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Sapiens-demens

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SAPIENS-DEMENS In MORIN, Edgar. O enigma do homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.

A era do grande cérebro começa com o homem de neandertal, já sapiens, único e último representante da família dos hominídeos e do gênero homem na terra. Quando o sapiens surge, o homem já é socious, faber e loquens. A novidade que o homo sapiens traz ao mundo não está, portanto, conforme se havia pensado, na sociedade, na técnica, na lógica, nem na cultura. Encontra-se por outro lado naquilo que até o presente fora considerado epifenomenal ou ridicularmente considerado indício de espiritualidade: na sepultura e na pintura. O que a sepultura diz? Os mais antigos túmulos que conhecemos são neadertalenses. Essas sepulturas indicam-nos bem mais e algo muito diferente do que um simples enterro para proteger os vivos da decomposição ( o cadáver poderia ser, para esse efeito abandonado ao longo ou lançado ao mar ). O morto encontra-se numa posição fetal ( o que sugere uma crença na sua renascença ), por vezes até deitado sobre uma cama de flores, conforme indicam os vestígios de pólen encontrados numa sepultura neandertalense descoberta no Iraque ( o que sugere uma cerimônia fúnebre ). Os ossos por vezes estão pincelados com ocre ( o que sugere um funeral após consumo canibalesco ou um segundo funeral após a decomposição do cadáver ); há pedras que protegem os despojos e, mais tarde, armas e alimentos acompanham o morto ( o que sugere a sobrevivência do morto sob forma de espectro corporal com as mesmas necessidades dos vivos ). Aquilo que a sepultura neandertalense testemunha não é somente uma irrupção da morte na vida humana, mas também modificações antropológicas que permitiram e provocaram essa irrupção.

Além disso. o elefante. O mito e a magia Juntamente com a consciência realista da transformação. de uma consciência do tempo já indicam no homo sapiens a emergência de um grau mais complexo e de uma nova qualidade do conhecimento consciente. o cão e o pássaro também podem sentir ).1. mas sim como um sujeição quase inevitável que pesa sobre todos os vivos. a crença de que essa transformação resulta numa outra vida na qual se mantém a identidade do transformado ( renascimentos ou sobrevivência do duplo ) indica-nos que o imaginário irrompe na percepção do real e que o mito irrompe na visão do mundo. ao mesmo tempo. a morte provavelmente já é pensada não como uma lei da natureza. um progresso do conhecimento objetivo. isso significa. não é só sentida como perda. na realidade são ritos que contribuem . A associação de uma consciência de transformações . desaparecimento. os produtos e coprodutores do destino humano. A partir de então ambos passariam a ser. De todos os modos. A morte não só é reconhecida com fato. já se pode detectar no homem de neandertal um pensamento que não é totalmente investido no ato presente. 2. conforme a reconhecem os animais ( que além do mais já são capazes de se fazerem de mortos para enganar o inimigo ). o que significa que se pode detectar a presença do tempo no seio da consciência. seja pela presença dos mortos ou pela presença da idéia da morte fora do seu acontecimento imediato.Uma nova consciência Para começar. os funerais. de uma consciência de sujeições. A morte é concebida como transformação de um estado em outro estado. lesão irreparável ( coisas que o macaco. Ao mesmo tempo em que a sepultura nos assinala a presença e a força do mito. incontestavelmente.

Por um lado a dilaceração e a angústia. já o luto que isola os parentes do defunto ). ao mesmo tempo. mas também que a rejeita. é sim sua união turva numa dupla consciência. a angústia e horror da morte. um trauma que provoca a idéia de aniquilamento. Ora. portanto. protegendo os vivos da irritação do morto ( de onde talvez. o que é profundo e fundamental não é apenas a coexistência dessas duas consciências. que a vence.para operar a passagem para a outra vida de modo conveniente. igualmente que esse homem não só recusa essa morte. reabsorvem e exorcizam. 3. segundo a antiga definição clínica. por outro a esperança e a consolação. A presença da morte se torna um problema vivo. Os funerais – e isso em todas as sociedades sapientais conhecidas – traduzem ao mesmo tempo uma crise e uma ultrapassagem desta crise. A brecha antropológica Tudo nos indica. isto é. isto é. levando consigo uma ansiedade específica. que a soluciona no mito e na magia. que afeta sua vida. já o culto dos mortos ) e da decomposição da morte ( de onde talvez. Os ritos da morte exprimem. que a consciência da morte que emerge no sapiens é constituída pela interação de uma consciência objetiva que reconhece a mortalidade e uma consciência subjetiva que afirma senão a imortalidade. Assim é todo um aparelho mitológico mágico que emerge no sapiens e se encontra mobilizado para enfrentar a morte. 4. um histérico. ainda que a combinação entre essas duas consciências seja muito variável segundo os indivíduos e as sociedades ( bem como a impregnação da vida pela morte ) nenhuma anula verdadeiramente a outra e tudo se passa como se o homem fosse um simulador sincero com respeito a si próprio. Um progresso da individualidade . Tudo nos indica que o homo sapiens é atingido pela morte como por uma catástrofe irremediável. Tudo nos indica. pelo menos uma transmortalidade. transformando em sintomas objetivos aquilo que provém de sua perturbação subjetiva.

é preciso que haja desenvolvimento desse novo epicentro. Trata-se de um novo desenvolvimento da individualidade e da abertura de uma brecha antropológica. a pintura parietal. O que a pintura diz? Podemos supor que o ocre vermelho. assim como a gravura na rocha ou no osso. sinais e grafitos são utilizados correntemente.Com efeito. é ao mesmo tempo. De todo modo. no homem de neandertal não é usado unicamente para pintar as ossadas dos mortos. nesses fenômenos o aparecimento da arte. mas também para efetuar pinturas no corpo humano. Durante muito tempo limitamo-nos a admirar. é preciso que haja intensas ligação afetivas e intersubjetivas para que eles permaneçam vivos além da morte. Assim. a irrupção de uma elucidação e do mito. A morte neandertalense constitui uma formidável revelação que aponta uma luz singular para a diferença entre o sapiens e seus antecessores e uma luz permanente para a natureza do homem. a irrupção de uma verdade e uma ilusão. que é a consciência de si próprio no mundo. no sentido em que o nó extraordinário de significações que desatamos está ligado ao desenvolvimento último do cérebro dos hominídeos e à própria constituição do cérebro do sapiens. a irrupção da morte no sapiens. . confluência entre a afirmação objetiva da morte e a afirmação subjetiva da imortalidade individual. a irrupção de uma ansiedade e de uma segurança. para desenhar símbolos ou sinais em diversos objetos. a ocre e a preto de manganês. isto é. para que haja consciência da brecha mortal. é uma arte muito desenvolvida e que os símbolos. em vez de ler neles a segunda nascença do homem. a nascença do homo sapiens. é certo que no período magdaleano. é preciso que haja uma forte presença pessoal para que a individualidade de um morto sobreviva junto dos vivos. a irrupção de um conhecimento objetivo e de uma nova subjetividade e principalmente de sua ligação ambígua.

precisão. que é uma primeira escrita. Além disso. De resto. Não se trata pois de nos interrogarmos sobre uma arte. 1956 e 1972 ) de que os fenômenos mágico são potencialmente estéticos e de que os fenômenos estéticos são potencialmente mágicos. invenção na prática. o estudos das sociedades arcaicas mostram que a decoração. mas já é a linguagem do escrito. o das produções próprias ao espírito ( imagens. a arte.Pra começar. a figuração extremamente precisa das formas vivas e finalmente a representação de seres quiméricos ou irreais. . aventura-se desdobra-se num novo campo. um padrão que revela a amplitude do desenvolvimento das aptidões empírico-lógicas em relação aos hominídeos. que os antecessores do sapiens já haviam desenvolvido nas atividades práticas e em especial na caça. o campo gráfico da humanidade pré-histórica é muito vasto e variado: nele são vizinhos o sinal convencional. A nosso ver é perfeitamente possível combinar as duas interpretações. talento. que aqui chamaremos de produção noológica. habilidade. símbolos. Num certo sentido a exibição gráfica constitui um novo modo de expressão e comunicação. com o sinal ideográfico e o símbolo pictográfico. Aqui geralmente opõem-se duas interpretação: uma que reconhece pura e simplesmente o aparecimento de uma atividade artística e outra que integra as novas formas da arte numa finalidade ritual e mágica. a pintura. Por outro lado. Conforme a sepultura nos revelou a magia irrompe no sapiens. estando ligados a crenças mitológicas e a 1 Noologia é o estudo da mente. isto é. na imagem realista existe ao mesmo tempo um apreensão muito precisa das formas concretas e a constituição daquilo que virá a ser o modelo abstrato. Ainda não é naturalmente a linguagem escrita.1 Qual é o sentido deste novo fenômeno. o símbolo mais ou menos analógico. ciencia dos fenômenos considerados como puramentes mentais em sua origem. mas sim de investigarmos a grafologia do homo sapiens. idéias ). pois já defendemos a tese ( Morin. o adorno. a escultura e a pintura podem ter valor de proteção e de sorte.

uma dupla existência. a linguagem já abriu a porta para a magia: a partir deste momento qualquer coisa traz imediatamente ao espírito a palavra que a identifica. . e permite por meio deste intermediário. que se supõe localizarem neles. rito de evocação pela imagem. tendo por finalidade desencadear uma resposta por parte de um receptor exterior. do desenho. este objeto adquire uma existência mental até mesmo fora de sua presença. pelo desdobramento do ser no sonho e pelo desdobramento do reflexo na água. correspondiam a ritos mágicos que preparavam a caça. Deste modo. o duplo do ser representado. ainda que ausente. a imagem. que são seqüenciais de comportamento simbólico. rito de possessão da imagem (encantamento ). os seres e os objetos adquiriram. Por meio da palavra. o mundo exterior. imaginário. mas também às imagens ou símbolos. rito de evocação à imagem.operações rituais. Para compreender esta magia precisamos retomar o tema do duplo. A etologia2 já nos revelou a existência de rituais animais. É esta ação que é propriamente mágica. isto é. a 2 Etologia é o estudo costumes usos e caracteres humanos e também dos hábitos dos animais e de sua acomodação às condições do ambiente. essa palavra produz imediatamente a imagem mental da coisa que ela evoca e confere-lhe presença.Aqui podemos apreender o elo entre imagem. Assim. É próprio do ritual mágico. com o homo sapiens. é preciso compreender que todo objeto tem. magia e rito. a imagem não é uma simples imagem. dirigir-se não só diretamente aos seres dos quais espera uma resposta. ela tem em si a presença do duplo do ser representado. É por isso que se supôs que as pinturas rupestres de animais. do qual já falamos a propósito da morte. uma segunda existência. legadas da pré-história. Para compreender mais profundamente como uma imagem pode ter acesso à existência como duplo. Assim. no homo sapiens. agir sobre este ser. da inscrição. para o sapiens. do sinal. de certa maneira. A existência do duplo é primeiramente atestada pela sombra móvel que acompanha cada pessoa. a partir de então.

sob a forma de imagem mental. um comportamento que tem por fim obter respostas adequadas do meio ambiente exterior. alimentando-se de um e do outro. Era preciso também um mito confirmando e explicando a realidade viva das imagens mentais ou materiais ( esse mito do duplo tendo talvez se cristalizado com a nova consciência da morte ). na verdade sobre imagens e símbolos. Assim a comunicação é assegurada entre a imagem-objeto e a coisa-objetiva. A partir de então todo significante. constituindo uma esfera noológica específica. que tal como uma névoa. da mesma forma como o ritual animal. serão seres intermediários que se interpõem entre o meio ambiente e o indivíduo. com a magia podendo desenvolver-se através da utilização das . participando num e no outro. Poderemos então começar a compreender as condições de emergência da magia no homo sapiens. O homem não irá comerciar apenas por meios de sinais. A partir de então o ritual humano passará a constituir. Evidentemente são o desenho e pintura realista que levam a sua perfeição e adequação entre o significante ( o bisão pintado ). semelhante a imagem que forma a percepção. isto é. Era preciso primeiramente que a linguagem e escrita pictórica conservassem uma dupla existência dos seres e das coisas. já que ela não é mais do que essa imagem recordada.existência de sua presença no espírito fora da percepção empírica. mas desta vez. a imagem mental do bisão recordado e o bisão empírico. gravada ou pintada pudesse constituir um substrato material para a operação mágica. também irá comerciar com eles. mas sim sobre seus duplos. O mito do duplo opera a racionalização que permite explicar tanto a presença quanto a ausência do animal na imagem. palavras e cantos rituais. ( incluindo o sinal convencional ) terá potencialmente em si a presença do seu significado ( imagem mental ) e este poderá confundir-se com o referente ( o objeto empírico designado). passará a envolver o progresso da cultura da humanidade. símbolos e imagens. Também era preciso que a imagem desenhada. já não agindo diretamente sobre os objetos e seres. direcionada para o referente através de ações mimadas.

a figuração. O grafismo parietal nos revela a ligação imaginária com o mundo. a palavra. Deste modo as pinturas de Lascaux e Altamira não foram utilizadas para operações mágicas. O cérebro humano apodera-se de um novo campo de competências e assim já não são apenas a imagem- . até mesmo às mais biológicas ( nascimento e morte ) ou as mais técnicas ( caça. o símbolo. vão representar incessantemente os seres e as coisas do mundo exterior ( mesmo na sua ausência ). o desenvolvimento do universo das imagens contribui por si só para o desenvolvimento da magia. A partir de então mitologia e magia serão complementares e estarão associadas a todas as coisas humanas. desabrochando tanto no mundo vegetal quanto no animal: são flores e plumagens coloridas. Por outro lado são imagens mentais que invadem o mundo exterior. Em outras vezes ela surge como qualidade universal ligada à própria exuberância da vida. elas vão colonizar a morte e arrancá-la do nada. uma organização ideológica e pratica da ligação imaginária com o mundo. Elas são um elemento constitutivo da magia. No sapiens. reflexos e espumas das águas. mito. É nessa confusão e para vencer esta confusão que se constrói o mito e a magia. trabalho ). pelos e carapaças com desenhos e formas intrigantes. trata-se de uma produção individual. A magia nem por isso esgota o significado antropológico daquilo que sob outro aspecto também é a florescência de um novo universo estético. executada por uma técnica e uma arte. Ainda que as imagens não possam reduzir-se à sua função mágica.de inspiração cerebral. Mas como apreender a estética? Por vezes ela aparece como fruto final da cultura. ficando esses seres e coisas dotados de um poder invasor. isto é. que desabrocha destacando-se das finalidades mágico religiosas.virtudes eficazes do ritual. etc. rito e magia são fenômenos fundamentais ligados ao aparecimento do homem imaginário. Por um lado. Mas o homem traz uma nova característica: nas espécies vegetais e animais o fenômeno estético está inscrito geneticamente e o individuo é portador e não produtor dos desenhos e cores. Imagem.

sons. aromas. O homo sapiens pré-histórico conhece e busca o prazer estético. da música e da dança deu-se com o homo sapiens. cores. A sensibilidade estética é. satisfazendo um prazer e uma emoção propriamente estéticos. Mas o verdadeiro desabrochar do canto. em sincronia com formas. portanto. É preciso enfrentar a possibilidades de muitas soluções para o mesmo problema e muitas comportamentos para a mesma finalidade. A irrupção do erro Aquilo que no sapiens se torna subitamente crucial é a incerteza e a ambigüidade da relação entre cérebro e o meio ambiente. aromas. A estética é uma relação que se estabelece entre o ser humano e uma certa combinação de formas. um aptidão para entrar em ressonância. coisa . estendendo-se às formas naturais. já tinham pré-descoberto o ritmo e a dança. A arte. sem duvida. nos seus carnavais. A sensibilidade estética ultrapassa ainda as formas visuais a abre-se para os sons. cheiros. imagens produzidos em profusão não só pela natureza mas também pelo homem. de conhecimento e de decisão. gostos e expressões corporais. Esta incerteza vem primeiramente da regressão dos programas genéticos no comportamento humano e na progressão das aptidões heurísticas e estratégicas ( competências ) para resolver os problemas.percepção e a imagem-recordação que se vão disseminar e traduzir fora do cérebro nas obras figurativas. O aparecimento do homem imaginário corresponde ao aparecimento do homem imaginante. vai aplicar-se por um lado a reproduzir formas e por outro a brincar de inventar formas. do desenho e da escultura. da religião e mais geralmente no âmbito das atividades sociais. em harmonia. Os chimpanzés. Esta reprodução e invenção vão inscrever-se no âmbito da magia. é uma proliferação criadora de imagens que se vai manifestar na invenção de novas formas e de seres fantásticos. É preciso então interpretar as mensagens ambíguas que chegam ao cérebro e reduzir as incertezas por meio de operações empírico-lógicas. A sensibilidade às formas visuais ultrapassa amplamente o campo propriamente artístico da pintura.

obedecem um ciclo padrão rigoroso e infinito que afasta para longe a possibilidade do erro. Por isso o reino do homo sapiens corresponde a um aumento maciço do erro no seio do sistema vivo. o processo civilizador é um processo de obliteração e domínio dos instintos. Ainda hoje. decidir. isso incrementa. circulam fantasmas e fantasias. e a arrebentação do imaginário criaram. em verdade. onde os procedimentos de percepção. optar. É a isso que se chama instinto animal. Nessa zona a palavra. Nessa zona se desenvolvem o mito e a magia. Mas a própria ação que permite flexibilidade e invenção implica risco de erros e o homo sapiens é condenado ao método exatamente chamado de “tentativa e erro”. mas sempre com risco de queda. conduta e solução de problemas estão inscritos no código genético. na sua relação consigo próprio e com outrem. o crescimento das plantas. e que por isso mesmo raramente falha. entre o individuo e o objeto. o ataque do leão. O que é a verdade? Nossa incapacidade de manter um . dele com o grupo. A zona de incertezas entre o cérebro e o meio ambiente é a zona de incerteza entre a objetividade e a subjetividade. o sinal e o símbolo se impõem como evidências das coisas e o rito pede a resposta de um receptorinterlocutor imaginário. entre o real e o imaginário é a fonte permanente dos erros sapientais. O pulo do gato. O homem sapiens inventou a ilusão. com pouca chances de modificação. o bote da cobra. com todo progresso científico e tecnológico somos incapazes de um acordo pleno e conjunto sobre a verdade. uma brecha antropológica que permite ao homem vôos mais altos. entre o imaginário e o real.impensável no reino puramente animal. a partir daí serão sempre pertinentes as perguntas: o que é verdadeiro? O que é real? O que é falso? A incerteza das relações entre o meio ambiente e o espírito. O homem pode escolher. mas também complexifica o mundo. O erro grassa na relação do sapiens com o meio ambiente. A descoberta da morte. na relação de grupo com grupo e de sociedade com sociedade. Quem já se lembra de ter visto um gato cair do muro por causa de um pulo mal feito ou a gaivota voltar sem o peixe depois do mergulho? Com o homo sapiens já não acontece o mesmo.

O prazer que o sapiens procura. Risos e lágrimas são estados violentamente convulsivos. que chegam a alcançar o limite da catalepsia ou da epilepsia.ponto de vista ontológico e universal sobre a verdade faz com que não possamos escapar ao caráter incerto e errático da aventura sapiental. mas em todos os campos. sobre a qual as culturas bordaram suas diversas semióticas. de paroxismo.. errare humanum est. espasmódicos. A criança sapiens exprime o que nenhuma outra criança de qualquer outra espécie jamais exprimiu com tanta intensidade. há busca de estados de embriaguez. a intensidade e a instabilidade que a alegria e a tristeza causam. o riso e as lágrimas nos são coisas inatas. Não saberemos dizer se o riso e as lágrimas emergiram antes do sapiens. um desespero surpreendente nos seus berreiros e um contentamento incrível no livre espernear de seus membros. de êxtases. uma fraqueza. alem do simples prazer. Trata-se de uma característica profunda. abalos. A hibris Conforme foi estabelecido recentemente. Ele também existe. que por vezes parecem unir a desordem extrema no espasmo ou a convulsão e a ordem suprema na plenitude . tal como nas sociedades históricas por meio das ervas e/ou do álcool. A antropologia racionalista do homo sapiens esqueceu além deste. Nas sociedades arcaicas. em estados de exaltação de todo ser. à realização de um desejo. da dança e/ou do rito. Por isso mesmo e por nossa própria incerteza. de anulação de uma tensão. do que entre os primatas em geral e a mulher. rupturas. a embriaguez. Passa brutalmente do desespero berrante ao riso beato. não só no orgasmo. ao contrário das fêmeas antropóides. a fúria. mas próprio a ele é sem duvida. Primeiramente. o orgasmo é no sapiens muito mais violento e convulsivo. não pode reduzir-se ao estado de satisfação ie. outros detalhes: sua aptidão para o prazer. do profano e/ou sagrado. conhece um prazer muito profundo e espasmódico. e até confundem-se e permutam-se: ri-se até as lágrimas e o choro pode transformar-se em riso demente. constitutiva da natureza humana. o ódio.

Muito raros são aqueles que como Georges Bataille( 1949) e Roger Callois ( 1950) viram que a consumação. transformar as violências em brincadeiras e em alegrias. Todavia não seria possível conceber uma antropologia fundamental que não desse lugar à festa. circunscrita entre os animais à defesa e predação alimentar. Raros são aqueles que refletiram sobre o caráter sísmico do prazer humano. da destruição. à embriaguez. solicitavam um lugar central na ciência do homem. a vertigem. A caça criou as armas que permitem a guerra e dão a morte. Não se trata aqui de elucidar tais fenômenos. mas ao contrário. e assim. todas as partes do corpo. O crescimento demográfico multiplicou os contatos e as ocasiões de conflitos e combates. ao êxtase. Entre os primatas. bem como de uma híbris que desencadeia iras. mas intensificadas no homem de grande cérebro nos levam a concluir que aquilo que caracteriza o sapiens não é uma redução da afetividade em benefício da inteligência. as alegrias em delírios e beatudes. ie. O Eros. ódios e delírios. Tudo isso indica um controle mal assegurado da agressividade. seus reinado corresponde a um transbordamento do onirismo. Tal descomedimento também seria exercido no sentido das fúrias. as fantasias e irriga até mesmo atividades intelectuais. uma verdadeira erupção psico-afetiva. A partir de neandertal multiplicam-se indícios não só de assassinatos. do assassínio. do imaginário. entre os primatas permanece circunscrito ao período do cio. de origem hominídea e primática.. A violência.de uma integração com o outro. o universo. pouco extravasando para o campo da sexualidade. à dança. o excesso. o descomedimento. no homem prolifera sob formas de fantasias. a comunidade. O homo sapiens tem muito mais tendência para se inclinar para os excessos do que seus antecessores. da imaginação. . mas também de massacres e carnificinas. ao riso. desdenhada na antropologia tradicional. ao prazer. mas sim de reconhecer-lhes a importância. e até o aparecimento da híbris. no homem invade todas as estações do ano. Esses estados parecem expurgar as ansiedades. do eros. Essas características. às convulsões. o onirismo permanece circunscrito ao sono. da afetividade e da violência.

Logo que entramos na era histórica. a tal ponto que o ruído e a fúria constituem a característica primordial da história humana. chacinas. Assim. se bem que polarizado e orientado por obsessões permanentes. extermínios. das traições.desencadeia-se no homem fora de necessidade. intenso e desordenado. as sociedades tornam-se mais instáveis com o desencadeamento da hibris e da desordem. A afetividade. Sapiens-Demens Surge então a face do homem escondida pelo conceito tranqüilizador e emoliente do sapiens. Trata-se de um ser de uma afetividade imensa e instável. 10% de sonhos sobre defesa contra inimigos poderosos. 10% de sonhos alimentares). instável. A ordem natural é dominada fortemente pela homeostasia. É a ordem humana que se desenvolve sob o signo da desordem. das lutas pelo poder. O sonho noturno do homem já se diferencia dos animais pelo seus caráter desordenado. Contrariamente à crença corrente. Além do mais. constituem por si mesmas fontes permanentes de desordem. suplícios. a programação. instabilidade psico-afetiva e híbris ). já profusa entre primatas e sobretudo entre os chimpanzés. proliferações fantásticas. prolifera de modo espinhoso e desordenado. A irrupção da desordem O reinado do sapiens corresponde a uma maciça introdução da desordem no mundo. todas as fontes de desregramento já assinaladas ( regressão dos programas genéticos. guerras. das destruições. ambigüidades entre real e imaginário. ri. a regulação. O sonho humano. um ser ansioso e . Jouvet nos mostra que os sonhos dos gatos são extremamente estereotipados e só reproduzem os grandes esquemas genéticos da espécie ( 80% dos sonhos sobre predação de animais pequenos. as desordens históricas surgem ao mesmo tempo como expressão e resultado de uma desordem sapiental originaria. há mais desordem na humanidade do que na natureza. que sorri. dos antagonismos internos e externos. no homem toma um caráter eruptível. chora .

que perde tanto tempo enterrando seus mortos. longe de terem sido desvantajosos para o homo sapiens. E como chamamos loucura a conjunção da ilusão.angustiado. um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses. cumprindo ritos estranhos. um ser que desenvolve o mito e a magia. que as derivações mitológicas e mágicas. estão na verdade ligadas ao seu sucesso e ao seu prodigioso desenvolvimento. do erro e da desordem. um ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas. violento. do descomedimento. intelectuais e sociais que efetivamente alcançou. Vários fatos comprovam isso: A extensão demográfica e rápida colonização do planeta pelo sapiens: o homo erectus espalhara-se pelo mundo antigo em algumas centenas de milhares de anos. um ser invadido pelo imaginário. tão mal ajustado no seu relacionamento com o meio ambiente e consigo próprio. ao devaneio. Todo e qualquer animal dotado dessas taras demenciais. teria sem duvida. um ser que conhece a morte e não pode acreditar nela. da instabilidade. . cantando e decorando. um ser gozador. embriagado. da confusão entre subjetivo e objetivo. Para o biologismo e antropologismo conservadores é inconcebível que um animal que consagra tanto de suas forças ao prazer e à embriaguez. o sapiens estendeu-se por toda terra em apenas algumas dezenas de milhares de anos. um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras. que as confusões da subjetividade. um ser submetido ao erro. furioso. extático. da incerteza entre real e imaginário. dançando. que a multiplicação do erro e a proliferação da desordem. sido eliminado impiedosamente pela seleção natural de Darwin. amante. Eis o enigma do homem! A partir de então é preciso pensar que a arrebentação do imaginário. um ser híbrico que produz a desordem. somos obrigados a ver o homo sapiens como homo demens. os progressos técnicos. tenha podido não só sobreviver. mas alcançar no universo hostil e no frio das glaciações.

A constituição de uma sociedade mais complexa do que a paleo-sociedade. da inteligência. O homem é louco-sábio. A resposta certa só pode ser complexa e contraditória como o próprio homem. com e apesar de.. da invenção. inverso. o rosto ao mesmo tempo diverso e idêntico do homo demens. sobrepor ao rosto sério. aplicado do homo sapiens. inconsciente. A criatividade e a originalidade do homo sapiens têm a mesma fonte que o desregramento. a verificar. por causa de. iluminado por quimeras. apto ao controle de si próprio. realizar e acabar e por outro lado. do fantástico. E responderemos ao mesmo tempo. conseqüência do método de ensaio-erro. temerário. o devaneio e a desordem do homo . Precisamos. e um desdobramento muito amplo das aptidões intelectuais para a organização. com ou por causa da desordem e do erro. o homem irracional. Trata-se então de perguntar se os progressos da complexidade. trabalhador. Uma humanidade não sapiente ainda não teria dado o salto técnico conseguido pelo sapiens há mais de dez mil anos. entre a expansão conquistadora do sapiens e a proliferação das desordens e delírios. às incompetências da humanidade primitiva..O desenvolvimento empírico-lógico. A verdade humana comporta o erro. apta a vir a ser uma unidade no seio de um conjunto social mais amplo e mais tarde a constituição de grandes sociedades. que seriam reduzidas progressivamente pela ordem policiada e pela verdade civilizada. conhecimento. incontrolado. chamados a procurar alguma ligação consubstancial entre o homo faber e o homem mitológico entre o pensamento objetivo-tecnico-lógico-empírico e o pensamento subjetivo-fantástico. Já não se pode opor abstratamente razão e loucura. até hoje. Já não se pode mais imputar desordens e erros às insuficiências ingênuas. a construir. entre o homem racional . da sociedade se realizaram apesar de. a organizar. ao contrário. A ordem humana comporta a desordem. invenção e criação. inacabado. O processo é na verdade. a duvidar. estados e cidades. Somos.mítico-mágico. então. destruidor.

.500cm3 e 10 bilhões de neurônios.demens e tudo isso tem origem no prodigioso aumento de complexidade que nos foi dado pelo cérebro de 1.

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