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As contribuições de Vítor Paro para as políticas públicas de gestão escolar democrática no cenário da Educação do Campo.

Danilo Malato Santos1

Introdução O debate sobre a idéia de gestão escolar democrática nas redes públicas de ensino ainda é pauta de muitos diálogos de eventos acadêmicos e pesquisa científicas. Entretanto, quando se fala realmente de gestão de escolas de ensino básico de zonas ribeiras ou situados em distritos rurais, as figuras da direção escolar são quase inexistentes, podendo-se dizer que tais escolas não possuem gestão local. Este trabalho pretende mostrar a decadência do paradigma técnico-científico da administração de unidades de ensino básico nas zonas de assentamento agrícola familiar da região nordeste do estado do Pará diante da ascensão dos ideais democráticos de gestão escolar com ênfase na participação comunitária, de onde partem as tomadas de decisão mais abrangentes das escolas do campo. Cabe esclarecer o entendimento do pensamento de Vítor Paro sobre a gestão de unidades educacionais alicerçado sobre os pilares de participação democrática de professores, alunos e pais para a administração escolar sob a forma de conselhos de classe, onde
conceber a administração do órgão publico e que essa administração não se circunscreve aos limites da prática educativa, mas vislumbra, nas especificidades dessa prática social e de sua relativa autonomia, a possibilidade de criação de canais, efetiva participação e de aprendizado do jogo administrativo escolar democrático e, conseqüentemente, do repensar das estruturas de poder autoritário que permeiam as relações sociais e, no seio dessas, as práticas educativas. (PARO, 1986, p. 26).

Essa proposta de discussão está presente hoje em praticamente todos os discursos da reforma educacional no que se refere à gestão, constituindo um "novo senso comum" (PARO, 1997, p. 44), seja pelo reconhecimento da importância da educação na perspectiva democrática em que se vive de regulação e progresso da sociedade, seja pela necessidade de valorizar e considerar a diversidade do cenário social, ou ainda a necessidade de o Estado sobrecarregado que para Barroso (2000, p. 34) justifica-se em "aliviar-se de suas responsabilidades, transferindo poderes e funções para o nível local”. Dentro dessa visão de transformação, nasce a necessidade de estudo da concepção de secretários de educação, diretores e que pesquisadores acadêmicos se propõem a socializar
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Bacharel em Administração pela FAP e Licenciado Pleno em Pedagogia pela UFPA. Está atualmente na função de Secretário Executivo do Fórum Paraense de Educação do Campo – FPEC. E.mail: danilo_malato@yahoo.com.br; danilomalato@livemail.com.br.

a primeira concepção que o autor registra acerca da gestão escolar pública no Brasil difunde-se na realidade das instituições de ensino com pleno rigor dos seus dirigentes. no interior do Curso de Pedagogia. p. Vitor Paro preocupou-se em acompanhar a trajetória da educação brasileira. o fulcro da análise deve convergir para a figura do diretor escolar e seu papel na mudança social. entre outros conhecimentos. p. a defesa dos procedimentos administrativos na escola sob a forma de adesão ao emprego. 166).sobre a direção das escolas. tanto em sua práxis quanto em sua consciência da realidade” (PARO. para “traçar parâmetros que influenciarão na produção escolar dos projetos políticopedagógicos e nas reuniões de discussão dos setores da escola – professores. na aprendizagem dos conteúdos acadêmicos apreendidos pelos pedagogos no programa de Habilitação em Administração Escolar. entendida como organização. dirigentes. a negação da necessidade e conveniência da própria administração na situação escolar. Segundo o próprio autor. os quais são tidos como princípios administrativos das organizações de modo geral. que muito interagem com os estudos para a formação de profissionais da área educacional. ai os princípios e métodos desenvolvidos na empresa capitalista. na consecução de seus objetivos. não possa pautar-se. de outro. 2000. 11) dessa maneira: de um lado. as incursões para exame reais funções da escola em uma sociedade de estrutura capitalista bem como a questão da organização do trabalho dentro e fora da escola. por procedimentos . No inicio de suas investigações para a Pós-graduação. os métodos e técnicas administrativas utilizadas nas mais diversas organizações. Assim. Embora adaptados a cada situação específica. não há razão para que esta. objetivando examinar o papel do diretor de escola de 1º e 2º graus na gerência e organização do trabalho escolar visando à mudança social. bem como as perspectivas de mudança que ele tem dela. considerando esse diretor como “sujeito de uma práxis social e a consciência que Le tem dela. p. alunos e conselheiros” (LIMA. buscando encontrar a influência dos paradigmas vigentes na forma de administrar as instituições educacionais. são todos semelhantes entre si. 1986. 9). na medida em que se baseiam nos mesmos princípios gerais da Administração. Embate sobre a educação pública no Brasil O embate sobre a gestão escolar no Brasil movimenta-se entre duas posições antagônicas descritas por Vitor Paro (1986. diante da necessidade de se promoverem a eficiência e a produtividade da escola. nessas condições. em agosto de 1982. Diante da descrição dessa posição antagônica. as suas diversidades e especificações. Ela fundamenta-se na Pretensa universalidade dos princípios da Administração adotados na empresa capitalista.

como de resto em qualquer tipo de organização em nossa sociedade. não às forças sociais que a engendram. numa reação ao caráter autoritário das relações que dominam o interior da escola. assim. e tem na figura de seu gestor o responsável último pelas ações aí desenvolvidas. se colocando contra a qualquer tipo de administração ou tentativa de organização burocrática da escola pública. assumem-se a absoluta de que esses trabalhadores tenham suas ações coordenadas e controladas por pessoas ou órgãos com funções chamadas administrativas. Essa visão dos teóricos da Administração tem correspondência na realidade concreta da sociedade capitalista.) a administração não pode ser vista como conjunto de princípios. p.. a segunda procede de modo semelhante ao imputar a essa administração e. a educação escolar não se faz separada dos interesses e forças sociais presentes em uma determinada situação histórica. p. diante do debate por uma escola que seja pública e de todos. que é identificado como sendo a Administração (ou a burocracia. afirma que (. da multiplicidade de objetivos a serem perseguidos e do grande número de trabalhadores envolvidos. Diferente da primeira visão. as causas do autoritarismo e da dominação vigentes a sociedade. Por isso. 1986. métodos e técnicas. ao mesmo tempo. A segunda premissa que o autor lança é a oposição radical a concepção empresarial. que é o termo que os adeptos dessa concepção preferem utilizar) for substituída pelo espontaneísmo e pela ausência de todo tipo de autoridade ou hierarquia nas relações vigentes na escola (PARO. 18) considera o conhecimento concebido pelo estudo da Administração viável para as instituições de ensino. Da mesma forma. organicamente ligada à totalidade social. 1986. 14). 12). Vitor Paro (1986. A administração escolar está. onde ela se realiza e exerce sua ação e onde. mas em condições históricas determinadas para atender a necessidades e interesses de pessoas e grupos. assim. encontra as fontes de seus condicionantes (PARO. p. precisa ser administrada. Em virtude da complexidade das tarefas. Vitor Paro (1986. Ele procura constituir-se. 1986. a sociedade se apresenta como um enorme conjunto de instituições que realizam tarefas sociais determinadas. p. p. A primeira premissa procede assim porque eleva à categoria de universalidade um particular tipo de Administração. Nesse contexto encontra-se a escola que. Em sentido geral. seu próprio objeto de estudo” (PARO. pois dará as limitações de uso . só será uma organização humana e democrática na medida em que a fonte desse autoritarismo.. 1986. 17). 15). 14). p. da escassez de recursos disponíveis. como qualquer outra instituição. mais precisamente.administrativos análogos àqueles que tanto êxito alcançam na situação empresarial (PARO. nem se dá no vazio. onde a “Administração encontra na organização. Ele preconiza que A escola. Para os modernos teóricos da Administração.

racionais dos recursos para a realização de fins determinados. quer da própria natureza do processo de produção no qual estão envolvidas mais de uma pessoa quer na destinação dos produtos desse processo. com quem se encontra em relações diretas ou indiretas (MARX. as suas necessidades. para produzir sua existência material.. na sociedade. 151). No que se refere à relação homem com a natureza e de acordo com o conceito de administração que o autor discute. p. na busca de objetivos. Portanto. o autor envolve os elementos materiais e conceptuais que o homem coloca entre si e a natureza para dominá-la em seu proveito. 1999. os recursos materiais e conceptuais precisam ser utilizados de maneira racional com vistas à realização de objetivos. a sua natureza. 22) considera mais apropriado chamar “racionalização do trabalho”. 22) reafirma a tese de Marx (1983. mas eles não eram únicos no sentido de que não podiam deixar relações entre si. 1983. Ao dar forma útil aos recursos naturais. 21). e a maneira de as satisfazerem. precisa utilizar racionalmente seus recursos materiais e conceptuais. Paro (1986. pelo contrário. p. 300). por força. 300) em que o relacionar-se dos homens entre si é a condição essencial da existência humana. Neste processo não transforma apenas sua forma externa. o autor concorda que a relação existente entre ambos dá-se através do trabalho.) o desenvolvimento de um individuo está condicionado pelo de todos os outros. 1983. p. tornava-os dependentes uns dos outros (. Aliado aos elementos materiais. ela se configura como uma atividade exclusivamente humana. evoluindo de acordo com a utilização do instrumental de trabalho (PARO. p. p. 150) sobre a relação homem e natureza. O que quer dizer que o homem age tanto mais administrativamente quanto mais ele conjuga seus conhecimentos e técnicas. Na relação do homem com a natureza. revela-se todo um campo de interesse teórico-prático da administração que Vitor Paro (1986. os faz avançar e os aperfeiçoa na utilização de seus meios de produção. Em sua análise. Seja no interior do .. o homem coloca frente à natureza suas próprias forças naturais. domina-a em seu proveito. o homem faz uso também de recursos conceptuais. p. deles próprios. já que somente o homem é capaz de estabelecer livremente objetivos a serem cumpridos. Essas relações se manifestam de modo particular no processo de trabalho. Na segunda análise que traz sobre o processo de produção material da existência humana. mas também sua própria natureza (MARX. Com base na visão de Marx (1983. em que Os indivíduos partiram sempre e em quaisquer circunstâncias. p. portanto. O trabalho como atividade orientada para um fim é Um processo pelo qual o homem se apropria da natureza submete-a a sua vontade. Esses recursos consistem nos conhecimentos e técnicas que ele acumula em seu processo histórico. em que ele.

Sem a produção de excedente por uns não é possível sua apropriação por outros. Assim. o emprego econômico e a devida adequação aos fins de todo esforço humano despendido no processo. 23). A administração.processo de produção. No capitalismo. o comando está nas mãos dos proprietários dos meios de produção. jurídica e ideológica. forma de organização em que a sociedade contemporânea se encontra. A administração ou a utilização racional de recursos para a realização de fins adquire na sociedade capitalista. os elementos materiais e conceptuais interpostos entre o homem e a natureza podem concorrer para a realização de fins determinados. p. À utilização racional desse esforço humano coletivo. 1986. onde enquanto a racionalização do trabalho se refere às relações homem/natureza. 1986. Permeando a estrutura e a superestrutura. que é a “divisão do trabalho pelos diferentes ramos de atividade na sociedade. o autor chama de “coordenação do esforço humano coletivo”. as relações dos homens entre si para produzirem sua existência material envolvem a utilização de esforço humano. sobre o restante da população. Enquanto esta ultima é comum a todas as sociedades conhecidas. no interior desse processo. no processo administrativo. que se organiza com vistas ao domínio da classe capitalista. diferentemente da divisão social. é na pormenorização do trabalho que se insere a escola pública no Brasil. as relações se constituem em relações de exploração de uma parte da população sobre a outra. a utilização racional de recursos deve incluir. Assim sendo. 45) que se dá no interior do processo produtivo. a primeira é característica peculiar da sociedade capitalista. entretanto. Apenas se lhes for associado este recurso. tem a ver como problema da gerência ou do controle do trabalho pelo capital. tanto a racionalização do trabalho quanto a coordenação do esforço humano coletivo adquirem características especificas do modo de produção capitalista. com as relações dos homens entre si. No que diz respeito à coordenação do esforço humano coletivo. além dos elementos materiais e conceptuais. a administração pode ser vista como racionalização e coordenação do trabalho. p. sob a forma de apropriação do produto do trabalho alheio. No processo de produção capitalista. mas com o esforço humano coletivo. interpenetrando tanto a sua teoria quanto a sua prática. seja no contexto da atividade social do trabalho. detentora do poder econômico. advindas dessa situação de domínio. a coordenação tem a ver. Isto reflete á “pormenorização ou divisão técnica do trabalho” (PARO. não se ocupa do esforço despendido por pessoas isoladamente. a “administração é uma atividade grupal” (PARO. Portanto. onde a maximização da produção (intelectual) é a introdução dos insumos (conteúdos) nos . Sendo assim. características próprias. Esse comando se reflete na superestrutura política.

pela produção e apropriação da mais-valia. são oferecidas sem condições de oportunizar saberes para a criança. o caráter particularista. a utilização racional dos recursos. ficando explícita sua condição de racionalidade limitada pelos próprios objetivos particulares da classe detentora do poder na sociedade.recipientes (alunos). Isso representa. a produção obsoleta ou que pouco se aproveitou necessita ser descartada para que outras possam ocupar o seu espaço e a expansão dos meios de produção pelo proprietário (neste caso. O cenário da educação do campo Em relação à educação do campo. restringe-se a uma racionalidade interna que diz respeito apenas ao emprego dos meios em sua adequação ao fim estabelecido. ao visar tal fim. A condição de poder da burguesia é o crescimento do capital que submete o homem ao trabalho assalariado. não universal. p. é pertinente ressaltar que a concepção de educação que vem sendo empregada pela cultura dominante e elitista. determinada pela natureza dos objetivos que se procuram atingir através da utilização racional dos recursos empregados. não ao interesse do homem. ocasionada pelo acesso tardio a escola que na maioria das vezes. Ao renunciar a um questionamento dos objetivos. A única forma de mensuração da capacidade de maximização é a aplicação de exames (testes) para observar o nível em que se encontra o objeto de ação da escola. assim. o Estado). sem dúvida. Há ainda insatisfação. mas de alguns homens historicamente determinados. pertencentes à classe dos que têm o privilégio de possuir em suas mãos o poder econômico. os jovens e adultos devido à precariedade de investimentos dessa política pública. transformando-os em força de trabalho de reserva e de uso imediato. Assim. Marx também se reporta aos aspectos das desigualdades remetendo essa situação a partir de uma ordem social que submete o mundo ao poderio do capital. não tem favorecido satisfatoriamente para combater o analfabetismo. o adolescente. nas regiões mais pobres do Brasil. uma das maiores dívidas históricas para com as populações do campo. Como o fim último da produção capitalista é a expansão do capital. Relata que o trabalho humano nunca produziu tantos objetos em toda história humana. da racionalização capitalista. elevar a escolaridade dos sujeitos. gerando . concorre para atender não aos interesses da população detentora de dos meios de produção. 54) argumenta que esta ciência assume forma peculiar. sua cultura e seu padrão de vida. Revela-se. Vitor Paro (1986. pensando em sentido genérico e universal. Em outra análise da administração escolar.

do capitalismo que também se articula pelo processo educativo. é preciso considerar alguns pensamentos construídos dentro do conhecimento acadêmico. quando identifica a educação como elemento fundamental para o sujeito do campo ou da cidade. 59). capitalista.28). Para compreender a diferença da conceituação rural e campo. levar. dentro do processo de mudança. Partindo desse princípio. (1998. Saber que deixa de ser "experimento feito" para ser experiência narrada ou transmitida" (PARO. transforma-se numa mercadoria a serviço da burguesia. p. que resultam de pesquisas realizadas e compartilhadas pelos atores sociais do campo. as Diretrizes Operacionais da Educação do Campo. Ele desenvolveu uma metodologia de ensino para a alfabetização e conscientização do trabalhador do campo que partia dessa leitura de mundo. As políticas de educação rural/campo As políticas de educação rural/campo não são referencias relevantes constitucionalmente na historicidade da educação brasileira e até 1988 a expressão evidenciada nos textos constitucionais caracteriza o termo rural e adquire outro significado a partir 2002 com aprovação da Resolução CNE/CEB Nº. se os educandos são os que não sabem. mercadológica. 1999. Se o educador é o que sabe. causa a marginalização do trabalhador do campo e. Pensando nesta situação de exploração do trabalhador e nas condições que oportunizam uma educação conscientizadora. Isso canaliza para um índice absurdo de "pobreza que cresce mais rápido do que a população e a riqueza". transmitir o seu saber aos segundos. que continua presente na ação educativa de muitos professores do campo e da cidade. competitiva. 70) nos possibilita observar o sistema educacional da sociedade brasileira. cabe aquele que dá entregar. O paradigma de produção capitalista permite maior exploração entre as pessoas. de transmitir valores e conhecimentos. a expressão educação rural está relacionada em uma postura encadeada pela concepção positivista. mas que também ensina. na qual a política de educação direciona para uma formação pragmática. Uma iniciativa surgida na década de 50. que instrui o individuo para desenvolver atividades no mundo . E considera como necessidade primordial dessa mudança. Ao fazer uma apologia a educação da cultura dominante comentava Freire: Na concepção bancária a educação é o ato de depositar. p. Vitor Paro PARO (1999. a leitura de mundo com o sujeito que aprende. a mão de obra humana na fábrica ou no latifúndio. p.uma base de competitividade e desigualdade entre os trabalhadores. de transferir. 01 de 03 de abril.

Tentavam educar a revelia da situação políticoeconômica do país. p. A proposta fracassou por conta da técnica empregada. a relação homem-natureza se caracteriza como exploratória. devido ao alto índice de analfabetismo. o lugar do latifúndio. coisa. entre outros. . que diziam ser freireana. 2004. A educação rural esteve também associada a uma situação de precariedade. p. com tímidos programas educacionais pensados e elaborados para o povo sem sua participação. para delimitar o espaço urbano e definirem políticas públicas de ação para estes espaços geográficos já compreendidos na época. Nessas circunstancias. parte por palhas". depredatória. Tinha como pano de fundo um interior arcaico. no entanto. das empresas exploradoras de madeira. p. várias políticas educacionais foram desenvolvidas e a principal característica era o desenvolvimento de práticas pedagógicas adaptativas a realidade do meio rural. seguido depois de outros. Pequena e ladeada por meia – parede de madeira que se estende até o final da casa. É a "coisificação" e desumanização do sujeito. O teto é coberto parte por telha de cerâmica. A expressão educação rural foi empregada na época do governo Vargas. 1993. p. Argumenta Cabral Neto (2004. MOBRAL. 45). mineiro e outros. da escravidão. O rural representava o espaço das políticas compensatórias e paliativas. as práticas educativas implementadas para ambas as situações. 108). mercadoria. o urbano. um lugar onde projetos econômicos e políticos da cultura capitalista se instauravam demarcando o território do agronegócio. posteriormente efetivados na realidade rural. com pouca qualidade e recursos pedagógicos escassos. estrutura física inadequada: "A sala de aula é a sala da residência da professora. 90) enfatizam que.do trabalho. exclusão social e da expropriação de uns em detrimento de outros. as palavras geradoras foram elaboradas por especialistas em currículo e eram as mesmas para todos os grupos sociais do campo ou da cidade. O PROMUNÍCIPIO. o governo brasileiro implantou-se o MOBRAL em setembro de 1970. (MOLINA. atrasada. como: o Programa EDURURAL. Transforma a força de trabalho humana em objeto. Buffa e Nosella (1994. como diferentes. financiados por organismos internacionais. concentradora de bens. No período getulista ressaltava a implantação de programas educacionais. (SILVA. se constituíam em um único paradigma. mas não se partia da situação vivenciada pelos sujeitos e a alfabetização baseava-se em livros didáticos prontos e acabados nos quais. mas. cuja meta era a redução da taxa de analfabetos brasileiros. 77) que.

Essa tendência é denunciada pelo autor em trabalho anterior.As principais idéias da década de 1990 na educação brasileira sob a ótica de Vitor Paro As produções da década de 1990 Vitor Paro (1997. p. p. . 15). pois “estar livre é estar solto” (PARO. 12) afirma ser uma ideologia. A liberdade segundo Paro (1997. Paro (1997. a educação (. A cidadania. “É a liberdade do pássaro para voar. Paro (1997. em particular às educativas. os mesmos princípios e métodos administrativos vigentes nas empresas de capital. constitui-se fundamento da sociedade democrática. de aplicar a todas as instituições. essa liberdade está relacionada a espontaneismo. Quando se fala de liberdade de mercado. 11). Essa liberdade inserida no capitalismo está ligada ao mercado. As recentes tentativas de gerência da qualidade total nas escolas públicas do Brasil constituem caso particular da tendência que existe. a adoção de ser humano como sujeito histórico. A primeira reflexão acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da gestão da escola básica. voltando sua atenção para a escola pública de ensino básico. de permissão para fazer aquilo que gosta ou que se deseja. 15). 10) evidencia a importância da educação tanto para cidadania como para democracia.) é o recurso que as sociedades dispõem para que a produção cultural da humanidade não se perca. mas também é a liberdade para o leão comer o cordeiro” (PARO. sob o capitalismo. conclui-se que ela prega a liberdade de mercado. Isso. Nesse sentido. Desse modo a educação constitui a mediação pela qual os seres humanos garantem a perpetuação do seu caráter histórico (PARO. 1997. O paradigma reproduzido pela escola é o liberalismo econômico e esse pensamento prega a liberdade. respeitando as práticas escolares. pretende-se com isso. p. á luz dos quais precisa ser compreendida como governo do povo ou vontade da maioria. 9) são marcadas pela preocupação com a universalização do ensino público e democratização da gestão escolar. p. considerando que há reciprocidade e imbricidade entre as relações de cidadania. Em tudo isso.. democracia e educação. como síntese de direitos e deveres. 10) é uma sensação. p. A democracia transformou-se enormemente em seu percurso histórico. sendo coerente à condição dialógica e formadora de sujeitos da própria educação que ela esta inserida. passando de geração para geração. deixar que as relações sociais se dêem de acordo com as regras do mercado. liberdade é quase o oposto de prisão. 1997. enriquecendo-se de novos significados. sem que se interfira em seu natural desenvolvimento. Compreendida como apropriação do saber produzido. 1997. p. p.. No senso comum.

para a realização da liberdade como construção social” (PARO. Na dimensão social. Como explica o autor. trata-se de educar para viver bem” (PARO. 33). As necessidades naturais independem de sua vontade e a satisfação destas permite a ele apenas estar no mundo. 1999. o que gera um descontentamento marcante as últimas décadas ente os profissionais da área educacional. Isso porque o homem não se contenta com sua liberdade natural. a verdadeira liberdade humana. o homem não se contenta com satisfazer as necessidades naturais. naturalmente. porque para ele somente o “supérfluo é necessário” (PARO. assume uma posição de não-diferença distante do mundo. A educação entendida instrumento para a libertação do homem é. p. mas. 56) constata que o sistema público escolar necessita de uma educação orientada para a democracia. 1997. essa liberdade restrita ao domínio do natural – bem como o liberalismo que a adota – não basta para dar conta do homem em seu sentido histórico. o provimento de saber necessário para “o autodesenvolvimento do educando. transcedendo-a. porque. constrói a verdadeira liberdade (PARO. mas é a reação à natureza na medida em que. Assim. o homem é o único ser ético. o que faz o trabalho docente se distanciar cada vez mais de uma qualidade significativa. dando-lhe condições de realizar seu bem-estar pessoal e o usufruto dos bens sociais e culturais postos ao alcance dos cidadãos. considerada mera licença. Isto porque.. como construtor de sua própria humanidade. sobre ela. pois não traz correspondência entre a teoria e a prática na educação sobre a sua gestão. 1999. a partir dessa concepção de mundo mais abrangente. Em outra publicação. p. está ligada á formação do cidadão tendo em vista sua contribuição para a sociedade. em sua dimensão individual. Nessa autocriação. Se a democracia for entendida no sentido mais elevado de mediação para a construção e exercício do da liberdade social. pelo trabalho.Como o autor coloca. ou seja. Vitor Paro (1999. diversamente do animal e de tudo mais que há na natureza. É a natureza em condição de um corpo situado no mundo e condicionado por um semnúmero de necessidades. mas também é a transcendência dessa natureza. p. englobando todos os meios e esforços que se utilizam para . construindo um mundo novo ao seu redor. Ao aplicar sua atividade para a busca de objetivos. 16). 17).) o homem é a natureza. mas é produto da atividade humana em sua autocriação histórica. supera-as. o homem se constrói. aquela que empresta ao homem sua especificidade histórica. 33).. 1997. de modo que “sua atuação concorra a construção de uma ordem social mais adequada à realização do viver bem de todos. construindo sua própria história. (. reagindo a essas necessidades e a sua situação natural. não existe.

abrindo ao pesquisador da educação um amplo campo de questões a serem investigadas com vistas a esclarecer as razões de não-correspondências entre discursos e práticas e elucidar os determinantes da inoperância da escola em educar para a democracia e para o viver bem. Considerações finais A importância de se levar em conta a concretude da escola e a ação de seus atores na formulação de políticas educacionais – em relação às pessoas envolvidas no cotidiano escolar. Muito se tem falado sobre a incompetência política de nossa população. pois escolhe mal seus representantes. e a imprecisão e mesmo superficialidade de muitas produções sobre o tema têm concorrido para a falta de rigor nos discursos e nos propósitos sobre o real papel da escola que em nada contribui para uma formação realista do que se pretende e se deve defender como uma educação de acordo com os interesses do cidadão e da sociedade. sugere o autor. pode-se dizer. servindo somente àqueles interessados em protelar soluções ou em impor o ponto de vista dos donos do poder político e econômico. o objetivo da escola pública para a formação do pensamento democrático entre os cidadãos em formação. está embasada em um conjunto de questões que se relacionam mutuamente. e que. a partir de valores construídos historicamente. p. A reflexão. com respeito. indo desde os estereótipos de que o brasileiro não sabe votar. A multiplicidade de pontos de vista. nem sempre explícitos. então que. enfatizando. passando pela atribuição de falta de disposição para defender seus direitos e da negligência no cumprimento de seus deveres. poderiam sintetizar-se em quatro pontos que são propostos á reflexão daqueles cujo objetivo são as políticas públicas voltadas para a escola: A necessidade de um rigoroso dimensionamento do conceito de qualidade do ensino – refere-se à necessidade de empreender uma reflexão em profundidade do conceito de qualidade da educação escolar.concretizar historicamente grupos e pessoas. nojo à participação política e de falta de interesse em se associar a empreendimentos coletivos. parece que as políticas educacionais têm passado à margem da opinião daqueles de quem o . A dimensão social da educação para a democracia como função da escola pública – a necessidade de discutir o caráter ético-político da qualidade. a grosso modo. segundo Vitor Paro (1999. A situação atual da escola pública é muito mais complexa do que a breve reflexão pode sugerir. até a acusação de ojeriza. 35) “a dimensão social dos objetivos da escola se sintetiza na educação para a democracia”.

métodos e programas e organização horizontal e vertical do ensino) quanto a estrutura administrativa (organização do trabalho. p. Vitor Henrique . O papel estratégico da estrutura didática e administrativa na realização de funções da escola – a realidade das escolas públicas que se evidenciam o divórcio entre a prática escolar cotidiana e a perspectiva de uma consistente emancipação intelectual e cultural dos educandos. quais sejam. São Paulo. Palavras-chave: Políticas Públicas. isto é. Referências PARO. professores e estudantes. . dando-lhe sustentação material. mostra-se inoperante na maioria das vezes em que é acionado dentro da estrutura de participação cidadã dentro da escola. mas também sobre a natureza dos resultados. Xamã. p. 2. ed. Sendo as mediações para o alcance dos fins a que se propõem. 1996. dos objetivos efetivamente alcançados”. o que se verifica é que estrutura da escola mostra-se inteiramente consoante com esse divórcio.os atores da prática educativa escolar. O texto baseia-se nos registros dos Tapiris Pedagógicos e no Trabalho de Conclusão de Curso deste autor. programas. na medida em que não é concebida de modo favorecer a condição de sujeito dos agentes envolvidos (PARO. 47) é que a estrutura escolar não é neutra com relação aos fins educacionais “porquanto suas forças não atuam apenas sobre a eficiência do ensino.ensino depende inquestionavelmente para ser realizado. em especial. Gestão. aprofundados no pensamento de Vítor Paro e quais as contribuições deste autor para a gestão das escolas públicas situadas no meio campesino. Por dentro da escola pública. e distribuição do poder e da autoridade) precisam se dispor de modo coerente com os fins propostos. Resumo Este trabalho apresenta os elementos que formam as discussões sobre as políticas públicas de gestão escolar no âmbito da democratização de suas ações. 45) Isto é visível na própria atuação do conselho de escola. que é instituído presumivelmente para esse fim. Escola. A hipótese levanta por Paro (2001. defendido em 2009. tanto a estrutura didática (currículos. 2001.

1999. 2. São Paulo: Xamã. 2001. Luiz Fernandes (Org. . 2. São Paulo: Ática. 2000. ed. 1. São Paulo: Xamã. São Paulo: Ática. Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia.).) ._____________________. ed. 2001. Reprovação escolar: renúncia à educação. São Paulo: Cortez : Autores Associados. _____________________. rev. ed. A utopia da gestão escolar democrática. ed. ed. Cadernos de Pesquisa. _____________________. 1. Políticas públicas e educação básica. São Paulo. PARO. Fev. 2. Vitor Henrique (Org. 3. Administração escolar: introdução crítica. 1986. ed. _____________________. Gestão democrática da escola pública. DOURADO. _____________________. Nº 60. 2001.

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