P. 1
Mecânica das Rochas

Mecânica das Rochas

|Views: 164|Likes:
Publicado porIvan Weinem

More info:

Published by: Ivan Weinem on Mar 30, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/07/2013

pdf

text

original

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

CRITÉRIOS PARA A CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA DE MACIÇOS ROCHOSOS PARA OBRAS SUBTERRÂNEAS

Costa e Silva, M. Matilde – Professora Auxiliar do IST Falcão Neves, A. Paula – Assistente do IST Caranhola Pereira, Hugo – Engenheiro de Minas e Georrecursos Reis e Sousa, Manuel – Técnico Especialista

Núcleo de Rochas, Centro de Geotecnia, IST

RESUMO Neste artigo apontam-se critérios para a caracterização geotécnica de maciços rochosos em que são implantadas obras subterrâneas, descrevem-se os diferentes trabalhos a efectuar em cada uma das fases de caracterização, e indicam-se as principais características a quantificar, quer para os maciços, quer para as rochas constituintes. Por fim, referem-se os critérios que foram seguidos na caracterização geotécnica de um maciço rochoso para futura exploração subterrânea de mármores, apresentando-se os resultados dessa caracterização.

ABSTRACT This article points out the main criteria for geotechnical characterization in rock masses, is described the steps of each fases of characterization and is enfasized the importance of choosing the correct group of parameters to established a suitable geotechnical classification system and help resolving actual engineering problems. An aplication of this methodology is made to a future marble underground exploitation in EstremozBorba-Vila Viçosa.

1 – INTRODUÇÃO A construção de obras subterrâneas de grandes dimensões exige um conhecimento, tão aprofundado quanto possível, sobre as características geológicas e mecânicas dos maciços rochosos e rochas constituintes em que vão ser implantadas, para que não surjam situações imprevistas. Uma adequada caracterização geotécnica dos maciços rochosos, habilita os responsáveis a definir os processos de construção mais económicos e mais seguros, e, também,
1

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

tipologias de suporte provisório e definitivo, evitando-se, assim, gastos desnecessários, atrasos nas obras e eventuais acidentes. São bem conhecidos acidentes estruturais ocorridos, inesperadamente, nos maciços rochosos durante os trabalhos de escavação de obras subterrâneas de grande porte. Uma adequada caracterização geotécnica dos maciços rochosos que suportam tais obras, teria prevenido, pelo menos, parte apreciável desses acidentes. Por vezes, não é feita uma conveniente caracterização geotécnica dos maciços rochosos em que são implantadas obras subterrâneas, porque se considera desnecessária, ou/e, porque se entende que o tempo gasto nessa caracterização representa um atraso na conclusão da obra, ou, ainda, porque os custos com os estudos de caracterização não são considerados justificáveis. Deve referir-se que os tempos gastos numa adequada caracterização dos maciços rochosos, podem ser bastante inferiores aos que são gastos em soluções para situações não previstas e que ocorrem, com alguma frequência, no decorrer das escavações; refere-se também, que os encargos financeiros resultantes de uma adequada caracterização do maciço rochoso para a implantação de uma grande obra subterrânea, são insignificantes, quando comparados com o custo da obra, e que tais encargos serão sempre menores que os prejuízos, quer pessoais quer materiais, causados por eventuais acidentes estruturais. A caracterização geotécnica permite a classificação geotécnica de um dado maciço, isto é, a sua maior ou menor aptidão para a implantação de uma dada obra subterrânea. A primeira aplicação de caracterizações geológicas para a determinação da qualidade dos maciços no que respeita a obras subterrâneas é atribuida a Terzaghi em 1946 (Mello Mendes, 1985). Pela importância prática que rapidamente se reconheceu a estas aplicações, as classificações geotécnicas foram melhoradas passando então a incluir elementos de carácter estrutural, reconhecidamente imprescindíveis para a determinação da qualidade de um dado maciço (presença ou ausência de diaclases, superfícies de estratificação, outras superfícies de descontinuidade, suas atitudes, espaçamentos, aberturas, preenchimentos, rugosidades, etc.). Todavia, esta melhoria não lhes diminuiu o carácter demasiado empírico, sobretudo quando se pretendia aferir das características de auto sustimento do maciço sem se atender às dimensões das superfícies a serem sustidas. Concluiu-se então, que para a adequada utilização prática das classificações geotécnicas, havia que estudar algumas características resistentes do material rochoso; deste modo, Coates, Bieniawski, Wickham, Barton, a Basic Geotechnical Descripton of Rock Masses, sugerida pela ISRM em 1980, passaram a incluir estes parâmetros nas suas classificações. No entanto, em todas elas existe a imprecisão de assemelhar o material rochoso ao maciço, do qual faz parte, pelo menos no que respeita a considerar certos parâmetros como representativos do maciço. Ora é bem reconhecida a influência da anisotropia, da heterogeneidade e anelasticidade dos maciços no seu comportamento mecânico. As classificações geotécnicas de utilização mais divulgadas, sobretudo em túneis, são as de Hoek-Brown, Bieniawski e de Barton, que por exemplo, através do cálculo do RMR e do Q aferem, de forma expedita, da capacidade portante do maciço. Estas abordagens desprezam contudo as características de deformabilidade do maciço, quanto a nós, extremamente importantes e imprescindíveis para uma correcta análise da estabilidade das escavações.

2

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

Uma metodologia de classificação deve ser constituída por duas fases: a de caracterização (onde se procede à identificação e determinação dos parâmetros geológicos e geomecânicos do maciço e rocha constituinte que contribuem, em maior ou menor grau, para a estabilidade da obra e para os objectivos pretendidos), e a de estabelecimento de uma classificação (onde se atribuem diferentes pesos aos parâmetros geotécnicos que foram objecto de análise na fase anterior, de acordo com a pertinência destes relativamente aos objectivos pretendidos). Parece-nos pois, neste contexto, muito mais coerente a metodologia apontada por Hudson & Harrison (1997) que propõe a adopção do Rock Engineering System (RES) segundo o qual, em função da obra e dos seus objectivos, devem ser seleccionados, de entre os parâmetros geomecânicos que se referirão a propósito da caracterização mecânica, aqueles que influirão decisivamente no comportamento da obra, atribuindolhes para tal, posteriormente, diferentes pesos consoante a sua importância prática para o caso em análise. São enfatizados neste trabalho como critérios a adoptar para a correcta caracterização geotécnica dos maciços o recurso a metodologias baseadas nas metodologias descritas. Este trabalho tem assim por objectivo apontar critérios flexíveis, para a caracterização geotécnica dos maciços rochosos em que vão ser implantadas obras subterrâneas, caracterização essa que permitirá aos projectistas adoptar soluções construtivas de acordo com as características dos maciços rochosos, no sentido de minorar os riscos potenciais e efectivos de ocorrência de acidentes durante a construção das obras.

2 – CARACTERIZAÇAO GEOTÉCNICA Uma adequada caracterização geotécnica dos maciços rochosos em que vão ser implantadas obras subterrâneas de grande porte, compreende a caracterização geológica, a caracterização geomecânica e, por vezes, a caracterização geofísica. Quanto a nós, os dois tipos de caracterização primeiramente referidos, são indispensáveis para uma boa classificação dos maciços, sendo o método de caracterização por meios geofísicos aplicado nos casos em que se sinta a necessidade de complementar os dados obtidos por aqueles outros métodos. 2.1 – Caracterização geológica A caracterização geológica é iniciada, geralmente, por um reconhecimento de superfície, e pela implantação (em carta topográfica) de locais de abertura de furos de sondagem, ao longo do perfil da obra. O número de sondagens a realizar deve permitir uma amostragem representativa do maciço e rocha constituinte em estudo. No que respeita à implantação, orientação e comprimentos dos diferentes furos de sondagem a efectuar, devem ser tidos em consideração os elementos colhidos no reconhecimento de superfície, mormente, os respeitantes a formações geológicas e seus estados de alteração, presumíveis falhas geológicas e famílias de diaclases ocorrentes no maciço rochoso.

3

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

Quando da execução dos furos de sondagem, devem ser efectuados ensaios de Lujeon, principalmente, nos troços dos furos correspondentes às profundidades a que as amostras extraídas indicam maior intensidade de fracturação do maciço rochoso. Os resultados destes ensaios são de grande importância para a avaliação do índice de permeabilidade do maciço, avaliação essa que permitirá prever os efeitos da percolação de água no maciço, na estrutura da obra. Como é sabido, o sistema de compartimentação do maciço rochoso, caso não sejam tomadas as devidas precauções, poderá ter influência decisiva na instabilidade da obra subterrânea a construir nesse maciço. Para serem tomadas as precauções mais ajustadas ao problema, é necessário conhecer os principais parâmetros da compartimentação. O método de amostragem por sondagem que permite o estudo completo do sistema de compartimentação dos maciços rochosos, é o método da amostragem integral; porém, este método muito raramente é utilizado, porque é muito moroso e bastante dispendioso, visto que, para além de exigir furação dupla, obriga a tempos de paragem na furação para que o material ligante utilizado no método adquira a necessária resistência. Sempre que o tempo disponível para o estudo geológico do maciço rochoso seja incompatível com a aplicação do método de amostragem integral, em alternativa deverá ser seguido o método de amostragem tradicional, mas de forma que as amostras extraídas em cada uma das manobras de furação contenham, nos seus topos superiores, referências de orientação conhecida que permitam conhecer as posições relativas que as mesmas ocupavam no interior dos maciços. Aquelas referências serão inscritas antes do reinicio da furação, por meio de cinzel, tinta, ou outro processo adequado. A partir das amostras assim orientadas, podem, e devem ser determinados os principais parâmetros do sistema de compartimentação do maciço rochoso, e que são: atitude média das diaclases pertencentes a cada uma das famílias de diaclasamento que constituem o sistema de compartimentação; espaçamento médio das diaclases de cada uma das famílias; área média (aproximada) das diaclases de cada família; probabilidade de ocorrência de uma ou mais diaclases com uma determinada área mínima AL num dado comprimento L, normal à atitude da família de diaclases em estudo; importância relativa de cada uma das famílias no sistema de compartimentação; e, por fim, dimensões médias dos blocos formados pelo sistema de compartimentação do maciço. O conhecimento dos elementos acabados de referir, são de grande importância, quer para o cálculo da estabilidade do maciço escavado, quer para definição da orientação e espaçamentos mais favoráveis de ancoragens e/ou pregagens, quer, ainda, para a definição do método de sustimento. As amostras das sondagens efectuadas devem ser objecto de estudo cuidadoso, mormente no que respeita ao tipo de rocha, percentagem de recuperação, eventuais falhas atravessadas e respectivas espessuras, grau de fracturação e grau de alteração. Terminada a observação, deve ser feita uma criteriosa selecção de amostras para caracterização geomecânica, mediante ensaios laboratoriais. Esta selecção deverá incluir amostras intactas e amostras com descontinuidades, e terá em consideração os tipos de formações geológicas atravessadas, graus de alteração, bem como as famílias de diaclases ocorrentes no maciço.

4

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

2.2 – Caracterização geomecânica A caracterização geomecânica do maciço rochoso e rochas costituintes, é feita mediante ensaios no campo e ensaios em laboratório. Os tipos de ensaio a realizar para uma boa caracterização geomecânica do maciço rochoso para implantação de uma obra subterrânea, respeitam às características de deformabilidade do maciço, e às características de deformabilidade e de resistência das rochas constituintes desse maciço. A realização destes ensaios torna-se relativamente pouco morosa e pouco dispendiosa, uma vez que os de campo são efectuados ao longo dos furos de sondagem abertos para a caracterização geológica, e os de laboratório são efectuados sobre amostras extraídas dessas mesmas sondagens. As características de deformabilidade do maciço rochoso são determinadas, a diferentes profundidades, ao longo dos furos de sondagem, mediante a utilização de equipamento que transmite uma pressão uniforme às paredes dum trecho do furo (60 cm) e mede, segundo quatro direcções desfasadas entre si de 45°, as deformações diametrais motivadas por essa pressão. Visto que neste tipo de ensaio são medidas deformações segundo quatro direcções diametrais, contidas em plano normal ao eixo do furo, os resultados obtidos no ensaio permitem determinar a deformabilidade média naquele plano, e, também, a anisotropia, relativamente à deformabilidade, do maciço rochoso naquele plano. A selecção dos furos de sondagem a ensaiar, bem como a das profundidades a que será determinada a deformabilidade do maciço rochoso, deve ser feita de modo que os resultados a obter nos ensaios sejam representativos de todo o maciço que interessa a obra. Uma criteriosa selecção dos ensaios de campo, conjugada com a selecção das amostras a submeter a ensaios laboratoriais para determinação do módulo de deformabilidade da rocha, permite quantificar a deformabilidade das diferentes formações geológicas do maciço, sem recurso a um número excessivo de ensaios no campo. Nas obras subterrâneas que se situam a grandes profundidades, a magnitude dos valores das tensões no interior dos maciços pode vir a ter relevante importância na estabilidade das obras, quando das escavações. Em grande parte das obras, tais valores são arbitrados em função do peso próprio da rocha acima da cavidade a abrir e da topografia da superfície do terreno, e não determinados in situ. Preferencialmente, o estado de tensão no interior do maciço deveria ser conhecido quando da elaboração do projecto de construção, ou seja, antes do início das escavações. Porém, os métodos utilizados para determinar o estado completo de tensão no interior dos maciços rochosos, a partir da superfície do terreno, para além de serem muito morosos e dispendiosos, suscitam algumas dúvidas quanto à completa fiabilidade dos resultados. Nos casos em que não tenham sido determinados, antes do início das escavações, os valores das tensões instaladas no interior do maciço e seja previsível que tais valores possam vir a influir na estabilidade da obra, sugere-se que, no decorrer da escavação e logo que possível, seja determinado o estado de tensão no interior do maciço pelo método do macaco plano de pequena área (SFJ). Este método, de aplicação directa nas superfícies em estudo, é pouco moroso e fornece resultados cuja fiabilidade está subejamente comprovada. As características mecânicas das rochas constituintes do maciço rochoso que maior influência terão no comportamento da estrutura subterrânea, e que deverão ser
5

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

determinadas mediante ensaios laboratoriais, são: i) módulo de deformabilidade e resistência à rotura, em compressão uniaxial; ii) resistência à tracção; iii) resistência a carga pontual; iv) resistência ao corte, por ensaios triaxiais; e v) resistência das diaclases ao deslizamento. Os provetes para determinação do módulo de deformabilidade e da resistência à rotura da rocha em compressão uniaxial, são os mesmos. Depois de submetidos a, pelo menos, dois ciclos de carga e descarga para determinação do módulo de deformabilidade, são submetidos a um ciclo de carga, continuamente crescente, até se verificar a rotura; no entanto, antes de submetidos às referidas cargas, podem ser medidas, sobre eles, as velocidades de propagação de ondas sónicas, velocidades essas que permitem determinar os respectivos valores do módulo de deformabilidade dinâmico. O número de amostras de cada formação geológica a serem submetidas aos diferentes tipos de ensaio referidos, deve ser o sugerido pela ISRM. A selecção de amostras para os ensaios laboratoriais, deve ter em conta o tipo, ou tipos, de rochas ocorrentes no maciço, e seus estados de alteração, de modo que os resultados dos ensaios sejam representativos de toda a rocha constituinte do maciço de implantação da obra. Os provetes de rocha destinados à determinação do módulo de deformabilidade, devem corresponder a diferentes profundidades dos furos de sondagem, e essas profundidades devem incluir aquelas a que foram efectuados os ensaios de deformabilidade do maciço rochoso; os valores de módulos de deformabilidade do maciço e da rocha, correspondentes às mesmas profundidades, permitem determinar correlações entre uns e outros, e, a partir dessas correlações, prever valores da deformabilidade do maciço a profundidades em que apenas são conhecidos valores da deformabilidade da rocha. A análise conjunta dos resultados que se obtêm mediante as caracterizações geológica e geomecânica do maciço rochoso e rochas constituintes, que acabam de ser descritas, habilita os projectistas da obra a avaliar do comportamento estrutural do conjunto maciço-rocha, quando da realização das respectivas escavações, e, por isso, definir os processos mais adequados para a construção, quer em termos de segurança, quer em termos económicos. 2.3 – Caracterização geofísica Conforme referido em 2, por vezes, para uma melhor compreensão dos resultados obtidos nas caracterizações geológica e geomecânica, é aconselhável proceder à caracterização geofísica por métodos sísmicos. Os ensaios geofísicos, por métodos sísmicos, consistem, genericamente, em emitir ondas sísmicas num dado ponto do maciço rochoso, e em determinar a velocidade de propagação dessas mesmas ondas. Quando se dispõe de furos de sondagem na zona do maciço a caracterizar, usualmente, são efectuados dois tipos de ensaio: ensaios entre furos, e ensaios entre furos e a superfície. A fonte de energia sísmica é colocada a profundidades sucessivas num determinado furo, e as ondas sísmicas geradas são recebidas em receptores, colocados ao longo de um outro furo, ou colocados em pontos seleccionados na superfície e na vizinhança do furo em que se encontra a fonte de energia, obtendo-se, assim, um conjunto de leques sísmicos.

6

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

Consoante a maior ou menor velocidade das ondas sísmicas, o método fornece informação quanto à existência de camadas do maciço com menor ou maior grau de alteração e/ou menor ou maior intensidade de fracturação.

3 – EXEMPLO DE APLICAÇÃO: Metodologia adoptada para o caso da exploração subterrânea de mármores no Anticlinal de Estremoz-Borba-Vila Viçosa No âmbito de um estudo sobre a possibilidade da exploração subterrânea de mármores no Anticlinal de Estremoz – Borba - Vila Viçosa, procedeu-se à classificação geotécnica do local. Para tal definiram-se alguns núcleos: Estremoz, Cabanas, Lagoa, Pardais, Borba e Mouro, conforme ilustra a Figura 1. 3.1 - Caracterização geológica do Anticlinal de Estremoz-Borba-Vila Viçosa Para uma primeira caracterização geológica procedeu-se a um reconhecimento à superfície: estudaram-se as diferentes litologias, caracterizaram-se as principais famílias de diaclases e anotaram-se outras superfícies de descontinuidades. Esta análise foi feita de forma bastante rigorosa e pormenorizada, uma vez que foi possível fazer o levantamento geológico destes núcleos por observação das frentes de trabalho das actuais explorações que aí se desenvolvem a céu aberto.

Fig. 1 - Localização dos principais núcleos de exploração de mármores e descrições das litologias com valor ornamental [1]. Observaram-se as diferentes ocorrências litológicas sendo apenas objecto de referência neste trabalho aquelas consideradas com valor ornamental; assim os materiais aqui estudados, são os mármores de matriz clara (branca, creme ou rosa) e os de matriz
7

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

escura (cinzenta ou azulada) com ou sem veios (Fig. 1). Ficaram excluídos deste trabalho, por se apresentarem sem qualquer valor ornamental, os mármores dolomitizados, os mármores brechóides , os dolomitos, os metavulcanitos, etc. No que respeita à análise estrutural que permitiu evidenciar as principais famílias de diaclases, incluíram-se, como é de uso corrente, a determinação das atitudes, dos espaçamentos, das rugosidades, continuidades, aberturas e preenchimentos (Fig. 2). Este estudo considera-se fundamental para a definição da blocometria, que em primeira análise pode imediatamente inviabilizar qualquer exploração subterrânea, dado que o valor comercial do bloco depende da sua volumetria. Procedeu-se posteriormente à definição dos locais que seriam objecto de uma análise mais detalhada, recorrendo à realização de sondagens que permitiram estudar a variação litológica (espessura das camadas), o grau de alteração e a fracturação com a profundidade. Com as amostras colhidas nas sondagens e de acordo com as suas orientações nos furos realizou-se a classificação geomecânica do material rochoso, por meio de ensaios em laboratório. Esta classificação incidiu sobretudo na determinação dos parâmetros de deformabilidade e de resistência dos materiais com qualidade ornamental. 3.2 - Caracterização Geomecânica do Anticlinal de Estremoz-Borba-Vila Viçosa Para a caracterização geomecânica do material rochoso, realizaram-se cerca de 1700 ensaios mecânicos, efectuados de acordo com as normas da ISRM.

Fig. 2 –Principal compartimentação dos núcleos estudados [2].
8

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

Determinaram-se os parâmetros de deformabilidade ( módulo de deformabilidade E e coeficiente de Poisson ν), para o material de cada um dos núcleos considerados com interesse ornamental (Fig.3), recorrendo a ensaios de compressão uniaxial.

Fig. 3- Parâmetros de deformabilidade dos materiais constituintes dos núcleos Determinaram-se, igualmente, os parâmetros resistentes do material: resistência à compressão uniaxial, resistência à tracção, coesão e ângulo de atrito, através da execução de ensaios de compressão uniaxial, flexão, tracção simples e compressão triaxial (Fig.4). Estes, ensaios tal como os anteriormente referidos, foram efectuados no Laboratório de Geomecânica do Centro de Geotecnia do IST. As propriedades mecânicas que maior influência terão sobre o comportamento mecânico das cavidades abertas para a exploração subterrânea são, para além das que foram até agora referidas e que interessaram apenas o material rochoso, também as que se relacionam com a presença das descontinuidades no maciço rochoso. Assim, para
9

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

algumas destas superfícies realizaram-se ensaios de deslizamento com o objectivo de determinar os seus parâmetros resistentes (ângulo de atrito). Foram ainda realizados alguns ensaios de compressão pontual, mas por não serem em número suficiente para todos os núcleos, não se consideram aqui como representativos.

Figura 4- Parâmetros resistentes dos materiais constituintes dos núcleos estudados (Adaptado de [3]).

4.- METODOLOGIA DE CLASSIFICAÇÂO DO POTENCIAL ORNAMENTAL A caracterização mecânica correspondeu à execução de ensaios mecânicos (dinâmicos e estáticos) em laboratório.

10

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

Foi também determinado o estado de tensão através da realização de ensaios in situ em alguns núcleos do Anticlinal. Estes não foram aqui apresentados por o número de ensaios ser estatisticamente insuficiente para o zonamento de uma área como o Anticlinal de Estremoz-Borba-Vila Viçosa. Enumeraram-se algumas das propriedades geotécnicas consideradas de importância fundamental para o projecto das explorações subterrâneas. Não se considera contudo completa esta listagem, pois é absolutamente imprescindível notar que a heterogeneidade e anisotropias do maciço não se encontram aqui estudadas, a não ser de forma indirecta, quando se analisaram os resultados dos ensaios de acordo com a orientação das amostras no furo, ou quando se considerou, no decorrer dos ensaios, a posição da vergada relativamente à direcção de aplicação da carga (provetes ensaiados perpendicularmente ou paralelamente à vergada). Para complementar a informação, no que respeita à deformabilidade e resistência do maciço, há pois que considerar a realização de ensaios in situ. Indispensável é ainda o conhecimento do estado de tensão, necessário para o dimensionamento das cavidades e dos pilares que as sustentam. Este último, permite também aferir da possibilidade de ocorrência de fracturação induzida pelos trabalhos, aspecto que se poderá reflectir imediatamente na qualidade ornamental. A definição de zonas passíveis de classificação, quer do ponto de vista estritamente geomecânico, quer do ponto de vista técnico económico, e a sua posterior sobreposição conduzirão certamente ao zonamento geotécnico dos maciços no que respeita à sua aptidão para a exploração subterrânea. Este entendimento abrangente do zonamento, atribuindo-lhe uma capacidade de classificar a apetência de um dado maciço para a exploração subterrânea de mármores, conduz à discussão sobre a validade de utilizar indiferenciadamente algumas classificações geomecânicas de uso corrente em certos trabalhos subterrâneos, onde normalmente está ausente a componente económica aqui presente na noção de qualidade ornamental. Assim, parece ser pouco adequada a utilização, ao caso em estudo, de classificações como as de Bieniawski, Barton e outras, de aplicação corrente nos túneis, por se aterem apenas a aspectos relacionados com a capacidade portante dos maciços; outros aspectos, como por exemplo a blocometria, deverão contudo, para o caso em estudo, vir a constituir parâmetros de interesse para qualquer classificação que se desenvolva no âmbito da exploração subterrânea de mármores. No caso presente, torna-se evidente a necessidade da sobreposição dos parâmetros ornamentais (estritamente estéticos e comerciais) com os parâmetros geotécnicos já referidos, afim de aferir correctamente a aptidão para a exploração subterrânea dos mármores portugueses. 5 - CONCLUSÕES Uma metodologia de classificação deve pois, ser constituída por duas fases: a de caracterização geotécnica (onde são determinados os parâmetros geológicos e geomecânicos mais pertinentes) e a da selecção dos parâmetros geotécnicos que se prevê venham a influir mais decisivamente no comportamento do projecto de engenharia, atribuindo-lhes diferentes pesos, consoante a sua relevância para o caso em análise.
11

Congresso de Engenheiros, Ordem dos Engenheiros, Vidago em 2001

O recurso a um sistema de classificação, flexível, utilizando a metodologia que se acabou de apresentar, conduz ao adequado zonamento geotécnico do maciço, tornandose essencial às actividades de concepção e de projecto que se desenvolverão subsequentemente. Neste contexto, parece justificada a necessidade de criar bases de dados com as informações recolhidas nas fases de caracterização geotécnica. Estas bases de dados permitiriam, na fase de anteprojecto de obras subterrâneas a construir em maciços de características geotécnicas semelhantes, utilizar através da experiência comparável (tal como se sugere no Eurocódigo 7), informação de índole geotécnica fiável a baixo custo, ou seja, prevendo-se a possibilidade de redução, em tipo e em número, de alguns ensaios de utilização corrente neste tipo de trabalhos. Uma adequada caracterização geotécnica dos maciços rochosos, nos quais vão ser implantadas obras subterrâneas, permite aos responsáveis definir os processos de construção mais adequados. Apresentaram-se assim critérios, não rígidos, para a caracterização geotécnica dos maciços rochosos, no sentido de minimizar riscos potenciais e efectivos de ocorrência de acidentes estruturais durante a construção das obras.

AGRADECIMENTOS Os autores gostariam de agradecer ao IGM, na pessoa do seu presidente Sr. Engº Luís Costa, a disponibilidade que tem sempre manifestado para a utilização dos resultados dos trabalhos efectuados pelo Centro de Geotecnia do IST para aquele Instituto.

REFERÊNCIAS [1] Guerreiro, H. J. P.(2000).Exploração Subterrânea de Mármores -Aspectos Geotécnicos. Dissertação para a Obtenção do Grau de Mestre em GeorrecursosÁrea de Geotecnia. Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa. Ladeira,F.L. (1981).Mármores. Separata do vol.14, nº4 do Boletim de Minas. Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. IGM. (2000). Projecto de Exploração Subterrânea de Mármores na Região de Pardais. Instituto Geológico e Mineiro. Lisboa. (Relatório não publicado). Hudson, J.A.; Harrison, J.P.(1997). Engineering Rock Mechanics. An Introduction to the Principles. Ed. by Pergamon Press.

[2]

[3]

[4]

12

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->