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COMPREENSÃO DE Os Maias

COMPREENSÃO DE Os Maias

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Os Maias A obra-prima de Eça de Queirós, publicada em 1888, é uma das mais importantes de toda a literatura narrativa portuguesa

. Vale principalmente pela linguagem em que está escrita e pela fina ironia com que o autor define os caracteres e apresenta as situações. É um romance realista (e naturalista) onde não faltam o fatalismo, a análise social, as peripécias e a catástrofe próprias do enredo passional. A obra ocupa-se da história de uma família (Maia) ao longo de três gerações, centrando-se depois na última geração e dando relevo aos amores incestuosos de Carlos da Maia e Maria Eduarda. Mas a história é também um pretexto para o autor fazer uma crítica à situação decadente do país (a nível político e cultural) e à alta burguesia lisboeta oitocentista, por onde perpassa um humor (ora fino, ora satírico) que configura a derrota e o desengano de todas as personagens.

Inserção do Autor na sua Época

Não só de inserção, mas até de imersão apetece falar neste caso. Imerso na substância cultural da sua época, dela impregnado e alimentado, assim surge Eça de Queirós em tudo quanto deixou escrito. A crítica tem insistido com significativa frequência nesta intima relação do escritor com a sua época, que ele nitidamente reflecte nas atitudes de pensamento e de sensibilidade, ao mesmo tempo que a critica, às vezes com um jeito melancólico de distanciamento. Aliás, logo essa consonância com o tempo que vive, essa atenção ao acontecer e pensar do mundo seu contemporâneo, constitui um dos aspectos em que a personalidade do escritor melhor coincide com a mentalidade do seu tempo. O intelectual da segunda metade do século XIX, com efeito, vive agudamente a consciência da história; dir-se-ia que é o primeiro a ter, da aventura humana sobre a terra, uma larga visão, dinâmica e panorâmica; é um espirito atento ao fluir e refluir do devir histórico, e a cada momento busca, como o mareante que faz o ponto do navio, situar-se no largo mar do tempo. A história é o grande tema e o grande problema da cultura europeia oitocentista. E neste aspecto, o fino artista da palavra, sem ser historiador, revela-se mais integrado no clima cultural do seu tempo do que os outros que o foram. Porque não se trata de fazer história, mas de sentir a Historia. E na obra de Eça de Queirós domina, de modo incontestável, a historicidade das cenas, das personagens, das situações. Ninguém como ele para surpreender com agudeza a cor da época, o estilo inconfundível de um momento de vida, seja ele a lendária grandeza das eras

homéricas, ou o tempo- decorrido havia escassos trinta anos- daquela fantástica Coimbra onde se esboçava a primeira reacção contra «as literaturas oficiais», e que o humor e a saudade do romancista atira para uma distancia quase tão mítica como a da formosa ilha de Ogígia. Um escritor autêntico- é óbvio- não adere «de fora para dentro» a uma tendência, mesmo dominadora, da época em que vive. E se, como vimos, Eça de Queirós sintoniza de modo perfeito com o século XIX no penetrante sentido do tempo histórico, isso deve-se, em larga medida, à própria qualidade do seu espirito, extremamente sensível à especificidade das coisas, àquilo que, pela boca de Fradique, ele chamava «as linhas exactas, o verdadeiro contorno da realidade», ou o «exacto, real e único modo de ser» de cada fenómeno. O sentido dos estilos- na mais ampla acepção do termo- tão peculiar da obra queirosiana, é assim ao tempo tendência de uma personalidade de artista e tributo pago ao historicismo absorvente desse século XIX em que tão profundamente imergiu. Este historicismo surge alias como corolário do vasto movimento de ideias, espécie de explosão cultural a que o século assiste. As ciências da natureza descobrem então, com Darwin e Haeckel, para não lembrar senão dois nomes indispensáveis, perspectivas insuspeitáveis sobre a origem e a evolução da vida; as ciências do Homem, a antropologia, a sociologia, a filosofia, algumas recém-criadas, lançam o europeu na devassa do passado humano, na busca das origens, ou na dedução das leis que se supõe regerem as sociedades. No plano artístico, a descoberta ou revalorização de motivos que o Romantismo aflorava sem chegar a aprofunda-los –tudo isso aliado às novas praticas políticas e às novas técnicas que aceleram o movimento editorial, intensificam a escolaridade e assim contribuem para uma decidia democratização do saber –vai criar, ao longo do século, uma espécie de deslumbramento, quase a idolatria da chamada cultura. Também neste aspecto Eça de Queirós se insere harmoniosamente na sua época –pois a cultura não só condiciona, como é natural, a sua criação artística através das vastas leituras e várias influencias que recebeu, mas é em si mesma um tema e um problema constantemente retomado na sua obra. Eça desperta, por assim dizer, para a vida literária, sob o signo do romantismo. E esse signo o marcará toda a vida, através da diversidade de encontros e descobertas intelectuais que irá realizando. Ao leitor menos prevenido poderá parecer paradoxal que isto se diga de um escritor que se define como mestre e de certo modo iniciador do realismo em Portugal; se não participou na ofensiva contra Castilho, em 1865, respirou pelo menos o ambiente espiritual onde se gerava esse ataque; de um escritor, em suma, que pertenceu à chamada «geração de 70». Mas o próprio Eça, alem do testemunho indirecto que nos deixou, reiteradamente afirma, ao longo da sua vida, a importância que no seu destino de artista teve o Romantismo, não tanto enquanto estética literária como enquanto sensibilidade, atitude perante si mesmo e perante o mundo. Aliás, para se compreender o alcance desta afirmação aparentemente paradoxal –que o grande realista ficou afinal sempre marcado pelo Romantismo- necessário se torna ter presente a complexidade do momento em que o nosso autor se inicia nas leras: Romantismo e Realismo/ Naturalismo não se sucedem, naturalmente, de forma rigidamente delimitada; e naqueles anos do

meio século XIX justamente coexistiam na Europa formas extremas de inspiração romântica com afirmações cabais de um novo sentido para a literatura e a arte em geral. Importa por outro lado observar que «o romantismo continha em germe o realismo». A escola de Coimbra não foi a principio uma aberta reacção anti- romântica; aquela geração, a de Eça, vivia ainda o culto de muitos valores românticos –o idealismo, a visão simbólica da Historia, o mito da alma nacional, tão presentes em Teófilo e Antero. De realismo (termo que em França surgira pela primeira vez em 1843 e que o êxito- escândalo de Madame Bovary (1857) definitivamente consagrara) quase não se fala ainda, em toda aquela Questão de Bom- Senso e Bom Gosto. Os mentores do grupo denunciam, sim, o alheamento acéfalo em que a literatura portuguesa se mantinha dos grandes problemas do seu tempo, mergulhada ainda, como dizia Balzac a respeito do romance da sua época, nas mélancolies langoureuses de 1820 ou nas exagérations colorées de 1830 – numa palavra, no que esses jovens consideravam estafados lugares- comuns da maneira romântica. Aquela geração não recusava, antes pelo contrário reconhecia e estimava a herança genuína do primeiro romantismo português; admirava a naturalidade elegante e o nacionalismo esclarecido de Garrett (de quem Ramalho Ortigão ficaria devoto fiel) e a austera inteireza, o verbo solene de Herculano (a cuja influencia Antero pagou o seu tributo). Mas não ignorava que os tempos tinham mudado, que as letras pátrias tinham malbaratado a lição desses grandes mestres, e que urgia –como aliás aconselhavam todos os românticos desde Madame Stael, -fazer da literatura a expressão dos novos tempos. Nesse espirito de revitalização do Romantismo se deve entender a poesia juvenil se Antero, tanto as Odes Modernas (1865) como até em parta a recolha que só anos depois publicaria sob o titulo, já então critico, de Primaveras Românticas. Nessa poesia –daquela que Eça dizia ter-lhe ouvido declamar por certa noite de luar nas escadas da Sé Nova –o culto da energia e do esforço contra a melancolia paralisante, a esperança numa aurora de justiça e de verdade, a rebelião contra um passado de opressão e obscurantismo são a seiva que vem fazer reflorir numa sonhada primavera o velho tronco romântico, onde se corria então uma linfa débil de saudosismo e sentimentalidade deliquescente. Isto é, se aqueles jovens recusavam o romantismo postiço e arcaico de Castilho nem por isso eram, em 1860 ou 65, menos românticos: só que o romantismo deixara de se confinar, depois das revoluções de 1830 e 48, em França, ao lamento lírico da alma individual: animava-o um empenho de progresso, um largo humanitarismo proudhoniano, uma indignação huguesca contra todas as tiranias, uma crença ardente na Revolução e, já sob a influência de Comte, na Humanidade. Eça no entanto –e não é apenas o seu testemunho directo que o afirma, mas a sua obra daqueles anos que o revela –mantinha-se alheio a esse tipo de renovação. O seu romantismo daquela época (os anos em que planeia ou esboça as primeiras prosas que mais tarde chamaria «bárbaras» ) não é nem dos primeiros românticos portugueses, nem, evidentemente, o ultra-romantismo já cediço, a caduca e académica inspiração da «escola de Lisboa». Mas também não se identifica com o das Odes Modernas ou o das Tempestades Sonoras. Mais artista e mais divagante, mais ávido de novidade e de sensação do que qualquer dos outros, Eça vai haurir a sua inspiração em filões mais poéticos e descomprometidos do que as fontes austeras em que bebiam Antero e Teófilo (a filosofia

(que cita em primeiro lugar. um distintivo de superioridade e elegância intelectual. a verde Erin. por instâncias de Antero). Mas é duvidoso que tivesse grande trato com a filosofia de Hegel. Por todos os botequins de Coimbra não se celebrou mais senão essa rainha de força e graça. o amor à Irlanda. sem duvida. e quantos outros! (. logo após a conclusão da formatura e saída de . por essa época. seduziam-no o lirismo humorístico e doloroso de Heine (em tradução). este texto.». o sentido épico da História humana. fazíamos por vezes achados bem singulares: . sob o titulo Antero de Quental) esboçou a largos traços vivos o panorama do momento cultural em que decorreram os anos da sua formação coimbrã: «Cada manhã trazia a sua revelação. no ultra-romantismo. escrito bons trinta anos depois da época a que se refere. Com efeito. e Balzac.. que evoca «de memória».. a esmeralda céltica. (. e Hugo. Era Michelet que surgia. vestida de cassa branca ao luar. Que encanto e que orgulho! Começamos logo a amar a Humanidade. pisada pelo Saxónico!. tornado profeta e justiceiro de reis. vasto como o universo. no Fausto de Goethe. ele mesmo o revela. com o seu mundo perverso e lânguido.) E ao mesmo tempo nos chegavam.) Não éramos. as criações eternas de Mefistófeles e Margarida. e Goethe. a inspiração bíblica e profética de Herculano-Lamennais).. se amara Elvira. todavia. o jovem Eça deslumbrava-se sem duvida com a leitura do pitoresco e sugestivo Michelet. Coimbra de repente teve a visão e a consciência adorável da Humanidade..alemã contemporânea. displicentemente... já é um louvável começo discorrer sobre ela em poemas mesmo pueris. mãe dos santos e dos bardos. Mas nem por isso as suas leituras são menos insólitas e revolucionárias em relação à modorra literária nacional. só veio realmente a ler anos depois em Lisboa. em Coimbra. e Hegel e Vico e Proudhon. e creio que já Darwin. os entusiasmos culturais da sua geração mais do que os seus próprios. e Poe. na Carta já citada a Carlos Mayer. talvez no seu inalterável amor pela evocação histórica). como nos seus coetâneos. E como num meridional de vinte anos.. e Heine. E outro bom sinal do despertar do espirito filosófico era a nossa preocupação ansiosa das origens. a Légende des Siècles e as Orientales de Vítor Hugo acordavam nele. todo o amor se exala em canto – não houve moço que não planeasse um grande poema cíclico para imortalizar a Humanidade. escrita (para ser publicada na Gazeta de Portugal) em 1867 –isto é.e ainda recordo o meu deslumbramento quando descobri esse imensa novidade –a Bíblia! Mas a nossa descoberta suprema foi a da Humanidade. os doutrinadores socialistas franceses. como há pouco. largos entusiasmos europeus que logo adoptávamos como nossos e próprios: o culto de Garibaldi e da Itália redimida. trabalhado já pela experiência da vida e dos livros. nas páginas tantas vezes citadas do In Memoriam de Antero (reproduzidas em Ultimas Páginas. É na verdade bem diferente o tom em que. por cima dos Pirenéus moralmente arrasados. fornece dessa época a visão entre irónica e internecida do homem maduro. lírico de raiz. porque se o fim de toda a cultura humana consiste em compreender a Humanidade. como um sol que fosse novo. além do amor do exotismo colorido. Conhecer os princípios das civilizações primitivas constituía então. «Nesse mundo novo que o Norte nos arremessava aos pacotes. e já. inteiramente desregrados e vãos. a Humanidade. a violenta compaixão da Polónia retalhada.. as teorias de Darwin ou a doutrinação de Proudhon (que. O próprio Eça. as fantasmagorias de Poe.

as suas leituras favoritas desse tempo. «uma aurora serena. Mas. ainda um jovem escritor português se considerava vanguardista. neste texto. sobretudo quando a primeira febre se chama Julieta e a última Margarida!». contra os quais se erguem os bardos dos novos tempos. os opositores que declara defrontar não são os escritores realistas. João. e embora toda a vasta aluvião cultural.. a darmos crédito a esta carta-folhetim tão exaltada e às vezes quase delirante. Eça de Queiroz.. por pertencer a essa família de espíritos que se define em termos exaltados: «. curiosamente. Dante. Eça expressamente se inclui. Nessa carta. de uma serie de transmigrações que levam a alma a percorrer a escala dos seres criados. o sentimento –vagamente haurido em filosofias orientais e doutrinas cientificas modernas apanhadas no ar –da incessante transformação da matéria. Goethe e Cervantes. purificadora e consoladora». nem mesmo os ultraromânticos de Lisboa: são. as fantasmagorias mefistofélicas. fosse pouco a pouco sendo decantada. A figura de Jesus Cristo. era para aqueles moços.) Qual vale mais? Esta doença magnifica. a visão pampsiquista da natureza. e que deve ser lida na íntegra e reflectidamente... quando já em França se desencadeara o que se chamou «la bataille du Réalisme». aplicada à época e à figura de Cristo.os que desceram às regiões românticas ficaram com a alma doente. nas fileiras dos românticos. de que ainda não dá noticia. Aí está como explica toda essa geração moderna. moderno. naturalmente. o humor negro de Heine e de Poe. por então o que vinha ao de cima e se moldava nas formas exuberantes e originais da sua prosa juvenil eram os sonhos dos grandes poetas românticos: os vastos quadros de pitoresco e difusa grandeza das origens. os seus entusiasmos de então (que. se quiser entender a evolução literária do jovem Eça e a influencia da cultura contemporânea sobre a sua formação. á maneira do critico francês Sainte-Beuve que de certo já lera. um gosto do macabro e do fúnebre. nostálgica. categorias universais do espirito humano: assim. as poéticas imaginações das mitologias nórdicas. No entanto. que. ansiada. Mas em breve outras influencias vieram sobrepor-se –sem as apagar em definitivo –às leituras apaixonadamente absorvidas nesta primeira fase. Isto é: naquele ano de 1867. em que o autor e a sua geração são assumidos como personagens de ficção.Coimbra. (. Renan. assim caoticamente derramada sobre ele na juventude. febril. de acordo com métodos positivistas. S. importa sublinhá-lo. nessa carta. Fosse como fosse. no dizer do autor. mais literária do que vivida. os clássicos do passado. que o são e foram independentemente do momento cultural que vivem.. parece ter em mente não tanto classificações de história literária como. com a sua Vie de Jésus (1863) revelou a Eça o caminho da reconstituição histórica e rigorosa. dizíamos. eram os astros –Shakespeare. imensa. clara. e aos do seu grupo. segundo o romancista afirmava em 1867. E tudo isto sobre um fundo de espiritualidade cristã. sobretudo. ele e os seus amigos pertenceriam não tanto ao período romântico como à «família» dos espíritos românticos. ao falar de clássicos e românticos. o moço folhetinista evoca. como se de águas passadas se tratasse. em que se mistura o requinte baudelairiano da podridão. que se goza no clima tépido que vais desde Racine até Scribe? Eu prefiro corajosamente o hospital. contemplativa e doente. ou a saúde vulgar e inútil. seduzira profundamente o . ainda não teriam mudado naquele curto espaço de tempo). e sedimentasse no espirito do moço escritor.. Rabelais.

as interpretações e deturpações que esta sofreu ao longo do tempo são assim. a transcendência. Tudo isto. em 1869. A admiração por Renan. justamente sob a influencia de Renan (que poucos anos antes visitara também a Palestina) e da Salambô de Flaubert. escreve as páginas brilhantes e nítidas das suas impressões do oriente. Cristo. vinha-se impondo na literatura francesa desde há algumas décadas: surgira em pleno romantismo como reacção tanto contra o lirismo confidencial. dispense a fé. busca de uma certeza factual que. e vemos o empenho na busca das origens. a um novo despertar para o mistério. lançado assim a doutrina da «arte pela arte» . e. empenha-se na reconstituição da Judia do tempo de Cristo. no prefácio do seu livro de poemas Les Orientales proclamava a «inutilidade» da poesia. instrumento de progresso e justiça social. e a um desejo de renascença cristã. escrevendo. se exprime nesse oscilar entre fé e negação. fazendo da arte veiculo de doutrinação moral e política. Durante os anos de formação académica de Eça afirmara-se definitivamente em França a corrente estética conhecida por parnasianismo (em 1866 saía em Paris o 1º volume do Parnasse Contemporin –recueil de vers nouveaux). a sua mensagem. vemos a comovida espiritualidade dos românticos. como contra a tendência (posterior sobretudo ao movimento revolucionário de 1830).isto . com a violência anticlerical. que lhe insulara o gosto da narrativa «arqueológica» de caracter ao mesmo tempo pitoresco e erudito. os jovens poetas de 1830 pretendiam restaurar o primado da beleza formal. o culto dos valores cristãos reencontrados em toda a sua poesia melancólica ombrear com o espírito «filosófico» dos enciclopedistas nunca de todo extinto. vir a dar lugar. corresponde a mais uma dessas prontas respostas que a personalidade do escritor sempre deu aos estímulos da cultura europeia do seu tempo. E não podemos deixar de observar que também neste aspecto –a leitura do Cristianismo e da figura do seu fundador –Eça nos parece bem integrado no seu tempo. para atribuir à literatura uma função cívica. em outros aspectos bem diferenciadas. De regresso da sua viagem ao Egipto. com efeito. durante todo o século XIX. projectando a religião na pura historicidade. nome então extremamente prestigiosa de hebraista. e depois incluídos nas Prosas Bárbaras. filólogo segundo os novos padrões de inspiração alemã. a poesia das crenças primitivas. Ao longo do século XIX. O culto da forma. e logo empenho de reconstrução da Cidade de Deus. através de uma revitalização e actualização da vivência do Engenho. o ódio à igreja instituição humana. a sátira tremenda ao catolicismo romano sobretudo posterior à Contra-Reforma. dos poetas do Parnaso. profundamente imbuído do seu sentido da História e do valor da cor de época. se vem reflectir na obra de Eça de Queirós. Saturados de desabafos sentimentais como de declarações filantrópicas e revolucionarias. Vítor Hugo. «espontâneo» até ao desleixo. e logo nostalgia das crenças perdidas e aspiração a um bem que não é deste mundo. critica demolidora das instituições e dos costumes religiosos. o virtuosismo poético que aparece como nota comum às obras. uma série de folhetins publicados na Revolução de Setembro em 1870. se atentarmos bem. historiador das religiões.seu círculo de amigos no tempo de Coimbra. nas últimas décadas do século. inerente à mentalidade positivista. um tema que não perde a actualidade. transbordante e fácil. aplicado à interpretação histórica e critica do facto religiosa ao qual se nega toda a dimensão sobrenatural. ressoador sensível de todas as vibrações culturais do seu tempo. sob o titulo de A Morte de Jesus.

nos começos do segundo império. texto onde o eu do autor é tratado como personagem-comparsa. a uma síntese destas duas tendências aparentemente opostas. mas também instrumento de intervenção. que Eça risonhamente aponta como moda epidémica da sua geração. surgira das ruínas do Romantismo como sua derradeira encarnação. Théophile Gautier e Leconte de Lisli. traduzida em poemas cíclicos. e procurasse um verbo exacto. Eça reflecte na sua obra o duplo pendor do século. de uma arte que valia apenas como criação de beleza. o repúdio do sentimentalismo confessional. tomando como modelo as ciências da natureza. que intervenha na vida prática –mas também não poderá ser um mero cinzelador de brincos verbais. A admiração juvenil pelos grandes mestres do parnasianismo. Penetrado pela mentalidade positivista que domina. de certo modo. à idade cientifica. em suma. na poesia parnasiana. mesmo quando parece pretender limitar-se a uma objectiva e impossível analise da realidade. tersa e máscula do verso parnasiano. a pesquisa das suas origens e a explicação do seu processo evolutivo ao longo dos milénios (aquela paixão da Humanidade. tivesse o horror das ideias vagas expressas em formas descosidas e fáceis. A ciência torna-se uma nova fé. pela nova idolatria das leis e dos sistemas. exaltante aventura no mundo das formas. a evocação dos mitos e dos deuses mortos. a busca de uma beleza serena e marmórea. pelo menos expressão de um julgamento moral sobre a vida e os homens. a cultuar europeia. Assim. chegada. que em certa medida parece corresponder a exigências íntimas da sua natureza: a literatura será para ele exigente busca da beleza. em traços levemente humorístico. e compreende-se que uma literatura inspirada pelo culto da ciência. e todas as disciplinas do saber aspiravam a organizar-se «cientificamente». ao evocarem-se «os santos entusiasmos com que nós recebíamos a iniciação dessa Arte Nova. Nos anos em que o nosso romancista iniciava a sua carreira literária. a partir do meio do século. expressa numa rigorosa exigência de perfeição formal. para a literatura. sobre o qual actua. e que nos era trazida em Poesia pelos versos . ele mesmo a descreve com a ironia e o distanciamento habituais («éramos assim em 1867»). aparecem como traços dominantes desse esboço. ofereciam aos artistas grandiosos temas. que em França. a pintura dos grandes movimentos de povos. teve particular importância o desenvolvimento que as novas concepções vieram dar à investigação e critica histórica: como vimos está na ordem do dia a historia da humanidade. nítido e rigoroso. chegara-se. Não se pede ao poeta que seja panfletário nem demagogo. é uma expressão lírica desse pendor positivista). cujo timbre é sem dúvida o apuro formal. na longa introdução à Correspondência de Fradique Mendes. o culto fanático da forma irrepreensível. que se configuravam naturalmente na forma escultural. o poeta sente-se interprete das aspirações e esperanças da Humanidade. e como veículo de ideias e agente catalisador do processo histórico. cujo progresso fora espectacular. vêm afinal ecoar as grandes inquietações intelectuais do século. Baudelaire. alheia a quaisquer preocupações de intervenção na vida prática. A sua adesão à estética parnasiana.é. A visão do passado humano. Ao longo de todo o restante século XIX veremos manifestarem-se na literatura europeia estes dois modos de conceber a arte: como busca desinteressada e gratuita de beleza. Mas. a caminhada gigantesca da História. segundo o pensamento de Comte.

defende um conceito de arte comprometida. Com efeito. como exemplos dessa nova arte baseada na observação do real. ao participar no ciclo das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. naqueles tempos de delicado sensualismo. a «impostura oficializada». de Baudelaire. de Mallarmé. Essa pintura da verdade. como última e indesejável emanação do Romantismo. . que aliás. Eça repudia abertamente a ideia da arte pela arte. como é sabido. um dos paladinos do Realismo na pintura.continua o romancista na citada introdução à Correspondência de Fradique Mendes»trabalhei. porque posta ao serviço daquela revolução –acção pacífica» .. da política e da vida social: essa ideia era Revolução. não excluíam a exigência de apuro formal: pelo contrário. «alguns anos passaram.) A Forma. se condenavam a arte pela arte. Isto é. do meio e da circunstância histórica –e a partir desse conceito denunciava a inautenticidade da literatura que se cultivava então em Portugal e que de modo nenhum correspondia nem às características nacionais nem ao espírito da época. Mas estas preocupações de doutrinação moral e cívica. o erotismo hipocritamente angelizado. analítica e rigorosa do real –especialmente da sociedade contemporânea –a busca da verdade sem idealizações deformadoras nem indiscretas expansões de sentimento individual. Como já fizera Proudhon.de Leconte de Lisle.» Em 1871. empenhada em surpreender a verdade sem imposturas.que Antero de Quental e o seu grupo apresentavam como programa de renovação nacional. conduzira no entanto.. uma arte que busca retractar a autenticidade especifica de cada fenómeno necessita de meios de expressão extremamente aperfeiçoados. melhor fui conhecendo os homens e as coisas. viajei. a um julgamento de valor. cuja Histoire de la Littérature Anglaise se publicara em 1863. pelo menos subordiná-lo a novos objectivos. em breve iria o jovem escritor. capazes de captar e restituir com nitidez e relevo a realidade sentida no seu modo único e inconfundível de ser. eis realmente. Não tornei a ler Baudelaire. Eça apresentava os quadros de Courbet. contagiada que fora a literatura pelas ingentes preocupações do século «cientifico» e historicista. e de outros menores. crítico e historiador literário de formação positivista. já na segunda geração parnasiana e nomeadamente em Leconte de Lisle aparece menos gratuito. de Dierx. Era o sentimentalismo plangente. o Realismo opunha a pintura objectiva. (. contrariamente ao imoralismo que muitos lhe assacavam. implicitamente retomado pela condenação do vicio e pela exaltação proudhoniana do trabalho e da virtude. ao qual por então ataca frontalmente. Eça propunha que a literatura se inspirasse na mesma «ideia-mãe» que se ia impondo por toda a Europa nos domínios da ciência.» . Perdi a idolatria da Forma. se não ultrapassá-lo. e o romance de Gustave Flaubert Madame Bovary (1857). que se desejava objectiva e imparcial. de Coppée. a retórica balofa dos lugares-comuns humanitaristas e patrióticos –em suma. influenciado pela literatura de Taine. a beleza inédita e rara da Forma. sob a influência de Proudhon. A essa literatura enervante e empobrecedora. e. todo o meu interesse e todo o meu cuidado!». Mas esse culto da beleza. considerava agora a obra de arte como produto da raça. a pintura do real pressupõe uma técnica perfeita e conduz assim à criação de objectos de beleza. e por isso bem adequada às aspirações do século. Na sua conferência O Realismo como nova expressão da arte.

a obra literária é determinada. O naturalismo. Eça publica a sua primeira narrativa de cunho realista. ao fazer a apologia do Realismo. Eça lançou-se. a preocupação com a influencia exercida pela hereditariedade. com o seu ardor e a sua viva receptividade. o conto Singularidades de Uma Rapariga Loira. sobretudo no caso português). O inquérito a um meio social restrito. A concepção de literatura expressa nesta conferência de 1871 virá em breve a ser ilustrada pelo escritor na sua criação romanesca. em França. incluindo a educação –são tributos pagos pelo jovem romancista à voga do naturalismo naqueles anos. enquanto Flaubert se recusa a aceitar que a obra de arte sirva de tribuna a qualquer doutrina –filosófica. dá naqueles anos a prioridade à missão social. pedagógica da literatura. Quando. e ofuscados pelo requinte de uma expressão sabiamente trabalhada. «Au bout». estas ideias tinham dado já em França abundantes frutos. mantém-se o empenho assumido pelo grupo das Conferencias de contribuir para a renovação da mentalidade portuguesa. os ataques daqueles que iludidos pela impassibilidade de cientista assumida pelo escritor ante o seu tema. as leis fisiológicas ou sociais deduzidas da observação da realidade. política. através de tudo. empenhado com o seu grupo numa tarefa de revolução cultural. o espírito científico convidava à observação in vivo –de modo que . o temperamento e o meio. dans son action individuelle et sociale» E. Eça aparece já tocado. escrevia Zola. dando assim a conhecer ao público a verdade sobre o homem e o meio. como tema literário. e cujo objectivo consistia em verificar. intentará demonstrar a tese de que toda a conduta e destino humano são produto da fisiologia e do meio social. na esteira da literatura realista naturalista (é difícil delimitar com exactidão os dois termos. o romancista tornava-se um agente do progresso da sociedade. A este tempo. em 1873. a Humanidade cedia o passo à sociedade. condicionada de maneira decisiva por circunstâncias que lhe são exteriores. de raiz positivista. dessa visão determinista que conduziria à criação do romance naturalista: nesta perspectiva. o naturalismo preconizava a criação do romance a que Zola chamava «experimental». «il y a la connaissance de l´homme. denunciando os vícios e . moral ou outra –e. Dai a preferência pelo tema da hereditariedade – fatalidade biológica –que serve de espinha dorsal à longa série de romances de Zola Les Rougon – Macquart (1871-1893). e os primeiros volumes dos Rougon-Macquart. la connaissance scientifique. por meio da historia narrada. por influência de Taine. na sua conferência do Casino. faz da qualidade da expressão o primeiro cuidado do romancista –Eça. proclamado que «le but de l`art est le beau avant tout». E. por isso se França e por vezes já em Portugal. viam no Realismo um mero processo formal. com os irmãos Goncourt e sobretudo com Zola. cujo subtítulo vale um programa: Histoire naturelle et sociale d`une famille sous le Second Empire. Inspirado nas ciências da natureza. a sociologia. Estava publicada quase toda a obra dos Goncourt. a exaltação romântica que ainda lampejava nas grandiosas evocações históricas dos parnasianos ia-se apagando: a «questão social» avolumava-se a nova ciência que Comte fundara. Aliás. quanto ao espírito e quanto aos métodos. Entretanto. divulgava-se. já o realismo descomprometido e artístico de Flaubert ia desembocando no Naturalismo.Só que.

um perfeito resumo social. para trabalhar «por processo experimental». num borrão a lápis: Eça apercebeu-se por certo do dogmatismo esquemático que as informava.» Pela mesma altura. As dificuldades que sentia em se confinar ao modelo do romance «experimental».O Primo Basílio». os Ernestos. Aí. (. refugiar-se na «literatura puramente fantástica e humorística». escreve em 1878 a Teófilo Braga. que se propunha. de uma ignorância retrógrada e de um sistema político inepto e corrupto. tinha simplesmente de observar.. o romance. vou descrevendo.estigmatizando os ridículos de um romantismo atardado. ao afastamento em que vivia do Portugal que desejava retractar: «Longe do grande solo de observação. Dir-se-ia que foram escritas num esforço de autoconvencimento. em lugar de passar para os livros. jornalista ensaísta de mérito que havia de colaborar na Revista de Portugal. . A literatura. é todavia a grande evolução literária do século e destinada a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. talhada de memória.. como do discípulo que repete a «sebenta» do mestre. Amaro é um empecilho. que ainda hoje méconnu e caluniado. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno. uma sociedade de convenção. mas os Acácios. na França republicana e socializante. que a lei rege os movimentos dos mundos não difere da lei que rege as paixões humanas.. são uma bem bonita causa de anarquia no meio da transformação moderna. «não está inteiramente fora da arte revolucionária.) Desde que se descobriu que há no mundo uma fenomenalidade única. nas feições em que ele é mau por persistir em se educar segundo o passado». o feitio literário do escritor que se estreara com os folhetins apaixonados da Gazeta de Portugal ficara sempre constrangido na gaiola estreita do determinismo positivista. depois de se defender da infundada acusação de ter plagiado o livro de Zola La Faute de l´Abblé Morret ( e foi essa a única parte que veio a publicar). merecem partilhar com o Padre Amaro da bengala do homem de bem. “tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos factos e da experiência dos fenómenos o espirito não pode obter nenhuma soma de verdade. é para Eça uma forma de combater e um acto de pedagogia: «.. em arte. por processos puramente literários e a priori. E conclui afirmando Claude Bernard. refrear o voo livre da imaginação. médico e Biólogo contemporâneo. Eça proclamava com desenvolta segurança a superioridade do naturalismo: «O naturalismo é a forma científica que toma a arte. E concluía afirmando que o realismo «é um auxiliar poderoso da ciência revolucionária!» O romancista parece animado de uma confiança sem sombras na excelência da doutrina literária que então atingia o seu apogeu. cujo método experimental servia de modelo ao labor literário do autor dos Rougon-Macquart. atribuía-as nesse tempo. assumia o mesmo tema num tom mais decididamente militante: «o que importa é o triunfo do Realismo. Na realidade.» E deduz que só tem dois caminhos –ou regressar a Portugal. os Basílios. em lugar de imaginar. naqueles anos 70. Não terá sido por acaso que estas páginas ficaram inéditas. pelos meios experimentais. como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia. são formidáveis empecilhos. é certo. creio. É desse ano o prefácio –de que só Padre Amaro. em carta a Rodrigues de Freitas.

o matemático Poincaré afirmava humildemente que a ciência «é antes de mais nada uma classificação. que no meado do século conduzira ao orgulhoso sentimento de confiança nas leis imutáveis da natureza e no homem que as soubera deduzir. escrevera o físico Berthelot. Este desgosto da hipercivilização. que naquela época. vinha associar-se em muitos espíritos um desgosto da civilização contemporânea. com a irisada fantasia e o humor inimitável. a fim de realizar cabalmente o programa de escola. o progresso servia apenas para acentuar de forma clamorosa as desigualdades e injustiças sociais. aos 33 anos. Assim escreveu O Mandarim. acelerara-se prodigiosamente no último quartel do século e abria agora perspectivas insuspeitadas sobre a complexidade do universo: a luz da ciência. soprando já de feição àquelas tendências do seu feitio de artista. mas enquanto os benefícios da transformação não atingiam os mais desfavorecidos da fortuna. Para o final do século. enquanto arduamente persistia na intenção de realizar uma obra (as Cenas Portuguesas ou Cenas da Vida Portuguesa) que correspondesse ao modelo naturalista de estudo da vida contemporânea. numa rara síntese. a civilização moderna. em lugar de esperar dela. algumas fugas de fantasia e humor. a busca do mistério. à medida que se erguia.» Agora. um renovo de idealismo que se afirma. limita-se a ser «um sistema de relações». «A ciência». Era sem dúvida prodigiosa a transformação operada nas condições da vida material pelos novos inventos. como queiram os positivistas. aparecia aos espíritos requintados como uma detestável ameaça de vulgaridade e monotonia. O avanço da ciência. O espírito humano tendia cada vez mais a procurar fora da ciência as respostas para a inquietação que o trabalhava. E o excesso de cultura acumulada. sob a influência dominadora da atmosfera cultural que respirava. expressão literária do positivismo. Por outro lado. os milhões de páginas impressas sobre todo o divino e todo o humano despertavam o sentimento de que nada mais havia a dizer de original e de novo. considerava como «refúgio». revelava cada vez melhor a imensidão dos problemas e o carácter provisório dos resultados. Reclama hoje ao mesmo tempo a direcção intelectual e a direcção moral das sociedades. marcada pela arrancada do progresso técnico. ele se esforçava por subalternizar (no caso do humorismo)ou abafar mesmo (no caso da fantasia). a fuga a um que se vai estandardizando. na teoria poética dos . o naturalismo. «é a benfeitora da Humanidade. uma maneira de aproximar factos que as aparências separam». Aliás. A esta despromoção da ciência. destituída da categoria de quase religião que o contismo lhe dera. As certezas positivistas eram abaladas cada dia pelas descobertas feitas sobretudo nos domínios da física e das matemáticas. sentimento tão característico do fim-de-século.A fantasia e o humor que. marca muitas das páginas de Eça de Queirós na última fase da sua carreira. por sectores socioprofissionais –concedia a si próprio. As suas qualidades de fino observador combinam-se aí. remedeio. A literatura reflecte a rejeição do positivismo e do cientismo. não tardaria que os ventos da cultura europeia virassem. A Relíquia e a maior parte dos contos postumamente publicados em volume. Mas. uniformizadora e descaracterizadora. nas pausas desse trabalho sempre interrompido e sempre exasperante. eram na realidade constantes da sua personalidade de artista. entra em crise como a doutrina filosófica que o inspirava. uma verdade definitiva da qual surgira no futuro a felicidade e a concórdia entre os homens.

neste complicado universo.)». E. a simpatia lhe foge irresistivelmente para a segunda. O resultado é que o homem começou a aborrecer-se monumentalmente e a suspirar por aquela outra companheira tão alegre. vão todos para o romance de imaginação (. de achar um principio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens. as potências do inconsciente. arromba . a não ser em teoria). o fonógrafo. e de achar. pela teosofia e pelo ocultismo) atraem cada vez mais os espíritos. o maravilhoso. que de longe lhe acenava ainda. observava o declínio do naturalismo em literatura. O mistério.) «Em literatura. a verdade é que. relatar a aventura interior do europeu moderno. alguma garantia da prolongação da existência.. sob qualquer forma. de quem urgia separar o homem. . da nova sensibilidade que desperta. na geração nova. tão inventiva. se alastra. tão cheia de graça e de luminosos ímpetos. fortemente abalada: «O positivismo científico (. às promessas que lhe fez: mas é certo também que o telefone. renunciando à verificação de leis da fisiologia. que busca.. para além do túmulo. saciar a sua fome de absoluto de novo desperta. o movimento a que assiste. aquele onde é mais notável a viragem: «É uma outra e renovada ansiedade de descobrir. tal como a tem criado o positivismo científico. mas contra a estrutura geral da sociedade contemporânea. enfim. de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil. a sua fé naturalista apresenta-se..esta reacção não é somente tentada contra a política. alguma coisa mais do que força e matéria.) Em suma. que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar. a razão. domínio eleito da observação naturalista. saturado de racionalismo e de experiências culturais. a sós com a sua esposa clara e fria. Ao bater os cinquenta anos. proponha como esperança para o homem futuro uma fórmula conciliatória de razão e imaginação. estamos assistindo ao descrédito do naturismo. como a da geração nova. de observação positiva.) A simpatia. esta geração nova sente a necessidade do divino. o panorama. demora-se no aspecto religioso. O romance experimental. A ciência não faltou.. vai. tem a data de 1893: «. na arte. pela busca de uma transcendência de que o real sensível não é mais do que imagem ou «correspondência». lhe apontava para os céus da poesia e da metafísica. e o situe apenas na «geração nova». embora. ágil e penetrante fixado. findou (se é que alguma vez existiu. onda ambos tinham tentado voos tão deslumbrantes. os motores explosivos e a série dos éteres não bastam a calmar e a dar felicidade a estes corações moços. todo estabelecido sobre documentos.. em muitos casos. passando pelas religiões orientais. é certo. que já muito antes.. A crónica. Eça. Positivismo e Idealismo. esta reacção (. E um dia não se contém. numa carta de Paris..» Embora se limite a descrever. o favor. O próprio romance... apenas se apossou dele..e.simbolistas. como puro observador. (. Sobre todas as formas da actividade pensante se revela.. fechou o homem num laboratório. o arrepio do sobrenatural sob formas diversas (desde um neocristianismo místico e contemplativo até ao espiritismo. depois de examinar os mesmos efeitos em diversos ramos da actividade intelectual. no final do artigo. queira ou não queira. no prazer ou no transcendente..) considerou a imaginação como uma concubina comprometedora. expulsou duramente a pobre e gentil imaginação. (. dá numa das suas crónicas reunidas do volume póstumo Notas Contemporâneas.

resultante de uma educação extremamente religiosa e proteccionista. O filho – Carlos da Maia – viria a ser entregue aos cuidados do avô. da lenda.) e corre aos braços da imaginação. com quem larga a vaguear de novo pelas maravilhosas regiões do sonho. sem no entanto perder a respeito dele a lucidez crítica e o empenho profundo de o compreender.. XIX.» Continuava bem actualizado. nobre e rico proprietário. altura em que Afonso da Maia.Resumo A acção d' Os Maias passa-se em Lisboa. Do século em que não se limitou a viver: do século que absorveu. após o suicídio de Pedro da Maia. Conta-nos a história de três gerações da família Maia.tudo isso revela em Eça o progressivo afastamento do padrão naturalista e a impregnação pela atmosfera antipositivista.Maria Eduarda . levando consigo a filha .a porta do laboratório (. arrombara a porta do laboratório e saíra para o largo espaço livre da fantasia. .. de certo modo. na segunda metade dos séc. sensível como sempre aos movimentos que agitavam o século. em sintonia com o seu tempo. Os Maias . A acção inicia-se no Outono de 1875. ao humor tingido de desencanto. a religiosidade ingénua assumida numa atitude esteticizante (a fazer pintura dos primitivos medievais). Mas a esposa acabaria por o abandonar para fugir com um Napolitano. casa-se. à ternura. à demonstração de teses e à «anatomia dos caracteres» . do mito e do símbolo. contra a vontade do pai. a renuncia ao programa de doutrinação cívica e revolucionaria. de quem tem dois filhos – um menino e uma menina. Os temas de lenda e poesia. com a negreira Maria Monforte. espiritualista do final do século. A obra romanesca dos últimos anos documenta bem a evolução que o escritor sofrera. e deles partilhando com a pronta resposta da inteligência e do gosto: também ele. de que se impregnou. se instala no Ramalhete.de quem nunca mais se soube o paradeiro. O seu único filho – Pedro da Maia – de carácter fraco. o lugar cada vez maior concedido nas suas páginas à emoção.

Carlos passa a infância com o avô. Ao tomar conhecimento. o velho avô. visto que Castro Gomes estava ausente. Seguindo os hábitos dos que o rodeavam. Carlos envolve-se com a Condessa de Gouvarinho. e Carlos. para se distrair. Entretanto. Carlos não aceita este facto e mantém abertamente. em Medicina em Coimbra. entre outros. Maria Eduarda. portanto. podia ficar com ela. Dâmaso Salcede. também a mãe de Carlos. após a formatura. formando-se depois. Carlos chega mesmo a comprar uma casa onde instala a amante. Euzébiozinho. Afonso da Maia. Crítica Social . que lhe diz: . através de uma carta enviada por Dâmaso Salcede. como o João da Ega. Alencar. Um dia fica deslumbrado ao conhecer Maria Eduarda. que depois irá abandonar. segundo ela lhe disse continha documentos que identificariam e garantiriam para a filha uma boa herança. ao receber a notícia morre de desgosto. passados 10 anos.Miss Sarah. como médico a governanta .. Sr Guimarães. e procura Carlos. Começam então os seus encontros com Maria Eduarda. mas acaba por conseguir uma aproximação quando é chamado por Maria Eduarda para visitar. Castro Gomes descobre o sucedido. que julgava ser mulher do brasileiro Castro Gomes. Os amantes eram irmãos. o maestro Cruges. Carlos regressa a Lisboa. portanto."falhamos a vida. Essa mulher era Maria Monforte – a mãe de Maria Eduarda era. agora rica.. a relação – incestuosa – com a irmã. vai correr o mundo. mas sim sua amante e que. parte para o estrangeiro. que diz ter conhecido a mãe de Maria Eduarda e que a procura para lhe entregar um cofre desta que. chega de Paris um emigrante. menino!". O romance termina com o regresso de Carlos a Lisboa. Contudo. dizendo que Maria Eduarda não era sua mulher. Carlos seguiu-a algum tempo sem êxito. e o seu reencontro com Portugal e com Ega. onde se vai rodear de alguns amigos. ao Ramalhete.

a predilecção pela forma em detrimento do conteúdo. Mas não foi isso que sucedeu e é este facto que o escritor pretende evidenciar com o episódio final . é um espaço social. a Imprensa. Destacamos os mais importantes: o Jantar do Hotel Central. a atitude "romântica" perante a vida. em que domina a ironia. Vários são os episódios utilizados pelo autor para mostrar a vida da alta sociedade lisboeta. o diletantismo que impede a fixação num trabalho sério e interessante. a época do Romantismo. Pedro. que Eça concretiza a sua intenção. XIX desenvolve-se num certo tempo. dirigir e simbolizar toda a vida do país. É através do paralelo entre duas personagens . geração potencialmente destinada ao sucesso. A Mensagem A mensagem que o autor pretende deixar com esta obra. apesar de terem tido educações totalmente diferentes. a Corrida de Cavalos. políticas. amolecido e de clima rico. o Jantar dos Gouvarinho. representantes de ideias. o Sarau do Teatro da Trindade. que Eça vai fazer a crítica social. Lisboa é o espaço privilegiado do romance.A crónica de costumes da vida lisboeta da Segunda metade do séc. Note-se que ambos. corporizada em certos tipos sociais. que o leva ao suicídio. onde decorre praticamente toda a vida de Carlos ao longo da acção. etc. em Paris. e o Episódio Final: Passeio de Carlos e João da Ega. da qual sai para se deixar afundar numa vida estéril e apagada. projecta-se num determinado espaço e é ilustrada por meio de inúmeras personagens intervenientes em diferentes episódios. Por outro lado. sem qualquer projecto seriamente útil. mas às características do povo português . tem uma intenção iminentemente crítica. Pedro falha com um casamento desastroso. Simbolismo . a Educação. e dizer "Tudo culpa da sociedade". que consiste em desculpar sistematicamente. concentrar.Pedro e Carlos da Maia. mentalidades. representam também épocas históricas e políticas diferentes. O carácter central de Lisboa deve-se ao facto de esta cidade. não às correntes em si. e seu filho. É neste ambiente monótono. falharam na vida. costumes. estas personagens representam os males de Portugal e o fracasso sucessivo das diferentes correntes estético-literárias. Lisboa é mais do que um espaço físico. Fracasso este que parece dever-se. os próprios erros e falhas. a Geração de 70 e das Conferências do Casino.o fracasso da Geração dos Vencidos da Vida. Carlos falha com uma ligação incestuosa. estas duas personagens. concepções do mundo. Assim.

No primeiro capítulo a cascata está seca porque o tempo da acção d' Os Maias ainda não começou. tal como o é Ega. Também o armário do salão nobre da Toca. Carlos irá ser o último Maia . No último capítulo. escolhido pela mãe. Por oposição. mostra-nos também que o tempo está mesmo a esgotar-se e o final da história d' Os Maias está próximo. pormenor que parece simbolizar o desafio sacrílego dos faunos a tudo quanto era grandioso e sublime na tradição dos antepassados. esta designação e o emblema (o ramo de girassóis) mostram a importância "da terra e da província" no passado da família Maia. abandonado e tristonho. Ela é também símbolo das mulheres fatais d' Os Maias . também eles caíram no "vencidismo". Este choro simboliza também a dor pela morte de Afonso da Maia. Os dois faunos simbolizam o desastre do incesto decorrido entre Carlos e Maria Eduarda. No final um partiu o seu pé de cabra e o outro a flauta bucólica. em plena crise do regime. a profanação das leis humanas e cristãs.é o reflexo do ideal reformista da Geração de Carlos. enegrece com a fuga de Maria Monforte. tem uma simbologia trágica. .Os Maias estão incrivelmente repletos de símbolos. Os guerreiros simbolizam a heroicidade. tal como o de Carlos . No último capítulo. os evangelistas. a imagem deixada pelo Ramalhete. cheio de recordações de um passado de tragédia e frustrações. uma reforma da casa (ou do país) para uma nova etapa . Tal como o país. na Toca.note-se a ironia em forma de presságio. os seus membros agora transformados dão-lhe uma forma monstruosa fazendo lembrar Maria Eduarda e monstruosidade do incesto. No Ramalhete. (no último capítulo) coberta de ferrugem simboliza o desaparecimento de Maria Eduarda. Os seus aposentos simbolizam o carácter trágico. também sofre uma evolução. o fio de água da cascata é símbolo da eterna melancolia do tempo que passa. está muito relacionado com o modo como Eça via o país.o nome do último Stuart. O quintal do Ramalhete. dos sentimentos que leva e traz. introduziram o luxo e a decoração cosmopolita. simbolizam uma nova oportunidade. a religião e os trofeus agrícolas o trabalho: qualidades que existiram um dia na família (e no Portugal da epopeia). o quadro com a cabeça degolada é um símbolo e presságio de desgraça. A estátua de Vénus que. Esta estátua marca então. as obras de restauro.Maria Eduarda e Maria Monforte. Agora. A "gravidade clerical do edifício" demonstra a influência que o clero teve no passado da família e em Portugal. No quarto de Maria Eduarda. o início e o fim da acção principal. Afonso da Maia é uma figura simbólica . Carlos é um símbolo da Geração de 70. levadas a cabo por Carlos.o seu nome é simbólico.

. Morte prefigurada pela cor negra. O vermelho é. o símbolo da paixão excessiva e destruidora. Note-se que as paredes do Ramalhete foram sempre sinal de desgraça para a família Maia. Mas também. Não é difícil lermos o percurso da família Maia. Já o vermelho da vila Balzac é muito intenso. Os aposentos de Maria Eduarda simbolizam o carácter trágico. a aparência e a realidade. o que sugere o poder e o prazer das relações incestuosas. Carlos introduz a chave no portão com todo o prazer. da segunda vez ambos a experimentam . a tragédia abate-se sobre a família e eis a cascata chorando. portanto. O tom dourado está também presente. a profanação das leis humanas e cristãs. despertam a sensibilidade à sua volta. a proximidade da morte. a estátua coberta de ferrugem. portanto.a chave torna-se. significam a vida e a morte. em seguida habitado. o divino e o humano. a força que se torna fraqueza. indicando a dimensão essencialmente carnal e efémera dos encontros de amor de Ega e Raquel Cohen. O cedro e o cipreste. o que. torna-se símbolo da esperança e da vida. são árvores que pela sua longevidade. Maria Monforte e Maria Eduarda são portadoras de um vermelho feminino. povoados de símbolos cromáticos: a cor vermelha tem um carácter duplo. é como que um renascimento. A morte instala-se nesta família. E se os Maias representam Portugal. nas alterações sofridas pelo Ramalhete. símbolo de uma paixão possessiva e destruidora. A Toca é o nome dado à habitação de certos animais. tudo deixa transparecer a realidade de destruição e morte. todos os aposentos melancólicos e frios. desde logo. o símbolo da mútua aceitação e entrega. anunciando a velhice (o Outono). Os Maias estão também. No Ramalhete todo o mobiliário degradado e disposto em confusão. vida e morte. foram testemunhas das várias gerações da família. espalham a morte. simbolizam a amizade inseparável de Carlos e João da Ega. Na primeira vez que lá vão. No início o Ramalhete não tem vida. Constatamos que a simbologia d' Os Maias possui uma função claramente pressagiosa da tragédia. parece simbolizar o carácter animalesco do relacionamento de Carlos e Maria Eduarda. a estátua de Camões é o símbolo da nostalgia do passado mais recuado. indicando a paixão ardente. tudo tem um carácter lúgubre. Mãe e filha conjugam em si estas três cores: elas são. finalmente. a morte instalou-se no país. deitando as últimas gotas de água.No final. portanto.

Cingimo-nos portanto. Eusebiozinho e Sr Guimarães. Cruges. Passamos agora. A sua cara larga. Duarte Meneses ou um Afonso de Albuquerque". às personagens principais e a algumas personagens tipo que consideramos importantes para o desenrolar da acção. O cabelo era branco. de ombros quadrados e fortes. Como dizia Carlos: "lembrava um varão esforçado das idas heróicas. Conde de Gouvarinho. muito curto e a barba branca e comprida. Sendo as personagens centrais Afonso da Maia. Alencar. Pedro da Maia. um D. às suas caracterizações: Personagens centrais: Afonso da Maia Caracterização Física Afonso era baixo. Carlos da Maia. E as personagens tipo João da Ega. Dâmaso Salcede.Personagens As personagens intervenientes na acção d' Os Maias são cerca de 60. Condessa de Gouvarinho. Craft. o nariz aquilino e a pele corada. Maria Eduarda e Maria Monforte. Caracterização Psicológica . maciço.

opinando sobre a necessidade de renovação do país. Tinha barba fina. face oval de "um trigueiro cálido". Pedro da Maia Caracterização Física Era pequenino. Falha no casamento e falha como homem. Caracterização Psicológica Pedro da Maia apresentava um temperamento nervoso. cabelos negros e ondulados. Valentia física. É um homem de carácter culto e requintado nos gostos. Não se lhe conhecem defeitos. amarelo.Provavelmente o personagem mais simpático do romance e aquele que o autor mais valorizou. quando descobre os amores incestuosos dos seus netos. fraco e de grande instabilidade emocional. Enquanto jovem adere aos ideais do Liberalismo e é obrigado. Tem altos e firmes princípios morais. Tinha assiduamente crises de "melancolia negra que o traziam dias e dias. é de uma enorme cobardia moral (como demonstra a reacção do suicídio face à fuga da mulher). olhos negros. regressa a Lisboa para casar com Maria Eduarda Runa. Carlos da Maia Caracterização Física Carlos era um belo e magnífico rapaz. bem constituído. falecido o pai. Pedro é vítima do meio baixo lisboeta e de uma educação retrograda. ele tinha uma fisionomia de "belo cavaleiro da Renascença". Mais tarde. olhos belos – "assemelhavam-no a um belo árabe". pelo seu pai. com as olheiras fundas e já velho". castanha escura. Apesar da robustez física. Já velho passa o tempo em conversas com os amigos. murcho. lendo com o seu gato – Reverendo Bonifácio – aos pés. Ama a natureza e o que é pobre e fraco. pele branca. O seu único sentimento vivo e intenso fora a paixão pela mãe. Morre de uma apoplexia. de ombros largos. O bigode era arqueado aos cantos da boca. pequena e aguçada no queixo. Como diz Eça. dedica a sua vida ao neto Carlos. a sair de casa. Eça de Queirós dá grande importância à vinculação desta personagem ao ramo familiar dos Runa e à sua semelhança psicológica com estes. instala-se em Inglaterra mas. Caracterização Psicológica . Era alto. É generoso para com os amigos e os necessitados.

sensual mas delicada. Destaca-se na sua personalidade o cosmopolitismo. com um curto decote onde resplandecia o incomparável esplendor do seu colo" Caracterização psicológica Podemos verificar que. bem educado. Amigo do seu amigo e generoso. Eça quis personificar em Carlos a idade da sua juventude. Era bastante simples na maneira de vestir. quase sempre de escuro. Carlos fracassou. A sua caracterização é feita através do contraste entre si e as outras personagens femininas. bem feita. a que fez a Questão Coimbrã e as Conferências do Casino e que acabou no grupo dos Vencidos da Vida. e pareceu-lhe perfeito. por causa do meio onde se instalou – uma sociedade parasita. o gosto pelo luxo. o seu comportamento mantém-se afastado da crítica de costumes (o seu papel na intriga amorosa está cumprido). faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas". "divinamente bela. ao contrário das outras personagens femininas Maria Eduarda nunca é criticada. o egoísmo. . o futilidade e o espírito boémio da mãe. e esta personagem afasta-se discretamente de "cena". Maria Eduarda é então delineada em poucos traços. "Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome dela." Uma vez descoberta toda a verdade da sua origem. em parte. é fruto de uma educação à Inglesa. curiosamente. condizendo bem com a sua beleza serena. a sensualidade. Eça manteve sempre esta personagem à distância. de gostos requintados. fútil e sem estímulos. apesar da educação. a fim de possibilitar o desenrolar de um desfecho dramático (esta personagem cumpre um papel de vítima passiva). Não foi devido a esta mas falhou. chega-nos através do ponto de vista de Carlos da Maia. É corajoso e frontal. é "flor de uma civilização superior.Carlos era culto. "com um passo soberano de deusa".Todavia. o seu passado é quase desconhecido o que contribui para o aumento e encanto que a envolve. Ao contrário do seu pai. Maria Eduarda Caracterização Física Maria Eduarda era uma bela mulher: alta. Mas também devido a aspectos hereditários – a fraqueza e a cobardia do pai. para quem tudo o que viesse de Maria Eduarda era perfeito. loira. e diletantismo (incapacidade de se fixar num projecto sério e de o concretizar). mas e ao mesmo tempo. de que Carlos é um bom exemplo. ociosa.

É uma personagem contraditória. punhos tísicos. pescoço esganiçado. a culpada de todas as desgraças da família Maia. não por maldade. A mãe era uma rica viúva e beata que vivia ao pé de Celorico de Bastos.e o filho . Apaixonou-se por Pedro e casou com ele. com a filha. Por um lado. Maria Eduarda. Morto Tancredo. concebe grandes projectos . Mais tarde foge com o napolitano.Carlos Eduardo. pernas de cegonha". em parte. Deixa um cofre a um conhecido português . levando consigo a filha. Tinha os cabelos loiros. excêntrico e excessivo. Era o Mefistófeles de Celorico. excêntrico. cargas de negros para o Brasil. Costumavam chamar-lhe negreira porque o seu pai levara. sarcástico do Portugal Constitucional. É leal com os amigos. Guimarães . Leviana e imoral.com documentos que poderiam identificar a filha a quem Personagens Tipo: João da Ega Caracterização Física Ega usava "um vidro entalado no olho". o colo ebúrneo". Caracterização Psicológica É vítima da literatura romântica e daqui deriva o seu carácter pobre. Amigo íntimo de Carlos desde os tempos de Coimbra.Pedro da Maia . Fê-lo por amor. caricatural. Era o autêntico retrato de Eça.o democrata Sr. num duelo. progressista e crítico. por outro. tinha "nariz adunco. Tancredo. leva uma vida dissipada e morre quase na miséria. Boémio. noutros tempos. é. nunca revelou as origens. Caracterização Psicológica João da Ega é a projecção literária de Eça de Queirós. exagerado. romântico e sentimental. anarquista sem Deus e sem moral. "a testa curta e clássica.Maria Monforte Caracterização Física É extremamente bela e sensual. Havana e Nova Orleães. Desse casamento nasceram dois filhos. Sofre também de diletantismo. e abandonando o marido . onde se formara em Direito (muito lentamente).

Na prática. Tinha um bigode encerado e uma pêra curta. um falhado. Traí o marido. vem viver para Lisboa e torna-se amigo inseparável de Carlos. mais tarde. Fala de um modo depreciativo das mulheres.Raquel Cohen. acaba por perceber que ela é uma mulher sem qualquer interesse. Caracterização Psicológica Era voltado para o passado. revela-se em eterno romântico.literários que nunca chega a executar. Condessa de Gouvarinho Caracterização Física Cabelos crespos e ruivos. Envolve-se com Carlos e revela-se apaixonada e impetuosa. bem feita. Revelar-se-á. Nos últimos capítulos ocupa um papel de grande relevo no desenrolar da intriga. sem qualquer tipo de remorsos. Não compreende a ironia sarcástica de Ega. olhos escuros e brilhantes. com Carlos. Questões de dinheiro e a mediocridade do conde fazem com que o casal se desentenda. Caracterização Psicológica É imoral e sem escrúpulos. . Conde de Gouvarinho Caracterização Física Era ministro e par do Reino. que Carlos revela a verdade a Afonso. encarna a figura defensora dos valores da escola realista por oposição à romântica. é casada com o conde de Gouvarinho e é filha de um comerciante inglês do Porto. É ele que diz a verdade a Maria Eduarda e a acompanha quando esta parte para Paris definitivamente. fina e doce. um bruto com a sua mulher. Terminado o curso. Representa a incompetência do poder político (principalmente dos altos cargos). É juntamente com ele. Ega. Como Carlos. Carlos deixa-a. pele clara. Guimarães entrega o cofre. também ele teve a sua grande paixão . É a ele que o Sr. Tem lapsos de memória e revela uma enorme falta de cultura. corrompido pela sociedade. nariz petulante. demasiado fútil.

como um bêbado. O seu carácter é tão baixo. Guimarães é. Guimarães Caracterização Física Usava largas barbas e um grande chapéu de abas à moda de 1830. Mesquinho e convencido. é presumido. só para evitar bater-se em duelo com Carlos. Caracterização Psicológica Conheceu a mãe de Maria Eduarda. Alencar Caracterização Física . É dele a carta anónima enviada a Castro Gomes. XIX. a si próprio. A ele e ao tio se devem. que se retracta. provinciano e tacanho. Caracterização Psicológica Dâmaso é uma súmula de defeitos. portanto. que revela o envolvimento de Maria Eduarda com Carlos. respectivamente. tem uma única preocupação na vida o "chic a valer".Dâmaso Salcede Caracterização Física Era baixo. Filho de um agiota. "frisado como um noivo de província". o início e o fim dos amores de Carlos com Maria Eduarda. que lhe confiou um cofre contendo documentos que identificavam a filha. Sr. Representa o novo riquismo e os vícios da Lisboa da segunda metade do séc. Era sobrinho de Guimarães. o mensageiro da trágica verdade que destruirá a felicidade de Carlos e de Maria Eduarda. cobarde e sem dignidade. É dele também. gordo. a notícia contra Carlos n' A Corneta do Diabo.

"um diabo adoidado. O paladino da moral. a arte . "olhinhos piscos" e nariz espetado. entre naturalistas e românticos. Eça serve-se desta personagens para construir discussões de escola. Defende a arte pela arte. românticos bigodes grisalhos". Caracterização Psicológica Era calvo. com uma face encaveirada. Não tem defeitos e possui um coração grande e generoso. em toda a sua pessoa "havia alguma coisa de antiquado. Era demasiado chegado à sua velha mãe. olhos encovados. e sob o nariz aquilino. mas que representa a formação britânica. longos. o protótipo do que deve ser um homem. Segundo Eça. pianista com uma pontinha de génio".Tomás de Alencar era "muito alto. de artificial e de lúgubre"."Se eu fizesse uma boa ópera. maestro. quem é que ma representava". Craft É uma personagem com pouca importância para o desenrolar da acção. numa versão caricatural da Questão Coimbrã. Simboliza o romantismo piegas. espessos. Cruges Caracterização Física "De grenha crespa que lhe ondulava até à gola do jaquetão". É o poeta do ultra-romantismo. Era também o companheiro e amigo de Pedro da Maia. era amigo de Carlos e íntimo do Ramalhete. É desmotivado devido ao meio lisboeta . Caracterização Psicológica Maestro e pianista patético.

para se distrair. Eusebiozinho Eusebiozinho representa a educação retrógrada portuguesa. mas enviuvou cedo. Também conhecido por Silveirinha. Cresceu tísico. Inglês rico e boémio. molengão.senhoras ricas e beatas. . bordéis ou aventureiras de ocasião pagas à hora. É culto e forte. "sentindo finamente. pensando com rectidão". Procurava.como idealização do que há de melhor na natureza. de hábitos rígidos. era o primogénito de uma das Silveiras . Amigo de infância de Carlos com quem brincava em Santa Olávia. e com quem contrastava na educação. Casou-se. coleccionador de "bric-a-brac". tristonho e corrupto. levando pancada continuamente.

Teve uma educação à inglesa e tirou o curso de medicina em Coimbra.acção aberta. desenvolve-se segundo os moldes da tragédia clássica peripécia. reconhecimento e catástrofe. a separação definitiva dos dois amantes. A educação de Maria Eduarda foi completamente diferente.Acção N' Os Maias podemos distinguir dois níveis de acção: a crónica de costumes . que se divide em intriga principal e intriga secundária. e as reflexões de Carlos e Ega. a história de Pedro da Maia e Maria Monforte . provocando a catástrofe consumada pela morte do avô. São.época de reacção do Liberalismo ao Absolutismo. aliás. e a intriga .corresponde à crónica de costumes.época de decadência das experiências Liberais. que justificam a existência de título e subtítulo nesta obra. . O reconhecimento.Os Maias corresponde à intriga. torna a relação entre Carlos e Maria Eduarda uma relação incestuosa. A sua ligação amorosa foi comandada à distância por uma entidade que se denomina destino. Carlos é o protagonista da intriga principal.acção fechada. acarretado pelas revelações do Guimarães. enquanto que o subtítulo . a história da infância e juventude de Carlos da Maia .Os Maias .época de instauração do Liberalismo e consequentes contradições internas. sobre a identidade de Maria Eduarda. A peripécia verificou-se com o encontro casual de Maria Eduarda com Guimarães. nem pela hereditariedade. A acção principal d' Os Maias. Na intriga principal são retratados os amores incestuosos de Carlos e Maria Eduarda que terminam com a desagregação da família . donde se conclui que a sua paixão não foi condicionada pela educação. estes dois níveis de acção. O título . Na intriga secundária temos: a história de Afonso da Maia . com as revelações casuais do Guimarães a Ega sobre a identidade de Maria Eduarda.morte de Afonso e separação de Carlos e Maria Eduarda.Episódios da Vida Romântica . e com as revelações a Carlos e Afonso da Maia também. nem pelo meio.

Em Santa Olávia passasse a infância de Carlos.Os Maias . quer à relação amorosa dos protagonistas. . portanto. o quarto de Carlos. destacamos os mais importantes.O Espaço N' Os Maias podemos encontrar três tipos de espaço: o espaço físico. Pedro e Maria vivem em Itália e em Paris devido à recusa deste casamento pelo pai de Pedro. "como um ar de quarto de bailarina". palco de vários encontros. É também para lá que este foge quando descobre a sua relação incestuosa com a irmã. O próprio resolve a sua vida falhada com a fixação definitiva em Paris. É em Lisboa que se dão os acontecimentos que levam Afonso da Maia ao exílio. mais concretamente em Lisboa e arredores. o espaço social e o espaço psicológico. Em Coimbra passam-se os estudos de Carlos e as suas primeiras aventuras amorosas. Maria Eduarda segue para Paris quando descobre a sua relação incestuosa com Carlos. e é também lá que decorre a vida de Carlos que justifica o romance .a sua relação incestuosa com a irmã. Espaço Físico Exteriores A maior parte da narrativa passa-se em Portugal. No Ramalhete podemos encontrar: o salão de convívio e de lazer. e os jardins. que tem o aspecto de uma "severa câmara de prelado". Deve referir-se como importante espaço exterior Sintra. Afonso exila-se em Inglaterra para fugir à intolerância Miguelista. o escritório de Afonso. Interiores Vários são os espaços interiores referidos n' Os Maias. O estrangeiro surge-nos como um recurso para resolver problemas. é em Lisboa que sucedem os acontecimentos essenciais da vida de Pedro da Maia. quer relativos à crónica de costumes.

É sobretudo Carlos. espectáculos). por razões de elitismo. as reuniões na redacção d' A Tarde. O espaço social cumpre um papel puramente crítico. a alta aristocracia e a burguesia. a casa dos Condes de Gouvarinho. o Sarau Literário no Teatro da Trindade .ambientes fechados de preferência. soirés. o Hotel Central os hotéis de Sintra. no jardim. Espaço Psicológico O espaço psicológico é constituído pela consciência das personagens e manifesta-se em momentos de maior densidade dramática.as classes dirigentes. que revela amores ilícitos. contemplação de Afonso morto. as corridas do Hipódromo. visão do Ramalhete e do avô. reflexões e inquietações após a descoberta da identidade de Maria Eduarda. Ocupando também Ega. a Toca. a redacção d' A Tarde e d' A Corneta do Diabo. O espaço psicológico permite definir estas personagens como personagens modeladas. o luxuoso consultório de Carlos que revela o seu diletantismo e a predisposição para a sensualidade. Destacamos. Destacamos o jantar do Hotel Central. que reflecte a sensualidade de João da Ega. São ainda referidos outros espaços interiores de menor importância como o apartamento de Maria Eduarda. após o incesto. que desvenda os labirintos da sua consciência. o sonho de Carlos no qual evoca a figura de Maria Eduarda. bailes. onde actuam as personagens que o narrador julgou melhor representarem a sociedade por ele criticada . como espaço psicológico. Santa Olávia. etc. Espaço Social O espaço social comporta os ambientes (jantares. chás. reflexões de Carlos sobre o parentesco que o liga a Maria Eduarda.A acção desenrola-se também na vila Balzac. o Grémio. A Toca é também um espaço interior carregado de simbolismo. nova evocação dela em Sintra. o Teatro da Trindade. É referido também na obra. Quanto a Ega. . os jantares em casa dos Gouvarinho. um lugar de relevo.

para tal Eça serve-se muitas vezes da cena dialogada. data em que Carlos. Do Outono de 1875 a Janeiro de 1877 . reflectindo até acontecimentos cronológicos históricos do país. Ega se encontra com Carlos em Lisboa. . o tempo histórico é dominado pelo encadeamento de três gerações de uma família. após a formatura. veio com o avô instalar-se definitivamente em Lisboa.Tempo Este romance não apresenta um seguimento temporal linear. casamento e suicídio de Pedro da Maia.cerca de 600 páginas . concluída a sua viagem de um ano pela Europa. referir-se aos antepassados do protagonista (juventude e exílio de Afonso da Maia. o discurso inicia-se no Outono de 1875. tempo do discurso e tempo psicológico. Na obra. cujo último membro . uma estrutura complexa na qual se integram vários "tipos" de tempos: tempo histórico. A fronteira cronológica situa-se entre 1820 e 1887.Carlos. alargado ou resumido. O último capítulo é uma elipse (salto no tempo) onde. o narrador vai. até parte do capítulo IV. mas. Assim. passados 10 anos. Pelo processo de analepse. pelo contrário. Assim. N' Os Maias. Tempo do Discurso Por tempo do discurso entende-se aquele que se detecta no próprio texto organizado pelo narrador. e à educação de Carlos da Maia e sua formatura em Coimbra) para recuperar o presente da história que havia referido nas primeiras linhas do livro. como vemos.data em que Carlos abandona o Ramalhete existe uma tentativa para que o tempo histórico (pouco mais de um ano da vida de Carlos) seja idêntico ao tempo do discurso . Tempo Histórico Entende-se por tempo histórico aquele que se desdobra em dias. o tempo histórico é muito mais longo do que o tempo do discurso. o tempo concreto da intriga compreende cerca de 70 anos. meses e anos vividos pelas personagens. apresentadas por meio de resumos e elipses. Esta primeira parte pode considerar-se uma novela introdutória que dura quase 60 anos. aproximadamente. educação. Esta analepse ocupa apenas 90 páginas. se destaca relativamente aos outros. ordenado ou alterado logicamente.

percepções de tipo diferente traduzindo ironia. após a sua chegada de Paris. Os adjectivos tem uma função musical e rítmica completando a linha melódica da frase. Eça ampliou o número de advérbios de modo que a linguagem proporcionava. Relativamente aos substantivos e adjectivos. ele penetrava outra vez naquela sala de repes vermelhos. O tempo psicológico introduz a subjectividade.". a obra de Eça contem muitos mais adjectivos do que substantivos. o impressionismo. muitas vezes carregado de densidade dramática.. Carlos. ficando. é possível evidenciar alguns momentos de tempo psicológico nalgumas personagens: Pedro da Maia. terminada a longa noite. ou. portanto. na companhia de João da Ega. caracteriza-se pela frequência de construções impessoais.. O advérbio toma. frequência da hipálage (transposição de um atributo de gente para a acção). em Eça. É o caso de "agora o seu dia estava findo: mas. o que põe em causa as leis do naturalismo. Assim. Por exemplo. uma vez que o efeito é percepcionado independentemente da causa. embora não muito frequente. quando recorda o primeiro beijo que lhe deu a Condessa de Gouvarinho. bem patente. funções de atributo e a sua acção alcança o sujeito ou o objecto. De facto.Tempo Psicológico O tempo psicológico é o tempo que a personagem assume interiormente. o sujeito para segundo plano. passadas as longas horas. já no final de livro. contempla. pela destreza e mestria com que o autor conta o romance. derivando-os dos adjectivos. Estética Os Maias distinguem-se no quadro da literatura nacional não só. No romance. tanto a crítica social. É o tempo que se alarga ou se encurta conforme o estado de espírito em que se encontra. é o tempo filtrado pelas suas vivências subjectivas. o velho Ramalhete abandonado e ambos recordam o passado com nostalgia. É frequente o contraste substantivo concreto qualificado com um adjectivo abstracto ou viceversa. . na noite em que se deu o desaparecimento de Maria Monforte e o comunica a seu pai. pela originalidade do tema mas também. Uma visão pessimista do Mundo e das coisas. como a intriga amorosa são valorizadas pelo rigor e beleza dos vocábulos utilizados.

adjectivações. tal como o analista no laboratório. entre outros e. que. enunciando os seguintes princípios: «É a negação da arte pela arte. aproximar a prosa literária da linguagem falada. Em Portugal agitava-se o mesmo sentido reformista em Coimbra (1860-1865). Também o Determinismo e o Naturalismo de Taine e. da epilepsia da palavra.: disse que). também. É a análise com o fito na verdade absoluta. Sente-se a crise religiosa no positivismo de Auguste Comte. e o escritor tem de escolher um ou outro. O Realismo é anatomia do carácter. do piegas. viva. Renan. existem em maior ou menor grau todos os níveis de linguagem. Victor Hugo. do enfático. Este tipo de discurso permitia-lhe: libertar a frase dos verbos muito utilizados e da correspondente conjugação integrante (ex. se fez sentir essa rajada ideológica de natureza social e política nas Odes Modernas (1865) de Antero e na Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (1864) de Teófilo Braga. Faz-se eco de Boileau quando afirma «rien n'est beau que le vrai». na literatura. em breve. Eça utiliza o estilo indirecto livre. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para condenar o que houver de mau na nossa sociedade». Aliterações.e nas quais Eça pronuncia uma conferência com o título «O realismo como nova expressão de arte». popular e também neologismos (exemplo: Gouvarinhar). o que lhe concede um cunho particularmente queirosiano. sã. da gestão dos tropos. a tentar encontrar as respectivas causas. As Conferências do Casino Lisbonens. uns com o romance realista e o Parnasianismo. objectivamente. É uma arte que .O verbo oferece a alternância dos seus sentidos . Estes podem invocar conceitos subjectivos múltiplos sem deixarem. Alphonse Daudet. O espírito analítico aguça o trabalho do observador. Flaubert e Baudelaire. com uma natureza soalheira. Nela faz referência aos quadros realistas de Courbet. matizada. enchem Os Maias do início ao final da obra. o socialismo de Proudhon vão determinar essa renovação que se opera na segunda metade do século XIX. exercem a sua influência nessa viragem que se opera. Realismo A Questão Coimbrã está na origem de um renovação literária à qual a França deu o seu impulso. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período. Renan com o seu ateísmo. aberta à observação e não propensa ao devaneio. de descrever aspectos das coisas. conseguia impersonalizar a prosa narrativa dissimulando-se por detrás das suas personagens. Por outro lado. é a prescrição do convencional. substituindo o «eu» sujeito (subjectivismo) pelo objecto (objectivismo). por isso. A arte é posta ao serviço da ciência e daí o Naturalismo. depois. Balzac e Zola. onde uma falange de jovens devorava Proudhon. comparações. É a crítica do homem. Da linguagem familiar à linguagem infantil. Esta obra é muito rica em figuras de estilo. positiva. Michelet e o seu anticlericalismo. o Realismo é uma reacção contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento. Zola. outros com o romance naturalista. se debruça sobre os factos a explicá-los. personificações. É o rastilho da Questão Coimbrã à qual se seguem. permitia-lhe. proclama uma literatura arejada. N' Os Maias.próprio ou figurado. Com estes parâmetros.

de experimentar. De francamente positivo o Realismo trouxe o enriquecimento e aperfeiçoamento da língua. que todo se desinfecta e calça luvas para efectuar uma operação. de ver. Naturalismo Interessa ao naturalista. L' ouvrage véritable est dans ce que l'on voit ». No início dos anos 60.reforma. o cosmopolitismo afirma-se. Afirma-se o impessoalismo. mas não uma maneira especial de escrever» e Eça justifica determinadas situações nos seus romances . Pinheiro Chagas publica o Poema da Mocidade. Os sectários de Castilho por um lado. de reflectir. com uma relevância especial no emprego do adjectivo. segundo o pensamento de Aain de Lattre «L'oeuvre. chegando ao ponto de propor o jovem poeta para reger a cadeira de Literatura no Curso Superior de Letras. do concreto pelo abstracto. o escritor naturalista quando se debruça sobre a podridão social. No primeiro romance. est une fabrication et de seconde main. Assim. moralizando. embora. produto do meio. vieram a terreiro lançar dezenas de opúsculos de cariz fortemente polémico e onde por vezes não .. era apenas instinto. Eça mais um escritor realista do que naturalista. Carlos. Seja. da imagem. com novas formas de expressão. em cujo posfácio o velho poeta António Feliciano de Castilho lhe fez elogios rasgados. de estudar. Pratica-se a rejeição do trabalho inventivo. quando põe a nu os podres de uma sociedade que a arte dos clássicos e o sentimento dos românticos tinham deixado camuflados. principalmente. Foi o suficiente para de imediato Antero de Quental lançar um violento ataque num opúsculo intitulado Bom Senso e Bom Gosto. Talvez a imagem do escritor realista se assemelhe à do cirurgião. o meio ambiente em Os Maias. Huret em Enquêtes sur l'évolution littéraire é «um método de pensar. é anulado o interesse pelo passado nacional. Diz Zola: «Cacher l'imaginaire sous le réel». sugerindo os pensamentos de Carlos após a revelação de Ega. Questão Coimbrã Foi uma das mais importantes polémicas literárias portuguesas e a maior em todo o século XIX. uma necessidade de saber. estas duas posições não estão dissociadas nele. o que leva à fuga do «eu». contrariamente ao vulgar matador de porcos que. com as suas mãos. Recebe também a influência de Zola e é naturalista Abel Botelho. a objectividade. São postos de parte os valores espirituais. Também naturalista nessa obra é o realce que o autor dá ao subconsciente freudiano. também. pois o Naturalismo como o definiu J. É evidente a apetência pelo pormenor descritivo. a captação das impressões pelos sentimentos.. como a mãe. as pressões do momento em A Relíquia. chafurda no corpo do animal. desejo. encontrar o clima científico motivador do comportamento das personagens. e outros jovens por outro.a hereditariedade. um grupo de jovens intelectuais coimbrãos vinham reagindo contra a degenerescência romântica e o atraso cultural do país. Em 1865.

da filosofia e das próprias formas de organização social no país e em nações como a Inglaterra. institucional. apetência de contacto com a cultura mais avançada da Europa como não se via em Portugal desde o tempo da formação de um Garrett e de um Herculano. económica e cultural a que assistiam. Nos anos seguintes. embora a atitude de crítica e de intervenção cultural e política se mantivesse. a política e a filosofia. com repercussões públicas dignas de registo. Embora de origem literária. Jaime Batalha Reis e Guilherme de Azevedo. na historiografia. estes homens marcaram a cultura portuguesa até ao virar do século (se não mesmo até à República). ora a outras. Puderam.faltava o sarcasmo mordaz e o ataque pessoal. tendo Antero de Quental como figura de proa e de maior profundidade reflexiva. e integrando ainda literatos como Ramalho Ortigão. liberal e progressista não se revia nos formalismos estéticos que grassavam nem naquilo que consideravam ser a estagnação social. Antero suicidou-se em 1891. e em 1871 organizou as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. pois esses jovens intelectuais (que foram o fermento da posterior Geração de 70). que opôs o grupo. com as quais chamou definitivamente a atenção da sociedade. a França ou a Alemanha. O grupo reunir-se-ia depois na capital. Branco. como sucedeu mais tarde. Eça de Queirós. o início de um espírito de modernidade nas letras portuguesas. Esta refrega durou mais de um ano e envolveu nomes que já eram ilustres. ao ultra-romantismo instalado que António Feliciano de Castilho personificava. O grupo fez-se notar a partir de 1865. trilhando caminhos de certa forma divergentes. Em 1865 é despoletada a chamada Questão Coimbrã. no ensaísmo e na política. Juntos ou. Travou-se uma acesa polémica. como Ramalho Ortigão e Camilo C. e dir-se-ia que esse gesto . à qual subjaziam grandes diferenças ao nível das referências estéticas mas também ideológicas. Geração de 70 Assim se designa o grupo de jovens intelectuais portugueses que. formando o Cenáculo. pois. esta juventude cosmopolita nas leituras. na literatura e na crítica literária. O seu inconformismo havia de se manifestar em diversas ocasiões. Guerra Junqueiro. a questão alargou-se a outras áreas como a cultura. ora dedicandose mais a umas actividades. primeiro em Coimbra e depois em Lisboa. aperceber-se da diferença que havia entre o estado das ciências. Os homens da Geração de 70 tiveram possibilidade e. Oliveira Martins. os membros do grupo foram definindo caminhos pessoais independentes. sobretudo. manifestaram a vontade de modernizar o pensamento e a Literatura em Portugal. Em consequência. Teófilo Braga. de certo modo. Ela marca. das artes. a pretexto de uma obra literária de mérito discutível. manifestaram um descontentamento com o estado da cultura e das instituições nacionais.

se vinha fazendo lá fora. Aproximar Portugal da Europa era o objectivo máximo. pois. Ramalho Ortigão. por um certo mundanismo desencantado. Estes não eram. De qualquer modo. na Alemanha e na Inglaterra se fazia sentir. Deste grupo faziam parte Oliveira Martins (autor da denominação Vencidos da Vida). Esta proibição levantou uma enorme onda de protestos de novo encabeçada por Antero de Quental. a partir da sexta. Conferências do Casino Conjunto de conferências realizadas em Lisboa em 1871 que surgiu aquando das reuniões do "Cenáculo" e que teve como impulsionador Antero de Quental. como as Conferências do Casino. as conferências foram proibidas pelo governo. na diplomacia. pedagógico e científico que na França. ficaram conhecidos (embora não com inteira justiça) pelo seu diletantismo. Bernardo de Pindela e o conde de Sabugosa. contudo. aliás. na historiografia e na literatura. o marquês de Soveral. Este espírito revolucionário e positivista dominava a maioria da jovem classe pensante. anunciado. Carlos Lobo d'Ávila. . Este é o ponto mais alto da Geração de 70. o conde de Ficalho. sob a alegação que elas atacavam "a religião e as instituições políticas do Estado". só se realizaram cinco. António Cândido.simboliza o destino destes homens a caminho do final do século. no Hotel Bragança ou na residência de um dos participantes. Vencidos da Vida Nome pelo qual ficou conhecido um grupo de onze intelectuais portugueses que tiveram destaque na vida literária e política do final do século XIX. sinais de falta de profundidade intelectual. Reuniram-se com certa regularidade entre 1888 e 1894. Guerra Junqueiro. Como um grupo. Das várias conferências previstas. Eça de Queirós juntou-se-lhes em 1889. no respectivo programa. Visavam abrir um debate sobre o que de mais moderno. Encontravam-se para convívio intelectual e diversão no Tavares. entre os intelectuais portugueses. social. em desilusão progressiva com o país e o sentido das suas próprias vidas. como comprovam as abundantes realizações dos seus membros na política. Vários destes intelectuais estiveram associados a iniciativas de renovação da vida social e cultural portuguesa de então. Carlos Mayer. ficou o gérmen da modernidade do pensamento político. a nível de pensamento.

Os Vencidos da Vida .

1855: Entra como aluno interno no Colégio da Lapa. no Porto. aliás. 1873: Visita os Estados Unidos em missão do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 1864: Conhece Teófilo Braga. Presta provas para cônsul de 1ª classe.Bio e Bibliografia 1845: Em 25 de Novembro. Parte para Évora. Sai o primeiro número do jornal. apresentando um estudo sobre "O realismo como nova expressão de arte". analisando a sociedade portuguesa. 1866: Forma-se em Direito. sendo colocado em Havana como cônsul. publicados em jornais portugueses e brasileiros da época. 1883: É eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências.cheios de um tom satírico e sagaz. "O Conde de Abranhos". . o "Mistério da Estrada de Sintra". registando as suas impressões de viagem influenciado. aceita a redacção de um jornal eborense. Dentro da linha definida nesse estudo. 1871: Participa nas Conferências do Casino. em França. 1884: "A Relíquia" e alguns comentários sobre a vida política mundial "Cartas de Inglaterra". 1861: Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. em colaboração com Ramalho Ortigão. focando principalmente o clero e a pequena burguesia dos meios provincianos. o Distrito de Évora. 1878: É transferido para Bristol. ficando em primeiro lugar. É na Inglaterra que redige "O Primo Basílio" descrevendo a média burguesia Lisboeta. em casa do pai. é em Leiria que dá inicio à redacção de "O crime do Padre Amaro". onde funda e dirige o jornal Distrito de Évora. Profissionalmente. seus vícios e hábitos. 1870: Este ano revela-se proveitoso para o escritor. 1865: Representa no Teatro Académico e conhece Antero de Quental. cujo director era pai de Ramalho Ortigão e. 1885: Visita em Paris Émile Zola. nasce na Póvoa do Varzim José Maria Eça de Queirós. simultaneamente. Regressa a Lisboa. 1874: É transferido para Newcastle. lançando igualmente de parceria com o mesmo autor "As Farpas". vê-se obrigado a deixar o meio intelectual português. "Cartas de Londres" . Estas notas de viagem foram posteriormente publicadas no "Egito". 1880: "O Mandarim". 1879: Escreve. 1869: Visita o Oriente com o objectivo de assistir à inauguração do Canal do Suez. seu professor de francês. Publica em folhetins no jornal Diário de Notícias. 1872: Como concorrera à carreira diplomática. por outros escritores que cultivavam esse género literário. Instala-se em Lisboa. 1867: Após a abertura do seu escritório de advocacia em Lisboa. é nomeado Administrador do Distrito de Leiria. Em "A Capital" é a classe liberal o alvo do seu humor irónico.

1900: Dirige a "Revista de Portugal". envia da cidade das Luzes para Portugal e Brasil. sendo a ironia a marca constante da sua obra literária. Eça de Queirós tinha-se tornado um dos nossos mais brilhantes escritores. Em plena Belle Époque. recriando a figura de Fradique Mendes. Os seus romances são portadores de um realismo corrosivo. 1902: "Contos". impregnado de uma espectacular. 1888: É transferido para Paris onde revela aquela que é por muitos considerada a sua obra-prima. e para a época. Assiste ao primeiro jantar dos "Vencidos da Vida".1886: Casa com Emília de Castro Pamplona. na sua casa de Neuilly. seu amigo e companheiro na viagem realizada ao Oriente. que na sua "Correspondência" revela um requintado cepticismo crítico. em que retrata a aristocracia e a alta-sociedade lisboeta. revelando um humor caricatural que se mantém sempre actual. irmã do 5º Conde de Resende. "A Correspondência de Fradique Mendes" e "A Ilustre Casa de Ramires". "Cartas Familiares" e "Ecos de Paris". Em 16 de Agosto morre em Paris. os seus "Bilhetes de Paris". inovadora arte narrativa. . "Os Maias". 1901: "A Cidade e as Serras". 1889: É nomeado cônsul de Portugal em Paris.

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