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Literatura Brasileira

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FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

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Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

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linguagem desautomatizada 5. literário 2. Técnico 3. fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1. Cotidiano 2. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. lança mão do discurso metafórico. ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3. opaca 6.texto = entrelaçamento de linhas. orações. plurissignificativo 4. períodos que formam sentido. Funcional 4. Transparente 6. conotativa 4 . Linguagem automatizada 5. denotativa Texto obra 1. Conceitual 7.

nas entrelinhas. Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. mas no seu sentido profundo. 5 . A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado.Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena. O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto. em última análise. pelos interesses desse grupo.

distinção e características 2. Denotação e conotação 2. de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . metonímia 2. Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida. para obter aquilo que se deseja. Texto literário e texto não-literário . A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra. ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo.4 plurissignificação 2.Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1.= conjunto de idéias próprias de um grupo. um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 . 1. A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado. que nos faz lembrar de um conceito (o significado). com o qual almeja provocar mudanças . constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão .1 valorização da forma 2.uma parte perceptível. metáfora 3. percebemos um conjunto de sons ( o significante). isto é. mas interdependentes.e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível. numa palavra que ouvimos. Por isto.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas.3 recriação da linguagem 2. o conceito. valores .2 reflexão sobre o real 2. constituída de sons . intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça.

negativos ou positivos. Ela designa ou denota determinado objeto. valores afetivos e sociais. as palavras senhora. Por exemplo. mulher denotam praticamente a mesma coisa. virtuais. evocando outras idéias associadas. de ordem abstrata. de uma classe social para outra. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. Desta maneira. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões. isto é. referindo-se à realidade palpável. seu sentido é objetivo. esposa. está ligada à ambigüidade. de uma época a outra. constante. Denotação é a significação objetiva da palavra. conotativos. é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. explícito. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. reações psíquicas que um signo evoca. Conotação é a significação subjetiva da palavra. mas têm conteúdos conotativos diversos. naquele que lhe atribuem os dicionários. Portanto. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos.expressão. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. literal. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . que são apenas sugeridos. subjetiva.

Dessa maneira. o traço característico do processo metafórico. Se entendida apenas no nível semântico. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. o temperamento. amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. instaurando-se a polissemia. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. um estado de espírito. Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua. quando apresentam traços semânticos comuns. Conotação é. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. portanto. possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. Por exemplo. de intersecção. de inclusão. na concepção do falante. de coexistência. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. criada no trabalho mental de apreensão.A respeito de conotação. assim. a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. isto é. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. de implicação. um juízo. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. algum ponto em comum. que variam conforme a experiência. Othon M. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade. pelo acréscimo de um segundo significado. do autor ou leitor. Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". essencial para que se realize qualquer processo de mudança." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. a sensibilidade. em relação à coisa designada. em essência. um sentimento. uma opinião. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. A partir daí. uma espécie de emanação semântica. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. quando dizemos "As 8 . Esse é. na verdade ele opera com regras pragmáticas. que exige variação e continuidade. mas sim de regras conversacionais. de interdependência. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança. pois metaforização é conotação". Em termos cognitivos.

em geral. plurissignificativa e de intenso dinamismo. A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 . envolvendo um processo de recriação dessa realidade.. com predomínio de outras funções. portanto. e na interação entre os indivíduos. as relações são mais restritas. Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio. com predomínio da função poética da linguagem. No texto não-literário. tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade.. que possibilita a criação de novas relações de sentido. com predomínio da função referencial da linguagem. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade. devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética.cãs inspiram respeito". não descansam os soldados. não descansam as armas = . Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. cabelos brancos. porque as pessoas idosas possuem. estamos empregando cãs por velhice. É.

onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. Assim. visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim." 2. morfossintático e semântico. revelando assim novas formas de ver o mundo. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. reordenando-a. léxico. as artes desempenham um papel muito importante. ou de produzi-lo. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. 2. recriando o real num plano imaginário. num país como o Brasil. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. citamos Platão e Fiorin (1991). onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. combinando-as de maneira inusitada. não há temas específicos de textos literários. Por isso. A título de exemplo. ou seja. Refletindo a experiência cultural de um povo.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. singular. e por isso degradados ao nível da animalidade. de maneira indireta. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional.2. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. que dizem: "Graciliano Ramos. O literário possui um universo fictício. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. nem temas inadequados a esse tipo de texto.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma. relacionada ao processo de recriação do real. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. nos planos fônico. 10 . Não é o tema. prosódico. ocorre a desautomatização da linguagem. em VIDAS SECAS.

seu soneto é um texto literário. substituir vocábulos por sinônimos. portanto. num texto literário. No poema de Ferreira Gullar. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. quando se resume um texto não-literário. textos líricos. por exemplo. De repente. resumir as idéias. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. Pelo trabalho com a linguagem. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. em todos os recursos que Meu povo. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. literário. Podemos.2. pelo uso de recursos poéticos. perde-se o essencial. A esse respeito. Poderão surgir. suprimir ou acrescentar vocábulos. o poeta francês Paul Valéry diz que. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. podemos verificar que evidências da literariedade. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. apreendese o essencial. Não podemos.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. quando se resume um texto literário. sua intocabilidade. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 . Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. No Soneto da Separação. não mais que de repente. a partir de suas respostas. poéticos e textos não-literários. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto.

" c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. crescer. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. utiliza recursos variados. desvio da norma culta 4. poema/árvore. terra fértil. o povo e o poema crescem como a árvore nova. 2. quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem.5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário. e. ao explorar conteúdos. São alguns deles: 1. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar." Dois planos foram explorados -. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . antidiscursividade 3. para essa recriação. "Ao povo seu poema. o poeta é comparado a um plantador. procura recriar a linguagem. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). musicalidade 2. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. alogicidade 12 . "no povo meu poema".No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto.

em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. b) Rimas e aliterações .evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. argentino. das assonâncias. construção paratática 1. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. A norma do discurso poético é a antinorma. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. mais uma vez. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. límpido. tímido. Seja em prosa. musicalidade: obtida através do ritmo. de aço fino. vãs. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. No poema de Cruz e Souza. Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. Volúpias dos violões. Vozes veladas. veludosas vozes. o uso poético da linguagem. esgrime. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . na maioria das vezes. vozes veladas. muitas vezes. das aliterações. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. com o raiozinho dos astros. vivas. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. da violação das normas. anáforas a) Ritmo . da rima. O trilo dos grilos.5. vulcanizadas. como nestes versos de Murilo Araújo.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. seja em verso.

hipérbato. 3. violação da regência e da concordância. mudam a classe gramatical. a subordinação. Inversão da ordem natural das palavras. há uma oração principal. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. Que o espírito enlaça a dor vivente. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas. Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. falta de consistência gramatical. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. A hipotaxe exige maior elaboração mental. 2. estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. Nas construções hipotáticas. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens.

....sonhou ... É pela virgem que sonhei........... À sombra de uma cruz.... identificando os fenômenos líricos predominantes........ Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema..é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas.... 3......... 15 ... Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida...................... De ti................ ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! .. 2.. Só levo uma saudade ..... Indicar a função da linguagem predominante no poema.......... Examinar cada estrofe.... Se uma lágrima as pálpebras me inunda... apontando em que versos da estrofe são mais nítidos... Se um suspiro no seio treme ainda......e amou a vida... separadamente..... Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto.....Em pálpebra demente.. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento..... que nunca Aos lábios me encostou a face linda! . Roteiro: 1....... e escrevam nela: Foi poeta . o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro..............

por 16 . Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. Há. da personagem e do acontecimento. 8. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado. o texto como um todo significativo. Dessa forma. o processo literário. através da ficcionalidade do espaço. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. diagrama ou metáfora do mundo interpretado. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. que privilegiam. No romance Dom Casmurro. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. segundo a semiótica literária. o personagem e o acontecimento. de Machado de Assis. estrutura o espaço. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). de Aluísio Azevedo. O texto precisava ser entendido em seu sentido global. verbais e não verbais. da sua morte. 2. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. convertido em discurso narrativo como prática semiótica. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço. conotativamente. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. 6.4. criando uma realidade ficcional. Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. 5. analisando-lhe como imagem. 7. três padrões literários. Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). no nível do imaginário. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente. A idéia de morte está presente em todo o poema. Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. assim como os esquemas de construção textual. cada um deles. uma das partes da narrativa: 1. Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais.

– a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras. apontando o tipo de semiotização efetuado.exemplo. de Euclides da Cunha. por exemplo. que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . Tarefas: 1. podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos. 2. Os Sertões. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). que corresponde à emancipação política do Brasil. ou seja. estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. 3. sobre o mundo. toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa.

no Barroco.O Barroco 1 .Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 . de fato. Antes disso. 1 . não era Literatura DO Brasil.Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 . que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início. mas NO Brasil. seguiremos as orientações de Antonio Candido.Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira.

o material e o espiritual. já a partir de 1724. sobrecarregando a poesia de figuras. Ou. O final do Barroco só se concretizará em 1768. como a metáfora. dilema que tanto 19 . que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura. o movimento academista ganha corpo. pintura. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. a antítese. o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. No entanto. rebuscamento. assimétrico. de Cláudio Manuel da Costa. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. Em qualquer das hipóteses. No Brasil. os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista. A origem da palavra barroco é controvertida. a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. ou mesmo um terreno desigual.inicio dos anos 1700. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos. Por essas razões.” Além disso. designaria um tipo de pérola de forma irregular. Segundo outros. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente. com sentimento nativista o primeiro manifesto. o pecado e o perdão. Além da literatura. é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. escultura e arquitetura da época. de Bento Teixeira. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. Botelho de Oliveira. do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. assimetria. a hipérbole e a alegoria. estende-se à música. O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ). na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole. Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII.

uma tendência sensualista. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. E feito em partes todo em toda a parte. então. racionalista. Mas se a parte o faz todo. A arte assume. Pois que feito Jesus em partes todos. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal. Assiste cada parte em sua parte. que utiliza uma retórica aprimorada. culta. Um braço que lhe acharam. seguindo um raciocínio lógico. Não se sabendo parte destes todo. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas. O braço de Jesus não seja parte.atormenta o homem de século XVII. sendo parte. (Gregório de Matos) 20 . do qual deriva o termo Quevedismo. sendo parte. de conceitos. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. Em todo o Sacramento está Deus todo. extravagante. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. Não se diga que é parte. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. sendo o todo. A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. Em qualquer parte fica o todo. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. Aparte sem o todo não é parte. Nos diz as partes deste todo. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras. E todo assiste em qualquer parte.

carta e sermões. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio. totalmente oposto ao Gongorismo. Profecias Constam de três obras: História do futuro.) Este desventurado estilo que hoje se usa. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. e negro boçal e muito cerrado. um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum. e clássico pela expressão clara e singela. É possível que somos portugueses. de apresentação. (.Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. e havemos de ouvir um pregador em português. mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido.. pois tal fato estaria profetizado na Bahia. portanto. Cartas São cerca de 500 cartas. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. à moda cultista. Sermões São quase 200 sermões. e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias.. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda. é negro. Quando este estilo florescia. contrária. próprias dos jesuítas. o melhor da a obra de Vieira. Vieira seria conceptista pelo processo mental. O estilo culto não é escuro. os que o condenam chamam-lhe escuro. Constituem importantes documentos históricos. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. os que o querem honrar chamam-lhe culto. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo. Em estilo barroco conceptista. nasceram as primeiras verduras do meu. 21 . mas ainda lhe fazem muita honra. não me leias.

ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas.. Vieira incita o povo a combater os holandeses. vícios e enganos.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. e com esmero. não perdoarão a estado. No intróito. • Sermão de Santo Antônio. pregado em São Luis do Maranhão. Bahia. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . do pregador e do ouvinte. ou por parte do pregador.” 22 . visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus. “Eu sou aquele. Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus. também chamado de Sermão dos peixes. a poesia religiosa e a lírica. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem. Gregório também praticou. Polêmico.. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. em 1654. em 1640. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima. falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges.) Ora. Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis. esse sermão resume a arte de pregar. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -. por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. Peroração — a parte final do sermão. a sexo nem idade”.

A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. IV e V Poesia satírica. II Poesia lírica. segue um resumido vocabulário. III Poesia graciosa. agrado ou elogio em excesso. solta. numa postura moralista. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. Aqui. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. social e religioso. os costumes da sociedade baiana do século XVII. publicou seis volumes.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. empregada no sentido de a galeota solta. isto é. sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. Púrpura: a cor vermelha. mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. Presumida: vaidosa. quando a Academia Brasileira de Letras. Airosa: elegante. assim distribuídos: l Poesia sacra. destemida. Condenou acerradamente a vaidade humana. realmente. VI Últimas. presunçosa. Lisonjeada: que recebeu lisonja. garbosa. transparece certo idealismo renascentista. por 23 . bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé. Sua obra permaneceu inédita até o século XX. como toda a massa devota de sua época. E. no melhor estilo petrarquiano. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. Na poesia lírica e na religiosa. o clero e. EL-Rei. 1923 e 1933. arrogância. presunção. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. Soberba: orgulho excessivo. Desatada: desprendida. o administrador português. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. o meio envolvente. era a própria personificação do Pecado”. mas sua existência foi um rosário de culpas. É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana.

nesta vida. nesta vida Rosa. galé. por meio de metáfora. podemos entender como “preza.inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade.. Ufama: vaidosa. gosta de receber ânimo.. vaidade. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato .. 24 .. Alentos preza : como no caso anterior. de símiles. Galhardia: elegância. alentos é complemento da forma verbal preza. e explicativo. em particular )“ metaforicamente”. orgulhosa. Nau: navio. orgulho. ainda." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional.o próprio título do poema longos. a vaidade é Rosa. garbo. Galeota: embarcação a remo. com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora ." Os versos acima. Fábio.. Observe que Galhardia é complemento de apresta. Presunção: juízo baseado nas aparências.mares de soberba. adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade. na ordem direita ficariam. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. isto é. assim: "Fábio. Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. galeão. É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota. de pequeno porte. Empavesada: enfeitada.

Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente. “Disseminação e recolha” Finalmente. isto é. as penas do pescoço douradas. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. que. ao final. neste caso. uma contrariedade. Metonímia . fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. a recolha. espalhados. Realça-se.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada.” • • Hipérbole . a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos).o emprego de ferro por machado.o exagero. assim. no caso do soneto analisado. plantados ao longo do poema (como é caso rosa. de longo uso desde Camões. isto é. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). Era o único pássaro na sua espécie. semeados. como no caso de “púrpura mil”. plante. lançar uma adversidade. Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto. ao final. realizar-se. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco. 25 . esses conceitos e ou palavras são disseminados. provocando um forte impacto. a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes. púrpuras mil arrasta presumida. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para. a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema. A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos. o conflito presente no texto. nau no soneto apresentado) para.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

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deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

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caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

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palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda. E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. pastoril. bucólica. extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 . a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia. entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência.” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles. Liberdade. “Atrás de portas fechadas. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. A respeito do episódio.abusos da nobreza e do clero (Ilustração). reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. amor.pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. Ë a procura do locus amoenus. em Romanceiro da Inconfidência. liberdade. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa.” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético. Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. à luz de velas acesas. E os seus tristes inventores Já são réus.

que aí vês. os sonhos de uma família. sempre 30 . tendo como divisor de águas a prisão do poeta. No entanto. os versos decassílabos. foi publicada em três partes nos anos de 1792.natureza. os meus montados São esse. não te nego. Essa obra. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. Nela. lá estavam seus interesses econômicos. pastorial. a defesa da tradição e da propriedade. vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados. que estes prados. 1799 e 1812. a natureza e Manha.” Ou ainda sofrimento amoroso. pastoril. portanto. discorre sobre a iniciação amorosa. burgueses que eram. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. Quanto ao aspecto formal. por meio de palavras. a simplicidade. a felicidade do amante. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. a rima optativa e a tradição da poesia épica. e estas fontes Já sabem. que é o assunto da porfia Nise. a melhor pastora destes montes. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. a poesia bucólica. a mulher amada. o fingimento poético e o uso de pseudônimos.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. uma posição política e ideológica. o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra. Antes da cadeia. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado. temos o soneto. as musas: “Parece. Havia. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. o namoro.

que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado. principalmente. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. escritos em linguagem bastante agressiva. E decidir os pleitos. A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo. um político sem moral. quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa. residente em Madri. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores.. Critilo.numa postura patriarcalista. As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente. São poemas satíricos. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga. Luiz da Cunha Meneses. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência).. ora assumindo a postura de pastor. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo. despótico e narcisista. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. 31 . que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. Nessas cartas. Ver-me-ás folhear os grandes livros. e o burguês Dr.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta. de Rodrigues Lapa. vivendo os sofrimentos da prisão. portanto. Como bem lembra o critico Antônio Cândido. Tomás Antônio Gonzaga. ora a sua condição de burguês. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída. juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. o Fanfarrão Minésio ( na verdade. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. narra os desmandos do governo chileno. raciocina. Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição. Depois. na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala.” É patente a oposição entre Dirceu.

E ignorado a ocasião da estranha empresa. Diogo Álvarez. E já vizinha à nau se apega ao leme. do que irada.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. assombradas. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira. que de inveja geme. Quando à forma.. (. Várias índias nadam atrás do navio. vítima de um naufrágio no litoral baiano. Uma que às mais precede em gentileza. Porém o tigre. mas apenas de um conservadonismo cristão. mas uma se destaca: Moema. onde é narrado a morte de Moema.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem.. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo.) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo. que nada. Paraguaçu. oitava rima camoniana. com quem Diogo se casa e vai a Paris. embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. Santa Rita paga um tributo ao século XVIII. por outro lado. após definir-se por Paraguaçu. já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia. narração e epílogo. Gupeva e Sergipe. dedicatória. Não vinha menos bela. Santa Rita não utiliza da mitologia pagã. o Canamuru. no geral.. versos decassílabos. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. Era Moema. Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia. 32 . por cruel que brame. como Camões em Os Lusíadas.Santa Rita Durão Caramuru . Pasma da turba feminil. constando de proposição. o poema é composto de 10 cantos. Caramuru (Trechos do Canto VI.

. com suas restrições mentais”... conosco. raio. Flutuar. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema. que enfim o domem. Mas na onda do mar. Fúrias. Entre as salsas escumas desde ao fundo. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor.’ E indo a dizer o mais. se esta fé teu peito irrita.. 33 . cai num desmaio. Pálida a cor. com que aos meus respondas Bárbaro. soltando o leme. .. tens coração de ver-me aflita. entre estas ondas A um ai somente.. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”..) Perde o lume dos olhos. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas.Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. moribunda. “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). penhosa!! Enfim. freme. seus antigos mestres. raios. Ah! Que conosco és tu. Só ti não domou.E sem mais cista ser. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio. (.. que o ar consomem. por mais que eu te ame. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas. Tornando a aparecer desde o profundo. pasma e treme. irado.. Nem o passado amor teu peito incita (Disse..Acha forças no amor.. que. sorveu-se na água.

a encontra adormecida. portanto. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta.. e cinge Pescoço e braço. A partir de um tema não adequado ao gênero épico.O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. angustiada com a morte da Cacambo. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses. contra os índios dos Sete Povos das Missões. “cansada de viver”. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. E param cheios de temor ao longe. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética. Porém o destro Caititu. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. Caititu. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. Basilio da Gama consegui. Que toca o peito de Lindóia. instigados pelos jesuítas.. e fere A serpente na testa. 34 . Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. e temem Que desperte assustada. E nem se atrevem a chamá-la. sobressaltados. enquanto a de Sacramento. Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). A índia. enrolada em seu corpo. que treme Do perigo da irmã. e apresse no fugir a morte. seu irmão. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro. e quis três vezes Soltar o tiro.) . uma serpente venenosa. onde é narrada a morte de Lindóia. e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste. além de quebrar a estrutura camoniana. Fogem de a ver assim. e lhe passeia. e lhe lambe o seio. O Uruguai (trecho do canto IV. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. “ entrara no jardim triste e chorando”. auxiliadas pelos espanhóis. em terras uruguaias. e irrite o monstro. seria concedida aos espanhóis. E fuja. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente.

e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. Os. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. Cheios de morte. Que os corações mais duros enternece. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo.O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. sem se mencionar 35 . está intimamente ligado a todo o processo de independência política. E rompe em profundíssimos suspiros. A partir desse momento. e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. Em 1822. Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional. que ao despertá-la Conhece. o subjetivismo. Os olhos Caititu não sofre o pranto. acompanhando as nações independentes da Europa e da América.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. D. O nacionalismo. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. o sentimentalismo. um dia. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil. olhos em que Amor reinava. a imagem do português conquistador deveria ser varrida. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3. com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno.

Inicialmente. financeiras e econômicas. pois. como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. são como sinônimos.. ou seja. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. a Colônia caminhava rumo à independência. Após 1822. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico.. No começo do século atual. reformas políticas. como reflexo do autoritarismo de D. a busca pelo passado histórico. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. Portanto. e tudo se faz por ela. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga. é a idéia da pátria. em alguns casos.’ No Brasil. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. com a chegada da corte. com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil. Independência. Em 1808. o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte. pois. a Confederação do Equador. De 1823 a 1831. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. e os únicos que ao povo interessam. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. finalmente. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 . crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. o Brasil vive um período conturbado. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . a Constituição outorgada. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. que atraem a atenção de todos. só tem uma explicação clara e profunda. novo aspecto apresenta a sua literatura. liberdade.” As características do início do Romantismo são. ou em seu nome.sua carga ideológica. ela domina tudo. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. tais são os objetivos que ocupam as inteligências.) O advento do romantismo. a abdicação. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. instituições sociais. que coincidem com surgimento da burguesia). a exaltação da natureza pátria. na realidade. uma idéia até então desconhecida. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. todas as criações necessárias em uma nova Nação.

o que não havia acontecido nos períodos anteriores. o teatro ganha novo impulso. reconhecia absolutamente. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 . ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. na arquitetura. a literatura torna-se mais popular. forma mais acessível de expressão literária. exprimindo as idéias como elas se apresentaram. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas.” De fato. A arte romântica. para não destruir o acento da inspiração. sobre o nada da vida. agora. em Portugal.opõe-se uma arte de caráter popular. Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. a construção. que jamais podem agradar. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço. por assim dizer. nenhuma ordem seguimos. Surge o romance. representado pelas mulheres e pelos estudantes. que valoriza o folclórico e o nacional .” Realmente. porém. na música. Quanto à forma. e os prodígios do Cristianismo. e o de Martins Pena. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. voltando-se para a imaginação e para os sentimentos. isto é. o público agora é amplo e anônimos. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. devem se harmonizar. na pintura. Poesia d’alma e do coração.expressão que cria os seus próprios padrões. além de que. Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário. A arte deixa. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. material das estrofes. no Brasil. a um público cuja autoridade. No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. ora na gótica catedral. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. o que leva a uma nova linguagem na literatura. Quanto ao aspecto formal. e transforma-se numa forma de auto. a um grupo mais ou menos homogêneo. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. com isso. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas. ora no cimo dos Alpes. sobre as paixões dos homens. meditando sobre a sorte dos impérios. são bons exemplos). de 1836. admirando a grandeza de Deus. em principio. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. a igualdade.

do coletivo. O romântico. e transição para o Realismo. movimentos populares). da mulher. Outra característica marcante do Romantismo. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. e o verso branco. a saudade da infância. como afirma Gonçalves de Magalhães. publicação do Manifesto do Partido Comunista. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. que manifestava na exaltação da natureza pátria. perde-se a consciência do todo. A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. em Portugal. a partir das transformações econômicas. que conduz à romântica. 38 . com o culto do individualismo e do pessoalismo. Já no final do Romantismo na década de 1860. A literatura passa por grandes agitações. do social. prevalecendo. os heróis são os índios. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. No fundo. sem rima. Evidentemente. assim. sem métrica e sem estrofação. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. não menos belos. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. as constantes idealizações da sociedade . que além de representar as glórias e tradições do passado. admirando a grandeza de Deus. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. os românticos cultivavam o nacionalismo. essas fugas têm ida e volta. da expressão subjetiva. A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo. valentes e civilizados). na literatura brasileira. desenvolve-se uma literatura de caráter social. no Brasil. Quanto ao conteúdo. como o paganismo. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. o “acento da inspiração”. e os prodígios do Cristianismo”. ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool.e normas estéticas do classicismo. do amor. No entanto. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. caracterizam a poesia romântica. é o sentimentalismo. as “casas de aluguel prostíbulos). o ópio. o subjetivismo. do primado da emoção. explodem na famosa Questão Coimbrã. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. que. enfim. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. O verso livre. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica. foge no tempo e no espaço.

podemos dividir sua obra poética em: lírica. são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. a razão sempre perde terreno para o coração. subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . de onde surge a denominação geração indianista. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia. individual Pessoal. a volta ao passado histórico . “Se se morre de amor”. Nelas. “Ainda uma vez adeus”. universal Impessoal. medieval e nacional. Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico. a idéia com a paixão”. chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza.

É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. ele nunca se refere ao elemento humano. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico. entre outros) retomaram o tema. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. Ainda assim. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade. da musicalidade e do ritmo. mas com um nacionalismo crítico e consciente. dos costumes e da língua dos nativos. mas apenas aos elementos naturais. ora idealiza a figura do índio. Guerreiros. destacando a presença do homem e seus problemas. É interessante notar que. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. extremamente. Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. Chico Buarque e Tom Jobim. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. nesse poema. ouvi: Sou filho da selvas. Nas selvas cresci. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte. Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. Da tribo pujante. Murilo Mendes. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. Além de exaltarem a natureza. pois. 40 . Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. Mário Quintana. Carlos Drummond de Andrade. descendo Da tribo tupi. Guerreiro. o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. se citasse o homem brasileiro. finalizando numa exaltação da natureza brasileira.e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. Que agora anda errante Por todo inconstante. A respeito deles. à moda dos trovadores medievais. dramática e épica.

onde Sancho é rei (. Canção do tamoio”. Ele próprio o dividiu em três partes. negativismo. Sou filho do Norte. de outro. corrosivo.Guerreiro. “Leito de folhas verdes”. mulheres misteriosas. o verdadeiro. Empregada de egocentrismo. Segunda geração . pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado. e por Musset. Meu canto de morte. nasci: Sou bravo.o sarcasmo. mal — do — século -. dócil. sou forte. A morte foi presença constante. Quixote. irreal. desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo. mas nunca se materializam. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset. abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo. este sempre idealizado. Vamos entrar num mundo novo. de quem foi leitor assíduo e tradutor. impregnado de imagem de donzelas ingênuas. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte.). seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância. angelical. ‘Marabá”. filhas do céu. de quem herdou as característica do spleen* . Casiano de Abreu.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron.. Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. Produção Literária da Segunda geração .. Suas poesias falam de morte e de amor. a ironia e a autodestruição. terra fantástica. além do poema épico inacabado “Os timbiras”.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”. Junqueira Freire e Fagundes Varela. o poeta satânico. “O canto do Piaga”. dúvida. verdadeira ilha Baratária de D. assumindo também a conotação de fuga. 41 . ouvi. pessimismo. Guerreiro. vultos que habitam seus sonhos adolescentes. é também chamada de geração byroniana. que tanto ironizava os outros como a si mesmo.

traições. típicos do condoreirismo. rápida. tem horizontes mais amplos. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. amou e foi amado por várias mulheres. reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. E um livro em prosa. bacanais.” Noite na taverna. Teve muitos amores. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. comparação grandiosas. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. daí ser conhecida como. assassinatos. a igualdade. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. mas. educado pela literatura de Victor Hugo. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social. a morte. 42 . ora meigo e sentimental — ou seja. obra confusa. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico. Cantou o amor. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século.A razão é simples. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. geração hugoana. foi perfeitamente romântico na forma. mas também pela realidade que o rodeava. que realizei à pressa. livro de contos fantásticos. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. antíteses e hipérboles. o sonho. no entanto. bêbados. Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária. os oprimidos. poeta da última geração. entregando-se a alguns exagero nas metáforas. cantou a República. as lutas de classe. Castro Alves cultivou o egocentrismo). Seu principal representante foi Castro Alves. a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. Pedro II. o próprio Álvares. estudante de Direito. o abolicionismo. a escola literária que negaria o Romantismo. verdadeira medalha de duas faces. incestos. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. poeta. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. a mulher. como um pintor febril e trêmulo”. mistérios e morte. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes. anjo e demônio. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. em que seis estudantes.

E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico.Mar de amor onde vagam meus desejos. Das teclas de teu seio que harmonias. Maria! Eu vou — me embora. o positivismo de Augusto Comte. convivemos com esse sensualismo adulto.. a questão Coimbra em Portugal. terno... Maria! Ë tarde. o socialismo científico de Marx e Engels.” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate. no plano 43 . belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional. A lua nas janelas bate em cheio..amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso.. sensual. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto. encontramos o adolescente meigo. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias. Boa — noite. individualizada em Eugênia Câmara. é tarde. Boa-noite!. Que escala de suspiros.. como a lira ao vento.A poesia Lírica .. . Mas não mo digas descobrindo o peito.. Não me apertes assim contra teu seio.

Enfim. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica. por vezes. por suas preocupações sociais. Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento. e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. sua obra foi de uma constante pesquisa. todos em busca de ‘ entretenimento “. pois uma “realidade” que lhe convém. o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. Algumas poucas obras fugiram desse esquema.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. de Manuel Antônio de Almeida. o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais.interno. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo. criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. a decadência da Monarquia. neologismos e um certo rebuscamento que beira. aproxima-se da terceira geração. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano. Romantismo: prosa 1 . profissionais liberais e jovem estudantes. a luta abolicionista. Respondendo às exigências do público leitor. palavras inglesas. e o caso de Memórias de um sargento de milícias. inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. e mesmo de 44 . e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. agora transformado em corte.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

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As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

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índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

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Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele. Basta lembrar que O. templo do Realismo. Esaú e Jacó. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. com todas as suas variantes. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. Na realidade. é de 1900. do mesmo autor. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. ambos de Aluísio Azevedo. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna. de Aluísio Azevedo. formados pelo marido traído. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. e Memórias póstumas de Brás de Cubas. foi fundada em 1897. é de 1904. como se observa na leitura do romance como O mulato. o personalismo cede terreno ao universalismo. e na poesia. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX . A Academia Brasileira de Letras. com o Parnasianismo. com os romances realistas e naturalistas. os autores desse período são antimonárquicos. em que são publicados Missal e Broquéis. de Raul Pompéia. com o contemporâneo. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. o primeiro romance realista de nossa literatura. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. principalmente os naturalistas. em 1922. de Machado de Assis. O cortiço. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. Ideologicamente. momento e raça — esta. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações. os autores realista são adeptos do determinismo. a postura do positivismo.o curso de nossas letras: O mulato. de Machado de Assis. e O Ateneu. considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. o “não — eu”. refletindo. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. o Realismo só se preocupa com o presente. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. pela mulher adúltera e pelo amante. dessa forma. ambos de Cruz e Sousa. No século XIX. eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. do socialismo e do evolucionalismo. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. que é sempre um “amigo da casa”. no que se refere à hereditariedade. Casmurro. São anticlericais.

o caso de Raul Pompéia é muito particular. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. vida. O Ateneu. o grande vilão. o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. vive do capital. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. merece destaque o romance O maluco. Dom Casmurro. antes de usar a razão. Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. dos personagens centrais de Machado. Por outro lado. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais.beatas.Jacó. Nesse particular. que enfatiza a natureza animal do homem. move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. retrato de uma época. mas sim o próprio cortiço. esses romances. há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro. “O romance é o nascimento. erroneamente tachados 49 . já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança. o mesmo acontece com Bentinho. Em conseqüência. isto é. tão ao gosto naturalista. é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. Finalmente. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. como afirma Antônio Cândido. não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. em que se valoriza o coletivo. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão. Esaú e . nem Bertozela. A constante repressão leva às taras patalógicas. de Aluísio Azevedo. mas quando a herança de Quincas Borba. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz. que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. O romance realista é documental. nem Pombinha. ora impressionistas. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes. Sobre o romance O cortiço. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). nem Rita Baiana. O Cortiço. passando a viver do capital. Casa de pensão. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. ou seja. paixão e morte de um cortiço”.

não lhe altero a composição nem o estilo. que não alteram a feição do livro. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas. Como outros que vieram depois. são mais ousados. naquele ano de 1876. datada de 1905. lhes tiraria a feição passada. 50 . correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. Machado foi romancista.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras. Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. além disso. Dado em nova edição. É claro que. Dos que então fiz. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. em O cortiço. quanto feminino. cada obra pertence ao seu tempo.” Observa-se. diverso do que o tempo me foi depois. portanto. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. portanto. em temas então proibidos. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. tanto masculino. e faço tais ou quais correções de ortografia. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. e alguns contos e novelas de então. escrito aí vão muitos anos. como o homossexualismo. Agora mesmo. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. inclusive. Aqui. sendo. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. em nenhum caso. um trecho da “Advertência da nova edição”. crônicas e correspondência. apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. eco de mocidade e fé ingênua. ouço um eco remoto ao reler estas. este me era particularmente prezado. chamada de fase realista ou de maturidade. que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. como em O Ateneu. contista e poeta.por alguns de pornográficos. Este foi o meu primeiro romance. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento. apenas troco dois ou três vocábulos. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco. pertencente à primeira fase da minha vida literária.

A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é.. acreditando ser Napoleão. 148. Rubião morre pobre e louco. A mão e a luva. 121. 201. o egoísmo. Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. o romance parece girar em torno de um provável 51 . mais nos interessa. ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos. a linguagem correta. e restaurar na velhice a adolescência ‘. No auge da loucura. Quincas Borba Quincas Borba. a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas. clássica. o negativismo. as frases curtas. na prática. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. o pessimismo. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa. as batatas. A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor.”. laiá Garcia.. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião. Apesar de romanesco. o casamento por interesse. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160. 19. páginas realistas. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. 17.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida. ou seja. A análise psicológica dos personagens. Helena. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba. 28. Casmurro é o personagem . No aspecto formal. Dom Casmurro. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem.nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. romance narrado em terceira pessoa. À primeira vista. ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”. Esaú e Jacó. Quincas Borba. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo.

já adulto. amigo do casal. o Dr. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. a fronteira entre a loucura e a lucidez. seja de Escobar. essas leituras não devem ser feitas isoladamente. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento.adultério: Bentinho é casado com Capitu. Barão de Macaúbas. Nesse mesmo ano. é na realidade o Or. em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. entra no colégio com 11 anos de idade. pois elas se interpenetram e se 52 . O Ateneu — crônica de saudades. Sempre aparecem a preocupação psicológica. A igreja do diabo. Sérgio. Entretanto. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. de uma novela: O alienista. é um livro de memórias. o Ateneu é o Colégio Abílio. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida. de outubro de 1881 a março de 1882. Missa do galo. do Norte. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. o filho. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. Entre santos. Abílio César Borges. publicando em folhetins. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). outra. a do governo. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. Entretanto. Um apólogo. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. e Aristarco. Raul Pompéia Raul Pompéia. no plano político — social. ou seja. a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. O primeiro conto realista de Machado trata-se. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. desconfia que Ezequiel. a ironia social e política. segundo Mário de Andrade. abriria o volume intitulado Papéis avulsos. Os contos Em linhas gerais. A causa secreta. e que representa. como o próprio subtítulo indica. O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato. a rigor. O personagem Sérgio. Visconde de Ramos. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. assim como Raul Pompéia. do Norte. Aristarco Argolo de Ramos.

à porta do Ateneu. E duramente se marcavam distinções políticas. mas um comerciante: “(. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade. no entanto. distinções financeiras. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico.. sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu. O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””. Ele tinha maneiras de todos os graus. que não achava em suas contas escolares. pintando-o jeitosamente de novidade.. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. ele não é um pedagogo. disse-me meu pai.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(.) Ateneu era o grande colégio da época.complementam. “Coragem para a luta!”. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades.. 53 .. baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros. Arrancados do contato e da proteção dos pais. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio. O pai estava dois trimestres atrasados. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo. segundo a categoria de recepção que queria dispensar. segundo a condição social da pessoa. Saía indagando o motivo daquilo. Afamado por um sistema de nutrido reclame. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa. os meninos sentem a necessidade de substitui-los. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados..” Ainda assim.. As simpatias verdadeiras eram raras. Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. o interno a reflete”. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo. o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento.

cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava. Não pode imaginar. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem. com o acolhimento dos 54 . Mas o sexo é um instinto natural. dar a frustração e a decepção quase edipianas. Ema. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos. é o Cândido. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras. são dominados. formas alongadas por graciosa magreza. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. Quando. Aliás. porém. lúcidas.. Isto é uma multidão. se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. uma vozinha de moça. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível. é preciso força de cotovelos para romper.. ingênuos..Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe. Esta aparição maravilhou-me.. festejando. olhando muito. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac.. O. Adiantava-se por movimentos oscilados. a “lei da selva”... e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Eis alguns trechos: “(. Não sou criança. Os rapazes tímidos. esposa de Aristarco.) chegou a senhora de diretor. está vendo? Primeira voz no orfeão. Viu aquele da frente.. faça-se homem. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras.) Olhei furtivamente para a senhora. Olhe.. um conselho.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores.) Este que passou por nós. E nela os meninos vêem a mãe. Vestia cetim preto justo sobre as formas. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza. com aqueles modos de mulher. pensam que o colégio é a melhor das vidas. Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema. mas vejo. pensava eu. nem idiota.. pupilas retintas. de uma cor só. olhos negros.. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos. vivo só e vejo de longe. pervertidos como meninos ao desamparo... provocando-me com surriadas. se decepcionam. Os fracos perdem-se. e que seria também a cor do jambo. o sexo. reluzente como pano molhado. Ema não faz apenas o papel de mãe. faça-se forte aqui. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos. mas também a mulher. erigindo.. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista. em segredo dos pais.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. pelo contrário: os meninos se frustram. fortes como a maternidade. sem sangue. a tendência.” Mas adiante Sérgio afirma: “(. ali vem Ribas. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(. o tronco sobre quadris amplos.

e um valimento direto mais forte do que palavras. 55 . acha aceitando as regras do microcosmo.. como lhe dissera seu pai. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos. Eu desejei um protetor. provoca um incêndio.. é a “vingança” de Raul Pompéia. Raul Pompéia.prescindir de protetores. degradante.) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo. mas apreciam a rima consoante. os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . naquele meio hostil e desconhecido.. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. Sérgio. entre brejeiros e afetuosos. 5.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. complexado. entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. Um mundo com regras e leis próprias: o normal. cultivando a forma para atingir a perfeição. Cultuam a estética do Arcadismo. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. e aí percebem o mundo sórdido. levado pela necessidade. estão perdidos. a correção da linguagem. aplicada sob o jugo de regras rígidas. sobretudo. homossexual. depois do Colégio Abílio. que é o regime de internato. Os parnasianos evitam as aliterações. a efeminação mórbida das escolas. o trabalho de Bocage. A sintaxe. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo. alguém que me valesse. à lógica e à sonoridade. Aristarco. (. também. O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”). para Basílio da Gama. destacando.mais velhos. homofonias. no Ateneu é ser frustrado. ecos e expressões arrebatadoras. o grande mundo. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. não teriam consciência de seus problemas. sob a influência do século XVIII. Voltam-se. a destruição daquele mundo e de seu criador. prima pela devoção à clareza.. meu amigo! Comece por não admitir protetores. Américo. propiciadora de originalidade e imortalidade. como ele observara. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu. ao final do livro. faça-se homem. hiatos.” Para os meninos submetidos à “lei da selva”. No entanto.

apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo. suprimir o subjetivismo. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. vai se deslocando.privilegiando a rima paroxítona. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade. símbolo do ideal de beleza. o Parnasianismo inicial. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. Dão ênfase às alternâncias graves. sem. Por isso. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. estamos no realismo literário. Entretanto. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria. Théophile Gautier. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. representando-a metonimicamente. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. entretanto. Os dois outros volumes de poesias são póstumos. a riqueza de linguagem e a descrição 6. pessimismo e sensualidade. indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia. tendendo à busca da simplicidade clássica. aos poucos. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. graças à ação do meio e das tradições poéticas. De fato. cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. Como poeta. A vida é cantada em toda sua glória. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. mas se orientam pelo determinismo.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. com freqüência. Sua obra apresenta uma evolução importante. prevalecendo. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante. a exigência de precisão. O social perde a força do início. o conhecimento do mal. para a paisagem brasileira. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva. sobressaindo-se a alegria.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . postulado pelo poeta francês. a sensualidade.

.. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*. os vários . Na comunhão das níveas hóstias frias. por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores.. Assim.. Vão as Flores carnais. Expressionismo. Um luar de pudor. Silfos* de sonhos de volúpia crescem.. que resultaria na 1 Guerra Mundial. durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores.A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900. convencionou-se chamar vanguarda européia. Está sempre presente a sublimação. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve. véus de neve. A essa multiplicidade de tendência. De ignotos* e de prônubos* pudores.ismos Futurismo. 57 . caracterizada por duas situações antagônicas. Quando seios pubentes* estremecem. escritos entre 1909 e 1924. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. representado pelo decadentismo simbolista. (Cruz e Sousa) 7 . Luzes claras e augustas. contrastando com o clima eufórico da burguesia. mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano.. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. Dadaísmo. a Europa suportava a herança do final do século XIX. sereno e breve. Ondulantes. Surrealismo -. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século. Ao lado disso. favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade. a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. em forma alvadias*. virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve.(evidentes colocações pessoais). Erra* nos pulcros*. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. Véus e grinaldas purificadores. só conseguida na sua totalidade através da morte. Cubismo. responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30). ou seja.

o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 . O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909. o militarismo.. a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini. as belas idéias que matam. propondo “a destruição da sintaxe. vão à frente da unidade. pelo ódio e pela velocidade!. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti.” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados. pelo advérbio e pela pontuação. como nascem”. segundo. não satisfeitos com o que então se produzia.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. estavam à frente do deu tempo. dispondo os substantivos ao acaso. A partir do início do século XX. o passo ginástico. buscavam novas formas de expressão artística. a bofetada e o soco. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias.” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa. tanto na linguagem como na composição. a insônia febril. porque ele está nutrido pelo fogo. combater o moralismo. e o menosprezo à mulher.” "Nós queremos demolir os museus.. durante uma campanha. o gesto destrutor dos anarquistas. nós queremos exaltar o movimento agressivo. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística. a audácia e a revolta. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro. o hábito à energia e à temeridade. Assim. o patriotismo. a partir de 1919. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles. o êxtase e o sono. as bibliotecas.” Em 1912. Nosso coração não tem a menor fadiga. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944).A palavra vanguarda deriva do francês avant . da máquina.. Ou seja. passou a definir artistas e intelectuais que. a total identificação entre o movimento e seu líder. no campo das artes e das idéias. Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo.garde.. termo militar que designa aqueles que.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem. o salto perigoso. passou a ser empregada para designar aqueles que. da eletricidade do automóvel.

Mário de Sá — Carneiro. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. em Lisboa. Oswald de Andrade. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. Gombrich assim comenta a obra de Munch. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. Por sua característica. É o que se pode perceber. Disse e repito-o. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). na pintura O grito. é um rosto distorcido. de Munch. como por exemplo os futuristas. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. numa tela ou numa folha de papel. pelo contrário. uma máscara. portanto o movimento com o fascismo. Por outro lado. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. de imagens nascidas em nosso mundo interior. levando Oswald a saudar. mas repudiavam seu posicionamento político. 59 . errou. chamando-me de futurista. da materialização. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. notadamente entre 1910 e 1920. além do poema “Ultimatum”. Cézanne e Gauguin. em 1921.” Em Portugal. uma caricatura. aceitavam suas idéias artísticas. H. “ao contrário de outras vanguardas. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. a figura de seu líder. Raul Leal. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Mário de Andrade vem a público negar. assemelhava-se à caricatura. Apollinaire e Blaise Cendrars. Em 1917. Daí a importância da expressão. não relacionando . mais do que o movimento futurista. trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. E. com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. em novembro do mesmo ano. ou seja. expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. na Alemanha. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. por exemplo.seguidores. dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro. que continha texto de Almada Negreiro. realizou-se “espetáculo futurista”. Temendo uma identificação com o fascismo. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. de Álvaro de Campos.

Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade. quando tudo fazia supor uma vitória alemã.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque. Como exemplo de texto cubista. onde nasceu o pintor). cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. de frente. temos o famoso poema de Apollinaire. etc. Ao lado. jogados aparentemente de forma anárquica. preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. em plena guerra. e pelo menosprezo por verbos. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). Na literatura. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. considerada a primeira obra cubista. temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. O Dadaísmo Em 1916.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. música. Assim como na pintura. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). da rima e da harmonia. A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. literatura. de 1907. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon. adjetivos e pontuação. edição de 18 de maio de 1947. segundo Picasso. na década de 20. valorizando as formas geométricas (cones. no jornal Diário de São Paulo. cilindros. um grupo de refugiados em Zurique. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura. e a chamada poesia concreta da década de 60. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. escultura). a Pagu. esferas. No Brasil. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. as outras três têm feições que lembram máscaras africanas. Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. na Suíça.

como sou também contra os princípios. pouco se importando com o leitor. uivos das dores crispadas.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. ou seja. limpar. os quais demonstram que. em busca do homem primitivo. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos.” Importante era criar palavras pela sonoridade. A propósito. das inconseqüências: A VIDA. Como afirma EH. em 1924. da liberação do inconsciente. da valorização do sonho. no prefácio a Paulicéia desvairada.. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra.. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo. Gombrich. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. Entretanto. daí ser contra as teorias. ao acaso) para batizar o movimento.” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. por André Breton (1896-1970). completa. suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior. também éconta o manifesto. em sua História da arte: “(. não significa nada. como afirma um de seus iniciadores.Dadaismo. Foi essa idéia que fez os surrealista 61 . uivos das dores crispadas. quebrando as barreiras do significado. o presente e o futuro. A própria palavra dadá. Aliás. escolhida (segundo eles. Negando o passado. a executar. importante era o grito. negativo. de loucura agressiva. Varrer. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos. as ordenações lógicas. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada. A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. Tristan Tzara (1896-1 963). o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”.

de fato. não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário. No Brasil os. há quem afirme que o século XX só se inicia. Na realidade.. traumas). ainda. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários. podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . Características Apesar de o Pré. primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. de Euclides da Cunha. o mais extravagante dos surrealistas. com a publicação de dois importantes livros — Os sertões. São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. seguindo determinadas características. até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo. essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). ou seja. por exemplo. a influência de Freud é marcante. medos.Modernismo não constituir uma “escola literária”.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta.” Em Salvador Dali. desde os poetas parnasianos e simbolistas. Assim. frustrações. de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. com propostas realmente inovadoras. Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. o sono e o sonho. que continuavam a produzir. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos.O Pré-Modernismo Historicamente. limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso. com a realização da Semana de Arte Moderna. Lima Barreto. não constitui uma “escola literária”. e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. no Brasil. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte. Graça Aranha. O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros. já promovem rupturas com o passado. De fato. abordaremos o período que se inicia em 1902. por apresentar individualidades muito fortes. não sendo ainda modernos. 9 . com a eclosão da 1 Guerra Mundial.

o Brasil não — oficial do sertão nordestino. cientificista e naturalista. o Espírito Santo com Graça Aranha. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. mais admirado é o escritor que a escreve. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. o caipira. dos caboclos intenioranos. Os sertões. por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). iniciado em 1922. o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. por exemplo. escarro. é o grande tema do Pré — Modernismo. Cidade Mortas. há esse caráter inovador em determinadas obras. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira. A Linguagem de Augusto dos Anjos. o subúrbio carioca com Lima Barreto. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista). Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada). dos subúrbios.- Ruptura com o passado. Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista. Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa. o “pai do determinismo” -. e Canãa. era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor. 63 . vômito. com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). vermes). quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. Ligação com fatos políticos. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe. os mulatos. Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino. os funcionários públicos.

embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região. para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República. quando estava na relação de O Estado de São Paulo. como se pode ver na apresentação da obra. é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano. Em seus primeiros artigos sobre Canudos. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”. como correspondente de guerra do jornal paulista. Ao mesmo tempo. pela primeira vez em nossas letras. trata em sua obra da Campanha de Canudos. a gênese dos mestiços. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos. como - - 64 .” Este é um outro aspecto do livro . O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças. o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. Só quando pisou o solo baiano. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia.” Para tanto. E foi. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta.. Denunciemo-lo. Afirma o autor: “(. um crime.. Nessa época. palidamente embora. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. uma brilhante análise de tipos distintos. na significação integral da palavra. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. Daí o caráter revolucionário de Os sertões. documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro.trazendo à luz. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. antes o olhar de futuros historiadores.

a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu. “o sertanejo é. Idealizada por um grupo de artistas. Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime. a um tupi de “I . de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. Dessa forma. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é. o movimento modernista foi prenunciador. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional.” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito. justifica a luta. com a prática européia de novos ideais políticos. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte.” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico. na - 65 . bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”.Juca Pirama”. até perto de 1930. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens. a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais. contrapõe o sertanejo. um forte”. um forte. a uma Iracema. antes de tudo. realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13.15 e 17 de fevereiro de 1922. antes de tudo. A transformação do mundo. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. os progressos internos da técnica e da educação. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. mas também como um movimento político e social. por conseguir sobreviver em condições tão adversas. Ao falar sobre o homem do sertão. Assim. a “sub-raça”.o gaúcho e o jagunço. o jagunço. Isto foi o movimento modernista. em 30 de abril de 1942. Sem dúvida. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. Para compreendê-la melhor. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. no Rio de Janeiro.

Nele verificamos. portanto..) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha. em 1922. a qual reflete as transformações por que passou o pais. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque.maior orgia intelectual que a história artística do pais registra. a partir de 1922. a economia mundial caminha para um colapso. tem início uma primeira fase modernista.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias. embora lançado inúmeros processos e idéias novas. Nelson Werneck Sodré. o seu sentido verdadeiramente específico. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana. a meu ver. também tipicamente de classe média.” De 1930 a 1945.. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições.. inequivocamente de classe média. Constitui. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é. Isto é. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. que se estende de 1922 a 1930.” 66 . com a revolta militar do Forte de Copacabana. ou seja. o movimento modernista vive uma segunda fase. a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética. Porque. assim definido por Mário de Andrade: “(. como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional.. Nessa década. ainda. o Brasil passa por um momento realmente revolucionário. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. Não por mera coincidência. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia..) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas. em 1929. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. Tais manifestações. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira.

) Klaxon cogita principalmente de arte. exagerado. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens. além de Menotti deI Pichia. ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. ) Klaxon sabe que o progresso existe. Klaxon não é futurista. e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta. contraditório.(. sem renegar o passado. Guilherme de Almeida e Plínio Salgado. de denúncias da realidade brasileira.. o original e o polêmico. a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas). utópico. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira.” 67 . Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. Mas quer representar a época de 1920 em diante. um nacionalismo crítico. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. Antonio de Alcântara Machado. inquieto. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. (. Cassiano Ricardo. mas de ser atual. invejado. As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe. Manuel Bandeira. onipresente. irritante. insultado. E. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago. a pesquisa de fontes quinhentista. um nacionalismo ufanista. caminha para diante. Klaxon não se preocupará de ser novo.. cômico. aconselhado por Pascal.) Klaxon não é exclusivista. Como se percebe já no final da década de 20.Ao mesmo tempo que se procura o moderno. politicamente identificado com as esquerdas. consciente. visa o presente. Por isso. . Oswald de Andrade. identificado com as correntes políticas de extrema direita. .. Essa é a grande lei da novidade. sempre. Por isso é polimorfo.. (. de outro. feliz. sempre. Klaxon é Klaxista. destacam-se Mário de Andrade.

.. a alma da nossa gente. numa viagem a Paris. à tirania das sistematizaçôes ideológicas. com sede em Recife. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu. intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’. deslumbrado. edição de 17 de maio de 1929.” • A Revista “(. da própria determinação instintiva. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo.. Entretanto. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste. Esse fato. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(.. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração. . como o fez. pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil. afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. e que. que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo.• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa. que. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política.” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano. lança o Manifesto 68 . um órgão político. através de quatro séculos.. A volta à pátria confirmou. de que alguns já desconfiavam. Estava criada a poesia “pau —brasil’.) Somos. cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo. entre outras coisas. finalmente. Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. através de todas as expressões históricas.. inexplorado e misterioso.) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros. no encantamento das descobertas manuelinas.o grupo ‘verdamarelo’. sem quebra de nossa originalidade nacional. a sua própria terra.) Aceitamos todas as instituições conservadoras. (.

no romance. Vale lembrar que. Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador. o Centro editaria uma revista. e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. com nomes que vão de Graciliano Ramos. O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. da derrubada de Getúlio. na poesia. ‘homem”. da criação da ONU e no plano nacional. exposições de arte. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. Em janeiro de 1928. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais. abre-se um novo período na história literária do Brasil. Além de promover conferências. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. José Lins do Rego. Assim a par das pesquisas estéticas. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. José Américo de Almeida. no Estado Novo. a João Cabral de Meio Neto. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. ano do fim da guerra. Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. Em 1945. A primeira contou com 10 números. a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. de março a agosto de 1929. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. que criara a Escola da Anta. a partir da década de 1930. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. vive-se depressão econômica. segundo os antropófagos). Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial. das explosões atômicas. no plano interno. o universo temático se amplia.Regionalista de 1926. 69 . “que come”). em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. congressos. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. poru. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. econômico e culturais”.

Lembramos. como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos . que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. declara: “Não. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. meu coração não é maior que o mundo. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. de compromissos. ALGUMA POESIA (1930). a propósito. de que é exemplo o poema “Cota zero”. cultivando o verso livre e a poesia sintética. é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e. com seu livro História do Brasil. mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”.Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana. de Jorge de Lima.que animação! Um pic-nic com carabinas. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). de Drummond: "Stop." Formalmente. os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior. em verdadeira profissão de fé. 70 . fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. Murilo Mendes. É um tempo de definições. seguiu a trilha aberta por Oswald. a Mário de Andrade. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante. repensando nossa história com muito humor e ironia. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo.

Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão. me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso. ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. nos movimentos. caminha para uma poesia religiosa.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. Toco nas flores. Por isso freqüento os jornais. Por isso gosto tanto de me contar. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. Nele não cabem as minhas dores. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo. Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. longe de significar derrotismo. nos sons. Desloco as consciências. Por isso me dispo. Destelho as casas penduradas na terra. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -. não nos afastemos. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. nas almas. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. Não nos afastemos muito. 71 . Por isso me grito.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. Não desprezo nada que tenha visto.E muito menor. vamos de mãos dadas.

em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. Múltiplo. de “restauração da poesia em Cristo”. o material e o espiritual. RacheI de Queiroz. tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. As metamorfoses. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos. Mundo enigma. utilizando-se para isso da lógica. da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. Graciliano Ramos. Assim é que. mística. longe como o diabo. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja. Jorge Amado e Érico Veríssimo. tema constante em sua obra. os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. o finito e o infinito. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 . uma vez que. mais maduro. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30.a rua estala com os meus passos. José Lins do Rego. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. escrito em parceria com Jorge de Lima. Nada me fixa nos caminhos do mundo. glorifico o soldado vencido. e ando nos quatros cantos da vida. de uma civilização decadente.” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). não posso amar ninguém porque sou o amor. na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”. encontramos autores como José Lins do Rego. Consolo o herói vagabundo. de um mundo esfacelado. desarticulado. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro. o poeta não abandona a temática social. Sua obra ganha em densidade. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. Poesia liberdade. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. pronunciada em 1943. Surge dai a consciência do caos. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. O visionário.

sua importância deve-se mais à temática (a seca. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. afirma Paulo Honório. Terras do sem —fim.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos. Ele tinha todo o oiro. podemos dizer. está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. Levamos uns anos para chegar ao povo. Sem ele não haveria eternidade. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira. o drama da economia cacaueira. o poder político nas mãos de interventores. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. nos encontrar com o povo. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. a fome. foi A bagaceira. os retirantes. Nesses dois livros tentei fixar.“Nós. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. com imparcialidade e paixão. de José Américo de Almeida. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. toda a alma. O segredo era chegar até o povo. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso. ou antes. que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. que andava perdido. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. a miséria.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. no Brasil. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. O nosso romance tem um século. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. “Em verdade este romance e o anterior. publicado em 1928. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. Hoje. Sem o povo não haveria eternidade. decadência dos bangues e engenhos. acima de tudo. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus. em 1850. 73 . o intenso movimento migratório. queremos. nos dera o roteiro. O mestre Manuel Antônio de Almeida. não cabe culpa ao romancista. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza.

moço mas rude. apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. foi publicado em 1937. Em todo o ciclo. esmagados pelas poderosas usinas. Isto 74 . em muitas passagens. é o próprio José Lins do Rego). moça culta da capital. O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. que. as secas são referências constantes em seus romances. o que resulta em uma narrativa dinâmica. vivida pela escritora em sua infância. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família. e nem parece gente branca. embora o primeiro superponha-se ao segundo. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos. A partir de então. destacam-se duas situações: primeira. a relação afetiva entre Vicente. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. e Conceição. sem dúvida O Quinze. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social. Além deles. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. Na narrativa. povoam o Santa Rosa o tio Juca. mais político. Chegou tão alvo. sua gente.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. sua terra. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. me disse Tia Maria. como para Vicente. do velho coronel Zé Paulino. cujo título refere-se à grande seca de 1915. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. passando a valorizar a análise psicológica. o cenário é o engenho Santa Rosa . Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. em decorrência da situação adversa.

” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. Além do ciclo da cana. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras. os chamados ‘moleques de bagaceira’. ponto máximo de sua obra. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. Sucede. Você é um menino bonzinho. Carlinhos foge. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. com ferramentas enormes. A história desses livros é bem simples: . Uma grande melancolia os envolve de sombras. solto como um bicho. estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. você não. pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’. Pelo contrário. têm o mesmo destino. sofrido e fracassado. Seu avô ontem me falou nisto. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha.faz mal. Veio. porém. no prefácio ao romance Usina. se escraviza. O filho do seu Fausto. Entretanto. De manhã à noite. Pode ser que se pareçam. Doidinho. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. Carlos de Meio havia crescido. foram tão íntimos na infância. após o Menino de engenho. Viveram tão juntos um do outro. Depois de Moleque Ricardo veio Usina. espatifado. Ricardo e Santa Rosa se acabam. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. os Ricardos. José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto. não vá atrás destes moleques para toda parte. Carlos de Meio. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio. e em seguida. com máquinas de fábrica. 75 . de pés no chão. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. Os meninos de Emilia já estão acostumados. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. em 1943. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. há mais de um mês que está de cama. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina. As febres estão dando por aí. Bangue. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. no Pilar.” O próprio José do Rego.Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos.

bem como a oralidade da narrativa. amados e ouvidos pelo povo. viventes. Assim. Nesse contexto violento.. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. porque tinham o que dizer. presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. nesses casos. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural. A provável fonte temática.como o misticismo e o cangaço. ela atrapalha a caminhada da família. A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas. um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. Coitado. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. outro nome próprio. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço. Além disso. num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome). Em conseqüência. Baleia jantara os pés. como afirma o próprio autor: “(. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. como no inicio de Vidas secas. teria sido a literatura de cordel. e não guardava lembrança disto. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes. tensão essa geradora de um conflito intenso. contando com o papagaio. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. morrera na areia do rio. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. a cabeça os ossos do amigo. dois humanos infantis sem nome. é o final trágico e irreversível.) Os cegos cantadores. Em seus romances. onde haviam descansado. tinham o que contar. identificados como “o mais velho” e “o mais novo”. Portanto. ou ainda. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie.” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas. O papagaio é sacrificado. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. nas palavras do próprio autor. homem x meio social. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente. em nome da sobrevivência dos demais. devorado canibalisticamente. misticismo e seca”..” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. a lei maior é a da selva. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo. capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho. decorrente de relacionamento impraticáveis. a morte é uma constante. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 .

no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. em seguida.. A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito. não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. que constitui a unidade profunda dos seus livros. Seus personagens são seres oprimidos. Paulo Honório e Fabiano. moldados pelo meio — Luis da Silvam. entretanto. o latifúndio. tudo se torna inútil. intenções. Dai Rolando Morei Pinto. o drama dos retirantes. E dentro das estruturas vigentes. afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. dentro da posição pessimista e negativista do autor. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. e que tanto os personagens criados quanto. ele próprio. em que o autor se coloca como problema e como caso humano.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. São Bernardo e Angústia). atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. E o crítico conclui: “(. estes últimos símbolo da 77 . segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. )no ângulo da sua arte. gestos. na palavra inútil: “Parece que.. Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere). quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. desejos e esforços. b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). a cidade. ao lado do retrato e da análise social. em brilhante tese sobre o autor. pelo sertão. pela cidade. são projeções deste impulso fundamental. mas o que as circunstâncias impõem. principalmente. o qual. a caatinga. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor.à realidade. segundo uma visão distanciada da real idade.

sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Trabalha a narração com a mesma mestria. recuaram-se. Os juazeiros aproximaram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Em seus textos enxutos. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. A folhagem dos juazeiros apareceu longe. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. Fazia horas que procuravam uma sombra. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. tanto em primeira como em terceira pessoa. analisar toda uma sociedade.ditadura Vargas. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica. através dos galhos pelados da caatinga rala. Arrastaram-se para lá. fechou os olhos. a viagem progredira bem três léguas. praguejando baixo. cambaio. Do ponto de vista formal. deito-se. depois sossegou. condenado do diabo. Como isto não acontecesse. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. gritou-lhe o pai. a espingarda de pederneira no ombro. Não obtendo resultado. o aió a tiracolo. estavam cansados e famintos. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. seja como escritor. Ordinariamente andavam pouco. Seus romances. Fabiano sombrio. como 78 . Mas o pequeno esperneou acuado. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. Anda. através deles. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. seja como homem público. sentou-se no chão. zangado. o Cavaleiro da Esperança. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão. espiou os quatro cantos. Acerca deste último aspecto. devagar. fustigou-o com a bainha da faca de ponta.

O país do Carnaval e Capitães de areia. citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. o cotidiano caótico. Como exemplo maior. essa palavra é liberdade. cravo e canela (que. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. com forte coloração social. se consolidaria com Gabriela. com destaque para Clarissa e Vasco. Entretanto. Podemos notar. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. revolucionário. caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. Finalmente. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase. Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre. verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. De Seara vermelho. Seus personagens. ao passo que o último é mais lírico. essa divisão encerra apenas uma finalidade didática. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. o autor tem sido acusado de ser redundante. embora negada pelo autor em suas entrevistas. esses 79 . é uma crônica de costumes). como é o caso de Suor. tanto na abordagem psicológica como na social. apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances. para Dona Flor e seus dois maridos. Evidentemente. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. O primeiro é mais político. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna. por exemplo. Cacau. tanto no plano individual como no plano social. a crise da sociedade moderna. se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50. iniciada com Jubiab áe Mar morto. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. reaparecem em várias situações e em Vários momentos. passando por Música ao longo. estendendo-se às últimas produções do autor. há uma distância clara e evidente. no entanto.

A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922. período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. exílios.O arquipélago. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. cujo primeiro número. ilegalidades. Fim da ditadura de Getúlio Vargas. como destaque para Clarice Lispector. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. 11. Mais tarde. em busca de uma literatura intimista. e 1. introspectiva. pertencem os romances O senhor embaixador. que chega até o governo Vargas. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. afirma. excelente crítico literário. Logo depois. O prisioneiro e Incidente em Antares. narrativa mais contemporânea. O tempo.O Pós-Modernismo 1945. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. Logo depois. lançado na primavera de 1947. início da redemocratização brasileira. que enfoca as primeiras décadas do século XX. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. convocam-se eleições gerais. A prosa. igualando-o. Terra e Cambará. de sondagem psicológica. fim da Guerra Mundial. em termos de aceitação pública. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. Na poesia. e 80 . encarrega-se da seleção. tem início a Guerra Fria. tanto nos romances como nos contos. mais dedicada aos temas da atualidade. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. O retrato. 1945. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. outras. À última fase da produção de Veríssimo. sem exceção. com as lutas do início da República. um retrocesso. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. a Jorge Amado. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui.

por Lêdo Ivo. Com isso. A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. negando a liberdade formal. é formado. diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. as palavras recriadas ganham força e significado novos. a universalização do regional. suas expressões. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946. as ironias. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45. que é bom ressoador’. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. Geir Campos e Darcy Damasceno. os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra. a seguir. Entretanto. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco. por exemplo. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. e ele nesse ponto era bem — assistido. suas particularidades. A princípio. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. na recriação das palavras. podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. e não apenas com uma admirável vocação acústica. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. Péricles Eugênio da Silva Ramos. e caminhou para 81 .só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. percebe-se uma revalorização da linguagem. entre outros poetas. mas sim nos neologismo. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. A gente lê. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. chamado de Geração de 45. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. Esse grupo. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista.

Cada coração um jeito De mostrar o seu amor... 82 . em que o autor narra a caminhada da boiada. dá direito. com atritos de couros. pronta de todo está ela ficando. e as vagas de dorsos.. mesmo prestes assim para surpresas más.de — mundo!.Ô gostosura de fim . soca soca. cabisbaixo. vem. satisfeitos. ‘Um boi preto. com muita tristeza. saudade dos campos. rola e trola. escurecidas à fumaça dois tiros. E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas.. de chifres imensos. Boi bem bravo. mal percebido.. e que os cavalos gingam bovinamente... estrondos e baques. E. batendo com as caudas.. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante. . bota baba.. -Tchou!. mexe lama. booôi!. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente. Eh. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto.” Pouco a pouco porém. boi berrando. e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos... o ritmo e sonoridade de sua linguagem. e o berro queixoso do gado junqueira. Vai.. querência dos pastos de lá do sertão. estralos de guampas. vai não volta. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas. sem — querer e imitativo. com os cabras saltando e miando de maracajás. que chegou minha vez!.” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia. volta. mugindo no meio. um boi pintado. vem na vara.. vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata. cada um tem sua cor. chifres no ar. Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”. vai varando. Que de trinta... cambada de filhos — da — mãe. trezentos ou três mil. casco a casco.. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -. bate baixo. Devagar. dá de dentro. das vacas e touros.Tchou!. agora. na massa embolada. pela estrada. fasta vento. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança.cima de Nhô Augusto. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros... dá de duro.

Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade.A boiada vai. uma religiosidade quase medieval. madeiras de grossura. as vazantes. na obra de Guimarães Rosa..ser. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães. Toleima.” 83 . que na beira dele. de outra forma. para que ele não “forme forma”. O Urucúia vem dos montões oestes. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. quinze léguas. Para os de Corinto e do Curvelo. . pequeno e próximo. demais do Urucúia. onde um pode torar dez. pois” o sertão é o mundo “ou. culturas que vão de mata em mata. o aqui não é dito sertão? Ah. outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. almargem de vargem de bom render. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer..” (João Guimarães Rosa) O misticismo. a pesquisa do ser humano. arredado do arrocho de autoridade. terras altas. como um navio. O sertão está em toda a parte.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes.. Deus e o diabo. então. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. é questão de opiniões. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser. Mas hoje. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com. sem topar com casa de morador.. Assim o sertão de Rosa: ora particular. tudo dá — fazendões de fazendas. e onde criminosos vive seu cristo — jesus. O gerais corre em volta. “o sertão é dentro da gente”. melhor ainda. até ainda virgens dessas lá há. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere. logo na abertura de Grande sertão: veredas. entre o ser e o não . ora universal e infinito. resultando dai o chamado romance introspectivo. eles dizem. pelo pavor. Esses gerais são sem tamanho. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro. fim de rumo. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo. o” estar —no — mundo”. isto é o sertão.H. já notado. o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão.‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”. Por isso. assim explicava a autora seu ato de escrever. Enfim. dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo.

A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever. Manifesta. os cemitérios e o aparece. São objeto de verificação e análise os mocambos. de modo muito particular. trabalhando metáforas e aliterações. “exterior e explícita”. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. apresentadas a seguir. A Espanha e sua paisagens. inclusive. a herança medieval e os engenhos. e o drama do narrador. há que “sevilhizar” o mundo “. personificado. rio Capibaribe. que 84 . e sua cidade. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. em sua consciência e inconsciência. Cesário Verde. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. seu estado natal. Augusto dos Anjos. busca fixar-se na crise do próprio indivíduo. suas tradições. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. afirma o poeta. a literatura de Paul Valéry. em alguns casos. pela tendência ao surrealismo. seu folclore.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. ao mesmo tempo.” Essa literatura introspectiva. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. duelando com as palavras e os fatos. por mais de uma vez. o drama de Macabéa . O Nordeste com sua gente: os retirantes. onde me considero um sevilhano. solitário e inconseqüente. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. No entanto. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. intimista.No plano da linguagem. mas sim nas entrelinhas. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. No nível temático. Pernambuco. em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. O melhor está nas entrelinhas. em A hora da estrela. o Recife. pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos. para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. O melhor ainda não foi escrito. explorando os limites do significado. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. Não há que civilizar o mundo. “Sou um regionalista também na Espanha.

É o caso de O cão sem plumas. Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. como as brisas.” A partir de 1050. coou. extinta de flor. a própria arte poética. transparentes florações nascidas do ar. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado. bolha aberta no maduro). Delicado. da água de cântaro. mas flor. frágeis. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. flor não de todo flor. seu ovário. Nada sabia da chuva azul. Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. (fezes como qualquer. da brisa na água. o poeta repensa sua poesia: “Poesia. raros.o estrume do poema. calor de nossa boca. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. dos peixes de água. evitava seu caule. no ar. da fonte cor — de — rosa. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. aprofundando assim a temática social. Sabia da lama como de uma mucosa. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. espécie Esperava as puras. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). Suas intestinações. o próprio rio Capibaribe. ou seja. 85 . o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. da água do corpo de água.Graciliano Ramos e Drummond.

86 . musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60. Procurava-se assim. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano). na sua criação. Entretanto. maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional. herdado. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952. do século XIX.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação). pela primeira vez. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal. de poetas brasileiros. ganhou inúmeros prémios e aproximou. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956. o “poema — produto: objeto útil”.” O rio Capibaribe voltaria a ser tema.Devia saber dos polvos. a participação direta. também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto. principalmente. original. realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo. Entretanto. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras.e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. com a Exposição Nacional de Arte Concreta. rompendo com “ o vício retórico nacional”. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari.

assim explicam os irmãos Campos: “(. Sobre isso. que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial. documento — programa do movimento.. carga semântica).) uma ordenação não — linear do poema. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”. exigindo dele uma participação ativa. a carga semântica. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla. embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso. dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal). na qual o branco da página.)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. seu material: a palavra (som.” Apresentamos. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor.. 87 . Dessa forma. Daí defenderem “(.. em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico. estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo.) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural.segundo os concretistas.... Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos. o visual. apenas dispersado (. forma visual. economia e arquitetura funcional do verso”). • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo. o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página.

caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. Ferreira Gullar. no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis. conforme sua posição no texto. que. Edgar Braga e Pedro Xisto. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. de Mauro Gama. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 . realismo total. Décio Pignatari. subjetiva e hedonística. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. o texto “Crime 3”. conta uma poesia de expressão. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. como Manuel Bandeira. Ronaldo Azeredo. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. cujo sentido e dicção mudam”.• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. por exemplo. A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. Leia-se. Augusto de Campos. o poema — produto: objeto útil. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. no entanto.

duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. filiam-se ao grupo da poesia. na caixa de som (colchão murcho coração).” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. como veremos mais adiante. ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996).práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. só amenizados a partir de meados da décadas de 80. por uma rígida censura e enraizada autocensura. assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. como já denota sua “autobiografia”: 89 . quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país. titulo muito adequado. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90. flor e fruto do Pantanal mato-grossense. O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. Poesia Na poesia. neste capítulo. Mário Quintana. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. Manoel de Barros é semente. de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. a sonoridade das palavras. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. Dessa forma. Adélia Prado.cavo. Produção contemporânea O que chamamos. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada. Mantendo a tradição da poesia discursiva. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral. Ferreira Gullar e José Paulo Paes. Pelo contrário. Aliás. Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal. Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos.

” Inúteis.“Não sou biografável. o parafuso de veludo. (E que seja sem dor. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo. tudo que use abandono por dento e por fora”. Por isso mesmo. 3. etc. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo. um abridor de amanhecer. Trabalhado com maior ou menor intensidade. talvez seja. Bernardo Élias. Ou. foi Rubem Fonseca. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. Márcio de Souza. “guiados por ele. O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. bichos.. em algum banco de praça. espantando da cara as moscas mais brilhantes). Nasci na beira do rio Cuiabá 2. Carlos Drummond de Andrade. como afirma o editor Ênio Silveira. 1. O nada mesmo. buscando uma nova forma de organizá-lo. Fazer coisas desúteis. No texto que abre o Livro sobre nada. Ainda na prosa. Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. etc. Aguardo um recolhimento de conchas. em uma fase de sua produção. coisa. Alguns poetas passam. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. Antônio Callado. Prosa No romance. Mas quem roubou a cena nos últimos anos. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. pessoa apropriada para pedras. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. onde as verdades essenciais. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. Roberto Drummond e Ana Miranda. uma de terminada visão de mundo. nada. em suas obras. Manoel de Barros é um deles. Passei a vida fazendo coisas inúteis. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”. Em três linhas. José Montello e José Cândido de Carvalho.

Menção especial merece Sérgio Porto. Domingos Pellegrini Jr. Por outro lado. tem servido de mestre a muitos cronistas. Vencido quero ver-me e arrependido. coletânea de oito histórias que. Arrependido a tanta enormidade. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. Nélida Piñon e Rubem Fonseca. Este último lançou. escritas na década de 60. Maldade. Abraços. Luz. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . delinqüido vos tenho. meu Senhor. Luis Fernando Veríssimo. Entre os contista mais significativo. Rubem Braga.gênero na imprensa. De coração vos busco. Lourenço Diaféria. com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. Verdade é. dai-me abraços.. em 1995. Luís Vilela. Otto Lara Resende. que hei delinqüido. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. Misericórdia. hoje. linha de frente de primeiríssimo time. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. é bem verdade. João António. que. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. que me rendem vossa luz. Paulo Mendes Campos. A salvação pretendo em tais braços. citam-se Dalton Trevisan. o conto. o Stanislaw Ponte Preta. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. Lígia Fagundes Telles. entre outros. Jesus. que todo me há vencido. António Callado. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede. meu Deus. Vaidade. Moacyr Scliar Rawet. analisado no conjunto das produções contemporâneas.Gregório de Matos Ofendi-vos. Jesus! 91 . amor. que encaminha a vaidade. Arrependido estou de coração. Tarefas Analise os textos a seguir. ofendido vos tem minha maldade. explorando técnicas modernas de narrativa. que claro me mostra a salvação. e ofendido.

Tinha escondido a chama brilhadora. a matutina Aurora O negro manto. Minha terra tem palmeiras. Não gorgeiam como lá. que sonora. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã. Aque alegre. Em cismar. Onde canta o Sabiá. Nossa vida mais amores. Minha terra tem palmeiras. sozinho. sozinho. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. Que tais não encontro eu cá. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia. E a suavidade do prazer trocada. Não sabe ainda que coisa é alegria. à noite mais prazer encontro eu lá. Por te não poder ver.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. Onde canta o Sabiá. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. Nise. Nosso céu tem mais estrelas. Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra. com que a noite escura.Texto II Soneto . Tanto mais aborrece a luz do dia. à noite. Onde canta o Sabiá. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. Mais prazer encontro eu lá. Sem qu’inda aviste as palmeiras. Em cismar. Sufocando o sol a face pura. Nise Adorada. As aves que aqui gorjeiam. viria ao menos 92 . Minha terra tem primores. que suave.

Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica.. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar. o chicote estala.. A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira. marinheiros! Fazei-os mais dançar!.. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais... Ouvem-se gritos.. No turbilhão de espectros arrastadas. o dolorido afã.. outro enlouquece. Se o velho arqueja.Fechar meus olhos minha triste irmã. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote. Presa nos elos de uma só cadeia. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória.. que de martírios embrutece. o capitão manda a manobra.. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros. mas nuas e espantadas. Outro. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco... E voam mais e mais. fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar. Negras mulheres.... Cantando.. moças. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães.. estridente. suspendendo às tetas Magras crianças.” 93 . E após. estalar de açoite. geme e ri! No entanto.. se no chão resvala. Outras..

olhando imensidades.. era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta.. Mas o lavor da taça admira. ela era a cobra verde e traiçoeira. tardes. estridente. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. que abre feridas com seu azeite de fogo. Cárcere das Almas . Da Dor no calabouço. a um novo deus servia. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e. às bordas Finas hás de lhe ouvir. piscando-lhe as artérias. Soluçando nas trevas. Toca-a. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. natureza. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia.. a lagarta viscosa. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas.E ri-se a orquestra irónica. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa. brilhante copa. trabalhada De divas mãos. entre as grades Do calabouço. Ignota voz. a muriçoca doida. ora repleta ora esvazada." – fragmento de O Cortiço. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. de áureos relevos. estrelas. que o atordoara nas matas brasileiras. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. Ó almas presas. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. atroz. Depois. do ouvido aproximando-a. um dia. Mares. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas. preces ressoam E ri-se Satanás!.. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda.. sonhando. maldições.. e. era o veneno e era açúcar gostoso. uma nota daquela música feita de gemidos de prazer. ais. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional. uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. funéreo! Texto VIII 94 . que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. Vinda do Olimpo. Já de aos deuses servir como cansada. canora e doce.

Nesses silêncios solitários. Coimbra: Armenio Amado. graves. Rio de Janeiro: Tecnoprint. & LOPES. 3ed. Otto Maria. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. 1993 NICOLA. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI. 9ed. Lucia. Oscar. José de. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. História concisa da literatura brasileira. 1994 HELENA. 1968 CIDADE. São Paulo: Scipione. São Paulo: Scipione. A.). Álvaro Cardoso. 3ed. 2ed. 1963 GOMES. J. Hernani. São Paulo: Ática. Alfredo (org. São Paulo: Cultrix. Movimentos de vanguarda européia. Porto: Porto Ed. 95 . 1980 CARPEAUX. História da literatura portuguesa. 1998 SARAIVA. O simbolismo. Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. 1976.

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