Jürgen Habermas, em “Técnica e Ciência como Ideologia - Conhecimento e Interesse” e “Consciência Moral e Agir Comunicativo - Sobre a Estrutura de perspectivas

do Agir orientado para o Entendimento Mutuo”
Vitor Vieira Vasconcelos, bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte, Minas Gerais, 2005.

Técnica e Ciência como Ideologia - “Conhecimento e Interesse”:
Neste texto, publicado em 1968, Habermas pretende tecer a relação que as diferentes áreas do conhecimento humano têm com os interesses que as precedem e motivam. Essa relação nem sempre é clara para os estudiosos desses sistemas de conhecimento, muito pelo contrário. Para iniciar sua análise crítica, Habermas começa seu texto em diálogo com diversos pensadores ao longo da história da filosofia, e suas reflexões sobre a relação entre teoria, mundo e vida prática. Em especial, recorre à crítica de Husserl, que elucida como as ciências esqueceram sua vinculação com os interesses práticos da vida humana.

Porém, Habermas vai além de Husserl, apesar de concordar de que a ciência, com a ajuda da corrente de pensamento positivista, esqueceu-se dos interesses que a criaram. Para Habermas, apesar do discurso positivista das ciências, os interesses continuam por na base deste sistema de conhecimento, mesmo que inconscientemente ocultos. Além disso, critica Husserl, pois este, embora adversário do objetivismo científico, não deixa de propor um objetivismo mais refinado em sua teoria fenomenológica. Pois ele não perde o contato com as mesmas bases ontológicas, ao criar a ilusão de que conseguimos explicar a realidade do mundo enquanto tal, fora do contexto cultural, teórico e lingüístico.

Em sua nova proposta de análise do conhecimento, propõe a divisão dos sistemas teóricos em três tipos, cada um animado por diferentes interesses. Essa divisão pode ser melhor visualizada no quadro abaixo. Área de Ciências Analíticas empírico- Ciências Hermenêuticas e Ciências Críticas Ciências Sistemáticas Tipo discurso de Técnico Comunicação Emancipação Individual Social e de Ação

Conhecimento

As ciências empírico-analíticas, como a Física e a Biologia, são hipotético-dedutivas, ou seja, suas hipóteses podem ser testadas de maneira objetiva, criando uma certa “purificação” dos processos subjetivos. Nessa ciência, os interesses são técnicos, mas não se pode esquecer que o seu desvendar da realidade possui o interesse subjacente de contribuir para a emancipação do homem perante os processos naturais, garantindo a sua sobrevivência e a satisfação de suas necessidades. Essas ciências foram criadas com o intuito de garantir aos homens o que Habermas chama de “segurança informativa e a ação de êxito controlado” (HABERMAS, 1987, p 138). É o interesse de lidar com o mundo, e transformá-lo em função das necessidades e desejos humanos, incluindo a capacidade de previsão para o que resulta tanto dos processos naturais quanto dos que apresentem interferência humana.

As ciências hermenêuticas, como a História, e as ciências de ação direta, como a economia, sociologia e política, apresentam outro enquadramento metodológico, visto que interpretam situações humanas, que ocorrem dentro de contextos históricos e culturais. As ciências hermenêuticas são um discurso de interpretação por sobre o passado, guardado através de documentos, e não possui um interesse de transformação da realidade, ao contrário do que era o caso das ciências empíricoanalíticas. As ciências de ação direta pretendem orientar a ação humana, dentro de um certo contexto cultural. Em ambos os casos a construção teórica se dá de dentro da cultura do intérprete, formando então um diálogo intercultural entre o estudioso e o objeto de estudo. Portanto, ele está ligado à comunicação, “elucidando o sentido das normas e das tradições no meio da linguagem” (BERTEN, p 70). O interesse que está por trás de todo esse grupo de ciências é a definição de uma identidade individual e/ou coletiva, estabelecendo modelos de comportamento e personalidade dentro de um contexto social.

O terceiro grupo abarca as ciências críticas, como muitas das vertentes das ciências sociais. Essas ciências examinam os modelos de comportamento e personalidade presentes em uma sociedade, e esforça-se por discernir quais as estruturas realmente necessárias, e quais são apenas ideologicamente fixas, mas passíveis de serem alteradas. O objetivo é uma reflexão sobre a situação social, em um discurso que pretende modificar as consciências dos atores sociais e libertá-los dos poderes hipostasiados. Assim, nestes casos a teoria pretende modificar o modo com que o receptor vê o seu mundo, permitindo contestar as formas de dominação e repressão que se encontravam veladas. Dentro das ciências críticas também se inclui a psicanálise, em sua prática clínica, pois tem o intuito de modificar a relação do paciente com seu inconsciente e com sua personalidade, propiciando uma maior liberdade individual.

Em seqüência, Habermas apresenta uma análise do conhecimento como um todo, em que enuncia certas teses a partir sua relação com a história e com a sociedade. Apresenta uma visão de que a evolução do conhecimento humano está vinculada ao arcabouço da evolução biológica da espécie, que lhe proporciona as capacidades cognitivas necessárias ao conhecimento. Porém, a evolução do conhecimento não depende apenas do substrato biológico, mas também de uma evolução cultural, em que a sociedade procura não apenas a autoconservação, mas as pretensões individuais que buscam o que é definido socialmente como uma “vida boa”.

Por ocorrer dentro de uma sociedade, os conhecimentos vão se relacionar com os meios de socialização, a saber: o trabalho, a linguagem e a dominação. Assim, dentro de um escopo de conhecimento técnico, hermenêutico e nomológico de uma determinada época histórica, a sociedade vai se organizar em formas de trabalho e de auto-afirmação violentas (mas talvez até necessárias, para a sua própria sobrevivência). Esse “molde social” é mediado pela linguagem, e mantido por um conjunto de identidades, e normas sociais, responsáveis por entrosar as consciências individuais dentro de um todo social articulado.

Transição entre o momento crítico e o pragmático
Alguns dos pontos de vista defendidos por Habermas, em “Técnica e Ciência como Ideologia” mostraram-se problemáticos. Em primeiro lugar, as dificuldades das ciências críticas em seus projetos de transformação do mundo, visto que se tornava cada vez mais distante a possibilidade de uma revolução social profunda. O próprio conceito de dominação possui uma certa ambigüidade; pois seria possível uma sociedade sem dominação? Até que ponto a dominação não estaria ligada aos limites humanos, e portanto, seria insuperável? Por estes motivos, o discurso crítico acabava sendo considerado como utópico.

Outros problemas, que podem ser citados, são o lugar impreciso do estatuto de certos termos, como a linguagem; esta última seria um meio específico das ciências hermenêuticas, assim como o trabalho e a dominação o eram para as ciências empírico-analíticas e ciências críticas, respectivamente? Ou seria um meio geral pelo qual se dariam todas as formas de conhecimento? Além disso, a dominação, se for estendida tanto ao meio social quanto natural, se tornaria um interesse tanto das ciências empíricas quanto das ciências sociais.

Por fim, rearranjando a estrutura de sua proposta filosófica, Habermas encontra apóio no pragmatismo lingüístico e no estado liberal. Agora, a racionalidade humana irá se exprimir pela

linguagem, nos atos de comunicação. Assim, seu ponto de partida passa a ser a análise do uso real da linguagem, e como ela se presta a diferentes pretensões de validade, podendo se desenvolver reflexões tanto na teoria da linguagem, quanto, posteriormente, sobre as iterações sociais, e sobre o desenvolvimento humano ao longo da história.

Consciência Moral e Agir Comunicativo - “Sobre a Estrutura de perspectivas do Agir orientado para o Entendimento Mutuo”
Neste texto, Habermas pretende explicitar as diferenças entre o agir orientado a interesses individuais, e o agir baseado em interesses consensuais a um grupo social. Para isso, inicia contrapondo o que chama de “Orientação para o Sucesso” e “Orientação para o Entendimento Mutuo”.

Na orientação para o sucesso, o individuo persegue os seus interesses individuais, organizando uma estratégia baseada nas conseqüências de suas ações. Para alcançar seus objetivos, vale influenciar outros indivíduos, por meio de armas, bens, ameaças e seduções. E em qualquer eventual cooperação, cada indivíduo só está interessado no que pode ganhar individualmente com isso. Chamaremos esse tipo de ação de “ação estratégica”.

Habermas defende, como proposta para a sociedade, que transitemos progressivamente da ação estratégica para a ação comunicativa. Nesse tipo de ação, a orientação deixa de ser exclusivamente para o sucesso individual, e passa a se denominar como orientação para o entendimento mútuo. Nesse novo âmbito, os atores procuram harmonizar seus interesses e planos de ação, através de um processo de discussão, buscando um consenso. Nota-se que, embora os dois tipos de orientação possuam a marca da racionalidade humana, a grande diferença é que, na ação estratégica a definição da finalidade não abre espaço para ouvir os argumentos dos outros, enquanto no agir comunicativo há um espaço de diálogo, em que se pensa em conjunto sobre quais devem ser os melhores objetivos a serem buscados por um grupo social. O entendimento mútuo, provindo do agir comunicativo, será um importante facilitador da coordenação de ações, e servirá de base para a defesa da democracia no cenário político, com a crítica da repressão, censura e de outras medidas que não propiciam o diálogo dentro da sociedade.

Para entender como ocorre a comunicação entre os atores, Habermas lança uma teoria dos atos de fala, segundo uma tipologia que faz lembrar sua primeira teoria sobre as divisões do conhecimento humano:

Pessoa do discurso

Terceira Pessoa

Segunda Pessoa Tu Mundo Social Correção (legitimidade) Interativa Regulativos Direito (Moral)

Primeira Pessoa Eu Mundo Subjetivo Sinceridade Expressiva Representativos Arte Vivências Subjetivas

Pronome correspondente Ele Mundo Pretensão à Validade Perspectiva do Mundo Atos de Fala Esferas de conhecimento Esferas do Mundo Mundo Objetivo Verdade Cognitiva Constatativos Ciência

Estados de coisas Relações Interpessoais Existentes

Nota-se que esse esquema permite interrelações sobre os modos de fala, como nos seguintes exemplos: - Posso analisar as relações pessoais como uma terceira pessoa, fazendo um estudo objetivo das relações e normas existentes. - Posso analisar as vivências subjetivas de uma terceira pessoa, com um enfoque objetivo, como faz a ciência da Psicologia, ou a racionalização da Estética. - Posso expressar minha vivência pessoal em relação às iterações sociais e ao mundo das coisas. Dentro desse novo sistema estruturado, os discursos na sociedade continuam tornando possível a sua reprodução simbólica, a transmissão e a crítica das informações sobre o mundo, das normas sociais e do comportamento (BERTEN, p. 74). Só que, desta vez, se vinculam ao uso da linguagem, em que os indivíduos ocupam papéis de fala (falantes, destinatários e pessoas presentes), no seguinte esquema:

Dessa maneira, ao enunciar-se em um ato de comunicação, o falante pressupõe que seus proferimentos são inteligíveis, além de ter a pretensão de que os outros considerem sua fala verdadeira, legítima (do ponto de vista das normas sociais) e sincera. Por outro lado, o receptor pode rejeitar o proferimento do falante, baseando-se em argumentos que desqualificam alguma das três pretensões citadas. Nesse caso, o falante terá que apresentar contra-argumentos que tentem justificar as pretensões rejeitadas, até que, em um momento ideal, os participantes envolvidos na discussão entrem em consenso.

Habermas também se debruça sobre a evolução das estruturas comunicativas e das representações do mundo ao longo do desenvolvimento do sujeito, baseando-se nos estudos de Piaget e Kohlberg. Percorre o caminho, na história da criança, da descentralização progressiva de sua visão egocêntrica, caminhando para a diferenciação das diferentes perspectivas do discurso e da representação do mundo. Através do reconhecimento do outro, e da experimentação dos diversos papéis comunicativos, a criança começa a separar o seu mundo pessoal do mundo exterior, e neste último também será extraído um mundo específico relativo às normas de interação social. Seguindo esse processo, ao longo de sua vida, o indivíduo vai transmudando seu ponto de vista para um modo cada vez mais racional, social e universal (BERTEN, p. 76).

Comentário Crítico
A teoria tripártide de Jürguen Habermas dá conta de que houve uma progressiva racionalização das esferas de pensamento, que pode ser constatada na institucionalização das comunidades específicas de cada sistema teórico correspondente (comunidades Científicas, do Direito e da Arte). Essa é uma postura interessante, pois cada uma das respectivas comunidades ganha autonomia frente às outras, para prosseguir em suas próprias discussões, incentivando o debate interno e se protegendo de coerções e censuras externas. Do mesmo modo, Habermas mostra a importância de cada um dos modos de expressão, se colocando contra os projetos que propõem uma unilateralidade do pensar (como a sobreposição da Ciência sobre o Direito e a Arte, ou qualquer outra tentativa de estrutura similar).

Todavia, há um ponto na teoria lingüística de Habermas que gera certa polêmica: a vinculação da Arte à atitude expressiva, e com pretensão à sinceridade. Afinal, pode soar um pouco estranho, visto que o artista não precisa colocar na arte o que esteja sentindo, e nem as obras de arte possuem seu maior valor por isso - as obras valem mais pelo impacto que causam no apreciador do que pela vinculação com os estados subjetivos do artista. Além da questão da sinceridade, outro ponto

polêmico que se coloca é que a arte não se expressa necessariamente por palavras, mas também por imagens, gestos, sons musicais, etc, o que foge um pouco à tripartição das esferas de pensamento segundo os pronomes pessoais, e contribui para deixar a situação Arte em uma posição um pouco desconfortável dentro do sistema Habermasiano.

Bibliografia:

BERTEN, André - Filosofia Social: a responsabilidade social do filósofo. Tradução de Márcio Anatole de Souza Romeiro. São Paulo : Paulus, 2004. (Coleção Filosofia). HABERMAS, Jürgen - Técnica e Ciência como Ideologia - Conhecimento e Interesse. Edições 70, 1987. HABERMAS, Jürgen - Consciência Moral e Agir Comunicativo - Sobre a Estrutura de perspectivas do Agir orientado para o Entendimento Mútuo. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, RJ, 2003.

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