FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

2

Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

3

literário 2. orações. Técnico 3. linguagem desautomatizada 5. Cotidiano 2. fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1. Linguagem automatizada 5. lança mão do discurso metafórico. períodos que formam sentido. denotativa Texto obra 1. ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3. Conceitual 7. conotativa 4 . plurissignificativo 4. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. Funcional 4. Transparente 6. opaca 6.texto = entrelaçamento de linhas.

mas no seu sentido profundo. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena. 5 . O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto. nas entrelinhas.Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado. em última análise. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. pelos interesses desse grupo.

para obter aquilo que se deseja. percebemos um conjunto de sons ( o significante). metáfora 3.1 valorização da forma 2. um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 . metonímia 2.3 recriação da linguagem 2. A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado. A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra. mas interdependentes.2 reflexão sobre o real 2. Texto literário e texto não-literário . constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão .distinção e características 2. intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça. Denotação e conotação 2.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas. valores . 1.Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1. constituída de sons .uma parte perceptível. ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo. Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida. com o qual almeja provocar mudanças .e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível.4 plurissignificação 2. o conceito.= conjunto de idéias próprias de um grupo. de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . Por isto. numa palavra que ouvimos. que nos faz lembrar de um conceito (o significado). isto é.

as palavras senhora. valores afetivos e sociais. referindo-se à realidade palpável. subjetiva. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões.expressão. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. explícito. Por exemplo. de ordem abstrata. negativos ou positivos. reações psíquicas que um signo evoca. que são apenas sugeridos. Denotação é a significação objetiva da palavra. está ligada à ambigüidade. de uma época a outra. Conotação é a significação subjetiva da palavra. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. Ela designa ou denota determinado objeto. naquele que lhe atribuem os dicionários. mas têm conteúdos conotativos diversos. mulher denotam praticamente a mesma coisa. isto é. seu sentido é objetivo. de uma classe social para outra. esposa. evocando outras idéias associadas. Desta maneira. Portanto. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. constante. virtuais. literal. conotativos.

instaurando-se a polissemia. Em termos cognitivos. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. o temperamento. uma espécie de emanação semântica. pois metaforização é conotação". essencial para que se realize qualquer processo de mudança. Por exemplo. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. do autor ou leitor. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. criada no trabalho mental de apreensão. A partir daí." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. que variam conforme a experiência. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. mas sim de regras conversacionais. pelo acréscimo de um segundo significado. Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". portanto. de implicação. quando dizemos "As 8 . Se entendida apenas no nível semântico. o traço característico do processo metafórico. na concepção do falante. Dessa maneira. um juízo. que exige variação e continuidade. uma opinião. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. assim. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade.A respeito de conotação. em essência. amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. Conotação é. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. na verdade ele opera com regras pragmáticas. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança. Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua. a sensibilidade. em relação à coisa designada. de intersecção. um sentimento. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. de interdependência. de coexistência. Othon M. Esse é. a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. algum ponto em comum. de inclusão. isto é. quando apresentam traços semânticos comuns. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. um estado de espírito.

porque as pessoas idosas possuem. devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética. e na interação entre os indivíduos. que possibilita a criação de novas relações de sentido. não descansam as armas = . tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade. portanto. plurissignificativa e de intenso dinamismo. É. com predomínio da função poética da linguagem. as relações são mais restritas. estamos empregando cãs por velhice.. envolvendo um processo de recriação dessa realidade. Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio.. No texto não-literário. Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. em geral. A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 .cãs inspiram respeito". não descansam os soldados. com predomínio da função referencial da linguagem. com predomínio de outras funções. cabelos brancos.

1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma. em VIDAS SECAS. ou de produzi-lo. nem temas inadequados a esse tipo de texto. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem." 2. O literário possui um universo fictício. relacionada ao processo de recriação do real. singular. nos planos fônico. ocorre a desautomatização da linguagem. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. que dizem: "Graciliano Ramos. Assim. Não é o tema. visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. recriando o real num plano imaginário. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. prosódico. combinando-as de maneira inusitada.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. não há temas específicos de textos literários. 2. ou seja. Por isso. A título de exemplo. e por isso degradados ao nível da animalidade. revelando assim novas formas de ver o mundo. reordenando-a. morfossintático e semântico. citamos Platão e Fiorin (1991). Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. num país como o Brasil. léxico. 10 . despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. Refletindo a experiência cultural de um povo. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. as artes desempenham um papel muito importante.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer.2. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. de maneira indireta. Assim.

resumir as idéias. em todos os recursos que Meu povo. Pelo trabalho com a linguagem. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto.2. por exemplo. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. poéticos e textos não-literários. quando se resume um texto não-literário. A esse respeito.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. não mais que de repente. substituir vocábulos por sinônimos. literário. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. Não podemos. perde-se o essencial. suprimir ou acrescentar vocábulos. textos líricos. o poeta francês Paul Valéry diz que. Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. No poema de Ferreira Gullar. Poderão surgir. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 . podemos verificar que evidências da literariedade. num texto literário. seu soneto é um texto literário. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. Podemos. sua intocabilidade. No Soneto da Separação. apreendese o essencial. portanto. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. a partir de suas respostas. pelo uso de recursos poéticos. De repente. quando se resume um texto literário. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa.

Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. e. o povo e o poema crescem como a árvore nova. quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. "Ao povo seu poema. ao explorar conteúdos. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. o poeta é comparado a um plantador." c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra." Dois planos foram explorados -. para essa recriação. 2. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . crescer. alogicidade 12 . terra fértil. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. antidiscursividade 3. "no povo meu poema". o poema é o fruto que ele produz (metáfora). utiliza recursos variados.5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário. musicalidade 2. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. desvio da norma culta 4. poema/árvore.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar.No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto. procura recriar a linguagem. São alguns deles: 1.

anáforas a) Ritmo . vivas. esgrime. seja em verso. das assonâncias. musicalidade: obtida através do ritmo. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. o uso poético da linguagem. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . vozes veladas. com o raiozinho dos astros. límpido. de aço fino. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. argentino. da violação das normas. das aliterações. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. veludosas vozes. Seja em prosa. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. construção paratática 1.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. Volúpias dos violões. Vozes veladas. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. mais uma vez.5. tímido.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. muitas vezes. como nestes versos de Murilo Araújo. na maioria das vezes. O trilo dos grilos. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. b) Rimas e aliterações . A norma do discurso poético é a antinorma. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. vãs. da rima. vulcanizadas. No poema de Cruz e Souza.

violação da regência e da concordância. falta de consistência gramatical. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . Que o espírito enlaça a dor vivente. 3. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. há uma oração principal. mudam a classe gramatical. Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens. estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico. 2. A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas. Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. A hipotaxe exige maior elaboração mental. hipérbato. Inversão da ordem natural das palavras.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. Nas construções hipotáticas. a subordinação.

...e amou a vida. À sombra de uma cruz.. Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema.... e escrevam nela: Foi poeta ... o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro.... Se um suspiro no seio treme ainda....... Indicar a função da linguagem predominante no poema. É pela virgem que sonhei. identificando os fenômenos líricos predominantes....Em pálpebra demente....... De ti........é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas.............. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento...... Se uma lágrima as pálpebras me inunda..... separadamente............... ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! ...... 3.............sonhou . Roteiro: 1.............. 15 ........ Examinar cada estrofe... Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto.... que nunca Aos lábios me encostou a face linda! .............. Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida....... 2... Só levo uma saudade ..... apontando em que versos da estrofe são mais nítidos.

4. da sua morte. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos. cada um deles. no nível do imaginário. segundo a semiótica literária. o texto como um todo significativo. três padrões literários. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado. analisando-lhe como imagem. Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. o processo literário. uma das partes da narrativa: 1. Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente. Dessa forma. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular. verbais e não verbais. conotativamente. que privilegiam. O texto precisava ser entendido em seu sentido global. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. assim como os esquemas de construção textual. No romance Dom Casmurro.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. 5.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. 7. através da ficcionalidade do espaço. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. Há. convertido em discurso narrativo como prática semiótica. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. 2. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. por 16 . estrutura o espaço. A idéia de morte está presente em todo o poema. da personagem e do acontecimento. o personagem e o acontecimento. criando uma realidade ficcional. de Machado de Assis. usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais. diagrama ou metáfora do mundo interpretado. 8. de Aluísio Azevedo. Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). 6.

sobre o mundo.exemplo. ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . que corresponde à emancipação política do Brasil. – a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. apontando o tipo de semiotização efetuado. Tarefas: 1. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. ou seja. 3. 2. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras. de Euclides da Cunha. por exemplo. que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos. Os Sertões. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa.

mas NO Brasil.Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira. de fato. 1 .Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 . Antes disso. seguiremos as orientações de Antonio Candido. não era Literatura DO Brasil. que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início. no Barroco.O Barroco 1 .Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 .

dilema que tanto 19 . os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil. de Bento Teixeira. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII. A origem da palavra barroco é controvertida. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. assimétrico. sobrecarregando a poesia de figuras. No Brasil. pintura. a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. ou mesmo um terreno desigual. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista. na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole. o pecado e o perdão. escultura e arquitetura da época. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio.” Além disso. Botelho de Oliveira. com sentimento nativista o primeiro manifesto. Em qualquer das hipóteses. Segundo outros. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. O final do Barroco só se concretizará em 1768. o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). estende-se à música. já a partir de 1724. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente. o material e o espiritual. Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. de Cláudio Manuel da Costa. No entanto. como a metáfora. Ou. Por essas razões. a antítese. o movimento academista ganha corpo. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. Além da literatura. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura.inicio dos anos 1700. assimetria. designaria um tipo de pérola de forma irregular. a hipérbole e a alegoria. O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ). como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos. rebuscamento.

culta. uma tendência sensualista. racionalista. sendo parte. seguindo um raciocínio lógico. Assiste cada parte em sua parte. Em qualquer parte fica o todo. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. Aparte sem o todo não é parte. Mas se a parte o faz todo. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal. A arte assume. Em todo o Sacramento está Deus todo. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras. Não se diga que é parte. O braço de Jesus não seja parte. Não se sabendo parte destes todo. do qual deriva o termo Quevedismo. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas.atormenta o homem de século XVII. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. que utiliza uma retórica aprimorada. E todo assiste em qualquer parte. A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. sendo o todo. extravagante. de conceitos. Nos diz as partes deste todo. Pois que feito Jesus em partes todos. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. sendo parte. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. E feito em partes todo em toda a parte. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. então. Um braço que lhe acharam. (Gregório de Matos) 20 .

de apresentação. É possível que somos portugueses. Vieira seria conceptista pelo processo mental. contrária. Constituem importantes documentos históricos.. os que o condenam chamam-lhe escuro. totalmente oposto ao Gongorismo. Profecias Constam de três obras: História do futuro. e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo. nasceram as primeiras verduras do meu. mas ainda lhe fazem muita honra. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos. mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. próprias dos jesuítas. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. os que o querem honrar chamam-lhe culto. Quando este estilo florescia. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. à moda cultista. e negro boçal e muito cerrado..Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. portanto. carta e sermões. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. O estilo culto não é escuro. Em estilo barroco conceptista. e havemos de ouvir um pregador em português. e clássico pela expressão clara e singela. é negro. Sermões São quase 200 sermões. 21 . (. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio. Cartas São cerca de 500 cartas. o melhor da a obra de Vieira.) Este desventurado estilo que hoje se usa. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum. não me leias. pois tal fato estaria profetizado na Bahia.

também chamado de Sermão dos peixes.) Ora. Bahia. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima. falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus. visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. ou por parte do pregador. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -. “Eu sou aquele. e com esmero. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. vícios e enganos. Peroração — a parte final do sermão. por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. a poesia religiosa e a lírica. Polêmico. No intróito. Vieira incita o povo a combater os holandeses.. ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . pregado em São Luis do Maranhão. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem.” 22 . apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis. • Sermão de Santo Antônio. Gregório também praticou.. não perdoarão a estado. em 1654. Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(. em 1640. do pregador e do ouvinte. a sexo nem idade”. esse sermão resume a arte de pregar.

EL-Rei. por 23 . o clero e. garbosa. o meio envolvente. sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. Airosa: elegante. Aqui. Na poesia lírica e na religiosa.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. realmente. É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). IV e V Poesia satírica. publicou seis volumes. o administrador português. que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. arrogância. Soberba: orgulho excessivo. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. E. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. Presumida: vaidosa. os costumes da sociedade baiana do século XVII. bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé. quando a Academia Brasileira de Letras. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. social e religioso. Púrpura: a cor vermelha. Lisonjeada: que recebeu lisonja. Desatada: desprendida. mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. transparece certo idealismo renascentista. solta. destemida. II Poesia lírica. segue um resumido vocabulário. assim distribuídos: l Poesia sacra. 1923 e 1933. III Poesia graciosa. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. VI Últimas. Sua obra permaneceu inédita até o século XX. presunção. isto é. no melhor estilo petrarquiano. empregada no sentido de a galeota solta. como toda a massa devota de sua época. Condenou acerradamente a vaidade humana. mas sua existência foi um rosário de culpas. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. presunçosa. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. era a própria personificação do Pecado”. agrado ou elogio em excesso. A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. numa postura moralista.

assim: "Fábio. a vaidade é Rosa. galé. orgulho." Os versos acima. Fábio. com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora . orgulhosa. Ufama: vaidosa. gosta de receber ânimo. galeão. Observe que Galhardia é complemento de apresta. Galhardia: elegância. na ordem direita ficariam.mares de soberba. alentos é complemento da forma verbal preza. garbo. Empavesada: enfeitada.. podemos entender como “preza. Galeota: embarcação a remo. Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. nesta vida.inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. de símiles. por meio de metáfora. vaidade... Nau: navio. em particular )“ metaforicamente”. Alentos preza : como no caso anterior. nesta vida Rosa.. e explicativo. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato . 24 . isto é." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional. adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota. de pequeno porte. ainda.o próprio título do poema longos. Presunção: juízo baseado nas aparências..

de longo uso desde Camões.o exagero. nau no soneto apresentado) para. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos. a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes. “Disseminação e recolha” Finalmente. Metonímia . a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos). semeados. 25 . a recolha. lançar uma adversidade. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco. isto é. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. plante.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada. isto é. realizar-se. Era o único pássaro na sua espécie. plantados ao longo do poema (como é caso rosa. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para.” • • Hipérbole . provocando um forte impacto. neste caso. como no caso de “púrpura mil”. ao final. uma contrariedade. a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema. que. assim.o emprego de ferro por machado. Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente. Realça-se. o conflito presente no texto.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto. Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia. fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. espalhados. esses conceitos e ou palavras são disseminados. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. no caso do soneto analisado. as penas do pescoço douradas. púrpuras mil arrasta presumida. ao final.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

26

deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

27

caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

28

liberdade. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa. A respeito do episódio. entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência. de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 . E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa.abusos da nobreza e do clero (Ilustração).” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético. a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. pastoril. E os seus tristes inventores Já são réus.pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. bucólica. Liberdade. palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. em Romanceiro da Inconfidência. “Atrás de portas fechadas. amor. à luz de velas acesas. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia. Ë a procura do locus amoenus.” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles. extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente.

os versos decassílabos. que estes prados. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. uma posição política e ideológica. burgueses que eram. portanto. lá estavam seus interesses econômicos. e estas fontes Já sabem. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado. 1799 e 1812. foi publicada em três partes nos anos de 1792. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. a simplicidade. a felicidade do amante. No entanto. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor. discorre sobre a iniciação amorosa.” Ou ainda sofrimento amoroso. a melhor pastora destes montes. a defesa da tradição e da propriedade. os meus montados São esse. Essa obra. os sonhos de uma família. a mulher amada. a poesia bucólica. tendo como divisor de águas a prisão do poeta. o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra. Havia. pastoril. vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. sempre 30 . que é o assunto da porfia Nise. que aí vês.natureza. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. temos o soneto. Quanto ao aspecto formal. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. a natureza e Manha. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. não te nego. pastorial. as musas: “Parece. o fingimento poético e o uso de pseudônimos. a rima optativa e a tradição da poesia épica. Antes da cadeia. Nela. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. o namoro. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. por meio de palavras.

quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa. vivendo os sofrimentos da prisão.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga. e o burguês Dr. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente. E decidir os pleitos. Ver-me-ás folhear os grandes livros. governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). 31 . Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição. Tomás Antônio Gonzaga. que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado. Critilo. Como bem lembra o critico Antônio Cândido. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. escritos em linguagem bastante agressiva. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). Nessas cartas. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída. A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo. Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. Depois. ora assumindo a postura de pastor. o Fanfarrão Minésio ( na verdade.. que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. de Rodrigues Lapa. narra os desmandos do governo chileno. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. portanto. São poemas satíricos. um político sem moral. na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala.. raciocina. ora a sua condição de burguês.” É patente a oposição entre Dirceu. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo. juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga. Luiz da Cunha Meneses. residente em Madri. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta. principalmente. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. despótico e narcisista.numa postura patriarcalista.

Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia. Santa Rita paga um tributo ao século XVIII. incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. constando de proposição.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. 32 . E já vizinha à nau se apega ao leme. oitava rima camoniana.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem. Gupeva e Sergipe. onde é narrado a morte de Moema. por cruel que brame. Pasma da turba feminil. narração e epílogo. E ignorado a ocasião da estranha empresa. já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo. Era Moema. Paraguaçu. Quando à forma. no geral. embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. com quem Diogo se casa e vai a Paris. dedicatória. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. do que irada. mas apenas de um conservadonismo cristão. assombradas. o poema é composto de 10 cantos. que de inveja geme. Caramuru (Trechos do Canto VI. Não vinha menos bela.. que nada. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira..Santa Rita Durão Caramuru . por outro lado. Uma que às mais precede em gentileza. versos decassílabos. mas uma se destaca: Moema.. Porém o tigre. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. Santa Rita não utiliza da mitologia pagã. Diogo Álvarez. (. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma.) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo. após definir-se por Paraguaçu. o Canamuru. como Camões em Os Lusíadas. vítima de um naufrágio no litoral baiano. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). Várias índias nadam atrás do navio.

... irado.Acha forças no amor. 33 .. Nem o passado amor teu peito incita (Disse..) Perde o lume dos olhos. sorveu-se na água. Fúrias. penhosa!! Enfim.. com suas restrições mentais”. . que. “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). se esta fé teu peito irrita. Pálida a cor. moribunda. Ah! Que conosco és tu.Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas. pasma e treme. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema. raios. tens coração de ver-me aflita. Tornando a aparecer desde o profundo.E sem mais cista ser. Entre as salsas escumas desde ao fundo. entre estas ondas A um ai somente.. raio. Mas na onda do mar. (. cai num desmaio. Só ti não domou. soltando o leme. por mais que eu te ame. freme. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco. conosco. com que aos meus respondas Bárbaro. que o ar consomem.. que enfim o domem.. Flutuar. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”. seus antigos mestres...’ E indo a dizer o mais. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas.

e lhe lambe o seio. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. “cansada de viver”. e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste. onde é narrada a morte de Lindóia. e quis três vezes Soltar o tiro. E fuja. Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses.O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. auxiliadas pelos espanhóis. sobressaltados. e lhe passeia. seu irmão. instigados pelos jesuítas. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. Caititu. que treme Do perigo da irmã. Que toca o peito de Lindóia... e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. “ entrara no jardim triste e chorando”. além de quebrar a estrutura camoniana. angustiada com a morte da Cacambo. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. e apresse no fugir a morte. enquanto a de Sacramento. 34 . E nem se atrevem a chamá-la. a encontra adormecida. A partir de um tema não adequado ao gênero épico. Basilio da Gama consegui.) . Fogem de a ver assim. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta. em terras uruguaias. Porém o destro Caititu. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética. uma serpente venenosa. e fere A serpente na testa. E param cheios de temor ao longe. portanto. Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). A índia. contra os índios dos Sete Povos das Missões. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. e temem Que desperte assustada. seria concedida aos espanhóis. e irrite o monstro. enrolada em seu corpo. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro. O Uruguai (trecho do canto IV. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor. e cinge Pescoço e braço.

Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época. Que os corações mais duros enternece. Os olhos Caititu não sofre o pranto. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. Os. Cheios de morte. a imagem do português conquistador deveria ser varrida. O nacionalismo. Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. E rompe em profundíssimos suspiros. com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno. sem se mencionar 35 . está intimamente ligado a todo o processo de independência política. D.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. Em 1822. o subjetivismo. A partir desse momento. que ao despertá-la Conhece. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil. acompanhando as nações independentes da Europa e da América. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3. o sentimentalismo. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. olhos em que Amor reinava. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional. e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males.O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. um dia. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo.

carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . o Brasil vive um período conturbado.. a abdicação. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte.) O advento do romantismo. com a chegada da corte. são como sinônimos. Portanto.. ela domina tudo. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. e os únicos que ao povo interessam. é a idéia da pátria. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. como reflexo do autoritarismo de D. ou seja. como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. De 1823 a 1831. liberdade.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. tais são os objetivos que ocupam as inteligências. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. que coincidem com surgimento da burguesia). a Confederação do Equador. a busca pelo passado histórico. pois. em alguns casos. financeiras e econômicas. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 . a Constituição outorgada. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. uma idéia até então desconhecida. na realidade. e tudo se faz por ela. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico. novo aspecto apresenta a sua literatura. a Colônia caminhava rumo à independência. Após 1822.” As características do início do Romantismo são. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. finalmente. só tem uma explicação clara e profunda. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. Em 1808. que atraem a atenção de todos.sua carga ideológica. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores. com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil. No começo do século atual. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga.’ No Brasil. pois. todas as criações necessárias em uma nova Nação. instituições sociais. Independência. reformas políticas. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. a exaltação da natureza pátria. Inicialmente. crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo. ou em seu nome. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades.

ora no cimo dos Alpes.” De fato. que jamais podem agradar. nenhuma ordem seguimos. a um grupo mais ou menos homogêneo. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. são bons exemplos). A arte deixa. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 .opõe-se uma arte de caráter popular. e o de Martins Pena. sobre o nada da vida. representado pelas mulheres e pelos estudantes. As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. em principio.” Realmente. e transforma-se numa forma de auto. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. Poesia d’alma e do coração. por assim dizer. exprimindo as idéias como elas se apresentaram. No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. sobre as paixões dos homens. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. porém. reconhecia absolutamente. Surge o romance. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett. a construção. o que leva a uma nova linguagem na literatura. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. com isso. ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. na arquitetura. que valoriza o folclórico e o nacional . a um público cuja autoridade. o teatro ganha novo impulso. meditando sobre a sorte dos impérios. de 1836. Quanto à forma. voltando-se para a imaginação e para os sentimentos. além de que. Quanto ao aspecto formal. agora. a igualdade. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço. na pintura.expressão que cria os seus próprios padrões. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. na música. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário. devem se harmonizar. Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. isto é. A arte romântica. a literatura torna-se mais popular. para não destruir o acento da inspiração. em Portugal. no Brasil. o público agora é amplo e anônimos. material das estrofes. o que não havia acontecido nos períodos anteriores. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas. ora na gótica catedral. forma mais acessível de expressão literária. e os prodígios do Cristianismo. ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas. admirando a grandeza de Deus.

em Portugal. as constantes idealizações da sociedade . enfim. do primado da emoção. a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. Outra característica marcante do Romantismo. e transição para o Realismo. Já no final do Romantismo na década de 1860. no Brasil. perde-se a consciência do todo. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. os românticos cultivavam o nacionalismo. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. valentes e civilizados). No fundo. No entanto. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica. o “acento da inspiração”. foge no tempo e no espaço. admirando a grandeza de Deus. as “casas de aluguel prostíbulos). não menos belos. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. Evidentemente.e normas estéticas do classicismo. que conduz à romântica. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. e os prodígios do Cristianismo”. desenvolve-se uma literatura de caráter social. A literatura passa por grandes agitações. prevalecendo. que. com o culto do individualismo e do pessoalismo. movimentos populares). os heróis são os índios. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. 38 . O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. Quanto ao conteúdo. O verso livre. O romântico. o ópio. na literatura brasileira. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. caracterizam a poesia romântica. como afirma Gonçalves de Magalhães. do coletivo. como o paganismo. que além de representar as glórias e tradições do passado. sem métrica e sem estrofação. sem rima. assim. ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. é o sentimentalismo. a saudade da infância. do amor. explodem na famosa Questão Coimbrã. A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo. o subjetivismo. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. essas fugas têm ida e volta. da expressão subjetiva. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. do social. e o verso branco. a partir das transformações econômicas. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. da mulher. publicação do Manifesto do Partido Comunista. que manifestava na exaltação da natureza pátria.

principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. a volta ao passado histórico . chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo. Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. “Se se morre de amor”. são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico. a idéia com a paixão”. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza. Nelas. o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. de onde surge a denominação geração indianista. subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . “Ainda uma vez adeus”. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. individual Pessoal. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. universal Impessoal. medieval e nacional. a razão sempre perde terreno para o coração. podemos dividir sua obra poética em: lírica.

Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. Guerreiro. dos costumes e da língua dos nativos. ora idealiza a figura do índio. destacando a presença do homem e seus problemas. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. 40 .e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. Além de exaltarem a natureza. Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade. Nas selvas cresci. ele nunca se refere ao elemento humano. Guerreiros. dramática e épica. Que agora anda errante Por todo inconstante. Carlos Drummond de Andrade. Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. ouvi: Sou filho da selvas. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”. nesse poema. descendo Da tribo tupi. É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. É interessante notar que. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. pois. Da tribo pujante. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. Chico Buarque e Tom Jobim. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. A respeito deles. mas apenas aos elementos naturais. se citasse o homem brasileiro. mas com um nacionalismo crítico e consciente. à moda dos trovadores medievais. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. extremamente. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. Murilo Mendes. entre outros) retomaram o tema. da musicalidade e do ritmo. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão. Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. finalizando numa exaltação da natureza brasileira. Mário Quintana. Ainda assim. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte.

Sou filho do Norte. pessimismo. este sempre idealizado. A morte foi presença constante.o sarcasmo. pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. ouvi. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Quixote. mas nunca se materializam. Vamos entrar num mundo novo. 41 . verdadeira ilha Baratária de D. desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo. o poeta satânico. onde Sancho é rei (. vultos que habitam seus sonhos adolescentes. negativismo. Guerreiro.Guerreiro. terra fantástica.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron. corrosivo. o verdadeiro. Meu canto de morte. angelical.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset. a ironia e a autodestruição. Suas poesias falam de morte e de amor. é também chamada de geração byroniana. e por Musset. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo. irreal. dócil.. além do poema épico inacabado “Os timbiras”..). Junqueira Freire e Fagundes Varela. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. de quem herdou as característica do spleen* . de outro. “O canto do Piaga”. de quem foi leitor assíduo e tradutor. ‘Marabá”. abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário. assumindo também a conotação de fuga. que tanto ironizava os outros como a si mesmo. Empregada de egocentrismo. seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância. sou forte. dúvida. Ele próprio o dividiu em três partes. “Leito de folhas verdes”. nasci: Sou bravo. impregnado de imagem de donzelas ingênuas. mulheres misteriosas. Segunda geração . Canção do tamoio”.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”. Produção Literária da Segunda geração . Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. Casiano de Abreu. mal — do — século -. filhas do céu.

a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. Cantou o amor. ora meigo e sentimental — ou seja. entregando-se a alguns exagero nas metáforas. rápida. Seu principal representante foi Castro Alves. amou e foi amado por várias mulheres. as lutas de classe. foi perfeitamente romântico na forma. mas. Pedro II. no entanto. geração hugoana. bêbados. bacanais. verdadeira medalha de duas faces. assassinatos. a escola literária que negaria o Romantismo. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. estudante de Direito. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. traições. os oprimidos. incestos. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. cantou a República. educado pela literatura de Victor Hugo. Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária.” Noite na taverna. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. como um pintor febril e trêmulo”. a morte. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. em que seis estudantes. a igualdade. o abolicionismo. Teve muitos amores.A razão é simples. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. o próprio Álvares. daí ser conhecida como. tem horizontes mais amplos. obra confusa. que realizei à pressa. mas também pela realidade que o rodeava. anjo e demônio. 42 . reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. Castro Alves cultivou o egocentrismo). poeta. mistérios e morte. a mulher. antíteses e hipérboles. livro de contos fantásticos. o sonho. E um livro em prosa. poeta da última geração. Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. comparação grandiosas. típicos do condoreirismo. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico.

belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional. Mas não mo digas descobrindo o peito. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico. é tarde. o positivismo de Augusto Comte. no plano 43 . A lua nas janelas bate em cheio... o socialismo científico de Marx e Engels. como a lira ao vento. Que escala de suspiros. E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos. Das teclas de teu seio que harmonias. sensual. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto.” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite.Mar de amor onde vagam meus desejos. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias.. .. terno. Maria! Ë tarde.. a questão Coimbra em Portugal.A poesia Lírica .amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso. Maria! Eu vou — me embora. Boa-noite!. encontramos o adolescente meigo. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma. convivemos com esse sensualismo adulto.. Não me apertes assim contra teu seio. individualizada em Eugênia Câmara. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate. Boa — noite...

ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica. por vezes. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil. de Manuel Antônio de Almeida. Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo. a luta abolicionista. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX. Romantismo: prosa 1 . a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. Algumas poucas obras fugiram desse esquema. criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. e mesmo de 44 . o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais. profissionais liberais e jovem estudantes. todos em busca de ‘ entretenimento “. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento. aproxima-se da terceira geração. por suas preocupações sociais. Enfim. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor. e o caso de Memórias de um sargento de milícias. neologismos e um certo rebuscamento que beira. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. sua obra foi de uma constante pesquisa.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. pois uma “realidade” que lhe convém. Respondendo às exigências do público leitor. o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. agora transformado em corte.interno. e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor. palavras inglesas. inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. a decadência da Monarquia. e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

45

As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

46

índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

47

Basta lembrar que O. é de 1900. ambos de Aluísio Azevedo. em que são publicados Missal e Broquéis. e Memórias póstumas de Brás de Cubas. considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. O cortiço. com o Parnasianismo. o primeiro romance realista de nossa literatura. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. Na realidade. o “não — eu”. mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . A Academia Brasileira de Letras. que é sempre um “amigo da casa”. os autores realista são adeptos do determinismo. Casmurro. principalmente os naturalistas. de Machado de Assis. e O Ateneu. no que se refere à hereditariedade. momento e raça — esta. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele. foi fundada em 1897. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. o personalismo cede terreno ao universalismo. de Raul Pompéia. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte. de Aluísio Azevedo. pela mulher adúltera e pelo amante. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893. Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. os autores desse período são antimonárquicos. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. com o contemporâneo. São anticlericais. Esaú e Jacó. de Machado de Assis. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX . com os romances realistas e naturalistas. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. o Realismo só se preocupa com o presente. refletindo. do socialismo e do evolucionalismo. ambos de Cruz e Sousa. Ideologicamente. a postura do positivismo. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. dessa forma. No século XIX. como se observa na leitura do romance como O mulato. com todas as suas variantes. do mesmo autor. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. formados pelo marido traído. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações. e na poesia. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. é de 1904. templo do Realismo. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna.o curso de nossas letras: O mulato. em 1922.

move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. tão ao gosto naturalista. não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão. Por outro lado. isto é. em que se valoriza o coletivo. A constante repressão leva às taras patalógicas. erroneamente tachados 49 . Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. esses romances. Em conseqüência.Jacó. o mesmo acontece com Bentinho. Sobre o romance O cortiço. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. mas quando a herança de Quincas Borba. o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. como afirma Antônio Cândido. Dom Casmurro. O Cortiço. nem Bertozela. o caso de Raul Pompéia é muito particular. que enfatiza a natureza animal do homem. Nesse particular. O romance realista é documental. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais. retrato de uma época. Casa de pensão. muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. “O romance é o nascimento. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. dos personagens centrais de Machado. paixão e morte de um cortiço”.beatas. de Aluísio Azevedo. mas sim o próprio cortiço. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes. vida. antes de usar a razão. já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança. o grande vilão. ora impressionistas. passando a viver do capital. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro. Esaú e . há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. merece destaque o romance O maluco. ou seja. nem Pombinha. Finalmente. vive do capital. O Ateneu. nem Rita Baiana.

Dado em nova edição. eco de mocidade e fé ingênua. naquele ano de 1876. Machado foi romancista. não lhe altero a composição nem o estilo. apenas troco dois ou três vocábulos. 50 . Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. como em O Ateneu. e alguns contos e novelas de então. Dos que então fiz. Este foi o meu primeiro romance. tanto masculino. como o homossexualismo. apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. este me era particularmente prezado. em O cortiço. em temas então proibidos. contista e poeta. chamada de fase realista ou de maturidade. são mais ousados. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista. crônicas e correspondência. lhes tiraria a feição passada. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. inclusive. É claro que. Agora mesmo.” Observa-se. e faço tais ou quais correções de ortografia. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. em nenhum caso. portanto.por alguns de pornográficos. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. diverso do que o tempo me foi depois. sendo. datada de 1905. ouço um eco remoto ao reler estas. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. pertencente à primeira fase da minha vida literária. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas. que não alteram a feição do livro. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento. Como outros que vieram depois. quanto feminino. escrito aí vão muitos anos. um trecho da “Advertência da nova edição”. Aqui. cada obra pertence ao seu tempo. que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. além disso. portanto.

A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é. Quincas Borba Quincas Borba. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião. mais nos interessa. Apesar de romanesco. o egoísmo. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem. Quincas Borba. o casamento por interesse. as frases curtas. Helena. Esaú e Jacó.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida. 19. 28.. também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor. a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas.. ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos. na prática.”.nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. 17. o negativismo. laiá Garcia. No aspecto formal. ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”. A mão e a luva. o pessimismo. ou seja. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160. acreditando ser Napoleão. e restaurar na velhice a adolescência ‘. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa. 201. as batatas. No auge da loucura. Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. 121. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo. Rubião morre pobre e louco. 148. À primeira vista. A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. romance narrado em terceira pessoa. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. a linguagem correta. o romance parece girar em torno de um provável 51 . Dom Casmurro. Casmurro é o personagem . o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). páginas realistas. clássica. A análise psicológica dos personagens. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O.

seja de Escobar. essas leituras não devem ser feitas isoladamente. O Ateneu — crônica de saudades. e Aristarco. O personagem Sérgio. como o próprio subtítulo indica. Nesse mesmo ano. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. outra. do Norte. o Dr. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. assim como Raul Pompéia. a do governo. Sérgio. Entre santos. Barão de Macaúbas. entra no colégio com 11 anos de idade. o filho. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. desconfia que Ezequiel. Entretanto. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). a ironia social e política. Sempre aparecem a preocupação psicológica. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. publicando em folhetins. O primeiro conto realista de Machado trata-se. segundo Mário de Andrade. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. é na realidade o Or. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. do Norte. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. a rigor. Um apólogo. de uma novela: O alienista. no plano político — social. Abílio César Borges. em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. de outubro de 1881 a março de 1882. Missa do galo. e que representa. Os contos Em linhas gerais. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. Aristarco Argolo de Ramos. Entretanto. amigo do casal. a fronteira entre a loucura e a lucidez. ou seja. o Ateneu é o Colégio Abílio. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida. A causa secreta. é um livro de memórias. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. A igreja do diabo. abriria o volume intitulado Papéis avulsos. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato.adultério: Bentinho é casado com Capitu. já adulto. O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. pois elas se interpenetram e se 52 . Raul Pompéia Raul Pompéia. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico. Visconde de Ramos.

segundo a categoria de recepção que queria dispensar. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada.” Ainda assim. Afamado por um sistema de nutrido reclame. pintando-o jeitosamente de novidade. no entanto. As simpatias verdadeiras eram raras.complementam. o interno a reflete”. distinções financeiras. E duramente se marcavam distinções políticas.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(. O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””.. 53 . que não achava em suas contas escolares. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento. mas um comerciante: “(. Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”. sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu.. Saía indagando o motivo daquilo. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades.. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados... Ele tinha maneiras de todos os graus. ele não é um pedagogo. O pai estava dois trimestres atrasados. segundo a condição social da pessoa. “Coragem para a luta!”. baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa. Arrancados do contato e da proteção dos pais. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco.. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo. disse-me meu pai. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem.) Ateneu era o grande colégio da época. os meninos sentem a necessidade de substitui-los. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade. à porta do Ateneu.

mas vejo. uma vozinha de moça.. e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. erigindo. provocando-me com surriadas. reluzente como pano molhado. Os rapazes tímidos. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame. com o acolhimento dos 54 . olhos negros. está vendo? Primeira voz no orfeão. mas também a mulher. esposa de Aristarco. Não sou criança.. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza. de uma cor só. se decepcionam. festejando. a “lei da selva”. pensava eu. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos. Os fracos perdem-se. Quando. com aqueles modos de mulher.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. dar a frustração e a decepção quase edipianas.) Este que passou por nós. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. lúcidas..Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe. o sexo. Adiantava-se por movimentos oscilados. pervertidos como meninos ao desamparo.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores. é o Cândido. em segredo dos pais. fortes como a maternidade. vivo só e vejo de longe. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista...) Olhei furtivamente para a senhora. um conselho. formas alongadas por graciosa magreza. e que seria também a cor do jambo.) chegou a senhora de diretor. Ema.. a tendência.. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras.. olhando muito. é preciso força de cotovelos para romper. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem. ali vem Ribas. Viu aquele da frente.. faça-se homem. cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava. faça-se forte aqui. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(. Eis alguns trechos: “(.. Não pode imaginar. Vestia cetim preto justo sobre as formas.. pensam que o colégio é a melhor das vidas. pupilas retintas. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos. sem sangue. Isto é uma multidão...” Mas adiante Sérgio afirma: “(. pelo contrário: os meninos se frustram. Aliás. Mas o sexo é um instinto natural. Ema não faz apenas o papel de mãe. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos. Esta aparição maravilhou-me. O. nem idiota. o tronco sobre quadris amplos. E nela os meninos vêem a mãe. Olhe. ingênuos. porém. são dominados.. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível. Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema.

acha aceitando as regras do microcosmo.mais velhos. 55 . (. ao final do livro.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. A sintaxe.. meu amigo! Comece por não admitir protetores. depois do Colégio Abílio. para Basílio da Gama. provoca um incêndio. à lógica e à sonoridade. complexado. a destruição daquele mundo e de seu criador. estão perdidos. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu.. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. faça-se homem. homossexual. levado pela necessidade.. destacando. mas apreciam a rima consoante. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos. Voltam-se. que é o regime de internato.. homofonias. O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”).prescindir de protetores. naquele meio hostil e desconhecido. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. degradante. Aristarco. não teriam consciência de seus problemas. Os parnasianos evitam as aliterações. e um valimento direto mais forte do que palavras. o trabalho de Bocage. sob a influência do século XVIII. alguém que me valesse. Raul Pompéia. aplicada sob o jugo de regras rígidas. como lhe dissera seu pai. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. Cultuam a estética do Arcadismo. prima pela devoção à clareza. a correção da linguagem. a efeminação mórbida das escolas. também. e aí percebem o mundo sórdido. é a “vingança” de Raul Pompéia. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”.” Para os meninos submetidos à “lei da selva”. No entanto. os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. no Ateneu é ser frustrado. Américo. o grande mundo. ecos e expressões arrebatadoras. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. cultivando a forma para atingir a perfeição. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo.) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo. Eu desejei um protetor. Sérgio. como ele observara. propiciadora de originalidade e imortalidade. 5. entre brejeiros e afetuosos. hiatos. Um mundo com regras e leis próprias: o normal. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. sobretudo.

tendendo à busca da simplicidade clássica. sobressaindo-se a alegria. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. Por isso. A vida é cantada em toda sua glória. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva. representando-a metonimicamente. símbolo do ideal de beleza. com freqüência. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. a riqueza de linguagem e a descrição 6. indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada. Théophile Gautier. De fato. para a paisagem brasileira. Sua obra apresenta uma evolução importante. Dão ênfase às alternâncias graves. Como poeta. sem. estamos no realismo literário. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos. Os dois outros volumes de poesias são póstumos. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. a exigência de precisão. graças à ação do meio e das tradições poéticas. pessimismo e sensualidade. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. entretanto. o Parnasianismo inicial. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. Entretanto.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. a sensualidade. O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo.privilegiando a rima paroxítona. suprimir o subjetivismo. o conhecimento do mal. prevalecendo. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. vai se deslocando. mas se orientam pelo determinismo. postulado pelo poeta francês. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. O social perde a força do início. aos poucos. ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia.

Ao lado disso. em forma alvadias*. Vão as Flores carnais. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*. a Europa suportava a herança do final do século XIX. 57 . ou seja. os vários . Está sempre presente a sublimação.. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século.ismos Futurismo. contrastando com o clima eufórico da burguesia. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve. Cubismo.(evidentes colocações pessoais). Silfos* de sonhos de volúpia crescem. Um luar de pudor. Ondulantes. Luzes claras e augustas. Expressionismo. que resultaria na 1 Guerra Mundial. Véus e grinaldas purificadores. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores. caracterizada por duas situações antagônicas. mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano. por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores. Dadaísmo. responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30). Quando seios pubentes* estremecem. Assim. Erra* nos pulcros*. A essa multiplicidade de tendência.. a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. convencionou-se chamar vanguarda européia. Na comunhão das níveas hóstias frias. véus de neve... escritos entre 1909 e 1924. só conseguida na sua totalidade através da morte. representado pelo decadentismo simbolista. Surrealismo -.. favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade. sereno e breve.. De ignotos* e de prônubos* pudores.A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. (Cruz e Sousa) 7 . virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve.

o patriotismo. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias. passou a ser empregada para designar aqueles que. passou a definir artistas e intelectuais que. dispondo os substantivos ao acaso. da máquina. A partir do início do século XX. pelo advérbio e pela pontuação. nós queremos exaltar o movimento agressivo.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem. O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909. a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini.. a partir de 1919. as belas idéias que matam.” "Nós queremos demolir os museus. e o menosprezo à mulher. porque ele está nutrido pelo fogo. o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo.garde. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles. Ou seja.” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna. no campo das artes e das idéias. buscavam novas formas de expressão artística. pelo ódio e pela velocidade!. tanto na linguagem como na composição. combater o moralismo.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti. não satisfeitos com o que então se produzia.. durante uma campanha. como nascem”. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 . Assim. as bibliotecas. a audácia e a revolta. o êxtase e o sono. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944). estavam à frente do deu tempo. Nosso coração não tem a menor fadiga. propondo “a destruição da sintaxe. vão à frente da unidade. o hábito à energia e à temeridade. segundo.A palavra vanguarda deriva do francês avant .” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa.. o militarismo. o passo ginástico. da eletricidade do automóvel. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística.” Em 1912. a total identificação entre o movimento e seu líder. o gesto destrutor dos anarquistas. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti. a insônia febril.. a bofetada e o soco. termo militar que designa aqueles que. Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo. o salto perigoso. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado.

Cézanne e Gauguin. notadamente entre 1910 e 1920. de Munch. Oswald de Andrade. Em 1917. em Lisboa. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. de Álvaro de Campos. portanto o movimento com o fascismo. Mário de Sá — Carneiro. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura.seguidores. Apollinaire e Blaise Cendrars. uma caricatura. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. pelo contrário. E. de imagens nascidas em nosso mundo interior. Temendo uma identificação com o fascismo. Gombrich assim comenta a obra de Munch. dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. na Alemanha. o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. além do poema “Ultimatum”. trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. Por outro lado. Mário de Andrade vem a público negar. em 1921.” Em Portugal. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. na pintura O grito. aceitavam suas idéias artísticas. “ao contrário de outras vanguardas. ou seja. Disse e repito-o. em novembro do mesmo ano. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. mais do que o movimento futurista. 59 . Tenho pontos de contacto com o futurismo. assemelhava-se à caricatura. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro. uma máscara. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. errou. a figura de seu líder. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. Por sua característica. Raul Leal. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. mas repudiavam seu posicionamento político. chamando-me de futurista. que continha texto de Almada Negreiro. não relacionando . é um rosto distorcido. Daí a importância da expressão. da materialização. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. realizou-se “espetáculo futurista”. levando Oswald a saudar. É o que se pode perceber. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. H. como por exemplo os futuristas. numa tela ou numa folha de papel. por exemplo.

Como exemplo de texto cubista. literatura. em plena guerra. a Pagu. jogados aparentemente de forma anárquica. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. Na literatura. da rima e da harmonia. edição de 18 de maio de 1947. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. de frente. Assim como na pintura. cilindros. onde nasceu o pintor). música. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). O Dadaísmo Em 1916. um grupo de refugiados em Zurique. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. etc. no jornal Diário de São Paulo. valorizando as formas geométricas (cones. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. temos o famoso poema de Apollinaire. as outras três têm feições que lembram máscaras africanas. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. segundo Picasso. cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. na Suíça. quando tudo fazia supor uma vitória alemã. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon. esferas. Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. No Brasil. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). e pelo menosprezo por verbos. na década de 20. adjetivos e pontuação. Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. e a chamada poesia concreta da década de 60. de 1907. escultura). considerada a primeira obra cubista. Ao lado. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque.

o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra. o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. da valorização do sonho. limpar. A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. daí ser contra as teorias. o presente e o futuro. em 1924. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos.” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. os quais demonstram que. importante era o grito. em busca do homem primitivo.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. da liberação do inconsciente. completa.Dadaismo. como sou também contra os princípios. negativo. de loucura agressiva. Negando o passado. Tristan Tzara (1896-1 963). ao acaso) para batizar o movimento. Entretanto. Gombrich. também éconta o manifesto. A própria palavra dadá. por André Breton (1896-1970). como afirma um de seus iniciadores.” Importante era criar palavras pela sonoridade. Foi essa idéia que fez os surrealista 61 . A propósito. em sua História da arte: “(. Varrer. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. uivos das dores crispadas.. pouco se importando com o leitor. quebrando as barreiras do significado. uivos das dores crispadas. a executar. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada. suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior.. ou seja. no prefácio a Paulicéia desvairada. não significa nada. escolhida (segundo eles. Como afirma EH. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. as ordenações lógicas. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”. das inconseqüências: A VIDA. Aliás.

medos. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos. com a eclosão da 1 Guerra Mundial. não constitui uma “escola literária”. por exemplo. até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo.Modernismo não constituir uma “escola literária”. seguindo determinadas características. com a realização da Semana de Arte Moderna. Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte. já promovem rupturas com o passado. traumas). limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. a influência de Freud é marcante. abordaremos o período que se inicia em 1902. com propostas realmente inovadoras. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. por apresentar individualidades muito fortes. com a publicação de dois importantes livros — Os sertões. desde os poetas parnasianos e simbolistas. Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários. de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. há quem afirme que o século XX só se inicia. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros. Assim. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário. De fato.O Pré-Modernismo Historicamente. Na realidade. Características Apesar de o Pré. que continuavam a produzir. o sono e o sonho. no Brasil. 9 . de fato. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso. não sendo ainda modernos. essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. frustrações.. São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. Lima Barreto. podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . No Brasil os. o mais extravagante dos surrealistas. Graça Aranha.” Em Salvador Dali. primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. de Euclides da Cunha. ainda. ou seja.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta.

com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. há esse caráter inovador em determinadas obras. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada).- Ruptura com o passado. Cidade Mortas. Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino. é o grande tema do Pré — Modernismo. por exemplo. Ligação com fatos políticos. dos caboclos intenioranos. o Espírito Santo com Graça Aranha. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). o “pai do determinismo” -. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe. Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. e Canãa. cientificista e naturalista. Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista). por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). o caipira. o Brasil não — oficial do sertão nordestino. Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. vômito. A Linguagem de Augusto dos Anjos. dos subúrbios. 63 . mais admirado é o escritor que a escreve. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira. o subúrbio carioca com Lima Barreto. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor. vermes). o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. os funcionários públicos. iniciado em 1922. Os sertões. os mulatos. escarro. Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista.

” Este é um outro aspecto do livro . Daí o caráter revolucionário de Os sertões. para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República. Denunciemo-lo.trazendo à luz. na significação integral da palavra. Nessa época. como correspondente de guerra do jornal paulista. como se pode ver na apresentação da obra. a gênese dos mestiços. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos. antes o olhar de futuros historiadores.. como - - 64 . documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino. quando estava na relação de O Estado de São Paulo. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças. Só quando pisou o solo baiano.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano. Em seus primeiros artigos sobre Canudos. um crime. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. Afirma o autor: “(. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. Ao mesmo tempo.. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia.” Para tanto. trata em sua obra da Campanha de Canudos. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. pela primeira vez em nossas letras. é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro. palidamente embora. E foi. uma brilhante análise de tipos distintos. as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região.

” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito.o gaúcho e o jagunço. de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. a “sub-raça”. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX.” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico. em 30 de abril de 1942. um forte”. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. Sem dúvida. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é.15 e 17 de fevereiro de 1922. “o sertanejo é. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte. os progressos internos da técnica e da educação. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens. por conseguir sobreviver em condições tão adversas. a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais. Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime. um forte. Dessa forma. Isto foi o movimento modernista. antes de tudo. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. com a prática européia de novos ideais políticos. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. Para compreendê-la melhor. realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13. no Rio de Janeiro. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos.Juca Pirama”. bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. mas também como um movimento político e social. a uma Iracema. A transformação do mundo. contrapõe o sertanejo. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. Assim. justifica a luta. Idealizada por um grupo de artistas. a um tupi de “I . Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”. até perto de 1930. o movimento modernista foi prenunciador. a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. na - 65 . Ao falar sobre o homem do sertão. o jagunço. antes de tudo.

o Brasil passa por um momento realmente revolucionário. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional. Tais manifestações. em 1929.. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista. inequivocamente de classe média. a meu ver. a partir de 1922. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. o seu sentido verdadeiramente específico.” 66 . também tipicamente de classe média. em 1922. assim definido por Mário de Andrade: “(. Constitui. portanto. Porque. que se estende de 1922 a 1930. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais. Não por mera coincidência.) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas. Nele verificamos. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira. tem início uma primeira fase modernista. a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética. o movimento modernista vive uma segunda fase.. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias.. embora lançado inúmeros processos e idéias novas. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é.. a qual reflete as transformações por que passou o pais.” De 1930 a 1945.) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo.maior orgia intelectual que a história artística do pais registra.. a economia mundial caminha para um colapso. ainda. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia. Nessa década. Nelson Werneck Sodré. com a revolta militar do Forte de Copacabana. ou seja. Isto é.

” 67 .Ao mesmo tempo que se procura o moderno. Oswald de Andrade. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira. visa o presente. a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas). Por isso é polimorfo. (. Guilherme de Almeida e Plínio Salgado. Antonio de Alcântara Machado. cômico. sempre.. (.. . Cassiano Ricardo. e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta. mas de ser atual.) Klaxon não é exclusivista. invejado. a pesquisa de fontes quinhentista. Por isso. sem renegar o passado.(. ) Klaxon cogita principalmente de arte. Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos. inquieto. destacam-se Mário de Andrade. ) Klaxon sabe que o progresso existe. caminha para diante. insultado. consciente.. Manuel Bandeira. um nacionalismo crítico. de denúncias da realidade brasileira. além de Menotti deI Pichia.. utópico. o original e o polêmico. Mas quer representar a época de 1920 em diante. As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe. identificado com as correntes políticas de extrema direita. de outro. politicamente identificado com as esquerdas. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago. Klaxon não se preocupará de ser novo. exagerado. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens. um nacionalismo ufanista. aconselhado por Pascal. Essa é a grande lei da novidade. onipresente. E. Klaxon é Klaxista. ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. feliz. Como se percebe já no final da década de 20. contraditório. sempre. . Klaxon não é futurista. irritante.

afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. a alma da nossa gente. da própria determinação instintiva. no encantamento das descobertas manuelinas. Estava criada a poesia “pau —brasil’. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa. edição de 17 de maio de 1929. entre outras coisas. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração...• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade. intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’. à tirania das sistematizaçôes ideológicas. a sua própria terra. finalmente. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu. que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo..o grupo ‘verdamarelo’. um órgão político.) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros. e que. que. Entretanto. deslumbrado. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo.. A volta à pátria confirmou.) Somos.” • A Revista “(. Esse fato.. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política. numa viagem a Paris.. sem quebra de nossa originalidade nacional. Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. lança o Manifesto 68 . através de todas as expressões históricas. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo. pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(. . através de quatro séculos. (. com sede em Recife. inexplorado e misterioso. de que alguns já desconfiavam.” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo. como o fez.) Aceitamos todas as instituições conservadoras.

no plano interno. “que come”).Regionalista de 1926. Em janeiro de 1928. da derrubada de Getúlio. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. no romance. Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador. José Américo de Almeida. em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. que criara a Escola da Anta. na poesia. A primeira contou com 10 números. poru. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais. congressos. Além de promover conferências. e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. abre-se um novo período na história literária do Brasil. Vale lembrar que. publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. a partir da década de 1930. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. 69 . Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. o Centro editaria uma revista. ‘homem”. econômico e culturais”. de março a agosto de 1929. segundo os antropófagos). a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. no Estado Novo. ano do fim da guerra. O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. José Lins do Rego. Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”. das explosões atômicas. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. Em 1945. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. a João Cabral de Meio Neto. exposições de arte. vive-se depressão econômica. Assim a par das pesquisas estéticas. reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. da criação da ONU e no plano nacional. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. o universo temático se amplia. com nomes que vão de Graciliano Ramos. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial.

cultivando o verso livre e a poesia sintética. É um tempo de definições. os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior. meu coração não é maior que o mundo. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. de compromissos. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante. Murilo Mendes.Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana.que animação! Um pic-nic com carabinas." Formalmente. 70 . de que é exemplo o poema “Cota zero”. com seu livro História do Brasil. mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”. repensando nossa história com muito humor e ironia. que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período. é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e. a Mário de Andrade. de Drummond: "Stop. Lembramos. ALGUMA POESIA (1930). fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. em verdadeira profissão de fé. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo. a propósito. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase. de Jorge de Lima. seguiu a trilha aberta por Oswald. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos . declara: “Não.

Não nos afastemos muito. Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. Por isso me grito. sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. Por isso me dispo. longe de significar derrotismo. Destelho as casas penduradas na terra. 71 . ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos.E muito menor. Não desprezo nada que tenha visto. vamos de mãos dadas. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -. Por isso gosto tanto de me contar.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. Por isso freqüento os jornais. caminha para uma poesia religiosa. Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão. nos sons. nos movimentos.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. Desloco as consciências. Toco nas flores. não nos afastemos. abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. nas almas. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. Nele não cabem as minhas dores. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo.

desarticulado. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 . de “restauração da poesia em Cristo”. São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. escrito em parceria com Jorge de Lima. mística. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja. glorifico o soldado vencido. não posso amar ninguém porque sou o amor. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. Mundo enigma. uma vez que. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos. longe como o diabo. Assim é que. o poeta não abandona a temática social. Surge dai a consciência do caos. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30. Sua obra ganha em densidade. e ando nos quatros cantos da vida. pronunciada em 1943. utilizando-se para isso da lógica. o finito e o infinito. O visionário. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. José Lins do Rego. da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro. Graciliano Ramos. tema constante em sua obra. tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. Consolo o herói vagabundo. Jorge Amado e Érico Veríssimo. mais maduro. Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. o material e o espiritual. Múltiplo. Nada me fixa nos caminhos do mundo. de uma civilização decadente. Poesia liberdade. encontramos autores como José Lins do Rego. As metamorfoses. de um mundo esfacelado.” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”.a rua estala com os meus passos. em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. RacheI de Queiroz.

que andava perdido. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. ou antes. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. de José Américo de Almeida. o drama da economia cacaueira. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. queremos. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. O mestre Manuel Antônio de Almeida. o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira. espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. afirma Paulo Honório. 73 . que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. no Brasil. não cabe culpa ao romancista. em 1850. sua importância deve-se mais à temática (a seca. a miséria. está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. O segredo era chegar até o povo. “Em verdade este romance e o anterior. Levamos uns anos para chegar ao povo. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza. toda a alma. Terras do sem —fim. nos encontrar com o povo. a fome. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. Sem ele não haveria eternidade. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima. acima de tudo. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. publicado em 1928. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. Hoje. o intenso movimento migratório. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa. Ele tinha todo o oiro. podemos dizer. nos dera o roteiro. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. Sem o povo não haveria eternidade. decadência dos bangues e engenhos.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”. o poder político nas mãos de interventores.“Nós. O nosso romance tem um século. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. Nesses dois livros tentei fixar. foi A bagaceira. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. com imparcialidade e paixão. os retirantes.

O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. embora o primeiro superponha-se ao segundo. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. como para Vicente. e Conceição. sua terra. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. o que resulta em uma narrativa dinâmica. sua gente. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos. Na narrativa. mais político. as secas são referências constantes em seus romances. Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social. em decorrência da situação adversa. Chegou tão alvo. A partir de então. esmagados pelas poderosas usinas. moça culta da capital. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. povoam o Santa Rosa o tio Juca. Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. cujo título refere-se à grande seca de 1915. destacam-se duas situações: primeira. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. Em todo o ciclo. apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. que. sem dúvida O Quinze. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. passando a valorizar a análise psicológica. moço mas rude. vivida pela escritora em sua infância. o cenário é o engenho Santa Rosa . me disse Tia Maria. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. em muitas passagens. Além deles. foi publicado em 1937. a relação afetiva entre Vicente. é o próprio José Lins do Rego). e nem parece gente branca. do velho coronel Zé Paulino. a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. Isto 74 .

Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos. há mais de um mês que está de cama. Viveram tão juntos um do outro. Ricardo e Santa Rosa se acabam. As febres estão dando por aí. Pelo contrário. e em seguida. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. sofrido e fracassado. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. se escraviza.” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. solto como um bicho. Além do ciclo da cana. Depois de Moleque Ricardo veio Usina.” O próprio José do Rego. porém. espatifado. O filho do seu Fausto. Carlos de Meio. Uma grande melancolia os envolve de sombras. Seu avô ontem me falou nisto. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. Doidinho. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras. Bangue. Veio. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. 75 . de pés no chão. no Pilar. Sucede. após o Menino de engenho. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina. ponto máximo de sua obra. Entretanto. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio. com ferramentas enormes. Você é um menino bonzinho. em 1943. Carlinhos foge. os Ricardos. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. têm o mesmo destino. Pode ser que se pareçam. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. foram tão íntimos na infância. os chamados ‘moleques de bagaceira’. Os meninos de Emilia já estão acostumados. não vá atrás destes moleques para toda parte. estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. De manhã à noite. Carlos de Meio havia crescido. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. no prefácio ao romance Usina. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’.faz mal. A história desses livros é bem simples: . José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto. com máquinas de fábrica. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. você não. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos.

capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. Além disso. Nesse contexto violento. nesses casos. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. a morte é uma constante. como no inicio de Vidas secas. presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. porque tinham o que dizer. teria sido a literatura de cordel. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho.” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes. em nome da sobrevivência dos demais. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 . um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. Baleia jantara os pés.como o misticismo e o cangaço. O papagaio é sacrificado. num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. ou ainda. Assim. a cabeça os ossos do amigo. tinham o que contar. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome). e não guardava lembrança disto. tensão essa geradora de um conflito intenso. amados e ouvidos pelo povo. outro nome próprio. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. misticismo e seca”. Em seus romances. Portanto. A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas.) Os cegos cantadores. bem como a oralidade da narrativa. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. homem x meio social. Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. a lei maior é a da selva. onde haviam descansado. devorado canibalisticamente. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. contando com o papagaio. é o final trágico e irreversível. Coitado.” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas. morrera na areia do rio. viventes.. decorrente de relacionamento impraticáveis. ela atrapalha a caminhada da família. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural. dois humanos infantis sem nome. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie. identificados como “o mais velho” e “o mais novo”.. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. como afirma o próprio autor: “(. Em conseqüência. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço. nas palavras do próprio autor. A provável fonte temática.

a cidade. Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. dentro da posição pessimista e negativista do autor. ele próprio. segundo uma visão distanciada da real idade.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. ao lado do retrato e da análise social. intenções. o qual. e que tanto os personagens criados quanto. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor. segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. São Bernardo e Angústia). no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. desejos e esforços. quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. em que o autor se coloca como problema e como caso humano.. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. Seus personagens são seres oprimidos. pela cidade. E dentro das estruturas vigentes. em seguida. há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem. Paulo Honório e Fabiano.. A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito. entretanto. Dai Rolando Morei Pinto. são projeções deste impulso fundamental. não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. tudo se torna inútil. estes últimos símbolo da 77 . que constitui a unidade profunda dos seus livros. na palavra inútil: “Parece que. b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). )no ângulo da sua arte. ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. gestos. E o crítico conclui: “(. principalmente.à realidade. c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere). mas o que as circunstâncias impõem. a caatinga. moldados pelo meio — Luis da Silvam. pelo sertão. em brilhante tese sobre o autor. o latifúndio. o drama dos retirantes.

a viagem progredira bem três léguas. estavam cansados e famintos. Mas o pequeno esperneou acuado. fechou os olhos. Acerca deste último aspecto. condenado do diabo. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. zangado. cambaio.ditadura Vargas. recuaram-se. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Seus romances. Arrastaram-se para lá. Como isto não acontecesse. Anda. Os juazeiros aproximaram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar. devagar. fustigou-o com a bainha da faca de ponta. o Cavaleiro da Esperança. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. tanto em primeira como em terceira pessoa. através dos galhos pelados da caatinga rala. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica. seja como escritor. através deles. Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. analisar toda uma sociedade. a espingarda de pederneira no ombro. como 78 . Ordinariamente andavam pouco. sentou-se no chão. seja como homem público. Fazia horas que procuravam uma sombra. Em seus textos enxutos. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. espiou os quatro cantos. deito-se. praguejando baixo. depois sossegou. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. gritou-lhe o pai. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Do ponto de vista formal. Trabalha a narração com a mesma mestria. Não obtendo resultado. A folhagem dos juazeiros apareceu longe. o aió a tiracolo. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. Fabiano sombrio.

citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. O país do Carnaval e Capitães de areia. c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase. verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. Finalmente. se consolidaria com Gabriela. no entanto. iniciada com Jubiab áe Mar morto. Podemos notar. a crise da sociedade moderna. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. reaparecem em várias situações e em Vários momentos. apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. para Dona Flor e seus dois maridos. Evidentemente. como é o caso de Suor. Cacau. o cotidiano caótico. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. é uma crônica de costumes). tanto na abordagem psicológica como na social. embora negada pelo autor em suas entrevistas. se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado. Seus personagens. revolucionário. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. tanto no plano individual como no plano social. essa palavra é liberdade. com forte coloração social. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna. o autor tem sido acusado de ser redundante. Entretanto. ao passo que o último é mais lírico. Como exemplo maior. estendendo-se às últimas produções do autor. essa divisão encerra apenas uma finalidade didática. por exemplo. há uma distância clara e evidente. cravo e canela (que. com destaque para Clarissa e Vasco. De Seara vermelho. esses 79 . caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances. O primeiro é mais político. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. passando por Música ao longo.

O Pós-Modernismo 1945. a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922. cujo primeiro número. O tempo. com as lutas do início da República. como destaque para Clarice Lispector. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. Terra e Cambará. Logo depois. O retrato. em busca de uma literatura intimista. introspectiva. igualando-o. excelente crítico literário. e 1. início da redemocratização brasileira. 11. narrativa mais contemporânea.O arquipélago. ilegalidades. Na poesia. O prisioneiro e Incidente em Antares. a Jorge Amado. tanto nos romances como nos contos. que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. pertencem os romances O senhor embaixador. convocam-se eleições gerais. e 80 . 1945. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. mais dedicada aos temas da atualidade. um retrocesso.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. exílios. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. fim da Guerra Mundial. Fim da ditadura de Getúlio Vargas. À última fase da produção de Veríssimo. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. tem início a Guerra Fria. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. lançado na primavera de 1947. Mais tarde. sem exceção. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. de sondagem psicológica. afirma. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. outras. A prosa. encarrega-se da seleção. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. que enfoca as primeiras décadas do século XX. período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. Logo depois. em termos de aceitação pública. A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. que chega até o governo Vargas. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam.

Com isso. a universalização do regional. Geir Campos e Darcy Damasceno. os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. Péricles Eugênio da Silva Ramos. mas sim nos neologismo. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. percebe-se uma revalorização da linguagem. negando a liberdade formal. e caminhou para 81 . Entretanto. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra.só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. é formado. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946. suas expressões. as palavras recriadas ganham força e significado novos. e ele nesse ponto era bem — assistido. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista. podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. e não apenas com uma admirável vocação acústica. por exemplo. A gente lê. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco. na recriação das palavras. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. chamado de Geração de 45. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. entre outros poetas. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. por Lêdo Ivo.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. Esse grupo. as ironias. suas particularidades. que é bom ressoador’. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. A princípio. a seguir.

com atritos de couros. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”.. volta. dá direito. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto. Vai... vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança.. escurecidas à fumaça dois tiros. vem. Eh. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros.... casco a casco.. e as vagas de dorsos. E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas.Ô gostosura de fim . Boi bem bravo. Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. vai não volta.. fasta vento. pela estrada. com muita tristeza. vem na vara. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -.cima de Nhô Augusto. e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos. cada um tem sua cor. e que os cavalos gingam bovinamente. dá de dentro.. mesmo prestes assim para surpresas más.de — mundo!. de chifres imensos. na massa embolada.. batendo com as caudas.. com os cabras saltando e miando de maracajás. estralos de guampas. 82 ... cambada de filhos — da — mãe.. chifres no ar. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante. agora. das vacas e touros. cabisbaixo. boi berrando.. mugindo no meio. sem — querer e imitativo.” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia. um boi pintado. querência dos pastos de lá do sertão. booôi!. bota baba. Que de trinta. e o berro queixoso do gado junqueira. vai varando. ‘Um boi preto. soca soca. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas. -Tchou!. E.. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente. saudade dos campos. mexe lama. .. rola e trola. Devagar. pronta de todo está ela ficando. o ritmo e sonoridade de sua linguagem. que chegou minha vez!. bate baixo. Cada coração um jeito De mostrar o seu amor. estrondos e baques. satisfeitos.” Pouco a pouco porém.Tchou!. mal percebido. em que o autor narra a caminhada da boiada. dá de duro. trezentos ou três mil.

a pesquisa do ser humano. já notado. Por isso.. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere. e onde criminosos vive seu cristo — jesus. melhor ainda. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. quinze léguas. em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo.” (João Guimarães Rosa) O misticismo. tudo dá — fazendões de fazendas. madeiras de grossura.ser. O Urucúia vem dos montões oestes. isto é o sertão.A boiada vai. Mas hoje. culturas que vão de mata em mata. Enfim. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães. as vazantes. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com. fim de rumo. Toleima. o” estar —no — mundo”. eles dizem. o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão. outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa.” 83 . dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. demais do Urucúia. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade.. pois” o sertão é o mundo “ou. como um navio. que na beira dele.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. de outra forma. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes. terras altas. Esses gerais são sem tamanho. Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser.‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”. então. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer. ora universal e infinito. . é questão de opiniões.. o aqui não é dito sertão? Ah. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo. pequeno e próximo. sem topar com casa de morador. O gerais corre em volta. resultando dai o chamado romance introspectivo. logo na abertura de Grande sertão: veredas. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. pelo pavor. assim explicava a autora seu ato de escrever. até ainda virgens dessas lá há. Deus e o diabo. Para os de Corinto e do Curvelo. uma religiosidade quase medieval. arredado do arrocho de autoridade. na obra de Guimarães Rosa.. onde um pode torar dez. para que ele não “forme forma”.H. O sertão está em toda a parte. entre o ser e o não . almargem de vargem de bom render. “o sertão é dentro da gente”. Assim o sertão de Rosa: ora particular.

e sua cidade. suas tradições. Augusto dos Anjos. personificado. Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos. em sua consciência e inconsciência. afirma o poeta. em A hora da estrela. por mais de uma vez. intimista. Cesário Verde. A Espanha e sua paisagens. onde me considero um sevilhano. seu estado natal. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. solitário e inconseqüente. e o drama do narrador. São objeto de verificação e análise os mocambos. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. rio Capibaribe. O melhor está nas entrelinhas. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações. No nível temático. O Nordeste com sua gente: os retirantes. mas sim nas entrelinhas. inclusive. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. apresentadas a seguir. pela tendência ao surrealismo. pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. Não há que civilizar o mundo. em alguns casos.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo. a herança medieval e os engenhos. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. explorando os limites do significado. trabalhando metáforas e aliterações. busca fixar-se na crise do próprio indivíduo. ao mesmo tempo. “exterior e explícita”. há que “sevilhizar” o mundo “. o drama de Macabéa . “Sou um regionalista também na Espanha. A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever.No plano da linguagem. os cemitérios e o aparece. O melhor ainda não foi escrito. seu folclore. Manifesta. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro.” Essa literatura introspectiva. que 84 . em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. Pernambuco. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. duelando com as palavras e os fatos. o Recife. de modo muito particular. a literatura de Paul Valéry. No entanto.

Sabia da lama como de uma mucosa. evitava seu caule. flor não de todo flor. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. da água do corpo de água. raros. a própria arte poética. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. transparentes florações nascidas do ar. como as brisas. calor de nossa boca. aprofundando assim a temática social.Graciliano Ramos e Drummond. o poeta repensa sua poesia: “Poesia.o estrume do poema. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. seu ovário. Suas intestinações. (fezes como qualquer. coou. Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. Nada sabia da chuva azul. da brisa na água. no ar. ou seja. bolha aberta no maduro). dos peixes de água. extinta de flor. o próprio rio Capibaribe. espécie Esperava as puras. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). da água de cântaro. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado.” A partir de 1050. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. 85 . Delicado. Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. É o caso de O cão sem plumas. da fonte cor — de — rosa. mas flor. frágeis.

na sua criação. o “poema — produto: objeto útil”. principalmente. herdado. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional. original. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952. 86 . realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. com a Exposição Nacional de Arte Concreta. quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação). as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano). Entretanto. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -.” O rio Capibaribe voltaria a ser tema. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari. também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. rompendo com “ o vício retórico nacional”. musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60. de poetas brasileiros. pela primeira vez. do século XIX. Procurava-se assim. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras. a participação direta. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto.Devia saber dos polvos.e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. ganhou inúmeros prémios e aproximou. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. Entretanto.

. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. assim explicam os irmãos Campos: “(. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta.” Apresentamos. • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo. seu material: a palavra (som. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo.. os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo. o visual. 87 . Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos.) uma ordenação não — linear do poema. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla. Sobre isso.. o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página. economia e arquitetura funcional do verso”). a carga semântica. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo. embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso. exigindo dele uma participação ativa. dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros. documento — programa do movimento. Dessa forma... Daí defenderem “(. apenas dispersado (.) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural. na qual o branco da página. que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial. estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta.segundo os concretistas.. em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla. forma visual. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”.)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal). carga semântica).

caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas. Ronaldo Azeredo. de Mauro Gama. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. Leia-se. A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. conforme sua posição no texto. integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. conta uma poesia de expressão. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. Décio Pignatari. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. Edgar Braga e Pedro Xisto. subjetiva e hedonística. o texto “Crime 3”. realismo total. cujo sentido e dicção mudam”. no entanto. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. que. o poema — produto: objeto útil.• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. Ferreira Gullar. Augusto de Campos. como Manuel Bandeira. por exemplo. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 . no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos.

de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo. como já denota sua “autobiografia”: 89 .práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996). Dessa forma. Poesia Na poesia. Ferreira Gullar e José Paulo Paes. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. por uma rígida censura e enraizada autocensura. Aliás. quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país. Produção contemporânea O que chamamos.cavo. na caixa de som (colchão murcho coração). Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. neste capítulo. Manoel de Barros é semente. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral. só amenizados a partir de meados da décadas de 80. filiam-se ao grupo da poesia. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90. titulo muito adequado. Pelo contrário. as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada.” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. a sonoridade das palavras. Mantendo a tradição da poesia discursiva. Mário Quintana. duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. como veremos mais adiante. Adélia Prado. flor e fruto do Pantanal mato-grossense.

O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. Manoel de Barros é um deles.. Fazer coisas desúteis. etc. Bernardo Élias. Prosa No romance. buscando uma nova forma de organizá-lo. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. o parafuso de veludo. Passei a vida fazendo coisas inúteis. como afirma o editor Ênio Silveira. 3. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. um abridor de amanhecer. etc. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo. Ou. Carlos Drummond de Andrade. talvez seja. (E que seja sem dor. onde as verdades essenciais. coisa. uma de terminada visão de mundo. “guiados por ele. também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente. Trabalhado com maior ou menor intensidade. Mas quem roubou a cena nos últimos anos. Aguardo um recolhimento de conchas.” Inúteis. O nada mesmo. em suas obras. 1. Por isso mesmo. nada. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. foi Rubem Fonseca. pessoa apropriada para pedras. Ainda na prosa. Alguns poetas passam. em algum banco de praça. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. Márcio de Souza. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. bichos. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. tudo que use abandono por dento e por fora”. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. José Montello e José Cândido de Carvalho. Antônio Callado. Nasci na beira do rio Cuiabá 2. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. Em três linhas. No texto que abre o Livro sobre nada. Roberto Drummond e Ana Miranda. espantando da cara as moscas mais brilhantes).“Não sou biografável. em uma fase de sua produção. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”.

e ofendido. linha de frente de primeiríssimo time. dai-me abraços. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede.. escritas na década de 60. Lígia Fagundes Telles. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. analisado no conjunto das produções contemporâneas. com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. António Callado. que hei delinqüido. Entre os contista mais significativo. Luís Vilela. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. hoje. Lourenço Diaféria. Menção especial merece Sérgio Porto. é bem verdade. o conto.Gregório de Matos Ofendi-vos. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . Jesus. Abraços. que todo me há vencido. Por outro lado. ofendido vos tem minha maldade. Nélida Piñon e Rubem Fonseca. Tarefas Analise os textos a seguir. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. João António. explorando técnicas modernas de narrativa. que encaminha a vaidade. De coração vos busco. Luis Fernando Veríssimo. delinqüido vos tenho. Jesus! 91 . que me rendem vossa luz. Arrependido a tanta enormidade. o Stanislaw Ponte Preta. Paulo Mendes Campos. Domingos Pellegrini Jr. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. Vaidade. citam-se Dalton Trevisan. Rubem Braga. Misericórdia. Este último lançou. tem servido de mestre a muitos cronistas. meu Deus. que claro me mostra a salvação. meu Senhor. A salvação pretendo em tais braços.gênero na imprensa. Otto Lara Resende. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. Luz. amor. em 1995. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. Maldade. entre outros. Moacyr Scliar Rawet. Verdade é. Vencido quero ver-me e arrependido. que. Arrependido estou de coração. coletânea de oito histórias que.

Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra. Nossa vida mais amores. Em cismar. viria ao menos 92 . Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. Por te não poder ver. Sem qu’inda aviste as palmeiras. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. sozinho. Não sabe ainda que coisa é alegria. à noite mais prazer encontro eu lá. Nosso céu tem mais estrelas. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. Onde canta o Sabiá. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã.Texto II Soneto . Tinha escondido a chama brilhadora. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. com que a noite escura. E a suavidade do prazer trocada. Minha terra tem palmeiras. Tanto mais aborrece a luz do dia. Não gorgeiam como lá. Nise. Minha terra tem primores. que sonora. Que tais não encontro eu cá. Sufocando o sol a face pura. à noite. Aque alegre. que suave. a matutina Aurora O negro manto. Minha terra tem palmeiras. Nise Adorada. Onde canta o Sabiá. Mais prazer encontro eu lá. As aves que aqui gorjeiam.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. Em cismar. sozinho. Onde canta o Sabiá. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia.

E voam mais e mais. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães. Ouvem-se gritos. Presa nos elos de uma só cadeia.Fechar meus olhos minha triste irmã. No turbilhão de espectros arrastadas. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória. se no chão resvala..... A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira. Tinir de ferros. Outras. estalar de açoite. o chicote estala.. marinheiros! Fazei-os mais dançar!. Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar. Cantando. suspendendo às tetas Magras crianças. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote. Negras mulheres. mas nuas e espantadas... o dolorido afã... Outro... estridente.. E após.” 93 .. outro enlouquece.. fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho.. Em sangue a se banhar. o capitão manda a manobra. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais... que de martírios embrutece.. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco. moças. Se o velho arqueja. geme e ri! No entanto.

ais. que abre feridas com seu azeite de fogo. de áureos relevos. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos. Soluçando nas trevas. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia. Vinda do Olimpo. tardes. maldições. atroz. Depois. Já de aos deuses servir como cansada. Mares. do ouvido aproximando-a. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas. entre as grades Do calabouço. era o veneno e era açúcar gostoso. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda. era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta. que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. estridente. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional. preces ressoam E ri-se Satanás!. a lagarta viscosa. que o atordoara nas matas brasileiras. Da Dor no calabouço.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa. um dia. Mas o lavor da taça admira. a um novo deus servia. olhando imensidades." – fragmento de O Cortiço. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e.. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. estrelas. e. às bordas Finas hás de lhe ouvir. uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta. ora repleta ora esvazada. piscando-lhe as artérias. a muriçoca doida. Ó almas presas. ela era a cobra verde e traiçoeira. Cárcere das Almas . A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada..E ri-se a orquestra irónica... Toca-a. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. canora e doce. natureza. brilhante copa. sonhando. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. trabalhada De divas mãos.. funéreo! Texto VIII 94 . Ignota voz.. uma nota daquela música feita de gemidos de prazer.

São Paulo: Scipione. História concisa da literatura brasileira.Nesses silêncios solitários. Álvaro Cardoso. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI. São Paulo: Ática. 1976. graves. 1993 NICOLA. 1980 CARPEAUX. A. São Paulo: Cultrix. J. Rio de Janeiro: Tecnoprint. 1994 HELENA. Lucia. São Paulo: Scipione. Movimentos de vanguarda européia. Alfredo (org. & LOPES. 95 . 1963 GOMES. Otto Maria. O simbolismo. História da literatura portuguesa. 3ed. 1968 CIDADE. Oscar. 9ed. 1998 SARAIVA. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. Coimbra: Armenio Amado.). 3ed. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. 2ed. José de. Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. Porto: Porto Ed. Hernani.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful