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Funcionalismo e Analise Linguistic A

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Published by: Cristiane Malinoski Pianaro Angelo on Apr 23, 2012
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Contribuições do funcionalismo para as práticas de análise linguística Functionalism contributions to the linguistic analysis practice Título resumido: Funcionalismo

e análise linguística AUTOR

Resumo: Este artigo discute alguns postulados básicos do funcionalismo e algumas implicações dessa abordagem no processo de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa. Ilustram-se as reflexões com algumas propostas de análise linguística do gênero receita culinária, destinadas a alunos do Ensino Fundamental (8º e 9º anos), as quais se encontram fundamentadas em um dos temas centrais do funcionalismo: a iconicidade. As discussões apontam que, no esteio do conceito de iconicidade sugerido pelo funcionalismo, as atividades de análise linguística em sala de aula de língua materna contribuem para demonstrar ao aluno que o autor realiza escolhas lexicais e estruturais de acordo com seus propósitos comunicativos, no caso da receita culinária, o de ensinar o interlocutor a preparar um prato culinário. Palavras-chave: Funcionalismo; iconicidade; gênero receita culinária; ensino fundamental. Abstract: This article discusses some basic assumptions of functionalism and some implications of this approach in the Portuguese teaching and learning progress. Reflections are illustrated with some proposals for linguistic analysis of the recipe genre, aimed at elementary school students (8 and 9 years), which are based on one of the central themes of functionalism: iconicity. The discussions indicate that, in the mainstay of the concept of iconicity suggested by functionalism, the activities of linguistic analysis in classroom contribute to the student to demonstrate that the author performs lexical and structural choices according to their communicative purposes, in the case of recipe, to teach the interlocutor to prepare a culinary dish. Keywords: Functionalism; iconicity; cooking recipe genre; elementary school.

Introdução Ao conceber a linguagem como instrumento de interação social entre seres humanos (DIK, 1989), o funcionalismo constitui-se como uma teoria linguística que, ao contrário das abordagens formalistas, preocupa-se em pôr em exame os vínculos entre as estruturas linguísticas e os contextos em que elas se realizam. Como essa teoria trata não apenas dos constituintes que se limitam à sentença, mas chegam à análise da instância textual, diversos linguistas e linguistas aplicados (OLIVEIRA; CEZARIO, 2007; NEVES, 2003; FURTADO DA CUNHA; TAVARES, 2007; ANTONIO, 2005) sugerem procedimentos metodológicos de cunho funcionalista para o tratamento da gramática em sala de aula, isto é, procedimentos de análise e reflexão linguística que

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excluindo os aspectos de ordem pragmático-discursiva inerentes à situação comunicativa real. objetivamos neste artigo recuperar alguns pressupostos básicos da abordagem funcionalista e discutir algumas implicações dessa abordagem no processo de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa. desse modo. A tendência formalista. não devendo. que reúne várias linhas que têm em comum o fato de privilegiar a função exercida pelas formas linguísticas na comunicação. privilegia a visão de língua como sistema. ou seja. distantes da situação de uso. mas precisamos lhe oferecer atividades contextualizadas que instiguem e desafiem seu espírito crítico. 2003. concebendo-a. para fazer referência aos estudos gramaticais feitos a partir do texto. o funcionalismo observa a língua do ponto de vista do contexto da situação extralinguística – o propósito comunicativo. na obra “O texto na sala de aula”. tomando o gênero textual receita culinária. AREAS. Dessa forma. as quais se encontram fundamentadas em um dos temas centrais do funcionalismo: a iconicidade.privilegiam as funções exercidas pelos elementos gramaticais no contexto comunicativo. Nessa perspectiva. “como uma estrutura maleável. e a funcionalista. não podemos mais lhe proporcionar exercícios gramaticais isolados. p. Ilustramos nossas reflexões. portanto em textos orais e escritos. portanto. p. a partir do qual elencamos e comentamos algumas alternativas de atividades de análise linguística1 para alunos do Ensino Fundamental (8º e 9º anos). 1998). Partimos do princípio de que se o objetivo precípuo das aulas de língua portuguesa é tornar o aluno um usuário competente da língua. no contínuo da diversidade de gêneros textuais. Por outro lado. os participantes. os formalistas buscam estudar a rede de dependências internas em que se estruturam os elementos linguísticos. ampliando suas possibilidades de participação social no exercício da cidadania (BRASIL.20). O funcionalismo linguístico e suas implicações para o ensino da língua materna Podem-se constatar duas tendências antagônicas no campo dos estudos da linguagem: a formalista – representada pelo descritivismo americano e pelos diversos modelos do gerativismo – que tem como foco a forma linguística. criativo e reflexivo no que diz respeito aos fenômenos que emergem no uso da língua no dia a dia. ser confundida com o ensino tradicional de gramática. herdando a concepção saussuriana de linguagem. que ajudam a determinar sua estrutura gramatical” (MARTELOTTA. 2 . Por considerar o uso das expressões linguísticas na 1 Expressão cunhada por Geraldi (1984). sujeita a pressões oriundas das diferentes situações comunicativas. AREAS. o contexto discursivo. como “um conjunto cujos elementos se estruturam num todo organizado” (MARTELOTTA.17). 2003. o que evidencia uma abordagem de construção e reflexão sobre os fenômenos linguísticos.

Um funcionalista explica que a lâmina do machado tem a forma que tem porque se destina ao corte de madeira. Assim. pela multiplicidade funcional da linguagem. então. ilustra com uma metáfora interessante as diferenças entre essa abordagem e o funcionalismo. os atuais formalistas são aqueles que pleiteiam. de momento histórico. constatou que essa forma seria a adequada e criou o primeiro machado. eleger vantagens e desvantagens de cada um deles no rol dos estudos linguísticos atuais. p. ou seja. a questão é semelhante: a linguagem tem a forma que tem porque é determinada por suas funções? Ou suas funções é que são ‘permitidas’ pela forma?” (2004. Já o linguista funcionalista defende que as expressões linguísticas são modeladas pelas determinações pragmáticas da interação comunicativa. adepto do formalismo. com igual paixão e intransigência. mas também para o corte de madeira. assim. Respondendo à questão. o estudioso da linguagem de filiação formalista sustenta que são as formas linguísticas que determinam as funções. a autonomia da sintaxe. Para esse autor. Rajagopalan. Supõe-se. Ao achar uma pedra em forma de cunha. emergindo. partidário do funcionalismo. Nesse sentido. levantar semelhanças e diferenças entre eles.comunicação. quebrar castanhas ou moer alimentos. Borges Neto (2004).29). portanto.15). apostam na impossibilidade de sustentar a tese da autonomia (2004. Sem pretensão de arrolar argumentos para instigar a polêmica. necessitando cortar um pedaço de madeira. p. procurou um material com características adequadas à tarefa. Borges Neto conclui que “na linguística. o conflito pode ser comparado com a questão de se saber a origem da forma da lâmina do machado. procuram definir esses modelos. “uma certa pragmatização do componente sintático-semântico do modelo linguístico” (NEVES. 1994.113). que o primata ancestral. é a função “cortar madeira” que determina o formato da lâmina. No campo da linguística. o primata ancestral deve ter percebido que as pedras em forma de cunha eram adequadas não só para separar a pele dos animais caçados. a qual gostaríamos de recuperar nesta discussão. do que de ordem epistemológica: É importante entender como o debate sobre a pergunta: ‘O que vem primeiro: a forma ou a função?’ acaba se transformando numa questão política. de forma intransigente. reconhece que a questão é mais de ordem sócio-política. Já um formalista explica que é por ter a forma de cunha que o machado serve para cortar madeira. p. a análise linguística de base funcional pressupõe. das funções a forma do machado. da mesma forma que os funcionalistas. . ou seja. como de Borges Neto (2004) e Rajagopalan (2004). Diversos artigos e ensaios. bem como elencar suas possíveis contribuições para as práticas de ensino e aprendizagem da língua materna.

mas vai além. p. visto que as várias abordagens consideradas funcionalistas não são.. Ela ainda acrescenta que. Neves (1994) ressalta que o que caracteriza a concepção de linguagem defendida pela abordagem funcionalista é sua natureza não somente funcional. na instabilidade da relação entre estrutura e função. p. pois. Neves (2003). há um funcionalismo conservador. mas também dinâmica.126). consequentemente.Para o autor. identificáveis por rótulos teóricos. Oliveira e Cezario (2007) afirmam que são os constructos teóricos de origem funcionalista que podem oferecer contribuições mais significativas para o tratamento dos aspectos gramaticais da língua portuguesa.27-28). como se forma e função fossem incompatíveis: “O que é importante perceber neste caso é que a forma necessariamente evoca a ideia de função e vice versa (. Sintetizando o pensamento básico das teorias funcionalistas. Neves (1997) esclarece que qualquer uma das abordagens funcionalistas tem como preocupação básica examinar o modo 4 . 157). ao aproximar a linguística da prática cotidiana da sala de aula.55 . que focaliza tão-somente a própria estrutura linguística. não havendo. O tipo moderado não apenas aponta essa inadequação. o funcionalismo contribui para uma percepção mais ampla acerca do fenômeno linguístico. Assim sendo. um funcionalismo extremado e um funcionalismo moderado: O tipo conservador apenas aponta a inadequação do formalismo ou do estruturalismo. e considera que as regras se baseiam internamente na função. ao privilegiar a atividade linguística real e autêntica. desvinculada de todas as influências que cercam sua produção e recepção. já que essa forma está relacionada a um significado e a serviço do propósito pelo qual é utilizada. sem propor uma análise da estrutura. 1997. mas por meio dos nomes dos teóricos que as desenvolveram. No entanto. segundo Nichols (1984). seu estudo não pode se resumir à análise de sua forma. O funcionalismo extremado nega a realidade da estrutura como estrutura. Também. conforme explica Neves (1997). Furtado da Cunha e Tavares (2007). o que depende de cada contexto específico de interação (2007.. p. Definir o ”funcionalismo” é tarefa complexa. com textos produzidos em situações cotidianas orais ou escritas – diferentemente da abordagem formalista.) a forma e a função são atributos inalienáveis de qualquer sistema” (RAJAGOPALAN.56). em geral. restrições sintáticas (NEVES. não é possível arguir em defesa de um ou de outro lado. em que falantes reais interagem e. propondo uma análise funcionalista da estrutura. uma vez que “reconhece. Furtado da Cunha e Tavares destacam a necessidade de um ensino de língua que leve em conta o funcionamento da língua nas interações comunicativas: A língua é determinada pelas situações de comunicação real. a força dinâmica que está por detrás do constante desenvolvimento da linguagem” (p. 2004.

coveiro . 1997.como os usuários da língua se comunicam eficientemente. cansou de esbravejar. definida como a correlação natural e motivada entre forma e função. desesperado (. Fábulas fabulosas. “enrouquecer” e “esbravejar” que . mas também de usar e interpretar essas expressões de uma maneira interacionalmente satisfatória” (NEVES. pondo-se sob exame a competência comunicativa. cavando. veiculam uma maior quantidade de informações conceituais em comparação com as palavras de que se originam. 2003. ou seja. entre o código linguístico e o conteúdo (NEVES. segundo Furtado da Cunha (2008). Levantou o olhar para cima e viu que. Ninguém atendeu. a repetição do verbo cavar fornece evidência favorável a esse subprincípio: O socorro Ele foi cavando.15). mais extensas. constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação linear dos segmentos. não conseguiria sair. o significante daquilo que ele evoca conceptualmente.Enrouqueceu de gritar. 1997.. na extensão das palavras: palavras derivadas. expressão utilizada por Hymes (1974). quanto maior o volume de informação.era cavar. maior a quantidade de forma. Neste trabalho. Mas. desdobra-se em três subprincípios. Millôr. FURTADO DA CUNHA. sozinho. Ninguém veio. proposto pela linguística estrutural. de repente. É o que se pode perceber nas palavras “coveiro”. focalizamos um dos principais centrais do funcionalismo: a iconicidade. refletindo uma relação motivada entre o significado (quantidade/tempo relacionados ao verbo cavar) e a forma (repetição do verbo que expressa a ação de cavar). cavando. o narrador usa uma quantidade maior de formas linguísticas (repete três vezes o verbo cavar) para reforçar a ação iterativa de cavar e a quantidade de tempo que o personagem levou para cavar. na distração do ofício que amava. Sentou-se no fundo da cova. para fazer referência à “capacidade que os indivíduos têm não apenas de codificar e decodificar expressões. ao grau de integração dos No início do texto. percebeu que cavara demais. o dogma da arbitrariedade. que dissocia no signo linguístico.. Rio de Janeiro: Nórdica. p. De acordo com o subprincípio da quantidade. Gritou. 2008) questionando. o significado. desistiu com a noite. O princípio da iconicidade. No exemplo a seguir. 1991) Esses subprincípios relacionam-se à quantidade de informações. ou da motivação linguística. Tentou sair da cova e não conseguiu. A atuação desse subprincípio pode ser observada também. de tal maneira que a estrutura da construção gramatical sugere a estrutura do conceito que ela expressa. Gritou mais forte. pois sua profissão .. desse modo.) (FERNANDES. os quais são apresentados por Givón na obra “Syntax I” (1984). FURTADO DA CUNHA et al.

na sequência percebeu que não conseguiria sair sozinho. pode-se perceber que a disposição das orações do texto narrativo reflete a sequência temporal em que as ações ocorreram: primeiro o personagem cavou. O subprincípio da integração prevê que os conteúdos que estão mais próximos no plano mental são colocados juntos sintaticamente no ato comunicativo. Exemplificando a questão. em qualquer manifestação linguística. a informação mais urgente. sendo uma expressão mais complexa que a palavra primitiva. O princípio da iconicidade relaciona-se também à ordem dos segmentos no encadeamento sintático. em seguida tentou sair da cova e não conseguiu. nos quais os verbos.. Se os conceitos entidade e tamanho estão próximos no sentido. bravo). A questão da iconicidade contribui. precisa valer-se de muitos e bons argumentos. compõe seu discurso considerando 6 . fazemos escolhas lexicais e estruturais de acordo com os nossos objetivos para tentarmos conseguir sucesso na comunicação” (2007. oral ou escrita. é o indivíduo que abre covas para enterrar os mortos. p. segundo o subprincípio da ordenação linear. gritou mais forte. e as narrativas de viagens que são ricas em detalhes e apresentam uma forte adjetivação para que o interlocutor faça um quadro mental mais próximo da realidade experienciada pelo locutor. para defender o seu ponto de vista e convencer o interlocutor. enrouqueceu de gritar. como seu tamanho. depois percebeu que cavou demais. já que inversões provocariam um desordenamento das ideias.97).. rouco. que expressam as ações a serem desenvolvidas. 2003). Wilson e Martelotta (2008) explicam isso lembrando o fato de os adjetivos estarem sempre ao lado dos substantivos a que se referem. Ao pensarmos na entidade “calça”. Tomando-se o exemplo anterior. Ampliando a discussão sobre o princípio da iconicidade. não é estranho que se mantenham lado a lado na frase. mas sim que. de maneira que a ordenação dos elementos no enunciado indica a sua ordem de importância para o falante (FURTADO DA CUNHA et al. etc. como exemplo. normalmente são o elemento inicial nas sentenças. Oliveira e Cezario esclarecem que “não queremos dizer que não haja arbitrariedade linguística. Essas orações não poderiam ser postas em posições diferentes daquelas em que se encontram. por exemplo. para que possamos perceber que o usuário da língua. previsível e imprescindível tende a ocupar o primeiro lugar da cadeia sintática. ao produzir uma situação discursiva.apresentam um volume maior de forma em comparação com as palavras primitivas (cova. como no sintagma nominal “calça curta”. pois demandam maior atenção no fluxo discursivo. Ainda. gritou. imediatamente acionamos suas características inerentes. já que veiculam uma maior quantidade de informação: coveiro. os textos instrucionais. Podem-se citar. então. as autoras mencionam os textos argumentativos em que o autor.

uma vez que as relações entre formas e funções gramaticais dependem da gama de fatores que interferem a cada interação comunicativa oral e escrita” (p. a análise e reflexão dos tópicos gramaticais deve se dar em textos orais e escritos. constata-se que o gênero receita culinária apresenta: o nome da receita a ser preparada. pode encontrar alternativas mais eficazes e criativas para o tratamento da gramática nas aulas de língua portuguesa nos níveis fundamental e médio. o leitor é alguém que deseja aprender a fazer o alimento. Para isso. a lista de ingredientes (escrita na vertical) e o . Ao comungar da ideia de Givón (1984) de que as propriedades sintáticas emergem do discurso. é de suma importância que o tratamento dos tópicos gramaticais nas aulas de língua portuguesa encontre-se relacionado ao estudo de gêneros textuais para que. desse modo. propiciando uma aproximação mais positiva entre o aluno e a língua. “A gramática existe somente quando utilizada. CEZARIO. de gêneros variados. a finalidade é levar o destinatário ou cozinheiro a obter sucesso no preparo de um prato culinário. 2008). Caracterizando a dimensão social do gênero. pois eles representam em si o objeto mais apropriado para o estudo da língua. o professor. Quanto aos aspectos composicionais. um especialista) é uma pessoa que sabe preparar determinado alimento e pretende ensinar como fazê-lo. os sites.11). O gênero receita culinária na sala de aula: algumas alternativas à luz do funcionalismo Discorremos nesta seção acerca de algumas possibilidades de práticas de análise linguística com o gênero receita culinária com alunos das séries finais do Ensino Fundamental (8º e 9º anos). Nesse sentido. p. os livros e cadernos de receitas e embalagens de produtos.157). tem-se como local de publicação os jornais e revistas. Na mesma linha de raciocínio. passe a utilizá-los com maior eficiência. próprio ao estabelecimento de orientações. no contínuo dos gêneros textuais. lançando mão dos estudos a respeito de iconicidade. a autora defende a indissociabilidade entre a forma e as funções discursivo-pragmáticas exigidas pelos gêneros. Decat (2008) destaca a necessidade de uma abordagem funcionalista para o estudo dos processos da língua em uso. “há motivação para a forma de um texto ser do jeito que é” (OLIVEIRA. assim.as diversas finalidades ou propósitos comunicativos. tendo em vista as contribuições da abordagem funcionalista de linguagem. considerando a variabilidade da língua e a variabilidade dos textos. conforme apontam Furtado da Cunha e Tavares (2007). constata-se que o autor (algumas vezes não identificado e outras vezes. ou seja. A receita culinária é uma manifestação do tipo textual injuntivo. o aluno apreenda a função que os vários recursos do sistema formal da língua assumem na comunicação discursiva e. regras e ordens (DECAT. 2007. Nas situações de ensino e aprendizagem da língua.

Passe no açúcar de confeiteiro.. Essa estrutura básica pode apresentar variações.. Deixe esfriar.O que predomina no desenvolvimento das instruções: períodos simples ou períodos compostos? Por quê? . mexa. Misture. Esses pontos são necessários? Comente. Desligue o fogo. depois o leite 8 . torna-se possível discutir com os alunos uma especificidade do gênero receita. corte em quadrados do tamanho desejado. Em uma panela em fogo médio. que é a iconicidade na organização dos elementos da lista de ingredientes e das orações do modo de preparo. pode-se dizer que a ordenação dos itens obedece a algum critério? Eles poderiam ser expostos de outra maneira? Comente. ATIVIDADES: . Despeje tudo na assadeira untada. as orações são ordenadas de modo aleatório ou obedecem a algum critério? Justifique.Percebe-se que os períodos que formam o modo de preparo são separados por pontos. Selecionamos a seguir a receita “Pavê delicioso”. contendo a sequência dos procedimentos que devem ser seguidos no preparo do alimento. observe: . 3 latas de leite condensado e 8 colheres (sopa) de achocolatado. para a qual elencamos algumas atividades de análise linguística: Pavê delicioso Ingredientes 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina 3 latas de leite condensado 8 colheres (sopa) de achocolatado 1 pacote de biscoito doce quebrados grosseiramente açúcar de confeiteiro Modo de preparo Unte uma assadeira retangular (40 cm X 34 cm) com manteiga ou margarina. por exemplo.Observando os ingredientes do “Pavê delicioso”. mas conforme a ordem de utilização na montagem da receita: primeiro a manteiga. Os ingredientes são expostos. não aleatoriamente. Abaixe o fogo.Por que razão o verbo mexer. .E quanto ao “modo de preparo”. retirado de um caderno pessoal de receitas. coloque 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina.Quanto ao uso das formas verbais.Em que lugar da oração os verbos aparecem? Justifique sua resposta.modo de fazer (escrita na horizontal). até soltar do fundo da panela (+/. Salpique os biscoitos quebrados. encontra-se repetido três vezes no modo de preparo? Por meio dessas questões.15 minutos). . Depois de frio. no caso de receitas que apresentam o nome e um único agrupamento que contém o modo de fazer e os ingredientes. Aumente o fogo e mexa. mexa. . .

ou seja. como nas demais receitas culinárias. No entanto. Saliente-se ainda que em “Pavê delicioso”. analisando os adjetivos que aparecem na receita “Pavê delicioso”. Ainda no tocante aos verbos. 2003). O que predominam na receita “Pavê delicioso”: substantivos concretos ou substantivos abstratos? Essa predominância se aplica a outras receitas culinárias? Comente. Do mesmo modo. o que poderia ocasionar resultados inesperados na finalização da receita. predominam os períodos simples. contribuindo para que ele não se esqueça de utilizar algum dos itens elencados. encontramos somente substantivos comuns – aqueles que se aplicam a qualquer elemento de uma classe. a ordem de elaboração do alimento. Por quê? Na maioria das gramáticas escolares. separado do outro por ponto. amido de milho. Você deve ter percebido que na lista de ingredientes e no modo de preparo da receita “Pavê delicioso”. mexa. 2008. atribuem uma qualidade. Verifique se esses adjetivos qualificam os substantivos. nota-se a repetição da estrutura “mexa. desse modo. observa-se que no “modo de preparo” o emprego do verbo no início das orações tem motivação icônica: os verbos retratam as ações necessárias para a elaboração da iguaria e por isso ocupam a posição inicial na oração. procurando. fermento em pó. em seguida o achocolatado etc. No caso da receita culinária. direcionar as ações do interlocutor para prepará-lo (DECAT. podemos encontrar alguns substantivos próprios.. de modo que a ordem dos elementos do enunciado revela a sua ordem de importância para o falante” (MARTELOTTA. AREAS. sendo que cada período. em embalagens de produtos alimentícios. a distribuição das orações no texto reflete a sequência cronológica das ações descritas. Por força da função instrucional a que se presta o gênero.condensado. Observe um caderno (ou um site) de receitas culinárias e faça um levantamento dos adjetivos e locuções adjetivas que aparecem nesse gênero textual. correspondendo a cada etapa da receita e especificando. Essa forma de organização consiste numa facilidade para o leitor. no modo de preparo – refletindo a atuação do subprincípio da quantidade – que revela o desejo do autor de expressar a necessidade de que a ação seja realizada de modo intensivo e iterativo. os adjetivos são definidos como palavras que qualificam os substantivos. “a informação mais importante tende a ocupar o primeiro lugar da cadeia sintática. PISCIOTTA. ou se classificam os substantivos Nome da receita Ex: Rocambole Adjetivos qualificadores Fácil (é fácil de fazer!) Adjetivos classificadores . 2001). indica uma etapa do processo de preparo do prato. assim. mexa”. Ainda sobre o subprincípio da ordenação linear. as formas verbais em “Pavê delicioso” aparecem no modo imperativo. como de farinha de trigo. materializados pelas chamadas orações absolutas. Discuta a validade desse conceito.

p. segundo Camacho et al.Os adjetivos podem ser intensificados por meio de um sufixo ou por meio da anteposição de um advérbio (por exemplo: muito. exclamações) (CAMACHO et al.32). a classe de entidades à qual pertence o seu referente” (CAMACHO et al. Nesse sentido. açúcar. de segunda ordem (estado de coisas – ações. açúcar. sem vinculação com a situação comunicativa. entidades de primeira ordem. tratadas na escola como compartimentos estanques. em sua maioria. p. os substantivos – predominantes na lista de ingredientes – são concretos (biscoito. a abordagem das classes de palavras. de terceira ordem (entidades abstratas: crenças. julgamentos) ou de quarta ordem (ilocuções que caracterizam os atos de fala – declarações.32). são relativamente constantes quanto a suas propriedades perceptuais. no gênero receita culinária. no gênero receita. 2008.. Desse modo. leite).32). (ii) são localizadas em algum ponto no tempo e no espaço. discuta: qual a importância dos adjetivos qualificadores e dos adjetivos classificadores nas receitas culinárias? Que tipo de adjetivos predomina nas receitas culinárias? A partir da discussão a respeito da iconicidade. perguntas. “denominam. referindo-se a entidades de existência independente. sendo essa de primeira ordem (indivíduos – pessoas. isto é. manteiga.. processos). Já a presença de substantivos próprios em receitas culinárias encontra-se restrita nos casos em que o gênero é 10 . tomando-se as propriedades semânticas dos substantivos. bem). Verifique quais adjetivos do exercício anterior podem ser intensificados.. em traços gerais. coisas). destinada a instruir o interlocutor a fazer uso de determinadas coisas/alimentos no preparo da iguaria. expectativas. (iii) são observáveis publicamente. manteiga. comuns (biscoito. os substantivos são. a designação de uma entidade como “biscoito” sugere que essa entidade apresenta um feixe de características que a define como pertencente à classe dos biscoitos. p. pode-se debater que as palavras pertencentes a essa classe funcionam como um instrumento da língua usado pelo falante para dirigir a atenção do interlocutor para alguma entidade a que ele pretende fazer referência. (iv) podem ser avaliadas em termos de sua existência” (2008. inseridas em um gênero textual. 2008. animais. quanto a essa mesma classe. Assim. estados. leite). as quais. por se tratar de manifestação textual de tipologia injuntiva. apresentam as seguintes características: “(i) sob condições normais. pode ganhar contornos mais significativos. Ainda. Observando a receita “Pavê delicioso” e outras que você pesquisou. ao se analisar o comportamento das categorias gramaticais no uso comunicativo.

Constata-se que no gênero receita culinária são mais comuns os adjetivos classificadores. qual a qualidade que está sendo conferida ao substantivo “assadeira”.178). uma qualidade (no caso. 2008. Por isso. que se deve dar a abordagem dos tópicos da gramática da língua portuguesa. “de confeiteiro” (açúcar de confeiteiro). “Mousse super rápida de limão”. No esteio do conceito de . agora sim. O trabalho com gêneros surge. Questionando o rigor dos conceitos expostos na gramática e reproduzidos nas aulas de língua portuguesa. funcionam como uma espécie de propaganda de algum produto.46). Os adjetivos qualificadores. é nos textos que um falante concreto produz. ninguém nos desafiou a pôr essa definição à prova” (2010. p. tomandose a receita “Pavê delicioso”. torna-se fundamental provocar reflexões em sala de aula a respeito da validade ou não de determinados conceitos expostos na gramática tradicional. positiva) ao pavê. sob condições específicas de interação. em uma situação real de comunicação. mas as funções que elas exercem nos contextos de uso. Nessa perspectiva. por exemplo. “Fica saboroso e fresquinho!”. “doce” (biscoito doce). poderíamos perguntar: no início do modo de preparo. identificando um referente único com identidade distinta dos demais referentes” (CAMACHO et al. No que se refere ao trabalho com os adjetivos.veiculado em embalagens de produtos. porque restringe o conceito àquela assadeira que tem o formato de retângulo. quando o autor pretende ressaltar as qualidades positivas do prato: “Receita de torta fácil”. testando-os face aos dados linguísticos para constatar se eles descrevem ou não a estrutura e/ou funcionamento da língua em relação ao elemento em foco.. como uma alternativa para se discutir em sala de aula que as relações entre regularidades linguísticas e funções dependem de uma série de elementos que interferem na prática comunicativa diária. em primeiro lugar. nessa perspectiva. p. Neves argumenta: “aprendemos durante a vida toda que adjetivo é a palavra que qualifica o substantivo. em que “delicioso” atribui. não são as expressões linguísticas em si que interessam. Como ocorre com tudo o que se aprende de ‘gramática’ na escola. “retangular” é adjetivo classificador. Considerações finais Para o funcionalismo. em menor número. quando os termos ao fazerem “designação individual dos elementos a que se referem. aparecem nos títulos das receitas ou na parte final. “condensado” (leite condensado). para especificar ao interlocutor as propriedades que devem ter um determinado ingrediente a ser utilizado. persuadindo o interlocutor a usar/comprar um ingrediente em específico. quando ele se articula com o adjetivo “retangular”? De fato. De forma diferente ocorre em “pavê delicioso”.

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