FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

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Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

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ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3. Linguagem automatizada 5. períodos que formam sentido. Conceitual 7. linguagem desautomatizada 5. denotativa Texto obra 1. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. opaca 6. plurissignificativo 4. conotativa 4 . literário 2. Cotidiano 2. Funcional 4. Técnico 3.texto = entrelaçamento de linhas. fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1. lança mão do discurso metafórico. orações. Transparente 6.

pelos interesses desse grupo. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. em última análise. Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. mas no seu sentido profundo. O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto. 5 .Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena. nas entrelinhas.

o conceito. metáfora 3.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas.= conjunto de idéias próprias de um grupo. 1. com o qual almeja provocar mudanças .Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1. constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão . para obter aquilo que se deseja. A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra. Denotação e conotação 2.uma parte perceptível. isto é. intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça. Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida.4 plurissignificação 2.1 valorização da forma 2. percebemos um conjunto de sons ( o significante). A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado. mas interdependentes. Por isto. metonímia 2. de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . que nos faz lembrar de um conceito (o significado). constituída de sons . um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 . valores . ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo.e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível. numa palavra que ouvimos.2 reflexão sobre o real 2.3 recriação da linguagem 2.distinção e características 2. Texto literário e texto não-literário .

Portanto. virtuais. Conotação é a significação subjetiva da palavra. de uma classe social para outra. seu sentido é objetivo. Por exemplo. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. subjetiva. que são apenas sugeridos. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. Ela designa ou denota determinado objeto. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. evocando outras idéias associadas. negativos ou positivos. explícito. naquele que lhe atribuem os dicionários. esposa. as palavras senhora. de uma época a outra. Desta maneira. literal. conotativos. é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. de ordem abstrata. reações psíquicas que um signo evoca. Denotação é a significação objetiva da palavra. valores afetivos e sociais. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos. mas têm conteúdos conotativos diversos. mulher denotam praticamente a mesma coisa. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . está ligada à ambigüidade. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. isto é.expressão. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. constante. referindo-se à realidade palpável.

que variam conforme a experiência. quando dizemos "As 8 . algum ponto em comum. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. uma espécie de emanação semântica." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". do autor ou leitor. em essência. assim. Conotação é. Othon M. instaurando-se a polissemia. A partir daí. Esse é. na verdade ele opera com regras pragmáticas. isto é. Em termos cognitivos. mas sim de regras conversacionais. quando apresentam traços semânticos comuns. um estado de espírito. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. Se entendida apenas no nível semântico. um juízo.A respeito de conotação. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade. Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua. possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. a sensibilidade. essencial para que se realize qualquer processo de mudança. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. de implicação. um sentimento. na concepção do falante. criada no trabalho mental de apreensão. pois metaforização é conotação". o temperamento. de intersecção. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. o traço característico do processo metafórico. de coexistência. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. de inclusão. de interdependência. Dessa maneira. portanto. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. Por exemplo. em relação à coisa designada. uma opinião. que exige variação e continuidade. pelo acréscimo de um segundo significado.

devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética. em geral. com predomínio da função poética da linguagem. tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade. as relações são mais restritas. porque as pessoas idosas possuem. estamos empregando cãs por velhice. cabelos brancos. Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio. envolvendo um processo de recriação dessa realidade. Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. com predomínio da função referencial da linguagem. É. e na interação entre os indivíduos. com predomínio de outras funções. plurissignificativa e de intenso dinamismo. não descansam as armas = . No texto não-literário.. não descansam os soldados. portanto.. que possibilita a criação de novas relações de sentido.cãs inspiram respeito". A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 .

a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. nos planos fônico. visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. de maneira indireta. Por isso. citamos Platão e Fiorin (1991). combinando-as de maneira inusitada. e por isso degradados ao nível da animalidade. 10 . prosódico. Refletindo a experiência cultural de um povo. ocorre a desautomatização da linguagem. morfossintático e semântico. nem temas inadequados a esse tipo de texto. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. revelando assim novas formas de ver o mundo. num país como o Brasil. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. 2. O literário possui um universo fictício. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. Não é o tema. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. que dizem: "Graciliano Ramos. reordenando-a. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário." 2. recriando o real num plano imaginário. Assim. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. ou de produzi-lo. A título de exemplo. ou seja.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. não há temas específicos de textos literários. as artes desempenham um papel muito importante. léxico. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. em VIDAS SECAS. relacionada ao processo de recriação do real. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. Assim.2. singular. onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece.

apreendese o essencial. seu soneto é um texto literário. não mais que de repente. poéticos e textos não-literários. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. substituir vocábulos por sinônimos. o poeta francês Paul Valéry diz que.2.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. literário. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 . a partir de suas respostas. podemos verificar que evidências da literariedade. num texto literário. Poderão surgir. perde-se o essencial. portanto. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. quando se resume um texto literário. De repente. Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. em todos os recursos que Meu povo. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. No poema de Ferreira Gullar. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. por exemplo. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. No Soneto da Separação. suprimir ou acrescentar vocábulos. textos líricos. Não podemos. sua intocabilidade. A esse respeito. quando se resume um texto não-literário. Podemos. pelo uso de recursos poéticos. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. resumir as idéias. Pelo trabalho com a linguagem.

"no povo meu poema".o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. 2. São alguns deles: 1. procura recriar a linguagem.No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto. utiliza recursos variados. ao explorar conteúdos. e. musicalidade 2. para essa recriação. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" ." Dois planos foram explorados -. "Ao povo seu poema. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro.5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. alogicidade 12 . poema/árvore. crescer." c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. antidiscursividade 3. o povo e o poema crescem como a árvore nova. terra fértil. o poeta é comparado a um plantador. desvio da norma culta 4. quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem.

No poema de Cruz e Souza. b) Rimas e aliterações .fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. A norma do discurso poético é a antinorma. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . límpido. musicalidade: obtida através do ritmo. muitas vezes. veludosas vozes.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. mais uma vez. vulcanizadas. vozes veladas. esgrime. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. vãs. das assonâncias. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. Seja em prosa. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. o uso poético da linguagem. da rima. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. vivas. Vozes veladas. Volúpias dos violões. na maioria das vezes. construção paratática 1. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. como nestes versos de Murilo Araújo.5. tímido. O trilo dos grilos. com o raiozinho dos astros. argentino. anáforas a) Ritmo . de aço fino. seja em verso. da violação das normas. das aliterações.

falta de consistência gramatical. A hipotaxe exige maior elaboração mental. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. mudam a classe gramatical. Nas construções hipotáticas. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens. violação da regência e da concordância. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas. a subordinação. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. Inversão da ordem natural das palavras. Que o espírito enlaça a dor vivente. há uma oração principal. 3. Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . hipérbato. estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. 2.

.........................e amou a vida.... Examinar cada estrofe.. separadamente.. Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema... 3........... E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento....é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas...................... Indicar a função da linguagem predominante no poema........ Roteiro: 1.......... o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro. 2.. identificando os fenômenos líricos predominantes. Se um suspiro no seio treme ainda..... que nunca Aos lábios me encostou a face linda! ....Em pálpebra demente. Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto.... 15 .... De ti.............. Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida. Só levo uma saudade ..... É pela virgem que sonhei.... apontando em que versos da estrofe são mais nítidos.. Se uma lágrima as pálpebras me inunda........... À sombra de uma cruz... e escrevam nela: Foi poeta .sonhou .... ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! ......

Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado. Dessa forma. diagrama ou metáfora do mundo interpretado. da personagem e do acontecimento. 2. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. A idéia de morte está presente em todo o poema. três padrões literários. No romance Dom Casmurro. o personagem e o acontecimento. conotativamente. Há. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular. criando uma realidade ficcional. estrutura o espaço. de Machado de Assis.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. O texto precisava ser entendido em seu sentido global. 7. Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. no nível do imaginário. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. segundo a semiótica literária. 5. de Aluísio Azevedo. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. verbais e não verbais. através da ficcionalidade do espaço. Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. analisando-lhe como imagem. por 16 . o texto como um todo significativo. usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais. 6. assim como os esquemas de construção textual. 8. convertido em discurso narrativo como prática semiótica. uma das partes da narrativa: 1. cada um deles. que privilegiam.4. da sua morte. Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. o processo literário.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço.

Os Sertões. sobre o mundo. – a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. por exemplo. estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. apontando o tipo de semiotização efetuado. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. 3. Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. de Euclides da Cunha. podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos. 2. que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa. ou seja. Tarefas: 1. que corresponde à emancipação política do Brasil.exemplo. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras.

seguiremos as orientações de Antonio Candido. Antes disso.Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 . que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início.Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 .Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira. não era Literatura DO Brasil. no Barroco. 1 . mas NO Brasil.O Barroco 1 . de fato.

é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. a antítese. O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ).” Além disso. estende-se à música. dilema que tanto 19 . No entanto. já a partir de 1724. o movimento academista ganha corpo. como a metáfora. o material e o espiritual. de Bento Teixeira. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista. No Brasil. Segundo outros. de Cláudio Manuel da Costa. a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. Botelho de Oliveira. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. Por essas razões. Em qualquer das hipóteses. na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole. Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. escultura e arquitetura da época. assimétrico. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. rebuscamento. a hipérbole e a alegoria. com sentimento nativista o primeiro manifesto. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. assimetria.inicio dos anos 1700. os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil. ou mesmo um terreno desigual. pintura. A origem da palavra barroco é controvertida. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. designaria um tipo de pérola de forma irregular. sobrecarregando a poesia de figuras. o pecado e o perdão. Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura. Além da literatura. O final do Barroco só se concretizará em 1768. o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. Ou.

Assiste cada parte em sua parte. E todo assiste em qualquer parte. Em todo o Sacramento está Deus todo. uma tendência sensualista. Mas se a parte o faz todo. Não se sabendo parte destes todo. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. racionalista. seguindo um raciocínio lógico. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras. extravagante. Aparte sem o todo não é parte. A arte assume. do qual deriva o termo Quevedismo. O braço de Jesus não seja parte. Nos diz as partes deste todo. A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. E feito em partes todo em toda a parte. culta. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. que utiliza uma retórica aprimorada. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas. de conceitos. sendo o todo. então.atormenta o homem de século XVII. sendo parte. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. Um braço que lhe acharam. (Gregório de Matos) 20 . Não se diga que é parte. sendo parte. Pois que feito Jesus em partes todos. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. Em qualquer parte fica o todo.

não me leias. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo.Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. e clássico pela expressão clara e singela. É possível que somos portugueses. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. Sermões São quase 200 sermões. é negro. Cartas São cerca de 500 cartas. 21 . os que o condenam chamam-lhe escuro. Em estilo barroco conceptista. Quando este estilo florescia.) Este desventurado estilo que hoje se usa. Constituem importantes documentos históricos. mas ainda lhe fazem muita honra. e negro boçal e muito cerrado. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos.. O estilo culto não é escuro. próprias dos jesuítas. (. portanto. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio.. e havemos de ouvir um pregador em português. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda. totalmente oposto ao Gongorismo. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. à moda cultista. carta e sermões. um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum. e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias. de apresentação. Profecias Constam de três obras: História do futuro. o melhor da a obra de Vieira. Vieira seria conceptista pelo processo mental. contrária. nasceram as primeiras verduras do meu. os que o querem honrar chamam-lhe culto. mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. pois tal fato estaria profetizado na Bahia.

falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges. Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. esse sermão resume a arte de pregar. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus.” 22 . “Eu sou aquele. por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista. Peroração — a parte final do sermão. No intróito. ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . em 1640. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. a sexo nem idade”. do pregador e do ouvinte.. vícios e enganos. pregado em São Luis do Maranhão. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem. Polêmico.) Ora.. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima. e com esmero. • Sermão de Santo Antônio. Bahia. Gregório também praticou. visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. a poesia religiosa e a lírica. também chamado de Sermão dos peixes. não perdoarão a estado. Vieira incita o povo a combater os holandeses. apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. ou por parte do pregador. em 1654. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus.

sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. VI Últimas. era a própria personificação do Pecado”. E. por 23 . solta. destemida. Lisonjeada: que recebeu lisonja. 1923 e 1933. no melhor estilo petrarquiano. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. realmente. presunçosa. assim distribuídos: l Poesia sacra. quando a Academia Brasileira de Letras. Airosa: elegante. o meio envolvente. os costumes da sociedade baiana do século XVII. que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. o administrador português. agrado ou elogio em excesso. isto é.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. Púrpura: a cor vermelha. Aqui. como toda a massa devota de sua época. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. social e religioso. III Poesia graciosa. EL-Rei. segue um resumido vocabulário. Sua obra permaneceu inédita até o século XX. publicou seis volumes. empregada no sentido de a galeota solta. A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. Na poesia lírica e na religiosa. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. transparece certo idealismo renascentista. Desatada: desprendida. numa postura moralista. mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. II Poesia lírica. garbosa. presunção. É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana. Soberba: orgulho excessivo. IV e V Poesia satírica. mas sua existência foi um rosário de culpas. o clero e. Presumida: vaidosa. Condenou acerradamente a vaidade humana. arrogância. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé.

inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato ... Alentos preza : como no caso anterior. com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora .. nesta vida Rosa. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. garbo. orgulho. Observe que Galhardia é complemento de apresta. Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. Galhardia: elegância.mares de soberba. galé. nesta vida. ainda. de pequeno porte." Os versos acima. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. galeão. de símiles. Presunção: juízo baseado nas aparências. em particular )“ metaforicamente”. Fábio. na ordem direita ficariam. orgulhosa. 24 . alentos é complemento da forma verbal preza. gosta de receber ânimo. vaidade.. É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota. a vaidade é Rosa. Empavesada: enfeitada. podemos entender como “preza. Nau: navio. adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade. Ufama: vaidosa. Galeota: embarcação a remo. isto é. e explicativo." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional. assim: "Fábio.. por meio de metáfora.o próprio título do poema longos.

” • • Hipérbole . esses conceitos e ou palavras são disseminados. Era o único pássaro na sua espécie. Realça-se. as penas do pescoço douradas. Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente. a recolha. espalhados.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada. de longo uso desde Camões. ao final. neste caso. isto é. provocando um forte impacto. Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia. ao final. A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos. assim. realizar-se. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. no caso do soneto analisado. fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. nau no soneto apresentado) para. semeados. plante. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. 25 .o exagero. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). Metonímia . lançar uma adversidade. plantados ao longo do poema (como é caso rosa. uma contrariedade.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto. a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes. o conflito presente no texto.o emprego de ferro por machado. “Disseminação e recolha” Finalmente. isto é. púrpuras mil arrasta presumida. como no caso de “púrpura mil”. que. a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos). a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

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deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

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caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

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a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. Ë a procura do locus amoenus.” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles. em Romanceiro da Inconfidência. amor. à luz de velas acesas.pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 . Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia. bucólica. de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa. “Atrás de portas fechadas. palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda. A respeito do episódio. E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa.abusos da nobreza e do clero (Ilustração). extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente. Liberdade. pastoril.” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético. E os seus tristes inventores Já são réus. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. liberdade. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência. reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo.

o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra. Quanto ao aspecto formal. vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados. os versos decassílabos. uma posição política e ideológica. No entanto. que aí vês. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. pastoril. a rima optativa e a tradição da poesia épica. a natureza e Manha. 1799 e 1812. temos o soneto. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. e estas fontes Já sabem. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. foi publicada em três partes nos anos de 1792. a felicidade do amante. o fingimento poético e o uso de pseudônimos. tendo como divisor de águas a prisão do poeta. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. que estes prados. a poesia bucólica. Essa obra. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. as musas: “Parece. lá estavam seus interesses econômicos. discorre sobre a iniciação amorosa. por meio de palavras. a melhor pastora destes montes. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. pastorial. Nela. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. burgueses que eram. Havia. Antes da cadeia.” Ou ainda sofrimento amoroso. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. os sonhos de uma família. que é o assunto da porfia Nise. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor.natureza. portanto. os meus montados São esse. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. o namoro. não te nego. a defesa da tradição e da propriedade. sempre 30 . a simplicidade. a mulher amada.

As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga. Depois. portanto. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores.numa postura patriarcalista. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa. o Fanfarrão Minésio ( na verdade. assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala. Luiz da Cunha Meneses. Ver-me-ás folhear os grandes livros. 31 . governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). residente em Madri. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. despótico e narcisista. um político sem moral.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente. Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição. e o burguês Dr. principalmente. Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga. de Rodrigues Lapa.. escritos em linguagem bastante agressiva. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. Critilo. A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo. narra os desmandos do governo chileno. Tomás Antônio Gonzaga. São poemas satíricos. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída. vivendo os sofrimentos da prisão.” É patente a oposição entre Dirceu.. raciocina. E decidir os pleitos. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. Como bem lembra o critico Antônio Cândido. que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado. ora a sua condição de burguês. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). Nessas cartas. juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. ora assumindo a postura de pastor.

constando de proposição. Caramuru (Trechos do Canto VI. assombradas. que de inveja geme. vítima de um naufrágio no litoral baiano. Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo. com quem Diogo se casa e vai a Paris. que nada. Diogo Álvarez. E já vizinha à nau se apega ao leme. E ignorado a ocasião da estranha empresa. narração e epílogo. o Canamuru. Era Moema. oitava rima camoniana. Gupeva e Sergipe. o poema é composto de 10 cantos. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma. Paraguaçu. por outro lado. Santa Rita não utiliza da mitologia pagã. mas apenas de um conservadonismo cristão. do que irada.. Não vinha menos bela.. Várias índias nadam atrás do navio. já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem. embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. onde é narrado a morte de Moema.. Quando à forma. incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. versos decassílabos. (. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). por cruel que brame. mas uma se destaca: Moema. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira. Porém o tigre. como Camões em Os Lusíadas. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. Uma que às mais precede em gentileza.Santa Rita Durão Caramuru .) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. Pasma da turba feminil. Santa Rita paga um tributo ao século XVIII. no geral. após definir-se por Paraguaçu. dedicatória. 32 .

. cai num desmaio.. com que aos meus respondas Bárbaro..... Tornando a aparecer desde o profundo. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas. sorveu-se na água. freme. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema. irado. Mas na onda do mar. Fúrias. moribunda.Acha forças no amor. com suas restrições mentais”.. penhosa!! Enfim.’ E indo a dizer o mais. Só ti não domou.) Perde o lume dos olhos. tens coração de ver-me aflita. que enfim o domem. . Ah! Que conosco és tu.E sem mais cista ser. pasma e treme. raio. que o ar consomem. por mais que eu te ame... “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). (. seus antigos mestres. que. Pálida a cor. entre estas ondas A um ai somente. raios.. se esta fé teu peito irrita. Nem o passado amor teu peito incita (Disse. soltando o leme. Entre as salsas escumas desde ao fundo. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas.. Flutuar.Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. conosco. 33 .

auxiliadas pelos espanhóis. angustiada com a morte da Cacambo. “ entrara no jardim triste e chorando”. e quis três vezes Soltar o tiro. Basilio da Gama consegui. enquanto a de Sacramento. e lhe lambe o seio. e apresse no fugir a morte. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. enrolada em seu corpo. a encontra adormecida. seu irmão. em terras uruguaias. e irrite o monstro. seria concedida aos espanhóis. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. e lhe passeia. onde é narrada a morte de Lindóia. e cinge Pescoço e braço.. Porém o destro Caititu. uma serpente venenosa. contra os índios dos Sete Povos das Missões.) . que treme Do perigo da irmã. Que toca o peito de Lindóia. e fere A serpente na testa. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta. portanto. sobressaltados. instigados pelos jesuítas. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética.O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco.. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro. “cansada de viver”. Fogem de a ver assim. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste. Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. E param cheios de temor ao longe. Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses. E nem se atrevem a chamá-la. A índia. 34 . A partir de um tema não adequado ao gênero épico. e temem Que desperte assustada. E fuja. além de quebrar a estrutura camoniana. O Uruguai (trecho do canto IV. Caititu. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor.

está intimamente ligado a todo o processo de independência política. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. Cheios de morte. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. O nacionalismo. olhos em que Amor reinava. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. acompanhando as nações independentes da Europa e da América. Os olhos Caititu não sofre o pranto. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. sem se mencionar 35 . e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. a imagem do português conquistador deveria ser varrida.O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. Que os corações mais duros enternece. o subjetivismo. que ao despertá-la Conhece. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo. um dia. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época. Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. Em 1822. o sentimentalismo. E rompe em profundíssimos suspiros. A partir desse momento. Os. com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno. D. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil.

na realidade. a abdicação. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. que coincidem com surgimento da burguesia). com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil. finalmente. ou seja. a Constituição outorgada. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo.. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel. ou em seu nome. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. pois. a busca pelo passado histórico. novo aspecto apresenta a sua literatura. em alguns casos. ela domina tudo. Em 1808.’ No Brasil. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. De 1823 a 1831.. Portanto. instituições sociais. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 . só tem uma explicação clara e profunda. uma idéia até então desconhecida. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. financeiras e econômicas. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte. com a chegada da corte.” As características do início do Romantismo são. a exaltação da natureza pátria.) O advento do romantismo. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades. o Brasil vive um período conturbado. como reflexo do autoritarismo de D. pois. Independência. tais são os objetivos que ocupam as inteligências. a Confederação do Equador. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. é a idéia da pátria. Após 1822. No começo do século atual. como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. a Colônia caminhava rumo à independência. reformas políticas. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . todas as criações necessárias em uma nova Nação.sua carga ideológica. são como sinônimos. Inicialmente. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo. e tudo se faz por ela. e os únicos que ao povo interessam. que atraem a atenção de todos. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico. liberdade.

Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. e transforma-se numa forma de auto. a literatura torna-se mais popular. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. Quanto à forma. reconhecia absolutamente. a um público cuja autoridade. forma mais acessível de expressão literária. que jamais podem agradar. e os prodígios do Cristianismo. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. para não destruir o acento da inspiração. em principio. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. meditando sobre a sorte dos impérios. por assim dizer. No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. nenhuma ordem seguimos. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço. sobre o nada da vida. a um grupo mais ou menos homogêneo. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 . porém. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. com isso. o que não havia acontecido nos períodos anteriores. Quanto ao aspecto formal.” De fato. na pintura. representado pelas mulheres e pelos estudantes. ora no cimo dos Alpes. devem se harmonizar. no Brasil. ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. sobre as paixões dos homens. na arquitetura.expressão que cria os seus próprios padrões. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. são bons exemplos). material das estrofes. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas. o teatro ganha novo impulso.” Realmente. e o de Martins Pena. agora. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. A arte deixa. exprimindo as idéias como elas se apresentaram. o que leva a uma nova linguagem na literatura. em Portugal. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. ora na gótica catedral. Surge o romance. a construção. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett. de 1836. que valoriza o folclórico e o nacional . na música. voltando-se para a imaginação e para os sentimentos.opõe-se uma arte de caráter popular. a igualdade. A arte romântica. além de que. isto é. o público agora é amplo e anônimos. ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas. admirando a grandeza de Deus. Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário. As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. Poesia d’alma e do coração.

A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. a partir das transformações econômicas. desenvolve-se uma literatura de caráter social. assim. admirando a grandeza de Deus. Quanto ao conteúdo. o “acento da inspiração”. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica.e normas estéticas do classicismo. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. Outra característica marcante do Romantismo. em Portugal. como afirma Gonçalves de Magalhães. o subjetivismo. não menos belos. caracterizam a poesia romântica. os românticos cultivavam o nacionalismo. a saudade da infância. publicação do Manifesto do Partido Comunista. movimentos populares). valentes e civilizados). como o paganismo. Evidentemente. e o verso branco. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. explodem na famosa Questão Coimbrã. Já no final do Romantismo na década de 1860. as constantes idealizações da sociedade . sem rima. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. que além de representar as glórias e tradições do passado. sem métrica e sem estrofação. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. O verso livre. prevalecendo. do primado da emoção. no Brasil. perde-se a consciência do todo. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. as “casas de aluguel prostíbulos). No entanto. do coletivo. e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. que conduz à romântica. os heróis são os índios. O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. da expressão subjetiva. o ópio. da mulher. O romântico. que manifestava na exaltação da natureza pátria. e transição para o Realismo. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo. foge no tempo e no espaço. a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. e os prodígios do Cristianismo”. do social. A literatura passa por grandes agitações. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. é o sentimentalismo. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. com o culto do individualismo e do pessoalismo. do amor. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. que. enfim. essas fugas têm ida e volta. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool. No fundo. 38 . na literatura brasileira.

o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. de onde surge a denominação geração indianista. “Ainda uma vez adeus”. “Se se morre de amor”. a razão sempre perde terreno para o coração. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. a volta ao passado histórico . medieval e nacional. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. podemos dividir sua obra poética em: lírica. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza. são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento. chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo. embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. universal Impessoal. a idéia com a paixão”. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. Nelas. individual Pessoal. principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia.

da musicalidade e do ritmo. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. Da tribo pujante. entre outros) retomaram o tema. Murilo Mendes. Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade. Mário Quintana. o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. Nas selvas cresci. Guerreiro. A respeito deles. 40 . Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. descendo Da tribo tupi. mas com um nacionalismo crítico e consciente. Além de exaltarem a natureza. pois. finalizando numa exaltação da natureza brasileira. nesse poema. dos costumes e da língua dos nativos. ora idealiza a figura do índio. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão.e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. Ainda assim. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. ele nunca se refere ao elemento humano. extremamente. Carlos Drummond de Andrade. dramática e épica. Guerreiros. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”. Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico. à moda dos trovadores medievais. Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. Que agora anda errante Por todo inconstante. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte. se citasse o homem brasileiro. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. É interessante notar que. destacando a presença do homem e seus problemas. Chico Buarque e Tom Jobim. mas apenas aos elementos naturais. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. ouvi: Sou filho da selvas.

Guerreiro. verdadeira ilha Baratária de D. onde Sancho é rei (. vultos que habitam seus sonhos adolescentes. Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. Sou filho do Norte. mulheres misteriosas. impregnado de imagem de donzelas ingênuas. corrosivo. ‘Marabá”. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. negativismo. seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância. Suas poesias falam de morte e de amor.. Ele próprio o dividiu em três partes. Produção Literária da Segunda geração . Meu canto de morte. o poeta satânico. é também chamada de geração byroniana. Vamos entrar num mundo novo.. e por Musset. irreal. pessimismo. de quem foi leitor assíduo e tradutor. de quem herdou as característica do spleen* . desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron. Empregada de egocentrismo. ouvi. este sempre idealizado. Guerreiro. pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado.). “O canto do Piaga”. dúvida. mas nunca se materializam. sou forte. Canção do tamoio”. que tanto ironizava os outros como a si mesmo. Quixote. além do poema épico inacabado “Os timbiras”. A morte foi presença constante. 41 . dócil. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. nasci: Sou bravo. Casiano de Abreu. de outro. a ironia e a autodestruição. “Leito de folhas verdes”. o verdadeiro. terra fantástica. filhas do céu. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. assumindo também a conotação de fuga. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo. angelical.o sarcasmo.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”. mal — do — século -. abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário. Segunda geração . Junqueira Freire e Fagundes Varela.

” Noite na taverna. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. Seu principal representante foi Castro Alves. foi perfeitamente romântico na forma. antíteses e hipérboles. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. E um livro em prosa. a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico. a mulher. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. o sonho. rápida. a escola literária que negaria o Romantismo. Castro Alves cultivou o egocentrismo). estudante de Direito. verdadeira medalha de duas faces. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. típicos do condoreirismo. o próprio Álvares. tem horizontes mais amplos. Pedro II. bêbados. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. amou e foi amado por várias mulheres. incestos. ora meigo e sentimental — ou seja. no entanto. Teve muitos amores. que realizei à pressa. mistérios e morte. o abolicionismo. anjo e demônio. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. daí ser conhecida como. comparação grandiosas. mas também pela realidade que o rodeava. como um pintor febril e trêmulo”. assassinatos. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes. geração hugoana. a morte. os oprimidos. a igualdade. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século. poeta. bacanais. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. traições. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social. Cantou o amor. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor.A razão é simples. Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. poeta da última geração. entregando-se a alguns exagero nas metáforas. 42 . Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária. cantou a República. livro de contos fantásticos. em que seis estudantes. reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. educado pela literatura de Victor Hugo. as lutas de classe. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. obra confusa. mas. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia.

..A poesia Lírica .. no plano 43 .amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso. o positivismo de Augusto Comte.Mar de amor onde vagam meus desejos. Não me apertes assim contra teu seio. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate. Das teclas de teu seio que harmonias. encontramos o adolescente meigo. convivemos com esse sensualismo adulto.. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias. a questão Coimbra em Portugal. terno. individualizada em Eugênia Câmara. Maria! Eu vou — me embora. o socialismo científico de Marx e Engels. Boa-noite!. E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma.” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite. como a lira ao vento. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico. . belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional.. sensual. Que escala de suspiros.. é tarde. Mas não mo digas descobrindo o peito... Maria! Ë tarde. Boa — noite. A lua nas janelas bate em cheio. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto.

profissionais liberais e jovem estudantes. agora transformado em corte. inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento.interno. criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. por vezes. pois uma “realidade” que lhe convém. Romantismo: prosa 1 . Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo. Enfim. sua obra foi de uma constante pesquisa. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo. neologismos e um certo rebuscamento que beira. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. Algumas poucas obras fugiram desse esquema.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor. o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais. palavras inglesas. a decadência da Monarquia. e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. e mesmo de 44 . todos em busca de ‘ entretenimento “. a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano. a luta abolicionista. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. de Manuel Antônio de Almeida. por suas preocupações sociais. aproxima-se da terceira geração. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX. e o caso de Memórias de um sargento de milícias. Respondendo às exigências do público leitor. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

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As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

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índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

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São anticlericais. de Machado de Assis. eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. e O Ateneu. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . o primeiro romance realista de nossa literatura. no que se refere à hereditariedade. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. com todas as suas variantes. momento e raça — esta. No século XIX. e na poesia. Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. O cortiço. principalmente os naturalistas. templo do Realismo. A Academia Brasileira de Letras. em 1922. do socialismo e do evolucionalismo. Casmurro. refletindo. o Realismo só se preocupa com o presente. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. dessa forma. do mesmo autor. a postura do positivismo. Basta lembrar que O. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. o personalismo cede terreno ao universalismo. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. com o contemporâneo. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele. de Machado de Assis. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. ambos de Aluísio Azevedo. como se observa na leitura do romance como O mulato. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna. que é sempre um “amigo da casa”. Esaú e Jacó. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. com o Parnasianismo. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. pela mulher adúltera e pelo amante. é de 1900. Na realidade. e Memórias póstumas de Brás de Cubas. Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte.o curso de nossas letras: O mulato. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. de Raul Pompéia. com os romances realistas e naturalistas. formados pelo marido traído. Ideologicamente. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX . de Aluísio Azevedo. considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. ambos de Cruz e Sousa. em que são publicados Missal e Broquéis. os autores realista são adeptos do determinismo. o “não — eu”. os autores desse período são antimonárquicos. mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. é de 1904. foi fundada em 1897.

tão ao gosto naturalista. ora impressionistas. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista. passando a viver do capital. mas sim o próprio cortiço. move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. que enfatiza a natureza animal do homem. erroneamente tachados 49 . há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. o mesmo acontece com Bentinho. Esaú e . o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. O Ateneu. isto é. antes de usar a razão. merece destaque o romance O maluco. em que se valoriza o coletivo. O Cortiço. Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. Por outro lado. “O romance é o nascimento. Dom Casmurro. nem Bertozela. Sobre o romance O cortiço. vive do capital. Finalmente. nem Pombinha. dos personagens centrais de Machado. Casa de pensão. como afirma Antônio Cândido. muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. retrato de uma época. ou seja. de Aluísio Azevedo. O romance realista é documental. o caso de Raul Pompéia é muito particular.Jacó.beatas. nem Rita Baiana. paixão e morte de um cortiço”. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais. esses romances. o grande vilão. Nesse particular. é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. vida. mas quando a herança de Quincas Borba. Em conseqüência. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz. A constante repressão leva às taras patalógicas.

apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. ouço um eco remoto ao reler estas. como o homossexualismo.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras.por alguns de pornográficos. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas. além disso. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco. que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. 50 . inclusive. um trecho da “Advertência da nova edição”. e faço tais ou quais correções de ortografia.” Observa-se. Este foi o meu primeiro romance. que não alteram a feição do livro. sendo. quanto feminino. como em O Ateneu. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. eco de mocidade e fé ingênua. apenas troco dois ou três vocábulos. Dado em nova edição. são mais ousados. em nenhum caso. portanto. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento. É claro que. datada de 1905. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. chamada de fase realista ou de maturidade. escrito aí vão muitos anos. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. portanto. crônicas e correspondência. lhes tiraria a feição passada. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista. em O cortiço. não lhe altero a composição nem o estilo. em temas então proibidos. e alguns contos e novelas de então. Agora mesmo. Dos que então fiz. naquele ano de 1876. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. Aqui. correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. este me era particularmente prezado. contista e poeta. Machado foi romancista. Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. tanto masculino. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. diverso do que o tempo me foi depois. Como outros que vieram depois. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. pertencente à primeira fase da minha vida literária. cada obra pertence ao seu tempo.

ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos. o egoísmo. o pessimismo. páginas realistas. na prática. A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem. 201.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa.”. Quincas Borba Quincas Borba. No aspecto formal. acreditando ser Napoleão. a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas.. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160. Casmurro é o personagem . 19. laiá Garcia. mais nos interessa. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O. 28. o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). romance narrado em terceira pessoa. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba. 17. A análise psicológica dos personagens. as frases curtas. as batatas. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião. 121. clássica. Rubião morre pobre e louco. Dom Casmurro. Esaú e Jacó. ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”. também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor. 148. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista.. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. e restaurar na velhice a adolescência ‘.nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é. Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. o negativismo. o casamento por interesse. À primeira vista. Helena. A mão e a luva. Apesar de romanesco. o romance parece girar em torno de um provável 51 . No auge da loucura. Quincas Borba. ou seja. a linguagem correta.

O Ateneu — crônica de saudades. ou seja. Aristarco Argolo de Ramos. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. do Norte. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. publicando em folhetins. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. A igreja do diabo. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico. Barão de Macaúbas. a fronteira entre a loucura e a lucidez. no plano político — social. Um apólogo. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. Raul Pompéia Raul Pompéia. amigo do casal. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. segundo Mário de Andrade. essas leituras não devem ser feitas isoladamente.adultério: Bentinho é casado com Capitu. de uma novela: O alienista. Entre santos. Missa do galo. outra. desconfia que Ezequiel. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. O personagem Sérgio. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. é um livro de memórias. Entretanto. e que representa. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. a rigor. abriria o volume intitulado Papéis avulsos. e Aristarco. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). como o próprio subtítulo indica. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. é na realidade o Or. O primeiro conto realista de Machado trata-se. de outubro de 1881 a março de 1882. Sempre aparecem a preocupação psicológica. do Norte. Os contos Em linhas gerais. A causa secreta. já adulto. o Ateneu é o Colégio Abílio. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. Sérgio. a ironia social e política. assim como Raul Pompéia. Abílio César Borges. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. o Dr. Entretanto. pois elas se interpenetram e se 52 . O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. o filho. entra no colégio com 11 anos de idade. a do governo. Nesse mesmo ano. Visconde de Ramos. seja de Escobar. em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida.

Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. mas um comerciante: “(.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados.” Ainda assim. As simpatias verdadeiras eram raras.. 53 . O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””. que não achava em suas contas escolares. Saía indagando o motivo daquilo. os meninos sentem a necessidade de substitui-los. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento.. segundo a condição social da pessoa. sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu. segundo a categoria de recepção que queria dispensar. à porta do Ateneu. Afamado por um sistema de nutrido reclame.. disse-me meu pai.. no entanto.complementam. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. O pai estava dois trimestres atrasados. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco. o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”. baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo. Arrancados do contato e da proteção dos pais. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo.. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade. E duramente se marcavam distinções políticas. Ele tinha maneiras de todos os graus.. o interno a reflete”.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(. pintando-o jeitosamente de novidade. distinções financeiras.) Ateneu era o grande colégio da época. ele não é um pedagogo. “Coragem para a luta!”.

lúcidas.. está vendo? Primeira voz no orfeão. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras. Eis alguns trechos: “(. Os fracos perdem-se. fortes como a maternidade. sem sangue.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores. a tendência.. provocando-me com surriadas. Esta aparição maravilhou-me. faça-se forte aqui. Quando. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(.. pervertidos como meninos ao desamparo. vivo só e vejo de longe. Viu aquele da frente. pensava eu... é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos. Não pode imaginar. Vestia cetim preto justo sobre as formas.. olhando muito.” Mas adiante Sérgio afirma: “(.. Olhe. erigindo. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras. pelo contrário: os meninos se frustram. a “lei da selva”. Ema. dar a frustração e a decepção quase edipianas.. o sexo. ali vem Ribas.Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos. são dominados. Isto é uma multidão. Os rapazes tímidos. Aliás.. porém. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza. é preciso força de cotovelos para romper.. e que seria também a cor do jambo. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos.) Olhei furtivamente para a senhora. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame. pensam que o colégio é a melhor das vidas. festejando.. e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. o tronco sobre quadris amplos. mas vejo. olhos negros. Não sou criança. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. uma vozinha de moça. Adiantava-se por movimentos oscilados. com aqueles modos de mulher.. formas alongadas por graciosa magreza. se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível. é o Cândido. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem. Mas o sexo é um instinto natural.. nem idiota. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac. em segredo dos pais. pupilas retintas. O. de uma cor só. E nela os meninos vêem a mãe. Ema não faz apenas o papel de mãe.) chegou a senhora de diretor. Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema. cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava.) Este que passou por nós. esposa de Aristarco. com o acolhimento dos 54 .. um conselho. reluzente como pano molhado. mas também a mulher.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. ingênuos. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. se decepcionam. faça-se homem.

O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”). degradante.. meu amigo! Comece por não admitir protetores. No entanto.) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo. estão perdidos. o trabalho de Bocage. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos.. Américo. acha aceitando as regras do microcosmo. Aristarco. complexado. como ele observara. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo. que é o regime de internato. prima pela devoção à clareza. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época. aplicada sob o jugo de regras rígidas. ecos e expressões arrebatadoras. a destruição daquele mundo e de seu criador. e aí percebem o mundo sórdido. não teriam consciência de seus problemas. também. no Ateneu é ser frustrado. como lhe dissera seu pai. para Basílio da Gama. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu. propiciadora de originalidade e imortalidade.” Para os meninos submetidos à “lei da selva”.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. Os parnasianos evitam as aliterações. sob a influência do século XVIII. Voltam-se. cultivando a forma para atingir a perfeição.prescindir de protetores. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . A sintaxe. (. homossexual.. à lógica e à sonoridade. sobretudo. ao final do livro. Um mundo com regras e leis próprias: o normal.mais velhos. alguém que me valesse. o grande mundo. a efeminação mórbida das escolas. entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. a correção da linguagem. Raul Pompéia. provoca um incêndio. hiatos. Cultuam a estética do Arcadismo. levado pela necessidade. mas apreciam a rima consoante. faça-se homem. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. Eu desejei um protetor. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto. e um valimento direto mais forte do que palavras. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. 55 . destacando. homofonias. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. naquele meio hostil e desconhecido.. 5. entre brejeiros e afetuosos. Sérgio. é a “vingança” de Raul Pompéia. depois do Colégio Abílio.

a exigência de precisão. a riqueza de linguagem e a descrição 6. pessimismo e sensualidade. Entretanto. para a paisagem brasileira. cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. o conhecimento do mal. a sensualidade.privilegiando a rima paroxítona. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade. entretanto. sem. Sua obra apresenta uma evolução importante. símbolo do ideal de beleza. sobressaindo-se a alegria. aos poucos. O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo. mas se orientam pelo determinismo. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante. O social perde a força do início. De fato. com freqüência. Por isso.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. o Parnasianismo inicial. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. postulado pelo poeta francês. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. A vida é cantada em toda sua glória. vai se deslocando. Théophile Gautier. Os dois outros volumes de poesias são póstumos. suprimir o subjetivismo. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. tendendo à busca da simplicidade clássica. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. graças à ação do meio e das tradições poéticas. estamos no realismo literário. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia. prevalecendo. Dão ênfase às alternâncias graves. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. Como poeta. representando-a metonimicamente.

contrastando com o clima eufórico da burguesia. virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve.. Luzes claras e augustas. escritos entre 1909 e 1924. a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. os vários . convencionou-se chamar vanguarda européia. Vão as Flores carnais.. ou seja. (Cruz e Sousa) 7 . A essa multiplicidade de tendência. durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores. véus de neve. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*. 57 . responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30). mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano. que resultaria na 1 Guerra Mundial.. a Europa suportava a herança do final do século XIX. Cubismo. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve. favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. De ignotos* e de prônubos* pudores. Surrealismo -. Está sempre presente a sublimação.ismos Futurismo. Assim. Quando seios pubentes* estremecem.. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século. Um luar de pudor. Silfos* de sonhos de volúpia crescem. só conseguida na sua totalidade através da morte.. representado pelo decadentismo simbolista. Ao lado disso. caracterizada por duas situações antagônicas. Dadaísmo..(evidentes colocações pessoais). por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores. Expressionismo. Ondulantes. Na comunhão das níveas hóstias frias. em forma alvadias*. Véus e grinaldas purificadores. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. sereno e breve.A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. Erra* nos pulcros*.

passou a ser empregada para designar aqueles que. propondo “a destruição da sintaxe. o patriotismo. e o menosprezo à mulher. estavam à frente do deu tempo. o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística. passou a definir artistas e intelectuais que. pelo ódio e pela velocidade!.A palavra vanguarda deriva do francês avant .. a bofetada e o soco. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. o salto perigoso. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro. a total identificação entre o movimento e seu líder. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 .. o hábito à energia e à temeridade. Assim. dispondo os substantivos ao acaso. a partir de 1919. nós queremos exaltar o movimento agressivo. tanto na linguagem como na composição. a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini. o militarismo. da máquina. pelo advérbio e pela pontuação. o êxtase e o sono. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. da eletricidade do automóvel. vão à frente da unidade. não satisfeitos com o que então se produzia. a insônia febril. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944). o passo ginástico. as belas idéias que matam.. o gesto destrutor dos anarquistas. buscavam novas formas de expressão artística. O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti.” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa.” Em 1912. as bibliotecas. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti.garde. durante uma campanha.” "Nós queremos demolir os museus. como nascem”. Nosso coração não tem a menor fadiga. no campo das artes e das idéias. A partir do início do século XX. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna. a audácia e a revolta. porque ele está nutrido pelo fogo. combater o moralismo. termo militar que designa aqueles que. Ou seja..” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados. segundo. Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles.

na pintura O grito. realizou-se “espetáculo futurista”. na Alemanha. Daí a importância da expressão. Mário de Sá — Carneiro. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. da materialização. mas repudiavam seu posicionamento político. Oswald de Andrade. notadamente entre 1910 e 1920. Apollinaire e Blaise Cendrars. Por sua característica. em Lisboa. que continha texto de Almada Negreiro. o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti).seguidores. não relacionando . expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. a figura de seu líder. de Álvaro de Campos. pelo contrário.” Em Portugal. “ao contrário de outras vanguardas. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. aceitavam suas idéias artísticas. Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. é um rosto distorcido. dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. E. 59 . em novembro do mesmo ano. H. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. uma caricatura. com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. numa tela ou numa folha de papel. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. Tenho pontos de contacto com o futurismo. É o que se pode perceber. Temendo uma identificação com o fascismo. mais do que o movimento futurista. em 1921. Por outro lado. Cézanne e Gauguin. uma máscara. pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. errou. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. por exemplo. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. como por exemplo os futuristas. portanto o movimento com o fascismo. Raul Leal. de imagens nascidas em nosso mundo interior. Em 1917. assemelhava-se à caricatura. Gombrich assim comenta a obra de Munch. chamando-me de futurista. ou seja. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. Disse e repito-o. além do poema “Ultimatum”. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. Mário de Andrade vem a público negar. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura. de Munch. levando Oswald a saudar. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro.

temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. considerada a primeira obra cubista. cilindros.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque. e a chamada poesia concreta da década de 60. Na literatura. segundo Picasso. em plena guerra. Assim como na pintura. no jornal Diário de São Paulo. Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. adjetivos e pontuação. jogados aparentemente de forma anárquica. literatura. cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. música. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. quando tudo fazia supor uma vitória alemã. um grupo de refugiados em Zurique. onde nasceu o pintor). na Suíça. A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. de frente. temos o famoso poema de Apollinaire. e pelo menosprezo por verbos. a Pagu. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon. esferas. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. de 1907.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade. escultura). Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura. etc. A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. No Brasil. na década de 20. O Dadaísmo Em 1916. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). da rima e da harmonia. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura. Como exemplo de texto cubista. valorizando as formas geométricas (cones. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. edição de 18 de maio de 1947. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). Ao lado. as outras três têm feições que lembram máscaras africanas. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos.

completa. Foi essa idéia que fez os surrealista 61 . as ordenações lógicas. Negando o passado. o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos. da valorização do sonho. ou seja. A própria palavra dadá. da liberação do inconsciente. Como afirma EH. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos. pouco se importando com o leitor. das inconseqüências: A VIDA. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos.. quebrando as barreiras do significado. ao acaso) para batizar o movimento. o presente e o futuro. limpar. os quais demonstram que. uivos das dores crispadas.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. de loucura agressiva. escolhida (segundo eles. no prefácio a Paulicéia desvairada.” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. a executar. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada. Tristan Tzara (1896-1 963). A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. em sua História da arte: “(. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos.” Importante era criar palavras pela sonoridade. importante era o grito.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. não significa nada. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo. Varrer. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. negativo. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. como afirma um de seus iniciadores. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”. Aliás. o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra. Gombrich. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras.. A propósito. daí ser contra as teorias.Dadaismo. suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara. Entretanto. em 1924. também éconta o manifesto. em busca do homem primitivo. como sou também contra os princípios. por André Breton (1896-1970). uivos das dores crispadas.

há quem afirme que o século XX só se inicia.Modernismo não constituir uma “escola literária”. por apresentar individualidades muito fortes. seguindo determinadas características. de fato. De fato. Assim. no Brasil. Na realidade. traumas). Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. o sono e o sonho.O Pré-Modernismo Historicamente. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso. Lima Barreto. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários. não sendo ainda modernos. ainda. de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . não constitui uma “escola literária”.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta. Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte. já promovem rupturas com o passado. com propostas realmente inovadoras. com a realização da Semana de Arte Moderna. de Euclides da Cunha. não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário. desde os poetas parnasianos e simbolistas. ou seja. 9 . essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. abordaremos o período que se inicia em 1902.. São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. a influência de Freud é marcante. Graça Aranha. Características Apesar de o Pré. limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos. frustrações. No Brasil os. medos. primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. que continuavam a produzir. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo.” Em Salvador Dali. por exemplo. o mais extravagante dos surrealistas. e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. com a eclosão da 1 Guerra Mundial. com a publicação de dois importantes livros — Os sertões.

Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. 63 . Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa. vermes). e Canãa. por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). escarro. mais admirado é o escritor que a escreve. era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. dos subúrbios. o caipira. o “pai do determinismo” -. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada). Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. o subúrbio carioca com Lima Barreto. iniciado em 1922. os mulatos. por exemplo. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). Cidade Mortas. é o grande tema do Pré — Modernismo. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista).- Ruptura com o passado. Os sertões. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira. Ligação com fatos políticos. há esse caráter inovador em determinadas obras. com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. o Brasil não — oficial do sertão nordestino. cientificista e naturalista. Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista. A Linguagem de Augusto dos Anjos. os funcionários públicos. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. o Espírito Santo com Graça Aranha. Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino. dos caboclos intenioranos. vômito. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe.

Daí o caráter revolucionário de Os sertões. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República. o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta. Só quando pisou o solo baiano. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. como - - 64 .trazendo à luz. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos. trata em sua obra da Campanha de Canudos.” Este é um outro aspecto do livro . Nessa época. na significação integral da palavra. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. pela primeira vez em nossas letras. documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino. Afirma o autor: “(. Denunciemo-lo. palidamente embora. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo. uma brilhante análise de tipos distintos.. embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região. Em seus primeiros artigos sobre Canudos. O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças.” Para tanto. Ao mesmo tempo. a gênese dos mestiços. como se pode ver na apresentação da obra. antes o olhar de futuros historiadores. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. E foi.. como correspondente de guerra do jornal paulista. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia. um crime. quando estava na relação de O Estado de São Paulo.

por conseguir sobreviver em condições tão adversas. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens. mas também como um movimento político e social. Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”. a uma Iracema. Assim. até perto de 1930. realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13. em 30 de abril de 1942. na - 65 . Ao falar sobre o homem do sertão. Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime.” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico. Isto foi o movimento modernista. um forte. bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais. os progressos internos da técnica e da educação. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. antes de tudo. a “sub-raça”. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. com a prática européia de novos ideais políticos. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é. a um tupi de “I .15 e 17 de fevereiro de 1922. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. antes de tudo. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. “o sertanejo é. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. o jagunço. de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. um forte”.” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. o movimento modernista foi prenunciador. Dessa forma. a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu.Juca Pirama”. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. Para compreendê-la melhor.o gaúcho e o jagunço. contrapõe o sertanejo. justifica a luta. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos. no Rio de Janeiro. A transformação do mundo. Idealizada por um grupo de artistas. Sem dúvida.

maior orgia intelectual que a história artística do pais registra. a economia mundial caminha para um colapso. inequivocamente de classe média. o seu sentido verdadeiramente específico. embora lançado inúmeros processos e idéias novas. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional. ou seja. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais. ainda.. tem início uma primeira fase modernista. como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira. a qual reflete as transformações por que passou o pais.. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. Não por mera coincidência. a partir de 1922. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia. Constitui. portanto.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias. o movimento modernista vive uma segunda fase. o Brasil passa por um momento realmente revolucionário. em 1929.. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. também tipicamente de classe média. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira..) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana.” 66 . em 1922. Tais manifestações. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas. a meu ver. que se estende de 1922 a 1930. Nelson Werneck Sodré. assim definido por Mário de Andrade: “(. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista. Porque.) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade. Nessa década. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é. Nele verificamos. Isto é. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque.. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (. com a revolta militar do Forte de Copacabana. a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética.” De 1930 a 1945. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo.

politicamente identificado com as esquerdas. mas de ser atual. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. contraditório. um nacionalismo crítico. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira. consciente. . Por isso é polimorfo. ) Klaxon cogita principalmente de arte. Essa é a grande lei da novidade. Guilherme de Almeida e Plínio Salgado.. o original e o polêmico. Klaxon é Klaxista. Cassiano Ricardo. As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe..) Klaxon não é exclusivista. e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta. (. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens. um nacionalismo ufanista. sem renegar o passado. cômico. invejado. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago.. ) Klaxon sabe que o progresso existe. utópico. Klaxon não é futurista.. Manuel Bandeira. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. onipresente. exagerado. E. insultado. feliz. destacam-se Mário de Andrade. irritante. identificado com as correntes políticas de extrema direita. Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos. além de Menotti deI Pichia. visa o presente. de outro. Klaxon não se preocupará de ser novo. aconselhado por Pascal. (.Ao mesmo tempo que se procura o moderno.(. Como se percebe já no final da década de 20. Antonio de Alcântara Machado. inquieto. ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. de denúncias da realidade brasileira. a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas).” 67 . a pesquisa de fontes quinhentista. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. sempre. . sempre. Por isso. Oswald de Andrade. caminha para diante. Mas quer representar a época de 1920 em diante.

(.. da própria determinação instintiva. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política. a sua própria terra.o grupo ‘verdamarelo’. deslumbrado.) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros.” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo.” • A Revista “(.) Somos. Esse fato. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. no encantamento das descobertas manuelinas.. finalmente. com sede em Recife. lança o Manifesto 68 . como o fez.) Aceitamos todas as instituições conservadoras. um órgão político. A volta à pátria confirmou. inexplorado e misterioso. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo. edição de 17 de maio de 1929.• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade. através de quatro séculos. A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. que. entre outras coisas. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. a alma da nossa gente.. sem quebra de nossa originalidade nacional. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste.. numa viagem a Paris... intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’. e que. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa. cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo. que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu. à tirania das sistematizaçôes ideológicas. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(. Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. de que alguns já desconfiavam. através de todas as expressões históricas. . pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil. afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. Estava criada a poesia “pau —brasil’. Entretanto.

da criação da ONU e no plano nacional. a João Cabral de Meio Neto. com nomes que vão de Graciliano Ramos. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. poru. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. econômico e culturais”. da derrubada de Getúlio. José Américo de Almeida. Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. congressos. “que come”). 69 . Em 1945. o Centro editaria uma revista. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. ‘homem”. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais. A primeira contou com 10 números. e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. ano do fim da guerra. Além de promover conferências. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”.Regionalista de 1926. segundo os antropófagos). José Lins do Rego. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. que criara a Escola da Anta. no plano interno. no romance. exposições de arte. Em janeiro de 1928. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. a partir da década de 1930. publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. no Estado Novo. o universo temático se amplia. O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. Vale lembrar que. em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. na poesia. Assim a par das pesquisas estéticas. abre-se um novo período na história literária do Brasil. das explosões atômicas. de março a agosto de 1929. vive-se depressão econômica.

" Formalmente. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. repensando nossa história com muito humor e ironia. os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior. de Drummond: "Stop. meu coração não é maior que o mundo. a propósito. É um tempo de definições. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase. de Jorge de Lima.Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana. com seu livro História do Brasil. em verdadeira profissão de fé. seguiu a trilha aberta por Oswald. que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo. Lembramos. mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”. de compromissos. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). cultivando o verso livre e a poesia sintética. como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos . 70 . de que é exemplo o poema “Cota zero”. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante.que animação! Um pic-nic com carabinas. declara: “Não. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. a Mário de Andrade. Murilo Mendes. ALGUMA POESIA (1930). é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e.

Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. Por isso me grito. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. não nos afastemos. nos movimentos. abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. nas almas. Por isso freqüento os jornais. Por isso me dispo. Por isso gosto tanto de me contar. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. Desloco as consciências. versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. Nele não cabem as minhas dores. Não desprezo nada que tenha visto. Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão.E muito menor. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. 71 . Destelho as casas penduradas na terra. Toco nas flores. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. caminha para uma poesia religiosa. ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. Não nos afastemos muito. longe de significar derrotismo. vamos de mãos dadas.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos. sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. nos sons. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -.

tema constante em sua obra. São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. Jorge Amado e Érico Veríssimo. Surge dai a consciência do caos. em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. e ando nos quatros cantos da vida. RacheI de Queiroz. Múltiplo. pronunciada em 1943. o finito e o infinito. glorifico o soldado vencido. escrito em parceria com Jorge de Lima. de “restauração da poesia em Cristo”. O visionário. o poeta não abandona a temática social. mais maduro. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro. Poesia liberdade. As metamorfoses. Sua obra ganha em densidade. Consolo o herói vagabundo. Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”. uma vez que. não posso amar ninguém porque sou o amor. Graciliano Ramos. utilizando-se para isso da lógica. Nada me fixa nos caminhos do mundo. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. desarticulado. longe como o diabo. encontramos autores como José Lins do Rego. da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. o material e o espiritual. mística.” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. José Lins do Rego. Mundo enigma. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. de uma civilização decadente. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. de um mundo esfacelado. Assim é que. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 . os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -.a rua estala com os meus passos. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja.

a miséria. sua importância deve-se mais à temática (a seca. afirma Paulo Honório. o intenso movimento migratório. queremos. acima de tudo. Terras do sem —fim. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso. ou antes. publicado em 1928. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus. “Em verdade este romance e o anterior.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. com imparcialidade e paixão. o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira. o poder político nas mãos de interventores. o drama da economia cacaueira. O segredo era chegar até o povo. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. toda a alma. que andava perdido. O nosso romance tem um século. que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. no Brasil. foi A bagaceira. Levamos uns anos para chegar ao povo. 73 . nos dera o roteiro. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”. decadência dos bangues e engenhos. espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. O mestre Manuel Antônio de Almeida. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza. de José Américo de Almeida. em 1850. está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. Nesses dois livros tentei fixar. os retirantes. a fome. Hoje. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. nos encontrar com o povo. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. podemos dizer. Sem ele não haveria eternidade. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. Ele tinha todo o oiro. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa.“Nós. Sem o povo não haveria eternidade. não cabe culpa ao romancista.

A partir de então. do velho coronel Zé Paulino. o cenário é o engenho Santa Rosa . em muitas passagens. que. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. embora o primeiro superponha-se ao segundo. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. sua gente. foi publicado em 1937. esmagados pelas poderosas usinas. e Conceição. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social. destacam-se duas situações: primeira. apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. Na narrativa. Isto 74 . moça culta da capital. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca. O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. moço mas rude. como para Vicente. é o próprio José Lins do Rego). a relação afetiva entre Vicente. mais político. povoam o Santa Rosa o tio Juca.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. vivida pela escritora em sua infância. cujo título refere-se à grande seca de 1915. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos. sem dúvida O Quinze. e nem parece gente branca. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. Em todo o ciclo. em decorrência da situação adversa. Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. sua terra. me disse Tia Maria. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. o que resulta em uma narrativa dinâmica. as secas são referências constantes em seus romances. passando a valorizar a análise psicológica. Chegou tão alvo. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. Além deles. a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família.

Ricardo e Santa Rosa se acabam. As febres estão dando por aí. Você é um menino bonzinho. estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. no prefácio ao romance Usina. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. ponto máximo de sua obra. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. Viveram tão juntos um do outro. Doidinho. há mais de um mês que está de cama. não vá atrás destes moleques para toda parte. sofrido e fracassado. em 1943. De manhã à noite.Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos. Sucede. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. você não. José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto. Bangue. Carlos de Meio havia crescido. Veio. se escraviza. no Pilar. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina. 75 . Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. com máquinas de fábrica. Uma grande melancolia os envolve de sombras. A história desses livros é bem simples: . com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Além do ciclo da cana. têm o mesmo destino. Seu avô ontem me falou nisto. pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’. Carlinhos foge. após o Menino de engenho. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. Entretanto. Pelo contrário. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio.faz mal. Carlos de Meio. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras.” O próprio José do Rego. os chamados ‘moleques de bagaceira’. de pés no chão. solto como um bicho. Os meninos de Emilia já estão acostumados. Depois de Moleque Ricardo veio Usina. espatifado. com ferramentas enormes.” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. foram tão íntimos na infância. e em seguida. os Ricardos. Pode ser que se pareçam. porém. O filho do seu Fausto.

onde haviam descansado. porque tinham o que dizer. Em conseqüência. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome). é o final trágico e irreversível. a lei maior é a da selva. A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas. um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. Portanto. viventes. O papagaio é sacrificado. decorrente de relacionamento impraticáveis. Nesse contexto violento. nesses casos. presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. em nome da sobrevivência dos demais..” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas. A provável fonte temática. amados e ouvidos pelo povo. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. bem como a oralidade da narrativa. teria sido a literatura de cordel.) Os cegos cantadores. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho. devorado canibalisticamente. identificados como “o mais velho” e “o mais novo”. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. e não guardava lembrança disto. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. contando com o papagaio. tinham o que contar. tensão essa geradora de um conflito intenso. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. ela atrapalha a caminhada da família.como o misticismo e o cangaço. misticismo e seca”. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural. Coitado. morrera na areia do rio. Em seus romances. dois humanos infantis sem nome. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. a cabeça os ossos do amigo. ou ainda.. Além disso. capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. homem x meio social. nas palavras do próprio autor.” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. Baleia jantara os pés. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Assim. como no inicio de Vidas secas. outro nome próprio. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie. como afirma o próprio autor: “(. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 . Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. a morte é uma constante.

Dai Rolando Morei Pinto. afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. que constitui a unidade profunda dos seus livros. mas o que as circunstâncias impõem. segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere). A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. desejos e esforços. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. em brilhante tese sobre o autor. quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. o drama dos retirantes. )no ângulo da sua arte. a cidade. entretanto. não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. tudo se torna inútil. principalmente. a caatinga. atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. moldados pelo meio — Luis da Silvam. o latifúndio. segundo uma visão distanciada da real idade... e que tanto os personagens criados quanto. São Bernardo e Angústia). em que o autor se coloca como problema e como caso humano. Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. estes últimos símbolo da 77 . b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). intenções.à realidade. são projeções deste impulso fundamental. ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. em seguida. o qual. E o crítico conclui: “(. Paulo Honório e Fabiano.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. Seus personagens são seres oprimidos. E dentro das estruturas vigentes. ao lado do retrato e da análise social. gestos. no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. na palavra inútil: “Parece que. dentro da posição pessimista e negativista do autor. ele próprio. pelo sertão. pela cidade. há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem.

Do ponto de vista formal. Fabiano sombrio. praguejando baixo. cambaio.ditadura Vargas. fustigou-o com a bainha da faca de ponta. o aió a tiracolo. Não obtendo resultado. seja como escritor. Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. condenado do diabo. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. espiou os quatro cantos. Ordinariamente andavam pouco. Seus romances. deito-se. a espingarda de pederneira no ombro. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. Como isto não acontecesse. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. através deles. o Cavaleiro da Esperança. depois sossegou. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. Fazia horas que procuravam uma sombra. devagar. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Acerca deste último aspecto. estavam cansados e famintos. Mas o pequeno esperneou acuado. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica. Os juazeiros aproximaram-se. Anda. a viagem progredira bem três léguas. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. Arrastaram-se para lá. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. fechou os olhos. tanto em primeira como em terceira pessoa. analisar toda uma sociedade. recuaram-se. através dos galhos pelados da caatinga rala. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. zangado. Trabalha a narração com a mesma mestria. sentou-se no chão. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. O menino mais velho pôs-se a chorar. A folhagem dos juazeiros apareceu longe. gritou-lhe o pai. como 78 . Em seus textos enxutos. seja como homem público. sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça.

essa divisão encerra apenas uma finalidade didática.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. revolucionário. estendendo-se às últimas produções do autor. por exemplo. Finalmente. é uma crônica de costumes). apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. no entanto. c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase. o autor tem sido acusado de ser redundante. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. com destaque para Clarissa e Vasco. O país do Carnaval e Capitães de areia. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. Seus personagens. iniciada com Jubiab áe Mar morto. esses 79 . Evidentemente. Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre. citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. Como exemplo maior. como é o caso de Suor. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. Podemos notar. se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado. De Seara vermelho. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. cravo e canela (que. para Dona Flor e seus dois maridos. o cotidiano caótico. tanto no plano individual como no plano social. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. tanto na abordagem psicológica como na social. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. Cacau. Entretanto. ao passo que o último é mais lírico. reaparecem em várias situações e em Vários momentos. O primeiro é mais político. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. há uma distância clara e evidente. com forte coloração social. se consolidaria com Gabriela. embora negada pelo autor em suas entrevistas. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50. a crise da sociedade moderna. passando por Música ao longo. essa palavra é liberdade. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances.

que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. pertencem os romances O senhor embaixador. sem exceção. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922.O Pós-Modernismo 1945. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. lançado na primavera de 1947. narrativa mais contemporânea. em busca de uma literatura intimista. cujo primeiro número. mais dedicada aos temas da atualidade. de sondagem psicológica. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo. que enfoca as primeiras décadas do século XX. em termos de aceitação pública. igualando-o. ilegalidades. exílios. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. início da redemocratização brasileira. Terra e Cambará. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. tanto nos romances como nos contos. e 80 . O retrato. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. A prosa. excelente crítico literário. que chega até o governo Vargas. como destaque para Clarice Lispector. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam. Fim da ditadura de Getúlio Vargas. a Jorge Amado. À última fase da produção de Veríssimo. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. um retrocesso. período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. O tempo. A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). afirma. fim da Guerra Mundial. 1945. tem início a Guerra Fria. Mais tarde. convocam-se eleições gerais. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. 11. O prisioneiro e Incidente em Antares.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. introspectiva. outras. com as lutas do início da República. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. encarrega-se da seleção. Na poesia. Logo depois.O arquipélago. e 1. Logo depois.

por Lêdo Ivo. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. é formado. suas expressões. suas particularidades. que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. as palavras recriadas ganham força e significado novos. por exemplo. Entretanto. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. Geir Campos e Darcy Damasceno. mas sim nos neologismo. Com isso. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. que é bom ressoador’.só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946. A gente lê. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45. Esse grupo. Péricles Eugênio da Silva Ramos. negando a liberdade formal. na recriação das palavras. a seguir. a universalização do regional. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra. podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. e ele nesse ponto era bem — assistido.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. A princípio. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco. A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. e não apenas com uma admirável vocação acústica. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. chamado de Geração de 45. entre outros poetas. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. percebe-se uma revalorização da linguagem. e caminhou para 81 . as ironias.

Eh. dá direito. volta.. vai não volta. cambada de filhos — da — mãe. E. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -. que chegou minha vez!. saudade dos campos. querência dos pastos de lá do sertão. cabisbaixo. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”.. mexe lama.. satisfeitos. pronta de todo está ela ficando..Ô gostosura de fim . de chifres imensos.. escurecidas à fumaça dois tiros. boi berrando. chifres no ar. fasta vento.... mal percebido.. na massa embolada. Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. com atritos de couros. um boi pintado.. soca soca.. dá de dentro.” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia. Cada coração um jeito De mostrar o seu amor.cima de Nhô Augusto. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas..de — mundo!. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante. e as vagas de dorsos. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança. Vai. booôi!. -Tchou!. dá de duro. agora. Devagar. vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata. em que o autor narra a caminhada da boiada. rola e trola.” Pouco a pouco porém. bota baba. sem — querer e imitativo.. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros. bate baixo. estrondos e baques.. Boi bem bravo. cada um tem sua cor. Que de trinta. trezentos ou três mil. estralos de guampas. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente. . ‘Um boi preto. mesmo prestes assim para surpresas más. das vacas e touros. casco a casco.. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto.. mugindo no meio.. pela estrada. e que os cavalos gingam bovinamente. com muita tristeza. batendo com as caudas. vem na vara. e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos.. e o berro queixoso do gado junqueira. com os cabras saltando e miando de maracajás. o ritmo e sonoridade de sua linguagem.Tchou!. vai varando. 82 . E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas. vem.

que na beira dele. Enfim.ser. como um navio.A boiada vai. isto é o sertão. Esses gerais são sem tamanho. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser.. fim de rumo.‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”. de outra forma. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães.. pelo pavor. então. já notado. melhor ainda. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes. uma religiosidade quase medieval. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. tudo dá — fazendões de fazendas.” (João Guimarães Rosa) O misticismo.H. . assim explicava a autora seu ato de escrever. o” estar —no — mundo”.. o aqui não é dito sertão? Ah.” 83 . em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo. eles dizem. resultando dai o chamado romance introspectivo. Assim o sertão de Rosa: ora particular. quinze léguas. O Urucúia vem dos montões oestes. onde um pode torar dez.. Por isso. madeiras de grossura. demais do Urucúia. pois” o sertão é o mundo “ou. Mas hoje. pequeno e próximo. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro. e onde criminosos vive seu cristo — jesus. Deus e o diabo. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com. na obra de Guimarães Rosa. almargem de vargem de bom render. O gerais corre em volta. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer. ora universal e infinito. a pesquisa do ser humano. logo na abertura de Grande sertão: veredas. outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa. sem topar com casa de morador. as vazantes. Toleima. dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. Para os de Corinto e do Curvelo. O sertão está em toda a parte. para que ele não “forme forma”.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere. arredado do arrocho de autoridade. até ainda virgens dessas lá há. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade. culturas que vão de mata em mata. terras altas. “o sertão é dentro da gente”. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G. entre o ser e o não . é questão de opiniões. o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão.

Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos. “Sou um regionalista também na Espanha. Manifesta. suas tradições. seu estado natal. O Nordeste com sua gente: os retirantes. em alguns casos.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. em A hora da estrela. rio Capibaribe. Cesário Verde. em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. solitário e inconseqüente. Não há que civilizar o mundo. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. personificado. ao mesmo tempo. afirma o poeta.No plano da linguagem. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. No entanto. pela tendência ao surrealismo. a herança medieval e os engenhos. por mais de uma vez. busca fixar-se na crise do próprio indivíduo. São objeto de verificação e análise os mocambos. No nível temático. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. mas sim nas entrelinhas. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. que 84 . o Recife. em sua consciência e inconsciência. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. e sua cidade. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. intimista. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. e o drama do narrador. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas. A Espanha e sua paisagens.” Essa literatura introspectiva. inclusive. A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações. onde me considero um sevilhano. pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. explorando os limites do significado. “exterior e explícita”. a literatura de Paul Valéry. Pernambuco. de modo muito particular. apresentadas a seguir. os cemitérios e o aparece. trabalhando metáforas e aliterações. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. há que “sevilhizar” o mundo “. para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo. o drama de Macabéa . duelando com as palavras e os fatos. seu folclore. Augusto dos Anjos.

da água do corpo de água. como as brisas. a própria arte poética.Graciliano Ramos e Drummond. É o caso de O cão sem plumas. bolha aberta no maduro). Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. transparentes florações nascidas do ar. dos peixes de água. flor não de todo flor. Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. no ar. mas flor. (fezes como qualquer. da brisa na água. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. o poeta repensa sua poesia: “Poesia. da fonte cor — de — rosa. raros. aprofundando assim a temática social. Delicado. Nada sabia da chuva azul. o próprio rio Capibaribe.o estrume do poema. ou seja. coou. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. evitava seu caule. frágeis.” A partir de 1050. extinta de flor. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. Sabia da lama como de uma mucosa. espécie Esperava as puras. seu ovário. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. Suas intestinações. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. da água de cântaro. calor de nossa boca. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado. 85 .

” O rio Capibaribe voltaria a ser tema. principalmente. com a Exposição Nacional de Arte Concreta. a participação direta. pela primeira vez. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956. o “poema — produto: objeto útil”. Entretanto. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras. as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. 86 . do século XIX. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -. ganhou inúmeros prémios e aproximou. de poetas brasileiros. rompendo com “ o vício retórico nacional”. também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. original. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto. Procurava-se assim. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação).e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. na sua criação. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952. herdado. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano). musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60. realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo.Devia saber dos polvos. Entretanto.

. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta. Dessa forma. o visual. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. 87 . documento — programa do movimento. economia e arquitetura funcional do verso”). seu material: a palavra (som. os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo.. Daí defenderem “(. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla. • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo. que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial. estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso.)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal). Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo. a carga semântica.) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural. Sobre isso. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta...segundo os concretistas. exigindo dele uma participação ativa. em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico.. carga semântica).. assim explicam os irmãos Campos: “(. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”.) uma ordenação não — linear do poema. dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros.” Apresentamos. apenas dispersado (. na qual o branco da página. forma visual. o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla.

Ferreira Gullar. Edgar Braga e Pedro Xisto. conforme sua posição no texto. que. cujo sentido e dicção mudam”. caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras. conta uma poesia de expressão. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas. integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. por exemplo. o texto “Crime 3”. realismo total. de Mauro Gama. no entanto. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. Décio Pignatari. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. como Manuel Bandeira. no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis.• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. subjetiva e hedonística. Ronaldo Azeredo. o poema — produto: objeto útil. Leia-se. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 . A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. Augusto de Campos.

Mantendo a tradição da poesia discursiva. Ferreira Gullar e José Paulo Paes. de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. Adélia Prado. flor e fruto do Pantanal mato-grossense. como veremos mais adiante. por uma rígida censura e enraizada autocensura. neste capítulo. assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal.cavo. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada. que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. Produção contemporânea O que chamamos. Dessa forma. só amenizados a partir de meados da décadas de 80. na caixa de som (colchão murcho coração). as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos.práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. Poesia Na poesia. ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996). a sonoridade das palavras. titulo muito adequado. Mário Quintana. Pelo contrário. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. filiam-se ao grupo da poesia. Manoel de Barros é semente. Aliás. como já denota sua “autobiografia”: 89 .” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país.

Prosa No romance. um abridor de amanhecer. Ou. Por isso mesmo. Passei a vida fazendo coisas inúteis. Trabalhado com maior ou menor intensidade. Ainda na prosa. talvez seja. em uma fase de sua produção. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. em algum banco de praça. como afirma o editor Ênio Silveira. coisa. 3. “guiados por ele. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”. uma de terminada visão de mundo. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. 1. onde as verdades essenciais. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. Fazer coisas desúteis. Márcio de Souza. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. etc. Bernardo Élias. o parafuso de veludo. O nada mesmo. O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . etc. Carlos Drummond de Andrade. espantando da cara as moscas mais brilhantes). Manoel de Barros é um deles.. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras.“Não sou biografável. bichos. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. foi Rubem Fonseca. No texto que abre o Livro sobre nada. pessoa apropriada para pedras.” Inúteis. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo. em suas obras. Alguns poetas passam. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. Roberto Drummond e Ana Miranda. Mas quem roubou a cena nos últimos anos. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. Nasci na beira do rio Cuiabá 2. Em três linhas. Aguardo um recolhimento de conchas. José Montello e José Cândido de Carvalho. buscando uma nova forma de organizá-lo. Antônio Callado. (E que seja sem dor. tudo que use abandono por dento e por fora”. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo. Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. nada. também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente.

em 1995. hoje. Verdade é. Vaidade. Misericórdia. que me rendem vossa luz. Por outro lado. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. Rubem Braga. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede. Luz. escritas na década de 60. amor. Vencido quero ver-me e arrependido. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. António Callado. João António. entre outros. citam-se Dalton Trevisan. dai-me abraços. Lígia Fagundes Telles. Luis Fernando Veríssimo. Jesus. coletânea de oito histórias que. Entre os contista mais significativo. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. Paulo Mendes Campos. o Stanislaw Ponte Preta. Nélida Piñon e Rubem Fonseca. Tarefas Analise os textos a seguir. Jesus! 91 . com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. Otto Lara Resende. Arrependido estou de coração. Arrependido a tanta enormidade. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. meu Senhor. o conto.gênero na imprensa. Domingos Pellegrini Jr. e ofendido. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. tem servido de mestre a muitos cronistas. Maldade. Este último lançou. Luís Vilela.. que claro me mostra a salvação. Moacyr Scliar Rawet. explorando técnicas modernas de narrativa. Menção especial merece Sérgio Porto. que hei delinqüido.Gregório de Matos Ofendi-vos. que. analisado no conjunto das produções contemporâneas. que encaminha a vaidade. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . meu Deus. que todo me há vencido. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. linha de frente de primeiríssimo time. delinqüido vos tenho. A salvação pretendo em tais braços. Abraços. ofendido vos tem minha maldade. De coração vos busco. é bem verdade. Lourenço Diaféria.

Que tais não encontro eu cá. à noite mais prazer encontro eu lá. Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. Não sabe ainda que coisa é alegria. Onde canta o Sabiá. com que a noite escura. sozinho. que sonora. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. Nosso céu tem mais estrelas. Nise. Onde canta o Sabiá. Sem qu’inda aviste as palmeiras. As aves que aqui gorjeiam. Não gorgeiam como lá. E a suavidade do prazer trocada. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia. que suave. Sufocando o sol a face pura.Texto II Soneto . Tinha escondido a chama brilhadora. Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. Mais prazer encontro eu lá. Nossa vida mais amores. Em cismar.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. Nise Adorada. Onde canta o Sabiá. Aque alegre. a matutina Aurora O negro manto. Minha terra tem palmeiras. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. sozinho. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã. Minha terra tem palmeiras. Minha terra tem primores. à noite. viria ao menos 92 . Em cismar. Por te não poder ver. Tanto mais aborrece a luz do dia.

marinheiros! Fazei-os mais dançar!... estalar de açoite. Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar. No turbilhão de espectros arrastadas... fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar. Tinir de ferros. se no chão resvala... mas nuas e espantadas... Outro. Negras mulheres. geme e ri! No entanto.. estridente. moças. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco. Presa nos elos de uma só cadeia.” 93 .Fechar meus olhos minha triste irmã... o chicote estala. Ouvem-se gritos.. o capitão manda a manobra. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote. Outras.. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória. E voam mais e mais. suspendendo às tetas Magras crianças. Se o velho arqueja. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães... outro enlouquece. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica. que de martírios embrutece. Cantando... Em sangue a se banhar. E após. o dolorido afã.. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho.

Cárcere das Almas . atroz. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. maldições. às bordas Finas hás de lhe ouvir. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais.E ri-se a orquestra irónica. preces ressoam E ri-se Satanás!. entre as grades Do calabouço. sonhando. e. funéreo! Texto VIII 94 . Ó almas presas. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e. Da Dor no calabouço. Soluçando nas trevas. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta.. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos. ora repleta ora esvazada. uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Depois. do ouvido aproximando-a. olhando imensidades. Mas o lavor da taça admira. Mares. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia.. canora e doce. piscando-lhe as artérias. Vinda do Olimpo. era o veneno e era açúcar gostoso. Já de aos deuses servir como cansada. Toca-a. tardes. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. um dia. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. estridente. Ignota voz. a lagarta viscosa. que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. de áureos relevos.. ela era a cobra verde e traiçoeira. trabalhada De divas mãos. era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. que o atordoara nas matas brasileiras.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas." – fragmento de O Cortiço. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. a um novo deus servia. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas. uma nota daquela música feita de gemidos de prazer. brilhante copa. estrelas.. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional.. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda. que abre feridas com seu azeite de fogo.. ais. natureza. a muriçoca doida.

& LOPES. 1994 HELENA. Hernani. 95 . São Paulo: Ática. História concisa da literatura brasileira. 2ed. Porto: Porto Ed. Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. Álvaro Cardoso.Nesses silêncios solitários. J. Alfredo (org. São Paulo: Scipione. 1980 CARPEAUX. São Paulo: Scipione. 1998 SARAIVA. A.). Movimentos de vanguarda européia. 3ed. Oscar. 3ed. José de. Otto Maria. Lucia. graves. 1993 NICOLA. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. Rio de Janeiro: Tecnoprint. História da literatura portuguesa. 9ed. Coimbra: Armenio Amado. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. São Paulo: Cultrix. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI. 1976. 1968 CIDADE. O simbolismo. 1963 GOMES.