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Cap 13 - Bioquímica da Função Renal

Cap 13 - Bioquímica da Função Renal

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Capítulo 13 Bioquímica da Função Renal

s rins exercem três funções primordiais para o organismo: a filtração, excreção e reabsorção do sangue, sendo os responsáveis pela manutenção do estado de equilíbrio entre as substâncias filtráveis do sangue em relação às excretadas na urina (Tabela 13-1). Através do conhecimento das concentrações plasmáticas dos elementos excretáveis pela urina é possível avaliar uma possível disfunção renal quando houver um aumento das concentrações plasmáticas desses elementos. Uma outra maneira de se avaliar a função renal, consiste em detectar substâncias que, normalmente, não deveriam ser encontradas (ou em baixas concentrações) na urina.
Tabela 13-1 - Relação entre a concentração máxima de alguns componentes sangüíneos que são filtrados, reabsorvidos e excretados pelos rins, diariamente. COMPO FILTRAEXCREREABPOÇÃO ÇÃO SORÇÃO NENTE (%) H 2O 180 litros 1,5 litros 99,2 Na++ 24.000 mEq 100 mEq 99,6 K+ 700 mEq 50 mEq 92,9 5.000 mEq 2 mEq 99,9 HCO3Glicose 180 g 100 Ácido 1,0g 700mg 25% úrico Uréia 100g 50g 50% Creatini1,5g 1,5g 0% na Proteínas 3.600 mg 180 mg 95,0

O

decendo a um equilíbrio eletrolítico, principalmente. Aparentemente, há um paradoxo entre as funções de filtração e reabsorção uma vez que a maioria do sangue filtrado é reabsorvido e a urina formada corresponde apenas a uma pequena porção em relação a imensa quantidade de sangue filtrada diariamente. Entretanto, é nesta capacidade seletiva de excreção somente do material estritamente desnecessário para o organismo que reside a importância da manutenção da integridade renal para o bom desenvolvimento dos processos metabólicos do ser humano.

A urina é um filtrado plasmático formada após um processo ativo de filtração através dos néfrons, formado pelo corpúsculo renal e por túbulos renais (Figura 13-1). O corpúsculo renal corresponde a um emaranhado de vasos capilares denominado glomérulo renal envolvido pela cápsula de Bowman. Os túbulos renais são os receptores do filtrado resultante da passagem do sangue pelos glomérulos, sendo que durante o trajeto deste filtrado pelos túbulos proximais, alça de Henle e túbulo distal haverá a reabsorção de água e alguns componentes químicos, obe-

Figura 13-1 -Representação esquemática do néfron. As setas mais espessas e negras, indicam o processo de reabsorção ativa, enquanto que as setas mais finas indicam os processos de absorção passiva. As setas espessas brancas indicam as substâncias excretadas nos túbulos.

O Néfron
É a unidade fisiológica dos rins, havendo mais de um milhão em cada, o que garante uma longa área de contato entre as células justaglomeraulares e o filtrado glomerular. Os números relacionados com a função glomerular atingem marcas surpreendentes: a superfície coberta pelos túbulos renais atinge

Em condições fisiológicas normais. provendo a passagem somente de água e moléculas de baixo peso molecular. O aparelho glomerular localiza-se na camada cortical dos rins e é formado por células especializadas na função de filtração semipermeável. que corresponde à urina. fosfatos. É o caso da uréia. maior a porção tubular que adentra na camada medular. capta o produto final do processo de filtração. portanto. Uréia É o principal produto final do metabolismo protéico (Figura 13-2). A uréia e creatinina são metabólitos nitrogenados excretados em grande quantidade e reabsorvidos em pequena ou nenhuma quantidade pelos rins. O ácido úrico é um outro composto nitrogenado abundante na urina. Outros produtos nitrogenados (como o ácido úrico e amônia) também fazem parte da composição da urina e podem. contudo apenas em torno de 1. Avaliação Laboratorial da Integridade Renal Compostos nitrogenados presentes na urina são os principais marcadores da função renal. 1. caso fossem dispostos em linha reta. possibilitando rápido diagnóstico e tratamento. assim como a creatinina (metabólito muscular). O néfron é constituído por três partes: 1) o glomérulo. apesar de não fazer parte da constituição anatômica do néfron. sendo que sua concentração plasmática é extremamente baixa em comparação às altas concentrações urinárias (Tabela 13-1). correspondente à alça de Henle. a função secretora dos rins é fundamental no controle da concentração plasmática do íons K+ e do íon H+ responsáveis pelo equilíbrio hidroeletrolítico e ácido-básico. como veremos adiante. são excretadas na urina. creatinina. revelando uma insuficiência renal quanto há um aumento significativo de suas concentrações plasmáticas aliado a uma diminuição da excreção urinária. onde se observa os animais cada vez mais independentes de água necessitando. possuindo um limiar de excreção baixo e um grau de absorção mínimo. porém é originado do metabolismo das purinas e não do catabolismo protéico. cerca de 80% do nitrogênio urinário corresponde a uréia. sulfatos. O ácido Ricardo Vieira . íons (principalmente Cl. o aparato de membranas responsáveis pela filtração glomerular possui uma área de cerca de 3. o que indica que a maior parte do filtrado é reabsorvido após a filtração inicial. que corresponde a duas vezes a superfície corpórea do homem. servir de indicadores de disfunção função renal. Algumas substâncias presentes no filtrado glomerular são indesejáveis no organismo. ainda.Fundamentos de Bioquímica . nitratos. Umas poucas substâncias. é comum encontrá-las em baixa concentração plasmática e alta concentração urinária. Este fato indica que o aumento da área de reabsorção é um caráter evolutivo relacionado com o terrestrialismo. É interessante o fato de que quanto mais terrestre é o animal.5m2. 2) os túbulos e 3) um duto coletor que. proteínas). cerca de 1. Desta forma são as dosagens plasmáticas principais na avaliação da integridade renal. Neste caso. É o caso de alguns medicamentos (ou seus metabólitos) e uma pequeníssima quantidade de amônia. A reabsorção de nutrientes (glicose. um processo de regulação da água excretada muito bem desenvolvida para evitar perdas danosas ao organismo. ácido úrico e fenóis.5 litros de urina são formados diariamente.Bioquímica da Função Renal 198 corresponderia a cerca de 30 km. podendo ser detectada em estágio bastantes incipientes da doença.500 litros de sangue passam diariamente pelos rins (aproximadamente 200 vezes a quantidade de sangue de um indivíduo) e cerca de 180 litros de filtrado glomerular são formados. A água e certos eletrólitos (dependendo do equilíbrio hidroeletrolítico) são absorvidos por difusão obedecendo aos mecanismos de troca osmótica.e Na+) se processa de forma ativa.Capítulo 13 . Todos são produtos finais do metabolismo e seriam danosos aos tecidos se permanecessem em concentrações elevadas no sangue. aminoácidos. em certas situações. O achado de proteinúria também é um achado de importância capital do diagnóstico laboratorial da insuficiência renal. excreção e reabsorção tubular. Contudo.

: tumores compressivos. Qualquer diminuição na função excretora do rim revela um aumento da uremia (hiperuremia) e a conseqüente diminuição da uréia urinária. havendo reabsorção de parte da uréia filtrada. tumores pélvicos). devido a diminuição na síntese hepática da uréia havendo o aumento conseqüente da amônia que não é convertida em uréia. tuberculose renal.Bioquímica da Função Renal 199 úrico não é um bom parâmetro de avaliação renal devido haver alterações metabólicas ou alimentares que aumentam a sua concentração plasmática (hiperuricemia) sem que haja a disfunção renal. esclerose renal. mantendo-se a sua concentração plasmática (uremia) em torno de 10 a 40 mg/dl. São produzidos.ex. infecção aguda. vesical (p. como no choque traumático ou hemorrágico. diariamente. porém. saturnismo. o que fará a uremia aumentar sem. febre. em torno de 50 a 100g de uréia a partir do metabolismo do grupamento amino dos aminoácidos que ocorre no fígado. Também são observados aumento na uremia decorrentes de obstrução pós-renal no nível da uretra (p. Ciclo hepático da síntese da uréia. além de sofrer interferências de outros compostos nitrogenados. O método clássico de dosagem da uréia. porém. nefropatias. entretanto são encontrados somente em casos extremos de insuficiência hepática não servindo. sem haver nenhuma implicação patológica com a função renal. A uréia é prontamente excretada pelos rins.: cálculos. toxemia. os reagentes são corrosivos. Pelo método enzimático. o que impossibilita seu uso em autoanalisadores. Porém há possibilidade de uma uremia de mais de 50 mg/dl (hiperuremia) não associada a causas patológicas renais. como uma forma atóxica de transportar amônia (esta. através da urease. O CO2 é adicionado à primeira molécula de NH3 e ao aminoácido não codificado ornitina na mitocôndria. rim policístico. gerando o aminoácido citrulina que liga-se com uma segunda molécula de NH3. extremamente tóxica). coágulos. queimaduras extensas. Pode estar associada a lesões hepáticas extensas.ex. em virtude de haver aumentos significativos da uremia quando há a realização de alimentação hiperprotéica.Capítulo 13 . Figura 13-2 . cálculos) e até mesmo na uretra. desidratação aguda. Estes achados. É um método bastante estável. A dosagem urinária da uréia isolada não apresenta um parâmetro tão importante no diagnóstico da função renal quanto à dosagem da creatinina urinária.Fundamentos de Bioquímica . descompensação cardíaca. A hipouremia não tem significado clínico na avaliação renal. que penetra na mitocôndria e reinicia o ciclo. há a degradação específica da uréia com liberação de amônia que é dosada por Ricardo Vieira .Representação esquemática simplificada do ciclo da uréia. A dosagem da uremia é um bom método de avaliação da função renal desde que associado então à dosagem de creatinina. no citoplasma. A hiperuremia pode estar patologicamente relacionada a outras causas não renais. portanto como testes de screening para função hepática. Hiperuremia devido a causas exclusivamente renais são observadas na glomerunefrite (podendo atingir taxas de até 300 mg/dl). haver a diminuição da uréia urinária. mas sim por uma alimentação hiperprotéica antecedendo o teste laboratorial. originando o aminoácido arginina que é quebrado em uréia e ornitina. utiliza a reação de condensação a quente com a diacetil-monoxima formando um cromogênio róseo (diazima) que pode ser dosado por métodos espectrofotométricos.

Nos músculos. No fígado. formando um cromogêneo laranja (picrato de creatinina) que pode ser dosado por métodos espectrofotométricos.5 a 1.0 mg/dl já sugere a rejeição de transplantes renais. libera a creatinina (que também pode ser formada por hidrólise direta da creatina). possibilita uma análise rápida e eficaz com alta linearidade e excelente reprodutibilidade. além de possibilitar seu uso em autoanalisadores. que é fosforilada no músculo em fosfo-creatina. estando aumentada sua atividade plasmática quando há lesão muscular. como no caso do infarto do miocárdio sendo excelente indicador laboratorial dessa doença (ver capítulo 17 sobre Enzimologia Clínica). diariamente. hemodiálise ou filtração sangüínea). a arginina é adicionada a glicina gerando ornitina e guanioacetato que.5g de creatinina em resposta à atividade muscular.Síntese da Creatinina. sendo que o aumento acima de 12 mg/dl já indica a necessidade de métodos depurativos do sangue (diálise peritoneal. mas sim com a taxa de exercício muscular. liberando. pela ação da enzima creatinina-fosfo-quinase (CPK). pâncreas e . as concentrações plasmáticas permanecem em níveis muito baixos de cerca de 0.0g/dia em homens com 70 kg de peso e um mínimo de 900mg/dia em mulheres com 60 kg de peso. o que determina que o paciente não realize exercícios musculares intensos antes da dosagem laboratorial. juntamente com a glicólise. então. porém o ácido pícrico é corrosivo e impregna-se facilmente em recipientes de metal. principalmente.5 mg/dl. O inconveniente deste método é que os reagentes são relativamente instáveis. no fígado (Figura 13-3). polietileno ou de silicone.Fundamentos de Bioquímica . por sua vez. o aumento da creatininemia aliado a diminuição da excreção urinária. A creatinina produzida no metabolismo muscular não é reabsorvida nos túbulos. esta glicociamina é convertida em creatina. o que inviabiliza a sua utilização em autoanalisadores. No fígado. é metilado (ainda no fígado) gerando a creatina. cerca de 1. 2. intestino delgado. A enzima CPK é um indicador de atividade muscular e não de função renal. A fosfocreatina corresponde à reserva de fosfato que o músculo recorre para a síntese de ATP em anaerobiose. É um método largamente utilizado de boa reprodutibilidade e linearidade. o anidrido da creatina que corresponde à creatinina. O consumo do fosfato da fosfocreatina. em virtude de a formação de creatinina estar relacionada com a massa corpórea de cada indivíduo. O método enzimático utiliza a combinação das enzimas creatininase (iminohiRicardo Vieira .Bioquímica da Função Renal 200 diversas metodologias (de acordo com o fabricante do kit de dosagem). sendo que em virtude de seu baixo limiar de excreção. o que pode ser facilmente contornado preparando-se uma quantidade de reagente de acordo com a demanda de exames laboratoriais. Os métodos de dosagens clássicos são derivados da Reação de Jaffé que baseia-se na reação da creatinina com o ácido pícrico. a creatina é adicionada de fosfato gerando a fosfocreatina que é uma reserva de fosfato para o processo metabólico muscular. A taxa de creatinina plasmática (creatininemia) não varia com a alimentação hiperprotéica. Figura 13-3 . Um aumento 2.Capítulo 13 . podendo atingir até 2. São produzidos. revela-se um importante método diagnóstico. Creatinina É originária da glicociamina (guanidoacetato) produzida largamente nos rins. Na insuficiência renal. pois há a necessidade de reposição constante de peças destes materiais.

há uma proteinúria significativa que funciona como indicador importante de insuficiência renal. o que pode ser o início da formação de cálculos renais. como o lupus eritrematoso e diabetes mellitus. onde ela é degradada em glutamato e NH3. já que na maioria dos casos a hipertensão arterial é achado comum (ver adiante). havendo a captação dos íons H+ em excesso formando o NH4+ (amônio) que combina-se com o Clsendo excretado como NH4Cl. ser excretado na forma de cristais de ácido úrico. diariamente). Outros produtos de nitrogenados de excreção urinária O ácido úrico é o produto final da degradação das bases nitrogenadas derivadas da purina (adenina e guanina) e é excretado em grande quantidade na urina (cerca de 700mg. Nesta situação. em casos de extrema acidose. Outras causas não renais podem produzir proteinúria. uma imunoglobulina anormal produzida por plasmócitos) ou na secreção de glicoproteínas com alta afinidade por sais de cálcio e fosfato (orosomucóide) nos casos de litíase renal. os níveis de uréia e creatinina podem não ter alterações compatíveis com a gravidade do caso. e este último. só pode ser realizado com eficácia em enzimômetros e autoanalisadores. Em algumas situações patológicas (síndrome nefrótica) a perda de proteínas por via urinária é tão intensa que pode levar à queda das albuminas plasmáticas. a urina adquire um aspecto espumoso semelhante à "clara de ovos". 4. A amônia (NH3) se forma nas células justaglomerulares a partir da ação enzimática da glutaminase sobre a glutamina plasmática que é produzida no metabolismo muscular para eliminar a grande quantidade de NH3 produzida após intenso esforço físico. apesar de extremamente sensível. convertido em uréia. pode-se detectar entre 24 e 136mg/volume urinário diário. 5. levando em consideração que cerca de 95% das proteínas filtradas são reabsorvidas já no túbulo proximal (Tabela 13-1).Fundamentos de Bioquímica . Nas fases iniciais. O destino natural desta glutamina é o fígado. Até a puberdade. o que faz da dosagem da microalbuminoria (dasagem quantitativa de albuminas na urina de 24 horas) um parâmetro indispensável para detectar tal situação patológica. como no caso de hiperproteinemias observadas no mieloma múltiplo (proteína de Bence Jones. os rins desviam a glutamina do metabolismo hepático convertendo-a em NH3 nos glomérulos. Este método. podendo. 3. Entretanto. Provas de depuração (clearence) É a melhor maneira de se avaliar A gravidade uma disfunção renal. onde mede-se a capacidade de excreção renal. condição peculiar para uma insuficiência renal. a proteinúria é imperceptível pelas técnicas usuais de pesquisa baseadas na precipitação ácida ou em técnicas enzimáticas de química seca (tiras reagentes). Ricardo Vieira . Quando se pesquisa proteinúria em urina coletada sem a observação de tempo fixo (como na maioria dos exames de rotina). entretanto. também detecta-se uma proteinúria significativa sem que haja qualquer comprometimento patológico.Bioquímica da Função Renal 201 drolase) e creatinina-hidrolase (aminohidrolase) que. na presença de NADH2 produzem a descoloração do reagente de cor. entretanto. O edema observado dá-se em virtude da hipoalbuminemia. Quando há uma falha no processo de reabsorção tubular ou perda de seletividade na filtração por dano glomerular (característicos da maioria das nefropatias). Após o esforço físico intenso. Em urina coletada durante 24 horas. configurandose a amoniúria uma importante forma de regulação ácido-básica renal. é comum o encontro de uma proteinúria ortostática fisiológica sem implicações patológicas. por minuto.Capítulo 13 . tamanha a intensidade da proteinúria. A síndrome nefrótica é achado comum em patologias que podem levar a degeneração progressiva dos rins. É mais freqüentemente excretado na forma solúvel de urato de sódio. A hipoalbuminemia observada leva à hipotensão. Proteinúria Após a filtração glomerular há a excreção fisiológica de uma pequena quantidade de proteínas plasmáticas para a urina. específico e rápido.

por espectrofotometria após alcalinização da urina. Entretanto. sendo marcado o tempo exato desta micção. Os valores normais estão em cerca de 24 a 36% excretado nos primeiros 20 minutos. grande importância clínica devido a necessidade de se corrigir os valores obtidos multiplicando o resultado por 75 ou 54 (percentuais médio estimado de ação renal) quando o valor de V for superior a 2.62 e 1. isoladamente.ex. entretanto. inclusive o momento em que deve ser tomada medidas terapêuticas extremas como o transplante renal. 11 a 23% após 40 minutos e 5 a 13% após uma hora. como é o caso do método descrito por Rowntree & Geraghty. a concentração de fenolsulfonoftaleína excretada. sendo colhida a urina 20. onde essa substância é injetado por via IM ou IV em uma concentração de 6 mg/ml.Fundamentos de Bioquímica . A utilização de 2 horas como tempo médio é o mais adequado em virtude de a colheita de urina poder ser feita no próprio laboratório.Capítulo 13 . colhendo-se a urina por cateterismo vesical. da creatinina endógenas constitui-se os mais importantes exames laboratoriais para monitorar a evolução de uma insuficiência renal. independente da alimentação. 24 horas). podendo-se fazer a colheita da urina em um tempo um pouco maior (2. Onde: U = concentração urinária do produto excretado em mg/dl V = volume urinário expresso em ml/min P = concentração plasmática do produto em mg/dl A = superfície corporal em m2 O valor de A é obtido no nomograma de Boothby & Sandiford que relaciona o peso e a altura aao valor de A dado pela expressão: A = 167. Esta correção pode se tornar desnecessária se a altura estiver entre 1.: crianças. colhendo-se o sangue para a dosagem de P. colher toda urina que o paciente for capaz de urinar (sem perda de material) e medir exatamente o volume desta micção. um esvaziamento incompleto da bexiga. Uma hora após. Basicamente.Bioquímica da Função Renal 202 da uréia e/ou da creatinina (ou uma outra substância marcadora administrada por via venosa). a prova da fenolsulfonoftaleína (um derivado da fenolftaleína). Tais provas expressam a taxa de filtração glomerular e são os meios mais simples e eficazes de diagnóstico de insuficiência renal. por exemplo. respectivamente além de necessitar-se expressar o valor de V pela sua raiz. a excreção encontra-se diminuída. Algumas provas de depuração baseiam-se na análise da excreção de uma substância estranha ao organismo. obesos). indicando. A determinação da depuração da uréia não possui.0 ml/min. principalmente. relacionando o resultado à massa corpórea (principalmente na análise da depuração da creatinina). desprezando a urina. evitando-se erros na técnica como. o que nem sempre é garantido quando a colheita é de Ricardo Vieira . 12 ou. Na insuficiência renal.2 x peso x altura A correção por A é necessária para evitar análises errôneas devido à interferência em uma massa corporal desproporcional (p.72m. quando V for menor que 2. O paciente é orientado a esvaziar a bexiga. Depuração = U x V 1.0 ml/min. sendo indispensável no controle do tratamento.0 ml/min ou menor que 2. 40 e 60 minutos após a injeção e medindo. até. A uréia plasmática e urinária são dosadas e estimado a depuração diária. O valor assim obtido expressa o percentual de atividade renal. a taxa de filtração glomerular é descrita por: de cada rim. a análise da depuração da uréia e.73 x P A Depuração da uréia É realizada com o paciente em jejum de 12 horas. sendo a diminuição diretamente proporcional à extensão da lesão. podendo-se utilizar esta técnica para avaliação Depuração da creatinina endógena É um método diagnóstico eficaz em virtude da creatininemia ser bastante constante. sob orientação técnica.

É dado ao paciente cerca de 300 ml de água gelada e colhida toda a urina duas horas depois sendo marcado a hora exata desta micção. As glomerulopatias são decorrentes de um processo anatômico ou funcional que compromete as estruturas glomerulares. As provas de depuração. A precipitação inicial dos cristais Ricardo Vieira . que pode ser: ureteral bilateral (intra ou extra-ureteral). aumento de creatinina e uréia plasmática com concentração urinária aumentada (densidade aumentada). fundamental a correção pela superfície corporal uma vez que a creatinina é um metabólito muscular. não deixam seqüelas no funcionamento renal. entretanto. células epiteliais. Em jejum de 12 horas. A oligoanúria é a principal evidência clínica. levando a uma insuficiência renal aguda (reversível) ou crônica (irreversível). diminuição do débito cardíaco. Freqüentemente. aumento na reabsorção tubular de sódio e água. agregados a bactérias. sais minerais e uma matriz protéica e muco. são indicadas para se avaliar a extensão da doença renal para se estabelecer as medidas terapêuticas ou de acompanhamento necessárias.renal Caracteriza-se pela diminuição do fluxo sangüíneo renal (por vasoconstrição ou diminuição da perfusão renal). a lesão renal cursa com hematúria que pode ser franca (visível a olho nu) ou microscópica e assintomática (diagnosticada pelo exame microscópico da urina ou pela caracterização de proteinúria). sendo. quando elevados descartando-se interferências alimentares ou de exercício físico. Didaticamente. entretanto. divide-se a insuficiência renal em aguda (IRA) e crônica (IRC) de acordo com as características clínicas. vasodilatação periférica. é colhido o sangue para a determinação da creatininemia. resultando acentuada oligúria. Em tese. cujo diagnóstico deverá ser concluído pela avaliação clínica.ex. sendo que os processos agudos quando ser revertidos após terapia adequada. principalmente da uréia. Durante as duas horas em que aguardou a colheita de urina. Causas pré-renais ou pós-renais alteram os níveis plasmáticos.Bioquímica da Função Renal 203 mais tempo (p.Fundamentos de Bioquímica . sendo que as causas de obstrução variam de cálculos renais a processos tumorais abdominais. podendo a dosagem comparativa da creatininemia ser decisiva para o esclarecimento da etiologia da doença. ficando o paciente em controle clínico para evitar o avanço da doença.Capítulo 13 . sendo que um aumento simultâneo desses dois parâmetros é indicativo de doença renal. Os cálculos renais são precipitações de vários cristais de baixa solubilidade normais da urina. sendo marcado a hora exata desta micção. 2. Insuficiência aguda pósrenal Caracteriza-se pela obstrução do fluxo urinário. O cálculo é feito sem a utilização dos fatores 75 e 54 utilizados na depuração da uréia. Correlações clínicopatológicas Os níveis plasmáticos de uréia e creatinina. Os níveis plasmáticos de creatinina são bem mais sensíveis que os da uréia. corresponde a um estado grave e irreversível. onde somente o transplante renal configura-se como alternativa de cura. Freqüentemente. o paciente é orientado a esvaziar completamente a bexiga. obstrução do colo vesical ou obstrução uretral. Insuficiência renal aguda pré. alterando a permeabilidade glomerular. As principais causas são: hipovolemia. pelos mais diversos mecanismos etiológicos. 1. A IRC. cursam como uma síndrome nefrótica (alteração não inflamatória) ou uma síndrome nefrítica (de origem inflamatória) onde a insufi- ciência é decorrente da combinação de diversos fatores. constituindo-se em um parâmetro diagnóstico rápido e muito sensível. correspondem à sensíveis indicadores da função renal. aumento da resistência vascular renal.: 24 horas) a menos que o paciente esteja internado. todas as causas de IRA podem lesar o parênquima renal levando a danos irreversíveis se não tratados de maneira eficaz.

anestésicos. havendo a reversão completa do quadro de insuficiência renal. O fosfato amônio-magnesiano contribui com 25% de todos os cálculos. entretanto. sendo que o ácido úrico está presente somente em 5% e a cistina em 2%. Insuficiência aguda renal É a insuficiência renal propriamente dita. que revelam a extensão da obstrução. indicam a necessidade de iniciar-se o tratamento dialítico (diálise peritoneal.: aterosclerose. por este motivo. principalmente em causas isquêmicas. antiinflamatórios não-hormonais. basicamente. entre outros fatores. 4) nefrite intersticial aguda: por hipersensibilidade a drogas como penicilina. dependendo da etiologia. diuréticos. 4) Recuperação funcional: onde o paciente retorna aos níveis normais de uremia e creatininemia. podendo ser encontrado piúria e hematúria. Hg). 2) glomerulares: glomerunefrites primárias ou secundárias a doenças sistêmicas como lupus e endocardite bacteriana. Insuficiência Crônica Renal Ao contrário da aguda. A insuficiência renal aguda ocorre em 4 fases distintas: 1) Inicial: volume urinário pode estar normal ou diminuído com o aumento gradativo da uremia e creatininemia. sendo que. uso de antiinflamatórios não-hormonais.ex. Esta fase pode 4. Outras causas podem ser relacionadas. É freqüente o achado de proteinúria discreta e os valores de uremia e creatininemia estão elevados. fosfato de cálcio (10% do total) ou mistura deles (25% do total). desidratação. hemodiálise ou filtração sangüínea extracorpórea). passar despercebida. Hipertensão Arterial Por si só constitui um fator de risco para a gênese de uma insuficiência renal. 3) Poliúria: nesta fase diurética está associada a incapacidade dos túbulos em reabsorver água e eletrólitos sem. As provas de clearence são importantes para o acompanhamento da evolução desta perda funcional. a insuficiência em regular a concentração do sódio plasmático (natremia) aliada às modificações do volume sangüíneo (volemia) que se seguem. 3. de agentes nefrotóxicos ou isquemia renal (diminuição do fluxo de sangue oxigenado para os rins). aliado aos níveis plasmáticos de creatininemia. As.Capítulo 13 . 5) necrose papilar aguda: em pielonefrite associada a Diabetes mellitus. onde a urina tende a estar muito densa. 62% dos casos devem-se a necrose tubular aguda decorrente. haver excreção de uréia e creatinina que continuam a aumentar sua concentração plasmática. necrose do córtex renal. aliado aos parâmetros comuns à insuficiência renal. diminuição do fluxo urinário. pois pode ser oriunda de várias causas não renais (p. Porém. obstrução do trato urinário. A maioria dos cálculos é constituída por oxalato de cálcio (30% do total). caracteriza-se por uma perda irreversível de função glomerular. após o tratamento. onde há uma queda progressiva e irreversível no número de néfrons. doenças vasculares periféricas). é o rim a sede do equilíbrio hidro-eletrolítico e. O processo de litíase se expressa em uma insuficiência pós-renal (obstrutiva).Bioquímica da Função Renal 204 tende a ser agravada por infecções. 3) tubulares: isquemia. possibilitam a instalação de um quadro Ricardo Vieira . Pode confundir-se com uma resposta favorável à hidratação do paciente. hipertensão maligna. gradualmente. 2) Oligúria: volume urinário inferior a 500 ml/dia (podendo evoluir a anúria). contrastes radiológicos.Fundamentos de Bioquímica . como: 1) vasculares: processos oclusivos da artéria renal. CCl4. sendo freqüente a proteinúria e hematúria. Pb. 5. vasculites. agentes nefrotóxicos (antibióticos.

MOTTA..H. formando um ciclo. A hipertensão arterial decorrente de doenças não-renais (p. J.: feocromocitoma. Faça um resumo sobre as principais correlações clínico-patológicas e os exames laboratorias de screening renal. Para aprofundar seus conhecimentos LIMA. NOGUEIRA. .healthtouch. São Paulo. et al: Métodos de Bioquímica Clínica . 6. 3.O. 1989.. V. editora Andrei. Guanabara Koogan.2a.geocities. 7a ed. volume 1 e 2.Métodos e Interpretações . Porto Alegre. Editora Nassau. Para conduzir seu estudo 1. São Paulo. • Na internet: HomePage Kidney: http://www.2a. Quais as principais diferenças entre a insuficiência renal aguda e crônica? 7. ex.M. ed. Qual a importância das provas de depuração na avaliação do paciente com insuficiência renal? 5. lupus eritrematoso). 1990.L et al. 1987.J. 1992.Bioquímica da Função Renal 205 hipertensivo em paciente com insuficiência renal (ver capítulo 20 sobre Equilíbrio HidroEletrolítico e Ácido-Básico).T. Sanford & Davidsohn: Diagnósticos Clínicos e conduta Terapêutica por Exames. edição. São paulo.Bioquímica Médica.Pancost Editorial.Fundamentos de Bioquímica . 4. Como prescrever e interpretar um exame laboratorial . onde tal hipertensão funciona como causa e efeito na insuficiência renal. BOREL. favorecem a disfunção renal no sentido a potencializar a disfunção renal. Métodos de Laboratório aplicados à Clínica . Qual a razão da utilização da dosagem de uréia e creatinina como indicadores da função renal? 2. HENRY. D.com/bioquimica_2000 Ricardo Vieira .com HomePage do Prof. Ed. Comente acerca dos métodos de dosagem de uréia e creatinina. Bioquímica Clínica .Capítulo 13 . Manole. São Paulo. 1989. Ricardo Vieira: http://www. Comente acerca da importância do achado de proteinúria como indicador de insuficiência renal.. Existe alguma situação não patológica que eleve os níveis de uréia e creatinina? Comente sobre eles.Técnica e interpretação.P et al.: Todd.

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