Uma Gota Rosa (Nat Seyfried) Música citada na história: Rewind (Rebobinar) por Diane Birch

Chicago, primavera de 1904

Diana e Kol Lam. Uma dupla inseparável e implacável de irmãos. Por que não aproveitar? A vida passava rápido demais para hesitações. Quem não se arriscava, ficava para trás. A herança dos avós repartida entre os dois era suficiente para viver sem preocupações. Uma noite de sábado... Claro que o mesmo lugar de sempre já era a marca registrada de ambos. Seria imperdoável caso não comparecessem. Diana animava-se com a quantidade de taças de cristal que a aguardavam, enquanto o garçom despejava o conteúdo de alguma garrafa com Champanhes de melhor qualidade no topo da pirâmide ordenada de taças, que transbordavam enchendo uma à outra. — Está fabricando o vestido ainda? — perguntava Kol, enquanto batia na porta do quarto da irmã mais nova. — Sabe, não posso sair simplesmente vestida como uma meretriz — a voz de Diana saía abafada pela porta. — Certo — aceitou Kol, avaliando seu reflexo no espelho de mogno pendurado na frente da escadaria de mármore. A aldrava rebatia três vezes na porta. O exato toque sintonizado que representava a chegada de Serenity Gagnon. Logo que Kol aproximou-se e abriu a porta, avistou a figura imponente de sua companhia mais duradoura.
There are many things that I would like to say to you (Há muitas coisas que eu gostaria de te dizer) But I don't have the words in my head (Mas não tenho as palavras na cabeça)

Days are passing by and all the leaves are changing too (Dias passam e as folhas também mudam) But time won't change the things unsaid (Mas o tempo não mudará as coisas não ditas)

— Estonteante seria um insulto à sua beleza. Ainda não criaram palavras para descrever tamanho encanto. — Declarou, trazendo uma de suas mãos enluvadas aos lábios. — Onde está Diana? — perguntou a Srta. Gagnon, com uma das sobrancelhas contornadas formando um arco perfeito. — Creio que ela não há de demorar — falou ele, capturando o queixo delicado da moça entre seu polegar e o indicador. — Será uma noite espetacular. *** Diana usava um vestido verde pistache com um decote em formato de U nas costas. Seus cabelos louros e impecavelmente ondulados se encontravam em um coque baixo, enquanto ela, Kol e Serenity ocupavam a mesa que dava vista para o Rio Chicago. Conversaram bastante. À medida que a noite transcorria, as notas que a vocalista alcançava com os mais recentes sucessos de jazz ficavam com um tom meloso. Quando a atenção de Kol pertencia totalmente à Serenity, Diana levantou-se. Caminhou por alguns minutos pelo estabelecimento, até que sentiu um aperto firme em seu pulso que a fez estacar onde estava. — Doçura — um rapaz alto, a pele acetinada e oliva, a olhava intensamente. Dois sorrisos simultâneos se misturavam, ao que ela retribuía o olhar. — Dr. Kenneth Hall — identificou-se, oferecendo uma das mãos a ela. — Sou médico do hospital leste. — Diana Lam, neta dos duques de Illinois — apertou a mão do homem com suavidade.

'Cause everything is different now (Porque tudo é diferente agora) I'd really like to tell you how (Eu realmente gostaria de te dizer o quanto) How I wanted you here by my side (Como eu queria você aqui do meu lado)

***

Os primeiros raios de sol ardiam sobre os olhos de Diana na manhã de Domingo. A casa do médico era realmente adorável. Requintada... Móveis de madeira lustrados... Piso de mogno que refletia com nitidez a luz dos candelabros... Kenneth respirava compassadamente, adormecido, ao lado de Diana. Seu vestido da noite anterior repousava na cadeira de balanço que ficava mais perto da varanda, e tudo que tinha consigo era o lençol que envolvia seu corpo. Não sabia o que fazer. Mas não era a primeira vez que isso acontecia... Motivo nenhum justificava a sensação que lhe alfinetava o estomago todos os momentos em que pensava que tinha dormido fora de casa. Deveria ser recatada... Kol não aprovaria. Como descrever toda a situação? Como explicar a magia da noite anterior? Um sentimento que nunca sentira com nenhum outro homem? Seu irmão sempre a censurava com sua postura brincalhona. Afinal, que moça de família acompanharia o irmão em suas noitadas, e esquadrinharia sua lista infinita de pretendentes? ***

Eles combinaram um jantar para a próxima noite. Diana tomou um banho e Kenneth lhe deu um novo vestido negro e drapejado da cintura para baixo, lhe ressaltando a silhueta.

Quando a carruagem parou em frente à mansão dos Lam, Diana estranhou assim que viu que Serenity quem abria a porta para recebê-la. Não era um espanto o relacionamento de Kol e Serenity, mas em geral, iam para a casa dela e ela veria o irmão depois de uns dois dias. — Aconteceu alguma coisa? — Diana indagou preocupada. Com o olhar estático, Serenity pegou seu pulso e a guiou até o quarto de Kol. Sua aparência estava péssima. Ele dormia agora. Suas feições expressavam cansaço, uma face que não combinava em nada com o seu sorriso sempre presente. — Como começou? — a voz de Diana era um sussurro quase inaudível. — Acho que um dos garçons estava tossindo... Talvez tenha pegado deles. Não tenho certeza. Eu já providenciei um médico. Ele deve chegar ao meio da tarde. Todos tinham o que temer. Uma gripe poderia ser uma pneumonia mascarada na pior das hipóteses. Não tinham tempo algum a perder.

*** O sol quase desaparecia no horizonte quando receberam o médico. Muitas ocorrências de emergência em casos de gripe só as assustavam ainda mais. Kol não merecia nada daquilo. Ninguém que aproveitava o máximo possível das melhores partes do que a vida tinha a oferecer merecia. Aquela situação toda soava incoerente. Cada minuto em que esperavam o veredicto do médico era uma completa tortura. Por fim o senhor abandonou o quarto de Kol segurando sua maleta e uma expressão ilegível marcando seu cenho. — É antecipado demais qualquer diagnóstico. Aconselho que a mudança para uma clínica seja providenciada amanhã bem cedo. É mais uma precaução mesmo.

Assentindo, as duas entraram no quarto. Kol não dirigia o olhar para elas. Estava absorto nos últimos raios que iluminavam a janela. Sua figura era apenas um eco das últimas celebrações. — Estou com medo — falou, ainda fitando qualquer ponto do quarto que não fosse a expressão de qualquer uma das duas. — Kol, você ficará bem — garantiu Diana. Sentando na beira da cama, abraçou o irmão mais velho. *** A carruagem os esperava. Dois cavalos negros a puxavam. Serenity os encontraria na clínica, voltara para casa para preparar suas coisas, estava determinada em passar quanto tempo fosse preciso na clínica até que Kol se recuperasse. ***

Diana não pôde comparecer ao jantar por razões evidentes. Kenneth parecera compreensivo, mas uma semana depois da internação de Kol, quando ela precisara voltar para casa, avistara a cena que estilhaçara seu coração em mil pedaços impossíveis de serem remontados. Uma mulher com cachos ruivos e um vestido bordô rendado, passeava de mãos dadas com o Dr. Hall na praça principal. O brilho instantâneo da luz do sol era como mil fogos de artifício que piscavam, mostrando a aliança dourada de diamante em sua mão enluvada.

Oh, stupid pride it just can't hide the holes inside my heart (Oh, orgulho estúpido que apenas não pode esconder os buracos dentro do meu coração) 'Cause I need you here with me (Porque eu preciso de você aqui comigo) Oh, I wish that I could take it back, I'd go back to the start (Oh, eu queria poder me levar de volta, eu iria voltar para o início) And tell you all the things that I feel

(E te dizer todas as coisas que eu sinto) I saw you on the corner holding hands with someone new (Eu vi você na esquina segurando as mãos de um novo alguém) Happy as a boy could be (Feliz, como um garoto pode ser) Love was in your eyes and yeah she looked the same way too (O amor estava em seus olhos e sim, ela olhou do mesmo jeito) It's funny that was almost me (É engraçado que quase me...)

A única notícia que a consolava era que Kol sairia da clínica na semana seguinte. No seu tempo livre, Diana adorava cuidar de seu jardim. As rosas eram suas flores preferidas, pois impregnavam o ar com o seu perfume, e ao mesmo tempo tinham espinhos caso você fosse indelicado com elas. Gotas de chuva começavam a cair naquela tarde. Uma, em particular, se prendeu a uma das rosas mais claras, e logo escorreu rapidamente, como uma lágrima. O tom da pétala era incrivelmente semelhante ao tom de pele de Diana. Era como se a natureza refletisse o que ela sentia.
I wish I could push rewind (Desejo poder apertar o botão de rebobinar)

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