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Relendo Marcuse

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Ensaio nostálgico sobre a atualidade de Herbert Marcuse
Ensaio nostálgico sobre a atualidade de Herbert Marcuse

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Published by: Naomar Almeida-Filho on May 12, 2012
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10/19/2012

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RELENDO MARCUSE

Naomar de Almeida Filho

Estou relendo Eros e Civilização, de Herbert Marcuse. É uma edição de bolso, em castelhano, capa dura; perfeita para ler em viagens. Ainda não terminei. Leio devagar, sem pressa, repensando, relembrando; refletindo na leitura coisas do cotidiano; revendo as agruras da gestão universitária e ressentindo as alegrias do trabalho acadêmico. Marcuse foi um dos ícones da contracultura e da rebelião estudantil nos anos 1960. Soube dele por primeira vez em 1968 quando, preparando-me para um debate sobre política estudantil na Ação Fraternal de Itabuna (Carlos Sodré deve lembrar disso), reuni recortes de jornais e revistas como referência. Lembrança: vejo-me sentado num banco de jardim, magro e desajeitado, mal apertado num paletó preto, de gravata fina (naquele tempo, aprendizes de liderança estudantil usavam gravata em manifestações públicas), sentindo frio no úmido inverno grapiúna, revisando anotações sobre revoltas estudantis em Santiago do Chile, sublinhando uma citação (naturalmente perdida na memória) sobre um certo Marcuse. Como nada sabia de seu protagonismo na Escola de Frankfurt, nos anos 1930, fantasiei-o como um jovem filósofo político.

Anos depois, reencontrei Marcuse como personagem de A Esquerda Freudiana, de Paul Robinson, leve, deliciosa e eficiente introdução ao pensamento marxista na psicanálise. Confesso que Róheim (por ser precursor da etnopsiquiatria) e Norman Brown (pelo viés poético) me pareciam então mais interessantes. Porém só os livros de Reich e Marcuse, no auge da moda, estavam disponíveis. Reich em nada me impressionou, não consegui sequer ter pena de sua trágica vida. Por sorte, consegui um exemplar de Vida contra Morte e uma tradução em castelhano de Love’s Body, ambos de Brown (emprestados por Paulo César Souza, meu primo, hoje renomado tradutor, especialista em Nietzsche e Freud). Li, de Marcuse, com avidez, Razão e Revolução (um alentado estudo da dialética de Hegel, corajoso esforço de resgate da principal fonte do pensamento filosófico marxista); depois, com pressa, devorei Eros e Civilização. Anos depois, nos sebos da Avenue du Mont-Royal, em Montréal, pude coletar os textos etnográficos de Géza Róheim e seu herdeiro Georges Devereaux, preenchendo os tempos brancos de dois invernos rigorosos. Na minha percepção quase nostálgica dessas leituras, encontro uma incômoda dissonância: porque Marcuse, racional-progressista, rigoroso, e não Brown, informal, desafiador, ou Róheim, ousado, relativista, foi tomado como principal referência para o que na época se chamava de esquerda contracultural? Hoje, releio Marcuse com outros olhos, mais maduros (espero) e certamente com outras expectativas. Descubro, com uma ponta de decepção, que Eros e Civilização longe ficou

 

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de tornar-se um clássico. Nem por isso, trata-se de obra menor. Eis uma breve síntese do seu conteúdo: A interpretação convencional da Psicanálise focaliza os antagonismos, em eterno conflito, entre princípio do prazer e princípio de realidade e entre pulsão de vida e pulsão de morte. Freud escreveu sua famosa tetralogia sobre a cultura (Totem e Tabu, Moisés e o Monoteísmo, O Futuro de uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização) numa fase difícil de sua vida, desgostoso com as guerras e antevendo a catástrofe do nazismo. Por isso, não hesitou em assumir uma posição depressiva e pessimista, destacando a tragédia da realidade humana e, com clareza, priorizando a pulsão de morte no edifício teórico da Psicanálise. Tomando a contribuição antropológica de Freud como objeto de uma cuidadosa metaleitura, a partir da análise de entrelinhas e articulações entre as sucessivas tópicas freudianas, Marcuse sugere que, na complexa trama teórica da Psicanálise, o que menos importa é o conteúdo de cenas e narrativas, meras alegorias. O que mais me agrada nesta releitura de Eros e Civilização é encontrar a demonstração de um curioso teorema sobre forças e vetores que articulam, na história da cultura humana, sujeito e instituições sociais. Digo curioso teorema (melhor seria, talvez, chamá-lo de espantoso teorema) porque Marcuse usa a lógica da sobredeterminação, concebida pelo próprio Freud, para propor que os agonismos freudianos não são binários e estruturados, mas estruturantes apesar de mutantes, às vezes monistas, às vezes ternários. Desse modo, aplicando uma dialética peculiar, com inegável rigor formal, desenvolve

 

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um argumento, robusto e otimista, em favor da viabilidade da emancipação humana. Além disso, também redescubro, tanto em Eros e Civilização quanto em Razão e Revolução, que dessa maneira Marcuse empreendeu uma eficiente crítica ao utopismo. Falava não da utopia, objeto legítimo da alegoria política, mas do utopismo, doença infantil do esquerdismo, atitude conservadora que restaura o pensamento mágico – sonhe, logo existirá. Não posso aqui evitar uma paródia da alucinação auditiva de Ray Kinsella / Kevin Kostner, em Field of Dreams, de Phil Robinson (1989): if you dream, it will come. Para não deixar dúvidas, registro que se trata de uma fábula hollywoodiana representativa da era Reagan-Bush I. Recentemente, escrevi que considerava o utopismo patético. Não quis insultar os utópicos. Tampouco pretendi desrespeitar os quixotes modernos, simpáticos sonhadores. Insisto, marcusiano après la lettre, que, para produzirmos algum impacto sobre nossa história e nossa sociedade, além de sonhos, precisamos de projetos. Ou melhor, precisamos de mais princípio de realidade para transformar sonhos em projetos possíveis e viáveis. Isso muito nos interessa na universidade dos dias de hoje. Lennon disse, no auge da contracultura: “o sonho acabou”. Relendo Eros e Civilização, estou convencido de que Lennon quis dizer o mesmo que Marcuse, anunciando que havia chegado o tempo de fazer. É pena que minha geração, vitima da eficiente repressão política da década dos setentas, parece

 

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ter mal-entendido a mensagem do mais genial dos Beatles. Nos anos 1980 e 1990, muitos não conseguiram realizar seus sonhos. Alguns desistiram simplesmente, parece que continuam sem nada realizar. Para escapar da tortura da própria alienação, como o protagonista de Brazil, de Terry Gilliam (1985), têm sonhos grandiosos, só de vez em quando. Fico triste porque a juventude, que a cada geração redescobre a força dos sonhos, recebe uma pesada herança de prosélitos que se aproveitam da maravilhosa energia vital dos jovens. Alguns desses falsos quixotes nem são simpáticos; muitos nem sonharam quando, na ditadura, só podíamos sonhar e fazer era proibido. Aí a releitura de Marcuse me anima. O clima da política estudantil na universidade brasileira atual é profundamente dialético e potencialmente enriquecedor, pelo menos revela poderosas pulsões de vida. Não será fácil demonstrar, aos jovens, que muitos de nós continuamos a sonhar, a lutar e, mais ainda, a fazer a mudança do mundo. Mais difícil ainda será criar sintonias com vetores e atores, para acordá-los do “sono dogmático” (expressão de Kant, recuperada por Bourdieu) e começarmos a construção coletiva de realidades. Estes são os desafios do momento, teremos de enfrentá-los. E isso é conosco; nisso, Marcuse não nos poderá ajudar. Salvador, 5/8/07

 

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