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CRÔNICAS MODERNAS

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Cícero Franco

CRÔNICAS MODERNAS

2008/2010

AS ÚLTIMAS PRAIAS DO VELHO CASCAES

Guardinhas passam rente ao meu espaço. Guardas municipais de bicicleta. Bemvindos eles aqui com seus capacetes estranhos e óculos escuros. Palmeiras à direita e Itaguaçú à esquerda. Estou entre as duas. Olhando o mar, o céu e as montanhas lá, aproximando o horizonte.

No mar calmo, crianças brincam entre as pedras e delas pulam na água. Banham-se

as praias que aqui estão desde antes dos açorianos chegarem. Desde antes dos carijós ou mesmo dos casqueiros. . não estivessem. suas lendas. indicadas com carinhas quadradas e tristes. seus peixes. Por nossos próprios excrementos. São nossas praias poluídas por nós mesmos. matamos as suas águas. No final do ano em que saudamos o centenário do velho Cascaes.entre as bruxas do Itaguaçú. Foi o que traduzi do relatório da Fatma. este ano. Coisa que soaria até poético. Uma a uma elas estão perdendo sua vida. as duas últimas praias do Continente entrando no rol das águas impróprias. Uma a uma.

seus pés de abricós e suas estranhas frutinhas com gosto de lembranças de pães. avós e sementinhas de gomos de madeira. 27/12/08 .Continuam lindas ainda estas nossas praias. suas gaivotas. Com suas pedras. Continuam lindas ainda estas nossas praias.

Quem? Ricardo Montalbán. . Mas aí o Tattoo seria um Jesus Cristo baixinho e os caminhos a serem trilhados nesta crônica seriam outros. E perguntam: . aquele carinha que ficava junto com o anão Tattoo e era meio que Deus por aquelas ilhas. Um Deus bon-vivant. o Sr. como dizem. É. é verdade. Mesmo porque Deus age por caminhos misteriosos.RICARDO MORREU Ricardo Montalbán. Roarke da Ilha da Fantasia.

E os rapazes babavam pelas moças. Mas as moças babavam pelo Ricardo. Um galã importado do México. . para usar um eufemismo hipócrita. Acho que era assim naquele tempo. E um galã com nome de Ricardo. o que não é pouco para as moçoilas dos tempos pósguerra. Depois é que tudo ficou mais confuso. Um Galã da Metro. o grande hipócrito-eufemismo. Hoje se diria latino ou hispanoamericano. que ainda por cima soa familiar por estas paragens.O Ricardo Montalbán foi um grande ator dos anos 50.

do “Verdugo de Sevilha” até “Jornada nas Estrelas”. bem ou mal. Fez dezenas de filmes e mais outros tantos para a tevê durante toda a sua vida. me lembra outra ilha. E quem me lembraria Ricardo Montalbán o galã? O deus de uma ilha só? 15/01/09 . Entre tantos trabalhos.Mas Ricardo Montalbán morreu. ficou na memória a Ilha da Fantasia. Que.

coisas se repetem. enchem também os cofrinhos dos bares. Pensamento sobre os turistas que enchem nossas praias e demais espaços públicos. E daí sobre os migrantes que povoam nossa cidade. Eles .O VERÃO EM FLORIPA FAZ PENSAR Todo o ano. além de encher nossas praias com seus sotaques e línguas e jeitos e hábitos. Sobre os turistas. restaurantes. no verão. hoteis e lojas. nada melhor que ter em mente que.

ora. teu pai ou teu avô ou mesmo o teu bisavô não o era. Se tu és nativo.fazem girar mais rápido a roda da economia. E por que eles não aproveitarão o que há de bom em nossa cultura? Isto faz a evolução dos costumes e da própria humanidade. o Brasil é um país de migrantes e imigrantes. Não nas malas. em seus modos. . em sua cultura. Temos que ter a atitude de integrar os migrantes à nossa comunidade e saber aproveitar o que eles estão trazendo de bom em sua bagagem. mas em seu jeito de ser. Sobre os migrantes. Todos os verões. Assim como todo o continente americano.

Assim poderemos ver o argentino aquele que mora ali jogando dominó. 20/01/09 . ou o paulista comprando uma rosca. ou o uruguaio no boi de mamão. Ganhamos todos. ou o gaucho levando o seu curió para passear. Ganhamos nós.

Como . onde cada página que ali se encontra seja uma dobra de um labirinto infinito de palavras e idéias. uma pequena biblioteca de Borges.A BARCA Quem não foi perdeu o encontro com o Sérgio da Costa Ramos e o Flávio José Cardozo. Foram duas horas de um belo bate papo com estes nossos dois grandes cronistas no último dia 23 na Barca dos Livros navegue. E. que ela Que seja esta nossa Barca. no Centrinho da Lagoa da Conceição. como falou o Sérgio.

que não ganhe rodas para singrar os campos. Uma biblioteca é uma casa com alma. como um Seival às avessas. E que não tenha um Garibaldi no timão. que a Barca ganhe a Lagoa e navegue rumo a um mar de leituras futuras para todos! Parabéns à Barca! 26/01/09 . solte as suas amarras e transforme os sonhos em quilhas. E. pois ela contém o todo dentro de sua finitude. finalmente. mas uma Anita que ice as suas velas. E assim.tem que ser.

por sua vez. Nestes tempos modernos. onde aparece novamente o nome do nosso acadêmico José Sarney. teve seu nome em homenagem ao seu tio e este foi batizado em homenagem ao grande tribuno romano Marco Túlio Cícero.O SARNEY DE ROMA Meu nome é uma homenagem ao meu pai que. . Não o romano. esta questão de nomes me veio à cabeça lendo nos jornais sobre a disputa pelo senado. orador excepcional que viveu há dois mil anos. mas o brasileiro.

o grande tribuno. . Quanto à Academia Brasileira de Letras. como presidente. num suplício que aumentou o Ibope da televisão por mais de uma semana. José Sarney é um tribuno e escritor. nos moldes da Academia Francesa. ela foi fundada por Machado de Assis para reunir os grandes escritores brasileiros. Deste modo reúne até hoje os grandes das letras de nosso país. foi o fundador da Nova República e ocupa a cadeira de Tobias Barreto na Academia Brasileira de Letras. morreu. A Nova República. deixando vago o cargo para o seu vice. para quem não se lembra. foi “fundada” com o fim da ditadura militar e a subida ao poder de Tancredo Neves que.Como Cícero. nosso caro Sarney. porém Sarney não estudou filosofia com os gregos. mas.

também as disputas políticas eram acirradas. Isto tudo me faz pensar. Logo ele. 02/02/09 . que foi um Sarney de Roma. Ivo Pitanguy e até o darling Paulo Coelho. diferentemente do nosso querido José Sarney. foi degolado e teve as mãos e língua decepadas e expostas publicamente. Será que daqui a dois mil anos. tanto que o meu xará.como Marco Maciel. a humanidade terá crianças com o nome de Sarney em homenagem ao nosso imortal? Será que as Wikipédias do futuro se referirão ao meu velho xará como um Sarney da Antiguidade Clássica? Fico pensando nestas coisas e que naqueles tempos antigos.

pelo menos para a província que saíra. a cidade era. Início do século vinte. o próprio país se tornara os Estados Unidos do Brasil e os homens todos se tornaram livres. que trazia em si a industrialização do mundo e – pasmem! – os automóveis. centro de uma região . Livres para a fortuna e livres para a miséria.PRIMEIRO CENTENÁRIO Cem anos atrás na cidade de Porto Alegre. de uma revolução sangrenta. Há pouco tempo mais. há pouco mais de vinte anos. ao mesmo tempo. Neste cenário progressista. Algo fascinante.

por outro. Mas naquela cidade desembarcaram uns rapazes vindos da grande metrópole paulista e seu assombro foi não poderem jogar o “foot-ball”.distante e meio primitiva por um lado e berço do Positivismo no país. . antes disto. pois o único “team” local que praticava o esporte era elitista e não permitia que pessoas não oriundas da fechada sociedade local compusessem seus quadros. eternizado num monumento na Praça da Matriz e. na presidência da província. representado por Borges de Medeiros.

chocaria ainda mais os conservadores locais. que agrupava as pessoas “de cor” que também gostavam de bater uma bolinha. pertinho da Várzea da Redenção. pois incorporaria a Liga da Canela Preta. algum tempo depois. que jamais recusaria alguém em suas fileiras. sem qualquer distinção de origem ou classe. ganhava o seu mascote. o Colorado. Assim fazendo. que herdara as cores do bloco Os Venezianos. Assim sendo. como se dizia na época. foi reunir seus amigos e fundar um clube que a todos acolhesse. criaram o Sport Club Internacional. Esta mesma turma. imortalizado décadas depois .A atitude destes moços.

E junto deles e do meu pai. o Saci. porém. Aqueles meus dois velhos. mas . negrinho alegre e zombeteiro. não chegariam a ver o Beira Rio concluído. um misto de Rei Momo. Lá por aqueles tempos distantes. entrei a primeira vez nos Eucaliptos para ver o Inter jogar. Ali conheci o Vicente Rao. dois amigos. Papai Noel e colorado doente que fascinava a todos pelo tamanho de sua generosidade.no traço inconfundível de Ziraldo. Eram meu avô e seu cunhado. passaram a freqüentar o clube.

na churrascaria Saci e íamos caminhar entre os . e como conselheiro e dirigente do clube.meu pai sim. Chegávamos pela manhã. almoçávamos o melhor churrasco do mundo. Dali seguíamos caminhando até o barro da obra. passamos a freqüentar as obras do novo estádio que surgia gigantesco de dentro das águas do Guaíba. A partir apenas do desejo dos colorados que apareciam todos os dias levando desde suas economias até meia dúzia de tijolos. Com ele e já com a minha mãe e meu irmão. Milhares de mãos levantavam aquele titã de concreto e ferro a partir do nada. A minha família embarcava no troleibus no Centro e descia no fim da linha.

03/02/09 . E mais ainda me orgulho de ver em meus filhos e meus sobrinhos ser a quarta geração de colorados na família. pois apenas completamos o nosso primeiro centenário. Hoje embora esteja longe de Porto Alegre. Sim. E me orgulho de ver o Colorado no ponto mais alto onde qualquer clube de futebol possa alcançar. meu coração continua com a mesma cor e batendo com a mesma força. recém a quarta geração.tapumes e montes de cimento daquela elipse que lentamente se fechava.

no início de uma noite ainda calma de sexta feira. sentado num dos bancos. esperando o início da conversa com um grande escritor. a grande timoneira ilhoa. houve um encontro marcante para mim. Estava eu no deck da Lagoa. Outro dia.NOVAS AVENTURAS NA BARCA Conheces a Tânia Piacentini? Pois a Tânia. graças aos movimentos da Barca dos Livros. apreciando a linda vista e os barcos atracados. Vejo então na minha frente alguém que não via há quase . sempre nos proporciona gratas surpresas.

Atônito apertou minha mão estendida com uma cara de de-onde-que-eu-conheço-estesujeito. E enquanto me levantava sorrindo e me dirigia até ele.trinta anos. No tempo e no espaço. é o grande escritor citado. Tabajara Ruas. aliás. A medida que citava nomes conhecidos. Um grande amigo que. que também apreciava o deck. o Taba passou a olhar aquele homem de meia idade caminhando em sua direção. Um efusivo abraço foi . comecei a remoçar e me situar numa distante Cidade Baixa. Atrás da barba e do cabelo mais ralo e desgrenhado.

em frente à Barca. os Açores. a costa africana. Como tudo leva às águas. eu comecei a imaginar a insólita viagem do Taba nesta vida. ganhar o mar profundo. Tomar a Corrente das Malvinas. Cabo Verde. porém não atravessando o Uruguai. não poderia ser diferente se eu visse o Tabajara embarcando num caíque de chibeiro. como os pingüins e baleias fazem.o marco do reconhecimento da figura aquela. a Ilha de Santa Catarina. mas ganhando força de sua correnteza para seguir viagem. cruzar a costa brasileira. Enquanto tudo isto acontecia. talvez. para terminar a . a Ibéria. ali ao lado dos barcos. Descer o Rio da Prata e chegar ao Atlântico. cruzar o Canal da Mancha.

Porém nosso herói faria um trajeto mais sinuoso. tomando dinamarquesa olhando o movimento dos Nada muito complicado para um gaúcho fronteiriço.viagem no porto de Copenhague. . Ou talvez uma vela quadrada num mastro singelo. uma cerveja possivelmente barcos. Nada precisando além de dois braços fortes para os remos. Molhando seus pés no Pacífico ou quem sabe cruzando por alguma ilha caribenha.

Presente da Tânia. 25/03/09 Dela e de suas . o fazendo ir e retroceder. Diretas e os verdes sonhos da esperança lá naquele sobrado distante da Cidade Baixa. Parar e saltar.Quando ele voltou ao sul do mundo houve um encontro entre os que foram e os que não foram depois de tanta ditadura. Depois disto fomos todos à Barca. onde fomos brindados com a hospitalidade dos anfitriões e nem vimos o tempo escorrer durante uma conversa animada que enfeitiçou o tempo. “camaradas”. Mas isto tudo foi só um minuto sobre o deck da Lagoa. Respirávamos naquela época palavras como Anistia.

A SEXTA EM QUE A CIDADE PAROU Sexta feira. Eu estava no trânsito e me lembrei de um conto do Júlio Cortazar dos anos 60. ocorrida pela manhã. que foi comemorado em Floripa com um engarrafamento enorme para o tamanho da cidade. Pleno Dia Mundial do Meio Ambiente. “La Autopista del Sur” onde um engarrafamento toma dimensões inusitadas. Trancada. Disseram que foi por causa do par de horas de greve dos ônibus. A disputa entre os motoristas e os empresários que anda colocando todo o . Pois a cidade naquela tarde estava assim.

Mas. seja o que for. Quem passou por algum percalço nos ônibus. Qualquer rua que se entrasse. A sexta feira desmentiu o Ipuf numa lentidão desesperadora. Lenta ou mesmo parada. na sexta. Há poucos dias foi notícia ser Floripa a segunda pior cidade no mundo em mobilidade urbana.povo como refém. confirmou estes estudos. segundo estudo científico da Universidade de Brasília. . em pouco tempo estava se engrossando a fila. aquela tarde mais parecia uma amostra do que deverá acontecer no nosso trânsito em breve. mesmo tendo sido rotulados como um exagero pelo Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis). tirou seu carro da garagem após o almoço. E a cidade.

quando estáticos. E os grãos em movimento. Isto me fez imaginar o dia em que o trânsito deixará de fluir. Aos poucos oxidando sob a maresia do vento sul. se comportam quase como um fluido. assim como os carros. como os grãos ou a areia. tem o comportamento de sólidos. como rios de lava solidificada. E as ruas de nossa cidade se transformarão.Convém salientar – e o Ipuf certamente sabe disto – que a circulação dos veículos é muito parecida com a circulação de particulados. Porém. 06/06/09 . em rios de carros abandonados. Talvez aí possamos sair de bicicleta em paz.

Será que cristãs guardam o domingo? Elas aguardam e gritam nas águas calmas da baía. aqui aguardam gordas.AS IMPACIENTES GAIVOTAS As gaivotas na beira aguardam impacientes. as gaivotas não vão em busca de seu sustento. Em vez de lutar por seu sustento. com sua conversa desengonçada. num domingo de sol. que das mesas dos . Aguardam. Em vez de buscar seus peixes mergulhos acrobáticos. em aguardam impacientes. Na Praia das Palmeiras. seu nadar de pato e seu vôo suave.

se destaca preto. E nas pedras. onde se joga os ossos para os cuscos. perseguem-se mutuamente. saciadas. churrasco. assistir a ópera bufa que se passa na praia. aqui as gaivotas se banqueteiam com os restos. jogados voem em sua Como direção num deliciosos nacos de peixe ou camarão pelos clientes. E lá numa pedra. mais ou menos eqüidistante de mim. dezenas de outras tomam sol e devem. Mesmo havendo alimento suficiente para todas. como se a comida roubada fosse mais gostosa. mais adiante. Congressistas gaivotas.restaurantes. em meio às outras . E roubam os nacos umas das outras.

um biguá.silhuetas. 07/06/09 . que talvez esteja a me olhar aqui a escrever.

Entretanto temos o mar. muito menos o peixinho no bico do sabiá marinho. se sobrepõem as serras. E sobem em suas alturas e lá de cima se enxerga o mar. me lembrei. onde gaivotas brigam por um peixe e um inusitado sabiá busca o sumo de peixinhos que se aventuram na superfície. As serras ao longe se empilham.AS SERRAS A Cidade e as Serras! Eça de Queiroz. do outro lado da enseada. E após este mar urbano. que dos . Quatro camadas se empilham desde a Ponta de Baixo. Aqui também temos a cidade e as serras. Alheios a isto tudo. Não as gaivotas.

08/06/09 . exerce o ofício que talvez alguma gaivota lhe ensinou. apesar do sal. E de cá se vê as serras como eternas camadas torta de bolachas irregular.galhos de uma árvore que insistiu em crescer na praia. Mas de lá se enxerga o mar.

. onde morava e o Rio. antes de avistar pela janela a paisagem deslumbrante e me lembrar daquela bossa: “Minha alma canta vejo o Rio de Janeiro” As viagens se tornaram corriqueiras. Algo glamoroso. Ainda mais com um bom vinho e para finalizar um uísque. O trabalho me exigia e me brindava com esta possibilidade.CRÔNICA DO AVIÃO A primeira vez que comi salmão foi num vôo da Varig. Final dos anos 70 entre Porto Alegre.

Andava com relativa desenvoltura pelas ruas arborizadas. Samba do Avião. devidamente defumada. Nos dias úteis. “Cristo Redentor braços abertos sobre a Guanabara” .Também conheci nos ares outro peixe. pela orla deslumbrante. Enquanto assistia. praia sem fim Rio. né? “Estou morrendo de saudades Rio. a truta. você foi feito prá mim” Os finais de semana eram meus e passava em Copacabana. Icaraí. seu mar. como um filme passado numa pequena televisão. E preenchia um dos mil lugares da barca para Niterói. as belezas do nosso litoral.

Electras Sem e seu sofazinho pratos sofisticados. uma cerveja e o indefectível scotch. Os possantes no fundo. paravam em Porto Alegre para eu embarcar e seguiam para o Rio. Muita . Paulo e lá conheci as agruras executivas da Ponte Aérea.Depois fui transferido para S. como nos vôos que partiam de Buenos Aires. Mas os turboélices nos brindavam com um breve lanche. “Este samba é só porque Rio eu gosto de você A morena vai sambar seu corpo todo balançar” Depois os tempos foram ficando mais duros e os vôos para o Rio se distanciando.

de mar Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão Ontem embarquei num vôo da Varig. Embora toda vez que sobrevoava aquela cidade. Só que desta vez foram as deliciosas bolachinhas salgadas recheadas com uma pasta com sabor de . Mas a tradição de me apresentar às novidades continuou. de céu. Tom Jobim: “Rio de sol.coisa mudou nestes anos. A aeronave tinha as cores da empresa que adquiriu o que sobrou da velha companhia aérea. com crises e mais crises abalando todo o país. a música se repetia na minha cabeça. não deixando nem a “pioneira” Varig de fora.

alho. Digamos que o glamour ficou na lembrança. mas “Aperte o cinto vamos chegar Água brilhando olha a pista chegando e vamos nós aterrar” 15/06/09 .

em poucos decênios. chamamos de virtual. neste ambiente volátil que. nós que vivemos todo este processo. passou do gênio criativo de escritores de ficção científica para a realidade não apenas palpável. com um certo espanto o avanço estupendo da dita tecnologia da informação. Algo que. como uma imagem. corporações poderosas que entram em nossos lares por meio deste espelho sem aço que nada reflete. como indispensável para este nosso mundo. . Vemos surgir. mas que suga e dá.A BIBLIOTECA E O OLHO Olhamos.

Tribos aborígenes não se deixavam fotografar. que tudo sabe e que está presente em todos os lugares. Não o pastiche televisivo. pois acreditavam que a foto lhes roubava a alma. mas o olho que tudo vê. Por outro lado. um quarto de século após aquele futuro fictício. se recuarmos uns dois milênios. nos forçaremos a comparar com o antigo espírito humano. veremos aqui. que se passa no distante futuro de 1984. algo como aquele Grande Irmão. querendo compilar todo o conhecimento na Biblioteca de . Não chegaremos a tanto? Mas se lembrarmos da obra sexagenária de George Orwell.

Porém não um deus que compartilha conosco a imagem e semelhança bíblica. este nosso olhar estupefato. Já nos ajustamos. mas um deus incorpóreo. Um deus que permite se mostrar por meio desta janelaespelho da tela. pelo menos para a chama que César usou naquela. se depara com outra inventividade do homem que também o persegue desde antes da contagem do tempo: a criação de deus. dado a traçar paralelos. Assim. Nem mais nos preocupamos com seu aspecto distante do mundo concreto. Como também nos adaptamos . Porém a atual não é inflamável. Como é conveniente para um deus. a bem da verdade.Alexandria.

desde que tenhamos como nos relacionar e de pagar as contas sem levantar a bunda da cadeira. não chegamos a nos importar com isto.ao modo mercantil de ser deste deus que. troca pedaços desconexos de conhecimento de sua infinita biblioteca Alexandrina por nacos de nossa alma. 02/07/09 . Como não somos aborígenes nem nada. no afã de nos saber intimamente.

Na capa. Onde tudo nos era possível. A . E coloquei prá tocar Risco no Céu. como ele sempre fazia. o Carlinhos com seu Carlinhos oclinhos. O disco tão desejado e perseguido pelo Carlinhos Hartlieb. O disco que os amigos conseguiram. inseparável anos chapéu. tocando violão. O disco que o próprio Carlinhos nunca viu. Na capa.RISCO NO CÉU Hoje fiquei aqui sozinho em casa. O lançar in dos memorium. que cruzávamos lá caminhando pela areia da Praia do Rosa de outros decênios. depois. Os petizes num festerê e eu aqui sozinho. o Carlinhos na frente da sua casa.

Seu violão e seu astral. O Carlinhos e sua música inconfundível. Hoje eu olho o mesmo mar aquele do antigo Rosa. Seu modo de vida. Como se todos nós acreditássemos nisto. o doce Carlinhos. O tranqüilo Carlinhos de certa forma era nosso porta voz. Quantos outros Van Goghs ganharam a posteridade após desaparecerem? Porém este nosso teve seu futuro brutalmente interrompido em alguma pedra do costão entre o Rosa e o Luz. por alguém que talvez não aceitasse sua postura alegre e zen. tivesse acabado com sua própria vida. como se ele.casa onde o corpo do Carlinhos foi encontrado pendurado numa corda. Coisa . Sua produção tão promissora que se resumiu a um disco póstumo. E escuto um mp3 do disco.

Mas tocando um disco que não tem tempo que joga milongas atávicas sobre os pés descalços na areia tocada pelos ventos. Na sua pequena obra que chegou até mim nas costas dos bits que navegam por um rio virtual que se espalha pelo mundo.moderna que o Carlinhos mesmo nunca sequer sonhou conhecer. no caso o nosso Carlinhos. vivendo a vida eterna na sua obra. ganhador de festivais. Quem se preocuparia com uma chaleira esfriando se não um mateador? Quem marcaria desta forma uma música? Logo uma música “que será sucesso durante um . Carlinhos por aqui vivo. quando ouvi uma estrofe muito marcante: “veja menina enquanto a chaleira esfria”. Aliás eu percebi que “Por favor sucesso”. era de um riograndense.

Pena. numa noite aberta de inverno. de uma vida sem tantos simulacros como lá naquele porto que já foi alegre. na lua cheia do Rosa. De uma casinha no Caminho do Rei. não ter mais o Carlinhos que se foi.mês”. O Carlinhos iterativo que tomava um mate e tocava violão em volta de uma fogueira. apesar de estar com o Carlinhos aqui na trilha sonora. 04/07/09 . Atrás de uma tainha escalada e de uma pinga do Macacú. atrás de um povo mais honesto e feliz. se não o Carlinhos? O Carlinhos que adotou Santa Catarina como tantos outros que vieram de lá atrás de um lugar melhor para se viver.

Por outro lado. com seu filme sutil. espirituosamente. . um romance escrito pelo Maguila venderia quase tanto quanto um Paulo Coelho. descrito por milhares de letrinhas dispostas com o cuidado de um miniaturista. um romance ou uma frase? Um romance. pergunto. diria. Sem dúvida. que é um romance.O ROMANCE E A FRASE Como são as coisas. o nosso bom Maguila. Mesmo porque uma frase espirituosa é algo que sai. O que vale mais. após pensar um pouco. ou uma frase espirituosa? O Maguila. em qualquer mesa de boteco.

Uma frase espirituosa consigo trocar por um ingresso para um evento. Um chôu de outro artista. para uma festividade. Catarinense. como diria enfático o heterônimo sborniano do grande Nico Nicolaiewsky. Vale mais sim. lá na redação do Diário .Porém. Ao qual tive a satisfação de assistir no final de semana. Pelo menos no meu caso e sob a ótica financeira. para um show. uma frase espirituosa vale mais. Isto tudo após ter trocado as minhas frases espirituosas por ingressos.

Nada a não ser o prazer que ele me propicia ao ser escrito. as frases valeram mais. ainda não avaliei. não vale nada. pelo menos no meu caso. mas certamente terei que escrever muito para poder vendê-lo como um quilo de papel velho. Muito mais. portanto. Um romance. Duas frases valeram quatro ingressos! Já quanto ao romance. 12/07/09 .Ou seja.

Para júbilo da cultura local. outras rádios.DIVULGAÇÃO ENFURECIDA Estava vindo para casa ouvindo o programa do Marquinhos Espíndola. O Grande Marquinhos. que tem um espaço excelente. Mas eu estava ouvindo o Marquinhos colocar a excelente música catarinense e me lembrei de outras eras. outros programas. . no rádio. outras cidades. formador de opinião e sabe o utilizar muito bem. o Paredão. mas a mesma fúria divulgadora do que temos de melhor no quintal de casa.

Lee começou a realizar shows. a rádio Continental (1120 kHz) transmitia um programa à noite. Vivendo a Vida de Lee. patrocinado. espaço antigamente ao ar livre no Parque da Redenção. que congregavam diversas bandas locais. Com o tempo. heterônimo do Júlio Fürst. claro. pelas Calças Lee. Lee. o Mr. E rolava a melhor música porto alegrense que havia. Lee in Concert. . Foi uma tarde e uma noite de pura viagem no que veio depois a ser conhecido como MPG (a música popular gaúcha). Mr. Comandado pelo Mr.Anos 70 em Porto Alegre. Teve um no Auditório Araújo Viana. dos mais diversos estilos.

como o trabalho do Marquinhos. Pelo menos me conduziu. Hoje temos excelentes trabalhos realizados na música de Florianópolis e uma divulgação enfurecida. que é tudo que queremos por aqui. todo mundo ficou olhando aquele céu improvável. A banda parou de tocar. com seu programa. 18/07/09 . a belas lembranças de outras eras. por sobre o palco. num evento improvável para aqueles anos ditatoriais.Aquele show foi tão maluco que num determinado momento quando estava uma das melhores bandas de rock que apareceu. o Mantra. num céu noturno aberto. surgiu um meteorito bem grande e estourou em diversas estrelas cadentes menores que seguiram a abóboda do céu até sumir atrás do público.

Embora invisível para a maioria dos humanos que passa por lá apressada ou desligada. Mas vamos ao mar. pedras dignas de serem . um peixe insiste em se manter vivo. Um biguá aponta sua cabeça escura no mar. ali no mar acontecem cenas dignas de serem vistas.UM BIGUÁ Nem só de gaivotas vive a Praia do Itaguaçú. assim como na beira aparecem exploradas. Nele. Raio de prata se movendo vigorosamente. O pescoço longo sustenta o bico erguido.

direciona o peixe com a cabeça para dentro de sua boca e glup! completa sua refeição. Luta. trava uma luta inglória contra o bico do biguá que lhe parece imenso. coitado do peixe. em poucos movimentos com o pescoço. o biguá não mergulha do ar para apanhar suas presas. Num determinado momento. enquanto o pássaro o mantém apenas preso. Assim que encontra algo que lhe interessa. Ele fica boiando. buscando seu alimento. com o bico apontado para cima e os olhos vasculhando a água. . a ave. mergulha da superfície mesmo e nada pelo fundo do mar. sentindo as forças do peixe se esvaírem.Ao contrário das gaivotas e outras aves marinhas. O peixe.

Cortam a faixa verde do mangue da Ressacada. Mergulha. nem devia ter uma vó lhe dando conselhos. A cena. Some no fundo da água atrás de algum outro peixinho. é dominada por duas traineiras brancas e lentas a cruzar a baía. que separa o mar do céu com suas brancuras. Minha vó sempre dizia para não tomar banho de barriga cheia porque eu podia ter uma congestã. como ela falava. Seguem em fila quase na linha do horizonte. Eu nunca tive uma congestã ao tomar banho após uma refeição.Depois toma um banho. já sem o biguá. Este. limpando o corpo com o bico e sacudindo alegremente as penas. Passam pelos morros do sul . Muito menos o biguá. aliás.

Nestes mares cada um provê o seu sustento de sua maneira. 16/09/09 .da ilha rumo algum futuro cardume para encher as redes. Para infelicidade geral dos peixes e moluscos.

escovar os dentes e outros que-tais. . para quem quer ficar informado sobre o que acontece por estas bandas.NOVOS HÁBITOS Nestes últimos tempos adquiri mais um hábito diário. fui ver a Cia. apresentando seu último espetáculo no Teatro Pedro Ivo. Assim como tomar banho. Seguindo uma dica e incentivado por uma destas bondades. Hábito este culturalmente saudável. Mário Nascimento de Dança. Pois adquiri o hábito de ler o camarada Marquinhos Espíndola na contracapa do jornal ou no seu blog. Grandes dicas e eventuais bondades.

Quero falar sobre o que vi do lado de cá da ribalta. Mesmo que seu . Um espetáculo daquele porte com tão pouco público. Se fosse um bonitão de algum programa global. que é uma bela forma de dizer que gostei. filtrado pela tela da tevê. Mas qual o motivo de tão pouca gente comparecer? Talvez seja de gerações se criarem na frente da tevê. seja que arte for. Se havia trinta pessoas na platéia era muito. estaria lotado.Embora tenha me provocado uma emoção estética muito positiva. Afinal não sou crítico de arte. não vou falar sobre o espetáculo em si. Trinta. O teatro é longe? A divulgação é falha? Talvez sim. Há pelo menos quarenta anos temo nosso lazer portátil.

tocaram e dançaram para deleite de apenas trinta almas. Mas ali.currículo artístico nada mais dissesse que a criatura é ex-BBB. 18/09/09 . Além do oco das poltronas vazias. Mesmo que ele nem conseguisse pronunciar algo como currículo artístico sem tropeçar nos erres e nos tes. Eu tive o privilégio de seguir o conselho do grande Marquinhos e ir ver. Falaram. cantaram. declamaram. Outras quatrocentas mil pessoas não. apenas trinta saíram melhor do que entraram ali. Cinco na platéia para cada um no palco. Acho que certo estava eu. Havia seis excelentes artistas no palco. naquela noite no Teatro Pedro Ivo não havia nenhum global.

Aqui onde estou. Os pássaros pousados sobre as pedras aguardam a tempestade que já se mostra no sul da baía.CALMARIA Tudo está parado sobre o mar baixo. Nuvens escondem os morros mais altos. do qual se pinta. as que passam quase que integralmente submersas quando o mar sobe um pouco. . A natureza segue seu rumo. mas o sul se mostra com um céu baixo. rugoso e pesado como o chumbo. A maré baixa expõe as algas que acarpetam as pedras achatadas. o céu está nublado. mas ainda claro.

vindo do sudoeste. fechando também o tempo para o sudeste. O mau tempo avança. Outra permanece numa pedra próxima. Um bando de . Em pouco tempo.Todos permanecem quietos. o morro do Cambirela desaparece sob a chuva. exceto um pequeno hidroavião que passa a leste com a lentidão dos ultraleves e seu barulho de cortador de grama. Aqui só o vento começa a soprar mais forte. Uma gaivota se posta. A chuva se faz sobre os morros do continente. agachada. na pedra onde havia o ninho. O sul da ilha também escurece. como se nele estivesse.

mas em fim não chove por aqui. Os morros no fundo da baía desaparecem totalmente. Tudo se preparou para a tempestade. que o enfrentam. descabelando as árvores. O vento chega forte desde o sul. começam a grasnar e discutir como velhas fofoqueiras. As pedras se enchem de biguás e outras gaivotas. 24/10/09 . O bando continua no ar grasnando.gaivotas. O mar se arrepia e alguns pingos esporádicos se fazem sentir. Numa delas se distingue um martim-pescador.

né? É um primata muito abundande por aqui. Sabem. as águas. . De todos os tipos. indígenas. e espalhafatosos. Esbaforidos se deitam sobre a pedra. negros. as pedras.OUTROS FILHOTES A Praia do Itaguaçú está tomada por outros filhotes hoje. brincalhões meninas. macaquinhos Meninos. Mergulham de uma pedra mais baixa e saem nadando desengonçados até a pedra do namoro. Em todos os matizes. morenos. Filhotes de humanos. a Loiros. Tudo cheio desses gurizada. As areias. Inclusive há dois na pedra do ninho.

brincam de se empurrar. Pulam de contentes.As gaivotas. com seu voar elegante. mantém uma distância segura. Diga-se de passagem. Enfia os crespos na água. Felizes. nos cachinhos. aliás. onde as gaivotas ficaram durante meses a fio. Vão os homens. Já os macaquinhos pulam na água. Boiam. Gritam e grunhem os macaquinhos. A pedra do ninho não. que . Estes vão até o seu topo. na pele. Como. Uma com guria sua bem comunicação pequena e dourada. Não fazem nada. Chegam agora até ela adultos. somos. Sobem com seus gestos simiescos. no biquíni amarelo. banha seus cabelos na beira do mar. vocal.

O primeiro mergulha bem. mais adiante.mal encobre suas canelas. recém tomando a configuração adulta. e os arruma para trás. O segundo. também infestada por estes filhotes. O terceiro nem se arrisca a subir na pedra no ninho. Passado algum tempo de paz. Já na pedra. chega um terceiro macacão. Outros apenas tomam banho de sol. há . Molha-se na cachoeira que escorre pelas costas. Já na Praia das Palmeiras. Alguns olham desafiadores para o mar lá embaixo. novamente a pedra se vê obrigada a sustentar nas costas quase uma dezena de macaquinhos machos. se joga como pode.

calmamente acomodado. Longe. Lá. Nadam os macaquinhos – e são sete! – entre a ponta da pedra grande e a pedra da quilha. Entre o Cambirela e a Ponta de Baixo se empilham quatro serras ao longe. Nas mais distantes as gaivotas ainda reinam e não parecem apresentar disposição para abandonar o posto.macaquinhos por todas as pedras mais próximas. mostram-se azuladas pelo ar distante. tomando uma cerveja. se amontoam sobre uma . são outras cinco. Lá de onde se vê aqui o mar. quase mortos. O mar onde eu. mais próximos. vejo as serras ao longe e. os guris se aventurando nas pedras. E lembram estradas inóspitas e vistas soberbas. Entre a Ponta de Baixo e a Pedra Branca.

em sinal de vitória ao conquistar aquele pequeno território que se torna enorme para o macaquinho-macho que pensa conquistar todas as serras à volta. Um território pequeno. junto com dois outros companheiros jogam-se de novo ao mar. No meio do caminho param exaustos. Tomam fôlego e retomam . já que são sete guris sobre a pedra. iniciando a jornada de volta. o nosso conquistador. Mas nada adianta conquistar novos mundos.pedra pequena que a maré baixa deixa à mostra. O primeiro que chega sobe na pedra e vibra. Assim sendo. Os três nadam a muito custo para o continente. se não narrarmos a odisseia. levantando os braços aos céus.

Dezenas de outros macaquinhos-machos aguardam os nossos heróis. 1°/11/09 . Cansados. os demais se lançam também ao mar. Tudo se acalma quando o segundo grupo chega. Quando os três já estão quase chegando. gritando e pulando. aguardam na praia o dia acabar.bravamente o caminho. enquanto relatam os feitos náuticos aos demais.

De carro não demora mais que cinco minutos para ir. porém de ônibus.DE ÔNIBUS Faz um dia lindo de sol lá fora. Aqui. tem que se esperar o primeiro passar. mas estou no meu quarto. Não poderia haver um Floresta via Coqueiros? Aí eu poderia ir para o Itaguaçú dependendo de apenas um ônibus. sem carro é brabo. para ver as bruxas se banhar na baía sul. ouvindo rádio e escrevendo. esperar o segundo e voltar para o . ir até o Centro. que grande parte do nosso povo aprende a fazer. por estas plagas. Depender de transporte coletivo é uma coisa difícil.

Bem que o Ministério Público poderia investigar .Continente. com sorte. seguir a pé até o Abraão e esperar o segundo. E olha que os ônibus no final de semana. Todo ano fazem greve que resulta invariavelmente em aumento de passagem. ultimamente. Parece até que o sindicato dos trabalhadores. passam a cada hora. além dos inúmeros dias de prejuízo direto para a população. Dia destes falaram que haveria greve na semana do vestibular da UFSC. É a única categoria de fora do serviço público que faz greve. Além de. E esta é mais cara passagem de uma capital do Brasil. Ou descer em Capoeiras. andarem reduzindo os horários das linhas. o patronal e a prefeitura de Floripa estão mancomunados.

parece meio incestuosa. afinal.esta relação. não? Primeiros dias de 12//09 .

O C6H12O6. celulares guardam-na chamadas com muita eficiência nestas pequenas baterias estáveis. As plantas possuem uma incrível propriedade de pegar os elementos da água e do ar e. usando sabiamente a energia do sol. vulgo açúcar. hidrogênio e oxigênio montados de tal maneira que formam palitinhos que se juntam em estruturas maiores. nas fabriquetas cloroplastos. A partir de uma pequena energia de ativação e do oxigênio do ar. até o amido e a celulose.PALITINHOS DE AÇÚCAR Tudo depende da boa e velha glicose. Carbono. de apenas duas moléculas. toda esta . desde a pequena e popular sacarose.

resultando também nas moléculas constituintes do processo. fechando o ciclo. escutei isto tudo proferido pela boca de um alemão meio maluco lá de Porto Alegre. conhecido como Lutz. talvez como tenha ocorrido com . somos exímios em fazer. Na Terra temos muito carbono. seja como alimento. seja como fogo. o suficiente para transformar o planeta numa imensa estufa. o que não deixa de ser a mesma coisa. Coisa que nós. Mas nada disto é novo.energia acumulada é liberada. animais. Aliás. ou seja. E assim a energia deste palito é liberada. a água e o dióxido de carbono. O engenheiro agrônomo e ecologista de primeira hora José Antônio Lutzenberger.

Por outro lado. E esta estabilidade permitiu o desenvolvimento conhecemos. xisto. Outra parte deste carbono foi transformado a formar acumulado e posteriormente soterrado. Mas este carbono está em grande parte acumulada sob a forma dos palitinhos aqueles. da vida como a . gás natural.Venus. também vindo guardado habilmente pelas pelos plantas. hidrocarbonetos devidamente retirados de circulação sob forma de petróleo. Afinal uma variação de -50°C a 50°C é praticamente nada frente as variações de milhões de graus presentes no Universo. esta mesma estufa foi a responsável pela da manutenção das temperaturas superfície terrestre praticamente estáveis. vegetais. carvão.

sabemos que esta queima libera . outros seres vivos. a estufa será ligada. mas certamente o fim de uma era geológica e o início de outra. desde os tempos que dominamos o fogo. Coisa que talvez só imaginemos em filmes de ficção científica. como num desenho animado. outro climas. Entretanto.Se todo este carbono for liberado para a atmosfera. Só que em vez de ficar com a cara queimada e saindo fumaça da cauda. o dano será muito maior. nem da vida na sua superfície. Algo como riscar um fósforo num paiol de dinamite. Não significa o final do planeta. com outras paisagens. o homem está dando aquela energia de ativação necessária para a queima de todos estes palitinhos. Porém.

Entretanto. E o carbono reforçará. o homem busca mais poder. Havendo a indagação de o que fazer para evitarmos este dramático final de uma era. palitos. reduzindo as perdas de calor da superfície da Terra para o espaço. na atmosfera. o dióxido de carbono e a água. estamos queimando mais e mais Recordando-se que a energia pela unidade de tempo é potência e que potência é sinônimo de poder. dispondo de mais e mais energia.energia. como dito antes. disponível. E estes voltam ao ciclo da natureza. o chamado efeito estufa. esta queima libera. Interessados buscando nesta mais energia energia. podemos responder que basta manter o .

portanto. A Teoria de Gaia. Júpter suas tempestades. é extremamente interessante neste sentido. E isto se deve a esta química esquisita do carbono e a ação de moléculas orgânicas mais complexas. a Terra ostenta a vida. como um todo. como a clorofila. formulada entre outros pelo próprio Lutz. se ele não for queimado. a hemoglobina e o próprio ácido . não haverá aumento do dióxido de carbono livre na atmosfera e. possui o dom da vida e busca formas de se autorregular. A Terra. a estufa se manterá como está.carbono guardado naquelas estruturas estáveis que os vegetais aprenderam a fazer. Se ele não virar gás. Assim como Saturno ostenta seus anéis.

Esta energia toda vem Não da queima dos hidrocarbonetos.desoxirribonucleico. como bem percebido por ele. vulgo ADN ou DNA para os seguidores dos anglicanismos. Um tecido canceroso. Mas isto significa que não está havendo um controle ecológico sobre as ações deste tecido e ele está desequilibrando o planeta. o Lutz dizia que este superorganismo é inconsciente. Transformamos a superfície como mega-formigueiros. . Entretanto. com impermeabilização do solo e golfadas gigantescas de dióxido de carbono e outros gases no ar que nos cerca. estamos apenas tocando o ciclo do carbono da natureza. portanto de calor. Será? Nós somos. apenas um tecido deste ser vivo. com grande concentração de energia e.

mas somos a Terra e a inviabilização inviabilizará. Dezembro de Copenhague//09 dela também nos . talvez os restos da sopa inicial da vida.mas estamos jogando na atmosfera carbono que estavam guardados nas entranhas do planeta há milhões de anos. como se ela fosse uma nave e nós os passageiros. Precisamos ter em mente que não estamos na Terra.

bem verdade – os pagãos adoravam fazer uma festa. Os cristãos. na sua ânsia de tomar o lugar do paganismo no coração das pessoas. . Os chineses sabem disto há mais de cinco mil anos. Os pagãos tinham uma festa para o solstício de inverno – para eles no hemisfério norte. Tudo é cíclico.DEUSES E DEUSES Como tudo é cíclico na natureza.. A ciência também sabe disto. Tudo no Universo é de natureza oscilatória. incorporaram-na a seus ritos.. Basta ler o I-Ching. Assim surge o natal como aniversário do deus Javé em carne. em vez de combater a festa. E colocaram o nascimento do seu deus único no evento.

E este espírito não tem nada do deus menino ou coisa que o valha. E surgiram santos. O natal hoje é uma festa completamente pagã. como estas coisas de deuses.Uma guerra santa intestina que começou em Roma e teve seus dias de glória na Santa Inquisição. o próprio paganismo. vão por caminhos diversos. É um . Um deus bonachão que ostenta as cores da coca cola. Momento em que os cristãos se vingaram do Coliseu e outras atrocidades romanas. O espírito de natal. dizem. Porém. A mídia está recheada de imagens do deus Papai Noel. com seus deuses múltiplos. se imiscuiu na igreja católica mesmo. que passaram a ter seus próprios adoradores. deuses menores.

a deusa vaca. o deus da culpa.deus velhinho. Papai Noel. presentes e na hora do menino deus nequinhas. o deus burro. a deusa mãe do menino. No máximo o presépio. os três deuses bacanas do oriente. Um deus vovô. havendo até entre eles um deus negro para não gerar bate-boca. Assim a festa tomou uma conotação totalmente pagã. árvore. guirlandas. o pai do deus menino não está mais dominando a festa. O deus cruel. Tem até esta história do bom velhinho gostar de sentar as criancinhas no . onde o deus menino aparecem o deus pai do menino. Parece que o ciclo deu uma volta e o paganismo venceu. que hoje tem como mestre de cerimônias o deus bonachão que até lembra um Baco desgastado pelas orgias.

movendo a roda da fortuna.colo. Já o deus do deserto grita do alto dos céus que ele é o deus único. Natal 2009 . Mas não é todo o mundo que acredita. O que vem ao caso aqui é que o poder está todo com o generoso deus Noel. E os outros deuses acham-no muito prepotente. mas aí já é outra história. distribuindo presentes e carnês em rigorosamente iguais proporções.

Entretanto. o criador do Sítio do Pica Pau Amarelo. E Monteiro Lobato foi um grande personagem desta época. que encantou a infância brasileira desde a geração dos meus pais até a de hoje. que lutou pela estatização do petróleo no país. como . Monteiro Lobato viveu na primeira metade do século passado. quanto para a consolidação da República. Esta foi uma grande época para o Brasil. Monteiro Lobato.MONTEIRO LOBATO Monteiro Lobato ficaria feliz com a descoberta de petróleo no pré-sal. Monteiro Lobato da campanha “O Petróleo é Nosso”. Tanto para as artes .

só para ficar nas artes. Já as reservas do pré-sal foram talvez lagos repletos de vida que. num chorume oleoso e fedorento. resultaram com o passar dos milênios. queimam bem.Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Nada mais . cria hidrocarbonetos que oxidam facilmente. gerando energia sob a forma de calor. à uma profundidade imensamente cara. Química que. além da complexidade da vida. Reservas que vieram da química orgânica do nosso ora famoso carbono. soterrados. Todo este ufanismo do governo do companheiro Lula. Ou seja. é baseado na descoberta. visando alavancar a candidatura da camarada Dilma. de reservas que parecem ser significativas de petróleo.

Seremos nós brasileiros incapazes de gerar toda a nossa energia a partir de todas estas fontes que a natureza nos colocou a disposição? Fontes estas não poluentes. renováveis e de baixo impacto ambiental? . Isto tudo no país do sol abundante. o que aumenta o isolamento térmico da atmosfera. a Petrobras. Ou seja. estão querendo jogar todos estes incontáveis átomos do pequeno carbono no ar. dos rios caudalosos. o Governo Federal e seu braço armado capitalista. subindo a temperatura da superfície do planeta. dos ventos fustigantes.que carbono que terminará na atmosfera. digerido e excretado por automóveis. das florestas imensas e do povo mais gentil. depois de comido. fábricas e usinas.

em 2010. que se chamava ouro negro. onde ele. O petróleo do pré-sal faria sucesso ouvindose Vila Lobos numa vitrola de 78 rotações. via na estatização da imensa fonte de energia. Assim. iniciando todo este processo. enquanto em todo o mundo se busca alternativas viáveis não poluentes? Monteiro Lobato talvez estivesse hoje pensando justamente no fim da primeira década de um século novo. Grandes homens viveram no século passado. Sugiro até que a festinha de final . a abertura de um belo caminho para a industrialização do Brasil. como nós. Mas Monteiro Lobato estava em 1910 e não. já homem feito de 28 anos. ele anteviu a Petrobras.Vamos buscar petróleo nas entranhas da Terra.

Fim de 2009 . Noel e Lupicínio e. por favor. desliguem os celulares.de ano da nossa bem amada Petrobras seja ao som de Pixinguinha.

Nós todos juntos. O mar. uma lagoa.A DOENÇA DE DEUS Perguntaram-me o que é deus. o céu. Estes são deuses. o tecido. Pensamos assim: temos a célula. Podemos dizer que deus é o superorganismo do qual. nós organismos. São superorganismos. parece que todo mundo fica mais sensível a estas coisas mais assim espirituais ou o que for. Nestas épocas de mudança de ano. fazemos parte. . o organismo. o órgão. como num estádio lotado. São seres maiores que nós. uma montanha. É só colocar mais um nível: o super-organismo.

Belo nome para a deusa criadora da vida. Mais além há a Lua. uma geleira ou. A Gaia. Se alguém viesse do espaço. A parte sólida – que incrível. E nós. do Lutz. os três estados da matéria . super-organismo humano. Isto é deus. uma colmeia ou um formigueiro.É uma floresta. tem a própria Terra. Uma grande mente viajante espacial sobrevoando a Terra. o Sol e tantos infinitos outros. mais obviamente. acharia a parte líquida do planeta linda. estamos fora de controle de qualquer coisa pelo menos parecida com equilíbrio. com seu azul indelével e com massas brancas a flutuar ao léu. nosso viajante comentaria. com seu verde inteso de vida. A parte gasosa também. E congregando tudo.

de sistemas de aproveitamento a energia do sol. Aproveitamento em vida. Ali. com seu veludo verde vivo. além de devorar o veludo aquele de um modo voraz. sobre a pele de veludo do mundo sólido. Fim de 2009 . Onde há febre – sente-se o calor – exala chorume e gases para o resto do planeta. como cascas de ferida. Que insólito – mas a parte sólida também é linda.convivendo num mesmo clima de pressão e temperatura. Mas há pontos. veria o viajante. onde há algum tipo de doença. O viajante olharia aquilo tudo. ergueria uma sobrancelha e pensaria que este deus está doente. Pensando nele como se tivesse um aspecto humano. há umas crostas secas.

que vinha numa garrafa pequena. Eu comia tomando um Guraná Caçula. Mas o que me move é outro Haiti.HAITI. Tinha uma confeitaria deles lá na Praça do Capitólio. numa Porto Alegre que eu quase não reconheço mais quando visito. Um que eu acabei de conhecer. pelas mãos da Isabel Allende no seu “La Isla Bajo el Mar”. Lembro até hoje de umas rosquinhas que tinham lá. Terminei de ler e à noite soube . tá cheirando aqui”. HAITI “Tá fazendo na cozinha. Era o bordão do Café Haiti. na passagem do século XVI para o XVII. acompanhando o vestibular da minha filha. Li todo. Era o Guaraná Champagne Antártica. HAITI.

M. Maldição de quem? Do deus dos grandes brancos. o único deus verdadeiro? Parece que o Monsieur saiu das páginas que eu estava lendo.. o nome do senhor esse. Talvez ainda carregue o mesmo ódio que os grand blancs nutriam por seus escravos e sua superstição chamada Vudu. George Samuel Antoine. É branco. Todo lugar que tem africano lá tá fodido". Depois leio que o Cônsul do Haiti em S. não sei o que é aquilo. Ou será que em vez de ser uma ilha maldita é um país que cresceu baseado no ódio e na . O africano em si tem maldição.do terremoto na ilha. tanto mexer com macumba. Paulo diz que isto é devido à macumba! Mais especificamente ele disse: "Acho que de..

Não é maldição do deus branco este. Mas. que são orixás e .corrupção? O país de um povo eternamente aplastado pelo analfabetismo. os mais poderosos vendiam seus inimigos como escravos para piratas que os revendiam em outras colônias do Novo Mundo. já no poder. sujeito a furacões e terremotos. Uma grande favela miserável. logo depois. Um país que esfacelou pelo ódio e pela corrupção. Os escravos sublevados massacraram os brancos naquela época. Um país que. Vingança contra quem os massacrou por gerações. não suportou este desastre num momento em que toda a estrutura pública do país está totalmente destroçada. Não é obra do Vudu e seus loas.

do comprimento dos cabelos ou qualquer outro parâmetro físico.não demônios. se não por meios físicos ou financeiros. Sua intolerância. Quanto a nós cabe ajudar. sejam eles únicos ou não. 16/01/2010 . da estatura. Aos haitianos resta rezar. cantando para nossos orixás ou para os seus deuses. vileza e crueldade. E isto independe da cor da pele. E eles rezam cantando para os seus loas. O demônio este que deve ser culpado por toda a situação é o próprio homem.

Pais. sem laboratório. quem continuar a ler está assumindo que pagará por este conselho e o preço. Reforme a casa ou dê uma entrada para a casa de praia com o . Façam isto e vão viajar. é um cafezinho. E este aconselhamento vai para todos os pais que têm filhos no ensino fundamental. Logo. Deixem seus filhos numa escola pública. estipulado já de antemão.CONSELHO AOS PAIS Não vou dar conselho nenhum. pois conselho não se dá. com meia dúzia de computadores para dois mil alunos. ponham os seus filhos numa escola pública. Façam aquela viagem tão sonhada. Peguem o dinheiro das mensalidades e comprem um carro novo. Sem ar condicionado na sala de aula.

dinheiro que era para pagar a educação do seus filhos. E não tenham vergonha de levar e buscar o petiz num BMW novo. Quem sabe derivativos para os mais ousados. preparem faixas comemorativas. colegião mesmo! Isto aí. Escola privada? Não mesmo. Fundos DI ou ações. entrarão numa Federal. em se matar para pagar os melhores colégios. Um bom cursinho. Não sejam idiotas. nem precisa de muito estresse. Façma uma poupança durante todo o ensino médio para pagar um bom cursinho. No último ano. como eu. no vestibular. que tenham laboratórios. Mas atenção. meus pais. coloquem-no no cursinho. cadeiras . Entra pelas cotas. Seus filhos. Feito isto.

em nome de uma homogeinização do pensamento por parte do Estado. Não sei se esta política educacional é maquiavelicamente pensada. . Como efeito secundário. computadores e quadros digitais. ajude a superlotar as escolas estaduais e municipais. é claro. Gastei o que não tinha para garantir a educação de ótimo nível para meus filhos. Mas também pode ser apenas uma atitude de um populismo ingênuo e inconseqüente. E agora. Então façam isto. Não sei. no vestibular. os 30% de cotas terminaram afastando-os da Universidade. Matricule seus filhos no ensino público. além do ar condicionado.inteiras nas salas de aula. esvazie e quebre os colégios privados.

em cada cidade. Sejam mais inteligentes. pais. na época do desmoronamento do império russo.Quantos milhares de alunos. E. o ensino privado drena da obrigação do Estado em dar educação? Será que a estrutura existente na rede pública de ensino tem condições de assumir toda a população em idade escolar? Será que tem carteiras suficientes? Salas de aula suficientes? Professores educacional suficientes? de todas Terá as também propostas condições de oferecer a multiplicidade pedagógicas disponíveis na sociedade? Ou será que vamos monopolizar a educação sob a égide do Estado? Isto seria uma boa proposta há cem anos atrás. . aproveitem. Não gastem seu dinheiro na educação do seus filhos. este é o conselho. Então.

um consórcio de uma moto para quando ele entrar na faculdade? 31/01/2010 .quem sabe.

Tínhamos mochilas e livros.OLHO O MAR Olho daqui o mar batendo no costão do Morro das Pedras. parado no acostamento da Geral. carregados . Gastronomicamente isto me remete à Praia da Buzela. dispostos a discutir nosso rumo frente aos ventos novos que bateram verdes nestas terras. A maré baixa deixa várias pedras com carapinhas de algas à mostra. canto norte da Praia do Rosa. Fomos de kombi e estávamos acampados num rancho. No meio daquelas algas consigo distinguir daqui. Acho que era 1985. uns tufos de alface-do-mar.

continuamos falando de gastronomia. além de mim. avisamos os pescadores que as capturaram e ganhamos nosso farto quinhão (nunca mais vi cardume tão grande de cavalinhas na beira do mar). Porém. Como não havia um pingo de organização. a Mella. Cavalinhas que. o Paulinho. o Jacaré. Mas foi um acampamentoseminário inusitado. o Sal. o Mutante e o Renato. o Taradinho. se não me falha a memória. Não me recordo se todos estes estavam. Sempre um bom-dia-brasil.em outras mochilas e livros que voltavam. ao Brasil. Estávamos. anistiados. . E a culinária local. Havia sempre um mate pronto. avisados nós pelos botos. nada ficou registrado exceto em nossas mentes. Siris e buzelas que pegávamos na beira da praia.

que viraram salada.além de mariscos e búzios. acompanhando siri na casca. cavalinhas fritas ou assadas e arroz com moluscos. O discurso do PT parecia carecer de tempero. Juntos com as alfaces-do-mar. dentro do que chamávamos de movimento ecológico. coletados dos costões. . E isto também me parecia carecer naquele partido em termos de uma visão ecologista. Já as alfacesdo-mar eram deglutidas com azeite e um pouco de sal. Enquanto isto. discutíamos que rumo fossem eles bivalves os iríamos tomar. já que elas mesmas eram salgadas. Também mais consistentes que suas homônimas terrestres e possivelmente com mais proteína. gastrópodos.

as deixava só com a espinha vertebral. que não sejam apenas a de nossos umbigos.Já as cavalinhas. olhar o mundo a partir de outras experiências. Um movimento da faca. mas. Simples. As idéias verdes. . Perdoem-me também os botânicos. Há momentos em que precisamos estar atentos ao que ocorre à nossa volta. o segredo para ficarem sem espinhas estava na hora de limpá-las. com o perdão do trocadilho. Momentos que precisamos consultar outras pessoas. estavam já maduras para florescer. na hora de tirar a cabeça. se não fosse a explicação e a demonstração de um pescador. E assim se começava a discutir a necessidade do PV por estas plagas. jamais conseguiríamos.

Assim também trocávamos cartas, com o Sérgio, o Viola e o Rogério, em Floripa o Paulinho que fora morar em S. Paulo, o Frederico em Curitiba e depois no Rio e o Alfredo também no Rio, que tinha um grupo bem forte também. Estas novidades, como o e-mail, recém estavam sendo construídas. E tínhamos na mão a possibilidade da Bio-Net, uma das redes universitárias percursoras da Internet, onde os ecologistas europeus conseguiam espaço para trocar informações de um modo mais ágil que a correspondência física. Mas nós, amigos da máquina de escrever e do envelope com selo grudado depois de convenientemente lambido, tínhamos ainda restrições ao acesso, pois dependíamos de alguma universidade para entrar na rede e

isto,

dentro

destas

instituições,

ainda

cheiravam a conspiração. Já os siris, não tínhamos coca para pegá-los e terminamos fazendo isto com pedaços de paus. Parecia um monte de loucos dando pauladas no mar, espedaçando os coitados dos artrópodos que, invariavelmente, terminavam numa panela de água fervente. Capturar siris com pedaços de pau não é uma atividade que prime pela produtividade, pois demanda um gasto de energia muito maior que o adquirido com a pouca carne que cada bicho dispõe. Mas não tínhamos coca, não adiantava. A coca, para quem não sabe, é um círculo de madeira ou metal com uma rede, onde os siris ficavam presos, atraídos por alguma isca.

Mas redes eram estendidas no mar, não na infosfera, que mal se pensava em criar. Mas tínhamos as discussões acaloradas do Em Nome do Amor à Natureza na OC62, casa velha na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Grupo que, até mesmo estatutariamente, fazia ecologia política. Embora recém estivéssemos tentando descobrir que coisa era esta. Assim como, quando vinha para Florianópolis, participava do MEL, o Movimento Ecológico Livre, por onde se passavam as mesmas dúvidas e debates do Em Nome. Já faz quase uma década que atendi o convite expresso numa carta do Sérgio, para que viesse morar em Floripa. Mas aqui estou.

Talvez sem mostrar ainda o vigor de nossas mentes. Água que hoje moveria pequenos hidrogeradores. bom. talvez esperando um convite ou algum gás para voltar a participar. Talvez .. Todo esta conversa está na ordem do dia há trinta anos.. transformando-se e evoluindo.Muita água passou. Uns se afastaram. E ainda está incompleta. deixa isto pra lá. vejo que muitos destes amigos de antanho continuam no mesmo ritmo. mostrávamos que naqueles despudoradamente tempos. Muito vento que hoje moveriam geradores eólicos. o que mostra que a temática ecologista esta viva. outros talvez nunca mais se reintegrem. Todos estamos mais velhos e mais experientes. Os biodigestores. Relendo velhas cartas que achei ontem.

E aquele nosso papo quase incipiente.precisando de alguma energia de ativação apenas. Mas eu não estava falando de gastronomia? 15/02/2010 . ganhou novos personagens e novos desdobramentos. Mas muitos outros se juntaram.

Tudo é surpreendente nestas paragens austrais. enquanto o Capitão Enrique Rauch comandava o Mare Australis com firmeza e serenidade por entre as ilhas. restando ao barco um ondular leve. que conseguem seguir o barco.MARE AUSTRALIS Três lobos marinhos nadam na direção do barco. Mais lentos que os golfinhos. O mar do canal está bastante calmo. O céu se mantém com nuvens baixas. talvez buscando uma refeição na colônia de pinguins que deixamos para trás. mal percebido. os lobos marinhos seguem seu caminho. O vento frio fustiga o convés enquanto ao fundo montanhas ostentam seus cumes esbranquiçados. alternando uma chuva fina com aberturas que apenas clareiam a paisagem. . resaltando o gelo azul dos glaciares.

enquanto o naturalista Darwin começava a formular uma teoria que mudaria não apenas seus conceitos. Há 176 anos. enquanto seu parceiro observava com paixão a Natureza que os cercava. FitzRoy nos deu um levantamento da Terra do Fogo que só foi superado pela moderna tecnologia. Especialmente um jovem chamado Charles que partilhava as acomodações do pequeno buque inglês com o Capitão Robert. mas toda a humanidade para sempre.Uma visão destas também deve ter impressionado os tripulantes de outro barco há muitos anos. 31/03/2010 . Este mapeava a região para o Almirantado Britânico.

A fúria do mar da baía agora me parece pueril. Lá da terra dos pingüins. E se aportarem fracos e extenuados. E encrespa o mar. de preferência. que tenham nossos cuidados e possam na primavera voltar para o clima movediço das suas terras austrais. . Pingüins que subirão por estas correntes e aqui que não aportem. Encrespado pelo vento sul.SOPRA O VENTO Sopra o vento desde o sul. O vento que vem lá de onde os mares se encontram. Dos mares dos pingüins. Lá onde o vento é o paradoxal oeste.

continua forte. resistindo à sua vontade. as gaivotas estariam voltadas para o oeste. com as asas cerradas. Para melhor enfrentar a sua inclemência. As onipresentes gaivotas que aqui pousam nas pedras voltadas para o vento. o nosso vento sul. fustigando as gaivotas. voltadas para o sul. Lá bem lá depois da terra se esconder sua curvatura. Sem saber que lá onde elas olham. 04/04/2010 .Mas o vento sul.

que se faz presente no litoral brasileiro. o Povo Antigo. o Povo da Comunidade. Os personagens são o Povo Antigo.BUMBA MEU MORRO O Bumba Meu Morro é um folguedo popular. tanto a realeza como a influência cristã estão presentes. Podemos até convidar o Zé Celso para a direção cênica. claro que de origem portuguesa. o Diabo e S. Pedro. Sendo de origem lusitana. demandando toda uma estrutura grandiosa e burlesca. O folguedo é de grande monta. que vestirá parangolés representando a moda de . A ideia é transformar o Bumba Meu Morro num evento cultural inesquecível. o Hélio Oiticica para o figurino e o Tom Zé para a trilha sonora. os Reizinhos. Num pequeno resumo.

depositarão saquinhos de supermercado com um conteúdo de meio quilo cada. Elas. etc. simbolizando o substrato mesmo do Bumba Meu Morro. papelão. alegoricamente indicando os anos do período antigo.35 anos atrás. embalagens plásticas. modess. será composto por 350 mil pessoas. Esta parte do espetáculo deixará mais de 1 bilhão de quilos numa pequena e fofa montanha que vai sendo erguida no centro do evento. No momento em que o Povo Antigo sai de cena. papel higiênico. lentamente. latas de cerveja. vestido de andrajos . 365 vezes. começa a aparecer. metais. o Povo da Comunidade. podendo ser restos de comida. em fila indiana. Não será posto qualquer tipo de restrição quanto ao conteúdo dos saquinhos. simbolizando um saquinho por dia. preservativos. O que se repetirá 16 vezes.

construindo suas casinhas. representando a passagem dos anos. chegando até a 600 famílias formando o Povo da Comunidade.coloridos que. vestidos com fraques de políticos. representando os anos que se passaram desde o fim da ação do Povo Antigo entram os Reizinhos. canos de água. Eles levarão para a montanha material de construção. prefeitos. camas de enfermaria e toda a sorte de material. telefones. Durante este acontecimento. simbolizando a infraestrutura necessária para o Povo da Comunidade. também por 15 vezes. A trilha sonora tende ao burlesco. enquanto o . formarão parangolés lidíssimos. 15 vezes. classes escolares. Os Reizinhos dançam. revoando suas vestes. por sua vez. diretores de repartições e burocratas. Este. fios elétricos. lentamente. vai. assessores. governadores. suas lojinhas e tudo o mais. certamente. Este povo chegará lentamente.

indicando o aquecimento de décadas. O Diabo liga uma enorme batedeira com uma superfície de 30 mil metros quadrados contendo o bilhão de quilos de lixo misturado com as 600 famílias numa grande massa de bolo. movendo-se como engrenagens de uma máquina. Pedro. Leva a massa ao forno e . Neste momento. 9 milhões de litros de chuva por aquela área. surge S. Joga num único instante. que reúne todo aquele vapor do ar e joga sobre a montanha. lentamente a vai esquentando. Na última cena. A água emite cada vez mais vapor.Povo da Comunidade move-se num lento trabalhar. aparece o Diabo que enfia seu tridente incandescente na água e. simbolizando o ciclo das águas. A música torna-se grandiosa com esta intervenção do sobrenatural.

transformada em fluido sobre a Terra. Um glaciar de cerca de 60 metros de altura e 500 metros de largura.serve com cobertura de glacê e chocolate granulado. Seriam suficientes apenas 18 dias de derretimento daquele único glaciar para termos água suficiente para dissolver todo o Morro do Baú. Não sei se isto tudo eu sonhei ou vi na tevê. A plateia aplaude. Isto chutando por baixo. Em cinco anos ele encolheu 30 metros em profundidade de gelo. . dá algo como 900 mil metros cúbicos de água derretida. pede bis e o ibope sobe. Baixa o pano. Mas aconteceu depois de eu saber de um único glaciar lá da Terra do Fogo. Continuando a calcular. Este cálculo. feito assim nas coxas. dá algo como 500 mil litros de água liquefeita por dia.

Não tive vontade de aplaudir.Pode ser que uma coisa não tenha nada a ver com a outra. Nem pedir bis. mas me deixou com uma pontinha de preocupação. 10/04/2010 .

grande jornal de Porto Alegre. qualquer um acredita. qualquer palavra pode ter qualquer significado. Parece que qualquer coisa pode ser dita. Mas na capa do caderno vemos no topo. o patrocínio de duas empresas. se vê casos completamente impensados por este mundo cada vez mais esquizofrênico. Uma contribuição financeira para . Afinal. onde sustentabilidade virou um chavão vazio. em destaque. a principal matéria era sobre um sapatinho sustentável de couro – que só não sustentou a vida do coitado do boi.A SUSTENTÁVEL SUSTENTABILIDADE Nestes novos tempos. Num caderno sobre sustentabilidade. que saiu dia destes na Zero Hora.

Errou. Sim. Parabéns à esta gigante da saúde e do meio ambiente. Há 107 anos a sustentável Souza Cruz fabrica cigarros. Sim. mas até pode ser. E o que esta sustentável empresa industrializa? Três chances. afirma ter 107 anos de sustentabilidade. Não sabe? Chuta. empresa de distribuição de energia elétrica. em sua página devidamente verde. Sejamos complacentes. cigarros de tabaco. a Souza Cruz que.o caderno foi da CEEE. Mais de um século! É sustentável avant la lettre. Pode-se perguntar o que há de ecológico nisto. Mas surge então o maior patrocinador. Aqueles que tem doses cavalares de . E a empresa é ninguém menos que a Souza Cruz. cara-pálida. com direito à toda a contracapa do caderno.

sustentável. Que certamente levou algum parente ou amigo do leitor. Aqueles que mataram meu tio de modo horrível. tão combatida nos dias de hoje. Sustentável. As pesquisas mostram que a nicotina causa mais dependência que a própria cocaína.nicotina. Um negócio que é. obviamente. viciou-se em nicotina e fumou até morrer. A Souza Cruz fornece. Mas pergunte aos traficantes se seus negócios não são altamente sustentáveis para seus bolsos ao passar do tempo? . só perdendo para a heroína. uma droga pesada que causa dependência química. com o beneplácito de todos os governos do ocidente. Completamente sustentável. que caiu nas garras do tabaco. Estas duas banidas dos círculos legais.

01/05/2010 .Parabéns para a Souza Cruz pelos seus 107 anos de negócios sustentáveis para si e para as UTIs oncológicas. com um sorriso nos lábios. E parabéns para todos nós que sustentamos isto tudo. como diria o Gonzaguinha. Parabéns também para a Zero Hora por ter a sensibilidade de buscar o sustento de seu caderno ecológico na Souza Cruz.

ORGULHO NACIONAL

Andando por Buenos Aires, há alguns dias, vi um posto Petrobras. Assim, sem o acento no “brás” mesmo. Mas, apesar do sumiço do acento obrigatório nas palavras com a última sílaba tônica, conforme o vernáculo, não se lê “petrôbras”, não. A justificativa foi a internacionalização da marca, já que em diversos países a acentuação é desconhecida. Justificativa que a Telefónica não compartilha, pois mantém o seu acento espanhol em qualquer país. E parece até que se orgulha disto. Que seja, não é sobre isto que quero falar. Embora seja sobre orgulho. E sobre aquele

posto em Buenos Aires com o “BR” em verde e amarelo. Poderia eu, ali mesmo, inflar meu peito com orgulho patriótico. Afinal, a Petrobras, independente dos acentos, é uma das cem marcas com mais valor no mundo inteiro. E continua genuinamente brasileira, remetendo-nos

todos ao episódio do “petróleo é nosso” e outras afirmações da identidade nacional. Mas o que me veio à mente, em vez de bandeiras brasileiras flamulando nos céus do planeta, foi uma propaganda que está sendo veiculada na televisão. Nela, um cachorrinho olha pela vitrine de uma petshop (eba, orgulho nacional) onde ele está exposto para venda. O close nos olhinhos pidões, quando ele vê uma pessoa passar, são tão enfáticos como a acentuação no

nosso léxico. Expressam o desejo de pertencer àquela pessoa, uma jovem e bela mulher que passa distraída na rua. Ela segue seu caminho, mas seus olhos, fixam-se em um homem, também jovem e bem apessoado, claro. O close, enfatizando seu olhar, repete o do cão. E, da mesma maneira, o homem não retribui, pois seus olhos pidões chegam até um carro na outra vitrine. O close nos olhos marca a cena. Como se pode ter orgulho? Nada mais machista que esta propaganda da Petrobras. Algo que até poderia gerar uma interpelação do Conar, do Ministério Público e mesmo de qualquer mulher que se sinta ofendida em ser comparada com um cachorro em

Mesmo sendo uma das cem maiores marcas do mundo. a agência conseguiu explorar muito boa esta ligação sutil entre os desejos de um cão.seus desejos. acentuados nesta peça publicitária. 01/05/2010 . um homem e um carro. uma mulher. embora seja difícil sentir orgulho de uma empresa que permite a veiculação de sua marca numa propaganda com esta conotação. Realmente. antes de qualquer rasgo patriótico. Mas foram atingidos seus objetivos. pois esta propaganda me veio à cabeça em Buenos Aires.

Um casal destas aves faz acrobacias num vôo sincronizado rente à água.A ESPERA Não tem vento nem sol. exceto por uma leve brisa vinda do sul. parece quase um espelho. As gaivotas reinam neste dia lento de outono. onde as pedras as áridas pedras . Algumas sobre as pedras e outras na água não fazem nada.se refletem femininas. Se miram e se banham as bruxas do Itaguaçú. O mar. às pedras. à areia. O céu fechado também não prenuncia a chuva. onde um bando de trinta-réis descansa sobre uma pedra e uma dupla de pescadores tarrafeia num caíque. Somem para oeste. .

como se a tarde cinza segurasse os ponteiros do relógio de Saturno. Esperam jogando dominó. que moverão os braços. Esperam na praia. Esperam que o vento trague lá do sul as flechas de prata e de vida que encherão as redes. Esperam tomando pinga. que pesarão nos barcos. Esperam lubrificando as máquinas.Tudo se passando muito lento. Todos esperam sem pressa. que forçarão as máquinas. . Esperam que o tempo passe. Esperam cosendo as redes. Todos esperam que o tempo arraste suas correntes e que o vento mude. acorrentando o tempo. Esperam que o vento mude. Esperam nos botecos. Esperam nos barcos.

16/05/2010 .Esperam as tainhas que abrirão o dia. que esquentarão o sol. que romperão as cadeias do tempo.

Até uma colônia de pescadores chamada Ingleses do Rio Vermelho. Mas comecei a freqüentar estas plagas a partir de 73. Um caso bem concreto. não se sabe quanta culpa o aquecimento global tem e quanto é de um fenômeno natural presente em praias compostas por areias ao sabor do mar e do vento. portanto móveis. que. estranhos que éramos numa comunidade de pescadores.RESSACA NA ARMAÇÃO Fui instigado por um amigo a pensar um pouco e responder sobre o que fazer. A partir daí eu . portanto. a Ressaca na Praia da Armação. acampados numa praia quase deserta chamada Santinho. não acompanhei esta ilha desde os anos 50. até agora. quando cruzei a Hercílio Luz com dois amigos num flamante Passat e fomos até o norte da ilha. Havia a Festa da Tainha e fomos extremamente bem recebidos. Não nasci aqui e. Inclusive ficamos bem mais tempo do que planejado.

o homem teve sua influência na aceleração do fenômeno. Me lembro que a Praia da Armação tinha uma faixa de areia bem extensa e que ela. mesmo com este avanço lento e constante. só consegui vir de muda para cá quase trinta anos depois. foi sendo tomada pelo mar. Porém. Do mesmo modo. fiquei sabendo que o fechamento da barra do Rio Sangradouro para o lado da Armação. Conversando com pescadores. mudou a praia. Ele me falou que a praia sofreu com isto. os próprios pescadores passaram a ser obrigados a retirar seus barcos da .me apaixonei pela ilha e comecei a freqüentá-la. Mais uma vez varreram o pó para baixo do tapete. Entretanto. Isto é um fenômeno natural. a lestada. O objetivo foi preservar a Armação livre da poluição do Rio. em vez de impedir que ele fosse poluído por esgoto humano no seu pequeno trajeto entre a Lagoa do Peri e o mar. conforme o vento. tendo em vista a ação do vento leste. aos poucos. foi mais prático desviá-lo. Mas cá estou. Ou seja.

Armação, levando-os até a Ilha do Campeche, o que significa sempre despesas extras, além de períodos fora de casa, pois, levando os barcos para lá, não têm como voltar, até mudar o vento. Não entendo muito disto, pois me falta conhecimento científico sobre esta ação dos ventos e do mar, mas estou relatando o que me contaram. Ou seja, houve uma ação humana ali. Os pescadores pedem ou um molhe longo na foz do rio ou que se retirem aquelas pedras de lá. Então aí vai a proposta que faria. Que, antes de mais nada, se escute quem tem conhecimento disto, seja por viver a vida inteira ali, seja por ter conhecimento científico obtido nos bancos da UFSC ou da UDESC ou onde for. Resolverá jogar pedras na praia? Para mim é uma situação emergencial. Como as crianças na praia a construir um murinho para proteger o castelo de areia da ação das ondas que insistem em subir. Algo paliativo apenas, mas que não conterá o mar. Tem a proposta de dragar o fundo do mar naquele

local, onde há um depósito de areia e jogála na praia, reconstruindo-a. Seria acelerar um movimento que o próprio mar faz ao longo dos anos. Tira a areia daqui, joga ali. É algo caro, mas que resolveria, com manutenção periódica, a situação da Armação. Acontece que a vida construída sobre a areia da praia, se dá de modo precário. Ranchos e construções simples, que podem ser retiradas e erguidas em outros locais ou mesmo perdidas sem muito prejuízo. Assim deveria ser. Só que se construiram cidades, com belas e dispendiosas casas, em locais impróprios para tal. O mesmo que está acontecendo também na Barra da Lagoa e em Canasvieiras. Como acontece na Cidade do México, construída sobre um lago, em New Orleans, no caminho dos furacões, no Baú, no Morro do Bumba e tantos outros locais. Entretanto, a responsabilidade seria dos órgãos públicos que, no lugar que cobrar IPTU, levar água, luz, arruamento até lá, precisariam estar preparados, com base no conhecimento dos terrenos envolvidos, e dizer não, naquele local não

pode. Mas a sanha arrecadatória é mais forte que o bom senso. Temos que ter uma ação preventiva e não apenas remover os flagelados depois do flagelo acontecer e decretar estado de emergência. Em que outros locais isto acontecerá? Quando? Que ação será tomada? E nem cheguei a falar no aquecimento global.

28/05/2010

“ Estas linhas foram escritas em 1854. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. Este texto foi extraído da carta que o cacique Seatle mandou para o presidente dos Estados Unidos comentando o fato do governo daquele país querer comprar as terras de sua tribo. ele é simplesmente um de seus fios. . E não foi escrito por nenhum apologista da sustentabilidade. mas por um índio. O homem não tramou o tecido da vida. o homem pertence à terra. Tudo o que fizer ao tecido.DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE “A terra não pertence ao homem. Há uma ligação em tudo. As terras que restaram. Isto sabemos: todos as coisas estão ligadas. fará a si mesmo.

breve São José não terá um único garapuvu para contar a história. Hoje ainda temos 26%. a ONU estipulou que o cinco de junho passaria a ser o Dia Mundial do Meio Ambiente. Nossos rios não . que apenas pensa em si mesmo. de nossos netos. Nossas florestas estão se degradando rapidamente na mão do homem que não pensa em seus filhos. ainda é bastante. Sim. até 1972. na Conferência de Estocolmo. No ritmo que estamos. temos Santo Amaro da Imperatriz com 68%. De nossos filhos.Como estamos no passado. avançaremos mais de um século. O que destruímos agora fará falta amanhã. estamos aqui em São José sem ter o que comemorar. Estamos aqui sem ter o que comemorar. 0%. por outro. É pouco? Se formos comparar com outros municípios. Tínhamos todo o nosso município coberto pela Mata Atlântica. quando. Quase quarenta anos depois. Por um lado. porque estamos tomando um “empréstimo” do futuro. Capivari de Baixo atingiu um ponto singular.

o Rio Araújo era vivo. São José é um município que fica na beira do mar.passam de esgoto a céu aberto. Alguém. vemos que eles chegaram do mar e ali levantaram a freguesia de São José da Terra Firme. E na freguesia estamos hoje de costas para o mar. parado no ar condicionado de seu carro. como se fosse um grande “sumidouro”. carás. lambaris em suas águas. Conclamo todos a fazer algo. Cinco de junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente e não temos aqui nada para comemorar. abriu a janela e olhou o rio? Sentiu o cheiro? Há quantos anos a Terra abriga a vida? Milhões de anos. Os mais antigos pescavam bagres. esperando o sinaleiro abrir ao lado do Rio Araújo. Quantos de nós se lembram deste simples fato? Se olharmos para o monumento aos açorianos na praça do centro da cidade. . Há vinte anos. Abra a janela do seu carro ao lado do Rio Araújo e olhe para ele. Ele só nos serve para que joguemos nossos dejetos.

05/06/2010 . seja separando o lixo. teremos duzentas mil ações em prol do meio ambiente todos os dias. teremos sim o que comemorar. um movimento singelo na recuperação de nossos recursos naturais. Se todos nós fizermos algo. Seja não jogando o esgoto de sua casa na rede pluvial. seja juntando um pedaço de plástico do chão. seja reciclando o óleo da cozinha. por menor que seja. todas as horas e. no ano que vem.um pequeno gesto.

Por que não sei. Os biguás e suas esquadrilhas. Bate um vento forte de sudeste e. há pouco. Talvez por ser algo como o primo pobre das aves marinhas daqui. . são bem mais populares que estas pequenas e acrobáticas aves. como o quero-quero e o bem-te-vi. que parecem nunca descer dos céus. as barulhentas e desorganizadas gaivotas e mesmo as distantes fragatas. o sol cedeu lugar para nuvens densas.TRINTA-RÉIS Hoje o dia é dos trinta-réis. Talvez por seu nome prosaico – dizem que onomatopéico. Os trinta-réis são um tanto esquecidos por nós.

exceto um casal que Esporadicamente um alça vôo para se alimentar. Devem estar nidificando. saindo da água rapidamente com sua presa no bico. Os trinta-réis. De onde estou não . Num instante. vasculhando a superfície do mar. manobras semelhantes. também distantes. mas sempre um deles permanece. Dezenas permanece destes sobre pássaros uma executam pedra.Entretanto. Chegam a parar contra o vento procurando peixinhos. portanto. estolam o vôo e mergulham certeiros. dominam os céus. as gaivotas estão ao longe e os esporádicos biguás passam. hoje. As fragatas nem se vê. em sua formação. Voam atentos com o bico formando quase que um ângulo reto com o corpo.

05/06/2010 . Ao longe. mas a atitude do casal é bem típica. olhando para o vento que escabela na calçada as pessoas e os jerivás. Aqui o casal de trintaréis permanece na pedra. o Tabuleiro reina imponente banhado ainda de sol.é possível ver se há um ninho mesmo ali.

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