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Questionário e Resolução - Render dos heróis

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FICHA DE TRABALHO

Literatura Portuguesa – 11.º Ano

O RENDER DOS HERÓIS, de José Cardoso Pires

Orientações de leitura
1. Relacionamento da verdade histórica com a verdade literária quanto  às personagens e sua movimentação no tempo e no espaço; A obra de José Cardoso Pires reproduz uma situação histórica que teve lugar no séc. XIX, mais concretamente no ano de 1846, conforme documentação histórica que o autor terá utilizado como informação para compor o seu texto. De acordo com o historiador Oliveira Marques, a Revolução da Maria da Fonte teve duas fases: - a primeira foi deflagrada pela revolta popular no Alto Minho e teve a duração de apenas um mês (Abril-Maio de 1846), daí resultando a demissão do ministro do reino António Bernardo da Costa Cabral do governo (António Cabral era um estadista autoritário, nomeado pela rainha D. Maria II, e o seu governo “estabeleceu no País um regime de repressão e de violência”, sendo apoiado pelo seu irmão, José Bernardo da Silva Cabral, por isso a designação popular de governo dos Cabrais ou Cabralismo). No prólogo e na primeira e segunda partes da obra, o dramaturgo dá-nos precisamente conta das tensões sociais que se situam na época referida em Vilar (aldeia nortenha que representa na obra o espaço onde têm lugar os motins e as respetivas consequências) e do grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas, que se seguiram às lutas liberais. - a segunda fase da Revolução da Maria da Fonte, chamada Patuleia, mais longa e configurada como guerra civil, surge após um golpe palaciano (que permitiu à rainha demitir o governo que substituíra o de Costa Cabral e nomear ministro o duque de Saldanha) e teve duração de oito meses (Outubro de 1846 a Junho de 1847), sendo finalizada com a intervenção de forças militares estrangeiras, apoiadas pelo governo de Lisboa. O fim da revolta trouxe como consequência o regresso dos Cabrais. Estes acontecimentos são narrados na terceira parte da obra e no epílogo, onde se retrata a interferência estrangeira – de espanhóis e ingleses – e o retorno dos Cabrais figurado na “apoteose grotesca”.

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constituída pelo prólogo e pelas primeiras cenas da primeira parte. o Fiscal de Impostos e os soldados. por inerência dos cargos que desempenham.  à estrutura interna e ao desenvolvimento da ação. As personagens de O Render dos Heróis representam as fações antagonistas nos confrontos revolucionários tratados na peça. O grupo do poder é representado por personagens metafóricas que simbolizam a força. e outras personagens populares de menor relevo. temos a guerrilha. com início na cena III da primeira parte e ocupando toda a segunda parte e também a terceira parte. por se integrar no chamado teatro épico. com os guerrilheiros anónimos. o Conflito. o Saldanha. a rainha D. o dramaturgo pretende mostrar que nem sempre a razão está do lado dos vencedores e que o final para a história relatada deveria ter sido bem IMP-EDFR-007-00 2/8 . a repressão e o autoritarismo do regime vigente. desembargador. temos o Doutor Gaspar Silveira. dá-se o desenlace. o Padre Casimiro. o cavalheiro Stanley e Macdonell. na sua estrutura interna. as duas comadres. constituído pelo relato dos confrontos entre os representantes do poder e os insurretos. subservientes e oportunistas que. podemos observar. São elas o sargento Sargentanas e o coronel Matamundos que se fazem seguir por outras personagens. Se bem que O Render dos Heróis. por exemplo) fazem parte da realidade histórica. como outras que vão sendo referidas ao longo da peça: os Cabrais. apresente características que diferem do teatro clássico. isto é. onde são apresentadas as personagens e os antecedentes da ação. na qual se assiste à tentativa de pacificação do Reino. as três personagens femininas que encarnam a Maria da Fonte (Maria Henriques. entrando em cena ingleses e espanhóis e terminando a peça com a apoteose grotesca. Maria II. querendo-se desarmar os populares. Ligados ainda a este grupo do poder.FICHA DE TRABALHO  aos grupos de personagens: o que representa o poder e o que representa a contestação ao poder. a Exposição. obedecem ao poder em defesa dos seus próprios interesses: o Regedor. na parte final. No grupo da contestação ao Poder. tratado como absurdo e ridicularizado por vários meios. Maria Ricarda e Maria Angelina). o cego. Algumas destas personagens (o Padre Casimiro. Com esta apoteose grotesca. comandados pelo Académico (personagem aludida) e pelo Bacharel Alexandre. quando a marcha da Maria da Fonte é abafada por toques de clarins e ordens de ataque. a recriação de um momento da História. padre-soldado.

o Falso Cego volta a fingir-se cego novamente. o cego e a Maria Henriques fazem referência aos cabrais e à rainha através das rimas que vão entoando e que têm a finalidade de levar ao conhecimento do leitor/espetador a opinião das camadas desfavorecidas da população sobre quem as governa. insinuando que com a propagação da revolução ele poderia. Representa. é ele quem. analisa de forma satírica a situação social e a sua própria condição. que encerra a peça. com o desembargador Dr. consentida pelo governo português – entram e abrem alas para o cortejo da volta de Costa Cabral. Interrompe a sequência cênica com cantos e poemas e revela-se Falso Cego na segunda parte da peça: “Tanto vi no mundo que me cansei. assim que se apercebe da reviravolta. juntamente com as duas comadres. Estando presente em grande parte das cenas. diz ele às Comadres. que é também a de muitos outros. fazendo “correr o pano sobre o choro de uma criança”. Algumas estão ao serviço do poder e apresentam as razões por que é necessário “encontrar” a Maria da Fonte. Casimiro. então. Silveira no seu diálogo com MacDonell. Tive que me fazer de cego se quis comer as migalhas dos ricos”. que se dirige ao público e se apresenta como “padre-soldado na militança da justiça” em defesa de D. No entanto.FICHA DE TRABALHO diferente do que na realidade foi: afinal toda a luta dos populares fora apagada e em vão o seu sacrifício. acentuada no seu discurso. por exemplo. está o Pe. cantando trovas e poemas. quando a Marcha da Maria da Fonte é interrompida pela invasão de tiros e gritos.  ao envolvimento de outras personagens com as personalidades políticas referidas. deixar de se fingir de cego. assim. o Falso Cego destaca-se pela atitude anti-heroica. De entre todas as personagens. na IMP-EDFR-007-00 3/8 . mostrando a intervenção do pequeno clero na organização dos grupos de populares que faziam a revolução. As personagens fictícias aludem às personagens históricas ou interagem com elas. as outras personagens veem assim terminada a revolta da Maria da Fonte e os populares subjugados por um poder político assente na força e na repressão. No final da peça. os que voluntariamente preferem ficar na escuridão (ignorância. É o que acontece. o almirante inglês e o general espanhol – representantes da intervenção estrangeira. Do lado dos guerrilheiros. ainda. desconhecimento) para evitarem males maiores. o cego assume o papel de narrador e de comentador dos acontecimentos. É preciso. finalmente. Irónico.  ao papel especial do Cego ao longo da obra. Miguel. fingir-se de cego para sobreviver. O Falso Cego é. narra e põe em julgamento as ações de outras personagens e.

com os recrutamentos militares. e ao sal carregam-no tanto de impostos que já não salga. pelo seu pensamento e atitude.. queima. a revolta reacendeu-se e conduziu a uma guerra civil (a Patuleia) que se estendeu a todas as províncias do país. 2. por também negar categoricamente a necessidade ou existência do herói. Agora enterram os cristãos fora dos telhados de Deus. aparecia como uma ofensa sacrílega e um atentado à dignidade humana: era tratar pessoas como se fossem animais. que somos magros. A força que. Como já atrás foi dito.”  objetivos e concretização dos mesmos. como se vê no diálogo das comadres: “E ainda por cima nos cruzam as terras com estradas da largura de dois eirados. na obra. Ficam assim adiados os objetivos que haviam norteado a revolta da Maria da Fonte. “Uma carestia. a representação do anti-herói. Com a revolta da Maria da Fonte. fazendo milhares de mortos. no descampado. com a proibição da realização de enterros dentro das igrejas.”. as reformas no sistema tributário e.FICHA DE TRABALHO verdade. “Quando para nós. que é para os barões poderem passar. e só terminou com intervenção estrangeira de uma esquadra inglesa e um exército espanhol que aprisionaram os navios e as melhores tropas patuleias e obrigaram os representantes do governo do Porto (em oposição ao governo de Lisboa) a assinar um acordo cujas condições eram a rendição em troca da amnistia (a Convenção de Gramido.”. junho 1847).. os populares pretendiam apresentar o seu protesto contra a miséria. a opressão dos impostos e a crescente invasão do estado. a revolta surge após as chamadas lutas liberais e na sequência do descontentamento dos camponeses minhotos com as novas leis promulgadas pelo governo de Costa Cabral. qualquer carreiro nos chegava. pois enterrar cristãos em covas. mas depois de a rainha D. A revolta  antecedentes e causas de ordem política. Além disso. gestos e comportamentos de algumas personagens IMP-EDFR-007-00 4/8 . principalmente. económica e religiosa. 3. o governo defraudara as expectativas do povo ao conceder aos barões privilégios que lhe saíam caros. ganham:  os nomes. roubam aos padres para dar aos barões. Maria II (depois de alguns meses de ele ter sido afastado) ter reconduzido Costa Cabral ao cargo de ministro.

tal como os seus gestos e comportamentos de gente do povo. as comadres são personagens comuns da aldeia e a sua designação apenas indicia o meio a que pertencem. logo mais apto para agir em IMP-EDFR-007-00 5/8 . é representada por um pano negro que faz lembrar a insegurança. é através deles que o espetador tem acesso ao ambiente de repressão. os que exerciam a vigilância e faziam a denúncia eram sinistros. como em todo o teatro épico. Aos representantes do poder. o medonho e o sinistro A noite que. investe nelas as características que quer realçar. Um é o sargento Sargentanas. associando-o a alguém que é esclarecido e que se distingue pela sua superioridade intelectual como líder na revolta. de subversão e são os sons que. O bacharel Alexandre é designado pelo seu estatuto e nome próprio. ao escolher o nome para as suas personagens. nome composto que fala por si. os sons adquirem grande importância. Em ambos os casos. em que também os defensores do Estado. os sons de instrumentos musicais. são atribuídos nomes que os tornam personagens ridículas. As Marias da Fonte são mulheres do povo que representam a força e a determinação femininas.  a noite e o negro.  o dia. a incerteza dos dias futuros. A luz simboliza o esclarecimento. o conhecimento e a razão que tornam o Homem mais forte e menos vulnerável. O dia e a luz tornam tudo mais claro. os nomes não adquirem o sentido pejorativo que têm os já referidos. já que o comportamento das personagens muitas vezes contraria o sentido dos nomes. ao tocarem a sensibilidade do espetador. a vida de tristeza e sem esperança que é a das gentes das serras. os nomes traduzem a intenção satírica do autor. sem recursos e sob o jugo de uma ditadura. muitas vezes. em momentos de dificuldade.  os sons que remetem para a guerra. Por exemplo. a luz e a sátira. de crítica.FICHA DE TRABALHO O dramaturgo. as gargalhadas e até os silêncios Nesta peça. em termos de agressão e prepotência. no espaço cénico. aquilo que parecia medonho parece mais fácil de enfrentar ou de combater. Associada à violência dos confrontos nos lugares remotos do norte do país remete os leitores/espectadores para a longa e escura noite que foi o regime fascista nos anos 60. diminutivo que desvaloriza a personagem. o sargento e o coronel. o outro é Matamundos. Do lado da oposição. Sob o seu efeito. suscitam nele a reflexão e o consequente sentimento de revolta. de ironia.

própria do meio popular.“Dai-me uma lágrima de azeite para adubar a broa” (p. . cuja força reside na espontaneidade e na naturalidade com que é posta em prática. 4. o espaço e também o tempo em que se enquadra a ação. que se verifica ao longo da peça e tem o seu auge na apoteose grotesca. sofrer de insanidade mental”. A linguagem utilizada na peça reflete o estrato social das personagens.32) é uma fala em que o verbo “não regular” adquire o sentido de “ser louco.“Hominho de Deus!” (p. uma linguagem genuína.“Raios partam a conversa” (p.31) é uma expressão de nível popular e transmite o desagrado da personagem. em que o uso do imperativo. como frequentemente acontece na linguagem popular.40) é uma fala que denota a origem camponesa da personagem pela utilização do verbo “adubar” com o sentido de “condimentar” e pela metáfora “lágrima de azeite” para indicar uma ínfima porção.30) é o exemplo de uma expressão popular. aliado ao vocativo “desgraçado”. . . em que o diminutivo de “homem” traduz a compaixão que a personagem inspira.39) é uma forma de tratamento. Assim. Não regula bem. . quando aparecem encaraçadas. 59) é uma expressão popular que exprime a ideia de que algo vai correr mal. Linguagem  vernácula.“Demónios me mordam” (p. de estilo directo e vigoroso. IMP-EDFR-007-00 6/8 .47) é uma expressão idiomática que se aplica numa situação de exagero e que propõe um equilíbrio entre dois termos. . A luz permite ver que afinal os poderosos têm as suas fraquezas e a sua força não reside do seu mérito mas das circunstâncias que os colocaram numa posição favorável num combate desigual.“Ainda vai dar esturro” (p.“Uma velha. . Excelência!”(p. . nem tanto à terra” (p. e caracterizadas até ao absurdo.“Some-te. isto é. surge ao longo da obra uma linguagem vernácula. 43) é uma expressão popular que traduz a perplexidade da personagem.“Nem tanto ao mar. É essa luz que faz com que as personagens do poder sejam objeto da sátira. desgraçado” (p. traduz a impaciência das comadres perante a atitude do cego.FICHA DE TRABALHO defesa dos seus ideais. Estas afirmações comprovam-se no texto através de vários exemplos: .

criatura sem préstimo! E as dos pobres que você roubou? Não lhe pesa a alma.“Dos ricos? Oh.“O Saldanha é um vira-casacas” (p. ou então. quando a censura impedia a publicação de tudo quanto pusesse em causa os alicerces do regime salazarista. sucumbem a uma nova IMP-EDFR-007-00 7/8 . Esta peça pode ser classificada como teatro da resistência política.“Pois eu não. tumba-que-tumba” (p. Titulo: O Render dos Heróis  justificação.129) é uma fala em que a negativa está abreviada. os heróis que se rendem podem ser vistos. cuja força reside apenas na detenção do poder e que revelam todas as suas fraquezas no momento em que estão dominados pelos populares. . ná. . 5. sendo uma expressão própria do povo.77) é uma fala em que a personagem recorre à onomatopeia para mais facilmente exprimir o cansaço que sente através do bater ritmado do seu coração. não teme que lhe venha um castigo?” (p. 87) é uma expressão popular que sugere rejeição acompanhada de revolta ou enfurecimento. Assim.FICHA DE TRABALHO . no fim da segunda parte da obra. expressão que. colocando-se do lado que melhor satisfaz os seus interesses. Só ouço o peito… tumba-que-tumba. . como os representantes do poder.“Ná. É um drama baseado em “fundamentos históricos verdadeiros”. já que o seu autor. no contexto. os heróis que se rendem são os representantes do povo.“Não me cheira” (p. através das frases interrogativas. finalmente. Tendo sido produzido em 1960. o seu título propicia uma interpretação ambígua que se relaciona com a conceção do herói e que o autor usa como subterfúgio para escapar a essa censura. 130). significa descrença ou dúvida. depois de terem quase atingido os seus intentos. . . procura consciencializar mistura o público em relação aos mecanismos do poder autoritário exercido nos tempos do Estado Novo. mas “transforma-se afinal numa parábola para quem queira entender” (Mendonça 1973). da frase exclamativa e do vocativo “criatura sem préstimo”. ná… a mim ninguém me faz o ninho atrás da orelha” (p.79) é uma fala em que. corajosos e lutadores. fazendo-o refletir sobre a sua atitude errada. a personagem tenta chamar o interlocutor à razão.128) exprime a opinião de que a personagem é oportunista. através do uso da história.“Trampa para tudo” (p. “heróis” ridicularizados ou anti-heróis. bem como estimular para a postura mais ativa contra as injustiças e a violação dos direitos humanos. lançando um apelo para se acabar. com a tirania. e utiliza uma frase idiomática que exprime a ideia de que a personagem não se deixa enganar. que se arriscam em defesa dos mais fracos e que.

o maquiavelismo e o emprego das torturas para obter as confissões forçadas e as denúncias. porque o regime pode ser abolido somente através do empenho vivo e da ação organizada das pessoas comuns. o render dos heróis pode. como a demagogia política. no final da obra. O uso do termo no plural (“heróis”) no título da peça traduz um apagamento do indivíduo. O valor destes heróis acaba por ficar salvaguardado pelo facto de. simbolizar a inércia ou a demissão coletiva dos portugueses perante uma situação política que lhes era imposta e da qual a esmagadora maioria parecia alheia. IMP-EDFR-007-00 8/8 .  explicação do simbolismo. o dramaturgo apresentar os anti-heróis como caricaturas. acabando por ficar de novo sob o domínio dos cabrais. mostrando os mecanismos do poder presentes também no Estado Novo. Através da ação de O Render dos Heróis.FICHA DE TRABALHO arremetida do governo. Assim. na apoteose grotesca. a peça pode ser interpretada como um apelo aos portugueses para que ajam mais ativamente contra a realidade opressiva. Cardoso Pires utiliza o distanciamento histórico para consciencializar o público em relação à realidade sociopolítica dos tempos da ditadura salazarista. assim. satirizando a sua posição de dominadores e remetendo-a para um erro que se repete ciclicamente na História.

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