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PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA

“NO ÚLTIMO PAU-DE-ARARA”
Migração nordestina para Rio de Janeiro e Identidade Regional na Feira de São Cristóvão

RICARDO PESSOA DE SOUSA

Rio de Janeiro 2010

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RICARDO PESSOA DE SOUSA

“NO ÚLTIMO PAU-DE-ARARA”
Migração nordestina para Rio de Janeiro e Identidade Regional na Feira de São Cristóvão

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Coordenação Pedagógica do Curso de Licenciatura em História como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História Professora Orientadora Ms. Ana Paula Magno

Rio de Janeiro 2010

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FICHA CATALOGRÁFICA Ricardo Pessoa de. “NO ÚLTIMO PAU-DEARARA”: Migração nordestina para Rio de Janeiro e Identidade Regional na Feira de São Cristovão. Trabalho de Conclusão do Curso de Licenciatura em História. SOUSA, Orientadora: MAGNO, Ana Paula. Rio de Janeiro - RJ, Universidade Gama Filho, 2010.2

1. História; 2. Migração; 3. Cultura; 4. Identidade.

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RICARDO PESSOA DE SOUSA

“ NO ÚLTIMO PAU-DE-ARARA”
Migração nordestina para Rio de Janeiro e Identidade Regional na Feira de São Cristóvão

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Coordenação Pedagógica do Curso de Licenciatura em História da Universidade Gama Filho como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História AVALIAÇÃO

NOTA FINAL: ______

AVALIADO POR _____________________________________________________ Profª Ms. Ana Paula Magno – Orientadora

_____________________________________________________ Profº Ms. Rômulo José F. de Oliveira Júnior - Examinador Externo

______________________________________________________ Profª Ms. Tereza Vitória Alves – Examinadora Interna

Rio de Janeiro, _____ de ______________de 2010

” Paulo Freire . uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém.5 “A humildade exprime.

pai e companheiro de todas as horas. Ao Drº. Ao Profº. F de Oliveira Júnior. pois sem sua paciência e orientação não conseguiria concluí-lo. que mesmo distante passou muito apoio. Muito Obrigado por terem ajudado a chegar nessa etapa de minha vida. mas que mesmo distante. com suas aulas e orientação deste TCC. Vitor de Lemos Alexandre. . que esteve presente nos momentos de dificuldades. Ao Profº. Dário Gadêlha. A Profª.6 AGRADECIMENTOS A Minha Família. A todos os professores e amigos que de uma forma direta e indireta contribuíram para que eu chegasse até aqui. com todo seu carinho de professor. Mestre Rômulo J. com seu incentivo desde os primeiros períodos do curso. fez parte fundamental no desenvolvimento deste trabalho. Mestre Ana Paula Magno. Drº.

Identidade. este projeto usa conceitos aplicados para o ensino de História. 5.7 RESUMO Este trabalho é o relatar de uma experiência sobre a elaboração de um projeto para educação no ensino de História. Além da Feira de São Cristóvão. percebendo desta forma que a migração nordestina. conseqüentemente surgiu a Feira de São Cristovão. História.do que certezas.Chave: 1. No momento de pensarmos sobre a relevância pedagógica deste projeto. à Memória e à Identidade do povo Nordestino no Rio de Janeiro. em especial os sujeitos que se fixaram na Feira de São Cristóvão. a Feira de São Cristóvão deve ser um lugar que crie questionamentos. Além disso. em especial ao estado do Rio de Janeiro que o tornou uma terra de oportunidades. Fazendo uma relação no que é encontrado na Feira que remete à Cultura. como o de Identidade e Memória que nos faz refletir sobre o estudo do meio que permite um trabalho de interdisciplinaridade entre História e Geografia É esse o papel que a Feira de São Cristóvão propõe ao ensino de história. o aluno deve voltar com mais dúvidas – curiosidades . Ensino . o trabalho na Feira de São Cristóvão no ensino de História está sendo aqui considerado como uma nova metodologia. Buscando como objeto a migração nordestina para o Rio de Janeiro. 4. ou seja. E não apenas o de concretizar o que está sendo estudada em sala de aula. onde a mesma permanece como lugar de memória e de identidade coletiva para o povo Nordestino que no Rio de Janeiro se encontra. a migração Nordestina para a região Sudeste. Devido às secas no Nordeste e ao auge da industrialização. teve grande relevância na História da migração no Brasil. Migração. de habitantes do Nordeste do Brasil para outras regiões do país. o qual desenvolve teoria e metodologia em sala de aula proporcionando um ensino reflexivo para os estudantes. Palavras. Com a chegada dos Nordestinos tendo depois. 3. entre as décadas de 1960 e 1980. 2. Cultura.

which refers to the Culture. or inhabitants of Northeastern Brazil to other regions. At the moment we think about the pedagogical relevance of this project. Memory and Identity of the Northeast people in Rio de Janeiro. Fair of St. work on the Fair St. In addition. History 2. the Students should come back with more questions curious .8 ABSTRACT This work is the report of an experiment on the development of a project for education in the teaching of history. which develops theory and methodology in the classroom by providing a Reflective teaching for students. this project uses concepts applied to the teaching of history. where it remains as a place of memory and collective identity for the people that Northeastern Rio de Janeiro is located. Identity. Making a relationship in which is found in the Fair. had great significance in the history of migration in Brazil. migration to the Northeast Region Southeast. thus realizing that migration Northeast. especially those subjects that settled in Feira de São Cristóvão. Seeking as the object Northeast migration to Rio de Janeiro. especially the state of Rio de Janeiro that became "a land of opportunities. Due to droughts in the Northeast and the rise of industrialization. Kitts in the teaching of history is being considered here as a new methodology. Cultura 4. Kitts. And not just to achieve what is being studied in the classroom. Kitts. Key-Words: 1. Migrations 3. Kitts should be a place that creates questions. This is the role that the Fair of Saint Kitts proposes the teaching of history. 5. In addition to the Fair of St. among the 1960 and 1980. as the Identity and Memory that makes us reflect on the study of a medium that allows interdisciplinary work of Geography and History. "With the arrival of the Northeast with later hence arose the Fair of St. Teaching .than certainties.

3 . 3 – Conceito de Identidade. 1 – Circunscrição do tema.“NO ÚLTIMO PAU-DE-ARARA”: A MIGRAÇÃO NORDESTINA PARA O RIO DE JANEIRO E A FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO.O Exercício de Leitura da Imagem com a obra Retirantes.Analise das Fontes. ---------------------------------------. 22 2.CONSIDERAÇÕES FINAIS. 3 – A Feira de São Cristovão como Lugar de Memória. 57 3. MIGRAÇÃO E IDENTIDADE NA SALA DE AULA: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA DE ENSINO. .O Poema-Canção. -------------------------------------------------------------. 4. -----------------------------------------------------------.Retirantes. 79 6. 10 1. 88 8. 2 . 2 .REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS. 36 3. . --------------------------------------------------------. 45 3.O Conteúdo’ da Obra de Arte no Método Iconológico. 3. ---------------------------------------------. 77 5.Concepção de ensino. . -------------------------. --------------------. 65 3. 89 . ----------------------------------------------------------------------. --------------------------------. 37 3. . 51 3. 1 . 13 1. – ANEXOS. 2 . 1 . -----------------.MEMÓRIA.1 – Objetivos. . . ----------------------------------------------. -------. 22 2. ----------------------------------------------------------. 85 7. 65 4. . ---------------------------------------------------. 12 1. ---------------------------------------------------------------------. .PLANOS DE AULA. ---------------------------------------------------------. 4 . ---. 34 3. 3 .Realizando análises da pintura. .9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.As migrações nordestinas para o Rio de Janeiro.Usando A Mídia Áudio-Visual como Fonte Histórica.PRODUTO FINAL. ----------------------. 3. 55 3. ----------------------------------------------------------------------------------. 29 2. 3. 2. ----------------------------. --------------------------------------------------------------------. -------------------------------------------------------------------------. . 48 3.Triste Partida. 3. 1.CONSTRUINDO IDENTIDADES E MUDANDO OS PARADIGMAS DO ENSINO DE HISTÓRIA. -------------------------------------------------------------------------------. de Patativa do Assaré. 36 3. 4.Lacunas sobre historiografia das migrações. 17 2.Cândido Portinari e o seu Contexto Histórico. 12 1. ---------------------.

as quais são vistas como naturais pelos seus membros. A pesquisa que esse trabalho se propõe é ter uma visão de dentro. que são lugares particularmente ligados a uma lembrança. A proposta é mostrar que a migração nordestina tem sido um fato. Rio de Janeiro. 1992. p. ORIENTADOR: Dr. onde obriga os nordestinos a se retirar de suas terras para não morrer de fome e por falta de recurso governamental algumas áreas do nordeste estão totalmente secas. por vários motivos. Michael. se vê que o grupo nordestino. pode ser considerado como um marco da gênese do Nordestino nesta cidade. tem uma lógica e valores diferentes do grupo que o circunda. entre as décadas de 1960 e 1980. 5. a migração nordestina para a região Sudeste. Devido ao auge da industrialização. que pode ser uma lembrança pessoal. A migração nordestina. É neste sentido. Além disto. em especial aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Marco Antonio Villa. do Nordeste para o Rio de Janeiro. teve grande relevância na história da migração no Brasil. In: Estudos Históricos. que freqüenta e trabalha na Feira de São Cristovão. 200-212. vol. com áreas totalmente desertas.A migração nordestina para São Paulo no segundo governo Vargas (1951-1954) – Seca e desigualdades regionais. Universidade Federal de São Carlos. Memória e Identidade Social. a migração em caminhões paus-de-arara. n. As capitais destes estados tornaram-se "terras de oportunidades"1. Dissertação. ou seja. um deles era a insuficiência econômica do Nordeste.2 Da mesma forma. foi intensa. como ponto de partida a investigação dos traços que marcam a distintividade de um grupo e delineia fronteiras sociais. Ver na Feira de São Cristovão como “Lugar de memória. onde grande parte das oportunidades de trabalho e as melhores condições de estudos para ter uma ascensão social melhor se encontram na região Sudeste. 2 POLLAK. Outro motivo são as grandes secas. 2005. 1 FERRARI. . 10. mas também pode não ter apoio no tempo cronológico”. Monia de Melo . de habitantes do Nordeste do Brasil para outras regiões do país.10 INTRODUÇÃO A escolha do tema aqui exposto é para um melhor entendimento sobre como foi o processo de Migração Nordestina para o Rio de Janeiro e visando a Feira de São Cristovão como lugar de memória para o povo Nordestino.

em última instância. Neste sentido torna-se importante indicar que o trabalho encontra-se dividido em três capítulos. Em um. . para ato de identificação requer o reconhecimento nosso e do outro. são impostos ao grupo. no segundo analisamos as migrações nordestinas para o Rio de Janeiro e a Feira de São Cristóvão do Rio de Janeiro como lugar de memória e identidade do povo nordestino. uma questão de percepção e. No outro. Ou seja. as quais definem um nós e um eles. Proponho que a identidade é. está envolvido na sua construção em duplo aspecto: quando um individuo diferencia os outros está. ao mesmo tempo. definindo a si próprio. por isto mesmo. carregados de valores negativos. que os internaliza.11 A questão da identidade se situa quando da construção e manutenção destas fronteiras. Este aspecto produz dois pólos. em que propomos no primeiro realizar uma circunscrição do tema. uma identidade negativa em que os atributos. é construída um identidade positiva através dos atributos escolhidos pelo próprio grupo. já no último capítulo procuramos apresentar nossa atividade pedagógica que envolve o tema trabalhado e sua aplicabilidade no ensino de História.

8ªed. [1992]. RJ: DP&A. 1 . processos e padrões. literatura. aquilo em que o homem produz no sentido mais abrangente. Dentro desse novo campo de análise do processo histórico. Tudo o que os homens produzem é cultural. História Cultural. mas também cultura. Editora: Campus. para nos possibilitar resposta às perguntas que os objetos de outros campos não nos explicam. seja ela por forma de arte. economia. ao abordar também práticas.. produz cultura. existe até uma relação mais estreita até por que relaciona com o mental do homem. A História cultural dentro de sua relatividade tem uma relação com os outros campos da História. 1º Ed. utilizando de seus métodos e objetos de análise para uma maior compreensão sobre o que se estuda. na qual esses nos possibilitam analisar setores de algumas sociedades. é de se deixar clara a importância em que a sociedade não somente produz política. ao considerar os sujeitos produtores e receptores de cultura (sistema educativo. S. Para Francisco Falcon3. 2002 HALL. Francisco Jose Calazans..).Circunscrição do tema Iniciaremos nossa discussão sobre a conceituação ampla do que é a Historia Cultural. etc. em que o homem literalmente inserido dentro do contexto da produção social e cultural absorve essa diferenças entre as culturas e cria novas identidades4. meios de comunicação). Portanto a História cultural nos importa em um sentido amplo de análise. A identidade cultural na pós-modernidade. imprensa. Arte. escrita. transforma cultura em conhecimento. A História Cultural ao tratar de uma diversidade de objetos (ciência. Na questão da História das mentalidades. 2003 . A partir dos objetos da cultura podemos destacar os oriundos da cultura popular.12 CAPÍTULO 1 CONSTRUINDO IDENTIDADES E MUDANDO OS PARADIGMAS DO ENSINO DE HISTÓRIA 1. cotidiano. é totalmente rica e abriga em seu seio as diferentes formas de 3 4 FALCON.

2003. Antes mesmo de refletirmos sobre a relevância pedagógica deste projeto é necessário refletirmos sobre a importância do ensino de História nas escolas. Roger. Ambos atuam em consonância com o sociólogo PIERRE BOURDIEU11. está situação ocorre principalmente nas grandes metrópoles. 2. onde a escola não é mais um local apenas de instrução e sim de educação. 1983 7 BAKHTIN. no qual tem grande importância para a conexão entre História Cultural e História Política. 11 Idem.11 12 CHARTIER. Tal situação pode ser notada nitidamente ao vivermos o cotidiano de uma escola. SP. onde os alunos aprendem muito mais que conteúdos. p. Pag. A História Cultural: entre práticas e representações. Difel. a escola está ocupando o lugar dos pais na construção do ser crítico do aluno. 1990 BOURDIEU. 1990. Mikhail. A Cultura no Plural. . 1990. Pierre. A História Cultural: entre práticas e representações. “representações”5 e “práticas”6.Concepção de ensino. Ambos são de extrema importância para aqueles que se dedicam a esta área. 10 CERTEAU. O projeto desenvolvido tem como objetivo participar desse novo modo de educar. As noções de “práticas” e “representações” as quais são primordiais para o historiador da cultura são explicitadas por CHARTIER12. as possibilidades trazidas pelas noções que acoplam o seu universo como “linguagens”. 9 CHARTIER. 2002.17. Outro grupo de historiadores que abarca essas discussões é o liderado por ROGER CHARTIER9 e MICHEL DE CERTEAU10. São Paulo: Martins Fontes. Ed. 8 TODOROV. 1. São Paulo: Annablume/Hucitec. Difel. Rio de Janeiro. Difel. Tzvetan. Com o intuito de estender a abrangência deste trabalho sobre cultura. Levandose em consideração o tempo em que vivemos. é proposto que pensamos como a historiografia se tem voltado para o estudo da dimensão cultural de uma sociedade historicamente localizada e que isso não é feito aleatoriamente pela História Cultural. Roger. Roger. o que acarreta no fato dela ter atraído o interesse de diversos historiadores a partir do século XX. Neste sentido. quero também citar as contribuições de MIKHAIL BAKHTIN7 e TODOROV8. Sem contar. os alunos devem aprender 5 6 CHARTIER.13 tratamento destes objetos. O primeiro deve-se à noção de “circularidade cultural” e ao segundo o termo “choque de cultura”. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. 2001. Editora: Papirus. A História Cultural: entre práticas e representações. Marco Zero. A Conquista da América: A Questão do Outro. Quetões de Sociologia. Michel de.

os quais podem ser encontrados no PCN13. o qual desenvolve teoria e metodologia em sala de aula proporcionando um ensino reflexivo. Além da Feira de São Cristóvão. o trabalho na Feira de São Cristóvão no ensino de História ta sendo aqui considerado como uma metodologia. um indivíduo pensante. nós professores devemos ter o cuidado com o perfil de cada turma. crítico e reflexivo. este projeto usa conceitos que enriquece o ensino de História. em alguns casos até mesmo de cada. São Paulo. In: NIKITIUK. e. (Org) Repensando o Ensino de História. para a estruturação e reestruturação dos currículos escolares de todo o Brasil. Essas diretrizes são voltadas. Todos esses conceitos são discutidos pela professora CIRCE BITTENCOURT15 em seu livro Ensino de História: Fundamentos e métodos e em outro título organizado pela a autora O Saber 13 PCN . ou alguns indivíduos. As palavras do professor UBIRATAN ROCHA14 são nos fazem pensar na complexidade e responsabilidade encontrada no ensino de História. Cortez. 14 ROCHA.14 . feita de repetições e sem a preocupação de se enquadrar no perfil do público. A reflexão obtida em sala é a responsável por contribuir na construção do ser histórico. pag.Os Parâmetros Curriculares Nacionais são referenciais de qualidade elaboradas pelo Governo Federal em 1996. 1996 p. Além disso. “Reconstruindo a História a partir do Imaginário do Aluno”. A busca por um ser crítico pode ter conseqüência contrária e acabar alienando os alunos com a famosa História decoreba. sobretudo. Feita a reflexão sobre o ensino de História. como o de Identidade que nos faz refletir sobre o estudo do meio que permite um trabalho de interdisciplinaridade entre História e Geografia. Sônia Leite. São os objetivos a serem alcançados pelo ensino de História.14 e compreender os conceitos que o ajudaram a construir seres pensantes. principalmente. Os conhecimentos históricos não são e nem devem ser neutros. reflexivos e críticos que os professores.47 15 Idem. os de ciências humanas procuram construir em sala de aula. é o momento de pensarmos sobre a relevância pedagógica deste projeto. A falta de metodologia é muito encontrada nos dias de hoje por uma maioria de professores que transformaram a sala de aula em uma espécie de mercado vendendo sua aula e seu conhecimento o máximo possível. Ubiratan.

ou dão uma resposta que não satisfaz a dúvida do aluno. sobre novas metodologias entre elas mídia. ALMEIDA. Adriana M. 2004. Ensino de História: Fundamentos e métodos São Paulo.F. Contexto 1997 trás dois artigos usados neste projeto são eles: ORIÁ. Circe M. mas deve está preparado para ultrapassar essas barreiras e tornar seu aluno em um ser pensante e indagador. entre outros assuntos. Frevo (Pernambuco). renda (Ceará).15 Histórico na Sala de Aula16. Camilo de Mello. pois assim os alunos compreenderão os temas históricos com maior facilidade e não apenas com uma sucessão de fatos. á Memória e a Identidade do povo Nordestino no Rio de Janeiro.do que certezas. trazendo para a sala de aula vária figuras de elementos culturais de diversas regiões do nordeste: Baianas (litoral). Festas Juninas (João Pessoa). Capoeira (Salvador).357 . Cortez. Os títulos refletem. É esse o papel que a Feira de São Cristóvão propõe ao ensino de história. Para fazer uma História diferente em sala de aula o professor não pode ser barrado pelas dificuldades encontradas. cangaceiro (sertão). Vasconcellos. identificação e caracterização de grupos sociais e como ela se apresenta de forma bem heterogênea dentro da região estudada e até mesmo 16 BITTENCOURT. São Paulo. A partir das colocações dos alunos.p. tecnologia e também iconografias. observar se conseguiram fazer uma ligação das figuras como produtos culturais do nordeste. “Memória e Ensino de História”. “Por Que Visitar Museus”? 17 BITTENCOURT. Circe Maria Fernandes. Com essas questões levantadas no inicio deste texto devem ser respondidas nas primeiras aulas. levantando questões para os alunos pensarem na relação entre aquelas figuras e o que elas nos remetem. a Feira de São Cristóvão deve ser um lugar que crie questionamentos. Ricardo. Fazendo uma relação no que e encontrado na Feira que remete á Cultura. para depois discutir com eles o que conceito de cultura como produção. E não apenas o de concretizar o que está sendo estudado em sala de aula17. Dessa forma por que estudar História? Por que visitar a Feira de São Cristóvão? São questões levantadas em sala de aula pelos alunos e na maioria das vezes os professores não sabem como responder. Com o conceito de Identidade Cultural. o aluno deve voltar com mais dúvidas – curiosidades . (org) O Saber Histórico na Sala de Aula. Bumba-meu-boi (Maranhão).

nº 3. Voz de Luiz Gonzaga. “PARAÍBA E BAIANOS: ÓRFÃO NO CAMPO. Questionaremos os alunos sobre suas próprias representações. como se o nordestino fosse apenas aquilo). e para isso iremos orientar uma atividade com os alunos onde eles terão que desenvolver uma pesquisa através de entrevistas com migrantes nordestinos. Com a presença dos elementos das “diversas culturas” nordestinas no Rio de Janeiro. Travessia. que eles ou alguém conhecido tenha vivido. filhos legítimos da cidade – Revista do Migrante. Bráulio. ou desenhos. Maio-Agosto/1990 . TAVARES. porém com mais oportunidades de vida. 1964. a fim de levantar algumas informações como: o motivo da saída da terra natal? Quem da família foi o primeiro a vir para o Rio de Janeiro? O que guarda na lembrança da região que vivia? O que lembra ao falar de cultura nordestina? Como vê a condição dos nordestinos que migram o Rio de Janeiro? E outras perguntas que forem possíveis para colher dados sobre esse nordestino. fazer o aluno compreender criticamente e historicamente a migração nordestina e todos os processos históricos do qual é composta. Como eles vêm a figura do nordestino e si se identificam com ela. fazendo com que este perceba e aceite suas descendências. Para ilustrar produzirão cartazes. o de chegada e este parece ser eternizado. seja com parentes. Ano III. sua vida ao Rio de Janeiro e como a cultura da sua região se perpetua em sua vida atual Trabalharemos o contexto histórico social da vinda do nordestino. In: Paraíba e baianos: órfão no campo. amigos ou vizinhos. Após este processo de analise. FILHOS LEGÍTIMOS DA CIDADE19” De acordo com o contexto trabalhado e as analises feitas em sala de aula. Utilizando-se dos objetos trazidos pelos alunos e utilizando o quadro Os Retirantes de Portinari (mostra apenas um momento. coerente com o tema trabalhado. pedir aos alunos como atividade que tragam para a próxima aula fotos de familiares ou objetos nordestinos. analisando a letra da música “A TRISTE PARTIDA DE LUIZ GONZAGA 18 ”. A música urbana de Luís Gonzaga. Para tanto utilizaremos parte das pesquisas trazidas pelos alunos para contrapor com as discussões sobre a música e basear em fragmentos de um texto selecionado da REVISTA TRAVESSIA. Fazendo assim compreensão da pluralidade das influencias de outras 18 19 Letra da Musica e Composição: Patativa do Assaré. para um lugar desconhecido.16 dentro de cada estado desta região. onde descreve a resistência da saída de sua terra natal. ou que tragam uma história.

Os textos. As músicas e as iconografias. é de suma importância mostrar aos alunos as diferentes linguagens que podem ser utilizadas tanto em aula. L. ou seja. colagens. sempre voltados ao tema trabalhado e essas produções serão expostas em um Blog. – constitui o sujeito”20. (Org. como atividade. In: LOURO. múltiplas. 3 . Pedagogias da sexualidade. 20 LOURO. o sentido de pertencimento a diferentes grupos – étnicos. Vídeo. primeiramente serão expostas para a sala num todo. sexuais.). pedir aos alunos que produzam suas representações do nordestino e que estas representações sejam em formas de linguagens. p. ser contraditórias. instituições ou agrupamentos sociais. que podem. artigos e as iconografias também estarão dispostos impressos para melhor serem analisados. por isso. os textos e o quadro.17 culturas no Rio de Janeiro. poesias. em seguida em grupo menor. de classe. através de composição musical. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. . de modo que os dois momentos tentem a criar um diálogo. Essas múltiplas e distintas identidades constituem o sujeito. G. 7-34. Belo Horizonte: Autêntica. 2000. juntamente com os textos e os artigos. até mesmo. como em seu dia-a-dia. Como este projeto utiliza-se de varias formas de linguagens. os sujeitos possuem “identidades plurais. fotos. como a musica.Conceito de Identidade O conceito de identidade segundo Louro. L. onde as conclusões serão construídas com os alunos e não expostas pelo professor. 1. que não são fixas ou permanentes. na medida em que esses são interpelados a partir de diferentes situações. Assim. Tendo uma sensibilidade na convivência e no respeito às misturas culturais que existem na Feira de São Cristovão e no Rio de Janeiro. G. vídeos. O método á ser trabalhado neste projeto é todo baseado em análises dos documentos feitas pelos próprios alunos. de gênero etc. os alunos iram problematizar e analisar. desenhos. A música estará disponível tanto em áudio como a letra impressa. identidades que se transformam.

deslizar entre elas – perceber-se de distintos. Discursos de identidades: discurso como espaço de construção de gênero. Enquanto na modernidade “as pessoas são normalmente membros de uma e apenas uma nação.. (Org. ou ativo. C. gênero e sexualidade na escola. As três características inerentes às identidades sociais apontadas por MOITA LOPES27. 8. 2003. Rio de Janeiro: Record. P. Campinas: Mercado de Letras. ou seja. 2001. implica três características para as identidades construídas social e discursivamente: fragmentação.).. sobrepostas. independentemente das 21 22 HALL.) e cada uma dessas afiliações descreve de modo exato e concreto algum aspecto de sua existência. A identidade cultural na pós-modernidade. a pós-modernidade enfatiza o caráter variável. [1992]. os sujeitos aceitam as identidades sociais a eles impostas pelas práticas discursivas da sociedade e submete-se ao seu poder. não-essencialista e subjetivista das identidades sociais.). R. 27 MOITA LOPES. RJ: Jorge Zahar Editor. um gênero e uma orientação sexual. Z. ed. os sujeitos escolhem que posição tomar. Pluralismo cultural. 1999. Multiculturalismo e nacionalismo. . Campinas: Mercado de Letras. 200-228. 2002. ou seja. Identidades fragmentadas: a construção discursiva de raça. contradição e fluxo. um “eu jamais acabado”25. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. multidimensionais como afirma HALL21. identidades sociais não são fixas ou prédeterminadas”.22 Uma visão sócio-construcionista do discurso. (. In: MENDES. responder afirmativamente a uma interpelação e estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social de referência Por possuir um conjunto de atributos culturais. o mesmo indivíduo pode ter identidades múltiplas. contradição e fluxo23. idade e profissão na escola e na família. 2003 24 GIDDENS. p. 23 MOITA LOPES. C. pois. a saber. Esse posicionamento pode ser passivo. fragmentação. L. Rio de Janeiro: Record. raça. Globalização: as conseqüências humanas. (. CALHOUN. A fragmentação das identidades leva ao “desencaixe”24. L.. 2ª ed. fazendo-os oscilar. A corrosão do caráter.. S. ou por que sentir-se em casa não substitui o espaço público. (Eds. implicam necessariamente que os sujeitos se posicionem e/ou sejam posicionados no mundo através das inúmeras práticas discursivas das quais fazem parte. identidade e globalização. 25 SENNETT. P. RJ: DP&A. Essas distintas posições podem se mostrar conflitantes até mesmo para os próprios sujeitos. São essas identidades sociais múltiplas e imbricadas que implicam possibilidades de interação. RJ: Record.) membros de uma e apenas uma raça. sexualidade.. SOARES. “transitório”26. E. A. e descritas anteriormente. 1999 26 BAUMAN.18 Reconhecer-se numa identidade supõe. L.

culture and the postmodern world. 30 Idem. identidades podem. “o que está em jogo nas lutas 28 . Enquanto a identidade de resistência apenas nega a identidade legitimadora. resiste à identidade legitimadora. . 2002. L. Finalmente. implicam necessariamente que os sujeitos se posicionem e/ou sejam posicionados no mundo através das inúmeras práticas discursivas das quais fazem parte. Da mesma forma que a cultura da classe dominante tende a se impor sobre as demais manifestações culturais. e muitas vezes realmente são. que podem reformular e até mesmo manipular identidades. identidade de resistência e identidade de projeto. Identidades fragmentadas: a construção discursiva de raça. fragmentação. M. O poder da identidade. Campinas: Mercado de Letras. SARUP. ou ativo. independentemente das práticas discursivas e relações de poder impostas pela sociedade – o que SARUP30. depende do posicionamento social. 1996 29 MOITA LOPES. é o fato de o primeiro reconhecer dois níveis de resistência ao poder refletidos nas identidades sociais dos indivíduos. Identity. e descritas anteriormente. ou seja. identifica três formas e origens de construção de identidades: identidade legitimadora. 27 31 CASTELLS. P. Edinburgh: Edinburgh University Press. São Paulo: Paz e Terra. gênero e sexualidade na escola. M. portanto. dependendo do posicionamento dos sujeitos no meio social. 1999. A identidade é. O direito à identidade. Esse posicionamento pode ser passivo. chama de “identidade política”. a identidade de projeto é aquela que vai além da simples resistência e parte para a construção de uma nova identidade. portanto. contradição e fluxo.19 práticas discursivas e relações de poder impostas pela sociedade – o que SARUP28. A única diferença entre CASTELLS e SARUP. formadas a partir de instituições dominantes. chama de “identidade política”. Por outro lado. a identidade de resistência é aquela que. o poder de identificação. os sujeitos aceitam as identidades sociais a eles impostas pelas práticas discursivas da sociedade e submete-se ao seu poder. A identidade legitimadora é aquela difundida pelas instituições dominantes no intuito de perpetuar sua dominação. a identidade de projeto não só a nega como também propõe uma nova para substituí-la. também reconhece a construção de identidades ativas ou passivas. a saber. os sujeitos escolhem que posição tomar. pag. Na mesma linha CASTELLS31. como o próprio nome indica. As três características inerentes às identidades sociais apontadas por MOITA LOPES29.

London. sócio-construcionista.). Ethnic Groups and Boundaries. George Allen and Unwin. Pierre. gênero. ou seja. “participar de certa cultura particular não implica automaticamente ter certa identidade particular” afirma BARTH35.20 sociais32”. entendo por identidade o processo de construção de significado com base em um atributo cultural. origem etc. Por outro lado. principalmente no mundo globalizado atual. Bauru: Edusc. Frederik. A noção de cultura nas ciências sociais. a hetero-identidade ou exo-identidade se traduz pela estigmatização dos grupos minoritários. “somente os que dispõem de autoridade legítima. ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados. ambos de natureza interacional. 1983 34 CUCHE. Acredito que a visão de cultura como fonte de construção de identidade fique clara na definição de CASTELLS 37. Os conceitos de cultura e identidade adotados neste trabalho. M. Também pode-se ver entre eles o desenvolvimento dos fenômenos de desprezo por si mesmos. Segundo BOURDIEU33. idade. Ed. São Paulo: Paz e Terra. No entanto. sexualidade. podem impor suas próprias definições de si mesmos e dos outros” Em uma situação de dominação caracterizada. D. BOURDIEU. 36 CUCHE. 1999. na medida do possível. D. Ela leva freqüentemente neste caso ao que chamamos de uma “identidade negativa”34. os minoritários reconhecem para si apenas uma diferença negativa. Os indivíduos buscam recursos em diversas culturas. os sinais exteriores da diferença negativa. A noção de cultura nas ciências sociais. Marco Zero. Estes fenômenos são freqüentes entre os dominados e são ligados à aceitação e à interiorização de uma imagem de si mesmos construída pelos outros. na construção de suas identidades. . O poder da identidade. os quais prevalecem 32 33 CUCHE. A identidade negativa aparece então como uma identidade vergonhosa e rejeitada em maior ou menor grau. A noção de cultura nas ciências sociais. 1999. parecem se confundir em alguns momentos. e plural. Rio de Janeiro. mas dificilmente uma identidade engloba todos os aspectos de uma cultura (tomada aqui no seu sentido totalizante). “estratégias de identidade podem manipular e até modificar uma cultura”36. uma vez que as mesmas categorizações que definem culturas também definem identidades (classe social. pois elas podem ser responsáveis pela inclusão ou exclusão social. Definidos como diferentes em relação à referência que os majoritários constituem. 1999. 1999. D. 1969. raça. Bauru: Edusc. 37 CASTELLS. 35 BARTH. o que se traduzirá muitas vezes como uma tentativa para eliminar. de autoridade conferida pelo poder. “uma mesma cultura pode ser instrumentalizada de modo diferente e até oposto nas diversas estratégias de identificação”. Bauru: Edusc. pois certos traços culturais fazem parte da identidade. profissão. Questões de Sociologia.

ela distingue um grupo – e seus membros – dos demais grupos. necessariamente consciente. sem consciência de identidade. seja por definir uma identidade de referência.30. o responsável pela vinculação cultural. baseada em oposições simbólicas”39.21 sobre outras fontes de significado. a uma classe de idade. apesar de admitir um certo pluralismo cultural no interior de sua nação. . contraditórias e fluidas. A identidade permite que o indivíduo se localize em um sistema social e seja localizado socialmente.). Diferentes identidades culturais de diferentes culturas são absorvidas por um indivíduo e tornam-se partes de suas identidades sociais. pag. enquanto parte integrante das identidades sociais. pag... a uma nação. Idem.. a única verdadeiramente legítima (. 38 39 Idem. a identidade social exprime a resultante das diversas interações entre o indivíduo e seu ambiente social. a identidade cultural “remete a uma norma de vinculação..30. etc.. pag. 40 Idem. Enquanto a cultura existe no âmbito dos processos inconscientes. Quando a identidade social passa a identificar um grupo.30. a uma classe social. próximo ou distante. O não entendimento dessa natureza pode acarretar nas visões essencialistas de identidade nacional e cultura nacional. seja por reconhecer apenas uma identidade cultural para definir a identidade nacional (. e não apenas cada indivíduo separadamente. A identidade social de um indivíduo se caracteriza pelo conjunto de suas vinculações em um sistema social: vinculação a uma classe sexual. a identidade cultural é um dos componentes da identidade social. As identidades culturais. A identidade cultural é um dos componentes da identidade social. uma modalidade de categorização baseada na diferença cultural. Nesse sentido.) há identidades múltiplas. Para um determinado indivíduo (. A ideologia nacionalista é uma ideologia de exclusão das diferenças culturais40.. fragmentadas. Segundo CUCHE38.). também são múltiplas. O Estado moderno tende à monoidentificação.

um deles é a suficiência econômica do Nordeste. ou seja. embora guardem semelhanças. Durval Muniz de. A proposta é mostrar que a migração nordestina tem sido um fato. Questões de Sociologia. onde grande parte das oportunidades de trabalho e as melhores condições de estudos para ter uma ascensão social melhor se encontram na região Sudeste. apropriando-se dos critérios supostamente “objetivos43” por ele construídos.22 CAPÍTULO II “NO ÚLTIMO PAU-DE-ARARA”: A MIGRAÇÃO NORDESTINA PARA O RIO DE JANEIRO E A FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO 2. A invenção do Nordeste e outras artes. Pierre. também. em sua obra A Invenção do Nordeste e outras Artes. fundamentado na objetividade do grupo a que ele se dirige. As idéias desses autores. 1 . através de sua palavra. de que a região é uma construção imagético-discursiva. Rio de Janeiro.Lacunas sobre historiografia das migrações A escolha do tema aqui exposto é para um melhor entendimento sobre a migração nordestina no Rio de Janeiro. 1983 .Cortez. Para compreendermos essa relação iremos discutir regionalismo e é pertinente resgatar a concepção de PIERRE BOURDIEU41 sobre a idéia de região como uma construção discursiva. Recife: Massangana . 1983 ALBUQUERQUE JÚNIOR. Marco Zero. impor uma nova visão e uma nova divisão do mundo social. Ed. por vários motivos. publicado originalmente em 1989. apresentam contrastes marcantes. Precisa. Rio de Janeiro. 2000 43 BOURDIEU. Esse discurso performativo somente consegue trazer à existência a região se aquele que o realiza for capaz de. Questões de Sociologia. que consta em seu livro O Poder Simbólico. lançado em 1999. usando como estratégia o processo de formação da Feira de São Cristovão até os dias atuais como Centro Luiz Gonzaga de Tradição Nordestina. Ed. no reconhecimento e 41 42 BOURDIEU. isto é. ser pertinente. Pierre. bem como a formulação de DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JÚNIOR42. Marco Zero. podendo para isso tomar partido do efeito simbólico exercido pelo discurso científico.

Questões de Sociologia. 19 . assim como a própria idéia de região. concebida como uma “armadilha de sentido”46. com o seu livro. por conceber a região como uma invenção. Marco Zero. Recife: Massangana . 16. opondo-se. resgata a instituição cultural e social do Nordeste e dos próprios nordestinos a partir do final da década de 1910. O autor defende a superação desses “mecanismos aprisionadores”47. Para este autor. o que requer questionar a lógica que preside as idéias de nação e de região. o autor. 2000 48 Idem. 19 49 Idem. O regionalismo é importante no mercado dos bens simbólicos. M. uma generalização intelectual de uma enorme variedade de práticas efetivas. Partindo de uma inquietação em relação aos espaços em que foi dividido o Brasil e de uma discussão sobre o significado da noção de região. contribuir para a dissolução do Nordeste. [1979]. 1983 47 ALBUQUERQUE JÚNIOR. para os olhares e discursos regionalistas deveriam ser abolidos. permitindo que surja uma realidade muito mais complexa e polimorfa. enquanto maquinaria imagético-discursiva de reprodução das relações econômico-sociais e de poder. A invenção do Nordeste e outras artes.Cortez. Rio de Janeiro. pag. pag. uma produção “imagético-discursiva”49. “definir a região é pensá-la como um grupo de enunciados e imagens que se repetem. enfatiza o aspecto ficcional e arbitrário. em diferentes discursos. afirmando que pretende. Pierre. assim como nas propriedades econômicas ou culturais do grupo. o que pode ser evidenciado quando o autor apresenta sua conceituação de Nordeste. E 44 45 Idem. gestada historicamente. Ed. em diferentes épocas. Os que consideram a região como uma produção discursiva pertinente. O Nordeste é uma produção imagético-discursiva formada a partir de uma sensibilidade cada vez mais específica. às abordagens que pretendem seu desaparecimento. por isso. em relação a uma dada área do país. Microfísica do Poder. pag. que fazem parte das “artimanhas de dominação”48. baseandose em Foucault45. com certa regularidade. ed.23 na crença que lhe concedem os membros deste grupo. Durval Muniz de. considera a região como resultante de um dispositivo imagético discursivo que faz com que pareça naturalmente homogêneo o que é heterogêneo.18 FOUCAULT. uma identidade presente na natureza”44 Visando ressaltar o caráter estratégico da idéia de região. com diferentes estilos e não pensá-la uma homogeneidade. fundamentada na materialidade de um grupo social. 2001 46 BOURDIEU. Rio de Janeiro: Graal.

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é tal a consistência dessa formação discursiva e imagética que dificulta, até hoje, a produção de uma nova configuração de “verdades”50 sobre este espaço. Para o combate aos preconceitos em relação ao Nordeste e ao nordestino, associando-os ao atrasado, ao rural, ao arcaico, não se fará por um discurso regionalista, que tente “inverter o sinal do que se diz, atribuindo uma falsidade ao que se fala e vê e procurando colocar outra verdade em seu lugar”51. Teríamos que começar destruindo o Nordeste e o nordestino, como estas abstrações preconceituosas e estereotipadas, conhecendo as diversidades constitutivas de cada área e de cada parcela da população nacional. A uma emergência do dispositivo das nacionalidades permitiu o surgimento da idéia de Nordeste, porque sem a idéia do Brasil como nação teria sido impossível pensar as regiões. Esse dispositivo fez com que houvesse a necessidade de se buscar símbolos e signos que preenchessem a idéia de nação e, na tentativa de garantir sua hegemonia, as diferentes regiões começaram a competir entre si para que seus costumes, crenças, relações e práticas sociais fossem generalizados para todo o país. A idéia de nação se tornou um anacronismo, desde a década de 1960. A crise do dispositivo das nacionalidades teria gerado, desde então, movimentos crescentes de internacionalização. Os regionalismos passaram a explodir como reações conservadoras ao processo de globalização, tendo atualmente um caráter anacrônico e reacionário. Para o autor os regionalismos precisam ser ultrapassados, pois esgotaram sua potencialidade criativa, se fossilizaram, ao tomarem como representativos da nação e da região uma série de imagens e de enunciados, de sons e de sentidos, que se apóiam em uma rede de poderes que se quer perpetuar. Na visão de Albuquerque Júnior52 o conhecimento e a cultura não devem ter fronteiras, não devem se aferrar a uma dada tradição, inventada como representativa de qualquer espaço. Para isso é importante que todos nós, em vez de barrarmos os fluxos culturais, nos localizemos criticamente dentro deles, tendo “uma voz dissonante em

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ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes, Recife: Massangana - Cortez. 2000 51 Idem, pag. 19 52 Idem, pag. 19

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relação a essas grandes vozes que tentam nos dizer”53, problematizemos as imagens e enunciados cristalizados do passado e do futuro e nos debrucemos sobre o presente, descobrindo-o como uma multiplicidade espaço-temporal. A migração nordestina, ou seja, de habitantes do Nordeste do Brasil para outras regiões do país, teve grande relevância na história da migração no Brasil. Devido ao auge da industrialização, entre as décadas de 1960 e 1980, a migração nordestina para a região Sudeste, em especial aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, foi intensa. As capitais destes estados tornaram-se terras de oportunidades. Com a melhoria estrutural de outras regiões do Brasil, somada aos problemas que surgiram nas grandes cidades por causa da superpopulação, a migração nordestina diminuiu consideravelmente. Apesar de o Rio de Janeiro continua sendo importante pólo de atração. Devido principalmente ao problema da exploração social e do trabalho na economia rural nordestina, relacionada com e eventualmente justificada pela seca, somados com a grande oferta de empregos de outras regiões principalmente nas décadas de 60, 70 e 80, em especial na região Sudeste, verificou-se um pronunciado fluxo migratório de parte da população nordestina para outras regiões do país. Na última década, porém, devido às alterações estruturais na economia impulsionadas por medidas social-democratas e com a crise do Estado, surgiu um problema generalizado de aumento do desemprego, de queda da qualidade da educação e redução gradativa da renda (aliada a sua histórica distribuição desigual). Isto fez com que parte da população de origem nordestina e de seus descendentes, os quais antes haviam migrado pela falta de recursos, mantivessem uma baixa qualidade de vida. Por causa da visão espelhada nas décadas anteriores, o falso ideal imaginário que se formou em relação à região Sudeste é da promessa de uma qualidade de vida melhor, de fácil oportunidade de emprego, salários mais altos, entre outros; iludido por esse sonho, quando um nordestino migra para o Sudeste em busca de uma melhoria na qualidade de vida, acaba encontrando o contrário, além de sofrer preconceito social no dia-a-dia.

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A grande migração nordestina teve a seca com ponto primordial. A única indústria que não produz benfeitorias é a indústria da seca. Os proprietários dessa indústria querem torná-la mais ativa e rendosa. Matéria prima: fome, miséria, mortalidade infantil, formação de nanicos, pedintes. Todos estes quesitos são planejados estrategicamente e os resultados são rápidos e cruéis. Quando se trata de migração nordestina, tudo se passa como se fosse uma decorrência econômica e social natural, levando-se em conta a construção imaginária do tripé Nordeste/ seca/migração. O migrante nordestino flagelado e desnutrido, dentro de um pau-de-arara, fugindo da seca, agarrado à esperança de uma sina melhor no Sul de oportunidades. Passados mais de meio século do início das migrações, esse vídeo mítica muito pouco se alterou no imaginário do brasileiro. O nordeste como sinônimo do atraso, o nordestino como alguém incapaz e a seca como umas das causas desse êxodo formaram esse tripé da versão mais conhecida dessa história. ISABEL GUILLEN54, historiadora e professora da Universidade Federal do Pernambuco, afirma, em seu artigo “Seca e Migração no Nordeste”, que há um paradoxo entre o Vídeo tão presente no imaginário coletivo e a ausência de historiografia sobre o tema. “Com isso, quero dizer que os estudos que tinham como objeto de interesse os movimentos de população pelo interior do Brasil, eram, até bem recentemente, bastante raros”. Para a historiadora, a literatura cumpriu com mais riqueza esse papel. Livros como O Quinze, de Raquel de Queiroz e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, são exemplos de como os escritores regionalistas preocuparam-se com a migração e abriram caminho para estudos nesse sentido. Mas Guillen afirma que, apesar de todos os méritos, essas publicações colocaram o migrante no papel de grandes vítimas, produtos de uma condição ambiental. “Uma produção intelectual, enfim, que destituía os migrantes da condição de sujeitos, transferindo-a para a seca55”, afirma a historiadora. Os estudiosos que rejeitam essa visão tradicional do fenômeno da migração apontam que a transumância é típica das populações de homens livres e pobres.

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GUILLEN, Isabel Cristina Martins. Seca e migração no nordeste: reflexões sobre o processo de banalização de sua dimensão histórica. In: Revista FUNDAJ. N° 11-2001. Recife: 2001. Este artigo pode ser visto no site: http://www.fundaj.gov.br/tpd/111.html. acesso em 19 de Nov. 2010. 55 Idem, pag.19

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Esse nomadismo é próprio dos vaqueiros, tropeiros e mascates, figuras recorrentes da história brasileira. Os reflexos dessa característica podem ser percebidos no modo de construir as casas, sempre com materiais baratos, para que, no caso de um abandono, o prejuízo seja o menor possível e também na resistência de alguns em manter criações. O conto A Terceira Margem do Rio, do livro Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa ilustra a questão. Ele não situa seu personagem em nenhuma das margens e nem à margem, mas no vai-e-vem das águas. Essa perspectiva não esconde, no entanto, a precariedade de vida que a migração impôs a essa população. Se, por um lado, a maleabilidade do retirante o ajudava a escapar da miséria e da violência, por outro, dificultava sua aquisição de bens. Dessa forma, esse êxodo terá sempre um sentido ambíguo: é fruto das imposições sociais e climáticas, mas também é uma escolha contra a pobreza no sertão. “Migrar é, em última instância, dizer não à situação em que se vive, é pegar o destino com as próprias mãos, resgatar sonhos e esperanças de vida melhor, ou mesmo, diferente. Migrar pode ser entendido como estratégia, não só para minimizar as penúrias do cotidiano, mas também para buscar um lugar social onde se possa driblar a exclusão pretendida pelas elites brasileiras por meio de seus projetos modernizantes”, afirma Isabel Guillen56. A trajetória das pessoas na região do semi-árido é pensada com uma quase paralisia histórica: nada muda, são sempre as mesmas abordagens e propostas recorrentes. É freqüente encontrarmos nos discursos de historiadores afirmações como “O problema da seca e das migrações no sertão nordestino é histórico”. Nesse contexto, “ser histórico” é aquilo que sempre ocorreu e que não tem solução, isto é, tem um sentido de permanência. Para a historiadora Isabel Guillen, a banalização e a invisibilidade acabam por transformar o semi-árido em uma região aparentemente sem história. “Quando afirmam que a pobreza e a migração são históricas, parece-me que lhes dispensam o mesmo tratamento dado às secas, ou seja, busca-se naturalizar um dado que é social”.57

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GUILLEN, Isabel Cristina Martins. Seca e migração no nordeste: reflexões sobre o processo de banalização de sua dimensão histórica. In: Revista FUNDAJ. N° 11-2001. Recife: 2001. Este artigo pode ser visto no site: http://www.fundaj.gov.br/tpd/111.html. acesso em 19 de Nov. 2010. 57 Idem

a migração. uma necessidade de mão-de-obra barata e abundante e. 1993. já que as elites que se beneficiaram dele buscaram em diversos momentos promovê-lo. . mantendo os trabalhadores sujeitos a péssimas condições de trabalho e vida.. 15.59 Também não se pode esquecer que esse deslocamento populacional não foi totalmente espontâneo. afirma Paiva. os estudos realizados sobre o assunto são escassos. São Paulo. quarenta anos depois da intensificação do processo de migração. e a existência de mão-de-obra sempre barata. a falta de planejamento e políticas de desenvolvimento. Dissertação de mestrado. quando o número de desocupados aumentava. objetos. principalmente na época da entressafra. 15. Tese de doutorado. o historiador Flávio Venâncio de Luizetto procura evidenciar como a migração era de interesse das oligarquias. p. obras de arte. A possibilidade de êxodo para o Sudeste apresentava-se como uma válvula de escape para essas ocasiões de incertezas”60. USP. tendo. artesanatos e tudo aquilo que costuma fazer parte de estudos e acervos de museus. 60 LUIZETTO. o pesquisador ODAIR PAIVA58 demonstra como a visão de migração como um processo econômico. graças ao desemprego abundante. social e climático natural favoreceu as elites nordestinas detentoras de terras e meios de produção. 1993. Odair – “Caminhos cruzados – a migração para São Paulo e os dilemas da construção do Brasil moderno. 58 PAIVA. O desinteresse de universidades e do poder público pelo resgate e a discussão dessa história vai ao encontro dos que querem manter as causas do êxodo sempre vivas – a concentração de terras. pag. documentos. 23. “Caminhos cruzados – a migração para São Paulo e os dilemas da construção do Brasil moderno”. USP. Flávio Venâncio de . depoimentos. . Em sua dissertação de mestrado na USP. E ainda hoje. “A dupla construção da idéia de um nordeste do atraso ganha força nos anos de 1930. deixaram de ser recolhidos e podem ter se perdido para sempre. 59 Idem..28 A falta de interesse dos intelectuais só começou a diminuir após a década de 1970. São Paulo.. de outro. Em sua tese de doutorado na USP. p. já que a base social promotora da mesma – elites nordestinas e interesses de grupos agrários e industriais em São Paulo – encontra nela um elemento importante na defesa de seus interesses”. poderia criar situações de tensão perigosas para a estabilidade da ordem. de um lado.. Fotos. um interesse das oligarquias. assim como as oligarquias do Sul. “O frágil equilíbrio em que repousava a economia açucareira.

um andarilho. Então. muita poeira ou chuva. Ou a saga de cada um. os solavancos constantes indicavam. o fenômeno da seca se repetiu por mais de dez 61 Agamenon de Almeida. amenizava os sofrimentos da “triste partida”. conforme a região. onde ele é mais profundo.As migrações nordestinas para o Rio de Janeiro “Nós. o nordeste se tornasse totalmente deserto. os barrancos da vida. já teríamos sucumbido. por isso. . Ambulantes e Artista Populares da Feira Nordestina do campo de São Cristovão. Essas viagens duravam em média 15 dias. não os abandonava um só instante. a Ilha de Marajó no Pará e a cidade do Cabo na África do Sul. Devido á má conservação das estradas. estamos sempre rindo. deste então. fôssemos suficientizados economicamente. entre a cidade de Natal. 2. Se nós não tivéssemos tanta energia acumulada morríamos de fome e talvez. quando a região perdeu meio milhão de vidas. A cachaça na bagagem. ainda assim seríamos eternos migrantes. os nordestinos. porque a energia que recebemos faz com que a gente fique inquieto. companheiro fiel das horas incertas. correndo atrás de alguma coisa. o nordestino é um ser humano muito energizado. O “pau-de-arara” foi um dos primeiros meios de transporte em que o nordestino viajava para o Rio de Janeiro fugindo das secas. nessas viagens. durante as secas. talvez como forma de anestésico. Mesmo que nós. Se a gente não tivesse essa energia. Provavelmente. muita energia”61. A maior catástrofe socioclimática registrada no Nordeste Brasileiro foi a seca de 1877. á esperança de uma vida melhor. histórias inteiras iam ganhando o formato de saga. produzindo. seres humanos. no estreitamento do oceano. Padre Cícero. somos compostos de 90% de água no nosso corpo. o dia com a enxada arrastando pros pés. as histórias que se eternizam pelas gerações. de noites mal dormidas sob a proteção única de uma lona que servia de coberta.29 2. através do debulhar das rezas e das promessas. número equivalente á cota de soltados norte-americanos enviado á guerra do Vietnã nos anos 60. e faz com que emane energia para todos os nordestinos. durante a viagem. Consta-se que. é mais forte a corrente marinha. somos sinônimos de que a gente te muita força. Presidente da COOPCAMPO – Cooperativa dos feirantes. Mesmo com aquele sol infernal. cada passageiro debatia-se com um calor insuportável.

Havia sempre parentes e amigos esperando nas imediações do desembarque. lembranças e encomendas eram entregues no momento da chegada. se hospedavam em abrigos. parentes e amigos. na década de 40. Os caminhões Pão-de-Arara encontravam no Campo de São Cristovão o ponto final. e a grande expansão do mercado de trabalho na construção civil. As noticias da família. A o desembarcar no campo. e não arranjava trabalho logo na chegada. À medida que chegavam iam tendo pouco acesso á cidade. p. . um rico negociante construiu uma rica residência e deu-lhe o nome de Quinta da Boa Vista. 1995. pensões ou casas de cômodos. Um desses lotes. Ao chegar ao Brasil. amigos do lugar iam sendo pautas diárias das conversas enquanto outro Pau-deArara não chegava com outras novidades. o Rio de Janeiro tornou-se para os nordestinos a esperança de novos invernos. Muitas vezes. a corte Portuguesa instalou-se nessa residência transformando São Cristovão em local aristocrático. a migração nordestina foi se multiplicando durante grande período do seu desenvolvimento.30 vezes no último século e ainda continua sendo tratado de forma emergencial. 62 Paiva. ali surgiram chácaras e sítios. Oportunamente. Reinava alegria do reencontro. E por esses invernos. Com a construção do Rio-Bahia. 62 Em meados do século XVIII São Cristovão era uma fazenda. os primeiros salários dos que aqui chegavam serviam para financiar a vinda de familiares. A chegada era de uma grande expectativa. Transformadas lotes. quem não tinha parentes e amigos. denominada Fazenda São Cristovão. Nessa época.1. Qualitymark Editora. E se há carioca que não conhece o cristo redentor e o pão de açúcar. Flávio. Quem sabe na foram eles os responsáveis pelo plantio de uma parte da beleza existente hoje no Rio de Janeiro. já que na maioria das vezes eles eram contratos para trabalhar no próprio desembarque. já existia no bairro um grande comercio atacadista. Eram os antigos casarões que passaram assim chamar “cabeça-de-porco”. Retirantes na Apartação. a esperança de noticias de familiares e amigos. imagine o nordestino que aqui chega decidido a batalhar pela sua sobrevivência.

31 As denominações “Paraíba” (para os nordestinos) e “cabeça-chata” (para os cearenses. A feira significa para me transposição do nordeste na cidade do Rio de Janeiro. os que estavam á espera de alguém nos sábados e domingos começaram a leva sanfonas. Com a cultura Nordestina conquistando cada vez mais espaço no cenário nacional e com o investimento no turismo. 61. Mas tarde. Ainda nessa época torna-se um espaço destinado as grandes festas cívicas e missas campais. O campo de São Cristovão passa a ser também uma área de lazer. Evaldo Bráulio dos Santos. De acordo com o cordelista Raimundo Santa Helena64. além de sugerir a separação de nordestinos e cariocas revelam certo preconceito e parecem negar as potencialidades que cada um dos estados nordestinos é detentor. viu uma grande aglomeração de pessoas em trajes com o uniforme no exercito brasileiro indo apurar sobre o que se 63 64 Entrevista. Em 02 de setembro de 1945. os farnéis para se fazer comida e ali ficavam dançando desafiando repentes na viola como nordeste.63 A primeira Feira realizada no campo de São Cristovão foi de gado. Matemático e Historiador. Uma delas é a que. após o termino da segunda guerra mundial quando passava ao redor do campo. quando os pau-de-arara não chegavam durante a semana. ainda no século XIX. Aqueles que não tem dinheiro para comprar uma passagem e ir visitar seus familiares no nordeste. provavelmente passou a existir também necessidade de se trazer os chamados produtos da terra. Entrevista: o cordelista Raimundo Santa Helena . vão matar as saudades na Feira de São Cristovão. a fundação da feira pode ser vista pelo aspecto cultural. a Feira de São Cristovão já foi muito chamada de Feira dos “Paraibas”. O nordeste e o Rio de Janeiro estabeleceram destas então afinidades comercias. E por já existir um acentuado fluxo de nordestino neste local. o nordeste começa a romper de vez com esses estigmas de diminuição social. violão. em particular). Pernambucano. Existem muitas histórias a respeito dos surgimentos da feira. até a chegada de um deles. o batalhão da guarda da Quinta da Boa Vista passou a utilizar o local em seus exercícios militares. viola. Carregando esses estigmas.

acabou subindo árvore e recitando um cordel em homenagem aos ex-pracinhas nordestinos que vieram da Itália. Então o campo se tornou um palco confraternização entre os ex-combatentes e familiares. esses pracinhas eram. Por volta de 1965. Idem. – A Feira de São Cristovão: Um Estudo de Identidade Regional. Fazer guerra? Nunca. permaneciam durante algum tempo no campo e seus arredores á esperam de uma vaga nos meios de transporte para regressares aos seus lugares. A exibição de troféus de guerra como capacetes e relógios alemães propiciou á época comércio de alta especulação devido aos objetos raros. Eles aproveitavam para fazer contatos com os conterrâneos ou com parentes que. Para o cordelista José João dos Santos. 67. 65 66 67 Idem. intitulado fim de guerra. Hoje terminou a guerra De irmão contra irmão Voltarei a minha terra Vou plantar no meu sertão (. p. ela passou a acontecer a partir das noites de sábados. Ele teria começado no segundo governo de Getulio Vargas. 1993. a feira só funcionou durante o dia dos domingos. o pioneiro do comercio de feira foi o Paraibano João Batista de Oliveira. Lúcia A. Dissertação de Mestrado.32 tratava. o Azulão.) Hoje terminou a guerra Plantar na minha terra Voltarei ao meu sertão Corpo e alma decepados Pensamentos fuzilados Com neurose de canhão Desconhecidos soldados. irmão!!!65 Ainda segundo Santa Helena66. o João Gordo.. Morales. por acaso.. se encontravam no Rio trabalhando nas obras. Rio de Janeiro.. nordestinos e nortistas. No período do aproximadamente duas décadas. Museu Nacional / PPGAS / UFRJ. 15 .. pag. em sua maioria. segundo um feirante que atua nela deste 1959. por isto. pag.39. por volta de 1952.39.

com a permanência da música e a dança nordestina. Além de Raimundo Santa Helena. os chamados produtos nordestinos: farinha. chapéu de couro e etc. por um paraibano. Secretaria Municipal de Cultura.33 João Gordo tinha muitos amigos motoristas e eles começaram a trazer. fava. Nos seus primórdios teve uma função social importante: servir de ponto de encontro e concentração. começa aos sábados á tarde e apresenta várias modificações. a Feita de São Cristovão é acima de tudo um elemento da criatividade nordestino. . Quando á utilização popular do campo persiste até hoje na parte que estou livre. foram criadas no final da década de 40. 68 Por esses dados e relatos. outros também são citados como fundadores: Espiridião Agra. João Gordo e José João dos Santos. Entretanto. ela haveria de existir em outro local do Rio. a feira nordestina mantém características próprias: além de colocar á venda objetos típicos. onde se realiza a Feira dos Nordestinos. E no Domingo. entre elas a de ter-se fundido com a feira livre que se realiza também aos domingos no campo. em especial gêneros alimentícios. que está ligada a migração para a cidade do Rio de Janeiro. rede. Turismo e Transportes. Nos seus primeiros anos. fumo de rolo. feijão. trocava informação e correspondência. lugar onde o recém-chegado revia amigos da terra natal. rapadura. onde houvesse o sentimento nordestino. se não existisse no Campo de São Cristovão. realizava-se só aos domingos e pretendia ser uma réplica das grandes feiras do nordeste. O João Gordo armava uma barraquinha e comercializava os produtos. com nome de Feira da Fazenda e do Fumo. Independente de cada versão. sob encomenda. em geral. pois o Rio de Janeiro sempre teve a vocação de irmanar culturas e 68 São Cristovão: Um Bairro de Contraste. manteiga de garrafa. pode-se perceber que a sua fundação obedece á cronologia indicada pelos freqüentadores mais antigos da feira e que cada um tem a sua própria versão. Certamente. a carga chegava durante a semana. Atualmente. João Gordo. Zé da Onça. procura criar um certo clima regional. João de Oliveira Dantas e o cordelista Apolônio Alves dos Santos. Zé Donato. Segundo algumas versões. 1991. R J. assim como arranjava trabalho e abrigo. os apontadores de obras iam receber os conterrâneos que haviam chegado para serem empregados nas obras.

A. por um período de dois anos. Para entender a diferença entre Memória e História a autora Cicer Bittencourt72 distingue memória e História. RJ. Cláudia S.A Feira de São Cristovão como Lugar de Memória e Identidade “O tempo da memória se furta à ordem das lembranças. 71 MONTALVÃO. funciona pela seleção e 69 JEUDY. 1990 (Coleção Ensaio e Teoria) P. a evocação se perde na repetição obsessiva das cenas e da linguagem perdida. A memória realiza omissões.32.170 . Presa na cilada da nostalgia. Coleções Museus e História. A preocupação com a preservação da memória histórica e consecutivamente a preservação do patrimônio cultural.Cortez. Ensino de História: Fundamentos e Métodos. hoje. Forense Universitária. “Ao querer conservar o idêntico. Circe Maria Fernandes. Mas antes de se falar da preservação da memória é preciso entender a relação memória/história que ao longo dos tempos as idéias acabaram se distanciando.143 70 Idem. 2. artigo solicitado pelos editores e entregue para publicação em 2003. Segundo Cláudia Montalvão71 essa relação chegaria ao fim a partir do século XVI e a supervalorização do homem e da escrita que fez nascer um novo conceito de História que abandonaria o conceito da Grécia Antiga que fazia uma relação direta entre memória e história. que determina que seja feita uma eleição para essa comissão composta de cinco feirantes. São Paulo. Memórias do Social. 72 BITTENCOURT.3. Pag. Henri-Pierre. complementada pela lei 2448/96 do artigo VI. “Visualizando o Passado: Museu e História”. 2004. p. a memória se consagra pela repetição do mesmo até a saciedade de sua restituição” 70 Ao se falar em memória.34 sentimentos. são muitos os trabalhos que tratam do assunto. As palavras do velho que se esforça em lutar contra o enfraquecimento de sua memória 69. A feira é administrada pela comissão de organização e administração que consta na lei 2052/53.

29. 5. n. temos os lugares. pode haver lugares de apoio da memória. p. Michael. mas as duas deveriam coexistir. 74 Idem.35 eliminação de lembranças. personagens. nos aspectos mais públicos da pessoa. 10. Memória e Identidade Social. In: Estudos Históricos. Além disso. 73 POLLAK. Rio de Janeiro. lugares particularmente ligados a uma lembrança. A principal distinção é que a história necessita de um método para ser feita. muito marcante. Além de está diretamente ligada a História. pública. 1992. que pode ser uma lembrança pessoal. sendo assim o lugar se torna formado da memória. 200-212. . onde o Nordeste permanece muito forte na memória das pessoas. os Parâmetros Curriculares Nacionais se apropriam da mesma idéia a qual é um dos objetivos a serem atingidos por esse trabalho. Segundo Michel Pollak73 a formação da identidade tem relação direta com a memória. pag. são lugares de comemoração. Além dos acontecimentos e das personagens. já a memória funciona de acordo com as recordações do indivíduo. vol. mas também pode não ter apoio no tempo cronológico74 A Feira de São Cristovão é um lugar de memória. já a História trabalha com a acumulação dessa memória. Os Lugares de memória. independente da data real em que a vivência se deu. confronta as memórias individuais e coletivas e usa um método para recompor os dados da memória. sendo assim a memória é constituída por pessoas. Na memória mais. a preservação do patrimônio cultural a memória é a base também a para o surgimento da identidade social.

OBJETIVOS Os objetivos que norteiam este trabalho são baseados nos parâmetros curriculares nacionais do ensino fundamental. 05 Parâmetros Curriculares Nacionais. p. MIGRAÇÃO E IDENTIDADE NA SALA DE AULA: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA DE ENSINO 3. 41 .5)75  Compreender a relação entre identidade e a Feira de São de Cristovão como possibilidade de metodologia para o ensino de História . Objetivos gerais  Entender a relação em Memória e Identidade e Ensino de História.PCN p. Atende ao PCN: “A preocupação com os estudos de identidade é que os alunos ampliem a capacidade de observar o seu entorno para a compreensão de relações sociais e econômicas existentes no seu próprio tempo e reconheçam a presença de outros tempos no seu dia-a-dia”.41.76  Identificar junto com os alunos as identidades apresentadas na Feira de São de Cristovão e o uso das mesmas como novas fontes. 75 76 Parâmetros Curriculares Nacionais. p.36 CAPÍTULO III MEMÓRIA. 1. Objetivos específicos Fazer o aluno perceber-se integrante e agente transformador da sociedade percebendo as mudanças e permanências na Feira de São de Cristovão. Os objetivos abaixo são referentes aos alunos do 9º ano das escolas do bairro de São Cristovão. fazer escolhas e agir criteriosamente – PCN p. Espera-se que o aluno possa ler e compreender sua realidade.

Procura mostrar a importância de investir na construção do ensino. saber manipular o uso da imagem visual em História deve ir além de uma simples ilustração das aulas ou para meras discussões. Contudo. . Usando a Feira de São de Cristovão como lugar de pesquisa. E por isso mesmo. compreender o real significado da iconografia em suas diferentes interpretações. buscou-se pensar o uso da imagem no ensino de História como mediação entre esse conhecimento e a melhor forma de aprendê-lo. antes de utilizar a fonte áudio-visual como uma simples ilustração ou um apêndice de suas aulas. apenas descrevendo aquilo que está visível e reforçando o discurso construído ideologicamente. 2 . saber interpretar corretamente signos visuais tornou-se uma premissa aos acadêmicos e profissionais do ensino. No transcorrer do desenvolvimento deste trabalho.37  Fazer uma etnografia com sua pesquisa identificar através dos relatos dos feirantes e da própria Feira as motivações da formação da mesma. debates ou discussões. Numa era de informações associadas às imagens. para que não caia no erro de utilizar este conhecimento de forma equivocada. pensa nela como parte integrante de um universo visual. o professor precisa compreender a imagem dentro de alguns parâmetros teóricos. Entendendo a escola como um espaço dinâmico de apreensão do conhecimento através de diversas formas. com a finalidade de entender e fazer uma leitura de imagem de modo mais sistemático e significativo. 3. ficou notório que. Fazendo assim uma construção de metodologias mais eficientes para o trabalho com fonte áudio-visual nas aulas de História. o estudo associado às imagens se tornou uma ferramenta muito importante que pode ser utilizada pelos professores de História para efetuar seu trabalho tanto em pesquisas como no dia-a-dia em sala de aula.Usando A Mídia Áudio-Visual Como Fonte Histórica Este trabalho tem como objetivo principal pensar a relação entre a teoria e a prática do uso a fonte áudio-visual no ensino de História.

entendam que também são atores sociais e tomem consciência de seus atos. historiador e romancista). olhar é um ato de escolha. prazeroso. enquanto sujeitos do conhecimento. esculturas. como um documento ou uma fonte histórica. o uso de fonte áudio-visual possibilita a interpretação da História. comunicam-se pela visão. charges. Editora: Rocco. os seres humanos. técnicas utilizadas e o momento histórico em que foram realizadas. E fundamental também reconhece a importância de se trabalhar com fonte áudio-visual nas séries iniciais do ensino fundamental. antes de aprender a falar. 1985 tradução: Lúcia Olinto . saber sobre os artistas. sendo uma importante fonte de pesquisa. Com isso. autores. que lhe dê condições de se posicionar criticamente frente a questões e problemas que a sociedade traz. que tenha significado. e através do uso da TV. Assim. Modos De Ver. No processo pedagógico com o uso do áudio. documentários. gravuras. em determinados períodos ou épocas. John. pinturas. musica.38 Segundo JOHN BERGER77 (crítico de arte. trabalhar os processos iconográficos da História em sala de aula é um caminho fascinante que pode se multiplicar em infinitas formas e possibilidades. como uma forma privilegiada para complementar o ensino de História. reflexo do período em que foi produzido. pode-se entender que toda imagem incorpora uma forma de ver. A utilização de linguagens diferenciadas pode levar o aluno a um processo de aprendizagem mais interativo. o olhar chega antes da palavra. são poucas as iniciativas em que o uso do objeto iconográfico é estudado como uma unidade em si. elas devem ser discutidas com os conteúdos. com uma riqueza de informações e detalhes. 77 Berger. não ignoradas como acontecem muitas vezes. vídeos ou histórias em quadrinhos. em que o próprio processo de cognição e codificação da História seja o viés pelo qual os alunos. ou seja. Enfim. Em métodos que integram as questões pedagógicas e historiográficas. sejam filmes. Como exemplo a minha apresentação no power point. Discutiu-se sobre a importância dos alunos conhecer as características das obras. As imagens que estão inseridas nos livros didáticos não são meras ilustrações dos textos. imagem e de vídeos deve-se avaliar a importância da influência ideológica que as aplicam. A percepção de qualquer imagem é afetada pelo que sabemos ou pelo que acreditamos.

infra-estrutura urbana ou rural. A Técnica cada pintura deve ser criada fisicamente e a compreensão das técnicas utilizadas.39 Pendrive. é preciso compreender a sociedade. O Simbolismo de muitas obras usa extensamente uma linguagem de simbolismo e alegoria. que se pode perceber nas obras de seus artistas principais. 1995. não representam apenas eles mesmos. o contexto histórico e o artista que os criaram. A primeira experiência foi deixá-los indagar e buscarem respostas por conta própria de como esse processo deveria se realizar. Para entendê-los. cada um com sua mensagem significativa. Porem a Interpretação Pessoal de qualquer pessoa que embarque na viagem 78 CUMMING. Com freqüência. Robert. Muitos tiveram preocupação com a imagem em si. desde a época de sua confecção até possíveis significados e importância para resgatar a memória do povo nordestino. procurando identificar suas condições de produção. o que pode auxiliar nesse processo de “olhar” uma obra e tirar dela o máximo de informações e interpretações possíveis. No decorrer da aula. como o emprego da tinta a óleo ou o uso do afresco. o tema é fácil de reconhecer. Na medida em que os alunos tiveram contato com a obra e procuraram compreendê-la em seu contexto. que retratando a história da migração Nordestina. pessoas. Para entender a arte. várias sugestões foram apresentadas aos alunos para que pudessem analisar uma pintura com maior rigor. moda. São Paulo: Ática. pois elas sempre trazem informações sobre determinados aspectos do passado: objetos. Já o Estilo Histórico de cada período histórico desenvolve um estilo próprio. mesmo pintados em detalhe. além de determinada visão de mundo e de ideologia. condições de vida.78 todas as pinturas têm um tema específico. aumenta muito nossa apreciação da obra de arte. A maioria dos alunos não o conhecia. lugares. foi apresentado um roteiro que pode ser utilizado para se analisar uma pintura. não atentando para o contexto histórico de sua realização ou os objetivos que poderiam estar implícitos naquela obra. Como a leitura de imagem de uma obra de arte poderia ajudá-los a ensinar em sala de aula? O uso de pinturas é uma forma bastante rica para compreender outras épocas. condições de trabalho. Baseado em CUMMING. mas fizeram muitos progressos quando a analisaram. da tela Os retirantes de Portinari que e um documento que exprime o ponto de vista ou gosto. mas conceitos de significado mais profundo ou mais abstrato. . mais fácil se tornou lê-las ou abstrair informações que puderam ajudá-los a entender melhor aquele momento histórico. Os objetos reconhecíveis. Depois dessa primeira etapa de análise espontânea.

Assim como qualquer objeto elaborado historicamente pelo homem. para que possamos questionar e entender as idéias veiculadas pelo seu autor. em sociedade. o documento iconográfico e como os vídeos não pode ser . se estará dando um sentido mais concreto ao estudo do passado. acredite nela – não importa o que digam. associando o que está sendo estudado com questões atuais associadas ao nosso cotidiano e contexto para. Cada pessoa tem o direito de levar para uma obra de arte o que quiser levar através de sua visão e de sua experiência. Eles começaram a observar elementos que até então passavam desapercebidas. não acredite. Desta forma o professor daria melhores possibilidades de entendimento acerca da imagem analisada. no nível pessoal. trabalhar com os alunos a idéia de que nenhum documento é neutro. foi produzido por alguém. Outro ponto importante quando se analisa uma imagem é colocar objetivos nesse trabalho. Portanto. Com isso.40 de exploração dos significados das pinturas logo ficará confuso com a quantidade dos pontos de vista apresentados. com determinado objetivo e que isso pode estar claro. Foi importante. é importante que os alunos produzam um texto. precisamos refletir: um ícone possui idéias. sempre associando-o ao presente e aos reflexos que o mesmo tem na sociedade contemporânea. foi demonstrando como pode ser significativa para o processo de aprendizagem. estabelecer relações e conexões com outras temporalidades. Quando os alunos voltaram às imagens. relacionando a imagem com o período retratado e com o tempo presente. quando vemos uma imagem. em grupos. Assim. No encerramento da aula com apresentação no power point. e guardar o que decidir guardar. quando somos colocados frente a um material iconográfico. fazendo com que o aluno compreendesse o processo de construção da mesma. político e ideológico da época em questão. mesmo por que era uma primeira experiência mais detalhada sobre a análise de imagens. de uma atividade com o uso das fontes em áudio-visual. Uma orientação simples é: se você vê alguma coisa sozinha. Quando se analisa uma fonte áudio-visual. os alunos foram avaliados através da produção. o trabalho teve outro andamento. Naturalmente que nem todos os quesitos acima foram contemplados. ou não. Ao final da análise e da discussão. também. Se você não consegue ver. é preciso que se busquem pistas no contexto social. foi mostrado a eles que. então. é importante tentar inverter a lógica tradicional da linearidade histórica: partir sempre do presente.

Testemunha ocular: história e imagem. No trabalho realizado com o ensino fundamental. temporal e espacial em que foi produzida. ou seja. muito menos o retrato fiel da realidade. é de fundamental importância. realizar uma leitura crítica. utilizando-se as aulas de Informática e o computador como ferramenta. é preciso interrogá-lo. perceber quais são as intenções contidas no mesmo: como e quando foi produzido. mas sim extensões dos contextos sociais em que elas foram produzidas e. na leitura das fontes em diferentes níveis de escolarização. a definição dos objetivos a serem desenvolvidos é essencial. Florianópolis: Edusc. Peter. Portanto. haja vista que um mesmo fato pode ser interpretado de várias maneiras a partir de pontos de vista diferenciados. Por isso.41 concebido como a História em si ou uma expressão absoluta da verdade ou de uma época ou sociedade. as imagens não devem ser consideradas simples reflexos de suas épocas e lugares. principalmente de seus conteúdos subjetivos. em determinado tempo e espaço. A noção de verdade única é questionada pelos historiadores. ele foi feito e/ou concebido por alguém. pois será necessário pensar na faixa etária e no nível de compreensão. o contexto social. Assim podem-se perceber seus significados. das informações e da maturidade dos alunos. em determinado contexto. os critérios que devem ser utilizados para selecionar as fontes áudio-visual e como realizar a sua leitura junto aos alunos. com determinada ideologia. 2004 . O trabalho com fonte áudio-visual deve possibilitar discussões sobre as condições de produção daquela imagem. pois deles depende a organização primária das imagens a serem trabalhadas em sala de aula como suporte didático. Um dos principais objetivos da disciplina de História é 79 BURKE. como tal. Tal qual o documento escrito. Portanto. No que diz respeito aos alunos do ensino fundamental. Segundo PETER BURKE79. devem ser submetidas a uma minuciosa análise. tanto para a época e sociedade em que foi produzida como para outras sociedades. as atividades foram todas práticas. é preciso que se obtenha o máximo possível de informações sobre qualquer objeto iconográfico produzido. sua finalidade. na Escola Municipal Darcy Vargas. cabe ao professor orientar e promover uma compreensão ampliada e aprofundada. em outros períodos e contextos históricos. seus significados e valores para a sociedade que o produziu.

a tela Os retirantes de Portinari. pag. 49). buscando compreender seu significado. leitura e formas de registros. 1998. desenvolvidas atividades com linguagem escrita. utilizando-os para melhor entender ou explicar sua realidade. documentos orais”82. O clipe da Musica Triste Partida de Luiz Gonzaga. A iniciativa e a vontade dos alunos foram marcantes na realização da atividade com as fontes. foi discutida a idéia de migração e foi feita uma dinâmica de identificar entre os amigos e parentes que já saíram de um lugar para o outro e porque. essas mesmas fontes podem ser utilizadas para 80 81 Parâmetros Curriculares Nacionais em Ação . da história oral. Para encerrar a atividade. posicionando-se diante dessa realidade. Mostrando a migração dos Nordestinos ao Rio de Janeiro. relacionando o presente com o passado. E com isso foram priorizados os trabalhos com fontes áudiovisual e. volume 05. foi uma tarefa possível e muito eficaz. por uma história baseada numa multiplicidade de documentos: escritos de todos os tipos. Os alunos produziriam um texto sobre o assunto. Os alunos analisaram. com uma mensagem muito direta. produtos de escavações arqueológicas. situando-se diante dela e questionando-a. 1993 82 Idem. até o uso de imagens. “é necessário desenvolver trabalhos específicos de levantamento e organização de informações. como nos indica LE GOFF81 quando afirma que a História. documentos figurados.5ª a 8ª séries. pintura. percebeu-se que o uso da análise iconográfica com os recursos utilizados . PCN. para ser escrita. até notícias na imprensa. pag. no computador. que se inúmeras fontes são usadas pelo historiador para escrever a História. A História Nova nasceu em grande parte de uma revolta contra a historiografia positivista do século XIX. de artefatos pré-históricos até as mídias mais avançadas da atualidade.42 levar os alunos a conseguirem verbalizar e escrever sobre os conteúdos estudados. São Paulo. o vídeo e a imagem são de simples compreensão. para as séries iniciais. a partir delas. se vale de uma série de fontes que incluem desde documentos oficiais. depois de compreendida e analisada em detalhes. Sendo assim. pois. 83 Idem. História e Memória. A musica. LE GOFF83 nos mostra.vídeos. musica e fotografia – como forma de levar o aluno a aprimorar e desenvolver seu conhecimento. . 45. quando necessário. p.80” Após o desenvolvimento desse trabalho. Jacques. LE GOFF. 45. pois logo perceberam que analisá-la e descobrir seus valores e significados não é tão complicado assim. Editora da Unicamp.

Nota-se. a partir dos anos 50 e 60. desenhadas. F. precisa ser melhor entendido e aproveitado e não ser visto apenas como figuras ou desenhos com função meramente ilustrativa. um importante instrumento no processo de ensino e aprendizagem. então. Segundo PAIVA:86 A iconografia é tomada agora como registro histórico realizado por meio de ícones. a necessidade de se buscar uma metodologia de ensino e aprendizagem voltada para a formação do sujeito crítico onde os alunos transformem-se de meros sujeitos passivos do conhecimento a sujeitos ativos. apesar da ampla produção. SP. por intermédio delas. servindo como forma de assimilação histórica por meio da análise das mesmas. Circe M. 86 Idem.). o cinema e a televisão na configuração de uma cultura de massa. sabe-se que há poucos registros de referências sobre a utilização das fontes áudio-visual. BITTENCOURT. O uso das fontes áudio-visual. Paiva refere-se à capacidade profissional que o historiador tem demonstrado em relação à iconografia. os quais tinham como principal preocupação o rádio. Cortez Editora. Adalberto. de psicólogos. instigados pela necessidade de produzir novas pontes de comunicação com os alunos. 2005. de imagens pintadas. Historicamente. Segundo BITTENCOURT:85 Para o ensino de História não existem muitas referências sobre o uso das fontes áudio-visual.43 deter informações e. São registros com os quais os historiadores e os professores de História devem estabelecer um diálogo contínuo.. que deixa de ser vista apenas como ilustração para distrair o 84 85 PARANHOS. Trazer novas abordagens e recursos para a sala de aula é uma alternativa para motivar os alunos a se interessarem pelo ensino de forma geral. 48.. historiadores vêm-se dedicando ao estudo da iconografia. Mais do que isso. tentam incorporar ao arsenal de recursos utilizados em classe outras linguagens para além das habituais. sociólogos e especialistas em semiologia ou teorias de comunicação. como que tateando outros caminhos. compreender um determinado contexto histórico. Saber e prazer: a música como recurso didático-pedagógico. mas sim como fonte privilegiada para a disciplina. . tornando-se. passam a refletir criticamente sobre suas práticas educativas. É preciso saber indagá-los e deles escutar as respostas. Ensino de História: fundamentos e métodos. incluindo análise das denominadas “imagens tecnológicas”. Segundo PARANHOS84: Parcelas expressivas de profissionais. desta maneira. impressas ou imaginadas (. Na trilha desses pesquisadores.

E compartilha a crença de que o filme possui o valor de testemunho indireto ou involuntário de um acontecimento. 2005. pode. De MARINHO. In: LE GOFF. assim. Marc. Marcos.. possibilitando novas formas de se compreender a História. pois até que ponto as produções cinematográficas são fieis aos fatos. Nora. mesmo sendo intencional ou não pelos seus idealizadores. É importante que o trabalho com este tipo de fontes seja incorporado ao cotidiano da sala de aula. Acreditase que essas idéias e práticas ainda possam chegar às salas de aula do ensino fundamental e médio com mais assiduidade e valorização. São Paulo: Contexto. nos faz repensar a postura do cinema em relação à história. A leitura das fontes áudio-visual.O filme: uma contra-analise da sociedade. In: PINSKI. seja o filme por ventura ficcional traz os anseios sociais de uma sociedade e seu tempo. As discussões que fomentam o uso da mídia áudio visual em relação ao ensino e a compreensão de fatos históricos. Jaques. Para isso é necessário que os professores que irão trabalhar com essas fontes saibam compreendê-las e relacioná-las ao conteúdo desenvolvido. traz em seu bojo resquícios da época em que foi produzido. Pierre (orgs. já o segundo “sua utilidade como fonte te valor reduzido na sua utilidade é maior quando está editado e completo”. CARLA (org) Fontes Históricas. Napolitano faz referências a Mac Ferro 88 como primeiro historiador a refletir o filme como objeto de pesquisa. Terezinha. ou vice versa. Ao mesmo tempo tem gerado certa ambivalência. 88 FERRO. segundo Napolitano “a seqüência ou produção completa é um registro primário do passado” e transforma-se em documento. Com intuito de representar claramente essas proporções que envolvem a desigualdade social a 87 NAPOLITANO. 1976. . O filme objeto de análise e discussão neste artigo o clipe da musica A triste partida de Luis Gonzaga retrata questões que aconteciam nos século XIX e que guardada as devidas proporções ainda se perpetuam com outra roupagem. que por sua vez gera o saber em comunhão. Fontes audiovisuais a História depois do papel. sejam eles históricos ou cotidianos da atualidade? O misto de fantasia que o cinema traz em seu bojo estético. Mesmo o filme baseado em fatos históricos.44 aluno e passa a ganhar novo significado e a ser utilizada como fonte histórica de pesquisa. numa perspectiva alem da historia escrita.) História: novos objetos. O pesquisador NAPOLITANO87 usa da mídia áudio visual juntamente com as outras artes é o caminho para a sensibilidade. oferecer caminhos para a pluralidade de idéias e ideologias coexistirem em um mesmo ambiente administrado pelo professor. Trad. A dicotomia entre a o filme documentário e ficcional. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

esses significados estão relacionados também aos conhecimentos que norteiam nossa forma de olhar.). Maria Cristina de Souza. O clipe se torna o testemunho social onde reina o passado documentado e situações ficcionais do presente que são baseadas na realidade social do povo Nordestino. como todo produto do trabalho humano. Nesse sentido. é constituída de significados que estão relacionados a homens. Inquietações e mudanças no ensino de Arte. é importante oferecer aos alunos os fundamentos necessários para produzir e interpretar imagens. 2002. sendo que a educação através da imagem. Caminhos metodológicos. 3. de forma que esta produção e interpretação tornem-se abrangentes e possibilitem compreender o objeto artístico conforme as questões postas em cada momento histórico.45 escolha do Clipe. No caso da Tela Os Retirantes de Portinari. Dá-nos a dimensão de uma leitura social real. . SP: Cortez. em especial.Analise das Fontes. Analisadas sob essa perspectiva. p:66. Em relação ao Ensino de História. 3 . Ana Mãe (org. In BARBOSA. retrata estas questões sociais que ainda estão incutidas em nossa sociedade. a leitura de imagens tem chamado a atenção tanto dos professores como dos alunos de áreas de conhecimento que têm a imagem como objeto de interesse. culturas. lugares e tempos distintos. àquelas de nosso próprio tempo e lugar. na qual a imagem é um dos elementos que constitui o objeto artístico. as imagens tiram-nos de uma territorialidade imediata e aparente e fazem-nos compreender o homem como ser cultural. Temos conhecimento de que a produção artística. palpável de nosso cotidiano ao mesmo tempo em que nos remete as heranças sociais de discriminação e exploração historicamente constituída. Apresenta fatos reais sobre o que aconteceram. 89 (RIZZI. A concepção de Livre Expressão vincula-se histórica e ideologicamente ao modernismo. embora possa distinguir-se da educação para a imagem. implica na formação dos professores que desejam utilizar a imagem como auxiliar do processo de comunicação pedagógica e também na formação do próprio aluno para conviver no que podemos chamar de uma “sociedade da imagem”89. para trabalharmos com imagens.

contribuindo diretamente no processo de aprendizado.46 pois enfatiza a visão pessoal como interpretação da realidade. do original como o ideal a ser alcançado conhecimento do aluno no domínio da leitura. geralmente utilizada na leitura de imagens em sala de aula. Percebemos também através de nossas investigações que. históricos e econômicos. sociais. outros de caráter sociocultural de forma que as percepções constituídas em todos os momentos da vida vão constituir o “banco de dados visual” do individuo. Em outras palavras. por serem elas que conferem ênfase a determinados elementos em detrimento de outros. são perguntas que muitas vezes não exploram o que realmente a imagem pode oferecer. a complexidade de condicionantes culturais. a emoção como o principal conteúdo da expressão e a busca do novo. Podemos dizer que não há leitura de imagens que não seja influenciada pela experiência de vida do leitor. Ao mesmo tempo. poderão determinar o nível de interesse dos alunos. contextualização e produção de imagens. muitas vezes reduz a leitura estética à percepção dos elementos de composição. A abordagem formal. entendemos que . Elementos como a cor. Nessa perspectiva. Ao selecionar a Tela Os Retirantes de Portinari é preciso considerar algumas variáveis que poderemos chamar de enfáticas. freqüentemente. Mas apesar dos elementos formais que compõem uma obra ao serem abordados de maneira sistemática e suscitarem vias de acesso a novas indagações. O certo é que a percepção visual depende de vários fatores. pode ampliar a leitura do mundo. Isso significa escolher imagens que apresentem os aspectos que queremos enfatizar e principalmente que contenham informações relevantes no processo de aprendizado. elementos históricos e sociais que não podem ser suscitadas em determinadas imagens. tem se mostrado ineficiente para proporcionar uma contribuição mais aprofundada dentro dos conceitos da arte contemporânea. a leitura estética. a leitura de imagens tem se reduzido a um roteiro pré-estabelecido de perguntas. o tamanho. que não colaboram de uma forma objetiva na construção de um conhecimento mais elaborado a partir desta leitura. ou então. que pode ser proporcionada pelo professor. uns de caráter individual. deixando a desejar quando nos referimos às questões do Ensino da História. uma vez que se interessa apenas pela organização e pelo estilo da obra.

a biografia do artista e também algumas questões sobre o contexto Histórico no período da produção da obra. é compreender o que a imagem nos diz. outras percepções. escolhemos a obra Retirantes. Nesse sentido.47 ler uma imagem é fazer perguntas. explorar diversas possibilidades de interpretação. a leitura dessa imagem foi fundamentada em referências e estudos sobre a obra. Seguindo as orientações do Método Iconológico. mas também os aspectos histórico-culturais que permeiam a subjetividade de cada sujeito e determinam sua maneira de interpretar uma imagem em seu tempo e lugar. . consideramos não apenas os aspectos metodológicos envolvidos na ação de ler imagens. Na leitura de imagem da obra Retirantes (1944). pintura em óleo sobre tela realizada por Cândido Torquato Portinari em 1944 e que atualmente pertence ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. somando-os à nossa leitura inicial. outros olhares. procurando esclarecer como diferentes formas de olhar e de interpretar uma mesma imagem revelam a multiplicidade de significados suscitados por ela. mesmo aquelas que não estejam explicitas. buscamos também realizar uma análise das respostas obtidas. Para esse exercício de leitura. podendo ser tomados como possibilidades de trabalho em sala de aula. outras possibilidades. Dessa forma.

Desde pequeno.Retirantes FIGURA 01 . 1.48 3. Eram famílias inteiras em estado de grande pobreza. Sensível. fazer um documento visual da nossa realidade. Embora não se restrinja à questão critica da realidade brasileira. Através de sua obra. denunciou através do pincel a degradação de uma parcela significativa de homens e mulheres. brasileiros trabalhadores e sofredores.Retirantes (1944) Cândido Portinari .Óleo s/ Tela. isso já seria o bastante para estar situado entre os artistas de . assistia da janela de sua casa ao vaivém das sofridas famílias que fugiam da seca do Nordeste à procura de trabalho. . imagens que marcaram a vida do menino e do pintor. o artista consegue com uma abrangente visão crítica. 190 x 180 cm Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.Realizando análises da pintura. A acentuada força dramática da Série Retirantes nasceu das visões de Portinari ainda menino. 3.

os avós ou os bisavós. Dissertação (Mestrado em Artes Plásticas) Escola de Comunicações e Artes. A busca dum rigor geométrico aliado a uma paleta clara e sonora não mascara. trabalhadores com e sem emprego perambulam no país em busca de melhores condições de vida.78. De qualquer modo. alicerçada no trabalho e em suas raízes rurais. Universidade de São Paulo . p. crianças. 53. 230 f. A história das migrações para o Brasil é. Para FABRIS91: Ao mesmo tempo em que se deixa seduzir pela cor. voltada para a captação da realidade natural e psicológica. Segundo FABRIS90.103 91 Idem. pintor social. tornando-se soluções de problemas formais. em que procura magnífica sua busca duma imagística nacional. A nova problemática encaminha-o para o muralismo.ECA/USP. é o espelho de um país de grande mobilidade humana. muitas vezes fugindo de situações insustentáveis. que nos últimos anos da vida. uma terra prometida. famílias. Às vezes. para uma expressividade. p. realizado pelo 90 FABRIS. se remontamos às origens históricas. em Os Retirantes (1944) de Portinari permanecerão como um dos trabalhos mais significativos e pungentes da arte brasileira de todos os tempos. ora desesperada e excessiva. o esvaziamento que a pintura de Portinari vem sofrendo nos últimos anos de sua atividade artística. que pode ser averiguada pela experiência do dia-a-dia. entretanto. já não eram apenas quadros sociais. somos todos migrantes ou descendentes de migrantes.95.101. É bastante comum encontrarmos nas nossas comunidades eclesiais.. outros estados e até mesmo de diferentes países. 1977. pag. no trabalho. influenciado pelo cubismo cristalino do francês Jacques Villon. homens. p. Essa realidade. o humano. Portinari. 1977. entre os colegas de aula ou na parada de ônibus pessoas provenientes de outras cidades.49 destaque de nosso país. a história do próprio país. São Paulo. torna-se a tônica da arte de Portinari. Os Retirantes (1944) de Portinari assumiram uma feição acentuadamente social na carreira do mestre brasileiro. Não apenas em virtude da Grande Guerra iniciada em 1939. De acordo com os dados do Censo 2000. Portinari começa a fazer experiências com a abstração geométrica. Mulheres. compreendido em termos sociais e históricos. quem migrou foram os pais. outras vezes perseguindo um sonho. Annateresa. pintor que admirava há algum tempo. No fundo. ora serena e grave. . de certo modo. idosos. p. como em face do apelo aos recursos de expressão que caracterizariam em seguida a parte mais notável de sua obra.

as funções sociais e econômicas dos deslocamentos. culturas e religiões.50 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítiscas – IBGE – a mobilidade humana no Brasil aponta para o crescimento das migrações de curta distância (intra-regionais) dos fluxos urbano-urbano e intrametropolitanos.br/publicações. se dá a partir de necessidades individuais. Causas e Efeitos.org. aumenta o número de pessoas que migram de uma cidade para outra ou no interior das áreas metropolitanas em busca de trabalho e de melhores condições de vida. as novas oportunidade abertas e o enriquecimento cultural decorrente do encontro entre diferentes povos. mas ´fazer migrar´ é uma violação dos direitos humanos. Disponível em PRUNES. . mas tem uma raiz claramente compulsória. As causas e as motivações que levam aos deslocamentos são variadas. dependendo dos diferentes contextos sócio-culturais e da singularidade de cada pessoa. Acesso em: 11 Setembro 2010. etnias. tendo conseqüências bastante diversificadas. a exclusão social. Não podemos esquecer o direito humano de ir e vir. Segunda Guerra. Segundo MARINUCCI:92 Atualmente a migração não é conseqüência de uma escolha livre. freqüentemente. a relativa melhoria das condições de vida da fuga de situações de opressão ou de catástrofes ecológicas. Entretanto. Candido Mendes. Diante de todas as possibilidades que giram em torno do processo migratório. culturas e religiões. Disponível em: http:// www. Abrange numerosos atores sociais pertencentes a uma pluralidade de classes. a desestruturação da identidade religiosa. buscando melhores condições de vida e fugindo de situações de violência estrutural e doméstica. contudo. que as migrações em si representam um fenômeno basicamente positivo. pois ´migrar´ é um direito humano. A maioria dos migrantes é impelida a abandonar a própria terra ou o próprio bairro. deve-se lembrar também que. Roberto. por trás das migrações escondem-se aspectos negativos ou de conflitos. podemos observar que atualmente este processo não é mais voluntário. a rejeição e a dificuldade de inserção no lugar de chegada. o desenraizamento cultural. Cabe frisar. A mobilidade humana é um fenômeno amplo e complexo. Este é um grande desafio.institutonovoliberal. Em outras palavras. sendo que em muitos casos. O fenômeno Migratório no Brasil. como a expulsão do lugar de residência. 92 MARINUCCI.

Candido Portinari nasceu no dia 29 de dezembro de 1903. Cândido Portinari. Aos quinze anos de idade foi para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura. matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes. . em Belo Horizonte (1944/45). Disponível em: http://www. Longe de sua pátria.São Paulo. que para Araújo93. numa fazenda de café em Brodoswky. Acesso em: 11 Setembro 2010. Neste mesmo ano o Museu de Arte Moderna de Nova York adquire sua tela O Morro. no Rio de Janeiro. e a Igreja da Pampulha.A). Portinari decide. saudoso de sua gente. de origem humilde.org. ao voltar para o Brasil em 1931.O Artista .portinari. com uma tela de grandes proporções intitulada Café. em alguns dos primeiros projetos da arquitetura moderna no Brasil. com grande sucesso de crítica. No final da década de trinta consolida-se a projeção de Portinari nos Estados Unidos. Estados Unidos. o antigo Ministério da Educação.br/ppsite/cdbrasil/itamarati. Olívio Tavares. “Café é uma de suas primeiras grandes telas de conteúdo social. retratar nas suas telas o povo brasileiro. A inclinação muralista de Portinari revela-se com vigor nos painéis executados no Monumento Rodoviário na estrada Rio de Janeiro .U. venda e público. Em 1940. de tradição acadêmica. . Em 1939 executa três grandes painéis para o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York (E.51 3.4 Portinari colaborou também com obras de artes aplicadas. 2. de Oscar Niemeyer. como pinturas murais e painéis em azulejos. 93 4. Em 1928 conquista o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro da Exposição Geral de Belas-Artes. e nos afrescos do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde.ARAUJO. recebeu apenas a instrução primária e desde criança manifestou sua vocação artística. no Estado de São Paulo. participa de uma mostra de arte latinoamericana no Riverside Museum de Nova York e expõe individualmente no Instituto de Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de Nova York. 3. Em 1935 obtém seu primeiro reconhecimento no exterior. Filho de imigrantes italianos. Entre eles. a segunda menção honrosa na exposição internacional do Carnegie Institute de Pittsburgh.rd4. Segundo Araujo.Cândido Portinari (1903 – 1962).

conferindo ao cenário retratado na obra uma sensação de calor que não percebemos tão intensa na obra de 1944 (Figura 01). com temas referentes à história latino-americana. revoluções. encontrou um Brasil com inflação descontrolada. que fazem com que percebamos uma serenidade maior nas figuras que a compõem.O Contexto Histórico Do Período da Pintura de Portinari. A produção da obra Retirantes (1944). inicia as obras de decoração do conjunto arquitetônico da Pampulha. Quando Waschington Luis assumiu o poder em 1926. que tomou o poder. . Cândido Portinari morreu no dia 06 de fevereiro de 1962. destacando-se o mural São Francisco e a Via Sacra. provocando a Revolução de 1930. Mesmo seguindo a mesma temática. liderada por Getúlio Vargas. a convite do arquiteto Oscar Niemeyer. Estado de Minas Gerais. 3. Congresso. na Igreja da Pampulha. foi realizada em um contexto no qual o Brasil vivia a era Vargas. A sucessão de Waschington Luis criou um impasse político entre os estados de Minas Gerais e São Paulo. Em 1944. rebeliões e golpes de Estado. quando preparava uma grande exposição de cerca de 200 obras a convite da Prefeitura de Milão na Itália. queda acentuada das exportações e muitos movimentos operários. 3.52 Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington. Assembléias Legislativas Estaduais e Câmaras Municipais foram fechados. realiza oito painéis conhecidos como Série Bíblica. o artista retrata seus Retirantes com composições cromáticas variadas sendo que a luminosidade presente na obra de 1958 (Figura 03) se destaca das demais pela intensidade de tons azuis. vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava. Temos nas outras obras um maior equilíbrio de tons escuros. 3. . De volta ao Brasil. em Belo Horizonte. fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 2ª Guerra Mundial. caracterizada por movimentos operários. laranja e amarelos.

53 A queda da bolsa de Nova York provocou no Brasil o declínio da economia cafeeira. quer porque participaram em conflitos laterais. verifica-se uma grande quantidade de mudanças geográficas pelos que arriscavam tentar nova colocação social. pode ser relatado como um massacre: Este foi o conflito que causou mais vítimas em toda a história da humanidade. Em 1932. vejamos agora algumas questões que envolvem o método de análise de imagem escolhido para realizar o exercício de leitura de imagem. Em 1937 dissolveu novamente o Congresso e proclamou a Nova Constituição Federal. temos no mesmo período a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) em que. a França e mais tarde a União Soviética.Bretanha. a China. As potências do Eixo eram a Alemanha. para Prunes (2002). quer porque foram invadidos. o artista. os Estados Unidos. Mas a situação econômica era grave. As principais potências aliadas eram a Grã. Neste mesmo ano. que não agüentando as pressões para que renunciasse. Colocadas algumas informações sobre a obra. e o contexto histórico do período de sua produção. e em 1935. o que só ocorreu em 1934. que durou até o golpe militar de 1945. o que levou à reeleição de Getúlio Vargas em 1950. a Itália e o Japão. Em algumas nações como a França e a Iugoslávia. A respeito do contexto histórico mundial. Getulio Vargas foi reeleito. quando entre outras coisas. Morreram cerca de 103 milhões de pessoas. foram criados as férias remuneradas e o salário mínimo. Durante o governo do General Eurico Gaspar Dutra. ou seja. . o país conheceu a sua Quinta Constituição. cometeu suicídio em 1954. quer porque se juntaram a um dos lados. marcado pelo autoritarismo. a Segunda Guerra Mundial provocou confrontos internos entre partidários de um e de outro grupo. o Método Iconológico. viu-se diante da Rebelião Comunista. Muitos outros países participaram na guerra. entre militares e civis. Neste momento e após este. Foi o inicio do Estado Novo. o povo cobrou a realização da Assembléia Nacional Constituinte prometida por Vargas.

mas de compreender os significados implícitos. Para um melhor entendimento a respeito das questões suscitadas. iconologia é. 4. dando o suporte necessário para o desenvolvimento da análise da imagem selecionada. propiciando uma aproximação do objetivo. A Iconografia tem seu sufixo vindo do verbo grego graphein. 1982 95 96 Idem. Não se trata de falar somente do que se vê. autenticidade. origens e. quer dizer “pensamento” e denota algo interpretativo.O Método de Análise. Assim sendo. Ao fazer este trabalho. a iconografia torna-se um instrumento fundamental para o estabelecimento de datas. . 58. Estudos de Iconologia: temas humanísticos na arte do Renascimento. implica um método de proceder puramente descritivo. e a produção de um conhecimento mais abrangente sobre as questões que envolvem o tema. Daí a importância das perguntas que orientam o caminho que se pretende percorrer para alcançar o objetivo. pag. podemos nos utilizar de autores como PANOFSKY94. portanto. Lisboa. às vezes. . Com relação às questões da leitura de imagem teremos que compreender melhor os conceitos de iconografia e iconologia.54 3. é necessário compreender primeiro o que significa a interpretação mais complexa de determinadas imagens. que exigem um longo caminho de construção do pensamento. abordamos diversos níveis e âmbitos de interpretação da obra. Assim. para auxiliar. Erwin. Então temos na iconologia o suporte necessário para o desenvolvimento de uma linha de pesquisa que possibilite suscitar ou criar novas leituras de uma imagem. portanto. 3. Para isso é necessário observar e ir além: analisar o contexto de produção e a relação dos significados da obra com o mundo pessoal e social. Na definição de PANOFSKY95. pag. Estampa. Idem. Ao percorrer esse caminho. Para desenvolver uma compreensão crítica dessa pintura de acordo com a perspectiva da cultura visual. A iconografia é. Se o sufixo ´grafia´ denota algo descritivo. que permita situar-se diante do mundo e das maneiras de olhar para ele. ou até mesmo estatístico. Para PANOFSKY:96 Tais interpretações posteriores ficam a cargo da iconologia. além de fornecer as bases necessárias para interpretações posteriores. a descrição e classificação das imagens. 58. o sufixo ´logia´derivado de logos. um método de 94 PANOFSKY. ´escrever´.

Eles estão interconectados. ao domínio daquilo que identificamos como imagens. ou seja. que serão elementos da composição da obra. A análise iconológica. 3. partir do que realmente vemos. histórias e alegorias. o mundo dos motivos artísticos. . . mas vão ficando cada vez mais profundos. chamado de iconográfico. Os diversos âmbitos de estudos propostos não são seqüenciais nem isolados. O nível de profundidade da leitura da imagem vai depender de um interesse pessoal e de um desejo de buscar nas diversas abordagens a respeito de leitura. a saber: O Primeiro momento é denominado pré-iconográfico ou fenomenológico. de um período. classe social. ainda que de posse da totalidade das informações disponíveis. do ponto de vista científico. ou seja. de uma verdade inquestionável. é constituída de três etapas. 3. talvez. crença religiosa ou filosófica – qualificados por uma personalidade e condensados numa obra. ou significado intrínseco ou conteúdo. uma construção distinta acerca de uma dada imagem. é dado pela determinação dos princípios subjacentes que revelam a atitude básica de uma nação. Fundamentais na construção do seu conteúdo. teremos.O Conteúdo’ da Obra de Arte no Método Iconológico. Porém. esbarra e perpassa o universo das subjetividades do leitor de imagens.55 interpretação. ou seja. 5. antes de percebermos que se trata de uma pintura 97 Idem. e tem como função a identificação e enumeração das formas puras reconhecidas como portadoras de significados. Tais procedimentos configuram-se como o que. advindo da síntese mais do que da análise. Vejamos agora alguns elementos específicos da linguagem. Poderemos iniciar descrevendo a obra em nível denotativo. mais se aproxime de uma totalidade de compreensão possível. ou melhor. a obstinada busca da totalidade. O Segundo momento. Por exemplo. segundo PANOFSKY97. a que ofereça mais subsídios para o entendimento. da leitura de uma imagem. O Terceiro momento é identificado como camada da essência. possivelmente. pag. 58. diz respeito ao estatuto. A cada leitor.

Neste sentido percebemos na fala de Aranha99. sendo que o professor de História ao fazer a leitura de uma imagem. e das diversas áreas do conhecimento. Na Contextualização. 98 99 ARANHA. Por isso é imprescindível que façamos uma descrição detalhada e cuidadosa. que se associam a uma imagem. inclusividade.Introdução à Filosofia. Filosofando . É justamente neste momento que o conhecimento de mundo que o individuo possui poderá auxiliá-lo numa melhor decodificação dos símbolos e signos presente na imagem. No levantamento das questões. e no caso da leitura. relacionando sujeito/obra/contexto. com tais roupas. coerência. indumentárias etc. e perceber as possibilidades de conexão com o que a obra pode nos dizer hoje. mas que se encontram implícitas na obra. é importante sempre levar em conta o lugar e a época que a obra foi produzida. em que se combinam determinadas cores ou formas. necessitamos de domínio na História da Arte. ser amplamente explorada. Podem ser julgadas por critérios tais como: pertinência. gerando a cada nova interpretação uma nova possibilidade de acesso a novas indagações. Essa descrição dos signos que aparecem na obra e de como se combinam é muito importante. 2º ed. estes significados se alteram. do que se vê num sentido de descrição. a mais completa possível. Maria Lúcia de Arruda. 1993 Idem . pois irá nos fornecer dados para estabelecermos relações que não estão tão aparentes. de Portinari. porém com certa divisão. gestos. deverá explorar novas possibilidades. criando novas possibilidades de interpretações. possibilidade. entre outros. Cada pessoa tem seu próprio modo de ver uma imagem. análise e interpretação da obra. não são passíveis da redução certo/errado. uma possibilidade de leitura: No momento que isolamos uma figura sobre um determinado fundo. nove personagens. A obra pode criar um universo de significações que jamais se esgota e que pode até ultrapassar em muito a intenção do autor. Finalmente deveremos levantar os significados de cada signo e dos signos combinados entre si. esclarecimento. agrupados. em que vemos representados. SP: Moderna. de frente para nós. As interpretações oriundas desse processo de leitura. Segundo ARANHA98 “Os significados de cada signo vão sendo alterados pelos significados dos outros signos formando um espesso tecido de significações que se cruzam e entrecruzam”. abrangência.56 Retirantes.

O Exercício de Leitura da Imagem com a obra Retirantes (1944). com um chapéu na cabeça. que é marcada pela fragilidade de sua fisionomia. Esta mulher. Seu olhar se faz distante. segurando a mão de uma criança que também está usando um chapéu. Percebemos também que há uma criança totalmente nua. Esta mulher está segurando com seu braço esquerdo uma trouxa branca que certamente contém roupas. sendo que em apenas uma delas pode ser identificado o sexo. o que fazia com que grande parte da população fosse atingida pela esquistossomose No céu. No braço direito apóia uma criança recém nascida. com uma trouxa de roupas na sua ponta. sendo estes dois homens adultos e duas mulheres adultas. Na outra família percebemos uma mulher mais jovem. Esta mesma criança apresenta um abdome bastante avantajado. E ao lado do pai se encontram duas crianças. mesmo frágil em sua condição social. Com a outra mão o pai das crianças esta segurando um pequeno pedaço de pau. e segura um cajado. Percebemos também que na composição encontram-se cinco crianças. e o personagem imediatamente atrás desta mulher também encontra-se com seu dorso nu. . Ao seu lado está seu marido. Podemos perceber um pequeno raio de cor presente na veste desta mulher. o que pode ter sido proposital pelo artista ao querer mostrar que no período da produção da obra o país enfrentava sérios problemas com as questões de saneamento básico e tratamento da água. pois está seminua e sua genitália está à mostra. Possuem cabelos despenteados e barba. Seu olhar distante. sendo a da frente do sexo masculino. 3. que usa uma saia com o tom rosa/avermelhado. com cabelos longos e negros. também transmite tristeza e solidão. deixando a genitália da criança exposta. aparentemente o personagem mais idoso na composição. ambos já estão brancos. tipicamente a sustenta pelo lado. estes pássaros foram pintados de preto. cansado e sua face transmite uma grande carga expressiva que retrata seu sofrimento. certamente com uma . É um velho. A mulher que segura à criança. Percebemos nove personagens de forma cadavérica. possui certo vigor físico. apoiando-a seu quadril. que neste caso está exposto.57 3. percebemos uma grande quantidade de pássaros que foram retratados num céu bastante azul. 6. maior que seu suposto marido. seu olhar é triste. que está apoiada sob seu ombro esquerdo.

Percebemos também uma alusão alegórica à morte no encontro de uma destas aves com o cajado do personagem mais velho da composição. percebemos que é uma parte de fêmur. e quatro “montinhos” de terra. Infecção causada por verme parasita da classe Trematoda. percebem-se algumas montanhas bastante distantes. o que a faz quase se confundir com o céu. osso da perna que sustenta o corpo. . este osso. podemos perceber que existe uma grande quantidade de pedras e também uma parte de um osso de animal. E ainda no lado superior direito percebemos a lua retratada num tom de cinza escuro. pela sua constituição e forma. diferenciandose de toda a cena que é predominantemente escura. E na linha do horizonte percebemos uma luminosidade presente. No canto inferior esquerdo. está retratado numa cor bastante clara. FIGURA 02 Retirantes (Detalhe)1944 . quase num tom de branco. lembrada pela da presença dos urubus.58 finalidade de retratação da morte. O principal hospedeiro e reservatório do parasita é o homem sendo a partir de suas excretas (fezes e urina) que os ovos são disseminados na natureza.Óleo s/ Tela. formando a conhecida ´foice` que representa a presença desta que ceifa a vida. a qual mantém uma intima relação com esta ave que sorrateiramente aguarda a hora de se aproveitar daqueles que não resistem mais e morrem. Sob o chão que os personagens estão. No nosso país a esquistossomose é causada pelo Schistossoma Mansoni. 190 x 180 cm Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.Cândido Portinari .

sensação de pintura escultórica e cores austeras. Percebemos que ao pintar Retirantes (1944). e cujas dimensões se comparadas à proporcionalidade da figura. suas figuras assumem uma fisionomia de cansaço e dor. que se verifica tanto nas roupas do adulto da direita como nas roupas da criança seminua do lado inferior direito. se torna um elemento muito pesado na composição. e finda na figura cadavérica do personagem mais idoso da composição. . o sagrado da família e a morte que se mostra para profanar ainda mais este cenário de sofrimentos. Esta nudez nos permite visualizar nesta criança os sintomas da pobreza e fome a que estes personagens estão inseridos. e expressões como apatia e assombro substituem as expressões comuns da face do ser humano. Para o exercício de analise de imagens. representação do volume colorido sobre superfícies planas. Percebemos claramente o ciclo da vida que se inicia com uma criança nesta cena.59 Temos um embate entre o sagrado e o profano. um velho que se apóia ou é apoiado pelo cajado. ou de um certo “encontro” das duas famílias. São nove personagens. se olharmos da esquerda para a direita. segurando uma criança completamente nua. ou duas gerações de famílias. Percebe-se o medo e a incerteza no olhar distante e na fisionomia do primeiro personagem da esquerda. podemos verificar a presença de uma certa divisão. No Cubismo. uma mulher aparentemente mais velha. Observamos também na obra de Portinari uma tendência cubista. As personagens maltrapilhas. poderemos também utilizar diversas fases ou momentos vivenciados pela Arte. Portinari queria não só retratar uma situação queria também denunciar as desigualdades sociais tão acentuadas deste período. renúncia à perspectiva. esquálidas e mutiladas pela vida dão um toque grave e compenetrado. Na representação de figura humana realizada por Portinari. Neste cajado percebe-se uma relação de apóio/suporte bastante intensa. o que conota uma mudança na trajetória ou então o encontro de duas famílias. Percebemos que a mulher que está com a criança que está completamente nua. Na família de retirantes representada por Portinari. sendo que a primeira. olhares distantes ansiosos em busca de algo que não se percebe encontrado. encontra-se de perfil. temos como as principais características: a geometrização das formas e volumes. em que podemos perceber duas famílias. percebemos um velho com uma espécie de cajado. são desfigurados. o claro-escuro perde sua função.

demonstrando sua capacidade de representação através daquela linguagem. Assim. Sabemos que ao pintar. na pintura dos Retirantes(1944). Apesar dos objetivos ou as proposta divergirem. . outros olhares. outras possibilidades. com trajetórias difíceis e destinos incertos. outros exercícios de leitura de imagem da obra Retirantes. com trajetórias difíceis e destinos incertos.Vejamos agora uma relação da pintura de Portinari. somando-os à nossa leitura inicial. com uma fotografia que tem no tema da Imigração seu referencial. não poderemos afirmar que aquela cena existiu de fato.60 Figura 03 Retirantes 1944 Neste sentido temos uma colocação de um Portinari realmente voltado para as questões sociais que o incomodavam desde sua infância ao ver tantos imigrantes saindo das diversas partes do país. percebemos um Portinari realmente voltado para as questões sociais que o incomodavam desde sua infância ao ver tantos imigrantes saindo das diversas partes do país. outras percepções. Portinari buscou unicamente em sua memória as referências necessárias para a composição. Mesmo com a representação de personagens que um dia fizeram parte de suas imagens visuais. Utilizou-se de técnicas próprias da linguagem da pintura.

Isto o mantém vivo.Outros Olhares.Retirantes 1944 . lembrando a ele que há pessoas que necessitam dele. aborda também o aspecto físico dos personagens. aponto para o fato de um dos personagens aparentar ter contraído esquistossomose (Figura 15): O garoto na extrema direita aparenta ter esquistossomose devido ao grande volume de seu abdome. 7. A intensidade na representação do sofrimento e tristeza que podemos constatar através da expressão dos personagens. e ainda sobre a degradação do ser humano. Figura 02 . 3. Além disso. quando coloca o personagem sem suas roupas. Alem do fato de que ambos percebem o conceito de família.61 3. compreendemos que a figura do pai assume uma postura de desilusão e desespero. coloca a possibilidade de estarem bastante desnutridos (Figura 14). em sua opinião o toque das mãos entre o filho e o pai é um ponto determinante de sustentação de toda a cena (Figura 16): A única força em que o mantém de pé é o toque da mão de seu filho. outro ponto em comum nas leituras da obra se refere às questões dos sofrimentos demonstrados e a questão das doenças. . por se apresentarem bastantes magros. Ao perceber que os personagens representados na obra são retratados numa posição estática.. outras percepções.

Fig. mostrada pelas trouxas que carregam (Figura 17): Carrega o restante do que puderam trazer na trouxa em cima de sua cabeça. desnutrido e com uma fisionomia de quem está quase chorando (Figura 18): O avô possui um olhar cansado e aparenta estar chorando Está sem camisa. Assim como o senhor mais velho na composição se apresenta cansado.. Um olhar que transmite toda a preocupação de uma mãe que ao ver os filhos em tamanho sofrimento busca disfarçar a quantidade dos sofrimentos vivenciados. A mãe possui uma expressão de desespero com toda a situação vivenciada. falta vida).Retirantes 1944 Assim compreendemos que o pai assume uma postura de fortaleza que invade toda a cena. já que não encontramos nenhuma espécie de plantas.. o fato de que este é totalmente sem vida. deixando amostra seu estado de subnutrição: praticamente não há músculos em seu tórax. caracterizando-o como a um deserto: É um lugar seco (quando falta água. Com relação ao cenário. Atentamos também para as dificuldades financeiras vivenciadas por esta família.62 Figura 15 . 6 Retirantes 1944 (Detalhe) . uma vez que possuem uma quantidade mínima de pertences e alimentos. permitindo desta forma a continuação daquela jornada.

diferentemente não sugere nenhuma possibilidade de mudança. e no encontro destas com o cajado: Há uma semelhança sutil com a representação da foice da morte no cajado em que o velho se apóia e a ave em sua ponta. fazendo com que a pintura assuma um caráter atemporal. mesmo sendo da década de 40. 8. Notamos que o desenvolve de uma leitura mais elaborada que a realizada por no sentido de estabelecer conexões apresentadas na obra com a realidade em que vive. quanto nas alegorias também já citadas nas figuras das aves identificadas por ele como sendo urubus. e também que estes sofrimentos possam ser identificados em muitas famílias contemporâneas. Ele vê os problemas sociais na obra. contextualiza a imagem que. Tento uma referência ao fato da pintura representar tanto o dia quanto a noite.63 Fig. Ao longo desta pesquisa em que buscamos realizar uma análise de como as diferentes formas de olhar e de interpretar uma mesma imagem revelam a . mas. tanto nas figuras que lembram cadáveres. pode ser considerada como “perfeitamente atual”. Ao descrever toda a realidade colocada por Portinari. Retirantes 1944 (Detalhe) Existe uma presença muito intensa da morte. relaciona-os com a atualidade. o que seria para ele uma forma de representar o sofrimento desta família em tempo integral. 7 Retirantes 1944 (Detalhe) Fig.

e com questões de gênero. miséria. nos mostra que muitos pontos tomados por nós como objeto de investigação para aprofundar a leitura de imagem norteada pelo Método Iconológico também se fizeram presentes nas leituras apresentadas. mas também os aspectos histórico-culturais que permeiam a subjetividade de cada sujeito e determinam sua maneira de interpretar uma imagem em seu tempo e lugar. podendo ser tomados como possibilidades de trabalho em sala de aula pelo professor de arte. relacionando este com a área de formação do individuo. observamos que em momento algum eles sugerem que no contexto apresentado existam duas famílias de retirantes. ainda temos um longo caminho a percorrer.64 multiplicidade de significados suscitados por ela. procuramos estabelecer relações entre as experiências e olhares de pessoas “leigas”¹ e a nossa experiência de leitura de imagem fundamentada no Método Iconológico. a presença das palavras pobreza. entre outras. Assim. e seja um momento de encontro destas famílias. . A partir da proposta de leitura de imagem da obra Retirantes (1944). doença. em relação à leitura de imagem. observamos que. devido a complexidade das questões que permeiam a leitura de imagem. constatamos a abertura de novas possibilidades de aprofundamento da investigação de como se dão os processos de construção de leituras em outros indivíduos. cadáver. seja ela histórica econômica ou social. esquistossomose. como foi por nós compreendidos. Desta maneira observamos que as diferentes formas de pensamento adquirido ao longo dos anos. em sala de aula. Sendo assim acreditamos que se faz necessário uma pesquisa mais detalhada a partir destes novos dados. onde se possam explorar melhor tais possibilidades de forma a incorporar os aspectos significativos da leitura de imagem a propostas de construção plástica e de contextualização. Consideramos então que esta pesquisa abre caminho para indagações futuras. Por outro lado. uma vez que. Tentamos considerar não apenas os aspectos metodológicos envolvidos na ação de ler imagens. podem interferir na maneira a qual percebe e interpreta imagens. cadavéricas.

uma poesia de PATATIVA DO ASSARÉ100. O fenômeno da mobilidade espacial forçada dos camponeses no Brasil antecede e atravessa toda a história do país. poeta popular nordestino. existem aproximações possíveis. do método de construção dos objetos. ela mesma. porém. e sua descrição de uma retirada estratégica de um grupo familiar camponês. 3. objeto de trabalhos acadêmicos de monta. 4. Vozes. 1 . . mudando de lugar e de atividade profissional. que privilegiamos neste texto. refletindo-se igualmente nas manifestações artísticas de todas as modalidades. DE PATATIVA DO ASSARÉ Em que pese à distância entre ciência e arte. esta mobilidade continua sendo o dinâmico presente seja pela pressão sobre os povos indígenas. originados em todos os continentes do planeta. dos diversos pontos de vista da linguagem.65 3. Se considerarmos a chegada dos diversos grupos internacionais que contribuíram na composição da população brasileira. desde os tempos coloniais. para abordagem neste texto.O poema-canção Embora seja de domínio público que Patativa do Assaré escreva guardando a sertaneja forma de falar. 1978. Se tomarmos a história do país. Patativa do. Triste partida musicada por Luiz Gonzaga sofreu modificações 100 ASSARÉ. Cante lá eu que eu canto cá. seja sobre camponeses instalados pela posse precária e sempre mal reconhecidos nas instâncias jurídicas do país. este país é caudatário de contingente heterogêneo embora tendo por bases comuns a língua portuguesa que é obrigado a aprender e a freqüente migração que se estabelece como estratégia de sobrevivência. O enfoque. Petrópolis. . é o das perdas que se provocam nos planos tanto físico quanto imaterial de uma família sujeita ao sinistro climático e social.¹ A seca é um dos temas recorrentes na literatura sobre o desenvolvimento do país.TRISTE PARTIDA. 4. Escolhemos.

n. deve-se recorrer aos escritos originais. de fato. comparando-o com as versões musicadas ou publicadas em outros veículos de expressão. Encontra-se. Em tom de lamento. A. Setembro passou Outubro e novembro. Belém. D. voltadas para a análise do conteúdo socioeconômico do poema.101 Uma hipótese é de que o sanfoneiro tenha suavizado o sotaque nordestino e apelado para formas mais próximas da língua geral do país. 101 GUERRA. G. elementos que fundamentam uma e outra hipótese. ai. Êxodos e dispersão dos camponeses no Brasil.66 em relação ao que se pode encontrar na versão publicada em Cante lá que eu canto cá. a letra é composta de estrofes. Outra é de que. VI. 47-52. ai). meu Deus. ai. em que se alternam os estribilhos acima. Meu Deus. para ajustar ao compasso do ritmo musical e ao seu estilo tivesse Luiz Gonzaga que modificar alguns versos. a letra abre o raciocínio e tenta demonstrar e analisar a injustiça social que não se resolve com a mudança de lugar. apresentamos um quadro comparativo das duas versões. de quatro em quatro versos. Movendo idéias. em que as alternativas de esperança vão sendo tentadas e conduzindo a uma situação de crise. no texto. Meu Deus. que é de nós. no fim de cada estrofe. Para guardar. . em anexo. onde se repetem como estribilho as exclamações de apelo religioso (Meu Deus. porém a fidelidade ao texto original escrito. meu Deus!) e de dor física (ai. Composto em 19 estrofes. julho de 2001b. como uma maneira de romper com um regionalismo mais acentuado de Patativa. Para isso. CESA/UNAMA. 9. Neste TCC utiliza-se a versão firmada na discografia de Luiz Gonzaga em razão de ter sido esta a mais difundida e se prestar a contento para os objetivos desta reflexão. Já tamo em dezembro. culminando na decisão por uma viagem. Reconhece-se a importância de se efetuar estudos sobre a recepção e apropriação da obra de Patativa do Assaré pelos músicos e pelo público em geral. O investimento na noção de tempo se expressa esgotando-se um calendário agrícola (de Setembro a Março).

baseado em números cabalísticos (treze) ou no calendário regular (representado pela festa do Natal). A lógica metafísica vai sucumbir às transformações climáticas. Mas noutra esperança. Patativa do. outro passo é dado na tentativa de reconhecer melhor. O poema de PATATIVA DO ASSARÉ102 é pleno de esperança. da fome feroz Ai. No verso acima se misturam prática popular baseada na fé com o teste (experiência. liricamente. como se lê acima.67 Meu Deus. a personagem recorre a adivinhações aprendidas no seu meio cultural. Petrópolis. começa com um pressentimento de medo das doenças e da fome que podem advir caso não se concretize o período de chuvas esperado. e outros sinais da natureza se apresentam indicando que o verão será rigoroso. ai. Ai. 1978. Frustrados os dois. meu Deus.Com medo da peste. meu Deus. ai. no começo. ai. Cante lá eu que eu canto cá. ai. De dentro do medo. ai. Conhecimentos construídos sobre mitos vão ser demolidos por uma racionalidade experimentada. Meu Deus./ Com gosto se agarra. . Vozes. 102 ASSARÉ. Nada de chuva se confirma. a chegada de chuva. Ali começa a primeira perda: o abalo da crença em um conhecimento popular aprendido pela tradição local./Pensando na barra. as diversas formas de resistência do nordestino submetido à seca e às condições econômicas e sociais precárias. A treze do mês / Ele fez experiência/ Perdeu sua crença/Nas pedras de sal. e revela. Do seco nordeste. ai. Assim fala o pobre./Do alegre natal. O início do poema. característico da prática científica). vivida. no calendário de festas.

/Depois fevereiro. ai. Na copa da mata/Buzina a cigarra. ai. seria pelo único e incontestável sinal da natureza.. Meu Deus../Ninguém vê a barra /Pois barra não tem Ai. usual no sul para designar os nordestinos. ai. ai. o milho plantado no dia de São José. pela terra molhada. meu Deus. Mais do que castigo. criar. é colhido no mês de Junho. o homem volta-se para o sobrenatural. a seca transforma-se em condenação. ai. de um inferno se aproximando. meu Deus Entonce o nortista/Pensando consigo/Diz. Vale a pena chamar a atenção para o termo nortista. comemorando-se a colheita por ocasião das festas de São João e São Pedro. até aqui. Meu Deus. colher... e aqui se anuncia uma perda importante. isto é castigo/Não chove mais não Ai. A vermelhidão do sol é prenúncio de tempos difíceis. Apela para São José que também não lhe responde.68 Rompeu-se o natal/Porém barra não veio/O sol bem vermeio/Nasceu muito além. Esgotado o calendário e as crenças. No Nordeste. O curto ciclo do milho representa a atividade agrícola em toda a sua força. o vaticínio é de castigo. Não vindo chuva por estes sinais conhecidos dos tempos. a queda de chuva. a da fé guardada para momentos de necessidade extrema. Sem chuva na terra/Descamba janeiro./E o mesmo verão. Uma inflexão é introduzida na construção lógica do camponês. ai. A constatação de salvação. Apela prá março/Qué é o mês preferido/Do santo querido/Senhor São José . pela possibilidade concreta de poder plantar.

Meu Deus. o camponês é obrigado a uma estratégia forçada. meu Deus . As perdas seriam algumas.. Na impossibilidade de resolver o problema da vida no lugar. pelo jegue. São Paulo é.. é trocado pelo rural./Nós vamo a São Paulo/Viver ou morrer Ai.69 Meu Deus. No início. ai. galo. bem representada pela criação do trabalhador que não terá senão a sua força de trabalho para vender. São Paulo. Nós vamo à São Paulo/Que a coisa tá feia/Por terras aleia/Nós vamos vagar Meu Deus. a cidade. outro rumo. outra trilha (tria). caudatária dos trabalhadores deserdados de seus fazeres nos seus locais de origem. ai. gera o desconforto e o desejo de volta para o lugar de origem. representação da cidade grande. Mas nada de chuva/Tá tudo sem jeito/Lhe foge do peito/O resto da fé Ai. ai. a construção é de um deixar de ser para continuar sendo. meu Deus. aqui... Eu vendo meu burro. a saída é tomar outro caminho.. pois recuperáveis. cavalo./Meu jegue e o cavalo. mas não muitas. Por pior que seja. Não havendo solução nos planos anteriores. Agora pensando/Ele segue outra tria/Chamando a famia/Começa a dizer. ai. a saída é pensada como um movimento temporário. A passagem do trabalho autônomo para trabalho assalariado é. no poema. para ser estrangeiro. A estratégia é de sobrevivência modificando a forma de ganhar a vida.. A consciência de estar indo para terras alheias. ai. ai. com uma perspectiva de retorno. vendendo seus meios de produção. meu Deus. ou a morte.

ai. Ficam para trás seu passado e dos seus filhos. a seca é representada ora como fenômeno natural. o autor expressa uma revolta de caráter social. faminto (que tudo devora) e implacável. Seus bens passam para outro por valor inferior ao que vale. O verso denuncia a imprevidência e a falta de política para ocasiões como esta. Embora de maneira tímida. meu Deus. O primeiro sinal da ida para a cidade. mas é jogada. amigos. onde construiu sua história. e é expulso da terra natal. meu Deus. ai. Em um caminhão/Ele joga a famia/Chegou o triste dia/Já vai viajar Meu Deus. A venda em si mesmo não é tão dolorosa quanto à consciência de estar sendo explorado em seu momento de desgraça. . a exploração econômica se manifesta.. onde mais que a seca como fenômeno físico. ai. ai. A seca assume o papel de flagelo. ai. ai.. E vende seu burro/Jumento e o cavalo/Inté mesmo o galo/Venderam também Meu Deus. manifestando o caráter de classe. O desfazer-se das coisas nos momentos de crise é mais difícil porque ocorre em condições desfavoráveis. ai. A seca terrível/Que tudo devora/Lhe bota pra fora/Da terra natal Ai. Alguém sempre lucra com a miséria alheia. parentes. triste dia. onde ele joga a família. expulsando todo o grupo de seu local de origem. para a modernidade é o caminhão. ai. ai. A família não sobe no caminhão. Pois logo aparece/Feliz fazendeiro/Por pouco dinheiro/Lhe compra o que tem Ai.70 Se o nosso destino/Não for tão mesquinho/Cá e pro mesmo cantinho/Nós torna a voltar Ai. de bicho feroz. ora social. dá nome ao poema: Triste partida. Retificada como animal voraz. da terra onde nasceu. O dia da partida.

.. Na estrada.. na sensação de velocidade do carro no topo da serra. O que representará para as crianças a perda dos animais de estimação. A consciência da perda se aprofunda nos dias que se passam. O carro já corre/No topo da serra/Oiando prá terra/Seu berço. distanciando-se do chão.. meu Deus Aquele nortista/Partido de pena/De longe acena/Adeus meu lugar Ai. ai. A estrofe é construída demonstrando a transição de situações e a consciência que se avoluma justamente neste momento. Não só o pai perde. do contato afetuoso com cada um deles? Revivendo o cotidiano camponês. meu Deus Tão triste. ai. coitado. /Falando saudoso/Com seu fio choroso/Exclama a dizer Ai. mas toda a família.71 A consciência da perda bate depois da saída. No dia seguinte/Já tudo enfadado/E o carro embalado/Veloz a correr Meu Deus. ai. ai. E esta mesma consciência ganha concretude quando eles começam a fazer o rol de perdas. O afastar-se da terra é representada praticamente como uma morte. ai. saindo de uma situação para outra.. . em que a família muda de plano. a nostalgia é detalhada em gestos simples. seu lar/ Meu Deus.. ai. porém muito reais.

meu Deus O pai. ai. O que representará a perda de uma planta querida. mas a da manutenção dos bens. ai. E assim vão deixando/Com choro e gemido/Do berço querido/ Céu lindo e azul Meu Deus. As perdas são ameaças ao futuro incerto que o pai é obrigado a pensar e decidir.72 De pena e saudade/Papai sei que morro/Meu pobre cachorro/Quem dá de comer? Meu Deus. do trato. Já outro pergunta/ Mãezinha. ai. . E a linda pequena. meu Deus. da conservação. /Tremendo de medo. meu Deus Coitado. pesaroso/Nos fio pensando/E o carro rodando/Na estrada do Sul Ai. ai. estática ou de mobilidade espacial reduzida. e meu gado1?/Com fome. ai. ai./ "Mamãe meus brinquedo/Meu pé de fulô?" Meu Deus. A representação é a do afeto mantido pelos objetos que significam as construções da cultura familiar. e uma boneca para uma menina de interior? A cultura camponesa não é – ou não era – a do consumo. a do descarte. ai. sem trato/Mimi vai morrer Ai. ai... ele seca/E minha boneca/Também lá ficou Ai. doméstica. ai.

ai.. no caminho. Se arguma notícia/Das banda do norte/Tem ele por sorte/O gosto de ouvir Meu Deus.. meu Deus Só vê cara estranha/De estranha gente/Tudo é diferente/Do caro torrão Ai. O local de chegada é o de se dar outro jeito. ai.../E sempre nos prano. Mas alimenta o sonho de volta../Três ano e mais anos. ai. novas situações. aprofunda suas dívidas e suas ligações com o novo lugar. ai. de criação de novas raízes. no novo enfrentamento a que se dispõe. O tempo aparece como inexorável elemento de fixação. meu Deus . novo patrão. com as dificuldades de enfrentar a pessoas estranhas. portanto./ Meu Deus. meu Deus Mas nunca ele pode/ Só vive devendo/E assim vai sofrendo/É sofrer sem parar Ai. quebrado/E o pobre acanhado/procura um patrão. embora saudoso das anteriores: Trabaia dois ano. ai.. atento às notícias do sertão e a novas alternativas possíveis. Movido pela perspectiva da volta. Chegaram em São Paulo/Sem cobre.73 A consciência da perda se dá. O valor do trabalho redentor é a esperança na qual se joga o nordestino/nortista./De um dia vortar Meu Deus. a novos costumes. ai.

ai. como explicitado em outro . Do mundo afastado/Ali vive preso/Sofrendo o desprezo/Devendo ao patrão Meu Deus. ai. ai. do domínio sobre o próprio tempo. Distante da terra/Tão seca mas boa/Exposto à garoa/A lama e o pau. Materializa-se também na consciência da perda da liberdade. ai. ai. meu Deus Faz pena o nortista/Tão forte. ai. Meu Deus. tão bravo/Viver como escravo/ No Norte e no Sul Ai..74 Lhe bate no peito/Saudade lhe molho/E as águas nos óio/ Começa a cair Ai. meu Deus O tempo rolando/Vai dia e vem dia/E aquela famia/Não vorta mais não Ai.. ai. ai. A perda definitiva da terra e da identidade se materializa na impossibilidade de voltar. O ser camponês é um ser de baixa mobilidade social. ai. O tempo longo e as novas condições sinalizam para um caminho sem volta e a distância do local de origem toma uma dimensão cada vez mais concreta.

Discutimos. no fundo. em que consiste o fugir da seca? O ser expulso da terra? O ser obrigado a vendê-la para cobrir os custos de 103 104 GUERRA. o seu compadre. D.75 Momento103. mediado. mas uma análise detalhada de cada verso pode nos dizer muito do que os leva a esta mobilidade e o que se perde com ela. E o êxodo traz. Hoje pode ser um a representá-lo. o comerciante. atores. Poderíamos falar de números. e amanhã outro. onde indivíduos. mas os sinais dessas coisas no espaço são perdidos com a ausência forçada. mas preferimos falar de sentimentos. dos objetos. no que consiste o êxodo enquanto problema econômico e social. de sua casa. A cidade grande impõe outro tipo de relação em que as pessoas são submetidas/reduzidas aos seus papéis. Ele conhece e se relaciona com o seu vizinho. A. sua cidade. D. nas ruas. Belém. seu bairro. Viver longe dos seus por necessidade. como acúmulo de experiências vividas por pessoas que amalgamaram a cultura. GUERRA. dos quintais. tudo isso fica guardado na memória. O homem tem o estranho hábito de viver mais do que o seu tempo biológico. Universidade Federal do Pará. de atravessar o tempo na memória dos seus parentes. nos caminhos. patrícios. versos sobre a vida de retirantes por causa da seca nordestina pode parecer lugar comum. O Nordestino é praticamente sinônimo de viajante. O camponês se faz em tessituras de relações primárias. em outro texto de Guerra104. O Posseiro da Fronteira. Ele cria laços pessoais e os honra com a palavra e com os gestos de sua cultura. Encontrar. Do sentimento de partida quando a única opção a fazer é a estrada em busca de outro lugar. Belém. O homem guarda nos lugares sua existência. papéis e personagens se confundem. como se uma segunda natureza tivesse. das fachadas das casas. sem que se quebre o funcionamento do que é impessoal. nas memórias. E enquanto experiência vivencial. . sem sofrer. essa marca do se deixar diluir nas cidades. dos jardins. abandonar os seus por necessidade é uma ruptura dolorosa. 2001. 2001. que deram significados aos nomes das ruas. Universidade Federal do Pará. seu bairro. depois da de ser humano. vizinhos. E não abre mão. coleciona e celebra tristezas e alegrias em um armário que é maior do que sua casa. O Posseiro da Fronteira. G. As modalidades de negociação que se impõem são diversas nos dois campos – o urbano e o rural. A. sua rua. no cancioneiro popular. G. A importância do lugar como referência. sua cidade. das praças.

Formação econômica do Brasil. palestinos? Quanto custou. dos sem teto. do café. das drogas do sertão. árabes. do cacau. os quatro capítulos sobre a mão de obra da Formação Econômica do Brasil. da cana-de-açúcar. 1982 . das 10 laranjas. Quanto se poderia acrescentar às cifras do pau-brasil. em busca de pão e trabalho? Poderíamos se quiséssemos demonstrar isso não apenas em números. pelo cansaço? Quanto de débito não pago tem ainda no haver dos bóias-frias. São Paulo. ucranianos. em termos de sofrimento. se contadas às separações. poloneses. dos sem-terra. da pecuária. chineses. Celso. turcos. africanos. espanhóis.76 tratamento de saúde de um parente próximo? Quantas histórias de vidas desestruturadas podem se contar na chegada de italianos. dos desempregados estruturais? Com quantos fios de arame e caixas de bala se faz a ocupação dos latifúndios improdutivos? Com quantas ausências de escolas se faz a ignorância que mantém na passividade e dominação a legião de danados da terra? E por que eles erram pelo mundo.. portugueses. 105 FURTADO. Nacional. japoneses. do ouro. judeus.. porque as pessoas são muito mais do que algarismos. pela fome. açorianos. da borracha. alemães. de Celso Furtado (1982)105. do algodão. as longas viagens. as mortes por insalubridade dos caminhos. Ed.

Devido a essa importância que muitas vezes não é valorizada. etc. econômica cultural e histórica do Rio de Janeiro. arte. mostrando à comunidade a importância destes nordestinos para o nosso desenvolvimento. pois paramos e discutimos sobre o que são estas “culturas nordestinas” e como elas se reconstroem na cidade do Rio de Janeiro. e as produções dos alunos. por temáticas que discutem nos conteúdos para quais foram escolhidos. aonde já vimos eclodir situações de preconceito explícito contra os migrantes. Estando organizada a seleção de materiais e comentários. expor características particulares dessas culturas por Estado. Esse projeto se centralizará na importância da figura do migrante nordestino e suas colaborações na construção social. E está dividido em dois momentos. artigos. vocabulário. chegando a ser depreciada com piadas e chavões. que se envergonham e chegam até a negar essa herança. Refletir sobre esse processo foi de fundamental importância para a construção de um projeto sério. textos. inclusive as produções musicais. que abrange uma problemática delicada e não discutida na escola. é a apresentação de todo o projeto incluindo bibliografia. Procuramos desenvolver o projeto por temática de modo que elas se apresentem numa seqüência que permita a compreensão de todo processo migratório.CONSIDERAÇÕES FINAIS A produção deste trabalho foi bastante enriquecedora. . Como produto final. faz-se necessário um estudo mais aprofundado desta participação socioeconômica e histórico-cultural do nordestino no Rio de Janeiro. onde cada série ficou responsável por representar um estado da região nordestina e dentro do espaço físico da sala de aula. e como construímos nossas representações sobre elas. o primeiro. Ao analisar o cotidiano da região metropolitana do Rio de Janeiro nos deparamos com a grande influência que a diversidade da cultura nordestina nos legou em vários setores: culinária. iconografias e suas respectivas análises. até mesmo pelos próprios descendentes. produzimos uma mini Feira de São Cristovão. a respeito do tema trabalhado em todo o projeto. O segundo momento é a disposição dos materiais usados como: músicas. utilizando-se do material usado no período das aulas. . literatura. música.77 4. O nordestino como co-construtor do Rio de Janeiro.

78 A partir das colocações dos alunos. ou seja. Após este processo de analise. Vídeo. os textos e o quadro. como atividade. O texto selecionado da Revista Travessia “ As sete vidas da cultura popular” traz várias discussões sobre a “cultura do nordeste” para ser feito um aprofundamento nos debates. . fotos. fazendo com que este perceba e aceite suas descendências foi muito importante para construir sensibilizações nos estudantes para o tema em questão Como este projeto utilizou-se de varias formas de linguagens. e que estas representações sejam em formas de linguagens. observamos que conseguiram fazer uma ligação das figuras como produtos culturais do nordeste e discutimos com eles o que conceito de cultura como produção. como em seu dia-a-dia. fazer o aluno compreender criticamente e historicamente a migração nordestina e todos os processos históricos do qual é composta. poesias. foi de suma importância mostrar aos alunos as diferentes linguagens que podem ser utilizadas tanto em aula. como a musica. pedir aos alunos que produzam suas representações do nordestino. por isso. sempre voltados ao tema trabalhado e essas produções estão expostas na feira de São Cristóvão. desenhos. identificação e caracterização de grupos sociais e como ela se apresenta de forma bem heterogênea dentro da região estudada e até mesmo dentro de cada estado desta região. vídeos. através de composição musical. colagens.

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Disponível no Site: http://letras. ai. ai Em um caminhão Ele joga a famia Chegou o triste dia Já vai viajar Meu Deus. meu Deus Tão triste. Meu Deus.LETRA DA MUSICA A TRISTE PARTIDA DE LUIZ GONZAGA E COMPOSIÇÃO: PATATIVA DO ASSARÉ. Meu Deus.br/luiz-gonzaga/82378/ Consulta no dia 30/11/2010 as 21h00. Meu Deus.lhe bota pra fora Da terra natal Ai. ai. meu Deus Aquele nortista Partido de pena De longe acena Adeus meu lugar Ai. ai.86 6. Depois fevereiro E o mesmo verão Meu Deus. ai. ai. ai No dia seguinte Já tudo enfadado E o carro embalado Veloz a correr Meu Deus. meu Deus Se o nosso destino Não for tão mesquinho Ai pro mesmo cantinho Nós torna a voltar Ai. ai. meu Deus Pois logo aparece Feliz fazendeiro Por pouco dinheiro Lhe compra o que tem Ai. coitado Falando saudoso Com seu filho choroso Iscrama a dizer Ai. ai. meu Deus Entonce o nortista Pensando consigo Diz: "isso é castigo não chove mais não" Ai. ai De pena e saudade Papai sei que morro Meu pobre cachorro Quem dá de comer? Meu Deus. ai. sem trato Mimi vai morrer Ai. ai. ai Sem chuva na terra Descamba Janeiro. ai. e meu gato? Com fome. ai E vende seu burro Jumento e o cavalo Inté mesmo o galo Venderam também Meu Deus.terra. ai. ai. que é de nós. meu Deus Assim fala o pobre Do seco Nordeste Com medo da peste Da fome feroz Ai. ai A treze do mês Ele fez experiênça Perdeu sua crença Nas pedras de sal. ai. ai. meu Deus Já outro pergunta Mãezinha. meu Deus Eu vendo meu burro Meu jegue e o cavalo Nóis vamo a São Paulo Viver ou morrer Ai. ai Rompeu-se o Natal Porém barra não veio O sol bem vermeio Nasceu muito além Meu Deus. ai. meu Deus Mas nada de chuva Tá tudo sem jeito Lhe foge do peito O resto da fé Ai. meu Deus A seca terrívi Que tudo devora Ai. ai. ai. ai. ai O carro já corre No topo da serra Oiando pra terra Seu berço. ai. ai. ai. meu Deus Na copa da mata Buzina a cigarra Ninguém vê a barra Pois barra não tem Ai. ai Nóis vamo a São Paulo Que a coisa tá feia Por terras alheia Nós vamos vagar Meu Deus. seu lar Meu Deus. ai Agora pensando Ele segue outra tria Chamando a famia Começa a dizer Meu Deus. ai. meu Deus Mas noutra esperança Com gosto se agarra Pensando na barra Do alegre Natal Ai. ai.com. ai E a linda pequena Tremendo de medo "Mamãe. ai. ai Apela pra Março Que é o mês preferido Do santo querido Sinhô São José Meu Deus. meus brinquedo Meu pé de fulô?" Meu Deus. meu Deus Setembro passou Outubro e Novembro Já tamo em Dezembro Meu Deus. meu Deus . 2 .

ai Do mundo afastado Ali vive preso Sofrendo desprezo Devendo ao patrão Meu Deus. ai. meu Deus O pai. meu Deus O tempo rolando Vai dia e vem dia E aquela famia Não vorta mais não Ai. ai. ai. ai Chegaram em São Paulo Sem cobre quebrado E o pobre acanhado Percura um patrão Meu Deus. ai. tão bravo Viver como escravo No Norte e no Sul Ai. ai. ai Se arguma notíça Das banda do norte Tem ele por sorte O gosto de ouvir Meu Deus. ai. meu Deus Lhe bate no peito Saudade de móio E as água nos óio Começa a cair Ai. pesaroso Nos fio pensando E o carro rodando Na estrada do Sul Ai. ai . meu Deus Só vê cara estranha De estranha gente Tudo é diferente Do caro torrão Ai. ai Distante da terra Tão seca mas boa Exposto à garoa A lama e o paú Meu Deus. meu Deus Mas nunca ele pode Só vive devendo E assim vai sofrendo É sofrer sem parar Ai. ele seca E minha boneca Também lá ficou Ai.87 Meu pé de roseira Coitado. ai. ai. ai Trabaia dois ano. ai E assim vão deixando Com choro e gemido Do berço querido Céu lindo e azul Meu Deus. ai. ai. ai. ai. ai. meu Deus Faz pena o nortista Tão forte. Três ano e mais ano E sempre nos prano De um dia vortar Meu Deus. ai.

.Lançando a idéia: Será possível identificar uma pessoa ou povo através de uma fonte? 8. os alunos irão produzir um pequeno texto. Como Produto Final foi desenvolvido um Blog com um objetivo de organizar os trabalhos produzidos pelos alunos da Escola Municipal Darcy Vargas. Utilizando as fontes como objeto de memória.O aluno irá recebe o texto produzido pelo colega. 4. Com isso irão dissertar sobre quais motivos fizeram com que suas famílias migrassem para a cidade do Rio de Janeiro. (Cartas. 7. Um Produto Final para os alunos do meu Projeto de TCC. os alunos irão escolher 10 palavras que os faça remeter a fonte de estudo escolhida por eles.Desenvolvimento da Atividade 1 – Pesquisa das Fontes em suas casas. 3.PRODUTO FINAL.com/ Fazendo do Blog.As fontes serão exportas na parede da sala de aula. A idéia é que os alunos pesquisem em suas casas. http://riodememoria.A partir das 10 palavras escolhidas. e tragam fotos. 1 .Ao encontrarem a fonte. cartas ou objetos que cative a memória de suas famílias.blogspot. ele irá ler o texto para turma e os demais irão achar a fonte que o texto foi produzido. 7.Após a pesquisa das fontes. começaremos uma discussão sobre analise da fonte e a produção do texto. E os textos produzidos serão distribuídos por eles aleatoriamente. . 5. Os Alunos irão analisar as fontes que encontrarem em suas casas.Todo material de pesquisa (Fontes e Textos) irão ser postados neste Blog. 6.88 7. Fotos ou Objetos) 2 .

89 8. .PLANOS DE AULA .