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Universidade Federal do Pará

Centro Tecnológico – Curso de Engenharia Elétrica

Disciplina: Legislação Aplicada


Assunto: O Que é Justiça – Uma abordagem dialética (Roberto A. R. de Aguiar) - resumo e análise crítica
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Um baile de abertura

A justiça pode ser considerada instável no que diz respeito aos acontecimentos históricos, daí ser
considerada “inconstante e volúvel”. Como o autor cita no primeiro parágrafo, com o seu frequente (e estafante)
uso de metáforas ”Ora a vemos bailar com os poderosos, ora com os fracos, ora com os grandes senhores, ora
com os pequenos e humildes.” e “Nesse jogo dinãmico todos querem ser seu par...”, entende-se que todos
querem a justiça do seu lado, não importando o caráter do beneficiado ou as circustâncias na qual a mesma é
necessária. Quem não a tem, há de julgá-la com repúdio.
De outra maneira pode-se ver a justiça como algo acima de tudo e todos, um valor que deve ser
respeitado incontestávelmente. Mas esse também é um valor, um conceito antigo, que muitos um dia acabam
por desrespeitar justamente por se sentirem desrespeitados pela mesma “justiça” em um dado momento. Enfim,
todos querem a justiça do seu modo.
No entanto há uma nova justiça por vir que não terá um dono, mas que tende a ser justa de fato. Essa
nova justiça coexistirá com a antiga que por sua vez tenderá a ficar nas mão dos poderosos. A esperança é que
a “nova justiça” destrua a antiga.

O tema e o problema

A justiça deve ser um dever pra quem tem o poder e a solução dos problemas para os até então
injustiçados. Mas a justiça é de natureza antitética (“...realidades opostas, contraditórias...”, que não podem
coexistir), por isso nem sempre o que é justo para um lado, é para o outro. Essa natureza está ligada à cultura
de uma sociedade, por isso ela não pode ser considerada neutra, ela dança conforme o baile. Isso teoricamente
falando, já que se tem a impressão de que ela sempre estará nas mãos da autoridade ou realidade dominante,
pois pressupõe-se, muitas vezes errôneamente, que a sociedade desejou tal realidade.
Ainda no que diz respeito a natureza contraditória da justiça, o autor cita: “...falar-se em justiça é falar-
se em manutenção e fortalecimento da ordem constituída e, ao mesmo tempo em destruição da ordem
contituída”. A justiça muitas vezes se baseia, infelizmente, em argumentos independentes da verdade. A
solução para isso seria encontrar formas de tornar a justiça atual um instrumento que beneficie os que de fato
precisam dela. Transformá-la na “justiça dos oprimidos”. A justiça não deve continuar nas mãos de quem não
perpetua bons valores para a sociedade, ou não haverá progresso social.
Algumas idéias da justiça, no entanto, persistem. Quando o autor se refere à justiça como
“transtemporal e transideológica”, a impressão que fica é que a velha justiça permanecerá entre nós; ela e seu
conservadorismo. Isso não é bom. Gera desconfiança, seja do oprimido que quase sempre viu a derrota ou o
não cumprimento sequer parcial da jutiça no seu cotidiano; ou do opressor, que ao ver que as coisas não
andam bem para o povo oprimido se vê em constante ameaça de uma revolta social.
A questão é que o “ser dominante” se utiliza da irônica mistura do onisciente e inércia coletiva da classe
oprimida, e continua a impor sua falsa justiça envolta por uma máscara de neutralidade e equilibrio. Mas a idéia
de justiça sempre será a mesma: a busca por algo melhor para a sociedade. Como o autor cita no parágrafo
vinte deste tópico: “Logo, se a justiça é a busca de um melhor ético, moral e jurídico, também é verdade que a
justiça está plantada nos interesses e na sobrevivência dos grupos que articulam as visões de mundo que
respaldam as diversas concepções sobre o problema.”, a democracia é um componente da justiça.
O conceito de neutralidade da justiça se define como um forma mecânica de resolução imparcial de
questões. Isto é, não interessa qual seja o problema, quem é a vítima ou o agressor, a justiça simplesmente se
propõe as resolver o problema. Esse descompromisso a previne, teoricamente de se tornar unilateral.
A justiça enquanto ordem

Na prática a justiça resulta dos interesses do grupo dominante. O autor a chama apropriadamente de
“justiça do vencedores”. Esta deve separar os bons dos maus, dependendo do conceito de bondade que o
detentor da justiça tem. Tudo o que for contra a “justiça dos vencedores” será considerado objeto de subversão.
É a contestação da classe reprimida. É a “justiça dos perdedores”. Reaparece aqui o conservadorismo típico de
velha justiça, que tende a estar do lado de quem tem o poder.

A justiça dos vencedores

Quem domina precisa passar uma imagem de credibilidade para continuar dominando. Cria-se então
essa imagem, e qualquer manifestação contrária a isso, inclusive os méritos da classe dominada, é
sumariamente eliminada. A justiça dos vencedores é uma imagem distorcida da justiça ideal, com o intuito de
manter uma ordem que beneficie somente os dominantes.
O autor dá como exemplo o movimento de 1964 e cita: “...tudo o que aconteceu até essa data era ruim
e tudo após ela, uma busca gloriosa dos destinos verdadeiros da nação brasileira.”, indicando que a verdade
imposta é uma verdade manipulada, daí ser uma justiça distorcida. O que acaba por acontecer é que tal
“verdade” periga ficar incrustada na cultura do povo, e afetar as próximas gerações, tornando a justiça dos
vencedores a mais comum, como afirma o autor.

A justiça enquanto legitimação

A verdade imposta é a maior arma que os detentores do poder têm contra a classe dominada, afinal
somente o instrumento da força não os sustentará no poder por muito tempo, já que não haveria justificativa
plausível para o povo manter-se oprimido. Dentre as justificativas mais comuns para legitimar tal domínio o auto
cita: “A mais comum é a de se declarar que o país estava no caos, que a corrupção medrava em todos os
recantos, que forças solertes estavam ameaçando a soberania, que a propriedade estava sendo violada, que as
famílias estavam inseguras, entre tantas outras...”. Tem-se então por parte do povo, que a ordem foi imposta
merecidamente, que ela foi justa visto que o momento pelo qual o país passava era insustentável.
Depois vem a repressão, resultante da mescla da justiça vigente (injusta e deturpada por sinal) com o
uso equivocado da segurança em nome da soberania. Todas as providências tomadas em defesa dessa
segurança se apóiam no fato de tentar justificar os fins pelos meios, que na maioria das vezes é uma atitude
inviável.

Breve panorama histórico

A narureza da justiça para a maioria de nós deriva de preceitos divinos, da vontade de Deus pelo que é
certo, ético e moralmente correto. Quando quem está no poder não segue a cartilha de conduta “escrita pelo
povo” de acordo com suas interpretações sobre o que Deus deseja, o povo se sente indignado. A estabilidade
política de uma sociedade depende de como as regras, direta ou indiretamente desenhadas por essa
sociedade, são seguidas. Se a situação não for considerada justa, a tendência é a mudança ou instituição de
um novo poder. Mas nem sempre é isso que ocorre.

Análise crítica

Embora o autor tenha sido imparcial ao explicar o que é justiça e como as diferentes camadas sociais
são afetadas por ela, em alguns pontos o texto se tornava redundante e monótono. A intenção de explicar
exaustivamente que a justiça ideal depende de uma transformação social é um desses pontos de repetição.
Ficou mais do que claro que a justiça como se vê hoje, especificamente no Brasil, que é o centro da discussão,
é um utopia; que por ser lenta, ineficaz, e efetiva somente para os abastados está longe de ser o tal instrumento
de transformação do qual tanto se fala.
A neutralidade da justiça ora dita como inexistente, ora dita o contrário não ficou clara. O conceito de
harmonia, equilíbrio e de uma superioridade inabálavel apenas indicam que a justiça é sim, neutra e assim
sempre será, aliás essa parece ser a “razão de ser” mais coerente. No entanto também é coerente analisar as
questões a serem “julgadas” nos mas profundos pormenores. O ponto mais confuso parece ser o dessa
neutralidade mesmo. Afinal, mesmo não sendo unilateral a justiça propriamente dita, ela sempre será aplicada
da forma correta?