FACULDADES INTEGRADAS DE JACAREPAGUÁ

DIRETORIA ACADÊMICA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD

LITERATURA BRASILEIRA

Sumário: Módulo I II III Conteúdo Constituição do objeto de estudo da Literatura Semiotização do texto literário Periodização Literária / Estilos de Época

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Módulo I: Constituição do objeto de análise da Literatura O conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade que nos cerca pode ser prático e teórico. Conhecimento prático Conhecimento teórico termos científicos e filosóficos. No caso da literatura, sabemos que a poesia é lida de uma maneira e a prosa, de outra, e, portanto pela prática distinguimos poesia de prosa. Mas se quisermos definir cada uma dessas formas, teremos de abstrair delas as características que essencialmente as distinguem, e daí chegar a uma definição geral e teórica de uma e outra. Existe, portanto, um conhecimento prático e um conhecimento teórico dos fatos literários e esse conhecimento teórico chamamos de denominado Teoria da Literatura. Diante da obra literária podemos adotar cinco tipos de comportamento: a) o de leitor - interessado apenas em compreender a obra; b) o de analista - interessado em decompor a obra em seus elementos, com vistas à compreensão profunda e rigorosa de sua forma e de seu conteúdo; c) o de crítico - interessado em julgar a obra segundo determinadas escalas de valor, como a artística, a moral, a intelectual; d) o de historiador - interessado em determinar a situação da obra em seu sistema histórico; e) o de teórico - interessado em extrair da obra e de tudo o que com ela se relaciona, idéias gerais, e em elaborar essas idéias tendo em vista formular uma teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários. Objeto de estudo o objeto primordial da Literatura é a o texto literário. produto da natural experiência da vida produto da elaboração mental dessa experiência, em

Todo e qualquer texto pode ser classificado, em consonância com as suas particularidades como: a) texto obra b) texto objeto

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conotativa 4 . opaca 6. fictícias ou não Referentes do texto O homem a realidade a expressão ( seu modo de manifestação) Texto = resultado de uma leitura Objetiva subjetiva Texto objeto 1.texto = entrelaçamento de linhas. períodos que formam sentido. denotativa Texto obra 1. Conceitual 7. Linguagem automatizada 5. Transparente 6. ultrapassa a utilidade e a funcionalidade do texto objeto 3. linguagem desautomatizada 5. orações. literário 2. texto expressa e manifesta a relação dos homens entre si dos homens com as realidades circundantes. Funcional 4. lança mão do discurso metafórico. Cotidiano 2. plurissignificativo 4. Técnico 3.

O valor artístico de um texto não está em seu sentido literal ou manifesto. 5 . A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. em última análise. Literatura = linguagem carregada de significado = trapaça O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. pelos interesses desse grupo. (Fernando Pessoa) Ideologia = sistema de idéias peculiar a determinado grupo e condicionado. mas no seu sentido profundo. nas entrelinhas. Entrelinhas = vazios preenchidos pelo leitor = o não-dito = estrutura profunda Arte = transformação simbólica do mundo Artista= criador de mundos = criador de ilusões =criador de verdades = transformador: o que rompe a barreira das regras verossímil vs inverossímil Literatura e ideologia O fazer literário é uma realização ideológica plena.Valor artístico de um texto O valor artístico de um texto reside na maior ou menor apreensão que realiza na situação do ser humano em confronto com a realidade.

distinção e características 2. percebemos um conjunto de sons ( o significante). constituem o signo lingüístico: o significante ou plano da expressão . Texto literário e texto não-literário . constituída de sons . A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra.Expressão Literária e Não-Literária da Linguagem 1. metonímia 2. valores . para obter aquilo que se deseja. Por isto. um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da 6 . que nos faz lembrar de um conceito (o significado). numa palavra que ouvimos. mas interdependentes. com o qual almeja provocar mudanças . A denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado.4 plurissignificação 2. de uma época e que traduzem uma situação histórica: = conjunto de idéias . ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo. isto é.2 reflexão sobre o real 2.5 intangibilidade Denotação e Conotação Estes dois conceitos são muito fáceis de entender se lembrarmos que duas partes distintas. Exemplo: estudar e trabalhar para melhorar de vida. intenções e aspirações que cada ser humano possui em sua cabeça. o conceito.3 recriação da linguagem 2. 1.1 valorização da forma 2. Denotação e conotação 2. metáfora 3.= conjunto de idéias próprias de um grupo.e o significado ou plano do conteúdo a parte inteligível.uma parte perceptível.

de uma época a outra. que são apenas sugeridos. virtuais. valores afetivos e sociais. à polissemia e à metáfora Palavra com significação restrita Palavra com sentido comum do dicionário Palavra automatizado linguagem comum usada de modo Palavra com significação ampla Palavra cujos sentidos extrapolam o sentido comum Palavra usada de modo criativo Linguagem rica e expressiva 7 . constante. subjetiva. as palavras senhora. cada palavra remete a inúmeros outros sentidos. mulher denotam praticamente a mesma coisa. é a palavra em "estado de dicionário" Além do sentido referencial. referindo-se à realidade palpável. Conotação é a significação subjetiva da palavra. conotativos. de ordem abstrata. reações psíquicas que um signo evoca. explícito. Desta maneira. mas têm conteúdos conotativos diversos. A palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal. ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca. literal. isto é. o sentido conotativo difere de uma cultura para outra. seu sentido é objetivo. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões. naquele que lhe atribuem os dicionários. de uma classe social para outra. negativos ou positivos. Portanto. Denotação é a significação objetiva da palavra. Ela designa ou denota determinado objeto. principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca.expressão. esposa. podemos dizer que os sentidos das palavras compreendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. está ligada à ambigüidade. evocando outras idéias associadas. Por exemplo.

a analogia metafórica pode não ser plenamente decodificada pelo receptor. Esse procedimento é altamente produtivo na ampliação e renovação do vocabulário de uma língua. na verdade ele opera com regras pragmáticas. que exige variação e continuidade. uma espécie de emanação semântica. de inclusão. Garcia (1973) observa: "Conotação implica. pois metaforização é conotação". amplia-se o campo de abrangência do vocábulo. quando entre o sentido de base e o acrescentado há uma relação de semelhança." Metonímia A metonímia é a alteração de sentido de uma palavra ou expressão pelo acréscimo de um outro significado ao já existente quando entre eles existe uma relação de contigüidade. algum ponto em comum. uma opinião. Dessa maneira. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. um sentimento. Por exemplo. um juízo.A respeito de conotação. de coexistência. um estado de espírito. portanto. A partir daí. de interdependência. instaurando-se a polissemia. assim. a metáfora pode ser definida como uma transferência de significado que tem como base uma analogia: dois conceitos são relacionados por apresentarem. Metáfora A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na alteração do sentido de uma palavra ou expressão. em essência. Conotação é. quando dizemos "As 8 . Othon M. o traço característico do processo metafórico. que variam conforme a experiência. na concepção do falante. Embora seja um processo tradicionalmente encarado como eminentemente semântico. essencial para que se realize qualquer processo de mudança. em relação à coisa designada. Metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". pelo acréscimo de um segundo significado. o temperamento. de intersecção. de implicação. a cultura e os hábitos do falante ou ouvinte. isto é. possível graças à faculdade que nos permite relacionar coisas análogas ou semelhadas. os procedimentos analógicos apóiam-se em conceitos mais concretos e mais próximos à experiência do indivíduo. Se entendida apenas no nível semântico. mas sim de regras conversacionais. do autor ou leitor. Esse é. a sensibilidade. ele pode estender sua compreensão para níveis mais complexos e abstratos de apreensão e conhecimento da realidade. quando apresentam traços semânticos comuns. Em termos cognitivos. do que é verdadeiro ou relevante a partir das relações contextuais. Conceito tradicional e essencial para a compreensão do processo de significação da linguagem humana. As inferências são significações pragmáticas não dedutíveis de regras lógicas. criada no trabalho mental de apreensão.

Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário. as relações são mais restritas. não descansam as armas = . com predomínio de outras funções. com predomínio da função poética da linguagem.. A produção de um texto literário implica: • • • • • a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística 9 . É. e na interação entre os indivíduos. não descansam os soldados. um espaço relevante de reflexão sobre a realidade. tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade.cãs inspiram respeito". porque as pessoas idosas possuem. com predomínio da função referencial da linguagem. devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética. envolvendo um processo de recriação dessa realidade. em geral. estamos empregando cãs por velhice. Outros exemplos de metonímia: • • • • • • • ser uma pena brilhante = ser um grande escritor ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar foi movimentada a redonda no gramado = foi movimentada a bola ser o Cristo da turma = ser o culpado fazer mil sugestões = fazer muitas sugestões ter ótima cabeça = ter inteligência no Oriente Médio.. plurissignificativa e de intenso dinamismo. cabelos brancos. que possibilita a criação de novas relações de sentido. portanto. No texto não-literário.

recriando o real num plano imaginário. 2. 10 . léxico. Assim. Assim. ocorre a desautomatização da linguagem. e por isso degradados ao nível da animalidade. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. O literário possui um universo fictício. prosódico. morfossintático e semântico. Não é o tema. Refletindo a experiência cultural de um povo. Por isso. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. reordenando-a. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. nem temas inadequados a esse tipo de texto. citamos Platão e Fiorin (1991). que dizem: "Graciliano Ramos. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional.3 recriação da linguagem (desautomatização) No texto literário. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. em VIDAS SECAS. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. ou seja. visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece. de maneira indireta. num país como o Brasil. revelando assim novas formas de ver o mundo.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma. relacionada ao processo de recriação do real. onde os elementos da realidade concreta entram em tensão com o imaginário para riar uma nova realidade atrás da qual o autor desaparece.2. mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. não há temas específicos de textos literários. singular." 2. ou de produzi-lo. A título de exemplo. combinando-as de maneira inusitada. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. as artes desempenham um papel muito importante. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. nos planos fônico.

em todos os recursos que Meu povo. = se resume em todas as características que tornam o texto emprestam à obra valor artístico. num texto literário. No poema de Ferreira Gullar. literário. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. por exemplo. quando se resume um texto literário.2. Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. seu soneto é um texto literário. portanto. textos líricos. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. Podemos. No Soneto da Separação. sua intocabilidade. De repente. Poderão surgir. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. o poeta francês Paul Valéry diz que. podemos verificar que evidências da literariedade. perde-se o essencial. poéticos e textos não-literários. A esse respeito. não mais que de repente. resumir as idéias.4 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. Pelo trabalho com a linguagem. substituir vocábulos por sinônimos. suprimir ou acrescentar vocábulos. apreendese o essencial. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar 11 . Não podemos. quando se resume um texto não-literário. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. pelo uso de recursos poéticos. a partir de suas respostas. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto.

"no povo meu poema". desvio da norma culta 4. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). crescer. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . terra fértil. ao explorar conteúdos.No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em Terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta No texto. o povo e o poema crescem como a árvore nova. 2. para essa recriação.5 recursos característicos da literariedade em um texto lírico O escritor de um texto literário." c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. musicalidade 2. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. São alguns deles: 1. alogicidade 12 . procura recriar a linguagem. utiliza recursos variados. "Ao povo seu poema." Dois planos foram explorados -.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. poema/árvore. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. antidiscursividade 3. e. o poeta é comparado a um plantador.

Desvio da norma gramatical Característica da linguagem poética. vozes veladas. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. vivas.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. Volúpias dos violões. das aliterações. da rima. construção paratática 1.5. b) Rimas e aliterações . Vozes veladas. O trilo dos grilos. o uso poético da linguagem. com o raiozinho dos astros. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. das assonâncias. veludosas vozes. No poema de Cruz e Souza. da violação das normas. vãs. A ambigüidade (característica de todas as obras literárias) decorre. argentino. Hipérbato Infração mais freqüente Usado. anáforas a) Ritmo .evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. na maioria das vezes. vulcanizadas. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. esgrime. A norma do discurso poético é a antinorma. de aço fino. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. como nestes versos de Murilo Araújo. límpido. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. seja em verso. mais uma vez. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. para satisfazer exigências da métrica da rima do ritmo 13 . musicalidade: obtida através do ritmo. Seja em prosa. tímido. muitas vezes.

A hipotaxe caracteriza-se pelo predomínio das orações subordinadas. mudam a classe gramatical. a subordinação. A parataxe favorece o fluxo das emoções que brotam do eu-lírico. estabele um nexo lógico de dependência em oposição à liberdade da expressão das emoçõpes que envolvem o eulírico. violação da regência e da concordância. há uma oração principal. Paradoxo junção de idéias contraditórias que conferem alogicidade ao discurso. Alogicidade Perda do raciocínio lógico que rege a vida prática dos homens. A hipotaxe exige maior elaboração mental. Hipérbato = quebra da sintaxe lógico-discursiva. Entre os desvios da norma culta podemos citar: 1. 3. Nas construções hipotáticas. Não derramem por mim nenhuma lágrima 14 . Atividade: Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo) Quando em meu peito rebenta-se a fibra. Inversão da ordem natural das palavras. falta de consistência gramatical.Muitas vezes o hipérbato é usado em prejuízo da clareza. Falta de consistência gramatical = as palavras assumem funções inusitadas. Que o espírito enlaça a dor vivente. Parataxe vs hipotaxe A construção paratática caracteriza-se por predomínio das orações coordenadas em detrimento das subordinadas. hipérbato. 2.

.é dessas sombras Que eu sentia velas nas noites minhas....... De ti.. Se uma lágrima as pálpebras me inunda.... e escrevam nela: Foi poeta .....e amou a vida.. Explicitar os fios condutores que serviram de base para a construção do poema.........sonhou . Roteiro: 1.. 3....... E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de Alegria Se cale por meu triste pensamento.............. Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida. que nunca Aos lábios me encostou a face linda! .... ó minha mãe! Pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! .......................... apontando em que versos da estrofe são mais nítidos.... 15 ... É pela virgem que sonhei... separadamente................ Examinar cada estrofe....... Indicar a função da linguagem predominante no poema. Se um suspiro no seio treme ainda. Eu deixo a vida como quem deixa o tédio Do deserto....... Só levo uma saudade ..... o poente caminheiro Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro...Em pálpebra demente.... 2........... identificando os fenômenos líricos predominantes............. À sombra de uma cruz.

Explicitar os pedidos do eu-lírico feitos na segunda e terceira estrofes. criando uma realidade ficcional. que constrói sua narrativa a partir da influência do espaço nos personagens. Narrativa de Semiotização do Espaço (NSE). Explicitar a que o eu-lírico compara a vida. 7. estrutura o espaço. visíveis e invisíveis na estrutura dos textos com que interagimos diuturnamente. Há. assim como os esquemas de construção textual. Transcrever os versos em que o amor idealizado aparece nitidamente. o personagem e o acontecimento.estrutura a narrativa a partir da semiotização do espaço. analisando-lhe como imagem. uma das partes da narrativa: 1. no nível do imaginário. Podemos citar como exemplo o romance O Cortiço. usando-os como “antenas” de captação de mensagens verbais e não-verbais. segundo a semiótica literária. 6. Dessa forma. da sua morte. conotativamente. 5. Entende-se semiótica como uma ciência que nos ensina a “ver” por intermédio da exploração de todos os nossos sentidos. cada um deles. 8. Narrativa de Semiotização da Personagem (NSP). por 16 . através da ficcionalidade do espaço. o processo literário.4. 2. três padrões literários. que privilegiam. Transcrever as palavras e expressões que denotam diretamente essa idéia. A semiótica vai fornecer meios de identificarem-se não só os signos com que se constrói o código utilizado.a narrativa se estrutura a partir da semiotização do personagem. de Machado de Assis. de Aluísio Azevedo. Transcrever da primeira estrofe o trecho em que o poeta fala. o texto como um todo significativo. O texto precisava ser entendido em seu sentido global. A idéia de morte está presente em todo o poema. No romance Dom Casmurro. o texto considerado independentemente da natureza do signo de que se constitui e do veículo que o faz circular. da personagem e do acontecimento. Postulado básico literário é uma dinâmica que elabora a relação existencial entre o homem com o mundo. de todos os signos lingüísticos e não-lingüísticos. Módulo II Semiótização do texto literário Semiótica = é o estudo do signo em geral. verbais e não verbais. diagrama ou metáfora do mundo interpretado. convertido em discurso narrativo como prática semiótica.

ou seja. 2. 3. que acompanham a evolução política e econômica do país: a) a era Colonial b) a Era Nacional Essas eras são separadas por um período de transição. por exemplo. fazer um resumo e apontar o tipo de semiotização que permeia a obra. Os Sertões. (casa) Ler "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. sobre o mundo. toda a narrativa se estrutura a partir da relação dos fatos narrados com os outros elementos da narrativa. Tarefas: 1. – a narrativa se dá a partir da semiotização dos acontecimentos. Módulo 3 Periodizacão da Literatura Brasileira / Estilos de Época A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras. estrutura a sua narrativa a partir dos acontecimentos que envolveram a Guerra de Canudos. que corresponde à emancipação política do Brasil. Narrativa de Semiotização dos Acontecimentos (NSA). podemos notar que toda a narrativa gira em torno do personagem Bentinho e de sua visão sobre os acontecimentos. de Euclides da Cunha.exemplo. ERA COLONIAL ( 1500 a 1808) Estilos de época Quinhentismo (1500 a 1601) Seiscentismo 1601 a 1768) ContraReforma Portugal sob domínio espanhol Setentismo 1808) Iluminismo Revolução Industrial Revolução Francesa Independência dos EUA Guerras Napoleônicas ou Período de transição (de 1808 a 1836) ou Barroco(de Arcadismo (de 1768 a Grandes Panorama mundial Navegações Companhia de Jesus 17 . Escolher um clássico da literatura e fazer um breve resumo. apontando o tipo de semiotização efetuado.

mas NO Brasil.Nossos dias Pré-Guerra I Guerra Mundial Freud e a psicanálise Revolução Russa Vanguarda artística II Guerra Mundial Guerra Fria Modernismo Simbolismo Pré-Modernismo Nazismo Fascismo 18 . não era Literatura DO Brasil. de fato. seguiremos as orientações de Antonio Candido. 1 . que admite que a Literatura Brasileira só teve seu início. no Barroco. Antes disso.O Barroco 1 .Literatura Panorama brasileira informativa jesuítas 1500 Invasões holandeses 1601 Ciclo da mineração Inconfidência Mineira Grupo Mineiro 1768 Corte portuguesa no Rio de Janeiro Independência Regências 1808 Literatura dos Grupo Baiano ERA NACIONAL Romantismo Realismo Naturalismo Socialismo Evolucionalism o Burguesia no poder Positivismo Lutas antiburguesas 2 Revolução Industrial II Império Guerra do Paraguai Lutas abolicionistas Literatura nacional 1836 Abolição República Romance realista Romance naturalista Poesia parnasiana 1881 Apesar de ser comum considerar o Quinhentismo nos estudos da Literatura Brasileira.Introdução O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e Governo de Floriano Revolta da Armada Revolta de Canudos 1893 Ditadura de Vargas Semana da Arte Moderna As gerações modernistas 1955 .

que introduz definitivamente e modelo da poesia camoniana em nossa leitura. O final do Barroco só se concretizará em 1768. escultura e arquitetura da época. sobrecarregando a poesia de figuras. No entanto. do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma. estende-se à música. os dois principais autores — Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos —tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil.inicio dos anos 1700. Além da literatura. Todos o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial. a antítese. o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo). Ou. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e desequilíbrio. A origem da palavra barroco é controvertida. Em qualquer das hipóteses. o material e o espiritual. de Bento Teixeira. rebuscamento. na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da Metrópole. com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. No Brasil. ocasionada pelas lutas religiosas e pelas dificuldades econômica decorrentes da falência do comércio com o Oriente. Botelho de Oliveira. Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquinho ibérico e italiano. O Barroco também é chamado de seiscentismo por ser a estética dominante nos anos de 1600 ( século XVII ). Estende-se por todo o século XVII e início do século XVIII. é possível perceber relações com a estética barroca: jogo de idéias. já a partir de 1724. a hipérbole e a alegoria. o pecado e o perdão. assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. com a fundação da Arcádia Ultramarina e com a publicação do livro Obras. Característica do Barroco O estilo barraco nasceu da crise dos valores renascentista. Alguns etimologistas afirmam que está ligado a um processo mnemônico (relativo à memória) que designava um silogismo aristotélico com conclusão falsa. Segundo outros. assimetria. como a metáfora. o Barroco tem seu inicial em 1601 com a publicação do poema épico Prosopopéia. assimétrico.” Além disso. a religiosidade medieval e o paganismo renascentista. neste capítulo não separamos as manifestações barrocas de Portugal e do Brasil. o movimento academista ganha corpo. Mesmo considerado o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos primeiro poeta efetivamente brasileiro. pintura. designaria um tipo de pérola de forma irregular. com sentimento nativista o primeiro manifesto. ou mesmo um terreno desigual. dilema que tanto 19 . Por essas razões. de Cláudio Manuel da Costa. como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos.

Pois que feito Jesus em partes todos. E todo assiste em qualquer parte. com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora. Mas se a parte o faz todo. uma tendência sensualista. sendo o todo. caracterizada pela busca do detalhe num exagerado rebuscamento formal. A quem infiéis despedaçaram O todo sem a parte não e todo. Não se sabendo parte destes todo. Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo. Em todo o Sacramento está Deus todo. seguindo um raciocínio lógico. Cultismo — é caracterizado pela linguagem rebuscada. Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismos e o Conceptismo. O braço de Jesus não seja parte. que utiliza uma retórica aprimorada. Um exemplo de poesia cultista Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas. culta. sendo parte. pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras. de conceitos. Aparte sem o todo não é parte. A arte assume. racionalista. daí o estilo ser também conhecido por Gongorismo. Assiste cada parte em sua parte. Em qualquer parte fica o todo.atormenta o homem de século XVII. Nos diz as partes deste todo. sendo parte. Concepitismo — é marcado pelo jogo de idéias. então. extravagante. Não se diga que é parte. (Gregório de Matos) 20 . E feito em partes todo em toda a parte. do qual deriva o termo Quevedismo. Um braço que lhe acharam.

e não havemos de entender o que diz?” (Padre Antônio Vieira) d — Produção Literária Padre Antônio Vieira Podemos dividir a obra de Vieira em: profecias.Uma crítica conceptista ao estilo cultista “Se gosta de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto. um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum. Os sermões de Vieira dividem-se em três partes distintas: • Intróito ou exórdio — a parte inicial. 21 . de apresentação. portanto.. e clássico pela expressão clara e singela. nasceram as primeiras verduras do meu. contrária.) Este desventurado estilo que hoje se usa. o melhor da a obra de Vieira. sobre Inquisição e os cristãos — novos e sobre situação da Colônia. próprias dos jesuítas. Vieira seria conceptista pelo processo mental. e havemos de ouvir um pregador em português. Quando este estilo florescia. em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo. os que o querem honrar chamam-lhe culto. Sermões São quase 200 sermões. mas ainda lhe fazem muita honra. Cartas São cerca de 500 cartas. É possível que somos portugueses. que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda. Profecias Constam de três obras: História do futuro. pois tal fato estaria profetizado na Bahia. Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum. Constituem importantes documentos históricos. e negro boçal e muito cerrado. Segundo a análise do crítico Antônio Sérgio. Em estilo barroco conceptista. carta e sermões.. totalmente oposto ao Gongorismo. é negro. O estilo culto não é escuro. à moda cultista. o pregador português usa a retórica jesuítica para trabalhar idéias e conceitos. mas valeu-me tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. os que o condenam chamam-lhe escuro. não me leias. Isso demostrar o caráter alegórico de sua interpretação da Bahia. (.

por qual deles devem entender a falta? Por parte do ouvinte. e com esmero. em 1654.) Ora. propõe-se a analise de quem era a culpa por não frutificar Sua Palavra: “(. O Sermão da sexagésima Um de seus principais sermões é ao Sermão da sexagésima. também chamado de Sermão dos peixes. esse sermão resume a arte de pregar. pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também como A palavra de Deus..” 22 .. destacam-se ainda: • Sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. ou por parte de Deus?” Outros Sermões Dentre suas obras mais conhecidas. pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda . em 1640. não perdoarão a estado. a sexo nem idade”. Gregório de Matos Guerra Apesar de ser conhecido como poeta satírico — dai apelido “Boca do Inferno” -. apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis.• • Desenvolvimento ou argumento — a defesa de uma idéia com base em argumentação. falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e hereges. do pregador e do ouvinte. Vieira incita o povo a combater os holandeses. que os passados anos cantei na minha lira maldizente Torpezas do Brasil. No intróito. versava sobre os colonos que aprisionavam índios. Polêmico. a poesia religiosa e a lírica. Bahia. • Sermão de Santo Antônio. Gregório também praticou. Ao analisar” por que não frutificava a palavra de Deus na terra ‘. visava a seus adversários católicos — os gongóricos dominicanos. Cultivou tanto o estilo cultista como o conceptista. “Eu sou aquele. ou por parte do pregador. sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus. Peroração — a parte final do sermão. pregado em São Luis do Maranhão. vícios e enganos.

era a própria personificação do Pecado”. parece que trazia Deus mais nos lábios que no coração. IV e V Poesia satírica. A Seleção de palavras Evidente é o trabalho com a seleção. III Poesia graciosa. os costumes da sociedade baiana do século XVII. 1923 e 1933. que resulta no rebuscamento característico dos textos barrocos. Sua obra permaneceu inédita até o século XX. Púrpura: a cor vermelha. realmente. empregada no sentido de a galeota solta. com rima em ABBA ABBA CDC DCD. sua poesia satírica procura criticar o brasileiro. Lisonjeada: que recebeu lisonja. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca. destemida.Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. social e religioso. EL-Rei. Airosa: elegante. o dinheiro a irreligiosidade dos senhores da Igreja e muitas outras misérias terrenas. bem como o conflito entre o pecado e o perdão: busca a pureza da fé. Soberba: orgulho excessivo. mas sua existência foi um rosário de culpas. garbosa. A Arquitetura A FORMA Na forma percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos ( a “medida nova” dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral ). Desatada: desprendida. assim distribuídos: l Poesia sacra. o clero e. Aqui. VI Últimas. presunção. presunçosa. numa postura moralista. transparece certo idealismo renascentista. o meio envolvente. segue um resumido vocabulário. como toda a massa devota de sua época. mas ao mesmo tempo precisa viver a vida mundana. publicou seis volumes. o administrador português. Para uma melhor (e possível) compreensão do poema. E. no melhor estilo petrarquiano. Segundo o professor Segismundo Spina “Gregório. por 23 . Presumida: vaidosa. Condenou acerradamente a vaidade humana. É patente um sentimento nativista quando ela separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana. isto é. arrogância. quando a Academia Brasileira de Letras. solta. II Poesia lírica. agrado ou elogio em excesso. Na poesia lírica e na religiosa.

ainda.. nesta vida Rosa." A posição do vocativo Fábio e do adjunto adverbial nesta vida é opcional. alentos é complemento da forma verbal preza. Apresta: forma do verbo aprestar “preparar com rapidez”. na ordem direita ficariam.. Fábio. orgulho...inversão da ordem direta dos termos da oração: “É a vaidade. por meio de metáfora. Galhardia: elegância.mares de soberba. galé. 24 . Empavesada: enfeitada." Os versos acima. adianta que o poeta fará uma reflexão sobre os “desenganos da vida humana” ( a vaidade.o próprio título do poema longos. estímulo (em forma de elogio)” As Figuras de Linguagem O rebuscamento do texto é obtido. mas dificilmente aparecem na posição em que os colocou Gregório de Matos. galeão. Ufama: vaidosa. assim: "Fábio. de pequeno porte. Alentos preza : como no caso anterior. orgulhosa. As três metáforas que poderíamos chamar de principais são: a vaidade é rosa a vaidade é planta a vaidade é nau • Hipérbato . a vaidade é Rosa. isto é. com um elaborado trabalho no uso de várias figuras de linguagem: • Metáfora . É necessário Ter como referência a seguintes gravação crescente: galeota. garbo. vaidade. Observe que Galhardia é complemento de apresta. nesta vida. e explicativo. Nau: navio. gosta de receber ânimo. Galeota: embarcação a remo. podemos entender como “preza. Presunção: juízo baseado nas aparências. em particular )“ metaforicamente”. de símiles..

Trata-se da forma como alguns conceitos e ou palavras são apresentados no texto: inicialmente. o conflito presente no texto. espalhados. isto é. semeados. como no caso de “púrpura mil”. a matéria (ferro) pelo objeto (machado). ao final. é de fundamental importância: a técnica da “disseminação e recolha” ou “semeadura e colhelta”. assim. púrpuras mil arrasta presumida. Era o único pássaro na sua espécie. a colheita (o que é feito no último verso do soneto de Gregório de Matos).o emprego de ferro por machado. Os egípcios fizeram da Fênix uma divindade: figuraram-na do tamanho de uma águia com um magnífico topete. uma contrariedade. O poeta desenvolve toda uma argumentação ao lado das primeiras estrofes para. esses conceitos e ou palavras são disseminados. 25 .” • • Hipérbole . Metonímia . no caso do soneto analisado. plante. realizar-se. a referência à Fênix é fundamental para a compreensão do poema. provocando um forte impacto. nau no soneto apresentado) para. “Disseminação e recolha” Finalmente. as penas do pescoço douradas.Os dois últimos versos do primeiro quarteto ficariam assim: “Airosa rompe com ambição dourada. Realça-se. e cuja existência atinge 500 a 600 anos. ao final. que.” A Conjunção adversativa Observe ainda a força expressiva da conjunção adversativa mas que inicia o último terceto. um outro aspecto da arquitetura do poema barroco. neste caso. Leia a caracterização da Fênix feita pelo professor Segismundo Spina: “Pássaro fabuloso que se faz nascer nos desertos da Arábia. plantados ao longo do poema (como é caso rosa. lançar uma adversidade.o exagero. isto é. de longo uso desde Camões. A Mitologia A referência mitológica é outro recurso comum em textos barracos. fazia-se morrer numa fogueira e renascia de suas cinzas: daí ser ela o símbolo da imortalidade. a recolha. a cauda branca mesclada da penas vermelhas e com os olhos flamejantes.

A Temática Como vimos, o soneto é representativo do seiscentismo, explorando questões filosóficas (os estados contraditórios da condição humana, a transitoriedade da existência terrena) e moralizantes (a vaidade, a arrogância) através de metáforas e construções rebuscadas. Logo no primeiro verso,, o poeta define o público, o espaço e o assunto: a vaidade é o desengano sobre o qual o poeta discorrerá; o vocativo Fábio indica-nos a quem são dirigidas as reflexões, o ensinamento moral (Fábio é uma denominação genérica, aleatória; em vários outros textos de Gregório encontramos esse vocativo); o adjunto adverbial nesta vida define e espaço, isto é, a vaidade é uma desilusão da vida terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial. A seguir, começa o jogo das metáforas. A vaidade é rosa. Uma rosa que, ao desabrochar de manhã, rompe airosa, bela, vermelha, enfeitada por gotas de orvalho. Vaidosa, cresce, “incha”. A Segunda metáfora traz à luz uma gradação crescente: a vaidade é planta (note que a rosa é parte da planta), enfeitada, favorecida pelas flores de abril (aqui uma observação importante: no século XVII não se tinha clareza das estações do ano do hemisfério norte para o hemisfério sul; abril é o início da primavera em Portugal, quando as plantas florescem). A planta florida, enfeitada, vaidosa, cresce, “incha” e se transforma em “florida galeota” (note que a planta é parte da galeota, embarcação feita de madeira). A gradação crescente continua: Rosa - Planta - Galeota - Nau Observe que nau é uma embarcação de maior porte que a galeota. Ora, essa gradação simboliza, na verdade, o “inchaço” da pessoa vaidosa, que se deixa levar pelas aparências (o que gera a vaidade são elementos aparentes, exteriores: o orvalho na rosa, a flor na planta, os ornamentos da galeota, a imponência da nau). E assim chegamos ao ultimo terceto, que se opõe às demais estrofes do soneto. Essa oposição torna-se clara pelo emprego da conjunção adversativa: mas o que importa esse crescimento, de que vale ser rosa, planta, nau, se aguardam indefesas o que vai destrui-las? A nau é destroçada ao se chocar contra o rochedo; a planta é destruída ao primeiro golpe do machado; a rosa, que desabrochou pela manhã, tem vida efêmera, morrendo ao entardecer. A fragilidade da nau, da planta, da rosa é, descontadas as metáforas, a fragilidade da própria vaidade (e, por extensão, da própria vida). Se interrompermos a leitura neste ponto, concluiremos que o soneto assinala a derrota da vaidade. Mas devemos atentar para a pontuação: o soneto encerra-se com uma interrogação,

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deixando a sensação de dúvida no ar. Nesse ponto é preciso lembra-se da última metáfora trabalhada no poema: Rosa - planta - galeota - nau - Fênix A vaidade, como a Fênix, é frágil mas tem a capacidade de ressurgir das próprias cinzas. E assim vive o ser humano (Fábio): tem a consciência do pecado, e sentimento da culpa, mas peca; peca e procura redimir-se, busca o perdão. E ao primeiro apelo do pecado, deixa-se cair em tentação novamente. Nessa ciranda infindável vive o homem do século XVII, dividido, em conflito. Concluindo, note um maravilhoso trabalho utilizando a técnica da “semeadura e colheita”. Ao semear, o poeta trabalhou com a gradação crescente (simbolizando o ‘inchaço’ da vaidade): Rosa - planta - nau E, ao colher, trabalhou com a gradação decrescente no último verso (simbolizando a destruição da vaidade): Nau - planta - rosa Finalmente, juntando a “semeadora e a colheita “, temos: Rosa - planta - nau - planta - rosa Mas como a última comparação é aquela feita com a Fênix, que ressurge das próprias cinzas, poderíamos imaginar o ciclo infindável: Rpnnprrpnnpr Um jogo de sobe desce, de alto baixo, de vida morte, de morrer renascer, de vida humana vida eterna. Um poema barroco, sem dúvida 2 - O Arcadismo 1 - Introdução O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que

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caracteriza principalmente a Segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se, agora, o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco, para a qual colaboraram vários fatores: a burguesia ascendente, voltada para as questões mundanas, deixam em segundo plano a religiosidade que permeava o pensamento barroco; além disso, o exagero da expressão barroca havia cansado o público, e a chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença, Atingia um estágio estacionário e apresentava sinais de declínio, perdendo terreno para a arte burguesa, marcada pelo subjetivismo. A burguesia, tendo atingido a hegemonia a econômica, passa a lutar pelo poder político, até então nas mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e artístico: a antiga arte cerimonial cortesã dá lugar ao gosto burguês; no combate aos valores da monarquia, a burguesia cultua o ideal do “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade do Ancien Régime (o velho regime monárquico). Surgem, então, as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas. O Arcadismo tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais uma vez que é a manifestação artística de um tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França; mais especificamente da burguesia francesa, responsável pelo desenvolvimento da economia e politicamente forte. Sua força política se manifesta, a partir de 1750, nos constantes ataques dos filósofos burgueses aos poderes real e clerical e na denúncia da corrupção dos costumes. No Brasil considera-se como data inicial do Arcadismo o ano de 1768, em que ocorre dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa. A Escola Setecentista desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real do Rio de Janeiro, a qual, com suas medidas político — administrativas, permite a introdução do pensamento pré- romântico no Brasil. Importa, porém, distinguir dois momentos ideais na literatura dos Setecentos para não se incorrer no equivoco de apontar contraste onde houve apenas justaposição destaque nosso]: a) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de forma bem definidas, julgadas de imitação (Arcadismo); b) o momento ideológico, que impõe no meio do século, e traduz a crítica da burguesia culta aos

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reconstruiu em pleno século XX o episódio da Inconfidência Mineira. E os seus tristes inventores Já são réus. amor. a luta do burguês culto contra a aristocracia se manifesta nessa busca da 29 . de um refúgio ameno em oposição aos centros urbanos monárquicos. liberdade. bucólica. Liberdade. ainda que tarde Ouve-se redor da mesa. palavra essa Que o sonho humano alimenta Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda. à luz de velas acesas. “Atrás de portas fechadas. E a bandeira já está viva E sobe a noite imensa. A respeito do episódio. extraindo de um fato passado limitado geográfica e cronologicamente.abusos da nobreza e do clero (Ilustração).pois se atreveram A falar em liberdade Liberdade. Inspira na frase de Horácio Fugere urbem (“fugir da cidade”) e na teoria de Rousseau acerca do “bom selvagem”. em Romanceiro da Inconfidência. valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. a própria autora afirma que é “uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro. pastoril.” Característica do Arcadismo Os modelos seguidos são os clássicos gregos-latinos e os renascentistas: a mitologia pagã é retomada como elemento estético. entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência.” A reconstrução dos fatos Cecília Meireles. Dai a escola ser também conhecida como Neoclassicismo. os árcades voltam — se para a natureza em busca de uma vida simples. tradição E exatamente ao mais eterno desses valores — a Liberdade — a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa poesia. Ë a procura do locus amoenus.

a poesia bucólica. Nela. a defesa da tradição e da propriedade. Quanto ao aspecto formal. temos o soneto. os sonhos de uma família. uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico por eles idealizado. o fingimento poético e o uso de pseudônimos. por meio de palavras. a natureza e Manha.natureza. que estes prados. Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito. Essa obra. os meus montados São esse. vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados. e estas fontes Já sabem. A produção Literária no Brasil Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) Cláudio Manuel da Costa cultivou a poesia bucólica. as musas: “Parece. tendo como divisor de águas a prisão do poeta. No entanto. o namoro. não te nego. Gonzaga se posiciona como um abastado pastor que cultiva o ideal da vida campestre. a mulher amada. vive intensamente o momento ( carpe diem) e pinta. a rima optativa e a tradição da poesia épica. fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. a simplicidade. Antes da cadeia. foi publicada em três partes nos anos de 1792. que aí vês. o tom do discurso poético sofre sensível alteração ao longo da obra. inspirada em seu romance com Maria Dorotéia. sempre 30 . pastoril. uma vez que todos os árcades viviam nos centros urbanos e. discorre sobre a iniciação amorosa. As características do Arcadismo em Portugal e no Brasil seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento. pastorial. 1799 e 1812. portanto. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo. na qual menciona a natureza como refúgio: “Sou pastor.” Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) Seu principal trabalho são as liras de Manha de Dirceu. a melhor pastora destes montes. uma posição política e ideológica. Havia. que é o assunto da porfia Nise. os versos decassílabos. a felicidade do amante.” Ou ainda sofrimento amoroso. burgueses que eram. lá estavam seus interesses econômicos.

na verdade trata-se de um monólogo — só Gonzaga fala.” É patente a oposição entre Dirceu. injustiçado) até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Manha. governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência). juiz que lê altos volumes instalado em espaçosa mesa. mas o patriarcalismo de Gonzaga jamais lhe permitiria colocar-se como a coisa possuída. E decidir os pleitos.numa postura patriarcalista. portanto.” “Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos. Manha é apenas um pretexto: o centro do poema é o próprio Gonzaga. Compare os trechos seguintes: “Eu vi o meu semblante numa fonte. assinada por Critilo e endereçada a Dorotéu. Embora Manha seja quase sempre um vocativo e a obra tenha a estrutura de um diálogo. A dúvida só acabou após os estudos de Afonso Arinos e. Apresentam versos decassílabos e têm estrutura de uma carta. Depois. raciocina. Tomás Antônio Gonzaga. Critilo. Outro e aspecto curioso é o fato de o poeta cair constatemente em contradição. quando se concluiu que Critilo é Tomas Antônio Gonzaga e Dirceu é Cláudio Manuel da Costa. que circulam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira. Ver-me-ás folhear os grandes livros. Luiz da Cunha Meneses. vivendo os sofrimentos da prisão. faz uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens (ele se considera inocente. habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica). e o burguês Dr. o pobre pastor que cuida de ovelhinhas brancas e vive numa choça no alto do monte. um político sem moral. o melhor título para obra seria Dirceu de Marília. ora a sua condição de burguês. É interessante atentar para alguns aspectos da obra de Gonzaga. despótico e narcisista. principalmente. As Cartas chilenas completam a obra de Gonzaga.. o Fanfarrão Minésio ( na verdade. Dos anos ainda não está cortado: Os Pastores. que habitam este monte Respiram o poder do meu cajado. escritos em linguagem bastante agressiva. de Rodrigues Lapa. Como bem lembra o critico Antônio Cândido. residente em Madri. São poemas satíricos. 31 . Nessas cartas. A autoria desses poemas foi discutida por muito tempo.. ora assumindo a postura de pastor. narra os desmandos do governo chileno.

o poema é composto de 10 cantos. que de inveja geme. valorizando a vida natural (mais pura e distante da corrupção). como Camões em Os Lusíadas.Santa Rita Durão Caramuru . Porém o tigre. Santa Rita não utiliza da mitologia pagã. E ignorado a ocasião da estranha empresa.. O poema caracteriza-se pela exaltação da terra brasileira. mas apenas de um conservadonismo cristão. Moema a bela amante preterida no casamento e que morre nadando atrás de Diogo. Diogo Álvarez. Santa Rita paga um tributo ao século XVIII.) Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver espetáculo.. com quem Diogo se casa e vai a Paris. Não vinha menos bela.poema épico do desenvolvimento da Bahia é o titulo que consta da capa da edição original. vítima de um naufrágio no litoral baiano. após definir-se por Paraguaçu. constando de proposição. Era Moema. o Canamuru. do que irada. Caramuru (Trechos do Canto VI. narração e epílogo. onde é narrado a morte de Moema. 32 . já antecipando seu tema: o descobrimento e a conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correia. Gupeva e Sergipe. embarca com esposa em um navio francês e parte rumo à Europa. Seus heróis são: Diogo Álvarez Correia. A divisão é a tradicionalmente usadas nas epopéias. É evidente a influência comoniana na distribuição da matéria épica e na forma. Várias índias nadam atrás do navio. incorrendo o autor em descrição de paisagem que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. versos decassílabos. no geral.. O elemento indígena é visto sob o prisma informativo e. mas uma se destaca: Moema. Quando à forma. oitava rima camoniana. por outro lado. Pasma da turba feminil. por cruel que brame. Paraguaçu. Uma que às mais precede em gentileza.) "Bárbaro ( a bela diz: ) tigre e não homem. dedicatória. assombradas. (. que nada. E já vizinha à nau se apega ao leme.

. Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco. raio.. Entre as salsas escumas desde ao fundo. entre estas ondas A um ai somente.. tens coração de ver-me aflita. (Santa Rita Durão) Basílio da Gama O poema épico O Uruguai tem dois objetivos básicos : a defesa e a exaltação da política pombalina e a crítica virulenta ao jesuítas. Mas na onda do mar.Acha forças no amor. Tornando a aparecer desde o profundo.. vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio. que o ar consomem. conosco. Pálida a cor. senão porque pretendiam ser só eles os sues senhores”..... freme. moribunda.. por mais que eu te ame.) Perde o lume dos olhos. seus antigos mestres. Ah! Que conosco és tu. com que aos meus respondas Bárbaro. . com suas restrições mentais”. 33 .. o aspecto moribundo: Com mão já sem vigor.’ E indo a dizer o mais.. Flutuar. (. São palavras de Basílio da Gama nas notas ao poema. Encontramos ainda referencia aos ‘jesuítas.E sem mais cista ser. sorveu-se na água. que. que enfim o domem. Só ti não domou. soltando o leme. “Os jesuítas nunca declamaram contra o cativeiro deste miseráveis racionais ( os índios). cai num desmaio.Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa. se esta fé teu peito irrita. pasma e treme. raios. Nem o passado amor teu peito incita (Disse. Fúrias. penhosa!! Enfim. irado.

“ entrara no jardim triste e chorando”. sobressaltados. angustiada com a morte da Cacambo. Fogem de a ver assim. instigados pelos jesuítas. Basilio da Gama consegui.) . e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste. Em conseqüência do Trabalho de Madri (1750). E param cheios de temor ao longe. e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. Caititu. criar uma obra de fôlego e de certa elegância poética. enquanto a de Sacramento. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta.. a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses. e temem Que desperte assustada. a encontra adormecida. em terras uruguaias. a culpa caberia aos jesuítas e não aos índios. e fere A serpente na testa. O Uruguai (trecho do canto IV. sem mais demora Dobrou as pontas do arco. seria concedida aos espanhóis. e apresse no fugir a morte. seu irmão. e vacilou três vezes Entre a ira e temor. Que toca o peito de Lindóia. onde é narrada a morte de Lindóia. A partir de um tema não adequado ao gênero épico. uma serpente venenosa. A índia. “cansada de viver”. E fuja. além de quebrar a estrutura camoniana. portanto. e cinge Pescoço e braço. soube fugir aos lugares comuns do bucolismo vigente. e lhe lambe o seio. e irrite o monstro. E nem se atrevem a chamá-la. e lhe passeia. que treme Do perigo da irmã. Açouta o campo coa ligeira cauda O irado monstro.O tema histórico do poema é a luta empreendida pelas tropas portuguesas. Porém o destro Caititu.. enrolada em seu corpo. por ser pouco grandioso e contemporâneo do autor. Embora fizesse a exaltação da natureza e do “bom selvagem”. 34 . auxiliadas pelos espanhóis. contra os índios dos Sete Povos das Missões. e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. Mias de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente. e quis três vezes Soltar o tiro.

O Romantismo Introdução O Romantismo brasileiro. Havia a necessidade de auto — afirmação da pátria que se formava. Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. o subjetivismo. sem se mencionar 35 . que ao despertá-la Conhece. Os. Em 1822. o sentimentalismo. acompanhando as nações independentes da Europa e da América. Pedro 1 havia concretizado um anseio que se fazia sentir nas últimas décadas: a independência do Brasil. A partir desse momento. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo. e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. está intimamente ligado a todo o processo de independência política. Inda conserva pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. olhos em que Amor reinava. e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. o irracionalismo —características marcantes do Romantismo inicial — não podem ser analisados isoladamente. Cheios de morte. Os olhos Caititu não sofre o pranto. considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional. O nacionalismo. Tanto era bela no rosto a morte! (Basílio da Gama) 3.Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão. com que dor! No frio rosto Os sinais de veneno. D. um dia. Que os corações mais duros enternece. E rompe em profundíssimos suspiros. a imagem do português conquistador deveria ser varrida. o novo país necessitava ajustar-se aos padrões de modernidade da época.

Portanto. crescem no Brasil independente o sentimento de nacionalismo.’ No Brasil. a uma arte de caráter erudito e nobre 36 . ou seja.) O advento do romantismo. bem como pelas idéias de autonomia comuns naquela época. liberdade. E nesse ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro. a luta pelo trono português contra seu irmão D Miguel.” As características do início do Romantismo são. tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido por mãos avaras e pobres. que atraem a atenção de todos. Pedro 1: a dissolução da Assembléia Constituinte. e tudo se faz por ela. na realidade. com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil. a acusação de ter mandado assassinar Libero Badaró e. ou em seu nome. Independência. Os modelos da Antigüidade Clássica são então substituídos pelos da Idade Média (notadamente de seus últimos séculos. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. são como sinônimos. ela domina tudo. reformas políticas. pois. o Brasil vive um período conturbado. financeiras e econômicas. é a idéia da pátria. a Colônia caminhava rumo à independência.. instituições sociais.São palavras de Gonçalves de Magalhâes: “Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação. todas as criações necessárias em uma nova Nação. Uma só idéia absorve todos os pensamentos. pois no decorrer do período houve uma nítidas evolução no comportamento dos autores. a Confederação do Equador.. como reflexo do autoritarismo de D. uma idéia até então desconhecida. com a chegada da corte. tais são os objetivos que ocupam as inteligências. novo aspecto apresenta a sua literatura. carregado de lusofobia e principalmente de nacionalismo . como o período que se inicia no últimos anos do século XVIII e se estende até meado do século XIX. o primeiro passo para tentar identificar as características românticas é entender o Romantismo como um estilo de época delimitado no tempo. a explicação objetiva quando subordinada ao quadro histórico em que se processou. o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização tornando-se um campo propício à divulgação das novas influência européia. só tem uma explicação clara e profunda. a abdicação. caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e de Silva Alvarenga. No começo do século atual. romântico era tudo aquilo que se opunha a clássico.sua carga ideológica. Em 1808. em alguns casos. a exaltação da natureza pátria. pois. o momento histórico em que o romantismo surge tem de ser visto a partir das últimas produções árcades. praticamente apostas aquelas encontrada no final do movimento romântico. Após 1822. finalmente. e os únicos que ao povo interessam. a busca pelo passado histórico. Inicialmente. eram tendências já cultivadas na Europa que se encaixavam perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais. De 1823 a 1831. o segundo é a expressão literária da plena dominação da primeira (. O historiador Nelson Werneck Sodré assim sintetiza o problema: “burguesia e romantismo. a Constituição outorgada. que coincidem com surgimento da burguesia).

voltando-se para a imaginação e para os sentimentos. admirando a grandeza de Deus. o que não havia acontecido nos períodos anteriores. numa palavra: torna-se meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduo singulares. do que resulta uma interpretação subjetiva da realidade. ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre os túmulos. o que leva a uma nova linguagem na literatura. a literatura torna-se mais popular. na música. são bons exemplos).” Realmente. além de que. a igualdade.expressão que cria os seus próprios padrões. de ser uma atividade social orientada por critério objetivos e convencionais. sobre o nada da vida. e o de Martins Pena. Arnold Hauser assim comenta as transformações vividas pela arte e pelos artista: “A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirige a uma ‘sociedade’. abandonando as formas clássicas e se inspirando em temas nacionais (o teatro de Almeida Garrett. Surge o romance. porém. liberta-se das exigências dos nobres que financiavam a produção artística. Poesia d’alma e do coração. isto é. e transforma-se numa forma de auto. que valoriza o folclórico e o nacional . ao romper as muralhas da corte e ganhar as ruas. sobre as paixões dos homens. nenhuma ordem seguimos. em principio. para não destruir o acento da inspiração. material das estrofes. a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço. Quanto ao aspecto formal. no Brasil. a um grupo mais ou menos homogêneo. a literatura romântica se desvincula completamente dos padrões 37 . agora. o público agora é amplo e anônimos. o teatro ganha novo impulso. Gonçalves de Magalhães define o Romantismo e suas características básicas sob dois enfoques — conteúdo e forma — que como em qualquer outro movimento literário. No prefácio ao livro Suspiros poéticos saudades. que jamais podem agradar. forma mais acessível de expressão literária. meditando sobre a sorte dos impérios. ora assentado entra as ruínas da antiga Roma. devem se harmonizar. A prosa artística ganha um espaço que sempre lhe fora negado nas manifestações clássicas.” De fato. As obras deixam de ter caráter prático dos trabalhos de encomenda. a construção. Gonçalves de Magalhães nos dá uma ótima visão do que era o Romantismo para um autor romântico: “É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares. de 1836. na pintura. reconhecia absolutamente. por assim dizer. um dos acontecimentos mais importante relacionado ao Romantismo foi o surgimento de um novo público consumidor. ora na gótica catedral. A arte deixa. e que só pela alma e pelo coração devem ser julgadas. ora no cimo dos Alpes. na arquitetura. e os prodígios do Cristianismo. o indivíduo passa a ser o centro das atenções. exprimindo as idéias como elas se apresentaram.opõe-se uma arte de caráter popular. ora enfim sobre a refletindo sobre a sorte da Pátria. a um público cuja autoridade. A arte romântica. em Portugal. representado pelas mulheres e pelos estudantes. Quanto à forma. com isso.

publicação do Manifesto do Partido Comunista. as “casas de aluguel prostíbulos). e verdadeiro “cartão de visita” de todo o movimento. o subjetivismo. em Portugal. ora é um refúgio à vida atribulada dos centros urbanos do século XIX. e os prodígios do Cristianismo”. e o verso branco. A excessiva valorização do “eu” gera o egocentrismo: o ego como centro do universo. no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional (no caso das literaturas européias. políticas e sociais que atingem toda a Europa (2º Revolução Industrial. surge aí um choque entre a realidade objetiva e o mundo interior do poeta inevitável do ego produz um estado de frustração e tédio. os românticos cultivavam o nacionalismo. O romântico. exceção feita à maior fuga romântica: a morte. Seguem-se constantes e múltiplas fuga da realidade: o álcool. A literatura passa por grandes agitações. a partir das transformações econômicas. Repare como a forma livre pregada pelo poeta casa-se perfeitamente ao ideal romântico do individualismo. assim. A natureza assume múltiplos significados: ora é uma extensão da pátria. as constantes idealizações da sociedade . admirando a grandeza de Deus.e normas estéticas do classicismo. é o sentimentalismo. o “acento da inspiração”. da mulher. que conduz à romântica. foge no tempo e no espaço. como o paganismo. assume o papel de negar os valores da Antigüidade Clássica. a luta abolicionista e a Guerra do Paraguai e o ideal republicano resultam na poesia social de Castro Alves. como afirma Gonçalves de Magalhães. O verso livre. do primado da emoção. Da exaltação do passado histórico nasce o culto à Idade Média. a saudade da infância. que manifestava na exaltação da natureza pátria. ora é um prolongamento do próprio poeta s de sue estado emocional. da expressão subjetiva. a supervalorização das emoções pessoais: é o mundo interior que conta. Evidentemente. sem métrica e sem estrofação. com o culto do individualismo e do pessoalismo. o ópio. prevalecendo. valentes e civilizados). No entanto. que além de representar as glórias e tradições do passado. sem rima. Quanto ao conteúdo. que. caracterizam a poesia romântica. E à medida que essa busca dos valores pessoais se intensifica. os heróis são os índios. Já no final do Romantismo na década de 1860. No fundo. não menos belos. movimentos populares). explodem na famosa Questão Coimbrã. perde-se a consciência do todo. esses heróis nacionais são belos e valentes cavaleiros medievais. O romântico promove uma volta ao catolicismo medieval: “na gótica catedral. essas fugas têm ida e volta. e transição para o Realismo. enfim. 38 . Outra característica marcante do Romantismo. do coletivo. na literatura brasileira. do social. do amor. desenvolve-se uma literatura de caráter social. no Brasil.

Nelas. medieval e nacional. a razão sempre perde terreno para o coração. com profundos traços de subjetivismo e visível influência de seus vários casos amorosos. Entre os principais autores podemos destacar Gonçalves Dias de Magalhâes e Araújo Porto Alegre. universal Impessoal. subjetivo Idade média Cristianismo Apelo à imaginação Sensibilidade Folclore Motivos populares Libertação Imagem sentimental e subjetiva do amor e da mulher Versificação livre 39 . o mediavalismo e a criação do herói nacional na figura do índio. chegando em alguns momentos beirar o ultraromantismo. individual Pessoal. Produção Literária da primeira geração Gonçalves Dias Parta fins didáticos. podemos dividir sua obra poética em: lírica. a volta ao passado histórico . são poesias marcadas pela dor e pelo sofrimento. objetivo Antiguidade Clássica Paganismo Apelo à inteligência Razão Erudição Elitização Disciplina Imagem racional do amor e da mulher Formas poéticas fixas As gerações românticas Primeira geração — geração nacionalista ou indianista Foi marcada pela exaltação da natureza. principalmente de seu amor frustado por Ana Amélia. Poesia Lírica Suas composições líricas enquadram-se na visão de amor próprio do homem romântico. de onde surge a denominação geração indianista. Como és tu?” ROMANTISMO Não há modelo Particular. “Ainda uma vez adeus”. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presente. “Se se morre de amor”.QUADRO COMPARATIVO ENTRE O CLASSICISMO E O ROMANTISMO CLASSICISMO Modelo clássico Geral. embora o próprio poeta buscasse “casar o pensamento com o sentimento. a idéia com a paixão”.

finalizando numa exaltação da natureza brasileira. sendo considerado o maior poeta indianista de nossa literatura. É interessante notar que. ouvi: Sou filho da selvas. ele nunca se refere ao elemento humano. dos costumes e da língua dos nativos. Guerreiro. Mário Quintana. extremamente. Formalmente se caracterizam pela perfeita utilização dos vários recursos da métrica. escritos em redondilha menor: “Meu canto de morte. Chico Buarque e Tom Jobim. pois. afirma: “figuro terem sido compostos na primeira metade de século XIII”. 40 . dramática e épica. como bem atesta a famosa ‘Canção de exílio”. descendo Da tribo tupi. A respeito deles. Poesia nacionalista Como típico da primeira geração romântica. entre outros) retomaram o tema. o índio gonçalvino esta mais próximo da realidade que o índio de José de Alencar. teria de ser referir às crises vividas pela nossa sociedade. como provam os versos seguintes de — “Juca Pirama”. Colaborou para isto seu profundo conhecimento da tradição. se citasse o homem brasileiro. à moda dos trovadores medievais. nesse poema. mas com um nacionalismo crítico e consciente. Vários artistas do século XX (Oswald de Andrade. As chamadas poesias saudosistas são marcados pelo exílio e pela saudade da pátria distante. Gonçalves Dias apresenta uma poesia nacionalista que ora exalta a pátria distante. Todos os poemas estão reunidos sob o titulo Sextilhas de frei Antão. da musicalidade e do ritmo. ora idealiza a figura do índio. É no indianismo que Gonçalves Dias atinge o máximo da sua arte. Guerreiros. Nas selvas cresci. seus versos desenham um índio portador de sentimentos e de atitudes artificiais. Seus poemas indianista valem sobretudo pela carga lírica. Da tribo pujante. Carlos Drummond de Andrade. mas apenas aos elementos naturais.e “Não me deixes” são algumas de suas poesias líricas mais famosas. Ainda assim. Que agora anda errante Por todo inconstante. Além de exaltarem a natureza. Poesia medieval Gonçalves Dias deixou-nos uma série de poemas escritos em português arcaico. Murilo Mendes. destacando a presença do homem e seus problemas.

). o poeta satânico. “Cuidado leitor ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico.o sarcasmo. Junqueira Freire e Fagundes Varela. é também chamada de geração byroniana. O livro de poemas Lira dos vinte anos revela-nos uma duplicidade de jovem Álvares de Azevedo: de um lado poeta meigo. 41 . sou forte. impregnado de imagem de donzelas ingênuas. negativismo. Casiano de Abreu. assumindo também a conotação de fuga. Empregada de egocentrismo. nasci: Sou bravo. nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. este sempre idealizado. Guerreiro. Produção Literária da Segunda geração . A morte foi presença constante. desilusão adolescente e tédio constante característica do ultra —romantismo. pessimismo. terra fantástica. “O canto do Piaga”. Segunda geração . abrindo a Segunda com um prefácio ao mesmo tempo didático e revolucionário.Álvares de Azevedo Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do mal-do-século em nossa literatura produzindo uma obra influenciada por Lord Byron. corrosivo. de quem foi leitor assíduo e tradutor. Quase que depois de Anel esbarramos em Caliban. que tanto ironizava os outros como a si mesmo. de quem herdou as característica do spleen* . vultos que habitam seus sonhos adolescentes. dúvida. Ele próprio o dividiu em três partes.. ouvi. Vamos entrar num mundo novo. a ironia e a autodestruição. além do poema épico inacabado “Os timbiras”. e por Musset. mal — do — século -. onde Sancho é rei (. Meu canto de morte. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo. ‘Marabá”. dócil. Canção do tamoio”. irreal. “Leito de folhas verdes”. Quixote. filhas do céu. Sou filho do Norte. seu tema preferido é a fuga da realidade que se manifesta na idealização da infância.” Entre suas poesias indianista destacam-se “I — Juca Pirama”.geração do mal-do-século Fortemente influenciada pela poesia de Lord Byron e de Musset.. de outro. verdadeira ilha Baratária de D. mulheres misteriosas. angelical. Suas poesias falam de morte e de amor. mas nunca se materializam. o verdadeiro.Guerreiro. pela sensação de impotência diante de um mundo conturbado.

antíteses e hipérboles. o abolicionismo.” Noite na taverna. a escola literária que negaria o Romantismo. narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo. as lutas de classe. estudante de Direito. ora meigo e sentimental — ou seja. comparação grandiosas. assassinatos. mas. o próprio Álvares. no entanto. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. 42 . livro de contos fantásticos. como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves. Terceira geração — geração condoreira Caracterizada pela poesia social e libertária. O poeta fez uma “tentativa para o teatro” com um drama intitulado Macário. Teve muitos amores. poeta da última geração. constitui um dos mais significativos exemplos da literatura mal-do-século. mistérios e morte. que vive uma dualidade: ora irônico e macabro. os oprimidos. tem horizontes mais amplos. a igualdade. Cantou o amor.A razão é simples. em que seis estudantes. bacanais. a maior de todas as suas noivas foi a liberdade. anjo e demônio. o sonho. O texto nos apresenta um jovem chamado Macário. Pedro II. amou e foi amado por várias mulheres. a mulher. seguindo por Tobias Barreto e Sousândrade. como afirma o próprio autor: “ esse drama é apenas uma inspiração confusa. rápida. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político — social. foi perfeitamente romântico na forma. Seu principal representante foi Castro Alves. bêbados. E um livro em prosa. daí ser conhecida como. mas também pela realidade que o rodeava. Castro Alves cultivou o egocentrismo). Produção literária da terceira geração Castro Alves Enquanto os poetas das primeiras geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos. a morte. poeta. obra confusa. Castro Alves já apresentava em sua temática tendência do Realismo. E que a unidade deste livro funda-se numa binomia. ave que habita o alto da cordilheira dos Andes. traições. frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu” Castro Alves. como um pintor febril e trêmulo”. que realizei à pressa. geração hugoana. educado pela literatura de Victor Hugo. reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. interessando-se não pelos sentimentos e emoção pessoais (como bom romântico. típicos do condoreirismo. incestos. verdadeira medalha de duas faces. cantou a República. entregando-se a alguns exagero nas metáforas.

. como a lira ao vento. Boa-noite!. convivemos com esse sensualismo adulto... Mas não mo digas descobrindo o peito. Das teclas de teu seio que harmonias. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma. Esta paixão às vezes o torna irreverente: "amar-te é melhor que ser Deus” ou desesperadamente eufórico. Boa — noite. é tarde. a questão Coimbra em Portugal. Que escala de suspiros.. individualizada em Eugênia Câmara. A lua nas janelas bate em cheio. o evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias. de metáforas líricas: “Tua boca era um pássaro escarlate. Não me apertes assim contra teu seio. belos atento!” A poesia social O tempo de Castro Alves foi ponteado de grandes transformações sociais: no plano internacional. Maria! Ë tarde. o socialismo científico de Marx e Engels. Maria! Eu vou — me embora..A poesia Lírica . no plano 43 . o positivismo de Augusto Comte.. arrebatado pela realidade material “Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia” Entretanto. encontramos o adolescente meigo.Mar de amor onde vagam meus desejos...amorosa A poesia lírica — amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos: agora temos uma mulher de carne e osso.” Ás vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas: “Boa-noite.. terno. E tu dizes — Boa-noite Mas não digas assim por entre beijos. sensual.

criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural. agora transformado em corte. Enfim. a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano. Este é o momento histórico vivido pelos jovens acadêmicos de Direito de Recife e de São Paulo. surgem romances que giram em torno da descrição dos costumes urbanos e de amenidade do campo. e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras. neologismos e um certo rebuscamento que beira. profissionais liberais e jovem estudantes. o primeiro aspecto a destacar é a originalidade de sua poesia. a decadência da Monarquia. e mesmo de 44 . aproxima-se da terceira geração. o avanço de teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil. a luta abolicionista. e que se reflete em suas manifestações: “A praça! A praça é o povo Como o céu é do condor.interno. Respondendo às exigências do público leitor. sua obra foi de uma constante pesquisa. Algumas poucas obras fugiram desse esquema. por vezes. palavras inglesas. todos em busca de ‘ entretenimento “. sendo por isso difícil enquadralo dentro desse movimento. pois uma “realidade” que lhe convém.” Sousândrade Na obra de Sousândrade. Romantismo: prosa 1 . inovadora e até mesmo revolucionária para o padrão romântico. o espírito nacionalista a exigir uma” cor local “ para os romances. de Manuel Antônio de Almeida.Introdução A urbanização da cidade do Rio de Janeiro. o mau gosto — e também uma exploração de sonoridade que rompe com a métrica e o ritmo tradicionais. o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins. Sousândrade iniciou sua produção artística no período correspondente à 2ª geração romântica. por suas preocupações sociais. ou que apresentam imponentes selvagens personagens concebidos pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identifica. Em seus poemas percebe-se uma ousadia de vocabulário —termos indígenas. É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor. mas atravessou toda a segunda metade de século XIX. e o caso de Memórias de um sargento de milícias.

Inocência, do Visconde de Taunay. Cronologicamente, o primeiro romance brasileiro foi O filho do pescador, publicado em 1843, de autoria de Teixeira e Sousa (1812-1881). Romance sentimentalóide, de trama confusa, que não serve para definir as linhas que o romântico seguiria em nossas letras. Dessa forma, pela aceitação obtida junto ao público leitor, por ter moldado o gosto desse público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, lançando em 1844, como o primeiro romance brasileiro. 2 — Produção Literária Manuel Antônio Almeida Memórias de um sargento de milícias é uma obra totalmente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário, e pode ser considerado o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana para retratar o povo em toda a sua simplicidade. O romance é o documento de uma época, descrita com malícia, humor a sátira: o período de O. João VI no Brasil, juntamente o momento das maiores transformações, da mudança da mentalidade colonial para a vida da corte. Isso se percebe já nos primeiros parágrafos do livro: “Era no tempo do rei. Uma das quarto esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo — Canto dos Meirinhos — e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates de citações, provarás, razões principais e finais e todo esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral. Manuel Antônio de Almeida não descreve apenas o ambiente, mas introduz juízos de valor. O próprio conhecimento que tinha da época lhe vinha pela narrativa de um homem do povo: Antônio César Ramos, português, funcionário do Correio Mercantil, ex—soldado na Guerra Cisplatina, sargento de milícias, era quem, nas horas de folga, lhe contava sobre “o tempo do rei”.

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As memórias ferem a “sensibilidade romântica ;; já na figura de seu herói. Comparado aos modelos românticos, Leonardinho é um anti-herói seria dizer um herói picaresco, aqueles que está à margem da sociedade, que a vê mulher sob outro ângulo, de baixo para cima. Isso se percebe a partir das origens de Leonardinho: filho de uma pisadela e de um beliscão. Seus pais - Leonardo Pataca e Maria - da - Hortaliça - se conheceram numa viagem de Portugal ao Brasil; quando desembarcaram, Maria já estava grávida. Ainda pequeno, foi abandonado pelos pais; sua vagabundagem e as atitudes escandalosas contrariam os padrões românticos da época. Como se trata de uma perfeita crônica de costumes, há sempre a preocupação do autor em tudo datar e localizar, pois acima dos figurantes está o acontecimento. O acontecimento: esse é o núcleo de tudo. Ou, como afirma Alfredo Bosi: “Figurantes e não personagens movem-se no romance picaresco do nosso Manuel Antônio de Almeida, que, ao descarta-se dos sestros da psicologia romântica, enveredou pela crônica de costumes, onde não há lugar para a modelagem sentimental ou heróica. Por tudo isso, Almeida é encarado como um precursor do Realismo, um pré-realista, Apresenta, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o estilo frouxo, a linguagem por vezes descuidada e o final feliz do romance: Leonardo se regenera, enquadra-se nas milícias como sargento e casa-se com Luisinha. José de Alencar Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do romance, ficcionista que responde às expectativas do grande público. Sua obra é um retrato fiel de sua posição política e social: grande proprietário rural, político conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata (consta que em 1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre; o deputado José de Alencar subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho nem de discutir essa lei. Ela é comunista”). Todas essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início espontaneamente e mais tarde de modo premeditado: no prefácio a Sonhos d’ ouro, o romancista anuncia seu objetivo: a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira e, sobretudo, fazer um grade painel do Brasil, cobrindo-se por inteiro, o norte e o sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o urbano e o rural. Alencar defende o “consórcio” entre o nativo e o europeu colonizador, como uma troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outro, a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente, Isto se percebe claramente em O guarani, na relação entre Peri e a família de O. Antônio de Mariz, e em lracema (anagrama de América), na relação da

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índia com o português Martim Moacir, filho de lracema e Martim, é o primeiro brasileiro, fruto desse casamento de colonizadores e colonizados. Ao lado desse aspecto de sua obra, também se evidencia o medievalismo, bem explícito em O guarani. A seguir, alguns trechos nos quais o uso de termos como Idade Média, vassalos e rico homem é significativo: O sertanejo e O gaúcho, as obras regionalista de Alencar, mostram o intimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo desconhecimento quase total da região Sul. Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados a partir do conceito de “bom selvagem”. Romances rurais Apesar de não totalmente imbuídos de caráter regionalista, Til e O tronco do pé são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, banhada pelo rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro. Romances indianistas São três os romances do gênero que o popularizou: O guarani, lracema e Ubirajara. Além do indianismo, que reflete o nacionalismo e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação histórica. Para O guarani, por exemplo, o autor pesquisou documentos quinhentistas, neles encontrando referências à família de O, Antônio de Mariz, transformado em personagem do livro. Há, no início do livro, uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais. A natureza pátria aparece exaltada e nela vive o super — herói, um índio de cultura, fala e modo de agir europeizados. Em O guarani, o índio, individualizado em Feri, é civilizado, vive em contato com os brancos; Alencar chega a batizar Feri, para que o índio possa salvar Cecília (capítulo X da 4 parte, intitulado “Cristão”). Em lracema, romance baseado numa lenda do período de formação do Ceara, o navio brasileiro — no caso, a índia —experimenta seu primeiro contato com o branco colonizador. Ubirajara — lenda tupi representa o índio em seu estado mais puro às margens do Tocantins — Araguaia e relata a formação da “grande nação Ubirajara”. 4. O Realismo e o Naturalismo Considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo no Brasil. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romance fundamentais, que modificaram

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e Memórias póstumas de Brás de Cubas. Basta lembrar que O. de Machado de Assis. Característica do Realismo As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário. de Aluísio Azevedo. que é sempre um “amigo da casa”. ambos de Aluísio Azevedo. a postura do positivismo. ambos de Cruz e Sousa. no que se refere à hereditariedade. Lobo Neves! Virgília! Brás Cubas. o primeiro romance realista de nossa literatura. considerado o primeiro romance naturalista brasileiro. o “não — eu”. os autores desse período são antimonárquicos. do mesmo autor. e O Ateneu. o avanço das ciências influencia sobremaneira os autores da nova estética. com os romances realistas e naturalistas. São anticlericais. templo do Realismo. foi fundada em 1897. é de 1900. os autores realista são adeptos do determinismo. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. considera-se como data final do Realismo o ano de 1893. de Raul Pompéia. assumindo uma defesa clara do ideal republicano. principalmente os naturalistas. como se observa na leitura do romance como O mulato. Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte. Ideologicamente. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados da lado. e na poesia. destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas 48 . Esaú e Jacó. refletindo. Casmurro. formados pelo marido traído. com o Parnasianismo. A Academia Brasileira de Letras. No século XIX. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. com o contemporâneo. pela mulher adúltera e pelo amante. eis o porquê da presença constante dos triângulos amorosos. Para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis. Na realidade. o Simbolismo e o Pré — Modernismo —até o advento da Semana da arte Moderna. momento e raça — esta. razão por que se fala em cientificismo nas obras desse período. Negam a burguesia a partir da célula — mãe da sociedade: a família. o personalismo cede terreno ao universalismo. com todas as suas variantes. o Realismo só se preocupa com o presente. dessa forma. Cristiano Palhaf Sofia Palha! Rubião. segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: meio. três estéticas se desenvolvem paralelamente — o Realismo e suas manifestações.o curso de nossas letras: O mulato. eis alguns triângulo: Bentinho /Capitu/ Escobar. é de 1904. Na divisão tradicional da história da literatura brasileira. em que são publicados Missal e Broquéis. É importante salientar que essas obras registram o início do Simbolismo. de Machado de Assis. mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa. O cortiço. do socialismo e do evolucionalismo. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele. em 1922. nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX .

Jacó. paixão e morte de um cortiço”. Aires -‘ revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. há inclusive uma tese de que o principal personagem não é João Romão. o grande vilão. interessa notar que também os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato. ora impressionistas. A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social partir de grupos humanos marginalizados. retrato de uma época. O Cortiço. move-se com desenvoltura a diabólica figura do padre Diogo. Por outro lado. pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz. nem Pombinha. passando a viver do capital. dos personagens centrais de Machado. vive do capital. não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas — como o sexo — pela moral da classe dominante. que enfatiza a natureza animal do homem. Em conseqüência. isto é. ou seja. Casa de pensão. muda-se para o Rio e deixa de trabalhar. Romance naturalista Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e por Júlio Ribeiro. nem Rita Baiana. mas quando a herança de Quincas Borba. como afirma Antônio Cândido. Dom Casmurro. tão ao gosto naturalista. mas sim o próprio cortiço. é uma narrativa voltada para a análise psicológica e crítica da sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. É interessante constatar que os cincos romances a partir da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em sues títulos — Brás Cubas: Quincas Borba. de Aluísio Azevedo. já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança.beatas. erroneamente tachados 49 . O Ateneu. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalista. o mesmo acontece com Bentinho. antes de usar a razão. Nesse particular. O romance realista é documental. Esaú e . esses romances. o homem deixa-se levar pelos instintos naturais. o único que trabalhava era Rubião (professor em Minas). nem Bertozela. “O romance é o nascimento. merece destaque o romance O maluco. o caso de Raul Pompéia é muito particular. o naturalismo apresenta romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista. Sobre o romance O cortiço. Finalmente. pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas. A constante repressão leva às taras patalógicas. Romance realista Cultivado no Brasil por Machado de Assis. é importante salientar que Realismo é a denominação genérica de uma escola literária que abrange as tendência seguintes. que tem sobre suas costas o peso de duas mortes. vida. no qual em meio à sociedade conservadora e preconceituosa de São Luís do Maranhão. em que se valoriza o coletivo.

quanto feminino. que Machado fez para um reedição do romance Ressurreição. em O cortiço. escrito aí vão muitos anos. portanto. Dado em nova edição. sendo. Como outros que vieram depois. que há tanto me fui a outras e diferentes páginas. Agora mesmo. apresentando descrições minuciosas de atos sexuais e tocando. Produção Literária Machado de Assis Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica.” Esta é a” Advertência” para uma das reedições de Helena: "Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras. Aqui. É claro que. inclusive. em temas então proibidos. datada de 1905. como em O Ateneu. não lhe altero a composição nem o estilo. 50 . diverso do que o tempo me foi depois. como o homossexualismo. que o próprio autor nos dá a dimensão exata das fases de sua obra. assumindo uma posição paternal ao comentar e se desculpar pelas obras da primeira fase. portanto.por alguns de pornográficos. sendo por isso chamada de fase romântica ou de amadurecimento.” Observa-se. correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito. pertencente à primeira fase da minha vida literária. ouço um eco remoto ao reler estas. lhes tiraria a feição passada. Não me culpeis pelo lhe achardes romanesco. cada obra pertence ao seu tempo. em nenhum caso. além disso. apenas troco dois ou três vocábulos. tanto masculino. e faço tais ou quais correções de ortografia. são mais ousados. chamada de fase realista ou de maturidade. que não alteram a feição do livro. eco de mocidade e fé ingênua. contista e poeta. crônicas e correspondência. este me era particularmente prezado. Machado foi romancista. A prosa de Machado de Assis — primeira fase Transcrevemos a seguir. a Segunda apresenta o autor completamente definido dentro das idéias realista. nos deixou algumas peças de teatro e inúmeras críticas. naquele ano de 1876. Este foi o meu primeiro romance. e alguns contos e novelas de então. um trecho da “Advertência da nova edição”. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi. comentaremos apenas a poesia e a prosa machadianas. Dos que então fiz.

Casmurro é o personagem . o egoísmo.”. o casamento por interesse. ao lado da análise da sociedade e da critica aos valores românticos. cumpre destacar a técnica dos capítulos curtos: neles as idéias não se perdem. a linguagem correta. pois à prosa realista pertencem as verdadeiras obras — primas do romance e contista. criador do sistema filosófico chamado Humanitismo. humilde professor do interior de Minas Gerais que recebe a herança de Quincas Borba.nostalgicamente relembradas como uma época de fé ingénua. o Humanitismo em toda sua essência (em Memórias póstumas de Brás Cubas temos a teoria do Humanitismo). 28. Já os da Segunda fase caracterizam-se por capítulos curtos e em maior número: Memórias póstumas de Brás Cubas tem 160. o negativismo. laiá Garcia. Quincas Borba. 201. uma ligeira preocupação psicológica e uma ironia. mais nos interessa. clássica. Apesar de romanesco. acreditando ser Napoleão. o pessimismo. 121. é uma análise desagregação psicológica e financeira de Rubião. 19. Helena. ingenuidade esta perdida ao trilhar novos caminhos: “me fui a outras diferentes páginas”.. romance narrado em terceira pessoa. A desagregação de Rubião — um dos raros personagens machadianos bons honestos e decentes — até a loucura total e a miséria absoluta é. o romance parece girar em torno de um provável 51 . A prosa de Machado de Assis — Segunda fase É nesse aspecto que Machado de Assis. as frases curtas. 148. 17. Rubião morre pobre e louco. páginas realistas. Esaú e Jacó. À primeira vista. No auge da loucura.. ou seja. A análise psicológica dos personagens. também demostra extrema lucidez: sua última frase resume sua visão de toda a sociedade e do Humanitismo — “Ao vencedor. Assim os romances da primeira fase apresentam capítulos longos e em menor número: Ressurreição tem 24. Dom Casmurro Dom Casmurro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeiro pessoa: Bentinho / O. Dom Casmurro. e restaurar na velhice a adolescência ‘. a técnica dos capítulos curtos e do diálogo com o leitor são as principais características se seus textos realistas. as batatas. os romances e contos dessa época já indicavam algumas características que mais tarde se consolidariam na obra da Machado : o amor contrariado. na prática. A mão e a luva. pelo contrário: as entrelinhas são valorizadas e são permitidas observações paralelas à narrativa. No aspecto formal.narrador que tenta “atar as duas pontas da vida. Quincas Borba Quincas Borba.

como o próprio subtítulo indica. Sérgio. ou seja. a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. a fronteira entre a loucura e a lucidez. mas não socialmente — Capitu e o filho vivem na Europa a pretexto de um tratamento de saúde de Capitu). publicando em folhetins. a “vingança” do autor conta a estrutura do internato. isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento. a exemplo de Manuel Antônio de Almeida. segundo Mário de Andrade. Um apólogo. outra. é na realidade o Or. O Ateneu — crônica de saudades. Barão de Macaúbas. narra seu tempo de aluno interno no Ateneu. Sempre aparecem a preocupação psicológica. amigo do casal. entra no colégio com 11 anos de idade. o tempo da ação é anterior ao tempo da narração. Aristarco Argolo de Ramos. Suas experiências anteriores se perdem diante da importância desse livro. já adulto. o Dr. os contos da fase realista seguem as mesmas diretrizes dos romances. a rigor. Entretanto. o Ateneu é o Colégio Abílio. a ironia social e política. abriria o volume intitulado Papéis avulsos. Os contos Em linhas gerais. é um livro de memórias.adultério: Bentinho é casado com Capitu. Abílio César Borges. desconfia que Ezequiel. Visconde de Ramos. a do governo. o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelações que só se fazem à consciência. centrada na vivência de Sérgio / Raul Pompéia como interno no Ateneu / Colégio Abílio. a narrativa é feita em primeira pessoa e Sérgio é o personagem — narrador. Entres os contos que se firmaram como verdadeiras obras — primas citamos: O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana A cartomante. no plano político — social. Entre santos. A causa secreta. e Aristarco. pertence a um grupo de autores que entram para a história da leitura graças a um único livro: O Ateneu. assim como Raul Pompéia. O personagem Sérgio. Nesse mesmo ano. Missa do galo. A igreja do diabo. em que o Ateneu é a representação da Monarquia decadente. O primeiro conto realista de Machado trata-se. de uma novela: O alienista. pois elas se interpenetram e se 52 . o filho. O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no plano individual. e que representa. Entretanto. do Norte. seja de Escobar. guardadas as diferenças de um gênero para o outro. Raul Pompéia Raul Pompéia. o ciúme doentio de Bentinho leva à dissolução do casamento (eles se separam de fato. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia. do Norte. de outubro de 1881 a março de 1882. essas leituras não devem ser feitas isoladamente. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico.

E duramente se marcavam distinções políticas. distinções baseadas na crônica escolar do discípulo. ele não é um pedagogo.” A postura do diretor é bastante clara no trecho a seguir “(. Ao se considerar o Ateneu o Colégio Abílio. que não achava em suas contas escolares. distinções financeiras. os meninos sentem a necessidade de substitui-los.. o diretor não tem essa preocupação — além de egocêntrico. Saía indagando o motivo daquilo.complementam. mas um comerciante: “(. No ângulo de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. As simpatias verdadeiras eram raras. à porta do Ateneu... Afamado por um sistema de nutrido reclame. segundo a categoria de recepção que queria dispensar. percebe-se a crítica de Raul Pompéia a toda aquela estrutura velha e viciada.) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados. pintando-o jeitosamente de novidade. um mundo fechado — um microcosmo -‘ moldador dos meninos que lá estudaram e deformador de suas personalidades. baseadas na razão discreta das notas do guarda — livros. sentindo o choque provocado pelo confronto da educação familiar (descrita como “estufa de carinho”) com a vida ao Ateneu. como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa. o interno a reflete”. disse-me meu pai.) Ateneu era o grande colégio da época. 53 . Arrancados do contato e da proteção dos pais. A própria definição do livro aparece no corpo da narrativa: “Não é o interno que faz a sociedade. O pai estava dois trimestres atrasados. Às vezes uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar.. no entanto.” Ainda assim. segundo a condição social da pessoa. Ele tinha maneiras de todos os graus. mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento. O romance se inicia com a significativa frase: ““Vais encontrar o mundo””. “Coragem para a luta!”. Mas por quem? No Ateneu o único que poderia fazer as vezes de pai é Aristarco. O menino indefeso e despreparado vai enfrentá-lo... o diretor afirma demagogicamente: “O meu colégio é apenas maior que o lar doméstico”.

provocando-me com surriadas..Os meninos sentem necessidade de substituir a mãe. fortes como a maternidade. Aliás. pelo contrário: os meninos se frustram. Os rapazes tímidos. Eis alguns trechos: “(. em segredo dos pais. Ema personifica igualmente o sexo e nesse aspecto não satisfaz às necessidades dos meninos.. reluzente como pano molhado.) Este que passou por nós. o sexo. e que seria também a cor do jambo. lúcidas. são brandamente impedidos para o sexo da fraqueza... Viu aquele da frente. que gritou “calouro”? Se eu dissesse o que se conta dele. numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos.. mas vejo.” Está visto que Aristarco não faz as vezes de pai. erigindo. Ema não faz apenas o papel de mãe. Eis algumas palavras do veterano Rabelo ao calouro Sérgio: “(. Mas o sexo é um instinto natural. esposa de Aristarco.” Mas adiante Sérgio afirma: “(. O. é o Cândido. que pareciam encher o talho folgado dos pálpebras. E nela os meninos vêem a mãe. a “lei da selva”. faça-se homem. formas alongadas por graciosa magreza. Esta aparição maravilhou-me. cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alterava. pervertidos como meninos ao desamparo.. pupilas retintas. o seu nome é um grande achado de Raul Pompéia: note que Ema é anagrama de mãe e do imperativo afirmativo ame. com aqueles modos de mulher. e se o sexo oposto (Ema) é inacessível. festejando. Os fracos perdem-se.. porém. ingênuos.) chegou a senhora de diretor. sem sangue.. Não sou criança. Olhe. pensava eu. mas também a mulher. vivo só e vejo de longe. faça-se forte aqui. a tendência.aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores. é o homossexualismo e a “proteção” dos meninos mais fortes aos mais fracos. Quando. se decepcionam.. numa comunidade de indivíduos do mesmo sexo. ali vem Ribas. olhos negros. Isto é uma multidão. Mas por quem? No Ateneu a única mulher é Ema. se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido.. um conselho. pensam que o colégio é a melhor das vidas.. está vendo? Primeira voz no orfeão.) Olhei furtivamente para a senhora. de uma cor só. com o acolhimento dos 54 . dar a frustração e a decepção quase edipianas.. Os gênios fazem aqui dois sexos como se fosse uma escola mista.. Não pode imaginar. são dominados. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras. e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne.. Vestia cetim preto justo sobre as formas. é preciso força de cotovelos para romper. o tronco sobre quadris amplos. uma vozinha de moça. Adiantava-se por movimentos oscilados. Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac. olhando muito. Ema. nem idiota. de um moreno rosa que algumas formosuras possuem.

prima pela devoção à clareza. no Ateneu é ser frustrado. ao final do livro. também. alguém que me valesse. sob a influência do século XVIII. Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. O romancista não perdoa o diretor nem no aspecto humano: Ema o abandona (“desapareceu igualmente durante o incêndio a senhora do diretor”).) eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo. depois do Colégio Abílio. provoca um incêndio. o Ateneu é “um mundo de brutalidades”. Podemos fazer uma Segunda leitura do romance. Raul Pompéia. acha aceitando as regras do microcosmo. 5. complexado. Um mundo com regras e leis próprias: o normal. homofonias. naquele meio hostil e desconhecido. hiatos. como lhe dissera seu pai. ecos e expressões arrebatadoras. (. para Basílio da Gama. Américo.. não teriam consciência de seus problemas.. meu amigo! Comece por não admitir protetores. faça-se homem. Os parnasianos evitam as aliterações. Raul Pompéia destrói o Ateneu: um dos meninos. cultivando a forma para atingir a perfeição. entendendo o Ateneu e sua moral falida como a própria Monarquia decadente. homossexual. à lógica e à sonoridade. aplicada sob o jugo de regras rígidas.mais velhos. A sintaxe. o grande mundo. estuda na Faculdade de Direito de Largo São Francisco: da sociedade mais fechada à sociedade mais aberta da época. Parnasianismo Características Os poetas brasileiros tomam como fonte de inspiração os portugueses do século XVIII. a efeminação mórbida das escolas. Cultuam a estética do Arcadismo. degradante. No entanto. que é o regime de internato. Aristarco. Mas um dia abandonam o colégio e sentem o choque com o macrocosmo.. mas apreciam a rima consoante. destacando. e aí percebem o mundo sórdido. Voltam-se. a destruição daquele mundo e de seu criador. Para os internos só há uma solução: a eternidade do Ateneu. como ele observara. levado pela necessidade. é a “vingança” de Raul Pompéia. Eu desejei um protetor. estão perdidos. e um valimento direto mais forte do que palavras.” Para os meninos submetidos à “lei da selva”. Sérgio. Se os meninos vivessem eternamente naquele mundo. a correção da linguagem. propiciadora de originalidade e imortalidade.” Sérgio encontra no microcosmo do Ateneu. entre brejeiros e afetuosos. 55 . os avisos de Rebelo não são suficientes: “Perdeu-se a lição viril de Rebelo: . o trabalho de Bocage.prescindir de protetores.. sobretudo. nunca abandonar aquele mundo e sua ““normalidade””. buscando objetividade e impassibilidade diante do objeto.

O social perde a força do início. sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro 56 . o Parnasianismo inicial. sem. teve apenas um volume publicado em vida: Broquéis. Entretanto. símbolo do ideal de beleza. indício de uma produção intensa que poderia ter sido mais bem trabalhada. vai se deslocando. abjurando a interna e exigindo a rima em todas as quadras. Apreciam as metáforas derivadas das lendas e história da Antigüidade Clássica. no sentido de que a linguagem é uma estrutura simbólica. representando-a metonimicamente. a riqueza de linguagem e a descrição 6. Como poeta. bem como o trabalho com a chave de ouro e a rima rica. O soneto ressurge juntamente com o verso alexandrino. chegando-se a afirmar que sem ele nem teríamos essa estética em nossas letras. sobressaindo-se a alegria. ligado à inspiração derivada dos temas históricos de Roma e Grécia. suprimir o subjetivismo. mas se orientam pelo determinismo. pessimismo e sensualidade. o conhecimento do mal. Os dois outros volumes de poesias são póstumos. apesar de o poeta ser considerado um dos maiores do Simbolismo universal. estamos no realismo literário. a exigência de precisão. Théophile Gautier. uma vez que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais em nome de posição mais universalizante. e quando se afasta do real sensível e busca ou a realidade psíquica ou a pura abstração. A vida é cantada em toda sua glória. aos poucos.” (Gilberto Mendonça Teles) 4 . O universalismo se sobrepõe ao nacionalismo. aos versos de rimas paralelas ou intercaladas. Por isso. Sua obra apresenta uma evolução importante. Quando a linguagem fica mais próxima da realidade. graças à ação do meio e das tradições poéticas. Dão ênfase às alternâncias graves. entretanto. cedendo lugar ao princípio da Arte pela Arte. A imaginação é sempre dominada pela realidade objetiva. os poetas não obedecem com precisão o cientificismo e nem primam pela objetividade. De fato. tendendo à busca da simplicidade clássica. temos os períodos românticos e simbolistas da histórias literárias. a sensualidade.privilegiando a rima paroxítona. A recorrência ao arcadismo interno e ao português acaba dando ao movimento uma configuração própria. postulado pelo poeta francês. prevalecendo.Produção Literária Cruz e Sousa Cruz e Sousa é sem dúvida a figura mais importante do nosso Simbolismo. para a paisagem brasileira. Simbolismo A Linguagem do Simbolismo Os fundamentos de uma teoria do Simbolismo encontram razão de ser na própria constituição da linguagem. com freqüência. valendo-se para isso preferentemente da metáfora e dos símbolos.

Quando seios pubentes* estremecem. escritos entre 1909 e 1924. contrastando com o clima eufórico da burguesia. a Europa suportava a herança do final do século XIX. por exemplo — e as consequências desse avanço no processo burguês — industrial: uma disputa cada vez mais acirrada pelo domínio dos mercados fornecedores e consumidores. Erra* nos pulcros*..A Vanguarda Ao se iniciarem os anos de 1900. A essa multiplicidade de tendência. também vamos encontrar o pessimismo característico do fim do século.(evidentes colocações pessoais). a anulação da matéria para liberação da espiritualidade. Cubismo.. que resultaria na 1 Guerra Mundial. só conseguida na sua totalidade através da morte. Luzes claras e augustas.. representado pelo decadentismo simbolista. em forma alvadias*.. responsável por uma verdadeira inundação de manifestos (só o Futurismo lançou mais de 30). (Cruz e Sousa) 7 . Está sempre presente a sublimação. como bem atesta o soneto “Primeira comunhão”: “Grinaldas e véus brancos. mas complementares: euforia exagerada diante do progresso industrial e dos avanços técnico — científicos — como a eletricidade. favorecendo o aparecimento de várias tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade. véus de neve. luzes claras Douram dos templos as sagradas aras*. convencionou-se chamar vanguarda européia. sereno e breve. 57 . De ignotos* e de prônubos* pudores. Ao lado disso. Essa contradição gera um clima propício para a efervescência artística. mas evolui para sofrimento e a angústia de todo ser humano.. Assim. virginais brancores Por onde o Amor parábolas* descreve. Silfos* de sonhos de volúpia crescem. Véus e grinaldas purificadores. Dadaísmo. Na comunhão das níveas hóstias frias. Um luar de pudor. caracterizada por duas situações antagônicas. os vários . ou seja. Surrealismo -.. percebe-se o uso de maiúsculas valorizando as idéias (no sentido platônico) e uma angústia profunda. Vão as Flores carnais.ismos Futurismo. Ondulantes. as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve. Expressionismo. durante a guerra e nos anos imediatamente anteriores e posteriores.

buscavam novas formas de expressão artística. a audácia e a revolta. o hábito à energia e à temeridade. nós queremos exaltar o movimento agressivo. não satisfeitos com o que então se produzia. Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. a adesão de Marinetti ao fascismo de Mussolini.” Em 1912.. combater o moralismo.” "Nós queremos demolir os museus. pelo ódio e pela velocidade!. a ponto de se tornarem quase sinônimas as palavras Futurismo e Marinetti. O Futurismo O primeiro manifesto do movimento foi publicado em 20 de fevereiro de 1909. surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurística. da máquina. pelo advérbio e pela pontuação. Ou seja. assinado por Filippo Tommaso Marinetti (1876 — 1944). a insônia febril. termo militar que designa aqueles que. Apresentava como pontos fundamentais a exaltação da vida moderna.. as belas idéias que matam. dispondo os substantivos ao acaso. e o menosprezo à mulher. o militarismo. É importante salientar dois aspectos muito relevantes do futurismo: primeiro.” "Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa.” "Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem.” "Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados.A palavra vanguarda deriva do francês avant . passou a ser empregada para designar aqueles que. o patriotismo. a partir de 1919.garde. o passo ginástico. o salto perigoso. passou a definir artistas e intelectuais que. como nascem”. da velocidade e uma inevitável ruptura com os modelos do passado.” "Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do mundo -. as bibliotecas. Eis alguns de seus principais trechos: "Nós queremos cantar o amor ao perigo. Nosso coração não tem a menor fadiga. A partir do início do século XX. segundo. Assim. o feminismo e todas as covardias oportunista e utilitárias. a bofetada e o soco. o gesto destrutor dos anarquistas. tanto na linguagem como na composição. apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com seus 58 .. propondo “a destruição da sintaxe. estavam à frente do deu tempo. a total identificação entre o movimento e seu líder. da eletricidade do automóvel. o êxtase e o sono. o uso de símbolos matemáticos e musicais e o menosprezo pelo adjetivo. vão à frente da unidade. porque ele está nutrido pelo fogo. durante uma campanha. pode-se entender a repugnância dos principais modernista brasileiro pelo movimento de Marinetti. no campo das artes e das idéias. dadas as evidentes afinidades ideológicas entre eles..

notadamente entre 1910 e 1920. uma caricatura.” Em Portugal. No prefácio ao livro Paulicéia desvairada. aceitavam suas idéias artísticas. Van Gogh chegou a afirmar que essa pintura. chamando-me de futurista. Por sua característica. ou seja. da materialização. Mário de Andrade vem a público negar. mais do que o movimento futurista. ao distorcer uma imanem para expressar a visão do artista. em novembro do mesmo ano. realizou-se “espetáculo futurista”. de Álvaro de Campos. por exemplo. de imagens nascidas em nosso mundo interior. mas repudiavam seu posicionamento político. trazendo uma forte herança da arte do final do século XIX. Disse e repito-o. preocupada com as manifestações do mundo interior e com uma forma de expressá-la. Oswald de Andrade tomou conhecimento do futurismo em suas viagens à Europa anteriores a 1919. portanto o movimento com o fascismo. Como lembra Lúcia Helena em Movimentos da vanguarda européia. errou. Em 1917. na pintura O grito. uma máscara. Oswald de Andrade. expressão da angústia do ser humano: a figura que grita não tem os traços do rosto bem definidos. em 1921. não relacionando .seguidores. Apollinaire e Blaise Cendrars. dando continuidade a um trabalho iniciado por Van Gogh. levando Oswald a saudar. como por exemplo os futuristas. em Lisboa. pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio. Daí a importância da expressão. 59 . com a participação de Santa Rita — Pintor e Almada Negreiro. o Expressionismo desenvolveu-se mais na pintura. a palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte. afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). Mário de Sá — Carneiro. assemelhava-se à caricatura. Por outro lado. numa tela ou numa folha de papel. além do poema “Ultimatum”. Tenho pontos de contacto com o futurismo. é um rosto distorcido. “ao contrário de outras vanguardas. que continha texto de Almada Negreiro. de Munch. Gombrich assim comenta a obra de Munch. Já nos primeiros números da revista Orpheu (1915) encontramos textos futuristas de Fernando Pessoa e de Mário de Sã —Carneiro. os expressionistas são mais afetado pelo sofrimento humano do que pelo triunfo”. a figura de seu líder. É o que se pode perceber. E. O Expressionismo O movimento expressionista surgiu em 1910. o jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. Raul Leal. Temendo uma identificação com o fascismo. pelo contrário. H. saiu o primeiro e único número da revista Portugal futurista. houve uma maior identidade entre os modernistas de primeira hora e o Futurismo. na Alemanha. que refletem otimistamente sobre a técnica e o progresso. Cézanne e Gauguin.

segundo Picasso. as outras três têm feições que lembram máscaras africanas. de 1907. e a chamada poesia concreta da década de 60. Pregava ainda a utilização do verso livre e a conseqüência negação da estrofe. o Cubismo desenvolveu-se inicialmente na pintura. um grupo de refugiados em Zurique. Como exemplo de texto cubista. edição de 18 de maio de 1947. O Dadaísmo Em 1916. no jornal Diário de São Paulo. na Suíça. de frente. considerada a primeira obra cubista. etc. em plena guerra. cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto — síntese assinado por Guillaume Apollinaire (1880-1918) e publicado em 1913. inicia o mais radical movimento da vanguarda européia: o 60 . da rima e da harmonia. a Pagu.O Cubismo Nascido a partir das experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque. Influenciado pela cultura africana Picasso retrata cinco mulheres de um bordel francês em poses sensuais (repare nos braços levantados realçando as formas do busto): as duas mulheres ao centro têm expressões de andaluzas (sul da Espanha. Ao lado. literatura. A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. temos a tradução realizada por Patrícia Galvão. e propunha a “destruição das sintaxes já condenadas pelo uso”. adjetivos e pontuação. valorizando as formas geométricas (cones. escultura). na década de 20. criando um texto marcado pelos substantivos soltos. mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que “a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”). temos o famoso poema de Apollinaire. preocupando-se com a construção de texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. quando tudo fazia supor uma vitória alemã. No Brasil. “o trabalho do artista não é copia nem ilustração do mundo real. onde nasceu o pintor). esferas. essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade. Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”. Na literatura. Assim como na pintura. O trabalho mais revolucionário de Picasso foi a tela Les Demoiselles d’ Avigon.) ao revelar um objeto em seus múltiplos ângulos. A literatura valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar o máximo as várias manifestações artísticas (pintura. “La colombe poignardée et le jet d’ e au” (A pomba apunhalada e o jato d’ água). A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a 1 Guerra Mundial. música. as colagens e o reaproveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos. jogados aparentemente de forma anárquica. cilindros. A ruptura com a forma de ver o mundo por uma única perspectiva pode ser exemplificada com a mulher sentada à direita: seu corpo é visto de costas e seu rosto. e pelo menosprezo por verbos.

A própria palavra dadá.. por André Breton (1896-1970). em 1924. Negando o passado. um ex-participante Dadaísmo que rompera com Tzara. A propósito.) Ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud. uivos das dores crispadas. o Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra. daí ser contra as teorias. Mário de Andrade assim de manifesta sobre a leitura da poesia “Ode ao burguês”: “Quem não souber urrar não leia ‘Ode ao burguês”. Ë importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras. da valorização do sonho. o presente e o futuro. das inconseqüências: A VIDA. a executar. também éconta o manifesto. as ordenações lógicas. como afirma um de seus iniciadores. da liberação do inconsciente. uivos das dores crispadas. Tristan Tzara (1896-1 963). Foi essa idéia que fez os surrealista 61 . quebrando as barreiras do significado. em seu Manifesto Dadá 1918: “Eu escrevo um manifesto e não quero nada.” O Surrealismo O Manifesto Surrealismo foi lançado em Paris. no prefácio a Paulicéia desvairada. não significa nada. suas origens estão mais próxima do Expressionismo e da sondagem do mundo interior.Dadaismo. limpar. em sua História da arte: “(. em busca do homem primitivo. como sou também contra os princípios. São palavras de Tristan Tzara: “Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo. eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos. negativo. o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. Gombrich. A propriedade do individuo se afirma após o estado de loucura. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições. quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos. Entretanto. de loucura agressiva. completa. a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. Como afirma EH. Varrer. ou seja.” Importante era criar palavras pela sonoridade.” Que terminam assim: “Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. os quais demonstram que. pouco se importando com o leitor. importante era o grito.. escolhida (segundo eles. foi criado sobre as cinzas da 1 Guerra Mundial e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. de um mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos. Aliás. ao acaso) para batizar o movimento.

com a eclosão da 1 Guerra Mundial. que continuavam a produzir. com a realização da Semana de Arte Moderna. além daqueles mais preocupados com uma literatura política e outros. não constitui uma “escola literária”. por apresentar individualidades muito fortes.Modernismo não constituir uma “escola literária”. o mais extravagante dos surrealistas. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários. e de Canãa Graça Aranha -e se estende até o ano de 1922. ainda. Graça Aranha. frustrações. Pré — Modernismo é um termo genérico que designa a produção literária de alguns autores que. de Euclides da Cunha e de Lima Barreto -. desde os poetas parnasianos e simbolistas. não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário. essas duas décadas marcam um longo período de transição entre o que era o passado (representado pelas manifestações que se prolongavam desde o século XIX) e o que seria chamado de moderno (a arte posterior às tendências de vanguarda). limitaremos o Pré — Modernismo ao estudo de Euclides da Cunha. Admitem que a razão pode dar-nos a ciência mas afirmam que só a não — razão pode dar-nos a arte. 9 . primeiros vinte anos do século apresentaram uma vasta e diversificada produção literária. com estilos às vezes antagônicos — como é o caso.” Em Salvador Dali.O Pré-Modernismo Historicamente.proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta. por exemplo. o sono e o sonho. há quem afirme que o século XX só se inicia. ou seja. Monteiro lobato e Augusto dos Anjos. até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo. a influência de Freud é marcante. Na realidade. No Brasil os. Lima Barreto. podemos perceber alguns pontos comuns às principais obras desse período: 62 . São temas recorrentes em suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústia. a memória (sua permanência ou dissipação por relógio que se diluem). O que se convencionou chamar de Pré — Modernismo. com a publicação de dois importantes livros — Os sertões. traumas). no Brasil. não sendo ainda modernos. de fato. Características Apesar de o Pré. de Euclides da Cunha. Por apresentarem uma obra significativa para uma nova interpretação da realidade brasileira e por seu valor estilístico. Assim. seguindo determinadas características. medos. com propostas realmente inovadoras. abordaremos o período que se inicia em 1902. já promovem rupturas com o passado. De fato..

os funcionários públicos. dos subúrbios. iniciado em 1922. por exemplo. vermes). cientificista e naturalista. era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor.- Ruptura com o passado. e Canãa. mais admirado é o escritor que a escreve. o Vale do Paraíba e o interior paulista com Monteiro Lobato. dos caboclos intenioranos. A Linguagem de Augusto dos Anjos. Denúncia da realidade brasileira — Nega-se o Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. Cidade Mortas. econômicos e sociais contemporâneos — Diminuiu a distância entre a realidade e a ficção. quanto os leitores que se deixavam impressionar: “Quanto mais incompreensível é ela [a linguagem]. Lima Barreto ironiza tanto os escritores “importantes” que utilizavam uma linguagem pomposa. Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré — modernista pela denúncia que faz da realidade brasileira. Ligação com fatos políticos. o “pai do determinismo” -. de Lima Barreto (retrata o governo de Floriano e a Revolta da Armada). Regionalismo — Monta-se um vasto painel brasileiros: o Norte e o Nordeste com Euclides da Cunha. São exemplos: Triste fim de Policarpo Quaresma. 63 . é o grande tema do Pré — Modernismo. por todos que não lhe entenderam o escrito”(Os bruzundangas). o caipira. vômito. Os sertões. o Brasil não — oficial do sertão nordestino. de Monteiro Lobato (mostra a passagem do café pelo Vale do Paraíba Paulista). Tipos humanos marginalizados — O sertanejo nordestino. de Graça Aranha (um documento sobre a imigração alemã no Espírito Santo). escarro. ponteada de palavras “não —poéticas” (como cuspe. Produção Literária Euclides da Cunha Embora apresente uma visão de mundo profundamente determinista — no prefácio de Os sertões cita Hypolite Taine. com o academicismo — Apesar de algumas posturas que podem ser consideradas conservadoras. há esse caráter inovador em determinadas obras. os mulatos. o subúrbio carioca com Lima Barreto. de Euclides da Cunha (um relato da Guerra de Canudos). o Espírito Santo com Graça Aranha. Como se observa a “descoberta do Brasil” é o principal legado desses autores para o - - - - movimento modernista.

o clima (há um capítulo intitulado Hipótese sobre a gênese das secas”) e o relevo. as quais primeiramente passavam por um “filtro” no Rio de Janeiro. Só quando pisou o solo baiano. é que compreendeu o drama de Canudos em toda a sua extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que não se tratava de uma luta por um sistema de governo. sua visão era influenciada pelas informações que recebia. O homem — Um elaborado trabalho sobre a etnologia brasileira: a ação do meio da fase inicial da formação das raças. como - - 64 . para ele Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela República. trata em sua obra da Campanha de Canudos. uma brilhante análise de tipos distintos. documento vivo dos contrastes entre o Brasil que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do sertão nordestino.trazendo à luz. Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por Antônio Conselheiro de “foco monarquista”. como correspondente de guerra do jornal paulista. Ao mesmo tempo. Se a princípio pretendia apenas fazer um relato da luta. Euclides da Cunha acabou realizando um verdadeiro painel do sertão nordestino. Daí o caráter revolucionário de Os sertões. pela primeira vez em nossas letras. na significação integral da palavra. feita pelo autor: “Intentamos esboçar. E foi. antes o olhar de futuros historiadores.a denúncia do extermínio aproximadamente 25 mil pessoas no interior baiano. a gênese dos mestiços. A obra é dividida em três partes: A terra — Uma detalhada descrição da região respaldada em seus amplos conhecimentos das Ciências Naturais: a geologia. Afirma o autor: “(. Nessa época. Denunciemo-lo. que avaliou de forma equivocada os problemas nacionais — a revolta no sertão baiano foi considerada um foco monarquista que colocava em risco a vida republicana. Em seus primeiros artigos sobre Canudos. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil.. embora já demostrasse preocupação com as condições sub-humanas do povo da região. palidamente embora.. como se pode ver na apresentação da obra. quando estava na relação de O Estado de São Paulo.” Para tanto. mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por três séculos.” Este é um outro aspecto do livro . as verdadeiras condições de vida do Nordeste brasileiro.)Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. um crime.

Ao falar sobre o homem do sertão. um forte. mas também como um movimento político e social. contrapõe o sertanejo. Assim. em 30 de abril de 1942. Euclides da Cunha vai colocar-nos diante de um país diferente do que até então se costumava retrata: a um Peri. para dimensionar o acontecimento: “Manifestado especialmente pela arte. impunha a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional.o gaúcho e o jagunço. por conseguir sobreviver em condições tão adversas. nas duas primeiras descreve o cenário e os personagens. a “sub-raça”. nesse cenário introduz a figura mística de Antônio Conselheiro. com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios. Nada melhor que as palavras de Mário de Andrade em sua formosa conferência “O Movimento Modernista”. promovida pela Casa do Estudante do Brasil. com a prática européia de novos ideais políticos. Sem dúvida. mas manchado também com violência os costumes sociais e políticos. bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira. Idealizada por um grupo de artistas. A transformação do mundo. a um tupi de “I . a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais. 10 — O Modernismo O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna. os progressos internos da técnica e da educação.” Portanto a Semana de Arte Moderna deve ser vista não só como um movimento artístico.Juca Pirama”. “o sertanejo é. até perto de 1930. de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: O sertanejo é. O Primeiro Momento Modernista “E vivemos uns oito anos. realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13. Isto foi o movimento modernista. o movimento modernista foi prenunciador. um forte”. Dessa forma. a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu. a uma Iracema. justifica a luta. Para compreendê-la melhor. façamos uma rápida análise de situação socioeconômica do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. no Rio de Janeiro. na - 65 . Seu relato do dia —a dia da guerra é a denúncia de um crime. o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. antes de tudo. ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. o jagunço.” A luta — Só nesta terceira parte da obra Euclides relata o conflito.15 e 17 de fevereiro de 1922. antes de tudo.

a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética. tem início uma primeira fase modernista. o Brasil passa por um momento realmente revolucionário.” (Mário de Andrade) Realizada a Semana de Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias. o seu sentido verdadeiramente específico..) Mas esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade. caracterizando-a pela tentativa de definir a marcar posições. e encerradas com es o internamento da Coluna Prestes na Bolívia.maior orgia intelectual que a história artística do pais registra. assinalavam o crescendo na disputa pelo poder. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é. a meu ver. Isto é. O Brasil vive os últimos anos da chamada República Velha. inequivocamente de classe média. a economia mundial caminha para um colapso. a seriação de manifestações de rebeldia artística a que se convencionou chamar Movimento Modernista. o movimento modernista vive uma segunda fase.. ainda. portanto. em 1929. Não por mera coincidência. também tipicamente de classe média. que culminaria com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas. embora lançado inúmeros processos e idéias novas. Nelson Werneck Sodré. que se estende de 1922 a 1930. o movimento modernista foi essencialmente destruidor (..) se alastro pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernismo. Dai o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido destruidor. que se concretizaria com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. explica: “Nesse processo verificamos a seriação das manifestações político —militares iniciadas com os disparos dos canhões de Copacabana. assim definido por Mário de Andrade: “(. justamente em conseqüência da necessidade de definição e do rompimento com todas as estruturas do passado. O período de domínio político das oligarquias ligadas aos grandes proprietários rurais.” 66 . com a revolta militar do Forte de Copacabana. a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional. que inaugura uma outra etapa de sua vida republicana... Tais manifestações. ou seja. a partir de 1922.” De 1930 a 1945. Nele verificamos. ao analisar as décadas de 1920 e 30 em História da literatura brasileira. como era uma convulsão profundissima da realidade brasileira. em 1922. Constitui. um período rico em manifestos revistas de vida efêmera: são grupos em busca de definição. a qual reflete as transformações por que passou o pais. Nessa década. Porque. Características O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernismo.

contraditório. E. Por isso é polimorfo. Essa é a grande lei da novidade. politicamente identificado com as esquerdas.) Klaxon não é exclusivista. de outro. a postura apresenta duas vertentes distintas: de um lado. o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens.. cômico. Oswald de Andrade. Klaxon é Klaxista. onipresente. as paródias — numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileira —e a valorização do índio verdadeiramente brasileira. Como se percebe já no final da década de 20. (. Mas quer representar a época de 1920 em diante. um nacionalismo crítico. destacam-se Mário de Andrade. caminha para diante. sempre.Ao mesmo tempo que se procura o moderno. um nacionalismo ufanista. sem renegar o passado. a pesquisa de fontes quinhentista. Antonio de Alcântara Machado. Klaxon não se preocupará de ser novo.. Manuel Bandeira.” 67 . ) Klaxon sabe que o progresso existe. aconselhado por Pascal. Guilherme de Almeida e Plínio Salgado. além de Menotti deI Pichia. . irritante. (. utópico. sempre. ambos nacionalistas na linha comandada por Oswald de Andrade. que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado por PIínio Salgado. As revistas e os manifestos • Klaxon Eis alguns trechos do “manifesto” que abriu o primeiro número da revista: “Klaxon sabe que a vida existe. visa o presente. Cassiano Ricardo. . É o tempo do Manifesto da Poesia Pau — Brasil e do Manifesto Antropófago. mas de ser atual. de denúncias da realidade brasileira. consciente.(. Apesar disso jamais publicará inéditos maus de bons escritores já mortos. o original e o polêmico. Dentre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a produzir nas décadas seguintes. insultado. Por isso. a procura de uma língua brasileira” (a língua falada pelo povo nas ruas). e do Manifesto do Verde — Amarelismo ou Escola da Anta.. invejado. exagerado. Klaxon não é futurista. ) Klaxon cogita principalmente de arte. inquieto.. identificado com as correntes políticas de extrema direita. feliz.

) Aceitamos todas as instituições conservadoras. responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira(. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. à tirania das sistematizaçôes ideológicas. um órgão político.) • Manifesto Regionalista de 1926 Os anos de 1925 a 1930 marcam a divulgação do Modernismo pelos vários estados brasileiros. entre outras coisas. sem quebra de nossa originalidade nacional.. com sede em Recife.. Será preciso que temos um ideal? Ele se apóia no mais decidido nacionalismo.” • A Revista “(. (. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo.. intenta submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo.” • Verde — Amarelismo O grupo verde — amarelista também faria publicar um manifesto no jornal Correio Paulistano. afirmava: “O grupo ‘verdamarelo’. Nosso nacionalismo é ‘verdamarelo’ e tupi. cuja condição é a cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo. intitulado “Nhengaçu Verde — Amarelo —Manifesto do Verde — Amarelismo ou da Escola da Anta’. de que alguns já desconfiavam. Esse fato. da própria determinação instintiva. . Entretanto. Assim é que o Centro Regionalista do Nordeste. não sabemos de palavra mais nobre que esta: política.. Esse qualificativo foi corrompido pela interpretação viciosa a que nos obrigou o exercício desenfreado da politicagem. do alto de um atelier da Place Clichy —umbigo do mundo -‘ descobriu. que não pratica a xenofobia nem o chauvinismo.• Manifesto da Poesia Pau-Brasil “Oswald de Andrade. A confissão desse nacionalismo constitui o maior orgulho da nossa geração. finalmente. a alma da nossa gente. a sua própria terra.. lança o Manifesto 68 . como o fez. através de todas as expressões históricas. cuja é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder. através de quatro séculos. que. deslumbrado. no encantamento das descobertas manuelinas. Estava criada a poesia “pau —brasil’. numa viagem a Paris.) Somos. A volta à pátria confirmou. pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil. longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa.. inexplorado e misterioso.o grupo ‘verdamarelo’. edição de 17 de maio de 1929. e que.

Em 1945. daí nascendo a idéia e o nome do movimento. na poesia. da criação da ONU e no plano nacional. em que procura “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste” dentro dos novos valores modernistas. José Lins do Rego. o avanço do nazifascismo e a lI Guerra Mundial. no Estado Novo. com nomes que vão de Graciliano Ramos. no romance. “que come”). O Segundo Momento Modernista: Poesia Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922. segundo os antropófagos). da derrubada de Getúlio. Assim a par das pesquisas estéticas. a João Cabral de Meio Neto. abre-se um novo período na história literária do Brasil. O regionalismo nordestino resultou em brilhantes obras literárias. O movimento antropofágico como uma nova etapa do nacionalismo Pau — Brasil e como resposta ao grupo verde — amarelista. e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. ano do fim da guerra. vive-se depressão econômica.Regionalista de 1926. A Segunda apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo — foram 16 números publicados semanalmente. Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador. no plano interno. de março a agosto de 1929. incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao “estar — no mundo”. José Américo de Almeida. o Centro editaria uma revista. Período extremamente rico tanto em termos de produção quanto de prosa. Apresenta como proposta “trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos: sociais. que criara a Escola da Anta. a Segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. das explosões atômicas. econômico e culturais”. ‘homem”. publicados entre os meses de maio de 1928 e fevereiro de 1929. congressos. a partir da década de 1930. A tela impressionou profundamente Oswald e Raul Bopp. • Revista de Antropofagia A Revista de Antropofagia teve duas fases (ou “dentições”. o universo temático se amplia. Vale lembrar que. poru. exposições de arte. que a batizaram com o nome de Abaporu (oba. Além de promover conferências. sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e a gerência de Raul Bopp. Em janeiro de 1928. 69 . reflete um conturbado momento histórico: no plano internacional. Tarsilia do Amaral pintou uma tela para presentear seu então marido Oswald de Andrade pela passagem de seu aniversário. Rachei de Queiroz e Jorge Amado. A primeira contou com 10 números.

seguiu a trilha aberta por Oswald. é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a questionar a realidade com mais vigor e. 70 .Características A poesia da Segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento da geração de 1922: é possível perceber a influência exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a realização da Semana. A vida parou Ou foi o automóvel?" Entretanto. ALGUMA POESIA (1930). mesmo com a conseqüência da fragilidade do “eu”. com poesias escritas entre 1935 e 1940: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo” Mais adiante. de Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase. meu coração não é maior que o mundo. de aprofundamento das relações entre o “eu” e o mundo. como ilustra o poema “Festa familiar”: "Em outubro de 1930 Nós fizemos . a Mário de Andrade. declara: “Não. de Jorge de Lima. Observando três momentos de Carlos Drummond de Andrade em seu livro Sentimento do mundo (o título é significativo). de compromissos.que animação! Um pic-nic com carabinas. Murilo Mendes. Lembramos." Formalmente. a propósito. repensando nossa história com muito humor e ironia. de Drummond: "Stop. É um tempo de definições. com seu livro História do Brasil. fato extremamente importante: o artista passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua “tentativa e de interpretar o estar — no — mundo”. cultivando o verso livre e a poesia sintética. que Carlos Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia. daí também de uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo caso de Cecilia Meireles. que não quer e não pode se afastar das profundas transformações ocorridas nesse período. de que é exemplo o poema “Cota zero”. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada. em verdadeira profissão de fé. os novos poetas continuam a pesquisar estéticas iniciadas na década anterior.

me exponho cruamente nas livrarias: Preciso de todos. Por isso me grito. Desloco as consciências.E muito menor. nas almas. Já em seu livro de estréia — Poemas (1930) — apresentava novas formas de expressão. Não desprezo nada que tenha visto. Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando. Destelho as casas penduradas na terra. Por isso freqüento os jornais. as soluções coletivas: “O presente é tão grande. sem perder contato com a realidade social: o próprio poeta afirma que o social não se opõe ao religioso. versos vivíssimos e livre associação de imagens e conceitos. Toco nas flores. quer no campo artístico — Murilo Mendes foi o poeta modernista brasileiro que mais se identificou com o Surrealismo europeu. vamos de mãos dadas.” Produção Literária Murilo Mendes Sua trajetória no Modernismo brasileiro é curiosa: das sátiras e poemas — piadas ao estilo oswaldino. Todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. Nele não cabem as minhas dores. quer no campo econômico e político — a guerra foi tema de vários de seus poemas -. nos movimentos.” Essa consciência de ter “apenas” duas mãos e de o mundo ser tão grande. Por isso gosto tanto de me contar. 71 . abre como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis a união. Essa convicção lhe permite acompanhar todas as transformações vividas pelo século XX. não nos afastemos. caminha para uma poesia religiosa. Não nos afastemos muito. características presentes em toda a sua poética: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo. longe de significar derrotismo. ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. nos sons. Por isso me dispo.

da criatividade e do poder libertação do trabalho poético. apesar do dilema entre a Poesia e a Igreja. o finito e o infinito. Surge dai a consciência do caos. Sou o espírito que assiste à Criação E que bole em todas as almas que encontra. refletindo o mesmo histórico e apresentando as mesma preocupações dos poetas da década de 30. Jorge Amado e Érico Veríssimo. encontramos autores como José Lins do Rego. glorifico o soldado vencido. pronunciada em 1943. São significativos os títulos de suas obras: A poesia em pânico. tema constante em sua obra. A tarefa do poeta é tentar ordenar esse caos. Nada me fixa nos caminhos do mundo. Mundo enigma. de uma civilização decadente. Graciliano Ramos. Poesia liberdade. RacheI de Queiroz. que produzem uma literatura de caráter mais construtivo. destaca com muito vigor e emoção o encontro do escritor com seu povo. o poeta não abandona a temática social. O Período de 1930 a 1945 O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro.” (Cantiga de Malazarte’) A partir de Tempo e eternidade (1935). e ando nos quatros cantos da vida. os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social — verdadeiro documentos da realidade brasileira -. de um mundo esfacelado. escrito em parceria com Jorge de Lima. As metamorfoses. José Lins do Rego. longe como o diabo. O visionário. Murilo passa a cultivar a poesia religiosa. As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o conseqüente questionamento das tradicionais oligarquias. de “restauração da poesia em Cristo”. não posso amar ninguém porque sou o amor. Consolo o herói vagabundo. desarticulado. Múltiplo. mais maduro. aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora. utilizando-se para isso da lógica.a rua estala com os meus passos. na conferência “Tendência do Romance Brasileiro”. em que as relações “eu” / mundo atingiam elevado grau de tensão. uma vez que. o material e o espiritual. mística. tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigos. Sua obra ganha em densidade. uma das característica do moderno romance brasileiro: 72 . Assim é que.

espalhados nos mais distantes recantos de nossa terra. está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente. Nesses dois livros tentei fixar. acima de tudo. que andava perdido. o drama da economia cacaueira. que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926. toda a alma. Ele tinha todo o oiro. formam uma única história: a dos terras do cacau no sul da Bahia. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa. levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha. ou antes. personagem — narrador do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. sua importância deve-se mais à temática (a seca. 73 . Hoje. podemos dizer. Isto equivale a dizer que temos uma literatura. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso.“Nós. a conquista da terra pelos coronéis feudais no princípio do século. as constantes secas acirrando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima.” Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”. a passagem das terras para as mãos ávidas dos exportadores nos dias de ontem. todo o sangue para nos dar a verdadeira grandeza. Sem ele não haveria eternidade. a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste”. “Em verdade este romance e o anterior. não cabe culpa ao romancista. no Brasil. já podemos afirmar: o povo é em nossos dias herói de nossos livros. queremos. nos dera o roteiro. Sem o povo não haveria eternidade. o “regionalismo” ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira. com imparcialidade e paixão. Levamos uns anos para chegar ao povo. afirma Paulo Honório. E se o drama da conquista feudal é épico e da conquista imperialista é apenas mesquinho. devorados pelas modernas usinas — ponto fundamental dos romances de José de Lins do Rego -. a fome. Terras do sem —fim. os retirantes. foi A bagaceira. Jorge Amado assim se manifesta no prefácio ao romance São Jorge dos Ilhéus. o intenso movimento migratório. O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino. de José Américo de Almeida. o poder político nas mãos de interventores. o engenho) e ao caráter social do que a seus valores estéticos. decadência dos bangues e engenhos. em 1850. a miséria. publicado em 1928. Verdadeiro marco na história literária do Brasil. O nosso romance tem um século. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista.” Poderíamos acrescentar ainda outros temas abordados por esses autores: nas regiões de cana. Justamente em 1854 publicava-se no Brasil o primeiro romance. nos encontrar com o povo. O mestre Manuel Antônio de Almeida. O segredo era chegar até o povo.

sua gente. é o próprio José Lins do Rego). que. passando a valorizar a análise psicológica. povoam o Santa Rosa o tio Juca. embora o primeiro superponha-se ao segundo. as secas são referências constantes em seus romances. destacam-se duas situações: primeira. cujo título refere-se à grande seca de 1915. o que resulta em uma narrativa dinâmica. como para Vicente. em decorrência da situação adversa. os moleques — filhos dos empregados — que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos filhos dos proprietárias — na ingênua igualdade da infância. em muitas passagens. José Lins do Rego José Lins do Rego apelou constantemente para as recordações da infância e da adolescência para compor seu ciclo da cana — de — açúcar série de romance de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos. o cenário é o engenho Santa Rosa . a relação afetiva entre Vicente. avô de Carlos de Meio (o narrador de Menino de engenho. a romancista abandona pouco a pouco o aspecto social. foi publicado em 1937. vivida pela escritora em sua infância. a seca e as conseqüências acarretadas tanto para o vaqueiro Chico Bento e sua família. Na narrativa. esmagados pelas poderosas usinas. Em Caminhos de pedras atinge o ponto máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social. Embora o romance denuncie as condições adversas em que vive o nordestino. A partir de então. Além deles. Chegou tão alvo. sem dúvida O Quinze.Produção Literária Rachel de Queiroz A obra de Rachei de Queiroz é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernista: o Ceará. escritos numa linguagem fluente e de diálogo fáceis. Em seus primeiros romances — O Quinze e João Miguel — os aspectos social e psicológico coexistem. no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. apesar dos preconceitos dos adultos: Voc6e está um negro. me disse Tia Maria. moça culta da capital. e nem parece gente branca. Isto 74 . e Conceição. grande proprietário e criador de gado: em outro plano. diretriz que pode ser percebida no romance As três Marias. moço mas rude. O romance mais popular de Rachei de Queiroz é. é interessante notar que não apresenta a má distribuição das terras como o problema maior do Nordestino: grandes proprietárias e pobres trabalhadores são pintados com as mesmas cores: são ambos heróicos e igualmente batidos pelo inimigo comum — a seca. sua terra. Em todo o ciclo. do velho coronel Zé Paulino. mais político.

Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Pode ser que se pareçam. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. A história desses livros é bem simples: .” Esses titulas foram lançados entre 1932 e 1936. Além do ciclo da cana. você não. os chamados ‘moleques de bagaceira’. estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. Carlinhos foge.faz mal. foram tão íntimos na infância.” O próprio José do Rego. Carlos de Meio havia crescido. Pelo contrário. no Pilar. Os meninos de Emilia já estão acostumados. 75 . Entretanto. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. há mais de um mês que está de cama. O filho do seu Fausto. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Meio. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. solto como um bicho. Bangue. os Ricardos. De manhã à noite. após o Menino de engenho. em 1943. Ricardo e Santa Rosa se acabam. com ferramentas enormes. com máquinas de fábrica. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Depois de Moleque Ricardo veio Usina. de pés no chão.Comecei querendo apenas escrever umas Memórias que fossem as de todos os meninos Criados nas casas — grandes dos engenhos nordestinos. José do Rego abordou outros aspectos típicos da vida nordestina. Viveram tão juntos um do outro. sofrido e fracassado. têm o mesmo destino. Você é um menino bonzinho. ponto máximo de sua obra. Ricardo morre pelo seus e o Santa Rosa perde até o nome. Doidinho. Para a semana vou começar a lhe ensinar as letras. não vá atrás destes moleques para toda parte. espatifado. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. pinta um excelente painel desse ciclo em toda a sua evolução: “Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de ‘ciclo da cana-de-açúcar’. no prefácio ao romance Usina. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Meio. Seu avô ontem me falou nisto. As febres estão dando por aí. José Lins publicaria um romance que é considerado síntese de todo o ciclo Fogo morto. e em seguida. se escraviza. porém. Veio. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. Sucede. Carlos de Meio. Uma grande melancolia os envolve de sombras.

A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caet é até Vidas secas. Pensemos um pouco nessa curiosa “família”: dois humanos adultos. morrera na areia do rio. aqueles que só têm uma coisa a defender — a vida: “Ainda na véspera eram seis viventes.como o misticismo e o cangaço. um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas secas. outro nome próprio. capaz de moldar personalidade e de transfigurar o que os homens têm de bom. a lei maior é a da selva. é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem x meio natural. tinham o que contar. homem x meio social. presentes em Pedra Bonita e Cangaceiros. misticismo e seca”. a cabeça os ossos do amigo.. contando com o papagaio. como no inicio de Vidas secas. em nome da sobrevivência dos demais. Nesse contexto violento. Assim. Baleia jantara os pés. porque tinham o que dizer. identificados pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (ales não têm sobrenome). e não guardava lembrança disto. identificados como “o mais velho” e “o mais novo”. é o final trágico e irreversível. tensão essa geradora de um conflito intenso. “desligados da cana — de — açúcar e do cangaço. devorado canibalisticamente. à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais — doente.) Os cegos cantadores. como afirma o próprio autor: “(. a morte é uma constante. num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção 76 . Em conseqüência. Em seus romances.” Água-mãe e Eurídice são os únicos romances de José Lins ambientados fora do Nordeste e. e dois bichos — o papagaio e a cachorra Baleia -‘um identificado pela espécie. com ajeito e as maneiras simples dos cegos poetas. Graciliano Ramos Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. nas palavras do próprio autor. tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória. Coitado. dois humanos infantis sem nome. ela atrapalha a caminhada da família.. Dizia-lhe então: quando imagino meus romances. nesses casos. decorrente de relacionamento impraticáveis. ou ainda. onde haviam descansado. amados e ouvidos pelo povo. A provável fonte temática. Além disso. a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. bem como a oralidade da narrativa. teria sido a literatura de cordel. Portanto. viventes. encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo. O papagaio é sacrificado.” As condições sub-humanas nivelam animais e pessoas.

não há nada a fazer a não ser aceitar a força do “inevitável”. atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia. tudo se torna inútil. b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas). A obra é universal se consideramos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito... em que o autor se coloca como problema e como caso humano. a cidade. intenções. moldados pelo meio — Luis da Silvam. são projeções deste impulso fundamental. em brilhante tese sobre o autor. o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos. afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e. e que tanto os personagens criados quanto. pela cidade. ele próprio. O critico Antônio Cândido divide a obra de Graciliano em três categorias: a) Romance narrados em primeira pessoa (Caet é. E dentro das estruturas vigentes. Paulo Honório e Fabiano. que constitui a unidade profunda dos seus livros. segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejem. há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem. principalmente. mas o que as circunstâncias impõem. desejos e esforços. ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico. Graciliano Ramos é autor de enredos que envolvem a seca. nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana. o latifúndio. c) Autobiografias (Infância e Memórias do Cárcere). dentro da posição pessimista e negativista do autor. gestos. a caatinga. o drama dos retirantes. E o crítico conclui: “(. São Bernardo e Angústia). )no ângulo da sua arte. segundo uma visão distanciada da real idade.” O Romance da Geração de 30 A única salda seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório e sua ambição. estes últimos símbolo da 77 .à realidade. ao lado do retrato e da análise social. Dai Rolando Morei Pinto. nelas transparece uma irresistível necessidade de depor. Seus personagens são seres oprimidos. quando a convivência homem! meio social torna-se impossível. no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência. entretanto. na palavra inútil: “Parece que. em seguida. o qual. pelo sertão.

espiou os quatro cantos. sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Anda. através deles. Sua grande preocupação foi fixar tipos marginalizados para. mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco. Não obtendo resultado. Trabalha a narração com a mesma mestria. depois sossegou. Os juazeiros aproximaram-se. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. seja como escritor. a viagem progredira bem três léguas. Jorge Amado nunca fez segredo de suas posições políticas. Seus romances. analisar toda uma sociedade. Em seus textos enxutos. como 78 . condenado do diabo. Fabiano ainda deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Do ponto de vista formal. A folhagem dos juazeiros apareceu longe.ditadura Vargas. Acerca deste último aspecto. Mudança (Fragmentos da Vidas secas) Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. recuaram-se. Fazia horas que procuravam uma sombra. praguejando baixo. Como isto não acontecesse. estavam cansados e famintos. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. a espingarda de pederneira no ombro. seja como homem público. sentou-se no chão. Jorge Amado Jorge Amado representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador. Fabiano sombrio. são marcados pelo lirismo e pela postura ideológica. cambaio. fechou os olhos. através dos galhos pelados da caatinga rala. a criação atinge seu clímax: não há uma palavra a mais ou a menos. Mas o pequeno esperneou acuado. gritou-lhe o pai. a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão. fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Ordinariamente andavam pouco. O menino mais velho pôs-se a chorar. deito-se. e não só dedicou alguns livros a Luís Carlos Prestes. Graciliano Ramos talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. devagar. o aió a tiracolo. o Cavaleiro da Esperança. Arrastaram-se para lá. vazados numa linguagem que retrata o falar do povo — o que lhe tem valido críticas dos mais puristas -. tanto em primeira como em terceira pessoa. zangado.

se há uma palavra — chave que perpassa toda a obra de Jorge Amado. Terras do sem — fim e São Jorge dos Ilhéus pertencem a esse ciclo. com forte coloração social. a exploração do trabalhador rural e os exportadores — a nova força econômica da região. revolucionário. posições mais amenas em seus romances posteriores à década de 50. o que vai evidenciar seu maior defeito: a superficialidade. O país do Carnaval e Capitães de areia. caracterizado por um certo humorismo extraído do cotidiano. De Seara vermelho. Evidentemente. o autor tem sido acusado de ser redundante. apesar de apresentar a zona cacaueira como cenário. embora negada pelo autor em suas entrevistas. ao passo que o último é mais lírico. Entretanto. o que levou o crítico Wilson Martins a reconhecer um ciclo de Clarissa. estendendo-se às últimas produções do autor. a crise da sociedade moderna. o cotidiano caótico. há uma distância clara e evidente. Caminhos e Olhai os Lhos do campo —retrata a vida urbana da provinciana Porto Alegre. cravo e canela (que.escreveu uma biografia do líder comunista brasileiro. Esse fato tem levado as críticos a compartimentar sua obra em: a) romances proletários — retratam a vida urbana em Salvador. como é o caso de Suor. passando por Música ao longo. reaparecem em várias situações e em Vários momentos. é uma crônica de costumes). c) Depoimentos Líricos e crônicos de costumes — essa fase. se consolidaria com Gabriela. tanto na abordagem psicológica como na social. para Dona Flor e seus dois maridos. citaríamos a pequena obra — prima que é a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’água Érico Veríssimo E rico Veríssimo é o representante gaúcho do regionalismo modernista. Como exemplo maior. O primeiro é mais político. Finalmente. Parte de seus romances — desde Clarissa até Saga. tanto no plano individual como no plano social. cuja nota marcante é a falta de solidariedade. Cacau. por exemplo. Seus personagens. iniciada com Jubiab áe Mar morto. essa divisão encerra apenas uma finalidade didática. b) Ciclo do cacau — seus temas são as fazendas de cacau de Ilhéus e ltabuna. no entanto. Podemos notar. Como seu eixo se repete ao longo de vários romances. com destaque para Clarissa e Vasco. essa palavra é liberdade. verdadeiro hino dessa procura de liberdade em todos os níveis. O próprio autor afirma “A luta do cacau tornou-me um romancista”. esses 79 .

afirma. A nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. O prisioneiro e Incidente em Antares. sem exceção. período marcado pela hostilidade e permanente tensão política entre as grandes potências mundiais. O retrato. Fim da ditadura de Getúlio Vargas. que cobre o período histórico de século XVIII até 1895. que chega até o governo Vargas. a partir de 1945 ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às inovações dos modernistas de 1922. 11. que enfoca as primeiras décadas do século XX.O arquipélago. 1945. em termos de aceitação pública. O tempo e o vento aparece dividido em O continente. lançado na primavera de 1947. outras. À última fase da produção de Veríssimo. que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX e aborda as disputas de terra e poder pelas famílias Amaral. segue o caminho já trilhado por alguns autores da década de 30. encarrega-se da seleção. Desse painel saltam alguns personagens heróicos. de sondagem psicológica. O tempo. em busca de uma literatura intimista. Ao mesmo tempo o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja. e 80 . Mais tarde. inicia-se um novo tempo de perseguições políticas. como destaque para Clarice Lispector. é publicado a Declaração dos Direitos do Homem. e 1. penetrando fundo na psicologia do Brasil Central. um retrocesso. pertencem os romances O senhor embaixador. introspectiva. como Ana Terra e o Capitão Rodrigo. início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. Entre suas obras inclui-se ainda a trilogia épica O tempo e a vento. surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e. Terra e Cambará. os candidatos apresentam-se os partidos são legalizados. com as lutas do início da República. A literatura brasileira também passa por profundas alterações. A prosa.O Pós-Modernismo 1945. tem início a Guerra Fria. Na poesia. a Jorge Amado. narrativa mais contemporânea. convocam-se eleições gerais. excelente crítico literário. A crença numa paz duradoura manifesta-se na criação da Organização das Nações Unidas (ONU). exílios. Logo depois. entre outras coisas: “Uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam. Logo depois. ilegalidades. fim da Guerra Mundial. tanto nos romances como nos contos. cujo primeiro número. início da redemocratização brasileira.primeiros romances são responsáveis pela popularidade alcançada pelo autor. igualando-o. mais dedicada aos temas da atualidade.

Esse grupo. A preocupação primordial é o “restabelecimento da forma artística e bela”. Com isso. devem ser citados ainda Ferreira GuIIar e Mauro Mota. Contemporâneo a ele e apresentado alguns pontos de contatos com sua obra. Geir Campos e Darcy Damasceno. A princípio. as palavras ‘molhar’ e ‘poço’ descongelam-se. Péricles Eugênio da Silva Ramos. entre outros poetas. e não apenas com uma admirável vocação acústica. podemos perceber em passagens como: “Joãozinho Bem — Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa. Produção Literária Guimarães Rosa Publicando seu primeiro livro — Sagarana — em 1946. e ele nesse ponto era bem — assistido. as ironias. sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos. a universalização do regional. por Lêdo Ivo. os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para o regionalismo. e perturbam como um reachado todavia surpreendente. por exemplo. na recriação das palavras. suas expressões. o final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura. mas sim nos neologismo. os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”. Mas TeófiIo Sussuarana era bronco excessivamente bronco. a seguir.” O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcaísmos. um ano após a queda de Getúlio Vargas e início das produções da chamada Geração de 45. como afirma o crítico português Oscar Lopes: “As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. negando a liberdade formal. os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolista. as palavras recriadas ganham força e significado novos.só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela” Assim é que. Passada a primeira fase do Modernismo e já vivida a experiência da prosa regionalista da década de 30. não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências anteriores: João Cabral de Meio Neto. as sátiras e outras “brincadeiras’ modernistas. chamado de Geração de 45. que é bom ressoador’. libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente. percebe-se uma revalorização da linguagem. Entretanto. é formado. e caminhou para 81 . que ‘o sabiá veio molhar o pio no paço. diante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A gente lê. suas particularidades. Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura brasileira. sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas.

e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos. rola e trola.... saudade dos campos. e o berro queixoso do gado junqueira. mal percebido. ‘Todo passarinh’ do mato tem seu pio deferente. e que os cavalos gingam bovinamente. estralos de guampas.. Na sua voz: -Êpa Nomopadrofilhospritossantamêin Avança.” (A hora e a vez de Augusto Matraga) Ainda para salientar a poesia.. ‘Um boi preto. booôi!.. cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto. . escurecidas à fumaça dois tiros.. cambada de filhos — da — mãe. o ritmo e sonoridade de sua linguagem. com atritos de couros. e as vagas de dorsos... E. mugindo no meio. Devagar. em que o autor narra a caminhada da boiada. só está quase pronta a boiada quando as alimárias se aglutinam em bicho inteiro — centopéia -. Eh. E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas. cada um tem sua cor. Cantiga de amor doido Não carece ter rompante. batendo com as caudas. Cada coração um jeito De mostrar o seu amor. Vai. Que de trinta.. sem — querer e imitativo. com os cabras saltando e miando de maracajás. Boi bem bravo. vem. 82 . fasta vento. pronta de todo está ela ficando. chifres no ar. vai varando.. bate baixo. dá direito. de chifres imensos. -Tchou!. transcrevemos um trecho de conto “O burrinho pedrês”. mexe lama.. volta. dá de duro. Observe como Rosa reproduz a sonoridade da marcha da boiada por meio de aliterações: “As ancas balançam. na massa embolada. intercalando quadrinhas populares cantadas pelo vaqueiros. mesmo prestes assim para surpresas más.de — mundo!.” Pouco a pouco porém. os rostos se desempanam e os homens tomam gesto de repousa nas selas. pela estrada.Ô gostosura de fim ... bota baba. boi berrando.cima de Nhô Augusto.. vai não volta. com muita tristeza. das vacas e touros.. querência dos pastos de lá do sertão. estrondos e baques. dá de dentro. um boi pintado. vão sugados todos pelo rebanho trovejante — pata a pata. vem na vara.. cabisbaixo. que chegou minha vez!.. casco a casco.Tchou!. agora. trezentos ou três mil. soca soca. satisfeitos.

assim explicava a autora seu ato de escrever. O sertão está em toda a parte.. pelo pavor. melhor ainda. que na beira dele.‘o diabo? Ou era ele a “ponte entre o sub e o sobre”. “Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”. pequeno e próximo. resultando dai o chamado romance introspectivo. logo na abertura de Grande sertão: veredas. arredado do arrocho de autoridade. e onde criminosos vive seu cristo — jesus. está sugerido na última das interrogações de Drummond em seu poema — homenagem: ‘Tinha parte com. Nesse eterno questionar a obra da romancista apresenta uma certa ambigüidade. fim de rumo.” Clarice Lispector Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira. na obra de Guimarães Rosa. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. outro aspecto relevante da obra de Guimarães Rosa. almargem de vargem de bom render. tudo dá — fazendões de fazendas. Para os de Corinto e do Curvelo. madeiras de grossura. demais do Urucúia.H. Esses gerais são sem tamanho. como um navio. de outra forma. as vazantes. para que ele não “forme forma”. O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser. em que há até mesmo a preocupação de não invocar e demo.ser. já notado. cada um o que quer aprovar o senhor sabe: pão ou pães. eles dizem. até ainda virgens dessas lá há. Significativa é a epígrafe do romance A paixão segundo G.. sem topar com casa de morador. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos — gerais a fora dentro. Enfim. baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo. culturas que vão de mata em mata.A boiada vai. O Urucúia vem dos montões oestes. Por isso.” (João Guimarães Rosa) O misticismo. dividido entre os que lutam “de antes do princípio”. Mas hoje.” 83 . o” estar —no — mundo”. o Bem e o Mal? Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão. daí o diabo ser tratado por” o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões semelhantes. “Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não — eu que não haverá mais um eu para morrer. uma religiosidade quase medieval. então. Deus e o diabo. isto é o sertão... Toleima. O gerais corre em volta. . onde um pode torar dez. a pesquisa do ser humano. Assim o sertão de Rosa: ora particular. quinze léguas. “o sertão é dentro da gente”. o autor nos situa diante do problema: “O senhor tolere. entre o ser e o não . terras altas. é questão de opiniões. o aqui não é dito sertão? Ah. um jogo de antíteses entre o” eu” e o” não eu”. ora universal e infinito. pois” o sertão é o mundo “ou.

” Essa literatura introspectiva. o drama de Macabéa . em alguns casos. apresentadas a seguir. e sua cidade. pobre moça alagoana engolida pela cidade grande. duelando com as palavras e os fatos. também se percebe em Clarice Lispector uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova. solitário e inconseqüente. afirma o poeta. A Arte e suas várias manifestações : a pintura de Miró. João Cabral de Meio Neto A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e. São objeto de verificação e análise os mocambos. A própria dance escreveu: “Mas já que se há de escrever. que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. a literatura de Paul Valéry. de modo muito particular. O crítico Eduardo Portella chegou a questionar se A hora da estrela não estaria revelando uma nova Clarice Lispector. a herança medieval e os engenhos. onde me considero um sevilhano.” Ainda segundo a autora: “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. intimista. Clarice Lispector trilha outros caminhos ao produzir um texto que apresenta dois eixos. trabalhando metáforas e aliterações. em A hora da estrela. de Picasso e do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu. que 84 . busca fixar-se na crise do próprio indivíduo. em sua consciência e inconsciência. há que “sevilhizar” o mundo “. No nível temático. seu folclore. personificado. O melhor ainda não foi escrito. uma profunda e angustiada reflexão sobre o ato de escrever. explorando os limites do significado. Manifesta. uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e. Não há que civilizar o mundo. Cesário Verde. pela tendência ao surrealismo. Pernambuco. O Nordeste com sua gente: os retirantes. inclusive. ao mesmo tempo. os cemitérios e o aparece. “exterior e explícita”. por mais de uma vez. No entanto. em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. “Sou um regionalista também na Espanha. para adquirir o sentido incômodo de uma provocação em aberto. podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações.No plano da linguagem. o Recife. suas tradições. mas sim nas entrelinhas. A Espanha e sua paisagens. rio Capibaribe. seu estado natal. Augusto dos Anjos. e o drama do narrador. O melhor está nas entrelinhas. para concluir que “a moça alagoana é um substantivo coletivo” por personificar um drama em que ela deixa de ser o transeunte anônimo.

da água do corpo de água. flor não de todo flor. mas flor. o poeta repensa sua poesia: “Poesia. o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia. ou seja. aprofundando assim a temática social. o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez engajada. que recolhe os detritos do Recife: “Aquele rio era como um cão sem plumas. Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos anos 30. da fonte cor — de — rosa. extinta de flor. gerando cogumelos meio) no úmido Delicado. calor de nossa boca. dos peixes de água. 85 . Um aspecto fundamental na obra de João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia seguindo um caminho já trilhado por Drummond. frágeis. no ar. te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. a própria arte poética. Nada sabia da chuva azul. bolha aberta no maduro). Delicado.Graciliano Ramos e Drummond. da água de cântaro. (fezes como qualquer. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. É o caso de O cão sem plumas. da brisa na água. o próprio rio Capibaribe. como as brisas. raros. Suas intestinações. espécie Esperava as puras. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda). coou. Sabia da lama como de uma mucosa. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. seu ovário.” A partir de 1050. evitava seu caule. transparentes florações nascidas do ar.o estrume do poema.

do século XIX. as décadas de 1950 e 1960 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas por inovação formal. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. Como no caso anterior o movimento de renovação que houve neste século na literatura brasileira — o Movimento Modernista de 22 -. o “poema — produto: objeto útil”. do grande público a obra de João Cabral de MeIo Neto. 12— Vanguarda Poética Contemporânea Introdução Acompanhado o progresso de uma civilização tecnológica e respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz. principalmente.” Entre os precursores dessa tendência são citados Oswald de Andrade (que produziu poemas radicais. também a POESIA CONCRETA se constitui em São Paulo. quando do lançamento da revista — livro Noigandres (foram publicados cinco números de antologias sob essa denominação). maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional. Entretanto. pela primeira vez. ganhou inúmeros prémios e aproximou. realizada no Museu de Arte Modera de São Paulo. 86 . na sua criação. herdado.e personagem — de outro poema: “O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. os três poetas que iniciaram as experiências concretistas — Décio Pignatari. A poesia concreta A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956. a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano).” O rio Capibaribe voltaria a ser tema. O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras. rompendo com “ o vício retórico nacional”. original. Haroldo de Campos e Augusto de Campos — já se encontravam agrupados desde 1952. a participação direta. Procurava-se assim. com a Exposição Nacional de Arte Concreta. de poetas brasileiros. Entretanto. Os irmãos Campos afirmam que: “A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve. musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60.Devia saber dos polvos.

dando importância tanto aos elementos visuais como aos sonoros.. carga semântica). o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página.) a abolição da tirania do verso e a proposta de uma nova sintaxe estrutural. não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensação mais ou menos subjetivas.) uma ordenação não — linear do poema. forma visual.. documento — programa do movimento. o poema constitui-se num desafio e o leitor transforma-se em co-autor. com valorização integral do branco da página e uma possibilidade aberta de leitura múltipla. apenas dispersado (.. estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura — conteúdo. seu material: a palavra (som. a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. o visual. economia e arquitetura funcional do verso”). 87 . exigindo dele uma participação ativa. minutos de poesia”) e João de Meio Neto (“linguagem direta.)“ Um dos traços mais importante da modernidade da poesia concreta é aquele que procura mexer com o leitor. os caracteres tipográficos e sua disposição no papel assumam relevo. publicado em 1958: • poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico — formal). que correspondia a uma crise geral do artesanato diante da revolução industrial. a seguir passagens do Plano — piloto para poesia concreta. embora se mantenha ainda o discurso e mesmo o verso.segundo os concretistas. assim explicam os irmãos Campos: “(.. uma vez que o poema concreto permite uma leitura múltipla.. Os concretistas perceberam uma “crise do verso”. em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico.” Apresentamos. Sobre isso.. Daí defenderem “(. Dessa forma. na qual o branco da página. a carga semântica. • • • poesia concreta: tensão de palavras — coisas no espaço — tempo. Partindo da assertiva de que o verso tradicional já havia encerrado seu ciclo histórico a poesia concreta propõe o poema — objeto. Oswald de Andrade escrevia “em comprimidos. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo.

o poema — produto: objeto útil. de Mauro Gama. caracterizando-se pela “periodicidade e repetição das palavras. Haroldo de Campos Além de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. Décio Pignatari. Ferreira Gullar. Alguns poetas que cultivam o tradicional verso discursivo produziram ocasionais experiências concretistas.• poesia concreta: uma responsabilidade integral perante a linguagem. subjetiva e hedonística. Partindo do princípio de que a “palavra é uma célula do discurso”. por exemplo. José Paulo Paes e Cassiano Ricardo. como Manuel Bandeira. que. conta uma poesia de expressão. o texto “Crime 3”. realismo total. só em 1961 lançaria seu Manifesto Didático. no final doa anos 50 surge uma nova tendência de vanguarda: a poesia — práxis. Ronaldo Azeredo. Edgar Braga e Pedro Xisto. o texto — práxis valoriza a palavra dentro de um contexto extralingüistico. A poesia — práxis Em conseqüência de uma dissidência no grupo concretista. Augusto de Campos. no entanto. assinado por seu principal poeta: Mário Chamie. integram a corrente concretista José Lino Grüinewald. incluído no livro Anticorpo: “Fuma fuma tabaque bate: que pança? Dança curtido corpo de charque charco em corruto beiço tensão charuto e seu sangue soca seu peito soca e eis que ao lado o outro caboclo bate: disputa um ataque à bronca (ou em bloco) de ronco e lata. Leia-se. conforme sua posição no texto. E na mão do primeiro o punhal se empunha ergue chispando e en pando desce: se crav 88 . cujo sentido e dicção mudam”.

na caixa de som (colchão murcho coração). neste capítulo. por uma rígida censura e enraizada autocensura. a sonoridade das palavras. as relações entre significado e significante continuam a desafiar tanto poetas consagrados quanto jovens talentos. ao completar oitenta anos (em dezembro de 1996). Armando Freitas Filho e Antônio Carlos Cabral. Mantendo a tradição da poesia discursiva. Manoel de Barros tornou-se o maior candidato a todos os prêmios literários com o seu recém — publicado Livro sobre nada.práxis os poetas Yone Gianetti Fonseca. O aproveitamento dos espaços em brancos na folha de papel e dos recursos gráficos. Adélia Prado. como já denota sua “autobiografia”: 89 . assistimos a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores. temos a permanência de nomes consagrados como João Cabral. o reconhecimento e a consagração vieram apenas ao longo das décadas de 80 e 90. ao lado de novos poetas que procuram aparar arestas em suas produções. Ferreira Gullar e José Paulo Paes. Produção contemporânea O que chamamos. só amenizados a partir de meados da décadas de 80. As condições adversas desse período não mergulham o país numa calmaria cultural. titulo muito adequado. Deve-se salientar ainda a importância da poesia marginal. Manoel de Barros: quando o nada é tudo Embora tenha publicado seu primeiro livro em 1937. Aliás. como veremos mais adiante.” Além de Mário Chamie e Mauro Gama. Poesia Na poesia. Verifica-se ainda a permanência da poesia concreta. Mário Quintana. Pelo contrário. filiam-se ao grupo da poesia. Manoel de Barros é semente. de produção contemporânea são obras e movimentos surgidos nas três últimas décadas e que refletem um momento histórico caracterizado pelo autoritarismo.cavo. quando se verificou uma progressiva normalização da vida democrática no país. flor e fruto do Pantanal mato-grossense. duas constantes: o aprofundamento da reflexão sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão. que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros. Dessa forma.

foi Rubem Fonseca. Manoel de Barros é um deles. O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse 90 . 3. bichos. em suas obras. Carlos Drummond de Andrade. coisa. espantando da cara as moscas mais brilhantes). uma de terminada visão de mundo. Manoel de Barros faz exercícios poéticos no sentido de “descoisificar” o mundo. Bernardo Élias. utilizando uma estrutura de romance policial e / ou histórico. Essas são algumas das palavras — chaves de uma obra que tenta reconstruir o mundo. um abridor de amanhecer. Trabalhado com maior ou menor intensidade.. Prosa No romance. Passei a vida fazendo coisas inúteis. as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas — a crónica e o conto. 1. em algum banco de praça. outros não se contentam com isso e vão além: tentam reconstruir o mundo. Alguns poetas passam. Márcio de Souza. “coisificou” o mundo industrial em plena Guerra Fria. O nada mesmo. em uma fase de sua produção. nada. etc. Por isso mesmo.” Inúteis. tudo que use abandono por dento e por fora”. etc.“Não sou biografável. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. vamos abrindo horizontes de uma insuspeitada nova ordem natural. como é o caso de João Ubaldo Ribeiro. Aguardo um recolhimento de conchas. Ou. Mas quem roubou a cena nos últimos anos. buscando uma nova forma de organizá-lo. o regionalismo continua um filão muito rico produtivo na pena consagrada de Mário de Palmério. o parafuso de veludo. como afirma o editor Ênio Silveira. (E que seja sem dor. “guiados por ele. pessoa apropriada para pedras. Roberto Drummond e Ana Miranda. que respeite a leitura daqueles que só têm “entidade casal”. Fazer coisas desúteis. talvez seja. Antônio Callado. o poeta afirma que “o nada de meu livro é nada mesmo. José Montello e José Cândido de Carvalho. onde as verdades essenciais. No texto que abre o Livro sobre nada. Ainda na prosa. Em três linhas. escondidas sob a ostensiva banalidade do óbvio e do cotidiano” vão se revelando em imagens surrealistas descritas com absoluta concisão. também tem servido como pano de fundo a alguns escritores que se consagraram recentemente. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio. Nasci na beira do rio Cuiabá 2.

que hei delinqüido. linha de frente de primeiríssimo time. Arrependido a tanta enormidade. Nélida Piñon e Rubem Fonseca. João António. Menção especial merece Sérgio Porto. meu Senhor. analisado no conjunto das produções contemporâneas. Jesus. Luis Fernando Veríssimo. hoje. o seu mais recente livro de contos: O buraco na parede. Luz. Tarefas Analise os textos a seguir. Lígia Fagundes Telles. Vaidade. A salvação pretendo em tais braços. que claro me mostra a salvação. o Stanislaw Ponte Preta. tem servido de mestre a muitos cronistas.Gregório de Matos Ofendi-vos. Luís Vilela. a partir do conhecimento adquirido sobre os estilos de época aos quais pertencem. Por outro lado. meu Deus. entre outros. com suas bem — humoradas e cortantes sátiras políticas — sociais. ofendido vos tem minha maldade. Lourenço Diaféria. retrata personagens que vivem “alguns degraus abaixo do Brasil oficial”. coletânea de oito histórias que. e ofendido. Texto I Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado . escritas na década de 60. Perdas irreparáveis nos últimos anos: os cronistas Carlos Drummond de Andrade. De coração vos busco. que me rendem vossa luz. é bem verdade. não há grande jornal ou revista de circulação nacional que não inclua em suas páginas crónicas de Fernando Sabino. Misericórdia. Abraços. amor. dai-me abraços. delinqüido vos tenho. em 1995.. Otto Lara Resende. Maldade. que todo me há vencido. Luís Fernando Veríssimo ou RacheI de Queiroz. Paulo Mendes Campos. Arrependido estou de coração. Este último lançou. que. que encaminha a vaidade. Entre os contista mais significativo. situa-se em posição privilegiada tanto em quantidade como em qualidade. Verdade é. Vencido quero ver-me e arrependido. explorando técnicas modernas de narrativa. citam-se Dalton Trevisan. que deixou de habitar as páginas de nossos jornais. António Callado.gênero na imprensa. o conto. Jesus! 91 . Domingos Pellegrini Jr. Moacyr Scliar Rawet. Rubem Braga.

Sem que volte para lá Sem que desfrute dos primores Que não encontro por cá. com que a noite escura. Tinha escondido a chama brilhadora. que sonora. Em cismar. Não gorgeiam como lá. à noite. Nise Adorada. Sufocando o sol a face pura. Nosso céu tem mais estrelas. Quanto a sombra da noite mais lhe agrada. As aves que aqui gorjeiam. que suave. Tanto mais aborrece a luz do dia.Cláudio Manoel da Costa Já rompe. E a suavidade do prazer trocada. à noite mais prazer encontro eu lá. Nise. Em cismar. Minha terra tem primores. Onde canta o Sabiá. a matutina Aurora O negro manto. Sem qu’inda aviste as palmeiras. Texto IV Se Eu Morresse Amanhã! – Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã.Texto II Soneto . Minha terra tem palmeiras. Onde canta o Sabiá. sozinho. Que tais não encontro eu cá. viria ao menos 92 . Minha terra tem palmeiras. Mais prazer encontro eu lá. Aque alegre. Texto III Canção do Exílio – Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras. Não sabe ainda que coisa é alegria. Aquela fontezinha aqui murmura! E nestes campos cheios de verdura Que avultado o prazer tanto melhora? Só minha alma em fatal melancolia. Onde canta o Sabiá Não permita Deus que eu morra. sozinho. Onde canta o Sabiá. Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida. Por te não poder ver. Nossa vida mais amores.

. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães. Presa nos elos de uma só cadeia. E após. Se o velho arqueja..” 93 ... Em sangue a se banhar.. geme e ri! No entanto. Ouvem-se gritos. Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar.. O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. se no chão resvala... mas nuas e espantadas. o dolorido afã.. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irónica. Cantando.. Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que dove n'alva Acorda a natureza mais loucã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória. moças... estridente.. No turbilhão de espectros arrastadas.. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. marinheiros! Fazei-os mais dançar!. outro enlouquece. Negras mulheres.. Outro. que de martírios embrutece. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Texto V Navio Negreiro (trecho) – Castro Alves Era um sonho dantesco.. o chicote estala. A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali! Um de raiva delira. Outras. fitando o céu que se desdobra Tão puro sobre o mar. estalar de açoite.. o capitão manda a manobra. E voam mais e mais. suspendendo às tetas Magras crianças. Tinir de ferros.Fechar meus olhos minha triste irmã..

era o veneno e era açúcar gostoso.E ri-se a orquestra irónica. Tu se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e. estridente. Vinda do Olimpo. do ouvido aproximando-a." – fragmento de O Cortiço. Texto VI "Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia. maldições. mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas. Qual num sonhos dantesco as sombras voam! Gritos.Cruz e Souza Ah! Toda a alma num cárcere anda presa. canora e doce.. olhando imensidades. Da Dor no calabouço. Depois. Ignota voz. uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. ais. entre as grades Do calabouço.. Toca-a. para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional. Já de aos deuses servir como cansada. era o aroma quente dos trevos e das baunilhas.. sonhando.. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. preces ressoam E ri-se Satanás!. Soluçando nas trevas. ela era a cobra verde e traiçoeira. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. funéreo! Texto VIII 94 . a um novo deus servia. a lagarta viscosa. que o atordoara nas matas brasileiras.. piscando-lhe as artérias. a muriçoca doida. uma nota daquela música feita de gemidos de prazer. de áureos relevos. Mas o lavor da taça admira. E da ronda fantástica a serpente Faz doidas espirais. era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju. tardes. de Aluísio Azevedo Texto VII Vaso Grego – Alberto Oliveira Esta. que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra. e. natureza. brilhante copa. atroz. trabalhada De divas mãos. ora repleta ora esvazada. qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. Mares. que abre feridas com seu azeite de fogo. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. estrelas. Cárcere das Almas . era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta. às bordas Finas hás de lhe ouvir.. ela era o calor vermelho das sestas da fazenda. as imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. Ó almas presas. um dia.

Hernani. O simbolismo. 1998 SARAIVA. São Paulo: Scipione. 3ed. 9ed. Otto Maria.Nesses silêncios solitários. 2ed. graves. 1994 HELENA. A literatura portuguesa e a expansão ultramariana. São Paulo: Ática. 1976. 1963 GOMES. 1980 CARPEAUX. História da literatura portuguesa. 95 .). Álvaro Cardoso. & LOPES. A. 3ed. História concisa da literatura brasileira. Porto: Porto Ed. São Paulo: Scipione. Rio de Janeiro: Tecnoprint. Oscar. Alfredo (org. São Paulo: Cultrix. Pequena bibliografia: crítica da literatura brasileira. 1968 CIDADE. José de. J. Movimentos de vanguarda européia. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. Lucia. Coimbra: Armenio Amado. 1993 NICOLA. Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as portas do Mistério?! BIBLIOGRAFIA BOSI.