FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

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Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

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lança mão do discurso metafórico. Funcional 4. plurissignificativo 4. literário 2. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. orações. Cotidiano 2.texto = entrelaçamento de linhas. períodos que formam sentido. fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1. Linguagem automatizada 5. Técnico 3. Transparente 6. opaca 6. denotativa Texto obra 1. linguagem desautomatizada 5. ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3. Conceitual 7. conotativa 4 .

Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade. mas no seu sentido profundo. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. pelos interesses desse grupo. 5 . Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. nas entrelinhas. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena. O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto. em última análise.

que nos faz lembrar de um conceito (o significado). o conceito. com o qual almeja provocar mudanças .e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível. ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo.Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1.3 recriação da linguagem 2.uma parte perceptível. percebemos um conjunto de sons ( o significante).2 reflexão sobre o real 2. numa palavra que ouvimos. Por isto. metáfora 3. para obter aquilo que se deseja. um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 . isto é.= conjunto de idéias próprias de um grupo. metonímia 2. de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . constituída de sons .1 valorização da forma 2.4 plurissignificação 2.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas. valores . mas interdependentes. A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado.distinção e características 2. 1. A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra. Denotação e conotação 2. Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida. constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão . Texto literário e texto não-literário . intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça.

de ordem abstrata. subjetiva. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . constante. de uma época a outra. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. naquele que lhe atribuem os dicionários. isto é. literal. virtuais. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. reações psíquicas que um signo evoca. Ela designa ou denota determinado objeto. Por exemplo. valores afetivos e sociais. explícito. Conotação é a significação subjetiva da palavra. evocando outras idéias associadas.expressão. as palavras senhora. Portanto. mas têm conteúdos conotativos diversos. de uma classe social para outra. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos. que são apenas sugeridos. está ligada à ambigüidade. Desta maneira. Denotação é a significação objetiva da palavra. conotativos. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões. referindo-se à realidade palpável. negativos ou positivos. esposa. mulher denotam praticamente a mesma coisa. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. seu sentido é objetivo.

Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. isto é. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade. a sensibilidade. o temperamento.A respeito de conotação. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. em relação à coisa designada. a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. algum ponto em comum. pelo acréscimo de um segundo significado. criada no trabalho mental de apreensão. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. do autor ou leitor. que exige variação e continuidade. Esse é. Por exemplo. quando dizemos "As 8 . que variam conforme a experiência. Othon M. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. essencial para que se realize qualquer processo de mudança. um juízo. pois metaforização é conotação". Conotação é. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. quando apresentam traços semânticos comuns. possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. Dessa maneira. na verdade ele opera com regras pragmáticas. de implicação. o traço característico do processo metafórico. uma opinião. mas sim de regras conversacionais. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. um estado de espírito. de coexistência. de intersecção. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. assim. amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. portanto. de interdependência. em essência. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. Se entendida apenas no nível semântico. instaurando-se a polissemia. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. um sentimento. de inclusão. na concepção do falante. Em termos cognitivos. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". uma espécie de emanação semântica. A partir daí.

com predomínio de outras funções. devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética. É. Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. envolvendo um processo de recriação dessa realidade. Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio.. porque as pessoas idosas possuem. cabelos brancos. A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 .. com predomínio da função poética da linguagem. plurissignificativa e de intenso dinamismo. não descansam os soldados. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade. tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade. em geral. as relações são mais restritas. que possibilita a criação de novas relações de sentido.cãs inspiram respeito". portanto. não descansam as armas = . estamos empregando cãs por velhice. com predomínio da função referencial da linguagem. No texto não-literário. e na interação entre os indivíduos.

2. O literário possui um universo fictício. singular. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. recriando o real num plano imaginário. em VIDAS SECAS. e por isso degradados ao nível da animalidade. 10 . pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. de maneira indireta. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário." 2. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. não há temas específicos de textos literários. Não é o tema. ou seja. reordenando-a. morfossintático e semântico. as artes desempenham um papel muito importante. Assim. relacionada ao processo de recriação do real. que dizem: "Graciliano Ramos. revelando assim novas formas de ver o mundo. Refletindo a experiência cultural de um povo. onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece. visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. nem temas inadequados a esse tipo de texto. Por isso.2. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. nos planos fônico. Assim. ou de produzi-lo. A título de exemplo. citamos Platão e Fiorin (1991). num país como o Brasil.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. léxico. combinando-as de maneira inusitada.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. prosódico. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. ocorre a desautomatização da linguagem.

por exemplo. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. o poeta francês Paul Valéry diz que. apreendese o essencial. No poema de Ferreira Gullar. No Soneto da Separação. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. literário. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. a partir de suas respostas. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. De repente. resumir as idéias. seu soneto é um texto literário. num texto literário. poéticos e textos não-literários. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. substituir vocábulos por sinônimos. suprimir ou acrescentar vocábulos. Pelo trabalho com a linguagem. não mais que de repente.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. em todos os recursos que Meu povo. perde-se o essencial. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. pelo uso de recursos poéticos. Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. podemos verificar que evidências da literariedade. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 .2. portanto. Podemos. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. textos líricos. A esse respeito. Não podemos. quando se resume um texto literário. quando se resume um texto não-literário. Poderão surgir. sua intocabilidade.

Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. o povo e o poema crescem como a árvore nova. utiliza recursos variados. São alguns deles: 1." c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. alogicidade 12 . musicalidade 2. o poeta é comparado a um plantador. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. ao explorar conteúdos. poema/árvore. crescer. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" .o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. para essa recriação. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. "Ao povo seu poema. desvio da norma culta 4. antidiscursividade 3. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore.No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto. "no povo meu poema". 2. procura recriar a linguagem." Dois planos foram explorados -.5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário. terra fértil. e.

vulcanizadas. muitas vezes. da violação das normas. o uso poético da linguagem. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. Volúpias dos violões. A norma do discurso poético é a antinorma. musicalidade: obtida através do ritmo. construção paratática 1. seja em verso. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. tímido. vivas. Vozes veladas.5. Seja em prosa. veludosas vozes. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. No poema de Cruz e Souza. límpido. argentino. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. das assonâncias. Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. mais uma vez. das aliterações. na maioria das vezes.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. da rima. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . vãs. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. com o raiozinho dos astros. de aço fino. como nestes versos de Murilo Araújo.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. esgrime. vozes veladas. b) Rimas e aliterações . O trilo dos grilos. anáforas a) Ritmo . em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos.

Inversão da ordem natural das palavras. A hipotaxe exige maior elaboração mental. Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. há uma oração principal. falta de consistência gramatical. mudam a classe gramatical. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico. Que o espírito enlaça a dor vivente. hipérbato. a subordinação. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. Nas construções hipotáticas. 3. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. 2. Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra. violação da regência e da concordância.

............ apontando em que versos da estrofe são mais nítidos... ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! ....... Indicar a função da linguagem predominante no poema... o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro..... E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento......sonhou ................... Se um suspiro no seio treme ainda......... É pela virgem que sonhei.. Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto...... identificando os fenômenos líricos predominantes.....Em pálpebra demente. que nunca Aos lábios me encostou a face linda! .. Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema. À sombra de uma cruz...e amou a vida....... Só levo uma saudade ...... Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida... 3................... 2........ Se uma lágrima as pálpebras me inunda. Examinar cada estrofe. separadamente.......... 15 . e escrevam nela: Foi poeta ...... De ti....é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas......... Roteiro: 1.....

Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). 8. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. criando uma realidade ficcional. Há. estrutura o espaço. no nível do imaginário. Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). conotativamente.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço. No romance Dom Casmurro. por 16 . Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. da sua morte. verbais e não verbais. cada um deles. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. de Aluísio Azevedo. o processo literário. O texto precisava ser entendido em seu sentido global.4. diagrama ou metáfora do mundo interpretado.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. 2. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. convertido em discurso narrativo como prática semiótica. Dessa forma. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos. analisando-lhe como imagem. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular. 6. 7. Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente. assim como os esquemas de construção textual. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. através da ficcionalidade do espaço. A idéia de morte está presente em todo o poema. três padrões literários. uma das partes da narrativa: 1. de Machado de Assis. usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais. segundo a semiótica literária. o personagem e o acontecimento. que privilegiam. da personagem e do acontecimento. 5. o texto como um todo significativo.

estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . que corresponde à emancipação política do Brasil. ou seja. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. 3. que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. sobre o mundo. Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. de Euclides da Cunha. por exemplo. apontando o tipo de semiotização efetuado.exemplo. 2. Os Sertões. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras. – a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. Tarefas: 1.

que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início.O Barroco 1 . mas NO Brasil.Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 . seguiremos as orientações de Antonio Candido. no Barroco.Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 . não era Literatura DO Brasil.Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira. 1 . de fato. Antes disso.

designaria um tipo de pérola de forma irregular. A origem da palavra barroco é controvertida. escultura e arquitetura da época. a hipérbole e a alegoria. Por essas razões. a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. como a metáfora. o material e o espiritual. do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. Ou. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. o movimento academista ganha corpo. Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista. estende-se à música. dilema que tanto 19 . com sentimento nativista o primeiro manifesto. assimetria. Segundo outros. O final do Barroco só se concretizará em 1768.inicio dos anos 1700. a antítese. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. de Bento Teixeira. No Brasil. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio. como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. ou mesmo um terreno desigual. de Cláudio Manuel da Costa. assimétrico. Além da literatura. o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). rebuscamento. os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil. na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole. Botelho de Oliveira. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. No entanto. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. o pecado e o perdão. pintura. Em qualquer das hipóteses. é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. já a partir de 1724. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente.” Além disso. O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ). que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. sobrecarregando a poesia de figuras.

(Gregório de Matos) 20 . seguindo um raciocínio lógico. culta. A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal.atormenta o homem de século XVII. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. então. E feito em partes todo em toda a parte. Não se sabendo parte destes todo. Em todo o Sacramento está Deus todo. Um braço que lhe acharam. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. Assiste cada parte em sua parte. racionalista. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas. que utiliza uma retórica aprimorada. Em qualquer parte fica o todo. Nos diz as partes deste todo. Mas se a parte o faz todo. Não se diga que é parte. A arte assume. Pois que feito Jesus em partes todos. sendo parte. E todo assiste em qualquer parte. Aparte sem o todo não é parte. de conceitos. uma tendência sensualista. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. do qual deriva o termo Quevedismo. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. sendo parte. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. O braço de Jesus não seja parte. sendo o todo. extravagante. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras.

mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido..Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. carta e sermões. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. Constituem importantes documentos históricos. Sermões São quase 200 sermões. pois tal fato estaria profetizado na Bahia. mas ainda lhe fazem muita honra. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos. (. totalmente oposto ao Gongorismo. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo. Cartas São cerca de 500 cartas. e negro boçal e muito cerrado. e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias. não me leias. Profecias Constam de três obras: História do futuro. os que o querem honrar chamam-lhe culto.) Este desventurado estilo que hoje se usa. próprias dos jesuítas. os que o condenam chamam-lhe escuro. O estilo culto não é escuro. de apresentação.. É possível que somos portugueses. contrária. um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum. é negro. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio. Em estilo barroco conceptista. Vieira seria conceptista pelo processo mental. e havemos de ouvir um pregador em português. 21 . nasceram as primeiras verduras do meu. o melhor da a obra de Vieira. à moda cultista. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. portanto. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. e clássico pela expressão clara e singela. Quando este estilo florescia. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda.

ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas. pregado em São Luis do Maranhão. “Eu sou aquele. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. não perdoarão a estado. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -. Polêmico. em 1640. Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista.. a poesia religiosa e a lírica. também chamado de Sermão dos peixes. a sexo nem idade”. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . esse sermão resume a arte de pregar. Gregório também praticou. e com esmero.” 22 . Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(. ou por parte do pregador.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem. falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges. Bahia. apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus. em 1654.. • Sermão de Santo Antônio.) Ora. vícios e enganos. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima. do pregador e do ouvinte. visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. Vieira incita o povo a combater os holandeses. Peroração — a parte final do sermão. por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. No intróito.

Presumida: vaidosa. Na poesia lírica e na religiosa. que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. transparece certo idealismo renascentista. mas sua existência foi um rosário de culpas. segue um resumido vocabulário. agrado ou elogio em excesso. Soberba: orgulho excessivo. Sua obra permaneceu inédita até o século XX. no melhor estilo petrarquiano. Púrpura: a cor vermelha. presunção. solta. EL-Rei. isto é. sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. social e religioso. Lisonjeada: que recebeu lisonja. Aqui. garbosa. o meio envolvente. quando a Academia Brasileira de Letras. E. publicou seis volumes. arrogância. o clero e. realmente.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. II Poesia lírica. III Poesia graciosa. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. Desatada: desprendida. por 23 . o administrador português. 1923 e 1933. presunçosa. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. empregada no sentido de a galeota solta. bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé. É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana. assim distribuídos: l Poesia sacra. era a própria personificação do Pecado”. Condenou acerradamente a vaidade humana. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. IV e V Poesia satírica. como toda a massa devota de sua época. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. destemida. Airosa: elegante. VI Últimas. numa postura moralista. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. os costumes da sociedade baiana do século XVII.

ainda. galé. Ufama: vaidosa.inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. Nau: navio. nesta vida. a vaidade é Rosa. Galhardia: elegância... É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota.mares de soberba. de pequeno porte. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. isto é. vaidade. com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora . Presunção: juízo baseado nas aparências. nesta vida Rosa. galeão. alentos é complemento da forma verbal preza. na ordem direita ficariam. adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade. Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. Empavesada: enfeitada." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional." Os versos acima. garbo. e explicativo. orgulhosa. Observe que Galhardia é complemento de apresta.. podemos entender como “preza. gosta de receber ânimo. Galeota: embarcação a remo. assim: "Fábio. Fábio.. de símiles. em particular )“ metaforicamente”. por meio de metáfora.o próprio título do poema longos. 24 .. orgulho. Alentos preza : como no caso anterior. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato .

fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. ao final. a recolha. púrpuras mil arrasta presumida. assim. espalhados.” • • Hipérbole . o conflito presente no texto. A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos.o emprego de ferro por machado. realizar-se.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto. como no caso de “púrpura mil”. ao final. a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos). Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente. no caso do soneto analisado. “Disseminação e recolha” Finalmente. esses conceitos e ou palavras são disseminados. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para. 25 . Metonímia . plantados ao longo do poema (como é caso rosa. isto é. a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema.o exagero. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. nau no soneto apresentado) para. que. isto é.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada. Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia. as penas do pescoço douradas. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco. neste caso. semeados. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. Realça-se. Era o único pássaro na sua espécie. provocando um forte impacto. de longo uso desde Camões. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). lançar uma adversidade. plante. uma contrariedade.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

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deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

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caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

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Liberdade. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 .pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. em Romanceiro da Inconfidência. reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. Ë a procura do locus amoenus.” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético. E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia.” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles. liberdade. extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente.abusos da nobreza e do clero (Ilustração). entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência. amor. Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa. A respeito do episódio. bucólica. “Atrás de portas fechadas. E os seus tristes inventores Já são réus. a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. pastoril. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. à luz de velas acesas. palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda.

” Ou ainda sofrimento amoroso. Antes da cadeia. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. a melhor pastora destes montes. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. a simplicidade. tendo como divisor de águas a prisão do poeta. a natureza e Manha. Quanto ao aspecto formal. por meio de palavras. discorre sobre a iniciação amorosa. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. as musas: “Parece. o namoro. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra. 1799 e 1812.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. Nela. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. pastorial. os versos decassílabos. que estes prados. portanto. lá estavam seus interesses econômicos. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. os meus montados São esse. a poesia bucólica. o fingimento poético e o uso de pseudônimos. pastoril. não te nego. a defesa da tradição e da propriedade. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. os sonhos de uma família. e estas fontes Já sabem. temos o soneto.natureza. uma posição política e ideológica. Essa obra. sempre 30 . No entanto. Havia. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. que aí vês. a felicidade do amante. burgueses que eram. que é o assunto da porfia Nise. vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados. foi publicada em três partes nos anos de 1792. a rima optativa e a tradição da poesia épica. a mulher amada.

assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. Tomás Antônio Gonzaga. Depois. 31 . Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. um político sem moral.. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo. Critilo. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. raciocina. que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição. na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala. e o burguês Dr. São poemas satíricos. de Rodrigues Lapa. escritos em linguagem bastante agressiva.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo.numa postura patriarcalista. residente em Madri. ora assumindo a postura de pastor. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). Nessas cartas. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente.” É patente a oposição entre Dirceu. governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). Ver-me-ás folhear os grandes livros. narra os desmandos do governo chileno. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta. vivendo os sofrimentos da prisão. o Fanfarrão Minésio ( na verdade. E decidir os pleitos. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. despótico e narcisista. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída. quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa. ora a sua condição de burguês. principalmente. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga.. As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. Luiz da Cunha Meneses. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado. juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. portanto. Como bem lembra o critico Antônio Cândido.

oitava rima camoniana. Paraguaçu. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. narração e epílogo. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma. o Canamuru. vítima de um naufrágio no litoral baiano. Era Moema. versos decassílabos. já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia. por cruel que brame.Santa Rita Durão Caramuru . Caramuru (Trechos do Canto VI. Várias índias nadam atrás do navio. (. assombradas. que de inveja geme. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo. Quando à forma. constando de proposição. Não vinha menos bela. onde é narrado a morte de Moema. Uma que às mais precede em gentileza.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem. Porém o tigre. o poema é composto de 10 cantos. E ignorado a ocasião da estranha empresa. com quem Diogo se casa e vai a Paris.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. Pasma da turba feminil.. E já vizinha à nau se apega ao leme. incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. Santa Rita não utiliza da mitologia pagã.. do que irada. no geral. mas uma se destaca: Moema. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira. embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. 32 . Diogo Álvarez.) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo. por outro lado. Gupeva e Sergipe. que nada. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). Santa Rita paga um tributo ao século XVIII. mas apenas de um conservadonismo cristão. Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia. como Camões em Os Lusíadas.. após definir-se por Paraguaçu. dedicatória.

por mais que eu te ame. Entre as salsas escumas desde ao fundo. tens coração de ver-me aflita. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema.Acha forças no amor. Mas na onda do mar. “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). Fúrias. raios. soltando o leme. 33 . raio.E sem mais cista ser. Pálida a cor. Nem o passado amor teu peito incita (Disse.. pasma e treme. freme. sorveu-se na água.. cai num desmaio. entre estas ondas A um ai somente.. . com que aos meus respondas Bárbaro. que o ar consomem. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor.. Tornando a aparecer desde o profundo.’ E indo a dizer o mais. (. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio. se esta fé teu peito irrita. penhosa!! Enfim. que. Flutuar... Ah! Que conosco és tu. Só ti não domou.. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas. conosco. moribunda. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco... que enfim o domem. irado.. seus antigos mestres. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas.Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. com suas restrições mentais”.) Perde o lume dos olhos..

E param cheios de temor ao longe. contra os índios dos Sete Povos das Missões. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor. Caititu. e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro. “ entrara no jardim triste e chorando”. Que toca o peito de Lindóia. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. seria concedida aos espanhóis. e temem Que desperte assustada. O Uruguai (trecho do canto IV. 34 . Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta. e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste.. além de quebrar a estrutura camoniana. E fuja. portanto. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética. e lhe passeia. e apresse no fugir a morte.. auxiliadas pelos espanhóis. E nem se atrevem a chamá-la. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. onde é narrada a morte de Lindóia. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. enquanto a de Sacramento. e fere A serpente na testa. instigados pelos jesuítas. Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. uma serpente venenosa.O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. angustiada com a morte da Cacambo. seu irmão. em terras uruguaias. enrolada em seu corpo. A índia. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. e cinge Pescoço e braço.) . e irrite o monstro. a encontra adormecida. e quis três vezes Soltar o tiro. Porém o destro Caititu. Basilio da Gama consegui. “cansada de viver”. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. Fogem de a ver assim. sobressaltados. e lhe lambe o seio. que treme Do perigo da irmã. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. A partir de um tema não adequado ao gênero épico.

sem se mencionar 35 . Cheios de morte. Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. Em 1822. A partir desse momento. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3. a imagem do português conquistador deveria ser varrida.O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. Os. acompanhando as nações independentes da Europa e da América. e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. um dia. o sentimentalismo. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. D. que ao despertá-la Conhece. Os olhos Caititu não sofre o pranto. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. olhos em que Amor reinava. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil. e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. O nacionalismo. com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno. E rompe em profundíssimos suspiros. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. está intimamente ligado a todo o processo de independência política. o subjetivismo. Que os corações mais duros enternece. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional.

Após 1822. na realidade. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga. e tudo se faz por ela. pois. No começo do século atual. só tem uma explicação clara e profunda. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte. novo aspecto apresenta a sua literatura. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. com a chegada da corte.” As características do início do Romantismo são. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. Em 1808. ou em seu nome. financeiras e econômicas. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. que coincidem com surgimento da burguesia). Independência. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais. a Constituição outorgada.. liberdade. finalmente. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. e os únicos que ao povo interessam. é a idéia da pátria.sua carga ideológica. como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. a exaltação da natureza pátria. a busca pelo passado histórico. Portanto. com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil. todas as criações necessárias em uma nova Nação. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. que atraem a atenção de todos.. o Brasil vive um período conturbado. ela domina tudo. Inicialmente. como reflexo do autoritarismo de D.’ No Brasil. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. pois. De 1823 a 1831.) O advento do romantismo. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo. instituições sociais. uma idéia até então desconhecida. são como sinônimos. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. a Confederação do Equador. a abdicação. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 . o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades. ou seja. reformas políticas. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. a Colônia caminhava rumo à independência. carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . em alguns casos. tais são os objetivos que ocupam as inteligências. crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo.

a literatura torna-se mais popular. devem se harmonizar. forma mais acessível de expressão literária. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. A arte romântica. o que leva a uma nova linguagem na literatura. Quanto à forma. que valoriza o folclórico e o nacional . e transforma-se numa forma de auto. em Portugal. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas. que jamais podem agradar. a um público cuja autoridade. ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. nenhuma ordem seguimos. o que não havia acontecido nos períodos anteriores. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço. sobre o nada da vida. na música. por assim dizer. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. material das estrofes. de 1836. sobre as paixões dos homens. A arte deixa. são bons exemplos). o público agora é amplo e anônimos. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett.expressão que cria os seus próprios padrões. na arquitetura. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. a um grupo mais ou menos homogêneo. porém. Surge o romance. ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas.” De fato. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. a igualdade. Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário. o teatro ganha novo impulso. com isso.opõe-se uma arte de caráter popular. No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. além de que. meditando sobre a sorte dos impérios. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 . exprimindo as idéias como elas se apresentaram. ora no cimo dos Alpes. para não destruir o acento da inspiração. Quanto ao aspecto formal. na pintura. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. voltando-se para a imaginação e para os sentimentos. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. no Brasil. Poesia d’alma e do coração. representado pelas mulheres e pelos estudantes. ora na gótica catedral. a construção. admirando a grandeza de Deus. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. e o de Martins Pena.” Realmente. e os prodígios do Cristianismo. agora. reconhecia absolutamente. em principio. isto é.

na literatura brasileira. essas fugas têm ida e volta. A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. e o verso branco. prevalecendo. O romântico. e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. que.e normas estéticas do classicismo. assim. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica. sem rima. O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. Já no final do Romantismo na década de 1860. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. e os prodígios do Cristianismo”. em Portugal. não menos belos. enfim. o “acento da inspiração”. que além de representar as glórias e tradições do passado. da mulher. movimentos populares). do coletivo. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. No fundo. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. Evidentemente. No entanto. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. que conduz à romântica. valentes e civilizados). ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. A literatura passa por grandes agitações. Outra característica marcante do Romantismo. da expressão subjetiva. como o paganismo. as constantes idealizações da sociedade . o subjetivismo. Quanto ao conteúdo. caracterizam a poesia romântica. desenvolve-se uma literatura de caráter social. do primado da emoção. os românticos cultivavam o nacionalismo. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. os heróis são os índios. explodem na famosa Questão Coimbrã. admirando a grandeza de Deus. do social. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. foge no tempo e no espaço. a partir das transformações econômicas. a saudade da infância. publicação do Manifesto do Partido Comunista. que manifestava na exaltação da natureza pátria. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. sem métrica e sem estrofação. O verso livre. 38 . do amor. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool. o ópio. com o culto do individualismo e do pessoalismo. no Brasil. como afirma Gonçalves de Magalhães. perde-se a consciência do todo. e transição para o Realismo. é o sentimentalismo. as “casas de aluguel prostíbulos). A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo.

O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia. individual Pessoal. o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento. “Ainda uma vez adeus”. objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza. Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. a volta ao passado histórico . “Se se morre de amor”. chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo. Nelas. a idéia com a paixão”. a razão sempre perde terreno para o coração. medieval e nacional. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. universal Impessoal. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico. subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . podemos dividir sua obra poética em: lírica.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. de onde surge a denominação geração indianista.

Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. ouvi: Sou filho da selvas. A respeito deles. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. dramática e épica. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte. Guerreiro. descendo Da tribo tupi. Ainda assim. Da tribo pujante. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. Que agora anda errante Por todo inconstante. pois. da musicalidade e do ritmo. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”. mas apenas aos elementos naturais. finalizando numa exaltação da natureza brasileira. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. Nas selvas cresci. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade. ora idealiza a figura do índio. Mário Quintana. É interessante notar que. ele nunca se refere ao elemento humano. entre outros) retomaram o tema. Chico Buarque e Tom Jobim. à moda dos trovadores medievais. Além de exaltarem a natureza. Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão.e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. Guerreiros. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. 40 . Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. Murilo Mendes. Carlos Drummond de Andrade. nesse poema. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. extremamente. dos costumes e da língua dos nativos. o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. destacando a presença do homem e seus problemas. se citasse o homem brasileiro. mas com um nacionalismo crítico e consciente.

dócil. Quixote. o verdadeiro. A morte foi presença constante. e por Musset. mulheres misteriosas. sou forte. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo. Suas poesias falam de morte e de amor. mal — do — século -. Junqueira Freire e Fagundes Varela. desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo. Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. ‘Marabá”. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. irreal. a ironia e a autodestruição.). Ele próprio o dividiu em três partes. impregnado de imagem de donzelas ingênuas. “O canto do Piaga”.. ouvi. mas nunca se materializam. pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado. terra fantástica. Vamos entrar num mundo novo. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. negativismo. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. pessimismo. dúvida. vultos que habitam seus sonhos adolescentes. Canção do tamoio”. este sempre idealizado. onde Sancho é rei (. Guerreiro. de outro. é também chamada de geração byroniana. corrosivo. de quem herdou as característica do spleen* . o poeta satânico. além do poema épico inacabado “Os timbiras”. Segunda geração . verdadeira ilha Baratária de D. assumindo também a conotação de fuga.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron. Produção Literária da Segunda geração . abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário.o sarcasmo. filhas do céu. angelical.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset.. Empregada de egocentrismo. 41 . Meu canto de morte. seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância.Guerreiro. “Leito de folhas verdes”. nasci: Sou bravo. de quem foi leitor assíduo e tradutor. Sou filho do Norte. Casiano de Abreu. que tanto ironizava os outros como a si mesmo.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”.

comparação grandiosas. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. foi perfeitamente romântico na forma. a igualdade. traições. E um livro em prosa. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. Cantou o amor. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. antíteses e hipérboles. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia. tem horizontes mais amplos. educado pela literatura de Victor Hugo. Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social.A razão é simples. o sonho. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. o próprio Álvares. verdadeira medalha de duas faces. bacanais. reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. no entanto. obra confusa. a morte. entregando-se a alguns exagero nas metáforas. ora meigo e sentimental — ou seja. a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. o abolicionismo. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século. 42 . mas. como um pintor febril e trêmulo”. assassinatos. os oprimidos. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. cantou a República. amou e foi amado por várias mulheres. Pedro II. Teve muitos amores.” Noite na taverna. típicos do condoreirismo. a escola literária que negaria o Romantismo. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico. poeta. livro de contos fantásticos. rápida. geração hugoana. estudante de Direito. daí ser conhecida como. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. Castro Alves cultivou o egocentrismo). bêbados. Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária. em que seis estudantes. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. mistérios e morte. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. as lutas de classe. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. poeta da última geração. que realizei à pressa. incestos. anjo e demônio. Seu principal representante foi Castro Alves. a mulher. mas também pela realidade que o rodeava.

como a lira ao vento. o positivismo de Augusto Comte. E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos. Não me apertes assim contra teu seio. terno.. Que escala de suspiros. Mas não mo digas descobrindo o peito. a questão Coimbra em Portugal. sensual. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias. Maria! Ë tarde. Boa — noite. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico.. Boa-noite!... convivemos com esse sensualismo adulto.. .. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto. Das teclas de teu seio que harmonias. é tarde. Maria! Eu vou — me embora.amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso.” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite. no plano 43 . belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional.. A lua nas janelas bate em cheio. o socialismo científico de Marx e Engels.. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate.Mar de amor onde vagam meus desejos.A poesia Lírica . Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma. individualizada em Eugênia Câmara. encontramos o adolescente meigo.

Respondendo às exigências do público leitor. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento. por suas preocupações sociais. a decadência da Monarquia.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor. Enfim. criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil. neologismos e um certo rebuscamento que beira. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. Romantismo: prosa 1 . ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica. e mesmo de 44 . palavras inglesas. profissionais liberais e jovem estudantes. e o caso de Memórias de um sargento de milícias. o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano. Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. por vezes. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX. o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais. a luta abolicionista. de Manuel Antônio de Almeida. Algumas poucas obras fugiram desse esquema. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. aproxima-se da terceira geração. pois uma “realidade” que lhe convém. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo.interno. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. agora transformado em corte. sua obra foi de uma constante pesquisa. todos em busca de ‘ entretenimento “. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

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As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

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índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

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com todas as suas variantes. Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. com o Parnasianismo. que é sempre um “amigo da casa”. principalmente os naturalistas. mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. refletindo. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. com os romances realistas e naturalistas. o “não — eu”. de Machado de Assis. templo do Realismo. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. pela mulher adúltera e pelo amante. e Memórias póstumas de Brás de Cubas. a postura do positivismo. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. A Academia Brasileira de Letras. o primeiro romance realista de nossa literatura. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893. momento e raça — esta. em que são publicados Missal e Broquéis. No século XIX. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte. de Raul Pompéia. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. de Machado de Assis. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. dessa forma. como se observa na leitura do romance como O mulato. O cortiço. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX . eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. São anticlericais. do socialismo e do evolucionalismo. Esaú e Jacó. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . Basta lembrar que O. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. Na realidade. no que se refere à hereditariedade. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. ambos de Cruz e Sousa.o curso de nossas letras: O mulato. em 1922. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações. foi fundada em 1897. do mesmo autor. é de 1904. Casmurro. considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. e na poesia. Ideologicamente. o Realismo só se preocupa com o presente. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. com o contemporâneo. o personalismo cede terreno ao universalismo. é de 1900. formados pelo marido traído. os autores desse período são antimonárquicos. os autores realista são adeptos do determinismo. e O Ateneu. de Aluísio Azevedo. ambos de Aluísio Azevedo.

O Cortiço. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança. dos personagens centrais de Machado. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais. de Aluísio Azevedo. nem Pombinha. Casa de pensão. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. o caso de Raul Pompéia é muito particular. mas sim o próprio cortiço. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). paixão e morte de um cortiço”. “O romance é o nascimento. merece destaque o romance O maluco. que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. Finalmente. o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. vida. esses romances. muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. que enfatiza a natureza animal do homem. como afirma Antônio Cândido. nem Rita Baiana. retrato de uma época. Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. Por outro lado. há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes.beatas. nem Bertozela. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro. não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz. antes de usar a razão. A constante repressão leva às taras patalógicas. vive do capital. o mesmo acontece com Bentinho. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. mas quando a herança de Quincas Borba. ou seja. passando a viver do capital. Dom Casmurro. erroneamente tachados 49 . é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. Nesse particular. isto é. Em conseqüência. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. ora impressionistas. o grande vilão.Jacó. move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. tão ao gosto naturalista. Esaú e . em que se valoriza o coletivo. Sobre o romance O cortiço. O Ateneu. O romance realista é documental. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão.

que não alteram a feição do livro. É claro que. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. Machado foi romancista. datada de 1905. contista e poeta.por alguns de pornográficos. correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. inclusive. este me era particularmente prezado. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento. Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. e alguns contos e novelas de então. apenas troco dois ou três vocábulos. além disso. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco. Aqui. cada obra pertence ao seu tempo.” Observa-se. tanto masculino. que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. em temas então proibidos. e faço tais ou quais correções de ortografia. em O cortiço. ouço um eco remoto ao reler estas. crônicas e correspondência. chamada de fase realista ou de maturidade. não lhe altero a composição nem o estilo. quanto feminino. eco de mocidade e fé ingênua. em nenhum caso. lhes tiraria a feição passada. Este foi o meu primeiro romance. um trecho da “Advertência da nova edição”. pertencente à primeira fase da minha vida literária. como o homossexualismo. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista. são mais ousados. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. Agora mesmo. portanto. sendo. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. Dado em nova edição. escrito aí vão muitos anos. naquele ano de 1876. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. portanto. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas. Como outros que vieram depois. como em O Ateneu. 50 . diverso do que o tempo me foi depois.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. Dos que então fiz.

A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião. páginas realistas. o casamento por interesse. No auge da loucura. o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). A mão e a luva. 148. Rubião morre pobre e louco. Dom Casmurro. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160. 201.”. na prática. No aspecto formal. as batatas. Apesar de romanesco.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem. 121. laiá Garcia. Helena. 17. Quincas Borba. ou seja. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa. Quincas Borba Quincas Borba. Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista. também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor. romance narrado em terceira pessoa.. Casmurro é o personagem .nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. 19. ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos.. e restaurar na velhice a adolescência ‘. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba. À primeira vista. o egoísmo. A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo. acreditando ser Napoleão. clássica. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O. as frases curtas. o pessimismo. o negativismo. a linguagem correta. ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. Esaú e Jacó. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. mais nos interessa. A análise psicológica dos personagens. o romance parece girar em torno de um provável 51 . 28.

desconfia que Ezequiel. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. o Ateneu é o Colégio Abílio. Abílio César Borges. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. Entretanto. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento. Visconde de Ramos. e Aristarco. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida. entra no colégio com 11 anos de idade. A causa secreta. é na realidade o Or. a fronteira entre a loucura e a lucidez. seja de Escobar. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. outra. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. O primeiro conto realista de Machado trata-se. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. Barão de Macaúbas. publicando em folhetins. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. no plano político — social. Um apólogo. Missa do galo. ou seja. a do governo. e que representa. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. como o próprio subtítulo indica. O Ateneu — crônica de saudades. a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. amigo do casal. a ironia social e política. Nesse mesmo ano. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato. Aristarco Argolo de Ramos. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. assim como Raul Pompéia. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. essas leituras não devem ser feitas isoladamente. O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. Sempre aparecem a preocupação psicológica. do Norte. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. O personagem Sérgio. de outubro de 1881 a março de 1882.adultério: Bentinho é casado com Capitu. segundo Mário de Andrade. do Norte. o Dr. o filho. pois elas se interpenetram e se 52 . em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. abriria o volume intitulado Papéis avulsos. Sérgio. Raul Pompéia Raul Pompéia. Entretanto. já adulto. é um livro de memórias. Entre santos. A igreja do diabo. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). de uma novela: O alienista. Os contos Em linhas gerais. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. a rigor.

E duramente se marcavam distinções políticas. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa... baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros. mas um comerciante: “(. Saía indagando o motivo daquilo. distinções financeiras. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados. disse-me meu pai. Afamado por um sistema de nutrido reclame.. segundo a categoria de recepção que queria dispensar. à porta do Ateneu. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento. O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””. o interno a reflete”. Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada. Arrancados do contato e da proteção dos pais.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo. As simpatias verdadeiras eram raras. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico. O pai estava dois trimestres atrasados.. sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu.” Ainda assim.) Ateneu era o grande colégio da época.complementam.. ele não é um pedagogo.. 53 . segundo a condição social da pessoa. os meninos sentem a necessidade de substitui-los. o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”. “Coragem para a luta!”. Ele tinha maneiras de todos os graus. que não achava em suas contas escolares. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco. no entanto. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo. pintando-o jeitosamente de novidade.

pervertidos como meninos ao desamparo. em segredo dos pais. Eis alguns trechos: “(.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. olhos negros. de uma cor só. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. Adiantava-se por movimentos oscilados. se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. faça-se homem. porém. é o Cândido. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac. e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. provocando-me com surriadas... cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava. Os fracos perdem-se. uma vozinha de moça. pupilas retintas. Ema não faz apenas o papel de mãe. com aqueles modos de mulher. Viu aquele da frente. erigindo. um conselho. Não sou criança. nem idiota. Os rapazes tímidos.) Olhei furtivamente para a senhora. O. vivo só e vejo de longe. Olhe.. faça-se forte aqui. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(. Mas o sexo é um instinto natural. dar a frustração e a decepção quase edipianas. Vestia cetim preto justo sobre as formas. Quando. Esta aparição maravilhou-me.) Este que passou por nós.. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos. a “lei da selva”.. fortes como a maternidade.. a tendência. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista. com o acolhimento dos 54 . Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema. Aliás. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras. esposa de Aristarco. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos. é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos. ingênuos. e que seria também a cor do jambo.Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe.. mas vejo.. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras.” Mas adiante Sérgio afirma: “(. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame.. pensam que o colégio é a melhor das vidas. reluzente como pano molhado. Não pode imaginar. olhando muito. se decepcionam. festejando. lúcidas.. ali vem Ribas. o tronco sobre quadris amplos. E nela os meninos vêem a mãe. pelo contrário: os meninos se frustram.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza.. o sexo. mas também a mulher. pensava eu.. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. formas alongadas por graciosa magreza. são dominados.. está vendo? Primeira voz no orfeão.) chegou a senhora de diretor.. é preciso força de cotovelos para romper. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. Ema. sem sangue. Isto é uma multidão.

” Para os meninos submetidos à “lei da selva”. No entanto. para Basílio da Gama. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. Voltam-se. entre brejeiros e afetuosos. Cultuam a estética do Arcadismo. a efeminação mórbida das escolas. Aristarco. não teriam consciência de seus problemas. depois do Colégio Abílio. sob a influência do século XVIII. prima pela devoção à clareza.) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo. levado pela necessidade. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. Um mundo com regras e leis próprias: o normal. faça-se homem. e um valimento direto mais forte do que palavras. 5. que é o regime de internato. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. como ele observara.. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos. é a “vingança” de Raul Pompéia. Raul Pompéia. Américo. O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”).. destacando. no Ateneu é ser frustrado.. mas apreciam a rima consoante.. cultivando a forma para atingir a perfeição. (. Eu desejei um protetor. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. a destruição daquele mundo e de seu criador. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto. alguém que me valesse. Os parnasianos evitam as aliterações. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. ecos e expressões arrebatadoras. naquele meio hostil e desconhecido. hiatos. aplicada sob o jugo de regras rígidas. homossexual. Sérgio.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. o grande mundo. à lógica e à sonoridade. a correção da linguagem. complexado. provoca um incêndio. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época. o trabalho de Bocage. entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. homofonias. 55 . sobretudo. como lhe dissera seu pai. A sintaxe. propiciadora de originalidade e imortalidade. meu amigo! Comece por não admitir protetores. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu. e aí percebem o mundo sórdido. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”. ao final do livro. também. os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . acha aceitando as regras do microcosmo.mais velhos. estão perdidos.prescindir de protetores. degradante.

para a paisagem brasileira. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. a sensualidade. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. Entretanto. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. De fato. cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. suprimir o subjetivismo. Dão ênfase às alternâncias graves. entretanto. símbolo do ideal de beleza. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia. Os dois outros volumes de poesias são póstumos. Por isso. Sua obra apresenta uma evolução importante. com freqüência. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . a riqueza de linguagem e a descrição 6. apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. postulado pelo poeta francês. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. a exigência de precisão. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. aos poucos. Como poeta. mas se orientam pelo determinismo. prevalecendo. Théophile Gautier. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante. graças à ação do meio e das tradições poéticas.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . vai se deslocando. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria. A vida é cantada em toda sua glória. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos. indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada. o Parnasianismo inicial. sobressaindo-se a alegria. estamos no realismo literário. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. o conhecimento do mal. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. tendendo à busca da simplicidade clássica.privilegiando a rima paroxítona. sem. representando-a metonimicamente. O social perde a força do início. pessimismo e sensualidade.

que resultaria na 1 Guerra Mundial. favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade. Erra* nos pulcros*. Está sempre presente a sublimação.. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*. 57 .. sereno e breve. virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve. Dadaísmo. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. Vão as Flores carnais. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. ou seja. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século. convencionou-se chamar vanguarda européia.ismos Futurismo. a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores. (Cruz e Sousa) 7 . Luzes claras e augustas. os vários . Ao lado disso. em forma alvadias*. a Europa suportava a herança do final do século XIX. representado pelo decadentismo simbolista. contrastando com o clima eufórico da burguesia. Silfos* de sonhos de volúpia crescem. De ignotos* e de prônubos* pudores. só conseguida na sua totalidade através da morte. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve. Quando seios pubentes* estremecem. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. véus de neve. caracterizada por duas situações antagônicas. A essa multiplicidade de tendência. escritos entre 1909 e 1924.A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900..(evidentes colocações pessoais). responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30).. Um luar de pudor. Cubismo. Ondulantes.. durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores. mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano.. Surrealismo -. Véus e grinaldas purificadores. Expressionismo. Assim. Na comunhão das níveas hóstias frias.

a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini. o passo ginástico. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado. durante uma campanha.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. porque ele está nutrido pelo fogo. a bofetada e o soco. o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo. a audácia e a revolta.” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa. combater o moralismo. como nascem”.. pelo ódio e pela velocidade!. no campo das artes e das idéias. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti.. buscavam novas formas de expressão artística. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística. o patriotismo. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. da eletricidade do automóvel. o militarismo. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna. dispondo os substantivos ao acaso. as belas idéias que matam. termo militar que designa aqueles que. as bibliotecas. O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909.. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro. o êxtase e o sono. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles. A partir do início do século XX. vão à frente da unidade. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti. segundo. nós queremos exaltar o movimento agressivo. não satisfeitos com o que então se produzia. propondo “a destruição da sintaxe. pelo advérbio e pela pontuação. tanto na linguagem como na composição.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 . Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo.” Em 1912. passou a definir artistas e intelectuais que. o gesto destrutor dos anarquistas.garde.A palavra vanguarda deriva do francês avant . estavam à frente do deu tempo. a insônia febril. a total identificação entre o movimento e seu líder. Assim. passou a ser empregada para designar aqueles que. a partir de 1919. e o menosprezo à mulher. Nosso coração não tem a menor fadiga. da máquina. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias.” "Nós queremos demolir os museus. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944). o hábito à energia e à temeridade.” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados. Ou seja. o salto perigoso..

Disse e repito-o. mais do que o movimento futurista. o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. em novembro do mesmo ano. da materialização. de Munch. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. chamando-me de futurista. em Lisboa. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. pelo contrário. Raul Leal. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. Apollinaire e Blaise Cendrars. ou seja. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura. assemelhava-se à caricatura. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro. levando Oswald a saudar. realizou-se “espetáculo futurista”. Mário de Sá — Carneiro. por exemplo. “ao contrário de outras vanguardas. a figura de seu líder. errou. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. de imagens nascidas em nosso mundo interior. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. Daí a importância da expressão. uma máscara. pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. que continha texto de Almada Negreiro.” Em Portugal. Temendo uma identificação com o fascismo. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. em 1921. mas repudiavam seu posicionamento político. aceitavam suas idéias artísticas. com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. é um rosto distorcido. Oswald de Andrade. Por outro lado. notadamente entre 1910 e 1920. de Álvaro de Campos. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. Em 1917. como por exemplo os futuristas. Tenho pontos de contacto com o futurismo. portanto o movimento com o fascismo. Mário de Andrade vem a público negar. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. Por sua característica. E. Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. numa tela ou numa folha de papel. além do poema “Ultimatum”.seguidores. É o que se pode perceber. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. não relacionando . uma caricatura. na Alemanha. Cézanne e Gauguin. 59 . dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. na pintura O grito. Gombrich assim comenta a obra de Munch. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. H.

Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. temos o famoso poema de Apollinaire. edição de 18 de maio de 1947. de 1907. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon. valorizando as formas geométricas (cones. Como exemplo de texto cubista. na década de 20. a Pagu. temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. Ao lado. esferas. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . quando tudo fazia supor uma vitória alemã. O Dadaísmo Em 1916. cilindros. literatura. na Suíça. considerada a primeira obra cubista. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). música. jogados aparentemente de forma anárquica. e a chamada poesia concreta da década de 60. etc.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque. No Brasil. da rima e da harmonia. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. onde nasceu o pintor). as outras três têm feições que lembram máscaras africanas. um grupo de refugiados em Zurique. em plena guerra. Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. Assim como na pintura. preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. adjetivos e pontuação. e pelo menosprezo por verbos. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. segundo Picasso. de frente. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). no jornal Diário de São Paulo. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. Na literatura. escultura). A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura.

uivos das dores crispadas. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. não significa nada. Foi essa idéia que fez os surrealista 61 . completa. daí ser contra as teorias.” Importante era criar palavras pela sonoridade. por André Breton (1896-1970). suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior. da liberação do inconsciente. Gombrich. ao acaso) para batizar o movimento.. pouco se importando com o leitor.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. importante era o grito. em busca do homem primitivo. escolhida (segundo eles.. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. os quais demonstram que. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”.” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. Aliás. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. Entretanto. o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos. de loucura agressiva. como sou também contra os princípios. como afirma um de seus iniciadores. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo. uivos das dores crispadas. em 1924. o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra. Tristan Tzara (1896-1 963). ou seja. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos. quebrando as barreiras do significado. Negando o passado. da valorização do sonho. no prefácio a Paulicéia desvairada. também éconta o manifesto.Dadaismo. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras. limpar. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada. a executar. das inconseqüências: A VIDA. A própria palavra dadá. Varrer. em sua História da arte: “(. A propósito. Como afirma EH. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. o presente e o futuro. negativo. as ordenações lógicas. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos.

O Pré-Modernismo Historicamente. de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. desde os poetas parnasianos e simbolistas. de Euclides da Cunha. no Brasil. abordaremos o período que se inicia em 1902. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. frustrações. já promovem rupturas com o passado. não constitui uma “escola literária”. São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. Características Apesar de o Pré. De fato. primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte. por exemplo. com a realização da Semana de Arte Moderna.Modernismo não constituir uma “escola literária”. seguindo determinadas características. que continuavam a produzir.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos. Assim. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso. ou seja.. O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. Na realidade. não sendo ainda modernos. No Brasil os.” Em Salvador Dali. traumas). Lima Barreto. a influência de Freud é marcante. podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. medos. de fato. o mais extravagante dos surrealistas. limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo. com a eclosão da 1 Guerra Mundial. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários. por apresentar individualidades muito fortes. há quem afirme que o século XX só se inicia. com propostas realmente inovadoras. 9 . Graça Aranha. o sono e o sonho. ainda. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros. não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário. com a publicação de dois importantes livros — Os sertões.

escarro. com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. há esse caráter inovador em determinadas obras. é o grande tema do Pré — Modernismo. cientificista e naturalista. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. os mulatos. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada). o caipira. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. o “pai do determinismo” -. 63 . dos caboclos intenioranos. Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira. Ligação com fatos políticos. A Linguagem de Augusto dos Anjos. e Canãa. o Brasil não — oficial do sertão nordestino. Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. o subúrbio carioca com Lima Barreto. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino.- Ruptura com o passado. Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista). por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). Cidade Mortas. os funcionários públicos. Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista. mais admirado é o escritor que a escreve. era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor. o Espírito Santo com Graça Aranha. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. vômito. iniciado em 1922. dos subúrbios. Os sertões. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe. vermes). por exemplo.

um crime.trazendo à luz. trata em sua obra da Campanha de Canudos. O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos.. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia. Nessa época. uma brilhante análise de tipos distintos. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. antes o olhar de futuros historiadores. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil.. a gênese dos mestiços.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. Em seus primeiros artigos sobre Canudos. documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro. é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo. Afirma o autor: “(. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”. Só quando pisou o solo baiano. pela primeira vez em nossas letras. quando estava na relação de O Estado de São Paulo. na significação integral da palavra. Ao mesmo tempo. Denunciemo-lo.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano.” Para tanto. para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República. palidamente embora. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta. embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região. E foi. como se pode ver na apresentação da obra.” Este é um outro aspecto do livro . como - - 64 . o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. como correspondente de guerra do jornal paulista. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro. Daí o caráter revolucionário de Os sertões.

Para compreendê-la melhor. a “sub-raça”. os progressos internos da técnica e da educação. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. a uma Iracema. Sem dúvida. Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime. Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. Assim. Dessa forma. de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais.Juca Pirama”. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. com a prática européia de novos ideais políticos. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. no Rio de Janeiro.” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito. A transformação do mundo. a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu. a um tupi de “I .” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira.o gaúcho e o jagunço. bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. justifica a luta. antes de tudo. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. até perto de 1930. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. o movimento modernista foi prenunciador. por conseguir sobreviver em condições tão adversas. Isto foi o movimento modernista. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens. antes de tudo. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte. Idealizada por um grupo de artistas. contrapõe o sertanejo. Ao falar sobre o homem do sertão. o jagunço. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é. em 30 de abril de 1942. “o sertanejo é.15 e 17 de fevereiro de 1922. realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. um forte. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos. um forte”. na - 65 . mas também como um movimento político e social.

. o movimento modernista vive uma segunda fase. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia. ou seja. Constitui. como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira. em 1922.. Isto é. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Não por mera coincidência.) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade. também tipicamente de classe média. o seu sentido verdadeiramente específico. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética.) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. em 1929. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista. ainda. a partir de 1922. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (.” 66 . a qual reflete as transformações por que passou o pais. com a revolta militar do Forte de Copacabana..” De 1930 a 1945. inequivocamente de classe média. embora lançado inúmeros processos e idéias novas. a meu ver. assim definido por Mário de Andrade: “(. a economia mundial caminha para um colapso. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. Porque. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo. tem início uma primeira fase modernista. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana. Nelson Werneck Sodré. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições. Nessa década. o Brasil passa por um momento realmente revolucionário.maior orgia intelectual que a história artística do pais registra. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional.. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias. Tais manifestações. portanto. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira. que se estende de 1922 a 1930.. Nele verificamos. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas.

utópico. Klaxon não é futurista. feliz.” 67 . politicamente identificado com as esquerdas. Cassiano Ricardo. . ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. irritante. exagerado. invejado. . o original e o polêmico. As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe. de denúncias da realidade brasileira. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago. Essa é a grande lei da novidade.(. sempre. sempre. Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos. destacam-se Mário de Andrade. Como se percebe já no final da década de 20. (. Antonio de Alcântara Machado. Klaxon não se preocupará de ser novo. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens.. um nacionalismo ufanista. insultado. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. caminha para diante. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira. Mas quer representar a época de 1920 em diante. (. ) Klaxon sabe que o progresso existe. a pesquisa de fontes quinhentista. onipresente. Por isso é polimorfo. contraditório. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. inquieto. um nacionalismo crítico. identificado com as correntes políticas de extrema direita. Oswald de Andrade. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. consciente. além de Menotti deI Pichia... aconselhado por Pascal.Ao mesmo tempo que se procura o moderno. E. ) Klaxon cogita principalmente de arte. a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas). mas de ser atual. Guilherme de Almeida e Plínio Salgado. Por isso. visa o presente. sem renegar o passado.. de outro. e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta. Manuel Bandeira.) Klaxon não é exclusivista. cômico. Klaxon é Klaxista.

. à tirania das sistematizaçôes ideológicas.. A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração. e que. intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo. da própria determinação instintiva.o grupo ‘verdamarelo’.• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu..) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros. edição de 17 de maio de 1929. um órgão político. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. A volta à pátria confirmou. numa viagem a Paris. afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política. como o fez. Entretanto.) Somos.) Aceitamos todas as instituições conservadoras. Estava criada a poesia “pau —brasil’. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo. (. sem quebra de nossa originalidade nacional. finalmente.. entre outras coisas. deslumbrado. que. lança o Manifesto 68 . Esse fato. através de todas as expressões históricas. no encantamento das descobertas manuelinas. pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil.” • A Revista “(. inexplorado e misterioso. a sua própria terra. através de quatro séculos. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa. com sede em Recife. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste..” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano.. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. . Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo. cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo. a alma da nossa gente. de que alguns já desconfiavam.

Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador. Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. ‘homem”. a João Cabral de Meio Neto. das explosões atômicas. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”. Além de promover conferências. reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. no plano interno. publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. de março a agosto de 1929. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial. José Lins do Rego. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais. Em janeiro de 1928.Regionalista de 1926. poru. em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. congressos. abre-se um novo período na história literária do Brasil. O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. vive-se depressão econômica. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. José Américo de Almeida. Em 1945. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. Vale lembrar que. o universo temático se amplia. da criação da ONU e no plano nacional. da derrubada de Getúlio. o Centro editaria uma revista. 69 . e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. a partir da década de 1930. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. “que come”). no Estado Novo. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. exposições de arte. segundo os antropófagos). com nomes que vão de Graciliano Ramos. no romance. que criara a Escola da Anta. Assim a par das pesquisas estéticas. Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. na poesia. econômico e culturais”. ano do fim da guerra. A primeira contou com 10 números.

seguiu a trilha aberta por Oswald. com seu livro História do Brasil. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). 70 . de compromissos. em verdadeira profissão de fé. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e. declara: “Não. É um tempo de definições. meu coração não é maior que o mundo. mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”.que animação! Um pic-nic com carabinas. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. Lembramos. ALGUMA POESIA (1930). de Jorge de Lima. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. de que é exemplo o poema “Cota zero”. a propósito. cultivando o verso livre e a poesia sintética. os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior. que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período.Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana. fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. Murilo Mendes. como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos ." Formalmente. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. repensando nossa história com muito humor e ironia. de Drummond: "Stop. a Mário de Andrade. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase.

versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. Não desprezo nada que tenha visto.E muito menor. Por isso me grito. Por isso freqüento os jornais. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. não nos afastemos. abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. nas almas.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. 71 . Toco nas flores. Nele não cabem as minhas dores.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. caminha para uma poesia religiosa. Por isso gosto tanto de me contar. vamos de mãos dadas. Desloco as consciências. sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. Destelho as casas penduradas na terra. Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -. ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. nos movimentos. Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. Não nos afastemos muito. nos sons. Por isso me dispo. me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos. longe de significar derrotismo.

São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos.a rua estala com os meus passos. Sua obra ganha em densidade. mística. longe como o diabo. Nada me fixa nos caminhos do mundo. não posso amar ninguém porque sou o amor. pronunciada em 1943. o poeta não abandona a temática social. Consolo o herói vagabundo. uma vez que. Surge dai a consciência do caos. Mundo enigma. Assim é que. José Lins do Rego. o material e o espiritual. Múltiplo. As metamorfoses. mais maduro. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 . da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. de uma civilização decadente. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. Jorge Amado e Érico Veríssimo. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30. de “restauração da poesia em Cristo”. Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. encontramos autores como José Lins do Rego. utilizando-se para isso da lógica. e ando nos quatros cantos da vida.” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. tema constante em sua obra. RacheI de Queiroz. glorifico o soldado vencido. em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. o finito e o infinito. O visionário. Poesia liberdade. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. desarticulado. escrito em parceria com Jorge de Lima. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja. os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -. de um mundo esfacelado. Graciliano Ramos.

Hoje. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. O nosso romance tem um século. não cabe culpa ao romancista. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. que andava perdido. em 1850. O segredo era chegar até o povo. acima de tudo. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. 73 . está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. queremos. publicado em 1928. toda a alma. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. Sem o povo não haveria eternidade. o intenso movimento migratório. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. “Em verdade este romance e o anterior.“Nós. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso. o poder político nas mãos de interventores. O mestre Manuel Antônio de Almeida. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. Ele tinha todo o oiro. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. nos dera o roteiro. o drama da economia cacaueira. espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. nos encontrar com o povo. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa. os retirantes. Nesses dois livros tentei fixar. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. podemos dizer. de José Américo de Almeida. a miséria. no Brasil. Levamos uns anos para chegar ao povo. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. a fome. decadência dos bangues e engenhos. ou antes.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”. Sem ele não haveria eternidade. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. sua importância deve-se mais à temática (a seca. Terras do sem —fim. com imparcialidade e paixão. afirma Paulo Honório. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima. foi A bagaceira. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira.

sua gente. Na narrativa. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca. moça culta da capital. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. A partir de então. apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. vivida pela escritora em sua infância. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. destacam-se duas situações: primeira. o que resulta em uma narrativa dinâmica. e nem parece gente branca. me disse Tia Maria. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos. O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. Em todo o ciclo. Isto 74 . passando a valorizar a análise psicológica. Além deles. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. moço mas rude. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. Chegou tão alvo. embora o primeiro superponha-se ao segundo. que. como para Vicente. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. é o próprio José Lins do Rego). Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. do velho coronel Zé Paulino. em muitas passagens. as secas são referências constantes em seus romances. mais político. povoam o Santa Rosa o tio Juca. a relação afetiva entre Vicente. sua terra. cujo título refere-se à grande seca de 1915. e Conceição. esmagados pelas poderosas usinas. sem dúvida O Quinze. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família. foi publicado em 1937. o cenário é o engenho Santa Rosa . em decorrência da situação adversa.

estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. você não. solto como um bicho. Entretanto. Uma grande melancolia os envolve de sombras.faz mal. ponto máximo de sua obra. Carlos de Meio. Carlos de Meio havia crescido. 75 . com ferramentas enormes. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. no Pilar. Além do ciclo da cana. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. Carlinhos foge. os Ricardos. Os meninos de Emilia já estão acostumados. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. espatifado. Depois de Moleque Ricardo veio Usina.” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. foram tão íntimos na infância. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. e em seguida. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar.Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos. A história desses livros é bem simples: . pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’. De manhã à noite. no prefácio ao romance Usina. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. têm o mesmo destino. As febres estão dando por aí. Veio. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. não vá atrás destes moleques para toda parte. Bangue. com máquinas de fábrica. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto. há mais de um mês que está de cama. após o Menino de engenho. Ricardo e Santa Rosa se acabam. Doidinho. porém. de pés no chão. Viveram tão juntos um do outro. se escraviza. Você é um menino bonzinho. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras. sofrido e fracassado. os chamados ‘moleques de bagaceira’. Sucede. Seu avô ontem me falou nisto. O filho do seu Fausto. Pode ser que se pareçam. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina.” O próprio José do Rego. Pelo contrário. em 1943.

bem como a oralidade da narrativa. morrera na areia do rio. e não guardava lembrança disto. tensão essa geradora de um conflito intenso. Nesse contexto violento. como no inicio de Vidas secas.como o misticismo e o cangaço. homem x meio social. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. misticismo e seca”. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes. Portanto. capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. Assim. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 . presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. ela atrapalha a caminhada da família. amados e ouvidos pelo povo. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. onde haviam descansado. Em conseqüência. Além disso. O papagaio é sacrificado. tinham o que contar. um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. devorado canibalisticamente. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural. Coitado. em nome da sobrevivência dos demais. viventes. teria sido a literatura de cordel. a lei maior é a da selva. a morte é uma constante. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho. decorrente de relacionamento impraticáveis. outro nome próprio. Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. nesses casos. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente. A provável fonte temática. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. contando com o papagaio..” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia.” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas. nas palavras do próprio autor. Baleia jantara os pés. ou ainda. identificados como “o mais velho” e “o mais novo”. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome). porque tinham o que dizer. dois humanos infantis sem nome. a cabeça os ossos do amigo.) Os cegos cantadores. Em seus romances.. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie. é o final trágico e irreversível. como afirma o próprio autor: “(. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo.

Dai Rolando Morei Pinto. moldados pelo meio — Luis da Silvam. o qual. desejos e esforços. mas o que as circunstâncias impõem. ele próprio. o drama dos retirantes. não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. que constitui a unidade profunda dos seus livros. Paulo Honório e Fabiano. a cidade. atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. E o crítico conclui: “(..à realidade. há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem. ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito. tudo se torna inútil. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. são projeções deste impulso fundamental. na palavra inútil: “Parece que. entretanto. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. São Bernardo e Angústia). principalmente. intenções. pela cidade.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. Seus personagens são seres oprimidos. gestos. segundo uma visão distanciada da real idade. ao lado do retrato e da análise social. E dentro das estruturas vigentes. afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. a caatinga. no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor. segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. em que o autor se coloca como problema e como caso humano. o latifúndio. quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. )no ângulo da sua arte. dentro da posição pessimista e negativista do autor. estes últimos símbolo da 77 . c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere).. em seguida. pelo sertão. e que tanto os personagens criados quanto. em brilhante tese sobre o autor.

Em seus textos enxutos. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. sentou-se no chão.ditadura Vargas. Arrastaram-se para lá. através dos galhos pelados da caatinga rala. A folhagem dos juazeiros apareceu longe. espiou os quatro cantos. deito-se. através deles. fechou os olhos. seja como escritor. depois sossegou. estavam cansados e famintos. condenado do diabo. Acerca deste último aspecto. devagar. a espingarda de pederneira no ombro. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. Os juazeiros aproximaram-se. gritou-lhe o pai. Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. tanto em primeira como em terceira pessoa. praguejando baixo. cambaio. Anda. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. como 78 . O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. o Cavaleiro da Esperança. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão. Trabalha a narração com a mesma mestria. Ordinariamente andavam pouco. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. Fabiano sombrio. O menino mais velho pôs-se a chorar. Seus romances. Fazia horas que procuravam uma sombra. seja como homem público. o aió a tiracolo. Mas o pequeno esperneou acuado. Não obtendo resultado. zangado. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica. fustigou-o com a bainha da faca de ponta. recuaram-se. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Do ponto de vista formal. analisar toda uma sociedade. a viagem progredira bem três léguas. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. Como isto não acontecesse.

verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. passando por Música ao longo. c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase. o autor tem sido acusado de ser redundante. embora negada pelo autor em suas entrevistas. Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre. essa palavra é liberdade. De Seara vermelho. a crise da sociedade moderna. apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. no entanto. Cacau. O país do Carnaval e Capitães de areia. Evidentemente. o cotidiano caótico. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. Como exemplo maior. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. Seus personagens. se consolidaria com Gabriela. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. iniciada com Jubiab áe Mar morto. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50. Finalmente. citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. essa divisão encerra apenas uma finalidade didática. se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado. reaparecem em várias situações e em Vários momentos.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. estendendo-se às últimas produções do autor. Podemos notar. tanto na abordagem psicológica como na social. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances. com destaque para Clarissa e Vasco. cravo e canela (que. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna. com forte coloração social. ao passo que o último é mais lírico. esses 79 . para Dona Flor e seus dois maridos. Entretanto. por exemplo. como é o caso de Suor. O primeiro é mais político. revolucionário. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. tanto no plano individual como no plano social. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. há uma distância clara e evidente. é uma crônica de costumes).

O retrato. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. igualando-o. outras. narrativa mais contemporânea.O Pós-Modernismo 1945. e 80 . em busca de uma literatura intimista. pertencem os romances O senhor embaixador. encarrega-se da seleção. O prisioneiro e Incidente em Antares. um retrocesso. Fim da ditadura de Getúlio Vargas. que enfoca as primeiras décadas do século XX. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. introspectiva. À última fase da produção de Veríssimo. segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. e 1. excelente crítico literário. exílios. A prosa. Mais tarde. lançado na primavera de 1947. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. que chega até o governo Vargas. em termos de aceitação pública. que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). afirma. 11. fim da Guerra Mundial. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. de sondagem psicológica. ilegalidades.O arquipélago. sem exceção.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. tanto nos romances como nos contos. período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. como destaque para Clarice Lispector. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. Terra e Cambará. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922. Logo depois. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam. com as lutas do início da República. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. 1945. Logo depois. Na poesia. tem início a Guerra Fria. mais dedicada aos temas da atualidade. convocam-se eleições gerais. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. início da redemocratização brasileira. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. O tempo. cujo primeiro número. a Jorge Amado.

diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. percebe-se uma revalorização da linguagem. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. A princípio. as ironias. Péricles Eugênio da Silva Ramos. negando a liberdade formal. Entretanto. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra. suas particularidades. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista. e não apenas com uma admirável vocação acústica. por Lêdo Ivo. que é bom ressoador’. na recriação das palavras. os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. Geir Campos e Darcy Damasceno. A gente lê. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. suas expressões. chamado de Geração de 45.só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. mas sim nos neologismo. por exemplo. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45. a seguir. entre outros poetas. e ele nesse ponto era bem — assistido. é formado. Com isso. a universalização do regional. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. e caminhou para 81 . A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. Esse grupo. as palavras recriadas ganham força e significado novos.

com muita tristeza. cabisbaixo. dá de dentro.cima de Nhô Augusto.. booôi!. na massa embolada... -Tchou!. um boi pintado. Cada coração um jeito De mostrar o seu amor. e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos. agora. e que os cavalos gingam bovinamente. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança. fasta vento. soca soca. bota baba. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -. cambada de filhos — da — mãe. vai varando.. pela estrada. pronta de todo está ela ficando. satisfeitos... casco a casco. o ritmo e sonoridade de sua linguagem. mal percebido..... e as vagas de dorsos. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros. vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata. mugindo no meio. vem. estralos de guampas.de — mundo!.” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia. dá direito.. E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas. E.. com atritos de couros. rola e trola. trezentos ou três mil. 82 . chifres no ar. estrondos e baques. Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. vem na vara. bate baixo. volta. dá de duro. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente... que chegou minha vez!. mesmo prestes assim para surpresas más. Boi bem bravo. das vacas e touros.. de chifres imensos. boi berrando. cada um tem sua cor.. sem — querer e imitativo. mexe lama. Vai. . escurecidas à fumaça dois tiros. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante...Ô gostosura de fim . com os cabras saltando e miando de maracajás. vai não volta. batendo com as caudas. saudade dos campos.” Pouco a pouco porém. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”. Devagar. e o berro queixoso do gado junqueira. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas. em que o autor narra a caminhada da boiada. ‘Um boi preto. querência dos pastos de lá do sertão. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto.Tchou!. Que de trinta. Eh.

outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa. Para os de Corinto e do Curvelo. isto é o sertão. madeiras de grossura. de outra forma. almargem de vargem de bom render. melhor ainda.. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. O gerais corre em volta. onde um pode torar dez. as vazantes. pois” o sertão é o mundo “ou. Enfim. que na beira dele. dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. então. fim de rumo. sem topar com casa de morador. Toleima. na obra de Guimarães Rosa. Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G. Assim o sertão de Rosa: ora particular. resultando dai o chamado romance introspectivo. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães. Por isso.ser.. logo na abertura de Grande sertão: veredas. ora universal e infinito. uma religiosidade quase medieval. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. entre o ser e o não .‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”. o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão. e onde criminosos vive seu cristo — jesus. Deus e o diabo. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere. já notado. . O Urucúia vem dos montões oestes. o” estar —no — mundo”. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. quinze léguas. terras altas. o aqui não é dito sertão? Ah. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade. em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser. pequeno e próximo. assim explicava a autora seu ato de escrever. culturas que vão de mata em mata. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com...H.A boiada vai. demais do Urucúia. é questão de opiniões. a pesquisa do ser humano. até ainda virgens dessas lá há. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. pelo pavor. Mas hoje. “o sertão é dentro da gente”.” (João Guimarães Rosa) O misticismo. como um navio. eles dizem. arredado do arrocho de autoridade. O sertão está em toda a parte. para que ele não “forme forma”. Esses gerais são sem tamanho. tudo dá — fazendões de fazendas. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer.” 83 .

pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. por mais de uma vez. duelando com as palavras e os fatos. em sua consciência e inconsciência. e sua cidade. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. afirma o poeta. Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos.No plano da linguagem. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. há que “sevilhizar” o mundo “. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. apresentadas a seguir. onde me considero um sevilhano.” Essa literatura introspectiva. solitário e inconseqüente. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. a literatura de Paul Valéry. para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo. seu estado natal. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. Não há que civilizar o mundo. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações. inclusive. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. os cemitérios e o aparece. rio Capibaribe. A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever. ao mesmo tempo. suas tradições. No nível temático. o Recife. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. o drama de Macabéa . Manifesta. de modo muito particular. mas sim nas entrelinhas. explorando os limites do significado. personificado. O melhor está nas entrelinhas. Cesário Verde. em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. No entanto. “Sou um regionalista também na Espanha. em alguns casos. trabalhando metáforas e aliterações. a herança medieval e os engenhos.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. intimista. em A hora da estrela. e o drama do narrador. A Espanha e sua paisagens. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. O melhor ainda não foi escrito. que 84 . Augusto dos Anjos. “exterior e explícita”. pela tendência ao surrealismo. O Nordeste com sua gente: os retirantes. seu folclore. São objeto de verificação e análise os mocambos. Pernambuco. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. busca fixar-se na crise do próprio indivíduo.

” A partir de 1050. 85 . a própria arte poética. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). da brisa na água. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado. mas flor. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. coou. ou seja. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. É o caso de O cão sem plumas. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. raros. como as brisas. bolha aberta no maduro). Nada sabia da chuva azul. Delicado. Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. evitava seu caule. extinta de flor. Sabia da lama como de uma mucosa. o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. da fonte cor — de — rosa. no ar.Graciliano Ramos e Drummond. frágeis. transparentes florações nascidas do ar.o estrume do poema. espécie Esperava as puras. calor de nossa boca. (fezes como qualquer. da água do corpo de água. aprofundando assim a temática social. o poeta repensa sua poesia: “Poesia. flor não de todo flor. o próprio rio Capibaribe. seu ovário. da água de cântaro. dos peixes de água. Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. Suas intestinações.

quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação). com a Exposição Nacional de Arte Concreta. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. rompendo com “ o vício retórico nacional”. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952.e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. de poetas brasileiros. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto. herdado. original. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano). na sua criação. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -. pela primeira vez. o “poema — produto: objeto útil”. musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60. 86 . Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. Entretanto.Devia saber dos polvos. Entretanto. Procurava-se assim. do século XIX. realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo. as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal. ganhou inúmeros prémios e aproximou.” O rio Capibaribe voltaria a ser tema. principalmente. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras. maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional. a participação direta.

o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes.. em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico.) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta.. • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo. Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos. o visual. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo. Sobre isso.. documento — programa do movimento. na qual o branco da página. a carga semântica.segundo os concretistas. 87 . dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros. apenas dispersado (. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página. seu material: a palavra (som. assim explicam os irmãos Campos: “(. que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal). os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo. Dessa forma. carga semântica). forma visual. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor. exigindo dele uma participação ativa...) uma ordenação não — linear do poema. embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla. economia e arquitetura funcional do verso”).)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. Daí defenderem “(.” Apresentamos..

Décio Pignatari. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. o texto “Crime 3”. subjetiva e hedonística. realismo total. Leia-se. Augusto de Campos. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. cujo sentido e dicção mudam”. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. Edgar Braga e Pedro Xisto. conta uma poesia de expressão. por exemplo. que. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas. integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. Ferreira Gullar. A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 .• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. no entanto. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras. Ronaldo Azeredo. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. o poema — produto: objeto útil. conforme sua posição no texto. como Manuel Bandeira. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. de Mauro Gama.

práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. a sonoridade das palavras. Mantendo a tradição da poesia discursiva. Ferreira Gullar e José Paulo Paes. Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada. titulo muito adequado. assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. Pelo contrário. O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. como veremos mais adiante.” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. Dessa forma. Produção contemporânea O que chamamos. filiam-se ao grupo da poesia. por uma rígida censura e enraizada autocensura. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. na caixa de som (colchão murcho coração). de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral. Poesia Na poesia. quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país. flor e fruto do Pantanal mato-grossense. Manoel de Barros é semente. Aliás. as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal. duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. Adélia Prado.cavo. como já denota sua “autobiografia”: 89 . ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996). Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. Mário Quintana. neste capítulo. só amenizados a partir de meados da décadas de 80.

Prosa No romance.“Não sou biografável. etc.” Inúteis. Antônio Callado. também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente. foi Rubem Fonseca. bichos. Nasci na beira do rio Cuiabá 2. espantando da cara as moscas mais brilhantes). em algum banco de praça. Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. Roberto Drummond e Ana Miranda. O nada mesmo. (E que seja sem dor. coisa. Aguardo um recolhimento de conchas. em suas obras. Márcio de Souza. Fazer coisas desúteis. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. Passei a vida fazendo coisas inúteis. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. o parafuso de veludo. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. em uma fase de sua produção. uma de terminada visão de mundo. um abridor de amanhecer. Em três linhas. talvez seja. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. onde as verdades essenciais. buscando uma nova forma de organizá-lo. Trabalhado com maior ou menor intensidade. pessoa apropriada para pedras. como afirma o editor Ênio Silveira. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo. Bernardo Élias. Carlos Drummond de Andrade. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”. tudo que use abandono por dento e por fora”. Mas quem roubou a cena nos últimos anos. etc. No texto que abre o Livro sobre nada. 1.. nada. José Montello e José Cândido de Carvalho. Manoel de Barros é um deles. O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . Por isso mesmo. “guiados por ele. Ou. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. Alguns poetas passam. Ainda na prosa. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. 3.

que. e ofendido. Moacyr Scliar Rawet. que encaminha a vaidade. Verdade é. ofendido vos tem minha maldade. Misericórdia. De coração vos busco. escritas na década de 60. coletânea de oito histórias que. amor. Lígia Fagundes Telles. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. meu Senhor. Luz. entre outros. Rubem Braga.gênero na imprensa. Arrependido a tanta enormidade. Vencido quero ver-me e arrependido. hoje. Arrependido estou de coração. Otto Lara Resende. Luís Vilela. Jesus. João António.. Entre os contista mais significativo. que hei delinqüido. Menção especial merece Sérgio Porto. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede. linha de frente de primeiríssimo time. Domingos Pellegrini Jr. Este último lançou. o Stanislaw Ponte Preta. Luis Fernando Veríssimo. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. delinqüido vos tenho. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. explorando técnicas modernas de narrativa. Por outro lado. A salvação pretendo em tais braços. que todo me há vencido. que me rendem vossa luz. dai-me abraços. meu Deus. citam-se Dalton Trevisan. em 1995. Maldade. Paulo Mendes Campos. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. António Callado. o conto. com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. Tarefas Analise os textos a seguir. é bem verdade. Jesus! 91 . que claro me mostra a salvação. tem servido de mestre a muitos cronistas. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . Nélida Piñon e Rubem Fonseca. Lourenço Diaféria.Gregório de Matos Ofendi-vos. Abraços. Vaidade. analisado no conjunto das produções contemporâneas.

com que a noite escura. que sonora. a matutina Aurora O negro manto. Em cismar. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. Não gorgeiam como lá. viria ao menos 92 . Onde canta o Sabiá. Nise Adorada. E a suavidade do prazer trocada.Texto II Soneto . à noite mais prazer encontro eu lá. Onde canta o Sabiá. Por te não poder ver. Nossa vida mais amores. Minha terra tem palmeiras. Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. Nise. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. Sufocando o sol a face pura. Sem qu’inda aviste as palmeiras. Onde canta o Sabiá. Não sabe ainda que coisa é alegria. Nosso céu tem mais estrelas. As aves que aqui gorjeiam. Tanto mais aborrece a luz do dia. à noite. Minha terra tem primores. Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã. que suave. sozinho. Aque alegre. Minha terra tem palmeiras.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. sozinho. Que tais não encontro eu cá. Mais prazer encontro eu lá. Tinha escondido a chama brilhadora. Em cismar.

. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco.. Negras mulheres.. o capitão manda a manobra... o dolorido afã.. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães. marinheiros! Fazei-os mais dançar!.. fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar. Cantando.. suspendendo às tetas Magras crianças.Fechar meus olhos minha triste irmã.. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica. se no chão resvala. geme e ri! No entanto. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória.. mas nuas e espantadas. Tinir de ferros. estridente. o chicote estala. outro enlouquece. estalar de açoite. Outras. E após. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Outro. Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar. A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira.” 93 . Se o velho arqueja.... Presa nos elos de uma só cadeia. E voam mais e mais. que de martírios embrutece. Em sangue a se banhar... moças.. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote.. Ouvem-se gritos. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais.. No turbilhão de espectros arrastadas.

uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. estridente. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda. olhando imensidades. de áureos relevos. Cárcere das Almas .. que o atordoara nas matas brasileiras. Depois. estrelas. Mas o lavor da taça admira. Ó almas presas. maldições. natureza. Soluçando nas trevas.E ri-se a orquestra irónica. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. era o veneno e era açúcar gostoso. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas. sonhando. Toca-a. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. do ouvido aproximando-a.. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. brilhante copa. Já de aos deuses servir como cansada. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional. piscando-lhe as artérias. uma nota daquela música feita de gemidos de prazer. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia. preces ressoam E ri-se Satanás!. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos. ais.. ela era a cobra verde e traiçoeira. canora e doce. era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta. Ignota voz. a muriçoca doida.. que abre feridas com seu azeite de fogo.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa. Vinda do Olimpo. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e.. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. Da Dor no calabouço. tardes. atroz." – fragmento de O Cortiço. que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. Mares. funéreo! Texto VIII 94 . ora repleta ora esvazada. e. trabalhada De divas mãos.. às bordas Finas hás de lhe ouvir. a um novo deus servia. a lagarta viscosa. entre as grades Do calabouço. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta. um dia. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas.

O simbolismo. Oscar. Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. A. 1994 HELENA. 1998 SARAIVA. Lucia. São Paulo: Ática. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Ed. 9ed. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. 2ed. História concisa da literatura brasileira. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. 1968 CIDADE. 1976. 3ed. São Paulo: Scipione. 1993 NICOLA. Otto Maria. Movimentos de vanguarda européia. José de. Rio de Janeiro: Tecnoprint. 95 . graves. São Paulo: Cultrix. Álvaro Cardoso. 3ed. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI. Coimbra: Armenio Amado.). São Paulo: Scipione. Hernani. 1980 CARPEAUX. & LOPES.Nesses silêncios solitários. J. Alfredo (org. 1963 GOMES.

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