FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

2

Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

3

plurissignificativo 4. Cotidiano 2. ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3. opaca 6. Transparente 6. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. orações. literário 2. Técnico 3. Funcional 4. conotativa 4 . Linguagem automatizada 5. lança mão do discurso metafórico. linguagem desautomatizada 5.texto = entrelaçamento de linhas. períodos que formam sentido. fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1. Conceitual 7. denotativa Texto obra 1.

Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. em última análise. 5 . pelos interesses desse grupo.Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade. nas entrelinhas. O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena. mas no seu sentido profundo.

uma parte perceptível. valores . A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas.3 recriação da linguagem 2.distinção e características 2.Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1. Por isto.= conjunto de idéias próprias de um grupo. um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 . ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo. intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça. Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida.e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível. que nos faz lembrar de um conceito (o significado). constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão .4 plurissignificação 2. Denotação e conotação 2. metáfora 3. o conceito.2 reflexão sobre o real 2. numa palavra que ouvimos. constituída de sons . mas interdependentes. A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra. de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . isto é. 1. percebemos um conjunto de sons ( o significante).1 valorização da forma 2. com o qual almeja provocar mudanças . Texto literário e texto não-literário . para obter aquilo que se deseja. metonímia 2.

é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos. conotativos. literal. Por exemplo. de uma época a outra. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. Portanto. Desta maneira. que são apenas sugeridos. negativos ou positivos. evocando outras idéias associadas. reações psíquicas que um signo evoca. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. seu sentido é objetivo. está ligada à ambigüidade. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. referindo-se à realidade palpável. subjetiva. de uma classe social para outra. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . mas têm conteúdos conotativos diversos. Ela designa ou denota determinado objeto. explícito. Denotação é a significação objetiva da palavra. as palavras senhora. Conotação é a significação subjetiva da palavra. de ordem abstrata. valores afetivos e sociais. naquele que lhe atribuem os dicionários. mulher denotam praticamente a mesma coisa. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. virtuais. constante. isto é. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões. esposa.expressão.

um juízo. a sensibilidade. possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. um estado de espírito. mas sim de regras conversacionais. na concepção do falante. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança. de interdependência. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. instaurando-se a polissemia. do autor ou leitor. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. de inclusão. Se entendida apenas no nível semântico. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. Esse é. assim.A respeito de conotação. quando apresentam traços semânticos comuns. essencial para que se realize qualquer processo de mudança. Dessa maneira. de intersecção. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. um sentimento. o temperamento. Conotação é. Por exemplo. portanto. pelo acréscimo de um segundo significado. de implicação. em essência. uma espécie de emanação semântica. o traço característico do processo metafórico. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. que exige variação e continuidade. que variam conforme a experiência. na verdade ele opera com regras pragmáticas. uma opinião. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. quando dizemos "As 8 . Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. de coexistência. isto é. Em termos cognitivos. algum ponto em comum. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. criada no trabalho mental de apreensão. pois metaforização é conotação". Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. A partir daí. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. em relação à coisa designada. Othon M.

devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética. que possibilita a criação de novas relações de sentido. No texto não-literário. tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade. portanto. envolvendo um processo de recriação dessa realidade. estamos empregando cãs por velhice. com predomínio da função poética da linguagem. É.. plurissignificativa e de intenso dinamismo.cãs inspiram respeito". Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio. e na interação entre os indivíduos. com predomínio de outras funções. Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 . em geral. as relações são mais restritas. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade. não descansam os soldados. porque as pessoas idosas possuem. não descansam as armas = .. cabelos brancos. com predomínio da função referencial da linguagem.

ou seja." 2. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. nem temas inadequados a esse tipo de texto. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. em VIDAS SECAS. de maneira indireta. ou de produzi-lo. nos planos fônico. Por isso. léxico. recriando o real num plano imaginário. onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece. 2. singular. não há temas específicos de textos literários. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. reordenando-a. e por isso degradados ao nível da animalidade. que dizem: "Graciliano Ramos. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. Não é o tema. relacionada ao processo de recriação do real. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. as artes desempenham um papel muito importante. Refletindo a experiência cultural de um povo. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. prosódico.2. revelando assim novas formas de ver o mundo. ocorre a desautomatização da linguagem. citamos Platão e Fiorin (1991). pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. num país como o Brasil. combinando-as de maneira inusitada. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. A título de exemplo. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. 10 . visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. Assim. morfossintático e semântico. O literário possui um universo fictício. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. Assim.

e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 . pelo uso de recursos poéticos. De repente. num texto literário. quando se resume um texto não-literário. Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. apreendese o essencial. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. por exemplo. resumir as idéias. A esse respeito. sua intocabilidade. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. a partir de suas respostas. Poderão surgir. podemos verificar que evidências da literariedade. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Podemos. poéticos e textos não-literários.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. quando se resume um texto literário. portanto. perde-se o essencial. No poema de Ferreira Gullar. Pelo trabalho com a linguagem. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. literário. No Soneto da Separação. o poeta francês Paul Valéry diz que. em todos os recursos que Meu povo. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. substituir vocábulos por sinônimos. Não podemos. textos líricos. suprimir ou acrescentar vocábulos. não mais que de repente.2. seu soneto é um texto literário. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa.

5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário. crescer. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . desvio da norma culta 4. o poeta é comparado a um plantador. ao explorar conteúdos. e. alogicidade 12 . procura recriar a linguagem.No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto. utiliza recursos variados. "no povo meu poema". podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. o povo e o poema crescem como a árvore nova." c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. musicalidade 2." Dois planos foram explorados -. terra fértil. antidiscursividade 3. quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. "Ao povo seu poema.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. poema/árvore. 2. São alguns deles: 1. para essa recriação.

em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. mais uma vez. límpido. na maioria das vezes. argentino. vivas. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. seja em verso. esgrime. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. No poema de Cruz e Souza. Volúpias dos violões. Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. o uso poético da linguagem. da rima. de aço fino. Seja em prosa. vãs. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. tímido. musicalidade: obtida através do ritmo. anáforas a) Ritmo . o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. da violação das normas. O trilo dos grilos. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. construção paratática 1. vozes veladas. das aliterações. como nestes versos de Murilo Araújo. com o raiozinho dos astros.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. A norma do discurso poético é a antinorma. vulcanizadas. Vozes veladas. veludosas vozes. das assonâncias. b) Rimas e aliterações . muitas vezes.5.

estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. A hipotaxe exige maior elaboração mental. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . Inversão da ordem natural das palavras. Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens. Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra. mudam a classe gramatical. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. há uma oração principal. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. a subordinação. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. Nas construções hipotáticas. A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas. 2. 3.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. violação da regência e da concordância. falta de consistência gramatical. Que o espírito enlaça a dor vivente. hipérbato.

........ Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema... o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro.......é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas... separadamente.... apontando em que versos da estrofe são mais nítidos. ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! .e amou a vida.....sonhou .. 3.. Só levo uma saudade ....... Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto........ É pela virgem que sonhei. Se um suspiro no seio treme ainda................ Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida.. À sombra de uma cruz... E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento. 15 .. De ti......... que nunca Aos lábios me encostou a face linda! .......... Roteiro: 1. e escrevam nela: Foi poeta ................................. identificando os fenômenos líricos predominantes................Em pálpebra demente....... 2..... Examinar cada estrofe.. Se uma lágrima as pálpebras me inunda... Indicar a função da linguagem predominante no poema..

usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. assim como os esquemas de construção textual. Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. o processo literário. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. 2. Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. O texto precisava ser entendido em seu sentido global. conotativamente. da personagem e do acontecimento. cada um deles. A idéia de morte está presente em todo o poema. o personagem e o acontecimento. Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. que privilegiam. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. estrutura o espaço.4. o texto como um todo significativo. 8. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado. Dessa forma.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço. através da ficcionalidade do espaço. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). 5. por 16 . Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). da sua morte. No romance Dom Casmurro. criando uma realidade ficcional. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular. verbais e não verbais. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. Há. Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. analisando-lhe como imagem. convertido em discurso narrativo como prática semiótica. de Machado de Assis. 6. segundo a semiótica literária. uma das partes da narrativa: 1. três padrões literários. diagrama ou metáfora do mundo interpretado.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos. de Aluísio Azevedo. 7. no nível do imaginário. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente.

Tarefas: 1. 3. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). por exemplo. que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. 2. – a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . que corresponde à emancipação política do Brasil. podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. ou seja. de Euclides da Cunha. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras. Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. sobre o mundo. apontando o tipo de semiotização efetuado.exemplo. toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa. estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. Os Sertões.

de fato. mas NO Brasil. que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início. seguiremos as orientações de Antonio Candido.Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira.Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 . 1 . Antes disso. no Barroco.O Barroco 1 .Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 . não era Literatura DO Brasil.

a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista.inicio dos anos 1700. A origem da palavra barroco é controvertida. como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos. como a metáfora. Segundo outros. O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ). o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). a antítese. que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura. de Cláudio Manuel da Costa. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. a hipérbole e a alegoria. Ou. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. No Brasil. com sentimento nativista o primeiro manifesto. escultura e arquitetura da época. de Bento Teixeira. assimetria. assimétrico. Por essas razões. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. dilema que tanto 19 . Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. o pecado e o perdão.” Além disso. Em qualquer das hipóteses. rebuscamento. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. já a partir de 1724. o material e o espiritual. No entanto. sobrecarregando a poesia de figuras. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. Além da literatura. Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. designaria um tipo de pérola de forma irregular. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente. pintura. do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. ou mesmo um terreno desigual. Botelho de Oliveira. O final do Barroco só se concretizará em 1768. estende-se à música. é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil. o movimento academista ganha corpo. na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole.

Não se diga que é parte. de conceitos. sendo parte. Mas se a parte o faz todo. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. O braço de Jesus não seja parte. Não se sabendo parte destes todo. Assiste cada parte em sua parte. Pois que feito Jesus em partes todos. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. E todo assiste em qualquer parte. uma tendência sensualista. A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. extravagante. A arte assume. Um braço que lhe acharam. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras. Em todo o Sacramento está Deus todo. Em qualquer parte fica o todo. sendo o todo. racionalista. então. E feito em partes todo em toda a parte. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. (Gregório de Matos) 20 . seguindo um raciocínio lógico. do qual deriva o termo Quevedismo. sendo parte. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal. culta. que utiliza uma retórica aprimorada.atormenta o homem de século XVII. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas. Aparte sem o todo não é parte. Nos diz as partes deste todo.

e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias. Constituem importantes documentos históricos. contrária. totalmente oposto ao Gongorismo. à moda cultista. O estilo culto não é escuro.Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. e havemos de ouvir um pregador em português. próprias dos jesuítas. pois tal fato estaria profetizado na Bahia. não me leias. mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. e negro boçal e muito cerrado. Cartas São cerca de 500 cartas. os que o querem honrar chamam-lhe culto. de apresentação. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. Profecias Constam de três obras: História do futuro. (. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo. mas ainda lhe fazem muita honra. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. Em estilo barroco conceptista. Sermões São quase 200 sermões. É possível que somos portugueses. o melhor da a obra de Vieira. portanto..) Este desventurado estilo que hoje se usa. Vieira seria conceptista pelo processo mental. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. nasceram as primeiras verduras do meu. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio. carta e sermões. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos.. 21 . os que o condenam chamam-lhe escuro. é negro. Quando este estilo florescia. e clássico pela expressão clara e singela. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda. um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum.

Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista. e com esmero. em 1654. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus. vícios e enganos. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus.” 22 .. não perdoarão a estado. Bahia. por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. a sexo nem idade”. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem. em 1640. • Sermão de Santo Antônio.) Ora. esse sermão resume a arte de pregar. ou por parte do pregador.. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. a poesia religiosa e a lírica. Peroração — a parte final do sermão. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges. também chamado de Sermão dos peixes. pregado em São Luis do Maranhão. do pregador e do ouvinte. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis. ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas. Vieira incita o povo a combater os holandeses. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -. No intróito. Gregório também praticou. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. Polêmico. “Eu sou aquele.

É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana. social e religioso. mas sua existência foi um rosário de culpas. solta. presunçosa. Condenou acerradamente a vaidade humana. mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. o administrador português. bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé. garbosa. no melhor estilo petrarquiano. publicou seis volumes. Airosa: elegante. destemida. 1923 e 1933. E.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. Desatada: desprendida. IV e V Poesia satírica. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. presunção. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. EL-Rei. quando a Academia Brasileira de Letras. II Poesia lírica. sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. Púrpura: a cor vermelha. numa postura moralista. Presumida: vaidosa. Sua obra permaneceu inédita até o século XX. VI Últimas. era a própria personificação do Pecado”. Lisonjeada: que recebeu lisonja. transparece certo idealismo renascentista. Soberba: orgulho excessivo. os costumes da sociedade baiana do século XVII. o clero e. que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. por 23 . o meio envolvente. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. assim distribuídos: l Poesia sacra. segue um resumido vocabulário. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. arrogância. Aqui. realmente. III Poesia graciosa. isto é. Na poesia lírica e na religiosa. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. empregada no sentido de a galeota solta. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). agrado ou elogio em excesso. como toda a massa devota de sua época.

isto é. na ordem direita ficariam. nesta vida. Galhardia: elegância. Observe que Galhardia é complemento de apresta.. Empavesada: enfeitada.inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade. garbo." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional. gosta de receber ânimo. orgulhosa.mares de soberba. em particular )“ metaforicamente”. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. por meio de metáfora. Nau: navio. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. Galeota: embarcação a remo. Presunção: juízo baseado nas aparências. adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade.o próprio título do poema longos. alentos é complemento da forma verbal preza. vaidade... de símiles. nesta vida Rosa. Alentos preza : como no caso anterior.. galé.. 24 . ainda. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato . Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. a vaidade é Rosa. galeão." Os versos acima. com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora . Fábio. assim: "Fábio. de pequeno porte. podemos entender como “preza. orgulho. Ufama: vaidosa. e explicativo. É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota.

semeados. Realça-se. “Disseminação e recolha” Finalmente. como no caso de “púrpura mil”. isto é. isto é. uma contrariedade. a recolha. a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema. ao final. fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos). as penas do pescoço douradas. lançar uma adversidade. assim. plante. A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). espalhados. de longo uso desde Camões. plantados ao longo do poema (como é caso rosa.o exagero. o conflito presente no texto. 25 . provocando um forte impacto. púrpuras mil arrasta presumida. realizar-se.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. esses conceitos e ou palavras são disseminados. Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia.o emprego de ferro por machado. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para. Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente. neste caso. nau no soneto apresentado) para. Metonímia . a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes. Era o único pássaro na sua espécie.” • • Hipérbole . que. ao final. no caso do soneto analisado.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

26

deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

27

caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

28

A respeito do episódio. E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. em Romanceiro da Inconfidência. E os seus tristes inventores Já são réus. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 . de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos. amor. a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa. Liberdade. pastoril.” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético.pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. bucólica. “Atrás de portas fechadas.” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles.abusos da nobreza e do clero (Ilustração). Ë a procura do locus amoenus. à luz de velas acesas. extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente. entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência. liberdade. Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo.

a poesia bucólica. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. Essa obra. o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra. Quanto ao aspecto formal. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. o namoro. Nela. Havia. a mulher amada. a felicidade do amante. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. discorre sobre a iniciação amorosa. a simplicidade. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. Antes da cadeia. por meio de palavras. foi publicada em três partes nos anos de 1792. a melhor pastora destes montes. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado. que aí vês. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. as musas: “Parece. pastoril. os sonhos de uma família. a natureza e Manha. os versos decassílabos. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. lá estavam seus interesses econômicos. No entanto. os meus montados São esse. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris.” Ou ainda sofrimento amoroso. uma posição política e ideológica. que é o assunto da porfia Nise. a rima optativa e a tradição da poesia épica. tendo como divisor de águas a prisão do poeta. a defesa da tradição e da propriedade. temos o soneto.natureza. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. que estes prados. e estas fontes Já sabem. 1799 e 1812.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. o fingimento poético e o uso de pseudônimos. não te nego. sempre 30 . vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados. burgueses que eram. pastorial. portanto.

Luiz da Cunha Meneses. residente em Madri. portanto. um político sem moral. Depois. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. Como bem lembra o critico Antônio Cândido. Tomás Antônio Gonzaga. São poemas satíricos. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. o Fanfarrão Minésio ( na verdade. e o burguês Dr. assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. Critilo. raciocina. ora a sua condição de burguês.. de Rodrigues Lapa. na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala.” É patente a oposição entre Dirceu. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo. ora assumindo a postura de pastor. juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado.. escritos em linguagem bastante agressiva. 31 . quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa.numa postura patriarcalista. E decidir os pleitos. despótico e narcisista. governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). Ver-me-ás folhear os grandes livros. que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores. Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. principalmente. As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga. vivendo os sofrimentos da prisão. narra os desmandos do governo chileno. Nessas cartas. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída.

Era Moema. narração e epílogo.. o poema é composto de 10 cantos. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. E ignorado a ocasião da estranha empresa.. assombradas. vítima de um naufrágio no litoral baiano. versos decassílabos.) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). por cruel que brame. Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia. após definir-se por Paraguaçu. com quem Diogo se casa e vai a Paris. Diogo Álvarez. como Camões em Os Lusíadas. Não vinha menos bela.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo. do que irada. Uma que às mais precede em gentileza. que nada. Gupeva e Sergipe. o Canamuru. Várias índias nadam atrás do navio. mas apenas de um conservadonismo cristão. Porém o tigre. dedicatória.Santa Rita Durão Caramuru . já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. Paraguaçu. oitava rima camoniana. por outro lado. Santa Rita não utiliza da mitologia pagã. no geral. que de inveja geme. mas uma se destaca: Moema. Caramuru (Trechos do Canto VI. constando de proposição. Quando à forma. Santa Rita paga um tributo ao século XVIII. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. E já vizinha à nau se apega ao leme. embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. (. incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. onde é narrado a morte de Moema. 32 . Pasma da turba feminil..

.) Perde o lume dos olhos. tens coração de ver-me aflita...’ E indo a dizer o mais. com que aos meus respondas Bárbaro.Acha forças no amor. Ah! Que conosco és tu. entre estas ondas A um ai somente. que. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas.. que enfim o domem. freme. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas. Pálida a cor. Entre as salsas escumas desde ao fundo. que o ar consomem.. cai num desmaio.. por mais que eu te ame.. Mas na onda do mar. Flutuar. soltando o leme. penhosa!! Enfim. com suas restrições mentais”. se esta fé teu peito irrita. sorveu-se na água. seus antigos mestres. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema.. .Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. raios.. moribunda. Tornando a aparecer desde o profundo. (. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio.E sem mais cista ser.. raio. Só ti não domou. “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). pasma e treme. Fúrias.. conosco. irado. Nem o passado amor teu peito incita (Disse. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”. 33 .

Que toca o peito de Lindóia. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro. e lhe passeia. e cinge Pescoço e braço. e apresse no fugir a morte. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. a encontra adormecida. “cansada de viver”. e lhe lambe o seio. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. A índia. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses. O Uruguai (trecho do canto IV. Fogem de a ver assim. seu irmão. enquanto a de Sacramento. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. e irrite o monstro. auxiliadas pelos espanhóis. instigados pelos jesuítas. Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). Porém o destro Caititu. E fuja. “ entrara no jardim triste e chorando”. contra os índios dos Sete Povos das Missões. e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. e temem Que desperte assustada. 34 . em terras uruguaias. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. e fere A serpente na testa.O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. além de quebrar a estrutura camoniana. enrolada em seu corpo. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor. onde é narrada a morte de Lindóia. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. A partir de um tema não adequado ao gênero épico. sobressaltados. seria concedida aos espanhóis. e quis três vezes Soltar o tiro. Basilio da Gama consegui. que treme Do perigo da irmã. E nem se atrevem a chamá-la. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. E param cheios de temor ao longe.. Caititu. e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste. angustiada com a morte da Cacambo.. uma serpente venenosa.) . portanto. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta.

Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. Cheios de morte. Os. com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno. está intimamente ligado a todo o processo de independência política. Que os corações mais duros enternece. que ao despertá-la Conhece. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3. Os olhos Caititu não sofre o pranto. um dia. o sentimentalismo. e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. olhos em que Amor reinava.O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional. D. sem se mencionar 35 . E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo. o subjetivismo. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. E rompe em profundíssimos suspiros. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. O nacionalismo. Em 1822. A partir desse momento. a imagem do português conquistador deveria ser varrida. acompanhando as nações independentes da Europa e da América.

” As características do início do Romantismo são... E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. e tudo se faz por ela. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. liberdade. crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. ou seja. o Brasil vive um período conturbado. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. todas as criações necessárias em uma nova Nação. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais. a Colônia caminhava rumo à independência. Portanto. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo. Independência. ou em seu nome. Em 1808. que atraem a atenção de todos. No começo do século atual. pois. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga. o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades. que coincidem com surgimento da burguesia). a Confederação do Equador. como reflexo do autoritarismo de D.) O advento do romantismo. só tem uma explicação clara e profunda. reformas políticas. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. pois. uma idéia até então desconhecida. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. a Constituição outorgada. é a idéia da pátria. Inicialmente.’ No Brasil. carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . a abdicação. são como sinônimos. em alguns casos. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil. e os únicos que ao povo interessam. financeiras e econômicas. a exaltação da natureza pátria. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 . com a chegada da corte. Após 1822. tais são os objetivos que ocupam as inteligências. finalmente. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel. a busca pelo passado histórico. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. ela domina tudo. novo aspecto apresenta a sua literatura. na realidade. De 1823 a 1831. instituições sociais.sua carga ideológica. como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico.

Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário. ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. o que leva a uma nova linguagem na literatura. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. porém. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 . devem se harmonizar. Quanto à forma. com isso. que valoriza o folclórico e o nacional . meditando sobre a sorte dos impérios.” De fato. ora no cimo dos Alpes. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. Surge o romance. representado pelas mulheres e pelos estudantes. o que não havia acontecido nos períodos anteriores.” Realmente. voltando-se para a imaginação e para os sentimentos. no Brasil. a literatura torna-se mais popular. para não destruir o acento da inspiração. Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. sobre as paixões dos homens. em principio. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. além de que. por assim dizer. exprimindo as idéias como elas se apresentaram.opõe-se uma arte de caráter popular. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett. na música. material das estrofes. a um grupo mais ou menos homogêneo. e transforma-se numa forma de auto. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. e o de Martins Pena. Quanto ao aspecto formal. a um público cuja autoridade. e os prodígios do Cristianismo.expressão que cria os seus próprios padrões. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço. A arte deixa. na arquitetura. agora. isto é. o público agora é amplo e anônimos. o teatro ganha novo impulso. forma mais acessível de expressão literária. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. a igualdade. na pintura. A arte romântica. nenhuma ordem seguimos. sobre o nada da vida. Poesia d’alma e do coração. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas. ora na gótica catedral. de 1836. reconhecia absolutamente. que jamais podem agradar. admirando a grandeza de Deus. em Portugal. ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. são bons exemplos). As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. a construção.

foge no tempo e no espaço. sem métrica e sem estrofação. do coletivo. que além de representar as glórias e tradições do passado. as constantes idealizações da sociedade . valentes e civilizados). na literatura brasileira.e normas estéticas do classicismo. publicação do Manifesto do Partido Comunista. do primado da emoção. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. da mulher. e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. da expressão subjetiva. a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. No fundo. O romântico. A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. caracterizam a poesia romântica. desenvolve-se uma literatura de caráter social. que. movimentos populares). que conduz à romântica. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. as “casas de aluguel prostíbulos). No entanto. Quanto ao conteúdo. assim. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. em Portugal. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. como o paganismo. o subjetivismo. não menos belos. 38 . do amor. no Brasil. enfim. A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. perde-se a consciência do todo. a saudade da infância. os românticos cultivavam o nacionalismo. admirando a grandeza de Deus. O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. essas fugas têm ida e volta. prevalecendo. ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. é o sentimentalismo. A literatura passa por grandes agitações. sem rima. a partir das transformações econômicas. do social. Evidentemente. com o culto do individualismo e do pessoalismo. o ópio. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. que manifestava na exaltação da natureza pátria. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica. e os prodígios do Cristianismo”. explodem na famosa Questão Coimbrã. e transição para o Realismo. e o verso branco. Outra característica marcante do Romantismo. como afirma Gonçalves de Magalhães. O verso livre. os heróis são os índios. Já no final do Romantismo na década de 1860. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool. o “acento da inspiração”.

objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza. Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento. a idéia com a paixão”. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. “Ainda uma vez adeus”. de onde surge a denominação geração indianista. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. a razão sempre perde terreno para o coração. “Se se morre de amor”. universal Impessoal. podemos dividir sua obra poética em: lírica. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. medieval e nacional. chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico. o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. individual Pessoal. Nelas. a volta ao passado histórico .

Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. extremamente. mas com um nacionalismo crítico e consciente. Da tribo pujante. Chico Buarque e Tom Jobim. da musicalidade e do ritmo. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. ele nunca se refere ao elemento humano. 40 . destacando a presença do homem e seus problemas. mas apenas aos elementos naturais. ouvi: Sou filho da selvas. ora idealiza a figura do índio. Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. entre outros) retomaram o tema. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. Ainda assim.e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. finalizando numa exaltação da natureza brasileira. Além de exaltarem a natureza. Guerreiro. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. dos costumes e da língua dos nativos. pois. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão. Nas selvas cresci. Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico. Carlos Drummond de Andrade. Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. à moda dos trovadores medievais. Que agora anda errante Por todo inconstante. Murilo Mendes. o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. É interessante notar que. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”. A respeito deles. dramática e épica. É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. se citasse o homem brasileiro. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. nesse poema. Guerreiros. descendo Da tribo tupi. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. Mário Quintana. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade.

mal — do — século -. verdadeira ilha Baratária de D. dócil. terra fantástica.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset. o verdadeiro. ouvi.. 41 . onde Sancho é rei (. Sou filho do Norte. Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. além do poema épico inacabado “Os timbiras”. ‘Marabá”. que tanto ironizava os outros como a si mesmo.o sarcasmo.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron. A morte foi presença constante. mulheres misteriosas. pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado. Suas poesias falam de morte e de amor. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo. Produção Literária da Segunda geração .. vultos que habitam seus sonhos adolescentes. de quem foi leitor assíduo e tradutor. seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância. Segunda geração . impregnado de imagem de donzelas ingênuas. o poeta satânico. “O canto do Piaga”. irreal.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”. dúvida.Guerreiro. nasci: Sou bravo. assumindo também a conotação de fuga. Empregada de egocentrismo. de outro. Meu canto de morte. filhas do céu. pessimismo. Junqueira Freire e Fagundes Varela. Ele próprio o dividiu em três partes. é também chamada de geração byroniana. mas nunca se materializam. corrosivo. “Leito de folhas verdes”. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. Casiano de Abreu. Quixote. Canção do tamoio”. e por Musset. sou forte.). a ironia e a autodestruição. este sempre idealizado. negativismo. de quem herdou as característica do spleen* . Vamos entrar num mundo novo. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. angelical. Guerreiro. abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário. desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo.

daí ser conhecida como. tem horizontes mais amplos. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes. poeta da última geração. estudante de Direito. Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária.A razão é simples. foi perfeitamente romântico na forma. assassinatos. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. antíteses e hipérboles. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. livro de contos fantásticos. bacanais. Pedro II. o abolicionismo.” Noite na taverna. a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. Castro Alves cultivou o egocentrismo). 42 . ora meigo e sentimental — ou seja. o sonho. E um livro em prosa. obra confusa. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século. Teve muitos amores. traições. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. os oprimidos. mas. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. em que seis estudantes. a escola literária que negaria o Romantismo. reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. rápida. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. a igualdade. amou e foi amado por várias mulheres. poeta. verdadeira medalha de duas faces. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social. entregando-se a alguns exagero nas metáforas. a mulher. geração hugoana. incestos. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. cantou a República. educado pela literatura de Victor Hugo. como um pintor febril e trêmulo”. no entanto. o próprio Álvares. mistérios e morte. Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico. Seu principal representante foi Castro Alves. Cantou o amor. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. anjo e demônio. que realizei à pressa. típicos do condoreirismo. bêbados. as lutas de classe. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. comparação grandiosas. a morte. mas também pela realidade que o rodeava.

como a lira ao vento.A poesia Lírica . Boa — noite. Maria! Eu vou — me embora.. terno. no plano 43 . é tarde. Que escala de suspiros. Mas não mo digas descobrindo o peito. E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos.. belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional... Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma. Boa-noite!. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate. convivemos com esse sensualismo adulto. Maria! Ë tarde..Mar de amor onde vagam meus desejos. encontramos o adolescente meigo. Das teclas de teu seio que harmonias. Não me apertes assim contra teu seio. o socialismo científico de Marx e Engels. a questão Coimbra em Portugal. individualizada em Eugênia Câmara.amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso. o positivismo de Augusto Comte.” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite. .. sensual. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico. A lua nas janelas bate em cheio. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias.. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto..

Romantismo: prosa 1 . ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica.interno. criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. Enfim. o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais. a decadência da Monarquia. agora transformado em corte. Respondendo às exigências do público leitor. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo. e mesmo de 44 . o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX. por vezes. palavras inglesas.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. aproxima-se da terceira geração. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. por suas preocupações sociais. e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor. todos em busca de ‘ entretenimento “. inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo. Algumas poucas obras fugiram desse esquema. e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. profissionais liberais e jovem estudantes. e o caso de Memórias de um sargento de milícias. pois uma “realidade” que lhe convém. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento. sua obra foi de uma constante pesquisa. a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. neologismos e um certo rebuscamento que beira. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil. a luta abolicionista. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. de Manuel Antônio de Almeida.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

45

As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

46

índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

47

momento e raça — esta. é de 1900. de Machado de Assis. e O Ateneu. refletindo. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. de Aluísio Azevedo. o primeiro romance realista de nossa literatura. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. o “não — eu”. A Academia Brasileira de Letras. os autores desse período são antimonárquicos. foi fundada em 1897. como se observa na leitura do romance como O mulato. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX . No século XIX. Casmurro. os autores realista são adeptos do determinismo. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele. considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. do socialismo e do evolucionalismo. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. São anticlericais. com o contemporâneo. eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893.o curso de nossas letras: O mulato. em 1922. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. do mesmo autor. Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna. e Memórias póstumas de Brás de Cubas. de Machado de Assis. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. é de 1904. com todas as suas variantes. Na realidade. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte. que é sempre um “amigo da casa”. Basta lembrar que O. O cortiço. de Raul Pompéia. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. a postura do positivismo. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações. em que são publicados Missal e Broquéis. formados pelo marido traído. o personalismo cede terreno ao universalismo. Ideologicamente. pela mulher adúltera e pelo amante. o Realismo só se preocupa com o presente. com o Parnasianismo. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. no que se refere à hereditariedade. ambos de Aluísio Azevedo. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. dessa forma. templo do Realismo. ambos de Cruz e Sousa. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. Esaú e Jacó. e na poesia. com os romances realistas e naturalistas. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. principalmente os naturalistas.

Casa de pensão. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). o grande vilão. como afirma Antônio Cândido. O romance realista é documental. vida. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança. nem Pombinha. tão ao gosto naturalista. Finalmente. há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. antes de usar a razão. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão. muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. “O romance é o nascimento. isto é. que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. em que se valoriza o coletivo. O Ateneu. o mesmo acontece com Bentinho. nem Rita Baiana. ora impressionistas. vive do capital. ou seja. retrato de uma época. O Cortiço. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz. passando a viver do capital. o caso de Raul Pompéia é muito particular. move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. mas sim o próprio cortiço. merece destaque o romance O maluco. paixão e morte de um cortiço”. não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. A constante repressão leva às taras patalógicas. Nesse particular. que enfatiza a natureza animal do homem. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. nem Bertozela. Esaú e . Por outro lado. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista.Jacó. Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro.beatas. mas quando a herança de Quincas Borba. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes. o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. Dom Casmurro. Sobre o romance O cortiço. esses romances. é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais. erroneamente tachados 49 . dos personagens centrais de Machado. de Aluísio Azevedo. Em conseqüência.

como o homossexualismo. são mais ousados.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras. Como outros que vieram depois. Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. e faço tais ou quais correções de ortografia. Machado foi romancista. em temas então proibidos. que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. datada de 1905. Agora mesmo. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista.” Observa-se.por alguns de pornográficos. portanto. e alguns contos e novelas de então. um trecho da “Advertência da nova edição”. que não alteram a feição do livro. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas. em nenhum caso. diverso do que o tempo me foi depois. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento. lhes tiraria a feição passada. naquele ano de 1876. contista e poeta. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. eco de mocidade e fé ingênua. crônicas e correspondência. não lhe altero a composição nem o estilo. cada obra pertence ao seu tempo. Este foi o meu primeiro romance. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. quanto feminino. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. portanto. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco. apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. inclusive. pertencente à primeira fase da minha vida literária. como em O Ateneu. sendo. É claro que. em O cortiço. além disso. Dado em nova edição. tanto masculino. 50 . este me era particularmente prezado. chamada de fase realista ou de maturidade. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. apenas troco dois ou três vocábulos. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. Dos que então fiz. Aqui. ouço um eco remoto ao reler estas. escrito aí vão muitos anos.

o casamento por interesse. Rubião morre pobre e louco. No aspecto formal. as frases curtas. o pessimismo. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião. o egoísmo.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida. também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor. 148. Quincas Borba. romance narrado em terceira pessoa. À primeira vista. a linguagem correta. 28. Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. e restaurar na velhice a adolescência ‘. o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas. mais nos interessa. Quincas Borba Quincas Borba. A análise psicológica dos personagens. laiá Garcia.. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. páginas realistas. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa. Esaú e Jacó. acreditando ser Napoleão. A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é. o negativismo.nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba. Dom Casmurro. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem.. 17.”. ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”. ou seja. Helena. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista. A mão e a luva. ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo. 19. as batatas. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O. A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. o romance parece girar em torno de um provável 51 . Casmurro é o personagem . clássica. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. 201. No auge da loucura. Apesar de romanesco. 121. na prática. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160.

Os contos Em linhas gerais. O primeiro conto realista de Machado trata-se. Entre santos. O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico. o Ateneu é o Colégio Abílio. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. Entretanto. o filho. de outubro de 1881 a março de 1882. seja de Escobar. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. pois elas se interpenetram e se 52 . abriria o volume intitulado Papéis avulsos. já adulto. Nesse mesmo ano. e Aristarco. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. Abílio César Borges. em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. desconfia que Ezequiel. publicando em folhetins. e que representa. ou seja. como o próprio subtítulo indica. entra no colégio com 11 anos de idade. o Dr. amigo do casal. Aristarco Argolo de Ramos. de uma novela: O alienista. é um livro de memórias. A igreja do diabo. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. no plano político — social. assim como Raul Pompéia. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. Entretanto. Raul Pompéia Raul Pompéia. é na realidade o Or. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. O personagem Sérgio. A causa secreta. Um apólogo. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. Missa do galo. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. a fronteira entre a loucura e a lucidez. a do governo.adultério: Bentinho é casado com Capitu. Visconde de Ramos. Sérgio. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato. O Ateneu — crônica de saudades. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida. a rigor. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. segundo Mário de Andrade. outra. essas leituras não devem ser feitas isoladamente. Barão de Macaúbas. do Norte. Sempre aparecem a preocupação psicológica. a ironia social e política. do Norte.

. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa. E duramente se marcavam distinções políticas.” Ainda assim. segundo a condição social da pessoa. segundo a categoria de recepção que queria dispensar.complementam. As simpatias verdadeiras eram raras. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. 53 . baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros.. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico. mas um comerciante: “(. pintando-o jeitosamente de novidade. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo.) Ateneu era o grande colégio da época. que não achava em suas contas escolares.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados. Saía indagando o motivo daquilo. “Coragem para a luta!”. disse-me meu pai. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades.. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo. O pai estava dois trimestres atrasados. Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. distinções financeiras. o interno a reflete”. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade.. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento. Ele tinha maneiras de todos os graus. Afamado por um sistema de nutrido reclame. o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”. O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(. os meninos sentem a necessidade de substitui-los... sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu. à porta do Ateneu. ele não é um pedagogo. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada. no entanto. Arrancados do contato e da proteção dos pais.

Vestia cetim preto justo sobre as formas. ali vem Ribas. O. uma vozinha de moça.” Mas adiante Sérgio afirma: “(. erigindo... pensam que o colégio é a melhor das vidas. Ema não faz apenas o papel de mãe.. Isto é uma multidão. olhando muito. pervertidos como meninos ao desamparo.. o sexo. esposa de Aristarco. Não sou criança. está vendo? Primeira voz no orfeão. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras. Quando.. o tronco sobre quadris amplos. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos. reluzente como pano molhado. é preciso força de cotovelos para romper. ingênuos. e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. é o Cândido. Não pode imaginar. Eis alguns trechos: “(. pupilas retintas. um conselho. nem idiota.. dar a frustração e a decepção quase edipianas. Aliás. a tendência. Esta aparição maravilhou-me. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. Viu aquele da frente. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível. se decepcionam.. fortes como a maternidade. se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame. mas vejo. e que seria também a cor do jambo. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista. formas alongadas por graciosa magreza. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos. lúcidas. E nela os meninos vêem a mãe.. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(. vivo só e vejo de longe. cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava. Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema. sem sangue. mas também a mulher.) chegou a senhora de diretor. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras.) Olhei furtivamente para a senhora. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem.. com aqueles modos de mulher. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza. com o acolhimento dos 54 . porém..Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe. de uma cor só. Olhe. faça-se homem.) Este que passou por nós. a “lei da selva”.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores... Adiantava-se por movimentos oscilados. festejando.. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. Os fracos perdem-se. Ema. pensava eu. olhos negros. é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos.. em segredo dos pais. Os rapazes tímidos. são dominados. faça-se forte aqui. provocando-me com surriadas. Mas o sexo é um instinto natural. pelo contrário: os meninos se frustram.

os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . a correção da linguagem. a efeminação mórbida das escolas. é a “vingança” de Raul Pompéia. que é o regime de internato.prescindir de protetores. e um valimento direto mais forte do que palavras. aplicada sob o jugo de regras rígidas. Eu desejei um protetor. como lhe dissera seu pai. entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”. Américo.. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos. naquele meio hostil e desconhecido. Voltam-se. complexado. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga.. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época. levado pela necessidade.. ecos e expressões arrebatadoras.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. sob a influência do século XVIII. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. 5. O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”). também.mais velhos. cultivando a forma para atingir a perfeição. 55 . hiatos. entre brejeiros e afetuosos. mas apreciam a rima consoante. homofonias. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu. destacando. Um mundo com regras e leis próprias: o normal. homossexual. meu amigo! Comece por não admitir protetores. à lógica e à sonoridade. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. acha aceitando as regras do microcosmo.” Para os meninos submetidos à “lei da selva”. A sintaxe. depois do Colégio Abílio. e aí percebem o mundo sórdido. alguém que me valesse. Os parnasianos evitam as aliterações. Cultuam a estética do Arcadismo.. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. Raul Pompéia. o grande mundo. o trabalho de Bocage. ao final do livro. no Ateneu é ser frustrado. a destruição daquele mundo e de seu criador. Aristarco. para Basílio da Gama. sobretudo. Sérgio. faça-se homem. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo. No entanto. degradante.) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo. estão perdidos. (. propiciadora de originalidade e imortalidade. provoca um incêndio. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto. não teriam consciência de seus problemas. como ele observara. prima pela devoção à clareza.

Théophile Gautier.privilegiando a rima paroxítona. entretanto. a riqueza de linguagem e a descrição 6. indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. sobressaindo-se a alegria. De fato. Entretanto. O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo. para a paisagem brasileira. suprimir o subjetivismo. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. postulado pelo poeta francês. Como poeta. Por isso. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. O social perde a força do início. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. A vida é cantada em toda sua glória. graças à ação do meio e das tradições poéticas. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. aos poucos. a exigência de precisão. estamos no realismo literário. sem. mas se orientam pelo determinismo. prevalecendo. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade. o conhecimento do mal. cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. símbolo do ideal de beleza. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. Sua obra apresenta uma evolução importante. ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia. o Parnasianismo inicial. tendendo à busca da simplicidade clássica. Dão ênfase às alternâncias graves. representando-a metonimicamente. Os dois outros volumes de poesias são póstumos.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . pessimismo e sensualidade. com freqüência. a sensualidade. vai se deslocando.

durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores. contrastando com o clima eufórico da burguesia.. Cubismo. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. sereno e breve.ismos Futurismo. a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. Está sempre presente a sublimação. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*. Ao lado disso. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve. véus de neve.A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900. caracterizada por duas situações antagônicas. a Europa suportava a herança do final do século XIX. Na comunhão das níveas hóstias frias. virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve. Ondulantes. 57 . favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade. representado pelo decadentismo simbolista.. mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano. Surrealismo -. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século. convencionou-se chamar vanguarda européia. Véus e grinaldas purificadores. por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores. responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30). só conseguida na sua totalidade através da morte. escritos entre 1909 e 1924. Dadaísmo. A essa multiplicidade de tendência. Quando seios pubentes* estremecem. Erra* nos pulcros*. em forma alvadias*. ou seja.(evidentes colocações pessoais).. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. os vários . De ignotos* e de prônubos* pudores... Assim. (Cruz e Sousa) 7 .. Expressionismo. Um luar de pudor. Silfos* de sonhos de volúpia crescem. que resultaria na 1 Guerra Mundial. Vão as Flores carnais. Luzes claras e augustas.

A palavra vanguarda deriva do francês avant ..” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa. da máquina. a partir de 1919. vão à frente da unidade. a insônia febril. propondo “a destruição da sintaxe. segundo. pelo ódio e pela velocidade!. dispondo os substantivos ao acaso. o hábito à energia e à temeridade. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem.” Em 1912. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro. a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini. não satisfeitos com o que então se produzia. as belas idéias que matam. o êxtase e o sono. e o menosprezo à mulher. o salto perigoso..” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados. A partir do início do século XX. porque ele está nutrido pelo fogo. estavam à frente do deu tempo. combater o moralismo. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 .. a total identificação entre o movimento e seu líder.garde. como nascem”. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. nós queremos exaltar o movimento agressivo. Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti. no campo das artes e das idéias. a bofetada e o soco. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944). durante uma campanha. o militarismo. passou a ser empregada para designar aqueles que. Assim. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna. O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909.. Ou seja.” "Nós queremos demolir os museus. a audácia e a revolta. termo militar que designa aqueles que. Nosso coração não tem a menor fadiga. o patriotismo. buscavam novas formas de expressão artística. o gesto destrutor dos anarquistas. pelo advérbio e pela pontuação. passou a definir artistas e intelectuais que. o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo. da eletricidade do automóvel.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti. tanto na linguagem como na composição. as bibliotecas. o passo ginástico.

Por sua característica. É o que se pode perceber. Por outro lado. com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro. Em 1917. Disse e repito-o. de Álvaro de Campos. de imagens nascidas em nosso mundo interior. dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura. Temendo uma identificação com o fascismo. além do poema “Ultimatum”. notadamente entre 1910 e 1920. expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. levando Oswald a saudar. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. de Munch. mas repudiavam seu posicionamento político. em novembro do mesmo ano. “ao contrário de outras vanguardas. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. 59 . Mário de Sá — Carneiro. assemelhava-se à caricatura. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo. uma caricatura. da materialização. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. ou seja. H. realizou-se “espetáculo futurista”. que continha texto de Almada Negreiro. portanto o movimento com o fascismo. na Alemanha. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. na pintura O grito. chamando-me de futurista. E. a figura de seu líder. Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. Gombrich assim comenta a obra de Munch. Cézanne e Gauguin. Raul Leal. numa tela ou numa folha de papel. em Lisboa.seguidores. Daí a importância da expressão. Oswald de Andrade. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. pelo contrário. Mário de Andrade vem a público negar.” Em Portugal. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. errou. em 1921. trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. Tenho pontos de contacto com o futurismo. aceitavam suas idéias artísticas. é um rosto distorcido. mais do que o movimento futurista. por exemplo. como por exemplo os futuristas. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. uma máscara. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. não relacionando . pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. Apollinaire e Blaise Cendrars.

O Dadaísmo Em 1916. jogados aparentemente de forma anárquica. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. na Suíça. cilindros. valorizando as formas geométricas (cones. as outras três têm feições que lembram máscaras africanas. esferas. e pelo menosprezo por verbos. etc. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. temos o famoso poema de Apollinaire. A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. na década de 20. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon. um grupo de refugiados em Zurique. em plena guerra. música. literatura. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura. Na literatura. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . No Brasil. segundo Picasso. cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. Ao lado.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. adjetivos e pontuação. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. de 1907. de frente. escultura). Como exemplo de texto cubista. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). da rima e da harmonia. no jornal Diário de São Paulo. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. onde nasceu o pintor). e a chamada poesia concreta da década de 60. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade. temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. Assim como na pintura. considerada a primeira obra cubista. a Pagu. preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. edição de 18 de maio de 1947.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. quando tudo fazia supor uma vitória alemã.

suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior. no prefácio a Paulicéia desvairada. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. como afirma um de seus iniciadores. A própria palavra dadá.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. quebrando as barreiras do significado. também éconta o manifesto. o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. A propósito. Foi essa idéia que fez os surrealista 61 .. ao acaso) para batizar o movimento. o presente e o futuro. o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra. Tristan Tzara (1896-1 963). da valorização do sonho. de loucura agressiva. por André Breton (1896-1970). Entretanto. Aliás. em sua História da arte: “(. Gombrich. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos.” Importante era criar palavras pela sonoridade. importante era o grito. daí ser contra as teorias. Varrer. limpar. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras. escolhida (segundo eles. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. Negando o passado.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. da liberação do inconsciente.Dadaismo. completa. as ordenações lógicas. os quais demonstram que. Como afirma EH. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos. das inconseqüências: A VIDA. não significa nada.” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. em busca do homem primitivo. pouco se importando com o leitor.. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada. a executar. ou seja. em 1924. como sou também contra os princípios. negativo. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”. uivos das dores crispadas. uivos das dores crispadas.

já promovem rupturas com o passado. com a eclosão da 1 Guerra Mundial. no Brasil. de Euclides da Cunha. Características Apesar de o Pré. ainda. que continuavam a produzir. de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo. não constitui uma “escola literária”. de fato. O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. 9 . com a realização da Semana de Arte Moderna. Na realidade. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso. Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . com a publicação de dois importantes livros — Os sertões. a influência de Freud é marcante. não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário.O Pré-Modernismo Historicamente. o sono e o sonho. medos. com propostas realmente inovadoras. abordaremos o período que se inicia em 1902. Assim. limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). não sendo ainda modernos. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). o mais extravagante dos surrealistas. No Brasil os. por apresentar individualidades muito fortes. Graça Aranha.Modernismo não constituir uma “escola literária”. traumas). De fato. frustrações.” Em Salvador Dali. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros.. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. Lima Barreto. desde os poetas parnasianos e simbolistas. Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta. há quem afirme que o século XX só se inicia. seguindo determinadas características. por exemplo. ou seja. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos. e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários.

Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. dos caboclos intenioranos. quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. por exemplo. com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. mais admirado é o escritor que a escreve. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada). A Linguagem de Augusto dos Anjos. por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). Os sertões. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino. o Brasil não — oficial do sertão nordestino. escarro. era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista). os funcionários públicos. o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. e Canãa. o “pai do determinismo” -. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). o subúrbio carioca com Lima Barreto. o Espírito Santo com Graça Aranha. 63 . Ligação com fatos políticos. o caipira. Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa. iniciado em 1922. há esse caráter inovador em determinadas obras. é o grande tema do Pré — Modernismo. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista. dos subúrbios. cientificista e naturalista. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira.- Ruptura com o passado. vermes). Cidade Mortas. vômito. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. os mulatos. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe.

pela primeira vez em nossas letras.” Este é um outro aspecto do livro . embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. quando estava na relação de O Estado de São Paulo. como se pode ver na apresentação da obra. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. Ao mesmo tempo. trata em sua obra da Campanha de Canudos. uma brilhante análise de tipos distintos. a gênese dos mestiços. como correspondente de guerra do jornal paulista. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos.” Para tanto. é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo. documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino. Nessa época. um crime. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. antes o olhar de futuros historiadores.trazendo à luz.. palidamente embora. O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia. para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República.. como - - 64 . os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano. Daí o caráter revolucionário de Os sertões. Afirma o autor: “(. na significação integral da palavra. Denunciemo-lo.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi. Só quando pisou o solo baiano. Em seus primeiros artigos sobre Canudos.

contrapõe o sertanejo. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. Isto foi o movimento modernista. de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. a uma Iracema. A transformação do mundo.o gaúcho e o jagunço. até perto de 1930. um forte. por conseguir sobreviver em condições tão adversas. Dessa forma. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens. Idealizada por um grupo de artistas. os progressos internos da técnica e da educação. “o sertanejo é. antes de tudo. Para compreendê-la melhor. o movimento modernista foi prenunciador. com a prática européia de novos ideais políticos. Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”. um forte”. Assim.” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito. a “sub-raça”. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. Sem dúvida. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime. a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu. em 30 de abril de 1942. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. justifica a luta. o jagunço.Juca Pirama”.” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico. na - 65 . a um tupi de “I . realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13. antes de tudo. a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais. Ao falar sobre o homem do sertão. bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. no Rio de Janeiro.15 e 17 de fevereiro de 1922. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. mas também como um movimento político e social.

a partir de 1922. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha. ou seja. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional. também tipicamente de classe média.. Nessa década.” De 1930 a 1945. Nelson Werneck Sodré. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. o movimento modernista vive uma segunda fase. embora lançado inúmeros processos e idéias novas.maior orgia intelectual que a história artística do pais registra.. ainda. assim definido por Mário de Andrade: “(. tem início uma primeira fase modernista. portanto. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. Constitui. Tais manifestações. que se estende de 1922 a 1930. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia.) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (... com a revolta militar do Forte de Copacabana. Porque. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições.) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. a economia mundial caminha para um colapso. a qual reflete as transformações por que passou o pais. Nele verificamos.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias.. como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira. inequivocamente de classe média. em 1929. Isto é. o seu sentido verdadeiramente específico. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira.” 66 . o Brasil passa por um momento realmente revolucionário. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. Não por mera coincidência. em 1922. a meu ver. a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas.

Por isso. inquieto. Oswald de Andrade. um nacionalismo ufanista. Mas quer representar a época de 1920 em diante. caminha para diante. identificado com as correntes políticas de extrema direita. Essa é a grande lei da novidade. ) Klaxon sabe que o progresso existe. utópico. Como se percebe já no final da década de 20. Por isso é polimorfo. Cassiano Ricardo. politicamente identificado com as esquerdas. a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas). Guilherme de Almeida e Plínio Salgado.” 67 . . sempre. de outro. sem renegar o passado.) Klaxon não é exclusivista. aconselhado por Pascal. visa o presente.. Klaxon não é futurista. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. Klaxon é Klaxista. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens. Antonio de Alcântara Machado. contraditório. (. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira. sempre. Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos. (. consciente.(. a pesquisa de fontes quinhentista. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. mas de ser atual.Ao mesmo tempo que se procura o moderno. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. ) Klaxon cogita principalmente de arte. destacam-se Mário de Andrade.. e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta.. além de Menotti deI Pichia. cômico. E. exagerado. irritante. um nacionalismo crítico. . As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe. ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. feliz. Klaxon não se preocupará de ser novo. invejado. o original e o polêmico.. insultado. Manuel Bandeira. onipresente. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago. de denúncias da realidade brasileira.

à tirania das sistematizaçôes ideológicas. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste. . a sua própria terra. e que. finalmente. lança o Manifesto 68 . através de quatro séculos.” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo. da própria determinação instintiva..• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo. a alma da nossa gente. através de todas as expressões históricas. com sede em Recife.. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. que.) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros. um órgão político. Entretanto. sem quebra de nossa originalidade nacional. inexplorado e misterioso. Estava criada a poesia “pau —brasil’. pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil. Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. entre outras coisas. afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. de que alguns já desconfiavam.o grupo ‘verdamarelo’. A volta à pátria confirmou. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. edição de 17 de maio de 1929.) Aceitamos todas as instituições conservadoras. cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo..) Somos. numa viagem a Paris. intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’. (. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu. Esse fato.” • A Revista “(.. no encantamento das descobertas manuelinas. deslumbrado. que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo.. A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração.. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. como o fez.

segundo os antropófagos). de março a agosto de 1929. Em 1945. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial. Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador. em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. Além de promover conferências. das explosões atômicas. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. a partir da década de 1930. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. no plano interno. ano do fim da guerra. na poesia. no romance. ‘homem”. Vale lembrar que. da derrubada de Getúlio. “que come”). publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. a João Cabral de Meio Neto. o universo temático se amplia. poru. abre-se um novo período na história literária do Brasil. Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. da criação da ONU e no plano nacional. José Lins do Rego. José Américo de Almeida. reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. congressos. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. vive-se depressão econômica. 69 . que criara a Escola da Anta. Em janeiro de 1928. com nomes que vão de Graciliano Ramos. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. A primeira contou com 10 números.Regionalista de 1926. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. econômico e culturais”. exposições de arte. Assim a par das pesquisas estéticas. o Centro editaria uma revista. no Estado Novo.

" Formalmente. de Drummond: "Stop. a Mário de Andrade. Lembramos. a propósito. declara: “Não. de Jorge de Lima. 70 . em verdadeira profissão de fé. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. repensando nossa história com muito humor e ironia. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. meu coração não é maior que o mundo. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase. seguiu a trilha aberta por Oswald.que animação! Um pic-nic com carabinas. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante. cultivando o verso livre e a poesia sintética. de compromissos. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). ALGUMA POESIA (1930). Murilo Mendes. mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”. de que é exemplo o poema “Cota zero”. como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos . fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo. que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período. os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior. com seu livro História do Brasil.Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana. É um tempo de definições.

vamos de mãos dadas. Por isso me dispo. Destelho as casas penduradas na terra. versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. não nos afastemos. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. caminha para uma poesia religiosa. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. 71 . sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. Por isso freqüento os jornais. Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão.E muito menor. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. nos movimentos. ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. Por isso me grito. Desloco as consciências. Por isso gosto tanto de me contar. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. nas almas. longe de significar derrotismo. nos sons. Nele não cabem as minhas dores. Não desprezo nada que tenha visto. Não nos afastemos muito. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos. Toco nas flores.

em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. Sua obra ganha em densidade. mais maduro. As metamorfoses. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. utilizando-se para isso da lógica. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja. o finito e o infinito. não posso amar ninguém porque sou o amor. uma vez que. Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 .” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. e ando nos quatros cantos da vida. Poesia liberdade. RacheI de Queiroz. de uma civilização decadente. Assim é que. na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”. Jorge Amado e Érico Veríssimo. escrito em parceria com Jorge de Lima.a rua estala com os meus passos. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. pronunciada em 1943. São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. de “restauração da poesia em Cristo”. tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. Graciliano Ramos. mística. Nada me fixa nos caminhos do mundo. o poeta não abandona a temática social. longe como o diabo. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. Surge dai a consciência do caos. de um mundo esfacelado. José Lins do Rego. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. o material e o espiritual. os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -. O visionário. tema constante em sua obra. glorifico o soldado vencido. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. Mundo enigma. Múltiplo. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos. encontramos autores como José Lins do Rego. Consolo o herói vagabundo. desarticulado. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro.

sua importância deve-se mais à temática (a seca.“Nós. O nosso romance tem um século. Nesses dois livros tentei fixar. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos. o poder político nas mãos de interventores. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. foi A bagaceira. em 1850. a fome. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. ou antes. não cabe culpa ao romancista.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”. o drama da economia cacaueira. decadência dos bangues e engenhos. o intenso movimento migratório. com imparcialidade e paixão. afirma Paulo Honório. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa. Ele tinha todo o oiro. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. “Em verdade este romance e o anterior. no Brasil. nos encontrar com o povo. que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. O segredo era chegar até o povo. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso. 73 . o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. Sem ele não haveria eternidade. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. Sem o povo não haveria eternidade. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus. acima de tudo. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. que andava perdido. os retirantes.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. de José Américo de Almeida. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. Hoje. O mestre Manuel Antônio de Almeida. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. queremos. a miséria. Terras do sem —fim. Levamos uns anos para chegar ao povo. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. toda a alma. podemos dizer. publicado em 1928. nos dera o roteiro.

e Conceição. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. que. vivida pela escritora em sua infância.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. sem dúvida O Quinze. Chegou tão alvo. me disse Tia Maria. apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. do velho coronel Zé Paulino. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. povoam o Santa Rosa o tio Juca. O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. destacam-se duas situações: primeira. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. em muitas passagens. Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. as secas são referências constantes em seus romances. mais político. foi publicado em 1937. cujo título refere-se à grande seca de 1915. a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca. sua terra. moça culta da capital. em decorrência da situação adversa. Isto 74 . e nem parece gente branca. Em todo o ciclo. o que resulta em uma narrativa dinâmica. moço mas rude. embora o primeiro superponha-se ao segundo. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. A partir de então. sua gente. a relação afetiva entre Vicente. Na narrativa. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. passando a valorizar a análise psicológica. esmagados pelas poderosas usinas. Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social. o cenário é o engenho Santa Rosa . como para Vicente. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. Além deles. é o próprio José Lins do Rego).

Veio. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras. Doidinho. Sucede. 75 . Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. no prefácio ao romance Usina. estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio. De manhã à noite. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. foram tão íntimos na infância. em 1943. Carlinhos foge. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Viveram tão juntos um do outro. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. Bangue. você não. no Pilar. solto como um bicho. Carlos de Meio. Pode ser que se pareçam. Os meninos de Emilia já estão acostumados. há mais de um mês que está de cama. espatifado. os Ricardos. Seu avô ontem me falou nisto. As febres estão dando por aí. não vá atrás destes moleques para toda parte.” O próprio José do Rego. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. O filho do seu Fausto. A história desses livros é bem simples: . e em seguida. porém. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. têm o mesmo destino. Entretanto. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina. Carlos de Meio havia crescido. se escraviza.” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. Você é um menino bonzinho.Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos. Uma grande melancolia os envolve de sombras. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. ponto máximo de sua obra. após o Menino de engenho. Depois de Moleque Ricardo veio Usina.faz mal. Ricardo e Santa Rosa se acabam. de pés no chão. com máquinas de fábrica. Pelo contrário. sofrido e fracassado. com ferramentas enormes. Além do ciclo da cana. os chamados ‘moleques de bagaceira’. José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto.

identificados como “o mais velho” e “o mais novo”. Nesse contexto violento. como no inicio de Vidas secas. outro nome próprio. Portanto. A provável fonte temática. Assim. morrera na areia do rio. onde haviam descansado. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie. nesses casos. é o final trágico e irreversível. bem como a oralidade da narrativa. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. decorrente de relacionamento impraticáveis. um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. ela atrapalha a caminhada da família.” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes. capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. Em seus romances. teria sido a literatura de cordel. dois humanos infantis sem nome. a cabeça os ossos do amigo. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho. nas palavras do próprio autor. Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo.) Os cegos cantadores. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. Em conseqüência. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome). ou ainda. contando com o papagaio. amados e ouvidos pelo povo. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente. O papagaio é sacrificado.” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. homem x meio social. devorado canibalisticamente.. Além disso. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural.. em nome da sobrevivência dos demais. misticismo e seca”. A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. a lei maior é a da selva. viventes. a morte é uma constante. tensão essa geradora de um conflito intenso. como afirma o próprio autor: “(. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço. Baleia jantara os pés. Coitado. presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. porque tinham o que dizer.como o misticismo e o cangaço. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 . tinham o que contar. e não guardava lembrança disto.

ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. o drama dos retirantes. quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. entretanto. pela cidade. no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. E o crítico conclui: “(. intenções. que constitui a unidade profunda dos seus livros. desejos e esforços. São Bernardo e Angústia). segundo uma visão distanciada da real idade. A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito. E dentro das estruturas vigentes. Dai Rolando Morei Pinto. Seus personagens são seres oprimidos. a caatinga.. segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. a cidade. atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. mas o que as circunstâncias impõem. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor. gestos. ele próprio. em seguida. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. estes últimos símbolo da 77 . e que tanto os personagens criados quanto. dentro da posição pessimista e negativista do autor. em brilhante tese sobre o autor. em que o autor se coloca como problema e como caso humano. Paulo Honório e Fabiano. b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem.à realidade. o qual.. principalmente. ao lado do retrato e da análise social.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. tudo se torna inútil. pelo sertão. afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere). são projeções deste impulso fundamental. na palavra inútil: “Parece que. moldados pelo meio — Luis da Silvam. )no ângulo da sua arte. o latifúndio.

Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. Do ponto de vista formal. como 78 . gritou-lhe o pai. depois sossegou. Ordinariamente andavam pouco. praguejando baixo. Fazia horas que procuravam uma sombra. Seus romances. Anda. a espingarda de pederneira no ombro. Fabiano sombrio. o Cavaleiro da Esperança. analisar toda uma sociedade. seja como escritor. Como isto não acontecesse. o aió a tiracolo. Arrastaram-se para lá. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Não obtendo resultado. cambaio. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. seja como homem público. através dos galhos pelados da caatinga rala. A folhagem dos juazeiros apareceu longe. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. Trabalha a narração com a mesma mestria. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. condenado do diabo. Em seus textos enxutos. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. O menino mais velho pôs-se a chorar. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. através deles. deito-se. estavam cansados e famintos. tanto em primeira como em terceira pessoa. a viagem progredira bem três léguas. sentou-se no chão. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. devagar. fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado. fechou os olhos. espiou os quatro cantos. Os juazeiros aproximaram-se. Acerca deste último aspecto. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão.ditadura Vargas. recuaram-se. zangado. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica.

iniciada com Jubiab áe Mar morto. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances. reaparecem em várias situações e em Vários momentos. Como exemplo maior. o cotidiano caótico. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado. se consolidaria com Gabriela. verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. a crise da sociedade moderna. passando por Música ao longo. é uma crônica de costumes). por exemplo. para Dona Flor e seus dois maridos. O país do Carnaval e Capitães de areia. estendendo-se às últimas produções do autor. com forte coloração social. há uma distância clara e evidente. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna. o autor tem sido acusado de ser redundante. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. ao passo que o último é mais lírico. esses 79 . Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre. Evidentemente. embora negada pelo autor em suas entrevistas. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. O primeiro é mais político. com destaque para Clarissa e Vasco. Entretanto. revolucionário. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. Seus personagens. Finalmente. c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. no entanto. De Seara vermelho. cravo e canela (que. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. tanto no plano individual como no plano social. apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. essa divisão encerra apenas uma finalidade didática. essa palavra é liberdade. como é o caso de Suor. tanto na abordagem psicológica como na social. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. Podemos notar. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. Cacau. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50.

outras. segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. Logo depois. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. excelente crítico literário. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. cujo primeiro número. em busca de uma literatura intimista. com as lutas do início da República. pertencem os romances O senhor embaixador. período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. introspectiva. encarrega-se da seleção. a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922. como destaque para Clarice Lispector. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. de sondagem psicológica. sem exceção. que chega até o governo Vargas.O Pós-Modernismo 1945. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. tem início a Guerra Fria. a Jorge Amado. afirma. 11. exílios. fim da Guerra Mundial. O retrato. Mais tarde. e 80 . Fim da ditadura de Getúlio Vargas. em termos de aceitação pública. um retrocesso.O arquipélago. tanto nos romances como nos contos. que enfoca as primeiras décadas do século XX. mais dedicada aos temas da atualidade. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. Na poesia. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam. narrativa mais contemporânea. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. e 1. À última fase da produção de Veríssimo. igualando-o.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. convocam-se eleições gerais. A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). início da redemocratização brasileira. A prosa. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo. Terra e Cambará. ilegalidades. lançado na primavera de 1947. que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. O tempo. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. 1945. O prisioneiro e Incidente em Antares. Logo depois.

podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. A gente lê. e ele nesse ponto era bem — assistido. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946.só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. Esse grupo. suas expressões. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista. a universalização do regional. a seguir. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. A princípio. por Lêdo Ivo. as palavras recriadas ganham força e significado novos. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. Geir Campos e Darcy Damasceno. que é bom ressoador’. e não apenas com uma admirável vocação acústica. e caminhou para 81 . Péricles Eugênio da Silva Ramos. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. é formado. na recriação das palavras. percebe-se uma revalorização da linguagem. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. mas sim nos neologismo. suas particularidades. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. chamado de Geração de 45. diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. entre outros poetas. as ironias. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. por exemplo. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. Com isso. negando a liberdade formal. A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. Entretanto.

Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. com muita tristeza. Devagar. Eh. um boi pintado. . trezentos ou três mil. vem na vara.. chifres no ar. das vacas e touros. cabisbaixo. Boi bem bravo. Vai. agora.. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante.. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros. cambada de filhos — da — mãe. E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas. vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata.. e as vagas de dorsos. volta. Cada coração um jeito De mostrar o seu amor.de — mundo!. e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos.. E. satisfeitos. mugindo no meio.. boi berrando. fasta vento. e que os cavalos gingam bovinamente. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”. estralos de guampas. dá direito. cada um tem sua cor. pela estrada...” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia..... vai varando. 82 . mal percebido.. soca soca. casco a casco. dá de duro.Tchou!... mexe lama. de chifres imensos. rola e trola. saudade dos campos. que chegou minha vez!. booôi!. na massa embolada. em que o autor narra a caminhada da boiada. vem.. e o berro queixoso do gado junqueira. estrondos e baques. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente. o ritmo e sonoridade de sua linguagem. mesmo prestes assim para surpresas más.” Pouco a pouco porém. dá de dentro. pronta de todo está ela ficando. sem — querer e imitativo. Que de trinta. bota baba.. -Tchou!.Ô gostosura de fim . escurecidas à fumaça dois tiros. bate baixo.. querência dos pastos de lá do sertão. vai não volta.cima de Nhô Augusto. ‘Um boi preto. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança. com atritos de couros. batendo com as caudas. com os cabras saltando e miando de maracajás. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas.

ser. O sertão está em toda a parte. Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. na obra de Guimarães Rosa. Por isso.A boiada vai.” (João Guimarães Rosa) O misticismo. melhor ainda. fim de rumo... o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão. assim explicava a autora seu ato de escrever. é questão de opiniões. pois” o sertão é o mundo “ou. as vazantes. culturas que vão de mata em mata. o aqui não é dito sertão? Ah. eles dizem. tudo dá — fazendões de fazendas. Esses gerais são sem tamanho. resultando dai o chamado romance introspectivo. para que ele não “forme forma”. demais do Urucúia. onde um pode torar dez. Deus e o diabo. isto é o sertão. terras altas. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade. como um navio. Toleima. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere. ora universal e infinito. até ainda virgens dessas lá há. pelo pavor. Enfim. O Urucúia vem dos montões oestes. almargem de vargem de bom render. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser. outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa. quinze léguas. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes. que na beira dele. e onde criminosos vive seu cristo — jesus. “o sertão é dentro da gente”.. O gerais corre em volta. madeiras de grossura. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. Para os de Corinto e do Curvelo. . Mas hoje. logo na abertura de Grande sertão: veredas. então. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro.” 83 . a pesquisa do ser humano. dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. de outra forma. entre o ser e o não . sem topar com casa de morador. em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer. pequeno e próximo. uma religiosidade quase medieval. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães. arredado do arrocho de autoridade. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. Assim o sertão de Rosa: ora particular. o” estar —no — mundo”. já notado.. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo.‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”.H.

suas tradições. em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. No nível temático. em A hora da estrela.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo. intimista. há que “sevilhizar” o mundo “. O melhor está nas entrelinhas. em alguns casos. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. explorando os limites do significado. trabalhando metáforas e aliterações. duelando com as palavras e os fatos. apresentadas a seguir. A Espanha e sua paisagens. O Nordeste com sua gente: os retirantes. Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos.” Essa literatura introspectiva. São objeto de verificação e análise os mocambos. a literatura de Paul Valéry. A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever. busca fixar-se na crise do próprio indivíduo. a herança medieval e os engenhos. onde me considero um sevilhano. solitário e inconseqüente. os cemitérios e o aparece. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. e o drama do narrador. Não há que civilizar o mundo. Pernambuco. ao mesmo tempo. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações. inclusive. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. rio Capibaribe. “exterior e explícita”. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. por mais de uma vez. pela tendência ao surrealismo. afirma o poeta. personificado. que 84 . mas sim nas entrelinhas. “Sou um regionalista também na Espanha. de modo muito particular. pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. o Recife. em sua consciência e inconsciência. Manifesta. Augusto dos Anjos. seu folclore. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. e sua cidade. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. No entanto. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. o drama de Macabéa . Cesário Verde.No plano da linguagem. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. seu estado natal. O melhor ainda não foi escrito.

Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. 85 .Graciliano Ramos e Drummond. ou seja. o próprio rio Capibaribe. o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. frágeis.” A partir de 1050. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado.o estrume do poema. no ar. calor de nossa boca. É o caso de O cão sem plumas. aprofundando assim a temática social. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. da brisa na água. extinta de flor. espécie Esperava as puras. o poeta repensa sua poesia: “Poesia. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. dos peixes de água. a própria arte poética. coou. da água de cântaro. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). Nada sabia da chuva azul. flor não de todo flor. Delicado. Sabia da lama como de uma mucosa. Suas intestinações. como as brisas. mas flor. transparentes florações nascidas do ar. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. da água do corpo de água. evitava seu caule. bolha aberta no maduro). da fonte cor — de — rosa. raros. seu ovário. (fezes como qualquer.

Entretanto. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano). a participação direta. rompendo com “ o vício retórico nacional”. pela primeira vez. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras. ganhou inúmeros prémios e aproximou. musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60. maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional.e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. o “poema — produto: objeto útil”. herdado. Entretanto. original.” O rio Capibaribe voltaria a ser tema.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. do século XIX. principalmente. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -. 86 . de poetas brasileiros. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. com a Exposição Nacional de Arte Concreta. quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação). também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari. realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo.Devia saber dos polvos. na sua criação. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto. as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal. Procurava-se assim.

” Apresentamos. seu material: a palavra (som. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo.) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural.) uma ordenação não — linear do poema.)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo.. na qual o branco da página. em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico.. documento — programa do movimento. Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal).. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. carga semântica). estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. economia e arquitetura funcional do verso”).segundo os concretistas. 87 . embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso. que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial.. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo. Dessa forma. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla.. forma visual. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor. a carga semântica. o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta. dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros. apenas dispersado (. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural.. assim explicam os irmãos Campos: “(. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla. o visual. • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas. Daí defenderem “(. Sobre isso. exigindo dele uma participação ativa. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta.

Leia-se. conta uma poesia de expressão. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. Ronaldo Azeredo. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. que. no entanto. o poema — produto: objeto útil. o texto “Crime 3”. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 . de Mauro Gama. Décio Pignatari. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. Edgar Braga e Pedro Xisto. Augusto de Campos. cujo sentido e dicção mudam”. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. por exemplo. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. realismo total.• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. conforme sua posição no texto. A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. como Manuel Bandeira. subjetiva e hedonística. Ferreira Gullar. no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras.

Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. por uma rígida censura e enraizada autocensura. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada. filiam-se ao grupo da poesia. neste capítulo. Poesia Na poesia. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral. como já denota sua “autobiografia”: 89 . Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. como veremos mais adiante.práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. Adélia Prado. Mantendo a tradição da poesia discursiva. Dessa forma. só amenizados a partir de meados da décadas de 80. a sonoridade das palavras. de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo. as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos. duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90.” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. Pelo contrário. Manoel de Barros é semente. Aliás. Produção contemporânea O que chamamos. O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal. ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996). Mário Quintana. quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país. flor e fruto do Pantanal mato-grossense. titulo muito adequado. que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. na caixa de som (colchão murcho coração). Ferreira Gullar e José Paulo Paes.cavo.

Márcio de Souza. etc. um abridor de amanhecer. talvez seja. Bernardo Élias. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. Roberto Drummond e Ana Miranda. uma de terminada visão de mundo.“Não sou biografável. Ainda na prosa. em suas obras. Antônio Callado. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo.. buscando uma nova forma de organizá-lo. Ou. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . No texto que abre o Livro sobre nada. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. tudo que use abandono por dento e por fora”. bichos. espantando da cara as moscas mais brilhantes). Nasci na beira do rio Cuiabá 2. pessoa apropriada para pedras. Alguns poetas passam. também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente. Prosa No romance. como afirma o editor Ênio Silveira. 3. (E que seja sem dor. foi Rubem Fonseca. Aguardo um recolhimento de conchas. o parafuso de veludo. nada. em algum banco de praça. Fazer coisas desúteis. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. etc. onde as verdades essenciais. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. Carlos Drummond de Andrade. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”. Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. Mas quem roubou a cena nos últimos anos.” Inúteis. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. Passei a vida fazendo coisas inúteis. Trabalhado com maior ou menor intensidade. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. 1. “guiados por ele. coisa. Manoel de Barros é um deles. José Montello e José Cândido de Carvalho. O nada mesmo. em uma fase de sua produção. Em três linhas. Por isso mesmo. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo.

Vencido quero ver-me e arrependido. que todo me há vencido. explorando técnicas modernas de narrativa. linha de frente de primeiríssimo time. Lígia Fagundes Telles. João António. Rubem Braga. Maldade.gênero na imprensa. em 1995. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. António Callado. o Stanislaw Ponte Preta. Arrependido estou de coração. meu Deus. Abraços. A salvação pretendo em tais braços. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. Tarefas Analise os textos a seguir. amor. Luís Vilela. Luis Fernando Veríssimo. Otto Lara Resende. Vaidade. Paulo Mendes Campos. Menção especial merece Sérgio Porto. coletânea de oito histórias que. Por outro lado.. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . o conto. tem servido de mestre a muitos cronistas. Nélida Piñon e Rubem Fonseca. ofendido vos tem minha maldade. Jesus. delinqüido vos tenho. com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. Luz. Este último lançou. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. hoje. Misericórdia. dai-me abraços. e ofendido. é bem verdade. entre outros. Arrependido a tanta enormidade. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. escritas na década de 60. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. citam-se Dalton Trevisan. Entre os contista mais significativo. Verdade é. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. Jesus! 91 . que me rendem vossa luz. que claro me mostra a salvação. meu Senhor. Lourenço Diaféria. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede.Gregório de Matos Ofendi-vos. que encaminha a vaidade. De coração vos busco. Domingos Pellegrini Jr. que hei delinqüido. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. Moacyr Scliar Rawet. que. analisado no conjunto das produções contemporâneas.

Aque alegre. que suave.Texto II Soneto . Que tais não encontro eu cá. à noite mais prazer encontro eu lá. a matutina Aurora O negro manto. Sem qu’inda aviste as palmeiras. Onde canta o Sabiá. sozinho. Nossa vida mais amores. Mais prazer encontro eu lá. sozinho. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. Nise. Minha terra tem palmeiras. Onde canta o Sabiá. Sufocando o sol a face pura. Onde canta o Sabiá. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. Minha terra tem palmeiras. Em cismar. Não sabe ainda que coisa é alegria. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. à noite. E a suavidade do prazer trocada. Em cismar. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia. que sonora. As aves que aqui gorjeiam. Minha terra tem primores. Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. Não gorgeiam como lá.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. Tanto mais aborrece a luz do dia. Nise Adorada. Nosso céu tem mais estrelas. com que a noite escura. Tinha escondido a chama brilhadora. Por te não poder ver. viria ao menos 92 . Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã.

Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar.. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho.. outro enlouquece. o capitão manda a manobra. o dolorido afã.. Presa nos elos de uma só cadeia. estalar de açoite...” 93 . Tinir de ferros. marinheiros! Fazei-os mais dançar!. mas nuas e espantadas. que de martírios embrutece. Outro. suspendendo às tetas Magras crianças..Fechar meus olhos minha triste irmã. Se o velho arqueja. o chicote estala.. se no chão resvala. No turbilhão de espectros arrastadas.. E após.. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica... Outras. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães. A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira. Cantando.. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória.. moças.. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote.. geme e ri! No entanto. E voam mais e mais.. Ouvem-se gritos. estridente.. fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar. Em sangue a se banhar. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco. Negras mulheres..

era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas. uma nota daquela música feita de gemidos de prazer. Soluçando nas trevas. ora repleta ora esvazada. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e. que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta. funéreo! Texto VIII 94 . era o veneno e era açúcar gostoso. um dia. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. piscando-lhe as artérias. Mas o lavor da taça admira. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas. trabalhada De divas mãos. ela era a cobra verde e traiçoeira. Mares. Toca-a. Já de aos deuses servir como cansada... estrelas. uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Da Dor no calabouço. a um novo deus servia. sonhando. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. que abre feridas com seu azeite de fogo. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda.. de áureos relevos.. entre as grades Do calabouço. tardes. Ó almas presas. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. maldições. Depois. às bordas Finas hás de lhe ouvir. a muriçoca doida.." – fragmento de O Cortiço. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. e.E ri-se a orquestra irónica. canora e doce. Ignota voz. ais. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. do ouvido aproximando-a. preces ressoam E ri-se Satanás!. que o atordoara nas matas brasileiras. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa. brilhante copa. estridente. Cárcere das Almas . natureza. Vinda do Olimpo. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. olhando imensidades. a lagarta viscosa. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional.. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos. atroz.

São Paulo: Scipione. 3ed. 1994 HELENA. Coimbra: Armenio Amado. A. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. & LOPES. Hernani. 1963 GOMES. São Paulo: Ática. 1980 CARPEAUX. História da literatura portuguesa. Oscar.Nesses silêncios solitários. graves. 2ed. Rio de Janeiro: Tecnoprint. Movimentos de vanguarda européia. Alfredo (org. O simbolismo.). Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. História concisa da literatura brasileira. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI. 3ed. Porto: Porto Ed. José de. Álvaro Cardoso. 1976. 9ed. 1998 SARAIVA. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. Otto Maria. São Paulo: Scipione. 95 . J. 1993 NICOLA. São Paulo: Cultrix. Lucia. 1968 CIDADE.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful