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Esta obra constituiïm curso básico de Electrotecnia, abrangendo áreas como ENERGIA, ELECTRóCINÉTICA, ELEC-

TROOUÍMICA E CORRENTE ALTER.

NADA. Nela'são abordadas novas tecno-

logias'no âmbito da produção e trans-

Éorte,,nomeadamente centrais de incine-

ração e supercondutores. 'Todo o deseirvolvimento teórico é com-

'' plementado com um elevado número de problemas

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ErEcTRocrNÉn cA

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ENEN,GIA E ELECTR,ICIDADE

1.1 3IìTEAGI.A

Não é tarefa simples avançar uma definição de energia, sob pena de, aofazê-lo, ficarmos sempre aquém da universalidade do conceito. Na verdade, tendo a energia identidade própria, não só é curiosa a multiplicidade das suas formas como notável a sua interconversão. A energia é, por isso, um conceito omnipresente em toda a física, desde a física nuclear ou física das partículas, onde caprichosamente ela nega diferenciar-se da pró- pria matéria, à física das altas energias, onde subverte os conceitos tradicionais de espaço e de tempo.

r.1.1 PRrNCÍPrO DA CONSEF,VAÇÃO

A tudo isto se adiciona o pRtNCíptO DA CONSERVAÇÃO, segundo o quat

a energia total de um sistema em transformação mantém-se constante

ou, por outras palavras,

a energia não se perde nem se cria ou destrói, simplesmente se tÍansforma.

r.l.e coNcErro E DEFTNTÇÃO

Energia e trabalho são conceitos fisicamente equivalentes. Sem o rigor próprio de uma definição, podemos dizer que

eneigia é tudo aquilo que produz trabalho ou tudo o que dele pode resultar.

Em física, trabalho tem também um significado um pouco diferente do da lingua- gem comum. Assim, dizemos que um corpo realiza trabalho quando, sob a acção de uma Íorça, soÍre um deslocamento.

Os três exemplos seguintes põem em evidência a semelhança entre trabalho

g energia.

/t

A rotação do veio de um motor (fig. 1)

Fig. 1 -

motor é trabalho ou energia mecânica.

O deslocamento angular do veio de um

representa trabalho mecânico. Dizemos que

esse motor desenvolve energia mecânica' Também um corpo que está suspenso

a uma determinada altura do solo (fig. 2)

possui energia potencial ou de posição Wo' De facto, a qualquer momento ele pode rea- lizar trabalho, que é medido pelo produto da

força da gravidade que actua sobre a sua própria massa pelo deslocamento sofrido,

a altura h.

ENERGIA = TRABALHO = FORÇA x DESLOCAMENTO

Wo -

F, -
h

-

energia potencial força de gravidade

altura (deslocamento)

m massa do corPo

-

wo:Frh

<Fig. 2 -

O corpo suspenso a uma altura h relativa-

mente ao solo, actuado pela Íorça gravítica, pode rea-

lizar trabalho.

ELECTROMOTRIZ

A energia eléctrica surge igualmente

como resultado de um movimento de car-

gas eléctricas (trabalho) sob a acção de

+ uma força, que é a Íorça electromotriz do

próprio gerador (fig. 3).

Fig. 3 -

A energia

eléctrica é o resultado do des-

*

+ das cargas eléctricas

locamento orientado -

por acção da força electromotriz desenvolvida pelo gerador.

I.1.5 FOR,MAS DE ENEB,GIA E SUA INTER,CONVEN,SÃO

São múltiplas as formas de energia: eléctÍica, mecânica, luminosa, química, nuclear

e calorífica. Todas são interconvertíveis, isto é, podem transformar-se umas nas outras' Essas transformações podem ser directas ou indirectas, isto é, entre o processo

inicial e final de transformação podem aparecer ou não formas intermédias de energia'

f -

6

Um exemplo de transformação indirecta é a produção de energia eléctríca a partir

da energia térmica, processo que está na base de funcionamento das centrais termoe- léctricas. Como veremos oportunamente, quando de novo e mais pormenorizadamente falarmos nestas centrais, numa primeira fase a energia térmica é transformada em ener-

gia mecânica e só depois em eléctrica.

A transformação de energia química em eléctrica realizada pelas pilhas é, por outro

lado, um exemplo de transformação directa.

1.1.4 RENDIMEI\ïrO E QUALIDADE DE TnANSFORMAÇÃO

As transformações de energia não se realizam todas com a mesma facilidade nem rendimento. Na verdade, entre a energia fornecida ou absorvida inicialmente e a energia útil

pretendida no final existem sempre perdas que fazem com que esta última seja sempre

inferior à primeira. lsto permite-nos definir um rendimento para cada transformação,

tanto maior quanto mais próximos forem os valores de ambas. Veremos posteriormente

que o rendimento de uma máquina que realiza uma certa transformação de energia é calculado pelo quociente entre a energia útil e a energia por ela absorvida, isto é,

Um motor eléctrico, por exemplo, absorve uma determinada quantidade de ener- gia eléctrica superior à quantidade de energia mecânica que proporciona. A energia

de perdas é essencialmente calorífica e dissipa-se no ar circundante. Mas também exis- tem perdas de energia mecânica devido à vibração da sua própria estrutura. Ver fig. 4.

t- l"-

L-

W, -

energia absorvida (eléctrica)

Wu -

energia útil (mecânica)

Wo -

energia de perdas (calor e vibração)

Fig. 4 -

A energia útil é sempre inferior à energia absorvida.

Diagrama do rendimento duma transÍormacão.

Podemos generalizar dizendo que em toda a transformação resultam sempre per- das de energia, sendo uma boa parte de energia calorífica. Por seu lado, a transformação de calor noutra forma qualquer de energia é bem

mais difícil e realiza-se sempre com baixo rendimento, e isto leva-nos a dizer que

a energia caloríÍica é uma forma degradada de energia.

Pelo contrário, a energia eléctrica é facilmente convertível noutras formas de ener-

gia, apresentando elevados rendimentos de transformação, o que nos leva a dizer que

a energia eléctrica é uma forma nobre de energia.

energia fornecida

potencialmente

10090

1090

GRUPO

r_l

45s/o

energia de perdas

SVo

Fig. 5 - Aproveitamento energético e correspondente distribuição percentual das perdas mais signiÍicati-

-

vas nos diÍerentes componentes duma central termoeléctrica convencional'

< Fig. 6 -

Rendimento de transformação num aque

cedor eléctrico.

Para ilustrarmos este facto basta comparar o baixo rendimento de transformação

de energia calorífica em energia eléctrica, numa central térmica convencional

(fig. 5), com o elevado rendimento associado à transformação de energia eléctrica em

calor por um simples aquecedor eléctrico (fig. 6).

No primeiro caso temos um rendimento de 407o severamente condicionado pelas perdas na caldeira (1OVü e no grupo gerador (5O%). No segundo caso, o rendimento é bem mais elevado, praticamente 10O%.

I.1.5 FONTES DE ENEB,GIA

Designam-se por FONTES DE ENERGIA ou ENERGIAS PRIMÁRIAS as origens das

diferentes formas de energia. Assim, o sol, o vento, o mar, os rios, o petróleo, o

carvão, etc., são fontes de energia. Unicamente no propósito de relacionar algumas

das energias disponíveis na natureza com as suas origens, têm particular designação

as seguintes:

I ENERGIA EOLICA

I ENERGIA SOLAR

I ENERGIA HIDRÁULICA

I ENERGIA DAS MARÉS

- energia mecânica proporcionada pelo vento.

- energia radiante que provém do sol.

- energia mecânica (cinética) resultante das águas em movimento ou (potencial) quando armazenadas em represas.

- energia mecânica proporcionada pelos caudais asso-

ciados às diferentes amplitudes das marés.

I ENERGIA GEOTÉRMICA - energia caloríÍica libertada sob a forma de vapor e elevada pressão, em alguns pontos da crusta ter- restre (aproveitamento de géiseres).

: BIOMASSA

- energia química e calorífica proporcionada por lixos

ou efluentes orgânicos, industriais, agrícolas ou

domésticos.

I.I.6 ENER,GIAS F,ENOVÁVEIS

Todas as formas de energia que referimos constituem as chamadas ENERGIAS

RENOVAVEIS, isto é, que estão em constante renovação na natureza.

Por outro lado, os combustíveis fósseis, como o carvão, o gás e o petróleo, assim como os combustíveis nucleares, ainda que existam em quantidades consideráveis,

rapi-

as suas reservas, no entanto, são limitadas. A sua longa génese contrasta com a

dez do seu consumo. constituem as chamadas ENERGIAS NÃo RENovÁvEls.

1.A EIrERçI.A SLECTn.IC"A

Ì.2.I A CADEIA DE ENERGIA

Designa-se por CADEIA DE ENERGIA o sistema global de produção, trans- porte e distribuição de energia eléòtrica.

Estas são as três etapas do processo, desde a sua origem à sua própria utilização.

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PT -

centÍal hidroeléctrica

subestação transformadora

elevadora

transformadora nnnn pr'mÁRn

OU

subestação

abaixadora

posto de transformação

CRANDETRANSPORTE

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GRANDE

E

PEQUENA

DISTRIBUIçÃo

Fig. 7 -

Diagrama de blocos num sistema eléctrico de energia.

r.e.r.r A PnoDUçAo

A produção situa-se ao nível das CENTRAIS ELECTROPRODUTORAS. Nestas faz-

-se o aproveitamento por conversão de uma Íorma de ENERGIA PRIMARIA em ener- gia eléctrica. O tipo de energia primária utilizada define e caracteriza o tipo de central. A produção industrial, em larga escala, de energia eléctrica faz-se recorrendo fun- damentalmente a três tipos de centrais eléctricas:

n cENTRATS HtDRoELÉcrntcns

! CENTRAIS TERMoEI-Écrnlcns coNVENcIoNAIS

N CENTRAIS NUCLEARES

As GENTRAIS HIDROELÉCfntCnS utilizam como energia primária a energia hídrica

dos rios, isto é, tazem o aproveitamento da energia cinética das águas correntes.

As CENTRAIS TÉRMICAS CONVENCIONAIS fazem o aproveitamento da energia

térmica proporcionada pela queima dos combustíveis Íósseis, nomeadamente do Íue- lóleo, do carvão e do gás natural. As GENTRAIS NUCLEARES são ainda centrais térmicas, mas de características

especiais. Fazem o aproveitamento das enormes quantidades de energia calorífica asso-

ciada à desintegração de núcleos atómicos de materiais radioactivos. O urânio e o plu- tónio constituem os principais combustíveis atómicos utilizados, dado serem elemen-

tos pesados facilmente cindíveis.

lndependentemente do tipo de central em causa, o alternador transforma a ener- gia mecânica de rotação do veio em energia eléctrica a uma tensão que se designa

por TENSÃo DE PRODUçÃO.

TENSÃO DE PRODUçÃO C a tensão disponível à saída do gerador.

Os valores variam consoante o gerador da central, mas situam-se, normalmente,

entre os 6 kV e os 25 kV.

1.E.I.E O TNANSPONTE

A etapa seguinte designa-se por TRANSPORTE e destina-se a f azer chegar a ener- gia produzida aos centros de grande consumo. Estes situam-se, normalmente, em pon-

tos muito afastados dos locais de produção, distando, em regra, algumas centenas

de quilómetros. Noutras situações, a energia faz percursos consideravelmente mais

basta lembrarmo-nos

que a rede nacional se encontra interligada à rede europeia, permitindo a circulação

de energia entre os diferentes países que subscrevem o acordo.

Para uma dada TENSÃO DE TRANSPORTE, quanto maior for a distância a vencer

maior serão as perdas de energia nas linhas. O processo de reduzir essas perdas é aumentar a tensão de transporte proporcio-

nalmente à distância a vencer. Para o efeito existe um conjunto de TENSÕES NOR-

MALIZADAS DE TRANSPORTE em relação às quais se fabrica toda uma gama de apa-

relhagem com características adequadas. As tensões mais utilizadas são: 15O,22O,4OO,75O e 1OO0 kV.

Na escolha da referida tensão ainda que levar em consideração o custo de todos

esses materiais e equipamentos, que aumentam significativamente com o aumento

da tensão escolhida. Junto da centralexiste uma SUBESTAçÃO TRANSFORMADORA ELEVADORA que

possui um ou mais TRANSFORMADORES DE POTÊNCIA e que elevam a tensão de produção para os valores de transporte.

longos, atingindo, em alguns casos, milhares de quilómetros -

Nessa subestação existe ainda um PAROUE DE LINHAS onde nascem as linhas que conduzem a energia eléctrica dali para outros locais mais distantes.

Um conjunto de aparelhagem de manobra em alta tensão permite modificar a con-

figuração da rede mediante a selecção das linhas a utilizar ou a colocacão fora de ser- viço de qualquer linha ou aparelho que se entenda necessário.

As linhas aéreas são constituídas por condutores nus, geralmente em cobre ou alu- mínio, suspensas por isoladores em colunas de MAT (muito alta tensão), e dirigem-se

para a periferia das grandes cidades, onde existem SUBESTAçÕES TRANSFORMA- DORAS ABAIXADORAS, cuja função, inversa das primeiras referidas, se destina a baixar o nível da tensão de transporte para valores da ordem dos 60, 30 ou 1 5 kV.

t*

I

*-

MAT -

muito alta tensão

AT -

alta tensão

.

-

x -

< Fig. 8 -

condutores activos condutores de protecção

Estruturas de apoio usa-

das no transporte de energia.

Na fig. I podemos apreciar em particular duas configurações típicas de postes uti-- lizados no transporte da energia em alta tensão. São de estrutura reticulada, em aço

ou liga de alumínio, e devidamente tratada contra a corrosão por pintura ou metalização.

Designa-se por REDE PRIMARIA ou REDE DE GRANDE TRANSPORTE o con- iunto de linhas de MAT e aparelhagem associada, eomprêêndida entre as subes-

tações elevadoras e as subestações abaixadoras.

r.e.r.5 A DrsTnrBUrÇAo

I Grand.e d.istribuição

Oualquer daqueles níveis de tensão é ainda demasiado elevado para que possa ser

utilizado, quer pela indústria em geral, quer pelos próprios consumidores domésticos. Das subestações transformadoras abaixadoras saem novas linhas, que terminam nos PT'", isto é, POSTOS DE TRANSFORMAçÃO, onde o nível da tensão é finalmente reduzido para os 22Ol38O V, a que se chama também TENSÃO DE UTILIZAçÃO,

O troço

de rede assim descrita, com origem nas subestações abaixadoras e termi- postos de transformação, designa-se por REDE DE DISTRIBUIçÃO pRUVln-

nando nos

RIA ou DE GRANDE DISTRIBUICÃO.

t Peqïrena d.istribuição

Finalmente e com origem nos postos de transformação, partem as linhas que abas-

tecem em energia eléctrica os consumidores domésticos, pequenas indústrias, ilumi- nação pública, etc. Estas linhas são pouco extensas (algumas centenas de metros) e no seu conjunto constituem o que se designa por REDE DE DISTRIBUIçÃO SECUN-

DARIA ou DE PEOUENA DISTRIBUICÃO.

L.2.2 UTTLTZAÇAO

A utilização é o termo genérico que caracteriza as instalações afectas a cada

consumidor. As instalações eléctricas de uma fábrica, de um escritório, de um inqui-

lino ou conjunto de inquilinos de um mesmo edifício, são instalações de utilização. Estas

diferentes categorias de consumidores têm características próprias.

Podemos distinguir entre consumidores de:

o baixa tensão (BT) -

22Ol38O V

o

r

média tensão (MT) -

alta tensão (AT)

6 kV, 15 kV, 30 kV

- 60 KV

I.8.5 OS CONSUIUTOS E O DIAGN,AMA DE CAN,GA

O! diferentes consumidores têm características próprias, que se reflectem em varia-

ções da carga solicitada à rede. Para além das pequenas variações pontuais existem variações típicas diurnas, semanais, mensais e anuais. Durante o dia, por exemplo, é maior o consumo nas horas de trabalho, em que as indústrias e o comércio estão

em plena laboração, do que nas horas pós-laóorais, em particular as nocturnas, preen-

chidas, na sua maior parte, por utilizadores domésticos e iluminação pública. Ao longo do ano também é previsível um consumo de energia maior no lnverno do que no Verão, o que está de acordo com as variações da temperatura ambiente e o número de horas de luz do dia.

Fig. 9 -

P -

potência consumida

|

vazio da noite

-

2 pico da hora do almoço

-

3 -

vazio da hora do almoço

4 pico do firn da tarde

-

Diagrama de carga típico de um dia útil. >

É a nível do grande transporte e da produção que se reflectem os grandes consu-

mos de energia. Este consumo, apesar de ser um somatório de cargas aleatórias a nível

da utilização, assume, no transporte, comportamentos estatísticos de que nos dão

conta os chamados diagramas de carga (fig. 9).

Os DIAGRAMAS DE CARGA são gráficos que Íazem o registo dos diÍerentes consumos (em termos de potência) em função do tempo.

L.2.4 DESPACHO DA R,EDE PB,IMÁR,IA

Ao contrário de outras formas de energia, a energia eléctrica não é possível

armazenar-se em quantidades apreciáveis. lsto significa que a produção de energia tem de igualar o consumo em cada momento.

Existe, por conseguinte, um órgão coordenador que, adaptando a produção ao con- sumo em função dos diagramas de carga, decide qual o índice de participação de cada uma das centrais na rede nacional, na própria rede europeia, e selecciona ainda a con-

figuração da rede mais adequada às potências em trânsito.

r.2.5 MErOS DE PnODUÇÃO DA ENERGTA ELECTB,TCA

I.E.5. I CENTNAIS ÏTÏDNOELÉCTHCAS

Um aproveitamento hidroeléctrico é constituído essencialmente pelas segu'intes

partes, que podemos identificar na fig. 1O:

A -

B -

barragem

circuito hidráulico

8.1 - tomada de água

8.2 canal de adução

-

8.3 condutas forçadas

-

c- central eléctrica

Fig. 10 -

I

5

Perfil longitudinal de um aproveitamento hidroeléctrico.

2-canal de adução;

-barragem;

-

8 -

conduta forçada; 6 -

parque de linhas; 9 -

3 -chaminé de equilíbrio; 4-càmara de pressão;

subestação transformadora elevadora;

central subterrânea; 7 -

canal de descarga.

A _ BARRAGEM

É essencialmente uma obra de construção civil. Tem por objectivo reter os cau- dais afluentes de um rio, permitindo regularizar e optimizar as condições de explora- ção segundo as quais se seleccionam os caudais de turbinagem.

Como resultado, dá-se uma elevação do nível das águas na região imediatamente

a montante da barragem, criando-se uma REPRESA ou ALBUFEIRA. A sua maior ou

menor extensão depende da maior ou menor distância a que o nível das águas encon-

tra de novo a cota natural do rio.

Nuns casos, pretende-se fundamentalmente criar um acentuado desnível entre as cotas de montante e jusante, sendo secundário o armazenamento dos caudais. lsto

CATACIET|ZA OS APROVEITAMENTOS

DE ALTA OU TUÉOIA OUEDA.

Noutros casos, é prioritário o armazenamento e secundário o desnível. lsto caracteriza os APROVEITAMENTOS DE BAIXA OUEDA ou APROVEITAMENTOS

A FIO-DE-ÁGUA.

B _ CIRCUITO HIDRÁULICO

8.1 _ TOMADA DE ÁGUA

É a des(lnagão dada, no Eou conjunto, a todo o equipamento que se destina à captação-e regulação do caudal de alinrentagão das turbinas.

Na captação deste caudal existem umas redes metálicas de forte emalhado que

constituem filtros, evitando a entrada de pedras, ramos de árvores ou quaisquer outros

detritos que, arrastados pelas águas, podèriam passar ao circuito hidráulico. Aí cau- sariam, com certeza, a deterioração e mau funcionamento dos diversos órgãos, em particular das comportas e turbinas. Na fig. 11 mostra-se, em pormenor, uma obra de tomada de água.

8.2 _ CANAL DE ADUCÃO

Este canal não se O"r,in" " criar fortes desníveis, pelo que se desenvolve sem grande

declive, tendo como objectivo o encaminhamento da água até junto da turbina ou até às suas proximidades, onde começam as condutas forçadas. Pode existir a céu aberto ou em galeria subterrânea. Pode ser muito ou pouco extenso, o que depende da situação da central. Pode inclusive não existir.

8.3 -

CONDUTAS FORçADAS

As condutas forçadas, geralmente em aço, destinam-se a acelerar, por gravidade,

a água que irá movimentar a turbina ou turbinas.

I

-

2 -

3 -

torre de tomada de água

cornporta deslizante

rede da comporta

4 canal de adução

-

5 câmara de pressão da turbina

-

6

-

piso técnico (casa das máquinas)

7

-

tubo de restituição

8

-

cota de água (montante)

9

-

cota de água (iusante)

Fig. 11 -

Corte longitudinal de uma barragem e central hidroeléctrica.

C -

CENTRAL ELÉCTRICA

A água, ao entrar a grande pressão nas turbinas, provoca o movimento de rotação

das suas palhetas, que é comunicado ao eixo do alternador. Este transforma a energia mecânica em energia eléctrica.

A turbina chama-se rambém MÁoutNA pRtMÁRlA.

Chama-se ainda GRUPO GERADOR ao conjunto MÁoUINA PRIMÁRIA-ALTER- NADOR.

A saída do alternador dispõe-se de um sistema trifásico de energia. A tensão de

produção é, como já se disse, variável, consoante o grupo instalado. Daqui a corrente é conduzida por BARRAMENTOS até à subestação transformadora elevadora e daí

enviada por linhas de muito alta tensão -

MAT - até aos centros de consumo.

A fig. 1 2 mostra, em corte, uma central subterrânea, com particular realce do con-

junto alternador-turbina.

U

-

I

ponte rolante

 

-

2

piso técnico e alternador

 

-

3

turbina e câmara de turbina

 

-

4

válvula de admissão

 

-

5

-

tubo de restituição

Fig. 12 -

Alçado do edifício de uma central hidroeléctrica, onde se podem ver o alternador e turbina verti-

cal com câmara espiral em chapa de aço. Diante da turbina pode ainda ver-se uma válvula esférica de fecho

de accionamento óleo-hidráulico de grande diâmetro.

I.2.5.2 CENTNAIS TENMOELECTNÏCAS

I Centrais tórmicas convencionais

São centrais que utilizam os combustíveis fósseis como matéria-prima, nomeada- mente o carvão, o fuelóleo ou o gás natural. O esquema da fig. 13 mostra-nos no essencial como é constituída uma central a carvão, elucidando-nos também sobre o seu funcionamento.

1 -

2 -

3 -

4 -

5 -

chegada de combustível

caldeira

fornalha

câmara de fumos

turbina

6 alternador

-

7 -

8 -

9 -

excitatriz

transformador

torre de

refrigeração

Fig. 13 -

Esquema de uma central termoeléctrica.

10 -

1l -

12 -

bomba de circulação de água de refrigeração

bomba de alimentação da caldeira condensador

Fundamentalmente, podemos distinguir os seguintes elementos, cuja acção é per-

feitamente diferenciável :

N O OUEIMADOR

O combustível é encaminhado para este órgão, onde é inflamado. No caso das cen-

trais a carvão, toma a designação especial de FORNO.

N A CALDEIRA

A quantidade de calor libertado na combustão é transmitida directamente à cal- deira. No interior desta existe um reservatório e um sistema de tubagem com água, onde esta passa rapidamente ao estado de vapor, atingindo pressão elevada. A capacidade da caldeira mede-se pela máxima pressão e temperatura do vapor

que produz.

N GRUPO TURBINA-ALTERNADOR

O vapor é conduzido em canalização conveniente à turbína, onde se expande, pro- vocando o movimento de rotação das suas palhetas e naturalmente do seu eixo. Soli- dário com este, está o eixo do alternador, que produz energia eléctrica. Por vezes, nestes tipos de centrais encontramos mais que uma turbina por grupo. Normalmente existe uma turbina de alta pressão, uma de média e, finalmente, uma

de baixa pressão. Esta montagem destina-se a fazer o aproveitamento da pressão do vapor ainda exis-

tente à saída da primeira e segunda turbinas, que doutra forma seria desaproveitado.

N O CONDENSADOR

À saída da turbina, o vapor, com pouca pressão e temperatura, é conduzido ao

CONDENSADOR e daí a uma TORRE DE REFRIGERAÇÃO. No condensador, a tuba-

gem onde circula o vapor é posta em contacto com água fria corrente, retirada, geral- mente, do mar ou rio existente nas proximidades da central. lsto tem como resultado

a condensação do vapor, e a água que de novo se forma é bombeada para a caldeira,

fechando-se assim o circuito.

I Gentrais d.e incineração e Brod.ução d.e exxergia eléctrica

tr APROVEITAMENTO

DE LIXOS: RECICLAGEM E BIOMASSA

Os lixos e efluentes urbanos, industriais ou agrícolas, são hoje considerados fonte

importante de energia renovável.

O aproveitamento energético dos lixos, que hoje se faz em larga escala, é reali- zado fundamentalmente de duas formas:

.

RECICLAGEM

o BIOMASSA

A RECICLAGEM consiste numa selecção prévia, seguida de armazenamento

e tratamento, de Ínatérias recuperáveis, como vidro, estanho, alumínio, etc.

lsto traduz-se numa expressiva economia de matéria-prima e, consequentemente, de energia gasta no seu fabrico.

A composição dos lixos é muito variável consoante o tipo de sociedade que o produz. Vejamos, a título de exemplo, a composição do lixo produzido pela cidade de Lisboa:

matérias fermentáveis

43o/o

partículas inferiores a 25 mm

21o/o

papel e cartão

14o/o

plásticos

8o/o

vidro

4Vo

têxteis

3o/o

metais

2o/o

outros

5o/o

o

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Estas percentagens, após tratamento, equivalem a 27o/o de resíduos e a 2Oo/o de matéria orgânica seca. Nesta última encontramos um alto teor de cálcio, carbono

e azoto.

A BIOMASSA pode deÍinir-se como a ENERGTA DA MATÉR|A ORGÂNICA.

Apesar das variações que análises do género possam revelar quanto à composi- ção de outros lixos de cidade, ou ainda de esgotos, efluentes industriais, detritos hos-

pitalares, resíduos agro-pecuários ou florestais, neles sempre se pode encontrar matéria

orgânica em significativa percentagem.

A partir desta, como nos ilustra a fig. 14, fabrica-se um combustível sólido de elevado poder calorífico que chega a ultrapassar o de algumas lenhites e, em

alguns casos, a rivalizar com o de algumas turfas. Estes valores variam entre as 1500

e as 4300 kcal/kg.

Pode dizer-se, de certo modo, que, num balde de lixo doméstico, em média, podem

aproveitar-se 3 kW de energia eléctrica ou 12 kW de energia calorífica, o que é apro- ximadamente equivalente. Este tipo de combustível pode ser utilizado por uma central termoeléctrica como a descrita anteriormente, com a única diferença da caldeira, que tem de ser especial- mente desenhada para o efeito.

Desta forma, reduz-se o consumo de outros combustíveis comparativamente

mais caros e, consequentemente, a dependência energética do país relativamente ao exterior.

I Centrais nucleares

As centrais nucleares são ainda centrais térmicas, diferindo das convencio-

nais essencialmente pelo tipo de combustível utilizado e na forma como é pro-

duzido o vapor.

! ESOUEMA GERAL DUMA CENTRAL NUCLEAR

A fig. 15 mostra sumariamente a constituição e modo de funcionamento duma

central nuclear com reactor de água pressurizada (PWRI.

O reactor nuclear é encerrado numa cuba em aço de grande espessura e esta num

edifício de betão projectado para suportar sismos de grande intensidade, chamado EDIFíC|O DE CONTENçÃO. A água que enche todo o núcleo do reactor possui um elevado índice de contami-

nação radioactiva, pelo que se faz passar por um PERMUTADOR DE CALOR, transfe-

rindo para um circuito hidráulico independente o calor e a pressão necessárias para

o vapor de água actuar no corpo da turbina. Todo o processo subsequente de produção de energia eléctrica é comum a

qualquer central térmica tradicional.

I

elemento de combustível

-

2 barras de controlo

-

3 -

4 moderador (grafite)

cuba

-

5

-

6 -

refrigerador

permutador de calor

7 protecção biológica

-

8-turbinaavapor

Fig. 15 -

Esquema geral do núcleo dum reactor nuclear.

9 -

l0 -

alternador

transformador

ll - condensador 12 - bombas de circulação

N COMBUSTíVEL NUCLEAR

Dos elementos transuranianos de grande massa, são os isóto-

pos 235 do urânio e 239 do plutónio os combustíveis nucleares mais utilizados, devido ao facto de serem facilmente cindíveis. Para que estes elementos possam servir como combustível

nuclear terão de passar por uma fase de enriquecimento. No urâ- nio natural, por exemplo, a percentagem de isótopo 235 é muito

reduzida, oscilando entre os O,3 e O,7o/o. Após tratamento ade-

quado, obtém-se um combustível com maior percentagem de isó-

topo, podendo atingir 10% ou mais.

N REACTOR NUCLEAR

É constituído por: .

ELEMENTO DE COMBUSTíVEL

92-Ne

U

Urânio

atómico

(2351- N3 massa

$zt

pU

-

Plutónio

x3

atómico

(2391- N: massa

a BARRAS DE CONTROLO FLUIDO MODERADOR E REFRIGERADOR

ELEMENTO DE COMBUSTÍVEL

O material radioactivo é fabricado em forma de pastilhas e é alojado em varas que,

para o efeito, possuem cavidades apropriadas e se agrupam em feixes, formando um elemento de combustível.

BARRAS DE CONTROLO

São feitas de material altamente absorvente de neutrões, como o boro e o cádmio, que, ao introduzirem-se, mais ou menos profundamente, no núcleo do reactor, tra- vam o desenvolvimento da reacção evitando que se atinjam temperaturas demasiado elevadas que possam levar à fusão do próprio reactor, bem como evitar que se atin- jam níveis perigosos de radiação.

MODERADOR

É geralmente água pesada e destina-se a reduzir a velocidade dos neutrões muito

rápidos que se formam nas reacções, a fim de que eles possam produzir novas cisões.

O moderador pode ser aproveitado, simultaneamente, como fluido refrigerador do núcleo, absorvendo o calor necessário à produção de vapor.

n crsÃo NUGLEAR E REACçÃO EM CADEIA

Ouando os núcleos de átomos pesados são atingidos por neutrões de baixa velo- cidade (neutrões lentos), dividem-se em duas partes, que se repelem violentamente (fig. 16). Ao mesmo tempo libertam-se novos electrões, em média dois ou três por cisão, e enormes quantidades de energia.

Fig. 16 -

90 Kr

36

90 Kr

36

ao

neutrão

Reacção nuclear em cadeia obtida por bombardeamento do ufânio 235 por neutões lentos.

Os fragmentos obtidos em cada cisão são o crípton e o bário.

'ilu + à" *

"t|v + ïrr

+'118a + 2àn + energia

Para se avaliar o potencial energético do processo, basta referir que a cisão de um átomo de Ur.u liberta 250 milhões de electrão-volt. Para um determinado valor da massa de material cindível, designada por massa crítica, o número de neutrões libertados será suficiente para desencadear por si

novas cis