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INFORMAÇÃO E SOCIEDADE contextualizando a Ciência da Informação nas Ciências Sociais - Hugo Cavalcanti e Malthus Queiroz

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INFORMAÇÃO E SOCIEDADE: contextualizando a Ciência da Informação nas Ciências Sociais1

Hugo Carlos Cavalcanti2 Malthus Oliveira de Queiroz3

RESUMO
Trata da Ciência da Informação (CI) a partir de uma reflexão da natureza das Ciências Sociais. A análise empírica do fenômeno informacional estabelece um intenso diálogo interdisciplinar com distintos domínios do conhecimento como forma de validação crítica do caráter científico da CI face à utilização de métodos e técnicas de pesquisa social, reflexo das ciências naturais. Assim, sugere-se um olhar da CI como uma ciência contextual e não consensual inserida nas Ciências Sociais, abordando pontos de tensões entre o sujeito social e a realidade objetiva. Por meio dos paradigmas históricos, revisaram-se as abordagens de uso dos principais métodos e técnicas de pesquisa empreendida pela Ciência da Informação na atualidade, configurando-a como uma ciência emergente e poliepistemológica. Desse modo, contextualiza-se a CI frente às mudanças sociais advindas pelo imperativo tecnológico na Sociedade da Informação, economia e cultura. Palavras-chave: Ciência da Informação, Ciências Sociais, Sociedade da Informação. Economia da Informação. Cultura Informacional. INFORMATION AND SOCIETY: contextualizing Information Science in Social Sciences This deals with Information Science from a Social Sciences reflection nature. The empirical analysis of the informational phenomenon establishes an intense interdisciplinary dialogue with different domains of knowledge as a way of critical validation of the Information Science scientific character given the methods and techniques of social research use, a reflex of the natural sciences. Thus, we suggest a look at the Information Science as a contextual science and non-consensual inserted in
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Artigo apresentado ao Prof. Dr. Denis Bernardes como requisito para avaliação final da disciplina ―Ciência, Tecnologia e Sociedade‖ (CIN902) ocorrida no segundo semestre de 2011, no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – UFPE.
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Aluno do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco. Bacharel em Biblioteconomia - UFPE (2010).
3

Aluno do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco. Graduado em Letras - UFPE (2007).

the social sciences, addressing points of tension between the social subject and the objective reality. Through the historical paradigms, the approach of the main methods and research techniques undertaken by Information Science today was reviewed, setting it as an emerging and plural epistemology science. Therefore, contetualizes the Information Science among social changes arising by the technological imperative on Information Society, economy and culture. Keywords: Information Science, Social Sciences, Information Society. . Information Economy. Information Culture.

1 INTRODUÇÃO

Uma das grandes premissas da construção do saber na Ciência da Informação (CI) é a contextualização de sua área de atuação em outros domínios do conhecimento. Desde seu advento, ela configura-se como um campo aberto para formulação e investigação de problemas, articulada interdisciplinarmente com vários outros campos científicos, destacando-se a Computação, a Biblioteconomia, a Ciência Cognitiva, a Comunicação (SARACEVIC, 1996) e as Ciências Sociais.

Essa pluralidade de abordagem gerou um panorama histórico-conceitual flutuante, configurado com base nas concepções técnicas e sociais da informação, que desemboca, nesse início de século XXI, em uma autorreflexão e autocompreensão de seu campo epistemológico (MARTELETO, 2007). Dentro dessas abordagens múltiplas, ainda segundo Marteleto, a CI ―vem assumindo de forma mais explícita, por meio das suas perguntas, teorias e métodos de pesquisa, a sua inserção no campo das ciências sociais‖ (p. 24).

Buscando apresentar uma breve revisão do conceito de informação em Ciência da Informação a partir de sua contextualização nas Ciências Sociais, este artigo revisa as principais vertentes da pesquisa social que influenciaram a construção epistemológica na CI, partindo da mudança de paradigmas operacionalizada nas Ciências Sociais, aqui debatidas do ponto de vista de Carlos Cândido de Almeida, e reencontrando a teoria dos sistemas, elaborada por Bertalanffy (2010).

Dialogando com esse plano teórico, é problematizada a delimitação da atuação da CI, tendo em vista a informação, como objeto de estudo dessa ciência, suscitar debates tanto em torno da tecnologia informacional como em torno da informação enquanto fenômeno sócio-cultural e técnico-científico. Um quadro evolutivo da formação de sua atuação é mostrado, ao qual dá sequência um panorama histórico dos paradigmas na área, tentando ilustrar as mudanças que tenderam aproximar a CI das Ciências Sociais e dos entrelaçamentos culturais na modernidade.

2 CONTEXTUALIZANDO AS CIÊNCIAS SOCIAIS

Segundo Almeida (2007), a visão que detemos hoje das Ciências Sociais é um reflexo da cisão do mundo fisicalista em relação à necessidade de organizar o conhecimento empírico e secular da realidade que nos cerca. Ora, se para os antigos gregos os preceitos da moral, das artes, da filosofia e das ciências constituíam uma unidade na qual corpo e espírito compreendiam o equilíbrio e a essência das coisas, é a partir do século XVI que temos

uma separação entre a filosofia e as ciências físicas e naturais, a partir do aumento da importância do trabalho experimental e empírico, gerando uma hierarquização do conhecimento com base numa legitimidade sócio-intelectual que opunha ciência à filosofia (ALMEIDA, 2007, p.97).

A institucionalização dos modelos acadêmicos e o seu afastamento da realidade do mundo social legitimaram ainda mais esse quadro conflituoso. Profundamente influenciada pelo positivismo, as Ciências Sociais integraram um modelo racionalista de organização e compreensão das crescentes mudanças sociais, tomando a física newtoniana como padrão estrutural do seu pensamento, de forma a empreender uma validação do conhecimento empírico da realidade objetiva (ALMEIDA, 2007).

Assim, as Ciências Sociais adotaram os princípios do pensamento dialético de modo a compreender a totalidade da realidade como algo mutável e de natureza contraditória na qual se admite a existência de um sujeito cognoscente, um ente social integrante das constantes transformações e tensões de fenômenos sociais diversos.

das telecomunicações e dos espaços urbanos na sociedade — delegam-nos a existência de um novo insumo na modernidade de inegável valor: a noção do elemento ―informação‖ ou do processo de ―se informar‖. Tais análises examinam sua natureza como uma ciência social. entre as quais emerge os estudos relacionados à informação (BERTALANFFY. as Ciências Sociais compreendem um sistema de grupos humanos na sociedade. a sociologia passou a estudar os sistemas humanos desde as organizações mais básicas até as formações mais complexas do tecido social passando pelas relações de poder e controle. As mudanças sociais providas das novas formas de comunicação — impulsionadas pelo imperativo tecnológico da informática. profundamente influenciada pelas tecnologias da informação. o espírito das ciências sociais pôde ser sentido na emergente Ciência da Informação. um fenômeno multidisciplinar que altera nossa forma de analisar e conceber a realidade objetiva ou sensorial. . que ele classificou como ―ciência dos sistemas sociais‖. constituindo um sistema de práticas e vivências sociais. 3 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: UMA CIÊNCIA SOCIAL? A conceituação e delimitação do campo de estudo da Ciência da Informação continua sendo foco de discussão na literatura científica. na perspectiva da informação como fenômeno contextual e relacional — contudo. um conceito não consensual. o que gerou múltiplas formulações teóricas a partir da concepção de agrupamentos da matéria em domínios ou sistemas determinados. Na acepção do autor. de certo modo. a ideia de sistema figurou-se de grande importância na compreensão não apenas dos problemas da história da humanidade como dos demais sistemas provenientes da ciência moderna. junto a seu campo de atuação. cuja interdisciplinaridade confere-lhe novas abordagens metodológicas nos processos comunicacionais e sociais que envolvem a informação.Na perspectiva de Bertalanffy (2010). 2010). A exemplo de algumas disciplinas citadas pelo autor. De tal modo. Assim. certas condições de organização dos organismos biológicos assemelham-se às estruturas das sociedades humanas.

desperta discussões em torno do caráter científico. de base newtoniana. Primeiro. tal atitude já reivindicava uma validação do fazer científico de suas atividades como reflexo de reconhecimento e realização. nos informa Bertalanffy: O século XIX e a primeira metade do século XX concebiam o mundo como um caos. 2011). resultado de mutações casuais e da sobrevivência no moinho da seleção natural. na exploração dos fenômenos sociais logo põe em xeque as aspirações dos primeiros cientistas sociais. Depois. A impossibilidade desse rigor metodológico.] Era o caos quando.O questionamento do status científico da Ciência da Informação.. 2010. esse pensamento dominante na década de 1980 não levou em consideração a natureza do objeto de estudo e as particularidades da disciplina científica na realidade local. pela própria transformação epistemológica ocorrida no seio das ciências naturais. o que viria a rebater a ideia de uma epistemologia unificadora. p. durante a metade do século XX. pertencente às Ciências Sociais. A importação desmedida de grande parte dos métodos qualitativos da ciência positivista no contexto das Ciências Exatas refletiu-se nas atuais abordagens de investigação que hoje utilizamos nas Ciências Sociais. Sobre isso. herança do modelo das ciências naturais. conforme a teoria corrente da evolução. 99) pronuncia-se dessa forma: . De certa maneira. [.. o mundo como organização.] Estamos agora procurando outra concepção básica do mundo. 239-240) Também sobre o assunto. Contudo. o mundo vivo apareceu como um produto do acaso. pelo surgimento de várias disciplinas dentro da própria Ciência Social. [. p. A pluralidade e ambiguidade dos métodos existentes dificultavam ainda mais a escolha de uma metodologia adequada à realidade da pesquisa e coleta de dados empíricos junto aos seus pesquisadores. que abrangeria a complexidade de todos os problemas mediante conceitos aplicáveis a todos os fenômenos (ALMEIDA.. conforme argumentou Braga (2007). e não mais como caos e acaso. [destaques do autor] (BERTALANFY.. que passou a conceber o mundo como organização. Almeida (2011. rigidez metodológica e objeto de estudo da ciência formal.

02). principalmente. É a partir desse momento que as ciências sociais buscam entender os fenômenos da sociedade como sistemas complexos. igualmente. 2000. Esse cenário atenta para um rigoroso cuidado na adoção de métodos compatíveis com a pesquisa a ser desenvolvida. gerando constantemente novas treliças interdiscursivas. lançando mão da combinação de tipos de pesquisa e metodologias diversas. caracterizados pela autorregulação e pela autoorganização (MORIN. considerada como um novo modelo científico na modernidade. p. 100). o mundo nãoocidental. ligada a variedade de grupos ―esquecidos‖ pelas ciências sociais: as mulheres.. A influência dos modelos de quantificação e análise das Ciências Exatas refletiu-se numa verdadeira imposição matemática sobre as demais ciências (ARAÚJO. foi a ambição de universalismo das ciências sociais. de modo que as investigações de cunho empírico-analítico passaram a valorizar a crítica objetiva da realidade e.]. 2003). quando busca a compreensão dos fenômenos sociais e os impactos tecnológicos nele inferidos através da informação na mediação de valores simbólicos e materiais.]) e também de natureza epistemológica (novos modelos de análise e/ou problematização de conceitos e premissas já assentados no campo das ciências sociais) [.. Desse modo. nos quais os elementos individuais e coletivos são capazes de modificar o próprio sistema. Este questionamento era de natureza política (a origem social dos investigadores. não se limitando a um único caminho para análise de dados. no interior das Ciências Sociais.]‖ (ALMEIDA.. pela referência intrínseca de seu objeto [informação] a todos os outros modos de produção de saberes. embora necessitando de maior maturidade na delimitação de suas estruturas epistemológicas. os grupos minoritários. 1999..Especialmente a partir do final da década de 60 o que se questionou. ... e por outro lado. 2002) e por ―unidades múltiplas e interativas [. etc. [. a Ciência da Informação destaca-se. p. Isso fica muito claro no caso da Ciência da Informação. pela natureza estratificada e poliepistemológica dos fenômenos ou processos de informação (GONZÁLES DE GOMES.. as inferências contidas no processo de estruturação do conhecimento.. 2011.

oriundos desta nova modelagem de ciência criada na modernidade e teria como piso seu objeto. Assim. A Ciência da Informação. originalmente. a CI poderia ser considerada como uma disciplina. assim.136) Nesse contexto. 1999. as novas abordagens paradigmáticas conferidas pela Ciência da Informação identificam-se com as Ciências Sociais na mediação dos estudos socioculturais entre sujeito e objeto. à interação de indivíduos na sociedade. o conceito de ciência é uma construção ocidental recente e. por meio da interface com diferentes campos e domínios do saber (. apesar de seus problemas de delimitação de território epistemológico. p. [e] dirige-se. . uma vez que a informação reflete a influência mútua de sujeitos. Desse modo. a Ciência da Informação percorreria um trajeto que compreenderia diferentes campos do conhecimento.138). mas a sua natureza. seria aquela disciplina científica voltada para o estudo da informação em suas diferentes manifestações e fenômenos. instrumentalizando-se nos espaços teórico-conceituais das disciplinas que formariam este trajeto. o limite entre sujeito e objeto de estudo poderia comprometer a racionalidade e a objetividade deste campo de estudo dos processos sócio-culturais. de modo marcante. usuários e produtores de informação pelo viés do compartilhamento disciplinar com outras áreas do conhecimento: A Ciência da Informação tem sua atuação voltada aos processos informacionais no interior da comunicação.. adequado e inovador (AZEVEDO NETTO. 1999. Assim.Para Azevedo Netto (1999). Por isto. objetivos e demanda de estudos.. pode-se considerar a Ciência da Informação como uma disciplina que teria sua teoria. p. ainda estariam centrados na esfera de domínio das Ciências Sociais (AZEVEDO NETTO. 1999. portanto a sociedade. no interior do social. suas ações coletivas. em relação às Ciências Sociais. p. obrigatoriamente. já que marca a distinção entre o sujeito e o objeto. seus atores. explica o autor. não se permitiria que seus objetos de estudos fossem dinamizados à exigência particular dos fenômenos sociais e humanos: É na dicotomia sujeito-objeto presente nas diferentes disciplinas científicas que se apresentam os problemas. no interior do tecido social. também de processos e ―obstáculos sócio-culturais‖ (AZEVEDO NETTO. a Informação. a ciência surgiria. fundamentação.).139). portanto. metodologia e prática dentro das Ciências Sociais.

de qualquer lugar e da maneira mais adequada. tal como a chamada "revolução industrial" modificou. 2002). a formação mais sólida de uma ―indústria do conhecimento‖ influenciando profundamente as relações sociais. sendo utilizada ora como instrumento de inclusão e desenvolvimento. Por tecnologia entende-se todo um conhecimento teórico vinculado à sua prática. ora como forma de alienação e poder. p. p. as atitudes e o comportamento e. substituindo os modelos tradicionais da sociedade industrial. (GRUPO TELEFÔNICA NO BRASIL. XX. (Ibid. com isso. antagônico ao caos compreendido pela filosofia mecanicista. ela busca compreender o comportamento humano resultante de um sistema holístico de conhecimento no qual a tecnologia potencializa a memória científica e a dinâmica sócio-informacional. ―Definitivamente.16. as sociedades de fundamento essencialmente agrário. Um dos reflexos mais marcantes desse processo .É no sentido de estabelecer uma concepção de um mundo organizado. Em meio ao inalcançável limiar tecnológico que vivemos na atualidade.17). no último quarto do século XIX. a cultura e a própria sociedade‖. que repousa o pensamento científico e as atitudes da Ciência da Informação. A Sociedade da Informação se contempla com o efeito de uma mudança ou deslocamento de paradigma nas estruturas industriais e nas relações sociais. Nesse contexto. instantaneamente. 4 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E SOCIEDADE A partir dos anos de 1970 observamos o surgimento da expressão ―sociedade da informação‖ ou ―do conhecimento‖ para denotar uma nova organização social na qual a informação passou a ser a mola propulsora da economia. alterando as formas empíricas e comuns de lidar com determinado fenômeno (CHAUÍ. 2010). O acesso ilimitado à informação por meios tecnológicos cada vez mais complexos vem contribuindo para transformações sociais. é notável já partir da segunda metade do séc. empresas e administração pública) de obter e compartilhar qualquer informação. as novidades tecnológicas chegam a transformar os valores. Sociedade da Informação é um estágio de desenvolvimento social caracterizado pela capacidade de seus membros (cidadãos. A expressão "Sociedade da Informação" designa uma forma nova de organização da economia e da sociedade.

2007. Segundo Shapiro (1999) em seu pensamento econômico. uma vez criado. Isso conduz a uma economia que é bem diferente da economia de bens físicos. . mas também da economia da abundância embalada pelos imperativos tecnológicos da nova ordem mundial que então se estabelecera. p. Ela surge como a base de uma nova economia emergente (oriunda das seções não-agrícolas e não-industriais das economias industriais avançadas) na era Pós-industrial.19). importância e variabilidade no mercado.1 A informação nas dimensões sócio-culturais O complexo evolutivo das ações humanas sobre a natureza apresenta-nos a idéia de uma ―cultura informacional‖ voltada à reflexão social dos processos de transformação e difusão do conhecimento na modernidade tendo em vista a institucionalização racional dos pilares sociais que regem nossa forma de vida Em nossos estudos sobre a relação entre cultura e informação temos empregado a idéia de cultura informacional para estudar os processos macro-sociais e micro-situacionais que acompanham as transformações do projeto iluminista de sistematização dos conhecimentos e técnicas produzidos no ocidente moderno com vistas ao novo regime de verdade (M. o custo-produção de um bem pode levar uma quantidade significativa de matéria ou energia em sua criação. sob o custo de sua produção.. Abrange conexões entre a Economia e a Ciência da informação que trata da informação como mercadoria e bem de produção necessária às atividades econômicas. Os bens informativos pode ser reproduzidos praticamente a custo zero. por exemplo. sua escassez pode ser interrompida praticamente sem custo algum (Ibid. a economia de informação refletiu-se na esfera social não apenas como um estudo convencional da economia da escassez. mas não custa praticamente nada para ser reproduzido. que inevitavelmente se refletirão em seu custo (Ibid. Assim. os bens que contém em cada unidade uma quantidade fixa de matéria e energia consumidas.desembocou na Economia da Informação. 1999). (MARTELETO. 4.. 1999). Foucault) que se organiza com base na racionalidade e ao novo regime de poder com a institucionalização do Estado moderno. o que significa que.

Conforme: O vetor da cultura informacional passa a ser a instituição escolar. proporcionando a formação de um mercado de bens culturais. cada um desses pilares sociais passa a agir de maneira autônoma. é nesse contexto de modernidade cultural. Nesse contexto. de novas formações sociais européias. o homem reconhece sua realidade social a partir do seu grau participativo na estrutura produtiva do social e na apropriação dos bens simbólicos e materiais por ela .Conforme Marteleto (1994) o racionalismo científico inaugurou a partir do séc. sócio-políticos ou técnico-científicos. pois é ela que prepara e classifica os sujeitos sociais entre produtores e consumidores de bens culturais no espaço de um mercado de bens simbólicos que se organiza e se firma com o próprio desenvolvimento do capitalismo. (MARTELETO. em todos os seus níveis. da moral e das artes. XVIII.118) Ainda segundo a autora. com a distinção operada pela sociedade burguesa em expansão entre a cultura como mundo das idéias e dos sentimentos elevados e a civilização como mundo do trabalho. Para a autora. instituindo a autonomia das ciências. de modo a encarar seu cotidiano e a resolução dos problemas que deles decorrem com suas próprias instituições e especialistas. XVIII um novo processo nas relações entre os setores sócio-culturais na economia industrial. a informação age na mediação de sentidos na produção do conhecimento social através da sua transmissão no cultivo de valores na esfera educacional por excelência.19) Assim. p. influenciando a conduta e a cultura material de indivíduos e grupos sociais na sistematização dos chamados ―regimes de poder‖. p. o racionalismo caminhou para a ampliação de outros setores sociais. instituindo seu caráter público: A publicização da cultura como matéria informacional. A partir de então. uma vez que as escolas e universidades constituem os meios de reprodução social que passam a intervir no processo ideológico do social. da acumulação e da reprodução material. 2007. 1994. encontrou seus princípios no séc. (MARTELETO. das novas relações de produção e consumo que temos os primeiros indícios da informação vinculada à elaboração da cultura. seja em seus componentes estéticos.

Nisto.‖ (ADORNO. A noção de uma ―reserva simbólica‖ como fora imaginado por Marteleto (2007) em que afirma ser o ―espaço das subjetividades. Assim. Os críticos da cultura ajudam a tecer o véu. p. Esses ―críticos especializados‖ passam a intervir no processo ideológico do social influenciando a conduta e a cultura material de indivíduos e grupos sociais.47). . ―as prerrogativas da informação e da posição permitem que eles expressem sua opinião como se fosse a própria objetividade. 2002. Assim.20) onde podemos entender que a ―acumulação do excedente informacional‖ gera igualmente conflitos na recepção e organização desse mesmo excedente na distribuição social. conforme alegou Chauí (2006). recriando fatos e destituindo o pensamento crítico do sujeito em favor de uma ―sondagem de opinião‖ não refletida sobre os fenômenos sociais. destituindo a autonomia crítica individual e do livre acesso à informação como parte integrante desse processo.produzidos como símbolo de poder e realização. uso e transmissão da informação e na maneira como esta entrevê na racionalidade do consumo dos bens culturais. Entender esse sistema implica no reconhecimento no modo de interação de grupos e setores sociais em seus hábitos cotidianos. p. as circunstâncias do consumo nos setores sociais circunscrevem a informação na dinâmica econômica e sociopolítica global de interesses e planejamento de mercados. acreditamos que a cisão entre produtores e consumidores de informação trouxe cada vez mais uma ―reserva de mercado informacional‖ de modo a legitimar uma dependência dos sujeitos nas instituições e nos representantes ―eleitos‖ pelo encantamento da mídia informacional. Mas ela é unicamente a objetividade do espírito dominante. onde os sujeitos realizam seus processos interpretativos e de confronto com a ordem institucional e de poder dos conhecimentos e matérias informacionais‖ traduz os pólos de tensão entre esses mesmos produtores e consumidores de informação na disputa pela ―apropriação situadas dos sentidos produzidos socialmente‖ (MARTELETO. 2007.

unicamente. relacionando-a com os efeitos da comunicação e do consumo pertencentes a um mercado simbólico de poder que detém os meios de valorização da produção cultural. reconhecendo o papel de mediadores sociais nos processos de consumo globalizados. 1999. as quais poderiam refletir uma estrutura ―sócio-antropológica da informação‖ . 1999. a importância dada pelo autor ao relacionar produtores e receptores de bens de consumo. cabe olhar a informação num campo conceitual e investigativo mais amplo na Ciência da Informação. p.78). seu processo de construção como objeto só se complementa. práticas e representações dos sujeitos cada vez mais mediadas por um modo competente de ser e estar em sociedade (MARTELETO. Na leitura antropológica da informação. onde os dominadores capturariam os receptores: entre uns e outros se reconhecem mediadores como a família. Sabe-se que um bom número de estudos sobre comunicação de massa tem mostrado que a hegemonia cultural não se realiza mediante ações verticais. o consumo é algo que denota um conflito desigual de interesses entre classes sociais na recepção e apropriação de bens simbólicos. Conforme demonstrado por Canclini. o bairro e o grupo de trabalho. de dominação.7) No estudo multidisciplinar proposto por Canclini na tentativa de estabelecer uma ―teoria sociocultural do consumo‖ destacamos duas dimensões racionalistas levantadas pelo autor.Para Canclini (1999) citando Manuel Castell. uma vez que se encontram distanciados na participação da estrutura produtiva daquilo que a sociedade produz e utiliza (CANCLINI. concretamente. Entre esses mediadores. Desigual. quando se levam em conta. materiais e culturais. porque nem todos concorrem igualmente nessa mesma distribuição. p. A comunicação não é eficaz se não inclui também interações de colaboração e transação entre uns e outros (CANCLINI. quanto as relações. Nessas análises deixouse também de conceber os vínculos entre aqueles que emitem mensagens e aqueles que as recebem como relações. delineia uma nova perspectiva nos estudos da comunicação de massa em torno da hegemonia cultural.76). p. tanto as estruturas materiais e simbólicas de um dado universo cultural. 1995.

como concebido pela Biblioteconomia tradicional. mas sim a da escassez desses bens e da impossibilidade de que outros os possuam‖ (CANCLINI. em que a comunicação se faz como processo de mecanismo. comunicação e uso. propondo-se a tratar um saber.25) e não em sua codificação técnica ou na coisificação material. em que se realiza a expansão do capital esse reproduz a força de trabalho‖ (CANCLINI. esta última. 5 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. p.80) O uso da informação social confunde-se nas dimensões de trocas simbólicas e materiais entre sujeitos na forma do consumo. a atuação da Ciência da Informação mostrou-se fruto de uma demanda do conhecimento social. 2007.77). OBJETO E SUJEITO Historicamente. uma ―racionalidade econômica‖ pela qual o autor concebe o consumo como ciclo de reprodução social definido pela ―geração de produtos. de . 1996). científico e tecnológico. Por último. o produto (LE COADIC. ao passo que a informação.como meio de apropriação material e distinção simbólica na diferenciação da escala social. parte intrínseca na dinâmica social visto que na Ciência da Informação (adepta aos conceitos de informação no campo social) importa a concepção do objeto informacional orientado ―pelos caminhos dos sentidos e das ações humanas‖ (MARTELETO. p. 1997. Primeiro. p. Nela Canclini defende a construção das relações sociais ―pela apropriação dos meios de distinção simbólica‖ na coerência em que sujeitos de determinada classe social partilham de uma mesma forma de agir na vida social. ―os aspectos simbólicos e estéticos da racionalidade consumidora‖. 1997. o que inclui os modos de como se informam e transmitem sua cultura a terceiros como reflexo da significação da informação no processo receptivo e cumulativo de apropriação material na diferenciação da escala social: ―A lógica que rege a apropriação dos bens enquanto objetos de distinção não é da satisfação de necessidades. Consumir é usufruir da informação segundo concedida por um processo sociocultural de acesso e utilização no ciclo de reprodução social de construção.

A revisão de literatura nessa temática é contundente. em seus programas de pesquisa e na definição do domínio de construção de seu objeto.forma sistemática. ideia esta formatada. 1993. 1995 apud FRANCELIN. PINHEIRO. como outras disciplinas. 2003.. 1993. LOUREIRO. estabelecer-se em um período turbulento para ciência.3) infere: A Ciência da Informação surge no horizonte de transformações das sociedades contemporâneas que passaram a considerar o conhecimento. como Daniel Bell (O Advento da Sociedade Pós-Industrial) e Yoneiji Masuda (A Sociedade da Informação como Sociedade Pós-Industrial) (ALMEIDA. atrelada à concepção de uma sociedade pós-industrial. (WERSIG. 42). GALVÃO. citando. Gonzáles de Gomes (2000. inclusive. p. Todo esse movimento de algum modo compartilhava um ideal de uma nova feição paradigmática das ciências e das tecnologias no contexto econômico e industrial. já naquela época.) Neste horizonte de formação. período no qual se pode situar a ―reestruturação‖ das Ciências Sociais. na gênese da CI. assim como logo acompanhará os processos de reformulação dos paradigmas econômicos. a Ciência da Informação tenderá a incluir. 1995. a Ciência da Informação. 2007). 1998. teve origem relacionada com a revolução científica e técnica que se operou logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1996. Surgida na segunda metade do século XX. a formação de instituições profissionais e científicas. tentando. segundo Saracevic. sociais e políticos. p. A ciência da informação pode ser considerada uma disciplina científica em plena fase de constituição. Estes teóricos começaram a perceber.65) É também nessa época que surge a ideia de uma sociedade da informação. os sistemas de significado e os usos da linguagem como objetos de pesquisa científica e domínios de intervenção tecnológica. cada vez mais crescente na sociedade. a comunicação.. (. que toma características de nova através de rupturas epistemológicas e paradigmáticas ocorridas no decorrer do século XX. por sociólogos. traços e demandas da sociedade industrial. que . GOMES. Desse modo. congressos e pesquisas de profícuo diálogo interdisciplinar. desde a mercadorização da informação a sua reconfiguração como bem de capital e indicador de riqueza. p.

Esse paradigma da CI. que este traço da Ciência da Informação gera uma dupla aderência das condições epistemológicas às condições políticas de acolhida e legitimação das questões de informação. . 2000. segundo Marx. em grande escala. veiculação e aquisição da informação. a qual. naturalmente. conforme observado neste artigo quando aborda. (QUEIROZ et al. essa demanda governamental sugeriu temas de pesquisa e delimitou as formas de produção do conhecimento. já que está constantemente sujeita as mudanças sociais. e consequentemente na ciência da informação‖ (p. As condições políticas e econômicas ao redor do globo agregaram significado amplo no domínio de investigação da informação no modo de conceber uma dialética entre tecnologia e sociedade. as tecnologias. é a ferramenta principal de compreensão das sociedades em diferentes épocas e espaços. os recursos. 2011. situando os fenômenos informacionais dentro de uma perspectiva social. cada vez mais mediada pelas tecnologias da informação e da comunicação.08). o paradigma sociocognitivo vigente. ao seu final. tecendo as relações da dinamização social do conhecimento: Podemos afirmar. 2011). p. que. se controlam. segundo a qual a CI é uma aplicação das ciências sociais (ALMEIDA. as instituições e os atores que intervêm na geração. p. no interior da sociedade. científico e tecnológico: ―em geral. principalmente pelo modo como as pessoas interagem na sociedade contemporânea. mudaram a forma da produção de conhecimento e de insumos. E esta configuração social dos regimes de informação afecta a constituição do campo da Ciência da Informação tanto em sua forma paradigmática quanto em seus conteúdos (GONZÁLES DE GOMES.As relações sociais estão mudando. as atividades. econômicas e tecnológicas. requer sua aproximação teórica com as Ciências Sociais. aproximação essa existente na própria classificação das ciências. assim. transmissão e uso da informação. tratamento. a Ciência da Informação preocupa-se em dialogar com os contextos de produção. os rumos iniciais da Ciência da Informação foram influenciados por governos e nações-Estado que detinham o poderio econômico. em conformidade com as quais se constituem.54-55). Conforme observado por Almeida (2005). se reproduzem e se transformam as práticas.01) Desse modo.

notadamente relacionada aos avanços tecnológicos do período pós-guerra. na ânsia de tornar a informação científica e tecnológica acessível. As conexões interdisciplinares (aí presentes a computação. na comunicação (fenômeno social). os quais definiram inicialmente a CI como o campo de estudo da coleta. p. com o valor agregado à informação. interação indivíduo–informação–sistema). firmaram-se fundamentos sólidos na Ciência da Informação junto ao seu recorte de atuação. contextualizaram as atuais pesquisas em informação como um recurso estratégico e competitivo na administração moderna (SARACEVIC. cada vez mais atuais na emergente sociedade da informação. 1996). Borko (1968). Igualmente. 1968. a comunicação. 1996. mas em todas as áreas do conhecimento. como também nas manifestações e fenômenos da informação presentes no processo de comunicação social e cognitivo. entre outros). recuperação e disseminação da informação. considerou-se prioritariamente a recuperação da informação em documentos de modo a possibilitar análises no campo da quantificação do conhecimento (BORKO. Saracevic caracteriza a interdisciplinaridade da Ciência da Informação ao analisar seu uso nos estudos da ciência cognitiva (usuário. Mikhailov (1969). No início de sua atuação.42-43). 1970. citando Taylor (1966). sua relevância e questões operacionais no interesse da sociedade. Merta (1969). necessidades de informação. Na atualidade. SARACEVIC. os estudos linguísticos. Convém abordar que a Ciência da Informação abrange as propriedades da informação não apenas do conhecimento e sua transferência. e outras disciplinas. a bibliografia e a documentação presenciaram o seu nascimento a partir da segunda metade do século XX. justificando sua interdisciplinaridade na complexa atividade de trabalhar com o comportamento humano: . os quais justificam sua função não apenas no campo tecnológico.Pinheiro (1999) traça um amplo panorama de trabalhos históricos da Ciência da Informação. a estatística. GOFFMAN. armazenagem. Nesse contexto.

essa pergunta torna-se crucial. (CAPURRO. considerando parâmetros objetivos ou situacionais de interpretação.A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO é um campo dedicado às questões científicas e à prática profissional voltadas para os problemas da efetiva comunicação do conhecimento e de seus registros entre os seres humanos. Na sociedade contemporânea. caracterizando um novo segmento social por meio do uso das tecnologias da informação. de uma contextualização muito ampla. portanto. mais precisamente. Sua pergunta-chave é: informação .47). deixando de lado a dimensão semântica ou. 2003. institucional ou individual do uso e das necessidades de informação. . p. institucional e individual de sua atuação. p. Capurro (2007) recorre a uma revisão teórica da construção do conceito informação calcada na filosofia científica como forma de conjugar relações entre as ciências naturais e humanas de modo a somar ideias e significados nas relações linguísticas e científicas na construção do conceito: O conceito epistemológico de informação envolve processos de informação não-humanos. 150). p. apenas reafirmam a importância de sua investigação e instrumentalidade nos contextos social.15) Esses questionamentos não invalidam a condição da CI como disciplina científica. 1996. No tratamento destas questões são consideradas de particular interesse as vantagens das modernas tecnologias informacionais (SARACEVIC. o uso da informação ganha força e importância como elemento econômico e político quando observado o seu contexto no mundo digital. E vice-versa: os processos mentais e sociológicos de seleção e interpretação podem ser considerados usando parâmetros objetivos.para quem? Numa sociedade globalizada. 2007. Que tipo de informação? Para quem? Sob que contexto e especificidade? A ciência da informação se situa entre a utopia de uma linguagem universal e a loucura de uma linguagem privada. (CAPURRO. no contexto social. a chamada sociedade da informação. Trata-se. particularmente em física e em biologia. em que aparentemente todos comunicamos tudo com todos.

por um certo tempo. Tal assertiva assinala a necessidade de novas abordagens práticas e teóricas que não mais admitem a existência de um único modelo científico dominante. 2007. p. (ROBREDO. Os contextos históricos e sociais de uma ciência são modificados à medida que se estabelecem rupturas de paradigmas em seu domínio. a informação está fundamentalmente inserida nas dimensões social e humana. 1976). considerando ―todos os recursos tecnológicos em que se apoiam o seu desenvolvimento e as suas aplicações‖. p. Assim. 2003. sociais. com amparo em distintas abordagens de pesquisa. integrando processos comunicacionais. realidades sociais. . fornecem problemas e soluçõesmodelo para uma comunidade de profissionais‖. dependente da interpretação deste agente receptor (CAPURRO. Essa noção de ―paradigma emergente‖ reflete a pluralidade de conceitos. refletindo a temporalidade de um processo de construção histórica. conferindo ao receptor de uma mensagem a interpretação por meio de processos cognitivos em um dado contexto. Assim.193). cognitivos. podemos considerar que os paradigmas epistemológicos da Ciência da Informação compõem toda uma atividade investigativa em torno do objeto informacional.O autor esclarece que o processo de comunicação do conhecimento agrega características da informação como elemento que traz novidade e relevância (―aquilo que possibilita mudança de estrutura‖) (BELKIN e ROBERTSON. psicossociais. sociolinguísticos.148) 6 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: A CIÊNCIA DO PARADIGMA EMERGENTE Os movimentos históricos vivenciados pela Ciência da Informação levaram à adoção de métodos e técnicas de pesquisa de modo a focar o objeto de estudo e a interpretação dos fenômenos sociais refletidos a cada paradigma que então se estabelecera. estruturas científicas e avanços tecnológicos que interagem na esfera do conhecimento na atualidade. Thomas Kuhn (2003) conceitua o paradigma científico como as ―realizações científicas universalmente reconhecidas que.

223).As rupturas epistemológicas.152). na medida em que – filha do século XX – se enquadra no novo paradigma no qual natureza-cultura-subjetivoobjetivo se misturam e se entrelaçam (ORRICO. uma vez que um mesmo fenômeno quando confrontado em dois momentos distintos da história (cada qual observado por princípios. aceita por uma comunidade científica. conceituam a descontinuidade dos ideais de cientificidade. mais progressiva ou melhor de se fazer ciência. permeia as tendências e particularidades da modernidade. termo cunhado por Gaston Bachelard. pesa profundamente pela dificuldade na modificação dos currículos escolares.39). Considerado por alguns críticos como uma ciência de paradigma emergente.. É sob essa ótica que se deve compreender a CI. estimulando o desenvolvimento de novas metodologias e transformando a prática das atividades científicas. a Ciência da Informação. conceitos. . as ciências surgidas após a eclosão da crise do paradigma dominante tendem a conceber seus objetos de estudo. 2009. O paradigma emergente. 1999. Esse último. pois reflete uma alteração na reprodução do pensamento social vigente. p. tende a ser um conhecimento não dualista que supera as dicotomias até então familiares como natureza/cultura. portanto. subjetivo/objetivo. mas como resultado de diferentes maneiras de conhecer e construir os objetos científicos. p. congregada à multidisciplinaridade do reflexo social no comportamento da informação entre sujeito e objeto na esfera do conhecimento. conceitos teóricos e metodologia de pesquisa sob a nova ordem do paradigma que surge. 152). Segundo Orrico (1999. segundo Boaventura Santos (1997. nem chegam a resultados comuns de análise. experimentações e tecnologias diferentes) não se explicam por teorias antigas. prossegue a autora. de elaborar os métodos e inventarem tecnologias..] verificou-se. [. mente/matéria. (CHAUÍ. muitos níveis dessa transformação resultam na inexperiência do novo. na mudança do fazer científico. natural/artificial. p. uma descontinuidade e uma diferença temporal entre as teorias científicas como conseqüência não de uma forma mais evoluída. p. atendendo uma nova ordem de fundamentação teórica e metodológica. Assim. Um novo paradigma surge nesse cenário. em suas dimensões sociais.

destaca seus três momentos epistemológicos. endossado por Saracevic (1996) e Karl Popper. cada vez mais acelerada pelas transformações das tecnologias da informação. desenvolve meios de preencher lacunas deixadas pelo legado das ciências tradicionais. 7 PARADIGMAS EPISTEMOLÓGICOS E ABORDAGENS DA PESQUISA SOCIAL NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Seguindo o modelo epistemológico de Capurro (2003). para solucioná-los‖. preocupada com o "estudo dos problemas relacionados com a transmissão de mensagens. Tal assertiva converge para o pensamento heterológico da Ciência da Informação. o paradigma emergente não busca a compreensão do mundo pela razão clássica. disseminação. duas vertentes compuseram a Ciência da Informação (ou ―ciência das mensagens‖). sendo a outra a computação digital‖. antes. no sentido de que ―problemas constituem os recortes de qualquer assunto ou disciplina".Carvalho (1999). a biblioteconomia clássica. mostra-nos que a nova abordagem a respeito do paradigma científico na pós-modernidade se deu a partir da influência tecnológica da computação. citando Wersig. pelos problemas que propõe e pelos métodos que escolheu. a Ciência da Informação transcende o modelo teórico-epistemológico das ciências totalitárias e positivistas. armazenagem. Capurro (2003). interpretação. A segunda refere-se ao impacto causado pelas tecnologias computacionais ―nos processos de produção. as quais delinearam novos paradigmas e tendências de pesquisa. Primeiramente. coleta. pois condiciona suas práticas científicas na pluralidade que se exige em meio às incertezas da complexidade social. Segundo o autor. ao longo do tempo. recuperação. os quais refletem uma . mas. ao discorrer sobre o desenvolvimento histórico da Ciência da Informação. organização. Assim. cabendo à CI ―tanto a pesquisa científica quanto a prática profissional. transformação e uso da informação‖.

p. em certa medida. (. descaracterizando o sentido humano no tecido social. As pesquisas compartilham um enfoque teórico no contexto da cibernética e da teoria matemática da informação com vistas à sua operacionalização na transmissão de mensagens. pois. em seu primeiro momento. nesse primeiro momento. Capurro (2003) critica este primeiro momento por excluir o papel ativo do sujeito no processo de recuperação da informação científica e do processo informativo na comunicação como um todo. quantificável. 2007). as preocupações teóricas e se manifestam nas pesquisas do campo da ciência da informação nos últimos 50 (cinquenta) anos. pressupõe uma ―analogia entre a veiculação física de um sinal e a transmissão de uma mensagem‖ (RAMOS. transmitido ao receptor por meio de uma mensagem. Em cada paradigma se encerra um conceito de ciência da informação. É assim que. 58).106. seguindo os preceitos da lógica científica que ambientou seu surgimento (a corrida tecnológica pósSegunda Guerra). no entanto. chamado de paradigma físico (1945-1960). que viriam a caracterizar toda uma era ainda em profundo desenvolvimento. porém essa é uma alternativa que não se pode excluir. Esses paradigmas orientaram e orientam. e orientação filosófica. As mesmas tecnologias da informação.construção teórica e metodológica no âmbito de suas pesquisas. classificação e controle. a CI se fundamentou . além da atualidade. a CI.. definindo seu objeto de estudo (a informação) como um objeto físico. a Ciência da Informação buscou.. passível de padronização. Considerou-se a informação um objeto físico. trouxeram novamente à tona a dualidade aparentemente superada pelas Ciências Sociais: se. na qual uma mensagem sai de um emissor e chega a um receptor. visualiza os vários enfoques teóricos tratados na histórica da ciência da informação e suas tendências em se considerar o objeto de pesquisa concernente a um dos paradigmas. o rigor e o controle. de seu objeto de estudo.) Entretanto. Balizada pela Teoria Matemática da Comunicação. Conforme observado por Almeida (2005. sabe-se que aceitar a existência de apenas três paradigmas reduz as possibilidades de compreensão da história da ciência da informação. É também evidente que estabelecer períodos rígidos desse processo histórico seria arriscado. de Shannon e Weaver. por um lado.

seja ela na estrutura da mente humana. da Sociologia do Conhecimento. atrelada à hermenêutica —. 1980). resultando na modificação causada pelo acréscimo da informação S. Segundo essa teoria. resultando em propostas (. Essa decodificação é imperativa na teoria do Estado Anômalo do Conhecimento (BROOKES.. segundo Almeida. por outro. as pesquisas em CI começam a se preocupar com os processos de cognição. seja no ambiente da inteligência artificial. valorizando assim tentativas de inclusão das dimensões semânticas e . observando-se suas características fenomenológicas e individuais. o indivíduo busca nova informação para preencher essa lacuna. conhecida como a equação fundamental da CI.fortemente nos aspectos técnicos da informática. o que embasou sua constituição epistemológica em um primeiro momento. De extrema importância para compreensão dessa abordagem é a definição de Le Coadic (1996) sobre a informação: conhecimento inscrito e transmitido que comporta um elemento de sentido — sentido este que só pode existir na medida em que há decodificação da mensagem pelo receptor. ao se constatar uma falha no estado de conhecimento (estado anômalo). na forma da expressão K (S) + K = K (S + S). buscaram relacionar o paradigma cognitivo com a recuperação da informação.. Algumas investigações. de acordo com a equação. Assim. influenciada pela mudança de paradigmas nas Ciências Sociais — balizada principalmente pelo ressurgimento. É assim que. o estado de conhecimento original K (S) é modificado pelo conhecimento extraído de uma informação K. nos meandros de uma nova constituição social calcada na revolução informacional que ora se avizinhava.) centradas no processo interpretativo do sujeito cognoscente.. resultando em um novo estado de conhecimento. o simples dimensionamento técnico informacional não foi capaz de abranger toda uma gama de transformações simbólicas operadas nos meandros da sociedade.

quando a informação é conscientemente assimilada e processada é que se pode provocar algum tipo de efeito na modificação deste conhecimento e. O conhecimento como possibilidade do desenvolvimento cognitivo mediado pela informação não se encerra em si mesmo. não há como excluí-lo do processo informacional/comunicativo. o cognitivo. no qual a informação em sua essência vincula-se ao sujeito. ainda não incorporava o universo social em que esse indivíduo estava envolvido.. como resultado da ação humana. pois. o social. . fundamenta-se o segundo momento. cada um traz consigo uma bagagem de conhecimento anterior pré-traduzida e mediada pela informação). Assim. (ALMEIDA et. a predominância de métodos e técnicas que deem suporte a estudos de usuário. 2007. Nota-se. ao discorrer sobre o terceiro modelo epistemológico. uma vez que esse conhecimento é inerente ao próprio sujeito (afinal. p. Capurro (2003). embora representasse uma nova concepção no caminho de uma ―humanização‖ na CI. reagindo individualmente ao processo comunicativo quando na adição de conhecimento. portanto.pragmáticas nos sistemas de Recuperação da Informação. ficando reservada a investigação do usuário em seus aspectos individuais. 22) O paradigma cognitivo. Assim. de se multiplicar e transmutar novos mundos num processo constante e infinito. na literatura desse período. al. sente a necessidade de se partilhar na sociedade. do comportamento humano. com o intuito de possibilitar uma melhor ―gestão de informações‖ a partir da análise de ―como as informações são compreendidas pelos usuários‖. adverte a necessidade de considerar as dimensões sociais e materiais do homem na investigação dos processos informacionais. O sujeito deixa de ser um elemento passivo para ser ―dono de si‖ e busca a informação quando constata uma carência em seu estado de conhecimento.

vimos surgir um novo paradigma dentro da CI: o paradigma sociocognitivo. mais recentemente. especialmente focando a pragmática social envolvida nos estudos da informação. 2005. 1996. É possível concluir que ele deixa importantes contribuições dos paradigmas físico (recuperação da informação) e cognitivo (estudos de usuários) em segundo plano. ou social. Hjørland elabora o conceito de análise de domínio. Dessa forma. em detrimento de outras opções. Cabe citarmos a visão social de Capurro no contexto da fundamentação e prática metodológica da Ciência da Informação como uma subdisciplina da retórica e da hermenêutica: Segundo Capurro. e de suas consequências para a prática social (pragmática).156). Nele. Nesse contexto. Basicamente. mensurável em si. p. formando um novo conhecimento. como disciplina da hermenêutica. a CI poderia encontrar a fundamentação teórica necessária à sua ampliação de interesses. a informação situa-se no modelo social de comunicação. podem oferecer as ferramentas para interpretação do conteúdo da informação. e mais recentemente a angelética. o autor privilegia. a informação deixa de ser um dado isolado. construção e uso (LE COADIC. a partir de uma associação da experiência adquirida diante de um novo fato percebido por meio da interação de conceitos pré-estabelecidos por cada indivíduo. Este paradigma investiga os fenômenos informacionais dentro de uma perspectiva que considera a informação como parte dos processos e práticas sociais e culturais. ele entende que a retórica e a hermenêutica. onde a informação seria melhor compreendida sendo estudada a partir dos domínios de conhecimento (domain . Com relação a esse ponto. sua formação como filósofo ao analisar as possibilidades de fundamentação filosófica e teórica para CI. 23): O paradigma social proposto pelo autor [Hjørland] é o chamado análise de domínio. p. (MATHEUS. Tal interpretação coaduna-se com sua percepção de que tais abordagens também deixam importantes questões sociais em segundo plano. O sociocognitivismo na CI redimensiona o ponto de vista de sua investigação principalmente no que diz respeito à busca de um sistema ideal de linguagem e representação da informação (CAPURRO.10). assim definida por Almeida (2007.Assim. 2003). p. para se tornar parte de um contexto histórico e socialmente situado.

no campo próprio dos estudos sociais. manifestados principalmente no âmbito das relações sociais. chamados por ele de ―comunidades discursivas‖. o paradigma de Hjorland propõe como caminho de pesquisa o estudo dos domínios de conhecimento relacionados aos distintos grupos sociais que compõem a sociedade moderna. ou comunidades discursivas. o conhecimento existe apenas dentro dos limites desse horizonte. 44). nesse paradigma. a informação. Bourdieu (1989). é entendida como um fenômeno coletivo. Esses grupos. sociais e históricas de seus componentes. encontram-se atreladas às dimensões culturais. o que obriga os sistemas de informação integrarem seus interesses e conhecimento prévios. linguagem e conhecimento. 2007. Traçando um paralelo com a CI. Essas comunidades são construções sociais compreendidas por indivíduos e. que ele relaciona como sendo os principais: mito. o usuário passou finalmente à condição de um sujeito ativo na construção dos fenômenos informacionais. como tal. quando. . p. ao receber a informação. que são grupos sincronizados em pensamento. língua. 45). Dessa forma. são objeto de interesse da CI na medida em que ―os indivíduos que habitam uma comunidade em comum partilham conhecimentos que são horizontes de pré-compreensão sobre um objeto ou tema‖ (RAMOS. p. o indivíduo ou o grupo atribui a ela um sentido de acordo com seu acervo social de conhecimento. arte e ciência. nos fala das construções de conhecimento operadas dentro das estruturas simbólicas. Para Ramos (2007. inserido em um contexto social e que participa das estruturas de conhecimento e das instituições de memória dos grupos sociais. Já no atual paradigma sociocognitivo.analysis) relacionados à suas comunidades discursivas (discourse communities).

olhamos o passado na compreensão de nossa cultura social. compreendemos que a Ciência da Informação infere-se na instauração de uma nova ordem científica contemporânea. num processo histórico amplo que garantiu o lugar da Ciência da Informação na nova ordem paradigmática que vivemos. a eficácia metodológica‖ (SILVA e RIBEIRO. 2000 apud Robredo. assinalada pela necessidade de um novo paradigma emergente do discurso científico. p. como disciplina pós-moderna. Não basta a importação irrefletida de métodos e técnicas de pesquisa tradicionais sem antes verificar. as variantes políticas e epistemológicas da Ciência da Informação no âmbito das ―configurações sociais do regime de informação‖. este último. cada modelo paradigmático refletiu a intervenção dos processos humanos na cultura de modo a produzir ―excedentes informacionais que renovam o escopo e abrangência do programa de pesquisa científica‖.137). como assim orientou Gonzáles de Gómes (2000). 2003. Assim. pois. a própria natureza e caráter poliepistemológico da Ciência da Informação necessita de uma orientação metodológica em sua pesquisa de modo a identificar sua delimitação e práxis ―no aprofundamento da base teórica do paradigma científico emergente.CONSIDERAÇÕES FINAIS Pelo exposto. porque dele depende. compreendemos a necessidade de contextualizar o conceito de informação nos fenômenos sociais que se observam na linearidade social e . técnicas e métodos que englobem os processos de investigação do conhecimento da sociedade por meio da informação. conforme a autora. cabe-nos a reflexão do conhecimento de nossas práticas profissionais enquanto pesquisadores da informação e como devemos desenvolver as abordagens de nossos programas de pesquisa para compreendermos a pluralidade do objeto de estudo em questão. Assim. caracterizado pela passagem do conhecimento científico-natural para o científico-social de modo a cruzar conceitos. Nisto. No campo da cultura informacional. afinal.

Theodor. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) Universidade Federal de Santa Catarina . cremos que todos esses elementos interagem entre si para um novo olhar do campo informacional nas configurações da racionalidade pós-moderna. traduz um caráter poli-epistemológico do fazer científico no reflexo sócio-cultural de sentidos das relações e intervenções humanas sobre a natureza. Marco Antônio de. modificando e ampliando os cenários das dinâmicas culturais.152) REFERÊNCIAS ALMEIDA. portanto de um movimento em cuja essência repousa as Ciências Sociais. 4. A mediação da informação na produção de sentido social e nas trocas simbólicas entre sujeito e objeto cultural na ordem do conhecimento. 2007.histórica.UFSC.‖ (ORRICO. In: LARA.ed. Sejam estes os insumos educacionais. Florianópolis. a reprodução de discursos políticos ou a geração de bens simbólicos. Marilda Lopes de. Asa. FUJINO.). . Indústria cultural e sociedade. acarretou múltiplas dimensões da vida social. Trata-se. 1999. Florianópolis. Informação e contemporaneidade: perspectivas. ALMEIDA. Carlos Cândido de. Assim. Informação. a influência sócioeconômica da indústria de consumo. Acesso em 15 abr. p.pos. cultura e sociedade: reflexões sobre a ciência da informação a partir das Ciências Sociais. ―É sob essa ótica que se deve compreender a CI. 395p. 2002.br/sites/default/files/file/cienciaInformacao/informacaoCont emporaniedade. 119p. Disponível em:http://www. 2011 ADORNO. São Paulo: Terra e Paz.usp. O atual paradigma emergente. como prática e representação de grupos sociais. dentro do qual se firma a Ciência da Informação. na medida em que – filha do século XX – se enquadra no novo paradigma no qual natureza-cultura-subjetivo-objetivo se misturam e se entrelaçam. culturais e materiais. O campo da Ciência da Informação: suas representações no discurso coletivo dos pesquisadores do campo no Brasil.pdf. Daisy Pires (Org. NORONHA. 2005.eca. 2005. a influência das tecnologias da comunicação de massas. os imperativos da comunicação midiática. Recife: NÉCTAR.

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