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Análise da obra:

- reflexão relativa à posição pacífica de Sócrates perante a morte [58 e] (objectivo de vida do filósofo) – prazer
que o filósofo sente ao livrar-se das correntes, sentimento que pressupunha o anterior (a dor) : referência aos
contrários, antecipando o tema dos primeiros argumentos a favor da imortalidade da alma

- reflexão acerca da atitude do homem perante a morte, que progride para uma fundamentação metafísica da
imortalidade da alma

- legitimidade ou não do suicídio : proibição de atentar contra a própria vida [61 d] – Sócrates demonstra que
aos que consideram a morte um bem superior à vida, é-lhes interdito obterem a morte pelas suas próprias
mãos – cada ser humano pertence aos deuses, logo o suicídio é considerado um acto ímpio, já que não foi o
Homem que deu a vida a si mesmo (justifica a suposta contradição entre a proibição de atentar contra a vida e
o desprendimento de Sócrates perante a morte); a fuga à vida não permite a libertação, apesar de ser o desejo
de morte que anima o filósofo

- corpo como prisão da alma, esta só se liberta desta prisão pelo cumprimento da vida terrena, de forma a
garantir à alma o mérito de não incarnar de novo – direito à imortalidade

- Cebes conclui que viver é preferível a morrer e que o desejo de Sócrates é irracional

- Sócrates justifica-se ao dizer que a morte levaria a alma à presença dos deuses e dos grandes homens que
permanecem junto dos deuses, por terem vivido virtuosamente; o filósofo exercita-se durante toda a vida para
morrer – procuram o aperfeiçoamento espiritual, pela aprendizagem da libertação dos sentidos e dos
elementos corpóreos ---- » perspectiva ética na pedagogia socrática (o filósofo rejeita todas as coisas do
corpo/conhecimento é um empreendimento moral/poder da alma, de se elevar até ao Bem)

“ o verdadeiro alvo do filósofo (...) se resume: um treino de morrer e estar morto “ [64]

- Analisa o que é a morte e o que significa esta morte – aceitação da morte como separação da alma e do
corpo;

- O filósofo não se entrega aos prazeres do corpo, concentra a alma em si mesma, treinando-a para ficar
isolada e liberta da influência do corpo; mantém uma austeridade que o faz dispensar tudo o que for possível;
os seus interesses nada têm a ver com o corpo; concentra a sua atenção no aperfeiçoamento da alma --- só se
atinge a verdade pelo raciocínio, não há verdade no conhecimento dos sentidos --- » corpo é fonte de erro [66e]

- Filosofar é desligar dos impulsos e das solicitações do corpo e dos sentidos (repúdio das coisas terrenas),
logo, visto que o filósofo privilegia unicamente a alma, o seu desejo de morrer é lícito, correspondendo este
desejo de morte ao desejo de vida, no Mundo das Ideias, para ter acesso ao conhecimento e saber divinos;
morrer, assim, é a aspiração máxima da alma, que assim conquista a sua libertação e se torna
verdadeiramente capaz da máxima sabedoria

É necessário demonstrar que a alma, no momento da separação do corpo (morte), não é distribuída e subsiste
imortalmente ---- » o diálogo prossegue, centrando-se numa discussão filosófica

ARGUMENTOS A FAVOR DA IMORTALIDADE DA ALMA

Cebes coloca dupla questão:

- se a alma subsiste ao corpo;

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- se, subsistindo, existe separadamente, se é realmente em si mesma e conserva a sua actividade e não é
apenas algo como uma sombra ou imagem, sem capacidades cognoscentes

sócrates inicia a demonstração da imortalidade da alma:

1º ARGUMENTO

argumento da alternância dos opostos [70c a 72e]


72e]

Demonstra que a alma existe para além da morte, mas não prova a imortalidade da alma .

Se a morte nasce da vida, a vida nasce da morte, sendo este processo recíproco e circular.

Duas premissas precedem o argumento:

- os contrários devêm sempre do seu contrário

- todos os processos de devir comportam reciprocidade e circularidade

Se o Belo provém do Feio (no Mundo das Ideias, ou seja, a Ideia de Belo existe pela existência da Ideia de Feio,
sendo esta recíproca), se o estado de estar a dormir provém do estado de estar acordado (eu só acordo porque
estava a dormir e só adormeço porque estava acordado) ---- » a sucessão cíclica dos estados que se opõem leva
à conclusão de que a vida deve nascer da morte e a morte deve nascer da vida, exigindo que as almas
persistam algures para voltarem a reencarnar -------» dedução da necessidade da subsistência da alma a partir da
alternância recíproca dos opostos

Fica demonstrado que:

- a alma existe para além da morte

- existe um ciclo presumivelmente eterno de renascimento da alma

- entre a morte e cada novo renascimento, a alma existe, no Hades, em si mesma, separada e subsistente,
para além da morte (enquanto separação da alma e do corpo)

Para reforçar o seu argumento, Sócrates enuncia uma contraprova por redução ao absurdo,
absurdo que consiste em
demonstrar que uma tese contrária a esta conduz a consequências falsas e contraditórias

- não aceitando a tese da reciprocidade do devir, somos levados a concluir que o devir deixaria de ter lugar, a
marcha dos acontecimentos da natureza caminharia numa única direcção, e tudo se imobilizaria, cessando
todas as manipulações da vida, presentes no Universo [72 a) b) c) d)] – ex.: se o meu estado de estar acordado
não proviesse do meu estado de estar a dormir, nem houvesse reciprocidade neste processo, se adormecesse,
permaneceria para sempre a dormir, e vice-versa.

2 º ARGUMENTO

Argumento da Reminiscência [72e a 77a]

Demonstra que a alma separada do corpo mantém o uso das suas faculdades e o entendimento; mas não
prova a imortalidade da alma.

Demonstrar a preexistência da alma em relação ao corpo

É precedido por 4 premissas:


premissas

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- o Homem conhece recordando o que já contemplou no Mundo das Ideias [72 e]

- associação de alguns conceitos que conduzem a ideias diferentes, além daquela que o próprio conceito
pressupõe

- resulta de objectos semelhantes e dissemelhantes

- a razão pela qual um retrato de Símias não é o próprio Símias, mas a sua imagem – falta-lhe qualquer coisa

Cebes introduz a questão da reminiscência

- reforça a conotação pitagórica (do pitagorismo – escola doutrinária que pretendia explicar o cosmo por meio
de combinações variadas dos números inteiros, que considerava como razão de ser de tudo; tendência para
fazer do número a lei suprema das coisas) da doutrina que afirma que aprender não é mais que recordar

- o saber que obtemos quando temos a percepção de alguma coisa, não representa apenas esse algo, mas
também outra coisa diferente, a ele associado:

“um amante avista uma lira (...) com que o seu amado habitualmente anda, ao mesmo tempo, que apreender a
lira, o seu espírito capta por igual a imagem do amado a quem a lira pertence”

- um ponto de partida pode ser tanto semelhante como dissemelhante

TEORIA DAS IDEIAS: percepção sensível de um objecto nunca coincide com a Ideia pura desse objecto
(percepcionar a igualdade de dois pedaços de madeira é diferente de percepcionar a ideia de igualdade em si
mesma)

- as coisas iguais não são iguais em si e sempre iguais, mas são as coisas iguais que nos evocam o próprio
igual em si (a ideia de Igual)

- o conhecimento da Ideia de Igualdade não provém da percepção sensível, mas resulta da recordação das
Ideias (reminiscências)

- a ideia preexiste ao mundo sensível, a alma já a contemplou, os sentidos apenas a despertam e trazem-na
para o plano da consciência -- » verdadeiro conhecimento [75 b]

Então:

- o conhecimento autêntico resulta da reminiscência – Sócrates consideram que a alma já contemplou as


Ideias no Mundo das Ideias; quando esta incarna novamente, ao percepcionar as coisas materiais, através dos
sentidos, conhece, através de uma reminiscência do já contemplado. Este conhecimento sensível não é
fidedigno, o único conhecimento verdadeiro é o inteligível.

Aceitando e concordando com a preexistência da alma e das Ideias, Símias coloca ainda uma objecção:
objecção:

“Quem nos garante a nós que, no momento exacto em que o homem morre a sua alma não se dissipa e deixa
de existir? Que a impede afinal de se originar e constituir por qualquer outro meio, de existir antes de vir a um
corpo humano e, após isso, separar-se dele para chegar por sua vez ao seu termo e extinguir-se?” [77b]

A esta objecção se Símias, corroborada por Cebes, que põe de novo a questão da sobrevivência da alma após
a sua separação do corpo, Sócrates responderá que é preciso articular este argumento com o anterior, ou seja,
QUE TUDO O QUE É VIVO PROVÉM DO QUE ESTÁ MORTO; os dois argumentos combinados demonstram a
subsistência da alma para além da morte e a sua preexistência em relação ao corpo.

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Sócrates, porém, reconhece ainda a necessidade e a possibilidade de se levar mais a fundo a argumentação
através da análise da natureza da alma pois a sua natureza de substância simples justificará, por si só, a
impossibilidade da sua destruição.

A alma é da mesma natureza que os seres inteligíveis, ideia já presente na conclusão de Sócrates – “... se de
facto existem coisas como essas que temos constantemente nos lábios, um Belo, um Bem, e toda a espécie de
realidade afim, se é esta que tomamos como ponto de referência de tudo o que os sentidos nos transmitem e a
ela reportamos os dados recebidos, em virtude de a redescobrirmos como coisa anterior e nossa, forçosamente,
então na medida em que tais realidades existem, assim também a nossa alma existia antes de nascermos” [77
a] – e, por ser simples e incorpórea, é imperecível já que só os seres compostos é que se podem diss
dissipar
ipar e
destruir.

3º Argumento

A simplicidade da alma [78b a 80e]

Apela ao pressuposto da “bela crença” dos destinos das almas; mas não prova a imortalidade da alma,
quanto ao destino que aguarda aqueles que morrem e praticaram o bem obtendo maior compensação do que
os maus.

A argumentação desenvolve-se em dois tempos:

1- pretende provar que a alma é simples

2- que a alma, que conhece as ideias simples e imperecíveis é, como elas, imperecível.

Parte de 4 questões:
questões

1- Que tipos de coisas estão sujeito à dissipação? – divide as coisas (entes) em coisas compostas (seres que
mudam e que se transformam) e coisas simples (seres constantes e idênticos)

2- Quais são as coisas que nos levam a temer esta dissipação?

3- Está a alma sujeita a esta dissipação?

4- Podemos temer que a nossa alma esteja sujeita à dissipação? – Nesta resposta, Platão, procura fazer uma
aproximação à cultura e à tradição grega, onde apresenta o Hades, não já como um lugar trrível, mas também
como a sede do invisível, positivamente considerado.

Sócrates reconhece que só as coisas compostas se podem dissipar pois ao decomporem-se e ao


desagregarem-se, os elementos que as constituem, também se desagregam e perecem. São as coisas
compostas que estão sujeitas à lei da mudança e, portanto, nunca permanecem idêntica a si mesmo.

Pelo contrário, as coisas que se mantêm constantes e permanecem idênticas a si mesmo, não sofrendo
alterações, são as que são simples; só estas são imutáveis e invisíveis aos nossos sentidos. O Belo em si, o Igual
e si, toda e qualquer realidade em si – o real – não sofre qualquer tipo de mudança.

Esta diferença entre uma realidade constituída por seres simples (Ideias) e outra constituída por coisas
compostas, servirá de base para a distinção e oposição entre dois tipos de realidade e dois tipos de
conhecimento (um dualismo ontológico e outro Gnoseológico)

Para Platão a realidade sensível é: «uma realidade visível que podemos tocar, ver e aprender pelos sentidos»;
enquanto que a verdadeira realidade é aquela que é constituída pelas Ideias ou Formas Puras, puramente
inteligível que “mantém a sua identidade própria” e que não é acessível aos nossos sentidos - «jamais terias
meios de captá-la a não ser pelo raciocínio e pela inteligência pois que se trata de coisas invisíveis que a vista
não capta» [79].

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Só esta autêntica realidade, existente em si e por si, imutável, imperecível, de essência inteligível e ideal, por
isso, inacessível à apreensão sensorial.

As coisas múltiplas e compostas, embora possam ter a mesma designação que as ideias, nunca
permanecem idênticas, estão sujeitas à mudança e à destruição. É nesta realidade aparente e ilusória que
estão sujeitas à mudança e à destruição. É nesta realidade aparente e ilusória que estão incluídos todos os
objectos que os nossos sentidos podem captar.

De seguida Sócrates vai aparentar o corpo a este mundo visível e sensível e a alma à realidade inteligível e
invisível considerando a maior semelhança da alma com esta realidade ideal e identificando esta realidade
ideal com o divino e justificando que o carácter divino da alma resulta do facto de ela, pela sua própria
natureza, comandar e submeter o corpo às suas orientações.

- Dualismo Gnoseológico (de gnoseologia – teoria ou doutrina do conhecimento, das suas condições e do
seu valor) – a sua concepção acerca do conhecimento – a distinção entre o conhecimento sensível – mera
opinião – que não fornece senão ilusão e o conhecimento inteligível que capta a autêntica realidade através do
pensamento.

- Dualismo Ontológico (de ontologia – parte da metafísica que estuda o ser em si, as suas propriedades e os
modos por que se manifesta) – ainda que não refira explicitamente e objectivamente a existência do Mundo
das ideias ou das Formas Puras, há uma clara e evidente tomada de posição a favor de um dualismo que
defende a existência de duas diferentes realidades com diferente estatuto ontológico.

- A sua concepção acerca do que é a filosofia e qual é o seu verdadeiro objectivo – retomando a tese pitagórica
de salvação pelo conhecimento, Platão considera que o verdadeiro filósofo é aquele que permanentemente se
treina e se prepara para restringir o papel do corpo e das paixões libertando deste modo a alma tornando-a
capaz de “contemplar” o que é verdadeiro, divino, não sujeito às contingências da opinião.

Mas qual é o valor do 3º Argumento?

- ele enuncia as consequências escatológicas (de escatologia – parte da teologia que trata dos fins últimos do
Homem e do que há-de acontecer no fim do mundo) que motivam para uma vida filosófica como fuga ao ciclo
das encarnações na medida que afirma que a alma do filósofo é imortal e vai para um local nobre, puro e
invisível.

As objecções de Símias e de Cebes

As objecções de Símias e de Cebes aos argumentos apresentados por Sócrates a favor da imortalidade da
alma revelam concepções que não contemplam a imortalidade da alam. É o próprio Sócrates que encoraja os
seus interlocutores a apresentaras as suas objecções .

Objecção de Símias

Símias compara a relação alma-corpo no momento da morte à relação do acorde musical com a lira (o
acorde é como a alma, invisível, incorpóreo e belo; a lira é como o corpo,
corpo visível e material) e contrafaz a
argumentação de Sócrates ao supor a destruição da lira.

Não será absurdo afirmar que a harmonia do acorde sobrevive à destruição das cordas, só por se dizer que é
de natureza diversa e superior aos materiais de que a lira é feita?

O absurdo procura atingir mostrando que, assim como o acorde consiste na harmonia das vibrações das
cordas da lira, também a alma é resultante da harmonia das forças corpóreas, cujos destinos se encontram
intimamente relacionados, uma não se compreende sem a outra.

Refutação da objecção de Símias

A refutação da objecção de Símias – analogia alma-harmonia – começa pela demonstração de que ela encerar
uma dupla contradição: interna e externa.

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Contradição interna:

A analogia alma-harmonia é incompatível com a preexistência da alma suposta pela Teoria da Reminiscência,
que impõe precedência da alma em relação ao corpo. Ora se a alma é harmonia de um composto de elementos
corpóreos, como podemos considerar que, simultaneamente, seja um composto e um resultado?

Ou seja, a alma não é a harmonia do corpo por ser anterior à sua formação, como provara o argumento da
reminiscência; e que do acorde é absurdo dizer-se que a harmonia que dele se solta é anterior à lira.

Logo,

- a alma não depende do corpo, mas a harmonia depende das cordas e da respectiva vibração.

Contradição externa:

- Se a alma fosse intrinsecamente harmonia, não podia ser mais ou menos harmónica, como não podia ser
mais ou menos alma, por consequência todas as almas seriam iguais e não podiam diferenciar-se pelas acções.

A objecção de Símias leva ao absurdo da equiparação de todas as almas na bondade, além disso torna
inexplicável o vício, visto que este seria sinónimo de desarmonia da alma e se a alma deixasse de ser harmonia
deixava de ser de facto alma.

- Se a alma é harmonia é o resultado dos elementos corpóreos de que é harmonia. Portanto não dirige o
corpo, mas antes é por ele dirigido. Mas como Símias admite só a alma comanda tudo o que existe no homem e
defendendo que o papel da alma no corpo humano é comandar o corpo, como aceitar esta contradição na
objecção de Símias?

Na resposta de Sócrates a Símias, o método maiêutico,


maiêutico a ironia e o diálogo conduzido,
conduzido tanto na contradição
interna como nas consequências que revelam a contradição externa que a objecção continha da aceitação da
tese alma-harmonia.

Objecção de Cebes

Também parte de uma analogia: a alma é como um tecelão.

Disse que a circunstância de se admitir a sobrevivência da alma após a morte de um corpo em que ela
encarnada não implicava logicamente que sobrevivesse a todos os corpos para que transmigrasse. A alma
perdura, mas não parece razoável considerá-la incorruptível e, portanto, imortal, porquanto a transmigração do
corpo para corpo, traz consigo o desgaste e a sua consumpção (acto ou efeito de consumir).

Por muito que dure perecerá um dia como o próprio corpo.

De certo modo como o tecelão que sobrevive aos vestuários que teceu e usara, mas não sobrevive
ao último que fabricou. O tecelão dura mais do que os seus mantos; mas não será absurdo dizer-se
que, se o vestuário existe, o tecelão lhe sobreviverá por ser mais duradouro?

Cebes admite a preexistência e a existência da alma, mas faz reserva quanto à imortalidade, porque embora
reconhecesse que a alma podia sobreviver à morte de vários corpos, se lhe afigurava lógico que ela viesse a
perecer também com o último que animasse – A simplicidade da alma não era razão suficiente para que ela se
não gastasse no exercício da própria actividade..

Refutação à objecção de Cebes

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Nota: contém a narração da história da evolução do espírito de Sócrates relativamente à concepção da
realidade física e uma exposição da Teoria das Ideias.

Sócrates diz que a alma não pode perecer porque tem uma essência incorruptível.

Faz um reconto autobiográfico das suas primeiras inquirições acerca da Natureza – estudo das causas pelas
quais as coisas nascem, subsistem e perecem.

Ouvira, um dia, ler Anaxágoras – falava da acção de um Espírito inteligente, ordenador e causa de tudo o que
existe. Esta explicação era diferente da dos físicos e já não confundia a causa com o efeito. Depois leu o livro do
filósofo mas teve de reconhecer que Anaxágoras se desviara na direcção que parecia levar ao caminho da
verdade para cair na rotina da explicação física tradicional. Verificou que a lei de conveniência, na ordem da
máxima perfeição também não era a causa explicativa e não passava de mera condição.

O saber verdadeiro não reside no mundo das sensações, está nas ideias, como essência dos seres, e só se
atinge pelo método
método hipotético-
hipotético-dedutivo.
dedutivo

Cebes seguira o caminho do erro e da ilusão; o bom caminho é o da dialéctica e o da consideração das Ideias
– realidade autêntica. O Belo, o Bom, a Grandeza, existem em si, por si, não são generalizações – o método
hipotético-dedutivo impõe que as coisas sensíveis se chamem belas por concordarem com o Belo e não por
serem belas em si mesmas.

“é por causa do Belo que as coisas são belas”

Nada mais as torna belas do que a presença ou a PARTICIPAÇÃO daquele Belo

As Ideias são a causa


causa das coisas

Uma coisa só se explica cabalmente quando se liga, ou melhor veicula, ao que nela há de inteligível, isto é, à
sua essência.

Resumindo, a Teoria da Participação procura estabelecer uma relação entre o mundo das Ideias e o mundo
sensível, entre o mundo das coisas particulares, múltiplas, diversas e em devir e o mundo inteligível, da
unidade, da permanência e da identidade. Se só as Ideias são o que verdadeiramente é, as coisas particulares
só são o que são por participação com o que verdadeiramente é por si e em si e não em outro. Se há coisas
belas é porque participam do Belo; é a própria Ideia de Belo que é o ser das coisas que se dizem belas, por isso,
só o belo (a Ideia) é o que é (ser) e o ser das coisas belas é a própria ideia de belo que é comum a todas as
coisas belas que participam da Ideia que é o seu ser, a sua unidade e a sua causa.

4º Argumento

[102a--107b]
O argumento da incompatibilidade dos opostos “em si” e “em nós” [102a

Este argumento parte do pressuposto da existência do mundo das Ideias e da interpretação da causalidade
como participação.

Retomando o argumento inicial Sócrates recorda que as coisas contrárias devém a partir das suas contrárias
mas os próprios contrários, os “contrários em si”, “os contrários em nós” não podem tornar-se nos seus
contrários pois perante a aproximação de um contrário o outro desaparece.

A objecção de Cebes dizia que a alma dura, mas não perdura imperecivelmente. Para refutar, Sócrates, diz
que:

- os contrários não coexistem nem podem


podem coexistir num mesmo sujeito – o corpo passa da vida à morte, mas
isto não quer dizer que a vida, como essência, devenha ou possa devir do seu contrário.

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- a essência da alma consiste em ser vida,
vida excluindo intrinsecamente a morte, que é o contrário de vida. Não
contradiz o 1º Argumento porque:

— No primeiro procurara mostrar que a sucessão dos contrários era a lei do universo - «uma coisa oposta tem
origem na que lhe é oposta» [103b]

— Aqui o recurso à lei cíclica dos contrários pretende demonstrar que a alternação das concretizações físicas,
como por exemplo, a dos objectos que de quentes passam a frios. Naquele há um elemento imperecível que é a
alma, nestes, pelo contrário, quando o calor vem ocupar o lugar do frio, este desaparece e perece - «o oposto em
si mesmo jamais poderá tornar-se no seu oposto, tanto o que existe em nós como o que existe na natureza»
[103b]

O Fogo é por natureza Quente e seria contraditório considerar possível a existência de Fogo Frio. A
incompatibilidade dos contrários diz respeito à própria substância.

Exemplo da Neve: «jamais a neve , enquanto tal, se vier a acolher o quente, continuará a será mesma neve
como antes, ou seja, neve quente: bem pelo contrário, quando o quente avança na sua direcção ou bate em
retirada ou perece» [103d]

Identicamente ao Fogo, à Neve ou ao número Cinco, a alma é por natureza Vida, princípio ou causa de vida, a
substância cuja natureza ou atributo essencial é a vida, aquilo que admite no seu seio o seu oposto, a morte,
logo, aquilo que não é mortal. A imperciabilidade da alma decorre da sua própria essência.

“Quando a morte sobrevem ao homem, é a sua parte mortal (...) que morre, a outra, a imortal, subtrai-se à
morte e escapa-se a salvo, isenta de destruição. (...) é um facto que as nossas almas irão para o Hades” [106e e
107]

O MITO - Do julgamento e destino das almas

- Insuficiências da capacidade demonstrativa dos argumentos apresentados

Os interlocutores de Sócrates não encontraram nada a opor aos argumentos aduzidos por Sócrates mas,
apesar disso, confessam-se ainda não definitivamente elucidados e convencidos. O próprio Sócrates considera
que as premissas tomadas como ponto de partida carecem de um exame mais rigoroso.

- Símias considera que:

“ a complexidade do assunto, bem como a pouca conta em que tenho a debilidade humana obrigam-me a
guardar de mim para mim algumas reservas ao que foi dito”

Platão também considera que o assunto é de tal modo complexo que transcende uma capacidade racional
meramente humana e escapava ao âmbito de uma análise conceptual.

A descrença de Símias poderá significar o reconhecimento da alma e do além. O mito surge no diálogo como
o “outro aspecto que convirá ponderar” no que respeita ao destino da alma pois, se de facto é imortal devemos
cuidar dela tendo em vista a eternidade.

Qualquer negligência terá consequências dramáticas para o destino da alma e do além. O mito complementa
e reforça a força dos argumentos em favor da imortalidade, as almas serão submetidas ao julgamento
julgamento e terão
um destino diferente conforme os seus méritos:

1. Aqueles que não viverem de forma irrepreensível e santa ficam a expiar as suas culpas até se libertarem
delas para receber a recompensa das suas acções.

2. Aqueles que não são considerados susceptíveis de cura devido à magnitude dos seus crimes, a esses próprio
os impele a despenharem no Tártaro, donde não mais regressam

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3. Outros são susceptíveis de cura (por exemplo, aqueles que num momento de cólera se tornam homicidas),
são também compelidos a despenharem-se no Tártaro mas, decorrido algum tempo são devolvidos e rogam
aos que mataram ou ofenderam que os deixem passar ao lago Aquerusíade onde permanecem as almas que
aguardam reencarnar de novo.

4. Há enfim, aqueles que os juizes consideram ter levado uma vontade excepcionalmente santa, esses,
emancipam-se das regiões terrenas, como que libertando-se de uma prisão, ascendem lá ao cimo, às regiões
puras da terra e aí estabelecem a sua morada. Ainda dentro destes, os que da filosofia chegaram a um estado
de purificação, passam a viver para todo o sempre livres do corpo, indo habitar moradas ainda mais
esplendorosas

Parece assim estar justificado o estado de espírito de Sócrates no dia da execução. Quem se esforçou durante
durante
toda a sua vida por praticar a virtude e viveu de acordo com a razão, submetendo o corpo ao seu controlo
deverá acreditar que à sua alma será reservado o melhor dos destinos.

Terminado o relato do debate que pretensamente terá tido lugar em torno da questão da imortalidade, o
Diálogo retoma o tom dramático que o caracteriza com a narração do episódio da execução e da morte de
Sócrates.

Assistimos aos preparativos da execução, recordamos as suas últimas recomendações, os pormenores da


ingestão de veneno, o momento da morte do “homem mais excelente, e também o mais sensato e o mais
justo”.