Purple Gang Por: Fernanda Cardoso

A história foi elaborada em cima de trechos da música “Jailhouse Rock” do Elvis Presley.

Dia 23 de setembro de 1971 – hoje fazia dez anos que Johnny e sua gangue estavam presos. Johnny estava sentado no chão de concreto do presídio junto com os seus três amigos de cela e de roubo. - Do que você sente mais falta? – Spider Murphy perguntou para Johnny. - Mulheres – Johnny respondeu sem pensar duas vezes. - Mulheres – Little Joe repetiu. O cara de Illinois – que era mudo – assentiu, concordando. - Faz tanto tempo que eu não vejo uma bunda e um peito – disse Little Joe. - Você tem aquelas ali – Spider Murphy apontou para um grupo de travestis. Little Joe deu um soco no braço grosso do Spider e suspirou. - Bunda e peito de verdade cara! Aqueles ali nem tem peito. - Pés – disse Johnny, distraidamente. Os três olharam para Johnny sem entender. - Pés femininos. Bem cuidados, macios e com as unhas pintadas. Pés. Sinto falta de pés femininos. - Vai se ferrar, cara – disse Little Joe. Enquanto Johnny pensava em pés, o prisioneiro número três – um rapaz alto que sempre usava uma bandana azul na cabeça, que ninguém sabia o nome dele – veio correndo em direção aos quatro rapazes. - O novo diretor quer falar com vocês – disse o prisioneiro número três. - Cara, o que vocês fizeram?! – perguntou Johnny. - A gente não fez nada! Talvez aquele prisioneiro, o Henry, deve ter falado que a gente tentou fugir na semana passada! – disse Little Joe. - Você o quê? – gritou Johnny – Seu idiota! Os quatro rapazes se levantaram e seguiram o prisioneiro número três. - Ai está a sala do diretor – disse o número três. - Você o conhece? – Little Joe perguntou ao prisioneiro. - Ninguém nunca havia visto o velho diretor Carl, muito menos o novo – disse o número três e virou as costas, trombando com o prisioneiro quarenta e sete. - De-desculpa – três gaguejou, sem olhar para o quarenta e sete, que não falou nada, só deu um sorriso estranho. Johnny deu três batidas na porta e uma mulher a abriu. - Vocês são da banda? – a elegante mulher perguntou. Ela era ruiva, com o cabelo na altura do pescoço, com olhos verdes. Ela usava um vestido preto com algumas bolinhas brancas. - Viemos falar com o diretor – disse Johnny, olhando para os pés da moça. Ela usava um sapato de salto alto com as unhas pintadas de vermelho a mostra. - Eu sou “o diretor” – ela disse fazendo aspas no ar – Sou Miranda. Entre rapazes.

Os quatro rapazes entraram na sala e ficaram boquiabertos. Afinal, tinha uma mulher no presídio. Uma mulher totalmente impossível de ter qualquer coisa. Afinal, eles não passavam de presidiários e ela era diretora daquele lugar.
The warden threw a party in the county jail. (O diretor organizou uma festa no presídio municipal)

- Quero uma festa, garotos – ela disse, sentando-se atrás da grande mesa no centro da pequena sala. Atrás dela havia uma grande janela, com vista do pátio. Um guarda estava encostado ao lado da janela, com um fuzil, olhando atentamente para nós. - Festa? Isso é algum código? – Johnny perguntou sem entender. - Não seja indelicado, senhor – ela o reprimiu firmemente. Sua voz sempre era firme – Eu sei que vocês formam a banda desse presídio. Quem é o que? - Johnny é o vocalista – começou Little Joe – Eu toco o trombone, o Spider toca saxofone e o cara de Illinois toca a bateria. Somos chamados de “Purple Gang”. - Purple? – perguntou a diretora, interessada. - Nós roubávamos bancos com uma roupa roxa. Nós chegamos aqui e já éramos conhecidos por esse nome, então deixamos – explicou Spider Murphy. - Ok – ela olhou severamente para Johnny que estava com um dos pés em cima da cadeira que logo ele retirou – Hoje à noite, teremos uma pequena festa. Esse presídio está com um clima muito pesado e... - É um presídio minha senhora – interrompeu Johnny – Só têm assassinos e ladrões, logo o clima é pesado. - Não me interrompa – ela falou alto – Eu quero uma festa, não é só porque temos bandidos aqui que nós, álias, EU não posso fazer uma festa para descontrair. E vocês vão tocar nessa festa. Vocês iram levar os seus instrumentos e irão tocar lá. Ok? - Sem problemas – disse Spider Murphy rapidamente. - Saiam, daqui a pouco irei anunciar a festa. Ensaiem garotos – ela disse. - Meu Deus, vocês viram aqueles pés? – disse Johnny, deitado na sua cama na cela, enquanto os outros três ensaiavam. - Cala a boca e ensaia – disse Little Joe. - Você, Joe, tem que parar de mandar os outros calar a boca – começou Johnny – E eu, acho que estou apaixonado. - Ensaie e pare de falar asneiras – disse Spider Murphy.
The prison band was there and they began to wail. The band was jumpin' and the joint began to swing. (A banda da prisão estava lá e eles começaram a se lamentar. A banda estava pulando e a prisão começou a requebrar) You should've heard those knocked out jailbirds sing. (Você deveria ter ouvido aqueles presidiários inconscientes cantarem) Let's rock, everybody, let's rock. (Vamos balançar, todos, vamos balançar) Everybody in the whole cell block was dancin' to the Jailhouse Rock (Todos em todo o pavilhão estavam dançando o Rock do Presídio)

Tudo estava pronto. A diretora Miranda havia feito todos os preparos adequados para a banda cantar. Não havia um palco, mas ela havia cercado onde a banda ficaria com fitas amarelas e pretas. O pátio estava iluminado e havia mesas com comes e bebes. Os prisioneiros daquele presídio municipal nunca haviam visto tanto capricho naquela porcaria de lugar. A banda já estava em seu lugar, pronta para tocar, enquanto os presidiários gritavam para começar logo.
Spider Murphy played the tenor saxophone; Little Joe was blowin' on the slide trombone (Spider Murphy tocou o saxofone; Little Joe estava soprando o tombrone) The drummer boy from Illinois went crash, boom, bang; the whole rhythm section was the Purple Gang (O baterista de Illinois arrebentou; toda a seção de ritmos foi da Purple Gang)

Spider Murphy tocava o saxofone enquanto Little Joe arrebentava no trombone. O cara de Illinois era o mais rápido a tocar, enquanto Johnny cantava como nunca. Talvez a presença da diretora – ao lado de dezenas de guardas – dançando ao som da música deles, havia despertado-o. Os presidiários cantavam, gritavam e dançavam. Não importava se estivessem dançando sozinhos ou com outro colega de prisão, eles se divertiam como nunca.
Number forty-seven said to number three: “You're the cutest jailbird I ever did see I sure would be delighted with your company (…)” (O número 47 disse ao número 3: “Você é o prisioneiro mais gracioso que já vi, estou certo de que sua companhia será agradável”)

- Olá – disse o número 47 ao número 3 – Está sozinho? O número 3 não respondeu nada. Ele deu um demorado gole no seu copo e olhou para os seus pés - Por favor, não seja tímido. Você é o prisioneiro mais bonito daqui, por que você não fica comigo? Não ligue para os que os outros vão pensar. Dance comigo – ele sorriu e pegou na mão do número 3, que derrubou o copo no chão e começou a rir, dançando sem pesar com o número 47.
Shifty Henry said to Bugsy: “For Heaven's sake no one's lookin', now's our chance to make a break” (Henry Astuto disse para Bugsy: “Pelo amor de Deus, ninguém está olhando, é nossa chance de fugir!) Bugsy turned to Shifty and he said, Nix, nix (Bugsy olhou para Astuto e disse: ”Não, não”)

Todos dançavam. Os presidiários, a diretora e até os guardas haviam se rendido ao som da Purple Gang. - Hey, Bugsy! – Henry gritou no ouvido de Bugsy. - Sai fora, estou ótimo dançando sozinho! – ele falou e saiu de perto de Henry.

- Idiota! – ele deu um tapa na cabeça de Bugsy – Não tem ninguém olhando! Os guardas estão dançando, junto com a diretora, ninguém está protegendo esse lugar. Vamos fugir. - Eu sei que você e o Little Joe tentaram fugir e não deu certo, cara. E mesmo assim – Bugsy continuou dançando – Não sairia dessa festa por nada desse mundo! - Spider – chamou Johnny – Faça o seu solo, tenho coisas para resolver – ele disse olhando para a diretora. - O que você vai fazer seu estúpido? – perguntou Spider. - Faz logo esse maldito solo de saxofone! A festa não pode parar. Não deixe a festa parar. Johnny desceu do palco e foi em direção a diretora, que ainda estava dançando. - O que você está fazendo aqui? – perguntou a diretora. - Preciso falar com a senhora, a sós – disse Johnny. Os guardas seguraram os braços de Johnny e o guarda mais alto pegou um cassetete. - Queridos, larguem ele – disse Miranda – Eu sou a diretora desse lugar, se eu tivesse medo de presidiários, eu não estaria aqui. Agora, saiam. Os guardas o soltaram e saíram com cautela de perto da diretora. - Ainda bem que esses brutamontes saíram de perto de mim – disse Miranda – O que você quer Johnny? - Não tem nenhum lugar mais reservado? – ele perguntou. - Seja lá o que for você pode falar aqui – ela falou mais séria. - Acredite em mim... acho que não. - Vamos logo! Johnny a pegou pelos braços e lhe deu um beijo. Mirando pisou no seu pé com o seu salto alto e fez Johnny gemer. - Falei que não podia ser aqui – ele riu, massageando o pé dolorido. Ela o puxou para dentro do presídio, perto das celas e lhe deu um tapa na cara. - Sorte sua que ninguém viu isso, Johnny! – ela sussurrou – Pode ter certeza que você não vai sair tão cedo, seu cafajeste! - Para de me bater, Miranda. - SENHORITA Miranda. Não sou nenhuma intima sua! – ela gritou. Johnny a agarrou novamente e lhe deu outro beijo, dessa vez mais demorado. Johnny estranhou porque ela não fez nada para detê-lo. Ele se afastou e olhou para ela, que estava com o rosto vermelho. - Sabia que você tinha gostado – ele sorriu e a puxou para mais perto. - Johnny, saia de perto – ela falou e o afastou educadamente – Eu sou a primeira mulher do país que conseguiu a diretoria de um presídio. Custou-me muito chegar aqui, todos achavam que eu ia me envolver demais. Todos achavam que isso ia acontecer, todos achavam que eu ia ser persuadida por um prisioneiro. Então, Johnny – ela passou a mão pelo cabelo dele e o puxou – Não chegue perto de mim novamente. Ou eu juro que eu mando aqueles guardas te machucarem gravemente e que você ficará o dobro da sua sentença aqui. Seu bastardo.

Johnny a olhou e deu um sorriso. Pegou a mão dela que estava em seus cabelos e passou pelos lábios dele. - Você irá sentir falta disso, Miranda – ele disse e deu um beijo em sua mão. - O que você quer de mim? Você quer me tirar daqui? É isso? – ela perguntou, puxando a mão rapidamente. - Quero você, docinho – ele sorriu – Vou voltar para a festa, ela não pode parar! – ele deu um beijo rápido na sua bochecha e foi para o pátio. Alguns dias depois - A diretora foi transferida – disse Little Joe, sentando junto com os seus colegas no pátio do presídio. - O velho Carl voltou? – perguntou Spider. - Voltou. Não sei por que voltou, dizem que ele é um velho babão – disse Little Joe. - Eu ainda sou irresistível com as mulheres – disse Johnny, rindo – Eu beijei Miranda no dia das festa, seus lerdos. - O quê? Você... sério? – perguntou Spider. O cara de Illinois deu um tapinha nas costas de Johnny e sorriu. - Uma pena ela ter ido embora. Aquela boca... aqueles pés... - Cala boca, Johnny – disse Little Joe – Por sua causa, o presídio vai ser largado às traças de novo. - Você, Joe, tem que para de mandar as pessoas calar a boca – disse Johnny e fechou os olhos, pensando nos pés da Miranda.

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