundamental das transformações estruturais em direção a um mundo solidário. as ações são interdependentes e explorar as brechas. que tal como em uma holografia. Ou. 60) O autor compreende que em tese seria esse o fim da globalização.. [. O desafio talvez esteja na crença de que nada é imutável e em reconhecer que estamos conectados e de que as ações ás vezes não se expressam no imediato. Pois a grande revolução geradora da grande transformação não irá acontecer. [. cuja superação exige não somente tecnologias apropriadas e recursos financeiros nacionais e internacionais. ir banalizando a vida de modo individualista. ao medo e a inseguraça. pacífico e de cooperação de todos os povos para superar os antagonismos e conflitos decorrentes da competição entre economias nacionais. p. mas também a formação de uma consciência social e de um poder político global.

KEYWORDS: Rights. Uma vez que a pobreza e a miséria foram e serão sempre expressões contundentes de violação dos Direitos Humanos. 1996. 16(2): 207-234. R. Contemplating on the contemporaneity of a cruel practice. v. 123.conjunto de elementos. Based in this argument this text tries to contribute with the reflection on the poverty as violation of the Direct Humans in a society in that production and reproduction of the social life are based on facts that start from insecurity. the beggars. without. F. however the adoption of a specific definition. Human • Referências ALTVATER. Franca. for instance. 260p. Serviço Social & Realidade (Franca). Human rights and poverty in the contemporary society: there is no possible equation. MENDONÇA. 1992. The text tries to present a reflexive rehearsal on an appealing practice of violation of the human rights through the decades that consolidates in the century XXI. Revista Brasileira de Ciências Sociais. p. ARRIGHI. 2007 229 . Contemporaneity. Desigualdade e pobreza no Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável. D. I. U. DORNELLES. Globalization. the fluidity that it has been treated. considered by the international organisms like International Monetary Fund – IMF and World Bank – BM. O preço da riqueza. 15. In this text it will be explained parts of the discussion that surrounds those categories. R. hunger. P. These no more and only bounded to territorial. 1995. Política Social: Fundamentos e História. E. maintaining.. developing countries as Brazil. BARROS. n. poverty. n. Risk society: towards a new modernity.. Rio de Janeiro: Contraponto. 42. O longo século XX: dinheiro. 2006. v. 2. HENRIQUES. Poverty. • ABSTRACT: The poverty cannot be a landscape of the streets in the great cities. 2007. or in those in more complex situations. BOSCHETTI.. poder e as origens do nosso tempo. BEHRING. to the globalization of the social risk. também se faz necessário a unidade da diversidade de todos aqueles que sofrem opressões. excluding that is producing legions of people without access to the minimum conditions of having cured their basic needs. 207234. R. BECK. Serviço Social & Realidade. E. São Paulo: Cortez. 2001. G. 16. São Paulo: UNESP. p. ethnic and or cultural domains. therefore. but also existent in those countries which are considered developed ones. Traduced Mark Ritter London: Sage.

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POR UMA ABORDAGEM SISTÊMICA NA COMPREENSÃO DA CONTEMPORANEIDADE Dimas dos Reis RIBEIRO* Claudia Maria Daher COSAC** • RESUMO: O estudo em questão objetiva uma melhor compreensão da abordagem sistêmica frente aos desafios da vida cotidiana. interconectada à Teoria Geral dos Sistemas. Interdisciplinaridade. A sociedade consumista e individualista em que vivemos tem conduzido à preocupação apenas com as coisas grandes e isso é juízo pessoal. dado ao engessamento. todos conectados e interconectados. por isso nada deve ser menosprezado. sob a ótica de que um sistema é formado por elementos. numa ferramenta e até na administração pública. seja num carro. PALAVRAS-CHAVE: Sistemas. estamos inseridos no todo. objetivos e meioambiente. onde a complexidade é ainda maior. Franca. • Introdução Em pleno alvorecer do século XXI a abordagem sistêmica tem sido mais um instrumento na tentativa de compreender a gama de problemas desafiadores tendo em vista a necessidade de se construir homens capazes de buscar soluções e ter a percepção de que apesar se sermos partes. às organizações. Identificar tudo o que faz parte do sistema. Mestre em História pela UNESP. fruto da nossa formação e percepção. Informação. à administração pública e aos sistemas de informação. Serviço Social & Realidade. Dentre as possibilidades da abordagem sistêmica. daí ser crucial a observação do raciocínio sistêmico. Docente na UNIPAC – Monte Belo/MG. pois uma partícula. Pensamento Sistêmico. Esquecemos de nos ater aos detalhes e deixamos de perceber que a falta de um parafuso pode gerar inúmeros transtornos. uma decisão fora de hora e de lugar pode fazer a diferença. primeiro precisamos dividir o problema em problemas menores. 16(2): 235-262. 2007 235 . relações. fruto do amontoado de leis * Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social pela UNESP – Campus de Franca. ** Docente do Departamento do Serviço Social e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP – Campus de Franca. Organizações.

Só a ampliação e o aperfeiçoamento do conhecimento nos permitirá entender e encontrar soluções para os problemas da contemporaneidade. através do conhecimento e da sociedade civil. p. uma nova lei. apesar das divergências e 236 Serviço Social & Realidade. acumularam conceitos e teorias edificando o conhecimento atual. mas da capacidade de equiparar o trabalho com novas habilidades baseadas num conhecimento novo” (CAPRA. acabam favorecendo os interesses dos politiqueiros corruptos de plantão. Daí. novos arranjos e mais e mais leis. Para resolver o problema da mudança das organizações. se faltar uma agulha descartável para aplicar uma vacina. 2002. 2007 . A cada novo desvio. Contribuições teóricas precursoras Para chegarmos à abordagem sistêmica um longo caminho foi percorrido pelos pesquisadores e estudiosos que.que acabam conduzindo à ineficiência e lentidão. novas artimanhas. temos nos preocupado em demasia com a mecanização e com os inúmeros equipamentos tecnológicos. 112). Na contemporaneidade. Munidos dessa compreensão. 112-113). Franca. 2002. temos. Se isso realmente é verdade e parece que é. Chega-se ao ponto de muitos estudiosos afirmarem que a corrupção tornou-se sistêmica. acredita-se que só com mecanismos e as mesmas ações sistêmicas. p. de nada terá adiantado gastar milhões de dólares com pesquisas. poderão superar. ter uma visão holística da realidade. a diversidade e a criatividade da vida (CAPRA. “Os aumentos de produtividade não vêm do trabalho. Precisamos olhar para o todo. podemos começar a projetar de acordo com ela os processos de mudança organizativa. de compreender os processos naturais de mudança que caracterizam todos os sistemas vivos. essa conjuntura que tanto aflige os homens e mulheres de bem do nosso país. antes de mais nada. 16(2): 235-262. Excluídas as tentativas quase que ilusórias de se conter e coibir os desmandos. Só a visão do todo possibilita a compreensão de como as partes se interconectam. e criar organizações humanas que reflitam a versatilidade. programas e treinamento de pessoal. mas numa farmácia seja ela pública ou privada. a partir de suas práticas e pesquisas.

remuneração. estabilidade do pessoal. hierarquia. no mesmo período de Fayol. iniciativa e união. autoridade e responsabilidade. estrutura. unidade de comando. através da Administração Cientifica de Taylor. a preocupação básica passou para a ênfase na estrutura com a Teoria Clássica de Fayol e com a Teoria da Burocracia de Weber. esses princípios deveriam ser seguidos por todos da empresa. Serviço Social & Realidade. 2000. Cada uma dessas cinco variáveis – tarefas. Segundo o próprio autor. desenvolveu a ênfase na tecnologia. posteriormente. Esses princípios guardam alguma semelhança com aqueles definidos por Taylor (ênfase nas tarefas). subordinação do interesse particular ao interesse geral. evolução e aperfeiçoamento do saber. seguindo-se mais tarde a Teoria Estruturalista. ambiente e tecnologia – provocou. A seguir. pessoas. 8) Objetivando estruturar melhor os conhecimentos da administração e fazer com que sua teoria fosse compreendida e colocada em prática. A ênfase no ambiente surgiu com a Teoria dos Sistemas. acabaram produzindo um conhecimento que se complementa. pois cada qual ao seu tempo e modo contribuiu para a construção.contradições nada deve ser menosprezado. p. centralização. numa tentativa de controlar as variáveis que poderiam influenciar o sistema. marcando um gradativo passo no desenvolvimento da TGA. Esta. tais como: divisão do trabalho. A reação humanística surgiu com a ênfase nas pessoas. 2007 237 . o que nos possibilita dizer que embora não se conhecessem e tenham partido de pressupostos diferentes e até opostos. unidade de direção. A Teoria Geral da Administração começou com a ênfase nas tarefas (atividades executadas pelos operários em uma fábrica). Fayol (ênfase na estrutura). Cada teoria administrativa privilegia ou enfatiza uma ou mais dessas cinco variáveis (CHIAVENATO. ordem. Franca. sendo completada pela Teoria da Contingência. por meio da Teoria das Relações Humanas. 16(2): 235-262. na primeira década do século XX. disciplina. a seu tempo. equidade. porém não eram conhecidos à época. uma diferente teoria administrativa. mais tarde desenvolvida pela Teoria Comportamental e pela Teoria do Desenvolvimento Organizacional. elaborou uma espécie de manual onde expôs seus próprios princípios.

A Teoria Geral da Administração passou por uma gradativa e crescente ampliação do enfoque desde a abordagem clássica – passando pela humanística. A partir daí. Evolução Histórica da Abordagem Sistêmica Os estudos realizados pelo biólogo alemão Ludwig Von Bertalanffy. todas as ciências passaram a tratar os seus objetivos de estudo como sistemas. estruturalista e behaviorista – até a abordagem sistêmica. a disputa natural por poder. Na sua época a abordagem clássica havia sido influenciada por três princípios 238 Serviço Social & Realidade. certa e organizada. e ainda. percebemos que existem algumas discordâncias entre Fayol e outros autores dessa mesma abordagem. leva a um radicalismo extremo de idéias e a uma abordagem mecanicista e determinística da organização. surgimento de grupos informais. evidente desde sua primeira concepção. sem considerar as influências dos grupos sociais que a compõem. Encarando como paradigma. neoclássica. a não-aceitação da anulação de objetivos pessoais em relação aos organizacionais. Franca. Essa visão de empresa enquanto máquina. pessoas e coisas. mostrando a dependência recíproca e a necessidade de integração entre elas. podemos observar a influência da racionalidade de seu pensamento e o quadro de referência influindo na concepção de seus princípios. sem sentimentos de qualquer espécie. Com isso ele deixou de considerar os aspectos psicoorganizacionais que permeiam qualquer inter-relação entre pessoas. sistematizou e proporcionou uma teoria interdisciplinar também conhecida por Teoria Geral dos Sistemas (TGS). isso precisa ser mudado. na produção e na ampliação do conhecimento. inclusive a administração. pois auxiliam no aperfeiçoamento. impedindo-o de ver aspectos de conflitos grupais. como nos dizeres de Charles Chaplin: “não sois máquinas. homens é que sois”.Ao estudarmos os princípios da administração. A não existência desses fatos leva-nos a crer que as pessoas funcionam como máquinas. 16(2): 235-262. porém as diferenças são pequenas e saudáveis. tornando a empresa em alguma coisa. o que possibilitou a eliminação das fronteiras e o preenchimento dos espaços vazios nas ciências. Quando observamos a forma concebida por Fayol de arrumar a casa. 2007 .

intelectuais dominantes em quase todas as ciências no inicio deste século: o reducionismo. do pensamento analítico e do mecanicismo passam a ser substituídos pelos princípios opostos do expansionismo. Alexander Bogdanov. pensamento sintético e da teleologia. Com esses três princípios a Teoria Geral de Sistemas (TGS) permitiu o surgimento da Cibernética e desaguou na Teoria Geral da Administração. 1996. psicólogos da Gestalt e ecologistas. filósofo e economista russo. e assim permanece até os dias atuais. de relações e de contexto. já havia desenvolvido uma teoria sistêmica extremamente sofisticada. publicadas em 1950 e 1968. p. é possível que ela seja anterior a este período. (CHIAVENATO. 46) Mesmo porque 30 anos antes o pesquisador médico. Como afirma Chiavenato (2000). p. Todavia. p. 2000. Esse novo pensamento também foi apoiado pelas descobertas revolucionárias da física quântica nos domínios dos átomos e das partículas subatômicas (CAPRA. a exploração de sistemas vivos – organismos. os princípios do reducionismo. 1996. Franca. 16(2): 235-262. com o advento da Teoria Geral dos Sistemas. 493). através do livro Tectologia. como afirma Capra: Por volta da década de 1930. partes de organismos e comunidades de organismos – levou os cientistas à mesma nova maneira de pensar em termos de conexidade. o pensamento analítico e o mecanicismo. pois. redimensionando suas Serviço Social & Realidade. publicado entre 1912 e 1917. 51). Na realidade Bogdanov antecipou a estrutura conceitual da teoria geral dos sistemas. 53). p. só que totalmente desconhecida fora da Rússia. mas foi com Bertalanffy e suas concepções de sistema aberto que o pensamento sistêmico tornou-se um movimento científico de primeira grandeza (CAPRA. 2007 239 . a maior parte dos critérios de importância-chave do pensamento sistêmico tinha sido formulada pelos biólogos organísmicos. embora muitos estudiosos afirmem que a Teoria Geral de Sistemas tenha tido sua gênese com as pesquisas realizadas por Bertalanffy. No desenvolvimento da teoria esclareceu e generalizou os princípios organizativos de todas as estruturas vivas e não vivas (CAPRA. 1996. Em todos esses campos.

com muita probabilidade produzirá mudanças nas outras unidades. processamento. filosofia. 2007 . ou seja. saída. educação. buscando compreender o funcionamento dos sistemas e subsistemas subjacentes.concepções. independentemente do tipo de cada um. Tem por finalidade a identificação das propriedades. Quanto aos sistemas. a organização das soluções complexas para os problemas complexos. da interdependência das causas e variáveis dos sistemas complexos. etc. Aberto quando apresenta relação de intercâmbio. São físicos quando compostos de equipamentos. dos sistemas demonstra ser físico ou abstrato. Um sistema é um conjunto de coisas ou partes. seus propósitos e objetivos. A constituição. se inter-relacionam para formar um todo único. ou entidades. saúde. Essas fragmentações são imposições e fruto da criação e dos interesses dos homens. com seus elementos em interação de natureza ordenada e não fortuita. troca e interação com o ambiente interno e 240 Serviço Social & Realidade. objetivos e o globalismo. quando se materializam em coisas reais. todo sistema tem uma natureza orgânica. da natureza de seus elementos componentes e das relações entre eles. Neste sentido. São abstratos quando compostos de conceitos. precisamos analisá-los tendo em vista a sua constituição e natureza. de maquinaria. Todo sistema possui os mesmos componentes. política. 16(2): 235-262. afirmava ele. Todo sistema tem propósitos. mas produzir conhecimento e formular conceitos que possam criar condições de aplicações a partir da realidade. O enfoque sistêmico é uma ferramenta que possibilita a compreensão da multiplicidade. princípios e leis característicos dos sistemas em geral. onde os objetos. hipóteses e idéias. A Teoria Geral de Sistemas não tem como objetivo resolver problemas ou buscar soluções práticas. envolvendo a interconectividade de e entre suas partes. ciência. objetos. Os sistemas possuem dois conceitos que retratam bem suas características básicas. planos. formando um todo complexo e unitário. A compreensão dos sistemas somente ocorre quando estudamos os sistemas no aspecto geral. pela qual uma ação que produz mudança em uma das unidades do sistema. entrada. até mesmo a vida cotidiana. economia. Bertalanffy negava a idéia de dividir o mundo e o saber em diferentes áreas. Franca. A natureza dos sistemas se apresenta aberto ou fechado. avaliação e ambiente.

a abordagem sistêmica conseguiu profundas repercussões na teoria administrativa. Retroação é a função do sistema que visa comparar a saída com critérios. novamente aos ambientes com os quais se interconecta. é o mecanismo de conversão das entradas em saídas. O modelo de sistema aberto é sempre um complexo de elementos em interação e em intercâmbio contínuo com o ambiente. Sob este posicionamento. apesar da matéria e energia que o integram se renovarem constantemente. ou seja. incluindo a natureza). Saída. a que impulsiona o ponto de partida do sistema (o carro. O sistema aberto mantém intercâmbio de transação e se conserva constantemente no mesmo estado. que motivam avaliações constantes para controle das metas a serem atingidas pelo e com o próprio sistema. com padrões previamente estabelecidos (por todos e tudo enquanto parte integrante do sistema). Este tipo de sistema é influenciado pelo meio ambiente e influi sobre ele. Todo sistema é caracterizado por determinados parâmetros. interação esta que provoca mudanças em todas as partes dos ambientes. de tal forma que existe entre ambos – sistema e ambiente – processo em permanente interação. 16(2): 235-262. tal e qual o efeito dominó. A descrição de sistema aberto é exatamente aplicável a uma Serviço Social & Realidade. que fornece material e energia para a operacionalização do sistema. 2007 241 . Processador é o fenômeno que produz mudanças. a finalidade para a qual se reuniram elementos e relações do sistema. Fechados quando não apresentam intercâmbio com o meio ambiente ao seu redor. por exemplo).externo através de entradas e saídas intermitentes. alcançando estado de equilíbrio dinâmico no meio. quando nega qualquer tipo de influência de dentro para fora e fora para dentro do sistema. a força propulsora. transmitindo a noção de casulo sem a menor perspectiva de transmutação. Ambiente é o meio que envolve interna (toda estrutura própria do sistema) e externamente (a conjuntura no seu entorno abrangente aos subsistemas e ecosistemas subjacentes a ele. Franca. Esses parâmetros revelam ser: Entrada. processaos e efetua saídas. em permanente processo. O sistema aberto recebe entradas dos ambientes.

A visão de que o todo é mais que a soma das partes. da integração interna e da adaptação externa. qualquer organização em qualquer lugar do mundo dificilmente conseguiria sobreviver sem considerar o papel e a importância dos sistemas de informação. A perspectiva sistêmica trouxe uma maneira plural de ver as coisas. hardwares e softwares. interrelacionando-se com os demais indivíduos como um sistema aberto. Uma 242 Serviço Social & Realidade. morfogênese e requer respeito às fronteiras estabelecidas. ou seja. Franca. privilegia a totalidade e as suas partes componentes. contabilidade. Um computador colocado dentro de uma organização não ajuda em nada. 2007 . Uma prefeitura é um sistema criado pelo homem e mantém dinâmica interação com seu meio ambiente. Isso é que é importante para a organização. da eficiência e da eficácia. homeostase. É importante destacar algumas características básicas das organizações enquanto sistemas. O enfoque do todo e das partes. não apenas em termos de abrangência. pois apenas eles possibilitam conectar dois mundos: a tecnologia da informação e a organização de e entre todos os seus componentes. supervisões. do dentro e do fora. do uno e do múltiplo. mas. É preciso algo mais que isso. Influi sobre ele e recebe influências dele. porque as organizações não querem apenas tecnologia. que provocam interdependência. Importância e função dos sistemas de informação (Cibernética) Hoje. tesouraria. com a finalidade de alcançar uma série de objetivos. controladoria. gerências. diretorias. tanto da organização como de seus participantes (traduzidos pela implementação e efetivação das políticas públicas que assegurem bem estar aos cidadãos).) que trabalham em harmonia umas com as outras. O que as organizações querem da tecnologia são as informações. A Teoria de Sistemas baseia-se no conceito do homem funcional. as propriedades do todo que não aparecem em nenhuma de suas partes.organização. do conjunto e da especialização. como parte da sociedade maior. 16(2): 235-262. que exerce papel dentro das organizações. É um sistema integrado por diversas partes relacionadas entre si (secretarias. principalmente quanto ao enfoque. mas não despreza o emergente sistêmico. pois. Esses dois mundos não podem simplesmente ser colados. são constituídas de partes menores. etc.

pois não sabe o que coletar nem o que devolver. aí é que entram os sistemas de informação. A ponte ou canal por onde passam as informações é o sistema de informação. A informação é o único recurso que não se perde com o uso ou com a disseminação. uso e perda. ele até pode vir com software. A informação só se perde quando se torna ultrapassada. Franca. a informação não pode vir do nada. de nada adianta os outros três Serviço Social & Realidade. surgiu a definição de sistema. Acrescentam-se ainda duas outras fases: planejamento e controle. Ou seja. que os sistemas possuem características e leis independentemente da área onde se encontram. Ela não nasce da tecnologia de forma espontânea. 16(2): 235-262. 2007 243 . Elementos básicos de uma organização Os elementos são os recursos da organização e podem ser classificados em recursos financeiros. São esses sistemas que determinam o que tem que ser coletado da organização. E para tomar decisões corretamente são necessárias informações precisas. mas não vem com as informações. recursos humanos e recursos de informação. Sem os sistemas de informação. Podemos dizer que os recursos mais importantes reportamse às informações e as pessoas.organização pode ser vista como uma rede de informação. Assim. decisão e ação. Há anos algumas pessoas têm percebido que há coisas comuns nas diferentes áreas do conhecimento. a tecnologia de nada serve. Por outro lado. Isto quer dizer que todas as áreas do conhecimento possuem sistemas. armazenado na tecnologia e o que deverá ser devolvido para a organização. Quando alguém compra um computador. porque antes a tecnologia coletou e armazenou informações. materiais. Existem problemas similares que podem ser resolvidos com soluções similares. Essas pessoas perceberam que algumas características e regras aconteciam em todas as áreas. pois. As informações vêm da tecnologia. Cada um desses tipos de recursos passa obrigatoriamente por um ciclo de vida que apresentam as fases de aquisição. que é um conjunto de elementos inter-relacionados com objetivos comuns. energéticos. para que as ações possam ser desempenhadas é preciso antes tomar decisões. Mas esta troca de informações entre a tecnologia e a organização é mediada e controlada por algo.

As primeiras são aquelas diretamente relacionadas ao objetivo da organização. 514). controle de estoque. O emblema do mundo na Era da Informação e na entrada do terceiro milênio é o computador. pois com essa base é que serão tomadas as decisões. as atividades de venda e compra de produtos. já que a empresa terceira conhece melhor as funções 244 Serviço Social & Realidade. a contabilidade e a segurança dos materiais são meio. entre elas: precisão. 2007 . A informação é de vital importância para as organizações. 16(2): 235-262. muitas organizações vivenciam o fenômeno conhecido como terceirização. Por exemplo. Hoje. A informática é a responsável pela reestruturação do capitalismo. Para ser útil. atualização e nível de detalhe adequado. E quanto mais informação houver.sem esses dois. 515). circulação de mercadorias. É ela que dinamiza os processos de produtividade. p. Franca. são funções fins. que é o processo de delegar a outras organizações algumas funções da própria organização. O que relaciona os elementos de uma organização são os processos. funções e atividades executadas dentro da organização que podem ser entendidas como funções/atividades fins ou meio. mas na informação. não acrescentam valor às organizações. melhor a decisão. a administração das organizações e responde pelo fenômeno da globalização do mercado. competitividade. numa loja de produtos agropecuários. objetividade. As funções meio são aquelas que apóiam as demais. 2000. “Hoje. A informação sem as pessoas não existe e pessoas sem informação não ajudam. O sucesso da informática reside no espetacular aumento da eficácia em todas as operações que dependam dela. o capital não se acumula mais no dinheiro. 2000. O principal argumento de quem defende a terceirização é que ela traz redução de custos. a informação necessita ter algumas qualidades. que não seria possível sem a rede de conexões entre os agentes econômicos e financeiros do mundo todo. A informática é um poderoso instrumento de produção e dinamização das informações (CHIAVENATO. Quem tem informação tem poder” (CHIAVENATO. O volume crescente de informações cruzando o planeta na velocidade da luz serve para organizar a vida humana em todos os setores. No mesmo exemplo. as atividades de limpar a loja. p.

o que se deve. No entanto. daí a necessidade da terceirização ou a capacitação dos funcionários do quadro da organização. 2007 245 . às possibilidades de planejamento. Já a empresa terceira tende a realizar melhor as atividades terceirizadas. no caso de Alterosa (cidade de pequeno porte do sul de Minas Gerais). As conseqüências da globalização podem ser resumidas em contração e expansão. controle de estoque e tributação. ela passa a se preocupar mais com suas atividades fins. e a contração é a divisão de uma parte maior em menores. tesouraria. A globalização tem sido orientada pelos objetivos das empresas que ou se integram ou se dividem. Quanto à informática ela é terceirizada em muitas organizações. mas. sem se confundir com outras tarefas ou se desviar de seu rumo. porque possuem melhor conhecimento do ramo. contabilidade. pois a empresa contratada acaba dispondo de informações importantes e até sigilosas. enquanto que outros preferem se isolar. O mesmo ocorre com as empresas que buscam espalhar suas atividades de produção e venda pelo mundo realizando o processo de homeostase. Esses fenômenos ocorrem com os países. com as empresas e também com as pessoas. Quando é de interesse Serviço Social & Realidade. Quando uma organização terceiriza atividades. 16(2): 235-262. Franca. gerando novas preocupações para os administradores. A expansão é o fenômeno ou processo de integração entre partes antes distintas e independentes. o qual influencia o modo como as atividades de uma organização são desempenhadas. o Mercosul. a Comunidade Econômica Européia. O problema é que nem sempre os pequenos municípios dispõem de profissionais habilitados ou capacitados para a produção de softwares. acompanhamento e controle da frota municipal. principalmente. Mas a raiz de tudo está na concentração de esforços nos objetivos da empresa. Os países se expandem quando cooperam entre si. Só que aí se vê um sério risco. realizaram-se estudos quanto à terceirização do transporte escolar e concluiu-se que ele sairia três vezes mais caro do que o transporte público municipal. por exemplo.terceirizadas. Outro fenômeno que devemos considerar nos dias atuais é a globalização. geralmente só a parte considerada pesada como o processamento de dados: rodar a folha de pagamento.

A Abordagem sistêmica na atualidade e os objetivos das organizações Todo sistema possui um objetivo geral ou global. Estes podem incluir definições de classes de 246 Serviço Social & Realidade. Toda organização tem uma missão que define seu papel na sociedade ou mercado. Franca. permitindo às pessoas saber o que fazer. empresa que vende bombons: oferecer presentes surpreendentes. Para definir a missão. uma empresa de elevadores: deslocamento de pessoas entre dois pontos. 16(2): 235-262. uma empresa que produz máquinas copiadoras: gerenciamento de documentos. ou seja. um hospital: melhorar a saúde da população. se o vendedor conseguir descobrir qual é esta necessidade. Não só por serem sistemas. porque senão restringe o saber fazer e o onde chegar. que pode ser vestir-se melhor ou encontrar algo para praticar um esporte ou até conseguir um meio de se exibir. Por exemplo. o que ela tem a oferecer aos seus clientes. mas para terem um rumo a seguir.para os objetivos das empresas elas se unem e quando os objetivos já não estão mais tão integrados. que se traduz em objetivos menores. A missão não deve ser algo como só buscar lucros. por que e para que. Isso permite controle qualitativo de como alcançar estes objetivos no sentido da pertinência éticopolítica entre meios e fins. as empresas se separam. Nesse caso. Como a missão das organizações geralmente é um objetivo amplo e difícil de ser atendido. 2007 . na verdade deseja satisfazer uma necessidade. Quando alguém entra numa loja de roupas. poderá oferecer um sapato mais adequado e que deixe o cliente satisfeito. é preciso conhecer o que o cliente busca na organização e isso não é tão óbvio quanto parece. a organização tenderá a fazer tudo para alcançá-lo o que atropela os meios com relação aos fins visados. o que uma pessoa quer quando entra numa loja de roupas? Muitos responderão: ela quer uma roupa. Se a missão for simplesmente o lucro. uma clínica de cirurgia plástica: aumentar a auto-estima. ela deve ser especificada em objetivos menores. Como exemplos de missão podemos citar uma loja de sapatos: vestir pessoas. Nem sempre! As pessoas buscam satisfazer suas necessidades e concretizam isso na forma de produtos e serviços. como. Todas as organizações têm objetivos.

Estes valores. 2007 247 . etc. associadas a um tempo determinado. Para cada cliente. apesar da difícil jornada até lá. Os objetivos específicos por sua vez dependem de metas. Chegar ao topo de uma montanha pode ter valor para alguém. há valores diferentes.clientes-alvo. quer encontrar um ambiente confortável. Daí pode surgir as expansões horizontais e verticais. Isso explica por que algumas pessoas pagam muito por um determinado utensílio enquanto que outras pagariam pouco ou nada. Todo cliente quer satisfazer sua necessidade. É por isso que concessionárias e revendas de automóveis se juntam a empresas de colocação de sistemas de áudio e. ser bem atendido. de tal forma que Serviço Social & Realidade. Essa cooperação é boa para ambas as empresas porque uma não precisa buscar clientes. também. Isso ajuda a entender melhor quem são os clientes desta organização e se esta está oferecendo produtos ou serviços adequados. a loja de roupas passa também a fabricar a roupa e até o tecido. 16(2): 235-262. uma vez agregados. A expansão vertical ocorre quando a empresa diversifica seus produtos ou serviços. além de algo para satisfazer sua necessidade. A missão da organização não muda com o tempo. O conceito de valor ajuda a entender como um cliente satisfaz suas necessidades. Franca. até mesmo combinando serviços ou produtos para satisfazer mais amplamente os clientes. Toda organização precisa ter metas. de regiões de atuação. Quando um cliente vai a uma loja. enquanto que a outra oferece valor agregado para melhor atender o cliente. A primeira ocorre quando a empresa passa a desempenhar mais funções na cadeia de produção. um local de fácil acesso. trocando informações. construtoras vendem apartamentos e casas já com carpetes colocados por outras empresas. Outro conceito importante é o de valor agregado. Cada organização deve identificar os valores que proporciona aos seus clientes. de políticas de preços. Por exemplo. etc. é preciso também conhecer o que é valor para ele. ajudam a satisfazer o cliente. A agregação de valores faz com que as empresas cooperem entre si. mas sempre da melhor forma possível. mas seus objetivos específicos sim. ele quer. Valor é aquilo que o cliente obtém de uma empresa para satisfazer uma necessidade em troca de um custo ou investimento. Para entender qual a necessidade do cliente e o que ele deseja.

Atender melhor o cliente ajuda. Para reduzir os custos é necessário aperfeiçoar o uso dos recursos. No caso das organizações sem fins lucrativos. aumentando receitas ou gastando apenas o que se arrecada como manda os ditames da Lei de Responsabilidade Fiscal para a administração pública. práticas contrárias aos princípios éticos 248 Serviço Social & Realidade. Caso contrário seria o fim de suas atividades. manter a qualidade de produtos e serviços. O lucro deve fazer parte dos objetivos específicos seja reduzindo custos. A visão sistêmica postula que todos os elementos influenciam e são influenciados reciprocamente. a condição ética constitui o critério para um equilíbrio operacional e a capacidade de resistência à ruptura do sistema – ou seja. pois essas pessoas também são parte integrante de outras organizações. torna-se necessária a visão de marketing que possibilite as organizações concentrar seus esforços no cliente e em suas necessidades. a escola. Por outro lado. para aumentar a receita é preciso conquistar novos clientes: marketing de precisão. E. fiéis e mais lucrativos. Para isso. Afinal. tomar melhores decisões. evitar desperdícios. mas. mas não está só condicionado a valores éticos. nos lucros da empresa. também. por conseqüência. o serviço prestado. Assim. como a família. O marketing orientado ao cliente parte da importância social da organização. Por trás disso. é muito mais barato manter os clientes do que conquistar novos. a garantia de uma nova venda começa quando o cliente sai da loja. avaliar a satisfação das pessoas. Será a garantia de novos lucros. há sempre a questão da permanência e sobrevivência da organização. 16(2): 235-262. Por isso. por exemplo. cativar as pessoas pode ser um mecanismo de para manter a sua fidelidade. nenhuma pode empatar ou ganhar menos que gasta. O seu retorno será a prova de que se criaram conexões e interconexões positivas. este ganho não pode ser denominado de lucro. visa o que for melhor para a maioria da coletividade.pensando nelas é que todos devem trabalhar e isso deve ser a motivação principal da organização. Franca. vender mais para os mesmos clientes: freqüentes. inteligência competitiva. 2007 . colaboração com outras empresas. de sua sustentabilidade. o clube. a igreja que freqüentam e tantas outras organizações pelas quais transitam. É bom lembrar que um cliente descontente tende a influenciar um conjunto de outras pessoas. o trabalho. quando começa a usufruir o bem.

Alterosa. começa a ceder suas terras para a plantação da cana-de-açúcar para a produção de álcool. resultou em recessão econômica e elevação das taxas de desemprego. No município de Alterosa. o local onde ocorre o problema – a região dos Lagos de Furnas. sociais. enfocamos o problema do crescente desemprego e violência na região de plantação de cana-de-açúcar. sob a concepção sistêmica é necessário aprofundar a questão e analisar a partir do contexto histórico e espacial que reflete as intrincadas relações e dinâmicas econômicas. 2007 249 . Para entender as tendências da globalização requer-se uma abordagem holístico-sistêmica. abrindo oportunidades para a construção de relações sociais mais estáveis e equilibradas dentro e entre sistemas. grande produtora de café e leite. transferindo assim os custos de manutenção de um precário equilíbrio para os segmentos mais pobres e politicamente mais fracos – a maioria da sociedade. não conseguirão sobreviver em um ambiente holístico imposto por sistemas crescentemente conectados e comunicantes em uma sociedade mundial. 16(2): 235-262. Diagnósticos convencionais poderiam apontar para o raciocínio cartesiano dizendo tratar-se de aspecto conjuntural inevitável. um programa social. contrárias aos interesses e ao bem-estar públicos. isso para atender a nova política energética do Governo Federal. A globalização cria condições favoráveis para estabelecer vínculos entre os subsistemas existentes em uma sociedade e reforça as tendências em direção à integração. culturais. a fim de defender a moeda nacional contra os efeitos desestabilizadores de fuga de capitais e da especulação na bolsa de valores. atendia 120 Serviço Social & Realidade. O aumento das taxas de juros no Brasil. ambientais e políticas da região. No entanto. denominado Agrovida. Franca. arrendam suas terras e realizam o plantio da cana sem levar em consideração a necessidade de produção de alimentos básicos. por causa do desequilíbrio que produzem no sistema. Os atores sociais que incorrem em práticas antiéticas. por exemplo. resultando em tensões e conflitos.serão eliminadas. Areada e Monte Belo. Para ilustrar o entendimento sobre o raciocínio sistêmico. causando danos ou prejuízos. médios e pequenos. Assim. Percebe-se que isso tem sido feito sem planejamento e sem critérios. plural e interdisciplinar. cidades do Sul de Minas Gerais. embora aparentemente bem sucedido. os usineiros oferecem vantagens para os produtores rurais.

exige mudanças significativas nas políticas públicas através da conscientização política e pressão da sociedade civil. Campos de Franca. mesmo. Com um superávit mais alto o governo esperava poder pagar as altas taxas de juros sobre suas dívidas interna e externa e. 2007 . Unesp. são inevitáveis e irreversíveis e. embora responsáveis pela escassez de alimentos. Mudar esse cenário e. mesmo assim. nem sempre devidamente informada. exportadores e instituições financeiras multilaterais induz a população a acreditar que essas políticas. habitação e transporte público. Essas observações nos levam a investigar sobre as políticas econômicas que criam condições favoráveis.famílias. destroem os recursos naturais. habitação. As altas taxas de juros desencadeiam a recessão que por sua vez provocam o fechamento de pequenas e médias empresas e o conseqüente aumento de desemprego em todos os setores da economia. teve suas terras retiradas e cedidas à Usina Monte Alegre. enquanto a poluição dos rios. base de sobrevivência das populações de pescadores. o superávit primário brasileiro. benéficas para o desenvolvimento e bem estar do país. lagos e da costa por fertilizantes químicos e pesticidas utilizados nas mesmas plantações. Se a análise causal e linear do método cartesiano foram instrumentos apropriados no contexto dos séculos XVIII e XIX – em que as 250 Serviço Social & Realidade. pelos partidos políticos. A perda de produtividade e a concentração de terras pelas grandes empresas de plantação de cana-de-açúcar estão causando a expulsão de famílias e comunidades inteiras das áreas rurais. Franca. além da redução na remuneração do trabalho. ela deve ser uma construção de cada um de nós. assim. 16(2): 235-262. Menos recursos para investimentos produtivos nas mãos do governo significam cortes de despesas públicas em educação. manter em nível razoável seu déficit fiscal. tratava-se de um programa considerado modelo de agricultura familiar que recebeu o Prêmio Assis Chateaubriand e foi temática de dissertação de Mestrado na Universidade Estadual Paulista. industriais. assim. seja pela mídia e. Ela se apresenta como uma opção para articular os conhecimentos científicos e não-científicos que se debruçam sobre os problemas sócio-ambientais. A interdisciplinaridade não existe a princípio. O discurso oficial apoiado pela burguesia. reduzir o desemprego e a violência. por exemplo. saúde. educação e serviços de saúde.

ensino e extensão dos saberes e práticas dos atores sociais com aqueles dos pesquisadores e estudiosos. Devemos também incorporar a complexidade dos conhecimentos científicos com os saberes tradicionais.concepções de mundo postulavam a realidade como algo mecânico e previsível – a realidade complexa em que vivemos e com a qual nos defrontamos hoje exige uma postura metodológica científica e técnicas de pesquisa diferentes sem. Mas. A interdisciplinaridade nos remete à colaboração entre diversas áreas do saber e do conhecimento em projetos que envolvam tanto as diferentes disciplinas acadêmicas quanto as práticas não-científicas que incluem atores e instituições diversos. ambiental e política nas diversas partes do mundo. 2007 251 . segmentada e estanque. da estratégia epistemológica e da apropriação dos saberes. estética e sócio-ambiental e integrar os procedimentos interdisciplinares de pesquisa. E preciso. estaríamos entrando numa nova Serviço Social & Realidade. Franca. quando começou a ficar claro que seria impossível “consertar” o planeta através das fórmulas convencionais da economia e tecnologia. os problemas e as dificuldades são tão profundos que as abordagens precisam aliar-se e não excluírem-se. para que isso dê certo precisamos criticar as formas convencionais dos saberes disciplinares que encaram os problemas de forma parcial. contudo rejeitar a abordagem disciplinar convencional. passou-se a postular sua “internalização” pelas empresas e a educação e prática da proteção ambiental. não-científicos. o diálogo dos saberes para enfrentar o fracionamento e a superespecialização do conhecimento. mediante enfoque interdisciplinar. o que refletiu em verdadeira crise do pensamento civilizatório tradicional. Afinal. o que exige a formulação de projetos de reconstrução e métodos de análise interpretativas diferentes e inovadoras. ainda. partir das indagações de natureza ética. O discurso oficial afirma que na onda da globalização e da revolução científica e tecnológica. A crise civilizatória se manifesta também como crise de conhecimento. As atividades predatórias dos seres humanos vêm gerando crises em diversas áreas do conhecimento. A percepção da necessidade da abordagem interdisciplinar surgiu a partir das décadas de 1960 e 1970 à luz da emergência das expressões da questão social. 16(2): 235-262. Diante dos limites da “externalização” dos custos ambientais e sociais.

de alienação. as liberdades estão. com seus saberes. aos poucos. dos desempregados e desenraizados. Entretanto. A tão propalada sociedade do conhecimento mostra também sua face de desconhecimento. Com o aumento da pobreza. A complexidade do mundo que nos rodeia exige a 252 Serviço Social & Realidade. houve tanta exploração e degradação dos ecossistemas. postergadas. tecnologia e saberes para a produção de novos paradigmas e sua articulação para transformar a natureza e a sociedade. alienação e marginalização da força de trabalho. estaremos desenvolvidos e completamente robotizados. mas da abertura de diálogo e da hibridização entre ciência. apesar dos avanços da pesquisa científica e tecnológica. O que está em jogo nas estratégias de poder em torno da proteção e conservação do meio ambiente e do próprio processo de desenvolvimento sustentável? Por um lado. sendo suspensas. do desencantamento do mundo como afirmava Max Weber. temos os diversos significados culturais que constituem a condição necessária para a participação dos atores locais. à medida que se aproxima da era do paraíso prometido.fase. 2007 . Não se trata apenas da integração sociedade-natureza. eliminadas. aquele que elimina os saberes não científicos e não ajustáveis às normas da ciência moderna. cresce o número dos excluídos do processo de decisões que conferem sentido à condição existencial. A desarticulação das culturas tradicionais e a perda de identidade projetam um mundo de incertezas. nunca antes na história da humanidade. da ignorância. Aí. culturas e identidades. verifica-se a apropriação do conhecimento e sua valorização mercantil. Em busca do desenvolvimento a qualquer preço cada país quer adiantar-se mais que o outro. Para conseguir isso. riscos e descontrole. das comunidades rurais e indígenas. Por outro. O mundo torna-se cada vez menos habitável. superando-se. A interdisciplinaridade surge como um processo produtor de novos conhecimentos através do entrelaçamento de diversas disciplinas que procurem redefinir o objeto de conhecimento. 16(2): 235-262. Como pode ser racional um sistema que geram tantos e complexos problemas humanos e ambientais. Franca. A interdisciplinaridade provoca revisão crítica do conhecimento fracionado.

seguindo a tipologia proposta por Émile Durkheim que aponta para os laços de solidariedade mecânica e orgânica. os sentidos da cultura e a importância da interação social como fatores centrais na construção do capital social. econômica. Nesse sentido. Embora cada disciplina mantenha sua identidade e metodologia. que ignoram os valores. eficácia e igualdade – e a articulação das ordens econômica. além de paradigma científico. A multidisciplinaridade refere-se a aspectos quantitativos sem que haja os vínculos necessários entre as abordagens que se debruçam sobre o mesmo objeto e não há diálogo entre os diferentes atores. de organização e ação interinstitucional. com sua racionalidade e temporalidade diferenciadas. envolvendo pesquisadores de diversas áreas do conhecimento. política e cultural. 16(2): 235-262. A emergência de modernas sociedades democráticas levou ao rompimento da teia homogênea das sociedades tradicionais para produzir diferenciação e heterogeneidade das estruturas baseadas em lógicas contraditórias – hedonismo. duas ou mais disciplinas estabelecem conexões e interconexões para a obtenção de conhecimentos mais abrangentes e profundos. Serviço Social & Realidade. O mal-estar da civilização não encontra respostas satisfatórias na teoria e na prática da globalização. Isso não representa um simples somatório. Esse é um dos caminhos para superar os diversos reducionismos. do funcionalismo evolucionista ou do economicismo. O saber interdisciplinar se forja no encontro e no enfrentamento de saberes diferenciados e na busca de sentido da vida pelos seres humanos que procuram apreender e compreender os processos através dos quais encontram sua identidade e superam suas angústias existenciais. de saúde e do meio ambiente que trazem pontos de vista diferentes e complementares sobre determinado problema ou realidade. Enquanto que na prática interdisciplinar. mas a recriação e reconstrução do saber.participação de pesquisadores especialistas nas áreas social. Franca. 2007 253 . pois seus efeitos têm sido devastadores para as culturas e economias de todas as sociedades. situação freqüente nas universidades e na administração pública. a interdisciplinaridade representa uma nova filosofia de trabalho. sejam eles da ecologia. A visão da interdisciplinaridade propõe uma reformulação dos saberes e uma síntese em direção à reorganização do mundo.

em profundidade e escala planetárias. moral.há intercâmbio de hipóteses que podem contribuir para ações comuns. que seja capaz de evitar a exploração dos recursos naturais até sua exaustão. etc. com impactos localizados e limitados. é conveniente iniciar a análise com as tendências contraditórias da atualidade. oportunidade de renovação e superação dos paradigmas tradicionais. No decorrer dos anos. mas. administrar a distribuição do poder político. 16(2): 235-262. precisamos do conceito de organização racional da sociedade. em última análise. Portanto. percebi que as raízes desse paradoxo estão na natureza dual das organizações humanas. política. para que não ocorram catástrofes. elas são instituições sociais criadas em vista de objetivos específicos. com efeitos praticamente irreversíveis. mas. Para situar a problemática da interdisciplinaridade no contexto do desenvolvimento sustentável. Tornaramse comuns e repetitivos pronunciamentos sobre a crise econômica. além de transformação de normas e padrões tradicionais. Ao mesmo tempo é preciso estabelecer relações sociais que atendam às necessidades básicas e eliminem as carências gritantes que afligem a maioria das sociedades contemporâneas. É a modernidade que suscita catástrofes sociais da natureza. As alterações da natureza em conseqüência de atividades humanas são socialmente produzidas e se propagam sob forma de catástrofes sociais da natureza. como os de ganhar dinheiro para os acionistas. Os homens transformam a natureza através de suas atividades. sabemos que uma época de crise é também. Por um lado. Franca. A sociedade está em processo permanente de interação com a natureza. transmitir 254 Serviço Social & Realidade.. A destruição do meio ambiente em grande escala é o resultado de determinada forma de organização social que está na origem do processo de metabolismo destrutivo entre a natureza e as relações sociais. não basta racionalizar a interação entre os homens e a natureza. Porque. a dominação irracional sobre a natureza reflete atitudes e comportamentos irracionais dos homens sobre os homens. Contudo. 2007 . Nas sociedades agrárias pré-capitalistas também se praticava a destruição dos recursos naturais.

milhões de pessoas em número crescente estão vitimadas pelo desemprego.conhecimento ou disseminar uma fé religiosa (CAPRA. Em nível micro das empresas. mediante a redução de custos e aumentos de produtividade. 2002. maremotos. as pessoas se tornam inquietas. 2007 255 . leva a um estilo de vida incompatível com as carências sociais e o requisito de conservar os recursos naturais. pela fome e pela falta de moradia tanto nos países desenvolvidos como nos países em vias de desenvolvimento. a concorrência e a corrida por mais lucros. 111). p. Os custos não são efetivamente reduzidos. Em todas as sociedades. a escassez de recursos naturais e a destruição progressiva da natureza. resultam invariavelmente em efeitos destrutivos na natureza e na sociedade. interrogam-se sobre as incertezas do futuro. 16(2): 235-262. ou seja. Os últimos dois séculos têm demonstrado que o ritmo e a intensidade das catástrofes naturais têm acompanhando a expansão da industrialização. mas transferidos para a sociedade sob forma de desemprego. Franca. vulcões. Constituem-se como agravantes a falta de percepção. Mesmo os que conseguem manter-se empregados. das águas e a erosão do solo no meio ambiente natural. ansiosas. Por outro lado. diante da falta de perspectivas e da incapacidade dos Serviço Social & Realidade. a corrida incansável atrás da valorização do capital e da competitividade leva às formas e conteúdos de produção e consumo insustentáveis. os conflitos étnicos e religiosos têm produzido milhares de refugiados em várias regiões do planeta que partem em busca de condições mínimas de sobrevivência. enchentes. Essas transformações destrutivas afetam também as condições climáticas e põe em risco a sobrevivência da espécie humana e da própria vida no planeta. A irracionalidade dessas relações está refletida tanto no plano macro do sistema econômico e social. Secas. particularmente nas últimas décadas do século XX. independentemente da qualidade dos produtos ou da adequação de tecnologias. frustradas ou revoltadas. vazamentos de grandes quantidades de petróleo no mar e acidentes em centrais termo-nucleares evidenciam os limites ecológicos do sistema. A pobreza. pobreza e marginalidade no ambiente social e sob forma de poluição do ar. No plano macro. quanto no plano micro da economia industrial das empresas.

evitam dar clareza aos aspectos fundamentais do contexto e das tendências da sociedade atual.governos de atender suas expectativas de uma vida melhor. por exemplo. Por outro lado. todos reconhecemos com facilidade o resultado. distribuição mais equânime da produção para não falar da democratização do consumo. o Estado perdeu o monopólio de poder coercitivo para grupos armados envolvidos no tráfico de drogas. Mão-Santa. consequentemente. Da mesma forma. mesmo havendo aumento de produtividade ou transferência de tecnologia. terrorismo. em muitas sociedades. 2007 . Os indicadores macroeconômicos. revistas e noticiários de todas as regiões do Brasil.). O modelo econômico e social vigente e os pressupostos de desenvolvimento se mostram insustentáveis. As análises presentes nos documentos e pronunciamentos oficiais referentes ao desenvolvimento sustentável muitas vezes não passam de maquiagem. Intel. 16(2): 235-262. buscando maximizar o retorno sobre seu investimento. o esfacelamento da solidariedade social. como orientação para o crescimento econômico. Bayer. Franca. Pois prevalece ainda a lógica do ditado popular “primeiro a gente vende. enquanto isso a humanidade permanece ameaçada. Por outro lado. não significa. Como não sobram. de perda de identidade e. a eliminação de postos de trabalho é praticamente ininterrupta ao mesmo tempo em que as relações sociais continuam sendo de natureza autoritária vedando voz e vez 256 Serviço Social & Realidade. Pelo contrário. mistificação com relação à distribuição de renda efetiva. necessariamente. etc. pois o processo de crescimento econômico induzido se mostra estéril por não gerar empregos. As análises que se concentram nas propostas de inovação tecnológica como alavanca do crescimento. freqüentemente. as organizações não-governamentais. Entre os efeitos sociais mais marcantes desses processos desestruturadores destacam-se a percepção de situação de insegurança. armas e contravenção. o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC (verdadeira peça publicitária) tende a ignorar que as tecnologias são controladas por organizações poderosas (Microsoft. se sobrar o povo come”. expresso e estampado nos jornais. apesar de toda sua gana pela proteção do meio ambiente e a prevenção dos acidentes ecológicos não tem conseguido mobilização efetiva da população na luta por condições e qualidade de vida mais sustentáveis para os seres humanos. apesar das amargas evidências sobre sua inadequação e.

ocorre retrocesso em termos de acesso aos direitos de cidadania e da extensão dos direitos sociais a todos. Em muitos lugares. são proporcionados favores clientelistas e paternalistas (Bolsa Família). Os efeitos sociais e culturais de seu funcionamento são desestruturadores. A grande contradição do sistema é que ele está destruindo a si próprio na medida em que seu desenvolvimento encontra-se alicerçado na depredação ambiental. oprimida e marginalizada dos benefícios da civilização urbano-industrial. socializar os trabalhos de campo. enquanto aos pobres. Franca. 2007 257 . explorada. do efeito estufa. o comércio.às populações menos favorecidas. O sistema parece implacável em sua dinâmica: os ganhos só beneficiam aos ricos. enquanto reprime as manifestações de identidade nacional. A falta de planejamento e de senso de humanidade conduziu ao aprofundamento da crise ecológica que. na melhor das hipóteses. seus impactos destrutivos e a degradação da população mundial. a agricultura. Não dá mais para encarar os problemas de desenvolvimento sob o enfoque do Banco Mundial. Além de não conseguir. Para conseguir efetivamente estudar esses fenômenos inter-relacionados. do apartheid social. acabaram sacramentando as desigualdades e a concentração de riquezas. das crianças abandonadas. a indústria. fundamentalmente. a complexidade e o caos. minando a existência e a sobrevivência humana. a natureza. aliada ao paradigma desenvolvimentista. é preciso criar relações e condições para a interação entre os pesquisadores que visem definir como trabalhar de forma interdisciplinar. a estrutura social e política. desafiando nossos conhecimentos e crenças convencionais. Serviço Social & Realidade. posto que a corrida desenfreada por ganhos econômicos sufocam os valores de cooperação e solidariedade. como no Brasil. ainda evitamos enxergar o conjunto. Para compreendermos os fenômenos complexos da vida no planeta terra é necessário elaborar um esquema conceitual e metodológico que contemple e destaque as conexões e as interconexões entre as diferentes áreas do conhecimento. como integrar os estudos de laboratórios e a academia e. do crescimento demográfico. ignorando e desprezando os direitos das futuras gerações. 16(2): 235-262.

alicerce do trabalho em equipe interdisciplinar. a desestruturação social e a alienação do ser humano. temos de repensar desde a base uma boa parte das nossas tecnologias e instituições sociais. facilitando e fornecendo de tal forma dados precisos para a tomada de decisão. p. de modo a conseguir transpor o enorme abismo que se abriu entre os projetos humanos e os sistemas ecologicamente sustentáveis da natureza (CAPRA. se a realidade e o conhecimento são produzidos por nós (seres humanos). Surgem os primeiros sistemas de informação gerenciais. vítima direta da concorrência desenfreada e desleal. as tecnologias passaram a fornecer informações. 2002. Mas. o que fica claro quando se estimula e incentiva-se a concorrência ilimitada. para se tomar qualquer atitude é preciso antes tomar 258 Serviço Social & Realidade. ou seja. cabe a nós e às áreas do conhecimento atinentes ao problema. além de manipulá-las.Para construir uma sociedade sustentável para nossos filhos e as gerações futuras. Daí a necessidade da ação coletiva e interdisciplinar. 16(2): 235-262. pois. os relatórios. cujos benefícios principais eram a agilidade e redução de custos através da mecanização das tarefas. contribuir na elaboração e configuração da visão integrada e coerente. Devemos duvidar de toda racionalidade baseada no cálculo econômico. No segundo momento. 110). a preocupação central é o retorno financeiro dos investimentos. amparados por um quadro de referências teóricas comuns. Assim. Franca. a busca de aumento da produtividade e competitividade. A importância da evolução tecnológica e o poder da informação No primeiro momento o uso da informática pelas organizações tinha como finalidade apenas o processamento de dados. a contabilidade e o controle de estoque. ou seja. As primeiras aplicações desenvolvidas foram a folha de pagamento. 2007 . uma organização passa a ser vista como uma rede. Os problemas dos sistemas naturais e sociais transbordam as fronteiras das diferentes disciplinas. sem considerar os efeitos poluidores do meio ambiente.

Dessa forma. relatório sobre a situação financeira da empresa. enquanto que os técnicos que dão manutenção ao sistema estão no Instituto de Serviço Social & Realidade. já que cada vez mais as próprias organizações estão se descentralizando. a tecnologia está preocupada em apoiar as decisões. a participação da informática no contexto atual das organizações é muito maior e mais importante. como é o caso de Alterosa. com certeza. Nesse sentido ela esta se adequando cada dia mais à realidade. Com base nessas informações. às vezes nem isso. Franca. hoje. A observação mais nítida é o fenômeno da globalização. que fornece o link está sediada em cidade vizinha. que distribui internet gratuita para toda a população. pois no caso da Cidade Digital. ele pode recorrer a sistemas que forneçam informações tais como: relatórios sobre percentual de comprometimento do orçamento com a folha de pagamento. pois é a base para a tomada de decisões. ocorre no próprio local onde estão os dados. Se um prefeito ao realizar a correção anual de salários ou quiser dar um reajuste salarial aos funcionários públicos. modernizando. com o Programa Cidade Digital. poderá somente entrar com suas idéias (alternativas de solução) e o sistema calcula as conseqüências.decisões e as decisões só podem ser tomadas quando se dispõe de informação. os termos e as formas de atuação antigas estão desaparecendo. desempenhadas pelas próprias pessoas que usam esses dados. na maioria das vezes. outra no México e. As funções de operação de entrada e saída dos dados que antes eram feitas em enormes salas. o administrador pode pensar em percentuais de aumentos e até em aumentos escalonados. Ao comprar um computador temos como certo que uma parte dele foi feita na China. o departamento de projetos encontra-se em outro país diferente. Hoje os computadores estão menores. No atual momento. empresas. o CPD está no Pólo da Universidade Aberta do Brasil em Alterosa. espalhadas pelo mundo atuando em vários mercados e países. 16(2): 235-262. a empresa representante. se tornando polivalente e multidisciplinar. e não só fornecer ou processar informações. outra na Coréia. avançando. 2007 259 . conectados em redes Wi-Fi e WI-MAX operando através de sistemas distribuídos e altamente integrados. O prefeito que dispuser de sistemas que apóiem decisões. Também está desaparecendo a “centralização” da informática.

acessível e segura. clareza. 2007 . o desenvolvimento das aplicações também fica descentralizado. não querem na verdade máquinas. mas sim realizar melhor suas tarefas e atingir melhor seus objetivos. p. serão capazes de proporcionar condições para as novas realidades. Portanto. a partir dos existentes. coleta e geração de novas informações e conhecimento. poder e riqueza nas redes financeiras internacionais (CAPRA. precisão. velocidade.Desenvolvimento do Meio Ambiente – IDEMA. como afirma Capra. Nesse aspecto. Conclusão Se todos nós estamos ligados à teia da vida em nosso planeta. 16(2): 235-262. muitas vezes. organização no armazenamento e recuperação. A informática não é uma finalidade ou objetivo. validade. mas nem isso é necessário. nível adequado de detalhes. Pensando em escala ainda maior. flexível. só a produção e multiplicação do conhecimento. Um pouco da responsabilidade passou para o próprio usuário que. mas sim um meio para se alcançar as metas desejadas. toda ela estruturada em torno de fluxos de informação. a conectividade digital. econômica. completa. 1996. o sociólogo Manuel Castells afirma que a recente revolução da informática deu origem a uma nova economia. colaboração. A contribuição da informática para as organizações não está nos sistemas ou tecnologias. cooperação. então. mas. à distância. 118). em qualquer lugar que estiverem conseguem. Franca. principalmente nas informações. faz suas próprias aplicações com uso de ferramentas como access. Quando pessoas compram computadores. Assim. objetividade. relevante. dar manutenção e suporte ao sistema. precisamos organizar o mundo de tal forma que as crenças e valores não tenham apenas o capital como 260 Serviço Social & Realidade. melhorando seus negócios. A informática torna-se a cada dia mais um instrumento poderoso para as organizações que pretendam melhorar desenvolvimento. planilhas e editores de textos. Na atualidade para obterem sucesso necessitam de informações de qualidade e a qualidade dessas informações está na confiabilidade. verificável. o que se espera da Informática é que ela possa ajudar as organizações a atingirem seus objetivos.

p. Serviço Social & Realidade (Franca). Franca. D. mas para a sobrevivência e sustentabilidade da humanidade.. a economia globalizada. 2007 261 . C. o padrão em rede. econômica. 2002. RIBEIRO. 16(2): 235-262. A teia da vida: uma compreensão científica dos sistemas vivos. n. ou seja. São Paulo: Cultrix. isso não apenas para o bem-estar das organizações humanas. Information. For a systemic approach in the understanding of contemporaneity. ed. Rio de Janeiro: Campus. 16. Systemic Thought. estão organizados segundo os mesmos pressupostos. COSAC. 1996. F. 235-262. ______. Organizations.. D. Daí a necessidade de uma compreensão sistêmica de todos os aspectos da vida social.alicerce. política. Isso está claramente demonstrado nas últimas descobertas científicas. 6. Teoria Geral de Sistemas. 2. the organizations. desde as células mais primitivas até a contemporaneidade. CAPRA. todos sem distinção. R. Introdução à teoria geral da administração. 2000. M. 2007. • ABSTRACT: The present study aims at a better understanding of the systemic approach front to the challenges of the daily life. L. Vozes. the public administration and the systems of information. cultural e ambiental. com suas organizações e Estados. v. V. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. interconnected to the General Theory of the Systems. 1975. Interdisciplinarity. I. • Referências BERTALANFFY. São Paulo: Cultrix. CHIAVENATO. KEYWORDS: Systems. Serviço Social & Realidade.

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A categoria práxis não suprime ou exclui o materialismo marxiano. Bolsista da CAPES. 2 Do ponto de vista marxista. embora admitamos a ressalva de que se doutorou em filosofia. economista político. * Graduado em Serviço Social pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó – Unochapecó (2002-2006).DETERMINISMO E PRÁXIS: O DUALISMO DO MÉTODO DE MARX1 Gustavo MENEGHETTI* • RESUMO: O presente ensaio tem como tema o dualismo entre determinismo – concepção segundo a qual a base ou estrutura determina a superestrutura – e práxis – ação ou atividade humana que é. tratamos Karl Marx como pensador ou intelectual. na Universidade Federal de Santa Catarina. analisar o Prefácio e as Teses a fim de explicitar alguns pontos polêmicos sobre o embate entre determinismo e práxis no método marxiano. etc. ao mesmo tempo. objetiva e subjetiva – no método de Marx. sociólogo. Relembramos. fundamentalmente por sua perspectiva de totalidade. A tese materialista de Marx considera que a base ou estrutura é precondição ou condição precedente (e indispensável) do desenvolvimento da superestrutura. rejeitando as demais qualificações que lhe costumam atribuir – como. 2007 263 .br. Apoio da CAPES. Mestrando em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (início 2007). apenas. o que não supõe qualquer caráter determinista. • Introdução O intelectual ou pensador alemão Karl Heinrich Marx2 (1818-1883). E-mail: gutomeneghetti84@yahoo.. para reforçar sua magnitude. dispensa qualquer apresentação. 16(2): 263-282. Franca. a teoria social de Marx não pode ser enquadrada no moderno sistema de distinção e classificação das ciências sociais. ministrada pelo prof. por exemplo. Trabalho teórico originalmente apresentado – como um dos requisitos de avaliação – à disciplina Pensamento Social Moderno e Contemporâneo. O objetivo é. PALAVRAS-CHAVE: Método de Marx. Em consideração a isso. do Programa de Pós-graduação em Serviço Social. Práxis. Determinismo. pela obra grandiosa que produziu e pela propagação incomensurável que tiveram suas idéias. Dr. portanto. em setembro de 2007. 1 Serviço Social & Realidade. A tese defendida considera que uma leitura atenta do Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política e das Teses sobre Feuerbach proporciona os elementos necessários para esclarecer as dúvidas imediatas que opõem determinismo e práxis.com. e sim o reconhece como ponto de partida de um movimento dialético entre sujeito e objeto. Raúl Burgos.

como interpretações distintas – e opostas – do método de Marx. sendo fundamental para entender o seu materialismo3: as Teses sobre Feuerbach. especificamente com relação ao seu método. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. cujo primeiro volume apareceu em 1867 e os volumes 2 e 3 são publicações póstumas realizadas por Engels. Não estamos. Nosso trabalho incide no que podemos chamar de um debate interpretativo clássico da obra de Marx.as principais obras de Marx: Manuscritos de Kreuznach (também conhecido como Crítica da Filosofia do Direito de Hegel ou. de modo algum. ou melhor. dispersando-as em diversos dos seus trabalhos. as condições materiais de existência. em 1848. Marx não formulou de forma explícita e sistemática o seu método de pesquisa (como o fizeram Max Weber e Émile Durkheim. por exemplo). Franca. obra editada em 1859. ele apenas “ventilou” as idéias correspondentes. Manuscrito de 1843). ou seja. aquilo que para muitos estudiosos é a maior expressão do método marxiano. cujo texto completo só fora publicado muito tempo após a morte dos seus autores (1932). escritos em 1843 e publicados nos Anais Franco-Alemães de fevereiro de 1844. Falamos do embate entre determinismo e práxis. Por outro lado. em 1845-1846. 3 Entendemos como materialismo a doutrina filosófica segundo a qual todo e qualquer conhecimento deve ter como base ou fundamento a realidade objetiva e material. A Questão Judaica e a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. redigido em 1844 e publicado somente em 1932. 16(2): 263-282. das diferenciadas interpretações com relação ao método marxiano. A Miséria da Filosofia. A Sagrada Família. O Capital. Quiçá este seja o principal motivo das incompreensões. primeiro fruto da associação de Marx e Engels. Como sabemos. redigido com Engels. escrita. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. ao contrário. Por um lado. do ano de 1852. em 1885 e 1894. respectivamente. 264 Serviço Social & Realidade. A Ideologia Alemã. e. 2007 . É precisamente sobre isso que versamos neste ensaio. na cidade de Londres. texto contra o socialista utópico PierreJoseph Proudhon. ainda. uma das mais citadas pelos seguidores da tradição marxista: o Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política. publicado no final de 1845. em colaboração com Engels. Contribuição à Crítica da Economia Política. Manifesto do Partido Comunista. não por acaso. que data de 1847. uma das passagens mais célebres e.

o embate entre determinismo e práxis. Temos como objetivo neste ensaio. por assim dizer. portanto. simultaneamente. enfim. pela importância e o caráter conclusivo que o próprio Marx atribui. ciência. voltada muito mais para esclarecer alguns pontos polêmicos e instigar o debate do que para explicar adequadamente a controvérsia – tarefa que. aliás. continua mais atual do que nunca. literatura. Entendemos por práxis a ação ou atividade humana que é. O que era para ser um simples prólogo apresentado o caminho que levara o intelectual alemão ao estudo da economia política acabou por se tornar uma das páginas mais citadas. Pela ausência de elaboração sistemática do seu método de pesquisa. só poderá ser executada por estudiosos especializados na teoria social de Marx. um pressuposto central de análise de muitos seguidores da tradição marxista. Consideramos como determinismo a concepção segundo a qual a base ou estrutura – ou seja. o fato é que o Prefácio à Contribuição se Serviço Social & Realidade. pela argumentação prodigiosa a que muitos consideram. pelo contrário. mecanicamente a superestrutura – isto é. Desde já. 16(2): 263-282. 1 O Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política Marx escreveu essa célebre passagem na cidade de Londres. arte. o conjunto das relações de produção – determina. além de não ter sido solucionado. etc. as diversas formas ideológicas de consciência social (religião. objetiva e subjetiva – significando a unidade entre teoria e prática – ou. 2007 265 . analisar o Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política e as Teses sobre Feuerbach a fim de explicitar alguns pontos polêmicos acerca do dualismo entre determinismo e práxis no método de Marx. a inter-relação entre as condições materiais que delimitam a atividade humana e seu caráter criador. provocando freqüentemente confusões e polêmicas.) e as correspondentes instituições jurídico-políticas. Nossa tese considera que uma leitura atenta do Prefácio e das Teses nos proporciona os elementos necessários para esclarecer as dúvidas imediatas que opõem determinismo e práxis. uma das fontes de inspiração e.ressuscitando um problema já superado no decurso do tempo. noutros termos. principalmente. ressaltamos o caráter modesto de nossa apresentação. Franca. em janeiro de 1859.

1983. p. Podemos dizer que o estruturalismo se constituiu na doutrina que. sem. 16(2): 263-282. a atualidade. uma vez adquirida.. relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais. tornou mais radical essa interpretação “determinista” da tese de Marx. líamos um trabalho – extraordinário. Uma forma bem conhecida e que se tornou muito comum é interpretar essa proposição do seguinte modo: a base determina a superestrutura. explicar adequadamente o que isso significa e quais as implicações que um tal pressuposto pode ter: para eles. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser. levaram a determinação estrutural às últimas conseqüências. preconizando. Os denominados estruturalistas. necessárias. E isso abrange. que os homens nada mais seriam que suportes da estrutura econômica da sociedade. Enésimos autores marxistas concordam com a idéia de que a base determina a superestrutura. A parte mais fundamental. indubitavelmente. malgrado as diferenças e a própria evolução do pensamento de seus autores. Mas se enganam aqueles que pensam que tal concepção é prerrogativa dos estruturalistas. serviu de fio condutor dos meus estudos.] (MARX. 2007 . independentes da sua vontade. política e intelectual em geral. no entanto. inclusive.. por assim dizer..] A conclusão geral a que cheguei e que. inversamente. como Louis Althusser e o “jovem” Poulantzas. por sinal – de um autor marxista em cuja introdução se dizia mais ou menos assim: o marxismo parte 266 Serviço Social & Realidade. a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem determinadas formas de consciência social.24). O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade. Há alguns meses. dessas páginas se nos parece encontrar na seguinte asserção: [. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social. pode formular-se resumidamente assim: na produção social da sua existência.. é o seu ser social que. Franca.transformou numa espécie de núcleo central do pensamento marxiano. determina a sua consciência [. os homens estabelecem relações determinadas. eis o ponto de partida indiscutível de qualquer análise marxista.

por escrito. e tudo que é real é racional”. possivelmente. a influência de Hegel (GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL – 1770-1831) na Alemanha – e. Aliás. 16(2): 263-282. só pode ser alcançado através das idéias. Marx (1983. Franca. pelo menos. propondo inverter as premissas idealistas da filosofia hegeliana. 25-26) prossegue dizendo: [. tratava-se. por vias diferentes. o qual.. há um certo tempo. extraordinário. elevando a razão como ente superior e absoluto do conhecimento. os jovens discípulos de Hegel – 4 Compreendemos por idealismo a doutrina filosófica de acordo com a qual todo conhecimento deve provir da racionalidade humana. Mas quando Ludwig A. dentre outros).. diz respeito ao momento em que Marx fala sobre seu amigo e colaborador Friedrich Engels (1820-1895). e que nos serve para esclarecer algumas dúvidas imediatas sobre o assunto. p. Marx se refere ao tradicional idealismo4 filosófico alemão (KANT. O autor – que preferimos ocultar – não traz qualquer explicação adicional sobre isso. a fim de esclarecer o antagonismo existente entre a nossa maneira de ver e a concepção ideológica da filosofia alemã. afirmando que o estudo da humanidade deve partir do mundo real e material e não de uma suposta evolução do espírito. Feuerbach (1804-1872) publica sua obra A Essência do Cristianismo (1841).. em que sua filosofia idealista era a grande fonte de todo pensamento da época – lembremos de sua famosa frase: “tudo que é racional é real. Será essa a chave do pensamento ou. então. do método de Marx? Eis o pressuposto central da análise marxista da realidade? Um primeiro elemento que a análise do próprio Prefácio nos proporciona. para além dos territórios alemães – fora algo inenarrável.] na primavera de 1845 [. ao mesmo resultado que o seu. FICHTE. HEGEL. de fato. Marx participou de um grupo de jovens hegelianos e se encontrava também sob a influência do sistema filosófico de Hegel. 2007 .. Após afirmar que vinha mantendo..].da constatação de que o modo de produção de uma sociedade determina as superestruturas institucionais e as formas de consciência que nelas se observam. 267 Serviço Social & Realidade. de um ajuste de contas com a nossa consciência filosófica anterior [. uma “constante troca de idéias” com Engels e que este havia chegado..] resolvemos trabalhar em conjunto.

p. revisa suas idéias e constrói uma nova concepção. Num tempo em que a explicação do mundo pela “razão do espírito” de Hegel influenciava com total preponderância os corredores acadêmicos e intelectuais. o que está em jogo e o que Marx quer enfatizar é uma nova concepção. é que Marx elabora sua crítica. é que a afirmação da precedência da vida material constitui. tanto as idéias de Feuerbach como a filosofia hegeliana se faziam bem influentes.incluindo Marx – foram levados a repensar suas idéias e concepções.] não podem ser compreendidas por si mesmas. Serviço Social & Realidade. nesse período (1843-1844). Nas linhas que antecedem a “parte fundamental” que transcrevemos. A nosso ver. então. a propósito do Prefácio. 2007 268 . A essência do Estado. 1983. não poderia ser encontrada na “razão universal” de que falava Hegel. É esse o clima intelectual que está na gênese das idéias expostas no Prefácio. a qual substitui a todo idealismo e afirma de uma vez por todas o primado do mundo real e material. mas deveria ser buscada nas condições materiais da vida social. o rompimento e a crítica a toda uma tradição filosófica idealista. Assim. nesse momento. inserindo-se pelo contrário nas condições materiais de existência” (MARX.. e a afirmação categórica de uma tese distinta e oposta. a crítica à Filosofia do Direito de Hegel. 16(2): 263-282. sobretudo. ponto fundamental da transição para a maturidade do seu pensamento. procede dizendo: “[. ou seja. nessa conjuntura. O que estamos a demonstrar. Antes de qualquer debate sobre determinismo. 24). Isso nos parece corroborar a idéia de que o clima intelectual que está na origem da “conclusão geral” esboçada no Prefácio é o da ruptura e crítica à filosofia idealista alemã.. dizia Marx. aliás.. Marx não aceita integralmente as premissas de Feuerbach. mas a assimilação dessas o levaram a rever o pensamento de Hegel5 e a criticar a concepção filosófica alemã. concernente à evolução dos seus estudos. Marx fala sobre o primeiro trabalho que empreendeu para esclarecer suas dúvidas. está a destacar a sua ruptura e crítica epistemológica ao idealismo.. quando Marx fala da oposição dele e Engels em relação à filosofia alemã. portanto. as críticas de Marx à Filosofia do Direito de Hegel – embora.] Nas minhas pesquisas cheguei à conclusão de que as relações jurídicas [. estabelecendo o “caminho” que o guiaria em suas pesquisas. nem pela dita evolução geral do espírito humano. Franca. uma resposta crítica – e propositiva – ao 5 Vale lembrar.

. p..] A transformação da base econômica altera. ao tempo em que escrevia as páginas do Prefácio. é preciso. pode ser verificado quando Marx fala de transformação social. mais ou menos rapidamente.. Marx (1983. Em segundo lugar. imaginava que se pudesse identificar aí uma certa concepção mecanicista ou determinista da realidade? Outro elemento que a análise do Prefácio nos traz a respeito disso. 2007 269 . com relação à proposição de que a base “determina” a superestrutura. ao sujeito transcendental. toda a imensa superestrutura [.] Assim como não se julga um indivíduo pela idéia que ele faz de si próprio. p.. Após defender que. Novamente. Marx diz que é necessário distinguir entre a alteração das condições de produção e as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência do conflito. as forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações de produção. não se poderá julgar uma tal época de transformação pela mesma consciência de si. sendo transformados ao mesmo tempo em que o transformam. tem-se a assertiva contrária de que toda explicação deve partir da Serviço Social & Realidade. inclusive. Tudo isso vai ao encontro da asserção segundo a qual a estrutura econômica determina. Afinal.]”. As linhas que seguem a partir daí nos proporcionam dois pontos a serem problematizados. Marx fala que os homens tomam consciência do conflito “levando-o às suas últimas conseqüências”.. será que Marx. Ora. que afirma a produção da vida material como ponto de partida ou precondição fundamental da vida social em geral. essa nova concepção.. essa crítica ao idealismo.. o que nos parece dito aí é uma recusa à filosofia idealista. em determinado estágio de desenvolvimento. explicar esta consciência pelas contradições da vida material [. é porque eles não são simples “suportes” fatalmente determinados pela estrutura econômica da sociedade. Mas ao final desse último argumento. pelo contrário.. ou seja. Acreditamos ser essa a fonte da “conclusão” exposta no Prefácio.]”. gerando “uma época de revolução social”. que explica o mundo pela “consciência de si”. Em primeiro lugar.idealismo filosófico alemão.25) afirma que: “[. temos de considerar esse clima intelectual. Marx (1983. a consciência dos homens. Antes de qualquer indagação sobre determinismo. Simultaneamente. Os homens não só tomam consciência como agem no interior do conflito. Franca. 16(2): 263-282. se são precisamente os homens que levam adiante o conflito entre as forças produtivas e as relações de produção. 25) procede da seguinte maneira: “[.

antes dizendo: “Depois de citar um trecho do prefácio de minha obra ‘Contribuição à Crítica da Economia Política’. percebemos aí que o seu autor se presta a um debate ou a uma resposta a alguns críticos que contra ele proferiram em virtude da primeira edição (1867). ironicamente. 1859. Qualquer palavra que pensamos dizer sobre isso. Não obstante. p. não como um subterfúgio. 16(2): 263-282. ressaltar um ponto que nos parece bem expressivo. não foi bem compreendido” (MARX. colocando-nos no ponto de vista da réplica de Marx. o que seria uma tautologia repetir mais uma vez. na medida em que defendemos que uma leitura com afinco de tais textos nos proporciona elementos esclarecedores a respeito do debate entre determinismo e práxis no método de Marx. p. tal é o Posfácio à segunda edição do livro primeiro de O Capital (1873). Franca. Marx (1985. no qual Marx esboçou explicações sobre o método de suas pesquisas. IV a VII. Contudo. mesmo evitando repetições. faz-se oportuno. quiçá. Já dissemos antes que Marx nunca sistematizou seu método de pesquisa. Ao tempo em que ambos concordam – e. mas com o intento de elucidar ainda mais o nosso tema. transcrevendo uma longa passagem de sua própria crítica. intelectual. tende a nos levar ou confluir precisamente no que temos observado até aqui.13).vida material. Berlim. dispersando os pressupostos que servem de base às suas investigações ao longo dos trabalhos que escreveu. Prescindindo do que se refere à economia política. conforme demonstram as interpretações contraditórias. além dos que abordamos neste ensaio. Restringimos nossas observações à análise do Prefácio e das Teses. solicitamos a condescendência do leitor para que possamos realizar uma única e breve exceção. 2007 . 1985. que acusa Marx de tratar a economia metafisicamente. 14) responde ao autor do artigo russo. onde ventilei o fundamento 270 Serviço Social & Realidade. etc. do desenvolvimento da vida social. Mensageiro Europeu. p. O primeiro embate é dirigido à Revue Positiviste de Paris. a nosso ver. é precondição. Ambos os pontos ressaltados estão a discordar daqueles que vêem toda essa argumentação como o invólucro da “tese central” da determinação estrutural econômica. jurídica. política. cultural. que julga o seu método de exposição como “idealista no sentido germânico”. Se há outro lugar de destaque. pois: “O método empregado nesta obra. e o segundo é voltado para um periódico de São Petersburgo. seja a única concordância em certa medida indiscutível – que a produção da vida material é precedente.

existe uma sem a qual eles não viveriam.. de filósofo idealista. que parte do estado de natureza. Não nos preocupamos. as quais se subdividem de modo diverso – afetivas. política e intelectual em geral [. pelo menos. que já nasce em uma determinada sociedade. 16(2): 263-282.. porque. Trata-se da dimensão social. tal é ou tais são as relações sociais de produção.. Importa. em sua forma acabada. e quando principia sua réplica. por exemplo. Ou seja.. p. estabelecendo determinadas relações de Serviço Social & Realidade. a consciência dos homens se enraíza nas suas relações em sociedade. O motivo é obvio: os homens precisam garantir suas condições de existência e sobrevivência e. isso quer dizer que no prólogo à Contribuição Karl Marx não apresentou o seu método. para Marx.. p. ele considera o homem como um ser social. em seu método de expor. Franca. inversamente. por assim dizer. mediante as quais os homens produzem suas condições materiais – indispensáveis – de existência. como afirma Marx (1983. ou nas suas palavras.]”. neste ensaio. Ora. dentre as relações que os homens estabelecem em sociedade. diz ter “ventilado” ali o fundamento materialista do seu método. fazendo parte de um todo..] O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social. Dessa forma. cujo conjunto forma a base ou estrutura econômica da sociedade.]”. ao contrário da filosofia política moderna (Hobbes. é exatamente a referência ao Prefácio. pelo que disse no posfácio de O Capital. ao se referir ao Prefácio. Rousseau). é o seu ser social que. comerciais.. Marx compartilha a tese aristotélica de que a sociedade precede o indivíduo. as principais ou as mais importantes são as relações de produção. com os pormenores dessa controvérsia. foi o fundamento materialista – e não o único fundamento – que esboçou em 1859. Locke. ainda. para tanto. com o caráter de núcleo central. de “dialético-alemão”. 24): “[. determina a sua consciência [. necessitam de um modo pelo qual podem produzi-las. pois. no nosso entendimento. por completo ou. – sendo que. pois o que nos interessa. no mínimo. etc.] Não é a consciência dos homens que determina o seu ser. Reconheçamos a coerência: Marx é acusado. de uma coletividade social.materialista do meu método. sublinhar um outro aspecto presente no Prefácio e que nem sempre damos a devida atenção. religiosas. aqui. Por isso Marx (1983. 2007 271 ..24) assevera: “[. pois é precisamente através dessas que eles garantem a sua subsistência. prossegue o autor”.

ou que a “economia” é um conjunto de relações sociais estabelecidas entre os homens. p. afirma Marx (1983.] De bom grado abandonamos o manuscrito à crítica corrosiva dos ratos. pela atividade humana em sociedade. inexoravelmente.. que. 16(2): 263-282. Isso vem em primeiro lugar. quanto à idéia de que a base determina a superestrutura. defendem que o ponto principal e essencial de transição para a maturidade do Recordamos.. pois a consciência dos homens é “determinada”. para Marx. Esse trabalho constitui a obra A Ideologia Alemã. “na primavera de 1845”. cujo texto completo só fora publicado muito tempo após a morte dos seus autores (1932). que era enxergar claramente as nossas idéias [. por exemplo. a existência de homens se relacionando entre si. que Marx denomina de “crítica da filosofia pós-hegeliana”. 6 272 Serviço Social & Realidade.. Isso supõe. Ora. escrita entre 1845 e 1846. 2007 . Mas as relações produtivas são sociais6.]”. a propósito do Prefácio. Não obstante. a dimensão social é primordial na teoria marxiana – e isso inclui o método –.produção. A Ideologia Alemã é considerada a primeira obra importante em que Marx expõe o pensamento de sua maturidade. entretanto. a nosso ver. não chegou a ser impresso. para falar como Marx. trabalhar em conjunto com o objetivo de esclarecer o antagonismo entre suas maneiras de ver e a concepção da filosofia alemã. constando aí as suas idéias fundamentais. foi que o manuscrito produzido na época. ademais. Muitos estudiosos.26): “[. só existem em sociedade – o indivíduo isolado é uma abstração da economia política clássica (que Marx chama de vulgar) – e fazem parte de um todo de relações que os homens estabelecem entre si como partícipes de uma determinada coletividade.. tanto mais que tínhamos atingido o nosso fim principal. o fato exposto por Marx de que Engels e ele resolveram. o que é o seu eufemismo. Para muitos comentadores. o que nos torna incrédulos quanto à proposição estruturalista de que os homens seriam apenas “suportes” da estrutura econômica da sociedade ou. que seria das relações sociais se os homens desempenhassem um papel tão subordinado? 2 As Teses sobre Feuerbach Mencionamos na seção anterior. o “capital” é uma relação social que se estabelece entre a classe capitalista/burguesa e a classe trabalhadora. O que não dissemos. pois se o prescindir os homens perecem. embora escrita no período de “juventude”. Franca. Portanto.

à época dos anos iniciais de 1840. Assim. o que é pior. porque acredita numa felicidade ilusória enquanto vive numa tristeza real. da amizade – não passa de uma imaginação e. em Hegel. É a inversão das premissas da filosofia hegeliana: o real não é mais uma emanação do espírito e o pensamento passa a ser considerado como um produto/reflexo da realidade material. Para Feuerbach. 2007 273 . sem dúvida. faz uma crítica severa à religião. 16(2): 263-282. Assim como a influência de Hegel não pode ser suprimida do pensamento marxiano – o que. Expressão disso é o reconhecimento de Marx de que “a crítica da religião é a premissa de toda crítica”. Muito sinopticamente. também alemão. foi grande o impacto ocasionado sobre o grupo de jovens hegelianos.pensamento de Marx consiste em algumas breves proposições críticas. escritas em 1845. Tais foram publicadas. a Questão Judaica e a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. um ser inventado. é esse o contexto intelectual que circunscreve o texto que pretendemos analisar nesta seção. apesar de Marx nunca ter adotado-as integralmente. o mundo real é inferido do mundo ideal e a vida é idealizada tal como na religião. Franca. Por isso. Quando Ludwig Feuerbach publicou sua obra A Essência do Cristianismo. do egoísmo. a influência do pensamento de Feuerbach. Ludwig Feuerbach demonstra que a filosofia hegeliana não passa de um tipo de religião introduzida no pensamento. cumpre a função de dissimular o mundo real – da discórdia. fez-se sentir inclusive nas críticas dirigidas contra sua Filosofia do Direito –. em 1841. Deus nada mais é do que uma ilusão criada pelos homens. as idéias são o ponto de partida e o ponto de chegada. em 1888 e são conhecidas sob o título de Teses sobre Feuerbach. para ele. Esse intelectual. Os primeiros trabalhos de Karl Marx. o homem é um ser alienado perante a religião. dirigidas contra a filosofia feuerbachiana. também é equivocado negar o influxo que as idéias de Feuerbach tiveram principalmente no período de “juventude”. por Engels. outros reconhecem a sua importância decisiva para o pensamento de Marx – e não resultaria em erro Serviço Social & Realidade. o mundo pensado pela religião – da concórdia. da guerra. além de os Manuscritos Econômicos e Filosóficos (em alguns aspectos) – acusam. Alguns estudiosos supervalorizam as proposições críticas dirigidas à filosofia feuerbachiana. que não tem absolutamente nada de real. da paz. redigidos entre 1843 e 1844 – o Manuscrito de Kreuznach.

mas não apreende a sensibilidade como atividade prática. esquece que são precisamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador deve ser educado [.125-127): O principal defeito de todo materialismo até aqui (incluído o de Feuerbach) consiste em que o objeto. a realidade objetiva é apreendida como algo separado da atividade humana. como práxis. Se bem que Feuerbach tenha o mérito de distinguir entre 274 Serviço Social & Realidade.] (tese I). humano-sensível (tese V). As teses I. então. para as Teses. apela para a intuição sensível... ou seja. não subjetivamente [. aqui. desconsidera ou ignora completamente a modificação do mundo objetivo pelo sujeito. Feuerbach quer objetos sensíveis – realmente distintos dos objetos do pensamento: mas não apreende a própria atividade humana como atividade objetiva [. só é apreendido sob a forma de objeto ou de intuição. 2007 . Podemos incluí-las. Na filosofia feuerbachiana. Feuerbach.. segundo a qual os homens transformados são produtos de outras circunstâncias e de uma educação modificada. 16(2): 263-282. A doutrina materialista segundo a qual os homens são produtos das circunstâncias e da educação e.]. a sensibilidade. para além disso. III e V revelam a crítica direta e contundente que seu autor faz ao materialismo determinista ou mecanicista presente na filosofia feuerbachiana. Feuerbach. mas não como atividade humana sensível.] (tese III). mas. portanto.. Franca. nas seguintes palavras de Marx (1996. p..situar Engels entre um ou outro desses grupos – e mesmo aqueles que não concordam com nenhuma dessas posturas também não podem simplesmente ignorar ou declarar secundárias e prescindíveis as chamadas Teses sobre Feuerbach. a realidade. configuram um posicionamento contrário a toda e qualquer idéia ou concepção mecanicista da realidade humana. ao tempo em que considera a realidade material como “fator determinante” da vida humana.. pela atividade dos homens. Assim como todos os outros filósofos materialistas que o precederam. não satisfeito com o pensamento abstrato. Podemos dizer que tais teses não constituem apenas uma crítica ao materialismo determinista. Voltamos nosso olhar.

125-126. 1996. sobre os quais não hesitamos em afirmar que constituem uma crítica direta ao materialismo contemplativo. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis – é uma questão puramente escolástica (tese II). a realidade só pode ser apreendida pela intuição. Daí que o seu materialismo permanece em um nível puramente contemplativo e passivo. é o pensamento que deriva da existência e não o contrário – acaba precisamente no momento em que afasta as “circunstâncias” com relação aos homens.objetos reais (sensíveis) e objetos do pensamento e. p. que Feuerbach considere as idéias ou o pensamento humano como mero reflexo das condições materiais: seu mérito em ter descoberto que a existência precede o pensamento – ou seja. Todos os mistérios que induzem a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis (tese VIII). reconheça a realidade material como “fator determinante” da vida social – e não as idéias ou a “razão do espírito” de que falava Hegel –. entretanto. a realidade e o poder. p. absolutamente. portanto. Não surpreende. isto é. mas prática. 2007 275 . a separação entre a teoria e a prática. o autor dirige sua crítica filosófica contra. Serviço Social & Realidade. É na práxis que o homem deve demonstrar a verdade. para ele. determinista. Nas teses II e VIII. 128): A questão de saber se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica. não existe objetivamente. “puro”. Tais são os argumentos de Marx (1996. pela sensibilidade.126). 16(2): 263-282. a prática. pois a atividade humana. além disso. pois nele objeto e sujeito estão completamente separados. subordinando e tornando os homens simples produtos determinados por um mundo real de que eles objetiva e ativamente não participam. A vida social é essencialmente prática. Eis alguns erros da filosofia feuerbachiana apontados por Marx. Franca. o caráter terreno de seu pensamento. Não por acaso. Feuerbach nunca poderia ter observado que: “A coincidência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e compreendida racionalmente como práxis revolucionária [tese III]” (MARX.

Marx se dá conta da ineficácia da crítica enquanto crítica. em A Essência do Cristianismo.125). mantêm a distância entre pensamento e realidade. p.Já na sua fase de “juventude”. Para Marx. mesmo rompendo com o primado das idéias. da duplicação do mundo num mundo religioso. Mas – nessa fase da evolução do seu pensamento – ao definir a filosofia como princípio ativo. Como Marx afirma ainda na tese I. de passagem. do processo revolucionário (na Alemanha da época). tanto quanto se faz presente a influência de Feuerbach. num primeiro momento. ou seja. Marx permanece inserido na tradição hegeliana. As proposições críticas dirigidas contra a filosofia feuerbachiana que acabamos de citar (teses II e VIII) revelam bem essa superação da teoria e da prática como dois princípios separados. é na práxis que o homem demonstra “o caráter terreno do seu pensamento”. e o proletariado como base material. a evolução dos seus estudos nos anos que se seguiram a partir daí permitiram a superação dessa dicotomia não só enquanto proposta revolucionária. Marx defende a necessidade premente de aliar a crítica filosófica (teórica) com a prática revolucionária – sob o argumento de que os alemães se tornaram contemporâneos do presente nas idéias sem sê-los na prática histórica. a filosofia feuerbachiana comete os mesmos erros da tradição idealista alemã. expressa na dicotomia entre pensamento (filosofia) e matéria (proletariado). 1996. imaginário. “considera apenas o comportamento teórico como o autenticamente humano” (MARX. 16(2): 263-282. o “coração”. Isso é perceptível em sua crítica à Filosofia do Direito de Hegel: na Introdução. por isso a teoria que dela se afasta está condenada ao fracasso. a “cabeça”. a tese IV: Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa. em termos da possibilidade de uma revolução social na Alemanha dos anos 1843 e 1844. Ao isolar o pensamento humano da prática e enclausurá-lo no “misticismo da teoria”. da atividade teórica restringida sobre si mesma. Franca. ele desconhece a atividade humana enquanto práxis. 2007 . e num real. Se bem que essa relação teoria e prática fora pensada por Marx. Seu trabalho consiste em 276 Serviço Social & Realidade. não vê que a vida social se realiza na prática. pois atribui primazia ao pensamento – é a filosofia que deve guiar ou mover a prática revolucionária –. Feuerbach. Mencionamos. mas também no debate filosófico. pois.

se se identificou que o mundo terreno é o fundamento primeiro. Assim. 1996. é sobre o mundo real que se deve direcionar o olhar. por exemplo. Feuerbach não vê que o próprio “sentimento religioso” é um produto social e que o indivíduo abstrato por ele analisado pertence. Não porventura. o ponto de vista do novo é a sociedade humana ou a humanidade socializada (tese X). O extremo a que leva o materialismo intuitivo. é a intuição dos indivíduos singulares na “sociedade civil” (tese IX).127-128). depois disso. Marx o adverte dizendo que “o principal ainda resta por fazer”. o mundo religioso não existe objetivamente. não é mais a “imaginação” que deve ser criticada: afinal. à sua crítica teórica deve articularse uma prática transformadora. depois de completado esse trabalho.. p.]. são duas coisas muito distintas e separadas. 2007 277 . o principal ainda resta por fazer [. Mais do que isso. Mas a essência humana não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. é o conjunto das relações sociais (tese VI). para Feuerbach. Mas isso. na realidade. após descobrir que o mundo religioso é uma fantasia que nada tem de realidade. Franca. isto é.dissolver o mundo religioso em seu fundamento terreno. Em sua realidade. As asserções correspondentes. VII.. é a primeira que deve ser criticada na teoria e revolucionada na prática (MARX. ou seja. olvida-se que. o materialismo que não apreende a sensibilidade como atividade prática. p. As teses VI. Serviço Social & Realidade. a uma forma determinada de sociedade (tese VII). são as seguintes: Feuerbach dissolve a essência religiosa na essência humana. IX e X constituem uma crítica à concepção feuerbachiana de indivíduo e sociedade. que é a realidade o princípio fundamental para o conhecimento da vida humana. O ponto de vista do velho materialismo é a “sociedade civil”. uma vez descoberto que a família terrestre é o segredo da sagrada família. nos próprios termos de Marx (1996.126-127). Por isso. Ele não vê que. O que nos parece dito aí é que Feuerbach. 16(2): 263-282.

que pertence a uma forma determinada de sociedade e. A maior expressão desse modo de pensar. Franca. que significa também a unidade teoria e prática. não pode viver isolado. constitui o núcleo central do conceito de práxis no método e no pensamento social de Karl Marx. o estudo da humanidade deve partir das condições materiais de existência. o máximo que o materialismo “puro” (intuitivo) – como o feuerbachiano – chega é a intuição dos indivíduos isolados entre si na “sociedade civil”: Feuerbach não consegue apreender o homem como pertencente a um determinado contexto social e histórico. sua concepção de indivíduo é a do homem religioso. como um dado natural anterior à sociedade. para Marx. o indivíduo marxiano é composto pelas relações sociais de seu tempo. indubitavelmente. Essa dialética entre o sujeito – o homem em sociedade – e o objeto – o mundo material –. entender o homem como “conjunto das relações sociais” é negar a imagem feuerbachiana do indivíduo abstrato. 2007 . das vontades individuais. Assim. Marx defende o ponto de vista de que a sociedade compõe um todo.Feuerbach nos fala de um homem abstrato e isolado. apenas ligados entre si de uma maneira natural. considera a sociedade civil formada pelos indivíduos isolados (como o indivíduo econômico diante do mercado). Ele encontra a essência humana na essência religiosa e concebe o indivíduo em sua singularidade. Marx reconhece a atividade humana como uma relação dialética entre sujeito e objeto. bem como reconhecer que as relações entre os homens não são nada naturais. Marx se coloca. O “velho materialismo”. do egoísmo (e Marx não discorda disso). Mas isso não significa que ele adote o ponto de vista do materialismo filosófico determinista – como o de Feuerbach – na sua compreensão da evolução da sociedade. uma coletividade social. num ponto de vista materialista ou realista: a existência social precede o pensamento. na qual o homem dá forma ao mundo em que vive ao mesmo tempo em que é por ele formado também. Portanto. Marx faz objeção porque entende o homem como um ser social. A sociedade civil é concebida por Feuerbach – tal como Hegel – como o espaço dos interesses privados. Por isso. para Marx. isolado. entretanto. a nosso ver. na qual os homens estabelecem determinadas relações entre si e com o todo. é a tese XI: “Os filósofos se limitaram a 278 Serviço Social & Realidade. que seria anterior à própria sociedade. ligado aos demais indivíduos de um modo natural. 16(2): 263-282. como tal. a essência humana é o “conjunto das relações sociais”.

às vezes outro. 2007 279 . Quiçá por isso Engels denominou o método marxiano – e marxista – de “materialismo histórico”. das instituições jurídicas. enfim. fá-lo no sentido de que as condições materiais precedem o pensamento ou deixa transparecer aí um certo determinismo? Segundo: e quando Marx fala em práxis não rompe qualquer concepção determinista ou mecanicista da realidade? Nossa conclusão sugere a resposta somente do segundo questionamento: rompe sim. reconhece-o e o atribui seu caráter histórico e social. determinismo e práxis. E isso responde as duas indagações.128). vivendo em sociedade. 1996. Considerações finais Acreditamos ser essa a tese materialista de Karl Marx: o conjunto das relações de produção. A categoria práxis não elide ou exclui. na medida em que considera ser os homens. A base. o materialismo de Marx. a base ou estrutura econômica de uma sociedade. ao contrário. das formas de consciência social. Franca. é precondição ou condição primeira do desenvolvimento da vida social. da superestrutura. fazem-se presentes. política e intelectual. mas a vida que determina a consciência”. O dualismo entre determinismo e práxis no método de Marx não pode ser suficientemente explicitado mediante uma leitura – ainda que atenta e refletida – de determinados textos. Primeiro: quando Marx diz que “não é a consciência que determina a vida. nos quais esse dualismo aparece e ambos. p. Contudo. portanto. Não raro se vê pesquisas e trabalhos acadêmicos. ora um. 16(2): 263-282. Uma primeira leitura do Prefácio e das Teses nos levou a fazer dois questionamentos. Tampouco a polêmica dessas duas concepções distintas tem sido facilmente solucionada. condiciona. isto é. entre outras denominações). não determina mecanicamente a superestrutura: ela é a sua condição precedente e indispensável. Serviço Social & Realidade. quer dizer. que utilizam o método marxiano ou marxista (muito chamado de crítico-dialético. o modo de produção da vida material. como o Prefácio e as Teses. estamos cônscios de que “as coisas não se resolvem bem assim”. ou de histórico-dialético. de forma alguma. mas o que importa é transformá-lo” (MARX. que fazem a história.interpretar o mundo de diferentes maneiras.

263-282. ed. ENGELS. 1. 1983. Determinism. O capital. São Paulo: Nova Cultural. K. what does not suppose any determinist character. 1985. Crítica da economia política. Contribuição à crítica da economia política. do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – UFSC. The defended theory considers that an attentive reading of the Foreword to the Contribution to the Critic of the Political Economy and of the Theories on Feuerbach provides the necessary elements to explain the immediate doubts that oppose determinism and praxis. 13. ed. deve-se ler a sua obra. 2.Como diz o professor Raúl Burgos7: “parece que quando a ‘alma’ estruturalista aparece. to analyze the Foreword and the Theories in order to explain some controversial points on the collision between determinism and praxis in the Marx’s method. objective and subjective – in Marx's method. F. Livro primeiro. Teses sobre Feuerbach. pensamos ter cumprido a função principal deste ensaio. a ‘alma’ da práxis se esconde. but it recognizes it as a starting point of a dialectic movement between subject and object. • ABSTRACT: The present rehearsal has as theme the dualism among determinism – conception in which the base or structure determines the superstructure – and praxis – action or human activity that is. 2. Serviço Social & Realidade. Não obstante. ______. G. v. MENEGHETTI. In: MARX. at the same time. Aula ministrada na disciplina Pensamento Social Moderno e Contemporâneo. p. v. e quando essa última se faz presente. The praxis category does not suppress or excludes the Marx’s materialism. ed. • Referências MARX. Enfim. 1996. Praxis. Determinism and praxis: the dualism of marx’s method. therefore. é a primeira que recua”. 2007. para entender o seu método. The objective is. São Paulo: Martins Fontes. A ideologia alemã. Franca. 10. em 11 de julho de 2007. Marx's materialistic theory considers that the base or structure is precondition or precedent condition (and indispensable) of the development of the superstructure. o certo é que. São Paulo: Hucitec. 7 Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP). 16. 2007 280 . professor do Departamento de Serviço Social da UFSC. como o próprio Karl Marx afirma. Serviço Social & Realidade (Franca). ______. que é a de instigar o debate sobre determinismo e práxis no método de Marx. n. 16(2): 263-282. K. KEYWORDS: Method of Marx..

que se mostra incompatível com o governo federal do PT no período pós 2003. Este cenário permanece inalterado até o marco de 1979. Projeto ÉticoPolítico. através da Igreja e do tecnicismo norte-americano. quando a categoria passa a se colocar numa outra perspectiva. torna-se imprescindível considerar a dinâmica social moderna em sua complexidade. em São Paulo. em Tubarão-SC. contemplando um conjunto de * Graduada e Mestre em Serviço Social – Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. conhecida como “Constituição Cidadã”. cujo foco central é a categoria trabalho. 16(2): 283-298. Para tanto. possibilitando então a vinculação desses profissionais com a classe trabalhadora. 283 Serviço Social & Realidade. • Introdução Inicialmente é importante ressaltar que para apreender o processo de organização política do Serviço Social no Brasil. Florianópolis – SC – Brasil. Franca. a estreita relação da categoria com o PT. desde seu surgimento na “Era Vargas”. E-mail: cruzeirobel@hotmail. em 1982. culminando na ruptura com o conservadorismo. A profissão estava fortemente vinculada às classes dominantes. PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social. junto ao Bloco Católico. Após a Constituição Federal de 1988. como demonstração de resistência à ditadura militar instaurada no Brasil pelo grande capital em 1964.A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL: DE “VARGAS” A “LULA” Maria Izabel da SILVA* • RESUMO: Este artigo tem por objetivo resgatar a construção histórica do processo de organização política do Serviço Social no Brasil. portanto. cumpre ressaltar como marco histórico a elaboração do projeto ético-político. que sua organização política era insipiente e inoperante. sob influência européia. que regulamenta o exercício profissional e as Diretrizes Curriculares para a formação acadêmica. Organização Política. considerando ainda. o III CBAS – Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais. o Código de Ética de 1993. é pesquisadora do Núcleo de Estudos do Trabalho e Gênero – NETeG – UFSC e Profª do Curso de Serviço Social da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina. contribuindo assim para a lógica da produção e reprodução do capital. PT. considerando. conhecido como o “congresso da virada”. Destaque para a elaboração do novo currículo acadêmico.com. isto é. 2007 . é fundamental resgatar a respectiva contextualização histórica na qual a profissão surgiu e se consolidou ao longo de sua trajetória.

que eram pautados na ética. ainda. que marcam seu governo. embasado nas afinidades e “bandeiras de luta” em comuns. Podemos considerar que até então a organização política da categoria foi insipiente e inoperante. descrédito e despolitização dos brasileiros. 2007 . Em suma. contrariando totalmente o seu discurso e suas promessas feitas em campanha eleitoral. por conseqüência. que regulamenta o exercício profissional e as Diretrizes Curriculares para a formação acadêmica. o PT sob a administração do “Lula”. em 1979. isto é. fortemente ancoradas na defesa dos direitos sociais preconizados pela Constituição Federal de 1988. Em 1982 temos a elaboração do novo currículo acadêmico e em 1996 as novas Matrizes Curriculares.mediações que se articulam a partir da pluralidade de interesses privados e forças múltiplas que se contrapõem. Neste sentido. para as quais foi eleito maciçamente pela grande maioria dos eleitores. compra e venda de votos na Câmera e Senado Federal. a estreita relação dos avanços da categoria e o PT nos anos 80 e 90. Posteriormente reage a estas influências. que culmina na ruptura com o conservadorismo. sofrendo influência européia através da Igreja e do tecnicismo norteamericano. Franca. evidenciou-se em puro continuísmo e demagogia. dando início ao movimento de reconceituação. Entretanto. o Código de Ética de 1993. com os Seminários do CBCISS. a partir de 1965. que culminou na elaboração do projeto ético-político. tendo como marco o CBAS da “Virada”. estando fortemente vinculada às classes dominantes. é igualmente importante destacar que este artigo busca resgatar a construção histórica do processo de organização política da categoria profissional no Brasil. o que era visto como uma possibilidade de governo diferente dos anteriores. desde seu surgimento na “Era Vargas” junto ao Bloco Católico. 284 Serviço Social & Realidade. além das constantes situações de corrupção. dando prosseguimento às reformas neoliberais iniciadas no governo anterior. voltados aos reais interesses e necessidades da população. Cumpre ressaltar. após assumir o governo federal em 2002. a “Constituição Cidadã”. quebra de decoro. 16(2): 283-298. transparência e a defesa dos interesses da população. causando decepção. adota políticas neoliberais. depois de 20 anos de ditadura militar instaurada em 1964. num contexto de redemocratização do país.

Iamamoto (1985) ressalta a reorganização do bloco católico. O surgimento do Serviço Social no Brasil e o Bloco Católico O Serviço Social no Brasil surge na década de 1930. É igualmente importante esclarecer. surge como ramificação de movimentos sociais complexos. 2007 285 . Serviço Social & Realidade. norteado inicialmente pelo referencial teórico europeu. Franca. com uma ideologia e interesses de classe semelhantes. tendo como marco inicial a criação em 1936 da Escola de Serviço Social de São Paulo. com uma base social de classe na qual o autoritarismo e o paternalismo têm um respaldo histórico e social. inscrevendo seus princípios no seu cotidiano de trabalho. expressando a sua visão de mundo a partir das classes dominantes. com intuito de formar as “moças da sociedade” devotadas ao apostolado social. conforme preconiza o seu projeto ético-político. criando as bases para o surgimento dessa profissão. Desta forma. tendo em vista os preceitos assumidos pela categoria. legitimando sua intervenção paternalista e autoritária. sobretudo. Neste contexto. Ressaltando que o desafio maior é avançar na consolidação e implementação do projeto profissional. doutrinário). entretanto esse fenômeno não pode ser relacionado apenas ao caráter transnacional da Igreja Católica. Salientando que os núcleos pioneiros do Serviço Social tiveram sua base social determinada pelo Bloco Católico e emergiram como ramificações da Ação Católica e da Ação Social. que lhes conferia uma superioridade natural em relação à população assistida. por mulheres provenientes de famílias abastadas. sob forte influência do modelo europeu (autoritário. vinculado a Igreja Católica. tanto europeu quanto o brasileiro. segundo a autora. que o Serviço Social. 16(2): 283-298. o Código de ética do Assistente Social de 1993. na chamada “Era Getúlio Vargas”. isto é.Este atual contexto impõe à categoria do Serviço Social o desafio de repensar a sua relação com o PT. 1. Esse corpo profissional se caracterizava. a transposição e reelaboração dos referidos modelos no Brasil foi condicionada à existência de uma base social que pudesse assimila-los. em virtude da incompatibilidade entre ambos os projetos. pautado no caráter missionário e da caridade.

2007 . Destacando. conforme se pensava na época da criação 286 Serviço Social & Realidade. este perfil profissional é evidenciado na formação na Escola de Serviço Social de São Paulo que define como critério para matrículas: -Ter 18 anos completos e menos de 40. a exemplo da boa saúde e ausência de defeitos físicos. Neste cenário inicial. 228). 1985. 16(2): 283-298. Franca. a valorização de outros critérios. -Apresentação de referências de 3 pessoas idôneas. escolhida em meio à boa sociedade. p. veículo de doutrinação e propaganda do pensamento da Igreja Católica. atribuindo ao indivíduo responsabilidade sobre as suas mazelas. 1985. o qual era visto como “problema” desajustado às estruturas existentes. Nas palavras da autora: Teoriza-se assim no sentido da seleção e preparação de uma pequena elite virtuosa. Evidencia-se a visão moral dos fenômenos sociais com a naturalização do capitalismo. o Serviço Social configura-se como prolongamento da Ação Social. ainda. ressaltando a ação ideológica de ajustamento às relações sociais vigentes. Trata-se de intervenção com ações educativas de cunho moralista. Ressaltamos. p. Destaca-se também a necessidade de reeducar a família para a sociedade industrial que emergia e recrutava as mulheres e seus filhos para o trabalho. e que vê por missão redimir os elementos decaídos do quadro social. sendo fundamental a intervenção do Assistente Social quanto ao ajustamento do sujeito ao meio.238) “o julgamento moral tem por base o esquecimento das bases materiais das relações sociais”. Segundo Iamamoto (1985. ainda segundo a autora.228-9). p. além das condições do meio familiar. geralmente em quatro aspectos principais: científica.. -Comprovação de conclusão de curso secundário. moral e doutrinária (IAMAMOTO.. ainda.Nesta perspectiva. revelando as qualidades morais do pretendente. que o Serviço Social não nasce da evolução da filantropia.] a formação do Assistente Social se dividiria. técnica. -Submeter-se a exame médico (IAMAMOTO. [. na qual a Igreja criticava os excessos desse sistema e não sua essência (modo produção).

à “racionalização da filantropia” nem à “organização da caridade”. a tentativa de superação da luta de classes através da repressão e tortura. 234). 16(2): 283-298. que emerge sob novas formas a chamada “questão social”. em que se afirma a hegemonia do capital industrial e financeiro. não podem esconder a outra Serviço Social & Realidade. Salientando que essa idéia marcou a formação profissional desde seu surgimento. tendo por pano de fundo o desenvolvimento capitalista industrial e a expansão urbana”. 243) a violência que caracterizava o Estado Novo.. 74).da profissão. 234). 77) “O Serviço Social se gesta e se desenvolve como profissão reconhecida na divisão social do trabalho. Segundo Iamamoto (1985. perpassando pelo movimento de reconceituação até o processo de ruptura. Afirma Iamamoto (1985. a qual se torna a base de justificação desse tipo de profissional especializado”. p. 2007 287 . a partir da tomada de poder com o golpe militar de Getúlio Vargas em 1930. esclarece Netto (2005. Franca.69) “é somente na intercorrência do conjunto de processos econômicos. sóciopolíticos e teórico-culturais [. 2. que esclarece ainda: A partir desse evento se amarram os laços que irão relacionar estreitamente as principais escolas de Serviço Social brasileiras com as grandes instituições e escolas norte-americanas e os programas continentais de bem-estar social (p.] que se instaura o espaço históricosocial que possibilita a emergência do Serviço Social como profissão” e complementa referindo-se em termos históricouniversais “A profissionalização do Serviço Social não se relaciona decisivamente à “evolução da ajuda”. e ressalta ainda que “É nesse contexto. segundo Iamamoto (1985. vincula-se à dinâmica da ordem monopólica” (p.. p. É importante recordar o respectivo contexto histórico brasileiro. em Atlantic City – USA. p. O Serviço Social no período desenvolvimentista A influência norte-americana no ensino especializado brasileiro teve como marco o Congresso Interamericano de Serviço Social realizado em 1941. Nessa perspectiva. p.

“com as funções de órgão consultivo do governo e das entidades privadas. visando sua legitimação. afirma Iamamoto (1985. tem por efeito obscurecer para a classe operária. através do Decreto-lei n. 244): A noção fetichizada dos direitos. incorpora de alguma forma reivindicações populares. 256). p. ressaltamos já na década de 1930. Neste cenário. sua ação efetiva foi muito restrita e “caracterizou-se mais pela manipulação de verbas e subvenções. 16(2): 283-298. p.face de sua postura. a exemplo da Legião Brasileira de Assistência 288 Serviço Social & Realidade. que ainda hoje permanece no ideário popular brasileiro e norteia as relações sociais estabelecidas. Neste governo se consolida a idéia do favor do Estado protetor. impedila de perceber a outra face da legislação social. Neste período. cerne da política de massas do varguismo e da ideologia da outorga. segundo Silva (2006). Ressaltando. em virtude do surgimento de grandes instituições nacionais de assistência social. Entretanto. há uma expansão e aumento quantitativo (e não qualitativo) da atuação do Serviço Social. Nesta perspectiva. o fato de que representa um elo a mais na cadeia que acorrenta o trabalho ao capital. 1/7/1938. No que se refere à organização da categoria. segundo a autora. Franca. conhecidos como “sindicato pelego”. como mecanismo de clientelismo político” (ibidem). criou o Ministério do Trabalho para controlar os sindicatos vinculados ao Estado. 2007 . reconheceu a questão social (até então tratada como caso de polícia) como estratégia de controle social e ideológico. com claro intuito de controlar a classe trabalhadora. governou o país de forma ditatorial e populista. conhecido como “pai dos pobres”. reforçando a idéia de submissão da população ao Estado. Vargas. e de estudar os problemas do Serviço Social” (idem. paternalista. sob a vigência do Estado Novo. que ainda hoje se percebe a herança cultural da era Varguista (1930 a 1945). o qual institui direitos trabalhistas pelo viéis corporativo. legitimando sua dominação. segundo a autora. que se traduz na influência de sua política de massas. a estrutura corporativa do Estado Novo. a criação do Conselho Nacional de Serviço Social – CNSS.

as práticas sociais desenvolvidas pelos técnicos educadores cooptados pelo SENAI. abre-se campo para o Serviço Social. paliativa e burocratizada dos profissionais. A categoria profissional sobre forte influência norte-americana. além de atuar no Desenvolvimento de Comunidade. considera que “até o final da década de sessenta. 2007 289 . objetivamente. enquanto instituição social destinada a possibilitar a adequação da força de trabalho às necessidades do sistema industrial vigente. a dominação de classe” (p. com a educação para adultos. que deveriam. atuam para a “suavização dos aspectos contraditórios (antagônicos) desse ajustamento. Neste sentido.. atua atendendo aos considerados desajustados psicossociais. acrescido as grandes instituições assistenciais mencionadas anteriormente. p. 272). Franca. reiterativa.– LBA (Decreto-lei n. Desta forma. parametrada por uma ética liberal-burguesa e cuja teleologia consiste na correção – desde um ponto de vista claramente funcionalista – de resultados psicossociais Serviço Social & Realidade. segundo Netto (1998. a partir de dois aspectos principais: “o atendimento objetivo ao mercado de trabalho. 16(2): 283-298. assim. 4830 de 15/10/1942). p. 117). ser “ajustados” ao meio. Na década de 1950. ainda segundo Iamamoto “além das transformações na retórica do discurso oficial do Serviço Social. 271).. a expansão da profissão aliada a ideologia desenvolvimentista. e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI (Decreto-lei n° 4048 de 22/02/1942). com o surgimento das grandes indústrias. e entrando pelos anos setenta inclusive. no discurso e na ação governamental há um claro componente de validação e reforço do que [. reforçando. 273). Quanto à trajetória histórica do Serviço Social. no sentido de suprilo de trabalhadores portadores das qualificações técnicas necessárias” além da “produção de uma força de trabalho ajustada psicossocialmente (ideologicamente) ao estágio de desenvolvimento capitalista” (ibid. solidifica-se uma adesão ao capitalismo em sua etapa de aprofundamento industrial urbano” (idem. demonstrando. que requerem maior sistematização técnica e teórica de suas funções. p. inclusive o Assistente Social.] caracterizamos como Serviço Social “tradicional”. evidenciada através da psicologização. O referido autor considera como Serviço Social tradicional: a prática empirista. pois. criado no limiar de um novo ciclo de expansão capitalista.

considerando a tentativa de formulação de uma estratégia teórico290 Serviço Social & Realidade. que emerge a partir do encontro de Porto Alegre em 1965. 3. e se desdobra num segundo evento da mesma série e também patrocinado pelo CBCISS. tendo o status da profissão redefinido nas equipes interdisciplinares. p. Quanto as formulações constitutivas do Documento de Teresópolis. promovido pelo CBCISS entre 19 e 26/março/1967. sob o governo populista de João Goulart. afirma: “possuem um tríplice significado no processo de renovação do Serviço Social no Brasil: apontam para a requalificação do assistente social. sempre pressuposta a ordenação capitalista da vida como um dado factual ineliminável (NETTO. o “Jango”. entre 10 e 17/janeiro/1970 em Teresópolis (RJ). propondo as reformas de base. que questiona a própria legitimidade da demanda e os compromissos políticos subjacentes ao exercício profissional. Segundo Iamamoto (1985). Quanto a organização da categoria. a perspectiva modernizadora constitui a primeira expressão do processo de renovação do Serviço Social no Brasil. segundo Netto (1998. que culminaram nos documentos de Araxá e Teresópolis.considerados negativos ou indesejáveis. Para o autor. Neste contexto. teve como marco e encontra sua formulação firmada nos resultados do 1° “Seminário de Teorização do Serviço Social de Araxá (MG)”. evidencia-se o confronto do Serviço Social tradicional X vertente modernizadora da profissão. que culminou no golpe militar de 1964. definem nitidamente o perfil sociotécnico da profissão e a inscrevem conclusivamente no circuito da “modernização conservadora” (p. 177). respectivamente. o Documento de Araxá é “um texto orgânico expressando sistematicamente o que emergiu de consensual entre seus formuladores” (p. tivemos políticas desenvolvimentistas. Entretanto. p. segundo Iamamoto (1998). O Serviço Social no período pós-1964 No início da década de 1960. num contexto tenso de crise do populismo e a efervescência de movimentos sociais e sindicatos. 2007 . 16(2): 283-298. sobre o substrato de uma concepção (aberta ou velada) idealista e/ou mecanicista da dinâmica social. neste rápido governo o Serviço Social tem uma maior participação na formulação das políticas e planejamento.164). Franca. 192). 117-8). 1998.

prática a serviço do fortalecimento do processo organizado dos setores populares. Simionatto (2004) destaca como marco dos anos 60, o Movimento de Reconceituação, que emergiu em 1965, com vistas a discutir os referenciais teóricos e a prática profissional até então norteadas pelas matrizes norte-americanas. A autora citando Netto, refere-se a renovação da profissão no período pós-64, e aponta dois marcos da “intenção de ruptura” do Serviço Social: o Método de BH com teses maoístas e althusserianas e considera também a aproximação teórica com fontes originais de Marx. A autora destaca ainda a obra de Faleiros “Trabajo Social, ideologia y método”, publicada durante seu exílio em Buenos Aires (1970), na qual denuncia o “Serviço Social Tradicional”, evidenciando a dimensão política da prática profissional e sua vinculação histórica ao capitalismo e aos interesses da classe dominante, além de denunciar também o seu inconsistente referencial teórico e sua ação prática: empirista, tecnicista e pragmática. E complementa “Faleiros pautado em Marx e Gramsci extrapola a academia, analisa a prática profissional no contexto da sociedade capitalista” (p. 187). Cumpre salientar ainda, segundo Netto (1982, p. 148), o sincretismo teórico no Serviço Social denunciado no Movimento de Reconceituação, a partir de tendências críticas e renovadoras, quanto ao fato do Serviço Social até então estar pautado no saber das ciências sociais de extração positivista e pensamento conservador. Em suma, podemos considerar que até aquele momento a organização política da categoria foi insipiente e inoperante, estando fortemente vinculada às classes dominantes, contribuindo assim para a lógica da produção e reprodução do capital. Este cenário permanece inalterado até o marco de 1979, o III CBAS – Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, em São Paulo, ficou conhecido como o “congresso da virada”, quando a referida categoria profissional passa a se colocar em uma outra perspectiva, como demonstração de resistência à ditadura militar instaurada no Brasil pelo grande capital em 1964. Como conseqüência, tivemos em 1982, a elaboração do novo currículo acadêmico, tendo como foco central a categoria trabalho, possibilitando então a vinculação desses profissionais com a classe trabalhadora. Entretanto, vale destacar que neste novo currículo
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permaneceu a fragilidade do instrumental técnico-operativo no exercício profissional. Durante a década de 1980, segundo Netto (2004, p. 22), os embates no interior da organização da categoria estavam estreitamente vinculados aos esforços petistas para a consolidação do partido. O autor afirma que “também as iniciativas de renovação curricular, conduzidas pela então Abess, em grande medida sintonizavam-se com a movimentação social e política que tinha o PT como centro de uma pretensa nova esquerda” (idem). E conclui: “O saldo do período, todavia, é nitidamente positivo: sem esses caminhos e descaminhos, o Serviço Social brasileiro (em todos os domínios, da sua qualificação acadêmica à sua forte organização profissional) não teria se alçado ao nível onde hoje se encontra”. Salientando, ainda, que este período foi de expressivas transformações no Brasil, em função do fim da ditadura militar e do processo de transição para o sistema democrático, implicando grandes mobilizações populares e diversas manifestações da sociedade civil, culminando com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, em 05 de outubro de 1988, conhecida como a “Constituição Cidadã” e que representou um marco na história da justiça social do país. Ao longo da década de 1990, segundo Netto (2004, p. 23), permanece a estreita relação entre os avanços profissionais e o PT, destacando a formulação do projeto ético-político da categoria, referindo-se ao Código de Ética do Assistente Social, a Lei n. 8.662 de 13/março/1993 que regulamenta o exercício profissional e as Diretrizes Curriculares para a formação acadêmica1. Para o autor, o que ocorreu a partir da década de 1990 “foi que os imperativos prático-políticos do projeto profissional tinham no PT – na sua ação oposicionista e na sua retórica – um aliado fundamental” (p. 23). Posteriormente, com a vitória nas eleições presidenciais de 2002, tivemos a ascensão do PT à Presidência da República em 2003. Entretanto, segundo Netto (2004, p. 14) “Aquilo que era
1 Fortemente ancoradas na defesa dos direitos sociais preconizados pela referida Constituição Federal de 1988 e, regulamentada em outras legislações subseqüentes, entre elas a LOAS – Lei Orgânica de Assistência Social (lei n. 8.742, de 07/dezembro/1993), o Estatuto da Criança e do Adolescente (lei n. 8.069, de 13/julho/1990) e a Política Nacional do Idoso (lei n. 8.842, de 04/janeiro/1994).

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satanizado pela oposição petista é entronizado pelo governo petista”, tendo em vista a continuidade da política governamental de FHC, “o prosseguimento e o aprofundamento da macroorientação econômica herdada da era FHC” e os resultados “absolutamente medíocres” (p. 14-15). Trata-se da continuidade de implementação do projeto neoliberal, e citando Francisco de Oliveira que afirma tratar-se de “um terceiro mandato de FHC” (NETTO, 2004, p.17). Neste prisma, é igualmente importante ressaltar, segundo Silva (2007, p.42), que a partir do Consenso de Washington, delineia-se as diretrizes dos organismos internacionais Banco Mundial – BM, Fundo Monetário Internacional – FMI, Banco Interamericano – BID e Organização Mundial do Comércio – OMC, sobretudo, para os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, cuja orientação está centrada, em especial, na reforma do Estado, isto é, a contra-reforma do Estado, ao qual é atribuída grande parte da crise estrutural do capital, eclodida no final da década de 1970 e que teve como respostas: o projeto neoliberal e a reestruturação produtiva flexível. Nesta perspectiva, afirma Netto (2004, p. 13):
... o governo de Luiz Inácio Lula da Silva assume a prática “neoliberal” que combateu frontalmente durante a era de FHC – como o comprovam, sobejamente, as relações com o FMI e a condução da contra-reforma do Estado. [...] o governo capitaneado pelo PT excede as exigências daquela agência do grande capital, por exemplo acrescentando o percentual do superávit primário; [...] o indecoroso prosseguimento da reforma previdenciária chegou a um limite a que não se alçou o governo FHC – e ainda não veio à tona a magnitude das alterações que o governo de Luiz Início Lula da Silva pretende imprimir às legislações trabalhista e sindical: pode-se esperar para ver, mas tudo indica que, também aqui, o “espírito” ideológico que inspirou o Consenso de Washington será rigorosamente desposado.

Sob a égide da barbárie neoliberal, segundo Silva (2007), seguindo as referidas diretrizes que são implementadas pelos

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governos neoliberais, inclusive o atual2, a partir da reestruturação produtiva, com a privatização, o enxugamento do Estado, a política fiscal e monetária sintonizadas com os organismos mundiais de hegemonia do capital, citados anteriormente, o desmonte dos direitos trabalhistas, o combate acirrado ao sindicalismo de esquerda, a propagação do subjetivismo e individualismo que a cultura “pós-moderna” é expressão. Isso tem profundas mutações no mundo do trabalho, isto é, o crescente desemprego estrutural, o subemprego, a precarização das condições de trabalho, a flexibilização e desregulamentação das leis trabalhistas, contraditoriamente ao discurso e promessas feitas durante a campanha eleitoral, quanto a valorização e especial atenção com os trabalhadores brasileiros. Nesta perspectiva, é igualmente importante ressaltar a questão da ética, ou melhor dizendo, a falta de ética do governo PT, segundo Antunes e Netto (2005), que afirmam que o governo federal do PT “Lula”, está dominado pela burguesia de forma “prussiana”, da qual tornou-se refém e servil ao grande capital internacional. O governo de Lula, chamado de “artífice”, seria o terceiro mandato do “príncipe” Fernando H. Cardoso, cuja governabilidade se dá, após traição aos trabalhadores, aqueles os quais defendia no passado, através de compras a altos preços no parlamento e a acordos “inescrupulosos”, antes inaceitáveis e inadmissíveis pelo próprio partido. Como conseqüência dá-se o agravamento do processo de despolitização da população

2

Governo petista Luis Inácio Lula da Silva, antes de esquerda, foi eleito com o apoio maciço dos trabalhadores, a quem no passado representava enquanto sindicalista, se comprometendo em campanha eleitoral a defender seus interesses, todavia no decorrer de sua 1ª gestão (2003-2006), reforçou e deu continuidade a política neoconservadora do governo anterior Fernando Henrique Cardoso, revelando-se puro continuísmo, sobretudo quanto a implementação das reformas neoliberais, tendo reflexo perverso no país, em vários âmbitos. Referindo-se ao governo de Lula, afirma Antunes (2006, p. 49) “Na ponta de cima, atendeu de modo impressionante aos interesses dos grandes bancos, que lucraram muito mais do que no governo FHC. E, na ponta de baixo, em relação aos miseráveis, fez uma política assistencialista vergonhosa para a esquerda, mas que rende votos”, acrescentando “O governo do PT é um servo que realiza com presteza as imposições do Fundo” (idem, p. 40). E adverte “o governo Lula [...] tornou-se uma espécie de paladino do neoliberalismo” (ibid, p. 46), concluindo “Lula não é um dos seus, mas faz o que querem: é o servo ideal” (ibid, p. 50). Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

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brasileira, movido pela decepção, descrédito e total desesperança3. Referindo-se a trajetória histórica do PT, afirma Antunes (2006, p. 45) “...o PT chegou, ao final de 26 anos de sua história, como um partido tradicional. É uma espécie de PMDB do século XXI – versão, eu diria, até piorada, se analisarmos as alianças que o PT fez nos últimos anos, que evidenciam sua completa falta de escrúpulos e de limite”. Diante do exposto, segundo Netto, o atual cenário nacional do governo petista põe à prova a categoria profissional, especificamente quanto a “autonomia política para conduzir o denominado projeto ético-político que construíram para a profissão nos anos 1980 e 1990”. Neste sentido, esclarece:
A continuidade desta relação explica-se por uma razão elementar: a substancialidade do projeto ético-político – cuja necessária derivação práticoprogramática redundava, para dizê-lo em termos sintéticos, na defesa de políticas sociais de caráter estatal e universal, garantidoras e ampliadoras de direitos de cidadania – encontrava (ainda que não exclusivamente) no PT um parceiro e suporte insubstituível” (NETTO, 2004, p. 23).

Desta forma, implica em “compreender o que está envolvido nesta prova supõe retomar componentes históricopolíticos muito expressivos da gênese e do desenvolvimento desse projeto” (idem, p. 22). Nesta perspectiva, entendemos que se trata de um momento importante de reflexão para a organização política da categoria, pressupondo um amplo debate coletivo, envolvendo o confronto de idéias e posições distintas, reiterando os pressupostos democráticos que culminaram no projeto ético-político, isto é, o Código de Ética do Serviço Social de 1993, que norteia a formação acadêmica e sua intervenção profissional, comprometida com os valores éticos fundamentais: liberdade, equidade e justiça social, articulando-os à democracia e à cidadania. Para tanto, adverte Barroco (2006, p. 207):
3

Debate proferido pelos professores Dr. Ricardo Antunes e Dr. José Paulo Netto, coordenado pelo professor Fernando Ponte – CFH/UFSC, cujo tema central foi Florestan Fernandes – Obra e Vida, realizado dia 23/06/2005, no auditório do CED/Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, Brasil, das 8:30 às 13:00 horas. 295

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... considerando que o cenário que se inscreve o processo de legitimação do projeto profissional conectado ao Código de 1993 é pleno de conflitos e desafios; seja em sua fundamentação teóricofilosófica, seja na sua dimensão prática, opera abertamente na contracorrente da conjuntura.

No que tange ao desafio atual para o Serviço Social, segundo a ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (2004, p. 79):
é o de uma tomada de posição ética e política que se insurja contra os processos de alienação vinculados à lógica contemporânea, impulsionando-nos a dimensionar nosso processo de trabalho na busca de romper com a dependência, subordinação, despolitização, construção de apatias que se institucionalizam e se expressam em nosso cotidiano de trabalho.

Nesta perspectiva, afirma a referida associação
O desafio maior com o qual nos defrontamos é o de avançarmos na consolidação e implementação do projeto profissional, inscrevendo seus princípios em nosso cotidiano de trabalho (ABEPSS, 2004, p. 79). SILVA, M. I. The political organization of the Social Service in Brazil: from “Vargas” to “Lula”. Serviço Social & Realidade (Franca), v. 16, n. 2, p. 283-298, 2007. • ABSTRACT: This article has the objective to rescue the historical construction of the process of political organization of the Social Service in Brazil, from its appearance in the “Vargas Era”, close to the Catholic Block, under European influence, through the Church and the North American tecnicism. The profession was strongly linked to the dominant classes, considering, therefore, that its political organization was incipient and inoperative, contributing, this way, to the logic of the production and reproduction of the capital. This scenery remains unaffected until March, 1979, III CBAS – Brazilian Congress of Social Workers, in São Paulo, known as the “congress of the turning”, when the category reaches another perspective, as a demonstration of resistance to the military dictatorship established in Brazil by the great capital in 1964, culminating in the rupture with the conservatism. Highlight for the elaboration of the new academic curriculum, in 1982, whose central focus is the work category, making possible those professionals linking with the working class, still considering the close Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

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Political Organization. ______. Franca. 1993. V. V.662/1993 de regulamentação da profissão. the Code of Ethics of 1993. 39-50. São Paulo. • KEYWORDS: Social Service. São Paulo: Cortez. Project. ed. BRASIL. that is.72-81. 2006. as a historical mark. 16(2): 283-298. Florianópolis. p. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica / Marilda Villela Iamamoto. [Lima. After the Federal Constitution of 1988. that regulates the professional exercise and the Curricular Guidelines for the academic formation. PT. IAMAMOTO. p. 201250. ANTUNES. Lei n. 3. Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Serviço Social & Realidade. NETTO. the elaboration of the ethical-political project. 1985. Correio da Cidadania. P. São Paulo: Cortez. J. 1982. Desafios do P-Sol é dar densidade social ao projeto.relationship of the category with PT. 4. Brasília. abril. programa e a estratégia de construção do socialismo. 2004. it accomplishes to stand out. ______. São Paulo: Cortez. Subsecretaria de Edições Técnicas. R. 79. 3. In: IAMAMOTO. Código de Ética Profissional do Assistente Social – CFESS. O debate contemporâneo da Reconceituação do Serviço Social: ampliação e aprofundamento do marxismo. that is shown incompatible with the federal government of PT in the period after 2003. São Paulo: Cortez. Ethical-Political. Capitalismo monopolista e Serviço Social. Peru]: CELATS. Referências ABEPSS. n. Junho de 2006. setembro de 2004. In: Cultura socialista: os desafios da conjuntura. In: Serviço Social & Sociedade. p. 1998. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. Formação do assistente social no Brasil e a consolidação. 2007 297 . Raul de Carvalho. Ano XXV n. 165p. Brasília/DF: Senado Federal. 8. M. known as “Citizen Constitution”. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. M. ed.

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16(2): 299-304. Idéias principais Diante do mundo globalizado e dos múltiplos desafios da contemporaneidade. Marcelo de ALMEIDA∗ Biografia O pensador e escritor francês Edgar Morin é considerado um dos maiores intelectuais contemporâneos. São Paulo: Cortez. aptos a enfrentar os desafios dos tempos atuais. sob orientação do Prof. Dr. Introdução ao pensamento complexo. Ubaldo Silveira. destacamos Para sair do século XX (1981).RESENHA MORIN. 2004. respeitando o singular ao mesmo tempo em que o insere em seu todo. A religação dos saberes (2001). Ciência com consciência (1982). Defende a formação do intelectual polivalente. um humanista. 299 Serviço Social & Realidade. Suas obras são norteadas pelo cuidado com um conhecimento não mutilado nem compartimentado. Edgar. o processo de formação dos indivíduos – a esfera educacional – assume significativa relevância. capaz de formar cidadãos planetários. Sua trajetória de vida é marcada por um fundamentado posicionamento no que se refere às questões cruciais de seu tempo. (2000). Franca. Diálogo sobre o conhecimento. Ele nos propõe uma reforma do pensamento por meio do ensino transdisciplinar. solidários e éticos. uma vez que se constitui numa ferramenta básica para a participação cidadã na ∗ Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP – Campus de Franca/SP. o que se reflete em grande parte da sua significativa produção intelectual. (1990). tecendo severas críticas à fragmentação do conhecimento. Edgar Morin é um estudioso de expressão internacional. Morin é Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica e fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. O desafio do século XXI: religar os conhecimentos (2001) e Educar na era planetária (2003). (Coleção questões da nossa época. Os sete saberes necessários para uma educação do futuro. preocupado com a elaboração de um método capaz de apreender a complexidade do real. Entre elas. 119). 2007 . v.

orientados pela equipe organizadora. Nesse sentido. apresenta-se como um trunfo indispensável para fazer surgir. indivíduos culturalmente íntegros e conscientes de sua responsabilidade sócio-política. próprios da época contemporânea. dando importância ao exercício da reflexão e da crítica. Um deles foi a dificuldade dos professores em promover e desenvolver o debate e o outro foi a resistência dos 300 Serviço Social & Realidade. A experiência foi idealizada pelos pesquisadores Alfredo Pena-Veja e Bernard Paillard. no contexto escolar. objetivando uma educação voltada para a vida contemporânea. O projeto intitulado “Paixão pela pesquisa” visava à aproximação de pesquisadores com jovens estudantes a fim de estabelecer o diálogo e o interesse pela pesquisa. a partir do interesse do grupo e eram contextualizados ao conteúdo programático da disciplina coordenada pelo professor. Assim. o autor esboçou uma experiência educacional embasada na sua teoria da complexidade. Alguns obstáculos para o desenvolvimento deste trabalho foram encontrados.vida coletiva. Isso significa desenvolver outras formas de inteligibilidade. compartimentados em limites que não mais se sustentam. urge pensarmos a educação como uma força motriz para a reconstrução do sujeito social ativo. 2007 . para articular saberes que se encontram divididos. A inquietação dos realizadores deste trabalho consistiu em saber como as idéias deste pensador podiam ser aplicadas na prática. sem conceitos fechados. princípio paradigmático por ele discutido que se apóia na necessidade de um pensamento multidimensional. o pensamento educacional requer um diálogo crítico e uma constante abertura para o novo. Franca. Em momentos permeados de incertezas. capaz de apontar novos caminhos no tecer contínuo do conhecimento. 16(2): 299-304. como propósito de resgatar os valores essenciais do ser humano mediante um aprendizado ininterrupto ancorado no questionamento da realidade. dialético e dialógico. A prática do debate permitia o surgimento de novos temas que foram abrindo um vasto diálogo entre os estudantes. Os temas trabalhados surgiam da discussão entre os estudantes. em meio a condições adversas. Na obra O diálogo sobre o conhecimento. conforme propõe Edgar Morin.

imprevisibilidades e contradições da existência. neste sentido. 31) Quando falamos em desconstrução do conhecimento. é possível relacionar o que foi afirmado com a concepção do método dialético fundamentada em Hegel. muitas vezes é necessário desaprender conceitos fechados e repletos de permanências a fim de abrir horizontes novos e amplos que. Para Morin. interpretando os dogmas consolidados e estabelecidos. nos exigindo novas maneiras de reaprender. (HEGEL apud GIL. à medida que ele é capaz de divergir. nas quais as contradições se transcendem. 1999. ponderações e desconstruções. (MORIN. mas dão origem a novas contradições que passam a requerer solução”.11). conceito passível de análises. uma vez que era necessário planejar novas ações e de interagir com outros profissionais que não faziam parte do mesmo ambiente de trabalho. é necessário deixar explícito que a sua finalidade é se basear num pensamento complexo divergente. Portanto. A crítica.docentes à mudança. Vários procedimentos foram utilizados. afirma que é necessário ao pesquisador estimular a elaboração de estratégias de conhecimento ligadas às diversas áreas do saber. em que os conhecimentos adquiridos se convergiam. ressalta: “A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar”. desconstruir. Edgar Morin. muitas vezes. nos apontam para as incertezas. 2007 301 . p. O paradigma da complexidade. a educação é um projeto de reconstrução permanente. à luz do pensador francês. Franca. vai ao encontro do método cartesiano. entre eles. 2004. No entanto. sendo possível dar continuidade ao processo investigativo. p. técnicas de observação e entrevista aprofundada. podemos também dizer que o próprio homem é transdisciplinar. Assim. Este filósofo entende que “a lógica e a história humana seguem uma trajetória dialética. apresenta-se como um movimento que pretende questionar a visão positivista e fenomenológica da ciência convencional. Este trabalho trouxe uma abordagem aproximativa do método in vivo que consiste em manter um diálogo entre o investigador e a realidade pesquisada. tendo por meta a revalorização dos atos de ensinar e aprender na direção da auto-formação dos sujeitos. ao definir o método utilizado nesta prática educacional. Neste sentido. 16(2): 299-304. o autor ainda argumenta que o Serviço Social & Realidade. Neste sentido.

ou seja. a vida e a humanidade –. Com isso. O estudo de Edgar Morin nos leva a considerar que o objetivo da educação contemporânea consiste em auxiliar o ser humano a aprender a viver com as incertezas e as imprevisibilidades. metodologia cartesiana. conforme o autor. contextualizar e globalizar. Caso contrário. Morin sublinha que a busca do conhecimento científico implica em refletir e tratar os problemas. 302 Serviço Social & Realidade. Explicita aos educadores que os problemas vivenciados fora da escola devem ser trazidos para dentro dela. pacífica e consciente. pois o conhecimento não se adquire de modo isolado e compartimentado. As ciências devem ser reagrupadas. Portanto. assim adotando uma posição hologramática. complexo e global. o pensador mostra aos educadores a necessidade de contextualizar o tempo todo. Franca. reprodutora e convergente. Morin desvela um universo da educação que urge por questionamentos e mudanças. do que uma “cabeça bem cheia”.método deve ser amplo. em que a ganância capitalista se torne parceira da miséria humana. Morin nos permite perceber que os objetos devem ser analisados em todos os aspectos. criticá-los e tentar equacioná-los. 2007 . a fim de debatê-los. na qual se acumula saberes de maneira mecânica. 16(2): 299-304. a resolução de problemas por meio dele está inserida num pensamento complexo capaz de ligar. Aborda e instiga o docente a analisar que a solidão disciplinar não é suficiente para fornecer todas as respostas aos problemas que estão ligados a uma área do saber. uma vez que elas são inerentes à espécie humana. versando sobre os grandes temas – o mundo. organizar e religar conhecimentos e a eles conferir sentido. Ao abordar a complexidade. Esta metodologia de ensino nos faz rememorar Paulo Freire. Apreciação De forma clara e competente. Acreditamos que esta seria uma das mais significativas contribuições da ciência para abrir o caminho a uma transformação social. O autor nos leva a refletir que uma “cabeça bem feita” é qualitativamente mais importante na formação dos valores e da visão de mundo dos alunos. as informações se dissipam e ocorre o desinteresse por elas. refleti-los. que a denominou como ‘educação bancária’.

Serviço Social & Realidade. 16(2): 299-304. Franca. 2007 303 .

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é um grande contributo ao universo do conhecimento na área das Ciências Sociais Aplicadas. com certeza. qualificando ainda mais os seus autores em sua atuação profissional. Pe. foram defendidas oito dissertações e cinco teses. Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – UNESP – Franca Prof. Mário José Filho . O conteúdo de tais trabalhos. Dr. bem como seus orientadores pelo trabalho realizado e pelo título obtido.SOCIALIZANDO Apresentamos à Comunidade Científica e Acadêmica os resumos das Dissertações e Teses defendidas no período de 01 de julho a 31 de dezembro de 2007. Cumprimentamos os recém mestres e doutores. No Programa de Pós-Graduação em Serviço Social.

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Suas aspirações. 2007. uma intensificação da qualidade de sujeitos nas mulheres que participaram deste processo. 2007 307 . Serviço Social. Partimos da hipótese de que. 110p. transcritos e analisados. valores. a felicidade. na década de 1980. PALAVRAS-CHAVE: Mulheres. A intensificação da qualidade de sujeitos nas mulheres da Associação das Lavadeiras de Lins-SP. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. no Estado de São Paulo. Franca: UNESP. A nossa pergunta é: até que ponto o Serviço Social contribuiu para a inserção. Serviço Social & Realidade. Lourdes. Qualidade. melhorou a auto-estima originando uma história de inserção e protagonismo. essa forma de participação das mulheres aumentou o prazer. residentes em Lins. Defendido em 06/08/07.PASSAURA. Perceber o processo de organização e mobilização social voltado para a valorização do trabalho coletivo e das experiências do cotidiano. Trabalho Coletivo. a Faculdade de Serviço Social de Lins. Valores. a intensificação da qualidade de sujeito das mulheres que participaram da experiência da Associação das Lavadeiras. dignidade demonstram essa qualidade. bibliográfica e empírica. Seus depoimentos foram gravados. protagonismo e melhoria da qualidade de vida das mesmas? Na dinâmica da pesquisa documental. RESUMO: Este trabalho tem como objeto de estudo. Franca. Dra. A nossa conclusão é que houve de fato. Mobilização Social. 16(2): 305-328. Ana Maria Ramos Estevão. autonomia. A pesquisa de campo colheu o depoimento de quatro lavadeiras. em Lins. em que as estagiárias participavam ativamente através da concretização do PEOP. como meio de participação e busca de melhorias para sua vida e de sua família. Dignidade. revelou-se comprometida com as lavadeiras em seu processo de organização e mobilização por meio de uma proposta de estágio.

Após esta primeira etapa. Meire Cristina de. alimentação. Foram muitos os relatos em que o trabalho no corte da cana aparece atrelado a problemas de saúde. com a contribuição das assistentes sociais do órgão gestor da Política de Assistência Social foram selecionados sujeitos significativos para esta pesquisa e realizadas entrevistas com os mesmos em suas residências. atendidas pela Política Pública de Assistência Social no município de Pitangueiras/SP. saúde e lazer destas famílias. Defendido em 30/08/07. Foram também indagadas sobre o vínculo com a Política Pública de Assistência Social e convidadas a avaliá-la. quatro são mulheres e um homem) e quatro casais. questionou-se sobre os sonhos e as perspectivas de futuro destas famílias. Os depoimentos recolhidos durante as entrevistas versaram sobre as condições e a rotina de trabalho no corte da cana-deaçúcar. Franca: UNESP. Raquel Santos Sant’Ana. Açúcar amargo: condições de vida e trabalho das famílias de cortadores de cana. Em seguida problematiza os avanços. Dra. Os depoimentos reforçaram o quanto é penoso o trabalho no corte da cana. RESUMO: O presente estudo trata das condições de vida e trabalho das famílias de cortadores de cana. já que esta é uma necessidade e uma lacuna apontada por alguns estudiosos. 125p. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. 16(2): 305-328.SOUZA. 2007 . desafios e limites da Política Pública de Assistência Social no Brasil e sua organização no município alvo deste estudo. Nosso intento é contribuir com o conhecimento sobre parte significativa dos usuários do Serviço Social. Por último. A maioria 308 Serviço Social & Realidade. atendidas pela Política Pública de Assistência Social no município de Pitangueiras-SP. 2007. sobre a moradia. Inicialmente discute-se a questão agrária. Foram realizadas dez entrevistas (duas delas com os mesmos sujeitos). no qual constatou-se que um contingente expressivo de famílias que tem em sua composição trabalhadores rurais assalariados são usuárias da Política Pública de Assistência Social. no município de Pitangueiras/SP. Franca. ao todo tivemos a participação de 13 sujeitos: cinco concederam-nos a entrevista sozinhos (destes. O trabalho de campo foi realizado inicialmente a partir de levantamento nos formulários do Cadastro Único do Governo Federal. a proletarização do homem do campo e os seus rebatimentos na questão social no Brasil.

Parte significativa do que ganham é destinado para a alimentação. diante da sua trajetória. Muitos sonham com a casa própria. que consigam ter um trabalho menos duro que o deles. Questão Agrária. porém. ter seu próprio negócio. não acham possível conseguir outro trabalho. Quanto a Assistência Social que têm tido acesso. Franca. 16(2): 305-328. Serviço Social. Assistência Social. principalmente através do plantão social e dos programas de transferência de renda. Políticas Pública. é a de trabalhar por conta própria. Quanto às perspectivas de sair do trabalho no corte da cana a única. PALAVRAS-CHAVE: Trabalho. o que deixa claro a distância existente entre a legalidade e a realidade. ou ao menos. nos depoimentos aparece como ajuda.dos nossos depoentes vivenciou o trabalho precoce e não teve acesso à educação formal. Possuem pouquíssimas alternativas de lazer. distante alternativa sonhada por alguns. 2007 309 . e não como direito social. principalmente na entressafra. Serviço Social & Realidade. alguns já conquistaram-na. Cortadores de Cana. tais trajetórias indicam que o trabalho é sinônimo de luta pela sobrevivência. A pesquisa demonstra que parcela importante de trabalhadores tem recorrido à Política Pública de Assistência Social em busca de respostas relativas à sua reprodução social. sentem-se fadados ao corte da cana e sonham com melhores oportunidades para os filhos. Muitos.

2007. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientador: Prof. Assim. RESUMO: A nossa pesquisa tem como propósito verificar como a temática agrária é trabalhada nas escolas e quais as ressonâncias deste processo na formação do adolescente para o exercício da cidadania e da democracia. Embora o PCN seja apenas um referencial. Planejamento Familiar. entraves ou indiferença. a inclusão da temática agrária foi um avanço. 111p. 16(2): 305-328. como os docentes percebem a necessidade de levar ao conhecimento dos jovens os desdobramentos sociais do concentracionismo agrário. PALAVRAS-CHAVE: Temática Agrária. nessa conjuntura. Verificamos. Temática agrária e escola: apoio. Assistente Social. 310 Serviço Social & Realidade. num país historicamente caracterizado pela injusta distribuição de terras desde os princípios coloniais. objetivamos contribuir na construção de uma outra imagem dos profissionais que atuam na área da educação: o empenho na prática do seu trabalho e a esperança em poderem cooperar para a formação de jovens comprometidos com o devir histórico. Defendido em 28/09/07. Franca: UNESP. 2007 . Marcelo de. favorável aos interesses de uma minoria em detrimento do restante da sociedade. fomentando um mundo melhor e justo.Ubaldo Silveira. Dr. utilizamos a pesquisa qualitativa com entrevistas semiestruturadas. As narrações dos nossos sujeitos nos permitiram identificar a existência de profissionais que crêem e atuam efetivamente na possibilidade da transformação social. Em 1997. fazendo com que o ambiente educacional em conjunto com todos os seus atores seja um espaço da produção e multiplicação do conhecimento e de intervenção no real. Franca. Tais ações poderão nortear uma outra história.ALMEIDA. Políticas Públicas. Mulher. a partir da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) foi proposta aos professores de História a possibilidade da abordagem da temática da terra e seus impactos sociais em sala de aula. Para isso.

Dra. Um dos motivos para a seleção deste indicador foi o fato de que autores contemporâneos vislumbram no campo empresarial organizações que buscam o consenso através da institucionalização do diálogo e conversação. como esta se dá na moradia popular. chega a 7. atualmente. por ser empresa brasileira tem função social. Defendido em 27/11/07. por se tratar de uma empresa pública tem obrigações sociais. A Serviço Social & Realidade. O presente trabalho se propôs a delimitar como a responsabilidade social se encontra inserida neste contexto e. A relação da CEF com a responsabilidade social é complexa. SP. Para avaliar a responsabilidade social da CEF foi selecionado o indicador constante nos Indicadores Ethos de Responsabilidade Social. Márcia Regina. O estudo da responsabilidade social na moradia popular se constitui em possibilidade para melhorar as condições de habitabilidade da população pobre brasileira na medida em que o setor ainda traz arraigados traços do foco quantitativo para a solução do problema de déficit habitacional que. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. Claudia Maria Daher Cosac. 237p. Franca: UNESP. especificamente.INTRABARTOLLO. 16(2): 305-328. desde 2. administradora das loterias federais e principal agente do Governo Federal em programas de transferência de renda e inclusão bancária. se refere à ação da CEF na execução de políticas habitacionais. com atuação em todo o território nacional.003 demonstra interesse em ser reconhecida como socialmente responsável.2 milhões de moradias no país. e por ser caixa econômica tem compromisso social inerente à sua constituição jurídica. 2007 311 . definida como a resposta empresarial ao anseio mundial por desenvolvimento sustentável. Segundo os autores. RESUMO: A Caixa Econômica Federal (CEF) se constitui em empresa pública de direito privado que executa as políticas públicas brasileiras relativas à moradia popular no âmbito federal. Empresa centenária. ultrapassando a forma disjuntiva de pensar para adotar o foco nas relações. além de atuar como gestora de fundos. Franca. que trata do diálogo entre as partes afetadas pela ação da instituição que. esta nova forma de pensamento conduz ao movimento da responsabilidade social. 2007. no presente trabalho. pois. inspirado na norma AccountAbility 1000. Responsabilidade social na moradia popular: estudo do Programa de Arrendamento Residencial em Ribeirão Preto.

ainda. da Caixa Econômica Federal no Brasil. no município paulista de Ribeirão Preto. Trata. tendo em vista que sua especificidade promove o diálogo e o engajamento das partes interessadas e afetadas pelo processo de implantação de novas moradias. A dissertação mostra como o Trabalho Técnico Social (TTS) realizado pela CEF nos empreendimentos do PAR representa possibilidade efetiva de atividade socialmente responsável. Questão Agrária. PALAVRAS-CHAVE: Assistência Social. e a relação da instituição com a moradia popular. da questão habitacional brasileira desde o século XIX. foi selecionado o Programa de Arrendamento Residencial (PAR). Mundo do Trabalho. Franca. 312 Serviço Social & Realidade. utilizando como amostra o Residencial Leo Gomes de Moraes. Aborda o tema do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social empresarial na trajetória de como a CEF tem lidado com as questões da moradia. 2007 .dissertação aborda a histórica origem das caixas econômicas no mundo. 16(2): 305-328. Entre os programas operacionalizados pela instituição. Moradia Popular.

Educando para a Paz: Construindo Cidadania. a compreensão. objeto de tantos estudos e críticas. desenvolve a dimensão ética no cotidiano escolar e quais a mudanças ocorridas no comportamento dos envolvidos neste processo. Dr. A educação. Franca: UNESP. RESUMO: O tema da ética vem sendo constantemente apresentado sob óticas diferentes demonstrando a sua importância para o período histórico em que vivemos. ocupa um papel fundamental na formação intelectual e moral do ser humano. possibilitando o desenvolvimento de pessoas com claras noções de humanidade e de justiça. Formação Moral. Educação e Compromisso. A presente dissertação de Mestrado tem como objetivo analisar e compreender como o corpo docente e discente da Escola Maria Amália Volpom de Figueiredo. Roberto. Franca. a solidariedade. 16(2): 305-328. Ética e Educação tornam possível a formação do ser humano comprometido com o entendimento.SALVADOR. o respeito. Serviço Social & Realidade. No desenvolvimento da pesquisa investigamos a Ética e a Educação em diferentes períodos históricos e em suas várias dimensões e direcionamos as discussões para o caso particular da escola Maria Amália Volpon de Figueiredo em Morro Agudo-SP PALAVRAS-CHAVE: Ética e Educação. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientador: Prof. Assim. 179p. 2007. Ubaldo Silveira. Estado de São Paulo. Defendido em 10/12/07. do município de Morro Agudo. 2007 313 . A Ética na educação: um componente de mudança dec.

PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social – desemprego. além do intercâmbio e difusão de informações úteis sobre esta temática que pode abranger outras localidades em nosso país. na região de Ribeirão Preto / SP. A pesquisa também aponta os aspectos econômicos. seja a questão agrária. O trabalho enfoca as estratégias de sobrevivência e renda dos cortadores de cana do município. Barrinha (SP). Cortador de Cana. que nas últimas décadas vivenciam todo o processo de mecanização das lavouras na região. 16(2): 305-328. a relação entre rural e urbano. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientador: Prof. RESUMO: Este trabalho apresenta algumas constatações sobre a vida e as perspectivas dos trabalhadores rurais ligados ao corte da cana e moradores da cidade de Barrinha. 116p. a relação entre a tecnologia e o desemprego. 314 Serviço Social & Realidade. Franca. Defendido em 12/12/07. Estratégias de sobrevivência e renda dos cortadores de cana de Barrinha/SP diante do crescente processo de mecanização do corte. Dr. Mecanização do Corte da Cana. permitindo que esta discussão seja apreciada sob diversas perspectivas relacionadas entre si. Ubaldo Silveira. 2007 . Fabiana Alexandre Ferreira. principalmente a recente e crescente mecanização do corte da cana que vem substituindo a mão-de-obra de milhares destes profissionais. ambientais e políticos que incentivam este processo de modernização do setor sucroalcooleiro e a aparente ausência de preocupação com a categoria e ações que possibilitem a superação dessa questão social. este estudo oferece subsídios teóricometodológicos e técnicos que possam viabilizar intervenções na problemática das condições precárias de vida e trabalho identificadas. compreendidos como exemplo de atores sociais dessa nova postura do setor sucroalcooleiro e que personificam os aspectos históricos e estruturais da questão agrária que remetem ao período da colonização. entre outras. Além da possibilidade de ampliar a compreensão da realidade social desta categoria de trabalhadores e de uma maior sensibilização acerca da questão da substituição da mão-de-obra pela tecnologia nas lavouras de cana. 2007.NICOLINI. Franca: UNESP.

pelo contrário a redução é extremamente evidente. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. 2007. a reestruturação produtiva e seus impactos na realidade. deles e dos núcleos familiares que deles dependem.COSTA. micro e pequenos empresários do setor produtivo de Sapato e a atuação do Serviço Social neste ramo. Sendo assim. As narrações de nossos sujeitos colaboradores nos permitiram identificar uma realidade ímpar. onde há a existência de seres “híbridos” nem operários. Para isso usamos a pesquisa qualitativa através do método da história oral temática e concomitantemente o método quantitativo através de formulários para uma melhor apreensão desta realidade. Para haver uma atuação Serviço Social & Realidade. cem por cento dos sujeitos colaboradores são ex-funcionários de outras empresas. Para tanto abordou-se questões referentes ao mundo do trabalho. Mentalidades: desafio para o Serviço Social e para o sapato francano. sobreviventes ou mesmo artistas. com ênfase no objetivo de sobrevivência. Realizou-se uma análise sobre a questão das mentalidades com o intuito de obter subsídios para uma análise mais contundente da mentalidade deste ator social com a finalidade de conhecer as suas especificidades. 16(2): 305-328. Helen Barbosa Raiz Engler. concomitantemente evidenciou-se os traços de mentalidade mais prementes no perfil do profissional de Serviço Social para entender a sua atuação neste setor. que venham de encontro às expectativas e necessidades dos atores sociais em questão. Defendido em 12/12/07. apenas Homens-do-Sapato. o principal objetivo foi o conhecimento destas realidades em estudo com o intuito de propor novas possibilidades de atuação do assistente social. 130p. Franca: UNESP. Verificou-se uma realidade ainda pouco conhecida onde os empresários mostraram-se com fortes traços de operários. entre elas. e possuem ainda estruturas industriais mais simples. talvez empreendedores. Dra. e em específico no setor produtivo de Sapato de Franca-SP. as mudanças sofridas com o processo de intensificação da globalização. RESUMO: Essa pesquisa tem o propósito de fazer uma intersecção entre os atores sociais. Quanto ao Serviço Social foi possível aperceber-nos de que pelo fato da atuação mostrar-se limitada muitas vezes por questões de cunho ideológico não foi possível uma expansão da atuação neste campo. Franca. nem empresários. 2007 315 . Denise Gisele Silva.

2007 . Micro e Pequena Empresa. o campo mostra-se carente da atuação do Serviço Social. mas um “novo” Serviço Social. Franca.efetiva do Serviço Social é necessário empenho em questões metodológicas e práticas com uma mudança no perfil apresentado até então. que possa propor “novas” possibilidades para a realidade em questão. Serviço Social. 316 Serviço Social & Realidade. mais aberto e contemporâneo. 16(2): 305-328. Mentalidade. PALAVRAS-CHAVE: Trabalho.

tem sido definida muitas vezes.MEDEIROS. pois a Educação Especial. apenas como métodos. Patrícia Mara. na realidade brasileira. Franca: UNESP. reproduzindo e mantendo assim. Inclusão Social pela educação: uma necessidade especial para profissionais da área. as escolas não se encontram adaptadas estruturalmente e pedagogicamente para atenderem os PNE e os educadores não possuem apoio técnico-pedagógico que contribuam para a construção de uma prática inclusiva propiciando uma educação de qualidade para todos. baseada em fundamentos democráticos e na Serviço Social & Realidade. a ideologia do sistema dominante. Nesse contexto. Dra. Para que isso se utilizou o estabelecimento de categorias. contribuir para uma reflexão das possíveis formas de se trabalhar a inclusão dentro dos parâmetros educacionais para uma política pública visando uma sociedade globalizada. a pratica de inclusão. de tal forma que possibilita o fornecimento de respostas ao problema proposto na investigação. O processo de análise e interpretação dos dados teve como finalidade à organização de forma sumária dos mesmos. avaliação das generalizações obtidas com os dados e interpretação dos dados. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. tabulação eletrônica. Os dados obtidos demonstraram que apesar de possuir um projeto de inclusão. onde se reduz sua ação a repetição de metodologias. Franca. Djanira Soares de Oliveira e Almeida. RESUMO: O presente trabalho de pesquisa propõe como objeto de investigação. Como instrumento para coleta de dados foram realizadas entrevistas com análise na abordagem quantiqualitativa. 145p. técnicas e materiais didáticos diferentes dos usuais. a Educação Especial no Brasil não tem merecido a necessária atenção dos estudiosos de modo a empreenderem uma investigação científica de sua existência enquanto política educacional e não como mera prática de educação. O objetivo geral foi analisar e compreender quais os fatores que impedem ou dificultam os professores das três escolas de séries iniciais do Ensino Fundamental do município de Ilha Solteira/SP a trabalharem com Portadores de Necessidades Especiais. 2007 317 . Defendido em 12/12/07. 2007. 16(2): 305-328. onde o diferente é negligenciado e onde os educadores assinalam como sendo um desafio.

Franca.valorização de toda e qualquer diversidade que esteja presente no sistema educacional. 2007 . 318 Serviço Social & Realidade. PALAVRAS-CHAVE: Educação Especial. Portadores Necessidades Especiais. 16(2): 305-328. Políticas Públicas.

geralmente. 2007. Dra.SOUZA. O entendimento da construção de identidades recorreu às teorias que exploram as relações sociais na contemporaneidade. formam os pilares em que eles se apóiam para a construção de sua identidade. procurou-se desvendar a influência dos meios de comunicação nas escolhas e aspirações no cotidiano dessas pessoas que vivem em situação de risco social na metrópole paulistana. e também na observação participante da autora durante sua vivência e trajetos pelos metrôs de São PauloSP. São jovens os sujeitos desta pesquisa. O contexto social em que vivem é marcado pela desigualdade social e econômica e. Avaliar e questionar medidas políticas para trazer melhores condições para a sociedade em geral exige. a dança e o grafite. Defendido em 17/08/07. em sua maior parte. com mínima possibilidade de acesso a condições de trabalho formalizado – situação que os torna suscetíveis a cometerem infrações ou atividades tangenciais ao crime – e sua relação com a mídia. moradores dos bairros populares e da periferia. A identidade forjada pela mídia: expressões cotidianas reveladas por jovens das classes populares em roteiros pelos metrôs de São Paulo. assim como as outras vias que encontram para estabelecer participação social. RESUMO: A avaliação dos aspectos da realidade de determinado segmento de jovens das classes populares. 179p. têm seu cotidiano fortalecido por um conjunto de elementos que podem despontar em uma cultura construída como reação aos processos de exclusão social. A incitação ao consumo e a sedutora mídia tradicional e comercial influenciam esses jovens na construção de identificações. 16(2): 305-328. e é assim que eles se autodenominam e se reconhecem mutuamente. motivaram e suscitaram o objetivo deste trabalho enquanto processo de conhecimento. Franca. quando envolvidos no laço coletivo para a superação da discriminação. Nesta busca. sobretudo. estão envolvidos ou expostos ao universo da criminalidade. Essas pessoas. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. conhecidos popularmente como manos. Identidade e resistência convergem em uma ambígua formação de consciência crítica. Maria Ângela Rodrigues Alves de Andrade. Ana Daniela de. 2007 319 . As atividades recorrentes ao universo da cultura tais como a música. conhecer a realidade de uma população que já Serviço Social & Realidade. Franca: UNESP.

Relações 320 Serviço Social & Realidade. Sociais. PALAVRAS-CHAVE: Mídia. 16(2): 305-328. 2007 . Identidade. Participação Social. Contexto Social. Franca. Trabalho.não está mais à margem e sim na trama central dos contundentes problemas da rede social.

notícias veiculadas na imprensa local. O sucesso da ‘reforma municipal’ pode estar relacionado com o estilo de governo de Antônio Palocci Filho. 16(2): 305-328. Ana Maria Ramos Estevão. publicações oficiais. Defendido em 12/09/07. O confronto entre os discursos desses documentos evidenciou que as reformas em nível federal e municipal foram associadas ao processo de globalização. ao seu personalismo e às articulações políticas que foi capaz de empreender com as forças sociais da cidade. A pesquisa demonstrou que a ‘reforma’ de Ribeirão Preto superou as metas federais. que por sua vez impõe mudanças no papel do Estado e nas relações entre o público e o privado.NATHER. uma entrevista exclusiva direcionada para esta pesquisa e livros publicados pelo autor. Foram utilizadas fontes documentais variadas. Com esses elementos buscou-se analisar se as ‘mudanças’ requeridas pelas reformas dos anos de 1990 convergem para o aprofundamento do processo democrático e quais as relações possíveis com as novas configurações da representação política Serviço Social & Realidade. e as propostas contidas nos planos de governo da Frente de partidos políticos que elegeu e reelegeu Antônio Palocci Filho. 2007. uma vez que em nível local as Parcerias PúblicoPrivadas (PPPs) avançaram dos projetos em infra –estrutura para as PPPs sociais. Franca: UNESP. A Reforma do Estado e as cidades: a experiência de Ribeirão Preto (SP) nos anos de 1990/2000. elaborado pelo extinto Ministério da Administração Federal e da Reforma do Estado. RESUMO: Esta pesquisa documental e bibliográfica é um estudo comparativo entre a Reforma do Estado apresentada em 1995 pelo governo federal brasileiro e a ‘reforma municipal’ empreendida na cidade de Ribeirão Preto (SP) pelo governo de Antônio Palocci Filho (1993/1996. 2001/2002). Franca. O estudo identifica as semelhanças entre as propostas apresentadas no Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. 165p. 2007 321 . Mariângela. As medidas consideradas fundamentais para a superação da crise do Estado – a privatização. Dra. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. dentre elas. que relatam sua experiência como prefeito e a sua concepção de Reforma do Estado. a publicização (transferência de serviços sociais para a iniciativa privada) e a retração do universo estatal (reforma administrativa) – apresentadas no Plano Diretor foram implementadas nas duas esferas de poder.

Franca. 322 Serviço Social & Realidade. Parcerias. Representação Política. 2007 .PALAVRAS-CHAVE: Reforma do Estado. 16(2): 305-328. Governo Local. Democracia. Ribeirão Preto.

Os tempos mudaram e a gestão das empresas se adequaram aos paradigmas que se apresentavam no mundo globalizado. Serviço Social & Realidade. para isso. RESUMO: O presente estudo teve o objetivo de compreender e explicar o processo de modernização da gestão das empresas familiares da cidade de Franca/SP. Contudo. ao longo do processo. A investigação foi realizada por meio de pesquisas bibliográficas. No início da década de 1990. considerando o volume significativo das exportações que nos anos 1980 atingiram 35% da produção total. uma vez que a estrutura produtiva e organizacional não se encontrava totalmente preparada às exigências internacionais. essas organizações empresariais. As empresas familiares da cidade de Franca: um estudo sob a visão do Serviço Social. 201p. Franca. 16(2): 305-328. com maior qualidade e menor preço. modernização no sentido de busca por maior tecnologia e processos inovadores de organização e gerenciamento do trabalho. permitiram acúmulo de conhecimentos acerca do objeto de estudo e possibilitaram análise e compreensão das formas de atualização da gestão das empresas familiares da cidade de Franca. passaram por momentos de transição diante do processo de globalização. as empresas familiares foram obrigadas à reestruturação para atender a realidade dos mercados. Defendido em 12/11/07.LIMA. Franca: UNESP. A abertura dos mercados colocou as empresas diante de grandes desafios. Claudia Maria Daher Cosac. Essas empresas familiares. levando em consideração as mudanças estruturais advindas e impostas pelo processo de reestruturação produtiva a partir dos anos de 1990. Dra. as indústrias orientaram a produção para atender o mercado externo e. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. foram criadas em períodos propícios que possibilitaram seu crescimento e desenvolvimento. na expectativa da oferta de produtos mais sofisticados. parte integrante da amostra do presente estudo. Maria José de Oliveira. Nesse contexto. foram necessários investimentos. durante quase duas décadas. a resistência diante de mudanças é fator comum à cultura empresarial familiar mais tradicional. O empresariado se preocupou com a competitividade e. Na década de 1970. pois. 2007 323 . 2007. dinâmica e abertura internacional dos mercados incluindo políticas econômicas voltadas à estabilização da economia brasileira. conseguiram alcançar desenvolvimento industrial. documental e de campo que.

reflete insegurança. Trabalho. Nesse sentido. fragilidade e ameaças diante do diferente. As empresas familiares da cidade de Franca estão aos poucos reorganizando suas estruturas organizacionais mas. 16(2): 305-328. construídas ao longo de muitos anos.modificar estruturas sólidas. Franca. tem adotado modelos de gestão que melhor atenda às demandas do mercado globalizado e. cada segmento empresarial apresenta situação particular e diferenciada diante do mercado e se manifesta através de atitudes em respeito às normas. Desenvolvimento Industrial. que responda às atuais condições financeiras e tecnológicas. Cada organização. às regras. Globalização. PALAVRAS-CHAVE: Gestão das Empresas Familiares. principalmente. estão adotando a redução da mão-de-obra como estratégia para diminuição dos custos dos produtos e serviços. 324 Serviço Social & Realidade. ao mesmo tempo. às estratégias que regem a política e a cultura da empresa familiar. 2007 . de modo particular.

Franca. formas viáveis para enfrentar concretamente o ritmo das mudanças decorrentes do processo de globalização. Instituto Atende – Consultoria em Desenvolvimento Humano: a construção de um espaço profissional alternativo nas organizações de calçados de Franca-SP. 2007. 148p. também..FARINELLI. Serviço Social & Realidade. A pesquisadora possui consciência de que estes objetivos são ambiciosos. Optou-se por estudo da organização Indústria de Calçados Kissol Ltda. explora e desvaloriza o potencial humano a pesquisa de campo forneceu dados que indicam caminhos de possibilidades para o Assistente Social e demais profissionais que atuam na área organizacional a construção de propostas sócioeducativas e interdisciplinar inovadoras que permitem ao trabalhador e à trabalhadora compreenderem o contexto organizacional no novo modelo de produção. Conclui-se que embora os limites determinados pelo cenário contemporâneo em que o trabalho aliena. RESUMO: O estudo da formas viáveis para enfrentar concretamente a dimensão sócio – educativa no interior da Indústria de Calçados de Franca? SP. bem como avaliar a prática cotidiana da pesquisadora no desempenho profissional constituem a pretensão deste trabalho. aproveitando as contradições existentes na relação trabalho? Educação e rompendo com seu círculo de dominação é uma tarefa política da maior relevância e torna-se um grande desafio a ser assumido coletivamente pelos trabalhadores e demais profissionais comprometidos com seus interesses. Franca: UNESP. ampliarem conceitos e conhecimentos do cotidiano e gerar mudanças nas diversas dimensões da vida. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientador: Prof. utilizando da investigação qualitativa. Dr. Marta Regina. José Walter Canôas. tendo em vista que o trabalhador ao vender sua força de trabalho por um valor aquém de suas necessidades submete-se à dominação exercida na relação capitaltrabalho. Revelou. Refletir sobre as alternativas e possibilidades de viabilização de projetos profissionais comprometidos com a classe trabalhadora. grupo focal e posterior análise de conteúdo. Defendido em 12/12/07. 2007 325 . 16(2): 305-328.

PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento Humano Industrial. 2007 . 326 Serviço Social & Realidade. 16(2): 305-328. Franca. Globalização. Educação: Desempenho Profissional. Trabalho. Potencial Humano.

RESUMO: A pesquisa trata de estabelecer as vinculações teóricopráticas observadas a partir da experiência profissional da autora como assistente social no campo do trabalho social em comunidades formadas por conjuntos habitacionais no município de Franca (SP). O estudo de caso para obtenção das informações necessárias para compor o objeto de pesquisa propiciou a aproximação dos sujeitos de forma a estudar uma das expressões da questão social: a habitação. a cidade de Franca e o Residencial Jardim Pulicano. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. para melhor compreensão do cenário atual. O déficit habitacional em decorrência do rápido crescimento urbano nos grandes centros e nas cidades de médio porte. o Programa de Arrendamento Residencial (PAR). como Franca. também foi contextualizado. privilegiando alguns aspectos significativos da história da política de habitação. Defendido em 13/12/07. Apresentamos inicialmente o problema da habitação no Brasil de forma pontual e sucinta. A cidade e o bairro foram estudados a partir da sua conceituação. 16(2): 305-328. A pesquisa constituiu-se da observação e coleta de dados dos moradores do Conjunto Residencial Jardim Pulicano. é visto como uma “alternativa” de habitação. Destaca-se que este programa preconiza o trabalho social com os moradores pósocupação das moradias e diferencia-se das condições gerais do financiamento residencial. Os desdobramentos da política de habitação e os programas de habitação popular como acesso e garantia do direito à moradia as pessoas de baixa renda salarial. sendo Franca pioneira na implantação deste Programa. A análise permitiu algumas Serviço Social & Realidade. sendo necessária a sua compreensão para descrição do cenário deste trabalho. “Morar é Preciso”: o arrendamento residencial em Franca-SP. Franca: UNESP.BARBOSA. 156p. neste município. assim como as formas de aquisição de moradia pelo Sistema Financeiro de Habitação. Dra. Franca. 2007. Neste caso. 2007 327 . entrevistas semi-estruturadas com agentes da instituição financiadora do PAR e com a assistente social responsável pelo trabalho social no bairro. A pesquisa pautou-se na perspectiva qualitativa e adotou como metodologia a técnica do grupo focal para a obtenção dos dados qualitativos junto aos moradores e ainda utilizou-se para a pesquisa de campo. Celeste Aparecida Pereira. Ana Maria Ramos Estevão.

gerando o agravamento da questão da moradia e os programas habitacionais em curso não são suficientes para a redução quantitativa e muito menos qualitativa deste déficit. Franca. habitacional. tais como. o que ampliou significativamente a sua população e resultou no alto déficit habitacional no município. a casa. Franca é uma cidade migratória em virtude da expansão do setor calçadista. Por último. 16(2): 305-328. a moradia não se restringe a unidade. moradia. PALAVRAS-CHAVE: política arrendamento residencial. 328 Serviço Social & Realidade. 2007 . mas compreende todas as condições necessárias para o direito à moradia digna e à cidade.aproximações conclusivas.

16(2): 329-330. p. 161 Proteção Social. p. p. 11 Inclusão Digital. p. p. 11 Competências municipais. p. 23 Cuidadores Sociais. p. p. 235 Interdisciplinaridade. 57 Método de Marx. p. p. 235 Mercado de trabalho. p. p. 23 Acidente de trabalho. p. 235 Pensamento sistêmico. p. 181 Práxis. p. 263 Projeto ético-político. 283 Projetos Sociais. 207 Ensino superior. 181 Burocracia. 195 Direitos humanos. p. 129 Informação. 57 Anomalia Craniofacial. 283 Organizações. p. 195 PT. p. p. p. 161 Resgate. 235 Perda Auditiva. p. p. 87 Racionalidade. p. p. p. p. 57. 161 Cidadania. p. p. p. p. 181 Fissura Labiopalatina. 2007 329 . p. 207 Identidade. 23 Determinismo. p.ÍNDICE DE ASSUNTOS Abrigos. p. 43 Serviço Social & Realidade. 87 Globalização. 283 Qualidade de vida. 129 Benefícios sociais. p. p. 11 Responsabilidade Social Empresarial. p. 129 Pobreza. p. Franca. 207 Crianças. 263 Organização política. 181 Contemporaneidade. p. 161 Saúde. 263 Direito. 207 Políticas educacionais.

2007 . p. 43. 43 Subjetividade. p. 129 Trabalho. 43 Tecnologias da Informação. 87 Urgência/Emergência. p. p. 235 Sofrimento psíquico. p.Seguridade Social. p. 16(2): 329-330. p. 195 Serviço Social. 11. p. Franca. 11 330 Serviço Social & Realidade. 283 Sistemas.

p. p. p. p. p. 57 Labor market. p.SUBJETC INDEX Bureaucracy. 87 Method of Marx. p. 181 Social Caretakers. p. p. p. p. p. 161 Business Social Responsibility. Franca. 2007 331 . p. 161 Serviço Social & Realidade. 207 Práxis. 16(2): 331-332. 161 Rescue. 235 Interdisciplinarity. p. p. 161 Children. 207 Identity. p. 23 Social Projects. p. p. 207 Health. 207 Craniofacial Anomaly. p. 195 Shelters. p. 23 Citizenship. p. p. 181 Ethical-political project. 283 Rationality. p. p. 23 Social benefits. 57 Life quality. p. 181 Human rights. 43 PT. p. p. p. p. p. 11 Contemporaneity. 263 Psychic Suffering. 129 Information. 129 Educational politics. 283 Globalization. 235 Labiopalatine Cleft. 263 Municipal competences. 129 Higher education. 235 Political organization. 129 Determinism. p. p. p. p. 181 Organizations. 43 Hearing Loss. p. 283 Poverty. 11 Right. p. 87 Labor accident. 263 Digital Inclusion. p. 11 Information Technologies. p.

87 332 Serviço Social & Realidade. p. Franca. 283 Subjectivity. 195 Social Security. 2007 . 11 Work. 57. p. p. p. p. 16(2): 331-332. 235 Urgency/Emergency. 11. 235 Systems. p. p.Social Protection. 195 Social Service. p. 43 Systemic thought. 43.

L. C. S. I. p. p. O. 11 KOHN. F. p... P. 181 LOPES. 299 Serviço Social & Realidade. p. G. B. A. 23 BUENO. D. M. 129 MENDES. 43 COSAC.. 111 FERREIRA. p.. D. D. H. M. S.. 11. P. 161. Franca. K. A. L. B. A.. p. T.. P. p.. S. F. p. M. M. A.. M. M. 57 VALENTIM.. 11 GAUDÊNCIO. p. S. R.. M. C. 263 SILVA. p. P. I.. 195 DORNELLES. p. 235 MENEGHETTI. C. 161 REZENDE..ÍNDICE DE AUTORES/AUTHORS INDEX FREITAS. S. 283 ALMEIDA. 2007 333 . D.. p. A. R. I. 129 MANZOLI. 57 SOARES. E.. 87 SANTOS. 57 MARQUES. 11 APARECIDO. p. L. E. 23 CANO. p. p. p. 129 CUSTÓDIO... p. p. M. 235 BOVOLENTA. T. M.. p. A. M. p. A. M. p.. 16(2): 333-334.. C. p. C. M. p. S. M. R. M. R. p. p. H. R. G. 23 VENDRUSCOLO. 207 RIBEIRO. p... 181 DONADELI.. 87 GRACIANO.. P.

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Universidade-sigla. Só serão aceitas resenhas de livros que tenham sido publicados no Brasil. Os trabalhos devem obedecer à seguinte seqüência: Título.NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DOS ORIGINAIS Informações gerais SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE publica trabalhos originais de autores da UNESP e de outras instituições nacionais ou internacionais. contendo a assinatura do(s) autor(es). no máximo. notas prévias. nos quatro últimos anos. Referências bibliográficas. Abstract e Keywords (versão para o inglês do Resumo e Palavras-chave precedida pela Referência bibliográfica do próprio artigo). Texto. Cidade. Textos em disquetes serão acompanhados do printer (cópia impressa. Estado. resenhas e traduções. nos dois últimos anos. os que sucedem o texto. Estrutura do trabalho. CEP. Autor(es) (por extenso e apenas o sobrenome em maiúscula). Devem ser dispostas em ordem alfabética pelo sobrenome do primeiro autor e seguir a NBR 6023 da ABNT. Palavras-chave (com até 7 palavras retiradas de Thesaurus da área. revisões. os textos devem ter de 15 a 30 páginas. escritos no idioma do artigo. O Resumo (de até 200 palavras) e as Palavras-chave. na forma de artigos. Franca. letra 12. Exemplos: • Livros e outras monografias Serviço Social & Realidade. Preparação dos originais Apresentação. 16(2): 335-338. Os trabalhos devem ser apresentados em duas vias. do disquete).0. que precedem o texto. É vedada a reprodução dos trabalhos em outras publicações ou sua tradução para outro idioma sem a autorização da Comissão Editorial. quando houver). Filiação científica do(s) autor(es) (indicar em nota de rodapé: Departamento. Instituto ou Faculdade. Resumo (com máximo de 200 palavras). 2007 335 . Referências Bibliográficas (somente trabalhos citados no texto). País). e no exterior. Os trabalhos poderão ser redigidos em português ou outro idioma. em Word 8. Agradecimentos. tipo Arial Narrow. em inglês (Abstract/Keywords). fiel. comunicações. com cópia das ilustrações. Os originais submetidos à apreciação da Comissão Editorial deverão ser acompanhados de documento de transferência de direitos autorais.

datavenia.htm>. indica-se apenas a data entre parênteses: Morais (1955) assinala.ed. ago.. etc. • Capítulos de livros JOHNSON. civilização e trabalho: O ensino nas escolas paulistas (1917-1939). Recife. R.br/frameartig. O autor deve ser citado entre parênteses pelo sobrenome. 198p. Disponível em: <http://www. esta(s) deverá(ão) 336 Serviço Social & Realidade. G. Acesso em: 10 set. Franca. 1972. Meios de comunicação de massa. 16(2): 335-338.1997. M. MARCONI. 4. • Dissertações e teses BITENCOURT. Metodologia do trabalho científico. N. São Paulo. M. p. 5-19.LAKATOS. ano 3. Serviço Social e Sociedade..S.ufpe.. 1990. 47-66. A..inf. Recife: UFPe. OLIVEIRA. P. In: STEINBERG. 1986. C. DOCUMENTOS ELETRÔNICOS • Eventos em Meio eletrônico SILVA. São Paulo: UNESP. C. Citação no texto. E. 2007 . 2. Educação continuada: sair do informalismo? In: CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES. Assistência social na perspectiva do neoliberalismo. A. Simpósios. separado por vírgula da data de publicação (BARBOSA. Palavras e não palavras. v. 114-8. 16. M. 1996. • Artigos de periódicos SCHONS. p.) MARIN. São Paulo: Cultrix. 1990. Acesso em 21 já. 49. nov.. Datavenia. n.. S.html>. 1998.1998. • Artigo de Periódico em Meio eletrônico RIBEIRO. São Paulo. Adoção à brasileira: uma análise sócio-jurídica. n. 1. • Trabalho apresentado e publicado em Eventos (Congressos. 1996. W. Universidade de São Paulo. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia. F.. Pátria.propesq. São Paulo. 1988. 1980). Letras e Ciências Humanas. Os limites pedagógicos do paradigma da qualidade total na educação. J. p. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPe. Disponível em: <http://www. Se o nome do autor estiver citado no texto. Anais eletrônicos. São Paulo: Atlas. R. Selma Maria.br/anais/ anais/educ/ce04.18. 1995. Quando for necessário especificar página(s). Anais..

Serão incluídos somente quando imprescindíveis para a compreensão do texto. Figuras. por letras minúsculas após a data. Devem ser numeradas consecutivamente com algarismos arábicos e encabeçadas pelo título. As citações de diversas obras de um mesmo autor. ligados por & (OLIVEIRA & LEONARDO. esquemas. 2007 337 . 16(2): 335-338. 1927a) (PESIDE. Os dados e conceitos emitidos nos trabalhos. indica-se o primeiro seguido de et al (GILLE et al. devem ser discriminadas no texto e nas Referências Bibliográficas. publicadas no mesmo ano. gráficos. na entrelinha superior. Notas. Legenda das ilustrações nos locais em que aparecerão as figuras. radiografias e cromos (em forma de fotografia). mapas. 1949. constam do manual Normas para publicações da UNESP. Anexos e/ou Apêndices. fórmulas. a lápis. sem espacejamento (PESIDE. modelos (em papel vegetal e tinta nanquim. título abreviado e sentido da figura. Os trabalhos que não se enquadrarem nessas normas* serão devolvidos aos autores. 1927b). 1960). p. indicadas em carta pessoal. ambos são indicados. separada(s) por vírgula e precedida(s) de p. Devemse indicar.seguir a data. ou serão solicitadas adaptações.5x18 cm. Devem ser reduzidas ao mínimo e colocadas no pé da página. (MUMFORD. bem como a exatidão das referências bibliográficas. As figuras e suas legendas devem ser claramente legíveis após sua redução no texto impresso de 11. Serviço Social & Realidade. As remissões para o rodapé devem ser feitas por números. e quando tiver três ou mais. são de inteira responsabilidade dos autores. Franca. ou computador). * Esclarecimentos adicionais sobre as normas para apresentação dos originais. Desenhos. 513). numeradas consecutivamente em algarismos arábicos e iniciadas pelo termo FIGURA. Quando a obra tiver dois autores. 1943). no verso: autor. fotografias (em papel brilhante). Tabelas.

Mário José Filho Profa.SOBRE O VOLUME Formato: 15 x 21 cm Mancha: 27 x 45 paicas Tipologia: Serifa BT Papel: Offset 75 g/m² Couchê 60 g/m² (capa) Matriz: eletrostática Tiragem: 200 EQUIPE DE REALIZAÇÃO Diagramação dos Textos Aparecida Fátima Vieira Guiraldelli Assessoria Técnica Profa. Iris Fenner Bertani Prof. Dr. Cirlene Aparecida Hilário da Silva Oliveira Profa. José Fernando Siqueira da Silva Prof. Dra. Neide Aparecida de Souza Lehfeld Profa. 2007 . Dra. Dra. Dra. Dra. Dra. Dra. Raquel Santos Sant’Ana Prof. Dr. Maria Ângela Rodrigues Alves de Andrade Prof. Dr. Mário José Filho Tradução de Inglês Maria Beatriz de Figueiredo Pereira Alves Taveira 338 Serviço Social & Realidade. Pe. José Walter Canôas Profa. Claudia Maria Daher Cosac Prof. Frederico Augusto Alem Barbieiri Profa. Dr. Ubaldo Silveira Responsável pela Revisão Prof. Ana Cristina Nassif Soares Profa. Franca. 16(2): 335-338. Dr. Dr. Dra. Helen Barbosa Raiz Engler Profa.

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