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RAPTURE - Traduzido - Português (BR) [@FallenSeries]

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Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.

Créditos de Tradução: Fallen Series Staff (@FallenSeries, @calebhenrique)

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PRÓLOGO

CAINDO

Primeiro, houve silêncio —
No espaço entre o Céu e a Queda, na profundidade da distância desconhecida, houve um momento em que o zumbido glorioso do Céu desapareceu e foi substituído por um silêncio tão profundo que a alma de Daniel se esforçou para fazer qualquer ruído. Depois, veio o sentimento real de cair — o tipo de queda da qual nem mesmo suas asas poderiam salvá-lo, como se o Trono houvesse amarrado luas nelas. Elas mal batiam, e quando o faziam não causavam impacto algum sobre a trajetória de sua queda. 3

Para onde ele estava indo? Não havia nada em frente a ele e nada atrás. Nada acima e nada abaixo. Só a profunda escuridão, e o contorno borrado do que restava da alma de Daniel. Na ausência completa de qualquer ruído, sua mente assumiu: Ele encheu a cabeça com outra coisa, algo inevitável: as palavras da assombrosa maldição de Luce. Ela morrerá... Ela nunca passará da adolescência... Morrerá novamente, novamente e novamente, exatamente no momento em que se lembrar da escolha dele. Dessa forma, vocês jamais estarão realmente juntos. Este havia sido o castigo de Lúcifer, sua adição à sentença do Trono que aconteceu no Prado celeste. Agora a morte vinha junto com seu amor. Daniel poderia pará-la? Poderia sequer reconhecê-la? Quanto um anjo sabe a respeito da morte? Daniel havia testemunhado que ela vem em paz a algumas das novas raças mortais, chamada humanos, mas a morte não era a preocupação dos anjos. Morte e adolescência: as duas certezas absolutas na maldição de Lúcifer. Isso não significava nada para Daniel. Tudo o que sabia era que ser separado de Lucinda não era um castigo que pudesse suportar. Eles tinham de ficar juntos. — Lucinda! — Ele gritou. Sua alma tinha se aquecido só de pensar nela. Mas havia apenas a dor da ausência. Ele deveria ter sido capaz de perceber seus irmãos ao seu redor — Todos os que tinham escolhido mal; ou muito tarde; e os que não escolheram nenhum dos lados e foram expulsos por sua indecisão. Sabia que não estava realmente só. Mais de cem milhões deles haviam caído quando o chão sob eles se abriu e os lançou para o vazio.

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Mas ele não podia ver, ou sentir qualquer outra pessoa. Antes deste momento, ele nunca tinha estado sozinho. Ele sentiu como se ele fosse o último dos anjos em todos os mundos. Não pense assim. Você vai se perder. Tentou se segurar... Lucinda, a chamada, Lucinda, a escolha... mas enquanto caia, tudo ficava mais difícil de lembrar. Como por exemplo, quais foram as últimas palavras que ouviu do Trono? Os portões do céu... Os portões do céu estão... Ele não conseguia lembrar o que vinha depois, lembrava vagamente de como a luz piscou e o mais severo frio varreu o Prado, e as árvores do Pomar caíram umas sobre as outras, causando ondas de perturbação tão furiosas que puderam ser sentidas em todos os cosmos. Tsunamis de nuvens negras tão fortes que cegou todos os anjos e esmagou sua glória. Tinha acontecido algo mais, antes da destruição do Prado, algo como... Uma visita do futuro... Um valente anjo brilhante tinha aparecido durante a chamada — dizendo ser Daniel vindo do futuro. Havia uma tristeza em seus olhos, que parecia tão antiga. Aquele anjo — esta... versão da alma de Daniel — havia realmente sofrido? Pela Lucinda? Daniel fervia de raiva. Ele encontraria Lúcifer, o anjo que viveu na morte de todas as ideias. Daniel não temia o traidor que outrora foi a Estrela da Manhã. Onde, ou quando quer que chegasse ao fim desse esquecimento, Daniel teria sua vingança. Mas primeiro ele encontraria Lucinda, pois sem ela nada importava. Sem seu amor, nada era possível. Aquele amor era tão verdadeiro que tornou inconcebível a escolha entre Lúcifer ou Trono. O único lado que ele sempre escolheria seria o dela. Agora Daniel pagaria por essa escolha, 5

mas ele ainda não entendia a forma que essa punição tomaria. Só sabia que ela sairia do lugar ao qual pertencia: ao seu lado. A dor da separação de sua alma gêmea percorria Daniel, de repente, afiada e brutal. Ele gemia sem palavras, sua mente nublou, e de repente, assustadoramente, ele não conseguiu lembrar-se do porquê. Ele caia para frente e para baixo em meio à densa escuridão. Ele já não podia ver, sentir ou lembrar-se de como tinha terminado aqui, nada, vagando pelo nada — para onde? Por quanto tempo? Sua memória falhou e desvaneceu. Era mais e mais difícil de lembrar as palavras ditas pelo anjo no Prado, que parecia tão... Que tinha aquele anjo que parecia tão semelhante? E o que ele havia dito que era tão importante? Daniel não sabia, não sabia mais nada. Só que estava caindo no vazio. Ele estava cheio de desejo de encontrar alguma coisa... Alguém. Um desejo de se sentir inteiro novamente. Mas só havia escuridão dentro da escuridão. O silêncio abafando seus pensamentos — Um nada que era tudo. Daniel caiu.

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UM

O LIVRO DOS OBSERVADORES

Bom dia.

Uma mão quente acariciou a bochecha de Luce e colocou uma mecha de cabelo atrás de sua orelha. Rolando para o lado, ela bocejou e abriu os olhos. Havia dormido profundamente, sonhando com Daniel. — Oh, — ela ofegou, sentindo sua bochecha. Ali estava ele. Ele estava sentado ao lado dela. Usava um suéter preto e tinha amarrado ao pescoço o mesmo cachecol vermelho que usava quando ela o viu pela primeira vez na Sword & Cross. Ele parecia melhor que qualquer sonho.

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Seu peso fez a beirada da cama afundar um pouco, e Luce emaranhou suas pernas para se aconchegar mais perto dele. — Você não é um sonho — disse ela. Seus olhos estavam mais turvos que de costume, mas eles ainda tinham o brilho intenso de violeta enquanto olhava para seu rosto. Estudando suas feições como se não fosse vê-la outra vez. Ele se inclinou e apertou seus lábios contra os dela. Luce o abraçou, enrolando seus braços ao redor de sua nuca, feliz ao beijá-lo de volta. Ela não se importava com o fato de que precisava escovar os dentes e que seu cabelo deveria estar um caos. Ela não se importava com nada além de seu beijo. Eles estavam juntos agora e nenhum deles conseguia deixar de sorrir. Então tudo voltou correndo: Garras que pareciam navalhas e olhos vermelhos sombrios. O sufocante cheiro de morte e podridão. Escuridão por todos os lados, tão completa em sua condenação que fazia a luz, o amor e tudo o que há de bom nesse mundo sentirem-se cansados, quebrados e mortos. Esse Lúcifer que tinha sido alguém para ela — Bill, a teimosa gárgula de pedra que ela pensou ser um amigo — era impossível. Ela o deixou se aproximar, e agora, porque ela não havia feito precisamente o que ele desejava — Escolher não matar sua alma no antigo Egito — ele decidiu limpar a lousa. Voltar ao tempo e apagar tudo, desde a Queda. Cada vida, cada amor, cada momento que cada alma mortal ou angelical tenha experimentado seria destruído e descartado por um capricho irresponsável de Lúcifer. Como se o mundo fosse um jogo de tabuleiro e ele uma criança mimada que chora e quer desistir assim que começa a perder. Mas o que ele queria ganhar com isso? Luce não fazia a menor ideia. Sua pele estava quente lembrando sua ira. Ele queria que ela visse, que tremesse em suas mãos quando ele a levou de volta ao tempo da Queda. 8

Então, deixando-a de lado, ele lançou um Anunciador como uma rede para capturar os anjos que caiam do céu. Assim que Daniel a pegou em meio à escuridão daquele lugar não estrelado, Lúcifer desapareceu, como se nunca tivesse existido, e todo o ciclo começaria novamente. Foi uma jogada drástica. Daniel explicou que para guiar os anjos para o futuro, Lúcifer teria que confrontar se unir ao seu eu passado e renunciar seu poder. Até que os anjos caíssem, ele seria incapaz de fazer qualquer coisa. Assim como o resto deles, ele cairia em um isolamento impotente, com seus irmãos, mas separado, juntos e sós. E uma vez que caíssem na Terra, haveria um salto no tempo e tudo começaria de novo. Como se os sete mil anos entre aquela época e agora nunca houvessem acontecido. Luce, finalmente, começou a entender sua maldição. O mundo inteiro estava em perigo — a menos que Luce, sete anjos e dois Nephilim pudessem detê-lo. Tinham apenas nove dias e nenhuma ideia de por onde começar. Luce estava tão cansada na noite anterior que não se lembrava de ter deitado na cama e se enrolado até os ombros com esse cobertor azul. Havia teias de aranhas nas vigas da pequena cabana, e uma mesa cheia de xícaras de chocolate quente que Gabbe havia preparado para todos na noite anterior. Mas tudo parecia um sonho para Luce. Seu voo no Anunciador até esta pequena ilha Tybee, uma zona segura para os anjos, havia sido borrada por uma exaustão ofuscante. Ela tinha adormecido, enquanto os outros ainda estavam conversando, deixando a voz calma de Daniel entrar em seus sonhos. Agora, a cabana estava silenciosa, e, na janela atrás da silhueta de Daniel o céu estava no cinza de um quase amanhecer. Ela estendeu a mão para tocar sua bochecha. Ele virou a cabeça e beijou o interior da palma da mão dela. Luce apertou os olhos para impedir o choro. Por que, afinal de contas, depois de 9

tudo que eles tinham passado, Luce e Daniel tinham que vencer o Diabo para poder ser livres para amar? — Daniel. — a voz de Roland chamou na porta da cabana. Tinha as mãos dentro dos bolsos de seu casaco de lã e usava um gorro de lã cinza que contornava seu penteado rastafári. Deu um sorriso cansado para Luce. — Está na hora. — Hora de quê? — Luce apoiou-se nos cotovelos. — Estamos indo embora? Já? E os meus pais? Eles provavelmente estão em pânico. — Pensei em te levar para casa agora, — Daniel disse, — para dizer adeus. — Mas como vou explicar o meu desaparecimento após o jantar de Ação de Graças? Ela se lembrou das palavras de Daniel na noite passada: Embora parecesse que eles passaram uma eternidade dentro dos Anunciadores, no tempo real se passaram apenas algumas horas. Ainda assim, para Harry e Doreen algumas horas com sua filha desaparecida era uma eternidade. Daniel e Roland trocaram um olhar. — Eu cuidei disso, — disse Roland, entregando a Daniel o molho de chaves do carro. — Como cuidou disso? — Luce perguntou — Uma vez meu pai chamou a polícia porque eu estava meia hora atrasada após a escola. — Não se preocupe criança, — disse Roland. — Nós te daremos cobertura. Você só precisa trocar de roupa. — Ele apontou para uma mochila pendurada na cadeira de balanço perto da porta. — Gabbe trouxe suas coisas. — Hum, obrigada. — ela disse confusa. Onde estava Gabbe? Onde estavam os outros? A cabana pareceu acolhedora na noite anterior, com o brilho de asas de anjos e cheiro de chocolate quente e canela. A lembrança daquele aconchego, junto com a 10

promessa de dizer adeus a seus pais sem saber para onde ia, fez esta manhã parecer vazia. O piso de madeira era áspero contra seus pés descalços. Olhando para baixo, ela percebeu que ainda usava o estreito vestido branco do Egito, a última vida que visitou através dos Anunciadores. Bill tinha a feito usar. Não, Bill não. Lúcifer. Ele deu um sorriso de aprovação quando ela guardou a seta estelar em sua cintura, contemplando o conselho que havia dado a ela sobre como matar sua alma. Nunca, nunca, nunca. Luce tinha muito para viver. Dentro da antiga mochila verde que ela usou no acampamento de verão, Luce encontrou seu par de pijamas favorito — um drapeado com listras vermelhas e brancas, com pantufas brancas combinando. — Mas, é de manhã, — disse ela. — Porque preciso de pijamas? Mais uma vez Daniel e Roland trocaram um olhar, e desta vez, Luce poderia jurar que eles estavam tentando não rir. — Só confie em nós. — disse Roland. Depois de se vestir. Luce seguiu Daniel para fora da cabana, deixando que seus ombros largos a protegessem do vento forte enquanto caminhavam pelo caminho de pedras na água. A pequena ilha Tybee ficava a cerca de uma milha da costa de Savannah. Após esse trecho de mar, Roland tinha prometido que haveria um carro esperando. As asas de Daniel estavam escondidas, mas ele deve ter sentido seu olhar no lugar onde elas deveriam estar. — Quando tudo estiver em ordem, voaremos para onde quer que seja até parar Lúcifer. Mas por enquanto, é melhor ficar longe do céu. — Tudo bem. — disse Luce. — Corrida até o outro lado? Sua respiração congelou o ar. — Sabe que eu te vencerei.

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— Verdade. Ele passou o braço em volta de sua cintura, aquecendo-a. — Talvez seja melhor pegar o barco, então. E proteger meu famoso orgulho. Ela observou-o desamarrar um pequeno barco a remo do pequeno porto. A luz suave sobre a água à fez lembrar-se de quando apostaram uma corrida no lago secreto da Sword & Cross. A pele dele havia brilhado quando emergiu na grande rocha para retomar o fôlego, e então descansaram, deixando o calor do dia secar seus corpos. Ela conhecia pouco de Daniel, — não sabia que ele era um anjo — mas já estava perigosamente apaixonada por ele. — Nós costumávamos nadar juntos na minha vida do Taiti, não era? Ela perguntou surpresa por lembrar-se de outra vez em que viu o cabelo de Daniel brilhando com a água. Daniel a olhou e ela compreendeu o quanto significava para ele ser finalmente capaz de compartilhar algumas das memórias de seu passado. Ele pareceu tão comovido que Luce pensou que ele poderia chorar. Em vez disso ele beijou a testa dela carinhosamente e disse: — Você me venceu todas às vezes, também, Lulu. Não falaram muito enquanto Daniel remava. Foi o suficiente para Luce apenas assistir o modo como os músculos dele se contraíam e flexionavam a cada remada, ouvindo os remos entrando e saindo da água fria, respirando a salmoura do oceano. O sol estava nascendo atrás de seus ombros, aquecendo a parte de trás do seu pescoço, mas quando se aproximaram da encosta, ela viu algo que lhe enviou um arrepio na espinha. Um carro. Ela reconheceu o Taurus branco imediatamente. — O que há de errado? Daniel viu sua postura enrijecer enquanto o barco tocava a costa. — Ah, isso. — Ele parecia despreocupado, pulou fora do barco e estendeu uma mão para Luce. O chão estava coberto e tinha um cheiro forte. Lembrou a Luce de sua infância. 12

— Não é o que você pensa. — disse Daniel — Quando Sofia fugiu da Sword & Cross, depois de... — Luce estremeceu, esperando que ele não dissesse ‘de ela ter assassinado Penn’ — descobrirmos quem ela realmente era, os anjos confiscaram seu carro. — Seu rosto endureceu — Ela nos deve muito mais. — Luce lembrou do rosto branco de Penn, o sangue abandonando-o. — Onde Sophia está agora? Daniel balançou a cabeça — Eu não sei, infelizmente. Mas provavelmente descobriremos em breve. Tenho a sensação de que ela arrumará um jeito de tentar estragar nossos planos. — tirou as chaves do bolso e abriu a porta do passageiro. — Mas isso não é algo com que você deva se assustar agora. — Tudo bem. — Luce respondeu olhando para ele enquanto sentava no estofado cinza do assento. — Não há algo com o qual deveria estar preocupada agora? Daniel girou a chave e o carro lentamente ganhou vida. Na última vez que se sentou nesse assento ela estava preocupada por estar no carro sozinha com ele. Foi na noite em que se beijaram pela primeira vez — até onde ela sabia, naquele momento. Ela estava colocando o cinto de segurança quando sentiu seus dedos sobre os dela. — Lembre-se, — ele disse, amarrando a fivela de seu cinto, deixando sua outra mão permanecida sobre a dela. — você tem um truco. Ele a beijou suavemente no rosto, em seguida, colocou o carro para fora da floresta úmida até a estreita estrada de asfalto. Eles eram os únicos na estrada. — Daniel? — Luce perguntou novamente. — Com o que mais eu deveria me preocupar? — Ele olhou para seu pijama. — Você é boa em fingir que está doente?

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O Taurus branco oscilou no beco atrás da casa de seus pais, enquanto Luce subia as três árvores de azaléa próximas à janela de seu quarto. No verão haveria vinhas de tomates rastejando para fora da terra escura, mas no inverno o pátio parecia triste e estéril, mal parecia sua casa. Ela não conseguia lembrar-se da última vez que parou aqui. Havia escapado de três escolas diferentes, mas nunca da casa de seus pais. Agora estava escalando para entrar, e nem sabia como abrir sua janela. Luce olhou ao redor, podia ver seu bairro ainda adormecido, o jornal matinal embalado na beira do gramado de seus pais. A velha cesta de basquete sem rede na casa dos Johnson’s, do outro lado da rua. Nada havia mudado desde que ela partiu. Nada havia mudado, exceto Luce. Se Bill conseguisse, será que este bairro também desapareceria? Deu uma última olhada para Daniel, que assistia a tudo do carro, respirou fundo, e usou seus polegares para subir na base com pintura azul rachada da janela. Deslizou para direita e subiu. Havia alguém em seu quarto. Luce parou atordoada, quando as cortinas de musselina branca separaram-se e os cabelos meioloiros, meio-escuros de sua ex-inimiga Molly Zane encheram o espaço aberto. — E aí, bolo de carne. Luce se irritou com o apelido que ela ganhou em seu primeiro dia na Sword & Cross. Era isso o que Daniel e Roland queriam dizer quando disseram que tinham tomado conta das coisas em casa? — O que você está fazendo aqui, Molly? — Vamos lá. Não vou morder. — Molly estendeu a mão. Suas unhas estavam lascadas, verde esmeralda. Luce segurou firme na mão de Molly, abaixou-se e se esgueirou, uma perna de cada vez, pela janela. Seu quarto parecia pequeno e ultrapassado, como uma cápsula do tempo deixada há muito tempo, por alguma Luce. Lá estava o cartaz emoldurado da Torre Eiffel na parte de trás de sua 14

porta. Ali estava o seu boletim cheio de fitas da equipe de natação Thunderbolt Elementary. E ali, sob a impressão havaiana verde-eamarela do edredom, estava sua melhor amiga, Callie. Callie saiu debaixo das cobertas, correu ao redor da cama, e se atirou nos braços de Luce. — Eles me diziam que você ia ficar bem, mas de qualquer maneira pareciam mentir com aquele ar de quem diz todos-estamoscompletamente-aterrorizados-mas-não-podemos-explicar-nada-avocê. Percebe o quão foi assustador? Foi como se você tivesse, literalmente, sumido da face da terra. Luce abraçou-a com força. Callie sabia que Luce só havia desaparecido na noite anterior. — Ok, vocês duas — grunhiu Molly separando Luce de Callie — podem fazer suas caras de “AI MEU DEUS!” depois. Eu não deitei na sua cama com aquela peruca de poliéster barato a noite inteira fingindo ser a Luce com gripe estomacal para que vocês pudessem destruir nosso disfarce agora. — Ela revirou os olhos — Amadoras. — Espera um pouco. Você fez o quê? — Perguntou Luce. — Depois que você... desapareceu — Callie disse sem fôlego — nós sabíamos que nunca poderíamos explicar isso para seus pais. Quer dizer, eu mal podia imaginar depois de ter visto com meus próprios olhos. — Então eu disse a eles que você estava se sentindo adoentada e tinha ido para a cama, Molly fingiu ser você e... — Por sorte eu encontrei isto no seu armário, — Molly girou a peruca preta curta e ondulada em um dedo — resíduos do Halloween? — Mulher Maravilha. — Luce estremeceu, lamentando sua fantasia de Halloween do colegial, não pela primeira vez. — Bem, funcionou. Era estranho ver Molly — que tinha escolhido o lado de Lúcifer uma vez — ajudá-la. Mas nem mesmo Molly, assim como 15

Cam e Roland, queria cair de novo. Então, lá estavam eles, uma equipe. — Você me acobertou? Eu não sei o que dizer. Obrigada. — Tanto faz. — Molly sacudiu a cabeça na direção de Callie, qualquer coisa para desviar a gratidão de Luce. — Ela foi a verdadeira mente diabólica. Agradeça a ela. — Colocou uma perna para fora da janela aberta e se virou para dizer — Acham que podem lidar com isso daqui? Eu tenho uma reunião de cúpula na Casa do Waffle. Luce levantou o polegar para Molly e desabou em sua cama. — Oh, Luce, — Callie sussurrou. — quando você saiu, seu quintal inteiro ficou coberto de uma poeira cinza. E aquela menina loira, a Gabbe, moveu a mão uma vez e fez desaparecer. Então, dissemos que você estava doente e que todo mundo tinha ido para casa, e começamos a lavar os pratos com os seus pais. E no começo eu pensei que Molly era uma garota um pouco terrível, mas ela é realmente legal. Seus olhos se estreitaram. — Mas afinal, para onde você foi? O que aconteceu com você? Você me assustou. — Não sei nem por onde começar. — disse Luce — Desculpa. Houve uma batida, seguida pelo rangido familiar da porta de seu quarto se abrindo. A mãe de Luce estava no corredor, com os cabelos embaraçados puxados para trás por um clipe amarelo-banana, com o rosto livre de maquiagem, era bonita. Ela estava segurando uma bandeja com dois copos de suco de laranja, dois pratos de torradas com manteiga, e uma caixa de pastilhas efervescentes. — Parece que alguém está se sentindo melhor. Luce esperou até que sua mãe colocasse a bandeja na mesa de cabeceira, em seguida, colocou os braços em volta da cintura da mãe e escondeu o rosto em seu roupão de veludo rosa. Lágrimas caiam de seus olhos. Ela fungou. 16

— Minha garotinha, — disse a mãe, tocando a testa e bochechas de Luce para verificar se havia febre. Ela não usava aquela voz suave e doce com Luce há anos, e ela se sentiu tão bem ao ouvi-la. — Eu te amo, mãe. — Não me diga que ela está muito doente para a Black Friday1. — O pai de Luce apareceu na porta, segurando um regador verde de plástico. Ele estava sorrindo, mas por trás dos óculos sem armação, seus olhos pareciam preocupados. — Estou me sentindo melhor — Luce disse — mas... — Oh, Harry, — a mãe de Luce, disse. — Você sabe que nós só a tínhamos por um dia. Ela tem que voltar para a escola. — e virou-se para Luce. — Daniel ligou há pouco tempo, querida. Ele disse que pode buscá-la e levá-la de volta à escola. Eu disse que, claro, seu pai e eu ficaríamos felizes, mas... — Não, — Luce disse rapidamente, lembrando o plano que Daniel havia detalhado no carro. — Você deve manda-los fazer suas compras na Black Friday. É uma tradição familiar dos Price. Ficou acordado que Luce seria levada por Daniel, e seus pais levariam Callie até o aeroporto. Enquanto as meninas comeram o pequeno-almoço, os pais Luce sentaram-se na beirada da cama e falaram sobre o dia de Ação de Graças (“Gabbe poliu toda a porcelana — que garota angelical”). Em seguida mudaram o assunto para as ofertas que estavam em busca na Black Friday ("Tudo o que seu pai sempre quer são ferramentas"), Luce percebeu que ela não tinha dito nada, exceto por simples expressões de conversação como "Uh-huh" e "Ah, sério?".

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Black Friday é um termo criado pelo varejo americano para nomear ação de vendas anual, que acontece na última sexta-feira de novembro, após o feriado de Ação de Graças, onde as lojas oferecem grandes descontos nos seus produtos.

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Quando seus pais finalmente se levantaram para levar os pratos para a cozinha, e Callie começou a arrumar as malas, Luce foi até o banheiro e fechou a porta. Ela estava sozinha pela primeira vez no que parecia ser um milhão de anos. Sentou-se no banquinho da penteadeira e se olhou no espelho. Era ela mesma, mas diferente. Claro, Lucinda Price estava olhando diretamente para si. Mas também... Havia Layla na plenitude de seus lábios, Lulu nas ondas grossas de cabelo, a intensidade Lu Xin no avelã de seus olhos, a covinha de Lúcia em sua bochecha, pronta para travessuras. Ela não estava sozinha. Talvez nunca estivesse sozinha novamente. Ali, no espelho, estavam cada uma das encarnações de Lucinda olhando para ela e perguntando, O que será de nós? E da nossa história, e nosso amor? Ela tomou um banho e colocou um jeans limpo, suas botas de montar pretas, e um longo suéter branco. Sentou-se na mala Callie, enquanto sua amiga esforçava-se para fechá-la. O silêncio entre elas era brutal. — Você é minha melhor amiga, Callie, — Luce disse finalmente. — Eu estou passando por algo que eu não entendo. Mas não há nada de errado com você. Desculpa, não sei como ser mais específica, mas eu senti sua falta. Muito. Havia tensão nos ombros de Callie. — Você costumava me contar tudo. — Mas o olhar trocado entre elas fez com que ambas soubessem que isso já não era mais possível. A porta do carro bateu lá fora. Através das cortinas abertas Luce assistiu Daniel fazer o percurso até seus pais. E mesmo que fizesse menos de uma hora desde que ele a deixou, Luce sentiu suas bochechas corarem com a visão dele. Ele caminhou lentamente, como se estivesse flutuando, seu cachecol vermelho voando atrás de si com o vento. Até mesmo Callie olhou. 18

Os pais de Luce estavam juntos na sala de estar. Ela abraçou cada um deles por um longo tempo — papai primeiro, então mamãe e por fim Callie, que lhe apertou forte e sussurrou rapidamente — O que eu vi você fazendo ontem à noite, foi maravilhoso. Só quero que saiba disso. Luce sentiu seus olhos arderem novamente. Apertou Callie e sussurrou obrigada. Em seguida, caminhou em direção aos braços de Daniel e ao que quer que seja que o destino tenha preparado para eles.

— Aí estão vocês, pombinhos, fazendo aquilo os pombinhos costumam fazer — Ariane cantou, balançando a cabeça para fora, atrás de uma longa estante. Ela estava sentada de pernas cruzadas em uma cadeira de madeira da biblioteca, fazendo malabarismo com algumas bolas Hacky Sack2. Estava usando um macacão e botas de combate, e seu cabelo escuro estava trançado com minúsculas tranças. Luce não ficou muito feliz por estar de volta à biblioteca da Sword & Cross. Ela havia sido reformada desde o incêndio que a destruiu, mas ainda cheirava como se algo grande e feio tivesse sido queimado lá. O internato tinha explicado o incêndio como um acidente, mas alguém tinha sido morto — Todd, um estudante calado que Luce mal tinha conhecido até a noite de sua morte — e Luce sabia que havia algo mais sombrio escondido nessa história. Ela culpava a si mesma. Agora, depois que ela e Daniel viraram a esquina de uma estante e dirigiram-se à área de estudos da biblioteca, Luce viu
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Hacky Sack é um esporte no qual você tem que mostrar domínio sobre uma bola de tecido e fazer muitas embaixadinhas.

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que Ariane não estava sozinha. Todos eles estavam lá: Gabbe, Roland, Cam, Molly, Annabelle, o anjo de pernas compridas e cabelo rosa-choque, e até mesmo Miles e Shelby, que acenaram com entusiasmo e pareciam decididamente diferentes dos outros anjos, mas ao mesmo tempo diferentes dos adolescentes mortais. Miles e Shelby estavam aqui — estavam de mãos dadas? Mas quando ela olhou novamente, suas mãos haviam desaparecido sob a mesa na qual todos eles estavam sentados. Miles puxou o boné de beisebol lentamente. Shelby limpou a garganta e debruçou-se sob um livro. — Seu livro, — Luce disse a Daniel, assim que viu o livro de cantos desgastados e cola marrom acumulada na ponta da lombada. Na capa desbotada leu: Os Guardiões: Mitos na Europa Medieval, por Daniel Grigori. Estendeu a mão automaticamente para a capa cinza pálido. Ela fechou os olhos porque ele a lembrou de Penn, que não deveria ter morrido, e porque a fotografia colada no interior da capa do livro foi a primeira coisa que a convenceu de que o que Daniel havia lhe contado sobre sua história poderia ser possível. Era uma fotografia de outra vida, em Helston, Inglaterra. E mesmo que isso não pudesse ser possível, não havia dúvidas sobre isso: A jovem da fotografia era Lucinda Price. — Onde vocês encontraram isso? — Luce perguntou. Sua voz deve ter soado desesperada, porque Shelby disse: — O que há de tão importante nessa coisa velha e empoeirada, afinal? — É precioso. É nossa única chave agora. — disse Gabbe. — Sophia tentou queimá-lo uma vez. — Sophia? — A mão de Luce disparou em direção a seu coração. — A Srta. Sophia tentou incendiar a biblioteca? Foi ela? — Os outros concordaram. — Ela matou Todd! — Luce disse entorpecida. Portanto, não tinha sido culpa de Luce. Outra vida tirada por Sophia.

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— E ela quase morreu de choque na noite em que eu mostrei isso para ela. — disse Roland. — Todos nós ficamos chocados, especialmente depois que você sobreviveu para falar sobre isso. — Nós falamos sobre Daniel ter me beijado — lembrou Luce, corando. — E o fato de eu ter sobrevivido. Foi isso que surpreendeu a Srta. Sophia? — Em parte, — disse Roland. — mas há muito mais nesse livro que Sophia não iria querer que você soubesse a respeito. — Ela não era uma professora muito boa, era? — Cam disse. — O que não é que ela não queria que eu soubesse? Todos os anjos se viraram para olhar para Daniel. — Na noite passada nós dissemos que nenhum dos anjos lembra onde pousamos quando caímos. — disse Daniel. — Sim, sobre isso. Como é possível? — Shelby disse. — Pensei que esse fosse o tipo de coisa que fica para sempre na memória. O rosto de Cam ficou vermelho. — Tente cair por nove dias, através de múltiplas dimensões e trilhões de quilômetros, aterrissando de rosto, quebrando suas asas, ficando com um enorme número de concussões, vagando pelo deserto por décadas à procura de qualquer indício sobre quem você é, ou onde está; e depois venha falar comigo sobre memória. — Ok, vocês tiveram problemas. — Shelby disse em voz baixa. — Mas eu não perguntei a você. — Bem, ao menos vocês lembram que havia um deserto envolvido. — Miles disse diplomaticamente, fazendo Shelby rir. Daniel voltou-se para Luce. — Escrevi este livro depois de te perder no Tibete... mas antes de conhecê-la na Prússia. Sei que você visitou sua vida no Tibete, porque te segui até lá, então talvez você possa entender como perder você daquela maneira me fez passar anos pesquisando e estudando para encontrar uma maneira de quebrar essa maldição.

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Luce olhou para baixo. Aquela morte tinha feito Daniel correr e se jogar de um penhasco. E ela tinha medo de que isso acontecesse outra vez. — Cam está certo, — disse Daniel. — nenhum de nós lembra onde pousamos. Nós vagamos pelo deserto até que ele já não fosse mais deserto, vagamos pelas planícies, os vales e os mares até que eles tornaram a ser deserto. Até que lentamente encontramos um ao outro e começamos a juntar as peças de nossa história. Foi aí que lembramos que erámos anjos. Mas havia relíquias de nossa queda, registros que a humanidade encontrou e sem entender guardou como tesouros, presentes que eles acham ter vindo de um deus. Durante muito tempo as relíquias ficaram enterradas em um templo em Jerusalém, mas durante as Cruzadas, foram roubadas e espalhadas por vários lugares. E nenhum de nós faz ideia de onde. — Quando fiz minha pesquisa, me concentrei na era medieval, voltando-me para tantos recursos quanto pudesse em uma espécie de caça ao tesouro teológico pelas relíquias. A essência geral disso é que esses três artefatos podem ser coletados e reunidos no Monte Sinai... — Por que no Monte Sinai? — Shelby perguntou. — Os canais entre o Trono e a Terra são mais próximos lá — explicou Gabbe com uma sacudidela de cabelo. — É onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos, e também onde os anjos entram quando estão entregando mensagens para o Trono. — Pense nele como um local de mergulho de Deus — acrescentou Ariane, enviando uma das Sack Hacky tão alto no ar que bateu numa lâmpada. — Mas antes que você pergunte, — Cam disse, fazendo questão de olhar para Shelby — O Monte Sinai não é o lugar original da queda. — Isso seria muito fácil — disse Annabelle.

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— Se todas as relíquias estiverem reunidas no Monte Sinai — disse Daniel — então, em tese, o local da queda será revelado. — Em tese. — Cam zombou. — Devo ser o único a dizer que há algumas dúvidas quanto à validade da pesquisa do Daniel... Daniel apertou sua mandíbula. — Tem alguma ideia melhor? — Você não acha — Cam levantou a voz — que sua teoria coloca mais um monte de peso na ideia de que estas relíquias são algo mais do que um boato? Quem sabe se elas podem fazer o que supõem que pode? Luce estudou o grupo de anjos e demônios, seus únicos aliados nessa busca para salvar a si, Daniel... e o mundo. — Então, é nesse lugar desconhecido que temos de estar daqui a nove dias. — Daqui a menos de nove dias. — disse Daniel. — Daqui a nove dias será muito tarde. Lúcifer e o exército de anjos expulsos do céu já terão chegado. — Mas se não vamos vencer Lúcifer no local da queda — Luce disse — então o quê? Daniel balançou a cabeça. — Nós realmente não sabemos. Nunca contei a ninguém sobre esse livro porque eu não sabia o como poderia ser útil sem que você estivesse lá para desempenhar a sua parte. — Minha parte? — Luce perguntou. — Que nós realmente não entendemos ainda — Gabbe deu uma cotovelada em Daniel, interrompendo-o. — O que ele quis dizer é que tudo será revelado no seu tempo. Molly bateu na testa. — Sério? “Tudo será revelado”? É isso o que todos vocês sabem? É isso que está acontecendo? — Essa é sua importância — Cam disse a Luce. — Você é a peça de xadrez que está lutando por aqui. — O quê? — Luce sussurrou. — Cale a boca —Daniel disse a Cam — então voltou à atenção para Luce. — Não dê ouvidos a ele. 23

Cam bufou, mas ninguém deu atenção. Seu desdém pairou na sala como um hóspede não convidado. Os anjos e demônios ficaram em silêncio. Ninguém vazaria qualquer outra coisa sobre o papel de Luce em parar a Queda. — Então, todas estas informações sobre esta caça ao tesouro — disse ela — estão neste livro? — Mais ou menos — disse Daniel. — Eu só tenho que passar algum tempo com o texto para saber onde começaremos. Os outros se afastaram para dar espaço a Daniel na mesa. Luce sentiu a mão de Miles mão na parte de trás do seu braço. Eles mal tinham se falado desde que ela voltou do Anunciador. — Posso falar com você? — Miles perguntou, muito calmamente. — Luce? O olhar tenso em seu rosto fez Luce pensar naqueles últimos momentos no quintal dos pais dela, quando Miles tinha criado seu reflexo. Eles nunca haviam conversado muito sobre o beijo que deram fora de seu quarto no dormitório da Shoreline. Certamente Miles sabia que foi um erro, mas por que Luce sentia como se tivesse o enganado cada vez que foi amável com ele? — Luce. — Era Gabbe, aparecendo ao lado de Miles. — Eu pensei em avisar — ela olhou para Miles — que se você quiser visitar Penn em algum momento, esse momento tem de ser agora. — Boa ideia. — Luce assentiu. — Obrigada. — Ela olhou para Miles se desculpando, mas ele simplesmente puxou o boné de beisebol sobre os olhos e virou-se para sussurrar algo à Shelby. — Aham. — Shelby tossiu indignada. Ela estava atrás de Daniel, tentando ler o livro por cima de seu ombro. — E quanto a mim e Miles? — Vocês voltarão para Shoreline — disse Gabbe, soando como os professores de Luce na Shoreline, de modo que Luce nunca tinha notado antes. — Nós precisamos que vocês alertem Steven e Francesca. Podemos precisar da ajuda deles, e da de 24

vocês, também. — Digam a eles — ela respirou profundamente — digam-lhes o que está acontecendo. Que o final está vindo, embora não do modo como esperávamos. Conte-lhes tudo. Eles saberão o que fazer. — Tudo bem — Shelby disse carrancuda. — Você manda. — Yodelayhee-hooooo. — Ariane pôs as mãos em concha em frente à boca. — Se, uh, Luce quiser sair, alguém vai ter que ajudá-la a atravessar a janela. Ela bateu com os dedos sobre a mesa, olhando timidamente. — Fiz uma barricada de livros perto da entrada da biblioteca para o caso de algum curioso da Sword & Cross se sentir inclinado a nos interromper. — Eu ajudo. — Disse Cam descendo a mão até a dobra do cotovelo de Luce. Ela começou a discutir, mas nenhum dos outros anjos parecia achar que era uma má ideia. Daniel nem percebeu. Perto da saída dos fundos, Shelby e Miles sussurraram ao mesmo tempo um “Tenha cuidado” para Luce, com diferentes graus de intensidade. Cam levou-a até a janela, irradiando calor com o seu sorriso. Deslizou a janela de vidro para cima e, juntos, olharam para o campus onde se conheceram, onde se aproximaram e onde ele a tinha enganado para beijá-lo. Nem todas eram más recordações... Ele pulou a janela antes, pousando suavemente na borda, e estendeu a mão para a ela. — Milady. Seu aperto era forte, e isso a fez se sentir pequena e leve junto dele enquanto caíam do parapeito, duas histórias em dois segundos. Suas asas estavam escondidas, mas ele ainda se movia tão graciosamente, como se estivesse voando. Eles pousaram suavemente na grama orvalhada. — Acho que você não quer minha companhia — disse ele. — No cemitério e, você sabe, no geral. — Certo. Não, obrigado. 25

— Ele olhou para o lado e enfiou a mão no bolso, tirou um sino de prata minúsculo. Parecia antigo e tinha algo em hebraico escrito sob ele. Ele entregou a ela. — Só precisa tocar quando quiser uma mãozinha para voltar. — Cam, — disse Luce. — qual o meu papel em tudo isso? Cam estendeu a mão para tocar seu rosto, depois pareceu pensar melhor. Sua mão pairou no ar. — Daniel está certo. Esse não é o melhor lugar para lhe dizer. Ele não esperou ela responder, apenas dobrou os joelhos e começou a subir. Nem sequer olhou para trás. Luce olhou para o campus por um momento, deixando a familiar umidade da Sword & Cross se aderir a sua pele. Ela não poderia dizer se a escola, com suas grandes e firmes construções neogóticas e paisagem triste, estava igual ou diferente. Ela caminhou pelo campus para além dos velhos prédios, atravessando o gramado, do lado oposto ao deprimente dormitório, até o portão de ferro forjado do cemitério. Lá, ela fez uma pausa, sentindo arrepios subirem por seus braços. O cemitério ainda parecia e cheirava como um ralo no meio do campus. A poeira da batalha dos anjos havia desaparecido. Ainda era cedo o suficiente para que a maioria dos alunos estivesse dormindo e, mesmo assim, nenhum deles era muito propício a estar rondando o cemitério, a menos que estivessem pagando detenção. Atravessou o portão e caminhou entre as lápides inclinadas e os túmulos cobertos de lama. No canto extremo leste estava o local do descanso final de Penn. Luce se sentou ao pé do túmulo de sua amiga. Ela não tinha flores e não sabia nenhuma oração, então ela pôs as mãos na grama molhada e fria, fechou os olhos, e enviou seu próprio tipo de mensagem para Penn, preocupando-se com o fato de que ela talvez nunca pudesse chegar até a amiga.

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Luce voltou para a janela da biblioteca sentindo-se irritada. Ela não precisava de Cam ou do sino para resgatá-la. Ela poderia chegar até a borda sozinha. Foi suficientemente fácil escalar até parte mais baixa do telhado inclinado, e de lá ela pôde subir alguns níveis, até estar perto da borda, longa e estreita, da janela da biblioteca que tinha cerca de dois metros de largura. Enquanto chegava mais perto, pôde ouvir as vozes de Cam e Daniel discutindo. — E se um de nós fosse interceptado? — A voz de Cam era alta e suplicante. — Você sabe que somos mais fortes unidos, Daniel. — Se não chegarmos lá a tempo, nossa força não importará. Seremos apagados. Ela podia imaginá-los do outro lado da parede: Cam de punhos cerrados, seus olhos verdes brilhando; Daniel impassível e imóvel, com os braços cruzados sobre o peito. — Eu não confio que você não agirá em benefício próprio. — O tom de Cam era duro. — Não há o que discutir. — Daniel não mudou seu tom. — Se dividir é nossa única opção. — Os outros ficaram quietos, provavelmente pensando a mesma coisa Luce. Ela alcançou a janela e viu que os dois anjos estavam frente a frente. Cam e Daniel se comportavam muito bem como irmãos para alguém ousar entrar entre eles. As mãos de Luce agarraram o peitoril da janela. Ela sentiu uma breve intensidade de orgulho, que ela nunca confessaria, por ter voltado à biblioteca sem ajuda. Provavelmente nenhum dos anjos sequer notaria. Suspirou e deslizou uma perna para dentro. Foi quando a janela começou a tremer.

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O vidro da janela sacudiu, e ela inutilmente tentou se segurar enquanto girava e buscava forças para não cair da borda. Segurou mais firme, sentindo vibrações dentro dela, como se seu coração e sua alma estivessem tremendo também. — Terremoto — ela sussurrou. — Um de seus pés estava dentro da borda. Com aquele aperto no peito, mas deixando a janela solta. — Lucinda! Daniel correu até a janela. E passou suas mãos ao redor dela. Cam também estava lá, com uma mão sobre a base dos ombros Luce e a outra na parte de trás da cabeça. As estantes ondularam e as luzes da biblioteca piscaram quando os dois anjos a puxaram pela janela que balançou mais um pouco antes de a armação de vidro cair se espatifando em milhares de cacos de vidro. Ela olhou para Daniel em busca de algum sinal. Ele ainda a segurava pelos pulsos, mas seus olhos viajavam além dela, lá pra fora. Ele estava observando o céu, que tinha ficado raivoso e cinzento. Pior que tudo isso era a prolongada vibração dentro Luce, que a fazia sentir-se como se tivesse sido eletrocutada. Pareceu uma eternidade, mas durou apenas cinco, talvez dez segundos até que Luce, Cam, e Daniel estivessem caídos no chão de madeira empoeirado da biblioteca. Em seguida, o tremor parou e o mundo ficou em um silêncio mortal. — Mas que diabos! — Ariane levantou-se do chão. — Será que fomos para a Califórnia sem meu conhecimento? Ninguém me disse que havia falhas na Geórgia! Cam puxou um longo caco de vidro de seu antebraço. Luce ofegou ao ver o sangue vermelho vivo descendo até seu cotovelo, mas seu rosto não demonstrou nenhum sinal de que ele estivesse sentindo alguma dor. — Aquilo não foi um terremoto. Foi uma mudança sísmica no tempo. 28

— Uma o quê? — Luce perguntou. — A primeira de muitas. — Daniel observava além da janela quebrada, assistindo a uma porção de nuvens brancas acumuladas no céu, agora azul. — Quanto mais perto Lúcifer ficar, mais forte elas se tornarão. — Ele olhou para Cam, que assentiu. — Tic-tac, pessoal — disse Cam. — o tempo está correndo. Precisamos voar.

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