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RICHARD E. SONNTAG CLAUS BORGNAKKE Universidade de Michigan GORDON J. VAN WYLEN Hope College FUNDAMENTOS DA TERMODINAMICA TRADUCAO DA 5% EDICAO AMERICANA Tradugao Eng? EURYALE DE JESUS ZERBINI Professor Doutor do Depto. de Engenharia Mecdnica da EPUSP Integral Engenharia, Estudos ¢ Projetos Cs EDITORA EDGARD BLUCHER ipa. PREFACIO Nés mantivemos nesta edigio 0 objetivo bisico das quatro edigées anteriores: apresentar um tratamento amplo e rigoroso da termodinamica clissica, mantendo ao mesmo tempo uma perspectiva de engenharia e, assim o fazendo, formar a base para estudos subsegiientes em ‘campos como 0 da meciinica dos fluidos, da transferéncia de calor e da termodinamica estatistica; € preparar 0 estudante para a utilizagio eficiente da termodinamica na prética da engenharia. E importante ressaltar que houve uma alteraco significativa de enfoque na elaboracao desta nova edigio. Anteriormente nés apresentévamos alguns t6picos ¢ problemas dirigidos a cursos de pos graduagdo entre 0 material adequado aos cursos de graduagao, Esta abordagem foi alterada e a nova edigdo € fortemente dirigida a cursos de graduagio. Esta edigao € deliberadamente dirigida aos estudantes. Os novos conceitos e definigdes so introduzidos 4 medida que se tornam relevantes no contexto. As primeiras propriedades termodi- ndmicas a serem definidas (Cap. 2) so aquelas que podem ser prontamente medidas: pressio, volume especifico ¢ temperatura, No Cap. 3 so introduzidas as tabelas de propriedades termodi- namicas, mas apenas no que diz respeito Aquelas mensurdveis. A energia interna ¢ a entalpia sio apresentadas em conjunto com a primeira lei, a entropia com a segunda lei e as fungdes de Helmholtz ¢ Gibbs no capitulo sobre relagdes termodinamicas. Foram incluidos muitos exemplos no livro, a fim de auxiliar o estudante na compreensio da termodinimica, ¢ os problemas local zados na parte final de cada capitulo foram cuidadosamente ordenados de modo a correlacioné- os com os assuntos tratados e esto distribufdos numa ordem crescente de dificuldade. ‘Tentamos cobrir da maneira mais completa possivel a matéria basica da termodinimica clissica, Acreditamos que © livro proporciona uma preparago adequada para o estudo da aplicagao da termodindmica aos varios campos profissionais e também para o estudo de t6picos mais avangados, tais como aqueles relacionados a materiais, fenémenos superficiais, plasmas ¢ criogenia. Reconhecemos que varias escolas oferecem um nico curso de introdugio & termodindmica para todos os departamentos. Por este motivo tentamos cobrir aqueles t6picos que 08 varios departamentos desejariam que estivessem incluidos em tal curso. Entretanto, como os cursos especificos variam consideravelmente em fungi dos pré-requisitos solicitados, objetivos duragéo © qualificagdo dos estudantes, distribuimos a matéria, particularmente nos tiltimos capitulos, de modo que haja uma consideravel flexibilidade no material a ser coberto. ‘A transformagdo da edigao anterior num livro texto de graduagdo é 0 resultado de uma mudanga da nossa filosofia, Assim, nés descartamos os t6picos e problemas que seriam utilizados apenas em cursos avancados. A parte fundamental deste texto € constituida pelos capitulos que tratam da primeira e da segunda lei da termodindmica. Nesta edigao, a apresentago da primeira Iei € realizada em dois capitulos e a da segunda lei em trés. As aplicagdes das duas leis da termodinamica a volumes de controle agora sdo apresentadas em capitulos separados © 0s procedimentos utilizados na obtengdo das equagdes relativas a volumes de controle sio mais simples € menos mateméticos que os utilizados nas edigdes anteriores. As descrigdes e as explicagdes dos processos que ocorrem em dispositivos ¢ maquinas que operam em regime permanente foram bastante aumentadas para ajudar os alunos de graduagao a entender a natureza destes processos. O ntimero de problemas presentes nos capitulos dedicados a primeira e segunda leis da termodinamica é bem maior do que aquele da edigZo anterior apesar de termos removido a maioria dos problemas mais trabalhosos da quarta edi¢do. Poucos problemas avangados foram mantidos nesta edigio e estes estio localizados em segdes separadas ¢ identificadas. A irreversibilidade © a disponibilidade (exergia) agora so tratadas no Cap. 10. A abordagem utilizada nesta edigdo é mais simples e menos matematica do que aquela encontrada na edigao anterior. O Cap. 11, que trata dos sistemas de poténcia e de refrigeragdo, € bastante parecido com 0 equivalente da quarta edigdo pois este material j4 tinha sido reorganizado e expandido. Este capitulo apresenta varias aplicagdes modemas e relevantes da termodinamica tais como as bombas de calor, co- geragdo, sistemas com miiltiplos estgios e ciclos combinados. N6s continuamos a incluir comentarios e problemas que relacionam a termodindmica com alguns aspectos ambientais, vi FUNDAMENTOS DA TERMODINAMICA Varios tépicos avangados foram removidos dos cinco capitulos finais desta edigio, O Cap. 12 atual 56 trata das’ misturas de gases perfeitos (incluindo as misturas de ar com vapor d’fgua). A apresentagio das relagdes termodinamicas no Cap. 13 foi reorganizada, As determinagdes das variagdes das propriedades nas mudangas de fase agora estio localizadas no inicio do capitulo e precedem a avaliag3o das variagGes de propriedades em fases homogéneas. Esta abordagem € mais suave e natural do que Aquela utilizada nas edigdes anteriores. A introdugo das fungdes de Helmholtz e de Gibbs surgem a partir da necessidade légica da utilizagao de propriedades mensurdveis para a avaliagdo das variagdes de entropia, As varidveis fugacidade, atividade e fator acéntrico nao so mais analisadas porque sio desnecessérias numa abordagem dirigida a cursos de graduacao. Finalmente, o tratamento de substancias puras reais ¢ ‘© modelo basico para misturas de gases reais so introduzidos no final deste capitulo, Alguns t6picos avangados também foram removidos dos Caps. 14 e 15. A fungio de Gibbs de formagio, que nao é necesséria para o célculo das constantes de equilibrio quimico, e 0 equilibrio de fases em sistemas multicomponentes reais ndo sio mais abordados. A seco sobre os escoamentos através de passagens entre pas foi removida do Cap. 16. Assim, este capitulo passa a apresentar apenas 0 material basico sobre escoamentos compressiveis. Nés reconhecemos que, em muitos casos, o material deste capitulo nao seré tratado em muitos cursos de termodinamica, mas poderd ser abordado em outras disciplinas da estrutura curricular. Esta edigdo apresenta, apés a definigao de calor no Cap. 4, uma breve introdugio aos modos de transferéncia de calor. Nds incluimos este material para fomentar uma discussio ampliada sobre a natureza da transferéncia de calor. Esta secdo € independente e nao precisa ser coberta por aqueles que nao gostam de discutir este assunto num curso introdutorio de termodiniimica, As tabelas do Apéndice foram revisadas ¢ atualizadas. Os resultados apresentados. so mpativeis com os presentes nas tabelas mais abrangentes contidas no nosso. livro jermodynamic and Transport Properties” (1997). Além disso, 0 disco de computador que acompanha este livro fornece todas as informagdes contidas no Apéndice, As vantagens dos novos programas so que estes podem ser executados sob o sistema operacional Windows e as propriedades calculadas nos programas podem ser exportadas para planilhas de cdlculo. Nés tentamos, ao longo de todo o livro, manter uma perspectiva de engenharia, principalmente através da escolha dos exemplos e problemas. Existem muitos problemas novos em todos os capitulos desta edigio e, em especial, nos capitulos que tratam da primeira e da segunda lei da termodinamica. A apresentacao dos problemas, em cada um dos capitulos, comega com um conjunto de problemas adequados aos alunos de graduagao. Os problemas avangados estiio sempre localizados apds estes conjuntos. Estes problemas sio dirigidos aqueles que desejam analisar situagdes mais desafiadoras. As seges de problemas normalmente sio finalizadas com um conjunto de pequenos projetos, problemas abertos e problemas que devem ser resolvidos numericamente. A maior parte deste material é igual aquele encontrado na edic&o anterior. No que se refere aos simbolos utilizados neste texto, tentamos ser consistentes ao longo de todo 0 livro. Nés utilizamos, num pequeno niimero de casos, 0 mesmo simbolo para mais de uma finalidade. Acreditamos, porém, que nestes casos 0 contexto sempre esclarecerd 0 significado do simbolo adotado, Todas as unidades utilizadas nos exemplos e problemas desta edigdo so as do sistema internacional, SI (Le Systéme International d'Unités). Entretanto, reconhecemos que ainda é utilizado sistema inglés de unidades e por isto, no Cap. 2, introduzimos uma segtio sobre este sistema. Neste sistema de unidades é importante distinguir a unidade de forga da de massa. Por este motivo, os simbolos Ibf ¢ Ibm sdo utilizados, respectivamente, para libra forga e para libra massa. Para a presso no se utilizou 0 simbolo psi mas Ibffin? e para 0 volume especifico utilizou-se ft'bm em vez de cu f/lb. Isto foi feito intencionalmente para que a distingdo se torne evidente. Ao longo de todo o texto, nas tabelas de propriedades termodinamicas e na maioria dos exemplos e problemas, utilizamos as unidades basicas para pressao (pascal) e volume (metro ctibico), apesar de termos usado extensivamente o litro como unidade de volume. Alguns PREFACIO vil professores podem desejar utilizar mais extensivamente o bar como unidade de pressdo. Nos acreditamos que tal flexibilidade no uso dessas unidades nao acarretaré dificuldades especificas ao estudante. Quanto as propriedades extensivas, letra mindscula (u, h, s) designa a propriedade por unidade de massa, letra maidscula (U, H, S) a propriedade para todo o sistema; letra mindscula com barra (iz,4,5) a propriedade por unidade molar (neste texto, normalmente, quilomo! ou kmol), ¢ letra maiiscula com barra (U ,H.,5)) a propriedade molar parcial. Segundo esse padrio, achamos conveniente designar a quantidade total de calor transferido por Q, a quantidade de calor transferido por unidade de massa do sistema por g, 0 trabalho total por We trabalho por unidade de massa do sistema por w. Além disso, representamos os fluxos através da fronteira do sistema ou da superficie de controle por um ponto sobre uma dada quantidade. Assim @ representa a taxa de transferéncia de calor através da fronteira de um sistema; W , a taxa na qual 0 trabalho atravessa a fronteira do sistema (isto é, poténcia); e rir, 0 fluxo de massa do escoamento através de uma superficie de controle (i € utilizado quando este fluxo é expresso em moles por unidade de tempo). Temos consciéncia de que fugimos do uso matematico comum desta notagao (que normalmente se refere derivada em relagao ao tempo). No entanto, usamo-la apenas para indicar os fluxos de calor e trabalho através da fronteira de um sistema e dos fluxos de calor, trabalho e massa, através de uma superficie de controle. Acreditamos que isso contribui para um uso simples e consistente da notagdo neste livro, Agradecemos muito as sugestdes, conselhos e apoio de muitos colegas, tanto da Universidade de Michigan como de outros lugares. Essa assisténcia nos foi bastante til durante a preparagdio desta edigdo e também das edigdes anteriores do nosso livro, Muitos estudantes de graduagao e de pds-graduagao nos ajudaram muito na elaboragdo deste livro; as suas questoes inteligentes freqiientemente nos levaram a reescrever ou a repensar uma dada parte do texto, ou a tentar desenvolver um modo melhor de apresentar a matéria e prever tais questOes ou dificuldades. Precisamos destacar © agradecimento aos Drs. Young Moo Park, Kyoung Kuhn Park © Youngil Kim, ex-alunos de pés-graduago na Universidade de Michingan, que nos ajudaram neste projeto, especialmente no desenvolvimento dos programas de computador presentes nas duas tiltimas edigdes deste livro. Finalmente, para cada um de nés, © encorajamento ea paciéncia de nossas esposas e familias foram indispensaveis e fizeram com que o perfodo em que escrevemos o livro fosse agradavel, a despeito das presses do projeto. Nos também gostarfamos de agradecer as pessoas que responderam a pesquisa realizada para delinear a quinta edico deste texto, Muitas informagdes valiosas foram recolhidas nesta pesquisa e varias delas foram utilizadas na elaboragio da quinta edigdo deste livro. Esperamos que este texto venha a colaborar no ensino efetivo da termodinamica para estudantes, que tera pela frente desafios e oportunidades significativas no decorrer de suas carreiras profissionais. Os comentirios, criticas e sugestoes dos leitores sero muito apreciados. Richard E. Sonntag Claus Borgnakke Gordon J. Van Wylen Ann Arbor, Michigan Setembro de 1997 1- 2- 3- 4. 5. 6- 1- 8- 9. 10- l1- 12- 13 - 14- 15 - 16 - CONTEUDO Lista de Simbolos..... Alguns Comentérios Preliminares Alguns Conceitos e Definigdes Propriedades de uma Substén Trabalho e Calor.. Primeira Lei da Termodindmic: Primeira Lei da Termodinamica em Volumes de Controle - 109 Segunda Lei da Termo Entropia . 168 ) Segunda Lei da Termodinamica em Volumes de Controle Irreversibilidade e Disponibilidade Ciclos Motores e de Refrigeragio ..... Misturas de Gases. Relagdes Termodindmicas.. Reagdes Quimicas, Introdugio a0 Equilibrio de Fases e Quitnico.... Escoamento Compressivel. Apéndice Referéneias Selecionadas cme Respostas de Alguns Problemas. Indice LISTA DE SI[MBOLOS CD ™ = mo o = SEPP ORR OT aceleragio fungio de Helmholtz especifica e fungao de Helmholtz total relagdo ar-combustivel fragdo em massa velocidade do som relagdo combustivel-ar coeficiente de descarga, calor especifico a pressdio constante calor especifico a volume constante calor especifico a pressdo constante e pressio zero calor especifico a volume constante ¢ presso zero energia especifica e energia total energia cinética energia potencial forga aceleragdo da gravidade fungdo de Gibbs especifica e fungdo de Gibbs total constante que relfciona forga, massa, comprimento e tempo entalpia especifica ¢ entalpia total corrente elétrica irreversibilidade fator de proporcionalidade entre as unidades de trabalho e de calor relagdo entre calores especificos: ¢, /¢, constante de equilforio comprimento massa fluxo de massa (vaziio em massa) peso molecular ngimero de Mach numero de moles expoente politrépico pressio presso parcial do componente i numa mistura pressio relativa, utilizada nas tabelas de gas calor transferido por unidade de massa e calor transferido total calor transferido por unidade de tempo (taxa de transferéncia de calor) transferéncia de calor num corpo a alta temperatura e num corpo a baixa temperatura; 0 sinal 6 determinado no contexto constante do gas constante universal dos gases entropia especifica e entropia total ALGUNS COMENTARIOS PRELIMINARES 11 Escoamento principal Escoamento ‘secundario (Bypass) Figura 1.13 — Motor a jato "turbofan" (cortesia da General Electric Aircraft Engines) ‘A temperatura dos gases de combustio na segao de saida da turbina, nas instalagdes estacio- néirias, apresenta valores relativamente altos. Assim, este ciclo pode ser combinado com um outro que utiliza dgua como fluido de trabalho. Os gases de combustio, j4 expandidos na turbina, trans- ferem calor para a agua, do ciclo de poténcia a vapor, antes de serem transferidos para a atmosfera. Os gases de combustao apresentam velocidade altas na segao de saida do motor a jato. Isto é feito para gerar a forga que movimenta os avides. O projeto das turbinas a gas dedicadas a este fim é realizado de modo diferente daquele das turbinas estaciondrias para a geragdo de poténcia, onde 0 objetivo é maximizar a poténcia a ser retirada no eixo do equipamento. A Fig. 1.13 mostra © corte de um motor a jato, do tipo "turbofan", utilizado em avides comerciais. Note que 0 primeiro estégio de compressio, localizado na regido proxima a seco de entrada do ar na turbi- na, também forga 0 ar a escoar pela superficie externa do motor, proporcionando o resfriamento deste e também um empuxo adicional. 1.7 MOTOR QUIMICO DE FOGUETE O advento dos misseis e satélites pds em evidéncia o uso do motor de foguete como instala- 40 propulsora. Os motores quimicos de foguetes podem ser classificados de acordo com 0 tipo de combustivel utilizado, ou seja: s6lido ou liquido. A Fig. 1.14 mostra o diagrama simplificado de um foguete movido a combust{vel liquido. 0 oxidante e 0 combustivel so bombeados, através da placa injetora, para a cimara de combustio, onde este processo ocorre a alta pressio. Os produtos de combustio, a alta temperatura e alta pressio, expandem ao escoarem através do bocal. O resultado desta expanso é uma alta velocidade de descarga dos produtos. A variagio da quantidade de movimento, associada a0 aumento da velocidade, fornece o empuxo sobre 0 vefculo. oxidante e 0 combustivel devem ser bombeados para a camara de combustao. Para que {sto ocorra € necesséria alguma instalaco auxiliar para acionar as bombas. Num grande foguete | tl LISTA DE SiMBOLOS xi Sur geragdo de entropia Syqr taxa de geragao de entropia (entropia gerada por unidade de tempo) ' tempo T temperatura u, U energia interna especifica ¢ energia interna total v,V_ volume especifico e total v, Volume especifico relativo, utilizado nas tabelas de gas V_velocidade w.W trabalho por unidade de massa e trabalho total W_ —__poténcia (trabalho por unidade de tempo) w' trabalho reversivel entre dois estados x titulo y _ fragdo molar da fase vapor Z cota Z —_ fator de compressibilidade Z carga elétrica LETRAS MANUSCRITAS a drea E —_potencial elétrico 9 tensdo superficial 7 tensao LETRAS GREGAS @ volume residual , —_ expansividade volumétrica : B coeficiente de desempenho de um refrigerador 8’ —_coeficiente de desempenho de uma bomba de calor 7 Bs compressibilidade adiabitica 4 Br _compressibilidade isotérmica i 1 eficiéncia ou rendimento H_ potencial quimico Hy —_ coeficiente de Joule-Thomson Vv coeficiente estequiométrico P massa especifica © —_relagio de equivaléncia ¢ —— umidade relativa | 9 disponibilidade de um sistema Vv _ disponibilidade associada a um proceso em regime permanente | @ —_umidade especifica ou absoluta :