UNIOESTE – universidade do Oeste do Paraná – Campus de Foz do Iguaçu Disciplina de Morfossintaxe Professora: Andréia Acadêmica: Gerusa Graeff hoteit

Princípios da análise mórfica. IN: Linguística aplicada ao português. Morfologia, 17 ed. São Paulo. Cortez, 2003.

De acordo com Bloomfield (1933: 60), (...) as unidades formais de uma língua são livres e presas. As primeiras constituem uma sequência que pode funcionar isoladamente como comunicação suficiente, conforme livros (...) ‘O que você vai revender?’ ‘Livros’. As formas presas só funcionam ligadas a outras, como o prefixo re em revender’ De modo a abranger as partículas proclíticas e enclíticas, em português, Mattoso Câmara Jr. Introduziu um terceiro conceito, o de formas dependentes as quais funcionam ligadas às livres (...). Tais formas distinguem-se das livres e das presas: das primeiras, porque não podem funcionar isoladamente; das segundas, pelas possibilidades de intercalação de novas formas e da variação posicional na frase. Introduzido a noção de forma dependente, Mattoso Câmara ampliou o conceito de vocábulo formal: é a unidade a que se chega quando não é possível a divisão em duas ou mais formas livres ou dependentes. Tanto as formas livres como as dependentes ora apresentam-se indivisíveis (sol, a), ora são passíveis de divisão em unidades menores (...). Em infelizmente, a forma livre feliz está combinada com formas presas; em imprevisível, a forma livre compõe-se apenas de formas presas. Não se pode confundir o conceito de formas livres, dependentes e presas com o de morfema. (...) os primeiros, definem-se a nível de frase, isto é, do funcionamento das unidades linguísticas do enunciado; os segundos, a nível de vocábulo, ou melhor, da possibilidade ou não de sua divisão em menores unidades significativas ou de primeira articulação. A análise mórfica consiste na descrição da estrutura do vocábulo mórfico, depreendendo suas formas mínimas ou morfemas, de acordo com uma significação uma função (..) atribuídas dentro da significação e da função do vocábulo.

portanto de uma mudança morfonêmica. que independem de causas fonéticas. modo e tempo. Outro fenômeno importante na análise mórfica é o da neutralização.. Morfemas gramaticais (.. Existem outros dois princípios da análise mórfica: a alomorfia e a mudança morfonêmica... nas partes finais e iniciais de constituintes em sequência. Como exemplo do primeiro caso. Alternativos: (.. tem-se. que consiste na perda da oposição entre unidades significativas diferentes. São exemplos de mudanças morfonêmicas a redução de /in-/ a /i-/. Trata-se.) supressão de um segmento fônico do morfema lexiacal. isto é. A não condicionada implica variações livres... que consiste em uma operação contrastiva por meio de permuta de elementos para a qual são necessárias: a) segmentação do vocábulo em subconjuntos e b) a pertinência paradigmática entre os subconjuntos que vão ser permutados. gêneros e números..) a essa possibilidade de variação de cada forma mínima dáse o nome de alomorfia. morfema latente.) alteram... como exemplo do segundo caso... alternativos..) são cinco os morfemas flexionais em português: aditivos. fez. a comutação..) alternância ou permuta de um fonema no interior do vocábulo... fiz. número e pessoa) (... Subtrativos: (. flexionais. como as alternâncias vocálicas em faz. subtrativos.Princípio básico da análise mórfica.) neutralização entre a primeira e a terceira pessoas gramaticais (. adaptando-os à expressão das categorias gramaticais que a sua classe admite (dos nomes..) Orfão – órfã..) pode ser ou não fonologicamente condicionada. acarretando mudanças fonéticas.) acréscimo de um ou mais foemas ao morfema lexical. morfema zero. (. (.. (. A fonologicamente condicionada consiste na aglutinação de fonemas. . a oposição entre essas conjugações. nos verbos.) rapaz – rapazes... (.. derivacionais e relacionais.) avô-avó. (. os morfemas lexicais. (.. ela pode se dar apenas no plano mórfico ou ser resultante de condicionamento fonológico. Aditivos: (. Os morfemas classificatórios são constituídos pelas vogais temáticas cuja função é a de enquadrar os vocábulos em classes de nomes (substantivos e adjetivos) e verbos Os morfemas flexionais (. Como a alomorfia. uma neutralização entre a segunda e a terceira conjugação em decorrência da perda da tonicidade da vogal temática..).) quatro tipos: classificatórios.

coerente e preciso. aumentativo e diminutivo.) funcionam isolados e inalterados para indicar as significações gramaticais de singular-plural e de masculino-feminino. enquanto. de um processo derivacional. São Paulo.Morfema-zero: (. existem certos fonemas: vogais e consoantes de ligação. gritávamos. Como por exemplo... O resultado da derivação é um novo vocábulo.es/ indica a noção de singular.. Os primeiros criam novas palavras na língua: a partir do morfema lexical livr-o.) lápis e artista. na realidade. ao contrário dos flexionais. Tem a função de evitar dissonâncias na juntura daqueles elementos. Estrutura e formação de vocábulos em português. No morfema lexical mar. As relações abertas entre ele e o vocábulo derivado. Trata-se. as idiossincrasias constituem a regra e a não previsibilidade é uma constante. Os morfemas relacionais ordenam os elementos da frase. Esses elementos são puramente eufônicos e devem ser considerados constituintes dos morfemas aos quais se ligam.) ausência da marca para expressar determinada categoria gramatical. IN: Linguística aplicada ao português. tem-se livreiro. Morfema latente ou alomorfe O: embora tenha em comum com o morfema zero a ausência de marca. livraria. Na derivação. a regra é a previsibilidade e as idiossincrasias constituem a exceção. na derivação. a ausência da marca de plural /. Acerca dos dois outros tipos de morfemas: os derivacionais e os relacionais.. na flexão. .. idiossincrasias. gasogênio e chaleira. Ao lado da vogal temática.. que caracteriza o léxico de uma língua em contraste com sua gramática. falávamos. As relações abertas. (de cantar deriva-se cantarolar). possibilitando a concatenação dos morfemas lexicais entre si... não obedecem a uma sistematização obrigatória (. distingui-se daquele porque não apresenta morfema gramatical próprio para indicar qualquer categoria (.. ao lado de regularidades porque os morfemas derivacionais não constituem um quadro regular. como flexionais. 2003. livrinho etc. conjunções e pronomes relativos. Cortez. como as preposições. Apresenta-se uma das incoerências de nossas gramáticas a inclusão dos morfemas caracterizadores de grau. via de regra..) cantávamos. Morfologia.). 17 ed. que ocorrem na junção dos morfemas lexicais e derivacionais. Já os morfemas flexionais estão concatenados em paradigmas coesos e com pequena margem de variação (. (.

A análise mórfica restringe-se à decomposição dos morfemas em lexicais e gramaticais.vogal temática)+ morfemas flexionais: alun-a-s.(s)(+-vogal temática)(+-morf. Lex. + sufix. (+.1. Morfema lexical + morfemas derivacionais (+. 2. 1. Flex. Existem quatro tipos de derivação: 1) Prefixal: acréscimo de prefixos ao morfema lexical: reter. (s) + morf./ (+. (+-elemento de ligação) + sufix. Mas nos casos que a vogal temática existente no vocábulo primitivo – levant-a-r e menin-a perde o valor de morfema ao sofrer o acréscimo do sufixo. Morfema lexical (+. Apenas um vocábulo lexical: azul.): muralh-a. feliz. Processos de formação de novas palavras Derivação: formação das palavras por meio de afixos agregados a um morfema lexical. mar. Vocábulos compostos: 4. no sistema. Pref. morf. lex.3.vogal temática) (+.2. couv-e-flor.(s) (+vogal temática)(+. sol. Condições para derivação: 1ª possibilidade de depressão sincrônica dos morfemas componentes.vogal temática) (+-morfema flexional): in-feliz. cant-eir-o-s.morfemas flex. mas derivados: 3. estar à disposição dos falantes nativos. 2ª possibilidade do afixo como forma mínima. servem de base para formação de palavras derivadas. pref. Esses sufixos marcam a classe gramatical e as flexões do vocábulo ao qual se agrega.morfemas flexionais): in-felizmen-te. guard-a-chuv-a-s.vogal temática) (+-morf. 3. Morfema lexical (+. flexionais).) + morf. not-a-ra-m. re-provação. Constituição para determinar a estrutura dos vocábulos em português: Vocábulos de formas simples e primitivas: não se originam de outras palavras.morfemas flexionais): 3. Vocábulos de formas simples. para a formação de novos derivados. dês-em-palh-ar. subtenente. Lex. ilegal. 3. . compor.(s) + morf. Lex.

em especial aqueles que exprimem mudança de estado. 3) Prefixal e sufixal: acréscimo tanto de prefixos como de sufixos ao morfema lexical: deslealdade. pé-de-moleque. entardecer decorre de afixação simultânea. colégio-modelo. de caráter descontínuo. dando origem a um novo significado. no primeiro conjunto. grandalhão. Composição: processo de formação de palavras que cria novos vocábulos pela combinação de outros já existentes. um único morfema gramatical. Exemplo: autoclave (grego+latim). a passagem de substantivo a adjetivo: manga-rosa. mantendo sua autonomia fonética. Observe-se a diferença: feliz – infeliz – infelizmente – infelizmente e tarde . Derivação imprópria: processo de enriquecimento vocabular ocasionado pela mudança da classe das palavras.*tardecer . A parassíntese – processo de formação de verbos. Composição por justaposição: os vocábulos que se combinam são colocados lado a lado. *A 3 e a 4 diferem porque o prefixo e o sufixo são acrescentados a um só tempo ao morfema lexical. constituindo. portanto. + Gr. infelizmente 4) Parassintética: acréscimo simultâneo de um prefixo e um sufixo ao morfema lexical: entardecer. É na realidade um processo sintático-semântico e não morfológico. todos os vocábulos são atualizados em português. portanto. O hibridismo é a combinação de elementos de línguas diversas. caçar – caça. cortar – corte. Por exemplo: guarda-chuva. ponteira. Por exemplo. Nossa Senhora. de adjetivo a advérbio: ler alto. A desinência verbal do infinitivo e a vogal temática são substituídas pelas vogais temáticas nominais. são grafados (com ou sem hífen.*entarde – entardecer.) . juntos ou separados. esfarelar. o nome *entarde e o verbo *tardecer não são lexicalizados.): pé-de-vento. custar caro. sociologia (lat. enquanto no segundo. etc. Ex.2) Sufixal: acréscimo de sufixo ao morfema lexical: saboroso. Derivação regressiva: processo de criação vocabular pela subtração de morfemas.

Ainda se persiste em definir Adjetivo como “a palavra que dá qualidade aos seres” ou “a palavra que qualifica os substantivos”. substantivo como “a palavra que dá nome aos seres”. a função conforme a posição ocupada no eixo sintagmático. a definir. zum-zum etc. quando a reduplicação é imitativa têm-se as onomatopéias: tique-taque. em relação a categoria dos três lexemas básicos que referem o mundo bissocial/ antropocultural – substantivo. por exemplo. Barueri. A classificação Morfológica das palavras. . mas não é apenas esse fator que pode explicar muitas delas. adjetivo e verbo que a gramática tradicional menos evoluiu na tarefa de conceituá-los. consiste no emprego de uma parte da palavra pelo todo.Composição por aglutinação: os vocábulos se fundem num todo fonético. O fator semântico possui importância no fator semântico para explicar muitas ocorrências na língua. Abreviação: devido à lei do mínimo esforço. 2ª Ed. Exemplo: planalto. e verbo como “a palavra que exprime ação. IN: Prática de morfossintaxe: como e por que aprender análise (morfo) sintática. associando quase sempre a fatores de ordem extralinguística. SAUTCHUK. motocicleta-moto. 11-33) As palavras existentes em qualquer língua são agrupadas em classes conforme sua forma. até o limite que não prejudica a compreensão. É justamente. com um único acento. função e sentido. e o sentido depreende-se da relação de ambas as coisas. fenômeno ou estado”. pontiagudo. Não se pode continuar . SP: Manole. 2006. vogais ou consoantes). fotografa-foto. As siglas consistem na redução de longos títulos às letras iniciais das palavras que as compõem. etc. Exemplo: automóvel – auto. Juju etc. A definição dos processos de formação de palavra depende da possibilidade de se decompor os vocábulos em menores unidades significativas operantes na língua atual. A forma se define pelos elementos estruturais que vierem a compor ou a decompor paradigmaticamente as palavras. sobretudo em relação aos conceitos gramaticais necessários. Inez. Reduplicação ou duplicação silábica: consiste na repetição de uma sílaba na formação de novas palavras como Zezé. (pp. ocorrendo também a perda ou a alteração de algum de seus elementos fonéticos (acentos tônicos.

pessoa –ei. Morficamente. Verbo: apenas os verbos admitem as desinências próprias de número. que não exclui esse a que já foi referido. É sintaticamente que o reconhecimento das palavras pertencentes à categoria dos verbos se mostra mais eficaz: apenas os verbos articulam-se com os pronomes pessoais do caso reto. em português. Adjetivo: possui determinadas características mórficas e sintáticas que o diferenciam de palavras pertencentes a outras classes gramaticais. modo -va). daí a necessidade de sua conjugação. só é substantivo. semanticamente expressa algo representado no tempo. em qualquer contexto. dependendo do contexto). Advérbio: possuem acentuada mobilidade semântica e funcional. dos pronomes possessivos e demonstrativos e dos números cardinais e ordinais. uma vez que dispensam exigências subjetivas de análise. por serem mais confiáveis. a palavra que se deixar anteceder pelos determinantes. É adjetivo toda palavra variável em gênero e/ou número que se deixa anteceder por “tão” (ou qualquer intensificador como bem ou muito. A força substantivadora dos determinantes é tão grande que podem transformar qualquer palavra de qualquer outra categoria em substantivos: meu sofrer é proporcional aos seus nãos. número –mos. adjetivos e com os próprios advérbios. pessoa. em geral articula-se com verbos. Substantivo: para essa classe gramatical.Os linguístas mais modernos preferem apoiar-se em explicações de caráter formal e sintático. é o critério sintático que se mostra eficiente para sua identificação e classificação. Por sua natureza morfossintática. Se nos ativermos a características e a mecanismos essencialmente de caráter morfossintáticos da língua. tempo –ra. Nesse caso usa-se outro critério. esses determinantes articulam-se apenas com palavras que pertençam à categoria dos substantivos. mas alguns advérbios assim formados não soam bem. O verbo quando inscrito. Não se deixa anteceder pelos determinantes ou pela palavra tão (ou aceitam sufixo -mente). tempo e modo (por exemplo. toda palavra ao aceitar o sufixo –mente transforma- . No eixo sintagmático. Em português. apenas palavras que são adjetivos aceitam o sufixo –mente (originando um advérbio adnominal). Os critérios mórfico (ou formal) e sintático para classificação morfológica fornecem mais segurança na identificação das palavras quanto a suas classes gramaticais. O determinante é todo o conjunto de morfemas gramaticais independentes que servem para identificar sua referência por meio da situação espaço-temporal ou delimitar seu número. Assim. exigência imprescindível já que é impossível decorar todo esse acervo. Por isso são determinantes simples a classe fechada dos artigos. veremos que se pode reconhecer com mais segurança as palavras que constituem o sistema aberto.

os relativos cujo (-o.se em um advérbio. pois constituem por si só verdadeiras orações. como os retos. -a. e também se deixam anteceder por TÃO (bem. menos. alguns pronomes indefinidos (em posição adjetiva) como muito (-a. -os. não contrai relação sintática com nenhum outro termo. Em relação às interjeições. mas seguem as outras condições de advérbio. É a palavra ou expressão que segue a risca seu sentido etimológico de palavra interjecta. Relatores: preposições e conjunções. Auxiliares: verbos que participam de uma finita ou não finita de outro verbo. estudos recentes as consideram como palavrasfrase. preposições e conjunções constituem o sistema fechado da língua. -os. haver (haviam feito. pronomes indefinidos em posição adjetiva. -as). pouco. Advérbios quantificadores. não se deixam anteceder por tão. . -o. ter. por exemplo. por exemplo. como meio. demais. numerais. pronomes. Quantificadores: numerais cardinais. O advérbio é sempre invariável em gênero e/ou em número. e assim. demonstrativos. Os pronomes pessoais têm sintagmaticamente um valor substantivo. estar. estavam sendo realizados. mais. ora na posição adjetiva. como. demais. As palavras passam a ter determinados comportamentos morfossintáticos que explicam essa variação em contexto. Funções adjetivas e funções substantivas Muitas das palavras (lexemas) podem variar de classificação conforme o contexto em que estão empregadas. como por exemplo: Eles precisam ficar em casa hoje. Há alguns verbos de natureza nominal (funcionam como nomes) e outros de natureza pronominal (funcionam como pronomes). Demais classes de palavras Os artigos. tivéssemos escolhido. pronomes possessivos. muito). -as). Substitutos: os pronomes em posição substantiva. Finalidades dos gramemas independentes O determinante: os artigos. estar satisfeito etc). podem ser memorizados. alguns advérbios como muito. As crianças precisam ficar em casa hoje. todo (-a. -as). Palavras que pertencem ao sistema fechado da língua podem funcionar ora na posição substantiva. ser.

. fica muito mais evidente entender sua finalidade de uso na língua.Agrupadas dessa maneira as palavras que tradicionalmente têm outro tipo de classificação.

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