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O INSTITUTO INDUSTRIAL DO PORTO E A DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA NA SEGUNDA METADE DO SÉC. XIX

O INSTITUTO INDUSTRIAL DO PORTO E A DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA NA SEGUNDA METADE DO SÉC. XIX

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Publicado porCosta, Patrícia
Artigo 3º Encontro Internacional Espaços e Actores da Ciência em Portugal,Lisboa, 24 e 25 Fevereiro 2012
Artigo 3º Encontro Internacional Espaços e Actores da Ciência em Portugal,Lisboa, 24 e 25 Fevereiro 2012

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O INSTITUTO INDUSTRIAL DO PORTO E A DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA NA SEGUNDA METADE DO SÉC.

XIX

Patrícia Costaa, Helder I. Chaminéb, Pedro M. Callapezc
a Museu do ISEP, Instituto Superior de Engenharia do Porto, Politécnico do Porto, Portugal, pcmc@isep.ipp.pt Instituto Superior de Engenharia do Porto, LABCARGA|ISEP e DEG; Centro GeoBioTec|UA, Portugal, hic@isep.ipp.pt c Centro de Geofísica; Departamento de Ciências da Terra|Universidade de Coimbra, Portugal, callapez@dct.uc.pt

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Palavras chave: ensino industrial, coleções didáticas, conhecimento científico, regeneração, Portugal.

Resumo Com a criação, em 1852, da Escola Industrial do Porto, iniciou-se uma importante etapa na divulgação da ciência junto das novas classes de trabalhadores, parte de um operariado emergente graças ao esforço de industrialização nacional e seu maior impacte na região norte do país. O ensino industrial destacava-se por uma forte componente prática, comprovada pela criação multidisciplinar de laboratórios e de gabinetes científicos, os quais permitiam aos alunos o acesso a atividades experimentais em áreas ligadas aos novos processos tecnológicos. Anualmente eram adquiridos no estrangeiro instrumentos, aparelhos, modelos, minerais, rochas e espécimes fósseis, com o intuito de equipar estes espaços com o que de melhor se produzia e se empregava nas principais escolas dos países líderes da Revolução Industrial. O acervo de Mineralogia, Petrologia e Paleontologia hoje conservado no Museu do ISEP, é proveniente de fornecedores especializados de França (Les Fils d´Émile Deyrolle e J. Digeon) e da Alemanha (Theodor Gersdorf e Friedrich Krantz) e ilustram o contexto económico, onde a indústria extrativa desempenhava um papel fulcral na obtenção de carvão e de outras matérias-primas estratégicas. Deste modo, é natural que a Geologia e Arte de Minas tenham desempenhado um papel significativo na formação académica do ensino industrial, principalmente a partir da reforma de 1864. Competia aos docentes responsáveis pelas respetivas cadeiras a seleção das aquisições. Estes consideravam que as matérias deveriam ser lecionadas na presença de modelos de minas e de espécimes que reproduzissem os principais depósitos minerais e suas paragéneses. Esta atitude denota um conhecimento muito rigoroso dos métodos de ensino e do material didático que se produzia na Europa, proporcionando aos alunos uma constante atualização de conhecimentos, assim como um contacto mais direto com as técnicas atuais. Em conclusão consideramos que a aquisição destas coleções integrou um esforço acentuado de modernização do ensino em Portugal, em paridade com os avanços da ciência e sua aplicação nos setores produtivos da sociedade, adequando-os de modo a contribuírem significativamente para o progresso económico do país, através da indústria, comércio e agricultura alicerçados numa mão-de-obra especializada.

Introdução Com a criação, em 1852, da Escola Industrial do Porto (fig.1), na sequência de reformas introduzidas após o dealbar da Regeneração, iniciou-se uma importante etapa na divulgação da ciência junto das novas classes de trabalhadores, graças ao esforço de industrialização nacional. A preocupação na formação de quadros qualificados de um operariado do meio fabril em franco crescimento e transmutação tinha já sido abordada, pouco tempo antes, pela Associação Industrial Portuense. Esta chegou mesmo a criar a sua própria escola industrial que tinha como principal objetivo “a instrucção especial e technica dos indivíduos da classe industrial”1.

Fig. 1 – Panorâmica aérea das novas instalações do Instituto Industrial do Porto, sitas na Rua de S. Tomé, Paranhos, cidade do Porto e inauguradas em 1967 (Fotografia pertencente ao acervo do Museu do ISEP, nº inv. MPL6142FOT).

A partir da criação oficial deste ensino os alunos passaram a ter acesso a uma formação organizada e devidamente regulamentada, à semelhança do que já se havia verificado em Inglaterra, em França ou na Prússia, estados líderes da Revolução Industrial, em meados dos séculos XVIII e XIX.

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Cf. Jornal da Associação Industrial Portuense, nº 6, segunda-feira, 1 de Novembro, 1852, pp. 81-94.

Este tipo de ensino, assim como a sua organização, foi pensado pelo Ministério das Obras Publicas, Comercio e Industria, com o objetivo de ter efeito direto e poderoso no desenvolvimento da riqueza pública2. Nos primeiros anos (1852-1864) a Escola Industrial do Porto apenas lecionou a instrução completa dos dois primeiros graus do ensino industrial, ou seja o elementar e o secundário, assim como a 7ª cadeira (química aplicada às artes) do ensino complementar, que era lecionado integralmente no Instituto Industrial de Lisboa. Por natureza o seu ensino estava vocacionado para o aperfeiçoamento dos artífices, com os cursos de operário habilitado, de oficial forjador, de oficial fundidor, de oficial serralheiro ajustador ou de oficial torneiro modelador3. Ajustava-se, assim, a um elenco de alunos oriundos das classes menos favorecidas, destinados a integrarem um futuro operariado tecnicamente qualificado para contribuir na otimização de novas unidades industriais. É neste contexto que a escola do Porto surge como estabelecimento de ensino de grande importância no norte do país, a par da Academia Politécnica do Porto, que já tinha em meados do século XIX uma longa tradição no que respeitava ao ensino técnico no nosso país, e onde se lecionava uma formação superior. Em comum estas duas instituições tinham o edifício, atual Reitoria da Universidade do Porto, alguns docentes e certos recursos materiais.

O ensino industrial e a divulgação da ciência

O ensino industrial destacava-se por uma forte componente prática, comprovada pela criação multidisciplinar de laboratórios e de gabinetes científicos vocacionados para a didática (figs. 2 e 3), que possibilitavam aos alunos o acesso a atividades experimentais. Estas incidiam, sobretudo, em áreas ligadas aos novos processos tecnológicos utilizados nas obras e unidades fabris da época.

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Cf. Relatório que acompanha o decreto de 30 de Dezembro de 1852. Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, p. 864. 3 Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 30 de Dezembro de 1852, Artigo 9º, p. 867.

Fig. 2 - Laboratório Químico do Instituto Industrial e da Academia Politécnica do Porto (séc. XIX) (fotografia pertencente ao acervo do museu do ISEP, MPL6157FOT).

Fig. 3 - Gabinete de Física do Instituto Industrial e da Academia Politécnica do Porto (séc. XIX) (fotografia pertencente ao acervo do museu do ISEP, MPL6151FOT).

A partir da reforma do ensino industrial, publicada em 1864, em que a Escola Industrial passou a ser denominada de Instituto Industrial do Porto, verificou-se um incremento muito significativo no desenvolvimento dos estabelecimentos auxiliares de ensino. Passaram a existir oficialmente, de acordo com o referido no Capítulo IX do decreto de 20 de Dezembro de 1864, os seguintes estabelecimentos: uma biblioteca, um laboratório químico, um gabinete de física e um museu tecnológico. Salienta-se que o diretor da escola tinha a possibilidade de criar estabelecimentos auxiliares para além dos especificados no decreto, caso houvesse necessidade disso, como acabou por se verificar mais tarde. Anualmente eram adquiridos no estrangeiro instrumentos, aparelhos, modelos, minerais, rochas e espécimes fósseis4, com a finalidade de equipar estes espaços com o que de melhor se produzia e se empregava nas principais escolas dos países líderes da Revolução Industrial, permitindo aos alunos o manuseamento ou o contato direto com o que de mais inovador existia nas diferentes áreas lecionadas na escola.
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Livros de registo de toda a receita e despesa da Escola Industrial e Instituto Industrial do Porto, 1859-1902. (documentos pertencentes ao Arquivo Histórico do ISEP)

Em virtude do esforço de industrialização em curso no nosso país, também incidir na faceta da indústria extrativa, é natural que a Geologia e Arte de Minas tenham desempenhado um papel significativo na formação académica do ensino industrial, principalmente a partir de 1864, quando foi criado o Curso de Condutor de Minas5. São disso prova os acervos de Mineralogia, Petrologia e Paleontologia hoje existentes no Museu do ISEP, nos quais as principais geocoleções são provenientes, maioritariamente, de fornecedores especializados de países europeus como a França e a Alemanha. Estes recursos formativos eram essenciais para a preparação dos alunos no terreno, num cenário em que a indústria extrativa desempenhava um papel fulcral na obtenção de carvão e de outras matérias-primas estratégicas para Portugal (fig. 4).

Fig. 4 – Etiquetas existentes em diversos objetos do acervo do Museu do ISEP, coleção de mineralogia e metalurgia, comprados a fornecedores de renome internacional como: Les Fils d´Émile Deyrolle (Paris), Dr. F. Krantz (Bona), Th. Gersdorf (Freiberg) e J. Digeon (Paris).

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Cf. Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 20 de Dezembro de 1864, Artigo 5º, p. 960.

No entanto, apesar dos progressos verificados desde o início da Regeneração, se analisarmos os resultados do inquérito industrial em 1890, poder-se-á concluir que as técnicas de mineração ainda se deparavam com bastantes carências. Com efeito, a lavra de minas não estava tão desenvolvida como se pretendia já que escassas minas laboravam de forma regular e que tinham equipamento adequado e meios para transportar o seu produto, como por exemplo uma linha de caminho-de-ferro próximo6, muito útil para garantir a chegada de materiais, equipamento e pessoal necessário à atividade e exportação da produção7. Na segunda metade do século XIX foram licenciadas mais de 300 minas, muitas delas a estrangeiros e nalgumas nem se esboçou a exploração. A atividade mineira em Portugal foi sempre pouco desenvolvida, sujeita às flutuações dos preços internacionais, dos impostos ou pelas condições fortuitas da guerra8. Após a publicação dos novos programas dos cursos professados no Instituto Industrial do Porto, no ano de 18679, dá-se o arranque definitivo desta área na escola, através da nomeação do docente para a 7ª cadeira Arte de Minas, Docimasia e Metalurgia, António Ferreira Girão, lente substituto na Academia Politécnica do Porto. Este foi substituído provisoriamente pelo Professor Manuel Nepomuceno até 1881, altura em que o Professor Manuel Rodrigues Miranda Júnior, igualmente docente da Academia, assumiu a regência da cadeira10. Ainda em 1867, adquirem-se os primeiros exemplares de minerais, mais concretamente 2000, para o recém-criado Gabinete de Mineralogia11, um dos exemplos de estabelecimento auxiliar existente na escola que não foi oficialmente criado pelo já referido decreto de 1864 (fig. 5). A Geologia e Arte de Minas assumem um papel ainda mais significativo na formação dos alunos do ensino industrial quando, a partir de 1869, o curso de condutores de minas e mestres mineiros passa a ser professado unicamente na escola do Porto12.
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Inquérito Industrial de 1890, Vol. I, Industrias Extrativas: Minas e Pedreiras, Lisboa: Imprensa Nacional, 1891. BRANDÃO, José Manuel - Caminho de Ferro Mineiro do Lena: desígnio de progresso industrial e social. In: Património geológico, arqueológico e mineiro em regiões cársicas: atas do Simpósio Ibero-Americano, Batalha, 29 de Junho a 1 de Julho de 2007. Editores José M. Brandão, Carlos Calado, Fernando Sá Couto. SEDPGYM, 2008, p. 193. 8 GUERRA, Franklin, História da Engenharia em Portugal. 2ª ed. Publindústria: Porto, 2010, pp. 189-190. 9 Cf. Programas dos Cursos Professados no Instituto Industrial do Porto (Decreto de 20 de Dezembro de 1864) aprovados por Portaria do Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria de 15 de Maio de 1867. Porto: Typografia de António José da Silva Teixeira, 1867. 10 Cf. Livro de termos de pose dos lentes e mais empregados da Escola Industrial do Porto, Porto, 19 de Setembro de 1853, José de Parada e Silva Leitão, o Diretor. 11 Livro de correspondência expedida, Carta de 1 de Junho de 1867. 12 Cf. Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 30 de Dezembro de 1869, pp. 865-868.

Fig. 5 – Alguns exemplares de minerais e rochas das coleções estrangeiras do século XIX existentes nos acervos do Museu de Mineralogia do Instituto de Engenharia do Porto.

A partir de 1883, o número de aquisições e de ofertas aumentou consideravelmente. Nesta data, para além dos exemplares de mineralogia, passou-se a dar atenção à necessidade de incorporar modelos didáticos de metalurgia na coleção, que até então não se tinha verificado.

Fig. 6 - Modelo de forno revérbero para pudlagem, do construtor Theodor Gerdorf, pertencente ao acervo museológico do ISEP (nº inv. MPL573OBJ).

Um exemplo disso foi a compra de modelos de minas e de fornos de metalurgia ao construtor Theodor Gersdorf (fig. 6), fornecedor da Academia de Freiberg, uma das escolas de minas mais prestigiadas da Alemanha e da Europa naquela época, fundada em 1765, para instalação do Gabinete de ensino prático anexo à cadeira de Arte de Minas e Metalurgia.

Na nota que acompanhou a encomenda desses materiais, o Professor Manuel Rodrigues Miranda Júnior, responsável pela cadeira desde 1881, como já foi referido, mencionou expressamente que estes modelos deveriam ser pedidos ao construtor Gerdorf de Freiberg, fornecedor da Escola de minas daquela cidade (fig. 7), e que os números (que se encontram à esquerda da figura) correspondiam aos do catálogo do mesmo construtor.

Fig. 7 - Nota de encomenda dos modelos para o estudo da metalurgia escrita pelo Professor Manuel Rodrigues Miranda Júnior em 1880, para instalação do Gabinete anexo à cadeira de Arte de Minas e Metalurgia. Os números à esquerda correspondiam aos do catálogo do mesmo construtor (documento pertencente ao arquivo histórico do ISEP).

Como ficou acima demonstrado, a seleção das aquisições era da competência dos docentes responsáveis pelas respetivas cadeiras. Estes consideravam que as matérias deveriam ser lecionadas na presença de modelos de minas e de espécimes que reproduzissem os principais tipos de depósitos minerais com importância económica existentes na natureza e sua respetiva paragénese. Esta atitude denota, na nossa opinião, um conhecimento muito rigoroso dos métodos de ensino e do material didático que se produzia na Europa, proporcionando aos alunos uma constante atualização dos seus conhecimentos, assim como um contacto mais direto com as técnicas mais atuais, ao tempo em uso na indústria e outras atividades económicas com elas relacionadas. Para este conhecimento tecnológico também terá contribuído a presença da escola industrial do Porto e dos seus professores nas Exposições Universais que proliferaram na segunda metade do século XIX13, permitindo que o conhecimento científico desenvolvido nos estados líderes da Revolução Industrial chegasse a países mais periféricos da Europa, como era o caso de Portugal, com a aplicação das novas invenções em áreas como a indústria e a agricultura. Assim, na tentativa de acompanhar o que de melhor se ia produzindo e inventando no estrangeiro, principalmente no que dizia respeito às indústrias, a escola industrial começou a participar nestes certames a partir de 1855. Esta primeira presença foi feita de forma indireta e na pessoa do seu diretor, José de Parada e Silva Leitão. Este

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Cf. Volumes da correspondência recebida do Instituto Industrial do Porto, Arquivo Histórico do ISEP.

foi nomeado vogal da Comissão das Províncias do Norte14 para a Exposição Universal de Paris15, com a finalidade de promover a reunião dos produtos e facilitar a sua remessa para Lisboa, onde um júri decidiria quais os que seriam enviados para Paris. A primeira Exposição Universal foi um sucesso, mostrando ao mundo civilizado numerosas inovações importantes para o desenvolvimento da humanidade. João de Andrade Corvo, responsável pela elaboração do relatório sobre a secção de agricultura na Exposição Universal de Paris, refere o seguinte no seu relatório sobre o evento: “Os
rápidos e brilhantes progressos da mechanica industrial no nosso século tem dado a todas as Indústrias o poder de produzir muito, de produzir barato, e de executar quer os trabalhos mais delicados, quer aqueles para que se exigem esforços violentos, com regularidade, rigorosa exactidão, perfeição geométrica e rapidez. Cortar, dobrar, moldar o ferro e o bronze; fiar, dobar, tecer as materias texteis; transportar com a rapidez do vento de um ao outro extremo do mundo civilizado viagentes e mercadorias; executar em fim todas as obras com que a imaginação do artista e as lucubrações do sábio estão cada dia enriquecendo a sociedade, pode-o a mechanica moderna, não o podia a mechanica de ha meio século apenas. Por meio das machinas sabe-se hoje ou multiplicar o poder de um qualquer motor, ou, o que vale muito mais, applicar esse poder aos trabalhos mais variados pelos meios que a cinemática e as experiencias têem ensinado aos modernos construtores.”
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Nos anos seguintes foram várias as exposições que se realizaram, tanto a nível nacional como internacional, em que o Instituto Industrial do Porto participou com tralhados e expositores (Quadro 1), como foi o caso na participação Exposição Internacional de Filadélfia, em 1876. A classe do Instituto era a 515 (aplainação, perfuração, entalhamento, forneiro, modelação, puncionagem, estampagem e máquinas de corte), pertencente ao Departamento V - Maquinaria, localizado no edifício principal. Fez-se representar pelo fabricante José Baptista, com um Torno Mecânico e acessórios, exemplos de trabalhos17. Com este torno mecânico este fabricante foi galardoado com um prémio.

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Esta comissão compreendia os distritos de Aveiro, Viseu, Guarda, Porto, Vila Real, Braga, Bragança e Viana do Castelo. 15 Cf. Anexo IV – Regulamento da Exposição Universal de Paris de 1855. 16 CORVO, João de Andrade. Relatório sobre A Exposição Universal de Paris: Agricultura. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857. 17 International Exhibition, 1876 at Philadelphia; Portuguese Special Catalogue; Departments I., II., III., IV.,V.; Mining and Metallurgy; Manufactures; Education and Science; Fine Arts; Machinery. s/l.: s/ed., 1876, p. 99.

Quadro 1 – Exposições realizadas na segunda metade do século XIX, em que o Instituto Industrial do Porto participou.

Exposições
Exposição Universal de Paris Exposição Industrial no Porto Exposição Universal de Londres Exposição Universal de Viena de Áustria Exposição Internacional de Filadélfia Exposição Universal de Paris Exposição de História Natural no Porto Exposição Mineira de Madrid Exposição Industrial de Guimarães Exposição Industrial de Lisboa Exposição Insular e Colonial Certame da República da Costa Rica Exposição Industrial do Porto Exposição Universal de Paris

Ano
1855 1857 1862 1873 1876 1878 1881 1883 1884 1893 1894 1895 1897 1900

Um outro fator que destacamos respeita aos manuais de ensino e a sua utilização. Para além de elaborar o programa, o professor responsável pela cadeira definia a bibliografia de referência. Contudo, a tarefa não se revelava fácil, sendo uma das dificuldades o orçamento disponível para estas aquisições e ao mesmo tempo a falta de compêndios em português, como seria conveniente, em virtude da maioria dos alunos não dominar qualquer língua estrangeira, principalmente o francês18. Apesar de todas estas dificuldades, anualmente eram adquiridos para a biblioteca da escola novos livros de forma a possibilitar aos alunos o acesso às novas teorias publicadas no estrangeiro, destacando-se mais uma vez a influência francesa e a inglesa19. Muitos destes manuais de referência no estudo da Mineralogia encontram-se hoje conservados no Fundo Bibliográfico Antigo do ISEP em conjunto com acervos mais antigos e de grande interesse histórico. Entre muitos outros exemplos merecedores de destaque, relevamos a edição original do Traité de Minéralogie de René-Just Haüy

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Ata da primeira sessão do Conselho Escolar, ano letivo de 1862-1863, 17 de Outubro de 1862. Relatório sobre o Instituto Industrial e Commercial do Porto. Anno lectivo de 1887-1888, Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria. Lisboa: Imprensa Nacional, 1889, p.33.

(fig. 8), obra que só por si permite antever a qualidade da biblioteca ao tempo existente à disposição de professores e alunos.

Fig. 8 – Página de rosto do livro de René-Just Háüy, Tomo I, 1801, pertencente ao Fundo Bibliográfico Antigo do Instituto Superior de Engenharia do Porto (livro nº 973).

As visitas de estudo organizadas pelos docentes também permitiam aos alunos, principalmente aqueles que frequentavam os cursos especializados, novas perspetivas sobre à utilidade prática dos conhecimentos adquiridos e a aquisição de competências em situações reais. Um dos exemplos marcantes da aplicação deste tipo de recursos letivos não formais foi a visita às minas do Lena (Leiria), em 1931 (fig. 9). A exploração dos carvões da bacia do Lena iniciou-se em 1855, tendo a sua produção ganho alguma expressão durante a 1ª Guerra Mundial, devido à escassez de carvão estrangeiro 20. A intenção era que o grupo visitasse várias instalações industriais em laboração no centro

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BRANDÃO, José Manuel - Caminho de Ferro Mineiro do Lena: desígnio de progresso industrial e social. In: Património geológico, arqueológico e mineiro em regiões cársicas: atas do Simpósio Ibero-Americano, Batalha, 29 de Junho a 1 de Julho de 2007. Editores José M. Brandão, Carlos Calado, Fernando Sá Couto. SEDPGYM, 2008, p. 194.

do país, principalmente as minas do Lena, a indústria vidreira de Marinha Grande e a fábrica de cimentos de Maceira-Liz21.

Fig. 9 - Grupo de professores e estudantes na entrada para as minas do Lena, em Leiria, durante visita de estudo realizada de 18 a 20 Junho 1931 (fotografia pertencente ao acervo do Museu do ISEP, nº inv. MPL6270FOT).

O interesse demonstrado pelas novas invenções e produtos industriais levou à criação de espaços expositivos que albergassem exemplos de tudo o que se relacionava com a indústria, ou seja os Museus Industriais e Comerciais (Lisboa e Porto) criados pelo decreto de 24 de Dezembro de 1883, como complemento do ensino professado nas escolas industriais. No primeiro parágrafo do decreto que cria este museu é evidente a importância que inicialmente lhe foi atribuída: “Considerando que o progresso incessante da
indústria e commercio, os novos inventos e os novos produtos, os processos modernos continuamente modificados e a abertura de recentes mercados tornam inadiável a creação de museus industriais e commerciais, que sejam o complemento indispensável dos conhecimentos obtidos nas escolas especiaes [...]”22

21 22

Cf. Ata do Conselho Escolar de 9 de Junho de 1931. Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 24 de Dezembro de 1883, p. 399.

Neste contexto a escola do Porto empenhou-se, durante a segunda metade do século XIX, através de métodos de ensino compostos por aulas teóricas complementadas por uma forte componente aplicada, facultar a várias gerações de alunos uma formação atualizada e ajustada às reais necessidades da indústria e do comércio. Pólo dinâmico de tecnologia e de ciência, sempre soube responder às carências do país e, principalmente, do Porto, cidade onde proliferava uma burguesia mercantil que demonstrava as suas preocupações económicas e sempre se associou ao desenvolvimento do ensino, desde a criação da famigerada Aula Náutica, em 176123. A escola sempre assumiu, deste modo, um papel de relevância, contribuindo para o desenvolvimento da cidade portuense e estando os seus dirigentes inteiramente empenhados nessa tarefa.

Considerações finais A área do Porto, verdadeiro núcleo da região norte do país, converteu-se num dos vértices de maior desenvolvimento económico com consequentes transformações sociais, desde o dealbar da Revolução Industrial em Portugal. Neste sentido e, principalmente, a partir da Regeneração, surgiu a necessidade de implementar o ensino industrial como forma de qualificar uma classe operária, que até aquela altura, estava pouco instruída. Assim, proporcionou-se a este estrato social, um dos pilares laborais, formação adequada aos novos desafios impostos pelo desenvolvimento industrial. Esta formação passava por um ensino teórico apoiado por aulas práticas em ambiente de laboratório, equipadas com uma profusão de material adaptado às vertentes aplicadas. Esse material era adquirido anualmente, integrando-se no esforço de modernização do ensino em Portugal, facto perfeitamente percetível através da leitura de relatórios enviados à tutela, onde sempre se mencionava o estado e grau de desenvolvimento dos estabelecimentos. Não obstante, os progressos verificados nem sempre eram notórios devido às pequenas dotações que a escola tinha para investir em modelos, máquinas e instrumentos, tão necessários para o ensino prático dos cursos lecionados. Muitas vezes estabeleciam-se prioridades, havendo uma discussão sobre onde e no que se iria investir. A realidade é que, apesar de todas estas condicionantes, chegou até nós um importante acervo que ilustra a contemporaneidade do ensino ministrado no Instituto

23

Criada pelo Alvará de 24 de Novembro de 1761, pp. 813-816.

Industrial do Porto durante a segunda metade do século XIX. Nele são notórias as influências inglesa, alemã e francesa, assim como o esforço de divulgação dos métodos mais atuais, no sentido de adequar o ensino industrial para que este contribuísse significativamente para o progresso económico do país, através da sua indústria, comércio e agricultura alicerçados numa mão-de-obra especializada.

Bibliografia
Legislação - Alvará de 24 de Novembro de 1761. - Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 30 de Dezembro de 1852. - Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Relatório que acompanha o decreto de 30 de Dezembro de 1852. - Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 20 de Dezembro de 1864. - Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 30 de Dezembro de 1869. - Colecção Oficial da Legislação Portuguesa, Decreto de 24 de Dezembro de 1883.

Manuscritos - Livros de registo de receitas e despesas da Escola Industrial e Instituto Industrial do Porto,1859-1902. - Volumes da correspondência recebida do Instituto Industrial do Porto, 1853-1900. - Ata da primeira sessão do Conselho Escolar, ano letivo de 1862-1863, 17 de Outubro de 1862. - Ata do Conselho Escolar de 9 de Junho de 1931. - Livro de correspondência expedida, Carta de 1 de Junho de 1867. - Livro de termos de pose dos lentes e mais empregados da Escola Industrial do Porto, Porto, 19 de Setembro de 1853, José de Parada e Silva Leitão, o Diretor.

Impressos - CORVO, João de Andrade – Relatório sobre A Exposição Universal de Paris: Agricultura. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857. - Relatório sobre o Instituto Industrial e Commercial do Porto. Anno lectivo de 1887-1888, Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria. Lisboa: Imprensa Nacional, 1889. - Inquérito Industrial de 1890, Vol. I, Industrias Extrativas: Minas e Pedreiras, Lisboa: Imprensa Nacional, 1891. - Programas dos Cursos Professados no Instituto Industrial do Porto (Decreto de 20 de Dezembro de 1864) Aprovados por Portaria do Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria de 15 de Maio de 1867. Porto: Typografia de António José da Silva Teixeira, 1867.

- International Exhibition, 1876 at Philadelphia; Portuguese Special Catalogue; Departments I., II., III., IV.,V.; Mining and Metallurgy; Manufactures; Education and Science; Fine Arts; Machinery. s/l.: s/ed., 1876. - GUERRA, Franklin, História da Engenharia em Portugal. 2ª ed. Publindústria: Porto, 2010.

Artigos - BRANDÃO, José Manuel - Caminho de Ferro Mineiro do Lena : desígnio de progresso industrial e social. In: Património geológico, arqueológico e mineiro em regiões cársicas : atas do Simpósio IberoAmericano, Batalha, 29 de Junho a 1 de Julho de 2007. editores José M. Brandão, Carlos Calado, Fernando Sá Couto. SEDPGYM, 2008.

Periódicos - Jornal da Associação Industrial Portuense, nº 6, segunda-feira, 1 de Novembro, 1852.

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