FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

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Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

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Cotidiano 2. linguagem desautomatizada 5. lança mão do discurso metafórico. orações. Conceitual 7. literário 2. plurissignificativo 4. Transparente 6. denotativa Texto obra 1. conotativa 4 . fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1. Linguagem automatizada 5.texto = entrelaçamento de linhas. Técnico 3. Funcional 4. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. períodos que formam sentido. opaca 6. ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3.

5 . nas entrelinhas. em última análise. O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto.Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado. pelos interesses desse grupo. Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. mas no seu sentido profundo. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena.

de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . Por isto.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas. metáfora 3.1 valorização da forma 2. mas interdependentes.e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível.3 recriação da linguagem 2. 1. o conceito. percebemos um conjunto de sons ( o significante). Texto literário e texto não-literário .distinção e características 2.Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1. valores . Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida. com o qual almeja provocar mudanças . Denotação e conotação 2. A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado. que nos faz lembrar de um conceito (o significado). intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça. numa palavra que ouvimos. para obter aquilo que se deseja.4 plurissignificação 2.= conjunto de idéias próprias de um grupo. A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra. constituída de sons .2 reflexão sobre o real 2. ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo. um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 .uma parte perceptível. isto é. constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão . metonímia 2.

conotativos. negativos ou positivos. de uma época a outra. subjetiva. Conotação é a significação subjetiva da palavra. esposa. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos. naquele que lhe atribuem os dicionários. isto é. valores afetivos e sociais. virtuais. as palavras senhora. seu sentido é objetivo. Ela designa ou denota determinado objeto.expressão. é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. explícito. mulher denotam praticamente a mesma coisa. Desta maneira. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . de ordem abstrata. referindo-se à realidade palpável. literal. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. constante. mas têm conteúdos conotativos diversos. está ligada à ambigüidade. que são apenas sugeridos. de uma classe social para outra. Por exemplo. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. reações psíquicas que um signo evoca. Denotação é a significação objetiva da palavra. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões. Portanto. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. evocando outras idéias associadas.

de coexistência. Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". A partir daí. assim. a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. portanto. Dessa maneira. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade. de intersecção. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. o traço característico do processo metafórico." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. um estado de espírito. Conotação é. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. isto é. algum ponto em comum. Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua. Por exemplo. criada no trabalho mental de apreensão. Othon M. do autor ou leitor. o temperamento. pois metaforização é conotação". possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. essencial para que se realize qualquer processo de mudança.A respeito de conotação. Em termos cognitivos. uma espécie de emanação semântica. em essência. Se entendida apenas no nível semântico. Esse é. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. instaurando-se a polissemia. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. de interdependência. na verdade ele opera com regras pragmáticas. mas sim de regras conversacionais. a sensibilidade. um sentimento. na concepção do falante. que exige variação e continuidade. pelo acréscimo de um segundo significado. de implicação. um juízo. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. quando dizemos "As 8 . uma opinião. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. quando apresentam traços semânticos comuns. que variam conforme a experiência. em relação à coisa designada. de inclusão.

Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. com predomínio da função referencial da linguagem. em geral. envolvendo um processo de recriação dessa realidade. cabelos brancos. devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética. portanto. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade.cãs inspiram respeito". No texto não-literário. tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade. plurissignificativa e de intenso dinamismo. Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio. não descansam as armas = . com predomínio da função poética da linguagem. as relações são mais restritas. que possibilita a criação de novas relações de sentido. estamos empregando cãs por velhice. É. A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 .. não descansam os soldados. e na interação entre os indivíduos. com predomínio de outras funções.. porque as pessoas idosas possuem.

10 . O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. léxico. de maneira indireta. visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. A título de exemplo. ou de produzi-lo. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. nem temas inadequados a esse tipo de texto. relacionada ao processo de recriação do real. em VIDAS SECAS.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. citamos Platão e Fiorin (1991). onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece. nos planos fônico. que dizem: "Graciliano Ramos. revelando assim novas formas de ver o mundo. e por isso degradados ao nível da animalidade. Assim.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. prosódico. O literário possui um universo fictício. singular. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. 2. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. as artes desempenham um papel muito importante. Não é o tema. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. reordenando-a. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. não há temas específicos de textos literários. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. num país como o Brasil. ou seja.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. Refletindo a experiência cultural de um povo. Assim. morfossintático e semântico. recriando o real num plano imaginário." 2. Por isso. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. ocorre a desautomatização da linguagem.2. combinando-as de maneira inusitada.

resumir as idéias. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. portanto. sua intocabilidade.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. apreendese o essencial. Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. No Soneto da Separação. em todos os recursos que Meu povo. literário. por exemplo.2. pelo uso de recursos poéticos. Podemos. substituir vocábulos por sinônimos. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. De repente. Poderão surgir. o poeta francês Paul Valéry diz que. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. num texto literário. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 . perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. No poema de Ferreira Gullar. Pelo trabalho com a linguagem. A esse respeito. perde-se o essencial. quando se resume um texto literário. podemos verificar que evidências da literariedade. poéticos e textos não-literários. quando se resume um texto não-literário. seu soneto é um texto literário. a partir de suas respostas. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. textos líricos. Não podemos. suprimir ou acrescentar vocábulos. não mais que de repente. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema.

Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). o povo e o poema crescem como a árvore nova. crescer. para essa recriação. antidiscursividade 3. "Ao povo seu poema." c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. e. poema/árvore. utiliza recursos variados. São alguns deles: 1. ao explorar conteúdos.5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário." Dois planos foram explorados -. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. desvio da norma culta 4. o poeta é comparado a um plantador. musicalidade 2. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. 2. terra fértil. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar.No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto. alogicidade 12 . "no povo meu poema". procura recriar a linguagem.

em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. Volúpias dos violões. na maioria das vezes. A norma do discurso poético é a antinorma. mais uma vez. O trilo dos grilos. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia.5. musicalidade: obtida através do ritmo. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. como nestes versos de Murilo Araújo. vozes veladas. seja em verso. da violação das normas. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. Vozes veladas.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. vãs. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. o uso poético da linguagem. construção paratática 1. vulcanizadas. veludosas vozes. tímido. argentino. esgrime. muitas vezes. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. das aliterações.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. b) Rimas e aliterações . vivas. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. da rima. Seja em prosa. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. límpido. No poema de Cruz e Souza. das assonâncias. com o raiozinho dos astros. anáforas a) Ritmo . de aço fino.

Inversão da ordem natural das palavras. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . violação da regência e da concordância. mudam a classe gramatical. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens. Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. Que o espírito enlaça a dor vivente. 3. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. falta de consistência gramatical. A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas. A hipotaxe exige maior elaboração mental.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra. há uma oração principal. 2. Nas construções hipotáticas. hipérbato. estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. a subordinação.

....... À sombra de uma cruz... Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida.............. Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema. ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! .................. apontando em que versos da estrofe são mais nítidos.......... É pela virgem que sonhei.. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento..... Se um suspiro no seio treme ainda.... Roteiro: 1......é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas.. que nunca Aos lábios me encostou a face linda! ....... identificando os fenômenos líricos predominantes.......... Se uma lágrima as pálpebras me inunda.. separadamente......... Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto................ Examinar cada estrofe.......... 3.e amou a vida.. o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro..Em pálpebra demente.....sonhou ...... 2.. 15 ...... De ti....... Só levo uma saudade . Indicar a função da linguagem predominante no poema.. e escrevam nela: Foi poeta ....

Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. da personagem e do acontecimento. Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). cada um deles. da sua morte. 2.4. Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. o personagem e o acontecimento. conotativamente. Há. 6. criando uma realidade ficcional. que privilegiam. Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. por 16 . segundo a semiótica literária. de Machado de Assis.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado. de Aluísio Azevedo. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. 8. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos. o processo literário. três padrões literários. estrutura o espaço. Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. verbais e não verbais. o texto como um todo significativo. uma das partes da narrativa: 1. Dessa forma. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente. no nível do imaginário. 5. A idéia de morte está presente em todo o poema. analisando-lhe como imagem. através da ficcionalidade do espaço. Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. assim como os esquemas de construção textual. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. No romance Dom Casmurro. convertido em discurso narrativo como prática semiótica. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais. O texto precisava ser entendido em seu sentido global. diagrama ou metáfora do mundo interpretado. 7.

2.exemplo. Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. de Euclides da Cunha. por exemplo. – a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras. ou seja. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). Os Sertões. que corresponde à emancipação política do Brasil. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. 3. sobre o mundo. toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa. Tarefas: 1. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. apontando o tipo de semiotização efetuado. estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos.

Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 . que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início. seguiremos as orientações de Antonio Candido.Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira. no Barroco. não era Literatura DO Brasil. de fato.Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 . mas NO Brasil.O Barroco 1 . Antes disso. 1 .

do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. a hipérbole e a alegoria. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. Segundo outros. que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. de Bento Teixeira. já a partir de 1724. o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos. o pecado e o perdão. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. escultura e arquitetura da época. os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil.inicio dos anos 1700. é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. Ou. o material e o espiritual.” Além disso. assimétrico. dilema que tanto 19 . O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ). como a metáfora. pintura. assimetria. Botelho de Oliveira. rebuscamento. o movimento academista ganha corpo. O final do Barroco só se concretizará em 1768. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. No Brasil. estende-se à música. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. A origem da palavra barroco é controvertida. de Cláudio Manuel da Costa. ou mesmo um terreno desigual. Em qualquer das hipóteses. a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. Por essas razões. sobrecarregando a poesia de figuras. Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII. a antítese. Além da literatura. na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole. com sentimento nativista o primeiro manifesto. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista. No entanto. designaria um tipo de pérola de forma irregular.

sendo o todo. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. de conceitos. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. Pois que feito Jesus em partes todos. seguindo um raciocínio lógico.atormenta o homem de século XVII. Um braço que lhe acharam. extravagante. Não se diga que é parte. Não se sabendo parte destes todo. racionalista. culta. Em todo o Sacramento está Deus todo. do qual deriva o termo Quevedismo. Assiste cada parte em sua parte. então. E todo assiste em qualquer parte. sendo parte. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. Em qualquer parte fica o todo. sendo parte. que utiliza uma retórica aprimorada. (Gregório de Matos) 20 . A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal. Nos diz as partes deste todo. A arte assume. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. uma tendência sensualista. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. Mas se a parte o faz todo. O braço de Jesus não seja parte. Aparte sem o todo não é parte. E feito em partes todo em toda a parte.

(.Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. não me leias. Quando este estilo florescia. próprias dos jesuítas. à moda cultista. e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias. os que o condenam chamam-lhe escuro.. Sermões São quase 200 sermões. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. o melhor da a obra de Vieira. carta e sermões. é negro. e havemos de ouvir um pregador em português. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo. Constituem importantes documentos históricos. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda. contrária.) Este desventurado estilo que hoje se usa. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos. e clássico pela expressão clara e singela. de apresentação. Cartas São cerca de 500 cartas. O estilo culto não é escuro. pois tal fato estaria profetizado na Bahia. mas ainda lhe fazem muita honra. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. Profecias Constam de três obras: História do futuro. nasceram as primeiras verduras do meu. Em estilo barroco conceptista. portanto.. e negro boçal e muito cerrado. 21 . um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum. totalmente oposto ao Gongorismo. os que o querem honrar chamam-lhe culto. É possível que somos portugueses. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. Vieira seria conceptista pelo processo mental.

a sexo nem idade”. por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. em 1654. Gregório também praticou. Bahia.” 22 . pregado em São Luis do Maranhão. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -.) Ora. Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. vícios e enganos. em 1640. a poesia religiosa e a lírica. No intróito. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(.. também chamado de Sermão dos peixes. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. “Eu sou aquele. esse sermão resume a arte de pregar. ou por parte do pregador. • Sermão de Santo Antônio. ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus. não perdoarão a estado. e com esmero. Polêmico. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . Vieira incita o povo a combater os holandeses. Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima.. do pregador e do ouvinte. apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis. Peroração — a parte final do sermão. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges.

empregada no sentido de a galeota solta. II Poesia lírica.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. agrado ou elogio em excesso. como toda a massa devota de sua época. no melhor estilo petrarquiano. era a própria personificação do Pecado”. III Poesia graciosa. E. que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. Presumida: vaidosa. Condenou acerradamente a vaidade humana. IV e V Poesia satírica. numa postura moralista. VI Últimas. A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. transparece certo idealismo renascentista. Aqui. o clero e. Airosa: elegante. os costumes da sociedade baiana do século XVII. 1923 e 1933. Na poesia lírica e na religiosa. mas sua existência foi um rosário de culpas. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. segue um resumido vocabulário. Soberba: orgulho excessivo. quando a Academia Brasileira de Letras. solta. assim distribuídos: l Poesia sacra. por 23 . Sua obra permaneceu inédita até o século XX. mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. presunção. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. Desatada: desprendida. publicou seis volumes. isto é. arrogância. garbosa. bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé. Púrpura: a cor vermelha. realmente. o meio envolvente. destemida. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. Lisonjeada: que recebeu lisonja. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. social e religioso. EL-Rei. o administrador português. É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. presunçosa.

" Os versos acima. Empavesada: enfeitada.o próprio título do poema longos. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. podemos entender como “preza. 24 . Ufama: vaidosa. Fábio... com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora . na ordem direita ficariam.inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade. vaidade. por meio de metáfora. Alentos preza : como no caso anterior. Observe que Galhardia é complemento de apresta. galé. gosta de receber ânimo. alentos é complemento da forma verbal preza. isto é. orgulho. Nau: navio. e explicativo. Galhardia: elegância. nesta vida Rosa. de pequeno porte. Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. galeão.. Galeota: embarcação a remo. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. a vaidade é Rosa. nesta vida. assim: "Fábio. É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato . adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade. garbo.mares de soberba. orgulhosa. em particular )“ metaforicamente”. ainda.. Presunção: juízo baseado nas aparências.." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional. de símiles.

ao final. a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes. fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. de longo uso desde Camões. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco. que.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto. a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos). a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema. espalhados. 25 . Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia. provocando um forte impacto. “Disseminação e recolha” Finalmente.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada. nau no soneto apresentado) para. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). neste caso. a recolha. isto é. Era o único pássaro na sua espécie. as penas do pescoço douradas. semeados.o exagero.o emprego de ferro por machado. lançar uma adversidade. como no caso de “púrpura mil”. uma contrariedade. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. plante. no caso do soneto analisado. isto é. Metonímia . A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos.” • • Hipérbole . o conflito presente no texto. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. Realça-se. plantados ao longo do poema (como é caso rosa. púrpuras mil arrasta presumida. realizar-se. assim. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para. esses conceitos e ou palavras são disseminados. ao final. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

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deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

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caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

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a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. amor. pastoril. de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos.” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético. Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. Liberdade. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa. A respeito do episódio. E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa. bucólica. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia. Ë a procura do locus amoenus.pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 .” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles. E os seus tristes inventores Já são réus. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. em Romanceiro da Inconfidência. “Atrás de portas fechadas. palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda. à luz de velas acesas. extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente. liberdade.abusos da nobreza e do clero (Ilustração). entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência.

a mulher amada. vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados. os sonhos de uma família. Quanto ao aspecto formal. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. as musas: “Parece. Nela. a simplicidade. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. portanto. uma posição política e ideológica. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. discorre sobre a iniciação amorosa. a rima optativa e a tradição da poesia épica. No entanto. o namoro. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. a felicidade do amante. por meio de palavras. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor. Havia. que aí vês. e estas fontes Já sabem. os meus montados São esse. a natureza e Manha. a defesa da tradição e da propriedade.natureza. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. que estes prados. pastorial. lá estavam seus interesses econômicos. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. Essa obra. os versos decassílabos. a poesia bucólica. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. temos o soneto. sempre 30 . burgueses que eram. 1799 e 1812. o fingimento poético e o uso de pseudônimos. o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra.” Ou ainda sofrimento amoroso. Antes da cadeia.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. foi publicada em três partes nos anos de 1792. pastoril. que é o assunto da porfia Nise. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. não te nego. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. a melhor pastora destes montes. tendo como divisor de águas a prisão do poeta.

A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo. ora a sua condição de burguês. As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. raciocina. e o burguês Dr. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente. que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado. Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição.. quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa.numa postura patriarcalista. assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). de Rodrigues Lapa. governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). Tomás Antônio Gonzaga. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. Depois. residente em Madri. escritos em linguagem bastante agressiva. Luiz da Cunha Meneses. o Fanfarrão Minésio ( na verdade. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta.. na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala. principalmente.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. ora assumindo a postura de pastor. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo.” É patente a oposição entre Dirceu. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores. São poemas satíricos. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. 31 . Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. portanto. juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. vivendo os sofrimentos da prisão. E decidir os pleitos. Ver-me-ás folhear os grandes livros. Nessas cartas. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. um político sem moral. despótico e narcisista. que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. Como bem lembra o critico Antônio Cândido. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga. narra os desmandos do governo chileno. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída. Critilo.

embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia. no geral. Paraguaçu.. após definir-se por Paraguaçu. vítima de um naufrágio no litoral baiano. Pasma da turba feminil. Gupeva e Sergipe. Quando à forma. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma. por cruel que brame. constando de proposição.. narração e epílogo. Porém o tigre. com quem Diogo se casa e vai a Paris. mas apenas de um conservadonismo cristão. E já vizinha à nau se apega ao leme. Uma que às mais precede em gentileza. o poema é composto de 10 cantos. por outro lado. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira. assombradas. 32 .. do que irada.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem. onde é narrado a morte de Moema. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. (. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo. Caramuru (Trechos do Canto VI. mas uma se destaca: Moema. Era Moema. Santa Rita paga um tributo ao século XVIII.) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo. dedicatória. que de inveja geme. o Canamuru. Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. E ignorado a ocasião da estranha empresa. Várias índias nadam atrás do navio. que nada. versos decassílabos. oitava rima camoniana.Santa Rita Durão Caramuru . Santa Rita não utiliza da mitologia pagã. Diogo Álvarez. incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). Não vinha menos bela. como Camões em Os Lusíadas.

soltando o leme. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor. Flutuar. tens coração de ver-me aflita.. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio. cai num desmaio.) Perde o lume dos olhos. com suas restrições mentais”. penhosa!! Enfim..Acha forças no amor.. Só ti não domou. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”. raio. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas.Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. moribunda.. Entre as salsas escumas desde ao fundo. Ah! Que conosco és tu. seus antigos mestres. freme. entre estas ondas A um ai somente. Pálida a cor. conosco. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas. 33 .. sorveu-se na água.. Fúrias. com que aos meus respondas Bárbaro. (. por mais que eu te ame. Tornando a aparecer desde o profundo. “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). Nem o passado amor teu peito incita (Disse.. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema. que enfim o domem. que o ar consomem. raios. Mas na onda do mar. se esta fé teu peito irrita. que.... .’ E indo a dizer o mais.. pasma e treme. irado.E sem mais cista ser.

) ..O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. Porém o destro Caititu. sobressaltados. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). A índia. angustiada com a morte da Cacambo. além de quebrar a estrutura camoniana. Caititu. “ entrara no jardim triste e chorando”.. e fere A serpente na testa. enquanto a de Sacramento. E nem se atrevem a chamá-la. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro. Que toca o peito de Lindóia. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor. onde é narrada a morte de Lindóia. que treme Do perigo da irmã. e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste. A partir de um tema não adequado ao gênero épico. seria concedida aos espanhóis. portanto. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética. auxiliadas pelos espanhóis. E param cheios de temor ao longe. seu irmão. Fogem de a ver assim. Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. e temem Que desperte assustada. e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. uma serpente venenosa. E fuja. O Uruguai (trecho do canto IV. e lhe lambe o seio. e irrite o monstro. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. e apresse no fugir a morte. e lhe passeia. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses. 34 . e quis três vezes Soltar o tiro. instigados pelos jesuítas. enrolada em seu corpo. contra os índios dos Sete Povos das Missões. e cinge Pescoço e braço. “cansada de viver”. Basilio da Gama consegui. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta. em terras uruguaias. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. a encontra adormecida.

com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3. o sentimentalismo. D. está intimamente ligado a todo o processo de independência política. e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. acompanhando as nações independentes da Europa e da América. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste.O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. Os. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. E rompe em profundíssimos suspiros. Cheios de morte. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo. sem se mencionar 35 . Em 1822. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil. O nacionalismo. o subjetivismo. A partir desse momento. Os olhos Caititu não sofre o pranto. um dia. e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional. que ao despertá-la Conhece. Que os corações mais duros enternece. a imagem do português conquistador deveria ser varrida. Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. olhos em que Amor reinava. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte.

com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil.sua carga ideológica. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. liberdade. o Brasil vive um período conturbado. Inicialmente. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel. são como sinônimos. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. Independência. é a idéia da pátria. a Colônia caminhava rumo à independência. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais. instituições sociais. todas as criações necessárias em uma nova Nação. reformas políticas. a Constituição outorgada. carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . pois. financeiras e econômicas. como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. e tudo se faz por ela. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. De 1823 a 1831. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte. novo aspecto apresenta a sua literatura. a exaltação da natureza pátria. a busca pelo passado histórico. a Confederação do Equador. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. ou seja. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. No começo do século atual. uma idéia até então desconhecida. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico.” As características do início do Romantismo são. com a chegada da corte.) O advento do romantismo. ela domina tudo. só tem uma explicação clara e profunda. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 .. na realidade. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. Após 1822. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo.. a abdicação. que atraem a atenção de todos. e os únicos que ao povo interessam. E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. Em 1808. que coincidem com surgimento da burguesia). pois. tais são os objetivos que ocupam as inteligências. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. ou em seu nome. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo.’ No Brasil. em alguns casos. como reflexo do autoritarismo de D. o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades. Portanto. finalmente.

No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. o público agora é amplo e anônimos. a um grupo mais ou menos homogêneo. ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas. nenhuma ordem seguimos. que valoriza o folclórico e o nacional . ora na gótica catedral. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 . ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. na música. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. sobre as paixões dos homens. o que não havia acontecido nos períodos anteriores. e o de Martins Pena. a construção. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. Quanto ao aspecto formal. isto é. e transforma-se numa forma de auto. ora no cimo dos Alpes. na arquitetura. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. exprimindo as idéias como elas se apresentaram. A arte romântica. com isso. A arte deixa. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. além de que. Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas. são bons exemplos). forma mais acessível de expressão literária. devem se harmonizar. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço.opõe-se uma arte de caráter popular. reconhecia absolutamente. Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário.” Realmente. que jamais podem agradar. de 1836. Poesia d’alma e do coração. em principio. As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. na pintura. agora. o teatro ganha novo impulso. voltando-se para a imaginação e para os sentimentos. material das estrofes. a um público cuja autoridade. e os prodígios do Cristianismo.” De fato. Quanto à forma. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. Surge o romance. sobre o nada da vida. em Portugal. representado pelas mulheres e pelos estudantes. meditando sobre a sorte dos impérios. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. a igualdade. porém. o que leva a uma nova linguagem na literatura. para não destruir o acento da inspiração. admirando a grandeza de Deus. no Brasil. a literatura torna-se mais popular. por assim dizer.expressão que cria os seus próprios padrões.

da mulher. as constantes idealizações da sociedade . explodem na famosa Questão Coimbrã. o ópio. A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. A literatura passa por grandes agitações. O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. movimentos populares). a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. em Portugal. na literatura brasileira. ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. No entanto. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica. No fundo. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. é o sentimentalismo. assim. prevalecendo. os heróis são os índios. perde-se a consciência do todo. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. Outra característica marcante do Romantismo. do coletivo. 38 . enfim. e os prodígios do Cristianismo”. o “acento da inspiração”. os românticos cultivavam o nacionalismo. valentes e civilizados). e o verso branco. foge no tempo e no espaço. a partir das transformações econômicas. publicação do Manifesto do Partido Comunista. do social. como afirma Gonçalves de Magalhães. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. que. que conduz à romântica. O verso livre. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. com o culto do individualismo e do pessoalismo. no Brasil. e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. como o paganismo. a saudade da infância. do amor. O romântico. caracterizam a poesia romântica. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. desenvolve-se uma literatura de caráter social. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool. sem rima. que manifestava na exaltação da natureza pátria. Quanto ao conteúdo. Já no final do Romantismo na década de 1860. A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo. não menos belos.e normas estéticas do classicismo. as “casas de aluguel prostíbulos). da expressão subjetiva. Evidentemente. admirando a grandeza de Deus. sem métrica e sem estrofação. essas fugas têm ida e volta. e transição para o Realismo. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. que além de representar as glórias e tradições do passado. do primado da emoção. o subjetivismo.

subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . a idéia com a paixão”. embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. “Se se morre de amor”. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico. Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. individual Pessoal.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. “Ainda uma vez adeus”. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. podemos dividir sua obra poética em: lírica. principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo. medieval e nacional. Nelas. universal Impessoal. a razão sempre perde terreno para o coração. de onde surge a denominação geração indianista. objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. a volta ao passado histórico . são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento.

o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. à moda dos trovadores medievais. Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico.e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. da musicalidade e do ritmo. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão. Nas selvas cresci. Além de exaltarem a natureza. ele nunca se refere ao elemento humano. Guerreiros. É interessante notar que. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. Ainda assim. É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. pois. ouvi: Sou filho da selvas. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. Da tribo pujante. Murilo Mendes. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. mas com um nacionalismo crítico e consciente. Mário Quintana. mas apenas aos elementos naturais. ora idealiza a figura do índio. dos costumes e da língua dos nativos. extremamente. 40 . descendo Da tribo tupi. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte. Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. entre outros) retomaram o tema. Carlos Drummond de Andrade. A respeito deles. se citasse o homem brasileiro. destacando a presença do homem e seus problemas. finalizando numa exaltação da natureza brasileira. Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. Chico Buarque e Tom Jobim. Guerreiro. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. Que agora anda errante Por todo inconstante. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade. dramática e épica. nesse poema. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”.

pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado. filhas do céu. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. pessimismo. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Ele próprio o dividiu em três partes.. corrosivo. ouvi. e por Musset. “Leito de folhas verdes”. verdadeira ilha Baratária de D. este sempre idealizado. A morte foi presença constante. que tanto ironizava os outros como a si mesmo. mas nunca se materializam. angelical.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset. onde Sancho é rei (. Junqueira Freire e Fagundes Varela. dúvida. assumindo também a conotação de fuga. abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário. 41 .Guerreiro. Suas poesias falam de morte e de amor. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”. negativismo. vultos que habitam seus sonhos adolescentes. Segunda geração . seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância. Vamos entrar num mundo novo.). ‘Marabá”. de outro. Empregada de egocentrismo. Sou filho do Norte. Produção Literária da Segunda geração . desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo. mulheres misteriosas. sou forte. impregnado de imagem de donzelas ingênuas. “O canto do Piaga”. é também chamada de geração byroniana. a ironia e a autodestruição. de quem herdou as característica do spleen* . mal — do — século -. Quixote. de quem foi leitor assíduo e tradutor. Casiano de Abreu. irreal. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. além do poema épico inacabado “Os timbiras”. terra fantástica. Canção do tamoio”. o poeta satânico.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron. dócil. nasci: Sou bravo. Guerreiro. o verdadeiro.o sarcasmo.. Meu canto de morte.

anjo e demônio. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. entregando-se a alguns exagero nas metáforas. estudante de Direito. a morte. foi perfeitamente romântico na forma. cantou a República. 42 . incestos. a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. amou e foi amado por várias mulheres. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. traições. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. poeta. o próprio Álvares. E um livro em prosa. Seu principal representante foi Castro Alves. no entanto. verdadeira medalha de duas faces.A razão é simples. poeta da última geração. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. ora meigo e sentimental — ou seja. assassinatos. obra confusa. como um pintor febril e trêmulo”. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. típicos do condoreirismo. rápida. Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária. mas. a mulher. os oprimidos. que realizei à pressa. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia. tem horizontes mais amplos. Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. Cantou o amor. mas também pela realidade que o rodeava. daí ser conhecida como. livro de contos fantásticos. bêbados. Castro Alves cultivou o egocentrismo). bacanais. as lutas de classe. educado pela literatura de Victor Hugo. Teve muitos amores. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico. mistérios e morte. comparação grandiosas. geração hugoana. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. antíteses e hipérboles. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social. em que seis estudantes. a igualdade. o sonho. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes.” Noite na taverna. Pedro II. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. o abolicionismo. a escola literária que negaria o Romantismo.

. Mas não mo digas descobrindo o peito. no plano 43 . é tarde. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate.. sensual. . individualizada em Eugênia Câmara. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma.. encontramos o adolescente meigo.Mar de amor onde vagam meus desejos. a questão Coimbra em Portugal. o positivismo de Augusto Comte. belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional..” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite. convivemos com esse sensualismo adulto. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto. Boa-noite!. como a lira ao vento.amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso.. Das teclas de teu seio que harmonias.. terno. o socialismo científico de Marx e Engels. E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos. Boa — noite.A poesia Lírica . Maria! Eu vou — me embora.. A lua nas janelas bate em cheio. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico. Que escala de suspiros. Não me apertes assim contra teu seio. Maria! Ë tarde..

por suas preocupações sociais.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. Romantismo: prosa 1 . por vezes. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica. sua obra foi de uma constante pesquisa. Enfim. inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. a decadência da Monarquia. e o caso de Memórias de um sargento de milícias.interno. Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento. a luta abolicionista. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor. o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais. o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. de Manuel Antônio de Almeida. e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil. Respondendo às exigências do público leitor. profissionais liberais e jovem estudantes. todos em busca de ‘ entretenimento “. criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica. Algumas poucas obras fugiram desse esquema. agora transformado em corte. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo. pois uma “realidade” que lhe convém. neologismos e um certo rebuscamento que beira. e mesmo de 44 . e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. aproxima-se da terceira geração. palavras inglesas.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

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As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

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índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

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o personalismo cede terreno ao universalismo. e Memórias póstumas de Brás de Cubas. eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. de Aluísio Azevedo. com os romances realistas e naturalistas. que é sempre um “amigo da casa”. A Academia Brasileira de Letras. os autores realista são adeptos do determinismo. No século XIX. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações. com o Parnasianismo. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. no que se refere à hereditariedade. principalmente os naturalistas. os autores desse período são antimonárquicos. templo do Realismo. e O Ateneu. ambos de Cruz e Sousa. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. dessa forma. Casmurro. é de 1900. formados pelo marido traído. o Realismo só se preocupa com o presente. momento e raça — esta. e na poesia. Ideologicamente. pela mulher adúltera e pelo amante. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. refletindo. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. é de 1904.o curso de nossas letras: O mulato. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. de Machado de Assis. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. São anticlericais. como se observa na leitura do romance como O mulato. foi fundada em 1897. do socialismo e do evolucionalismo. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna. o primeiro romance realista de nossa literatura. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893. Na realidade. mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. com todas as suas variantes. em 1922. ambos de Aluísio Azevedo. de Machado de Assis. em que são publicados Missal e Broquéis. Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. do mesmo autor. Esaú e Jacó. Basta lembrar que O. com o contemporâneo. o “não — eu”. a postura do positivismo. de Raul Pompéia. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX . Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. O cortiço. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele.

vive do capital. há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. vida. que enfatiza a natureza animal do homem. Dom Casmurro. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. o mesmo acontece com Bentinho. Em conseqüência. nem Bertozela. move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais. O romance realista é documental. tão ao gosto naturalista. “O romance é o nascimento. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. nem Pombinha. O Cortiço. mas quando a herança de Quincas Borba. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz.Jacó. O Ateneu.beatas. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes. dos personagens centrais de Machado. o grande vilão. em que se valoriza o coletivo. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. isto é. Por outro lado. já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança. Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. retrato de uma época. merece destaque o romance O maluco. antes de usar a razão. Casa de pensão. A constante repressão leva às taras patalógicas. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista. Esaú e . muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão. Nesse particular. de Aluísio Azevedo. paixão e morte de um cortiço”. Finalmente. passando a viver do capital. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro. ora impressionistas. o caso de Raul Pompéia é muito particular. como afirma Antônio Cândido. erroneamente tachados 49 . que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). ou seja. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. Sobre o romance O cortiço. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. nem Rita Baiana. esses romances. mas sim o próprio cortiço.

que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. cada obra pertence ao seu tempo. como o homossexualismo. datada de 1905.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras. Aqui. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. ouço um eco remoto ao reler estas.por alguns de pornográficos. tanto masculino. este me era particularmente prezado. naquele ano de 1876. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. escrito aí vão muitos anos. e alguns contos e novelas de então. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. quanto feminino. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco. Este foi o meu primeiro romance. não lhe altero a composição nem o estilo. em nenhum caso. e faço tais ou quais correções de ortografia. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento. Dado em nova edição. apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. um trecho da “Advertência da nova edição”. Dos que então fiz. sendo. Agora mesmo. É claro que. além disso. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. chamada de fase realista ou de maturidade. portanto. contista e poeta. Machado foi romancista. Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. inclusive. como em O Ateneu. Como outros que vieram depois. eco de mocidade e fé ingênua. apenas troco dois ou três vocábulos. lhes tiraria a feição passada. correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. são mais ousados. 50 . diverso do que o tempo me foi depois. pertencente à primeira fase da minha vida literária. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista.” Observa-se. crônicas e correspondência. portanto. em O cortiço. em temas então proibidos. que não alteram a feição do livro. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas.

ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”. laiá Garcia. 28. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. 19. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião.”. a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas. Apesar de romanesco. Esaú e Jacó. Helena. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa. À primeira vista. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O. as batatas. A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é. na prática. o casamento por interesse. o negativismo. a linguagem correta. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida.. o romance parece girar em torno de um provável 51 . 148. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba.. as frases curtas. No aspecto formal. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160. e restaurar na velhice a adolescência ‘. mais nos interessa. Rubião morre pobre e louco. No auge da loucura. ou seja. páginas realistas.nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). Casmurro é o personagem . Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. A análise psicológica dos personagens. romance narrado em terceira pessoa. A mão e a luva. 121. o egoísmo. ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos. A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. 17. Quincas Borba Quincas Borba. 201. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo. clássica. o pessimismo. Dom Casmurro. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem. Quincas Borba. acreditando ser Napoleão. também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor.

desconfia que Ezequiel. já adulto. Missa do galo. do Norte. Entretanto. o filho. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. a rigor. seja de Escobar. Sérgio. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. o Ateneu é o Colégio Abílio. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento. a do governo. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. Entretanto. do Norte. a fronteira entre a loucura e a lucidez. publicando em folhetins. assim como Raul Pompéia. Os contos Em linhas gerais. Barão de Macaúbas. outra. de uma novela: O alienista. Sempre aparecem a preocupação psicológica. é na realidade o Or. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. ou seja. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico. a ironia social e política. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. Abílio César Borges. abriria o volume intitulado Papéis avulsos. a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. e que representa.adultério: Bentinho é casado com Capitu. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. pois elas se interpenetram e se 52 . em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. Raul Pompéia Raul Pompéia. essas leituras não devem ser feitas isoladamente. no plano político — social. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. A igreja do diabo. O personagem Sérgio. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. O Ateneu — crônica de saudades. entra no colégio com 11 anos de idade. A causa secreta. Nesse mesmo ano. e Aristarco. Um apólogo. é um livro de memórias. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. Visconde de Ramos. Entre santos. como o próprio subtítulo indica. segundo Mário de Andrade. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). O primeiro conto realista de Machado trata-se. Aristarco Argolo de Ramos. de outubro de 1881 a março de 1882. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. amigo do casal. o Dr. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida.

As simpatias verdadeiras eram raras. 53 .. distinções financeiras.. o interno a reflete”. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo. os meninos sentem a necessidade de substitui-los. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade. ele não é um pedagogo. Ele tinha maneiras de todos os graus. segundo a condição social da pessoa. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. à porta do Ateneu. no entanto. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades. Saía indagando o motivo daquilo.. E duramente se marcavam distinções políticas. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada. Arrancados do contato e da proteção dos pais.. sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu. O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa. Afamado por um sistema de nutrido reclame.) Ateneu era o grande colégio da época. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio. o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”. mas um comerciante: “(. baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros. pintando-o jeitosamente de novidade.. disse-me meu pai.complementam. “Coragem para a luta!”.” Ainda assim.. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco. O pai estava dois trimestres atrasados. Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. que não achava em suas contas escolares.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados. segundo a categoria de recepção que queria dispensar.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(.

se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido.. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras.. reluzente como pano molhado. mas vejo. Viu aquele da frente. cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava. provocando-me com surriadas. Aliás. O. Ema não faz apenas o papel de mãe.. faça-se homem. a “lei da selva”. lúcidas. Os fracos perdem-se.) Este que passou por nós. festejando. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos.” Mas adiante Sérgio afirma: “(.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. porém. vivo só e vejo de longe. é preciso força de cotovelos para romper. se decepcionam. o sexo.. Não pode imaginar. nem idiota. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. erigindo. Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema..Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe. ingênuos. Isto é uma multidão.) Olhei furtivamente para a senhora. fortes como a maternidade. pensam que o colégio é a melhor das vidas. faça-se forte aqui. dar a frustração e a decepção quase edipianas. a tendência. Ema.. o tronco sobre quadris amplos. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame. uma vozinha de moça. de uma cor só. Não sou criança.. pervertidos como meninos ao desamparo. E nela os meninos vêem a mãe. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac.. e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(. e que seria também a cor do jambo. esposa de Aristarco.. um conselho. formas alongadas por graciosa magreza. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos. Os rapazes tímidos. com aqueles modos de mulher. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem. em segredo dos pais. mas também a mulher. olhando muito. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza. Esta aparição maravilhou-me. olhos negros.. pensava eu.. pelo contrário: os meninos se frustram. é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos.) chegou a senhora de diretor. Vestia cetim preto justo sobre as formas.. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras.. é o Cândido. Adiantava-se por movimentos oscilados. Quando. Olhe. está vendo? Primeira voz no orfeão. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista. Mas o sexo é um instinto natural. são dominados. ali vem Ribas. sem sangue. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível.. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. pupilas retintas.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores. com o acolhimento dos 54 . Eis alguns trechos: “(.

acha aceitando as regras do microcosmo. a destruição daquele mundo e de seu criador. e aí percebem o mundo sórdido. 5. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto. à lógica e à sonoridade. o grande mundo. Um mundo com regras e leis próprias: o normal. aplicada sob o jugo de regras rígidas. mas apreciam a rima consoante. hiatos. degradante. Sérgio. (. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu. como ele observara. faça-se homem. Eu desejei um protetor. Os parnasianos evitam as aliterações. cultivando a forma para atingir a perfeição.. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo. não teriam consciência de seus problemas. provoca um incêndio. Raul Pompéia. ao final do livro. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. a efeminação mórbida das escolas. levado pela necessidade. Voltam-se. estão perdidos. é a “vingança” de Raul Pompéia.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. também. sob a influência do século XVIII. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. A sintaxe. meu amigo! Comece por não admitir protetores. a correção da linguagem. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. o trabalho de Bocage.. depois do Colégio Abílio. ecos e expressões arrebatadoras. e um valimento direto mais forte do que palavras.prescindir de protetores. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos. naquele meio hostil e desconhecido. No entanto. Américo. prima pela devoção à clareza. no Ateneu é ser frustrado. alguém que me valesse.” Para os meninos submetidos à “lei da selva”. homofonias. que é o regime de internato. homossexual. 55 . Cultuam a estética do Arcadismo. para Basílio da Gama. O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”). complexado. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. Aristarco.mais velhos. sobretudo. os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . propiciadora de originalidade e imortalidade. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. entre brejeiros e afetuosos. destacando. como lhe dissera seu pai. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”.. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época.) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo..

prevalecendo. O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo. estamos no realismo literário. Por isso. aos poucos. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. entretanto. pessimismo e sensualidade. a sensualidade. mas se orientam pelo determinismo. sem. O social perde a força do início. para a paisagem brasileira. graças à ação do meio e das tradições poéticas. De fato. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. sobressaindo-se a alegria. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. A vida é cantada em toda sua glória. Como poeta. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante. suprimir o subjetivismo. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. Sua obra apresenta uma evolução importante. símbolo do ideal de beleza. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. com freqüência. Dão ênfase às alternâncias graves. o Parnasianismo inicial. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. vai se deslocando. Entretanto.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . o conhecimento do mal.privilegiando a rima paroxítona. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. tendendo à busca da simplicidade clássica. representando-a metonimicamente. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. a exigência de precisão. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. Os dois outros volumes de poesias são póstumos. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. postulado pelo poeta francês. Théophile Gautier. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . a riqueza de linguagem e a descrição 6. indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada.

Véus e grinaldas purificadores.ismos Futurismo. Vão as Flores carnais. a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. Surrealismo -. os vários . Um luar de pudor. 57 . representado pelo decadentismo simbolista. mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano.. a Europa suportava a herança do final do século XIX. A essa multiplicidade de tendência. Expressionismo. Silfos* de sonhos de volúpia crescem. Na comunhão das níveas hóstias frias. Ao lado disso. por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores. Luzes claras e augustas. Dadaísmo.. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*.. Cubismo.. caracterizada por duas situações antagônicas. que resultaria na 1 Guerra Mundial... Ondulantes. convencionou-se chamar vanguarda européia.(evidentes colocações pessoais). (Cruz e Sousa) 7 . Erra* nos pulcros*. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. sereno e breve. ou seja. contrastando com o clima eufórico da burguesia. Quando seios pubentes* estremecem. durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores. Está sempre presente a sublimação. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. Assim. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve.A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900. responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30). véus de neve. em forma alvadias*. só conseguida na sua totalidade através da morte. De ignotos* e de prônubos* pudores. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. escritos entre 1909 e 1924. virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve. favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade.

o militarismo. vão à frente da unidade. a insônia febril. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. o passo ginástico. a total identificação entre o movimento e seu líder. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 . Nosso coração não tem a menor fadiga. a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini. a bofetada e o soco. o hábito à energia e à temeridade. porque ele está nutrido pelo fogo. A partir do início do século XX. o patriotismo. tanto na linguagem como na composição. o gesto destrutor dos anarquistas. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles. não satisfeitos com o que então se produzia. Assim. o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo..” "Nós queremos demolir os museus. as belas idéias que matam.A palavra vanguarda deriva do francês avant . pelo ódio e pela velocidade!. no campo das artes e das idéias. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti. da máquina. O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem. durante uma campanha. passou a ser empregada para designar aqueles que. e o menosprezo à mulher. Ou seja. combater o moralismo. nós queremos exaltar o movimento agressivo. termo militar que designa aqueles que. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro. buscavam novas formas de expressão artística..” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias. dispondo os substantivos ao acaso.garde.. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística. o êxtase e o sono.. estavam à frente do deu tempo. pelo advérbio e pela pontuação. o salto perigoso. Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo. passou a definir artistas e intelectuais que. segundo. da eletricidade do automóvel. a audácia e a revolta. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti. as bibliotecas. como nascem”. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944). propondo “a destruição da sintaxe. a partir de 1919.” Em 1912. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna.” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa.

Cézanne e Gauguin. de imagens nascidas em nosso mundo interior. além do poema “Ultimatum”. com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. Mário de Andrade vem a público negar. é um rosto distorcido. notadamente entre 1910 e 1920. de Munch. assemelhava-se à caricatura. na pintura O grito. mais do que o movimento futurista. Temendo uma identificação com o fascismo. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). levando Oswald a saudar. a figura de seu líder. não relacionando . Disse e repito-o. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. uma caricatura. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. uma máscara.seguidores. É o que se pode perceber. E. expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. Oswald de Andrade. dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. Por outro lado. aceitavam suas idéias artísticas. realizou-se “espetáculo futurista”. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. na Alemanha. Apollinaire e Blaise Cendrars. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro. Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. H. como por exemplo os futuristas. ou seja. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura. Tenho pontos de contacto com o futurismo. errou. o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. numa tela ou numa folha de papel. de Álvaro de Campos. Em 1917. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. em Lisboa. Raul Leal. mas repudiavam seu posicionamento político. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo.” Em Portugal. que continha texto de Almada Negreiro. 59 . da materialização. pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. “ao contrário de outras vanguardas. chamando-me de futurista. Daí a importância da expressão. em 1921. pelo contrário. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. por exemplo. Mário de Sá — Carneiro. Por sua característica. Gombrich assim comenta a obra de Munch. portanto o movimento com o fascismo. em novembro do mesmo ano.

etc. Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. No Brasil. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade. de 1907. literatura. O Dadaísmo Em 1916. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura. no jornal Diário de São Paulo. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. adjetivos e pontuação. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. e pelo menosprezo por verbos. segundo Picasso. Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. da rima e da harmonia. temos o famoso poema de Apollinaire. escultura). Ao lado. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . edição de 18 de maio de 1947.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque. considerada a primeira obra cubista. valorizando as formas geométricas (cones. onde nasceu o pintor). Como exemplo de texto cubista. cilindros. em plena guerra. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. Assim como na pintura. Na literatura. quando tudo fazia supor uma vitória alemã.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. a Pagu. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). na década de 20. A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. na Suíça. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. música. de frente. jogados aparentemente de forma anárquica. A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. esferas. um grupo de refugiados em Zurique. e a chamada poesia concreta da década de 60. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura. cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. as outras três têm feições que lembram máscaras africanas.

das inconseqüências: A VIDA.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. Gombrich. em sua História da arte: “(. completa. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara. da liberação do inconsciente.. ou seja. o presente e o futuro. importante era o grito. A propósito. também éconta o manifesto. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. daí ser contra as teorias. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos. Entretanto. ao acaso) para batizar o movimento. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada. Aliás. o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. como afirma um de seus iniciadores. Tristan Tzara (1896-1 963). o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. não significa nada. Varrer. suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior. Como afirma EH. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”. uivos das dores crispadas. Foi essa idéia que fez os surrealista 61 . entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. da valorização do sonho. de loucura agressiva. A própria palavra dadá. os quais demonstram que.. como sou também contra os princípios. em 1924. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar.” Importante era criar palavras pela sonoridade. Negando o passado. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos. limpar. em busca do homem primitivo. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo. pouco se importando com o leitor. uivos das dores crispadas.Dadaismo. por André Breton (1896-1970).” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. as ordenações lógicas. negativo. quebrando as barreiras do significado. no prefácio a Paulicéia desvairada. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos. escolhida (segundo eles. a executar.

podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . já promovem rupturas com o passado. No Brasil os. por exemplo. a influência de Freud é marcante. com a publicação de dois importantes livros — Os sertões.O Pré-Modernismo Historicamente. com propostas realmente inovadoras. medos. limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários. não sendo ainda modernos. no Brasil. por apresentar individualidades muito fortes.Modernismo não constituir uma “escola literária”. de fato. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. ainda. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso. o sono e o sonho. 9 . e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. há quem afirme que o século XX só se inicia.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta. Graça Aranha. De fato. com a eclosão da 1 Guerra Mundial. que continuavam a produzir. com a realização da Semana de Arte Moderna. abordaremos o período que se inicia em 1902. Na realidade. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. Assim. até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos.” Em Salvador Dali. essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. de Euclides da Cunha. São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. Características Apesar de o Pré. Lima Barreto. o mais extravagante dos surrealistas. O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. não constitui uma “escola literária”. ou seja. não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário.. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros. desde os poetas parnasianos e simbolistas. seguindo determinadas características. Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte. traumas). frustrações.

por exemplo. escarro. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista). Os sertões. vômito. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. dos caboclos intenioranos. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira. Cidade Mortas. o Espírito Santo com Graça Aranha. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. o “pai do determinismo” -. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. e Canãa. cientificista e naturalista. quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. iniciado em 1922. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). vermes). dos subúrbios. por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). os funcionários públicos. Ligação com fatos políticos. Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe. Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa.- Ruptura com o passado. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). o subúrbio carioca com Lima Barreto. os mulatos. o Brasil não — oficial do sertão nordestino. é o grande tema do Pré — Modernismo. 63 . Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino. com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. o caipira. mais admirado é o escritor que a escreve. o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. há esse caráter inovador em determinadas obras. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada). Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista. A Linguagem de Augusto dos Anjos. era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor.

é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro. Só quando pisou o solo baiano. Daí o caráter revolucionário de Os sertões. como correspondente de guerra do jornal paulista. quando estava na relação de O Estado de São Paulo. como se pode ver na apresentação da obra. na significação integral da palavra. trata em sua obra da Campanha de Canudos. E foi. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. como - - 64 . Ao mesmo tempo. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia. as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro.. Em seus primeiros artigos sobre Canudos. Denunciemo-lo.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos. O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças.” Para tanto. para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República. Afirma o autor: “(. Nessa época. uma brilhante análise de tipos distintos.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”. um crime.trazendo à luz. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. pela primeira vez em nossas letras. embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região. palidamente embora. a gênese dos mestiços.. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta.” Este é um outro aspecto do livro . o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. antes o olhar de futuros historiadores.

os progressos internos da técnica e da educação.” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito. a uma Iracema. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte. mas também como um movimento político e social. Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. justifica a luta. o movimento modernista foi prenunciador. Isto foi o movimento modernista.15 e 17 de fevereiro de 1922. antes de tudo. na - 65 . Dessa forma. bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. contrapõe o sertanejo. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. a um tupi de “I . com a prática européia de novos ideais políticos. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. antes de tudo. por conseguir sobreviver em condições tão adversas. a “sub-raça”. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. no Rio de Janeiro. até perto de 1930.” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico. em 30 de abril de 1942. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. “o sertanejo é. Idealizada por um grupo de artistas. um forte”. Para compreendê-la melhor. Ao falar sobre o homem do sertão. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos. realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13. Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”. A transformação do mundo. Sem dúvida. Assim.Juca Pirama”. a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é.o gaúcho e o jagunço. de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. um forte. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais. o jagunço. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens.

como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira... ainda.) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade.” 66 . embora lançado inúmeros processos e idéias novas. em 1922. em 1929.. Constitui. Tais manifestações. Nelson Werneck Sodré. o Brasil passa por um momento realmente revolucionário. a qual reflete as transformações por que passou o pais. a partir de 1922.) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. ou seja.” De 1930 a 1945. também tipicamente de classe média.. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. assim definido por Mário de Andrade: “(. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. a economia mundial caminha para um colapso. Não por mera coincidência. que se estende de 1922 a 1930. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia. inequivocamente de classe média. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha.maior orgia intelectual que a história artística do pais registra.. Porque. o movimento modernista vive uma segunda fase. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. Nessa década. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana. tem início uma primeira fase modernista. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira. portanto. a meu ver. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias. Isto é. com a revolta militar do Forte de Copacabana. a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética. Nele verificamos. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional. o seu sentido verdadeiramente específico. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista.

irritante. Antonio de Alcântara Machado. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago. feliz.. aconselhado por Pascal. ) Klaxon cogita principalmente de arte. Manuel Bandeira.(. cômico. politicamente identificado com as esquerdas. um nacionalismo ufanista. exagerado. . E. de outro. Guilherme de Almeida e Plínio Salgado. utópico. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. contraditório.. sem renegar o passado. além de Menotti deI Pichia. onipresente. Por isso é polimorfo. a pesquisa de fontes quinhentista. As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe. e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira. destacam-se Mário de Andrade. um nacionalismo crítico. mas de ser atual. Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos.” 67 . Klaxon não é futurista. caminha para diante. sempre. Mas quer representar a época de 1920 em diante. Por isso. Como se percebe já no final da década de 20.. consciente. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. (.. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens. invejado.) Klaxon não é exclusivista. visa o presente.Ao mesmo tempo que se procura o moderno. Essa é a grande lei da novidade. Oswald de Andrade. de denúncias da realidade brasileira. (. o original e o polêmico. Cassiano Ricardo. Klaxon não se preocupará de ser novo. inquieto. . a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas). ) Klaxon sabe que o progresso existe. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. identificado com as correntes políticas de extrema direita. insultado. sempre. ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. Klaxon é Klaxista.

a alma da nossa gente. finalmente. numa viagem a Paris. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste. . cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo. edição de 17 de maio de 1929. através de todas as expressões históricas.. inexplorado e misterioso. Esse fato.. Entretanto. com sede em Recife. um órgão político. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo. afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. entre outras coisas.• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade.” • A Revista “(. Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa. através de quatro séculos.) Aceitamos todas as instituições conservadoras. como o fez.” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano... A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração. intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’.o grupo ‘verdamarelo’..) Somos.. e que. de que alguns já desconfiavam.) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. no encantamento das descobertas manuelinas. Estava criada a poesia “pau —brasil’. (. lança o Manifesto 68 . que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo. A volta à pátria confirmou. que. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. a sua própria terra. da própria determinação instintiva. pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil. deslumbrado. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. à tirania das sistematizaçôes ideológicas. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. sem quebra de nossa originalidade nacional.

Em janeiro de 1928. abre-se um novo período na história literária do Brasil. econômico e culturais”. José Américo de Almeida. Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador.Regionalista de 1926. A primeira contou com 10 números. exposições de arte. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial. no romance. Vale lembrar que. Assim a par das pesquisas estéticas. 69 . Em 1945. Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. o universo temático se amplia. José Lins do Rego. o Centro editaria uma revista. “que come”). publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. das explosões atômicas. Além de promover conferências. vive-se depressão econômica. a partir da década de 1930. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. ano do fim da guerra. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. a João Cabral de Meio Neto. poru. da criação da ONU e no plano nacional. Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. no plano interno. O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. de março a agosto de 1929. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”. congressos. no Estado Novo. com nomes que vão de Graciliano Ramos. na poesia. segundo os antropófagos). e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. que criara a Escola da Anta. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. da derrubada de Getúlio. ‘homem”. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais.

os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior. meu coração não é maior que o mundo. em verdadeira profissão de fé. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante. cultivando o verso livre e a poesia sintética. repensando nossa história com muito humor e ironia. que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período. de compromissos. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. Murilo Mendes. 70 . de Jorge de Lima. a propósito. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”. declara: “Não. de que é exemplo o poema “Cota zero”.Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana. como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos ." Formalmente. Lembramos.que animação! Um pic-nic com carabinas. seguiu a trilha aberta por Oswald. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase. de Drummond: "Stop. É um tempo de definições. fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. com seu livro História do Brasil. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo. ALGUMA POESIA (1930). a Mário de Andrade.

Por isso me grito. sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso. nos movimentos. abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. não nos afastemos.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. nas almas. Por isso gosto tanto de me contar. vamos de mãos dadas. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -. Desloco as consciências. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. longe de significar derrotismo. versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. Não desprezo nada que tenha visto. caminha para uma poesia religiosa. Não nos afastemos muito. Por isso freqüento os jornais. Toco nas flores. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.E muito menor. Destelho as casas penduradas na terra. nos sons.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. Nele não cabem as minhas dores. ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo. Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão. me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos. Por isso me dispo. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. 71 .

Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”. São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. encontramos autores como José Lins do Rego. Graciliano Ramos. mística. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. Assim é que. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. Mundo enigma. glorifico o soldado vencido. da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. As metamorfoses. e ando nos quatros cantos da vida. os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. Sua obra ganha em densidade. Poesia liberdade. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja. tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. O visionário. o material e o espiritual. escrito em parceria com Jorge de Lima. em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. utilizando-se para isso da lógica. Nada me fixa nos caminhos do mundo. José Lins do Rego. Surge dai a consciência do caos. tema constante em sua obra. o poeta não abandona a temática social. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. de um mundo esfacelado. de “restauração da poesia em Cristo”. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 . Consolo o herói vagabundo. mais maduro. de uma civilização decadente. o finito e o infinito. RacheI de Queiroz. pronunciada em 1943.” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). desarticulado. não posso amar ninguém porque sou o amor. Múltiplo.a rua estala com os meus passos. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30. longe como o diabo. uma vez que. Jorge Amado e Érico Veríssimo. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos.

o intenso movimento migratório. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus. acima de tudo. Sem ele não haveria eternidade. Levamos uns anos para chegar ao povo. Ele tinha todo o oiro. nos encontrar com o povo.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. o drama da economia cacaueira. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. decadência dos bangues e engenhos. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. queremos. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. Terras do sem —fim. O nosso romance tem um século. foi A bagaceira. não cabe culpa ao romancista. com imparcialidade e paixão. a fome. podemos dizer. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. toda a alma. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. sua importância deve-se mais à temática (a seca. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. Nesses dois livros tentei fixar. que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira. ou antes. em 1850. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos. Hoje. O mestre Manuel Antônio de Almeida. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza. no Brasil. que andava perdido. publicado em 1928. “Em verdade este romance e o anterior. os retirantes. o poder político nas mãos de interventores. nos dera o roteiro. afirma Paulo Honório. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. Sem o povo não haveria eternidade. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. a miséria. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. O segredo era chegar até o povo.“Nós. de José Américo de Almeida. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso. 73 .

em decorrência da situação adversa. sua terra. o cenário é o engenho Santa Rosa . a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família. e nem parece gente branca. Na narrativa. A partir de então. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. a relação afetiva entre Vicente. O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. passando a valorizar a análise psicológica. cujo título refere-se à grande seca de 1915. que. me disse Tia Maria. do velho coronel Zé Paulino. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca. Em todo o ciclo. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. o que resulta em uma narrativa dinâmica. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. foi publicado em 1937. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. destacam-se duas situações: primeira. Isto 74 . apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. povoam o Santa Rosa o tio Juca. sem dúvida O Quinze. e Conceição. sua gente. moço mas rude. é o próprio José Lins do Rego). em muitas passagens. as secas são referências constantes em seus romances. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. vivida pela escritora em sua infância. Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. moça culta da capital. mais político. esmagados pelas poderosas usinas. Chegou tão alvo. Além deles. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. como para Vicente. embora o primeiro superponha-se ao segundo. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos.

Sucede. De manhã à noite. Seu avô ontem me falou nisto. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. após o Menino de engenho. Uma grande melancolia os envolve de sombras. Carlinhos foge. Pelo contrário.Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio. há mais de um mês que está de cama. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina. A história desses livros é bem simples: . em 1943. não vá atrás destes moleques para toda parte.faz mal. você não. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. Os meninos de Emilia já estão acostumados. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Doidinho. os Ricardos. José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. ponto máximo de sua obra. sofrido e fracassado. Depois de Moleque Ricardo veio Usina. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. Carlos de Meio. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. se escraviza. O filho do seu Fausto. e em seguida. porém. Veio. têm o mesmo destino. pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’. estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. no prefácio ao romance Usina. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. com ferramentas enormes. espatifado. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras.” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. 75 . Você é um menino bonzinho. Viveram tão juntos um do outro. Carlos de Meio havia crescido. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. foram tão íntimos na infância. Ricardo e Santa Rosa se acabam. solto como um bicho. Pode ser que se pareçam. Além do ciclo da cana. com máquinas de fábrica. de pés no chão. As febres estão dando por aí. no Pilar. Entretanto. Bangue.” O próprio José do Rego. os chamados ‘moleques de bagaceira’.

A provável fonte temática. como no inicio de Vidas secas. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. viventes. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. a morte é uma constante. A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas. como afirma o próprio autor: “(. Além disso. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Em seus romances. Coitado. Nesse contexto violento. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens.” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. e não guardava lembrança disto. Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome).) Os cegos cantadores. Assim.” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas. capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. morrera na areia do rio. O papagaio é sacrificado. dois humanos infantis sem nome. bem como a oralidade da narrativa. em nome da sobrevivência dos demais. teria sido a literatura de cordel. um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. Baleia jantara os pés. a lei maior é a da selva. decorrente de relacionamento impraticáveis. é o final trágico e irreversível. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho. Em conseqüência. nesses casos. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. identificados como “o mais velho” e “o mais novo”. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. ou ainda. tinham o que contar. contando com o papagaio. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço.como o misticismo e o cangaço. porque tinham o que dizer. tensão essa geradora de um conflito intenso. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural. ela atrapalha a caminhada da família. homem x meio social. nas palavras do próprio autor... Portanto. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 . num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. outro nome próprio. misticismo e seca”. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie. presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. amados e ouvidos pelo povo. devorado canibalisticamente. a cabeça os ossos do amigo. onde haviam descansado.

. o latifúndio. dentro da posição pessimista e negativista do autor. segundo uma visão distanciada da real idade. o drama dos retirantes. )no ângulo da sua arte. segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. estes últimos símbolo da 77 . são projeções deste impulso fundamental. em brilhante tese sobre o autor. Dai Rolando Morei Pinto. desejos e esforços. a caatinga. e que tanto os personagens criados quanto. no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. gestos.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. na palavra inútil: “Parece que. pela cidade. mas o que as circunstâncias impõem. há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem. Seus personagens são seres oprimidos.. pelo sertão. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor. atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). em seguida. Paulo Honório e Fabiano. quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. a cidade. São Bernardo e Angústia). não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. principalmente. intenções. c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere). afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. ao lado do retrato e da análise social. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. moldados pelo meio — Luis da Silvam. entretanto. tudo se torna inútil.à realidade. que constitui a unidade profunda dos seus livros. Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. o qual. E o crítico conclui: “(. E dentro das estruturas vigentes. ele próprio. em que o autor se coloca como problema e como caso humano.

Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. fechou os olhos. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. recuaram-se. a viagem progredira bem três léguas. como 78 . Acerca deste último aspecto. Seus romances. Como isto não acontecesse. analisar toda uma sociedade. Arrastaram-se para lá. seja como homem público. Não obtendo resultado. Ordinariamente andavam pouco. Os juazeiros aproximaram-se. devagar. seja como escritor. A folhagem dos juazeiros apareceu longe. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Mas o pequeno esperneou acuado. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. tanto em primeira como em terceira pessoa. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. praguejando baixo. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. Do ponto de vista formal. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. O menino mais velho pôs-se a chorar. estavam cansados e famintos. o aió a tiracolo. Fabiano sombrio. cambaio. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. zangado. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica. gritou-lhe o pai. deito-se. Em seus textos enxutos. através deles. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão. a espingarda de pederneira no ombro. fustigou-o com a bainha da faca de ponta. condenado do diabo. o Cavaleiro da Esperança. Anda. Fazia horas que procuravam uma sombra. Trabalha a narração com a mesma mestria. através dos galhos pelados da caatinga rala.ditadura Vargas. espiou os quatro cantos. depois sossegou. sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. sentou-se no chão.

o cotidiano caótico. reaparecem em várias situações e em Vários momentos. por exemplo. é uma crônica de costumes). estendendo-se às últimas produções do autor. De Seara vermelho. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. Como exemplo maior. há uma distância clara e evidente. c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase. se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado. Evidentemente. essa palavra é liberdade. O primeiro é mais político. ao passo que o último é mais lírico. citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. como é o caso de Suor. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. tanto no plano individual como no plano social. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. Podemos notar. cravo e canela (que. verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre. com destaque para Clarissa e Vasco. essa divisão encerra apenas uma finalidade didática. a crise da sociedade moderna. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. para Dona Flor e seus dois maridos. Entretanto. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. no entanto. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50. com forte coloração social. revolucionário. caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. passando por Música ao longo. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. esses 79 . Seus personagens. iniciada com Jubiab áe Mar morto. O país do Carnaval e Capitães de areia. Finalmente. se consolidaria com Gabriela. Cacau. embora negada pelo autor em suas entrevistas. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances. tanto na abordagem psicológica como na social. o autor tem sido acusado de ser redundante.

cujo primeiro número. pertencem os romances O senhor embaixador. que chega até o governo Vargas. de sondagem psicológica. sem exceção.O Pós-Modernismo 1945. A prosa. e 1. O tempo.O arquipélago. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. O prisioneiro e Incidente em Antares. e 80 . que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. que enfoca as primeiras décadas do século XX. lançado na primavera de 1947. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo. ilegalidades. tanto nos romances como nos contos. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. mais dedicada aos temas da atualidade.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. 11. a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922. afirma. como destaque para Clarice Lispector. a Jorge Amado. em busca de uma literatura intimista. em termos de aceitação pública. Logo depois. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. tem início a Guerra Fria. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. igualando-o. segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. encarrega-se da seleção. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. início da redemocratização brasileira. com as lutas do início da República. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam. Mais tarde. fim da Guerra Mundial. O retrato. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. Logo depois. narrativa mais contemporânea. À última fase da produção de Veríssimo. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. convocam-se eleições gerais. exílios. outras. excelente crítico literário. introspectiva. A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. Na poesia. Terra e Cambará. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. um retrocesso. Fim da ditadura de Getúlio Vargas. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. 1945.

os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. na recriação das palavras. que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. entre outros poetas. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. chamado de Geração de 45. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. Com isso. mas sim nos neologismo. suas particularidades. e caminhou para 81 . suas expressões. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. é formado.só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. A princípio. A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. A gente lê. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. que é bom ressoador’. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45. a universalização do regional. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. e não apenas com uma admirável vocação acústica. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. as palavras recriadas ganham força e significado novos. Péricles Eugênio da Silva Ramos. Entretanto. negando a liberdade formal. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra. Esse grupo. por exemplo. Geir Campos e Darcy Damasceno. e ele nesse ponto era bem — assistido. por Lêdo Ivo. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. percebe-se uma revalorização da linguagem. as ironias.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946. a seguir.

Vai. estralos de guampas. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente. Boi bem bravo. booôi!.. vem na vara. . agora. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança. das vacas e touros. Que de trinta. soca soca..de — mundo!. Eh.. na massa embolada. mexe lama.” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia. cambada de filhos — da — mãe. com os cabras saltando e miando de maracajás. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante. 82 . mesmo prestes assim para surpresas más. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -.. trezentos ou três mil. e o berro queixoso do gado junqueira. um boi pintado.. fasta vento. batendo com as caudas. mugindo no meio. E. cabisbaixo. casco a casco. bate baixo. que chegou minha vez!. boi berrando.Ô gostosura de fim . em que o autor narra a caminhada da boiada.Tchou!. escurecidas à fumaça dois tiros. dá direito. dá de dentro. pela estrada.. e que os cavalos gingam bovinamente. mal percebido. vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata.. volta. -Tchou!. querência dos pastos de lá do sertão. rola e trola. vai não volta.cima de Nhô Augusto. bota baba... E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas.. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”. saudade dos campos. com atritos de couros. com muita tristeza. estrondos e baques. de chifres imensos.” Pouco a pouco porém.. satisfeitos.. ‘Um boi preto.. pronta de todo está ela ficando. e as vagas de dorsos... Cada coração um jeito De mostrar o seu amor.. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros. Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. Devagar. sem — querer e imitativo. cada um tem sua cor. vem.. e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos. dá de duro. vai varando. o ritmo e sonoridade de sua linguagem. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto. chifres no ar..

isto é o sertão. uma religiosidade quase medieval. O Urucúia vem dos montões oestes. as vazantes. culturas que vão de mata em mata. pequeno e próximo.. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo. arredado do arrocho de autoridade. já notado.” 83 . almargem de vargem de bom render. então. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. madeiras de grossura. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes. Toleima. O sertão está em toda a parte. que na beira dele. Mas hoje. em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade. demais do Urucúia. pois” o sertão é o mundo “ou. tudo dá — fazendões de fazendas. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro. onde um pode torar dez. outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa. ora universal e infinito. Esses gerais são sem tamanho.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. O gerais corre em volta.. sem topar com casa de morador. de outra forma. o aqui não é dito sertão? Ah. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser. logo na abertura de Grande sertão: veredas..‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”. a pesquisa do ser humano. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães. na obra de Guimarães Rosa. dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. é questão de opiniões. resultando dai o chamado romance introspectivo. Enfim. entre o ser e o não . terras altas. assim explicava a autora seu ato de escrever. . “o sertão é dentro da gente”. Assim o sertão de Rosa: ora particular. eles dizem. para que ele não “forme forma”. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com.” (João Guimarães Rosa) O misticismo. Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G. fim de rumo. o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer. o” estar —no — mundo”. pelo pavor. como um navio. Deus e o diabo. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere.A boiada vai. Por isso.ser. Para os de Corinto e do Curvelo. melhor ainda. até ainda virgens dessas lá há.H. quinze léguas.. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. e onde criminosos vive seu cristo — jesus.

para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo. o Recife. o drama de Macabéa . ao mesmo tempo. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. O melhor está nas entrelinhas. No entanto. e sua cidade. em alguns casos. em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. duelando com as palavras e os fatos. por mais de uma vez. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. São objeto de verificação e análise os mocambos. “exterior e explícita”. A Espanha e sua paisagens. em sua consciência e inconsciência. O melhor ainda não foi escrito. apresentadas a seguir. mas sim nas entrelinhas. em A hora da estrela. seu estado natal. pela tendência ao surrealismo. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações. solitário e inconseqüente. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. Manifesta. seu folclore. O Nordeste com sua gente: os retirantes. Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos. trabalhando metáforas e aliterações. que 84 . Pernambuco. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. Cesário Verde. afirma o poeta. personificado. suas tradições. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. explorando os limites do significado.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. busca fixar-se na crise do próprio indivíduo. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. intimista. rio Capibaribe. No nível temático. inclusive. a herança medieval e os engenhos. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. Augusto dos Anjos. onde me considero um sevilhano.” Essa literatura introspectiva. há que “sevilhizar” o mundo “.No plano da linguagem. de modo muito particular. A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever. “Sou um regionalista também na Espanha. os cemitérios e o aparece. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. a literatura de Paul Valéry. Não há que civilizar o mundo. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. e o drama do narrador.

no ar.Graciliano Ramos e Drummond.o estrume do poema. o próprio rio Capibaribe. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. (fezes como qualquer. extinta de flor.” A partir de 1050. o poeta repensa sua poesia: “Poesia. mas flor. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. Sabia da lama como de uma mucosa. bolha aberta no maduro). como as brisas. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. aprofundando assim a temática social. Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. da brisa na água. da água do corpo de água. dos peixes de água. da fonte cor — de — rosa. Nada sabia da chuva azul. 85 . espécie Esperava as puras. raros. frágeis. evitava seu caule. Delicado. Suas intestinações. calor de nossa boca. a própria arte poética. flor não de todo flor. coou. ou seja. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. transparentes florações nascidas do ar. É o caso de O cão sem plumas. o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. da água de cântaro. seu ovário. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado.

rompendo com “ o vício retórico nacional”. original.” O rio Capibaribe voltaria a ser tema. com a Exposição Nacional de Arte Concreta. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. Entretanto. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -. do século XIX. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras.Devia saber dos polvos. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. pela primeira vez. ganhou inúmeros prémios e aproximou. Entretanto. o “poema — produto: objeto útil”. de poetas brasileiros. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto. também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras. maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional. realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo. quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação). 86 .e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. na sua criação. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano). herdado. Procurava-se assim. principalmente. a participação direta. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari. as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal. musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60.

estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial. forma visual. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo. carga semântica). o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal). em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural.. o visual. a carga semântica..) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural.. apenas dispersado (. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla.) uma ordenação não — linear do poema. documento — programa do movimento. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. Sobre isso.. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor. 87 . dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros.” Apresentamos. seu material: a palavra (som. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla. na qual o branco da página. embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso. Dessa forma.)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo.. economia e arquitetura funcional do verso”). exigindo dele uma participação ativa. Daí defenderem “(.. os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo.segundo os concretistas. assim explicam os irmãos Campos: “(. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta. Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos. • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo.

de Mauro Gama. Ronaldo Azeredo. Ferreira Gullar. caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas.• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. Leia-se. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 . integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. conforme sua posição no texto. como Manuel Bandeira. o texto “Crime 3”. realismo total. A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. cujo sentido e dicção mudam”. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. no entanto. subjetiva e hedonística. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. Augusto de Campos. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. conta uma poesia de expressão. Décio Pignatari. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. por exemplo. no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis. que. o poema — produto: objeto útil. Edgar Braga e Pedro Xisto.

Aliás. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. só amenizados a partir de meados da décadas de 80. Adélia Prado. quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país. Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. Mário Quintana.cavo. por uma rígida censura e enraizada autocensura. de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral.” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada. titulo muito adequado.práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. Manoel de Barros é semente. Poesia Na poesia. ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996). O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. como já denota sua “autobiografia”: 89 . que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. Mantendo a tradição da poesia discursiva. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. Dessa forma. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90. Pelo contrário. duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal. as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos. flor e fruto do Pantanal mato-grossense. filiam-se ao grupo da poesia. na caixa de som (colchão murcho coração). neste capítulo. assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. Produção contemporânea O que chamamos. como veremos mais adiante. Ferreira Gullar e José Paulo Paes. Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. a sonoridade das palavras.

” Inúteis. bichos. 3. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. nada. em suas obras. No texto que abre o Livro sobre nada.. foi Rubem Fonseca. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. talvez seja. uma de terminada visão de mundo. Alguns poetas passam. o parafuso de veludo. Trabalhado com maior ou menor intensidade. pessoa apropriada para pedras. Prosa No romance. “guiados por ele. O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente. Manoel de Barros é um deles. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”. José Montello e José Cândido de Carvalho. etc. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. Carlos Drummond de Andrade. em algum banco de praça. Roberto Drummond e Ana Miranda. espantando da cara as moscas mais brilhantes). Antônio Callado. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. Ainda na prosa. Aguardo um recolhimento de conchas. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. buscando uma nova forma de organizá-lo. Nasci na beira do rio Cuiabá 2. (E que seja sem dor. O nada mesmo. Márcio de Souza. Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. Bernardo Élias. Mas quem roubou a cena nos últimos anos. um abridor de amanhecer.“Não sou biografável. Passei a vida fazendo coisas inúteis. como afirma o editor Ênio Silveira. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. Por isso mesmo. tudo que use abandono por dento e por fora”. etc. em uma fase de sua produção. 1. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo. Em três linhas. Fazer coisas desúteis. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. Ou. onde as verdades essenciais. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. coisa.

Misericórdia. Maldade. explorando técnicas modernas de narrativa. escritas na década de 60. Lourenço Diaféria. Paulo Mendes Campos. A salvação pretendo em tais braços. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. que me rendem vossa luz. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. Nélida Piñon e Rubem Fonseca. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . António Callado. entre outros. Luz. Este último lançou. meu Senhor. tem servido de mestre a muitos cronistas. Moacyr Scliar Rawet. que. analisado no conjunto das produções contemporâneas. que claro me mostra a salvação. é bem verdade. Otto Lara Resende. Arrependido a tanta enormidade. delinqüido vos tenho. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. Jesus! 91 . amor.Gregório de Matos Ofendi-vos. Luis Fernando Veríssimo. Por outro lado. que encaminha a vaidade. Entre os contista mais significativo. Verdade é. Domingos Pellegrini Jr. Tarefas Analise os textos a seguir. João António. Vaidade. que todo me há vencido.. ofendido vos tem minha maldade. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. Abraços. linha de frente de primeiríssimo time.gênero na imprensa. Lígia Fagundes Telles. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. dai-me abraços. em 1995. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede. Vencido quero ver-me e arrependido. meu Deus. hoje. coletânea de oito histórias que. Menção especial merece Sérgio Porto. e ofendido. Luís Vilela. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. que hei delinqüido. o conto. Rubem Braga. Arrependido estou de coração. o Stanislaw Ponte Preta. De coração vos busco. citam-se Dalton Trevisan. Jesus.

que sonora. Nosso céu tem mais estrelas. sozinho. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. E a suavidade do prazer trocada. Minha terra tem palmeiras. à noite mais prazer encontro eu lá. Não sabe ainda que coisa é alegria. Aque alegre. Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. com que a noite escura. Tanto mais aborrece a luz do dia. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia. As aves que aqui gorjeiam. Sufocando o sol a face pura. Onde canta o Sabiá.Texto II Soneto . que suave. Nossa vida mais amores. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. Sem qu’inda aviste as palmeiras. Não gorgeiam como lá. Em cismar. a matutina Aurora O negro manto. Nise Adorada. Mais prazer encontro eu lá. Onde canta o Sabiá. Em cismar. Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. Por te não poder ver. Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores. viria ao menos 92 . Nise. Tinha escondido a chama brilhadora. Minha terra tem palmeiras. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã. à noite. sozinho. Que tais não encontro eu cá.

E voam mais e mais. estridente.” 93 . Outras. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica.. que de martírios embrutece.. se no chão resvala. suspendendo às tetas Magras crianças. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória. o chicote estala. Negras mulheres.. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. Tinir de ferros. Outro.. Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar. estalar de açoite.. Se o velho arqueja... Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote. A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira.. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães. o capitão manda a manobra. Cantando. Presa nos elos de uma só cadeia.. marinheiros! Fazei-os mais dançar!. fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar.... E após.... Em sangue a se banhar. o dolorido afã..Fechar meus olhos minha triste irmã. No turbilhão de espectros arrastadas.. Ouvem-se gritos. geme e ri! No entanto. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho.. moças. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco. outro enlouquece. mas nuas e espantadas.

uma nota daquela música feita de gemidos de prazer. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. era o veneno e era açúcar gostoso. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. trabalhada De divas mãos. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda. Ó almas presas. estrelas. que o atordoara nas matas brasileiras. brilhante copa. Depois. sonhando. canora e doce. um dia. natureza. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas. era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta.E ri-se a orquestra irónica. atroz. preces ressoam E ri-se Satanás!. de áureos relevos. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. do ouvido aproximando-a. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta. que abre feridas com seu azeite de fogo. piscando-lhe as artérias. e. a um novo deus servia. olhando imensidades. a muriçoca doida. às bordas Finas hás de lhe ouvir. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia. Vinda do Olimpo. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. Mares. funéreo! Texto VIII 94 . ora repleta ora esvazada. Soluçando nas trevas. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. maldições." – fragmento de O Cortiço. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos. a lagarta viscosa... Ignota voz. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional. uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. ais.. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais.. ela era a cobra verde e traiçoeira.. Mas o lavor da taça admira. que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. Cárcere das Almas . Toca-a.. entre as grades Do calabouço. Já de aos deuses servir como cansada. Da Dor no calabouço. estridente. tardes. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa.

1994 HELENA. 1963 GOMES. graves. Movimentos de vanguarda européia. 1993 NICOLA. Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. J. Lucia. Porto: Porto Ed. 1968 CIDADE. 1998 SARAIVA. O simbolismo. 9ed.). Otto Maria. 1980 CARPEAUX. São Paulo: Scipione. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. São Paulo: Cultrix. 2ed. 1976. Rio de Janeiro: Tecnoprint. São Paulo: Scipione. 3ed.Nesses silêncios solitários. 95 . Oscar. 3ed. São Paulo: Ática. A. Álvaro Cardoso. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. Coimbra: Armenio Amado. História da literatura portuguesa. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI. História concisa da literatura brasileira. & LOPES. Alfredo (org. José de. Hernani.

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