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J_L_Austin_-_QuandoDizer_eh_Fazer_LivroCompleto_otz3

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original

J.L.

AUSTIN
QUANDO DIZER
,
E FAZER
PALAVRAS E AÇÃO
Tradução e apresentação à edição brasilei ra:
Prof. DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO
A936q Austin, John Langshaw
Quando dizer é faze r. / John Langshaw Austin; Trad. de Danilo
Marcondes de Souza Filho. / Porto Alegre: Artes Médicas: 1990.
136p.
CDU:800.1
fndices para o catálogo sistemático:
Filosofia da linguagem 800. 1
Ficha catalográfica elaborada pela Bibl. Carla P. de M. Pires CRB 10/753
~ ~ T E 5
r...::DICAS PORTO ALEGRE/1990
J. L. AUSTI N
QUANDO DIZER
,
E FAZER
PALAVRAS E AÇÃO
Tradução e apresentação à edição brasilei ra:
Prof. DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO
A936q Austin, John Langshaw
Quando dizer é fazer. / John Langshaw Austin; Trad. de Danilo
Marcondes de Souza Fi lho. / Porto Alegre: Artes Médicas: 1990.
136p.
CDU:800.1
rndices para o catálogo sistemático:
;;ilosofia da linguagem 800.1
Ficha catalográfica elaborada pela Bibl. Carla P. de M. Pires CRB 10/753
. ~ l E 5
In :DICAS PORTO ALEGRE/1990
Publicado originalmente em inglês sob o trtulo
HOW TO DO THINGS WITH WORDS
~ Copyright 1962, 1975 by the President and
Fellows of Harvard College.
Capa:
Mário Róhnelt
Supervisão editorial:
l1R1rEXiO
­ -
rua 13 de maio. 468 - 101.(0504)222.6223 - caxias do sul · rs
Reservados todos os direitos de publicação à
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90040 - Porto Alegre, RS, Brasil
LOJA-CENTRO
Rua General Vitorino, 277 - Fone: 25.8143
90020 - Porto Alegre - RS, Brasil
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Sumário
Apresentação ... .. . . . . ... ........ .. .. .. .. . ... .. . 7
Prefácio . .. . ..... .. ... .. ..... .. . .... . .. ...... . . 18
Conferências:
I Perfonnativos e Constatativos .. . ..... .. .. .. ......... 2 1
11 Condições para Perfonnativos Felizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
III Infelicidades: Desacertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
IV Infelicidades: Maus usos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
V Clitérios Possíveis de Perfonnativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . S7
VI Performativos Explícitos ...... ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
VII Verbos Perfonnativos Explícitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
VIII Atos Locucionários, Ilocucionários e Perlocucionários . . . . . . 8
IX Distinção entre Atos Ilocucionários e Perlocucionários . . . . . 95
X "Ao dizer ... " versus "Por dizer ... " .. . . . . . . . . . . . . . . . .. 10
XI Declarações, Performativos e Força Ilocucionária .... ... " I I 1
XII Classes de Força Ilocucionária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121
Apêndice ....... . . .. .. . .. . ....... .... .......... 133
Apresentação
A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE J. L. AUSTIN
Danilo Marcondes de Souza Filho
Esta apresentação não pretende ser uma síntese do pensamento fJlos6fi­
co de Austin em geral, ou mesmo das idéias desenvolvidas na presente obra
em particular, já que seria impossível superar, em rigor e concisão, a apre­
sentação do pr6prio autor. Meu objetivo é, antes, situar a teoria dos atos de
fala dentro da chamada "virada lingüística", característica de grande parte
da atividade fJlosófica de nosso século, bem como traçar o percurso desta
teoria, desde sua gênese - em sua motivação fJlosófica inicial, explicitando
os elementos fundamentais do método proposto e empregado por Aus­
tin - até as teses por ele defendidas na presente obra.
O projeto fJlosófico da teoria dos atos de fala, tal como foi inicialmente
proposto por Austin, insere-se na tradição britânica da fJlosofia analítica,
inaugurada por G. E. Moore, B. Russell e L. Wittgenstein nas primeiras dé­
cadas de nosso século. Nesse momento, a fJlosofia analítica surge como uma
dupla reação às correntes de pensamento fJlosófico então dominantes na Grã­
Bretanha ao fmal do século passado: o idealismo absoluto de F. H. Bradley
e T. H. Green e o empirismo, influenciado sobretudo por J. S. Mil!. Bradley
e Green, dentre outros, sustentavam não só a identificação da realidade com
a totalidade, mas também a necessidade de a consciência reconhecer-se como
parte do Absoluto. Já o empirismo psicologista e subjetivista reduzia a reali­
dade à experiência psicológica do sujeito empírico. A fJlosofia analítica, em
seus primórdios, com Moore e Russell, vai partir de uma concepção realista,
mantendo que a principal tarefa da fIlosofia é realizar um processo de clari-
Quando dizer é fazer 7
ficaçüo ou elucidação dos elementos centrais de nossa experiência. Esto "Iu­
cidação se dá não através de um método especulativo ou introspectivo, mas
mediante a análise da fonna lógica das sentenças em que nosso conheci­
mento, crenças e opiniões sobre o real se expressam e nossa experiência se
articula.
A questão central da investigação filosófica passa a ser então: como
pode uma sentença ter significado? A problemática da consciência dá, assim,
lugar à problemática da linguagem, e o conceito de representação, ponto
central da tradição anterior, é substituído pelo conceito de significado.
Podemos, portanto, considerar que dentro da corrente analítica, que
então se inaugura, a tarefa filosófica se desdobra nas duas seguintes ativida­
des: por um lado, analisar a sentença, buscando estabelecer sua fonna lógica
e seus elementos constitutivos; por outro, reinvestigar os problemas filosófi­
cos tradicionais em teoria do conhecimento, teoria da percepção, ética, etc. ,
através da análise lingüística dos conceitos centrais destas áreas e do uso dos
mesmos na linguagem ordinária. Tal análise visa obter um esclarecimento do
sentido destes conceitos, estabelecendo novas distinções, explicitando arti­
culações até então não reconhecidas, elucidando obscuridades, etc. Ambas'
as práticas encontram-se em Russell e Moore, os iniciadores da filosofia
analítica na tradição britânica.
A primeira tarefa a que acima nos referimos dá origem ao que se pode
chamar, em um sentido estrito, de filosofia da linguagem: uma teoria filosó­
-!\
fica sobre a natureza e estrutura da linguagem, examinando noções como
tenno e proposição, sentido e referência, nomes próprios e predicativos, ver­
dade, etc., que virão a ser os conceitos-chave desta teoria da linguagem.
A segunda tarefa da filosofia será desenvolvida pela corrente conheci­
da por vezes como filosofia da linguagem ordinária, filosofia lingüística ou,
ainda, Escola de Oxford. Austin pode ser considerado um dos principais re­
presentantes desta tendência. Muitos de seus mais importantes trabalhos co­
mo A Pleafor Excuses, Other Minds, Three Ways of SpiLling Tnk e Sense
and Sensibilia se caracterizam por suas discussões, de grande sutileza e pe­
netração, de certos problemas centrais da tradição ftlosófica, como responsa­
bilidade e ação, percepção e conhecimento, etc. Todas estas discussões são
desenvolvidas através do método que acima denominamos análise filosófica
da linguagem ordinária, que Austin julgava ser capaz de clarificar e desmis­
tificar estes problemas tradicionais, situando-os em um plano menos abstrato,
genérico e fonnal e, por conseguinte, tomando possível uma análise e com-
K J. l.. AI/stin
prcensi\o destes pr.oblemas sem recurso u I)lcssupustos IIlcluJ CSlcOS lrudiclo
nais que, inevitavelmente, gerariam n.ov.os probJemos e n.ovas discussõcs.
Para ilustrar o método de análise austinno bastaria aqui reconstruirmo
sua elucidação de um problema dos mais importantes da ética, a questão da
responsabilidade que decorre de uma ação. Esta análise encontra-se no qu
talvez seu trabalho mais elaborado no gênero, A Pleafor Excuses. Pelo pro­
cedimento que Austin estabelece, em lugar de partir de noções abstratas
oriundas de uma teoria ética ou de conceitos muito amplos como responsabi­
lidade, ação, vontade, etc. , toma como ponto de partida a análise de advér­
bios como "voluntariamente", "deliberadamente" , "acidentalmente", " i­
nadvertidamente" e outros congêneres, exatamente por serem, enquanto ad­
vérbios, palavras que qualificam ou determinam o tenno "ação" . E a razão
de assim proceder radica-se no fato de as condições de possibilidade de em­
prego destes tennos revelarem as circunstâncias que permitem ao falante usá­
los para justificar, desculpar ou eximir-se da responsabilidade de seu ato.
Neste tipo de análise encontramos o genne de uma de suas concepções
mais originais, desenvolvida no presente livro, segundo a qual. "minha pala­
vra é meu penhor" , o que faz com que se considere o ato de fala, a interação
comunicativa propriamente dita, como tendo um caráter contratual ou de
compromisso entre partes.
Nesta sua análise, Austin recorre a uma série de exemplos tirados não
só da prática cotidiana do uso lingüístico, como também de processos crimi­
nais em que alguém foi ou não responsabilizado por uma ação, e ainda de si­
tuações imaginárias e fictícias. O método de Austin revela, pelo recurso a
exemplos, seu interesse pelas regras de uso da linguagem, pelo que se pode
ou não dizer, enfim pela "gramática". A finalidade da análise não é, está
claro, empírica. O recurso a exemplos, reais ou imaginários, é apenas uma
fonna de tomar a reflexão mais concreta, mais precisa, mais próxima de nos­
sa experiência de falantes, apoiando-se no caráter intersubjetivo da lingua­
gem e assim fazendo com que suas conclusões tenham a ver mais direta­
mente com nosso universo de discurso e nossa prática cotidiana.
Assim, todo problema filosófico fica sistematicamente restrito a um
"campo semântico" bem delimitado, no contexto do qual o uso de certas ex­
pressões deve ser examinado, levando-se em conta quando, como, por que e
por quem determinadas expressões podem ser usadas e outras não. Em ftm­
ção deste procedimento elaboram-se distinções ou aproximações e estabele­
cem-se as características básicas de possibilidade de seu uso, que fornecem
os elementos para a determinação do significado e conseqüentemente para o
esclarecimento ou elucidação dos tennos. Este esclarecimento, contudo,
Quando dizer é fazer 9
sempre deve ser considerado provisório. Não há soluções definitivas em filo­
sofia, uma vez que as mesmas questões sempre podem ser retomadas e ree­
xarrunadas sob novos ângulos, seja pelo estabelecimento de novas relações,
seja pela consideração de outros aspectos do uso até então não examinados.
Neste método de análise, a necessidade de se levar em conta o contexto
de uso das expressões e os elementos constitutivos deste contexto indica cla­
ramente que a linguagem não deve ser considerada em abstrato, em sua es­
trutura formal apenas, mas sempre em relação a uma situação em que faz
sentido o uso de tal expressão. Desta forma superam-se as barreiras entre
linguagem e mundo, entre o sistema de signos sintaticamente ordenados e a
realidade externa a ser representada. Segundo Austin,
quando examinamos o que se deve dizer e quando se deve fazê-lo, que
palavras devemos usar em determinadas situações, não estamos exami­
nando simplesmente palavras (ou seus "significados" ou seja lá o que
isto for) mas sobretudo a realidade sobre a qual falamos ao usar estas
palavras - usamos uma consciência mais aguçada das palavras para
aguçar nossa percepção ( ... ) dos fenômenos.
Philosophical Papers, p. 182
Podemos afirmar, então, que quando analisamos a linguagem nossa finalida­
de não é apenas analisar a linguagem enquanto tal, mas investigar o contexto
social e cultural no qual é usada, as práticas sociais, os paradigmas e valo­
res, a "racionalidade", enfim, desta comunidade, elementos estes dos quais a
linguagem é indissociável. A linguagem é uma prática social concreta e co­
mo tal deve ser analisada. Não há mais uma separação radical entre "lingua­
gem" e "mundo" , porque o que consideramos a "realidade" é constituído
exatamente pela linguagem que adquirimos e empregamos.
Duas são as conseqüências básicas desta nova visão proposta por Aus­
tino Surge um novo paradigma teórico que considera a linguagem como ação,
como forma de atuação sobre o real, e portanto de constituição do real, e não
meramente de representação ou correspondência com a realidade. Em decor­
rência, dá-se a passagem para um segundo plano do conceito de verdade,
conceito central da semântica clássica, j á que corresponde precisamente à
garantia de adequação entre linguagem e realidade, em seu aspecto tanto ló­
gico como epistemológico. A verdade é substituída agora pelo conceito de
eficácia do ato, de sua "felicidade", de suas condições de sucesso, e também
pela dimensão moral do compromisso assumido na interação comunicativa,
sempre enfatizado por Austin.
J. L. Austin
ponto central da concepção de Austin c ~ U H principal contribulçu
fllosofia da üoguagem parece-me ser a idéia de que a linguagem deve ser
tratada essencialmente como uma forma de ação e não de representação da
realidade. O significado de uma sentença não pode ser estabelecido aírav
da análise de seus elementos constituintes, da contribuição do sentido
da referência das partes ao todo da sentença, como quer a tradição insp.irada
em Frege, Russell e Moore, mas, ao contrário, são as condições de uso da
sentença que determinam seu significado. Na verdade, o conceito mesmo d
significado se dissolve, dando lugar a uma concepção de linguagem como
um complexo que envolve elementos do contexto, convenções de uso e in­
tenções dos falantes. As condições de realização do ato de fala apresentadas
por Austin na I Conferência da presente obra explicitam exatamente estas ca­
racterísticas: a investigação fJ.losófica da linguagem deve realizar-se com ba­
se não em uma teoria do significado, mas em uma teoria da ação.
Como se vê, as primeiras contribuições de Austin à fJ.losofia se encon­
tram na linha da assim chamada fJ.losofia da linguagem ordinária, cuja pro­
posta é muito mais metodológica do que doutrinária ou sistemática. Trata-s ...,
como foi dito, de realizar uma reflexão sobre os problemas tradicionais da
fJ.losofia mediante uma análise conceitual, similar, sob certo ponto de vista,
ao método socrático, só que interpretando o conceito como expressão lin­
güística e não como entidade mental ou objeto lógico, e procurando eluci­
dá-la - isto é, estabelecer sua defrnição ou significado - a partir das con­
dições de uso desta expressão. Não se encontra, entretanto, nestes primeiros
trabalhos, uma preocupação em fundamentar teoricamente estas "análises
conceituais", nem em elaborá-las mais sistematicamente, já que é próprio ao
método o caráter provisório e relativo da elucidação obtida.
Este tipo de análise, contudo, levou Austin a refletir sobre a própria
natureza da linguagem, objeto da análise fJ.losófica. Partimos então de uma
preocupação com O significado de determinados termos e expressões lin­
güísticas e passamos a investigar como a linguagem tem significado. Tanto
do ponto de vista da análise da linguagem ordinária, quanto do ponto de
vista de uma teoria sobre a linguagem, a visão de Austin é sempre orientada
pela consideração da linguagem a partir de seu uso, ou seja, da linguagem
como forma de ação. Uma das principais conseqüências desta nova concep­
ção de linguagem consiste no fato de a análise da sentença dar lugar à análj­
se do ato de fala, do uso da linguagem em um determinado contexto, com
uma determinada finalidade e de acordo com certas normas e convenções. O
que se analisa agora não é mais a estrutura da sentença com seus elementos
constitutivos, isto é, o nome e o predicado, ou o sentido e a referência, mas
Quando dizer é fazer
10
11
as condições sob as quais o uso de detenninadas expressões lingü(sticas pro­
duzem certos efeitos e conseqüências em uma dada situação.
Já em 1946, em sua conferência Outras Mentes, Austin criticava o que
considerava a "falácia descritiva" , cometida por certos fIlósofos. Sentenças
do tipo "Eu sei que .. . ", devido à sua forma declarativa, parecem ser descri­
ções de fatos. O fIlósofo, em sua análise, é então levado a buscar os fatos e
situações que tomam tais sentenças verdadeiras. Passa a tratá-las, assim, co­
mo descrições de um ato mental do falante, que seria a cognição, pertencen­
do à mesma categoria da crença e da certeza, porém superior a estas. Austin
vê nisso a causa da confusão e do equívoco que caracterizariam a "falácia
descritiva". Propõe, ao contrário, que se considere a expressão "Eu sei
que ... " do mesmo modo que "Eu prometo ... " . Seriam expressões usadas não
para descrever ou relatar algo, mas parafazer algo, para realizar um ato. Por
isso ele as chama de expressões peiformativas, aquelas que, ao serem usadas
em detenninadas sentenças, constituem "proferimentos performativos". Os
proferimentos performativos, exatamente por serem atos realizados, não es­
tão sujeitos à verdade ou à falsidade, mas a "condições de felicidade", que
explicam seu sucesso ou insucesso. Portanto, a análise destas sentenças não
pode ser feita adequadamente através da Semântica Clássica, que se baseia
na determinação das condições de verdade da sentença, mas, sim, através de
um novo tipo de análise que Austin começa a desenvolver então e que cul­
minará na teoria dos atos de fala.
Os primeiros trabalhos que começam a tematizar mais teoricamente a
questão da natureza da linguagem e do significado são How to Talk (1953­
4), Peiformative Utterances (1956) e a conferência apresentada no Colóquio
de Royaumont em 1958, Peiformatif-Constatif.
Austin apresenta aí as linhas gerais desta teoria que já vinha desenvol­
vendo, segundo ele próprio, desde o início da década de 40 e que será fmal­
mente elaborada em uma série de cursos intitulados Words and Deeds, mi­
nistrados na Universidade de Oxford no início da década de 50 e posterior­
mente em universidades americanas, e que constituem a substância de How
to do things with words (cf. o "Prefácio" a esta obra). Trata-se precisamente
de uma teoria sobre a natureza da linguagem enquanto uma forma de realizar
atos: os atos de fala. Aqui não só se formula uma série de conceitos teóricos
como peiformativo, força ilocucionária, etc., como também se procura esta­
belecer e classificar os diferentes tipos de atos de fala, buscando sua siste­
matização e assim propondo uma nova concepção de linguagem, seja quanto
a sua estrutura, seja quanto a seu funcionamento.
Esta preocupação com uma redefmição de linguagem e com a maneira
de considerá-Ia decorre explicitamente da idéia de que a elucidação ftlosófi­
.J. L. Austin
ca de certos termos e expressões depende de um lIludclo te6rico de l i ngulI
gem que forneça os critérios para realizar esta análise e a elucidação preten­
dida. Não se trata, portanto, de uma ruptura com a proposta anterior de elu­
cidação mediante a análise lingüística, agora substituída por um interesse
meramente teórico sobre a linguagem. Pelo contrário, trata-se da busca d
uma forma mais eficaz e rigorosa de se realizar esta análise e esta elucida­
ção, que agora passa a se fundamentar em uma teoria sobre a linguagem.
Conseqüentemente, o objeto último continua sendo a aplicação destes con­
ceitos teóricos sobre a linguagem à elucidação das questões surgidas no
campo concreto da experiência e da atividade humanas, como afirma expli­
citamente a conclusão de Quando dizer éfazer. Palavras e ação.
Como de costume, não me sobrou o tempo suficiente para mostrar qual
o interesse de tudo isto que acabo de dizer. Darei, porém, um exemplo.
De há muito, os fIlósofos têm demonstrado interesse pela palavra
"bom" e, recentemente, se interessaram pelo modo como a usamos e
pelos fms para que a empregamos. Já se sugeriu, por exemplo, que a
usemos para expressar aprovação, para recomendar ou ainda para qua­
lificar. Mas nunca chegaremos a uma idéia clara sobre a palavra "bom"
e sobre para que a usamos até que tenhamos, de forma satisfatória, le­
vantado a relação completa dos atos ilocucionários dos quais recomen­
dar, qualificar, etc. seriam espécimes isolados; até que saibamos quan­
tos destes atos existem e de que forma se inter-relacionam. Isto seria
um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do tipo que aca­
bamos de considerar; sem dúvida haveria muitas outras. Intencional­
mente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos - alguns
dos quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. Isto
não significa que não tenha consciência da existência desses proble­
mas. É claro que tudo isto é um tanto cansativo e árido para se ouvir e
assimilar; mas não tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. Mas
seu verdadeiro interesse começa quando passamos a aplicá-la à ftloso­
fia.
Austin, 1975, pp. 163-4
Quando dizer é fazer. Palavras e ação é, portanto, uma obra inovadora
e que abre novas perspectivas em ftlosofia da linguagem para novas investi­
gações pelo estabelecimento de elementos teóricos que desenvolvidos, mui­
tas vezes criticamente, por autores como P. F. Strawson, H. P. Grice e, prin­
cipalmente, J. R. Searle, deram origem à teoria dos atos de fala. Suas impli-
Quando dizer é fazer 12 13
caçoes, repercussãO e interesse percorrem, como anteviu Austin, todos os
domínios da fllosofia, bem como de áreas afins, como a lingüística, a psico­
logia, a antropologia, etc.
O texto de Austin apresenta ao tradutor duas dificuldades básicas, ra­
ramente encontradas ao mesmo tempo em um mesmo texto. Em primeiro lu­
gar, trata-se de um texto em linguagem coloquial, idiomático e fluente, exa­
tamente na medida em que é derivado de conferências proferidas por Austin
na Universidade de Harvard. Fica assim óbvio seu propósito de servir mais à
exposição oral do que à leitura. Por outro lado, por se tratar de uma obra
original e polêmica, o texto contém um conjunto de termos técnicos, con­
ceitos teóricos e mesmo neologismos, cunhados pelo autor, de importância
fundamental para os objetivos a que se propõe, mas de difícil adaptação para
nosso idioma. Não desejo com estas ressalvas eximir-me da responsabilidade
pelas eventuais falhas que todo tradutor inevitavelmente comete, mas apenas
indicar as dificuldades inerentes ao texto, para que o leitor as tenha em
mente durante sua leitura. Finalmente, procurei sempre, na medida do possí­
vel, conservar os traços característicos do estilo coloquial de Austin, adap­
tando para o português, quando isto se impunha, seus exemplos e as expres­
sões idiomáticas utilizadas. Quanto aos termos técnicos introduzidos por
Austin e aos conceitos teóricos de que lança mão, procurei torná-los mais
claros ao leitor que se inicia através de notas explicativas, para fazer com
que o texto seja mais acessível.
Por fim, não poderia deixar de agradecer ao Prof. Paulo Alcoforado, da
UFRJ , as inúmeras sugestões feitas a este trabalho de tradução, além do
muito que me ensinou sobre a difícil arte de traduzir.
BffiLIOGRAFIA DE J. L. AUSTIN
Philosophical Papers, organizado por G. J. Warnock e J. O Urmson, Ox­
ford, Claredon Press, 3!! ed. ampliada em 1979.
ontém os seguintes trabalhos:
"Agathon and Eudainwnia in the Ethics of Aristotle" . Escrito na década de
30, também publicado em J. M. E. Moravcsik Corg.) Aristotle, Londres,
Macmillan, 1968, pp. 261-296.
.. Are there A Priori Concepts?", inicialmente publicado em Proceedings qf
the Aristotelian Society, XII, 1939, pp. 83-105.
"The Meaning of a Word", trabalho apresentado em 1940 ao Moral Sciences
Club de Cambridge e a Jowett Society de Oxford.
14 _______
_________________________________ J.L.Austin
"Other Minds", inicialmente publicado em I'rcx'('cdif/gs of the Aristotelicu
Society, sup. voI. XX, 1946, pp. 148-187. 'rraduzido para o português
por Marcelo Guimarães Da Silva Lima e publicado no vol. LU da col.
Os pensadores, S. Paulo, Abril , 1975, I! ed.
"Truth" , publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian Society,
sup. vol. XXIV, 1950, pp. 111-128.
" Unfair to Facts", trabalho apresentado em 1954 na Philosophical Society
de Oxford.
"How to Talk - Some Simple Ways" , inicialmente publicado em Procee­
dings of the Aristotelian Society, LIII, 1953-4, pp. 227-246.
"Performative Uterrances" , trabalho apresentado em 1956 em programa ra­
diofônico da BBC.
"A Plea for Excuses" , publicado inicialmente em Proceedings of the Aris­
totelian Society, LVII, 1956-7, pp. 1-30.
"Ifs and Cans", publicado inicialmente em Proceedings of the British Aca­
demy, XLII, 1956, pp. 109-132.
"Pretending", publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian So­
ciety, sup. vol. XXXII, 1958, pp. 261-278.
"1hree Ways of Spilling lnk" , conferência em 1958 na American Society of
Political and Legal Philosophy. Também publicado em The Philosophi­
cal Review, 75, 1966, pp. 427-440.
"The Line and the Cave in Plato's Republic", reconstruído a partir de notas
por J. O. Urmson, incluído na 3!! ed.
Sense and Sensibilia, ed. por G. J. Warnock, Oxford, Clarendon Press,
1962 .
. How to do Things with Word5, ed. por J. o. Urmson, Oxford, Clarendon
Press, 1962. 2!! ed. preparada por J. O. Urmson e M. S. Sbisà, Oxford,
Clarendon Press, 1975.
The Foundations of Arithmetic, Oxford, Blackwell, 1953. Tradução para
o inglês da obra de G. Frege: Die Grundlagen der Arithmetik, 1884.
"Critical Notice on J. Lukasiewicz's Aristotle's Syllogistic: From the Stand­
point of Modem Formal Logic" , Mind, 61, 1952, pp. 395-404.
"Report on Analysis Problem n2 1: What sort of "if' is the "if' of "I can if
I choose"?, Analysis, 12, 1952, pp. 125-126.
"Report on Analysis Problem n2 12: "AlI Swams are white or b1ack". Does
this Refer to Swans on Canals on Mars?" , Analysis, 18, 1958, pp .
97-99.
"Performatif-Constatif ', trabalho apresentado em 1958 no Colóquio de Ro­
yaumont. Publicado em La Philosophie Analytique, Paris, Cahiers de
Royaumont, Minuit, 1963, pp. 271-304.
Quando dizer é fazer 15
BlBUOGRAFIA SOBRE AUSTlN E A TEORIA OOS ATOS DE FALA*
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SEARLE, J. R. Speech Acts, Cambridge Univ. Press, 1969.
NOTA BIOGRÁFICA
John Langshaw Austin nasceu em 1911 em Lancaster, Inglaterra, e fa­
leceu em 1960. Era casado e teve dois casais de fIlhos. Estudou Letras Clás­
sicas no BalHol College da Universidade de Oxford, onde sofreu a influência
do filósofo H. A. Prichard. Tomou-se fellow do AlI Souls College da Uni­
.. Trata-se apenas de uma relação de algumas das principais obras sobre Austin e a Teoria dos Atos
de Fala. A bibliografia nesta área é imensa, sobretudo no que diz respeito a artigos em periódicos es­
pecializadoo; remetemos o leitor hs referências bibliográficas encontradas nas proprias obras relacio­
nadas acima.
J. L. Austin
versidadc de Oxford, em 1933, e em 1935 do Magdulcn College. A pw-tir dl'
1952 ocupou a cátedra " White" de Filosofia Moral nessa universidade. Ou
rante a Segunda Guerra Mundial fez parte do Serviço de Wonnaçôcs do
Exército Britânico, chegando ao posto de tenente-coronel e recebendo várias
condecorações. Em 1955 apresentou as Conferências William James na Uni­
versidade de Harvard, nos Estados Unidos, que deram origem à prescnt
obra, e entre 1958 e 1959 apresentou uma série de conferências na Universi­
dade da Califórnia, em Berkeley, posteriormente publicadas como Sense al1d
Sensibilia.
Austin exerceu grande influência em Oxford em seu tempo, sendo fa­
mosos os seminários infonnais que realizava na universidade com alguns de
seus colegas, quando utilizavam o método de análise lingüística na discussão
de problemas fIlosóficos. Este grupo incluía, dentre outros, P. F. Strawson,
H. P. Grice, S. Hampshire, J. O. Urmson, G. J. Warnock, dando origem à
chamada Escola de OJford, embora a rigor não se possa dizer que consti­
tuíssem uma "escola" filosófica.
Quando dizer éfazer
16
17
Prefácio à 1 a e 2
a
edições inglesas
Prefácio à 1~ edição inglesa
As conferências que formam este livro foram apresentadas por Austin
na Universidade de Harvard, em 1955, como parte da série de "Conferências
William James". Em uma breve nota, Austin diz que as idéias que servem de
pano de fundo a estas conferências "se originaram em 1939. Vali-me delas
no artigo 'Outras Mentes' publicado nos Proceedings of the Aristotelian 50­
ciety, Supplementary volume XX (1946), pp. 173 e segs., e pouco depois fiz
emergir um pouco mais deste iceberg diante de diversas associações filosófi­
cas ... ". Durante LlS anos de 1952 a 1954, os cursos de Austin em Oxford
versaram sobre o tema "Palavras e Ações", utilizando-se ele de notas reela­
boradas a cada ano e que cobrem aproximadamente o mesmo campo que as
"Conferências William J ames". Para tais conferências, Austin preparou no­
vas notas, embora incorporando aqui e ali partes das anteriores. Elas consti­
tuem, portanto, as notas mais recentes de Austin sobre esses temas, embora
tenha continuado a dar cursos em Oxford sobre "Palavras e Ações" com ba­
se nas mesmas notas, fazendo apenas algumas pequenas correções e acrésci­
mos.
No presente volume reproduzimos as últimas notas de Austin, com um
mínimo de alterações e tão fielmente quanto possível. Se Austin, ele próprio,
as houvesse publicado, sem dúvida lhes teria dado uma forma mais apropria­
da. Certamente teria reduzido as recapitulações com que inicia a 2 ~ Confe­
rência e que se repetem nas demais. É igualmente certo que em sua apresen­
tação oral Austin desenvolvia o texto encontrado em suas notas. Porém, a
J. L. Austin
mruorla dos leitores preferirá contar com umü versúo heI do que se sabe qu
Austin escreveu, do que com uma versão do que ele suposttuncnte teria es­
crito caso tivesse preparado suas notas para publicação. ou ainda do que
pensamos que teria dito durante as conferências. Pequenas imperfeições da
fonna e do estilo, bem como inconsistências do vocabulário devem ser des­
culpadas e são o preço que devemos pagar por tê-las publicadas.
Mas as conferências aqui publicadas não reproduzem exatamente as
notas escritas por Austin. A razão é a seguinte. Se bem que em sua maior
parte, principalmente no começo das conferências, as notas sejam bastante
completas e redigidas em parágrafos inteiros, com pequenas omissões de ar­
tigos e outras partículas gramaticais; freqüentemente, ao [mal das conferên­
cias, tornam-se cada vez mais fragmentadas, sendo que os acréscimos à mar­
~ gem são abreviados. Nessas partes as notas foram interpretadas e comple­
mentadas recorrendo-se às notas de 1952-1954, acima mencionadas. Pode­
mos ainda compará-las com apontamentos tomados na Inglaterra e nos Esta­
dos Unidos por aqueles que assistiam à exposição oral, levando ainda em
conta a conferência na BBC, entitulada "Proferimentos Performativos" , e
uma gravação da conferência "Performativos" apresentada em Gotemburgo,
em outubro de 1959. No apêndice incluÚllos indicações mais completas des­
sas fontes auxiliares. Pode ter ocorrido que neste processo de interpretação
tenha aparecido no texto uma frase que Austin talvez não aprovasse; porém,
é pouco provável que em qualquer parte o pensamento de Austin, em suas
linhas básicas, tenha sido distorcido.
Agradeço a todos que me ajudaram através do acesso a seus aponta­
mentos e aos que me cederan1 a gravação. Meu especial agradecimento a G.
J. Warnock, que examinou todo o texto cuidadosamente e evitou que eu co­
metesse inúmeros erros. Graças a essa colaboração o leitor dispõe de um
texto bem mais aperfeiçoado.
1. O. Urmson
Prefácio à 2 ~ edição inglesa
A Ora. Marina Sbisà examinou todas as notas preparadas por Austi n
para estas conferências, comparando-as com o texto impresso da 1~ edição e
assinalando os pontos que lhe pareceram merecer revisão. Os editores exa­
minaram, então, conjuntamente as notas de Austin relativas a todos estes
pontos, após o que decidiram corrigir e aperfeiçoar o texto já impresso em
diversas passagens. Consideram que o novo texto é mais claro, mais com-
Quando dizer é fazer 18 19
pleto e, ao mesmo tempo, mais fiel ao que se encontra nas notas de Austin,
incluíram no apêndice uma transcrição literal de um certo número de acrés­
cimos feitos por Austin à margem ou nas entrelinhas de suas notas, cujo
entido não foi considerado suficientemente claro para que sua incorporação
ao texto pudesse auxiliar a leitura ou interessar o leitor.
Marina Sbisà
J. O. Urmson
o J. L. Ausrin
í]
J Conferência
Performativos e constatativos
o que tenho a dizer não é difícil, nem polêmico, O único mérito que
gostaria de reivindicar para esta exposição é o fato de ser verdadeira pelo
menos em parte. O fenômeno a ser discutido é bastante difundido e óbvio, e
não pode ter passado despercebido pelo menos em algumas instâncias. En­
tretanto, ainda não encontrei quem a ele tivesse se dedicado especificamente.
Por mais tempo que o necessário, os fIlósofos acreditaram que o papel
de uma declaração* era tão-somente o de " descrever" um estado de coisas,
ou declarar um fato, o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso. Os
gramáticos, na realidade, indicaram com freqüência que nem todas as sen­
tenças são (usadas para fazer) declaraçõesl , há tradicionalmente, além das
declarações (dos gramáticos), perguntas e exclamações, e sentenças que ex­
pressam ordens, desejos ou concessões. Os filósofos sem dúvida não preten­
"Traduzimos statement por " declaração" sentence oor "sentença", e utterance por "proferimento".
1\ sentença é entendida aqui como uma uni dade lingüfstica, possuindo uma estrutura gramatical e
dOlllda de significado, tomada em abstrato. A declaraç ão seria então o uso da sentença para afirmar
ou uegar algo, podendo ser falsa ou verdadeira. O proferimento é a emissão concreta e particular de
lIllIa sentença, em um momento determinado, por um falante determinado. Assim, a sentença da lín­
uo portuguesa, "A cosa é vermelha" pode ser usada para afirmar uma caracterfstica (ser vermelha)
de um objeto (a rosa) , o que pode ser verdadeiro ou falso, quando proferida por al guém em um con­
texto determinado. Estas di stinções são objeto de inúmeras controvérsias em Filosofia da Lingua­
,em, havendo extensa literatura a respeito. As definições que adotamos correspondem ao emprego
IlO por Austi n. (N. do T.)
1 Nilo é correto realmente Jizer que uma sentença seja uma declaração; na realidade ela é usada para
flUOr uma declaração, e u declaração em si é uma "construção 16gic,'l" tirada da feitura das declara­
çõos.
Qunndo dizer 6 fOJ.cr 21
deram negar tais coisas, apesar de seu uso um tanto vago de "sentença" co­
mo equivalente à "declaração". Tampouco se duvida que tanto os filósofos
quanto os gramáticos sempre perceberam não ser fácil distinguir até uma
pergunta, ou ordem, etc. de uma declaração, utilizando-se os poucos e inci­
pientes critérios gramaticais disponíveis como a ordem das palavras, modos
verbais, etc.; mas, talvez, não tenha sido dada, com freqüência, a atenção
devida às dificuldades que esse fato obviamente apresenta. Pennanece a dú­
vida sobre como decidir qual é a pergunta, qual é a ordem, qual é a declara­
ção. Quais são os limites e as defmições de cada uma?
Recentemente, porém, muitas das sentenças que antigamente teriam si­
do aceitas indiscutivelmente como "declarações", tanto por fIlósofos quanto
por gramáticos, foram examinadas com um novo rigor. Este exame surgiu, ao
menos em filosofia, de fonna um tanto indireta. De início apareceu, nem
sempre fonnulada sem deplorável dogmatismo, a concepção segundo a qual
toda declaração (factual) deveria ser "verificável", o que levou à concepção
de que muitas "declarações" são apenas o que se poderia chamar de pseudo­
declarações. Em um primeiro momento e de fonna mais óbvia, mostrou-se
que muitas "declarações", como Kant* primeiro sustentou de maneira siste­
mática, eram estritamente sem sentido, apesar de sua fonna claramente gra­
matical; e a contínua descoberta de novos tipos de sentenças sem sentido re­
sultou, a grosso modo, em um bem, por mais assistemática que fosse sua
classificação e misteriosa sua explicação. Contudo, até mesmo nós, os filóso­
fos, estabelecemos certos limites para a quantidade de sentenças sem sentido
que estamos dispostos a admitir. Com isto, passou-se a perguntar, em um se­
gundo estágio, se muitas das aparentes pseudodeclarações seriam realmente
"declarações" . Passou-se geralmente a considerar que muitos proferimentos
que parecem declarações não têm, ou têm apenas em parte, o propósito de
registrar ou transmitir infonnação direta acerca dos fatos. Por exemplo, as
"proposições éticas" talvez tenham propósito, no todo ou em parte, de mani­
festar emoção ou prescrever comportamento, ou influenciá-lo de modo espe­
ciaL Aqui também Kant deve ser considerado como um dos pioneiros. Nós,
muitas vezes, também usamos proferimentos cujas fonnas ultrapassam pelo
menos os limites da gramática tradicional. Já se reconhece que muitas pala­
vras que causam notória perplexidade quando inseridas em declarações apa­
rentemente descritivas não se destinam a indicar algum aspecto adicional
particularmente extraordinário da realidade relatada, mas são usadas para in­
"Truto-se de uma referência à distinção feita por Kant, na Critica da razão pura, entre os jufzos da
que representllm conhecimento, e os jufzos da metaffsica especulativa, que seriam meras
pfotcn8Õc.1 n conhecimento sem do fato virem a se constituir legilimamente em ciência. (N. do T.)
J. (Jo Austln
dicar (e não para relatar) as circunstâncias em que a declaração foi feita, as
restrições às quais está sujeita ou a maneira como deve ser)recebida, ou coi­
sas desse teor. Deixar de levar em conta tais possibilidades, como era co­
mum antigamente, denomina-se falácia "descritiva" , embora talvez este não
seja o nome adequado, já que o termo "descritiva" é por si mesmo específi­
co. Nem todas as declarações verdadeiras ou falsas são descrições, razão
pela qual prefIro usar a palavra "constatativa". Seguindo esta linha de pen­
samento, tem-se demonstrado atualmente de maneira minuciosa, ou pelo me­
nos tem-se procurado parecer provável, que muitas perplexidades filosóflCas
tradicionais surgiram de um erro - o erro de aceitar como declarações fac­
tuais diretas proferimentos que ou são sem sentido (de maneiras interessantes
embora não gramaticais) ou então foram feitos com propósito bem diferentes.
O que quer que pensemos sobre todas essas concepções e sugestões, ou
por mais que julguemos deplorável a confusão inicial em que mergulharam a
doutrina e o método ftlosófico, não cabe dúvida de que estão produzindo
uma revolução em ftlosofia. Se alguém quiser considerá-la a maior e mais
saudável das revoluções da história da ftlosofia, não será, se pensarmos bem
nisso, um exagero. Não é de surpreender que o início tenha sido fragmentá­
rio, com parti pris e com motivos extrínsecos, já que isso é comum às revo­
luções.
DELIMITAÇÃO PRELIMINAR DO PERFORMATIV02
o tipo de pro ferimento que vamos aqui considerar não consiste obvia­
mente em um caso de falta de sentido, embora o seu uso inadequado possa
gerar, como veremos, variedades muito especiais de "falta de sentido" (rwn­
sense). Trata-se sobretudo de um tipo de nosso segundo grupo - as expres­
sões que se disfarçam. Esse tipo, porém, não se disfarça sempre necessaria­
mente como declaração factual, descritiva ou constatativa. Mas o que pode
parecer estranho é que isto ocorre exatamente quando assume a sua forma
mais explícita. Creio que os gramáticos ainda não perceberam tal "disfarce"
e os filósofos só muito incidentalmente3. Será portanto, estudar
esse tipo de declaração, inicialmente sob esta fonna enganosa, para explici­
lar suas características, contrastando-as com as declarações factuais que elas
im.itam.
2 Tudo quanto for dito nestas seções é provis6rio e sujeito à reformulação à luz das seções posterio­
res.
de esperar-se que os juristas, mais que ninguém, se apercebessem do verdadeiro estado de coi­
• Talvez al guns agoro já se apercebom. Contudo, tendem a sucumbir à sua pr6pria ficção temerosa
que uma dcclaruçfto "de di reito" 6 umo declnroçllo de fato.
r 23
2
Como primeiros exemplos vamos tomar alguns proferimentos que não
podem ser enquadrados em nenhuma das categorias gramaticais reconheci­
das, exceto a de "declaração" ; tampouco constituem casos de falta de senti­
do, nem encerram aqueles indícios verbais de perigo que os filósofos j á de­
tectaram ou pensam haver detectado (palavras curiosas como "bom" e "to­
do", auxiliares suspeitos como " deve" (ought) ou " pode" (can) , e constru­
ções dúbias como as hipotéticas) . Todos terão, como é natural, verbos usuais
na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa4 . Po­
dem-se encontrar proferimentos que satisfaçam estas condições e
A. que nada "descrevam" nem "relatem", nem constatem, e nem sejam
"verdadeiros ou falsos";
B. cujo proferimento da sentença é, no todo ou em parte, a realização
de uma ação, que não seria normalmente descrita consistindo em
dizer algo.
Isto está longe de ser tão paradoxal quanto possa parecer ou quanto eu
possa ter feito parecer. Na realidade, os exemplos que daremos a seguir se­
rão decepcionantes.
Exemplos:
(a) "Aceito (scilicet), esta mulher como minha legítima esposa" - do
modo que é proferido no decurso de uma cerimônia de casamentos.
(b) "Batizo este navio com o nome de Rainha Elizabeth" - quando
proferido ao quebrar-se a garrafa contra o casco do navio.
(c) "Lego a meu irmão este relógio" - tal como ocorre em um testa­
mento.
(d) "Aposto cem cruzados como vai chover amanhã."
Estes exemplos deixam claro que proferir uma dessas sentenças (nas
circunstâncias apropriadas, evidentemente) não é descrever o ato que estaria
praticando ao dizer o que disse6, nem declarar que o estou praticando: é
fazê-lo. dos pro ferimentos citados é verdadeiro ou falso; considero
4 Isto é deliberado, todos são performativos "explfcitos", e do tipo "prepotente", que mais adiante
chamaremos "exercitivo". (Cf. Xli Conferência, N. do T.)
5 Austin percebeu que a expressão" Aceito" (I do) não é usada na cerimôni a de casamento tarde de
l11uis pura corrigir este erro. Deixamos o erro permanecer no texto por considerá- lo filosoficame nte
Irrelevante. (Nota de J. O. Urmson, editor).
O MuJto monos qualquer coisa que eu já tenha feito ou venha a fazer.
24 _______________________________________
• / •• Austil/
isto tão óbvio que sequer pretendo justificar. De fato, não é necessário justi­
ficar, assim como não é necessário justificar que " Poxa! " não é nem verda­
deiro nem falso. Pode ser que estes proferirnentos "sirvam para infonnar",
mas isso é muito diferente. Batizar um navio é dizer (nas circunstâncias
apropriadas) as palavras "Batizo, etc.". Quando digo, diante do juiz ou no
altar, etc., "Aceito" , não estou relatando um casamento, estou me casando.
Que nome daríamos a uma sentença ou a um proferimento deste tipo??
Proponho denominá-la sentença perfonnativa ou proferimento performativo,
ou, de forma abreviada, " um performativo". O tenno " perfonnativo" será
usado em uma variedade de formas e construções cognatas, assim como se
dá com o termo "imperativo".8 Evidentemente que este nome é derivado do
verbo inglês to perform, verbo correlato do substantivo "ação" , e indica C),ue
ao se emitir o proferimento está - se realizando uma ação, não sendo,
qüentemente, considerado um mero equivalente a dizer algo. /
Muitos outros termos podem ser sugeridos, cada um cobrindo uma ou
outra classe mais ou menos ampla de performativos. Por exemplo, muitos
performativos são "contratuais" ("Aposto"), ou "declaratórios" ("Declaro
guerra"). Mas nenhum termo de uso corrente que eu conheça é suficiente pa­
ra cobrir todos os casos. O termo técnico que mais se aproxima do que ne­
cessitamos seria talvez "operativo" , na acepção em que é usado pelos advo­
gados ingleses ao se referirem àquelas cláusulas de um instrumento legal que
servem para efetuar a transação (isto é, a transmissão de propriedade, ou o
que quer que seja) que constitui sua principal fmalidade, ao passo que o
resto do documento simplesmente "relata" as circunstâncias em que se deve
efetuar a transação.9 Mas "operativo" tem outros significados, e hoje é até
mesmo usado para significar quase a mesma coisa que "eficaz" . Preferi as­
sim um neologismo ao qual não atribuiremos tão prontamente algum signifi­
cado preconcebido, embora sua etimologia não seja irrelevante*.
7 As "sentenças" formam uma classe de "proferi mentos" , classe esta que deve ser definida, em mi­
nha opinião, gramaticalmente, embora duvide que já haja uma definição sati sfatória. Os proferi­
mentos performati vos se contrastam primordialmente com os proferimentos constatativos. Emitir
um proferi mento constatati vo (isto é, proferi -lo com uma referência histórica) é fazer uma declara­
ção. Emitir um proferimento performativo é, por exemplo, fazer uma aposta. Vide mais adiante em
"ilocuçóes'" .
8 Anteriormente usei "performatório". Mas deve-se proferir "performativo" por ser mais curto,
menos feio, mas fácil de usar e mais tradicional em sua formação.
9 Devo esta observação ao Professor H L A. Hart.
*Consideramos o termo "performati vo" preferfvel ao seu equivalente mais próximo em português
que seria " reltli zati vo" , correspondente à idéia de ação. Como o ternlO já se acha consagrado na lite­
r!ltum especiali zada e como se trata de termo técnico e neologismo cunhado por Austin, optamos por
monter O origina l, adapumdo-o para o português. (N. do T.)
úando dizer 6 fltzer ______________________ 25
..­
PODE O DIZER REALIZAR O ATO?
Cabe perguntar, então, se podemos fazer afmnações como:
"Casar-se é dizer umas tantas palavras", ou
"Apostar é simplesmente dizer algo"?
Tal doutrina poderia, a princípio, parecer estranha e até mesmo imper­
tinente, mas com as precauções necessárias pode deixar de causar estranhe­
za.
Uma primeira objeção ponderável ou importante seria a seguinte: é
possível realizar-se um ato do tipo a que acima nos referimos sem proferir
uma única palavra, seja escrita, seja oral, mediante outros meios? Por exem­
plo, em algumas culturas, um casamento pode ser efetuado por coabitação,
ou posso apostar valendo-me de uma máquina automática colocando uma
moeda em sua ranhura. Assim, deveríamos transformar as proposições acima
e afIrmar que "dizer determinadas palavras é casar-se", ou "casar-se, em al­
guns casos, é simplesmente dizer algumas palavras", ou "apenas dizer de­
terminada coisa é apostar".
Mas a verdadeira razão por que tais observações parecem perigosas se
encontra provavelmente em um outro fato óbvio, ao qual teremos que nos re­
ferir mais tarde com maiores detalhes. Trata-se do seguinte: geralmente o
proferimento de certas palavras é uma das ocorrências, senão a principal
ocorrência, na realização de um ato (seja de apostar ou qualquer outro) , cuja
realização é também o alvo do proferirnento, mas este está longe de ser, ain­
da que excepcionalmente o seja, a única coisa necessária para a realização
do ato. Genericamente falando, é sempre necessário que as circunstâncias
em que as palavras forem proferidas sejam, de algum modo, apropriadas;
freqüentemente é necessário que o próprio falante, ou outras pessoas, tam­
bém realize determinadas ações de certo tipo, quer sejam ações "físicas" ou
" mentais", ou mesmo o proferimento de algumas palavras adicionais. Assim,
para eu batizar um navio é essencial que eu seja a pessoa escolhida para fa­
zê-Ia; no casamento (cristão) é essencial para me casar que eu não seja casa­
do com alguém que ainda vive, que é são e de quem não me divorciei, e as­
sim por diante; para que uma aposta se concretize, é geralmente necessário
que a oferta tenha sido aceita pelo interlocutor (que deve fazer algo, como
dizer "Feito") e uma doação não se realiza caso diga "Dou-lhe isto" , mas
não faça a entrega do objeto.
------------_______________J. L. Austin
Até aqui, tudo bem. Uma ação pode ser realizada sem a utilização do
proferimento performativo, mas as circunstâncias, incluindo outras ações.
sempre têm que ser apropriadas. Mas podemos, ao fazer uma objeção, ter em
mente algo totalmente diferente e desta vez bastante equivocado, especial­
mente quando pensamos em alguns dos performativos mais solenes, tais co­
mo "Prometo ... " . Por certo que estas palavras têm de ser ditas "com serie­
dade" e de modo a serem levadas "a sério". Embora um tanto vago, isto é
bem verdade de modo geral , e é também um importante lugar comum em to­
da discussão que envolva um proferimento. Não devo estar, digamos, pilhe­
riando ou escrevendo um poema. Mas temos a tendência a pensar que a se­
riedade das palavras advém de seu proferimento como (um mero) sinal ex­
terno e visível, seja por conveniência ou outro motivo, seja para [ms de in­
formação, de um ato interior e espiritual. Disto falta pouco para que acredi­
temos ou que admitamos sem o perceber que, para muitos propósitos, o pro­
ferimento exteriorizado é a descrição verdadeira ou falsa da ocorrência de
um ato interno. A expressão clássica desta idéia encontra-se no Hipólit,
(1.612)* , onde Hipólito diz,
, I
,
<. \ )
\I\.,
Jl
crFV/ V L Oj
isto é, "minha língua jurou, mas meu coração (ou mente, ou um outro ator
nos bastidores)l f1 não o faz" . Assim, "Prometo ... " me constrange - registra
meu vínvulo a "grilhões espirituais" .
É gratifIcante observar, no mesmo exemplo, como o excesso de profun­
didade, ou melhor, de solenidade, abre o caminho da imoralidade, pois
aquele que diz "prometer não é apenas uma questão de proferir palavras! É
um ato interior e espiritual!", tenderá a parecer um sólido moralista frente a
uma geração de teóricos superficiais. Vemo-lo como ele se vê, examinando
as profundezas invisíveis do espaço ético, com toda a distinção de um espe­
cialista do sui generis. No entanto, ele propicia a Hipólito uma saída, ao bí­
gamo uma desculpa para seu "Aceito" e ao vigarista uma defesa para seu
" Aposto". A exatidão e a moralidade estão, ambas, do lado da simples aflf­
mativa de que nossa palavra é nosso penhor.
Se excluirmos atos interiores fictícios como esse, podemos supor que
todas as demais coisas que certamente são exigidas para completar normal­
* lfipÓlieo. tragédia gregll clássicu de autoria de Eurfpedes. (N. {lo T.J.
10 Mio quero com isso eliminar toda a " equi pe dos - os iluminudorcs, o cenógrafo,
mesmo continufsm; minha objeção é uperuls contro certos " ntores substitutos ofi ciosos".
_______________________________. 2
QULlml o dlLcr <5 rOI.CI'
2
menle um proreri anento <.lo tipo " Prometo que ..... ou " Aceito (esta mu­
lher ... )" são de fato descritas pelo proferimento e, por conseguinte, com sua
presença fazem-no verdadeiro ou, com sua ausência, fazem-no falso? To­
mando a segunda alternativa em primeiro lugar, passamos a considerar o que
realmente dizemos do proferimento em questão quando alguns de seus com­
ponentes elementares está ausente. Nunca dizemos que o proferimento era
falso, mas sim o proferimento - ou melhor, o atol! , isto é, a promessa - foi
vã, ou feita de má-fé, ou não foi levada a cabo, ou coisa semelhante. No ca­
so particular das promessas, e também de muitos outros perfonnativos, é
apropriado que a pessoa que profere a promessa tenha uma detenninada in­
tenção, a saber, a intenção de cumprir com a palavra. Talvez entre todos os
componentes este pareça o mais adequado para fazer o "Prometo" descrever
ou registrar. Não é verdade que quando tal intenção está ausente nós fal amos
de uma "falsa" promessa? E no entanto falar assim não é dizer que o profe­
rimento "Prometo que... " seja falso, no sentido de que, embora a pessoa
afmne que promete, não o faz, ou que ao descrever o que está fazendo dê
uma descrição distorcida. Pois a pessoa realmente promete: a promessa aqui
não é sequer vã, embora feita de má-fé. O proferimento talvez seja deso­
rientador, provavelmente fraudulento e sem dúvida incorreto, mas não é uma
mentira nem um engano. No máximo poderíamos dizer que o proferimento
sugere ou insinua uma falsidade ou um engano (já que há a intenção de fazer
algo); mas isso é um problema muito diferente. Além do mais, não dizemos
que uma aposta é falsa ou que um batismo é falso. E o fato de dizennos que
uma promessa é falsa não nos compromete mais seriamente do que falar de
um passo em falso. "Falso" não é necessariamente usado apenas para dec1a­
rdções.
11 Evitamos di sti nguir entre um e outro precisamente porque a distinção não se encontra aqui em
quoslllo.
!l J. L. Allstin
11 Conferência
Condições para performativos
felizes
Como devem estar lembrados, Íamos considerar alguns (apenas al­
guns, felizmente!) casos e sentidos em que dizer algo é fazer algo; ou em que
por dizermos, ou ao dizennos algo estamos fazendo algo. Este tópico é um
desenvolvimento, entre outros, de uma tendência recente de questionar um
antigo pressuposto filosófico: a idéia de que dizer algo, pelo menos nos ca­
sos dignos de consideração, isto é, em todos os casos considerados, é sempre
declarar algo. Esta é uma idéia inconsciente e, sem dúvida, errônea, mas, ao
que parece, perfeitamente natural em Filosofia. Temos de aprender a correr
antes de sabennos andar. Se nunca cometêssemos erros, como poderíamos
corrigi-los?
Comecei por chamar a atenção, mediante exemplos, para alguns profe­
rimentos simples do tipo conhecido como perfonnatórios ou performati vos.
Estes proferimentos têm a aparência - ou pelo menos a fonna gramatical ­
de "declarações"; observados mais de perto, porém, resultam ser proferi­
mentos que não podem ser " verdadeiros" ou "falsos". No entanto, ser "ver­
dadeiro" ou "falso" é tradicionalmente a marca característica de uma decla­
ração. Um de nossos exemplos era o proferimento "Aceito" (esta mulher
como minha legítima esposa ... ), quando proferido no decurso de uma ceri­
mônia de casamento. Aqui devemos assinalar que ao dizer esta palavra esta­
mos fazendo algo, a saber, estamos nos casando e não relatando algo, a sa­
ber, o fato de nos estarmos casando. E o ato de casar, como, digamos, o ato
de apostar, por exemplo, deve ser de preferência descrito (ainda que de mo-
Quando dizer 6 fazer 2
do inexato) como wn ato de dizer certas palavras, e não como a realização
de um ato distinto, interior e espiritual, de que tais palavras são meros sinais
externos e audíveis. Que isso seja assim, dificilmente pode ser provado, no
entanto me atrevo a afIrmar que se trata de um fato.
Segundo estou informado, no direito processual norte-americano o re­
lato do que se disse vale como prova, caso o que tenha sido dito seja um
proferimento do tipo que chamamos de performativo, porque este é conside­
rado um relato com força legal, não pelo que foi dito, o que resultaria em um
testemunho de segunda mão - não admissível como prova - mas por ter sido
algo realizado, uma ação. Isto coincide perfeitamente com nossa intuição
inicial a respeito dos pro ferimentos performativos.
Até aqui sentimos apenas ruir, sob nossos pés, a sólida base de um pre­
conceito. Mas como devemos agir daqui em diante como filósofos? Uma coi­
sa poderíamos fazer, naturalmente. Poderíamos começar tudo de novo, ou
então caminhar lentamente através de etapas lógicas. Mas tudo isso levaria .
tempo. Primeiro, vamos concentrar nossa atenção em um detalhe já mencio­
nado de passagem - a questão das "circunstâncias adequadas". Apostar não
é, como já assinalei, simplesmente proferir as palavras " Aposto... etc.".
Com efeito, alguém poderia dizer tais palavras e mesmo assim poderíamos
discordar de que tivesse de fato conseguido apostar. Para comprovar o que
acabo de dizer basta, digamos, propor a nossa aposta após o término da cor­
rida de cavalos. Além do proferimento das palavras chamadas performativas,
muitas outras coisas em geral têm que ocorrer de modo adequado para po­
dermos dizer que realizamos, com êxito, a nossa ação. Quais são essas coisas
esperamos descobrir pela observação e classificação dos tipos de casos em
que algo sai errado e nos quais o ato - isto é, casar, apostar, fazer um lega­
do, batizar, etc. - redunda, pelo menos em parte, em fracassar. Em tais casos
não devemos dizer de modo geral que o proferimento seja falso, mas malo­
grado. Por 'esta razão chamamos a doutrina das coisas que podem ser ou re­
sultar malogradas, por ocasião de tal proferimento, de doutrina das infelici­
dades.
Tentemos enunciar esquematicamente, sem reivindicar para tal esquema
qualquer caráter defmitivo, pelo menos algumas das coisas necessárias para
o funcionamento, feliz ou sem tropeços, de um pro ferimento performativo
altamente desenvolvido e explícito, o único, aliás, que nos preocupa aqui. A
seguir daremos exemplos de infelicidades e de suas conseqüências. Receio, e
espero, naturalmente, que estas condições necessárias pareçam óbvias.
30 _J. L. Austin
(A, I xistir um procedimento convc! /lciollullllcnl , l lll
apresente um deterrmnudo efeito convencional c qu incluo o
prorerimento de certas palavras, por certas pessoas, e mceltas
circunstâncias; c al ém disso, qu
(A.2) as pessoas e circunstâncias particulares, em cada caso, devem
ser adequadas ao procedimento especffi co invocado.
(8. 1) O procedimento tem de ser executado, por todos os participan­
tes, de modo correto e
(8. 2) completo.
(1' . 1) Nos casos em que, como ocorre com freqüência, o procedimento
visa às pessoas com seus pensamentos e sentimentos, ou visa li
instauração de uma conduta correspondente por parte de alguns
dos participantes, então aquele que participa do procedimento, c
o invoca deve de fato ter tais pensamentos ou sentimentos, e os
participantes devem ter a intenção de se conduzirem de maneira
adequada,! e, além disso,
(r .2) devem realmente conduzir-se dessa maneira subseqüentemente.
Ora, se transgredirmos uma dessas seis regras, nosso proferime nto per­
formativo será, de uma forma ou de outra, malogrado. Mas é claro que há di­
ferenças consideráveis entre as diversas " maneiras" de ser malogrado - ma­
neiras que, esperamos, estejam assinaladas pelas letras e números seleciona­
dos para cada item.
A primeira grande distinção reside na opinião entre o conjunto das
quatro regras A e B e as duas regras r . Daí o uso de letras latinas em oposi­
ção à letra grega. Se violamos uma das regras de tipo A ou B - isto é, se
proferimos a fórmula incorretamente, ou se as pessoas não estão em posição
de realizar o ato seja porque, por exemplo, já são casadas, seja porque foi o
comissário e não o capitão do navio quem realizou o casamento, então o ato
em questão (o casamento) não se realiza com êxito, não se efetua, não se
concretiza. Nos dois casos, ao contrário, o ato é concretizado, embora reali­
zá- lo em tais circunstâncias, digamos, quando, por exemplo, somos insince­
ros, seja um desrespeito ao procedimento. Isto se passa quando digo " pro­
meto" sem ter a intenção de cumprir o prometido, prometi mas ... Precisamos
de nomes para nos referirmos a esta distinção geral, por isso chamaremos de­
sacertos os atos malogrados do tipo A. I-B .2, em que não se consegue levar a
cabo o ato para cuja realização, ou em cuja realização, é indispensável a
1 Scrd expli cado depoi s por que o fato de se ter estes pensamentos, sentimentos e intençOes MO csUl
lnclufdo dentre as OUlrJS "circunst.!\ncias" j d consideradas em (A).
QUW1do dizer é fazer 31
fonna verbal correspondente. Por outro lado, chamaremos de abusos aqueles
atos malogrados (de tipo r) em que a ação é concretizada (obviamente não
se devem enfatizar as conotações usuais destes termos) .
Quando o proferimento for um desacerto, o procedimento invocado é
esvaziado de sua autoridade e assim nosso ato (casar, etc. ) é nulo ou sem
efeito. Em tais casos dizemos que nosso ato foi tão-somente intencionado ou,
ainda, que foi uma mera tentativa; ou usamos expressões como: " foi uma
forma de união" em oposição a "casamos". Por outro lado, nos casos de tipo
r dizemos que o ato malogrado foi "professado" ou "vazio", em vez de di­
zer que foi " pretendido" ou " nulo". Dizemos que não foi levado a cabo ou
que não foi consumado, em vez de chamá-lo de nulo ou sem efeito. Mas
apresso-me a acrescentar que tais distinções não são rígidas e fixas e, mais
particularmente, que termos como "pretendido" e "professado" não resisti­
rão a um exame mais rigoroso. Duas palavras finai s acerca dos atos nulos ou
sem efeito. O fato de um ato ser nulo ou sem efeito não quer significar que
nada tenha sido feito; pelo contrário, muitas coisas podem ter sido feitas.
Através deles podemos ter cometido um ato de bigamia, sem termos realiza­
do o ato pretendido, a saber, casar. Isto porque, a despeito do nome, o bíga­
mo não se casa duas vezes. (Em resumo, a álgebra do casamento é boolea­
na*.) Além disso, sem efeito, aqui, não significa o mesmo que " sem conse­
qüências, resultados ou efeitos".
A seguir devemos tentar esclarecer, no que diz respeito aos desacertos,
a distinção geral entre os tipos A e B. Nos dois casos classificados como A
existe uma má invocação de um procedimento, sej a porque não há, de modo
geral, um procedimento, seja porque o procedimento em questão não conse­
gue efetivar-se de maneira satisfatória. Daí as infelicidades do tipo A pode­
rem ser chamadas de "más invocações" . Dentre elas podemos arrazoada­
mente batizar o segundo tipo (isto é, A. 2) - em que existe um procedimento,
mas que não foi aplicado como se pretendia - de "má aplicação" . Infeliz­
mente, porém, não consegui encontrar um bom nome para o primeiro tipo
(isto é, A.I ). Em contraste com A, o procedimento nos casos B é correto e
válido, mas a execução do ritual, por ter sido prejudicada, gera conseqüên­
cias mais ou menos desastrosas. Assim, os casos B, em oposição aos casos
A, serão chamados "más execuções", em oposição a "mas invocações". O
ato pretendido fica prejudicado por uma falha ou tropeço na condução da ce­
rimônia. A classe B.I é a dasfalhas, e a classe B.2 é a dos tropeços.
'" Isto é, apenas dois valores: verdadeiro ou falso. Referência ao sistema algébrico formul ado em
meados do séc. XI X pelo 16gico e matemátiéo inglês George Boole. (N. do T.)
J. L. Austin
Assim, temos o seguinte
In rcll vld,ldcs
1\13 I'
I
Desacertos I\husos
Atos pretendidos mas nulos A tos pro fessados mas vazios
/ \ I \
1\ ti r.1 r ')
Más Más eXeL'lleJ)CS Insinceridades
,)
ato rejeitado ato prejudicado
I \ / \
A.l A.2 B.I H,2
'I
Más
falhas Tropeços
aplicações
Não me surpreende que haja dúvidas acerca de A.l e r .2, mas vamos
adiar sua consideração para mais tarde .
Antes de entrar em detalhes, desejo fazer algumas observações gerais
sobre as infelicidades. Podemos indagar:
(1) A que variedade de "ato" se apl ica a noção de infelicidade?
(2) Até que ponto está completa a classificação das infelicidades aci­
ma?
(3) Os vários tipos de infelicidade se excluem mutuamente?
Analisemos estas indagações seguindo a ordem acima.
2 Austin dc vcz em quando usa outros nomes para as diferentes infelicidades. Por serem de interesse
aJlluns são registrados aq ui . A. I não-atuação, A.2 má atuação; B. fracassos, B.I más execuções, O.
nüo-execuções, r . desrespeitos, r .1 dissimulações, r . 2 não realizações, deslealdades, infraçOes,
indisciplinas, rupturas, (N. de ./.0. Unnsoll).
'" Austin joga com o prefixo inglês lI1is, indicativo de erro, falha ou falta. ao formular a mo.lorlo
destes conceitos. Assim temos: lI1is.fire (desacerto), misillvocatioll (má invocação), miSe,ICCltlÍolI (m6
execução) e mi.sllpplicatiorl má aplicação). Entretanto, como o pr6pri o Austi n IlSsi nalu, estes termos
MO devem ser tomados em seu sentido literal, mas de acordo com n defi niçfio dada no texto. (N. d,
7'.).
Quando dizer 6 fazer _ "" 32
(l) Qual o alcance da infelicidade?
Em primeiro lugar, embora isto possa nos ter estimulado (ou deixado
de estimular) em relação a certos atos que são, no todo ou em parte, "atos de
proferir palavras" , parece evidente que a infelicidade é um mal herdado por
todos os atos cujo caráter geral é ser ritual ou cerimonial, ou seja, por todos
os atos convencionais. Não se trata de que todos os rituais ou todos os pro­
ferimentos performativos sejam passíveis de todas as formas de infelicidade.
Isto é óbvio, quanto mais não seja pelo simples fato de que muitos atos con­
vencionais, tais como apostas e legados de propriedade, podem ser realiza­
dos por meios não-verbais. Os mesmos tipos de regras têm de ser observados
em todos estes procedimentos convencionais, basta omitir a referência espe­
cial ao pro ferimento verbal em nosso caso A. Isto pelo menos é óbvio.
Mas importa também chamar a atenção para os inúmeros "atos" que
dizem respeito ao jurista, seja por serem performativos ou por incluírem pro­
ferimentos de performativos, seja por serem ou incluírem a realização de al­
gum procedimento convencional. Neste contexto pode-se ver que, de um
modo ou de outro, os autores de jurisprudência constantemente demonstra­
ram perceber os diversos tipos de infelicidade, e por vezes até mesmo as pe­
culiaridades do proferimento performativo. Apenas a obsessão generalizada
de que os pro ferimentos legais e os proferimentos usados em, digamos, "atos
legais" , tenham que ser de algum modo declarações verdadeiras ou falsas
impediram os juristas de perceber esta questão com mais clareza do que nós.
Por isto não ousaria afirmar que nenhum jurista o tenha feito. Para nós,
contudo, é de importância mais primordial perceber que, pela mesma razão,
um grande número de atos que se incluem no campo da ética não são, em úl­
tima análise, como os filósofos se apressam em afmnar, meros movimentos
f1sicos: . Muitíssimos deles têm o caráter geral, no todo ou em parte, de atos
convencionais ou rituais e assim estão, entre outras coisas, expostos à infeli­
cidade.
Por último, podemos perguntar - e aqui sou forçado a pôr minhas car­
tas na mesa - se a noção de infelicidade se aplica a pro ferimentos que sejam
declarações. Até aqui mostramos a infelicidade como um traço característico
" i\uslin critica aqui uma tradição positivista e cientificista que reduz a ação humana a suas caracte­
rlsticas de movimento f(sico apenas, podendo assim ser explicada através de leis causais no sentido
natural. Chama a atenção para a necessidade de levar em conta os aspectos intencionais e convencio­
nuis na interpretação da ação humana. Contemporaneamente, na tradição analítica, a Filosofia da
i\ çllo tem retomado estas discussões que servem de pano de fundo para o conceito de ação envolvido
na Teoria dos Atos de Fala. Vejam-se, p.ex., dentre outros: A.1. Goldman (1970) A Theory ofHuman
Actioll. Ncw Jersey; Prentice-Hall, D. Davidson (1980) Essays on Actions and Events, Oxford Univ.
Press; A. White (org.) (1968) The Phi/osophy ofAction, Oxford Univ. Press. (N. do T.).
J. L. Austin
do proferimcnto performativo, que foi "deOnldo" (/lO assim podemos dizer)
basicamente em oposição à "declaração" já tida como supostamente conlv'-­
cida. A esta altura, importa, porém, salientar que uma das coisas que os tll
sofos fazem ultimamente é examinar com atenção certo tipo de sen­
tenças declarativas que, embora não exatamente fal sas nem contradit6rias,
parecem, contudo, absurdas - por exemplo, afmnações que se referem ti algo
que não existe, como: "O atual rei da França é careca".* Poderíamos ser le­
vados a aproximar isto da intenção de doar algo que não possuímos. Não há
uma pressuposição de existência em ambos os casos? Não se trata de uma
declaração que se refere a algo que não existe, e que não é propriamente fal­
sa, mas nula? E quanto mais consideramos uma declaração, não como uma
sentença ou proposição, mas como um ato de fala (a partir do qual os demais
são construções lógicas), tanto mais estamos considerando a coisa toda como
um ato. Ou, ainda, há semelhanças óbvias entre uma mentira e uma promessa
falsa. Teremos que voltar a este assunto mais tarde3.
(2) Nossa segunda pergunta foi: até que ponto é completa esta classifi­
cação?
(I) A primeira coisa a ter presente é a seguinte: se ao proferir nossos
performativos estamos de modo efetivo e em sentido inequívoco "realizando
ações", então estes performativos enquanto ações estarão sujeitos às mesmas
deficiências que afetam as ações em geral. Mas tais deficiências são distintas
- ou distinguíveis - do que chamamos de infelicidade. Quero com isto dizer
que as ações em geral, não todas, são passíveis, por exemplo, de serem exe­
cutadas com dificuldade, ou por acidente, ou devido a este ou àquele tipo de
engano, ou, mesmo, sem intenção. Em muitos desses casos não cabe dizer
simplesmente que tal ato foi realizado ou, mesmo, que alguém o praticou.
Não estou aqui no âmbito da doutrina geral, pois em muitos destes casos po­
demos mesmo dizer que o ato foi nulo (ou tomado nulo pela coação ou ainda
por influência indevida) e assim por diante. Ora, suponho que uma doutrina
eral de nível superior possa incluir em um único corpo doutrinário tanto O
de exemplo famoso, anaJisado por Bertrand Russell em seu artigo "On Denotillg" (1905), li
propósito da questão da aparente falta de sentido de sentenças que, como esta, não possuem umO re­
rorencia atual. Estn discussão é retomada posteriormente por P. F. Strawson, em seu artigo, tamb6m
oldssleo, "On Refening" (1950), que é um comentário e uma crftiea ao de Russell. Ambos os artigos
nconlmm-se troduzidos para o portugutls e publicados pela ed. Abril, S. Paulo, no coleção "Os
(lcnsudores", nos volumes relativos nos respectivos autores. (N. do T.).
./lIfro. pp. 47 e S8.
_____________ 35
unndo dizer ó razer 34
que chamamos infelicidade quanto estes aspectos "infelizes" da realização
de ações - isto é, atos que contêm um proferimento perfonnativo. Mas por
nuo incluir em nossa análise esse tipo de infelicidades, importa lembrar que
tais elementos podem imiscuir-se em quaisquer dos casos que estamos discu­
tindo, o que, aliás, com freqüência acontece. Elementos deste tipo poderiam
ser normalmente rotulados de "circunstâncias atenuantes" ou ainda de " fato­
res redutores ou anulatórios da responsabilidade do agente", e assim por
diante.
(lI) Em segundo lugar, os performativos enquanto proferimentos her­
dam também outros tipos de males que infectam todo e qualquer proferi­
mento. Estes, porém, embora possam ser enquadrados em uma regra mais ge­
ral, foram, no momento, deliberadamente excluídos. O que quero dizer é o
seguinte: um proferimento performativo será, digamos, sempre vazio ou nulo
de uma maneira peculiar, se dito por um ator no palco, ou se introduzido em
um poema, ou falado em um solilóqUIO, etc. De modo similar, isto vale para
todo e qualquer pro ferimento , pois trata-se de uma mudança de rumo em cir­
cunstâncias especiais. Compreensivelmente a linguagem, em tais circunstân­
cias, não é lavada ou usada a sério, mas de forma parasitária em relação a
seu uso normal, forma esta que se inclui na doutrina do estiolamento da lin­
guagem*. Tudo isso fica excluído de nossas considerações. Nossos proferi­
mentos performativos, felizes ou não, devem ser entendidos como ocorrendo
em circunstâncias ordinárias.
(III) Pelo menos por ora, o objetivo de excluir esta espécie de conside­
ração é que me levou a não apresentar um tipo de "infelicidade" - já que
realmente pode ser assim chamado - que se deriva do "mal-entendido". Ob­
viamente é necessário que para haver prometido eu tenha normalmente que:
(A) ter sido ouvido por alguém, talvez a pessoa a quem prometi;
(B) ter sido entendido por esta pessoa como tendo prometido.
Se uma outra destas condições não for satisfeita, aparecerão dúvidas
quanto ao fato de eu ter realmente prometido, e pode-se considerar que o ato
foi meramente um intento, ou que foi nulo. Precauções especiais são tomadas
em Direito para evitar essas e outras infelicidades, por exemplo, na apresen­
tação de ordens ou nodificações legais. Esta importante consideração terá
que ser tratada em particular mais tarde em outro contexto.
*0 termo "estiolamento" significa literalmente perda de cor e vitalidade, de ti nhamento , enfraque­
cimento, e é aplicado por Austin para caracterizar o "enfraquecimento" que um ato de fala sofre ao
ser utilizado em um contexto não- literal, de "faz-de-conta", com o teatro, a ficção, etc. (N. do T.).
36 ____
_________ J. L. Austin
(3) Os cosos de infelicidado acima {ulolados cxlucm·sc mutuamente', A
resposta é 6bvia.
(a) Não, no sentido em que podemos nos enganar de duas maneiras a
mesmo tempú, ao prometer insinceramente a um asno dar-lhe uma cenoura.
(b) Não, sobretudo no sentido em que as formas de errar "se sobrl
põem" e "se confundem" e a decisão entre elas acaba por ser "arbitrária" .
Suponhamos, por exemplo, que haja um navio nas docas de um estalei­
ro. Aproximo-me e, quebrando a garrafa presa à proa, proclamo: "Batizo
'8te navio com o nome de "Senhor Stalin" e para completar solto as amar­
ras. A dificuldade, porém, está no fato de não ter sido eu a pessoa escolhida
para batizá-lo (quer o nome "Senhor Stalin" fosse ou não o escolhido; talve
de certa forma seria até pior se o fosse). Todos concordamos que:
(1) o navio não foi batizado por este at04;
(2) foi um terrível vexame.
Pode-se dizer que "fingir" ter batizado o navio, que meu ato foi "nu­
lo" ou "sem efeito", por não ser eu a pessoa indicada ou não ter a "capaci­
dade" 'de realizá-lo. Por outro lado, poder-se-ia também dizer que em casos
onde sequer há pretensão à capacidade ou direito a ela tampouco existem
procedimentos convencionais aceitos. Tratam-se de farsas, como casar-se
com um macaco. Poderíamos dizer também que parte do procedimento é a
pessoa vir a ser designada para praticar o ato. Quando o santo batizou os
pingüins, poderíamos nos perguntar se seu ato foi nulo por que o procedi­
mento de batismo não se aplica a pingüins, ou por que não há procedimento
aceito de batizar qualquer ser que não seja humano? Estas questões, em meu
ntender, não têm importância teórica, embora seja de interesse investigá-las
e, na prática, é conveniente estar familiarizado, como os juristas, com a ter­
minologia apta a lidar com elas.
4 OOlizru uma criança seria ainda mais di fl"cil. Podemos ter o nome errado e o sacerdote errado, isto 6,
ohlll6m capacitado a batizar bebês, mas não escol hido para batizar aquele bebê em particular.
uando dizer é fozer 37
É3
111 Conferência
Infelicidades: desacertos
Na primeira conferência caracterizamos, de modo preliminar,o proferi­
mento performativo como aquela expressão lingüística que não consiste, ou
não consiste, apenas, em dizer algo, mas em fazer algo, não sendo um relato,
verdadeiro ou falso, sobre alguma coisa. Na segunda, chamamos a atenção
para o fato de que, embora não seja sempre verdadeiro ou falso, o proferi­
mento está sempre sujeito à crítica, podendo ser infeliz, e assim sendo apre­
sentamos uma lista de seis desses tipos de infelicidades. Dentre estas, quatro
eram de tal ordem que tomavam o pro ferimento um desacerto, e o ato inten­
cionado nulo e vão, e, como tal, sem surtir qualquer efeito, enquanto que as
demais, ao contrário, faziam do ato pretendido um mero abuso de procedi­
mento. Assim, armamo-nos, ao que parece, com dois novos e brilhantes con­
ceitos com os quais podemos romper o berço da Realidade, ou, quiçá, da
Confusão. Duas novas chaves em nossas mãos e, ao mesmo tempo, dois no­
vos patins em nossos pés. Em filosofia, estarmos previamente armados deve­
ria significar estarmos prevenidos. Depois, estendi-me um pouco mais na
discussão de algumas questões gerais acerca do conceito de infelicidade e
em seu lugar propus um novo mapa para a área. Sustentei (1) que a noção de
infelicidade aplicava-se a todos os atos cerimoniais e não apenas aos atos
verbais, e que estes são mais freqüentes do que se crê; admiti (ll) que a lista
não era completa, e que existem outras dimensões do que se pode razoavel­
mente chamar de "infelicidades" que afetam de modo geral a realização de
atos cerimoniais e de proferimentos em geral, dimensões que são certamente
J. L. Austin
(llJ) quc di rcrcntc:i IIllclicluadt.:1l pOUCIll combUlI1I
se ou sobrepor-sc, tornando-se uma questão mais ou menos opcional a 11111­
neira de classificar um dctenninado exemplo particular.
A seguir, cabe tomar alguns exemplos de infel icidades ou de infruçocs
de nossas seis regras. Primeiro, quero lembrar-lhes a regra A.I, aftmltlntl
que deve haver um procedimento convencional aceito que tenha um detcrl1li
nado efeito convencional, tal procedimento incluindo o proferimento de c ~ r .
tas palavras por certas pessoas em certas circunstâncias, e a regra A.2, com­
plementar da primeira, estabelecendo que as pessoas e as circunstâncias es­
pecíficas têm de ser, em um determinado caso, adequadas para a invocacüo
do procedimento específico referido.
A.l Deve existir um procedimento convencionalmente aceito que p
duz um efeito convencional, tal procedimento devendo incluir o profcri­
mento de determinadas palavras, por detenninadas pessoas e em detennina­
das circunstâncias.
A segunda parte do enunciado acima desti na-se simplesmente a restrin­
gir a regra a casos que envolvem proferimentos, não sendo, em prindp.io,
importante.
Nossa formulação desta regra contém as palavras "existir" e "aceito",
mas poderíamos com razão perguntar não só se "existir" pode ter algum
sentido que não seja o de "ser aceito", como também se "estar (em geral)
em uso" não deveria ser preferível a essas duas palavras. Se assim for, não
mai s deveríamos dizer "(I) existir, (lI) ser aceito". Por força de tal objeçã
examinemos esta questão no que diz respeito à palavra "aceito".
Se alguém emite um pro ferimento performativo, e se o pro ferimento
classificado como um desacerto pelo fato de o procedimento invocado n6
ter sido aceito, trata-se presumivelmente não do falante , mas de uma pessoa
que não o aceita (pelo menos na medida em que o falante fala a sério) . O que
poderíamos tomar como exemplo? Consideremos "Peço divórc io", dito p
um marido à sua esposa, ambos cristãos e não muçulmanos, em um paIS
cristão. Neste caso poderia ser dito "não obstante ter pedido o divórcio, 01
não conseguiu divorciar-se dela; admitimos neste país apenas um outro pro­
cedimento verbal ou não-verbal", ou, até mesmo, " não admitimos neste país
nenhum procedimento para efetivar um divórcio, o casamento é indissolú­
vel". Isto pode chegar ao ponto de se rejeitar todo um c6digo de procedi­
mento - por exemplo o código de honra que inclui o duelo. Assim. um d('<;a.
fio poúeria ser feito através da expressão "meus representantes o procura-
Quando dizer é fazer 38 3
mo" que é equivalente a "eu o desafio", e nós poderíamos simplesmente ig­
norá-lo. Esta situação geral é explorada na infeliz est6ria de Dom Quixote.
Fica evidente que o caso é comparativamente simples se nunca admi­
tinnos um procedimento "desse" tipo; isto é, um procedimento para se reali­
.ar tal tipo de coisa, ou um procedimento específico para se realizar algo em
particular. Mas igualmente possível são os casos em que aceitamos, depen­
dendo das circunstâncias e das pessoas, o procedimento, mas não o aceita­
ríamos em outras circunstâncias, ou com outras pessoas. Podemos aqui fre­
qüentemente hesitar (como no exemplo dado acima) se uma infelicidade de­
veria ser enquadrada na classe A.I ou na classe A.2 (ou mesmo na B.I ou
8.2). Por exemplo, em uma reunião social, ao escolher um parceiro para um
jogo, digo "Escolho Jorge", e Jorge retruca, "Não vou jogar". Pode-se per­
guntar, Jorge foi efetivamente escolhido? Sem dúvida a situação é infeliz.
Podemos dizer que Jorge não foi escolhido seja por inexistir a convenção
segundo a qual se pode escolher uma pessoa que não vai jogar, seja porque
na presente circunstância Jorge é um objeto inadequado para o procedimento
de escolha. Uma outra situação crítica seria a seguinte: em uma ilha deserta
alguém pode dizer-me "Vá apanhar lenha" e eu respondo, "Não recebo or­
dens suas" , ou, ainda, "Você não tem o direito de me dar ordens" , ou " Não
aceito ordens suas quando você está tentando 'afirmar sua autoridade' (que
posso aceitar ou não) em uma ilha deserta". O caso contrário se daria se vo­
cê fosse o capitão do navio, tendo então autoridade.
Por outro lado, poderíamos dizer, considerando um caso do tipo A.2
(má aplicação): o procedimento - isto é, o proferimento de determinadas pa­
lavras, etc. - era correto e foi aceito, embora estivessem erradas as circuns­
tâncias de invocação e as pessoas que o invocaram. " Eu escolho" , no exem­
plo acima, s6 funciona se o objeto do verbo for "um jogador" , e uma ordem
SÓ funciona se o sujeito do verbo for "uma autoridade".
Poderíamos ainda dizer, levando o caso para a regra B.2 (e talvez de­
vêssemos reduzir a esta o exemplo anterior): o procedimento não foi com­
pletamente executado por ser necessário que o objeto do verbo "eu ordeno
que" estabeleça, mediante um procedimento prévio, tácito ou explícito, que
a pessoa que vai dar a ordem tenha autoridade; por exemplo, dizendo: "Pro­
meto fazer o que você me ordenar". Esta é, naturalmente, uma das incertezas
genéricas, subjacentes ao debate, em teoria política, sobre se existe ou não, e
se deveria ou não existir um contrato social.
Em princípio, pouco importa, ao que parece, como decidimos esses ca­
sos particulares, embora possamos preferir, aceitando fatos ou introduzindo
definições, uma solução a outra. Importa, porém, esclarecer:
./. L. Al/stin
(I) A respeito de B.2, por mais que dctcnnillllt;OCH 110
procedimento, sempre será possível que alguém o rejeite //lI totaLidode.
(2) Para um procedimento ser aceito pressupõe-se aJgo mais do que ()
fato de ser considerado efetiva e genericamente usado, até mesmo pelas pes­
soas envolvidas; devendo pennanecer em princfpio aberta a possibilidade d
qualquer pessoa vir a rejeitar qualquer procedimento, ou código de procedi­
mento - mesmo aquele que fora por ela anteriormente aceito - como aconte­
ce, por exemplo, com o código de honra. Quem o fizer estará, naturalmente,
sujeito a sanções. Alguém poderia se recusar a jogar com ela, ou dizer que
não se trata de uma pessoa honrada. Mas, acima de tudo, não podemos redu­
zir as considerações acima a meras circunstâncias factuais, pois estaríamos
sujeitos à velha objeção de termos derivado um "dever" de um "ser" '- pois
-ser aceito não é uma circunstância, em sentido estrito. No caso de muitos
procedimentos, por exemplo, tomar parte em jogos, por mais adequadas que
sejam as circunstâncias eu posso ainda não estar jogando. Além do mais, de­
veríamos considerar que, em última análise, é duvidoso que "ser aceito"
possa ser reduzido a "usualmente empregado" . Esta porém é uma questão
mais complexa.
Em segundo lugar, cabe perguntar o que se quer dizer com a sugestão
de que um procedimento pode sequer existir, o que é diferente da questão de
se um procedimento é aceito e por que o grupo é aceito ou não
l
.
(I) Há o caso de procedimentos que "não mais existem", no sentido de
terem sido outrora aceitos, já não mais o são em geral ou mesmo por alguém,
como no caso do duelo.
(11) Há também o caso de procedimentos recentemente inaugurados.
Por vezes estes podem "dar certo" - tal como no caso do rugby, com o jo­
gador que primeiro pegou a bola com as mãos e saiu correndo. Dar certo é
essencial, a despeito da terminologia suspeita. Consideremos um caso plau­
sível: dizer "você foi covarde" pode ser uma reprimenda ou um insulto, e
posso tornar explícito meu ato dizendo "eu o repreendo" , mas não posso fa­
zer o mesmo em relação ao insulto dizendo "eu o insulto" ; as razões disso
não nos importa aqui2.
1 Se objetamos a que se diga que há dúvida sobre se o procedimento "existe", como bem podemos
objetar, pois a palavra nos dá arrepios que estão na moda e que são em geral indubitavelmente legfti ­
1I10S, poderfamos dizer tj ue a dúvida é sobretudo quanto à natureza, ou ou compreensão do
procedimento que existe c e aceito.
2 Muitos desses procedimentos e f6rmulas plausfveis seriam desvantajosos se reconhecidos. Por
exemplo, talvez não devêssemos permitir a f6rmula "Prometo que vou açoi tá-lo". Mas foi-me dito
que no auge da 6poca dos duelos entre estudantes da Alemanha era costume que os memhros de um
clube marchassem diante dos membros de um outro clube rival, todos em fila, di zendo depoi s cnda
Quando dií'.er é fuer 40 41
o que realmente importa é que uma variedade de não-atuaçã03
pode ocorrer se alguém realmente diz "eu o insulto' . Pois embora insultar
seja um procedimento convencional, e primordialmente verbal, de tal modo
que de certa fonna não podemos deixar de entender o procedimento que al­
guém tenciona invocar quando diz "eu o insulto", contudo somos obrigados
a " não-atuar" com ele, não apenas porque a convenção não é aceita, mas
porque sentimos vagamente a presença de um impedimento, cuja natureza
pode não ser muito clara, contra a aceitação do procedimento em geral.
Muito mais comuns são, entretanto, os casos que não se tem certeza
sobre o alcance do procedimento, isto é, sobre que casos o procedimento co­
bre ou que variedades poderia vir a cobrir. É inerente à natureza de qualquer
procedimento que os limites de sua aplicabilidade, e de sua definição "preci­
sa", permaneçam vagos. Sempre ocorreram casos marginais ou difíceis em
que nada pode servir na história prévia de um procedimento convencional,
para se decidir conclusivamente se este procedimento está ou não sendo cor­
retamente aplicado em um caso determinado. Posso batizar um cão, se o ad­
mitimos como racional? Ou isto seria um caso de não-atuação? Em Direito,
inúmeras são as decisões difíceis como esta, em que é mais ou menos arbitrá­
rio decidir se (A.I) a convenção não existe ou (A.2) se as circunstâncias não
são adequadas para a aplicação de uma convenção que sem dúvida existe.
Assim, acabamos por seguir, de uma maneira ou de outra, o "precedente"
que estabelecemos. Os juristas preferem geralmente a segunda alternativa,
que implica em aplicar a lei e não em criá-la.
Há ainda um outro tipo de caso, capaz de ser classificado de muitas
maneiras, e que merece uma menção especial.
Todos os proferimentos performativos até agora abordados foram ins­
tâncias altamente desenvolvidas do tipo que mais tarde chamaremos de per­
formativos expltcitos, em oposição aos performativos meramente implfcitos.
Em outros termos, todos eles incluem ou têm início com palavras altamente
significativas e inambíguas como "aposto", "prometo", "dôo", palavras
corretamente usadas para designar o ato que, ao fazer tal proferimento, estou
realizando. Por exemplo, apostar, prometer, doar, etc. Mas é tão óbvio
quanto importante que possamos ocasionalmente usar o proferimento "Vá"
para fazer praticamente o mesmo que fazemos com o proferimento "Orde­
no-lhe que vá". E diríamos sem hesitar ao descrever subseqüentemente o que
um a seu Oponente escolhido, à medida que passava e de maneira muito polida, "Beleidigung" . o que
"Eu o insulto".
3 "Não-atuação" foi durante algum tempo a denominação dada por Austin à categoria A.I de infeli­
cidades. Ele veio a rejeitá-la mais tarde, porém a esta altura o termo ainda aparece em suas anotações.
(NotadeJ.O. Urmson)
J. L. Austin
guem fez, que em ambos 014 casos ele II()!I ()IJcnuu que Isso I
de, entretanto, ser de fato incerto, o, no que concenlO ao simples proferi­
mento, sempre pennanece incerto quando usamos uma fórmula tão
cita quanto o mero imperativo "vá", se o falante está dando uma ordem (ou
pretendendo dar uma ordem) ou se está simplesmente aconselhando, incenti­
vando, ou qualquer coisa do tipo. Assim, "Há um touro no campo", pode ser
ou não uma advertência de perigo, pois posso estar simplesmente descreven­
do uma cena. Do mesmo modo, "Estarei lá" pode ser ou não uma promessa.
Em todos estes casos temos performativos primitivos em contraste com per­
formativos explícitos; mas pode não haver absolutamente nada nas circuns­
tâncias dadas que nos possibilite decidir se o proferimento é ou não perfor­
mativo. De qualquer forma, em dada situação sempre é possível considerá-lo
uma coisa ou outra. Mesmo que fosse uma fórmula perforrnativa, o procedi­
mento em questão pode não ter sido invocado de forma suficientemente ex­
plícita. Talvez eu não o tenha tornado como uma ordem ou me sentisse obri­
gado a tomá-lo como uma ordem. A pessoa a quem disse " Estarei lá" não
tomou meu proferimento como uma promessa, isto é, nas circunstâncias es­
pecíficas não aceitou o procedimento, com o argumento de que o ritual foi
executado de maneira incompleta por mim.
Poderíamos assimilar isso a um desempenho defeituoso ou incompleto
(B.I ou B.2) se não fosse na realidade completo, embora não sem ambigüi­
dade. (No Direito, é claro, este performativo não explícito seria normalmente
classificado como B.I ou B.2. É regra que a falta de explicação - por exem­
plo um legado feito de modo inexplícito - resulta em realização incorreta ou
incompleta; na vida cotidiana porém, não há semelhante rigidez.) Podería­
mos também assimilar isso a um mal-entendido (que ainda não estamos con­
siderando), mas de tipo especial, dizendo respeito à força do proferimento, e
não a seu significado. Não se trata aqui de que a audiência não tenha enten­
dido, mas de que não tinha que entender - por exemplo não tinha que to­
má-lo como uma ordem.
Poderíamos até mesmo assimilar isso a A.2, sob a alegação de que o
procedimento não foi projetado para ser usado a menos que resulte claro co­
mo estej a sendo usado, pois, caso contrário, seria absolutamente vão.
ríamos afmnar que só deve ser usado em circunstâncias que tornem total­
mente claro e sem ambigüidade em que acepção está sendo usado. Mas isto
seria recomendar a perfeição.
A.2 As pessoas e circunstâncias particulares em um caso detenninado
têm de ser adequadas à invocação do procedimento específico invocado
Quando dizer é fazer
42
43
Passemos agora às violações de A.2, ao tipo de infelicidade que cha­
mamos de más aplicações. Os exemplos aqui são inúmeros. "Eu o nomeio",
etito quando a pessoa já foi nomeada, ou quando foi nomeada outra pessoa,
ou quando eu não tenho o poder de nomeá-Ia, ou quando o nomeado é um
cavalo. "Sim", quando se tem um grau de parentesco com a noiva que impe­
de o casamento, ou diante de um capitão de navio que não está no mar. "Eu
lhe dou ... ", quando o objeto não é meu, ou quando é uma parte de meu cor­
po e dele não pode ser separado. Temos vários termos especiais para usar em
diferentes tipos de casos: "ultra vires" , "incapacidade", "objeto ou pessoa
inadequado ou inapropriado", "sem direito" e assim por diante.
A linha divisória entre "pessoas inadequadas" e "circunstâncias inade­
quadas" não é necessariamente rígida e inflexível. De fato, o termo "cir­
cunstâncias" pode ser tomado em tal extensão que acabe por abranger "a
natureza" de todas as pessoas participantes. Mas devemos distinguir os casos
em que a inadequação de pessoas, objetos, nomes, etc. é uma questão de
"incapacidade", dos casos mais simples em que o objeto ou o "agente" é da
espécie ou do tipo errado. Esta é, por sua vez, uma distinção imperfeita e
alusiva, mas importante - por exemplo, no Direito. Assim, há que se distin­
guir os casos em que um clérigo batiza a criança errada com o nome correto
ou batiza uma criança com o nome de "Alberto" ao invés de "Alfredo", do
caso em que se diz "Eu batizo esta criança com o nome de 2704", ou "Eu
prometo arrebentar a sua cara", ou ainda em que se nomeia um cavalo côn­
sul. Os três últimos casos envolvem algo cujo defeito se encontra na espécie
ou no tipo, enquanto que nos demais casos a inadequação é apenas uma
questão de incapacidade.
Algumas sobreposições de A.2 com A.l e B.l já foram mencionadas.
Estamos inclinados a chamá-las de más invocações (A.l), mais quando a
pessoa enquanto tal for inadequada, do que indevidamente autorizada; isto é,
quando nenhuma nomeação ou qualquer procedimento anterior regularizam
sua situação. Por outro lado, se tomamos literalmente o caso da nomeação
(isto é, posição em contraste com status) poderemos classificar a infelicidade
como um procedimento erroneamente executado e não como um procedi­
mento mal-aplicado. Por exemplo, se votamos em um candidato antes que ele
tenha sido indicado por seu partido. O problema aqui consiste em determinar
até que ponto devemos remontar à própria noção de "procedimento".
A seguir, cabe discutir exemplos de B Uá anteriormente examinados) a
que chamamos de más execuções.
B.l O procedimento deve ser executado corretamente por todos os par­
ticipantes.
J. L. Austin
Aqui se encontram os casos das rnlhus. Estas consistem no uso de, por
exemplo, fórmulas erradas. Aqui o procedimento é adequado às pessoas c às
circunstâncias, mas é executado incorretamente. Os exemplos mals claros d
falhas se encontram no âmbito do Direito. Na vida cotidiana nem sempre são
tão claros, já que neste se admitem concessões. O uso de fórmulas inexpU­
citas pode ser colocado nesta classe. Nesta classe também entra o uso de
fórmulas vagas e referências imprecisas - por exemplo, se digo " minha ca­
sa" quando tenho duas, ou então se digo"Aposto que a corrida não se reali­
zará hoje" , quando mais de uma corrida estão marcadas.
Trata-se de uma questão distinta seja do mal-entendido, seja da com­
preensão lenta por parte da audiência. Neste caso há uma falha no ritual, não
importando como a audiência o tenha considerado. Algo que causa particu lar
dificuldade é determinar se é necessário o consensus ad idem quando dois
lados estiverem envolvidos. É essencial no caso assegurar-se de que houve
uma compreensão correta, além de tudo mais? Trata-se obviamente de um
tópico que cai sob as regras de tipo B e não sob as regras de tipo.
B.2 O procedimento deve ser executado de forma completa por todos
os participantes.
Aqui encontramos casos de tropeço. Tentamos executar o procedimen­
to, mas o ato é abortivo. Por exemplo, toda tentativa de apostar através da
expressão "Aposto seis cruzados" será abortiva, a menos que o parceiro di­
ga "Aceito", ou palavras equivalentes. Mesmo dizendo "Sim", toda tentati­
va de casar-se é abortiva caso a noiva diga "Não", toda tentativa de duelar
será abortiva, mesmo dizendo "Eu o desafio", se os padrinhos não forem
enviados para marcar hora e lugar. A tentativa de inaugurar, mesmo com to­
da a cerimônia, uma biblioteca será abortiva se eu disser " Inauguro esta bi­
blioteca" , mas a chave venha a se quebrar na fechadura; assim também o
batismo de um barco será abortivo caso se soltem as amarras antes de dizer
"Lanço ao mar este navio". Nestes casos, como nos da vida cotidiana, admi­
te-se uma certa flexibilidade no procedimento, pois, de outro modo, nenhu­
ma atividade universitária jamais poderia ser executada.
Evidentemente, por vezes surgem dúvidas sobre se algo mais é neces­
sário ou não. Assim, é necessário, para que eu presenteie, que meu interlo­
cutor aceite o presente que lhe dou? Por certo, nas negociações formais o
aceite é exigido, mas será assim na vida cotidiana? Dúvida semelhante surge
quando um compromisso é assumido sem o assentimento da pessoa a quem
cabe assurnJ-Io. A questão aqui é a seguinte: até que ponto os atos podem ser
Quando dizer 6 razer 44 45
unilaterais? Da mesma fonoa surge a questão sobre até que ponto pode um
mo ser considerado terminado, ou o que levar em conta para considerá-lo
complet04.
Em relação às questões acima, lembraria que não estamos considerando
as dimensões adicionais da infelicidade, como as que podem ocorrer quando
o agente oomete um simples erro factual, ou quando há discordâncias sobre
questões de fato, sem falar em discordâncias de opinião. Por exemplo, não
há convenção que me autorize a prometer fazer algo em detrimento de meu
interlocutor, colocandlrme assim sob a obrigação de fazê-Io. Mas suponha­
mos que eu diga "Prometo enviá-lo para um convento", quando penso, ao
contrário de meu interlocutor, que isto será para o seu bem; ou, no caso
oposto, quando ele pensa que isto será para o seu bem, mas eu não; ou mes­
mo quando ambos pensamos que será para o seu bem, mas na realidade a
coisa se revela o contrário. Nestas circunstâncias será que invoquei uma .
convenção inexistente em condições inadequadas? É desnecessário dizer.
Como questão geral de princípio, desnecessário é que não pode haver eSClr
lha satisfatória entre tais alternativas, que sejam suficientemente sutis para
dar conta destes casos. Não há como expor, de fonna simples, toda a com­
plexidade da situação que não se ajusta a nenhuma classificação usual.
Pode parecer que estamos apenas desdizendo o que dissemos sobre
nossas próprias regras, mas não se trata disso. Existem claramente essas seis
possibilidades de infelicidades - mesmo que por vezes seja duvidoso quais
delas estejam em questão em um dado caso particular. Poderíamos se quisés­
semos, defini-las, pelo menos para certos casos. Devemos evitar a todo custo
a simplificação excessiva, que poderia ser considerada a doença profissional
dos fIlósofos se não fosse ela própria sua profIssão* .
4 Pode-se assim duvidar se a não-entrega do objeto que damos de presente torna incompleto o ato de
presentear ou se constitui uma infelicidade de tipo .
... Austin refere-se à discussão filos6fica tradicional em tomo da distinção metaffsica entre valores (o
domfnio dos deveres) e fatos (o domfnio da realidade natural). Mais recentemente, esta questão origi­
na-se de um trecho do Tratado da natureza humafUI (llJ, (I) 1) onde David Hume critica a passagem
de uma argumentação com base nas sentenças usando o verbo "ser" (is) para sentenças usando o ver­
bo "dever" (ought). Segundo Hume, esta confusão caracterizaria a chamada falácia naturalista. So­
bre a discução contemporânea em tomo desta questão veja-se sobretudo, a antologia de textos orga­
nlzadn por W. D. Hudson (1971) The Is-Ought Question, Londres, Macmi1lall. (N. do T.)
J. L. Austin
IV Conferência
Infelicidades: maus usos
Na conferência anterior consideramos casos de infelicidades, casos em
que não havia procedimento ou não havia procedimento aceito, ou em que o
procedimento era invocado em circunstâncias não apropriadas, ou ainda em
que o procedimento era defeituoso ou incompletamente executado. Assina­
lamos que, em certos casos, esses tipos de infelicidade podem se sobrepor, e
em geral se sobrepõem; tratam-se de (a) os Mal-entendidos, um tipo de infe­
licidade a que estão expostos todos os proferimentos; e (b) os Enganos, ou
as ações realizadas sob coação.
O último caso é o dos tipos r .1. e r .2, isto é, insinceridades e infra­
ções, e casos de não-cumprimentol . Dizemos então que o ato não é nulo,
embora seja infeliz.
Recordemos as definições:
r .1: Nos casos em que, como ocorre com freqüência, o procedimento visa às
pessoas com seus pensamentos, sentimentos e intenções, ou visa à ins­
tauração de uma conduta correspondente por parte de algum dos parti­
cipantes, então aquele que participa do procedimento, e o invoca, deve
de fato ter tais pensamentos, sentimentos e intenções, e os participantes
devem ter a intenção de se conduzirem de maneira adequada, e, além
disso,
r .2: devem realmente conduzir-se desta maneira subseqüentemente.
I C f. p. 23 e nota de rodapé.
Quando dizer é fazer 46 47
1. Sentimentos
Exemplos em que não se têm os sentimentos requeridos seriam:
"Eu o felicito", dito sem que me sinta satisfeito, ou mesmo quando me sinto
aborrecido.
"Meus pesâmes", dito sem qualquer sentimento de solidariedade com a
dor do interlocutor.
As circunstâncias, em tais casos, estão dentro das regras e sendo assim
o ato é realizado, isto é, não é nulo, mas é realmente insincero, já que sen­
tindo o que sentia não deveria congratulá-lo nem apresentar-lhe meus pêsa­
mes.
2. Pensamentos
Exemplos em que não se têm os pensamentos requeridos são:
"Eu o aconselho a .. .", dito sem pensar que o ato ou a atitude aconse­
lhados sejam os mais benéficos para o interlocutor.
"Declaro-me inocente" ou "Eu o absolvo" , quando creio que a pessoa
é culpada.
Estes atos não são nulos. Dei um conselho e dei um veredito, ainda que
de forma insincera. Temos aqui algo de análogo com o que ocorre com
a mentira, ao realizar-se um ato de fala de tipo assertivo.
3. Intenções
Exemplos em que não têm as intenções requeridas são:
"Prometo", dito quando não tenciono fazer o que prometi.
"Aposto", dito quando não tenho a intenção de pagar a aposta.
"Declaro guerra", dito quando não tenho a intenção de lutar.
Não estou usando as palavras "sentimento", "pensamentos" e "inten­
ções" em uma acepção técnica, em oposição a uma acepção imprecisa. Mas
alguns comentários sobre tais noções fazem-o;e necessários:
(1) Suas distinções são tão imprecisas que tornam difícil distinguir os
vários casos e, estes, por sua vez, podem se corr.binar, o que geralmente
ocorre. Por exemplo, ao dizer "Felicito-o", devo realmente ter o sentimento
ou o pensamento de que o outro deva ser felicitado? É um pensamento ou
um sentimento de que algo é meritório que motiva a felicitação? No caso de
prometer devo ter a intenção de cumprir o prometido, mas cabe não só con­
siderar factível o prometido como também pensar que o ato prometido resul­
tará talvez em algo benéfico para o interlocutor da promessa, ou que este o
considere benéfico.
J. L. Austin
(2) No que diz respeito aos pensamentos, não devemos confundir O que
pensamos que as coisas sejam - por exemplo, pensar que alguém seja culpa­
do, que tenha realizado o ato, que o mérito seja seu, ou que tenha realizado
a proeza - com o fato de que as coisas realmente sejam como pensamos; isto
é, que o pensamento seja correto, em oposição a errôneo. (De modo seme­
lhante, devemos distinguir entre o que sentimos e se o que sentimos é justifi­
cado, e entre ter a intenção de fazer algo e se o que tencionamos fazer é viá­
vel. ) Mas os pensamentos constituem algo de muito interessante, ou seja, al­
go de muito confuso. Com eles aparece a insinceridade, um elemento essen­
cial do mentir, algo distinto de dizer simplesmente o que na realidade é fal­
'so. Exemplos deste tipo são: dizer "Inocente", pensando que o ato foi mes­
mo praticado por aquele indivíduo, ou dizer "Eu o congratulo", pensando
que o feito não foi realizado por aquele que congratulei. Na realidade, po­
rém, posso estar equivocado ao pensar assim.
Se alguns de nossos pensamentos forem incorretos (em oposição a in­
sinceros), isto pode causar Um? infelicidade de tipo diferente:
(a) Posso presentear algo que, na realidade, não seja meu, embora eu
creia que o seja. Poderíamos alegar que se trata de urna "má explicação",
que as circunstâncias, objetos, pessoas, etc. não foram apropriados para o
procedimento de presentear. Mas não é nossa intenção, como dissemos, ocu­
par-nos de todos os casos que poderiam ser chamados de infelicidades, mas
que surgem de um erro ou de um equívoco. Deve-se observar que o erro, em
geral, não torna o ato nulo, mas pode torná-lo desculpável.
(b) "Eu o aconselho a fazer X" é um proferimento performativo. Con­
sideremos o caso de alguém que aconselha outra pessoa a fazer algo que na
realidade não lhe seja benéfico, mesmo que aquele que aconselhou pense
que o seja. Este caso é distinto de (1), posto que aqui inexiste a tentação de
pensar que o ato de aconselhar possa ser nulo ou anulável e, do mesmo mo­
do, inexiste a tentação de se pensar que seja insincero. O melhor é introduzir
aqui uma nova dimensão de crítica - diremos tratar-se de um mau conselho.
Na verdade, isto é a pior coisa que se pode dizer de um conselho. Que um
ato seja feliz ou bem-sucedido em todos os aspectos aqui analisados não o
exime de crítica. Voltaremos a isto.
(c) Mais difícil que os precedentes é o caso que voltaremos a discutir
mais tarde. Há a:nda urna classe de perfonnativos que chamo de vereditivos.
Por exemplo, quando dizemos "De.claro o acusado culpado" ou, simples­
mente, "Culpado", ou quando o árbitro diz "Fora de campo". Quando di­
zemos "Culpado", trata-se, de certo modo, de um ato feliz, se acreditamos
sinceramente, com base nas evidências, que a pessoa tenha realizado o ato.
Quando dizer 6 fnzcr
48
4
De certa fonna, porém, o fundamental é que o procedimento seja correto, o
que pode não ser uma mera questão de opinião. Assim, quando o árbitro diz
"Fora de campo", sua palavra é definitiva. Mas podemos estar diante de um
"mau" veredito. O veredito pode ser injustificado (no caso de um júri), ou
então incorreto (no caso de um árbitro). Desta forma temos aqui uma situa­
ção muito infeliz. Mas ainda assim não se trata de infelicidade em nenhum
dos sentidos que já vimos. O ato não é nulo, porque se o árbitro diz "Fora
de campo", o jogador vai para fora de campo; sua decisão é definitiva. Nem
se trata de um ato insincero. Contudo, não nos preocupam agora estes pro­
blemas urgentes, pois queremos simplesmente distinguir as várias fonnas de
insinceridade.
(3) Nos casos das intenções também aparecem dificuldades especiais:
(a) Já notamos a dificuldade em definir o que constitui uma ação sub:­
seqüente distintamente do que constitui meramente o ato de completar ou
consumar uma mesma ação. Por exemplo, é difícil determinar a relação en­
tre:
" Eu te dou isto" , e dar a alguém a posse de um objeto,
"Eu aceito esta mulher, etc." e a consumação da cerimônia,
"Vendo-Ihe isto" e completar a venda,
embora a distinção seja relativamente fácil no caso da promessa. Podem-se
fazer semelhantes distinções quanto à intenção requerida quando se trata de
completar uma ação presente. Contudo, isto não levanta, em princípio, qual·
quer dificuldade em relação ao conceito de insinceridade.
(b) Distinguimos sumariamente os casos em que uma detenninada in­
tenção é necessária de casos mais particulares, em que é necessário algo
mais para levar a cabo um certo comportamento. Nestes últimos, o procedi­
mento destina-se a introduzir este comportamento adicional, seja tomando-o
obrigatório, seja pennitido. Exemplos deste procedimento mais especializado
seriam o compromisso de realizar uma ação e, provavelmente, o ato de bati­
zar. Para recorrer a tal procedimento é fundamental fazer com que certa con­
duta subseqüente seja correta, enquanto que outras não o sejam. Para muitos
fins - por exemplo, no caso das fónnulas legais, este objetivo se alcança
com mais felicidade. Mas há casos em que não são assim tão simples. Por
exemplo, posso expressar minha intenção dizendo simplesmente, " Eu o fa­
rei", mas é necessário que no momento de dizer isto eu tenha a intenção cor­
respondente, para meu ato não ser insincero. Qual é porém o grau ou tipo de
infelicidade envolvido se eu não vier a fazer o que disse? Para dar outro
exemplo: quando digo "seja bem-vindo", estou efetivamente dando boas-
SO J. L. Austin
vi ndas, mas 6 de presumjr-se que um certo tipo de intcnçOCN meNinO vugu/ol
necessários. Mas o que acontece se a pessoa fi l JUCIlI di ssc isto passe fi
se comportar rudemente? Ou, então, suponhamos que eu dê um conselho a
um antigo e este o siga, mas logo a seguir eu o censure por haver feito o 'lu
lhe aconsel hei. Em que medida sou obrigado a não me comportar desta for·
IllU'? Ou será que a questão se reduz simplesmente a " não se espera" que al­
uém se conduza assim? Ou será ainda que faz parte do pedir-e-dar cons"­
lhos tomar fora de ordem tal conduta subseqüente? Ou, de maneira sem",­
lhante, se rogo a alguém que faça algo e este concorda, e a segUÍl' eu protes­
to, estarei fazendo algo fora de ordem? Provavelmente sim. Mas há uma teo­
constante a esclarecer mais esta ordem de coisas, como quando, em
lugar de di zer " Eu o farei " , digo, por exemplo, "Tenho a intenção de ... " ou
" Prometo" .
Com isso concluímos as observações referentes às diversas maneiras
pelas quais os proferimentos perfonnativos podem ser infelizes, no sentido
de o "ato" ser simplesmente intencionado ou pretendido, etc. De maneira
geral, isto equivale a dizer, para usar o jargão técnico, que certas condições
devem ser satisfeitas para que os proferimentos possam ser felizes. Isto nos
compromete a dizer que um determinado proferimento performativo para ser
reliz exige que certas sentenças declarativas sejam verdadeiras. Em si mes­
mo, isto é, sem dúvida, um resultado trivial de nossas investigações. Para
evitar, pelo menos as infelicidades que já consideramos, devemos examinar:
(1) quais as sentenças declarativas que têm de ser verdadeiras? E se
(2) podemos dizer algo de interesse sobre a relação entre estas senten­
ças declarativas e o proferimento perfonnativo.
Lembrem-se de que na I Conferência dissemos que, de algum modo,
muitas coisas estão implicadas ao dizer "Prometo", mas isto é difere nte de
dizer o proferimento " Prometo" seja uma sentença declarativa verdadeira ou
fa lsa, que afIrma que certas coisas são de determinada forma. Devo agora
ocupar-me de certas coisas importantes e que devem ser verdadeiras para que
o ato seja feliz. Não me ocuparei de todas, mas as que abordarei parecerão
maçantes e triviais. Espero que seja assim, pois isto significa que já se toma­
ram " 6bvias" a esta altura.
Por exemplo, se ao dizer "Peço-lhe desculpas" estou realmente pedin­
do desculpas e sobre isto não paira a menor dúvida, então:
(1) é verdadeiro, e não falso, que estou fazendo (ou que fiz) algo, na
realidade, que fiz inúmeras coisas, entre estas pedir desculpas (ou ter pedido
desculpas);
Quando dlzer é fazer S1
(2) é verdadeiro, e não falso, que certas condições foram satisfeitas, em
particular as do tipo especificado nas regras A.l e A.2;
(3) é verdadeiro, e não falso, que foram satisfeitas também outras con­
dições desse tipo, em particular a condição de estar pensando em algo; e
(4) é verdadeiro, e não falso, que me comprometi a fazer algo subse­
qüentemente.
Estritamente falando, já foi explicado em que sentido "Peço-lhe des­
culpas" implica a verdade de cada uma destas coisas. Isto, aliás, foi exata­
mente o que estávamos explicando. Mas o importante é comparar estas "im­
plicações" dos proferimentos performativos com descobertas relativamente
recentes sobre as "implicações" de um tipo de proferimento privilegiado e
contrastante - isto é, a declaração ou proferimento constatativo - que, ao ..
contrário do performativo, é verdadeiro ou falso.
Tomemos em primeiro lugar a seguinte indagação: (1) qual é a relação
entre o proferimento "Peço-lhe desculpas" e o fato de estar pedindo descul­
pas? Importa perceber que isto é diferente da relação entre "estou correndo"
e o fato de estar correndo; ou caso não se trate de um mero informe, entre
"ele está correndo" e o fato de ele estar correndo. A diferença é marcada em
inglês pelo uso do presente contínuo nas fórmulas performativas; mas isto
nem sempre está marcado em todos os idiomas, já que pode inexistir a forma
contínua do verbo. Mesmo em inglês, aliás, isto nem sempre aparece tão
marcado.
Poderíamos dizer que correr, por exemplo, é o fato de alguém estar
correndo, e isto torna verdadeira a declaração de que ele está correndo. Por
outro lado, a verdade do proferimento constatativo "ele está correndo" de­
pende do fato de ele estar correndo, enquanto que no outro caso é a felicida­
de do performativo "Peço-lhe desculpas" que torna um fato meu, pedido de
desculpas, e meu êxito quanto a pedir desculpas depende da felicidade do
proferimento performativo "Peço-Ihe desculpas". Esta é uma das maneiras
pelas quais podemos justificar a distinção entre performativo e constatativo­
isto é, a distinção entre fazer e dizer.
Examinaremos a seguir três das muitas maneiras pelas quais uma decla­
ração implica a verdade de outras declarações. Um dos temas que pretendo
considerar é conhecido de longa data; os demais são descobertas recentes.
Não pretendo expor a questão de modo demasiadamente técnico, embora isso
possa ser feito. Refiro-me à descoberta de que as maneiras pelas quais po­
demos errar. isto é, falar de modo abusivo, ao formular conjunções de decla­
rações "factuais" , são mais numerosas que a mera contradição, que é uma
relação complicada e exige definições e explicações.
J. L. Austin
1. Impllcaçüo
A declaração "Todos os homens enrubescem" implica logicruncnte qu
"alguns homens enrubescem". Não se pode dizer que " todos os homens en­
rubescem", mas que alguns homens não o fazem, e tampouco se pode ruzer
que "o gato está sob o tapete e sobre o tapete", ou que "o gato está sob
o tapete e não está sobre o tapete". Nestes casos, a primeira sentença implica
logicamente a contraditória da segunda.
2. Implicação
O fato de dizer "o gato está sobre o tapete" implica na acepção de
O.E. Moore**, que creio que o gato está de fato ali. Não podemos dizer "o
gato está sobre o tapete, mas não creio nisso" . (Este não é, na realidade, o
uso comum de "implicar", no sentido de "dar a entender" . Com efeito, "im­
plicar", ou "dar a entender" é mais fraco, por exemplo, quando dizemos,
"Fulano deu a entender que já o sabia", ou "Você deu a entender que sabia
algo (o que é diferente de dizer simplesmente que acreditava em algo").
3. Pressuposição
"Todos os fIlhos de João são calvos" pressupõe que João tenha filhos.
• Austin distingue três tipos de relação entre sentenças: entails, que traduzimos por "implica logica­
mente", mas que também poderia ser traduzido por "acarreta" ou "segue-se"; implies, que traduzi­
mos por "implica"; e pressupposes, que não apresenta nenhum sentido especial e pode ser traduzido
pe lo termo correspondente em português, "pressupõe".
lermo "entail", introduzido por G. E. Mome (1919, " Externai and Internai Relations", Procee­
'illIgs of the Aristotelian SocietyJ, repr,,:senta a noção de implicação lógica ou conseqüência lógica. Isto
significa que a sentença A implica logicamente a sentença B, se não) é possível que A seja verdadeira o
D falsa. A relação de implicação lógica é formal no sentido de que se dá entre duas sentenças inde­
pendentemente de seu conteúdo significativo, mas em virtude apenas de suafoT71UlI6gica.. E a impU ­
cução lógica é uma relação necessária, no sentido precisamente de que não é poss(vel que A seja ver­
dadeira e B falsa (veja-se C. I. Lewis e C. H. Langford, Symbolic Logic, N. York, 1932).
/\. rigor, entretanto, se examinamos os exemplos dados, vemos que Austi n não interpreta a implicnçtlo
lógica como meramente formal. Pode-se considerar que "todos os homens enrubescem" implica lo­
leamente "alguns homens enrubescem" , já que o que se afirma de todos os indivíduos de uma espé­
cie deve-se afirmar também de alguns, independentemente de quais sejam esses indivíduos e do qu
BO afirma. Logo, a segunda sentença não pode ser ·falsa, sendo a pri meira verdadeira. No segund
xemplo, entretanto, não se trata, estritamente falando, de implicação 16gica, já que a implicação se
dó em virtude do significado dos termos "sobre" e "sob", o que contraria o caráter formal da relaçllo
(abstração feita do conteúdo significativo). Trata-se, na realidade, de um recurso 11 noção de anal iLi ­
cidade, já que o termo "sob" é, por definição, a negação do termo "sobre". O tercei ro exemplo seria
um caso legftimo de implicação lógica, já que esta se dá em virtude apenas da relação de conjunçll,
:nlre duas sentenças, sendo uma a negação da outra, independentemente de seus signi ficados.
/\. Implicação é uma noção mais fraca, já que a asserção implica a crença no asserido, mas a negllçll,
du crença no asserido não implica a negação do asserido. O valor de verdade de "eu creio que o gato
al lÓ sobre o tapete" não é determinado pelo valor de verdade de "o gato está sobre o tapete".
U Austin refere-se à di scussão da noção dc implicação por G. E. Moom no arti go citado na nota ael·
ma.
Quando dizer é fazer 52 53
Não podemos dizer " Todos os fIlhos de João são calvos, mas João não tem
filhos" ou "João não tem fIlhos, mas todos os seus fIlhos são calvos".
Em todos esses casos há o sentimento comum de se estar cometendo
um abuso, embora não possamos englobá-los sob um termo geral, como
"Lmplica" ou "contradição", por existir entre eles sensíveis diferenças. Há
muitas maneiras de se matar um gato além de afogá-lo na manteiga, mas isto
é o tipo de coisa (como indica o provérbio inglês) que nos passa despercebi­
da. Há outras maneiras de se cometer abusos lingüísticos além da contradi­
ção. Os principais tópicos a este respeito são: quantas são essas maneiras?
Por que constituem um abuso lingüístico? E em que consiste tal abuso?
Contrastemos estes três tópicos apelando para os procedimentos que
nos são familiares:
1 - Implicação Lógica
Se p implica logicamente q, então - q implica logicamente - p. Se "o
gato está sobre o tapete" implica logicamente que "o tapete está sob o ga­
to", então "o tapete não está sob o gato" implica logicamente que "o gato
não está sobre o tapete". Neste caso, a verdade de uma proposição implica
logicamente a verdade da outra, ou a verdade de uma proposição é inconsis­
tente com a verdade da outra.
2. Implicação
Aqui o caso é diferente. Se o fato de dizer que o gato está sobre o ta­
pete implica que creio que isto realmente ocorre, o fato de eu não crer que o
gato esteja sobre o tapete não implica (na linguagem usual) que o gato não
esteja sobre o tapete. Não nos ocuparemos aqui da inconsistência entre estas
proposições, mesmo porque são perfeitamente compatíveis. Pode ocorrer que
o gato esteja sobre o tapete eu não acredite nisso. Mas, no caso da implica­
ção lógica, não podemos dizer "pode ocorrer que o gato esteja sobre o tapete
e ao mesmo tempo que o tapete não esteja sob o gato". O que não é possível
aqui é dizer "o gato está sobre o tapete", e acrescentar "mas, não creio nis­
so" . A asserção implica a crença no que foi asserido.
3. Pressupõe
Também aqui a situação é distinta da implicação lógica. Se "os fIlhos
de João são calvos" pressupõe que João tenha fIlhos, não é verdade que o
fato de João não ter fIlhos pressuponha que seus ft.lhos não sejam calvos.
Além disso, tanto " os mhos de João são calvos" como "os fIlhos de João
54 _ J. L. Austin
não calvos" pressupõem iguuhnclltc que Jotw tenhu filho:;, MUII nfio ocon·,
que tanto "o gato está sobre o tapete" quanto "o guto nuo está sobre o tape­
te" impliquem logicamente que o gato esteja sob o tapele.
Consideremos novamente, de início, " implicar" e, a seguir, " pressu­
por" :
Implicar
Suponhamos que eu diga "o gato sobre o tapete" quando não creio d
fato que o gato esteja sobre o tapete. O que se poderia dizer então? Trata-s
claramente de um caso de insinceridade. Em outras palavras, aqui a infelici­
dade está afetando uma declaração, exatamente da mesma maneira em que
a infelicidade afeta "Prometo que ... " , quando digo isto e não tenho a inten­
ção, a crença, etc. A insinceridade de uma asserção é a mesma que a de uma
promessa. "Prometo, mas não tenho a intenção de cumprir o prometido"
paralelo a "isto é assim, mas eu não o creio" . Dizer "Prometo" sem ter a
intenção correspondente é análogo a dizer "isto é assim" sem se crer de fato
no que se diz.
Pressuposição
Consideremos os casos de pressuposição. O que devemos dizer da de­
claração "Todos os ftlhos de João são calvos" quando João não tem fIlhos?
Atualmente é costume dizer que a declaração não é falsa por carecer de refe­
rência* . A referência é necessária tanto para a verdade quanto para a falsi­
dade. Assim sendo, carecerá de significado? Não é bem disso que se trata.
Não se trata de uma sentença sem significado, gramaticalmente mal construí­
da, incompleta, disparatada, etc. Diz-se então que "a questão da verdade ou
da falsidade não se aplica neste caso". Direi aqui que o "proferimento é va­
zio" .
Comparemos isto com o nosso exemplo de infelicidade quando dizemos
"Batizo.. .", sem terem sido satisfeitas certas condições relativas a A.i e A.2
(especialmente, talvez, em relação a A.i , mas nos casos de declarações tam­
bém existe uma pressuposição paralela a A.I). Poderíamos ter aqui usado a
fórmula da pressuposição. Poderíamos dizer que a fórmula "Aceito esta
.. Trata-se do velho problema filos6fico da referência do falso, que já aparece no Sofista de Platlio. Se
as sentenças verdadeiras derivam sua verdade e portanto, nesta concepção tradicional, seu signl fi cu­
do, de sua relação de correspondência com a realidade, qual seria o significado das sentenças fal slIs?
Aparentemente não teriam significado, já que não correspondem à realidade. Porém, obviarncnto, lIS
sentenças falsas não são sem signi ficado; caso não tivessem significado não' se poderia sequer deter­
minar sua falsidade. Austin considera, portanto, a referência indispensável, mesmo no caso das sem­
tenças falsas. Veja-se a este respeito a discussão de B. Russell sobre a questllo da referência, Il Con­
ferência, n. do t. da p. 35.
Quando dizer é fazer SS
mulher ... " pressupõe inúmeras coisas. Se tais coisas nüo ocorrem, a fórmula
será infeliz ou nula. Um contrato não chega a se configurar se a referência
falhar ou se for ambígua; como no caso anterior, o que digo não chega a ser

uma declaração. Do mesmo modo, a questão de se um conselho é bom ou
mal não se coloca, se quem pretende aconselhar não estiver em condições de
fazê-lo.
Finalmente, pode ocorrer, nos casos de implicação lógica, que a manei­
v
ra pela qual uma sentença implica outra seja semelhante à maneira pela qual
" Prometo" implica logicamente 'Devo". Não é exatamente o mesmo, mas há
Cri térios possíveis de performativos
uma semelhança entre ambos os casos. "Prometo, mas não devo fazer o que
prometo" é semelhante a "é e não é". Dizer "Prometo" sem realizar o ato
prometido, é semelhante a dizer simultaneamente "é" e "não é" . Assim co­
mo o propósito de uma asserção se frustra devido a uma contradição interna
(quando, ao mesmo tempo, identificamos e contrastamos algo, anulamos ou
neutralizamos o procedimento), o propósito de um contrato também se frus- .
tra se disser "prometo, mas não devo fazer o prometido" . Esta expressão me
compromete, mas ao mesmo tempo, anula o compromisso. Trata-se de um
procedimento que anula a si próprio. Uma asserção nos compromete com
outra asserção e uma realização nos compromete com outra realização. Além Ao final da conferência anterior, estávamos considerando o problema
disso, assim como se p implica logicamente q então - q implica logicamente das relações entre os pro ferimentos perfonnativos e as declarações de vários
- p, do mesmo modo "não devo" implica logicamente "não prometo". tipos que seguramente são verdadeiras ou falsas. Mencionamos como parti­
Concluindo, para explicar o que pode dar errado com as declarações, cularmente notáveis quatro dessas conexões:
não devemos restringir nossa atenção à proposição em questão, seja ela qual 1) Se o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" é feliz, então a
for, como tradicionalmente se tem feito. Devemos considerar de modo global declaração de que estou pedindo desculpas é verdadeira.
a situação em que se fez o pro ferimento - isto é, o ato de fala em sua totali­ 2) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz, a
dade - para que se possa perceber o paralelismo que há entre a declaração e declaração de que se dão certas condições - principalmente as das Regras
o proferimento perfonnativo, e como um e outro podem dar errado. A.I e A.2 - tem que ser verdadeira.
Em casos especiais, a importância do ato de fala total, na totalidade da 3) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz, a
situação da fala, emerge progressivamente da lógica; e assim podemos ir as­ declaração de que dão certas outras condições - principalmente as da Regra
similando o proferimento supostamente constatativo ao perfonnativo. A.l - tem que ser verdadeira.
4) Se certos tipos de proferimentos perfonnativos, por exemplo, os
contratuais, são felizes, então são verdadeiras as declarações que afirmam
que devo ou não devo fazer algo subseqüentemente.
Disse que parecia haver alguma semelhança, e talvez mesmo identida­
de, entre a segunda dessas conexões e o fenômeno que, no caso das declara­
ções opostas aos perfonnativos, foi denominado "pressuposição". Diss
também que há semelhança ou talvez identidade entre a terceira dessas cone­
xões e o fenômeno que, no caso das declarações, é às vezes chamado (incor­
retamente a meu ver) "implicação". A pressuposição e a implicação são duas
maneiras pelas quais a verdade de uma declaração pode estar ligar de modo
56 J. L. Austin Quando dizer é fazer 57
importante com a verdade de outra, sem que se dê o caso de que uma impli­
que logicamente a outra no único sentido que levam em conta as pessoas ob­
secadas pela 16gica*. Apenas a quarta e última dessas conexões pode ser
apresentada - não digo até que ponto isto pode ser feito satisfatoriamen­
te - de modo a parecer uma relação de implicação lógica entre declara­
ções. " Prometo fazer X, mas não estou obrigado a fazê-lo" pode certamente
parecer mais com uma autocontradição - seja lá qual seja - do que "pro­
meto lazer X mas não tenho a intenção de fazê-lo". Também se pode dizer
que "não tenho a obrigação de fazer p" pode implicar logicamente "não
rrometi fazer p" , e poderíamos pensar que a fonna em que um determinado
p me compromete a um detenninado q não difere da maneira em que prome­
ter fazer X me compromete a fazer X. Mas não quero dizer que haja ou não
um paralelo aqui: só quero dizer que pelo menos nos outros dois casos há um
paralelo bem próximo; o que sugere que, pelo menos de alguma maneira,
ex iste o perigo de que se anule a distinção entre proferimentos constatativos
c pcrlonnativos que tentamos estabelecer de início.
Podemos, contudo, fortalecer-nos na convicção de que a distinção é de­
finitiva voltando à velha idéia de que o proferimento constatativo é verdadei­
ro ou falso e que o perfonnativo é feliz ou infeliz. Contraste-se o fato de que
estou pedindo desculpas, que depende de que o perfonnativo "peço descul­
pas" seja feliz, com o caso da declaração "João está correndo" , cuja verda­
de depende do fato de que João esteja correndo. Mas talvez este contraste
não seja tão seguro, também, porque para começar com as declarações o
constatativo "João está correndo" está relacionado com a declaração "estou
afinnando que João está correndo", cuja verdade pode depender de que
"João está correndo" seja um perfonnativo feliz; tal como a verdade de
"estou pedindo desculpas" depende de que "peço desculpas" seja um per­
fonnativo feliz. Tomemos em segundo lugar os perfonnativos. Relacionado
ao perfonnativo (suponho que o seja) "previno-o de que o touro está por
atacá-lo" está o fato, se é este o caso, de que o touro está por atacar meu
interlocutor. Se o touro não está por fazer isso, então, sem dúvida, o profe­
rimento "previno-o de que o touro está por atacá-lo" se encontra aberto a
criticas, mas não em nenhuma das maneiras que até agora caracterizamos
como tipos de infelicidades. Neste caso não diríamos que a advertência foi
nula - que quem tentou fazê-la não fonnulou uma advertência, mas que
apenas utilizou-se de uma fonna de advertência - nem que foi insincera.
~ Veja-se, a este respeito, a nota da p. 53 da conferência anterior, para as distinções entre implicação,
Jmpllcaçllo lógica e pressuposição. (N. do T.)
J.L.Austin
Sentir-nos-íamos muito mais inclinudos u dilcr lluO ti udvcrtêncla foi falsa,
ou melhor, equivocada, como pode ocorrer com uma declaração. Portanto,
considerações de felicidade e infelicidade podem infectar as declarações (ou
algumas delas) e as considerações de falsidade e verdade podem infectar per­
formativos (ou alguns deles).
Temos, então, que dar mais um passo à frente no deserto da precisão
comparativa. Devemos perguntar: há alguma forma precisa para distinguir o
proferimento eonstatativo do perfonnativo? E, em particular, deveríamos
naturalmente indagar primeiro se existe algum critério gramatical (ou lexi­
cográfico) para distinguir os proferimentos performativos.
Até agora só consideramos um pequeno número de exemplos clássicos
de performativos, todos com verbos na primeira pessoa do singular do pre­
-sente do indicativo da voz ativa. Veremos em breve que havia boas razões
para esta pequena astúcia. Os exemplos são: "Batizo", "Aposto", "Prome­
to", "Dou". Há razões bastante óbvias - com as quais me ocuparei rapida­
mente - que fazem com que este seja o tipo mais comum de performativo
explícito. Note-se que "presente" e "indicativo" não são denominações cor­
retas (sem falar nas implicações equívocas de "voz ativa"). Só as uso no
sentido gramatical conhecido. Por exemplo, o "presente", como coisa dis­
tinta de "presente contínuo", geralmente não tem nada a ver com descrever
(e nem mesmo com indicar) o que estou fazendo no momento. "Bebo cerve­
ja", como coisa distinta de "estou bebendo cerveja", não é análogo ao tem­
po futuro, que descreve o que farei no futuro, ou ao tempo passado, que des­
creve o que fiz no passado. É de fato mais comum que o presente indique um
hábito, nos casos em que é realmente "indicativo". E quando não é hábito, e
sim genuinamente "presente", como de alguma fonna ocorre no caso dos
performativos, tais como "batizo", então certamente não se trata de "indica­
tivo" no sentido dos gramáticos; isto é, no de descrever um certo estado de
coisas ou acontecimentos, de informar acerca disso ou relatar o que se pas­
sou. Porque, como vimos, o perfonnativo não descreve, nem infonna, mas
usado para fazer algo ou ao fazer algo. Usamos a expressão "presente do in­
dicativo;' simplesmente para referir-nos à forma gramatical inglesa I name
(batizo), I run (corro), etc. (Este erro na terminologia deve-se ao hto de se
assimilar, por exemplo I run ("corro") com a expressão latina "CUlCO" que
geralmente se deveria traduzir em inglês por I am running ("estou corren­
do"). O latim não tem dois tempos, enquanto que o inglês tem).
Mas o uso da primeira pessoa singular do chamado presente do indica­
tivo da voz ativa é um ingrediente essencial de todo proferimento performa-
Quando dizer é fazer
58
59
UvO? Não 6 necessário perder tempo com as exceçOes evidentes constituídas
pelo uso da primeira pessoa do plural: " prometemos", " aceitamos", etc. Há
exceções mais importantes e óbvias. Já nos referimos a algumas.
Um tipo muito comum e importante do que poderíamos pensar ser, fora
de qualquer dúvida, um performativo, apresenta o verbo na segunda e tercei­
ra pessoas (singular ou plural) e na voz passiva. Portanto, a pessoa e a voz
não são essenciais. Alguns exemplos desse tipo são:
1) "Pela presente está o senhor autorizado a pagar ... "
2) "Adverte-se aos passageiros que devem cruzar a via férrea somente
pela ponte."
Na realidade, o verbo pode ser "impessoal" em casos que levam a for­
ma da voz passiva. Por exemplo:
3) "Pela presente notifica-se que os intrusos serão processados."
Este tipo geralmente aparece em circunstâncias formais ou legais. Ca­
racteriza-se, pelo menos na linguagem escrita, pela inserção freqüente e tal­
vez até constante da expressão "pela presente". Isto serve para indicar que o
proferimento (escrito) da sentença é, como se costuma dizer, o instrumento
que leva a cabo o ato de "advertir", "autorizar", etc. "Pela presente" é um
critério útil de que o proferimento é performativo. Se tal expressão não é in­
serida, "Advertem-se os passageiros de que só devem cruzar a via férrea
pela ponte" , poderia ser usado para descrever o que normalmente acontece:
"ao aproximar-se do túnel, advertem-se os passageiros que não devem colo­
car a cabeça fora da janela", etc.
Contudo, se nos afastamos desses proferimentos performativos explí­
citos e altamente formais, temos de reconhecer que o modo e o tempo (até
aqui mantido em oposição a pessoa e voz) falham como critérios absolutos.
O modo não serve, porque posso ordenar alguém a virar à direita di­
zendo-lhe simplesmente "Vire à direita" e não "Ordeno-Ihe que vire à di­
reita"; posso pennitir que alguém saia dizendo simplesmente, "Pode sair"; e
em vez de " Aconselho-o (ou recomendo-lhe) que vire à direita" posso dizer
" Eu viraria à direita, se fosse você". O tempo também não serve, porque,
por exemplo, em vez de dizer "Acuso-o de ter feito X" posso simplesmente
dizer "você fez X". Isso para não mencionar os casos em que só temos uma
oração truncada, como quando aceito uma aposta dizendo simplesmente
" Está feito", e inclusive em casos em que não há verbo explícito algum, co­
mo ao dizer apenas "Culpado" quando considero a pessoa culpada, ou " Fo­
ra" quando ordeno a alguém que saia do jogo.
No caso particular de algumas palavras especiais que têm aparência de
perfonnativos, como, por exemplo, "falta", "impedido" (em futebol), pare­
.1. L. Austin
nos que poJ":1"ÍlUIlOS refutar até 11 regra tJuc govclllu () uso da VO'l. ativu ou
passiva que demos anterionnente. Em vez de "lJu o dcc)oro em impcdlmen
to" dizemos " Você está impedido". Assim, poderíamos pensar que certas
palavras estão aptas a servir de teste do proferimento perfonnativo, e qu
poderíamos fazer o teste por meio do vocabulário, como coisa distinta da
" gramática". Tais palavras poderiam ser " impedido", " autorizado", " prl
meto", " perigoso", etc., mas isso também não servirá, porque:
L Podemos ter o perfonnativo sem as palavras operacionais, assim:
(1) Em lugar de "esquina perigosa" podemos ter "esquina", e em ve
de "touro perigoso" podemos escrever "touro".
(2) Em vez de "você está autorizado a fazer X", podemos dizer "Você
pode fazer X", e em vez de "Prometo fazer X", podemos dizer "Farei X".
lI. Podemos ter a palavra operacional sem que o proferimento seja per­
formativo, assim:
(1) Em futebol um espectador pode dizer "foi fora mesmo". Do mes­
mo modo posso dizer "você foi culpado" ou "você estava impedido" ou
mesmo " você estava em falta", quando não tenho nenhum direito a fazer es­
se tipo de pronunciamento, em caráter oficial.
(2) Em locuções tais como "você prometeu" , "você autoriza" , etc., a
palavra ocorre em um uso que não é performativo.
Isso nos leva a um impasse no que diz respeito a um critério simples e
único fundado na gramática ou no vocabulário. Mas talvez não seja impossf­
vel produzir um critério complexo, ou pelo menos um conjunto de critérios,
simples ou complexos, que tomem em consideração tanto a gramática quanto
o vocabulário. Por exemplo, um dos critérios poderia ser que toda expressão
com o verbo no modo imperativo é performativa, mas isso nos levaria a en­
frentar muitos problemas, como, por exemplo, determinar quando o verbo
está no imperativo e quando não está, problemas nos quais não quero me en­
volver.
PrefIro voltar atrás por um instante e ver se há ou não uma boa razão
por detrás de nossa preferência inicial pelos verbos no chamado " presente
indicativo da voz ativa".
Dissemos que a idéia de um proferimento performativo exigia que a
expressão consistisse na realização de uma ação (ou que fizesse parte dessa
realização). As ações só podem ser realizadas por pessoas, e, em nossos ca­
sos, é óbvio que quem usa a expressão deve ser o que realiza a ação. Daí
nosso sentimento justificável - que erroneamente apresentamos em termos
puramente gramaticais - em favor da "primeira pessoa", que deve aparecer,
ser mencionada ou referida. Além disso, se quem profere a expressão está
Quando dizer é fazer
60
61
atuando, tom que estar fa:lcnuo al go donde nossa talvez mal­
expressada, pelo presente gramatical e pela voz ativa gramatical do verbo.
Ilá algo que, no momento em que se profere a expressão, está sendo reali­
zado pela pessoa que a profere.
Quando, na fórmula verbal da expressão não há uma referência à pes­
&oa que a profere e assim realiza o ato, isto é, quando não há uma referência
a ela por meio do pronome "eu" (ou por seu nome próprio), então "far-se-á
referência" à dita pessoa por meio de uma dessas fórmulas :
(a) Nas expressões orais, pelo fato de ser ela a pessoa que profere a
expressão, o que podemos chamar de origem do proferimento, que é usado
geralmente em qualquer sistema de coordenadas-de-referência verbais.
(b) Nos proferimentos escritos (ou "inscrições"), pelo fato de ser a
dita pessoa que coloca a sua assinatura (naturalmente que tem de fazer isso,
já que as expressões escritas não estão ligadas à sua origem da mesma forma
em que o estão as orais).
O "eu" que está realizando a ação entra, assim, essencialmente na ce­
na. Uma vantagem da forma com a primeira pessoa do singular do presente
do indicativo da voz ativa - e também das formas na voz passiva (na se­
gunda e terceira pessoas e quando o verbo é "impessoal"), todas elas com a
assinatura aposta - é que se torna explícita esta característica implícita da
situação lingüística. Além do mais, os verbos que, em base do vocabulário,
parecem ser especialmente performativos servem à fmalidade especial de ex­
plicitar (o que não é o mesmo que relatar ou descrever) qual é a ação precisa
que foi realizada ao proferir-se a expressão. As outras palavras que parecem
ter uma função especialmente performativa (e que na realidade a têm), tais
como "culpado", "impedido", etc., se comportam assim quando estão liga­
das em sua "origem" a verbos performativos explícitos, tais como "prome­
ter", "proclamar", "declarar", etc.
A fórmula "por meio da presente" é uma alternativa útil, mas é dema­
siado formal para os fms ordinários, e além disso, podemos dizer, "pela pre­
sente afirmo" ou "pela presente observo", e não devemos esquecer que es­
tamos procurando um critério para distinguir as declarações dos performati­
vos. (Tenho que explicar, a esta altura, mais uma vez, que estamos tateando.
Sentir o terreno fIrme do preconceito escorregar sob nossos pés é gratifIcan­
te, mas traz seus revezes).
Assim, o que nos sentiríamos inclinados a dizer é que todo proferi­
menta que seja de fato um performativo deveria ser capaz de ser reduzido,
expandido ou analisado de modo tal que se obtivesse uma forma na primeira
pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa (gramatical). Esse
é o tipo de teste que na realidade estávamos usando acima. Assim:
J. L. Austin
"fora" equivale a "Eu decluro, procluIl10 ou digo que você está fora
do jogo" (quando é um performativo. Mas nem sempre o é, por exemplo,
quando a pessoa que declara que cu estou fora do jogo não 6 o juiz da parti­
da.)
"Culpado" equivale a "Eu o declaro culpado" .
"Avisa-se que o touro é perigoso" equivale a "Eu, João da Silva, o
aviso que o touro é perigoso" ou equivale a
Este touro é perigoso
(Ass.) João da Silva
Este tipo de expansão torna explícito que o proferimento é performati­
vo, e qual o ato que está sendo realizado. A menos que o proferimento per­
formativo seja reduzido a uma tal forma explícita, será possível normalmente
. tomá-lo como se não o fosse. Por exemplo, "isso é teu" pode ser tomado
como equivalente a "eu te dou isso" ou a "isso já pertence a ti". Na realida­
de, há um jogo de palavras nos usosperformativo e não performativo do
aviso das estradas "Foram avisados que ... "
Contudo, embora possamos avançar ao longo dessa linha (há obstácu­
los) I, é preciso notar que essa primeira pessoa do singular do presente do in­
dicativo da voz ativa, assim chamada, constitui um uso peculiar e especial.
Em particular temos de notar que há uma assimetria sistemática entre essa
forma e as outras pessoas e tempos do mesmo verbo. O fato de haver esta
assimetria é precisamente a nota característica do verbo performativo (e é o
que podemos encontrar de mais próximo a um critério gramatical em cone­
xão com os performativos).
Tomemos como exemplo os usos de "aposto" contrastados com o uso
desse verbo em outro tempo e em outra pessoa. "Apostei" e " Ele aposta"
não são performativos, pois descrevem ações minhas e de outro, respectiva­
mente, ações que, em cada caso, constituem o pro ferimento do performativo
"aposto". Se profuo as palavras "Eu aposto" ... não afmno que profuo as
palavras "Eu aposto", ou qualquer outra, e sim realizo o ato de apostar. Do
mesmo modo, se ele diz que aposta, isto é, diz as palavras "Eu aposto" , ele
aposta. Mas se profuo as palavras "Ele aposta", apenas afmno que ele pro­
fere (ou melhor, proferiu) as palavras "Eu aposto", mas eu não realizo o seu
ato de apostar, que só ele pode realizar; apenas descrevo sua realização do
ato de apostar, mas eu faço minha própria aposta, e ele terá de fazer a sua.
1 Por exemplo, quais são os verbos com que se pode fazer isso? Se o performativo é expandido, qual
é o teste para determinar se a primeira pessoa do singular do presente do indicativo na voz ativa é, em
determinado caso, performativa, levando em conta que todas as outras formas devem ser reduzidas n
esta.
Quando dizer é fazer 62 63
De maneira semelhante, um pai ou mãe ansiosos, quando seu fIlho foi soli­
citado a fazer algo, podem dizer "ele promete, não é mesmo, Toninho?" ,
mas o pequeno Toninho tem que dizer, ele mesmo, "Prometo" para que te­
nha efetivamente prometido. Esta espécie de assimetria não se apresenta em
geral nos casos dos verbos que não são usados como performativos explíci­
tos. Por exemplo, não existe tal assimetria entre "eu corro" e "ele corre".
Contudo, é duvidoso que este seja exatamente um critério "gramatical"
(qual seria?), e de qualquer modo não é um critério muito exato, porque
(1) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­
va pode ser usada para descrever como me comporto habitualmente: "aposto
(todas as manhãs) dez cruzados como vai chover", "prometo unicamente
quando tenho a intenção de cumprir com a minha palavra".
(2) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­
va pode ser usada de modo semelhante ao presente "histórico". Posso usá-Ia
para descrever meus próprios atos realizados em outro tempo e em outro lu­
gar. Por exemplo, "na página 49 protesto contra o veredito". Podemos justi­
ficar isto dizendo que os verbos performativos não são usados no presente
contínuo (na primeira pessoa do singular na voz ativa). Não dizemos "estou
prometendo", nem "estou protestando". Mas mesmo isto não é totalmente
verdade, porque posso dizer "Não me perturbes agora; te verei mais tarde.
Estou me casando" a qualquer altura da cerimônia, quando não estou tendo
que dizer outras palavras tais como, "Aceito". Em tal caso o proferimento
do performativo não constitui todo o ato, que se estende no tempo e contém
diversos elementos. Ou posso dizer "Estou protestando" ao realizar o ato,
valendo-me de outros meio que não o "úer "Protesto", por exemplo, atiran­
do pedras contra os portões de uma embaixada. Ou posso até dizer "Estou
ordenando" enquanto escrevo a palavra "Ordeno".
(3) Alguns verbos podem ser usados na primeira pessoa do singular do
presente do indicativo da voz ativa de duas maneiras simultâneas. Um exem­
plo é "chamo", como quando digo: "chamo inflação ao excesso de dinheiro
em busca de bens escassos", que abarca tanto um pro ferimento performativo
quanto uma descrição de um ato naturalmente conseqüente.
(4) Corremos o risco aparente de incluir fórmulas demais que podería­
mos não querer qualificar de performativas. Por exemplo, "Afirmo que ... "
(pronunciar estas palavras é declarar, da mesma forma que "aposto que ... " é
apostar).
(5) Temos casos de adequação da ação à palavra. Assim, posso dizer
"rio-me de você" e imediatamente rir; ou dizer "acomodo" numa partida de
xadrez, quando toco numa peça apenas para acomodá-la bem; ou dizer, "ci-
J. L. Austin
to" e passar a citar realmente. Se dou uma defmição dizendo, "defi no X c
mo se segue: X é Y" este é um caso de adequar a ação (de deflnir) à palavra.
Quando usamos a fórmula "defino X como Y" temos a transição para um
proferimento performativo de um caso de adequação da ação à palavra. Po­
deríamos acrescentar também que, do mesmo modo, há uma transição ao uso
de performativos. Há uma transição da palavra FIM no final de um romance
para a expressão " [mda a mensagem" no [mal de uma mensagem em código,
levando à expressão "com isto concluo minha defesa", dita por um advoga­
do diante do tribunal. Podemos dizer que estes são casos em que a palavra
indica a ação e nos quais, eventualmente, o uso da palavra chega a ser a
ação de "concluir" (ato difícil de realizar, já que é o cessar da ação, ou, em
, todo caso, difícil de tornar explícito de outras maneiras).
(6) Sempre se dá o caso de ser necessário ter um verbo performativo
para tornar explícito algo que sem dúvida estamos fazendo ao dizer certas
palavras? Por exemplo, posso insultar uma pessoa dizendo-lhe algo, mas não
temos a fórmula "Eu o insulto".
(7) Dá-se realmente o caso de podermos sempre colocar um performa­
tivo numa forma normal sem perder nada? "Estarei lá" pode querer dizer
coisas diferentes. Talvez contemos com esta ambigüidade. Ou quando dize­
mos "Sinto muito", isto equivale exatamente ao performativo explícito "Pe­
ço-Ihe desculpas?".
Teremos que voltar à noção do performativo explícito e devemos dis­
cutir, pelo menos historicamente, como surgem algumas dessas perplexida­
des, que, talvez, em última análise não sejam assim tão graves.
Quando dizer é fazer
64
65
e
VI Conferência
Performativos explícitos
Por haver sugerido que os performativos não são assim tão obviamente
distintos dos constatativos - os primeiros felizes ou infelizes, os segundos
verdadeiros ou falsos - passamos a considerar como definir mais claramente
os performativos. A primeira sugestão foi a de se encontrar um critério ou
critérios gramaticais, ou de vocabulário, ou uma combinação de ambos.
Destacamos o fato de que certamente não há nenhum critério absoluto deste
tipo; e de que muito provavelmente não seria viável sequer fazer uma lista de
todos os critérios possíveis. Além disso, tais critérios não serviriam para dis­
tinguir os performativos dos constatativos, uma vez que é muito comum que
a mesma sentença seja usada, em diferentes ocasiões de proferimento, das
duas formas, como performativo ou como constatativo. O problema parece
sem solução se deixarmos os proferimentos tal como estão e continuarmos a
buscar um critério.
Contudo, o tipo de performativo do qual tiramos nossos primeiros
exemplos, que tem um verbo na primeira pessoa do singular do presente do
indicativo da voz ativa, parece merecer nossa preferência, pelo menos nos
casos em que fazer o pro ferimento é realizar o ato. Nesse caso o pronome
"eu", a "voz ativa" e o "presente" parecem apropriados. Embora os per­
formativos não sejam, na verdade, como os demais verbos nesse "tempo" ,
há uma assimetria essencial entre os performativos e esses outros verbos. Es­
sa assimetria é, na verdade, característica de uma longa lista de verbos que
se parecem com os performativos. Sugerimos então:
J. L. Austin
1) fazer uma lista de todos os verbos com essa pecuJiaridad""
2) Supor que todos os proferimentos perfonnntivos que não se apl\;,"
sentem nessa forma privilegiada - começando com "eu x que ... ", "eu
x a ... ", "eu x ... " - podem ser "reduzidos" a esta forma e convertidos no
que chamaríamos de performativos expltcitos.
Devemos nos perguntar agora se isso será fácil ou sequer poss(vel. t
relativamente fácil aceitar certos usos bastante normais, embora diferentes,
da primeira pessoa do presente do indicativo da voz ativa, mesmo com esses
verbos que podem muito bem ser constatativos ou descritivos, isto é, verbos
no presente habitual, no presente "histórico" e no presente contínuo. Mas
ainda assim, como já haviam mencionado rapidamente ao concluir a confe­
rência anterior, há outras dificuldades adicionais. Mencionei três .delas como
sendo típicas:
(1) "Classifico" ou talvez "Considero" parecem por um lado consta­
tativos, por outro lado performativos. Qual dos dois seriam? Ou se­
riam ambos?
(2) "Declaro que ... " parece adequar-se às nossas exigências gramati­
cais ou "como que gramaticais" , mas desejamos de fato incluí-lo?
Nosso critério, tal como o expusemos, corre o risco de incluir ex­
pressões não performativas.
(3) Às vezes, dizer algo parece ser caracteristicamente fazer algo, por
exemplo, ao insultar ou repreender alguém. Contudo, não existe o
performativo "Eu o insulto". Nossc critério não incluirá todos os
casos em que fazer um proferimento é realizar algo, porque a "rp ­
dução" a um performativo explícito nem sempre é possível.
Paremos um pouco para considerar mais detidamente a expressão "per­
formativo explícito", que introduzimos de maneira um tanto sub-reptícia.
Vamos colocá-la em oposição a "performativo primário" (que preferimos a
peformativo implícito ou inexplícito). Demos como exemplo:
1) proferimento primário: "Estarei lá".
2) performativo explícito: "Prometo que estarei lá". Dissemos que esta
forma tornava explícita a ação realizada ao se fazer o proferimento "Estarei
lá". Se alguém diz "estarei lá" , podemos perguntar "Trata-se de uma pro­
messa?" A resposta pode ser "Sim", ou "Sim, prometo" (ou "Prometo
que ... "). Por outro lado, a resposta poderia ter sido apenas, "Não, mas pre­
tendo estar lá" (expressando ou anunciando uma intenção), ou, então, "Não,
mas posso prever que, conhecendo o meu fraco, eu (provavelmente) estarei
lá" .
Quando dizer é fazer _____________________
66
7
Devemos fonnular agota. duas advertências: "tomar expl1cito" não é o
mesmo que descrever ou relatar (ao menos não no sentido que os ftlósofos
preferem dar a estes tennos) o que estou fazendo. Se "tomar explícito" dá
essa idéia, então é um tenno inadequado. A situação no caso das ações que
não são lingüísticas, mas que se assemelham a proferimentos perfonnativos
por caracterizarem a realização de um ato convencional (ritual ou cerimo­
nial), é a seguinte: suponhamos que eu me incline profundamente diante de
uma pessoa. Pode não ficar claro se estou fazendo uma reverência ou, diga­
mos, se estou me curvando para observar a flora ou para aliviar minha indi­
gestão. De modo geral, então, para esclarecer que se trata de um ato cerimo­
nial convencional, e também para identificar o ato (por exemplo, como um
ato de reverenciar), deve-se incluir, via de regra, um outro elemento espe­
cial, como, por exemplo, tirar o chapéu, tocar o chão com a testa, levar a
mão ao coração, ou até mesmo emitir algum som ou proferir uma palavra
como "Salaam". Ora, proferir "Salaam" não é descrever minha ação, nem
indicar que estou realizando uma reverência, assim como não o é o fato de
tirar o chapéu. Pela mesma razão - mais adiante voltaremos a isso - dizer
"Eu o saúdo" não é descrever meu ato de saudar. Fazer ou dizer tais coisas
é tornar claro como o ato deve ser considerado ou entendido, dizer de que
ação se trata. O mesmo se dá quando usamos a expressão "Prometo que".
Não se trata de uma descrição porque (1) não pode ser verdadeira, nem falsa;
(2) dizer "eu prometo que" (se o perfonnativo for feliz, é claro) constitui,
sem ambigüidades, uma promessa. Podemos dizer que uma fónnula perfor­
mativa como "Prometo" esclarece como se deve entender o que foi dito. Po­
de-se até conceber que a fónnula "declare que" a promessa foi feita. Mas
não se pode dizer que tais proferimentos sejam verdadeiros ou falsos, nem
que sejam descrições ou relatos.
Em segundo lugar, uma advertência menos grave. Observem que, em­
bora nesse tipo de proferimento tenhamos um "que" introduzindo uma frase
depois do verbo, por exemplo, "prometo que", "acho que", "declaro que"
(ou, ainda, verbos como "calculo que"), não se tratam de casos de "discurso
indireto". No discurso indireto ou oratio obliqua, as frases iniciadas por
"que" são, é claro, casos em que relato o que outra pessoa, ou, mesmo, em
outra ocasião, disse.
Um exemplo típico é "Ele disse que ... ", mas também, possivelmente,
"Ele prometeu que ... " (ou será este um duplo uso de " que"?) ou, "na pági­
na 456 afirmei que ... " . Se esta é uma noção claraI vemos então que o "que"
1 Minha explicação ê muito obscura, como as que os livros de gramática dão sobre frases iniciadas
por "que". Compare-se com isto a explicação mais obscura sobre as frases que contêm "o que" .
68 J. L. Austin
do discun;o indireto nlio é de 1110<.10 algum ao ilquc" dos perror
mativos expllcitos. Nestes casos não estou relatando, na primeira pessoa <./0
singular do presente do inclicativo da voz ativa, o meu próprio discurso. Di­
ga-se de passagem, não é absolutamente necessário que um verbo pcrforma­
tivo explícito deva ser seguido de "que". Em muitos tipos de casos impor­
tantes o verbo é seguido por preposição, ou não é seguido de nada. Exem­
plos: "Peço desculpas por. .. ", "eu o saúdo" , etc.
Algo que parece nos pennitir fazer pelo menos uma boa suposiçã",
tanto do ponto de vista da construção lingüística, quanto do da natureza
desta no perfonnativo explícito, é o seguinte: historicamente, do ponto de
vista da evolução da linguagem, o perfonnativo explícito deve ter se desen­
volvido posterionnente a certos proferimentos mais primários, muitos dos
quais são já perfonnativos implícitos, incluídos em muitos dos perfonnativos
explícitos, ou até, em sua maioria, como partes de um todo. Por exemplo,
"Eu o farei" , é anterior a "Prometo que o farei". Uma explicação plausível
(não sei exatamente como poderia ser demonstrada) seria que nas linguagens
primitivas ainda não estaria claro, ainda não seria possível distinguir quais
das diferentes coisas (valendo-nos de distinções posteriores) que poderíamos
estar fazendo, estávamos de fato fazendo. Por exemplo, "touro" ou "tro­
vão", em uma linguagem primitiva que consistisse de proferimentos de uma
s6 palavra,2 poderiam ser uma advertência, uma infoonação, uma predição,
etc. Parece também plausível supor que a distinção explícita das diferentes
forças que um pro ferimento deste tipo possa ter seja uma conquista posterior
da linguagem, de importância considerável. As foonas primitivas ou primá­
rias dos proferimentos conservam, neste sentido, a "ambigüidade", ou "e­
quívoco", ou o "caráter vago" da linguagem primitiva. Tais fonnas não tor­
nam explícita a força exata do proferimento. Isto pode ter suas vantagens,
mas a sofisticação e o desenvolvimento de foonas e procedimentos sociais
exigem clarificação. Mas notem que esta clarificação é um ato tão criativo
quanto uma descoberta ou uma descrição. Trata-se tanto de estabelecer di s­
tinções claras, quanto de tornar claras distinções já existentes.
Uma coisa que tendemos a fazer e que, porém, é muito perigosa, é con­
siderar que de alguma fonna sabemos que o uso primário das sentenças tem
2 possível de fato que as linguagens primitivas fossem deste tipo, cf. Jespersen. "
.. Referência ao lingüista dinamarquês Otto Jespersen e à sua obra Language, its nature, developnl(l/I(
arul origin, Londres, 1922. A questão da origem da Linguagem foi um dos problemas mais centrais
nos prim6rdios da Lingüística, sendo o mais famoso o trabalho de 1. Herder Ablumdlung über d CII
Ursprung der Sprache (Tratado sobre a Origem da Linguagem) publicado em 1772 e escrito em ros­
posta à questão formulada pela Academia de Ciências da Prdssia em 1769.
A discussão sobre a origem da Linguagem é hoje uma questão basicamente abandonada pela pilosono
da Linguagem, devido ao seu caráter eminentemente especulativo. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 6
de ser, porque deve ser; um uso declarativo ou constatativo, no sentido es
cífico do fIlósofo, segundo o qual se trata de um proferimento cuja única
pretensão é ser verdadeiro ou falso e que não está sujeito a nenhum outro ti­
po de critica. Certamente não podemos saber isso, como também não pode­
mos saber se todos os proferimentos tiveram sua origem em imperativos
(como alguns afInnam) ou em xingamentos. Parece muito mais provável que
a "pura" declaração, seja uma meta, um ideal , ao qual o desenvolvimento
gradual da ciência deu impulso, assim como deu impulso ao ideal de preci­
são. A linguagem em si, e nos seus estágios primitivos, não é precisa, nem
explícita, no sentido que demos a esta palavra. A precisão na linguagem tor­
na claro o que foi dito, o significado. A explicitação, em nosso sentido, tor­
na mais clara a força do proferimento, ou seja, como (no sentido indicado
abaixo) deve ser considerado.
A fónnula perfonnativa explícita, além disso, é apenas o último e o
mais eficaz recurso lingüístico, dentre muitos que sempre foram usados com
maior ou menor êxito para desempenhar a mesma função (assim como a pa­
dronização foi o recurso mais bem-sucedido para se desenvolver a precisão
da fala).
Consideremos por um momento alguns destes outros recursos lingüísti­
cos mais primitivos, algumas das funções que podem ser melhor desempe­
nhadas pelo recurso ao performativo explícito (embora, é claro, não sem al­
guma modifIcação ou perda, como veremos).
1. Modo
Já mencionamos o recurso extremamente comum de usar o modo impe­
rativo. Isto faz com que o proferimento seja uma "ordem" (ou uma exorta­
ção, ou permissão, ou concessão, o que seja!). Assim, posso dizer "Fe­
che-a", em diversos contextos:
"Feche-a, faça-o" , assemelha-se a " Ordeno-lhe que a feche" .
"Feche-a, eu o faria" , assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la".
"Feche-a, se quiser" , assemelha-se a "Permito que a feche".
"Muito bem, então feche-a" , assemelha-se a "Consinto que a feche".
"Feche-a, se tiver coragem", assemelha-se a "DesafIo-o a fechá-la" .
Ou, ainda, podemos usar verbos auxiliares.
"Pode fechá-la", assemelha-se a "Dou-lhe perrnissão para que a fe­
che".
"Tem de fechá-la", assemelha-se a "Ordeno-lhe, previno-lhe, que a fe­
che".
"Deve fechá-la" , assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la."
J. L. Austin
• Tom de voz, cudênclll, ênfusc
(Análogo a isto 6 o recurso sofisticado de se usar instruções junto aos
diálogos em peças teatrais; por exemplo, "ameaçadoramente", etc). Exem­
plos desse tipo são:
Vai atacar-nos! (aviso)
Vai atacar-nos? (pergunta)
Vai atacar-nos!? (protesto)
Estes aspectos da linguagem falada não são fáceis de se reproduzir no.
linguagem escrita. Por exemplo, tentamos transmitir o tom de voz, a cadên­
cia e a ênfase de um protesto através do uso de um ponto de exclamação se­
guido de um ponto de interrogação (mas isso é muito insatisfatório). A pon­
tuação, o uso do grifo e a ordem das palavras podem ser úteis, mas são ri
cursos bastante toscos.
3. Advérbios e Expressões Adverbiais
Na linguagem escrita - e, até mesmo, em certos casos, na linguagem
falada, embora nesta isto não seja tão necessário - utilizamos advérbio
expressões adverbiais e certos torneados lingüísticos. Assim, podemos ate­
nuar a força de "Eu o farei" , acrescentando "provavelmente", ou aumen­
tá-la, acrescentando "sem falta" . Podemos dar ênfase (a uma advertência, ou
seja o que for) escrevendo "Seria bom que você nunca se esquecesse dis­
sO... " . Muito se poderia dizer aqui a respeito das conexões que há entre tais
recursos e os fenômenos de insinuar, sugerir, dar a entender, "expressar"
(palavra odiosa!), etc., todos os quais são essencialmente diferentes, embora
envolvam, muito freqüentemente, o emprego de expressões verbais e cir­
cunlóquios semelhantes. Na segunda metade de nossas conferências nos
voltaremos para as importantes e difíceis distinções que devem ser feitas a
este respeito.
4. Partículas conectivas
Em um nível talvez de maior sutileza, aparece o recurso verbal especial
de se usar uma partícula com,:;tiva. Assim, podemos usar a partícula "contu­
do" com a força de " insisto que" ; usamos " portanto" com a força de "con­
cluo que"; usamos "embora" com a força de "admito que". Notem-se tanr
bém os usos de "ao passo que", "dessa forma" e "além do mais"3. O uso de
títulos como Manifesto, Decreto, Proclamação, ou o subtítulo "Um Roman­
ce ... ", serve a um propósito muito semelhante.
3 Mas alguns destes exemplos levantam a velha questão se "admito que" e "concluo que" snoOu nno
performativos.
Quando dizer é fazer 70 71
Al6m do que dizemos c da maneiro do há outros recW'Sos es­
senciais - como os que mencionaremos a seguir - que pennitem veicular,
de algum modo, a força do proferimento.
S. Elementos que acompanham o proferimento
Podemos acompanhar o proferimento das palavras com gestos (piscar
de olhos, sinais, dar de ombros, franzir o cenho, etc.) ou com atos cerimo­
niais não-verbais. Tais recursos, às vezes, podem ser usados sem o proferi­
mento lingüístico e sua importância é bastante evidente.
6. As circunstâncias do proferimento
Uma ajuda extremamente importante resulta das circunstâncias do pro­
ferimento. Assim, podemos dizer: "Vindo dele, interpretei aquilo como uma
ordem e não um pedido". Do mesmo modo, o contexto das palavras: "morre­
rei um dia", "te deixarei o meu relógio" e, em particular, o estado de saúde
da pessoa que fala, são relevantes para determinar como estas palavras de­
vem ser interpretadas.
Mas, de certo modo, tais recursos são excessivamente ricos em signifi­
cado. Prestam-se a equívocos e a distinções errôneas e, além do mais, são
utilizados também para outros propósitos, como, por exemplo, a insinuação.
O performativo explícito exclui os equívocos e mantém a realização relati­
vamente estável.
A dificuldade com esses elementos consiste principalmente no fato de
ser vago o seu significado e incerto o resultado de sua recepção. Mas prova­
velmente também deve haver neles alguma inadequação, em sentido positivo,
para enfrentar a complexidade do âmbito das ações que realizamos com pa­
lavras. Um "imperativo" pode ser uma ordem, uma pennissão, uma exigên­
cia, um pedido, uma sugestão, uma recomendação, uma advertência ("V á,
para você ver o que acontecerá"), ou pode expressar uma condição, uma
concessão, ou uma defmição ("Seja ... "), etc. Entregar algo a alguém pode
ser, quando dizemos "Tome isto" , um presente, um empréstimo ou um ato
de entregar em confiança. Dizer "Estarei lá" pode ser uma promessa, ou po­
de expressar uma intenção, ou pode ser uma previsão para o futuro. E assim
sucessivamente. Sem dúvida que uma combinação de alguns ou de todos es­
ses elementos mencionados acima (e é provável que ainda haja outros) será,
via de regra, suficiente. Assim, quando dizemos "Estarei lá", podemos dei­
xar claro que estamos fazendo uma simples previsão futura, acrescentando os
advérbios "sem dúvida" ou "provavelmente"; ou que estamos expressando
uma intenção, acrescentando o advérbio "com certeza"; ou que estamos fa-
J. L. Austin
ndo UI11U promessa, acrescentando a expressíio tldvt.:rbiul"/)cm faJu,". 011 1\
frase "farei todo o possível".
Deve-se notar que quando existem verbos pcrfonnativos. podemos usá
los não só em fórmulas do tipo "(prometo) que ... " ou "(exorto-o) a ... ", mas
também nas instruções que acompanham um diálogo teatral ("saudações"),
em títulos ("advertência!"), e entre parênteses (este é um teste quase tão
bom da presença de performativos, quanto as outras formas normais qu
apresentamos). Não devemos esquecer tampouco o uso de palavras especiais
como "Fora, etc., que não possuem forma normal.
Contudo, a existência e até mesmo o uso dos performativos explfcitos
não resolvem todas as nossas dificuldades.
(1) Em ftlosofia podemos até levantar a questão da possibilidade de os
performativos serem confundidos com sentenças descritivas ou constatativos.
(la) Nem se trata simplesmente de que o performativo não conserve o
caráter equívoco, por vezes agradável das expressões primárias. Também
temos que considerar, de passagem, os casos em que é duvidoso determinar
se a expressão é ou não um performativo explícito, e casos muito semelhan­
tes aos performativos sem o serem de fato.
(2) Parece haver casos evidentes em que a mesma fórmula aparente­
mente é às vezes um perfonnativo explícito e às vezes é descritiva, e pode
até jogar com esta ambivalência: por exemplo, "Aprovo" e "Concordo".
Assim, "Aprovo" pode ter a força performativa de dar aprovação ou pode
ter o significado descritivo de "Estou a favor disto".
Consideraremos dois tipos clássicos de casos em que se apresenta o
problema e que exibem alguns dos fenômenos incidentais no desenvolvi­
mento das fórmulas performativas explícitas. Há numerosos casos na vida
humana em que sentir uma certa "emoção" ou "desejo", ou adotar uma certa
atitude, é convencionalmente considerado uma resposta ou reação adequada
a certos estados de coisas, incluindo a realização por parte de alguém de um
certo ato, casos em que esta resposta é natural (ou assim queremos crer!,.
Em tais circunstâncias é possível e comum que de fato sintamos a emoção ou
o desejo em questão. E uma vez que nossas emoções e desejos não são fa­
cilmente detectáveis pelos demais, é comum que queiramos informar-lhes
que os sentimos. É compreensível que, embora por razões um pouco düe­
rentes e talvez menos recomendáveis em certos casos, se tome obrigatório
"expressar" tais sentimentos, quando os temos, e até mesmo quando isso
apropriado, quer os tenhamos ou não. Exemplos de expressões usadas desta
forma são:
Quando dizer é fazer 72 7
Agradeço Sou Groto Sinto-mo bYJ'8to
Peço desculpas Lamonto A rrepcndo- me
CritiCO }
Censuro Culpo
Estou chocado com
Estou revoltado com
Aprovo Aprovo Sou favorável a
Dou-lhe as boas­
vi ndas Recebo com prazer
Felicito-o Alegro-me com
Nestas listas, a primeira coluna contém proferimentos performativos; as
expressões na segunda coluna não são puramente descritivas e sim semides­
critivas, e as da terceira coluna são meros relatos. Há, pois, numerosas ex­
pressões, dentre elas algumas muito importantes, que sofrem de uma certa
deliberada ambivalência, ou se beneficiam dela. Tal ambivalência é combati­
da pela introdução constante de frases performativas deliberadamente puras.
Podemos sugerir alguns testes para decidir se "aprovo" ou "lamento" está
sendo usado (ou mesmo se é sempre usado) de uma ou de outra maneira.
Um teste seria se faz sentido dizer "É realmente assim?". Por exemplo,
quando alguém diz "Eu o recebo com prazer" ou "Dou-lhe as boas-vindas",
podemos nos perguntar, da mesma forma, "Será que ele realmente lhe dá as
boas-vindas?" .
Outro teste seria perguntar se a pessoa poderia realmente estar fazendo
algo sem dizer nada; por exemplo, no caso de lametar em vez de pedir des­
culpas, de ser grato em vez de agradecer, de culpar em vez de censurru4. Um
terceiro teste seria, pelo menos em alguns casos, perguntar se poderíamos in­
serir antes do suposto verbo performativo algum advérbio como "delibera­
damente" , ou uma expressão como "estou propenso a", porque (possivel­
mente) se o proferimento é a realização do ato, então é certamente algo que
poderíamos (dada a ocasião) fazer deliberadamente ou estar propenso a fazê­
lo. Assim, podemos dizer: " Eu deliberadamente lhe dei as boas-vindas", "eu
deliberadamente aprovei sua ação", "eu deliberadamente pedi desculpas"; e
podemos dizer: "estou propenso a pedir desculpas". Mas não podemos dizer
"eu deliberadamente estava de acordo com sua ação" , ou "estou propenso a
lamentar" (ao contrário de "estou propenso a dizer que lamento").
Um quarto teste seria perguntar se o que a pessoa diz poderia ser lite­
ralmente falso, como ocorre às vezes quando digo "lamento", ou se poderia
apenas envolver insinceridade (infelicidade), como quando se diz, às vezes,
4 Ilá ddvidas clássicas acerca da possibilidade de consentimento tácito. Aqui a realização não-verbal
ocorre como forma alternativa do ato per formativo. Isto lança ddvidas sobre o segundo teste!
J. L. Austin
"Peço desculpas". Estas expressõcs obscurecem a distinção cnlrl> insincen.
dade e falsidades.
Mas há uma certa distinção a ser feita, acerca de cuja natureza exata
tenho dúvidas. Relacionamos acima "eu peço desculpas" com " lamento",
mas agora há numerosas expressões convencionais de sentimento, muito pa­
recida entre si em certos aspectos, que nada têm a ver com os performativos.
Por exemplo:
"Tenho o prazer de apresentar o próximo orador."
" Lamento ter que dizer que ... "
"Tenho a grata satisfação de poder anunciar _"6
Chamamos estas expressões de frases de cortesia, como "Tenho a hon­
ra de", etc. É convencional formulá-las dessa maneira. Mas não se dá o caso
de que dizer que se tem prazer seja de fato ter prazer em algo. Infelizmente.
Para que algo seja um proferimento performativo, mesmo nos casos vincula­
dos a sentimentos e atitudes que denominarei de "Comportamentais " , não
tem que ser simplesmente uma expressão convencional de sentimentos e ati­
tudes.
Também devemos distinguir os casos de adequação do ato à pala­
vra - um tipo especial de caso que pode dar origem a performativos, mas
que não consiste, por si mesmo, em um proferimento performativo. Um caso
típico é o "Bata a porta assim" (batendo então a porta). Mas esse
tipo de caso leva a "Eu o saúdo" (fazendo então a saudação) . Aqui, "eu O
saúdo" pode tornar-se um substituto para a saudação, tornando-se portanto
um proferimento performativo puro. Dizer "Eu o saúdo" agora é saudar a
pessoa. Compare-se isso com a expressão "Saúdo a memória de ... "
Mas há muitas etapas transitórias entre adequar a ação à palavra e o
performativo puro:
"Cheque". Dizer isso é dar um cheque, quando dito nas circunstâncias
apropriadas. Mas seria isso um cheque, se a palavra não fosse dita?
"Acomodo". Isso é adequar a ação à palavra ou constitui parte do ato
de ajeitar a peça de xadrez em contraste com movê-la?
Talvez tais distinções não sejam importantes, mas há transições seme­
lhantes no caso dos performativos. Assim, por exemplo, quando se diz:
5 Há fenômenos paralelos a estes em outros casos. Um exemplo realmente perturbador se dá com O
que podemos chamar de performativos expositivos.
* Na XII Conferência Austin procede a uma classificação de cinco tipos básicos de atos de fa la, den­
tre os quais se encontram os expositivos e os comportamentais. mencionados logo adiante. (N. do T.)
6 No manuscrito há uma nota à margem: .. Aqui é necessário ampliar a classificação: note-se isso de
passagem."
Quando dizer é fazer
74
75
"Cito", e faz-se uma citação.
" Defino ", e dá-se uma defmição (por exemplo, " x é y" ) .
.. Defino x como y" .
Nestes casos a expressão funciona como um título. Trata-se de um tipo
de perfonnativo? Essencialmente funciona assim quando a ação adequada à
palavra é ela própria uma ação verbal.
J. L. Austin
VII Conferência
Verbos performativos explícitos
Na última conferência consideramos o performativo expltcito em con­
traste com o performativo primário, afmnando que o primeiro resultou natu­
ralmente do segundo a partir do desenvolvimento da linguagem e da socie­
dade. Dissemos, contudo, que isso não eliminaria todos os nossos problemas
em busca de uma lista de verbos performativos explícitos. Demos alguns
exemplos que ao mesmo tempo serviram para ilustrar como o performativo
explícito se desenvolve a partir do primário.
Selecionamos nossos exemplos na esfera do que chamamos "compor­
tamentais", um tipo de performativo que diz respeito a reações ao compor­
tamento dos outros e que se destina a expressar atitudes e sentimentos.
Contrastemos:
P erformativo
P erformativo N áo-Puro Descritivo
Expltcito
(Semidescritivo)
Peço desculpas Lamento Arrepend<rme
Critico Culpo Estou revoltado com
Censuro Dou minha aprovação a Sinto simpatia por
Aprovo Receb<ro com prazer
Dou-lhe as boas-vindas
Quando dizer é fazer 76 77
Sugerimos os seguintes tClllcs púra o perfonnutivo oxpUclto puro:
(1) Faz sentido (ou o mesmo sentido) perguntar " mas, foi assim mes­
mor" Não podemos perguntar "Ele realmente lhe deu as boas-vindas?", no
mesmo sentido em que perguntamos " Ele realmente o recebeu com hospita­
lidade?" Ou, então, "Ele realmente o criticou?", no mesmo sentidó em que
"Ele realmente o considerou culpado?" Este teste não é muito
bom, devido, por exemplo, à possibilidade das infelicidades. Podemos per­
guntar "Ele realmente se casou?" quando disse "Aceito", porque podem ter
havido infelicidades que tomaram problemático o casamento.
(2) Poderia a pessoa estar realizando a ação sem proferir o performati­
vo?
(3) Poderia fazê-lo deliberadamente? Poderia estar propenso a fazê-lo?
(4) Poderia ser literalmente falso, por exemplo, que critico (em con­
traste com culpo) quando disse que criticava? (É claro, isso poderia sempre
ser insincero). .
Às vezes, podemos recorrer a um teste que consiste no uso de uma pa­
lavra diferente, outras vezes de uma construção distinta da fórmula. Assim,
num performativo explícito podemos dizer "aprovo" em vez de "dou minha
aprovação a". Comparemos a distinção entre "Desejaria que você estivesse
no fundo do mar" e "Desejaria você no fundo do mar"; ou entre "Desejo
que você esteja se divertindo" e "Desejo-Ihe felicidades", etc.
Em conclusão, distinguimos nossos performativos de:
(1) Frases rituais convencionais usadas puramente como fórmulas de
cortesia, tais como "Tenho o prazer de... " . Estas são bem típicas, porque,
embora rituais, não necessitam ser sinceras. Segundo os quatro testes sugeri­
dos acima, não são performativos. Parecem constituir uma classe restrita, li­
mitada talvez a manifestações de sentimento, e também a expressão de sen­
timento em resposta a algo dito ou ouvido.
(2) Casos em que se adapta a ação à palavra, cujo exemplo típico seria
o do advogado que termina sua exposição oral dizendo "Concluo assim mi­
nha argumentação". Estas frases são especialmente suscetíveis de se con­
verterem em performativos puros quando a ação adequada à palavra é em si
mesma um ato puramente ritual, como a ação não-verbal de fazer uma reve­
rência ("Eu o saúdo"), ou o ritual verbal de dizer "Bravo" ("Eu aplaudo").
Há uma segunda classe muito importante de palavras em que o mesmo
fenômeno de transição de proferlmento descritivo para performativo, e a os­
cilação entre ambos, ocorre, assim como acontece com os comportamentais,
com grande freqüência. Trata-se da classe dos que chamo expositivos ou
performo.tivos exposicionais. Aqui o corpo principal da expressão tem ge-
J. L. Austin
.rolmcntC', ()lI l'OIll bU/llllnt(' freqüência, li formll expf(t' Itu de UlIllI "dCt'lllrtl
ção", e há um verbo performnllvo cxplfcito 00 iIúcio (,juc mostra como
"declaração" deve encaixar-se no contexto da conversa, da troca verbal , d
diálogo, ou, em geral, da exposição. Aqui vão alguns exemplos:
"Sustento (ou insisto) que a face oculta da lua não existe."
"Concluo (ou infiro) que a face oculta da lua não existe."
"Declaro que a face oculta da lua não existe."
"Admito (ou concedo) que a face oculta da lua não existe."
"Prevejo (ou predigo) que a face oculta da lua não existe."
Dizer isso é sustentar, concluir, declarar, predizer, etc.
Ora, muitos destes verbos parecem ser, de modo plenamente convin­
cente, performativos puros (por mais irritante que seja tê-los, enquanto tais,
ligados a frases que parecem "declarações", falsas ou verdadeiras; mencio­
namos isso anteriormente e voltaremos a este ponto mais tarde). Por exem­
plo, quando digo "prevejo que ... " , "concedo que .. .", "postulo que ... ", a
frase seguinte terá normalmente o aspecto de uma declaração, mas os verbo
em si parecerão performativos puros.
Voltemos aos quatro testes que utilizamos com os comportamentais,
Quando alguém diz, "Postulo que ... " ,
1) não podemos perguntar, "mas ele estava realmente postulando?",
2) não se pode estar postulando algo sem dizê-lo explicitamente,
3) pode-se dizer "Eu, deliberadamente, postulo que .. .", ou "Tenho a
intenção de postular ... ",
4) não pode ser literalmente falso dizer "Postulo que ... " (salvo no sen­
tido já assinalado: "na página 265 postulo que ... "). Em todos estes casos,
"postulo" é como "peço-lhe desculpas" ou "critico-o por ... ". Sem dúvida,
tais proferimentos podem ser infelizes, alguém pode predizer algo quando
não tem o direito de fazê-lo, ou dizer "Confesso que você o fez", ou ser in­
sincero ao dizer "Confesso que o fiz" quando não o fez.
Contudo, há inúmeros verbos que se assemelham muito a esses e quo
parecem pertencer à mesma classe, mas que não passariam nos testes de for­
ma satisfatória. Por exemplo, "Suponho que" em contraste com "postulo
que". Poderia dizer tranqüilamente "estava supondo que ... " mesmo que na­
quele momento eu não estivesse percebendo que estava supondo e sem que
houvesse dito nada a respeito disso. E posso estar supondo algo, no impor­
tante sentido descritivo, ainda que não o perceba ou o manifeste oralment",
Posso, naturalmente, estar afirmando ou negando algo, por exemplo, sem di­
zer nada explicitamente, nos casos em que"Afirmo" e "Nego" são perfor­
mativos explícitos puros em sentido não relevante aqui. Posso afmnar ou n
Quando dizer é fazer 78 79
ar com a cabeça, ou al1nnar ou negar por implicação, em conseqüência de
alguma outra coisa que disse. Mas, no caso de "estava supondo que " eu po­
deria ter suposto algo sem ter dito nada, não por implicação em conseqüên­
cia de alguma outra coisa que disse, mas simplesmente por estar sentado no
meu canto em silêncio de uma forma tal que o meu sentar-me em silêncio
não poderia representar negação.
Em outras palavras, "suponho que" e talvez "considero que" funcio­
nam da mesma maneira ambivalente que "lamento que". Esta última expres­
são às vezes equivale a "peço-lhe desculpas" , às vezes descreve meus sen­
timentos e às vezes serve para ambas as coisas ao mesmo tempo. Do mesmo
modo, "suponho que .. . " às vezes é equivalente a "postulo que ... " e às vezes
não o é.
Ou, ainda, "Concordo que ... " , às vezes funciona como "aprovo sua
conduta", às vezes como "sua conduta tem minha aprovação" , caso em que,
pelo menos em parte, descreve minha atitude, estado de espúito, ou convic­
ção. Aqui, também, pequenas alterações na frase podem ser importantes; por
exemplo, a diferença entre "concordo em ... " e "concordo com ... " , mas este
não é um teste rigoroso.
O mesmo fenômeno geral que ocorre com os comportamentais ocorre
aqui. Assim como temos que "prometo que (postulo que)" é um performati­
vo explícito puro, enquanto "presumo que ... " não o é, temos também o se­
guinte:
"Prevejo (predigo que) " é um performativo explícito puro, enquanto
que "prevejo (espero, antecipo) que" não o é;
" Endosso (confmno) essa opinião" é um performativo explícito puro,
ao passo que "Concordo com essa opinião" não o é.
" Questiono o fato de que ... " é um performativo explícito puro, ao pas­
so que "Duvido que seja assim" não o é.
Aqui, "postular", " predizer", "endossar", "questionar", etc. satisfa­
zem todos os nossos testes do performativo explícito puro, ao passo que os
outros não, ou, pelo menos, nem sempre.
Notemos de passagem que nem todas as coisas que fazemos seguindo
essa linha de adequar o proferimento ao contexto do discurso se podem fazer
com um performativo explícito. Por exemplo, não podemos dizer "exagero
que ... ", "insinuo que ... ", etc.
Comportamentais e expositivos são duas classes muito fundamentais
em que ocorre tal fenômeno. Mas o mesmo se dá também em outras classes,
como, por exemplo, nos que chamo de vereditivos. Exemplos de vereditivos
são "Decreto que ... " , "Julgo que ... ", "Estabeleço que ... ", etc. Assim, se a
J. L. Austin
pessoa é um juiz e diz "Julgo que ... ", dizê-lo é o mesmo que fazê-Jo. com
pessoas sem funções oficiais isso já não é tão claro, podendo tratar-se apenas
de um estado mental. Essa dificuldade pode ser evitada da maneira habitual,
pela invenção de uma palavra especial tal como " veredito", "declaro
que.. . " , "sentencio a ... ", etc. Além do mais, a natureza performativa do pro­
ferimento continuará dependendo parcialmente do seu contexto, como o fato
de tratar-se de um juiz investido de suas funções no tribunal, etc.
De certa forma semelhante a esse é o caso de "Classifico os X como
y" . Vimos que em tal caso havia um uso duplo: o performativo explícito pu­
ro e a descrição de minha realização habitual de atos desse tipo. Podemos
dizer " Ele realmente não classifica .. . ", ou "ele está classificando ... ", e a
pessoa pode estar classificando sem dizer nada. Devemos distinguir esse ca­
~ so daqueles em que ficamos comprometidos pela realização de um único ato.
Por exemplo, "Defino X como Y" não afmna que alguém faz isso regular­
mente, mas o compromete a uma prática regular que consiste em seguir a de­
finição estabelecida. Nesse cO'1texto, é instintivo comparar "Tenho a inten­
ção de" com "Prometo".
Já dissemos o suficiente sobre o tipo de problema em que um verbo
performativo explícito aparente funciona, ao menos às vezes, no todo ou em
parte, como uma descrição, verdadeira ou falsa, de sentimentos, estados
mentais, atitudes, etc. Mas este tipo de caso sugere, por sua vez, o fenômeno
mais amplo sobre o qual chamamos a atenção, em que o proferimento todo
parece ser verdadeiro ou falso, apesar de suas características de performati­
vo. Ainda que tomemos casos intermediários como, por exemplo, "Conside­
ro que ... ", dito por uma pessoa que não é juiz nem membro do júri, ou "Su­
ponho que ... ", parece absurdo supor que tudo que tais proferimentos fazem,
quando o fazem, é descrever ou relatar algo :lcerca das crenças ou expectati­
vas de quem os usa. Supor tal coisa é incorrer no exagero, típico de uma
Alice no País das Maravilhas, de tomar " penso que p" como uma declaração
acerca de si próprio, a qual se poderia responder: "Trata-se de um fato a seu
respeito". ("Eu não penso ... ", começou a dizer Alice, ' ~ E n t ã o não deveria
falar", respondeu-lhe a lagarta, ou seja lá quem foi. * Quando chegamos aos
performativos explícitos puros, tais como "declaro" ou "sustento que", se­
* Referência à obra Alice no par:, das maravilhas (1865) de Lewis CarrolJ , pseudônimo do 16gico e
matemático inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), professor na Universidade de Oxford.
Esta obra-prima da literatura infantil é, ao mesmo tempo, considerada uma fonte importante do
questões sobre l6gica e linguagem a partir dos paradoxos, trocadilhos e jogos de linguagem que Car­
roll constr6i. Veja-se a este respeito o "Comentário filosófico a Alice no par:, das maravilhas" do
Warren Shibles, em seu Wittgenstein, linguagem e filosofia. S. Paulo, CultrixlEdusp, 1974, lrad. do
L. Hegenberg e O. Silveira da Mota. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 80 81
;llramcnte trato-se de algo que pode ser, flllso ou verdadeiro, ainda que nos
caso o proferimento constitua a ação de declarar ou sustentar. E já chama­
mos, repetidas vezes, a atenção para alguns performativos que são clara­
mente clássicos, como "Fora", e que têm estreita relação com a descrição de
fatos, ainda que outros não o tenham.
Isso, porém, não é tão grave. Poderíamos distinguir a parte inicial do
performativo que"), que torna claro que se deve tomar o proferi­
mento, como uma declaração (e não como uma previsão, etc.), da frase que
se segue ao "que " , a qual é necessariamente verdadeira ou falsa. Contudo,
há muitos casos em que, dada a situação atual da linguagem, não se pode se­
parar a sentença em duas partes, ainda que o proferimento pareça conter um
tipo de performativo explícito. Isto se dá, por exemplo, com "Equiparo X a
Y" e "Analiso X como Y". Neste exemplo tanto fazemos a equiparação,
quanto afIrmamos que há uma equiparação por meio de uma frase concisa
que é, pelo menos, como se fosse um performativo. Só para estimular-se em·
nossa jornada, podemos mencionar também "Sei que" , "Creio que", etc.
Até que ponto estes exemplos são complicados? Não podemos partir do
princípio de que sejam puramente descritivos.
Consideremos agora nossa posição a esta altura. Começando com o su­
posto contraste entre proferimentos performativos e constatativos, encontra­
mos indicações suficientes de que a infelicidade, apesar de tudo, parece ca­
racterizar ambos os tipos de proferimento, e não apenas os performativos.
VerifIcamos ainda que a exigência de adequação aos fatos ou, ao menos, de
ter alguma relação com estes, diferentes em diferentes casos, parece caracte­
rizar também os performativos, além da exigência de serem felizes, como
ocorre com os supostos constatativos.
Não conseguimos encontrar um critério gramatical para distinguir os
performativos, mas ocorreu-nos que talvez devêssemos insistir que todo per­
formativo pudesse, em princípio, ser colocado na forma de um performativo
explícito, para fazermos, então, uma lista dos verbos performativos. Desde
então, descobrimos, contudo, que freqüentemente não é fácil assegurar-nos
de que - mesmo quando se apresenta em forma aparentemente explícita - um
proferimento seja ou não perforrnativo. Tipicamente, temos ainda proferi­
mentos iniciados por "Declaro que ... ", que parecem satisfazer as exigências
dos performativos, mas que, no entanto, constituem, na realidade, declara­
ções e são essencialmente verdadeiros ou falsos.
É hora, portanto, de tentar um novo tratamento para o problema.
Pretendemos reconsiderar, de maneira geral, os sentidos em que dizer algo
possa ser fazer algo, ou em que ao dizer algo estejamos fazendo algo (e taI-
J. L. Austin
VO'l. tulllbém considerar O caso dil'crcnlc em que pôr di:rcr 11\1!.!1Il0S algo).
Talvez algum; esclarecimentos e definiçóes aqui possam nos ajudar n suj
desse emaranhado. Afinal , "fazer algo" é uma expressão muito vaga. QlIlUl­
do fazemos um pro ferimento qualquer não estamos "fazendo algo"? Certa,
mente, as maneiras pelas quais nos referimos a "ações" são suscetíveis, aqui
como em outras situações, de gerar confusão. Por exemplo, podemos COOM
trastar homens de letras com homens de ação; podemos dizer que eles não fi­
zeram nada, apenas falaram ou disseram coisas. Contudo, podemos também
contrastar o fato de estar apenas pensando em algo, como o fato de real­
mente dizê-lo (em voz alta), em cujo contexto, então, dizer é fazer algo.
É hora de elaborar nossa reflexão sobre as circunstâncias em que "se
faz um proferimento"l. Para iniciar, há todo um conjunto de sentidos que
rotularei de (A), em que dizer algo tem sempre que se fazer algo, conjunto
esse que constitui em seu todo o "dizer" algo, no sentido pleno de "dizer".
Podemos considerar, sem insistir muito na elaboração de detalhes, que dizer
algo é:
(A.a) sempre realizar o ato de proferir certos ruídos (ato "fonético"), sendo
o proferimento um "phone"*;
(A.b) sempre realizar o ato de proferir certas palavras e vocábulos, isto é,
ruídos de um determinado tipo, pertencendo a um determinado vocabulário e
da maneira como pertencem a esse vocabulário; numa determinada constru­
ção, ou seja, de conformidade com uma determinada gramática e · apenas
quando se conformem a ela; com uma determinada entonação, etc. A este ato
podemos chamar de ato "fático", sendo o proferimento que dele resulta um
"pheme" (para distingui-lo do "pheneme" da teoria lingüística); e
(A.c) geralmente realizar o ato de usar esse "pheme" ou suas partes consti­
tuintes com um certo "sentido" mais ou menos determinado, e uma ".refe­
1 Nem sempre mencionaremos. mas devemos ter em mente a possibilidade de "estiolação" da IIn­
ungem que ocorre quando a usamos no palco, na fiação e na poesia, bem como em citações e Otn re­
cltutivos.
O termo "estiolação" equivale a "desbotamento", "descoloração", e é empregado por Austin
pura indicar o uso n":n-"sério" ou não-literal de expressões lingüfsticas em contextos como o palco, n
ficção, etc. (N. do T.)
.. Austi n parte da lfngua grega clássica para cunhar estes termos técnicos. Assim. "phone" provém do
substantivo grego phoné significando som, voz; "fático" ("phatic"), provém do substantivo plu11/J',
significando "aquilo que é di to", sendo "pheme" oriundo do substantivo pheme signifi cando igll oJ­
mente "algo que é dito" (o verbo pllemi significa dizer. afirmar, declarar, etc.); "rético" (" rheli c")
provém do substantivo rhe/TUI significando "aquilo que é dito". Na Conferência seguinte súo dndos
oxemplos que esclarecem melhor estas noções, já que os tennos gregos de onde se derivum os dois
liltimos têm significados muito pr6ximos. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 82 83
rência" mais ou menos definida (que juntos equivalem a "significado")**. A
este ato podemos chamar de ato "rético" , sendo o proferimento que dele re­
sulta um "rheme".
"'''' AluSllo 1\ distinção formul ada no célebre artigo de G. Frege (1892) "Sobre o Sentido e a Referên­
cia" (trad. para o português de P. A1coforado, em G. Frege. Lógica efilosofia da linguagem,Cultrix,
S. Paulo. 1978). (N. do T.)
J. L. Austin
®
VII! Conferência
Atos locuciónários, i1ocucionários
e perlocucionári os
Ao iniciarmos o programa de encontrar uma lista de verbos performati­
vos explícitos, pareceu-nos que nem sempre seria fácil disting\lÍr proferi­
mentos performativos de proferimentos constatativos, e, portanto, achamos
conveniente recuar por um instante às questões fundamentais, ou seja, consi­
derar desde a base em quantos sentidos se pode entender que dizer algo é fa­
zer algo, ou que ao dizer algo estamos fazendo algo, ou mesmo os casos em
que por dizer algo fazemos algo. E começamos distinguindo todo um grupo
de sentidos de "fazer algo" que dizer algo é, em sentido normal e completo,
fazer algo - o que inclui o proferir certos ruídos, certls palavras em determi­
nada construção, e com um certo "significado" no sentido ftlosófico favorito
da palavra, isto é, com um sentido e uma referência determinados.
A esse ato de "dizer algo" nesta acepção normal e completa chamo de
realização de um ato locucionário, e ao estudo dos proferimentos desse tipo
e alcance chamo de estudo de locuções, ou de unidades completas do discur­
so. Nosso interesse no ato locucionário é, basicamente, esclarecer bem em
que consiste o mesmo para distingüí-Io de outros atos com os quais nos va­
mos ocupar primordialmente. Quero acrescentar simplesmente que um estudo
muito mais detalhado seria possível e necessário caso nos propuséssemos a
discutir o tema em si, detalhes esses que seriam de grande importância não
apenas para os ftlósofos, mas também para os gramáticos e foneticistas.
Distinguimos o ato fonético do ato fático e do ato rético. O ato fonético
consiste simplesmente na emissão de certos ruídos. O ato fático consiste no
Quando di1..er é fU7,c r
84
8
proferimento de certos vocábulos ou palavras, isto é, ruídos de detenninado
tipo considerados como pertencentes a um vocábulo e na medida em que a
ele pertencem, de conformidade com uma certa gramática e na medida em
que a esta se conformam. O ato cético consiste na realização do ato de utili­
ar tais vocábulos com um certo sentido e referência mais ou menos defini­
dos. Assim, "Ele disse: - 'O gato está sobre o tapete' ", relata um ato fático,
ao passo que "Ele disse que o gato estava sobre o tapete" registra um ato
cético. Podemos ilustrar um constante semelhante com os seguintes pares de
expressões:
"Ele disse: - 'Estarei lá' " - "Ele disse que estaria lá"
"Ele disse: - 'Saia'" - "Ele me mandou sair"
"Ele disse: - 'É em Oxford ou em Cambridge?' " - Ele perguntou se
era em Oxford ou em Cambridge".
Para prosseguir com esta questão por sua importância intrínseca, além
de nosso interesse imediato, mencionarei alguns pontos gerais dignos de se­
rem lembrados:
(1) É óbvio que para realizar um ato fático devo realizar um ato fonéti­
co, ou, se o preferem, ao realizar um estou realizando o outro (o que não
quer dizer que os atos fáticos sejam uma subclasse dos atos fonéticos, isto é,
que pertençam à classe destes últimos). Contudo, a afmnação inversa não é
verdadeira, pois se um macaco emite um ruído que se parece com a palavra
"vou" isso não consiste em um ato fático.
(2) É óbvio que na defmição do ato fático duas coisas se juntam: voca­
bulário e gramática. Assim não atribuúoos um nome especial à pessoa que se
diz, por exemplo, "gato inteiramente o se" ou "os insilíosos dombos voeja­
ram". Outro ponto que se apresenta, além da gramática e do vocabulário, é o
da entonação.
(3) O ato fático, contudo, como o fonético, é essencialmente ímitável,
pode ser reproduzido (inclusive na entonação, caretas, gestos, etc.). Pode-se
imitar não apenas o proferimento entre aspas "Ela tem um lindo cabelo",
como também o fato mais complexo de que tal proferimento tenha sido feito
assim: "Ela tem um lindo cabelo" (careta).
Este é o uso de "disse" seguido ou precedido de uma expressão entre
aspas que aparece nos romances: a expressão toda pode ser exatamente re­
produzida entre aspas, ou entre aspas precedida de "ele disse" ou, mais fre­
qüentemente, seguida de "disse ela", etc.
Mas o ato rético é o que relatamos no caso de asserções do tipo "Ele
disse que o gato estava sobre o tapete" , "Ele disse que iria", "Ele disse que
eu deveria ir" (suas palavras foram "Você deverá ir"). Este é o chamado
J. L. Austin
"discurso indireto". Se o sentido ou referência nâo foram entendidos com
clareza, então a expressão toda ou parte dela tem que vir entre aspas. Assim,
eu poderia dizer: - "Ele disse que eu deveria ir ao 'ministro' mas não especi­
ficou qual ministro" , ou "Ele disse que ele estava se comportando mal e ele
me retrucou que 'quanto mais alto chegas menos pessoas encontras' ". Con­
tudo, não podemos sempre usar com facilidade "disse que". Se a pessoa uti­
lizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes, diríamos "mandou-me
que". Se a pessoa utilizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes, di­
rfamos "mandou-me que", "aconselhou-me a
U
, e assim por diante. Compa­
re-se "disse que" com "saudou-me" e ··apresentou suas desculpas".
Acrescentarei mais um ponto a respeito do ato cético. Naturalmente que
sentido e referência (nomear e referir) são aqui atos acessórios realizados ao
realizar-se o ato cético. Assim, podemos dizer "Por 'banco' quis dizer. ..", e
dizemos "quando disse 'ele' estava me referindo a ... ". Podemos realizar um
ato retico sem referinnos a algo ou a alguém e sem nomeá-lo? Em geral pa­
receria que a resposta deveria ser negativa, mas há casos desconcertantes.
Qual é a referência no caso da afirmativa "todos os triângulos têm três la­
dos?" Do mesmo modo, toma-se evidente que podemos realizar um ato fáti­
co que não seja um ato cético, embora o inverso não seja possível. Assim,
podemos repetir as observações de outra pessoa, ou murmurar repetidamente
alguma frase, ou podemos ler uma sentença em latim sem saber o sentido das
palavras.
Aqui não importa muito a questão sobre quando um "pheme" ou um
"rheme" é o mesmo que outro, seja enquanto "tipo" ou enquanto instância
particular*, nem a questão sobre no que consiste um único "pheme" ou
"rheme". Mas, naturalmente, é importante lembrar que o mesmo "pheme"
(instância do mesmo tipo) pode ser utilizado em diferentes ocasiões de profe­
rimento com diferentes sentidos ou referências, e assim constituir-se num
"rheme" distinto. Quando diferentes "phemes" são usados com o mesmo
sentido e referência, podemos falar de atos reticamente equivalentes (em
certo sentido, "a mesma declaração") mas não podemos falar do mesmo
"rheme" ou dos mesmos atos céticos (que constituem a mesma declaração
em outro sentido que envolve o uso das mesmas palavras).
* Os tennos "typte" (tipo gen&ico) e "tokn" (instância particular) são utilizados em filosofia da lin­
guagem para distinguir uma sen1ença ou expressão lingüfstica. tomada em abstrato, de seu proferl ­
mento concreto em um contexto determinado. Toda expressão Iingürstica. com exceção talvez de
nomes próprios stricto ~ n . s u . tem um carftet gen&ico e usos concretos espedficos. A mesma senten­
ça pode, por exemplo, sei" proferida em um mesmo momento por pessoas diferentes, bem como pode
ser proferida em momentos e contextos diferentes. Assim, no exemplo de Strawson (citado acimA, p.
19) a "sentença-tipo" "O atual Rei de França 6 sSlio" pode ser proferida com referência em 178
e sem referência no peIfodo oontemporAneo. (N. do T.)
Quando dizer é fazer
86
87
o "phemc" é uma unidade da linguagem. Sua deficiência característica
é carecer de sentido. Mas, o "rheme" é uma unidade da fala. Sua deficiência
característica é ser impreciso, vago ou obscuro, etc.
Embora tais assuntos sejam de grande interesse, não esclarecem no
momento o nosso problema de contrapor proferimentos performativos a pro­
ferimentos constatativos. Por exemplo, seria perfeitamente possível , com re­
lação ao pro ferimento "Vai atacar", esclarecer devidamente "o que estáva­
mos dizendo" ao emitir o proferimento, em todos os sentidos até agora men­
cionados, e contudo não haver absolutamente aclarado se ao emitir o profe­
rimento eu estava ou não realizando o ato de advertir. Pode estar perfeita­
mente claro o que quero dizer com "Vai atacar" ou "Feche a porta" , mas
pode não estar claro se se trata de uma declaração ou de uma advertência,
etc.
Podemos dizer que realizar um ato locucionário é, em geral, eo ipso,
realizar um ato ilocucioruírio, como me proponho denominá-lo. Para deter­
minar que este ato ilocucionário é realizado dessa forma temos que detenni­
nar de que maneira estamos usando a locução, ou seja:
- perguntando ou respondendo a uma pergunta,
- dando alguma informação, ou garantia ou advertência,
- anunciando um veredito ou uma intenção,
- pronunciando uma sentença,
- marcando um compromisso, fazendo um apelo ou uma crítica,
- fazendo uma identificação ou descrição
e muitos outros casos semelhantes. (Não estou de forma alguma sugerindo
que esta seja uma classe nitidamente definida.) Não há nada de misterioso
aqui a respeito do nosso eo ipso. O problema reside realmente no número de
diferentes sentidos de uma expressão tão vaga quanto "a maneira pela qual
estamos usando ... " Isto pode referir-se até ao ato locucionário, ou mesmo
aos atos perlocucionários que mencionaremos mais adiante. Quando realiza­
mos um ato locucionário, utilizamos a fala. Mas de que maneira a estamos
usando precisamente nesta ocasião? Porque há inúmeras funções ou maneiras
de utilizarmos a fala, e faz uma grande diferença para o nosso ato em certo
sentido - sentido (B)l - a maneira e o sentido em que estávamos "usando" a
fala nessa ocasião. Faz uma grande diferença saber se estávamos advertindo
ou simplesmente sugerindo, ou, na realidade, ordenando; se estávamos es­
tritamente prometendo ou apenas anunciando uma vaga intenção, e assim por
diante. Estas questões penetram um pouco, e não sem confusão, no terreno
1 Ver I/lfra. p. 105.
88 J. L. Ausrin
da gramática (ver acima), mas as discutimos constantemente, considerunoo
se certas palavras (uma certa locução) tinha a força de uma. pergunta, ou s
deveria ter sido tomada como uma estimativa, etc.
Expliquei a realização de um ato nesse novo sentido como sendo a rea·
lização de um ato " ilocucionário", isto é, a realização de um ato ao dizer nJ·
go, em oposição à realização de um ato de dizer algo. Vou referir-me à dOll­
trina dos diferentes tipos de função da linguagem que aqui nos interessam
como sendo a doutrina das "forças ilocucionárias".
Pode-se dizer que por demasiado tempo os ftlósofos negligenciaram
este estudo, tratando todos os problemas como problemas de "uso locucioná­
rio", e também que a "falácia descritiva" mencionada na Conferência I g
ralmente surge do erro de confundir um problema do primeiro tipo com um
problema do segundo. É bem verdade que estamos agora superando tal coo·
fusão; há alguns anos começamos a perceber cada vez com mais clareza que
a ocasião de um proferimento tem enorme importância, e que as palavras
utilizadas têm de ser até certo ponto "explicadas" pelo "contexto" em que
devem estar ou em que foram realmente faladas numa troca lingüística.
Contudo, talvez ainda nos inclinemos demasiado pelas explicações em ter­
mos do "significado das palavras". Admitimos que podemos usar "signifi­
cado" também com referência à força ilocucionária - "Suas palavras tiveram
o significado de uma ordem" , etc. Mas quero distinguir força de significado,
no sentido em que significado equivale a sentido e referência, assim como se
tornou essencial distinguir entre sentido e referência dentro de significado.
Além do mais, temos aqui uma ilustração dos diferentes usos da ex­
pressão "usos da linguagem" , ou "uso de uma sentença", etc. - pois "uso"
é uma palavra incuravelmente ambígua e demasiado ampla, assim como a
palavra "significado", que muitos hoje não levam a sério. Mas "uso", que a
suplantou, não está em posição muito melhor. Podemos esclarecer totalmente
qual foi o "uso de uma sentença" em determinada ocasião, no sentido do ato
locucionário, sem, contudo, tocar no problema de seu uso no sentido do ato
ilocucioruírio.
Antes de elaborar mais essa noção de ato ilocucionário, contrastemos
tanto o ato locucionário quanto o ato ilocucionário com um terceiro tipo d
ato.
Há um outro sentido (C) em que realizar um ato locucionário, e assim
um ato ilocucionário, pode ser também realizar um ato de outro tipo. Dizer
algo freqüentemente, ou até normalmente, produzirá certos efeitos ou conse­
qüências sobre os sentimentos, pensamentos, ou ações dos ouvintes, ou de
quem está falando, ou de outras pessoas. E isso pode ser feito com o propó-
Quando dizer é fazer _ 8
sito, intenção ou objetivo de produzir tais efeitos. Em tal caso podemos di­
,er, então, pensando nisso, que o falante realizou um ato que pode ser des­
crito fazendo-se referencia, meramente oblíqua (C.a), ou mesmo sem fazer
referência alguma (C.b) à realização do ato locucionário ou ilocucionário.
Chamaremos a realização de um ato deste tipo de realização de um ato per­
locuc;onár;o ou perlocução.
Por enquanto não definiremos a idéia com maior cuidado - ainda que o ne­
cessite - mas nos limitaremos apenas a dar exemplos:
Exemplo I :
Ato (A) ou Locução
Ele me disse "Atire nela!" querendo dizer com "atire" atirar e referin­
do-se a ela por "nela".
Ato (B) ou Ilocução
Ele me instigou (ou aconselhou, ordenou, etc.) a atirar nela.
Ato (C.a) ou Perlocução
Ele me persuadiu a atirar nela.
Ato (C.b)
Ele me obrigou a (forçou-me a, etc.) atirar nela.
Exemplo 2:
Ato (A) ou Locução
Ele me disse, "Você não pode fazer isso".
Ato (B) ou Ilocução
Ele protestou contra meu ato.
Ato (C.a) ou Perlocução
Ele me conteve, me refreou.
Ato (C.b)
Ele me impediu, fez-me ver a realidade, etc.
Ele me irritou.
Da mesma maneira podemos distinguir o ato locucionário " ele disse
que ... " do ato ilocucionário "ele argumentou que ... " e do ato perlocucioná­
rio "ele me convenceu que ... ".
Veremos que os efeitos conseqüentes das perlocuções são realmente re­
sultados, que não incluem efeitos convencionais, tais como, por exemplo, o
fato de a pessoa que fala ficar comprometida a cumprir sua promessa (isso
corresponde ao ato ilocucionário). Talvez seja necessário marcar as distin­
ções, uma vez que há nítida diferença entre o que sentimos ser a produção
real de efeitos reais, e o que consideramos como conseqüências meramente
convencionais. De qualquer modo voltaremos a este assunto mais adiante.
J. L. Austill
Distinguimos, portanto, de foona esquemática, três tipos de atos 0 1
cucionário, o ilocucionário e o perlocucionári02. Façwnos alguns cornenb'­
rios gerais sobre estas três classes, deixando-as ainda um tanto esquemáticas.
Os primeiros três pontos serão novamente sobre "o uso da linguagem".
(1) Nosso interesse nestas conferencias consiste essencialmente em
ater-nos ao ato ilocucionário e contrastá-lo com os outros dois. Há uma ten­
dência constante em filosofia a se omitir este tipo de ato em favor de um ou­
tro dos outros dois. Contudo, é distinto de ambos os outros. Já vimos como
expressões "significado" e "uso da sentença" podem obscurecer a distinção
entre atos locucionários e ilocucionários. Agora notamos que falar do "uso"
da linguagem pode, da mesma foona, obscurecer a distinção entre o ato lio­
cucionário e o perlocucionário - portanto vamos diferenciá-los mais cuida ..
dosamente dentro de instantes. Falar do "uso da 'linguagem' para argumen­
tar ou advertir" parece o mesmo que falar do uso da 'linguagem' para per­
suadir, incitar, alannar". No entanto, o primeiro tipo de "uso" pode ser con­
siderado, sem maior precisão e para efeito de contraste, convencional, no
sentido de ser possível, pelo menos, explicitá-lo pela fórmula performativa,
ao passo que tal coisa não ocorre com o segundo. Assim, podemos dizer
" Argumento que" ou "Advirto-o de que" , mas não podemos dizer "Eu con­
venço você que" ou "Eu alanno você que". Além disso, podemos tornar to­
talmente claro o fato de estar alguém argumentando ou não sem tocar na
questão de a pessoa estar ou não convencendo alguém.
(2) Para ir mais além, esclareçamos de uma vez por todas que a expres­
são "uso da linguagem" pode cobrir outros assuntos até mais diversos do
que atos ilocucionários e perlocucionários. Por exemplo, podemos falar do
"uso da linguagem" para alguma coisa, como, por exemplo, para piadas; e
podemos usar "ao" de um modo diferente do "ao" ilocucionário, como
quando dizemos "ao dizer p estava brincando" ou "desempenhando um pa­
pel" ou " fazendo poesia". Ou, também, podemos falar de "um uso poético
da linguagem" distinto do "uso da linguagem na poesia". Tais referências
ao " uso da linguagem" nada têm a ver com o ato ilocucionário. Por exem­
plo, se digo: - " Vá pegar uma estrela cadente"*, podem ser perfeitamente
claros o significado e a força do meu proferimento, mas pode haver dúvidas
acerca de qual desses outros tipos de coisas eu possa estar fazendo. Há usos
2 (Neste ponto aparece no manuscrito uma nota feita em 1958 que diz: (1) Tudo isto nAo está claro (2)
e em todos os sentidos relevantes (A) e (B) como distintos de (C), não serão todos os proferimentoa
performati vos?' )
.. Verso do poema "Song", do poeta Ingles John Donne(1 572-1 63 1). (N. do T.)
Quando dizer 6 fazer 90 91
"parasitários" da linguagem, que n110 süo " tomados a sério", ou " não cons­
tituem seu uso nonnal pleno" . Podem estar suspensas as condições nonnais
de referência, ou pode estar ausente qualquer intenção de levar a cabo um
ato perlocucionário típico, qualquer tentativa de fazer com que o interlocutor
faça algo, como Walt Whitman* não incita realmente a águia da liberdade a
alçar vôo.
(3) Além do mais, podem haver algumas coisas que "fazemos" em al­
guma conexão com o dizer algo que não parecem se encaixar, pelo menos
intuitivamente, em nenhuma dessas classes esquematicamente defInidas, ou
que, então, parecem pertencer vagamente a mais de uma delas. Mas de qual­
quer modo, em princípio, não vemos que as coisas estejam tão distantes de
nossos três atos como o estão contar piadas e fazer poesia. Por exemplo, in­
sinuar, como quando insinuo algo ao emitir um proferimento ou porque o
emito, parece supor algum tipo de convenção, como num ato ilocucionário.
Mas não podemos dizer "Eu insinuo ... ", pois insinuar, como o dar a enten=­
der, mais parece um efeito conseguido com habilidade do que um simples
ato. Outro exemplo é o demonstrar ou exteriorizar emoções. Podemos revelar
emoção ao emitir o proferimento ou porque o emitimos, como quando insul­
tamos. Mas aqui também não cabem as fórmulas perfonnativas, nem para os
outros recursos dos atos ilocucionários. Poderíamos dizer que usamos o in­
sulto para dar vazão a nossos sentimentos. Devemos notar que o ato ilocu­
cionário é um ato convencional: um ato realizado em confonnidade com uma
convenção.
(4) Já que os atos destes três tipos consistem na realização de ações, é
necessário levar em conta os males que podem afetar toda e qualquer ação.
Devemos estar preparados sistematicamente para distinguir entre "o ato de
fazer x", isto é, realizar x, e "o ato de tentar fazer x". Por exemplo, deve­
mos distinguir entre prevenir e tentar prevenir. Aqui cabe estar preparado
para encontrar infelicidades.
Os próximos três pontos surgem principalmente devido ao fato de nos­
sos atos serem atos.
(5) Já que nossos atos são atos, sempre temos que nos lembrar da dis­
tinção entre produzir efeitos ou conseqüências que são intencionais ou não
intencionais; e entre (I) quando a pessoa que fala tenciona causar um efeito
que pode, contudo, não ocorrer e (lI) quando a pessoa que fala não tenciona
causar um efeito ou tenciona deixar de causá-lo e, contudo, o efeito ocorre.
Para enfrentar a complicação (I) invocamos, como já o flzemos, a distinção
entre tentar e conseguir; para enfrentar a complicação (m invocamos os re­
cursos lingüísticos normais para negar nossa responsabilidade (advérbios
.. Poeta americano do século passado (1819-1892). (N. do T.)
J. L. Austin
como "' não intencionalmente" e outros), dlsponIvcÍB para uso indjviduul ~ m
todos os casos de realização de ações.
(6) Além disso, devemos admitir, é claro, que nossos atos, como tais,
podem ser coisas que de fato não flZemos, no sentido em que os realizamos à
força ou de algum outro modo semelhante. No item (2) já aludimos a outros
casos em que podemos não haver plenamente realizado a ação.
(7) Finalmente, temos que enfrentar a objeção a nossos atos ilocucion"­
rios e perlocucionários - a saber, que a noção do que seja um ato não é cla
- utilizando-nos de uma doutrina geral da ação. Temos a idéia de que um
"ato" é uma coisa física de forma deflnida que realizamos, e que se distin­
gue das convenções e das conseqüências. Mas,
(a) O ato ilocucionário e até mesmo o ato locucionário podem estar li­
gados a convenções. Consideremos o caso de render homenagem. É hom
nagem porque é convencional e é prestada apenas porque é convencional.
Compare-se a diferença que há entre dar um pontapé numa parede e dar um
pontapé numa bola para fazer um gol.
(b) O ato perlocucionário pode incluir o que, de certo modo, são con­
seqüências, como quando dizemos: - "Ao fazer x estava fazendo y" (no
sentido de que como conseqüência de haver feito x pude fazer y). Semp
introduzimos nesse caso uma gama maior ou menor de "conseqüências", al­
gumas das quais podem ser "não intencionais". A expressão "um ato" não
está usada, de modo algum, para aludir apenas ao ato físico mínimo. O fato
de podennos incluir no próprio ato uma gama indefInidamente extensa do
que se poderiam chamar "conseqüências" do ato é, ou deveria ser, um ponto
pacífico fundamental da teoria da nossa linguagem acerca de toda a "ação"
em geral. Assim, se nos perguntam: - "O que fez ele?", podemos responder
qualquer uma destas coisas: - "Matou o burro; - Disparou o rev6lver; - Pu­
xou o gatilho; - Apertou o dedo que estava sobre o gatilho"; e todas as res­
postas poderiam estar corretas. Assim, para encurtar a hist6ria infantil dos
esforços da velha que queria levar o porco para casa a tempo de preparar
o jantar de seu marido, poderíamos dizer, como último recurso, que o gat,
lançou-se sobre o porco e conseguiu que este se atirasse por sobre a cerca.
Se em casos como estes mencionamos tanto um ato B (ilocução) como um
ato C (perlocução) diremos que "por haver feito B ele fez C, em vez de di­
zer que ao fazer B ... " Esta razão de chamar C de ato perlocucionário, para
distingui-lo de um ato ilocucionário.
Na próxima conferência voltaremos a nos ocupar da distinção entrl
nossos três tipos de atos e das expressões "ao fazer x estou fazendo y",
"por haver feito x consegui fazer y", com o prop6sito de obter maior clareza
Quando dizer é fazer _____________________
92
em relação às três classes e aos casos que são ou não membros delas. Vere­
mos que do mesmo modo que, para ser completo, um ato locucionário abran­
ge a realização de muitas coisas de uma vez, assim também pode ocorrer
com os atos ilocucionários e perlocucionários.
I X Conferência
Distincão entre atos
-'
i1ocucionários e perlocucionários
Quando sugerimos empreender a tarefa de fazer uma lista de verbos
performativos explícitos, encontramos algumas dificuldades para detenninar
se um proferimento era ou não performativo, ou pelo menos puramente per­
formativo. Pareceu conveniente, portanto, voltar às questões fundamentais
para considerar em quantos sentidos se pode afrrmar que dizer algo é fazer
algo, ou que ao dizer algo estamos fazendo algo, ou mesmo que por dizer
fazemos algo.
Em primeiro lugar, distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao
dizer algo, que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucionário, O
que equivale, a grosso modo, a proferir determinada sentença com detenni­
nado sentido e referência, o que, por sua vez, equivale, a grosso modo,
"significado" no sentido tradicional do termo. Em segundo lugar dissemos
que também realizamos atos ilocucionários tais como informar, ordenar,
prevenir, avisar, comprometer-se, etc., isto é, pro ferimentos que têm uma
certa força (convencional). Em terceiro lugar também podemos realizar atos
perlocucionários, os quais produzimos porque dizemos algo, tais como con­
vencer, persuadir, impedir ou, mesmo, surpreender ou confundir. Aqui temos
três sentidos ou dimensões diferentes, senão mais até, da frase "o uso de
uma sentença" ou "o uso da linguagem" (e, naturalmente, há outras tam­
bém). Todas essas três classes de "ações" estão sujeitas, simplesmente por
serem ações, às dificuldades e reservas costumeiras que consistem em dIstin­
guir uma tentativa de um ato consumado, um ato intencional de um não-in­
__________________________________________
s J. L. Austin 94
______________________________________ _
tencional, e coisas semelhantes. Depois dissemos que tínhamos que conside­
rar essas três classes de atos em maior detalhe.
Devemos distinguir o ato ilocucionário do ato perlocucionário. Por
exemplo, devemos distinguir entre "ao dizer tal coisa eu o estava prevenin­
do" e "por dizer tal coisa eu o convenci, ou surpreendi, ou o fIz parar" .
A NECESSIDADE DE DISTINGUIR "CONSEQÜÊNCIAS"
O que parece criar maiores difIculdades é a distinção entre ilocuções e
perlocuções, e é sobre esse ponto que nos deteremos agora, e só tocaremos
de passagem na distinção entre ilocuções e locuções. É certo que o sentido
perlocucionário de "fazer uma ação" tem de ser excluído, de algum, modo,
como irrelevante, para a interpretação do sentido em que um pro ferimento é
performativo se, ao emiti-lo, "fazemos uma ação", pelo menos quando fa­
zemos esta distinção em relação ao constatativo. Porque é óbvio que todos
os atos perlocucionários, ou quase todos, podem ser realizados em circuns­
tâncias sufic ientemente especiais, ao se emitir qualquer proferimento, com
ou sem o propósito de produzir os efeitos que chamamos de perlocucioná­
rios, e em particular ao emitir um pro ferimento constatativo direto (se é que
existe tal coisa). Você pode, por exemplo, impedir (C.b)l que eu faça algo
simplesmente ao me dar uma informação, talvez inadvertidamente, mas na
ocasião oportuna, sobre as conseqüências reais do ato que eu havia pretendi­
do realizar. E isso se aplica até mesmo a (C.a) porque alguém pode conven­
cer-me (C.a) de que uma mulher é adúltera ao perguntar-me se não era seu o
lenço encontrado no dormitório de X2, ou aÍtrmando ser dele o lenço. *
1 Ver p. 105 para entender importância de tais referências.
2 Que o fato de dar uma informação direta produz, quase sempre, efeitos conseqüentes sobre a ação,
não é mais surpreendente do que o fato inverso, ou seja, que a realização de uma ação qualquer (i n­
cluindo o pro ferimento de um performativo) tem em geral como conseqüência nos tomar e aos outros
conscientes dos fatos. Fazer um ato qualquer de maneira perceptível ou descritrvel também é nos dar
e aos outros, geralmente, a oportunidade: a) de saber o que fizemos, e, além disso, b) de conhecer
muitos outros fatos acerca de nossos motivos, nosso caráter, ou o que seja, que podem ser inferidos
do fato de havermos realizado o ato. Se atiro um tomate durante uma reunião polftica (ou grito
" Protesto" se outra pessoa o faz - supondo que isso seja realizar uma ação) isso terá provavelmente
como conseqüência que os outros percebam que protesto e que tenho determi nadas convicções polfti ­
caso Mas não tomará verdadeiro ou falso o ato de atirar o tomate ou de gritar (ainda que possam ter
sido fei tos, mesmo deliberadamente, para confundir). E assim, também, a produção de qualquer nú­
mero de efeitos ou conseqüências não impedirá que um pro ferimento constatativo seja verdadeiro ou
falso.
* Referência à maneira pela qual, no Othello de Shakespeare, lago insinua a Othello a infidelidade de
Desdêmona (ato m, cena 3). (N. do T.)
J. L. Austin
Temos, portanto, que separar bem a ação que fazemos (no coso um
ilocução) de sua conseqüência. Em geral, se a ação não consiste em c.Iizcr ui
go, mas trata-se de uma ação "física" não convencional, temos uma qucstüo
complicada. Como já vimos, podemos ou, talvez, preferimos pensar que po
demos, por etapas sucessivas, distinguir cada vez mais o que inicialtncnt
estava incluído, ou que possivelmente poderia ser incluído na designoçno
dada ao "nosso ato ele próprio"3 como realmente apenas conseqüências, r>0
mais próximas ou por mais passíveis de serem antecipadas, de nosso oç
real no mínimo sentido físico suposto, que se revelará como sendo n rcaJi1u
ção de um ou mais movimentos com partes do nosso corpo (por exemplo d
brar um dedo, que acionará um gatilho, que resultará na morte do burro). 11 ..,
naturalmente, muito que dizer a esse respeito que não necessita
agora. Mas pelo menos no caso de atos em que se diz algo:
(1) A nomenclatura nos presta uma ajuda que geralmente não
mos no caso das ações "físicas". Pois com as ações físicas nós quase
designamos a ação não em termos do que estamos chamando aqui d
sico mínimo, mas em termos que abrangem uma gama indefInidamente ex.
tensa do que se poderia chamar de conseqüências naturais (ou, vendo a cois
de outro ângulo, a intenção com que o gesto foi feito).
Não apenas deixamos de lado a noção de ato físico mínjmo (que eO'
do o caso é duvidosa), como também não temos qualquer tipo de designa
para distinguir atos físicos de conseqüências. Ao passo que, com os atos em
que se diz algo, o vocabulário de nomes para os atos (B) parece
mente destinado a marcar uma ruptura num determinado ponto entre O ato
(de dizer algo) e suas conseqüências (que geralmente não são o dizer algo)
ou pelo menos não o são na grande maioria dos casos
4

(2) Além do mais, parecemos receber alguma ajuda proveniente dn
natureza especial dos atos de dizer algo em contraste com ações ffsicQll
muns. No caso destas últimas, ainda quando se trate de uma ação física fi.­
nima, que estejamos tentando separar de suas conseqüências, está, por ser
um movimento corporal, in pari mate riaS com pelo menos muitas das suas
3 Não me ocuparei aqui do problema de até onde podem estender-se as conseqilêocins. Os orro.,
muns sobre tal assunto se encontram, por exemplo, nos PrincipÜl ethica de Moore.
4 Note-se que se supomos que o ato ffsico m{nirno seja um movimento do corpo, quando dl:rom
"apertei o dedo", o fato do objeto que se moveu ser par1e do meu corpo n1l0 introduz, ronlmonle, um
sentido novo a "apertei". Assim posso ser capaz de mover as orelhas, como um garoto do clIColn O
faz, ou tomã-las entre o polegar e o indicador, ou mover os pés naturalmente ou com n UJUdA ti
mllos, como quando estão dormentes. O uso comum de "apertar" em tais exemplos como "apertol (l
dedo" é dltimo. Nilo devemos prosseguir para chegnr a "contra( os mdsculos" e ooisns seOlelhunlOI.
5 Este irl pari materla pode ser motivo de confusllo. Nl\o quero dizer que o meu "apertar O dedO" 10111
metafislcamento an6.logo 80 "movimento do gatilho", quo é suo cOI\8eqO/lncln, nem 110 "Olovlmont

96
conseqüências naturrus e imediatas. Por outro lado, quaisquer que sejam as
conseqüências naturais e imediatas de um ato de dizer algo, estas não são
nonnalmente outros atos de dizer algo, quer seja por parte de quem falou
primeiro, quer por parte dos outros6. De modo que temos aqui uma espécie
de ruptura natural da cadeia, que não ocorre no caso das ações físicas, fenô­
meno que se vincula à classe especial de nomes para as ilocuções.
Mas a esta altura cabe perguntar se as conseqüências que introduzimos
com a nomenclatura de perlocuções não são em realidade conseqüências dos
atos (A), isto é, das locuções? Devemos perguntar se, em nossa tentativa de
separar "todas" as conseqüências, não teremos de continuar nosso procedi­
mento regressivo e deixar para trás a ilocução até chegar à locução, e, na
realidade, até chegar ao ato (Aa), que é a emissão de ruídos, que consiste
num movimento físic07• Admitimos, é claro, que para realizar um ato ilocu­
cionário é necessário realizar um ato locucionário; por exemplo, que agrade­
cer é necessariamente dizer certas palavras. E dizer certas palavras é neces­
sariamente, pelo menos em parte, fazer certos movimentos, difíceis de des­
crever, com os órgãos vocais8. Portanto, o divórcio entre ações "físicas" e
atos de dizer algo não é de todo completo - há alguma vinculação. Mas (1)
embora isso possa ser relevante em algumas conexões e contextos, não pare­
ce impedir-nos de delimitarmos nossos propósitos atuais onde o desejamos,
isto é, entre a fmalização do ato ilocucionário e todas as conseqüências pos­
teriores a ele. E além do mais (m, o que é muito mais importante, devemos
evitar a idéia, acima sugerida, ainda que não verbalizada, de que o ato ilocu­
cionário seja uma conseqüência do ato locucionário. Até mesmo a idéia de
que o que é introduzido pela nomenclatura de ilocuções seja uma referência
adicional a algumas das conseqüências das locuções9 , deve ser também evi­
tada; isto é, que dizer "ele me instigou a" é dizer que ele disse certas pala­
vras e além disso o fato dele as haver dito teve, ou talvez tenha sido feito
com a intenção de ter, determinadas conseqüências? (um certo efeito sobre
mim). Ainda que tivéssemos que insistir, por alguma razão e em algum sen­
do gatilho pelo meu dedo". Mas, "apertar o dedo que no gatilho" in pari materia com "o
movimento do gatilho" •
Ou podemos colocar a questão de outra maneira mais importante, dizendo que o sentido em que o di­
zer algo produz efeitos sobre outras pessoas, ou causa algo, é um sentido fundamentalmente distinto
de "causa" daquele que é usado na causação ffsica por pressão, etc. Tem que operar através das con­
venções da linguagem e é uma questão de influência exercida por uma pessoa sobre a outra. Este é
o sentido original de causa.
S Ver infra.
7 Será mesmo? Já notamos que a "produção de ruídos" é em si mesma realmente uma conseqüência
de um ato ffsico minimo de mover os 6rgãos vocais.
8 Por razões de simplicidade nos atemos 115 expressões orais.
9 Contudo, veja infra.
J. L. Austin
Udo, em " voltar para u purtir da HOCIlÇ[IO até o mo fonéti co (A.a), UOo
deveríamos regredjr até a ação fís ica núnima por via da cadeia <.l e SUHSco r)
seqüências, da maneira como supostamente o fudumos partindo du Inorte tio
burro até chegar ao movimento do dedo sobre o gatilho. A emissão de sons
pode ser uma conseqüência (física) do movimento dos órgãos vocilis, da ex­
pulsão do ar, etc., mas a emissão de uma palavra nlio é uma consc(/üe"citl,
física ou de outro tipo, da emissão de um ruído. Do mesmo modo a eOlissÍlo
de palavras com determinado significado não é uma conseqü.ênica {ísica, Oll
de outro tipo, da emissão de palavras. No que diz respeito a isso, nem 1l1CS
mo os atos "fáticos" (Ab) e "céticos" (A.c) são conseqüências, muito 11'\
nos conseqüências físicas, dos atos fonéticos (Aa). O que introduzimos pelo
uso da nomenclatura de ilocução é uma referência, não às conseqüências du
locução (pelo menos não no sentido ordinário de conseqüência), e sim umu
referência às convenções de força ilocucionária relacionadas com as
cunstâncias especiais da ocasião em que o proferimento é emitido. Lo
ocuparemos dos sentidos em que a realização consumada ou bem-su
de um ato ilocucionário produz realmente "conseqüências" ou "efeitos" em
certos sentidos 10.
Até agora argumentei que podemos ter esperança de isolar o ato ilocu­
cionmo do ato perlocucionário, na medida em que este produz
cias e o outro não é, em si mesmo, uma "conseqüência" do ato locucionário.
Agora, contudo, devo assinalar que o ato ilocucionário, distintamente do alo
perlocucionário, está relacionado com a produção de efeitos em certos senti­
dos:
1u Ainda podemos nos sentir tentados a atribuir certa primazia h locução, em relaçllo
ver que, dado certo ato rético individual (A.c), podem haver dúvidas ainda a respeito de ComO $C (lCv
descrevê-lo na terminologia das ilocuçóes. Por que, afinal, rotulamos um de A e outro de Fl ?PodO·
mos estar de acordo quanto 115 palavras realmente emitidas e também quanto a quols os sentido. 11 m
que foram usadas e quais as realidades a que se fez referência com elas, e, contudo, podemos fl ll1dl\
não estar de acordo, nas circunstâncias dadas, sobre se essas palavras representaram um(\ Mdel11, ÚIlUI
nrneaça, um conselho ou uma advertência. No entanto, afinal, há igualmente ampla posslblllilflllo li
discordância nos casos individuais em relação a como deve ser descrito o ato réti co (A.c) 1111 nomen
clatura das locuções. (O que quis dizer quem emitiu o pro ferimento? A que pessoa, tompo, Ole.,
referia realmente?) E, na verdade, freqüentemente podemos estar de acordo que o ato foi, semt1lt V'
o
da, uma ordem, por exemplo, e, no entanto, podemos não saber com certeza o que foi ordolllldo (lo.
cuçllo). plausivel supor que o ato não é menos "suscetível" de ser descrito como um tipo moi . ou
menos definido de ilocuçáo, do que de ser descrito como um ato locucionário (A) mol eou monos tiO­
I1nido. Podem aparecer dificuldades a respeito de convenções e intenções no momcnto do dooldlr 80­
bre a descrição correta tanto de uma locução quanto de uma ilocuçllo. A ambigilidndc do slgnl Oont!o
ou de referência, deliberada ou não. ê talvez tão comum quanto o fracasso, intenclonodo ou n!\oj aLI
esolarecer "como devem ser tomadas as nossas palavras" (em sentido i1ocuclondrio). Além d18llO, In·
do o aparato dos performativos explicitos (vide acima) serve para evitar desacordos quonto h tleACd·
ç\io de atos ilocucionários. De fato é muito mais diflcil evitar desacordos quanlo 11 dcscrlçllo do "010
locucionários". Cnda um desses tipos de ntos, no entanto, é convencionol o sujolto hllllCossldndo li
ter uma interpretaç!lo oferecida por "jufzos".
Quando dizer é fazer ___________________
98
(I) A menos que se obtenha detenninado efeito, o ato ilocucionário
não terá sido realizado de fonna feliz e bem-sucedida. Isso é diferente de di­
zer que o ato ilocucionário consiste na realização de um determinado efeito.
Não se pode dizer que preveni um audit6rio a menos que este escute o que
eu diga e tome o que digo num determinado sentido. Um efeito sobre o au­
dit6rio tem de ser conseguido para que o ato ilocucionário seja levado a ca­
bo. De que maneira podemos expressar melhor isto? E como podemos deli­
mitar melhor esta noção? Em geral o efeito equivale a tornar compreensível
o significado e a força da locução. Assim, a realização de um ato ilocucioná­
rio envolve assegurar sua apreensão.
(2) O ato ilocucionário "tem efeito" de certas maneiras, o que se dis­
tingue de produzir conseqüências no sentido de provocar estados de coisas
de maneira "nonnal", isto é, mudanças no curso normal dos acontecimentos.
Assim, "Batizo este navio com o nome de Queen Elizabeth" tem o efeitó de
batizar ou dar nome ao barco; feito isso, certos atos subseqüentes, tais corrio
referir-se ao barco como Generalíssimo Stalin, serão sem cabimento.
(3) Dissemos, que muitos atos ilocucionários levam, em virtude de
uma convenção, a uma resposta ou seqüela, que pode ter uma ou duas dire­
ções. Assim, podemos distinguir, por um lado, argumentar, ordenar, prome­
ter, sugerir e pedir, e por outro lado oferecer, perguntar a alguém se deseja
algo, e perguntar "sim ou não?". Se a resposta é concedida, ou a seqüela le­
vada adiante, isso requer um segundo ato por parte do protagonista do pri­
meiro ato ou de outra pessoa. E é lugar comum da linguagem com que se ex­
pressam as conseqüências que isso não pode ser incluído na parte inicial da
ação.
Contudo, geralmente podemos sempre dizer "Fiz com que ele ... " atra­
vés de tais palavras. Isto é uma forma de atribuir o ato a mim e, se é o caso
que para realizá-lo se empregam ou podem empregar-se palavras, trata-se de
um ato perlocucionário.Assirn, temos que distinguir "Eu ordenei e ele obe­
deceu" de "Fiz com que ele me obedecesse". A implicação geral da segunda
expressão é que se utilizaram outros meios adicionais para produzir essa
conseqüência como atribuível a mim, meios tais como recursos persuasivos
e, inclusive, freqüentemente o uso de uma influência pessoal chegando à
coação. Há até mesmo, e com freqüência, um ato ilocucionário distinto do
mero ato de ordenar, como quando digo "Ao afirmar X fIz com que ele fI­
zesse ... ".
De modo que temos aqui três maneiras pelas quais os atos ilocucioná­
rios estão ligados a efeitos. Essas três maneiras são todas elas distintas do
fato de produzir efeitos, que é característico do ato pedocucionário.
100 J.L.Ausrin
Temos que di/lljnguir us açõcs que polJSUCllI utn objelo pcrlocudon:íriu
(convencer, persuadjr) daquelas que simplcslncntc produl:cm uIrul scqüclu
perlocucionária. Assim, podemos dizer: "Tentei preveni-lo, mas 1)6 conílcgul
alanná-lo". O que é objeto perlocucionário de uma i1ocução pode ser se
qüela de outra. Por exemplo, o objeto perlocucionário de prevenir, alcrlor
alguém, pode ser uma seqüela de uma ato perlocucionário que alannu ui·
guém. Por outro lado, que alguém se sinta dissuadido pode ser a seqtl(;da ti
uma ilocução, em lugar de ser o objeto de dizer "não faças isso". AI
atos perlocucionários sempre têm seqüelas, mais do que objetos, a snbcr:
aqueles atos que carecem de f6nnula ilocucionária. Assim, posso surpreen­
der, ou perturbar ou humilhar alguém por meio de uma locução, embora n
existam as f6rmulas ilocucionárias "Surpreendo-te por ... ", "Perturbo-tl
por", "Hunúlho-te por ... ".
É característico dos atos perlocucionários que a resposta ou a seqUel1l
que se obtém possa ser conseguida adicionalmente ou inteiramente por melo!
não-locucionários. Assim, se pode intimidar alguém agitando-se um pedaço
de pau ou apontando-lhe uma arma de fogo. Mesmo nos casos de persuadir,
convencer, fazer-se obedecer e fazer-se acreditar, a resposta pode ser obtidu
de maneira não verbal. Contudo, s6 isso não basta para distinguir os atos
ilocucionários, uma vez que podemos, por exemplo, prevenir, ordenar, di
signai, dar, protestar ou pedir desculpas por meios não verbais e estes sft
atos ilocucionários. Assim, podemos fazer certos gestos ou atirar um tomatl
como sinal de protesto.
Mais importante é a questão de saber se os atos perlocucionários po.
dem sempre obter suas respostas ou seqüelas por meios não convencionais.
Não há dúvidas de que podemos conseguir algumas seqüelas de atos pcrJo­
cucionários por meios inteiramente não convencionais, isto é, por meio d
atos que não são de modo algum convencionais, ou não são para esses no".
Assim, posso persuadir alguém balançando suavemente uma vara comprida
ou gentilmente mencionando que seus velhos pais ainda estão no Terccirl
Reich. Estritamente falando, não pode haver um ato ilocucionário a men
que os meios utilizados sejam convencionais, e portanto os mejos para al­
cançar os fIns de um ato desse tipo em fonna não verbal têm de ser conven·
cionais. Mas é difícil dizer onde começam e onde terminam as
Assim, posso prevenir alguém agitando um pedaço de pau ou posso obs
quiar alguém simplesmente entregando-Ihe algo. Mas se o previno agitand
um pedaço de pau, então o agitar o pedaço de pau é um aviso: o outro sab
ria muito bem o que eu queria dizer com o que fazia, poderia parecer um
inequívoco gesto de ameaça. Surgem dificuldades semelhantes com relul
Quando dizer éfazor 101
ao ato de dar consentimento tácito, a algum acordo, ou de prometer tacita­
mente, ou de votar erguendo a mão. Mas permanece o fato de que muitos
atos ilocucionários não podem ser realizados senão dizendo-se algo. Isto é
válido para os atos de enunciar, infonnar (como coisa distinta de mostrar),
argumentar, formular uma apreciação ou estimativa e julgar (em sentido jurí­
dico). É válido também para a maior parte dos judicativos e expositivos co­
mo distintos de muitos exercitivos e compromiss6riosll .
11 Pura definiç1\o de judicativos, expositivos, exercitivos e compromiss6rios ver a XII Conferência
(noUI do editor, J. D. Urimson).
102 J.L.Ausdn
X Conferência
or
dO
"Ao dizer ... "versus
" p
Izer
"
O • •
Deixando de lado por um momento a distinção inicial entre performati­
vos e constatativos e também o programa de encontrar uma lista de palavras
performativas explícitas, especialmente verbos, fizemos uma nova tentativa
de considerar os sentidos em que dizer algo é fazer algo. Assim distinguimos
o ato locucionário (e dentro dele o fonético, o fático e o rético) que tem um
significado; o ato ilocucionário que tem uma certa força ao dizer algo; e o
ato perlocucionário que consiste em se obter certos efeitos pelo fato de se di­
zer algo.
Na última conferência distinguimos, em conexão com isso, alguns sen­
tidos de "conseqüências" e "efeitos"; especialmente três sentidos em que
mesmo nos atos ilocucionários os efeitos têm um papel, representado por
elementos como assegurar a apreensão, ter um resultado e demandar respos­
tas. No caso do ato perlocucionário, fizemos uma distinção esquemática en­
tre alcançar um objetivo e produzir uma seqüela. Atos ilocucionários sã
atos convencionais; atos perlocucionários não são convencionais. Atos d
ambos os tipos podem ser realizados ou, para ser mais preciso, atos chama­
dos pelo mesmo nome podem ser levados a cabo de maneira não verbal (por
exemplo, atos que equivalem ao ato ilocucionário de prevenir ou ao ato per­
locucionário de convencer). Mas, ainda assim, para que um ato mereça
nome de ilocucionário, por exemplo uma "advertência", tem que ser ato
convencional não-verbal. Os atos perlocucionários, contudo, não são con­
vencionais, embora se possam utilizar atos convencionais para produzir o at,
Qunndo dizer é fazor 10
perlocucionário. Um juiz deveria ser capaz de decidir, ouvindo o que foi di­
to, que atos locucionários e que atos ilocucionários foram realizados, mas
não que atos perlocucionários foram produzidos.
Por último destacamos todo um campo de problemas a respeito de
"como estamos usando a linguagem", "o que estamos fazendo ao dizer al­
go", problemas que são, como dissemos, e intuitivamente parecem ser, com­
pletamente distintos. Esses são tópicos adicionais que não vamos deslindar
aqui. Mencionamos, por exemplo, insinuar (e outros usos não literais da lin­
guagem), fazer piadas (e outros usos não-sérios da linguagem) , falar pala­
vrões e contar vantagens (que são talvez usos expressivos da linguagem).
Podemos dizer "Ao dizer X estava brincando" (insinuando ... , expressando
meus sentimentos, etc.).
Agora temos que fazer algumas observações [mais a respeito das fór­
mulas:
"Ao dizer X estava fazendo Y" ou "Fiz Y"
"Por fazer X fiz Y" ou "Estava fazendo y".
Foi por dispormos destas fórmulas que nos parecem particularmente
adequadas que escolhemos os nomes ilocucionário e perlocucionário. A pri­
meira fórmula "ao" (em inglês in) e serve para designar verbos que indicam
atos ilocucionários. A segunda é a fórmula "por" ou "porque" (em inglês
by) e serve para identificar verbos que designam atos perlocucionários. As­
sim, por exemplo:
"Ao dizer que atiraria nele eu o estava ameaçando."
"Por dizer-lhe que atiraria nele eu o alarmei."
Cabe perguntar se tais fórmulas lingüísticas nos fornecerão um teste
para distinguir atos ilocucionários de atos perlocucionários. A resposta é
não. Antes de ocupar-me disto, porém, permitam-me fazer uma observação
geral, ou melhor, uma confissão. Muitos dos leitores já devem estar impa­
cientes com esta maneira de encarar os problemas, e até certo ponto isso é
justificável. Os leitores dirão: "Por que não terminar com esse palavrório?
Por que continuar fazendo listas de nomes disponíveis numa linguagem co­
mum, nomes que designam coisas que fazemos e que têm relação com as
palavras? Para que continuar com fórmulas tais como a de "ao" e a de "por"
ou "porque"? Por que não discutir de uma vez por todas essas coisas de ma­
neira direta, no terreno da lingüística e no da psicologia? Para que dar tantas
voltas? "E claro que estou de acordo que se tem de fazer isso, apenas acho
que deve ser feito depois e não antes de se verificar o que se pode extrair da
linguagem comum, mesmo que o que venha à tona seja inegável. De outro
104 J. L. Austin
modo passariamos por alto de coisas importuntcs e irfrunos ucmllsiuuo mpi
do.
"Ao" e "por(que)" - em todo o caso - são f6rmulas dignus d
investigadas. Também o são "quando", "enquanto", etc. A import
tais investigações é 6bvia em relação à pergunta genérica: "Como est
cionadas entre si as diversas descrições possíveis 'daquilo que faço'?", como
vimos na questão das "conseqüências". Voltaremos, portanto, às f6rmu lu/!
"ao" e "por(que)" , e depois voltaremos novamente à nossa distinção inicjal
entre performativo e constatativo para verificar como funciona dentro des!!
novo marco de referência.
Examinaremos primeiro a fórmula: "Ao dizer X estava fazendo Y" (ou
"Fiz Y").
(1) Seu uso não se limita aos atos ilocucionários; aplica-se a) a atos
locucionários e b) a atos que parecem ficar completamente à margem de nos ..
sa classificação. Admitimos que ainda que possamos afrrmar "ao dizer X
estava fazendo Y", fazer Y não é necessariamente realizar um ato ilocucio­
nário. O máximo que se pode dizer é que a fórmula "por(que)" não é ade­
quada ao ato ilocucionário. Em particular (a) usamos a mesma f6rmula 110"
casos em que o verbo correspondente a Y designa a realização de uma parti
incidental de um ato locucionário, por exemplo, "ao dizer que detestava os
católicos, estava me referindo apenas aos católicos de nosso tempo", ou
"estava pensando nos católicos romanos, ou aludindo a eles". Embora ness
caso pudéssemos mais comumente usar a fórmula "falando de" ou "ao falar
em". Outro exemplo desse tipo é: "ao dizer Said-Ali", estava emitindo o
som de "sai dali". Mas, além destes, há outros casos (b) aparentemente hete­
rogêneos, tais como "Ao dizer X você estava cometendo um erro" ou "dei­
xando de observar uma distinção necessária" ou "infringindo a lei " ou "cor­
rendo o risco" ou "esquecendo" - cometer um erro ou correr um risco nli
é certamente realizar um ato ilocucionário, nem mesmo um ato 10cucion6.tiv.
Podemos tentar livrar-nos de (a), isto é, do fato de que a f6rmula núo
se limita a atos ilocucionários, argumentando que "dizer" é ambíguo. Quan­
do o uso não é ilocucionário, "dizer" pode ser substituído por "falando d-
II
ou "usando a expressão", ou em lugar de "ao dizer X" poderíamos dize
"pela palavra X" ou "usando a palavra X" . Este é o sentido de " dizer" em
que esta palavra aparece seguida de urna ou mais entre aspas, e em tais casos
nos referimos ao ato fático, não ao ato rético.
O caso (b), de atos heterogêneos à margem da nossa classificaçuv,
apresenta maior dificuldade. O seguinte poderia ser um teste poss(vel: onel
pudermos colocar o verbo correspondente ao Y num tempo em que núo apa­
reça o particípio presente, como o presente ou o pret6rito, ou onde puderm
Quando dizer 6 fazer IO ~
mudar "ao" para "por(que)" conservando ao mesmo tempo o particípio pre­
sente, então o verbo Y não é o nome de uma ilocução. Assim, em vez de
"Ao dizer aquilo ele estava cometendo um erro", poderíamos colocar, sem
mudança de sentido, ou "Ao dizer que ele cometeu um erro" ou "Por dizer
que ele estava cometendo um erro". Por outro lado, não é o mesmo dizer
"Ao dizer isto eu estava protestando" e dizer "Ao dizer isso protestei", nem
"Porque disse isso estava protestando" . *
(2) Em geral poderíamos dizer que a fórmula não funciona com verbos
perlocucionários como "convenceu", "persuadiu" , "dissuadiu" . No entanto,
devemos esclarecer isso um pouco. Em primeiro lugar, há exceções que de­
rivam do uso incorreto da linguagem. Assim, as pessoas dizem: "Você está
me intimidando?" em lugar de "ameaçando" e os que falam assim poderiam
dizer "Ao dizer X, ele estava me intimidando". Em segundo lugar, a mesma
palavra pode ser usada genuinamente tanto de forma ilocucionária como
perlocucionária. Por exemplo, "tentar" é um verbo que pode facilmente ser
usado de uma ou de outra maneira. Não temos a expressão "Eu o tento a" ,
mas temos "Deixe-me que o tente", e há diálogos assim: "Sirva-se de mais
sorvete" - "Você está me tentando?". Esta última pergunta seria absurda
num sentido perlocucionário, pois o único que a poderia responder seria
quem a formulou. Se respondo, "Ah, por que não?" parece que o estou ten­
tando, mas ele pode realmente não se sentir tentado. Em terceiro lugar, te­
mos o uso proléptico (antecipante) de verbos tais como, por exemplo, "sedu­
zir" ou "pacificar". Nesse caso, "tratar de" parece sempre uma adição pos­
sível a um verbo perlocucionário. Mas não podemos dizer que o verbo ilocu­
cionário é sempre equivalente a tratar de fazer algo que pudesse ser expres­
sado por um verbo perlocucionário, como por exemplo dizer que "argumen­
tar" é equivalente a "tratar de convencer", ou que "avisar" é equivalente a
"tratar de alarmar" ou de "alertar". Porque, em primeiro lugar, a distinção
entre fazer e tratar de fazer já está presente no verbo ilocucionário, assim
como no verbo perlocucionário. Distinguimos argumentar de tratar de argu­
mentar, assim como convencer de tratar de convencer. Além do mais, muitos
atos ilocucionários não são casos de tratar de fazer algum ato perlocucioná­
rio. Por exemplo, prometer não é tratar de fazer coisa alguma que possa ser
descrita como objeto perlocucionário.
Mas ainda nos podemos perguntar se é de todo possível usar a fórmula
"ao" com o ato perlocucionário. Isso é tentador quando o ato não se concre­
tiza de maneira intencional. Mas, mesmo nesse caso, o uso de tal fórmula é
• A diferença não fica muito clara em português. No original temos "But we do nnt say" "In saying
fhat I prolesled" nor "By saying lhall was prolesting" .
106 J. L. Austin
provavelmente incorreto, e deveríamos djzcr II por(que)" . Em tod
digo, por exemplo, "Ao dizer X eu o estava convencendo", n50 estou
vando em conta como cheguei a dizer-lhe X, mas como cheguei fi conv<m­
cê-lo. Esta situação é inversa àquela em que usamos a fórmuJa "ao dl7..er"
para explicar o que queríamos significar com a frase, e supõe outro sentido
distinto do que a frase tem quando usada com os verbos ilocucionários (ist,
é, o sentido que supõe é o de "no processo de" , "no decurso de", "en­
quanto dizia", como coisa distinta de "um critério").
Consideremos agora o significado geral da f6rmul a " Ao". Se digo " Ao
fazer A eu estava fazendo B" posso querer dizer que A supõe B (ou seja, A
explica B) ou que B supõe A (B explica A). Tal distinção pode ser esclare­
cida contrastando-se (a. 1) "Enquanto fazia A, estava fazendo B" (ao cons
truir uma casa, eu estava construindo uma parede) e (a.2), "Ao fazer A, cu
estava no processo de fazer B" (ao construir uma parede eu estava coo
truindo uma casa). Ou, por outro lado, contraste-se (a.I): "Ao emitir os ru(­
dos R eu estava dizendo D" com (a.2): "Ao dizer D eu estava emitindo os
ruídos R". Em (a.I) explico A (meu ato de emitir os ruídos) e expresso o
que tenho ao t:rniti-Ios, enquanto que no caso (a.2) explico B (meu
ato de emitir os ruídos) e estabeleço assim o efeito desse ato. A f6rmula
usada com freqüência para explicar o fato de fazer algo em resposta à per­
gunta: "Como é que você chegou a fazer isso?" Das duas ênfases diferentes,
o dicionário prefere o primeiro caso (a.1) em que explicamos B, mas com
igual freqüência o usamos no caso (a.2) para explicar A.
Se considerarmos agora o exemplo:
Ao dizer ... estava esquecendo ...
vemos que B (esquecendo) explica como cheguei a dizer X, ou seja, B ex­
plica A. Do mesmo modo:
Ao fazer um zumbido estava pensando que as abelhas zumbem expUca
o meu zumbido (A). Este parece ser o uso de "ao" quando o usamos com
verbos locucionários: explica o fato de haver dito o que disse (e não o seu
significado) .
Mas se considerarmos os exemplos:
(a.3) Ao fazer um zumbido eu estava fingindo ser uma abelha. Ao fa­
zer um zumbido eu estava me comportando como um palhaço.
vemos dizer que o que a pessoa fez (fazer um zumbido), em intenção ou (\
fato constituiu o dizer tal e tal coisa, um ato de determinado tipo, permitind
que se o chamasse por um nome diferente. O exemplo ilocucionário:
Ao dizer tal coisa eu estava avisando,
Quando dizer é fazer 107
6 desse tipo. Não é da classe (a.1) e (a.2) (quando A ex.plica B ou vice-ver­
sa). Mas é diferente dos exemplos locucionários porque o ato é constituído
não pela intenção ou pelo fato, essencialmente, mas pela convenção (que é,
naturalmente, um fato). Estas características servem para distinguir de ma­
neira bastante satisfatória os atos ilocucionários I.
Quando a fórmula "ao dizer" se emprega com verbos perlocucionários,
por outro lado, é empregada no sentido de "no processo de", "como parte
do ato de" (a. 1), mas ela explica B, ao passo que o caso do verbo locucioná­
rio explica A. Assim, é diferente tanto do caso locucionário quanto do caso
ilocucionário.
A pergunta "Como é que você chegou a fazer isso?" não se limita à
questão de meios e fms, como podemos observar. Assim, no exemplo:
Ao dizer A .. . estava esquecendo B
explicamos A, mas num sentido novo de "explicar", que não é o de meios e
fms. Por sua vez, no exemplo:
Ao dizer. .. estava convencendo .. . (estava humilhando ... )
explicamos B (meu ato de convencer ou de humilhar alguém) que é na ver­
dade uma conseqüência, mas não é conseqüência de certos meios.
A fórmula "por (que)" não se limita, da mesma forma, aos verbos per­
locucionários. Há o uso locucionário (porque disse ... me referi ... ), o uso ilo­
cucionário (porque disse ... estava dessa maneira avisando ... ) e uma varieda­
de de usos heterogêneos (porque disse ... me fIz de ridículo). Os usos de
"por (que)" são dois, em geral.
a) Porque martelei o prego eu o estava introduzindo na parede.
b) Porque lhe extraí o molar, estava praticando odontologia.
Em (a) "porque" indica o meio pelo qual, a maneira pela qual, ou o método
pelo qual eu levava a cabo a ação; em (b) "porque" indica um critério, o que
há na minha ação que permite que seja classifIcada como prática de odonto­
logia. Parece haver pouca diferença entre os dois casos, exceto que o uso pa­
ra indicar um critério parece mais externo. Este segundo sentido de "por­
que" - o do critério - parece também achar-se muito próximo de "ao" em
um de seus sentidos; "ao dizer isso eu estava infringindo a lei (violei a lei)";
e dessa maneira "porque" pode certamente ser usado com verbos ilocucioná­
rios na fórmula "porque disse". Assim, podemos dizer "porque disse ... o
estava avisando (o avisei)". Mas, "porque", neste sentido, não é usado com
1 Mas suponhamos o caso de um charlatão que se faz passar por dentista. Podemos dizer "Ao ex­
trair-me o molar, estava praticando a odontologia". Aqui há uma convenção, tal como no caso do
aviso. Um juiz poderia decidir.
LOS J. L. Austin
verbos pcdocucionários. Se digo " porque disse ... o convcnd (pcrsullul)",
" porque" tem aqui o sentido de meios-para-fins, Oll, em todo o CORO, upontll
a maneira em que o fiz, ou o método que segui no fnr,ê-Io. I )sa-se nl gulllu
vez a fórmula " porque" nesse sentido de meios-para-fms com um verbo lIo
cucionário? Pareceria que isso acontece em pelo menos dois tipos de cuso:
(a) Quando adotamos um meio verbal para fazer algo, em vez de um
meio não-verbal. Por exemplo, quando falamos, em vez de fazer uso de um
pedaço de pau. Assim, no exemplo: "Porque disse ' Aceito' eu estava me cu­
sando com ela", o performativo "Aceito" é um meio para o:fim, que é o ca­
samento. Aqui "disse" é usado no sentido em que o que foi dito deve vir
entre aspas; é usar palavras, ou a linguagem. Trata-se de um ato fát ico e n
de um ato rético.
(b) Quando um proferimento performativo é usado como um meio indl­
reto de realizar outro ato. Assim, no exemplo: "Porque disse 'Declaro ter
três copas' eu informei-o de que não tinha ouros", uso o performativo "O
claro ter três copas" como um meio indireto de informá-lo (que é também um
ato ilocucionário).
Em resumo: para usar a fórmula "por disse" como teste de que o
ato é perlocucionário, temos primeiro que nos assegurar:
(1) que "por(que)" está sendo usado como instrumento e não no senti­
dCl de critério;
(2) que "disse" está sendo usado
(a) no sentido pleno de um ato locucionário e não em sentido parcial ,
como, por exemplo, no ato fático;
(b) e não é usado no sentido que supõe uma dupla convenção, como
no exemplo tirado do jogo de cartas, já mencionado.
Há outros dois testes lingüísticos subsidiários que servem para distjn­
guir o ato ilocucionário do perlocucionário:
(1) Parece que no caso dos verbos ilocucionários se pode afirmar com
freqüência que "Dizer X era fazer Y". Já não se pode dizer "martelar o p
go era introduzi-lo na parede" em lugar de "Porque martelou o prego, el
o introduziu na parede". Mas esta fórmula não nos fornece um teste a toda
prova, pois podemos dizer muitas coisas com ela. Assim, podemos dizer
"Dizer isso foi convencê-lo" (uso proléptico ou antecipante?), embora
"convencer" seja um verbo perlocucionário.
(2) Os verbos que classifIcamos (intuitivamente, porque é apenas isso
que ftzemos até agora) como nomes de atos ilocucionários parecem muit,
próximos dos verbos performativos explfcitos, pois podemos dizer "Aviso­
que" e "Ordeno-Ihe que" como performativos explícitos. Mas avisar e ord ..-
________________________________________ _
nar sao atos ilocucíonários. Podemos usar o performativo "Aviso-o que",
mas não "Convenço-o que", e podemos usar o perfonnativo "Eu o ameaço
com", mas não "Eu o intimido por"; convencer e intimidar são atos perlocu­
cionários.
Contudo, a conclusão geral deve ser que tais fórmulas são, na melhor
das hipóteses, testes muito traiçoeiros para decidir se uma expressão é uma
ilocução, e não uma perlocução, ou se não se trata de nenhuma dessas coi­
sas. Mas, de todo modo, "por (que)" e " ao" merecem ser estudadas com va­
gar, tanto quanto o já notório "como".
Mas, então, qual é a relação entre performativos e esses atos ilocucio­
nários? Pareceria que quando temos um performativo explícito também te­
mos um ato ilocucionário. Vejamos, pois, qual a relação entre (1) a distinção
feita nas primeiras conferências com relação aos perfonnativos e (2) esses ti­
pos diferentes de atos.
110 J. L. Austin
uu
X I Conferência
Declarações, performativos
e força i1ocucionária
Quando, no início, contrastamos o proferimento performativo com o
constatativo dissemos que:
(1) o performativo deveria consistir em fazer algo, em oposição a sim­
plesmente dizer algo; e
(2) o performativo é feliz ou infeliz, em oposição a verdadeiro ou faIs".
Havia fundamento real para tais distinções? Nossa discussão subs
qüente, relativa ao fazer e ao dizer, certamente parece levar à conclusão qu"
cada vez que "digo" algo (exceto, talvez, quando emito uma simples excla­
mação como "Poxa" ou "Arre") realizo conjuntamente atos locucionárlos
ilocucionários, e esses dois tipos de atos parecem ser precisamente o qu
tentamos usar como meios de distinguir, com a denominação de "fazer"
"dizer", performativos de constatativos. Se geralmente estamos fazendo am
bas as coisas de uma vez, como pode subsistir a nossa distinção?
Começaremos por considerar novamente o contraste do ponto de vista
dos proferimentos constatativos. Destes, contentamo-nos com a referência à!i
"declarações" como caso típico ou paradigmático. Cabe perguntar se seria
correto dizer que quando declaramos algo:
(1) estamos fazendo algo e ao mesmo tempo dizendo algo, sem nos
restringir ao simples ato de falar; e
(2) nosso proferimento pode ser feliz ou infeliz (assim como, se o qui­
sermos, verdadeiro ou falso)?
Quando dizer é fazer 111
(1) Sem dúvida que, até em seus mínimos detalhes, declarar algo érea­
lizar um ato ilocucionário, como, por exemplo, avisar ou proclamar. É claro
que não se trata de levar a cabo um ato de alguma maneira física especial,
exceto na medida em que pressupõe, quando o ato de declarar é verbal, a
realização de movimentos dos órgãos vocais. Mas o mesmo se pode dizer de
avisar, protestar, prometer ou designar. "Declarar" parece satisfazer todos
os critérios que utilizamos para distinguir o ato ilocucionário. Consideremos
a expressão seguinte, que nada tem de excepcional.
Ao dizer que chovia, eu não estava apostando, nem argumentando, nem
prevenindo. Ou, então,
Ao dizer que isso levava ao desemprego, eu não estava avisando nem
protestando. Estava simplesmente declarando um fato.
Ou, para tomar um tipo de teste diferente, também usado anteriormente.
Não há dúvida de que:
Declaro que ele não o fez, está exatamente no mesmo nível que:
Sugiro que ele não o fez
Aposto que ele não o fez, etc.
Se uso simplesmente a forma primária ou não-explícita de declaração:
Ele não o fez
posso explicitar o que estávamos fazendo ao dizer isso, ou especificar a for­
ça ilocucionária da declaração, dizendo algumas dessas três (ou mais) coisas.
Além do mais, embora o pro ferimento "Ele não o fez" seja com fre­
qüência emitido como uma declaração, caso em que seria indubitavelmente
verdadeiro ou falso, não parece possível dizer que tal declaração difere de
"Declaro que ele não o fez" a esse respeito. Se alguém diz "Declaro que ele
não o fez", investigamos a verdade dessa declaração exatamente da mesma
maneira que se a pessoa houvesse dito simpliciter "Ele não o fez", quando
consideramos isto, como normalmente o fazemos, uma declaração. Ou seja,
dizer "Declaro que ele não o fez" é formular a mesma declaração que "Ele
não o fez". Não é formular uma declaração diferente a respeito do que "eu"
declaro (exceto em casos excepcionais: o presente histórico, o presente ha­
bitual, etc.). Como é notório, mesmo no caso em que se diz "penso que ele o
fez" , seria descortesia que alguém me respondesse: "Essa declaração se re­
fere a você mesmo" . Este último poderia concebivelmente referir-se a mim,
enquanto que a declaração não. De modo que não há necessariamente con­
flito entre:
(a) o fato de ao emitirmos o proferimento estarmos fazendo algo;
(b) o fato de nossa declaração ser falsa ou verdadeira.
112. J. L. Austin
A esse respeito, compare-se, por exemplo, " A viso·o quo () touro cstn !>(II
atacar", caso em que, de maneira semelhante, há uma llovC!rtBncia o, UO
mesmo tempo, é verdadeiro ou falso que o touro esteja por alacar. laso se d ~
tanto na apreciação da advertência, quanto na apreciação da declaração, em­
bora não da mesma maneira.
À primeira vista, "declaro que" não parecer diferir de nenhum mod
especial de "sustento que" (e dizer isso é sustentar que), de " infoono-lh
que", de "confesso que", etc. Talvez seja possível, no entanto, estabelec
algumas diferenças "essenciais" entre tais verbos; mas nada foi feito aind
nesse sentido.
(2) Além do mais, se pensamos no segundo contraste pretendido, d
acordo com o qual os performativos são felizes ou infelizes e as declarações
são verdadeiras ou falsas, e se o examinamos do ponto de vista dos proferi­
mentos constatativos, notadamente declarações, vemos que as declaraçõcs
estão sujeitas a todo tipo de infelicidade a que também estão os perfonnati.
vos. Voltemos atrás, e consideremos se as declarações não podem ser afeta­
das exatamente pelas mesmas falhas que podem, por exemplo, afetar as ad­
vertências, no sentido em que denominamos essas falhas de "infelicidades".
Ou seja, as diversas falhas que fazem com que um proferimento seja infeli .. ,
sem, contudo, torná-lo falso ou verdadeiro.
Já assinalamos o sentido em que dizer ou declarar "o gato está sobre o
tapete" implica em que eu creio que o gato esteja sobre o tapete. Isto é pa­
ralelo ao sentido em que "prometo estar lá" implica que tenho a intenção d'>
estar lá e que acredito que serei capaz de estar lá. Assim a declaração est
exposta à forma de infelicidade que caracteriza os atos insinceros e inclusiv
à forma de infelicidade que denominamos de ruptura, no sentido em que di.
zer ou declarar que o gato está sobre o tapete me compromete a dizer ou de­
clarar "o tapete está debaixo do gato", do mesmo modo que o performativ
"defino X como Y" (no sentido, digamos, de fiat), me compromete a usar
tais palavras de maneiras especiais no discurso futuro, é fácil perceber como
isso se liga a atos do tipo de prometer. Isso significa que as declarações p0­
dem dar origem a infelicidade dos dois tipos.
Ora, o que ocorre com as infelicidades do tipo A e do tipo B, que tor­
nam o ato - de advertir, de assumir compromisso, etc. - nulo e vazio? É pos­
sível que algo que parece ser uma declaração seja nulo e sem valor tal com
pode ser um contrato putativo? A resposta parece ser afirmativa em um sen­
tido importante. Os primeiros casos são A.I e A.2, em que não existe con­
venção (ou pelo menos não uma convenção aceita), ou em que as circunstân­
cias não são adequadas para que a pessoa que emite a expressão recorra
convenção aceita. Muitas infelicidades desse tipo infestam as declaraçõcs.
Quando dizer é fazer 11
Já notamos o caso de uma declaração putativa que pressupõe (como se
diz) a daquilo a que se refere. Se tal coisa não existe, "a declara­
ção" não se refere a nada. Alguns dizem que em tais circunstâncias, se, por
exemplo, se afmna que o atual rei da França é careca, "não surge a questão
de ser careca ou não"*. Mas é melhor dizer que a pretensa declaração é nula
e sem valor, tal como quando digo que vendo algo a outra pessoa, mas o
objeto não é meu ou (por haver-se queimado) já não existe mais. Os contra­
tos são com freqüência nulos porque os objetos sobre os quais versam não
existem, o que envolve falta de referência (ambigüidade total).
Mas é importante notar também que "declarações" estão sujeitas, além
disso a tal tipo de infelicidades de outras maneiras que também são paralelas
ao que pode ocorrer no caso dos contratos, promessas, advertências, etc ...
Assim como dizemos, com freqüência, por exemplo, "Você não pode me dar
ordens", no sentido de "Você não tem o direito de me dar ordens" , o que
equivale a dizer que o outro não se encontra em situação de fazer isso, as­
sim, também, muitas vezes, há coisas que uma pessoa não pode declarar ­
que não tem direito de declarar -, pois não está em posição de fazê-lo. X
não pode declarar agora quantas pessoas há no quarto ao lado. Se X diz "há
cinqüenta pessoas no quarto ao lado", só posso considerar que X está adivi­
nhando ou conjeturando. (Assim como às vezes Y não está dando ordens, o
que seria concebível e que possivelmente me está fazendo um pedido de ma­
neira um tanto brusca; assim também X, de fonna um tanto anômala, está
"dando um palpite".) Trata-se, nesse caso, de algo que, em outras circuns­
tâncias, X poderia estar em situação de declarar, mas o que ocorre com as
declarações a respeito dos sentimentos de outra pessoa sobre o futuro? Por
exemplo, um prognóstico ou uma previsão a respeito do comportamento fu­
turo de outras pessoas constitui realmente uma declaração? É importante
considerar a situação lingüística como um todo.
Do mesmo modo que, às vezes, não podemos fazer uma designação,
mas apenas confmnar uma designação já efetuada, assim, às vezes, não po­
demos fazer uma declaração já feita.
As pretensas declarações também estão expostas às infelicidades do ti­
po B,** que caracterizam as falhas e os tropeços. Suponhamos que alguém
"diga algo que realmente não quis dizer" - use a palavra errada - diga "o
gato está sobre o tapete" quando queria dizer "pato". Podemos mencionar
outras trivialidades semelhantes; ou talvez não sejam realmente trivialidades,
porque é possível discutir tais proferimentos exclusivamente em tennos de
.. Ver N. do T. da p. 36,11 Conferência.
.... Ver classificação das infelicidades na II Conferência.
114 J. L. Austin
significado ou sentido de referência, c, dossa Jluulciru, confundir-nos em
lação a eles, embora sejam realmente fáceis de se entender.
Uma vez que percebemos que o que temos que examinar nliO
tença, mas o ato de emitir um proferimento nwna situação lingüística, MO
torna difícil ver que declarar é realizar um ato. Além do mais, se comparur­
mos o declarar com o que dissemos a respeito do ato ilocucionário vemos
que é um ato que, exatamente como ocorre com outros atos
exige de maneira essencial que "asseguremos sua apreensão". As dt1vidus a
respeito de se declarei algo, no caso de não se haver ouvido ou entendido o
que foi dito, são as mesmas que podem surgir a respeito de se o que se diss
sotto voce foi uma advertência ou se foi um protesto, caso alguém não o lC­
nha tomado como um protesto, etc. E as declarações "têm efeito" do mesmo
modo que o tem o ato de batizar um navio. Se declarei algo, isso me com­
promete a outras declarações: outras declarações minhas posteriores estarão
ou não de acordo com is!)o. Também, daí em diante, outras declarações ou
observações feitas por outras ,essoas estarão ou não em contradição com fi
minha, a refutarão ou não, etc. Se, contudo, uma declaração não pede uma
resposta, isso não é essencial a todos os atos ilocucionários. E, por certo, ao
fazer uma declaração estamos ou podemos estar realizando atos perlocucio­
nários de todo tipo.
O máximo que se pode argumentar, e com alguma plausibilidade, é que
não há nenhum objeto perlocucionário especificamente ligado ao ato de de­
clarar, como acontece com infonnar, argumentar, etc. Essa comparativa pu­
reza pode ser uma razão que explica o fato de darmos às "declarações" uma
certa posição especial. Mas isto certamente não justificaria, por exemplo,
que déssemos às "descrições", se devidamente usadas, uma prioridade
melhante, e essa é uma característica comum a muitos atos ilocucionários.
Contudo, considerando a questão do ponto de vista dos perfonnativos,
ainda podemos ter a impressão de que a estes falta algo que as declarações
têm, mesmo quando, como já vimos, o inverso não é verdade. É certo que os
perfonnativos consistem em se fazer algo, e também consistem, acessoria­
mente, em se dizer algo. Mas podemos ter a impressão que, à diferença das
declarações, não sejam essencialmente verdadeiros ou falsos. Podemos ter
u impressão, aqui, que o ato constatativo (admitindo-se, de antemão, que seja
feliz) pode ser julgado, estimado ou apreciado em uma dimensão que não s
apresenta no caso dos proferimentos perfonnativos ou não-constatativos. Su­
pondo que todas as circunstâncias da situação têm que estar em ordem para
que eu consiga declarar algo satisfatoriamente, surge então a pergunta:
verdadeiro ou falso o que declarei? E temos a impressão de que tal pergunH'l,
Quando dizer <5 razer I I S
para fruar em termos populares, procura determinar se a declaração "corres­
ponde aos fatos". Estou de acordo com isso; as tentativas de dizer que o uso
da expressão "é verdade" é equivalente a endossar, ou coisa parecida, não
são acertadas. Assim temos aqui uma nova dimensão de crítica da declaração
realizada satisfatoriamente.
Mas agora devemos perguntar:
(L) se pelo menos em muitos casos não cabe uma apreciação igual­
mente objetiva de outras expressões livres de infelicidades, que pa­
recem ser tipicamente performativas; e
(2) se nossa explicação das declarações não simplifica excessivamente
as coisas.
Em primeiro lugar, há uma óbvia inclinação pela verdade ou falsidade
no caso, por exemplo, dos judicativos, tais como estimar, decidir e declarar . .
Assim podemos:
estimar acertada ou ex.: que são duas e meia
erroneamente
achar correta ou ex.: que ele é culpado
incorretamente
declarar correta ou ex.: que o atacante
incorretamente está impedido
No caso dos judicativos não dizemos "verdadeiramente", mas com cer­
teza nos faremos a mesma pergunta: e advérbios como "acertadamente",
"erroneamente", "corretamente" e "incorretamente" são usados com decla­
rações também.
Há também um paralelo entre inferir e argumentar com fundamento ou
validade, e declarar a verdade. Não se trata só de saber se alguém efetiva­
mente argumentou ou inferiu, mas também de saber se tinha direito a fazê-lo,
e se o fez de forma satisfatória. Podemos prevenir ou aconselhar correta ou
incorretamente, bem ou mal. Cabem considerações semelhantes com relação
aos atos de elogiar, censurar, felicitar. A censura não cabe, por exemplo, se
o que censura um determinado ato já fez, por sua vez, o mesmo que está cen­
surando. E sempre podemos perguntar se a censura, a felicitação ou o elogio
foram merecidos ou imerecidos. Não basta dizer que uma pessoa censurou a
outra e que isso termina com o caso. Sempre cabe indagar se havia razão pa­
116 J. L. Austin
ra censurar, ou seja, se isso era justificado. Dctcnnlnar se wn elogio ou uma
censura são merecidos é completamente diferente de determinar so suo
oportunos. Cabe fazer a mesma distinção com respeito aos conselhos. I I
uma diferença entre dizer que um conselho é bom ou mau e dizer qu
oportuno ou inoportuno, mesmo que a oportunidade do conselho seja moi
importante para sua qualificação como bom do que a da censura o é para sua
qualificação como merecida.
Podemos estar seguros de que quando afrrmamos que alguém declurou
a verdade estamos fazendo uma apreciação de tipo diferente de que quando
afmnamos que alguém argumentou com fundamento, aconselhou bem, juJgou
com probidade, etc.? Essas coisas não têm algo a ver, ainda que de maneiro
complicada, com os fatos? O mesmo se passa com os exercitivos, tais como
dar um nome, designar, legar e apostar. Os fatos têm importância, tanto
quanto o nosso conhecimento ou opinião sobre os fatos.
É certo que constantemente se fazem tentativas para efetivar essa dis­
tinção. Alega-se que se um argumento é bem fundamentado (quando não s
trata de argumentos dedutivos que são "válidos") e se uma censura é mere­
cida, não são questões objetivas. Ou diz-se que, no caso da advertência, te­
mos que distinguir entre a "declaração" de que o touro está por atacar e a
própria advertência. Mas consideremos por um momento se a questão da
verdade ou da falsidade é tão objetiva quanto se pretende. Podemos pergun­
tar se uma declaração é justa, e se as boas razões e a prova adequada para
fazer uma declaração e dizer algo são tão distintas das boas razões e provas
que se podem invocar em apoio aos atos performativos como argumentar,
prevenir e julgar. Além disso, o constatativo é sempre verdadeiro ou falso?
Quando um constatativo é comparado com os fatos, nós na realidade o apre­
ciamos de maneiras que supõem o emprego de um vasto conjunto de palavras
que se sobrepõem às que utilizamos para apreciar os performativos. Na vida
real, diferentemente das situações mais simples consideradas na teoria 16gi­
ca, nem sempre podemos responder de maneira simples se a declaração é fal­
sa ou verdadeira.
Suponhamos que confrontamos "A França é hexagonal" com os fatos,
nesse caso, com a França, suponho. Esta declaração é verdadeira ou falsa?
Bem, se assim o desejamos, é verdadeira em certa medida. É claro que se
pode entender o que se quer dizer com a afrrmação de que é verdadeira para
certos fms e propósitos. Talvez seja suficiente para um general, mas não o
será para um cartógrafo. "Naturalmente que a declaração é apenas esquemá­
tica", diríamos, "e bastante boa como declaração desse tipo". Suponhamos
que alguém insista: "Mas é verdadeira ou falsa? Não me interessa se é es-
Quando dizer 6 fazor 117
quernatica ou não; claro que é, mas tem de ser verdadeira ou falsa. Trata-se
de uma declaração, não é?" Como poderíamos responder a essa pergunta, se
a declaração de que a França é hexagonal é verdadeira ou falsa? Simples­
mente trata-se de urna declaração esquemática e essa é a resposta correta e
final diante da pergunta a respeito da relação entre "A França é hexagonal"
a a França. É uma descrição aproximada; não é uma descrição verdadeira
nem falsa.
No caso de se fazer uma declaração verdadeira ou falsa, tanto quanto
no caso de se aconselhar bem ou mal, os fms e propósitos do proferimento,
assim como seu contexto, são importantes. O que se julga veJdadeiro em um
livro escolar pode não ser julgado do mesmo modo numa obra de investiga­
ção histórica. Consideremos o constatativo "Lord Raglan* ganhou a batalha
de Alma", lembrando-nos que Alma foi uma batalha entre soldados rasos,
caso inédito, e que as ordens de Lord Raglan nunca foram transmitidas a al­
guns de seus subordinados. Nessas circunstâncias, Lord Raglan ganhou ou
não a batalha de Alma? É claro que em alguns contextos, por exemplo, em
um livro escolar, está perfeitamente justificado dizer isso. Talvez seja um
exagero, mas não se trata aqui de dar uma medalha a Lord Raglan. Assim
como"A França é hexagonal" é uma declaração esquemática, "Lord Raglan
ganhou a batalha de Alma" é uma declaração exagerada, que é adequada pa­
ra alguns contextos e não para outros. Seria inútil insistir em perguntar se é
verdadeira ou falsa.
Em terceiro lugar, consideremos a questão de ser ou não verdade que
todos os gansos migram para o Labrador, tendo em conta que talvez um de­
les se fIra alguma vez e não chegue ao seu destino. Diante de problemas co­
mo esse, muitos têm aftrmado, com muita justiça, que declarações iniciadas
por "Todos... " são defInições prescritas ou recomendações para se adotar
uma regra. Mas que regra? Essa idéia se origina parcialmente da não-com­
preensão de que a referência dessas declarações se limita aos casos conheci­
dos. Não podemos aftrmar simplesmente que a verdade das declarações de­
pende dos fatos, independentemente dos conhecimentos destes. Suponhamos
que antes do descobrimento da Austrália X dissesse "Todos os cisnes são
brancos". Se mais tarde se descobre um cisne negro na Austrália, pode-se
dizer que X foi refutado? Sua declaração passou a ser falsa? Não necessa­
riamente; X pode retificá-la, como também poderia dizer "Não estava falan­
do a respeito de todos os cisnes, em termos absolutos, qualquer que fosse
.. Lord Raglan (1788-1855) foi inicialmente o comandante das tropas inglesas na Guerra da Criméia
( 1854-1856), durante a qual ocorreu a batalha de Alma (1855), considerada ganha graças mais à dis­
ciplina das tropas do que à capacidade dos comandantes. (N. do T.)
118 J. L. Austin
o lugar onde llC encontrassem; por exemplo, minha <.ICl,; ltlIUt;üO nao se re/\.: du
a possíveis cisnes de Marte". A referência depende do conhecimento que S
tem ao emitir o proferimento.
A verdade ou falsidade das declarações é afetada pelo que nelas se in­
clui ou delas se exclui e pelo fato de serem equfvocas, ou coisas semelhun­
teso Assim, por exemplo, as descrições tidas corno falsas ou verdadeiras ou,
se assim o desejamos, tidas como "declarações", estão sem dúvida expostas
a tais críticas, uma vez que são seletivas e proferidas com determinado p
p6sito. É essencial entender que "verdadeiro" e "falso", como " ljvre"
"não livre", não designam, de forma alguma, algo simples. Tais palavras s
representam uma dimensão geral de que, nas circunstâncias dadas, em rela­
ção a um determinado tipo de ouvinte para certos fins e com certas inten­
ções, o que foi dito era adequado ou correto, em oposição a algo incorreto.
Em geral podemos dizer isto: tanto em relação às declarações (e, por
exemplo, descrições) quanto às advertências, etc., pode surgir a questão
admitindo que realmente declaramos, advertimos, ou aconselhamos, etc.,
que tínhamos o direito de fazê-lo - se declaramos, advertimos ou aconselha­
mos corretamente. Não no sentido de perguntar se nosso ato foi oportuno ou
conveniente, mas sim de indagar se, face aos fatos, ao conhecimento que tr­
nhamos deles e ao propósito que nos levou a falar, etc., o que dissemos foi
adequado.
Essa doutrina é totalmente diferente do que sustentaram os pragmatis­
tas, * para quem o verdadeiro é o que dá bons resultados, etc. A verdade ou
falsidade de uma declaração não depende unicamente do significado das pa­
lavras, mas também do tipo de atos que, ao proferi-las, estamos realizando e
das circunstâncias em que os realizamos.
Que resta, então, da distinção entre o proferimento performativo e o
constatativo? Na verdade podemos dizer que o que tínhamos em mente era
isto:
(a) No caso do proferimento constatativo, nos abstraímos dos aspectos
ilocucionários (e de seus aspectos perlocucionários, também) do ato de fala,
e nos concentramos no aspecto locucionário: além do mais, usamos uma no­
ção supersimplificada de correspondência com os fatos - supersimplificadu
porque ela essencialmente absorve o aspecto ilocucionário. Almejamos al ­
cançar um ideal do que seria acertado dizer em todas as circunstâncias, para
• Referência às teorias pragmáticas da verdade, defendidas por fil6sofos amer icanos corno ... . " •
Peirce e William James, segundo as quais, em linhas gerais, o cri tério de verdade de uma senlença .no
os resultados de sua aplicação prática, ou deve ser considerado a partir de limo sinraçllo concrelo.
Quando dizer é fazer 119
quaisquer propósitos, para qualquer tipo do ouvinte, etc. Talvez isto seja al­
gumas vezes realizado.
(b) No caso do proferimento performativo, damos o máximo de atenção
à força ilocucionária do proferimento, e nos abstraímos da dimensão da cor­
respondência com os fatos.
Talvez nenhuma dessas abstrações seja muito conveniente: talvez não
tenhamos aqui realmente dois pólos, mas sim um desenvolvimento histórico.
Em certos casos, talvez com fórmulas matemáticas em livros de física como
exemplos de constatativos, ou com a emissão de simples ordens executivas,
como exemplos de performativos, nos aproximemos na vida real de tais coi­
sas. Foram exemplos desse tipo, como "Peço desculpas" e "O gato está so­
bre o tapete", proferidos sem nenhuma razão concebível , casos marginais
extremos, que deram origem à idéia de dois proferimentos distintos. Mas a
conclusão real tem de ser, certamente, que necessitamos (a) distinguir
atos locucionários e atos ilocucionários e (b) estabelecer especial e cntiça­
mente, com relação a cada tipo de ato ilocucionário - advertências, estimati­
vas, vereditos, declarações e descrições - qual é a maneira específica em que
se pretendeu realizá-los, para saber, primeiro, se estão ou não em ordem e,
segundo, se estão "certos" ou "errados"; que termos de aprovação ou desa­
provação são usados para cada um e o que significam. Este é um campo
vasto e sua análise não nos levará, certamente, a uma simples distinção entre
"falso" e "verdadeiro"; nem levará à distinção das declarações em relação
ao resto, pois fazer uma declaração é apenas um entre numerosíssimos atos
de fala da classe denominada ilocucionária.
Além de tudo, em geral, o ato locucionário, como o ato ilocucionário,
é apenas uma abstração: todo ato lingüístico genuíno é ambas as coisas de
uma só vez. (Isto é semelhante ao modo como o ato fático, o rético, etc., são
meras abstrações.) Mas, naturalmente, é típico que distingamos diferentes
"atos" abstratos por meio de possíveis lapsos, isto é, neste caso, os diferen­
tes tipos de falta de sentido que possam surgir durante a realização de tais
atos. Podemos comparar com este ponto o que dissemos na primeira confe­
rência a respeito da classificação dos diferentes tipos de falta de sentido.
120 J. L. Austin
---1 u
X II Conf erên cia
Classes de força i1ocucionária
Deixamos numerosas questões em aberto, mas, depois de um breve re­
sumo, devemos seguir adiante. Como se apresenta a distinção entre "cons­
tatativos" e "performativos" à luz de nossa teoria recém-exposta? Em geral,
e para todos os proferimentos que já consideramos (exceto, talvez, em rela­
ção às exclamações), notamos o seguinte:
(1) Dimensão de felicidade/infelicidade
(la) Uma força ilocucionária
(2) Dimensão de verdade/falsidade
(2a) Um significado locucionário (sentido e referência).
A doutrina da distinção performativo/constatativo está para a doutrina
dos atos locucionários e ilocucionários dentro do ato de fala total como a
teoria especial está para a teoria geral. E a necessidade da teoria geral su
simplesmente porque a "declaração" tradicional é uma abstração, um ideal,
assim o é também sua tradicional verdade ou falsidade. Mas sobre este pont o
só posso dar alguns rápidos clarões de luz. Gostaria de sugerir, em particu­
lar, as seguintes conclusões:
(A) O ato de fala total na situação de fala total é o único fenômeno
que, em última instância, estamos procurando elucidar.
(B) Declarar, descrever, etc. são apenas dois nomes, dentre muitos,
que atos ilocucionários; não ocupam uma posição sul generis.
(C) Em particular, não ocupam uma posição sui generis quanto a esta­
rem relacionados aos fatos da forma sul generis chamada de verdadeira ou
Quando dizer é fazer 12 1
falsa, porque a verdade e a falsidade não !lão (exceto por meio de uma abs­
tração artificial sempre possfvel e legítima para certos propósitos) nomes de
relações, qualidades, ou o que seja, mas sim da dimensão de apreciação de
como as palavras se situam quanto à sua adequação aos fatos, eventos, situa­
ções, etc., a que se referem.
(D) Do mesmo modo, o familiar contraste entre "normativo ou valora­
tivo" e fatual está precisando, como tantas outras dicotomias, ser eliminado.
(E) Podemos bem suspeitar que a teoria do "significado" como equi­
valente a "sentido e referência" vai certamente necessitar de alguma depura­
ção e reformulação em termos da distinção entre atos locucionários e ilocu­
cionários (caso esta distinção seja fundamentada, aqui ela está apenas esbo­
çada). Admito que não foi feito o suficiente aqui: aceitei o velho "sentido e
referência" sob a influência dos pontos de vista correntes; também quero
destacar que omiti toda e qualquer consideração direta da força ilocucionária
das declarações.
Dissemos que havia uma coisa que deveria ser feita, obviamente, e que
requer prolongada investigação. Dissemos, há bastante tempo atrás, que ne­
cessitávamos de uma lista de "verbos performativos explícitos", mas à luz
da teoria mais geral vemos agora que o que necessitamos é uma lista das for­
ças ilocucionárias de um proferimento. A velha distinção, contudo, entre
performativos primários e performativos explícitos sobreviverá à transição
fundamental de uma distinção entre performativos e constatativos para a teo­
ria dos atos de fala. Vimos que há razões para supor que os testes sugeridos
para identificar os verbos performativos explícitos (dizer ... é fazer. .. , etc.)
são bons testes, e até de fato dão melhores resultados para identificar aqueles
verbos que, como dissemos agora, explicitam a força ilocucionária de um
proferimento, ou mostram qual é o ato ilocucionário que estamos realizando
ao emiti-lo. O que não sobreviverá à transição, exceto talvez como um caso
marginal limite, é a noção da pureza dos performativos. Isso em nada nos
deve surpreender, pois essa noção nos criou dificuldades desde o início. Ela
se baseava, essencialmente, na crença na dicotomia performativos/constata­
tivos, que, como já vimos, tem que ser substituída pela idéia de que háfamí­
lias mais gerais de atos de fala relacionados e sobrepostos parcialmente, que
são, precisamente, os que agora tentaremos classificar.
Vamos, pois, usar com cautela o teste simples da primeira pessoa do
singular do presente do indicativo da voz ativa e recorrendo ao dicionário
(bastará um pequeno), animados por um espírito liberal, obteremos uma lista
de verbos na ordem de 10 à terceira potência 1. Disse que tentaria alguma
1 Por que USdf essa expressão em vez de 1.000? Primeiro, porque impressiona mais e parec(. mais
122 J. L. Austin
classificução gemI prcliminor e que luriu a1gull1as obscrvHçõcs u rcspdlO du
classes propostos. Bem, então comecemos. Só Icvurci os Icit
voltinha, ou melhor, para alguns tropeções.
Distingo cinco classes gerais de verbos, mas não estou totalmente satis­
feito com elas"'. Entretanto, abrem a nossos olhos um campo mais rico d
que se nos movêssemos unicamente com os dois fetiches: 1) verdadeiro/ral­
so; 2) fato/valor. Classifiquei essas classes de proferimentos em função d
sua força ilocucionária, e lhes darei os seguintes nomes:
(1) Veriditivos
(2) Exercitivos
(3) Cornissivos
(4) Comportamentais (um horror este neologismo!)
(5) Expositivos
Vamos considerá-los em ordem, mas antes quero dar uma idéia esqu,,­
mática de cada um.
Os primeiros, veriditivos, caracterizam-se por dar um veredito, como
nome sugere, por um corpo de jurados, por um árbitro, ou por um desempa
tador (terceiro árbitro). Mas não é necessário que sejam defmitivos. Podem
constituir uma estimativa, um cálculo, uma apreciação. Constituem esscn­
cialmente o estabelecimento de algo - fato ou valor - a respeito do qual, por
diferentes razões, é difícil se estar seguro.
Os segundos, exercitivos, consistem no exercício de poderes, direitos
ou influências. Por exemplo: designar, votar, ordenar, instar, aconselhar,
avisar, etc.
Os terceiros, comissivos, caracterizam-se por prometer ou de alguma
forma assumir algo; comprometem a pessoa a fazer algo, mas incluem tam­
bém declarações ou anúncios de intenção, que não constituem promessa!\,
e incluem também coisas um tanto vagas que podemos chamar de adesões,
como, por exemplo, tomar partido. Têm conexões óbvias com os veriditivos
e os exercitivos.
Os quartos, comportamentais, constituem um grupo muito heterogêncv,
e têm a ver com atitudes e comportamento sociLll. Exemplos são: pedir des­
culpas, felicitar, elogiar, dar os pêsames, maldizer e desafiar.
ciontffica. Segundo, porque vai de 1.000 a 9.999, uma boa margem enquanto que a outra podcrlu lIOr
ntendida como "cerca de 1.000", uma margem muito pequena.
• A diliculdade de estabelecimento de critérios para a classificação de verbos il ocucionllrlos tolO si
um dos problemas principais no desenvolvimento da teoria dos atos de fa la. Veja-se a prop6sito dl88
J. R. Searle: "A taxonomy of illocutionary acts" em ExpressiOIl alld Meallillg, Crunbri dgc UnJvcralty
Press, 1979, e K. Bach e R. M. Harnish: Lillgllístic Commullicatioll alld Speeclt ACls. MIT Prosa,
1979, capo 3. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 12
Os quintos, expositivos, são difíceis de definir. Eles esclarecem o mo­
do como nossos pro ferimentos se encaixam no curso de uma argumentação
ou de uma conversa, como estamos usando as palavras, ou seja, são, em ge­
ral, expositivos. Exemplos são: "contesto", "argumento", "concedo" , "e­
xemplifico", "suponho", "postulo". Devemos levar em conta, desde o iní­
cio, que ainda há amplas possibilidades de que se apresentem casos margi­
nais ou embaraçosos, ou casos de sobreposições entre essas classes.
As últimas duas classes são as que acho mais difíceis, e bem pode ser
que não estejam nitidamente classificadas ou que estejam um 'tanto embara­
lhadas, ou mesmo que necessitem de uma classificação inteiramente distinta.
Não estou, de modo algum, propondo nada definitivo. Os comportamentais
criam problemas porque parecem demasiado heterogêneos, e os expositivos
porque são excessivamente numerosos e importantes, e tanto parecem estar
incluídos em outras classes quanto parecem, por vezes, ser sui generis de
uma forma que não consegui esclarecer nem para mim mesmo. Bem se pode­
ria dizer que todos os aspectos estão presentes em todas as classes.
1. VEREDITIVOS
Os exemplos são:
absolvo condeno constato (uma
realidade)
considero (em interpreto como entendo
tennos legais)
vejo-o como determino calculo
computo estimo situo
coloco dato meço
(temporalmente)
incluo em torno-o tomo (x como y)
classifico graduo qualifico
valorizo
avalio descrevo
caracterizo
diagnostico analiso
Outros exemplos são encontrados nas apreciações ou avaliações de ca­
ráter, tais como "Eu o chamaria de empreendedor".
Os vereditivos consistem em emitir um juízo, oficial ou extra-oficial,
sobre evidências ou razões quanto ao valor ou ao fato, na medida em que
estes são passíveis de distinção. Um vereditivo é um ato judicial, distinto dos
atos legislativos ou executivos, que são ambos exercitivos. Mas alguns atos
judiciais, no -sentido de atos feitos por um juiz em vez de serem feitos por
124 J.L.Austin
um corpo de jurados, por exemplo, súo realmente exercitivos. Os vcrcdjtivo
têm conexões 6bvias com verdade e falsidade com relação ao fundamento ou
falta de fundamento, à justiça ou injustiça. Nota-se que o conteúdo de um
veredito é verdadeiro ou falso, por exemplo, numa disputa a respeito da d
cisão de um juiz de futebol.
Comparação com exerciti vos
Quanto aos atos oficiais, a determinação de um juiz faz valer a lei; o
que estabelece o corpo de jurados faz de um homem um condenado; a deci­
são de um juiz de futebol que retira de campo um jogador faz com que esse
jogador fique fora de campo. O ato é levado a cabo em virtude de uma posi­
ção oficial; mas, ainda assim, é passível de ser considerado correto ou incor­
reto, certo ou errado, justificado ou injustificado diante da evidência. Não é
realizado como uma decisão a favor ou contra. O ato judicial é, se o dese­
jam, executivo, mas é preciso distinguir o proferimento executivo, "Você
o terá", do veredito, "É seu", e do mesmo modo devemos distinguir entre a
determinação do montante de danos e prejuízos da decisão de quem deve pa­
gá-los.
Comparação com comissivos
Os veriditivos têm efeito, dentro da lei, sobre nós mesmos e sobre os
demais. Emitir um veredito ou uma estimativa nos compromete a uma certa
conduta futura, no sentido em que qualquer ato de fala o faz, ou talvez mais
ainda, pelo menos no que se diz respeito à coerência, e talvez também por­
que sabemos a que o ato nos compromete. Assim, dar um determinado vere­
dito nos comprometerá, ou, como dizemos agora, nos compromete a determi­
nar uma indenização por perdas e danos, por exemplo. Também uma inter­
pretação dos fatos pode comprometer-nos a dar certo veredito ou estimativa.
Dar um veredito pode também implicar em aderir a algo; pode comprometer­
nos a apoiar alguém ou a sair em sua defesa, etc.
Comparação com os comportamentais
Cumprimentar pode implicar um veredito acerca do valor ou do caráter.
Também em um sentido de " culpar", que é equivalente a "considerar res­
ponsável", culpar é um vereditivo, mas em outro sentido, quando significa
adotar uma atitude para com uma pessoa, então é um comportamental.
unndo dizer é fazer 125
Comparação com expositivos
Quando digo "interpreto", "analiso", "descrevo", "caracterizo", etc.,
isto, de certa fonna, é dar um veredito, mas está essencialmente relacionado
a questões verbais e ao esclarecimento de nossa exposição. É preciso distin­
guir entre "eu descreveria isso como uma ação covarde" e "eu descreveria
i s ~ o com a expressão 'ação covarde' " . O primeiro é um veredito, dado o uso
de certas palavras; o segundo é um veredito acerca do uso dessas palavras.
2. EXERCITIVOS
Um exercitivo consiste em tomar uma decisão a favor ou contra um
determinado curso da ação, ou advogá-la. É decidir que algo tem de ser de
determinada maneira, em oposição a julgar que tal coisa é assim. É advogar
que seja assim, em oposição a uma estimativa de que seja assim. É outorgar
uma indenização, o que é oposto a determinar o seu montante. É uma sen­
tença, em oposição a um veredito. Árbitros e juízes empregam exercitivos,
assim como emitem vereditivos. Suas conseqüências podem ser que outros
sejam "compelidos" ou "autorizados" ou "não autorizados" a fazer certos
atos.
É uma classe muito ampla; alguns exemplos são:
nomeio degrado rebaixo
(de categoria)
demito excomungo nomeio
(dar nome, título)
ordeno mando dirijo
sentencio multo concedo
exijo (o pagamento voto em indico
de um imposto)
escolho reclamo dou
lego perdôo renuncio
advirto aconselho advogo
rogo suplico peço
insisto em pressiono recomendo
proclamo anuncio invalido
revogo anulo repilo
sanciono suspendo veto
consagro declaro encerrado declaro aberta
Comparação com vereditivos
"Considero", "interpreto" e expressões semelhantes podem ser exerci­
126 J. L. Austin
tivos quondo constituem atos oOciais. Além dlSSl), "col1cl'do" e "uhsululo"
são cxercitivos baseados em vereditos.
Comparação com comissivos
Muitos exercitivos, tais como pennitir, autorizar. delegar, ofl
conceder, dar, sancionar e consentir, na realidade nos comprometem a uma
linha de ação determinada. A conexão entre um exercitivo e compromcter-s
é tão próxima quanto a que há entre significado e implicação. É óbvio qu
designar e nomear (dar nome ou título) são atos que nos comprometem, mas
seria melhor dizer que tais atos conferem poderes, direitos, nomes, etc., ou
os modificam ou os eliminam.
Comparação com os comportamentais
Há exercitivos, tais como "desafio", "protesto", "aprovo", que estão
estreitamente ligados aos comportamentais. Desafiar, protestar, aprovar, elo­
giar e recomendar podem consistir na adoção de uma atitude ou na realiza­
ção de um ato.
Comparação com os expositivos
Alguns exercitivos, tais como "retiro o que disse", "não faço objeção"
e "faço objeção", têm, no contexto de uma discussão ou de uma conversa, a
mesma força que os expositivos.
Contextos típicos em que se usam exercitivos são:
(1) nomeações de funcionários ou empregados, candidaturas, eleições,
admissões, renúncias, demissões e pedidos de admissão,
(2) conselho, exortação e petição.
(3) facultamentos, ordens, sentenças e anulações,
(4) a condução de negociações, reuniões, etc.,
(5) direitos, reclamações, acusações, etc.
3. COMISSIVOS
o importante de um comissivo é comprometer quem o usa a uma de­
terminada linha de ação. Por exemplo:
prometo compactuo contrato
me comprometo a me obrigo a dou a minha palavra
estou decidido a tenho a intenção de declaro minha intençúo
Quando dizer é fazer 12
pretendo planejo tenho o prop6sito de
me proponho a farei X juro
garanto asseguro que aposto
prometo concordo consinto
solenemente
me consagro a me pronuncio por tomo partido
adoto defendo abraço (uma causa)
adiro me oponho a sou a favor de
As declarações de intenção diferem dos compromissos assumidos e po­
deria questionar-se se devem ser classificados todos juntos. Da mesma forma
que distinguimos entre instar e ordenar, também distinguimos entre ter a in­
tenção e prometer. Mas ambos os casos estão compreendidos no performati­
vo primário "farei"; assim, temos as locuções " provavelmente o farei" e
"farei tudo o que puder".
Há também uma inclinação em direção aos "descritivos". Em um caso
extremo, posso, simplesmente, declarar que tenho uma intenção, mas tam­
bém posso declarar ou expressar ou anunciar minha intenção ou resolução.
"Declaro minha intenção" me compromete, indubitavelmente; e dizer "tenho
a intenção" equivale, geralmente, a declará-la ou anunciá-la. O mesmo ocor­
re com as adesões, como por exemplo, em "consagro minha vida a .. . " . No
caso dos comissivos, como "favoreço", "oponho-me", "adoto o ponto de
vista" e "abraço", não se pode, de modo geral, declarar que se favorece, se
opõe, etc. sem anunciar que o faz. Dizer "Apoio X" pode, de acordo com o
contexto, significar votar em X, aderir a X ou aplaudir X.
Comparação com os vereditivos
Os vereditivos nos comprometem a ações de duas maneiras:
(a) nos comprometem a realizar as ações que são necessárias para sus­
tentar nosso veredito e ser coerente com ele;
(b) nos comprometem a realizar as ações que podem ser conseqüências
de um veredito ou estar incluídas nelas.
Comparação com os exercitivos
Os exercitivos nos comprometem com as conseqüências de um ato, co­
mo ocorre, por exemplo, quando se dá um nome. No caso especial dos per­
missivos caberia perguntar se devem ser classificados como exercitivos ou
como comissivos.
128 J. L. Austin
()mpurll\'ÜO com os comportamento.
Reaçõcs como as de declarar-se ofendido, de aplaudir ou elogiar prc,,·
supõem aderir e comprometer-se, da mesma maneira que acontece com acon­
selhar e escolher. Mas os comportamentais nos comprometem com uma con­
duta semelhante, por implicação, e não a essa conduta efetiva. Assim, S
censuro, adoto uma atitude quanto à conduta de alguém, mas s6 posso fi
comprometer a não fazer algo semelhante.
Comparação com expositivos
Jurar, prometer, e garantir que algo é de uma certa forma, funcionam
como expositivos. Chamar, deftnir, analisar e supor fonnam um grupo, e
apoiar, estar de acordo, estar em desacordo, sustentar e defender formam
outro grupo de ilocuções, que parecem ser ao mesmo tempo expositivas
comissivas.
4. COMPORTAMENTAIS
Os comportamentais incluem a idéia de reação diante da conduta e da
sorte dos demais, e de atitudes e expressões de atitudes diante da conduta
passada ou iminente do próximo. Existem conexões óbvias entre declarar e
descrever quais são os nossos sentimentos, e também expressá-los, no senti­
do de dar-lhes uma válvula de escape, embora os comportamentais sejam
distintos de ambas essas coisas.
Exemplos:
1. Para pedir desculpas temos "peço desculpas".
2. Para agradecer temos "agradeço".
3. Para expressar solidariedade temos "deploro", "me compadeço",
"cumprimento-o", "condôo-me", "me congratulo", "felicito", "me compa­
deço".
4. Para atitudes temos "me declaro ofendido", "não me importo",
"rendo tributo a", "critico", "me queixo", "reclamo", "aplaudo", "passo
por alto" , "recomendo", "lamento" e os usos não exercitivos de "censuro",
"culpo" , "aprovo" e "apóio".
5. Para saudações, temos "seja bem-vindo", "boa sorte".
6. Para desejos, temos "abençôo", "amaldiçôo", "brindo a", "à sua
saúde" e "te desejo" (em seu uso estritamente performativo).
7. Para desafios, temos "desafto-o a" , "duvido que", "protesto",
"convido a" (defender um tema) etc,
Quando dizer é fazer 12
No campo dos comportamentais, .além do risco comum das infelicida­
des, há uma oportunidade bastante grande para a insinceridade.
Há conexões 6bvias com os comissivos, pois elogiar ou apoiar é tanto
reagir diante da conduta alheia quanto comprometer-se com uma linha de
conduta. Há também uma conexão estreita com os exercitivos, porque apro­
var pode ser um exercício de autoridade ou uma reação diante da conduta de
alguém. Outros exemplos marginais são "recomendo", "passo por alto" ,
"protesto", "suplico" e "desafio".
5. EXPOSmVos
Os expositivos se usam nos atos de exposição que consistem em ex­
pressar opiniões, conduzir debates e esclarecer usos e referências. Já dissé­
mos repetidas vezes que estamos abertos à discussão quanto a estes atos se­
rem tanto vereditivos exercitivos, comportarnentais, quanto comissivos, tam­
bém. Podemos discutir também se não são descrições simples e diretas de
nossos sentimentos, práticas, etc., especialmente em relação a situações em
que se trata de ajustar a palavra à ação, como ao dizer "passo agora a ocu­
par-me de ... ", "cito ... " , "recapitulo", "repito que" e "menciono que".
Exemplos que bem podem ser tomados como vereditivos são: "anali­
so", "classifico", "interpreto", que supõem o exercício do julgamento.
Exemplos que bem podem ser tomados como exercitivos são: "concedo",
" insto", "insisto", que supõem o exercício de influência ou de poderes. Os
seguintes podem ser considerados exemplos de comissivos: "defmo", "con­
cordo", "aceito", " sustento", "apóio" , "juro", que supõem assumir uma
obrigação. Há outros que podem considerar-se exemplos de comportamen­
tais: "não me oponho" , "desanimo", que supõem adotar-se uma atitude ou
expressar um sentimento.
Apresentarei algumas listas para indicar a vastidão do campo. Os
exemplos centrais são "declaro", "afIrmo" , "nego", "destaco", "exemplifI­
co", "respondo" e outros semelhantes. Um grande número, tal como "ques­
tiono" , "pergunto", "nego", etc., parece naturalmente referir-se à troca lin­
güística, embora não necessariamente. E todos, naturalmente, são expositi­
vos usados em situações de comunicação.
Aqui, pois, vai uma lista de expositivos:
2
2 Mantivemos a apresentação e a numeração de Austin. O significado geral dos grupos é 6bvio, em­
bora não haja nenhuma explicação nos manuscritos. Os pontos de interrogação são de Austin. (N. do
editor J. O. Urimson.)
l ~ ~ L A u ~
1. u1inl\\J fuço objcçl.l'
nego adiro a
declaro reconheço
descrevo repudio
classifico
identifico 5a. corrijo
revejo
2. observo
menciono 6. postulo
? interponho deduzo
argumento
3. informo negligencio (omito)
aviso ? destaco
digo
respondo
7. começo por
replico
passo a
concluo com
3a. pergunto
4. testifico 7a. interpreto
relato distingo
juro analiso
conjeturo defrno
? duvido
? sei 7b. exemplifIco
? creio explico
formulo
5. aceito
concedo 7c. signifIco (quero dizer)
retiro reftro-me a
concordo entendo
não faço ohjeção considero como
Em suma, podemos dizer que o vereditivo é um exercício de julgamen­
to, o exercitivo é uma aftrmação de influência ou exercício de poder, o co­
missivo é assumir uma obrigação ou declarar uma intenção, o comportamcn­
tal é a adoção de uma atitude e o expositivo é o esclarecimento de razões,
argumentos e comunicações.
Como de costume, não me sobrou tempo suficiente para mostrar qual
o interesse de tudo isso que acabo de dizer. Darei, porém, um exemplo. O
Quando dizer é fazer 131
há muito, os fil ósofos têm demonstrado interesse pela palavra " bom" e, re­
centemente, se interessaram pelo modo como a usamos e pelos fins para que
a empregamos. Já se sugeriu, por exemplo, que a usemos para expressar
aprovação, para recomendar ou ainda para qualificar. Mas nunca chegaremos
a uma idéia clara sobre a palavra "bom" e sobre para que a usamos até que
tenhamos, de forma satisfatória, levantado a relação completa dos atos ilocu­
cionários dos quais recomendar, qualificar, etc. seriam espécimes isolados,
até que saibamos quantos destes atos existem e de que forma se inter-rela­
cionam. Isto seria um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do
tipo que acabamos de considerar; sem dúvida haveria muitas outras. Inten­
cionalmente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos - alguns dos
quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. Isto não signifi­
ca que não tenha consciência da existência de tais problemas. É claro que
tudo isso é um tanto cansativo e árido para se ouvir e assimilar; mas. não
tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. Mas seu verdadeiro interesse
começa quando passamos a aplicá-la à ftlosofIa.
Nestas conferências fiz duas coisas que não gosto muito de fazer, e que
são:
(1) apresentar um programa, isto é, dizer o que deveria ser feito ao in­
vés de fazê-lo,
(2) dar conferências.
Contudo, com relação a (1), gostaria de poder pensar que estive não
proclamando um manifesto individual, mas procurando esclarecer um pouco
a maneira como as coisas começam a caminhar e como estão caminhando
com intensidade cada vez maior, em algumas partes da fIlosofia. E quanto ao
(2), gostaria certamente de dizer que nenhum outro lugar poderia ter sido pa­
ra mim mais agradável para dar conferências do que Harvard.
132 J. L. Austin
Apêndice
A principal utilidade das notas tomadas pelos ouvintes das confi
de Austin - a conferência na BBC sobre performativos publicada nos
sophical Papers, o trabalho apresentado no Colóquio de Royaumoot
o título "Performatif-Constatif', e a gravação da palestra feita em Gotcnt)Ur.
go em outubro de 1959 - foi a de permitir que se verificasse e corrigis
reconstrução do texto feita inicialmente sem levar em conta as notas do prl
prio Austin. Concluiu-se depois que estas notas do próprio Austin ncccssi t
vam de muito pouca suplementação de fontes secundárias, sendo muito mai
completas que qualquer uma destas fontes. Alguns exemplos característicu
tirados destas fontes foram acrescentados, bem como algumas expressõcs
racterísticas em alguns pontos em que as notas de Austin não apresentavum
uma redação definitiva. O principal valor das fontes secundárias foi O d
permitir que se conferissem a ordem e a interpretação em pontos em qu
notas se apresentavam fragmentárias.
Uma relação das passagens mais importantes do texto de Austln
quais foram feitos acréscimos ou que foram reformuladas, encontra-se n
apêndice.
Página 25, linhas 19 e segs. Nas notas uma linha extra foi acrescentndn
após a expressão " de que necessitamos" , contendo o seguinte: " de certo
forma isso ao menos chama a atenção especillcamente para o que necessito­
mos em certos casos" .
Quando dizer é fazer t1
Página 26. Na altura das linhas 20-21 há uma nota à margem dizendo:
"profcrimento de palavras" uma noção nem um pouco simples!"
Página 40. O exemplo sobre George está incompleto nas notas. O texto
baseia-se sobretudo na versão na BBC.
Página 41. Em uma nota separada há um acréscimo ao ponto (1):
"mesmo procedimentos que incluam proferimentos como "Estou participan­
do do jogo", podem ser rejeitados em sua totalidade."
Página 43. Da línha 6 até o [mal do primeiro parágrafo temos uma ex­
pansão feita pelos editores a partir de notas muito sucintas.
Página 44. Desde o segundo parágrafo até o parágrafo [mal da confe­
rência, exclusive, trata-se de uma versão composta a partir de várias notas
incompletas feitas por Austin em datas diferentes.
Página 49. Acréscimo à margem do segundo parágrafo: "Restrições a
"pensamentos" aqui?".
Página 51. Acréscimo à linha 7 da página: "talvez pudéssemos opor
aqui obrigação "moral" X obrigação em sentido '·estrito", mas e se "amea­
çar" não for considerado nem uma nem outra?".
Página 55. Nota à margem da linha 19: "Dizer, pressupõe
dizendo implica
o que se diz implica logica­
mente"
Página 55. O parágrafo final é uma expansão das notas de Austin ba­
seada principalmente nas notas de George Pitcher.
Página 63. Desde o oitavo parágrafo até o final da conferência o texto
foi reconstruído a partir de dois conjuntos de notas feitas por Austin antes de
1955. As notas de 1955 são fragmentárias neste ponto.
Página 68. De "podemos dizer que uma fórmula performativa ... " , na
linha 23 até o [mal do parágrafo, temos um desenvolvimento conjectural das
notas de Austin, nas quais simplesmente encontramos: "Usamos "como pode
ser entendido" e "tomando claro" (e até mesmo "declarando que"), mas
não verdadeiro ou falso, nem descrição ou relato".
Página 70. Acréscimo à margem das primeiras linhas da página: "ne­
cessitamos de critérios de evolução da linguagem".
Página 70. Acréscimo à margem do parágrafo que se inicia: "A fór­
mula perfonnativa explícita", diz: "? enganoso: é o recurso compare-se com
precisão" .
Página 82. Acréscimo à margem da linha 11: "e inexplícitos fazem am­
bos".
l 34 J.L.Austin
Página 83. Nas notas de Austin a V119 COllfcrêndu tCI11111l1t uqui. Jl ••
acordo com as notas de Harvard parece que o início da Vlli2 Conferôncía l
ria sido incluCdo na Vil!!.
Página 86. Nota à margem da linha 6 diz: "disse equivale a afumou,
declarou" .
Página 91. Nota datada de 1958, à margem do início da página diz:
"Nota: (1) Nada está claro! distinções, etc.
(2) em todos os sentidos relevantes «A) e (B) X (C) nA
serão todos os proferimentos performativos?"
Página 92. Na linha 15, "como dar a entender" é baseado nas notas d
Pitcher, no manuscrito de Austin temos, "ou "como dar a entender", é ()
mesmo?"
Página 93. O final do parágrafo que se inicia com (b) foi acrescentado
com base em fontes secundárias, não se encontrando nas notas de Austin.
Página 100. Os exemplos encontrados em (1) e (2) foram acrescentaclv.
com base nas notas de Pitcher.
Página 100. O parágrafo que se inicia "De modo que temos aqui..." foi
acrescentado com base nas notas de Pitcher.
Página 104. Da linha final "um juiz deveria ... " até o final do parágmfo
trata-se de um acréscimo com base nas notas de Pitcher.
Página 105. O exemplo "Said Ali" (originariamente em inglês "Iced
ink" ("I stink"», não se encontra no texto, embora fosse famoso entre os
alunos de Austin.
Página 109. (a) e (b) são desenvolvimentos a partir de notas muito su­
cintas baseadas em fontes secundárias.
Página 114. Encontramos literalmente o seguinte na altura das linhas
7/8: "contratos freqüentemente nulos porque os objetos sobre os quais ver­
sam não existem - um colapso de referência (ambigüidade total ou inexistên­
cia)" .
Página 114. Antes da última linha do segundo parágmfo do texto, te­
mos nas notas: "N. B. Dito é claro jamais não declara (Dito também tem
suas ambigüidades)"
Página 118. O parágrafo que se inicia "em terceiro lugar" foi desen­
volvido a partir das notas de Pitcher e Demos.
Página 119. No manuscrito "estávamos certos em" está escri to por ci­
ma de "tínhamos o direito de" na linha 17, porém esta última expressão não
está riscada.
Página 126. À margem, junto à comparação com o vereditivo há uma
nota dizendo: "cf. declarar guerra, declarar encerrado, declarar que se est
em estado de guerra" .
Quando dizer é fazer 135
Página 128. Após o parágrafo tennínado em "farei tudo o que puder"
há a seguinte nota "Prometo que provavehnente o farei". Supomos que
Austin não pretendia que este fosse um exemplo de uso permissível.
Página 129. Nota relativa a "brindo a" e "à sua saúde" no 6 diz:
"ou adequando a ação às palavras".
Página 131. De "como de costume ... " em diante, trata-se de um desen­
volvimento das notas de Austin com base em um pequeno manuscrito sepa­
rado do próprio Austin e confrnnado por notas dos ouvintes.
136 J. L. Austin
DIRECAO: ALoulSIO MORfl"" Il. IUI"A
TÍTULOS EDITADOS
Austin: Quando I)i/('r (I F/l/(' , "u/lI
e Açá
Calli gari s, c,: Mlh, (' (J I
Cura PSiCI,'J[J If(jclI
Calli garis, C.: Jrit roduçúu 1/ un,,' ( '//1"",' ,
rencial das Psicoses
Dorgeuill e, Cl audc : A Sr!l unllll M!il 1
Jacques Lac;ln
Dor, Joel: Inlroduçlw ti 1t' lI llI /I d,' I
- O Inconsciente EM/lllll ml /o rrlIII ,·
TÍTU LOS EM PROD
seu t nsin
Mclman, Charlcs: 1 11('11111//11./
Psicoses
Nnsio, Juun-Ouvid: O/ll m dr / 111// 1'
NnsiQ &. l)'l l1 u: A c/" "'1''''''"
PCl ricf, Frunçoi'l : F'I' /lIOI (/11111'1" /' 111
çJW d"
Sí.' Ll /II . M • d,' 1111'.' '\/1
" ' (/ 11 11111/ /11
, Wi . AJillú'w M ()/JL 1'\/l'ul/.II"

J. L. AUSTI N

QUANDO DIZER , E FAZER
PALAVRAS E AÇÃO

Tradução e apresentação à edição brasilei ra:
Prof. DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO

A936q

Austin, John Langshaw Quando dizer é fazer. / John Langshaw Austin; Trad. de Danilo Marcondes de Souza Fi lho. / Porto Alegre: Artes Médicas: 1990. 136p. CDU:800.1

rndices para o catálogo sistemático: ;;ilosofia da linguagem Ficha catalográfica elaborada pela Bibl. Carla P. de M. Pires CRB 10/753

800.1

In :DICAS

.~lE5

PORTO ALEGRE/1990

Publicado originalmente em inglês sob o trtulo
HOW TO DO THINGS WITH WORDS
~ Copyright 1962, 1975 by the President and
Fellows of Harvard College.

Capa: Mário Róh nelt

Sum ário

Supervisão editorial:

l1R1rEXiO
r ua 13 de maio. 468 - 101.(0504)222 .6223 - caxias do sul · rs

Apresentação ... .. . . . . ... ........ .. .. .. .. . ... .. . Prefácio . .. . ..... .. ... .. ..... .. . .... . .. ...... . .

7
18

Conferências:
I
Reservados todos os direitos de publicação à EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Fones: 30.3444 e 30.2378 90040 - Porto Alegre, RS, Brasil LOJA-CENTRO Rua General Vitorino, 277 - Fone : 25.8143 90020 - Porto Alegre - RS , Brasil

11 III
IV V VI

VII VIII IX X XI XII

Perfonnativos e Constatativos .. . ..... .. .. .. . . . . . . . . . Condições para Perfonnativos Felizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . Infelicidades: Desacertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Infelicidades: Maus usos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Clitérios Possíveis de Perfonnativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Performativos Explícitos ...... ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . Verbos Perfonnativos Explícitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Atos Locucionários, Ilocucionários e Perlocucionários . . . . . . Distinção entre Atos Ilocucionário s e Perlocucioná rios . . . . . "Ao dizer ... " versus "Por dizer ... " .. . . . . . . . . . . . . . . . .. Declarações, Performativos e Força Ilocucionária .... ... " Classes de Força Ilocucionária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Apêndice ....... . . .. .. . .. . ....... .... . . . . . . . . . .

21
29
38
47
S7
66
77
8
95
10
I I1
12 1
133

IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL

Apresentação A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE J. vai partir de uma concepção realista. Russell e L. Já o empirismo psicologista e subjetivista reduzia a reali­ dade à experiência psicológica do sujeito empírico. insere-se na tradição britânica da fJlosofia analítica. explicitando os elementos fundamentais do método proposto e empregado por Aus­ tin . mantendo que a principal tarefa da fIlosofia é realizar um processo de clariQuando dizer é fazer 7 . Bradley e T. AUSTIN Danilo Marcondes de Souza Filho Esta apresentação não pretende ser uma síntese do pensamento fJlos6fi­ co de Austin em geral. B. Bradley e Green. situar a teoria dos atos de fala dentro da chamada "virada lingüística". em seus primórdios. inaugurada por G. H. Mil!. S. a fJlosofia analítica surge como uma dupla reação às correntes de pensamento fJlosófico então dominantes na Grã­ Bretanha ao fmal do século passado: o idealismo absoluto de F.em sua motivação fJlosófica inicial. com Moore e Russell. sustentavam não só a identificação da realidade com a totalidade. H. tal como foi inicialmente proposto por Austin. já que seria impossível superar. desde sua gênese . dentre outros. E. Green e o empirismo. bem como traçar o percurso desta teoria.até as teses por ele defendidas na presente obra. mas também a necessidade de a consciência reconhecer-se como parte do Absoluto. influenciado sobretudo por J. Moore. Nesse momento. característica de grande parte da atividade fJlosófica de nosso século. em rigor e concisão. A fJlosofia analítica. O projeto fJlosófico da teoria dos atos de fala. antes. a apre­ sentação do pr6prio autor. L. Wittgenstein nas primeiras dé­ cadas de nosso século. Meu objetivo é. ou mesmo das idéias desenvolvidas na presente obra em particular.

"deliberadamente" . a tarefa filosófica se desdobra nas duas seguintes ativida­ des: por um lado. Other Minds. Ambas' as práticas encontram-se em Russell e Moore. buscando estabelecer sua fonna lógica e seus elementos constitutivos. A Pleafor Excuses. como tendo um caráter contratual ou de compromisso entre partes. A questão central da investigação filosófica passa a ser então: como pode uma sentença ter significado? A problemática da consciência dá. ponto central da tradição anterior. Tal análise visa obter um esclarecimento do sentido destes conceitos. e o conceito de representação. E a razão de assim proceder radica-se no fato de as condições de possibilidade de em­ prego destes tennos revelarem as circunstâncias que permitem ao falante usá­ los para justificar. enfim pela "gramática" . Este esclarecimento. mais próxima de nos­ sa experiência de falantes. que então se inaugura. sentido e referência. exatamente por serem.os probJemos e n. lugar à problemática da linguagem. é apenas uma fonna de tomar a reflexão mais concreta.ovas discussõcs. os iniciadores da filosofia analítica na tradição britânica. situando-os em um plano menos abstrato. é substituído pelo conceito de significado.. mais precisa. filosofia lingüística ou. portanto. de grande sutileza e pe­ netração. Assim. tomando possível uma análise e com- -!\ prcensi\o destes pr. a interação comunicativa propriamente dita. seu interesse pelas regras de uso da linguagem. Austin pode ser considerado um dos principais re­ presentantes desta tendência. Em ftm­ ção deste procedimento elaboram-se distinções ou aproximações e estabele­ cem-se as características básicas de possibilidade de seu uso. de filosofia da linguagem: uma teoria filosó­ fica sobre a natureza e estrutura da linguagem.ficaçüo ou elucidação dos elementos centrais de nossa experiência. etc. estabelecendo novas distinções. ainda. toma como ponto de partida a análise de advér­ bios como "voluntariamente". pelo recurso a exemplos. Esta análise encontra-se no qu talvez seu trabalho mais elaborado no gênero. desenvolvida no presente livro. mas mediante a análise da fonna lógica das sentenças em que nosso conheci­ mento. . reais ou imaginários. gerariam n. através da análise lingüística dos conceitos centrais destas áreas e do uso dos mesmos na linguagem ordinária. Para ilustrar o método de análise austinno bastaria aqui reconstruirmo sua elucidação de um problema dos mais importantes da ética. vontade. crenças e opiniões sobre o real se expressam e nossa experiência se articula. que Austin julgava ser capaz de clarificar e desmis­ tificar estes problemas tradicionais. considerar que dentro da corrente analítica. examinando noções como tenno e proposição. explicitando arti­ cu lações até então não reconhecidas. pelo que se pode ou não dizer. todo problema filosófico fica sistematicamente restrito a um "campo semântico" bem delimitado. Austin recorre a uma série de exemplos tirados não só da prática cotidiana do uso lingüístico. etc. que fornecem os elementos para a determinação do significado e conseqüentemente para o esclarecimento ou elucidação dos tennos. o que faz com que se considere o ato de fala. teoria da percepção. etc. . por que e por quem determinadas expressões podem ser usadas e outras não. "acidentalmente". ética. ação . apoiando-se no caráter intersubjetivo da lingua­ gem e assim fazendo com que suas conclusões tenham a ver mais direta­ mente com nosso universo de discurso e nossa prática cotidiana. segundo a qual. ver­ dade. etc. como. Podemos.. Three Ways of SpiLling Tnk e Sense and Sensibilia se caracterizam por suas discussões. A finalidade da análise não é. por outro. de certos problemas centrais da tradição ftlosófica. "minha pala­ vra é meu penhor" . elucidando obscuridades. AI/stin . O método de Austin revela. por conseguinte. Todas estas discussões são desenvolvidas através do método que acima denominamos análise filosófica da linguagem ordinária. que virão a ser os conceitos-chave desta teoria da linguagem. etc. desculpar ou eximir-se da responsabilidade de seu ato. inevitavelmente. em lugar de partir de noções abstratas oriundas de uma teoria ética ou de conceitos muito amplos como responsabi­ lidade. Quando dizer é fazer 9 K J . Muitos de seus mais importantes trabalhos co­ mo A Pleafor Excuses. A segunda tarefa da filosofia será desenvolvida pela corrente conheci­ da por vezes como filosofia da linguagem ordinária. em um sentido estrito. genérico e fonnal e. O recurso a exemplos. analisar a sentença. Nesta sua análise. Esto "Iu­ cidação se dá não através de um método especulativo ou introspectivo. nomes próprios e predicativos.oblemas sem recurso u I)lcssupustos IIlcluJ CSlcOS lrudiclo nais que. Neste tipo de análise encontramos o genne de uma de suas concepções mais originais. no contexto do qual o uso de certas ex­ pressões deve ser examinado. enquanto ad­ vérbios. reinvestigar os problemas filosófi­ cos tradicionais em teoria do conhecimento. palavras que qualificam ou determinam o tenno " ação" . e ainda de si­ tuações imaginárias e fictícias. a questão da responsabilidade que decorre de uma ação. Pelo pro­ cedimento que Austin estabelece. A primeira tarefa a que acima nos referimos dá origem ao que se pode chamar. " i­ nadvertidamente" e outros congêneres. assim. l.ov. empírica. como responsa­ bilidade e ação. Escola de Oxford. contudo. levando-se em conta quando. está claro. percepção e conhecimento. como também de processos crimi­ nais em que alguém foi ou não responsabilizado por uma ação.

. ou o sentido e a referência. e não meramente de representação ou correspondência com a realidade. enfim.sempre deve ser considerado provisório. mas.isto é. então. ao contrário. os paradigmas e valo­ res. levou Austin a refletir sobre a própria natureza da linguagem. elementos estes dos quais a linguagem é indissociável. as práticas sociais. Este tipo de análise. do uso da linguagem em um determinado contexto. Philosophical Papers. quando examinamos o que se deve dizer e quando se deve fazê-lo. L. uma preocupação em fundamentar teoricamente estas "análises conceituais". entre o sistema de signos sintaticamente ordenados e a realidade externa a ser representada.. mas sempre em relação a uma situação em que faz sentido o uso de tal expressão. em seu aspecto tanto ló­ gico como epistemológico. e também pela dimensão moral do compromisso assumido na interação comunicativa. dando lugar a uma concepção de linguagem como um complexo que envolve elementos do contexto. de realizar uma reflexão sobre os problemas tradicionais da fJ. Austin ponto central da concepção de Austin c ~UH principal contribulçu fllosofia da üoguagem parece-me ser a idéia de que a linguagem deve ser tratada essencialmente como uma forma de ação e não de representação da realidade. convenções de uso e in­ tenções dos falantes. O significado de uma sentença não pode ser estabelecido aírav da análise de seus elementos constituintes. seja pela consideração de outros aspectos do uso até então não examinados. de suas condições de sucesso. j á que corresponde precisamente à garantia de adequação entre linguagem e realidade. Em decor­ rência. e procurando eluci­ dá-la . Não há mais uma separação radical entre "lingua­ gem" e "mundo" . contudo. a "racionalidade". já que é próprio ao método o caráter provisório e relativo da elucidação obtida. sempre enfatizado por Austin. Uma das principais conseqüências desta nova concep­ ção de linguagem consiste no fato de a análise da sentença dar lugar à análj­ se do ato de fala. são as condições de uso da sentença que determinam seu significado.a partir das con­ dições de uso desta expressão. desta comunidade. porque o que consideramos a "realidade" é constituído exatamente pela linguagem que adquirimos e empregamos. a necessidade de se levar em conta o contexto de uso das expressões e os elementos constitutivos deste contexto indica cla­ ramente que a linguagem não deve ser considerada em abstrato. mas investigar o contexto social e cultural no qual é usada. de sua "felicidade". como forma de atuação sobre o real. estabelecer sua defrnição ou significado . Como se vê.. como quer a tradição insp. objeto da análise fJ. p. o nome e o predicado. uma vez que as mesmas questões sempre podem ser retomadas e ree­ xarrunadas sob novos ângulos. Desta forma superam-se as barreiras entre linguagem e mundo. o conceito mesmo d significado se dissolve. mas Quando dizer é fazer 11 .losofia se encon­ tram na linha da assim chamada fJ. ou seja. Segundo Austin. Não há soluções definitivas em filo­ sofia.losófica.. só que interpretando o conceito como expressão lin­ güística e não como entidade mental ou objeto lógico. da linguagem como forma de ação. sob certo ponto de vista. como foi dito . 10 J. da contribuição do sentido da referência das partes ao todo da sentença. A verdade é substituída agora pelo conceito de eficácia do ato. nem em elaborá-las mais sistematicamente. Partimos então de uma preocupação com O significado de determinados termos e expressões lin­ güísticas e passamos a investigar como a linguagem tem significado. Trata-s. e portanto de constituição do real. com uma determinada finalidade e de acordo com certas normas e convenções. As condições de realização do ato de fala apresentadas por Austin na I Conferência da presente obra explicitam exatamente estas ca­ racterísticas: a investigação fJ. dá-se a passagem para um segundo plano do conceito de verdade. 182 Podemos afirmar. que quando analisamos a linguagem nossa finalida­ de não é apenas analisar a linguagem enquanto tal. Na verdade. seja pelo estabelecimento de novas relações. entretanto. mas em uma teoria da ação. nestes primeiros trabalhos. a visão de Austin é sempre orientada pela consideração da linguagem a partir de seu uso. em sua es­ trutura formal apenas.usamos uma consciência mais aguçada das palavras para aguçar nossa percepção ( . similar. Duas são as conseqüências básicas desta nova visão proposta por Aus­ tino Surge um novo paradigma teórico que considera a linguagem como ação. ) dos fenômenos .losofia mediante uma análise conceitual. A linguagem é uma prática social concreta e co­ mo tal deve ser analisada. Neste método de análise. O que se analisa agora não é mais a estrutura da sentença com seus elementos constitutivos. que palavras devemos usar em determinadas situações.. isto é.losófica da linguagem deve realizar-se com ba­ se não em uma teoria do significado.irada em Frege. quanto do ponto de vista de uma teoria sobre a linguagem. Tanto do ponto de vista da análise da linguagem ordinária. as primeiras contribuições de Austin à fJ. Russell e Moore. ao método socrático.losofia da linguagem ordinária. cuja pro­ posta é muito mais metodológica do que doutrinária ou sistemática. não estamos exami­ nando simplesmente palavras (ou seus "significados" ou seja lá o que isto for) mas sobretudo a realidade sobre a qual falamos ao usar estas palavras . conceito central da semântica clássica. Não se encontra.

como afirma expli­ citamente a conclusão de Quando dizer é fazer. exatamente por serem atos realizados. Austin apresenta aí as linhas gerais desta teoria que já vinha desenvol­ vendo.alguns dos quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. Isto seria um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do tipo que aca­ bamos de considerar.as condições sob as quais o uso de detenninadas expressões lingü(sticas pro­ duzem certos efeitos e conseqüências em uma dada situação. deram origem à teoria dos atos de fala. segundo ele próprio. H.. para realizar um ato. Sentenças do tipo "Eu sei que . porém superior a estas. seja quanto a sua estrutura. Já em 1946. Os primeiros trabalhos que começam a tematizar mais teoricamente a questão da natureza da linguagem e do significado são How to Talk (1953­ 4). Austin vê nisso a causa da confusão e do equívoco que caracterizariam a "falácia descritiva" . seriam espécimes isolados. 163-4 Quando dizer é fazer. P. J. Strawson. que explicam seu sucesso ou insucesso. sem dúvida haveria muitas outras. aquelas que. Conseqüentemente. " . ao contrário. não me sobrou o tempo suficiente para mostrar qual o interesse de tudo isto que acabo de dizer. Mas nunca chegaremos a uma idéia clara sobre a palavra "bom" e sobre para que a usamos até que tenhamos. " do mesmo modo que "Eu prometo . Suas impliQuando dizer é fazer 13 . não es­ tão sujeitos à verdade ou à falsidade. o "Prefácio" a esta obra). 1975. de forma satisfatória. Austin. buscando sua siste­ matização e assim propondo uma nova concepção de linguagem. . Intencional­ mente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos . Austin criticava o que considerava a "falácia descritiva" . Trata-se precisamente de uma teoria sobre a natureza da linguagem enquanto uma forma de realizar atos: os atos de fala. L.. O fIlósofo . uma obra inovadora e que abre novas perspectivas em ftlosofia da linguagem para novas investi­ gações pelo estabelecimento de elementos teóricos que desenvolvidos. Os proferimentos performativos. mas parafazer algo. Mas seu verdadeiro interesse começa quando passamos a aplicá-la à ftloso­ fia. Já se sugeriu.. por autores como P. portanto. que seria a cognição. Aqui não só se formula uma série de conceitos teóricos como peiformativo. Portanto. É claro que tudo isto é um tanto cansativo e árido para se ouvir e assimilar. o objeto último continua sendo a aplicação destes con­ ceitos teóricos sobre a linguagem à elucidação das questões surgidas no campo concreto da experiência e da atividade humanas. em sua conferência Outras Mentes. Peiformative Utterances (1956) e a conferência apresentada no Colóquio de Royaumont em 1958. ao serem usadas em detenninadas sentenças. e que constituem a substância de How to do things with words (cf. através de um novo tipo de análise que Austin começa a desenvolver então e que cul­ minará na teoria dos atos de fala. que a usemos para expressar aprovação.. Grice e. se interessaram pelo modo como a usamos e pelos fms para que a empregamos. pp. le­ vantado a relação completa dos atos ilocucionários dos quais recomen­ dar. seja quanto a seu funcionamento. mi­ nistrados na Universidade de Oxford no início da década de 50 e posterior­ mente em universidades americanas.. portanto. etc. por exemplo. os fIlósofos têm demonstrado interesse pela palavra "bom" e. Como de costume. etc. F.. qualificar. porém. de uma ruptura com a proposta anterior de elu­ cidação mediante a análise lingüística. Propõe. pertencen­ do à mesma categoria da crença e da certeza.". Palavras e ação. mas. para recomendar ou ainda para qua­ lificar. devido à sua forma declarativa. força ilocucionária. Austin ca de certos termos e expressões depende de um lIludclo te6rico de l ingulI gem que forneça os critérios para realizar esta análise e a elucidação preten­ dida. constituem "proferimentos performativos". assim. trata-se da busca d uma forma mais eficaz e rigorosa de se realizar esta análise e esta elucida­ ção. Isto não significa que não tenha consciência da existência desses proble­ mas. parecem ser descri­ ções de fatos. desde o início da década de 40 e que será fmal­ mente elaborada em uma série de cursos intitulados Words and Deeds. mui­ tas vezes criticamente. é então levado a buscar os fatos e situações que tomam tais sentenças verdadeiras. em sua análise. que se considere a expressão "Eu sei que . Seriam expressões usadas não para descrever ou relatar algo. que agora passa a se fundamentar em uma teoria sobre a linguagem. Darei. Passa a tratá-las. Esta preocupação com uma redefmição de linguagem e com a maneira de considerá-Ia decorre explicitamente da idéia de que a elucidação ftlosófi­ 12 . Palavras e ação é. agora substituída por um interesse meramente teórico sobre a linguagem. mas a "condições de felicidade". Por isso ele as chama de expressões peiformativas. De há muito. Peiformatif-Constatif. como também se procura esta­ belecer e classificar os diferentes tipos de atos de fala. prin­ cipalmente. Pelo contrário. recentemente. até que saibamos quan­ tos destes atos existem e de que forma se inter-relacionam. co­ mo descrições de um ato mental do falante. sim. que se baseia na determinação das condições de verdade da sentença. cometida por certos fIlósofos. mas não tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. Não se trata. a análise destas sentenças não pode ser feita adequadamente através da Semântica Clássica. R. Searle. J. um exemplo.

Paulo Alcoforado. Não desejo com estas ressalvas eximir-me da responsabilidade pelas eventuais falhas que todo tradutor inevitavelmente comete. Publicado em La Philosophie Analytique. 1962 . XLII. inicialmente publicado em Procee­ dings of the Aristotelian Society. 427-440. pp. por G. Warnock. Claredon Press. sup. Sbisà. O. como anteviu Austin. Minuit. pp . 6 1. adap­ tando para o português. 83-105. 148-187. pp. 1956-7. 14 _ _ _ _ _ __ " Other Minds". E. Paulo. 1958. I! ed. 1975. na medida do possí­ vel. trabalho apresentado em 1956 em programa ra­ diofônico da BBC. por J. Quando dizer é fazer 15 _________________________________ J. procurei sempre.. 1952. as inúmeras sugestões feitas a este trabalho de tradução. cunhados pelo autor. ra­ ramente encontradas ao mesmo tempo em um mesmo texto. 1966. mas apenas indicar as dificuldades inerentes ao texto. 1952. J. pp. L. "A Plea for Excuses" . Escrito na década de 30. trata-se de um texto em linguagem coloquial. Por fim. como a lingüística. M. 111-128. . pp. preparada por J. pp. 75. pp. quando isto se impunha. Analysis. Mind. conservar os traços característicos do estilo coloquial de Austin. incluído na 3!! ed. 1953-4. 1968. 395-404. pp. 1939. Lukasiewicz's Aristotle's Syllogistic: From the Stand­ point of Modem Formal Logic " . S. voI. Clarendon Press. O texto de Austin apresenta ao tradutor duas dificuldades básicas. seus exemplos e as expres­ sões idiomáticas utilizadas. Por outro lado. Are there A Priori Concepts?". 1884. 2!! ed. vol. por se tratar de uma obra original e polêmica. "Pretending" . Does this Refer to Swans on Canals on Mars?" . Cahiers de Royaumont. 271-304. idiomático e fluente. Clarendon Press. LVII.L. Urmson e M. sup. o texto contém um conjunto de termos técnicos. "Critical Notice on J. Warnock e J. " Unfair to Facts" . Frege: Die Grundlagen der Arithmetik. pp. também publicado em J. não poderia deixar de agradecer ao Prof. de importância fundamental para os objetivos a que se propõe. exa­ tamente na medida em que é derivado de conferências proferidas por Austin na Universidade de Harvard. 12. Analysis. "The Line and the Cave in Plato's Republic". Sense and Sensibilia. Em primeiro lu­ gar. Londres. Blackwell. con­ ceitos teóricos e mesmo neologismos. organizado por G. pp. publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian Society. pp. "Performatif-Constatif '. procurei torná-los mais claros ao leitor que se inicia através de notas explicativas. Clarendon Press. . AUSTIN Philosophical Papers. "Performative Uterrances" . a antropologia. para que o leitor as tenha em mente durante sua leitura. "Report on Analysis Problem n2 1: What sort of "if' is the "if' of " I can if I choose"?. o. S. Tradução para o inglês da obra de G. 18. 1-30. Abril . 109-132. Urmson. publicado inicialmente em Proceedings of the Aris­ totelian Society. ampliada em 1979. 261-296. reconstruído a partir de notas por J. XII. "The Meaning of a Word". "How to Talk . etc. 1950. 125-1 26. Fica assim óbvio seu propósito de servir mais à exposição oral do que à leitura. 1963. ontém os seguintes trabalhos: "Agathon and Eudainwnia in the Ethics of Aristotle" . Os pensadores. conferência em 1958 na American Society of Political and Legal Philosophy. 1962. O Urmson.Some Simple Ways" . publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian So­ ciety. ed. The Foundations of Arithmetic. repercussãO e interesse percorrem. XX. inicialmente publicado em Proceedings qf the Aristotelian Society. 1946. todos os domínios da fllosofia. BffiLIOGRAFIA DE J. 'rraduzido para o português por Marcelo Guimarães Da Silva Lima e publicado no vol. publicado inicialmente em Proceedings of the British Aca­ demy. LIII. 97-99. ed.) Aristotle. O. "Report on Analysis Problem n2 12: "AlI Swams are white or b1ack". 26 1-278. 1958. Quanto aos termos técnicos introduzidos por Austin e aos conceitos teóricos de que lança mão. "Truth" . vol. pp. Macmillan. da UFRJ . XXXII. trabalho apresentado em 1954 na Philosophical Society de Oxford. além do muito que me ensinou sobre a difícil arte de traduzir. Moravcsik Corg. XXIV . pp. 227-246. Ox­ ford.Austin . J. 1956. mas de difícil adaptação para nosso idioma. Finalmente. trabalho apresentado em 1940 ao Moral Sciences Club de Cambridge e a Jowett Society de Oxford. Urmson. LU da col. 1975. sup. Oxford. Oxford. Também publicado em The Philosophi­ cal Review. "Ifs and Cans".caçoes. "1hree Ways of Spilling lnk" . Oxford. Paris. para fazer com que o texto seja mais acessível. How to do Things with Word5. trabalho apresentado em 1958 no Colóquio de Ro­ yaumont. inicialmente publicado em I'rcx'('cdif/gs of the Aristotelicu Society. bem como de áreas afins. 1953. Oxford. 3!! ed. a psico­ logia.

The Harvester Press. L. Oxford. e fa­ leceu em 1960. A bibliografia nesta área é imensa. RORTY. em Berkeley. Austin exerceu grande influência em Oxford em seu tempo. embora a rigor não se possa dizer que consti­ tuíssem uma "escola" filosófica. Clarendon Press. Minuit. Strawson. Routledge & K. S. L. F. J. K. O. S. 232-238 . Speech Acts. LANIGAN. G. 1980. RÉCANATI. Tomou-se fellow do AlI Souls College da Uni­ . "J. Ou rante a Segunda Guerra Mundial fez parte do Serviço de Wonnaçôcs do Exército Britânico. M. R. 1969. Amsterdam. Hampshire. Press. e S.) Symposiwn on J. J. L. A. Warnock. Londres. pp . Blackwell. Austin. Este grupo incluía. Trata-se apenas de uma relação de algumas das principais obras sobre Austin e a Teoria dos Atos de Fala. quando utilizavam o método de análise lingüística na discussão de problemas fIlosóficos. Hampshire. remetemos o leitor hs referências bibliográficas encontradas nas proprias obras relacio­ nadas acima. Paris. MARCONDES DE SOUZA P-. J. L. chegando ao posto de tenente-coronel e recebendo várias condecorações. J. Sussex. L. Haia. P . 1981. FANN. Cambridge Univ. sendo fa­ mosos os seminários infonnais que realizava na universidade com alguns de seus colegas. onde sofreu a influência do filósofo H. 1969. e entre 1958 e 1959 apresentou uma série de conferências na Universi­ dade da Califórnia. Austin" . Seuil. (org. of Chicago Press. "J. Benjamins. Paris. 16 J. Austin Quando dizer éfazer 17 . 1984. Inglaterra. D. Austin" . posteriormente publicadas como Sense al1d Sensibilia. L et alo Essays onJ. O.. Univ. Hassocks. O. L. Warnock. Austin: A Critique of Ordinary Language Philosophy. Paul. SEARLE. Urmson. Austin' s Philo­ sophy. P. L. FELMAN. versidadc de Oxford. GRAHAM. pp. Austin" . Urmson. J . 1971. Language and Action: A Reassessment ofSpeech Act Theory. 1977. J. pp. 2!! ed. (org. L. "Austin at Criticism" pp. 1977. Words and Deeds: Problems in the Theory of Speech Acts. Les Enoncés Peiformatifs. A pw-tir dl' 1952 ocupou a cátedra " White" de Filosofia Moral nessa universidade. K. R. 1973. dentre outros. FURBERG.BlBUOGRAFIA SOBRE AUSTlN E A TEORIA OOS ATOS DE FALA* BERLlN. R. Em 1955 apresentou as Conferências William James na Uni­ versidade de Harvard. Press. 239-247. T. dando origem à chamada Escola de OJford. Le Scandale du Corps Parlant: Don Juan avec Austin ou La Séduction en deux Langues.) The Linguistic Tum. 250­ 260. Saying and Meaning: A Main Theme inJ. Speech Act Phenomenology. sobretudo no que diz respeito a artigos em periódicos es­ pecializadoo. D. F. Oxford Univ. L. S. Oxford. Cavell. Estudou Letras Clás­ sicas no BalHol College da Universidade de Oxford. Era casado e teve dois casais de fIlhos. prin­ cipalmente os artigos de J. 1978. Austin. que deram origem à prescnt obra. Martinus Nijhoff. J. Urmson e G. em 1933. e em 1935 do Magdulcn College. Grice. 1967 . NOTA BIOGRÁFICA John Langshaw Austin nasceu em 1911 em Lancaster. "J. nos Estados Unidos. H. HOLDCROFT. 248-249. Prichard.

em 1955. os cursos de Austin em Oxford versaram sobre o tema "Palavras e Ações". tornam-se cada vez mais fragmentadas. Em uma breve nota. J. ao [mal das conferên­ cias. No presente volume reproduzimos as últimas notas de Austin. as houvesse publicado.Prefácio à 1a e 2a edições inglesas Prefácio à 1~ edição inglesa As conferências que formam este livro foram apresentadas por Austin na Universidade de Harvard. Austin preparou no­ vas notas. Para tais conferências. 1. Mas as conferências aqui publicadas não reproduzem exatamente as notas escritas por Austin. Pode ter ocorrido que neste processo de interpretação tenha aparecido no texto uma frase que Austin talvez não aprovasse. fazendo apenas algumas pequenas correções e acrésci­ mos. ". A razão é a seguinte. embora incorporando aqui e ali partes das anteriores.. Durante LlS anos de 1952 a 1954. sem dúvida lhes teria dado uma forma mais apropria­ da. e uma gravação da conferência "Performativos" apresentada em Gotemburgo. embora tenha continuado a dar cursos em Oxford sobre "Palavras e Ações" com ba­ se nas mesmas notas. Austin diz que as idéias que servem de pano de fundo a estas conferências "se originaram em 1939. ele próprio. Supplementary volume XX (1946). como parte da série de "Conferências William James". que examinou todo o texto cuidadosamente e evitou que eu co­ metesse inúmeros erros. freqüentemente. com um mínimo de alterações e tão fielmente quanto possível. Vali-me delas no artigo 'Outras Mentes' publicado nos Proceedings of the Aristotelian 50­ ciety.. Os editores exa­ minaram. Certamente teria reduzido as recapitulações com que inicia a 2~ Confe­ rência e que se repetem nas demais. mais comQuando dizer é fazer 19 . em suas linhas básicas.. as notas mais recentes de Austin sobre esses temas. Agradeço a todos que me ajudaram através do acesso a seus aponta­ mentos e aos que me cederan1 a gravação. é pouco provável que em qualquer parte o pensamento de Austin. Consideram que o novo texto é mais claro. então. sendo que os acréscimos à mar­ ~ gem são abreviados. 173 e segs. Urmson Prefácio à 2~ edição inglesa A Ora. as notas sejam bastante completas e redigidas em parágrafos inteiros. Nessas partes as notas foram interpretadas e comple­ mentadas recorrendo-se às notas de 1952-1954. com pequenas omissões de ar­ tigos e outras partículas gramaticais. Se bem que em sua maior parte. conjuntamente as notas de Austin relativas a todos estes pontos. Porém. porém. do que com uma versão do que ele suposttuncnte teria es­ crito caso tivesse preparado suas notas para publicação. Marina Sbisà examinou todas as notas preparadas por Austi n para estas conferências. Austin mruorla dos leitores preferirá contar com umü versúo heI do que se sabe qu Austin escreveu. Pode­ mos ainda compará-las com apontamentos tomados na Inglaterra e nos Esta­ dos Unidos por aqueles que assistiam à exposição oral. Warnock. O. pp. utilizando-se ele de notas reela­ boradas a cada ano e que cobrem aproximadamente o mesmo campo que as "Conferências William J ames" . L. comparando-as com o texto impresso da 1~ edição e assinalando os pontos que lhe pareceram merecer revisão. acima mencionadas. Graças a essa colaboração o leitor dispõe de um texto bem mais aperfeiçoado. É igualmente certo que em sua apresen­ tação oral Austin desenvolvia o texto encontrado em suas notas. entitulada "Proferimentos Performativos" . a 18 J. Elas consti­ tuem. principalmente no começo das conferências. portanto. ou ainda do que pensamos que teria dito durante as conferências. Se Austin. Pequenas imperfeições da fonna e do estilo. No apêndice incluÚllos indicações mais completas des­ sas fontes auxiliares. em outubro de 1959. após o que decidiram corrigir e aperfeiçoar o texto já impresso em diversas passagens. tenha sido distorcido. Meu especial agradecimento a G. bem como inconsistências do vocabulário devem ser des­ culpadas e são o preço que devemos pagar por tê-las publicadas. e pouco depois fiz emergir um pouco mais deste iceberg diante de diversas associações filosófi­ cas . levando ainda em conta a conferência na BBC.

os fIlósofos acreditaram que o papel de uma declaração* era tão-somente o de " descrever" um estado de coisas. A declaraç ão seria então o uso da sentença para afirmar ou uegar algo. Assim. Urmson í] J Conferência Performativos e constatativos o que tenho a dizer não é difícil. o que pode ser verdadeiro ou falso. cujo entido não foi considerado suficientemente claro para que sua incorporação ao texto pudesse auxiliar a leitura ou interessar o leitor. "A cosa é vermelha" pode ser usada para afirmar uma caracterfstica (ser vermelha) de um objeto (a rosa) . Estas di stinções são objeto de inúmeras controvérsias em Filosofia da Lingua­ . há tradicionalmente. Os gramáticos. Por mais tempo que o necessário. por um falante determ inado. perguntas e exclamações.pleto e. 1\ sentença é entendida aqui como uma uni dade lingüfstica. do T. ao mesmo tempo. O proferimento é a emissão concreta e particular de lIllIa sentença. a sentença da lín­ uo portuguesa. nem polêmico. quando proferida por al guém em um con­ texto determinado. em um momento determinado . incluíram no apêndice uma transcrição literal de um certo número de acrés­ cimos feitos por Austin à margem ou nas entrelinhas de suas notas. além das declarações (dos gramáticos). e não pode ter passado despercebido pelo menos em algumas instâncias. O fenômeno a ser discutido é bastante difundido e óbvio.cr 21 . podendo ser falsa ou verdadeira. Marina Sbisà J. L. Os filósofos sem dúvida não preten­ "Traduzimos statement por " declaração" sentence oor "sentença". na realidade. 1 Nilo o J. e sentenças que ex­ pressam ordens.) é correto realmente Jizer que uma sentença seja uma declaração. indicaram com freqüência que nem todas as sen­ tenças são (usadas para fazer) declaraçõesl .'l" tirada da feitura das declara­ çõos. Ausrin Qunndo dizer 6 fOJ. o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso. possuindo uma estrutura gramatical e dOlllda de significado. O. En­ tretanto. na realidade ela é usada para flUOr uma declaração. e utterance por "proferimento" . ainda não encontrei quem a ele tivesse se dedicado especificamente. ou declarar um fato. e u declaração em si é uma "construção 16gic. O único mérito que gostaria de reivindicar para esta exposição é o fato de ser verdadeira pelo menos em parte. tomada em abstrato. havendo ex tensa literatura a respeito. As definições que adotamos correspondem ao emprego IlO por Austi n. desejos ou concessões. (N.em. mais fiel ao que se encontra nas notas de Austin.

foram examinadas com um novo rigor. por mais assistemática que fosse sua classificação e misteriosa sua explicação. as "proposições éticas" talvez tenham propósito. se pensarmos bem nisso. não se disfarça sempre necessaria­ mente como declaração factual. De início apareceu. DELIMITAÇÃO PRELIMINAR DO PERFORMATIV02 o tipo de pro ferimento que vamos aqui considerar não consiste obvia­ mente em um caso de falta de sentido. ou ordem. ~rn de esperar-se que os juristas. muitas das sentenças que antigamente teriam si­ do aceitas indiscutivelmente como "declarações". não tenha sido dada. Se alguém quiser considerá-la a maior e mais saudável das revoluções da história da ftlosofia. Esse tipo. Por exemplo.itam. razão pela qual prefIro usar a palavra "constatativa". em um bem. a atenção devida às dificuldades que esse fato obviamente apresenta. de fonna um tanto indireta. como veremos. de mani­ festar emoção ou prescrever comportamento. embora o seu uso inadequado possa gerar. também usamos proferimentos cujas fonnas ultrapassam pelo menos os limites da gramática tradicional. talvez. porém. Pennanece a dú­ vida sobre como decidir qual é a pergunta. Seguindo esta linha de pen­ samento.as expres­ sões que se disfarçam. Mas o que pode parecer estranho é que isto ocorre exatamente quando assume a sua forma mais explícita. a grosso modo. eram estritamente sem sentido. Já se reconhece que muitas pala­ vras que causam notória perplexidade quando inseridas em declarações apa­ rentemente descritivas não se destinam a indicar algum aspecto adicional particularmente extraordinário da realidade relatada. em um se­ gundo estágio. estabelecemos certos limites para a quantidade de sentenças sem sentido que estamos dispostos a admitir. com freqüência. mas são usadas para in­ "Truto-se de uma re ferência à distinção feita por Kant. modos verbais. os filóso­ fos. Deixar de levar em conta tais possibilidades. já que isso é comum às revo­ luções. o propósito de registrar ou transmitir infonnação direta acerca dos fatos.) res. ou têm apenas em parte. tem-se demonstrado atualmente de maneira minuciosa. que muitas perplexidades filosóflCas tradicionais surgiram de um erro . mas. Contudo. mostrou-se que muitas "declarações". 2 Tudo quanto for dito nestas seções é provis6rio e sujeito à reformulação à luz das seções posterio­ que representllm conhecimento. Este exame surgiu. muitas vezes. qual é a ordem. dicar (e não para relatar) as circunstâncias em que a dec laração foi feita. nem sempre fonnulada sem deplorável dogmatismo. Com isto. ou influenciá-lo de modo espe­ ciaL Aqui também Kant deve ser considerado como um dos pioneiros. a concepção segundo a qual toda declaração (factual) deveria ser "verificável". passou-se a perguntar. O que quer que pensemos sobre todas essas concepções e sugestões. se muitas das aparentes pseudodeclarações seriam realmente " declarações" . ou coi­ sas desse teor. o que levou à concepção de que muitas "declarações" são apenas o que se poderia chamar de pseudo­ declarações.deram negar tais coisas. Nem todas as declarações verdadeiras ou falsas são descrições. tendem a sucumbir à sua pr6pria ficção temerosa que uma dcc laruçfto "de di reito" 6 umo declnroçllo de fato. um exagero. se apercebessem do verdadeiro estado de coi­ • Talvez al guns agoro já se apercebom.o erro de aceitar como declarações fac­ tuais diretas proferimentos que ou são sem sentido (de maneiras interessantes embora não gramaticais) ou então foram feitos com propósito bem diferentes. Será conveni~nte . estudar esse tipo de declaração. Em um primeiro momento e de fonna mais óbvia. com parti pris e com motivos extrínsecos. Tampouco se duvida que tanto os filósofos quanto os gramáticos sempre perceberam não ser fácil distinguir até uma pergunta. ma is que ninguém. Contudo. no todo ou em parte. tanto por fIlósofos quanto por gramáticos. contrastando-as com as declarações factuais que elas im. não será. para explici­ lar suas características. porém. as restrições às quais está sujeita ou a maneira como deve ser)recebida. portanto. variedades muito especiais de "falta de sentido" (rwn­ sense). até mesmo nós. etc. (Jo Austln r 23 . na Critica da razão pura. Trata-se sobretudo de um tipo de nosso segundo grupo . ao menos em filosofia. inicialmente sob esta fonna enganosa. denomina-se falácia "descritiva" . ou pelo me­ nos tem-se procurado parecer provável. 2 J.1 n conhec imento sem do fato virem a se constituir legilimamente em ciência. utilizando-se os poucos e inci­ pientes critérios gramaticais disponíveis como a ordem das palavras. (N. qual é a declara­ ção. etc. ou por mais que julguemos deplorável a confusão inicial em que mergulharam a doutrina e o método ftlosófico. embora talvez este não seja o nome adequado. que seriam meras pfotcn8Õc. já que o termo "descritiva" é por si mesmo específi­ co. do T. e os jufzos da metaffsica especulativa. de uma declaração. Não é de surpreender que o início tenha sido fragmentá­ rio. Creio que os gramáticos ainda não perceberam tal "disfarce" e os filósofos só muito incidentalmente 3 . entre os jufzos da o l ~ lIcjo. apesar de sua fonna claramente gra­ matical. Passou-se geralmente a considerar que muitos proferimentos que parecem declarações não têm. como Kant* primeiro sustentou de maneira siste­ mática. apesar de seu uso um tanto vago de "sentença" co­ mo equivalente à "declaração". e a contínua descoberta de novos tipos de sentenças sem sentido re­ sultou.. não cabe dúvida de que estão produzindo uma revolução em ftlosofia. Nós. Quais são os limites e as defmições de cada uma? Recentemente. como era co­ mum antigamente. descritiva ou constatativa.

em mi­ nha opinião.lo filosoficame nte Irrelevante. N~nhum dos pro ferimentos citados é verdadeiro ou falso. menos fe io.do modo que é proferido no decurso de uma cerimônia de casamentos. editor). e nem sejam "verdadeiros ou falsos". e do tipo "prepotente". Preferi as­ sim um neologismo ao qual não atribuiremos tão prontamente algum signifi­ cado preconcebido. Batizar um navio é dizer (nas circunstâncias apropriadas) as palavras "Batizo. De fato. todos são performativos "explfcitos" . classe esta que deve ser definida. gramaticalmente.. assim como não é necessário justificar que " Poxa! " não é nem verda­ deiro nem falso. não estou relatando um casamento. Que nome daríamos a uma sentença ou a um proferimento deste tipo?? Proponho denominá-la sentença perfonnativa ou proferimento performativo. muitos performativos são "contratuais" ("Aposto"). 9 Devo esta observação ao Professor H L A. exceto a de "declaração" . Isto está longe de ser tão paradoxal quanto possa parecer ou quanto eu possa ter feito parecer. adapumdo-o para o português. assim como se dá com o termo "imperativo". (N. ou o que quer que seja) que constitui sua principal fmalidade. diante do juiz ou no altar.quando proferido ao quebrar-se a garrafa contra o casco do navio. que mais adiante chamaremos "exercitivo". embora sua etimologia não seja irrelevante*. Na realidade. mas fácil de usar e mais trad icional em sua formação. que nada "descrevam" nem "relatem". ou. (Cf. Hart. Por exemplo. e constru­ ções dúbias como as hipotéticas) .ue ao se emitir o proferimento está . cada um cobrindo uma ou outra classe mais ou menos ampla de performativos.) 24 _______________________________________ • / •• Austil/ úando dizer 6 fltzer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 25 . Emitir um proferi mento constatati vo (isto é. na acepção em que é usado pelos advo­ gados ingleses ao se referirem àquelas cláusulas de um instrumento legal que servem para efetuar a transação (isto é.9 Mas "operativo" tem outros significados. "Aceito" . considero 4 Isto é deliberado. a transmissão de propriedade. (d) "Aposto cem cruzados como vai chover amanhã. Urmson. correspondente à idéia de ação. O termo técnico que mais se aproxima do que ne­ cessitamos seria talvez "operativo" . Os proferi­ mentos perfo rmati vos se contrastam primordialmente com os proferimentos constatativos. N. do T. esta mulher como minha legítima esposa" . Exemplos: (a) "Aceito (scilicet).". verbos usuais na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa4 . no todo ou em parte.se realizando uma ação. considerado um mero equivalente a dizer algo. etc. e hoje é até mesmo usado para significar quase a mesma coisa que "eficaz" . Pode ser que estes proferirnentos "sirvam para infonnar". tampouco constituem casos de falta de senti­ do. 7 As "sentenças" formam uma classe de "proferimentos" .) 5 Austin percebeu que a expressão" Aceito" (I do) não é usada na cerimôni a de casamento tarde de l11u is pura corrigir es te erro.8 Evidentemente que este nome é derivado do verbo inglês to perform. etc. Mas deve-se proferir "performativo" por ser mais curto. isto tão óbvio que sequer pretendo justificar. de forma abreviada. optamos por monter O origina l. não sendo. do T. co~seqüentemente. B. Deixamos o erro perma necer no texto por considerá. 8 Anteriormente usei "performatório" . Todos terão. O MuJto monos qualquer coisa que eu já tenha feito ou venha a fazer. (Nota de J. nem encerram aqueles indícios verbais de perigo que os filósofos já de­ tectaram ou pensam haver detectado (palavras curiosas como "bom" e "to­ do". a realização de uma ação. *Consideramos o termo "performati vo" preferfvel ao seu equivalente mais próximo em português que seria " reltlizati vo" . Mas nenhum termo de uso corrente que eu conheça é suficiente pa­ ra cobrir todos os casos. Xli Conferência. evidentemente) não é descrever o ato que estaria praticando ao dizer o que disse6 . nem constatem. (b) "Batizo este navio com o nome de Rainha Elizabeth" . estou me casando. / Muitos outros termos podem ser sugeridos. como é natural. Como o ternlO já se ac ha consagrado na lite­ r!ltum especiali zada e como se trata de termo técnico e neologismo cunhado por Austin. cujo proferimento da sentença é. mas isso é muito diferente. " um performativo".Como primeiros exemplos vamos tomar alguns proferimentos que não podem ser enquadrados em nenhuma das categorias gramaticais reconheci­ das. que não seria normalmente descrita consistindo em dizer algo. Emitir um proferimento performativo é . ou "declaratórios" ("Declaro guerra"). Po­ dem-se encontrar proferimentos que satisfaçam estas condições e A. Vide mais adiante em "ilocuçóes'" . os exemplos que daremos a seguir se­ rão decepcionantes. e indica C). não é necessário justi­ ficar.tal como ocorre em um testa­ mento. ao passo que o resto do documento simplesmente "relata" as circunstâncias em que se deve efetuar a transação. embora duvide que já haja uma definição sati sfatória. proferi -lo com uma referência histórica) é fazer uma declara­ ção. verbo correlato do substantivo "ação" . por exemplo. (c) "Lego a meu irmão este relógio" . O. nem declarar que o estou praticando: é fazê-lo." Estes exemplos deixam claro que proferir uma dessas sentenças (nas circunstâncias apropriadas. fazer uma aposta. O tenno " perfonnativo" será usado em uma variedade de formas e construções cognatas. Quando digo. auxiliares suspeitos como " deve" (ought) ou " pode" (can) .

deveríamos transformar as proposições acima e afIrmar que "dizer determinadas palavras é casar-se" .. "Prometo . Assim. QU Llmlo dlLcr <5 rOI.. Genericamente falando. ou um outro ator nos bastidores)l f1 não o faz" . especial­ mente quando pensamos em alguns dos performativos mais solenes. em al­ guns casos. Assim. A ~ mes mo continufsm. que é são e de quem não me divorciei.CI' 2 . pilhe­ riando ou escrevendo um poema. ou "casar-se. na realização de um ato (seja de apostar ou qualquer outro) . isto é. Mas temos a tendência a pensar que a se­ riedade das palavras advém de seu proferimento como (um mero) sinal ex­ terno e visível. em algumas culturas. e as­ sim por diante. o cenógrafo .. mas este está longe de ser. L.registra meu vínvulo a "grilhões espirituais" . tra gédia gregll cláss icu de autoria de Eurfpedes. mas meu coração (ou mente. examinando as profundezas invisíveis do espaço ético. mas com as precauções necessárias pode deixar de causar estranhe­ za. de algum modo.~_ .. de um ato interior e espiritual. tenderá a parecer um sólido moralista frente a uma geração de teóricos superficiais. se podemos fazer afmnações como: "Casar-se é dizer umas tantas palavras". é simplesmente dizer algumas palavras" . é sempre necessário que as circunstâncias em que as palavras forem proferidas sejam. ou melhor. tam­ bém realize determinadas ações de certo tipo. 10 Mio quero com isso eliminar toda a " equi pe dos bl1-~tid ores " . \I\. {lo T . no casamento (cristão) é essencial para me casar que eu não seja casa­ do com alguém que ainda vive. com toda a distinção de um espe­ cialista do sui generis. então. I ~ Jl crFV/ V ~ \h}JjvtO L Oj \ ) . ao qual teremos que nos re­ ferir mais tarde com maiores detalhes. mas não faça a entrega do objeto. " .. a única coisa necessária para a realização do ato. um casamento pode ser efetuado por coabitação.. Embora um tanto vago. "minha língua jurou. digamos. a princípio. cuja realização é também o alvo do proferirnento. Uma ação pode ser realizada sem a utilização do proferimento performativo. y~wrt' J O~Wf1DÀ . Austin _______________________________... seja escrita. A exatidão e a moralidade estão. ele propicia a Hipólito uma saída. No entanto. senão a principal ocorrência.. sempre têm que ser apropriadas.. 2 . é geralmente necessário que a oferta tenha sido aceita pelo interlocutor (que deve fazer algo. seja oral.os iluminudorcs. de solenidade . mediante outros meios? Por exem­ plo. no mesmo exemplo. " me constrange . Vemo-lo como ele se vê... (1.. tudo bem. parecer estranha e até mesmo imper­ tinente. seja por conveniência ou outro motivo. minha o bjeção é uperuls contro ce rtos " ntores substitu tos o fi ciosos". e é também um importante lugar comum em to­ da discussão que envolva um proferimento. para muitos propósitos. pois aquele que diz "prometer não é apenas uma questão de proferir palavras! É um ato interior e espiritual!" . Disto falta pouco para que acredi­ temos ou que admitamos sem o perceber que. freqüentemente é necessário que o próprio falante. podemos supor que todas as demais coisas que certamente são exigidas para completar normal­ * lfipÓlieo. Se excluirmos atos interiores fictícios como esse. incluindo outras ações. quer sejam ações "físicas" ou " mentais". tais co­ mo "Prometo . ou posso apostar valendo-me de uma máquina automática colocando uma moeda em sua ranhura. ao bí­ gamo uma desculpa para seu "Aceito" e ao vigarista uma defesa para seu " Aposto". ambas.J.. isto é bem verdade de modo geral . do lado da simples aflf­ mativa de que nossa palavra é nosso penhor. seja para [ms de in­ formação. <. para que uma aposta se concretize. Até aqui. ter em mente algo totalmente diferente e desta vez bastante equivocado. ou mesmo o proferimento de algumas palavras adicionais. ou outras pessoas. Não devo estar. abre o caminho da imoralidade. Por certo que estas palavras têm de ser ditas " com serie­ dade" e de modo a serem levadas "a sério". para eu batizar um navio é essencial que eu seja a pessoa escolhida para fa­ zê-Ia.. ain­ da que excepcionalmente o seja. como o excesso de profun­ didade. Assim.-_ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ ___J. Trata-se do seguinte: geralmente o proferimento de certas palavras é uma das ocorrências. como dizer "Feito") e uma doação não se realiza caso diga "Dou-lhe isto" . ao fazer uma objeção.. Mas podemos. apropriadas. A expressão clássica desta idéia encontra-se no Hipólit. mas as circunstâncias. Mas a verdadeira razão por que tais observações parecem perigosas se encontra provavelmente em um outro fato óbvio. Uma primeira objeção ponderável ou importante seria a seguinte: é possível realizar-se um ato do tipo a que acima nos referimos sem proferir uma única palavra.612)* . ou "apenas dizer de­ terminada coisa é apostar". É gratifIcante observar. ­ PODE O DIZER REALIZAR O ATO? Cabe perguntar. onde Hipólito diz. (N. ou "Apostar é simplesmente dizer algo"? Tal doutrina poderia. o pro­ ferimento exteriorizado é a descrição verdadeira ou fa lsa da ocorrência de um ato interno.

embora feita de má-fé. entre outros. mas não é uma mentira nem um engano. de uma tendência recente de questionar um antigo pressuposto filosófico: a idéia de que dizer algo. o ato de apostar. mas. Temos de aprender a correr antes de sabennos andar. é apropriado que a pessoa que profere a promessa tenha uma detenninada in­ tenção.foi vã. mas isso é um problema muito diferente... Como devem estar lembrados. Talvez entre todos os componentes este pareça o mais adequado para fazer o "Prometo" descrever ou registrar.ou melhor. ser "ver­ dadeiro" ou "falso" é tradicionalmente a marca característica de uma decla­ ração. estamos nos casando e não relatando algo.. ou que ao descrever o que está fazendo dê uma descrição distorcida. observados mais de perto. Aqui devemos assinalar que ao dizer esta palavra esta­ mos fazendo algo. Estes proferimentos têm a aparência . por conseguinte.lo tipo " Prometo que . ou feita de má-fé. Pois a pessoa realmente promete: a promessa aqui não é sequer vã. Nunca dizemos que o proferimento era falso. é sempre declarar algo. No ca­ so particular das promessas. mediante exemplos. embora a pessoa afmne que promete. deve ser de preferência descrito (ainda que de moQuando dizer 6 fazer 2 !l J. ou " Aceito (esta mu­ lher . fazem-no falso? To­ mando a segunda alternativa em primeiro lugar. L. ). No entanto. ou em que por dizermos. provavelmente fraudulento e sem dúvida incorreto. resultam ser proferi­ mentos que não podem ser " verdadeiros" ou "falsos". a promessa . E o ato de casar. 11 Conferência Condições para performativos felizes 11 Evitamos di sti nguir entre um e outro precisamente porque a distinção não se encontra aqui em quoslllo. Não é verdade que quando tal intenção está ausente nós falamos de uma "falsa" promessa? E no entanto falar assim não é dizer que o profe­ rimento "Prometo que. sem dúvida. errônea. O proferimento talvez seja deso­ rientador. como poderíamos corrigi-los? Comecei por chamar a atenção. isto é. felizmente !) casos e sentidos em que dizer algo é fazer algo. a sa­ ber. digamos . Íamos considerar alguns (apenas al­ guns. como. "Falso" não é necessariamente usado apenas para dec1a­ rdções. com sua ausência. a saber. o atol! . Um de nossos exemplos era o proferimento "Aceito" (esta mulher como minha legítima esposa . Este tópico é um desenvolvimento. para alguns profe­ rimentos simples do tipo conhecido como perfonnatórios ou performativos. Além do mais. E o fato de dizennos que uma promessa é falsa não nos compromete mais seriamente do que falar de um passo em falso. pelo menos nos ca­ sos dignos de consideração. a saber. em todos os casos considerados.. )" são de fato descritas pelo proferimento e. o fato de nos estarmos casando. No máximo poderíamos dizer que o proferimento sugere ou insinua uma falsidade ou um engano (já que há a intenção de fazer algo).. e também de muitos outros perfonnativos. mas sim o proferimento . perfeitamente natural em Filosofia. a intenção de cumprir com a palavra. no sentido de que. ou ao dizennos algo estamos fazendo algo. não dizemos que uma aposta é falsa ou que um batismo é falso.. por exemplo.. ou não foi levada a cabo..menle um prorerianento <.. não o faz. Esta é uma idéia inconsciente e. Se nunca cometêssemos erros. Allstin .ou pelo menos a fonna gramatical ­ de "declarações". ou coisa semelhante. com sua presença fazem-no verdadeiro ou. ao que parece. quando proferido no decurso de uma ceri­ mônia de casamento. porém. isto é. " seja falso . passamos a considerar o que realmente dizemos do proferimento em questão quando alguns de seus com­ ponentes elementares está ausente ..

então o ato em questão (o casamento) não se realiza com êxito. batizar. devem ser adequadas ao procedimento espec ffico invocado. por certas pessoas. Daí o uso de letras latinas em oposi­ ção à letra grega. uma ação. digamos. em cada caso. estejam assinaladas pelas letras e números seleciona­ dos para cada item. se transgredirmos uma dessas seis regras. Apostar não é. por ocasião de tal proferimento. Mas tudo isso levaria . Se violamos uma das regras de tipo A ou B . etc.2. digamos. etc. a nossa ação. em que não se consegue levar a cabo o ato para cuja realização. naturalmente. MO (A. é indispensável a 1 Scrd explicado depoi s por que o fato de se ter estes pensamentos. seja um desrespeito ao procedimento.do inexato) como wn ato de dizer certas palavras. no direito processual norte-americano o re­ lato do que se disse vale como prova. somos insince­ ros. Até aqui sentimos apenas ruir. tempo. mas malo­ grado. nosso proferime nto per­ formativo será. que nos preocupa aqui.". (r .. Austin QUW1do dizer é fazer 31 . Primeiro. naturalmente.!\ncias" jd cons ideradas em (A). simplesmente proferir as palavras " Aposto. Precisamos de nomes para nos referirmos a esta distinção geral. A seguir daremos exemplos de infelicidades e de suas conseqüências. feliz ou sem tropeços. prometi mas .redunda. Tentemos enunciar esquematicamente. que estas condições necessárias pareçam óbvias. c além disso. além disso..2) devem realmente conduzir-se dessa maneira subseqüentemente. (8. se proferimos a fórmula incorretamente. Mas como devemos agir daqui em diante como filósofos? Uma coi­ sa poderíamos fazer. de modo correto e (8. interior e espiritual. Por 'esta razão chamamos a doutrina das coisas que podem ser ou re­ sultar malogradas. 1) Nos casos em que. sem reivindicar para tal esquema qualquer caráter defmitivo. Poderíamos começar tudo de novo. dificilmente pode ser provado. sob nossos pés. vamos concentrar nossa atenção em um detalhe já mencio­ nado de passagem . Que isso seja assim.isto é. Segundo estou informado. por exemplo. não se efetua. . xistir um procedimento convc!/lciollullllcnl . por todos os participan­ tes. ao contrário. por isso chamaremos de­ sacertos os atos malogrados do tipo A. Com efeito. ou então caminhar lentamente através de etapas lógicas. l lll apresen te um deterrmnudo efeito convencional c qu incluo o prorerimento de certas palavras.2) as pessoas e circunstâncias particulares. já são casadas. seja porque fo i o comissário e não o capitão do navio quem realizou o casamento. Em tais casos não devemos dizer de modo geral que o proferimento seja falso. caso o que tenha sido dito seja um proferimento do tipo que chamamos de performativo. muitas outras coisas em geral têm que ocorrer de modo adequado para po­ dermos dizer que realizamos. em fracassar. I csUl 30 _J.. de doutrina das infelici­ dades.! e. e os participantes devem ter a intenção de se conduzirem de maneira adequada. Ora. por exemplo. e m celtas circunstâncias. Além do proferimento das palavras chamadas performativas. 1) O procedimento tem de ser executado. Isto se passa quando digo " pro­ meto" sem ter a intenção de cumprir o prometido. como já assinalei. pelo menos em parte. apostar. esperamos. (1' . Receio. L. Para comprovar o que acabo de dizer basta. fazer um lega­ do. com êxito. malogrado.lo em tais circunstâncias . qu (A. A primeira grande distinção reside na opinião entre o conjunto das quatro regras A e B e as duas regras r . embora reali­ zá. e não como a realização de um ato distinto. o procedimento visa às pessoas com seus pensamentos e sentimentos. porque este é conside­ rado um relato com força legal. de que tais palavras são meros sinais externos e audíveis. a sólida base de um pre­ conceito. quando. ou em cuja realização.. e espero. o ato é concretizado. o único. no entanto me atrevo a afIrmar que se trata de um fato. então aquele que participa do procedimento.a questão das "circunstâncias adequadas". aliás. I-B. de um pro ferimento performativo altamente desenvolvido e explícito. casar.isto é. ou se as pessoas não estão em posição de realizar o ato seja porque.2) completo . não se concretiza. alguém poderia dizer tais palavras e mesmo assim poderíamos discordar de que tivesse de fato conseguido apostar. sentimentos e intençOes lnclufdo dentre as OUlrJS "c ircunst. propor a nossa aposta após o término da cor­ rida de cavalos. Isto coincide perfeitamente com nossa intuição inicial a respeito dos proferimentos performativos.ma­ neiras que. como ocorre com freqüência. o que resultaria em um testemunho de segunda mão . pelo menos algumas das coisas necessárias para o funcionamento. Mas é claro que há di­ ferenças consideráveis entre as diversas " maneiras" de ser malogrado .não admissível como prova . Quais são essas coisas esperamos descobrir pela observação e classificação dos tipos de casos em que algo sai errado e nos quais o ato .mas por ter sido algo realizado. ou visa li instauração de uma conduta correspondente por parte de alguns dos participantes. c o invoca deve de fato ter tais pensamentos ou sentimentos. não pelo que foi dito. de uma forma ou de outra. Nos dois casos.

casar. Austin Quando dizer 6 fazer _ "" . B. mas vamos adiar sua consideração para mais tarde .) Além disso. mas de acordo com n de fi niçfio dada no tex to. seja porque não há. sem termos realiza­ do o ato pretendido. Daí as infelicidades do tipo A pode­ rem ser chamadas de "más invocações" . miSe.l \ A. indiscip linas. ainda. 2 Austin dc vcz em q uando usa outros nomes para as diferentes infelicidades. Entretanto. Unnso ll). Referência ao sistema algébrico formul ado em meados do séc. Quando o proferimento for um desacerto. Isto porque. os casos B. nos casos de tipo r dizemos que o ato malogrado foi "professado" ou "vazio".) é nulo ou sem efeito. sem efeito. porém. Mas apresso-me a acrescentar que tais distinções não são rígidas e fixas e .2. 7'. Em contraste com A.1 Insinceridades I r ') . gera conseqüên­ cias mais ou menos desastrosas. indicativo de erro. não consegui encontrar um bom nome para o primeiro tipo (isto é. A. no que diz respeito aos desacertos. O fato de um ato ser nulo ou sem efeito não quer significar que nada tenha sido feito .ldcs 1\13 I' I Desacertos Atos pretendidos mas nulos I\husos A tos pro fessados mas vazios / 1\ \ ti r. r . em vez de chamá-lo de nulo ou sem efeito. o procedimento nos casos B é correto e válido. não significa o mesmo que " sem conse­ qüências. desejo fazer algumas observações gerais sobre as infelicidades. Dizemos que não foi levado a cabo ou que não foi consumado.lorlo destes conceitos.) \ Más invoca~ões ato rejeitado Más eXeL'lleJ)CS ato prejudicado I A. Nos dois casos classificados como A existe uma má invocação de um procedimento. o bíga­ mo não se casa duas vezes. O. Antes de entrar em detalhes. que foi uma mera tentativa. muitas coisas podem ter sido feitas. do T . Assim. por ter sido prejudicada. a despeito do nome. seja porque o procedimento em questão não conse­ gue efetivar-se de maneira satisfatória.fire (desacerto). resultados ou efeitos". A seguir devemos tentar esclarecer. ou usamos expressões como: " foi uma forma de união" em oposição a "casamos" . Dentre elas podemos arrazoada­ mente batizar o segundo tipo (isto é.2 é a dos tropeços.I más execuções. a álgebra do casamento é boolea­ na*. em vez de di­ zer que foi " pretendido" ou " nulo". de . falha ou falta. Assim temos: lI1is. mas que não foi aplicado como se pretendia . L. infraçOes. Duas palavras finai s acerca dos atos nulos ou sem efeito. estes termos MO devem ser tomados em seu sentido literal. fracassos./. Por serem de in teresse aJlluns são registrados aq ui . A. r . pelo contrário.I ). apenas dois valores: verdadeiro ou falso. o procedimento invocado é esvaziado de sua autoridade e assim nosso ato (casar. A classe B. mas a execução do ritual. Por outro lado.l e r . Em tais casos dizemos que nosso ato foi tão-somente intencionado ou.I é a dasfalhas.ICCltlÍolI (m6 execução) e mi. (N . 2 não realizações. misillvocatioll (má invocação). Infeliz­ mente. I não-atuação.sllpplicatiorl má aplicação). etc. rupturas. 2) .2 / B.fonna verbal correspondente. deslealdades.2 má atuação. que termos como "pretendido" e " professado" não resisti­ rão a um exame mais rigoroso. (N.). Por outro lado. um procedimento. Assim. B. a distinção geral entre os tipos A e B. Podemos indagar: (1) A que variedade de "ato" se apl ica a noção de infelicidade? (2) Até que ponto está completa a classificação das infelicidades aci­ ma? (3) Os vários tipos de infelicidade se excluem mutuamente? Analisemos estas indagações seguindo a ordem acima. '" Austin joga com o prefixo inglês lI1is. d. A.2 'I Más aplicações falhas Tropeços Não me surpreende que haja dúvidas acerca de A. de modo geral. A.1dissimu lações. ao formular a mo. O ato pretendido fica prejudicado por uma falha ou tropeço na condução da ce­ rimônia. chamaremos de abusos aqueles atos malogrados (de tipo r) em que a ação é concretizada (obviamente não se devem enfatizar as conotações usuais destes termos) . Através deles podemos ter cometido um ato de bigamia.em que existe um procedimento. aqui.0. desrespeitos. serão chamados "más execuções". mais particularmente. (N. '" Isto é. XI X pe lo 16gico e matemátiéo inglês George Boole. temos o seguinte esquc lllll :~' In rcll vld . como o pr6pri o Austi n IlSsi nalu.) 32 J. (Em resumo.I \ H. em oposição a "mas invocações". nüo-execuções. a saber. e a classe B. r . em oposição aos casos A.de "má aplicação" .

do T. que é um comentário e uma crftiea ao de Russell. salientar que uma das coisas que os tll sofos fazem ultimamente é examinar com atenção especi~ certo tipo de sen­ tenças declarativas que . Não há uma pressuposição de existência em ambos os casos? Não se trata de uma declaração que se refere a algo que não existe. Não se trata de que todos os rituais ou todos os pro­ ferimentos performativos sejam passíveis de todas as formas de infelicidade. de um modo ou de outro. embora não exatamente fal sas nem contradit6rias. pois em muitos destes casos po­ demos mesmo dizer que o ato foi nulo (ou tomado nulo pela coação ou ainda por influência indevida) e assim por diante. Goldman (1970) A Theory ofHuman Actioll. Oxford Univ. Teremos que voltar a este assunto mais tarde 3 . Por último. tenham que ser de algum modo declarações verdadeiras ou falsas impediram os juristas de perceber esta questão com mais clareza do que nós.ex. no todo ou em parte. absurdas . mesmo.. de serem exe­ cutadas com dificuldade. Press. Em muitos desses casos não cabe dizer simplesmente que tal ato foi realizado ou. meros movimentos f1sicos: . tamb6m oldssleo. mas nula? E quanto mais consideramos uma declaração. Strawson. Isto pelo menos é óbvio. Neste contexto pode-se ver que. Apenas a obsessão generalizada de que os pro ferimentos legais e os proferimentos usados em. Davidson (1980) Essays on Actions and Events. ~ Trutll-se de exemplo famoso. Vejam-se.se a noção de infelicidade se aplica a pro ferimentos que sejam declarações. que alguém o praticou. digamos. S. há semelhanças óbvias entre uma mentira e uma promessa falsa. Press. Não estou aqui no âmbito da doutrina geral. como esta. no todo ou em parte. Muitíssimos deles têm o caráter geral. mesmo.). então estes performativos enquanto ações estarão sujeitos às mesmas deficiências que afetam as ações em geral. e que não é propriamente fal­ sa. contudo.do que chamamos de infelicidade. li propósito da questão da aparente falta de sentido de sentenças que. podem ser realiza­ dos por meios não-verbais.(l) Qual o alcance da infelicidade? Em primeiro lugar. Para nós. Austin unndo dizer ó razer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 35 . Chama a atenção para a necessidade de levar em conta os aspectos intencionais e convencio­ nuis na interpretação da ação humana. Estn discussão é retomada posteriormente por P. não como uma sentença ou proposição.e aqui sou forçado a pôr minhas car­ tas na mesa . p. "On Refening" (1950). em seu artigo./lIfro. do T. ou. Contemporaneamente. e por vezes até mesmo as pe­ culiaridades do proferimento performativo. Mas importa também chamar a atenção para os inúmeros "atos" que dizem respeito ao jurista. 47 e S8. anaJisado por Bertrand Russell em seu artigo 34 J. parece evidente que a infelicidade é um mal herdado por todos os atos cujo caráter geral é ser ritual ou cerimonial. Ou. a Filosofia da i\ çllo tem retomado estas discussões que servem de pano de fundo para o conceito de ação envolvido na Teoria dos Atos de Fala.). Ambos os artigos nconlmm-se troduzidos para o portugutls e publicados pela ed. do proferimcnto performativo. por exemplo. importa. entre outras coisas. (N. tais como apostas e legados de propriedade. seja por serem performativos ou por incluírem pro­ ferimentos de performativos. Quero com isto dizer que as ações em geral. são passíveis. White (org. embora isto possa nos ter estimulado (ou deixado de estimular) em relação a certos atos que são. no coleção "Os (lcnsudores". afmnações que se referem ti algo que não existe. os autores de jurisprudência constantemente demonstra­ ram perceber os diversos tipos de infelicidade. contudo. que foi "deOnldo" (/lO assim podemos dizer) basicamente em oposição à "declaração" já tida como supostamente conlv'-­ cida. pela mesma razão. (N. A esta altura. Mas tais deficiências são distintas . Ncw Jersey. dentre outros: A. Ora. não todas. ou por acidente.ou distinguíveis . F. podemos perguntar . "atos legais" . "atos de proferir palavras" . por todos os atos convencionais. é de importância mais primordial perceber que. (2) Nossa segunda pergunta foi: até que ponto é completa esta classifi­ cação? (I) A primeira coisa a ter presente é a seguinte: se ao proferir nossos performativos estamos de modo efetivo e em sentido inequívoco "realizando ações" . como: "O atual rei da França é careca". como os filósofos se apressam em afmnar. basta omitir a referência espe­ cial ao pro ferimento verbal em nosso caso A. porém. Paulo. Oxford Univ. expostos à infeli­ cidade. quanto mais não seja pelo simples fato de que muitos atos con­ vencionais. Isto é óbvio. Os mesmos tipos de regras têm de ser observados em todos estes procedimentos convencionais. ou devido a este ou àquele tipo de engano. de atos convencionais ou rituais e assim estão. suponho que uma doutrina eral de nível superior possa incluir em um único corpo doutrinário tanto O "On Denotillg" (1905). sem intenção. não possuem umO re­ rorencia atual. L.* Poderíamos ser le­ vados a aproximar isto da intenção de doar algo que não possuímos.por exemplo. D. ainda. nos volumes relativos nos respectivos autores. seja por serem ou incluírem a realização de al­ gum procedimento convencional. um grande número de atos que se incluem no campo da ética não são. pp.1. . em úl­ tima análise. na tradição analítica. parecem. ou seja. Prentice-Hall. Por isto não ousaria afirmar que nenhum jurista o tenha feito. tanto mais estamos considerando a coisa toda como um ato. podendo assim ser explicada através de leis causais no sentido natural. Até aqui mostramos a infelicidade como um traço característico " i\uslin critica aqui uma tradição positivista e cientificista que reduz a ação humana a suas caracte­ rlsticas de movimento f(sico apenas. Abril.) (1968) The Phi/osophy ofAction. mas como um ato de fala (a partir do qual os demais são construções lógicas). A.

não é lavada ou usada a sério. por exemplo. (2) foi um terrível vexame. porém. enfraque­ cimento. digamos. pois trata-se de uma mudança de rumo em cir­ cunstâncias especiais.que se deriva do "mal-entendido" . atos que contêm um proferimento perfonnativo. está no fato de não ter sido eu a pessoa escolhida para batizá-lo (quer o nome "Senhor Stalin" fosse ou não o escolhido. e pode-se considerar que o ato foi meramente um intento. por não ser eu a pessoa indicada ou não ter a "capaci­ dade" 'de realizá-lo. De modo similar. de "faz-de-conta". com a ter­ minologia apta a lidar com elas. Se uma outra destas condições não for satisfeita. os performativos enquanto proferimentos her­ dam também outros tipos de males que infectam todo e qualquer proferi­ mento. deliberadamente excluídos. de ti nhamento . Ob­ viamente é necessário que para haver prometido eu tenha normalmente que: (A) ter sido ouvido por alguém. Compreensivelmente a linguagem. ohlll6m capacitado a batizar bebês. A dificuldade. ou falado em um solilóqUIO. A resposta é 6bvia. o que. 4 OOlizru uma criança seria ainda mais di fl"cil. importa lembrar que tais elementos podem imiscuir-se em quaisquer dos casos que estamos discu­ tindo. Mas por nuo incluir em nossa análise esse tipo de infelicidades. e é aplicado por Austin para caracterizar o "enfraquecimento" que um ato de fala sofre ao ser utilizado em um contexto não. como casar-se com um macaco. felizes ou não. se dito por um ator no palco. Poderíamos dizer também que parte do procedimento é a pessoa vir a ser designada para praticar o ato. por exemplo. na apresen­ tação de ordens ou nodificações legais. sobretudo no sentido em que as formas de errar "se sobrl põem" e "se confundem" e a decisão entre elas acaba por ser "arbitrária" .já que realmente pode ser assim chamado . a ficção. aparecerão dúvidas quanto ao fato de eu ter realmente prometido. Pode-se dizer que "fingir" ter batizado o navio. (N. poder-se-ia também dizer que em casos onde sequer há pretensão à capacidade ou direito a ela tampouco existem procedimentos convencionais aceitos. e assim por diante. aliás. como os juristas. Nossos proferi­ mentos performativos. embora seja de interesse investigá-las e. devem ser entendidos como ocorrendo em circunstâncias ordinárias. talve de certa forma seria até pior se o fosse). no sentido em que podemos nos enganar de duas maneiras a mesmo tempú. embora possam ser enquadrados em uma regra mais ge­ ral. Esta importante consideração terá que ser tratada em particular mais tarde em outro contexto. Por outro lado. ou que foi nulo. é conveniente estar familiarizado. Tudo isso fica excluído de nossas considerações. Podemos ter o nome errado e o sacerdote errado . na prática. (b) Não. (B) ter sido entendido por esta pessoa como tendo prometido. *0 termo "estiolamento" significa literalmente perda de cor e vitalidade. Suponhamos. mas de forma parasitária em relação a seu uso normal. em meu ntender. poderíamos nos perguntar se seu ato foi nulo por que o procedi­ mento de batismo não se aplica a pingüins. Tratam-se de farsas. ao prometer insinceramente a um asno dar-lhe uma cenoura. em tais circunstân­ cias. que meu ato foi "nu­ lo" ou "sem efeito". forma esta que se inclui na doutrina do estiolamento da lin­ guagem*. com o teatro. ou se introduzido em um poema. quebrando a garrafa presa à proa. L. mas não escol hid o para batizar aquele bebê em particular. proclamo: "Batizo '8te navio com o nome de "Senhor Stalin" e para completar solto as amar­ ras.). isto vale para todo e qualquer pro ferimento . (lI) Em segundo lugar. ou por que não há procedimento aceito de batizar qualquer ser que não seja humano? Estas questões.isto é. no momento. (III) Pelo menos por ora. Todos concordamos que: (1) o navio não foi batizado por este at0 4 . o objetivo de excluir esta espécie de conside­ ração é que me levou a não apresentar um tipo de "infelicidade" . (a) Não. etc. isto 6. do T. (3) Os cosos de infelicidado acima {ulolados cxlucm·sc mutuamente'. porém. etc. Quando o santo batizou os pingüins. com freqüência acontece. Elementos deste tipo poderiam ser normalmente rotulados de "circunstâncias atenuantes" ou ainda de " fato­ res redutores ou anulatórios da responsabilidade do agente". foram. talvez a pessoa a quem prometi. Austin uando dizer é fozer 37 .que chamamos infelicidade quanto estes aspectos "infelizes" da realização de ações . Aproximo-me e. que haja um navio nas docas de um estalei­ ro. Estes. O que quero dizer é o seguinte: um proferimento performativo será. 36 _ _ __ _ ________ J. Precauções especiais são tomadas em Direito para evitar essas e outras infelicidades. sempre vazio ou nulo de uma maneira peculiar.literal. não têm importância teórica.

Assim. estendi-me um pouco mais na discussão de algumas questões gerais acerca do conceito de infelicidade e em seu lugar propus um novo mapa para a área. armamo-nos. tal procedimento incluindo o proferimento de c~r. ou não consiste. faziam do ato pretendido um mero abuso de procedi­ mento. Na primeira conferência caracterizamos. Em filosofia. 01 não conseg uiu divorciar-se dela. em prindp.2. de modo preliminar.por exemplo o código de honra que inclui o duelo. quiçá. tas palavras por certas pessoas em certas circunstâncias. até mesmo . e se o pro ferimento classificado como um desacerto pelo fato de o procedimento invocado n6 ter sido aceito. sobre alguma coisa. chamamos a atenção para o fato de que. Por força de tal objeçã examinemos esta questão no que diz respeito à palavra "aceito". ao que parece. e a regra A. não mais deveríamos dizer "(I) existir. e assim sendo apre­ sentamos uma lista de seis desses tipos de infelicidades. o proferi­ mento está sempre sujeito à crítica. ou. estarmos previamente armados deve­ ria significar estarmos prevenidos. Assim. podendo ser infeliz. não sendo um relato. ao mesmo tempo. por detenninadas pessoas e em detennina­ das circunstâncias.I. tornando-se uma questão mais ou menos opcional a 11111­ neira de classificar um dctenninado exemplo particular. admiti (ll) que a lista não era completa. e que existem outras dimensões do que se pode razoavel­ mente chamar de "infelicidades" que afetam de modo geral a realização de atos cerimoniais e de proferimentos em geral. um d('<. admitimos neste país apenas um outro pro­ cedimento verbal ou não-verbal". ao contrário. e o ato inten­ cionado nulo e vão. como também se "estar (em geral) em uso" não deveria ser preferível a essas duas palavras. dimensões que são certamente 38 J. O que poderíamos tomar como exemplo? Consideremos "Peço divórc io". não sendo. e. em um determinado caso. " não admitimos neste país nenhum procedimento para efetivar um divórcio. Nossa formulação desta regra contém as palavras "existir" e "aceito". mas poderíamos com razão perguntar não só se "existir" pode ter algum sentido que não seja o de "ser aceito" . Duas novas chaves em nossas mãos e. com­ plementar da primeira. Se alguém emite um pro ferimento performativo. A seg uir. tal procedimento devendo incluir o profcri­ mento de determinadas palavras. fio poúeria ser feito através da expressão "meus representantes o procuraQuando dizer é fazer 3 . aftmltlntl que deve haver um procedimento convenc ional aceito que tenha um detcrl1li nado efeito convencional. cabe tomar alguns exemplos de infel icidades ou de infruçocs de nossas seis regras. Neste caso poderia ser dito "não obstante ter pedido o divórcio. ou. da Confusão.:1l pOUCIll combUlI1I se ou sobrepor-sc. dois no­ vos patins em nossos pés.a. ambos cristãos e não muçulmanos. Sustentei (1) que a noção de infelicidade aplicava-se a todos os atos cerimoniais e não apenas aos atos verbais. Depois. em dizer algo. Se assim for. apenas. e que estes são mais freqüentes do que se crê. verdadeiro ou falso. em um paIS cristão. com dois novos e brilhantes con­ ceitos com os quais podemos romper o berço da Realidade. Na segunda. trata-se presumivelmente não do falante . dito p um marido à sua esposa. enquanto que as demais. (lI) ser aceito". o casamento é indissolú­ vel". quero lembrar-lhes a regra A. o. L. sem surtir qualquer efeito. A.o proferi­ mento performativo como aquela expressão lingüística que não consiste.É3 111 Conferên cia Infelicidades: desacertos (llJ) quc di rcrcn tc:i IIllclicluadt. embora não seja sempre verdadeiro ou falso. Primeiro. mas de uma pessoa que não o aceita (pelo menos na medida em que o falante fala a sério) . Isto pode chegar ao ponto de se rejeitar todo um c6digo de procedi­ mento . mas em fazer algo. como tal. Dentre estas. adequadas para a invocacüo do procedimento específico referido.l Deve existir um procedimento convencionalmente aceito que p duz um efeito convencional. i importante. quatro eram de tal ordem que tomavam o pro ferimento um desacerto. Austin A segunda parte do enunciado acima destina-se simplesmente a restrin­ gir a regra a casos que envolvem proferimentos. estabelecendo que as pessoas e as circunstâncias es­ pecíficas têm de ser.

ou compreensão do procedimento que existe c e aceito. Alguém poderia se recusar a jogar com ela. porém. considerando um caso do tipo A.mo" que é equivalente a "eu o desafio". mas não posso fa­ zer o mesmo em relação ao insulto dizendo "eu o insulto" . mas não o aceita­ ríamos em outras circunstâncias. Jorge foi efetivamente escolhido? Sem dúvida a situação é infeliz. embora possamos preferir. (I) Há o caso de procedimentos que "não mais existem". Por exemplo. pois a palavra nos dá arrepios que estão na moda e que são em geral indubitavelmen te legfti ­ 1I10S.era correto e foi aceito. "Você não tem o direito de me dar ordens" . tácito ou explícito. sobre se existe ou não. as razões disso não nos importa aqui 2 . no sentido de terem sido outrora aceitos. Esta é. Mas foi-m e dito que no auge da 6poca dos due los entre estudantes da Alemanha era costume que os memhros de um clube marchassem diante dos membros de um outro clube rival. mediante um procedimento prévio.er é fuer 41 . Em segundo lugar. e Jorge retruca. No caso de muitos procedimentos. Quem o fizer estará. no exem­ plo acima. tendo então autoridade. Pode-se per­ guntar. não podemos redu­ zir as considerações acima a meras circunstâncias factuais. por exemplo. uma das incertezas genéricas. Podemos aqui fre­ qüentemente hesitar (como no exemplo dado acima) se uma infelicidade de­ veria ser enquadrada na classe A. sempre será possível que alguém o rejeite //lI totaLidode. 1 Se objetamos a que se diga que há dúvida sobre se o procedimento "existe". todos em fila. embora estivessem erradas as circuns­ tâncias de invocação e as pessoas que o invocaram. ou com outras pessoas. digo "Escolho Jorge". um procedimento para se reali­ .2 (e talvez de­ vêssemos reduzir a esta o exemplo anterior): o procedimento não foi com­ pletamente executado por ser necessário que o objeto do verbo "eu ordeno que" estabeleça. devendo pennanecer em princfpio aberta a poss ibilidade d qualquer pessoa vir a rejeitar qualquer procedimento. levando o caso para a regra B. Por exemplo. Consideremos um caso plau­ sível: dizer "você foi covarde" pode ser uma reprimenda ou um insulto. em uma reunião social. "Não recebo or­ dens suas" . uma solução a outra. Uma outra situação crítica seria a seguinte: em uma ilha deserta alguém pode dizer-me "Vá apanhar lenha" e eu respondo. em última análise. ao escolher um parceiro para um jogo. em teoria política. por exemplo. e se deveria ou não existir um contrato social. Esta porém é uma questão mais complexa. e nós poderíamos simplesmente ig­ norá-lo. ou " Não aceito ordens suas quando você está tentando 'afirmar sua autoridade ' (que posso aceitar ou não) em uma ilha deserta" .2 (ou mesmo na B. acima de tudo. naturalmente. o proferimento de determinadas pa­ lavras. Mas igualmente possível são os casos em que aceitamos.isto é. Além do mais. Podemos dizer que Jorge não foi escolhido seja por inexistir a convenção segundo a qual se pode escolher uma pessoa que não vai jogar. cabe perguntar o que se quer dizer com a sugestão de que um procedimento pode sequer existir.tal como no caso do rugby.2 (má aplicação): o procedimento . " Eu escolho" . o que é diferente da questão de se um procedimento é aceito e por que o grupo é aceito ou não l . sujeito a sanções.I ou 8. Por vezes estes podem "dar certo" . e posso tornar explícito meu ato dizendo "eu o repreendo" . Fica evidente que o caso é comparativamente simples se nunca admi­ tinnos um procedimento "desse" tipo. Mas. já não mais o são em geral ou mesmo por alguém. (11) Há também o caso de procedimentos recentemente inaugurados. por mais que m. depen­ dendo das circunstâncias e das pessoas. L. o procedimento. ou defin i ~ão. talvez não devêssemos permitir a f6rmula "Prometo que vou açoi tá-lo".ar tal tipo de coisa. com o jo­ gador que primeiro pegou a bola com as mãos e saiu correndo. naturalmente. etc. Al/stin (I) A respeito de B. por exemplo. e uma ordem SÓ funciona se o sujeito do verbo for "uma autoridade". esclarecer: 40 . aceitando fatos ou introduzindo definições. dizendo depoi s cn da Quando dií'. 2 Muitos desses procedimentos e f6rmulas plausfveis seriam desvantajosos se reconhecidos. com o código de honra. que a pessoa que vai dar a ordem tenha autoridade. como decidimos esses ca­ sos particulares.I ou na classe A.rCIi~'cnlClllOS dctcnnillllt. ao que parece. poderíamos dizer. Poderíamos ainda dizer. Por outro lado. dizendo: "Pro­ meto fazer o que você me ordenar".pois -ser aceito não é uma circunstância. até mesmo pelas pes­ soas envolvidas. pois estaríamos sujeitos à velha objeção de termos derivado um "dever" de um "ser" '. seja porque na presente circunstância Jorge é um objeto inadequado para o procedimento de escolha. isto é. a despeito da terminologia suspeita. Em princípio. Esta situação geral é explorada na infeliz est6ria de Dom Quixote. subjacentes ao debate. ainda. ou. ou dizer que não se trata de uma pessoa honrada. Dar certo é essencial. O caso contrário se daria se vo­ cê fosse o capitão do navio.2. "Não vou jogar". Importa./. pouco importa. por mais adequadas que sejam as circunstâncias eu posso ainda não estar jogando.mesmo aquele que fora por ela anteriormente aceito .2). s6 funciona se o objeto do verbo for "um jogador" . ou código de procedi­ mento . ou um procedimento específico para se realizar algo em particular.OCH 110 procedimento. (2) Para um procedimento ser aceito pressupõe-se aJgo mais do que () fato de ser considerado efetiva e genericamente usado. é duvidoso que "ser aceito" possa ser reduzido a "usualmente empregado" . de­ veríamos considerar que.como aconte­ ce. como bem podemos objetar. tomar parte em jogos . em sentido estrito. como no caso do duelo. poderfamos dizer tjue a dúvida é sobretudo quanto à natureza. .

2) se não fosse na realidade completo. Posso batizar um cão.resulta em realização incorreta ou incompleta. "Há um touro no campo". se o ad­ mitimos como racional? Ou isto seria um caso de não-atuação? Em Direito. Todos os proferimentos performativos até agora abordados foram ins­ tâncias altamente desenvolvidas do tipo que mais tarde chamaremos de per­ formativos expltcitos. Poderíamos assimilar isso a um desempenho defeituoso ou incompleto (B. é claro. Poderíamos até mesmo assimilar isso a A. Em outros termos. e não a seu significado. na vida cotidiana porém. contra a aceitação do procedimento em geral.o que realmente importa é que uma variedade es~cial de não-atuaçã03 pode ocorrer se alguém realmente diz "eu o insulto' . contudo somos obrigados a " não-atuar" com ele. de tal modo que de certa fonna não podemos deixar de entender o procedimento que al­ guém tenciona invocar quando diz "eu o insulto". sob a alegação de que o procedimento não foi projetado para ser usado a menos que resulte claro co­ mo esteja sendo usado. nas circunstâncias es­ pecíficas não aceitou o procedimento. L. o que "Eu o insulto". sobre que casos o procedimento co­ bre ou que variedades poderia vir a cobrir. "Estarei lá" pode ser ou não uma promessa. "Beleidigung" .por exem­ plo um legado feito de modo inexplícito . E diríamos sem hesitar ao descrever subseqüentemente o que ~ i g njfica ()IJcnuu que rÔ:'liCmo~. entretanto. Ele veio a rejeitá-la mais tarde. Pois embora insultar seja um procedimento convencional. e que merece uma menção especial.O. pode ser ou não uma advertência de perigo.por exemplo não tinha que to­ má-lo como uma ordem. o "precedente" que estabelecemos. De qualquer forma. acabamos por seguir. mas pode não haver absolutamente nada nas circuns­ tâncias dadas que nos possibilite decidir se o proferimento é ou não perfor­ mativo. Há ainda um outro tipo de caso. em que é mais ou menos arbitrá­ rio decidir se (A. e de sua definição "preci­ sa".2. e primordialmente verbal. à medida que passava e de maneira muito polida. Assim. dizendo respeito à força do proferimento. Austin Quando dizer é fazer 43 . com o argumento de que o ritual foi executado de maneira incompleta por mim. Mesmo que fo sse uma fórmula perforrnativa.I de infeli­ cidades.) Podería­ mos também assimilar isso a um mal-entendido (que ainda não estamos con­ siderando). Muito mais comuns são. mas de tipo especial. apostar. não apenas porque a convenção não é aceita. Sempre ocorreram casos marginais ou difíceis em que nada pode servir na história prévia de um procedimento convencional.I ou B. isto é. mento. ser de fato incerto. entretanto. os casos que não se tem certeza sobre o alcance do procedimento. pois. Talvez eu não o tenha tornado como uma ordem ou me sentisse obri­ gado a tomá-lo como uma ordem. caso contrário. Mas isto seria recomendar a perfeição. o procedi­ mento em questão pode não ter sido invocado de forma suficientemente ex­ plícita.pH~ cita quanto o mero imperativo "vá". o. estou realizando.I) a convenção não existe ou (A. para se decidir conclusivamente se este procedimento está ou não sendo cor­ retamente aplicado em um caso determinado. ao fazer tal proferimento. em oposição aos performativos meramente implfcitos. etc. doar. Assim. inúmeras são as decisões difíceis como esta. Isso I de. É regra que a falta de explicação . Em todos estes casos temos performativos primitivos em contraste com per­ formativos explícitos. "prometo". É inerente à natureza de qualquer procedimento que os limites de sua aplicabilidade.2) se as circunstâncias não são adequadas para a aplicação de uma convenção que sem dúvida existe. Por exemplo. este performativo não explícito seria normalmente classificado como B. em dada situação sempre é possível considerá-lo uma coisa ou outra.I ou B. no que concenlO ao simples proferi­ guem fez. mas de que não tinha que entender . sempre pennanece incerto quando usamos uma fórmula tão ine}C. pois posso estar simplesmente descreven­ do uma cena. A pessoa a quem disse " Estarei lá" não tomou meu proferimento como uma promessa. "dôo". capaz de ser classificado de muitas maneiras. de uma maneira ou de outra. que em ambos 014 casos ele II()!I um a seu Oponente escolhido. A. não há semelhante rigidez. se o falante está dando uma ordem (ou pretendendo dar uma ordem) ou se está simplesmente aconselhando. porém a esta altura o termo ainda aparece em suas anotações. Pod~ ríamos afmnar que só deve ser usado em circunstâncias que tornem total­ mente claro e sem ambigüidade em que acepção está sendo usado.2 As pessoas e circunstâncias particulares em um caso detenninado têm de ser adequadas à invocação do procedimento específico invocado 3 "Não-atuação" foi durante algum tempo a denominação dada por Austin à categoria A. embora não sem ambigüi­ dade. mas porque sentimos vagamente a presença de um impedimento. palavras corretamente usadas para designar o ato que. incenti­ vando.2. Urmson) 42 J. (NotadeJ. seria absolutamente vão. Os juristas preferem geralmente a segunda alternativa. cuja natureza pode não ser muito clara. isto é. Não se trata aqui de que a audiência não tenha enten­ dido. Mas é tão óbvio quanto importante que possamos ocasionalmente usar o proferimento "Vá" para fazer praticamente o mesmo que fazemos com o proferimento "Orde­ no-lhe que vá". prometer. permaneçam vagos. que implica em aplicar a lei e não em criá-la. Do mesmo modo. ou qualquer coisa do tipo. todos eles incluem ou têm início com palavras altamente significativas e inambíguas como "aposto". (No Direito.

ou diante de um capitão de navio que não está no mar. A seguir. mesmo com to­ da a cerimônia.l já foram mencionadas.l e B. "Sim". A tentativa de inaugurar.2 O procedimento deve ser executado de forma completa por todos os participantes. Aqui o procedimento é adequado às pessoas c às circunstâncias. ou ainda em que se nomeia um cavalo côn­ sul. além de tudo mais? Trata-se obviamente de um tópico que cai sob as regras de tipo B e não sob as regras de tipo. é uma questão de "incapacidade". mesmo dizendo "Eu o desafio". "sem direito" e assim por diante. se os padrinhos não forem enviados para marcar hora e lugar.. 44 Aqui se encontram os casos das rnlhus. como nos da vida cotidiana. dos casos mais simples em que o objeto ou o "agente" é da espécie ou do tipo errado. ou quando o nomeado é um cavalo. cabe discutir exemplos de B Uá anteriormente examinados) a que chamamos de más execuções. pois. por vezes surgem dúvidas sobre se algo mais é neces­ sário ou não. De fato. A linha divisória entre "pessoas inadequadas" e "circunstâncias inade­ quadas" não é necessariamente rígida e inflexível. "Eu lhe dou . B. etc. Estamos inclinados a chamá-las de más invocações (A. ou então se digo"Aposto que a corrida não se reali­ zará hoje" . toda tentativa de apostar através da expressão "Aposto seis cruzados" será abortiva. é necessário. Estas consistem no uso de. A questão aqui é a seguinte: até que ponto os atos podem ser Quando dizer 6 razer 45 J.2. Mesmo dizendo "Sim". O problema aqui consiste em determinar até que ponto devemos remontar à própria noção de " procedimento". nenhu­ ma atividade universitária jamais poderia ser executada. Na vida cotidiana nem sempre são tão claros. isto é. admi­ te-se uma certa flexibilidade no procedimento. objetos. toda tentativa de duelar será abortiva. Neste caso há uma falha no ritual. quando se tem um grau de parentesco com a noiva que impe­ de o casamento. Nestes casos. posição em contraste com status) poderemos classificar a infelicidade como um procedimento erroneamente executado e não como um procedi­ mento mal-aplicado. o termo "cir­ cunstâncias" pode ser tomado em tal extensão que acabe por abranger "a natureza" de todas as pessoas participantes. se votamos em um candidato antes que ele tenha sido indicado por seu partido. Austin . para que eu presenteie. assim também o batismo de um barco será abortivo caso se soltem as amarras antes de dizer "Lanço ao mar este navio" . Os exemplos aqui são inúmeros. fórmulas erradas. Os três últimos casos envolvem algo cujo defeito se encontra na espécie ou no tipo. a menos que o parceiro di­ ga "Aceito". mas importante . Tentamos executar o procedimen­ to. uma biblioteca será abortiva se eu disser " Inauguro esta bi­ blioteca" . do caso em que se diz "Eu batizo esta criança com o nome de 2704". no Direito. O uso de fórmulas inexpU­ citas pode ser colocado nesta classe. Esta é. ao tipo de infelicidade que cha­ mamos de más aplicações. Nesta classe também entra o uso de fórmulas vagas e referências imprecisas .l O procedimento deve ser executado corretamente por todos os par­ ticipantes.l). ou quando é uma parte de meu cor­ po e dele não pode ser separado.. nomes. "objeto ou pessoa inadequado ou inapropriado" . Algumas sobreposições de A. mas é executado incorretamente. etito quando a pessoa já foi nomeada. Por exemplo. Por exemplo. mais quando a pessoa enquanto tal for inadequada. Os exemplos mals claros d falhas se encontram no âmbito do Direito. ou palavras equivalentes.por exemplo. "incapacidade". ou quando foi nomeada outra pessoa. não importando como a audiência o tenha considerado. mas será assim na vida cotidiana? Dúvida semelhante surge quando um compromisso é assumido sem o assentimento da pessoa a quem cabe assurnJ-Io. há que se distin­ guir os casos em que um clérigo batiza a criança errada com o nome correto ou batiza uma criança com o nome de "Alberto" ao invés de "Alfredo". enquanto que nos demais casos a inadequação é apenas uma questão de incapacidade.2 com A. L. mas o ato é abortivo. ou quando eu não tenho o poder de nomeá-Ia. Algo que causa particu lar dificuldade é determinar se é necessário o consensus ad idem quando dois lados estiverem envolvidos. já que neste se admitem concessões. Aqui encontramos casos de tropeço.por exemplo.Passemos agora às violações de A. Por outro lado. Assim. por sua vez. Trata-se de uma questão distinta seja do mal-entendido. se tomamos literalmente o caso da nomeação (isto é. uma distinção imperfeita e alusiva. nas negociações formais o aceite é exigido. se digo " minha ca­ sa" quando tenho duas. Evidentemente. do que indevidamente autorizada. "Eu o nomeio" . Temos vários termos especiais para usar em diferentes tipos de casos: "ultra vires" . ou "Eu prometo arrebentar a sua cara". de outro modo. que meu interlo­ cutor aceite o presente que lhe dou? Por certo. É essencial no caso assegurar-se de que houve uma compreensão correta. seja da com­ preensão lenta por parte da audiência. B. por exemplo. Assim. Mas devemos distinguir os casos em que a inadequação de pessoas. mas a chave venha a se quebrar na fechadura. quando nenhuma nomeação ou qualquer procedimento anterior regularizam sua situação. quando mais de uma corrida estão marcadas. toda tentati­ va de casar-se é abortiva caso a noiva diga "Não". ". quando o objeto não é meu.

1. ou o que levar em conta para considerá-lo complet04. Macmi1lall. Como questão geral de princípio. em certos casos. ou. Segundo Hume. embora seja infeliz. e. e o invoca.) 4 46 J. tratam-se de (a) os Mal-entendidos. Austin Quando dizer é fazer 47 . ou ainda em que o procedimento era defeituoso ou incompletamente executado. e r . Dizemos então que o ato não é nulo. ou quando há discordâncias sobre questões de fato. ou mes­ mo quando ambos pensamos que será para o seu bem. Recordemos as definições: r . mas eu não. Austin refere-se à discussão filos6fica tradicional em tomo da distinção metaffsica entre valores (o domfnio dos deveres) e fatos (o domfnio da realidade natural). o procedimento visa às pessoas com seus pensamentos. Devemos evitar a todo custo a simplificação excessiva. (I) 1) onde David Hume critica a passagem de uma argumentação com base nas sentenças usando o verbo "ser" (is) para sentenças usando o ver­ bo "dever" (ought). Londres. Mais recentemente.mesmo que por vezes seja duvidoso quais delas estejam em questão em um dado caso particular. p. sentimentos e intenções. sem falar em discordâncias de opinião. além disso. que sejam suficientemente sutis para dar conta destes casos. isto é. 23 e nota de rodapé. So­ bre a discução contemporânea em tomo desta questão veja-se sobretudo. Mas suponha­ mos que eu diga "Prometo enviá-lo para um convento". toda a com­ plexidade da situação que não se ajusta a nenhuma classificação usual. que isto será para o seu bem. esta questão origi­ na-se de um trecho do Tratado da natureza humafUI (llJ. do T. ou as ações realizadas sob coação. de fonna simples.2: devem realmente conduzir-se desta maneira subseqüentemente. L. lembraria que não estamos considerando as dimensões adicionais da infelicidade. insinceridades e infra­ ções. convenção inexistente em condições inadequadas? É desnecessário dizer.. D. deve de fato ter tais pensamentos. e em geral se sobrepõem. um tipo de infe­ licidade a que estão expostos todos os proferimentos.2. mas na realidade a coisa se revela o contrário. no caso oposto. e casos de não-cumprimento l . esta confusão caracterizaria a chamada falácia naturalista. defini-las. que poderia ser considerada a doença profissional dos fIlósofos se não fosse ela própria sua profIssão* . Nestas circunstâncias será que invoquei uma . Existem claramente essas seis possibilidades de infelicidades . e os participantes devem ter a intenção de se conduzirem de maneira adequada. r . Pode parecer que estamos apenas desdizendo o que dissemos sobre nossas próprias regras.. pelo menos para certos casos. então aquele que participa do procedimento. I C f.1: Nos casos em que. (N. Em relação às questões acima. como ocorre com freqüência. quando penso. IV Conferência Infelicidades: maus usos Na conferência anterior consideramos casos de infelicidades. O último caso é o dos tipos r . . a antologia de textos orga­ nlzadn por W. colocandlrme assim sob a obrigação de fazê-Io. Não há como expor. quando ele pensa que isto será para o seu bem. e (b) os Enganos. ou em que o procedimento era invocado em circunstâncias não apropriadas. Assina­ lamos que. como as que podem ocorrer quando o agente oomete um simples erro factual. desnecessário é que não pode haver eSClr lha satisfatória entre tais alternativas. casos em que não havia procedimento ou não havia procedimento aceito. ou visa à ins­ tauração de uma conduta correspondente por parte de algum dos parti­ cipantes. ao contrário de meu interlocutor. Hudson (1971) The Is-Ought Question. sentimentos e intenções. não há convenção que me autorize a prometer fazer algo em detrimento de meu interlocutor. esses tipos de infelicidade podem se sobrepor.unilaterais? Da mesma fonoa surge a questão sobre até que ponto pode um mo ser considerado terminado. Por exemplo. Pode-se assim duvidar se a não-entrega do objeto que damos de presente torna incompleto o ato de presentear ou se constitui uma infelicidade de tipo . Poderíamos se quisés­ semos. mas não se trata disso.

binar. ainda que de forma insincera. pessoas.claro o acusado culpado" ou. Que um ato seja feliz ou bem-sucedido em todos os aspectos aqui analisados não o exime de crítica. Poderíamos alegar que se trata de urna "má explicação". um elemento essen­ cial do mentir. algo distinto de dizer simplesmente o que na realidade é fal­ 'so. Pensamentos Exemplos em que não se têm os pensamentos requeridos são: "Eu o aconselho a . "Declaro guerra" . Austin (2) No que diz respeito aos pensamentos. isto pode causar Um? infelicidade de tipo diferente: (a) Posso presentear algo que. de certo modo. posto que aqui inexiste a tentação de pensar que o ato de aconselhar possa ser nulo ou anulável e. mas é realmente insincero.". ou quando o árbitro diz "Fora de campo". inexiste a tentação de se pensar que seja insincero. dito quando não tenho a intenção de lutar. mas que surgem de um erro ou de um equívoco. posso estar equivocado ao pensar assim. isto é a pior coisa que se pode dizer de um conselho. "pensamentos" e "inten­ ções" em uma acepção técnica. isto é. podem se corr. Intenções Exemplos em que não têm as intenções requeridas são: "Prometo". Mas alguns comentários sobre tais noções fazem-o. na realidade. não é nulo. em geral. que as circunstâncias. Na realidade. quando dizemos "De. mas pode torná-lo desculpável. L. ou que tenha realizado a proeza . e entre ter a intenção de fazer algo e se o que tencionamos fazer é viá­ vel.e necessários: (1) Suas distinções são tão imprecisas que tornam difícil distinguir os vários casos e. 3.por exemplo. "Meus pesâmes". "Culpado". ao realizar-se um ato de fala de tipo assertivo. que tenha realizado o ato. Se alguns de nossos pensamentos forem incorretos (em oposição a in­ sinceros). Na verdade. Com eles aparece a insinceridade. que o pensamento seja correto. o que geralmente ocorre. Temos aqui algo de análogo com o que ocorre com a mentira. Dei um conselho e dei um veredito. ou dizer "Eu o congratulo". com base nas evidências. mas cabe não só con­ siderar factível o prometido como também pensar que o ato prometido resul­ tará talvez em algo benéfico para o interlocutor da promessa. estes. em oposição a uma acepção imprecisa. ocu­ par-nos de todos os casos que poderiam ser chamados de infelicidades. estão dentro das regras e sendo assim o ato é realizado. Mas não é nossa intenção. dito sem qualquer sentimento de solidariedade com a dor do interlocutor. Deve-se observar que o erro. Quando di­ zemos "Culpado". (De modo seme­ lhante. al­ go de muito confuso. 48 J. ou que este o considere benéfico. em tais casos. por sua vez. ao dizer "Felicito-o". ou seja. po­ rém. . Voltaremos a isto. do mesmo mo­ do. simples­ mente. em oposição a errôneo. dito quando não tenho a intenção de pagar a aposta. O melhor é introduzir aqui uma nova dimensão de crítica . que o mérito seja seu. ou mesmo quando me sinto aborrecido. Por exemplo. etc. não seja meu. objetos.1. Por exemplo. pensar que alguém seja culpa­ do. devemos distinguir entre o que sentimos e se o que sentimos é justifi­ cado. Não estou usando as palavras "sentimento". não torna o ato nulo. não foram apropriados para o procedimento de presentear. não devemos confundir O que pensamos que as coisas sejam .. Estes atos não são nulos.diremos tratar-se de um mau conselho. trata-se. Exemplos deste tipo são: dizer "Inocente". As circunstâncias. Quando dizer 6 fnzcr 4 . (c) Mais difícil que os precedentes é o caso que voltaremos a discutir mais tarde. Este caso é distinto de (1). dito quando não tenciono fazer o que prometi. como dissemos. "Declaro-me inocente" ou "Eu o absolvo" . Sentimentos Exemplos em que não se têm os sentimentos requeridos seriam: "Eu o felicito". embora eu creia que o seja. dito sem pensar que o ato ou a atitude aconse­ lhados sejam os mais benéficos para o interlocutor. já que sen­ tindo o que sentia não deveria congratulá-lo nem apresentar-lhe meus pêsa­ mes. quando creio que a pessoa é culpada. pensando que o feito não foi realizado por aquele que congratulei. "Aposto". que a pessoa tenha realizado o ato.com o fato de que as coisas realmente sejam como pensamos. 2. de um ato feliz. se acreditamos sinceramente. devo realmente ter o sentimento ou o pensamento de que o outro deva ser felicitado? É um pensamento ou um sentimento de que algo é meritório que motiva a felicitação? No caso de prometer devo ter a intenção de cumprir o prometido. mesmo que aquele que aconselhou pense que o seja. isto é. pensando que o ato foi mes­ mo praticado por aquele indivíduo.) Mas os pensamentos constituem algo de muito interessante. dito sem que me sinta satisfeito. Há a:nda urna classe de perfonnativos que chamo de vereditivos. (b) "Eu o aconselho a fazer X" é um proferimento performativo. Con­ sideremos o caso de alguém que aconselha outra pessoa a fazer algo que na realidade não lhe seja benéfico.

Em que medida sou obrigado a não me comportar desta for· IllU '? Ou será que a questão se red uz simplesmente a " não se espera" que al­ uém se conduza assim? Ou será ainda que faz parte do pedir-e-dar cons"­ lhos tomar fora de ordem tal conduta subseqüente? Ou . então: (1) é verdadeiro. de maneira sem". que estou fazendo (ou que fiz) algo. Espero que seja assim. se rogo a alguém que faça algo e este concorda. pois queremos simplesmente distinguir as várias fonnas de insinceridade. Não me ocuparei de todas. Lembrem-se de que na I Conferência dissemos que. mas 6 de presumjr-se que um certo tipo de intcnçOCN meNinO vugu/ol "~jam necessários.. Mas podemos estar diante de um " mau" veredito. "Tenho a intenção de . entre estas pedir desculpas (ou ter pedido desculpas). embora a distinção seja relativamente fácil no caso da promessa. porque se o árbitro diz " Fora de campo". seja tomando-o obrigatório. Quando dlzer é fazer SO J. O ato não é nulo. como quando. quando o árbitro diz "Fora de campo". no sentido de o "ato" ser simplesmente intencionado ou pretendido. Isto nos compromete a dizer que um determinado proferimento performativo para ser reliz exige que certas sentenças declarativas sejam verdadeiras. o ato de bati­ zar. que fiz inúmeras coisas. Exemplos deste procedimento mais especializado seriam o compromisso de realizar uma ação e. pelo menos as infelicidades que já consideramos. mas logo a seguir eu o censure por haver feito o 'lu lhe aconsel hei. este objetivo se alcança com mais felicidade. Contudo. em lugar de di zer " Eu o farei" . etc. pois isto significa que já se toma­ ram " 6bvias" a esta altura. que afIrma que certas coisas são de determinada forma. Por exemplo. O veredito pode ser injustificado (no caso de um júri). Para muitos fins . Mas há casos em que não são assim tão simples. enquanto que outras não o sejam. muitas coisas estão implicadas ao dizer "Prometo". "Eu aceito esta mulher. Mas há uma teo­ d ~n c i a constante a esclarecer mais esta ordem de coisas. devemos examinar: (1) quais as sentenças declarativas que têm de ser verdadeiras? E se (2) podemos dizer algo de interesse sobre a relação entre estas senten­ ças declarativas e o proferimento perfonnativo.. estou efetivamente dando boas- vindas. posso expressar minha intenção dizendo simplesmente . digo. sua decisão é definitiva. e dar a alguém a posse de um objeto. porém. estarei fazendo algo fora de ordem? Provavelmente sim. mas é necessário que no momento de dizer isto eu tenha a intenção cor­ respondente. que certas condições devem ser satisfeitas para que os proferimentos possam ser felizes. etc. (b) Distinguimos sumariamente os casos em que uma detenninada in­ tenção é necessária de casos mais particulares. não nos preocupam agora estes pro­ blemas urgentes. isto é. qual· quer dificuldade em relação ao conceito de insinceridade. Para recorrer a tal procedimento é fundamental fazer com que certa con­ duta subseqüente seja correta. o que pode não ser uma mera questão de opinião. por exemplo. "Vendo-Ihe isto" e completar a venda. em que é necessário algo mais para levar a cabo um certo comportamento. seja pennitido. isto não levanta. em princípio. então. no caso das fónnulas legais." e a consumação da cerimônia. Com isso concluímos as observações referentes às diversas maneiras pelas quais os proferimentos perfonnativos podem ser infelizes. sua palavra é definitiva. provavelmente. na realidade. Nestes últimos. Podem-se fazer semelhantes distinções quanto à intenção requerida quando se trata de completar uma ação presente. Austin S1 . e a segUÍl' eu protes­ to. Nem se trata de um ato insincero. o procedi­ mento destina-se a introduzir este comportamento adicional. (3) Nos casos das intenções também aparecem dificuldades especiais: (a) Já notamos a dificuldade em definir o que constitui uma ação sub:­ seqüente distintamente do que constitui meramente o ato de completar ou consumar uma mesma ação. Para evitar.De certa fonna. ou então incorreto (no caso de um árbitro).por exemplo. sem dúvida. o fundamental é que o procedimento seja correto. para meu ato não ser insincero. para usar o jargão técnico. suponhamos que eu dê um conselho a um antigo e este o siga. e não falso . Assim. o jogador vai para fora de campo. um resultado trivial de nossas investigações. " ou " Prometo" . Mas o que acontece se a pessoa fi lJUCIlI di ssc isto passe fi se comportar rudemente? Ou . Desta forma temos aqui uma situa­ ção muito infeliz. mas isto é difere nte de dizer o proferimento " Prometo" seja uma sentença declarativa verdadeira ou fa lsa. L. Qual é porém o grau ou tipo de infelicidade envolvido se eu não vier a fazer o que disse? Para dar outro exemplo: quando digo "seja bem-vindo" . se ao dizer " Peço-lhe desculpas" estou realmente pedin­ do desculpas e sobre isto não paira a menor dúvida. De maneira geral. Mas ainda assim não se trata de infelicidade em nenhum dos sentidos que já vimos. isto equivale a dizer. de algum modo. Em si mes­ mo. Devo agora ocupar-me de certas coisas importantes e que devem ser verdadeiras para que o ato seja feliz.Contudo. mas as que abordarei parecerão maçantes e triviais.­ lhante. é difícil determinar a relação en­ tre: " Eu te dou isto" . Por exemplo. Por exemplo. " Eu o fa­ rei".

Mesmo em inglês. foi exata­ mente o que estávamos explicando. e não falso. Estritamente falando.que. (3) é verdadeiro. na realidade. são mais numerosas que a mera contradição. que não apresenta nenhum sentido especial e pode ser traduzido pe lo termo correspondente em português. já que o que se afirma de todos os indivíduos de uma espé­ cie deve-se afirmar também de alguns. falar de modo abusivo. H. isto nem sempre aparece tão marcado. Pressuposição "Todos os fIlhos de João são calvos" pressupõe que João tenha filhos. ou "Você deu a entender que sabia algo (o que é diferente de dizer simplesmente que acreditava em algo"). entretanto. e pressupposes. por exemplo. York. I. rigor. Lewis e C. por definição. A diferença é marcada em inglês pelo uso do presente contínuo nas fórmulas performativas. sendo uma a negação da outra. Langford. 52 J. Mome (1919. a declaração ou proferimento constatativo . independentemente de quais sejam esses indivíduos e do qu BO a firma. Moom no arti go citado na nota ael· ma. Esta é uma das maneiras pelas quais podemos justificar a distinção entre performativo e constatativo­ isto é. Não pretendo expor a questão de modo demasiadamente técnico. Não se pode dizer que " todos os homens en­ rubescem". E . ou caso não se trate de um mero informe. ao . Por outro lado. de um recurso 11 noção de anal iLi ­ cidade. :nlre duas sentenças. du cre nça no asserido não imp lica a negação do asserido. /\. que traduzimos por "implica logica­ mente". Implicação O fato de dizer "o gato está sobre o tapete" implica na acepção de O. L.l e A. Pode-se considerar que "todos os homens enrubescem" implica lo­ leamente "alguns homens enrubescem" . se examinamos os exemplos dados. implies. por exemplo. o que contraria o caráter formal da relaçllo (abstração feita do conteúdo significativo). mas que também poderia ser traduzido por "acarreta" ou "segue-se". já que o termo "sob" é.. Tomemos em primeiro lugar a seguinte indagação: (1) qual é a relação entre o proferimento "Peço-lhe desculpas" e o fato de estar pedindo descul­ pas? Importa perceber que isto é diferente da relação entre "estou correndo" e o fato de estar correndo. "im­ plicar". e tampouco se pode ruzer que " o gato está sob o tapete e sobre o tapete". /\. é o fato de alguém estar correndo. (Este não é. " Externai and Internai Relations". Nestes casos. 2. enquanto que no outro caso é a felicida­ de do performativo "Peço-lhe desculpas" que torna um fato meu. Austin 1.. N. e (4) é verdadeiro. se não) é possível que A seja verdadeira o D falsa. repr. estritamente falando. 1932).(2) é verdadeiro. e não falso. No segund xemplo. mas isto nem sempre está marcado em todos os idiomas. "Fulano deu a entender que já o sabia". isto é. de implicação 16gica. A relação de implicação lógica é formal no sentido de que se dá entre duas sentenças inde­ pendentemente de seu conteúdo significativo. introduzido por G. Isto significa que a sentença A implica logicamente a sentença B. "pressupõe". pedido de desculpas. entretanto. no sentido de " dar a entender" . mas a negllçll.. • Austin distingue três tipos de relação entre sentenças: entails. e isto torna verdadeira a declaração de que ele está correndo. mas não creio nisso" . que foram satisfeitas também outras con­ dições desse tipo.E. no sentido precisamente de que não é p oss(vel que A seja ver­ dadeira e B falsa (veja-se C. não se trata. na realidade. Logo. Com efeito. a primeira sentença implica logicamente a contraditória da segunda. a negação do termo "sobre". 3. já que a implicação se dó em virtude do significado dos termos "sobre" e "sob".:senta a noção de implicação lógica ou conseqüência lógica. já que a asserção implica a crença no asserido. a verdade do proferimento constatativo "ele está correndo" de­ pende do fato de ele estar correndo. Isto. entre "ele está correndo" e o fato de ele estar correndo. e não falso. U Austin re fere-se à di scussão da noção dc imp licação por G. sendo a pri meira verdadeira. Symbolic Logic. é verdadeiro ou falso. aliás. Refiro-me à descoberta de que as maneiras pelas quais po­ demos errar. ou que " o gato está sob o tapete e não está sobre o tapete". que traduzi­ mos por "implica". e meu êxito quanto a pedir desculpas depende da felicidade do proferimento performativo "Peço-Ihe desculpas". independentemente de seus signi ficados. E. O tercei ro exemplo seria um caso legftimo de implicação lógica. Um dos temas que pretendo considerar é conhecido de longa data. mas em virtude apenas de suafoT71UlI6gica. Procee­ 'illIgs of the Aristotelian SocietyJ. mas que alguns homens não o fazem. que creio que o gato está de fato ali. E a impU ­ cução lógica é uma relação necessária. já que esta se dá em virtude apenas da relação de co njunçll. Não podemos dizer "o gato está sobre o tapete. embora isso possa ser feito. Poderíamos dizer que correr. Moore**.isto é. ao formular conjunções de decla­ rações "factuais" . que é uma relação complicada e exige definições e explicações. O valor de verdade de "eu creio que o gato allÓ sobre o tapete" não é determinado pelo valor de verdade de "o gato está sobre o tapete". a segunda sentença não pode ser ·falsa. a distinção entre fazer e dizer. o uso comum de "implicar" . que certas condições foram satisfeitas. aliás. I mplicação é uma noção mais fraca. Mas o importante é comparar estas "im­ plicações" dos proferimentos performativos com descobertas relativamente recentes sobre as "implicações" de um tipo de proferimento privilegiado e contrastante . Examinaremos a seguir três das muitas maneiras pelas quais uma decla­ ração implica a verdade de outras declarações.2. os demais são descobertas recentes. já foi explicado em que sentido " Peço-lhe des­ culpas" implica a verdade de cada uma destas coisas. vemos que Austi n não interpreta a implicnçtlo lógica como meramente formal. em particular a condição de estar pensando em algo. contrário do performativo. quando dizemos. Quando dizer é fazer 53 . em particular as do tipo especificado nas regras A. ou "dar a entender" é mais fraco. já que pode inexistir a forma contínua do verbo. lermo "entail". que me comprometi a fazer algo subse­ qüentemente. T rata-se. Impllcaçüo A declaração "Todos os homens enrubescem" implica logicruncnte qu " alguns homens enrubescem".

Se as sentenças verdadeiras derivam sua verdade e portanto. do t. não é verdade que o fato de João não ter fIlhos pressuponha que seus ft. Implicação Aqui o caso é diferente. L. exatamente da mesma maneira em que a infelicidade afeta "Prometo que ."..I). 2.i e A. mas todos os seus fIlhos são calvos". a seguir. gramaticalmente mal construí­ da. portanto. tanto " os mhos de João são calvos" como "os fIlhos de João 54 _ J. disparatada. Pressupõe Também aqui a situação é distinta da implicação lógica. incompleta. Pressuposição Consideremos os casos de pressuposição. a referência indispensável.2 (especialmente. obviarncnto. Não nos ocuparemos aqui da inconsistência entre estas proposições. Austin não calvos" press upõem iguuhnclltc que Jotw tenhu filho:. Dizer "Prometo" sem ter a intenção correspondente é análogo a dizer "isto é assim" sem se crer de fato no que se diz. Poderíamos dizer que a fórmula "Aceito esta . por existir entre eles sensíveis diferenças. Poderíamos ter aqui usado a fórmula da pressuposição. Direi aqui que o "proferimento é va­ zio" . Há muitas maneiras de se matar um gato além de afogá-lo na manteiga. etc. em relação a A. MUII nfio ocon·. Comparemos isto com o nosso exemplo de infelicidade quando dizemos "Batizo. Russell sobre a questllo da referência.i . Não se trata de uma sentença sem significado. A referência é necessária tanto para a verdade quanto para a falsi­ dade. " . Diz-se então que "a questão da verdade ou da falsidade não se aplica neste caso". então . Em todos esses casos há o sentimento comum de se estar cometendo um abuso. O que não é possível aqui é dizer "o gato está sobre o tapete". Trata-se do velho problema filos6fico da referência do falso.. a crença. então "o tapete não está sob o gato" implica logicamente que "o gato não está sobre o tapete". que já aparece no Sofista de Platlio. Veja-se a este respeito a discussão de B. Q uando dizer é fazer SS . que tanto "o gato está sobre o tapete" quanto "o guto nuo está sobre o tape­ te" impliquem logicamente que o gato esteja sob o tapele.. quando digo isto e não tenho a inten­ ção. O que se poderia dizer então? Trata-s claramente de um caso de insinceridade. etc.Não podemos dizer " Todos os fIlhos de João são calvos. mesmo porque são perfeitamente compatíveis. o fato de eu não crer que o gato esteja sobre o tapete não implica (na linguagem usual) que o gato não esteja sobre o tapete. Consideremos novamente. ou a verdade de uma proposição é inconsis­ tente com a verdade da outra..lhos não sejam calvos. "Prometo. lIS sentenças falsas não são sem signi ficado. carecerá de significado? Não é bem disso que se trata. A insinceridade de uma asserção é a mesma que a de uma promessa. de sua relação de correspondência com a realidade. Os principais tópicos a este respeito são: quantas são essas maneiras? Por que constituem um abuso lingüístico? E em que consiste tal abuso? Contrastemos estes três tópicos apelando para os procedimentos que nos são familiares: 1 . aqui a infelici­ dade está afetando uma declaração. sem terem sido satisfeitas certas condições relativas a A. a verdade de uma proposição implica logicamente a verdade da outra. Assim sendo. Se "os fIlhos de João são calvos" pressupõe que João tenha fIlhos. nesta concepção tradicional. 3. caso não tivessem significado não' se poderia sequer deter­ minar sua falsidade. " pressu­ por" : Implicar Suponhamos que eu diga "o gato sobre o tapete" quando não creio d fato que o gato esteja sobre o tapete. O que devemos dizer da de­ claração "Todos os ftlhos de João são calvos" quando João não tem fIlhos? Atualmente é costume dizer que a declaração não é falsa por carecer de refe­ rência* . 35. mas eu não o creio" . Se "o gato está sobre o tapete" implica logicamente que "o tapete está sob o ga­ to". talvez.Implicação Lógica Se p implica logicamente q. . de início.q implica logicamente . Porém. Austin considera. Há outras maneiras de se cometer abusos lingüísticos além da contradi­ ção. não creio nis­ so" . Mas. seu signl fi cu­ do. Se o fato de dizer que o gato está sobre o ta­ pete implica que creio que isto realmente ocorre. não podemos dizer "pode ocorrer que o gato esteja sobre o tapete e ao mesmo tempo que o tapete não esteja sob o gato" . como "Lmplica" ou "contradição". Pode ocorrer que o gato esteja sobre o tapete eu não acredite nisso. embora não possamos englobá-los sob um termo geral. já que não correspondem à realidade. A asserção implica a crença no que foi asserido. mas João não tem filhos " ou "João não tem fIlhos. no caso da implica­ ção lógica. mas isto é o tipo de coisa (como indica o provérbio inglês) que nos passa despercebi­ da.. qual seria o significado das sentenças fal slIs? Aparentemente não teriam significado. n. Neste caso. mas não tenho a intenção de cumprir o prometido" paralelo a "isto é assim. " implicar" e. e acrescentar "mas. Il Con­ ferência. Além disso. mesmo no caso das sem­ tenças falsas.p. Em outras palavras. da p. mas nos casos de declarações tam­ bém existe uma pressuposição paralela a A.

Esta expressão me compromete. Mencionamos como parti­ cularmente notáveis quatro dessas conexões: 1) Se o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" é feliz. a importância do ato de fala total. por exemplo. Um contrato não chega a se configurar se a referência falhar ou se for ambígua. tra se disser "prometo. e assim podemos ir as­ similando o proferimento supostamente constatativo ao perfonnativo. Em casos especiais. na totalidade da situação da fala. anulamos ou neutralizamos o procedimento). se quem pretende aconselhar não estiver em condições de fazê-lo. 2) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz.tem que ser verdadeira. que a manei­ ra pela qual uma sentença implica outra seja semelhante à maneira pela qual " Prometo" implica logicamente 'Devo". 4) Se certos tipos de proferimentos perfonnativos. Finalmente. Se tais coisas nüo ocorrem. ~ v C(JI~feri!llci([ Critérios possíveis de performativos Ao final da conferência anterior. Concluindo. do mesmo modo "não devo" implica logicamente "não prometo" . o propósito de um contrato também se frus.isto é. então a declaração de que estou pedindo desculpas é verdadeira. emerge progressivamente da lógica. como tradicionalmente se tem feito.p. são felizes. seja ela qual for. "Prometo. estávamos considerando o problema das relações entre os pro ferimentos perfonnativos e as declarações de vários tipos que seguramente são verdadeiras ou falsas. mas ao mesmo tempo.I e A. identificamos e contrastamos algo. L. foi denominado "pressuposição". os contratuais. é semelhante a dizer simultaneamente "é" e "não é" .para que se possa perceber o paralelismo que há entre a declaração e o proferimento perfonnativo.q implica logicamente . no caso das declarações. mas há uma semelhança entre ambos os casos.principalmente as da Regra A...principalmente as das Regras A. Uma asserção nos compromete com outra asserção e uma realização nos compromete com outra realização. Do mesmo modo. Trata-se de um procedimento que anula a si próprio. Diss também que há semelhança ou talvez identidade entre a terceira dessas cone­ xões e o fenômeno que. Além disso. a questão de se um conselho é bom ou mal não se coloca. Não é exatamente o mesmo. 3) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz. Devemos considerar de modo global a situação em que se fez o proferimento .tem que ser verdadeira. ao mesmo tempo. nos casos de implicação lógica. a fórmula será infeliz ou nula. assim como se p implica logicamente q então . como no caso anterior. é às vezes chamado (incor­ retamente a meu ver) "implicação". a declaração de que dão certas outras condições . entre a segunda dessas conexões e o fenômeno que. Assim co­ mo o propósito de uma asserção se frustra devido a uma contradição interna (quando. não devemos restringir nossa atenção à proposição em questão.mulher. Dizer "Prometo" sem realizar o ato prometido. no caso das declara­ ções opostas aos perfonnativos. e talvez mesmo identida­ de. para explicar o que pode dar errado com as declarações. A pressuposição e a implicação são duas maneiras pelas quais a verdade de uma declaração pode estar ligar de modo Quando dizer é fazer 57 56 J. o que digo não chega a ser uma declaração. " pressupõe inúmeras coisas. mas não devo fazer o que prometo" é semelhante a "é e não é".. mas não devo fazer o prometido" . Austin . então são verdadeiras as declarações que afirmam que devo ou não devo fazer algo subseqüentemente.l . a declaração de que se dão certas condições .2 . anula o compromisso. pode ocorrer. o ato de fala em sua totali­ dade . Disse que parecia haver alguma semelhança. e como um e outro podem dar errado.

Note-se que "presente" e "indicativo" não são denominações cor­ retas (sem falar nas implicações equívocas de "voz ativa"). considerações de felicidade e infelicidade podem infectar as declarações (ou algumas delas) e as considerações de falsidade e verdade podem infectar per­ formativos (ou alguns de les). (N. Relacionado ao perfonnativo (suponho que o seja) "previno-o de que o touro está por atacá-lo" está o fato.do que "pro­ meto lazer X mas não tenho a intenção de fazê-lo". como vimos. "Prome­ to". o que sugere que.Austin Quando dizer é fazer 59 . como pode ocorrer com uma declaração. Usamos a expressão "presente do in­ dicativo. É de fato mais comum que o presente indique um hábito. a este respeito. então. ~ Veja-se. que depende de que o perfonnativo "peço descul­ pas" seja feliz. cuja verdade pode depender de que "João está correndo" seja um perfonnativo feliz. E quando não é hábito. por exemplo I run ("corro") com a expressão latina "CUlCO" que geralmente se deveria traduzir em inglês por I am running ("estou corren­ do").que quem tentou fazê-la não fonnulou uma advertência. Portanto. Contraste-se o fato de que estou pedindo desculpas.não digo até que ponto isto pode ser feito satisfatoriamen­ te . Tomemos em segundo lugar os perfonnativos. então.seja lá qual seja . como coisa distinta de "estou bebendo cerveja" . em particular. ou ao tempo passado. como de alguma fonna ocorre no caso dos performativos. para as distinções entre implicação. contudo. fortalecer-nos na convicção de que a distinção é de­ finitiva voltando à velha idéia de que o proferimento constatativo é verdadei­ ro ou falso e que o perfonnativo é feliz ou infeliz. mas não estou obrigado a fazê-lo" pode certamente parecer mais com uma autocontradição . mas usado para fazer algo ou ao fazer algo. 53 da conferência anterior.importante com a verdade de outra. o perfonnativo não descreve. ex iste o perigo de que se anule a distinção entre proferimentos constatativos c pcrlonnativos que tentamos estabelecer de início. Por exemplo.com as quais me ocuparei rapida­ mente . Mas o uso da primeira pessoa singular do chamado presente do indica­ tivo da voz ativa é um ingrediente essencial de todo proferimento performa- 58 J. o profe­ rimento "previno-o de que o touro está por atacá-lo" se encontra aberto a criticas. de informar acerca disso ou relatar o que se pas­ sou. e poderíamos pensar que a fonna em que um determinado p me compromete a um detenninado q não difere da maneira em que prome­ ter fa zer X me compromete a fazer X. Jmpllcaçllo lógica e pressuposição. Devemos perguntar: há alguma forma precisa para distinguir o proferimento eonstatativo do perfonnativo? E. com o caso da declaração " João está correndo" . Mas talvez este contraste não seja tão seguro. não é análogo ao tem­ po futuro. Os exemplos são: "Batizo".' simplesmente para referir-nos à forma gramatical inglesa I name (batizo). "Dou". Porque. Também se pode dizer que "não tenho a obrigação de fazer p" pode implicar logicamente "não rrometi fazer p" . que des­ creve o que fiz no passado. "Bebo cerve­ ja". sem dúvida. Podemos. equivocada. também.L. ou melhor. Temos. "Aposto". que dar mais um passo à frente no deserto da precisão comparativa. Há razões bastante óbvias . e sim genuinamente "presente" . geralmente não tem nada a ver com descrever (e nem mesmo com indicar) o que estou fazendo no momento. Neste caso não diríamos que a advertência foi nula . (Este erro na terminologia deve-se ao hto de se assimilar. de que o touro está por atacar meu interlocutor. Só as uso no sentido gramatical conhecido. O latim não tem dois tempos.que fazem com que este seja o tipo mais comum de performativo explícito. tal como a verdade de "estou pedindo desculpas" depende de que "peço desculpas" seja um per­ fonnativo feliz. se é este o caso. pelo menos de alguma maneira. todos com verbos na primeira pessoa do singular do pre­ sente do indicativo da voz ativa. como coisa dis­ tinta de "presente contínuo".nem que foi insincera. isto é. Mas não quero dizer que haja ou não um paralelo aqui: só quero dizer que pelo menos nos outros dois casos há um paralelo bem próximo. sem que se dê o caso de que uma impli­ que logicamente a outra no único sentido que levam em conta as pessoas ob­ secadas pela 16gica*. mas não em nenhuma das maneiras que até agora caracterizamos como tipos de infelicidades. Se o touro não está por fazer isso. porque para começar com as declarações o constatativo "João está correndo" está relacionado com a declaração "estou afinnando que João está correndo" . o "presente". " Prometo fazer X. Até agora só consideramos um pequeno número de exemplos clássicos de performativos. etc.) Sentir-nos-íamos muito mais inclinudos u dilcr lluO ti udvcrtêncla foi falsa. tais como "batizo". deveríamos naturalmente indagar primeiro se existe algum critério gramatical (ou lexi­ cográfico) para distinguir os proferimentos performativos. Apenas a quarta e última dessas conexões pode ser apresentada . Veremos em breve que havia boas razões para esta pequena astúcia. no de descrever um certo estado de coisas ou acontecimentos. que descreve o que farei no futuro. I run (corro). então certamente não se trata de "indica­ tivo" no sentido dos gramáticos. cuja verda­ de depende do fato de que João esteja correndo. nos casos em que é realmente "indicativo". nem infonna. a nota da p. do T.de modo a parecer uma relação de implicação lógica entre declara­ ções. enquanto que o inglês tem). mas que apenas utilizou-se de uma fonna de advertência .

Isso para não mencionar os casos em que só temos uma oração truncada. PrefIro voltar atrás por um instante e ver se há ou não uma boa razão por detrás de nossa preferência inicial pelos verbos no chamado " presente indicativo da voz ativa". a pessoa e a voz não são essenciais.1. O tempo também não serve.que erroneamente apresentamos em termos puramente gramaticais . Mas talvez não seja impossf­ vel produzir um critério complexo. determinar quando o verbo está no imperativo e quando não está. pelo menos na linguagem escrita. se nos afastamos desses proferimentos performativos explí­ citos e altamente formais. o verbo pode ser "impessoal" em casos que levam a for­ ma da voz passiva. " aceitamos" . e inclusive em casos em que não há verbo explícito algum. Por exemplo: 3) "Pela presente notifica-se que os intrusos serão processados. Tais palavras poderiam ser " impedido". poderíamos pensar que certas palavras estão aptas a servir de teste do proferimento perfonnativo. Por exemplo. Portanto. Ca­ racteriza-se. Assim." Na realidade. mas isso também não servirá. As ações só podem ser realizadas por pessoas. que deve aparecer. (2) Em vez de "você está autorizado a fazer X" . " prl meto". "autorizar". Daí nosso sentimento justificável . etc. Já nos referimos a algumas. "Pela presente" é um critério útil de que o proferimento é performativo. que tomem em consideração tanto a gramática quanto o vocabulário. pare­ 60 . " perigoso".em favor da "primeira pessoa". um dos critérios poderia ser que toda expressão com o verbo no modo imperativo é performativa. em nossos ca­ sos. etc.. Se tal expressão não é in­ serida. etc. "você autoriza" . porque posso ordenar alguém a virar à direita di­ zendo-lhe simplesmente "Vire à direita" e não "Ordeno-Ihe que vire à di­ reita". L. Há exceções mais importantes e óbvias. etc. e em vez de " Aconselho-o (ou recomendo-lhe) que vire à direita" posso dizer " Eu viraria à direita. o instrumento que leva a cabo o ato de "advertir". No caso particular de algumas palavras especiais que têm aparência de perfonnativos. ativu ou passiva que demos anterionnente. Isso nos leva a um impasse no que diz respeito a um critério simples e único fundado na gramática ou no vocabulário. um performativo. Dissemos que a idéia de um proferimento performativo exigia que a expressão consistisse na realização de uma ação (ou que fizesse parte dessa realização). e qu poderíamos fazer o teste por meio do vocabulário. temos de reconhecer que o modo e o tempo (até aqui mantido em oposição a pessoa e voz) falham como critérios absolutos. Isto serve para indicar que o proferimento (escrito) da sentença é. co­ mo ao dizer apenas "Culpado" quando considero a pessoa culpada. fora de qualquer dúvida. advertem-se os passageiros que não devem colo­ car a cabeça fora da janela". ser mencionada ou referida. assim: (1) Em futebol um espectador pode dizer "foi fora mesmo". assim: (1) Em lugar de "esquina perigosa" podemos ter "esquina". pela inserção freqüente e tal­ vez até constante da expressão "pela presente". etc. é óbvio que quem usa a expressão deve ser o que realiza a ação. por exemplo. posso pennitir que alguém saia dizendo simplesmente. a palavra ocorre em um uso que não é performativo. por exemplo. " autorizado". Alguns exemplos desse tipo são: 1) "Pela presente está o senhor autorizado a pagar. em vez de dizer "Acuso-o de ter feito X" posso simplesmente dizer "você fez X" . mas isso nos levaria a en­ frentar muitos problemas. podemos dizer "Você pode fazer X" .. problemas nos quais não quero me en­ volver.. se fosse você" . "Advertem-se os passageiros de que só devem cruzar a via férrea pela ponte" . " 2) "Adverte-se aos passageiros que devem cruzar a via férrea somente pela ponte. podemos dizer "Farei X". como se costuma dizer. se quem profere a expressão está Quando dizer é fazer 61 . como. por exemplo. Do mes­ mo modo posso dizer "você foi culpado" ou "você estava impedido" ou mesmo " você estava em falta". apresenta o verbo na segunda e tercei­ ra pessoas (singular ou plural) e na voz passiva. porque. quando não tenho nenhum direito a fazer es­ se tipo de pronunciamento. e. lI. como. Em vez de "lJu o dcc)oro em impcdlmen to" dizemos " Você está impedido".. poderia ser usado para descrever o que normalmente acontece: " ao aproximar-se do túnel. como quando aceito uma aposta dizendo simplesmente " Está feito". "Pode sair". e em ve de "touro perigoso" podemos escrever "touro". simples ou complexos. Podemos ter a palavra operacional sem que o proferimento seja per­ formativo.UvO? Não 6 necessário perder tempo com as exceçOes evidentes constituídas pelo uso da primeira pessoa do plural: " prometemos". "falta". "impedido" (em futebol). porque: L Podemos ter o perfonnativo sem as palavras operacionais. ou pelo menos um conjunto de critérios. Além disso. O modo não serve. em caráter oficial. Um tipo muito comum e importante do que poderíamos pensar ser. como coisa distinta da " gramática"." Este tipo geralmente aparece em circunstâncias formais ou legais. ou " Fo­ ra" quando ordeno a alguém que saia do jogo. (2) Em locuções tais como "você prometeu" . Contudo. Austin nos que poJ":1"ÍlUIlOS refutar até 11 regra tJuc govclllu () uso da VO'l. e em vez de "Prometo fazer X".

tais como "prome­ ter". A menos que o proferimento per­ formativo seja reduzido a uma tal forma explícita. "pela pre­ sente afirmo" ou "pela presente observo". em determinado caso. 1 Por exemplo. assim chamada. embora possamos avançar ao longo dessa linha (há obstácu­ los) I. "Avisa-se que o touro é perigoso" equivale a "Eu. Assim.. etc. qual é o teste para determinar se a primeira pessoa do singular do presente do indicativo na voz ativa é. mas traz seus revezes). Por exemplo. pelo presente gramatical e pela voz ativa gramatical do verbo. constitui um uso peculiar e especial. Quando. ações que. "isso é teu" pode ser tomado como equivalente a "eu te dou isso" ou a "isso já pertence a ti" . e não devemos esquecer que es­ tamos procurando um critério para distinguir as declarações dos performati­ vos. apenas descrevo sua realização do ato de apostar. Mas se profuo as palavras "Ele aposta". "proclamar". isto é. quando não há uma referência oa a ela por meio do pronome "eu" (ou por seu nome próprio). João da Silva. mas eu faço minha própria aposta. quando a pessoa que declara que cu estou fora do jogo não 6 o juiz da parti­ da. Esse é o tipo de teste que na realidade estávamos usando acima. por exemplo. performativa. Ilá algo que. Se profuo as palavras "Eu aposto" . talvez mal­ expressada. e ele terá de fazer a sua.) "Culpado" equivale a "Eu o declaro culpado" . Quando dizer é fazer 63 . Na realida­ de. Austin "fora" equivale a "Eu decluro.. O "eu" que está realizando a ação entra. pelo fato de ser ela a pessoa que profere a expressão. As outras palavras que parecem ter uma função especialmente performativa (e que na realidade a têm). então "far-se-á referência" à dita pessoa por meio de uma dessas fórmulas : (a) Nas expressões orais. a esta altura. levando em conta que todas as outras formas devem ser reduzidas n esta. já que as expressões escritas não estão ligadas à sua origem da mesma forma em que o estão as orais). Sentir o terreno fIrme do preconceito escorregar sob nossos pés é gratifIcan­ te. pelo fato de ser a dita pessoa que coloca a sua assinatura (naturalmente que tem de fazer isso. Em particular temos de notar que há uma assimetria sistemática entre essa forma e as outras pessoas e tempos do mesmo verbo. constituem o pro ferimento do performativo "aposto". assim. "declarar".atuando. L. O fato de haver esta assimetria é precisamente a nota característica do verbo performativo (e é o que podemos encontrar de mais próximo a um critério gramatical em cone­ xão com os performativos). mais uma vez.é que se torna explícita esta característica implícita da situação lingüística.. Tomemos como exemplo os usos de "aposto" contrastados com o uso desse verbo em outro tempo e em outra pessoa. mas eu não realizo o seu ato de apostar. isto é. quais são os verbos com que se pode fazer isso? Se o performativo é expandido. se comportam assim quando estão liga­ das em sua "origem" a verbos performativos explícitos. "Apostei" e " Ele aposta" não são performativos. (Tenho que explicar. e qual o ato que está sendo realizado. podemos dizer. os verbos que. Mas nem sempre o é.e também das formas na voz passiva (na se­ gunda e terceira pessoas e quando o verbo é "impessoal"). que só ele pode realizar. não afmno que profuo as palavras "Eu aposto" . Do mesmo modo. parecem ser especialmente performativos servem à fmalidade especial de ex­ plicitar (o que não é o mesmo que relatar ou descrever) qual é a ação precisa que foi realizada ao proferir-se a expressão. Assim: 62 J. está sendo reali­ zado pela pessoa que a profere. ou qualquer outra. na fórmula verbal da expressão não há uma referência à pes­ & que a profere e assim realiza o ato. mas é dema­ siado formal para os fms ordinários.. o que podemos chamar de origem do proferimento. o que nos sentiríamos inclinados a dizer é que todo proferi­ menta que seja de fato um performativo deveria ser capaz de ser reduzido. ele aposta. em base do vocabulário. essencialmente na ce­ na. e sim realizo o ato de apostar. no momento em que se profere a expressão. tais como "culpado". "impedido". (b) Nos proferimentos escritos (ou "inscrições"). expandido ou analisado de modo tal que se obtivesse uma forma na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa (gramatical). há um jogo de palavras nos usosperformativo e não performativo do aviso das estradas "Foram avisados que . tomá-lo como se não o fosse. respectiva­ mente. " Contudo. pois descrevem ações minhas e de outro. Além do mais. proferiu) as palavras "Eu aposto".) João da Silva Este tipo de expansão torna explícito que o proferimento é performati­ vo. apenas afmno que ele pro­ fere (ou melhor. Uma vantagem da forma com a primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa . e além disso. que é usado geralmente em qualquer sistema de coordenadas-de-referência verbais. em cada caso. todas elas com a assinatura aposta .. o aviso que o touro é perigoso" ou equivale a Este touro é perigoso (Ass. que estamos tateando. diz as palavras "Eu aposto" . A fórmula "por meio da presente" é uma alternativa útil. procluIl10 ou digo que você está fora do jogo" (quando é um performativo. é preciso notar que essa primeira pessoa do singular do presente do in­ dicativo da voz ativa. etc. tom que estar fa:lcnuo algo donde nossa prcfcr~ncia. será possível normalmente . se ele diz que aposta.

por exemplo. não existe tal assimetria entre "eu corro" e "ele corre" .. da mesma forma que "aposto que . talvez. e de qualquer modo não é um critério muito exato. Austin to" e passar a citar realmente. o uso da palavra chega a ser a ação de "concluir" (ato difícil de realizar.De maneira semelhante. (3) Alguns verbos podem ser usados na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa de duas maneiras simultâneas. podem dizer "ele promete. Um exem­ plo é "chamo". Estou me casando" a qualquer altura da cerimônia. (5) Temos casos de adequação da ação à palavra. Podemos justi­ ficar isto dizendo que os verbos performativos não são usados no presente contínuo (na primeira pessoa do singular na voz ativa). como quando digo: "chamo inflação ao excesso de dinheiro em busca de bens escassos".. Mas mesmo isto não é totalmente verdade. "Aceito". mas o pequeno Toninho tem que dizer. quando toco numa peça apenas para acomodá-la bem. eventualmente. como surgem algumas dessas perplexida­ des. que abarca tanto um pro ferimento performativo quanto uma descrição de um ato naturalmente conseqüente. Ou quando dize­ mos "Sinto muito" . porque (1) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­ va pode ser usada para descrever como me comporto habitualmente: "aposto (todas as manhãs) dez cruzados como vai chover" . (7) Dá-se realmente o caso de podermos sempre colocar um performa­ tivo numa forma normal sem perder nada? "Estarei lá" pode querer dizer coisas diferentes. que. é duvidoso que este seja exatamente um critério "gramatical" (qual seria?). Talvez contemos com esta ambigüidade. Se dou uma defmição dizendo. Po­ deríamos acrescentar também que. "defino X c mo se segue: X é Y" este é um caso de adequar a ação (de deflnir) à palavra. Posso usá-Ia para descrever meus próprios atos realizados em outro tempo e em outro lu­ gar. L. "ci64 J. quando seu fIlho foi soli­ citado a fazer algo. nem "estou protestando" . "Prometo" para que te­ nha efetivamente prometido. Por exemplo. posso dizer "rio-me de você" e imediatamente rir. mas não temos a fórmula "Eu o insulto". difícil de tornar explícito de outras maneiras). "prometo unicamente quando tenho a intenção de cumprir com a minha palavra". ou dizer "acomodo" numa partida de xadrez. porque posso dizer "Não me perturbes agora. Ou posso até dizer " Estou ordenando" enquanto escrevo a palavra "Ordeno" . não é mesmo. Por exemplo. Esta espécie de assimetria não se apresenta em geral nos casos dos verbos que não são usados como performativos explíci­ tos. um pai ou mãe ansiosos. em . isto equivale exatamente ao performativo explícito "Pe­ ço-Ihe desculpas?". valendo-me de outros meio que não o "úer "Protesto". " é apostar). Quando dizer é fazer 65 . "na página 49 protesto contra o veredito". Assim. todo caso. "Afirmo que . ou dizer. ele mesmo. há uma transição ao uso de performativos. dita por um advoga­ do diante do tribunal.. pelo menos historicamente. Contudo. (6) Sempre se dá o caso de ser necessário ter um verbo performativo para tornar explícito algo que sem dúvida estamos fazendo ao dizer certas palavras? Por exemplo. atiran­ do pedras contra os portões de uma embaixada. levando à expressão "com isto concluo minha defesa". que se estende no tempo e contém diversos elementos. Não dizemos "estou prometendo" . posso insultar uma pessoa dizendo-lhe algo. (4) Corremos o risco aparente de incluir fórmulas demais que podería­ mos não querer qualificar de performativas. quando não estou tendo que dizer outras palavras tais como. em última análise não sejam assim tão graves. (2) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­ va pode ser usada de modo semelhante ao presente "histórico". te verei mais tarde. Quando usamos a fórmula "defino X como Y" temos a transição para um proferimento performativo de um caso de adequação da ação à palavra. Há uma transição da palavra FIM no final de um romance para a expressão " [mda a mensagem" no [mal de uma mensagem em código. Em tal caso o proferimento do performativo não constitui todo o ato. já que é o cessar da ação. do mesmo modo. " (pronunciar estas palavras é declarar. ou.. Teremos que voltar à noção do performativo explícito e devemos dis­ cutir. Por exemplo. Ou posso dizer "Estou protestando" ao realizar o ato. Toninho?" . Podemos dizer que estes são casos em que a palavra indica a ação e nos quais.

conhecendo o meu fraco. prometo" (ou "Prometo que . uma vez que é muito comum que a mesma sentença seja usada. por exemplo. característica de uma longa lista de verbos que se parecem com os performativos. Mas ainda assim." sentem nessa forma privilegiada . que tem um verbo na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa. pelo menos nos casos em que fazer o pro ferimento é realizar o ato. Se alguém diz "estarei lá" . há uma assimetria essencial entre os performativos e esses outros verbos. Nesse caso o pronome "eu". em diferentes ocasiões de proferimento. a "voz ativa" e o "presente" parecem apropriados. há outras dificuldades adicionais. Sugerimos então: 66 J. A primeira sugestão foi a de se encontrar um critério ou critérios gramaticais. isto é... verbos no presente habitual.passamos a considerar como definir mais claramente os performativos. na verdade. podemos perguntar " Trata-se de uma pro­ messa?" A resposta pode ser "Sim". Contudo. Mencionei três . L. Es­ sa assimetria é. Embora os per­ formativos não sejam. 2) performativo explícito: "Prometo que estarei lá" . e de que muito provavelmente não seria viável sequer fazer uma lista de todos os critérios possíveis. Dissemos que esta forma tornava explícita a ação realizada ao se fazer o proferimento "Estarei lá" . os segundos verdadeiros ou falsos .podem ser "reduzidos" a esta forma e convertidos no que chamaríamos de performativos expltcitos. como performativo ou como constatativo. O problema parece sem solução se deixarmos os proferimentos tal como estão e continuarmos a buscar um critério. por outro lado performativos. que introduzimos de maneira um tanto sub-reptícia. eu (provavelmente) estarei lá" .. não existe o performativo "Eu o insulto" . "eu x . Contudo.os primeiros felizes ou infelizes.. Qual dos dois seriam? Ou se­ riam ambos? (2) "Declaro que . Vamos colocá-la em oposição a "performativo primário" (que preferimos a peformativo implícito ou inexplícito). como já haviam mencionado rapidamente ao concluir a confe­ rência anterior..começando com "eu x que . ao insultar ou repreender alguém. "eu x a . ou. " parece adequar-se às nossas exigências gramati­ cais ou "como que gramaticais" .e VI Conferência 1) fazer uma lista de todos os verbos com essa pecuJiaridad"" 2) Supor que todos os proferimentos perfonnntivos que não se apl\. " . mesmo com esses verbos que podem muito bem ser constatativos ou descritivos. "). corre o risco de incluir ex­ pressões não performativas. Quando dizer é fazer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 7 . Demos como exemplo: 1) proferimento primário: "Estarei lá". ou uma combinação de ambos. Por outro lado. (3) Às vezes.. Destacamos o fato de que certamente não há nenhum critério absoluto deste tipo. o tipo de performativo do qual tiramos nossos primeiros exemplos. Paremos um pouco para considerar mais detidamente a expressão "per­ formativo explícito". então. na verdade. Austin tativos. ". das duas formas.delas como sendo típicas: (1) "Classifico" ou talvez "Considero" parecem por um lado consta­ Performativos explícitos Por haver sugerido que os performativos não são assim tão obviamente distintos dos constatativos . dizer algo parece ser caracteristicamente fazer algo. da primeira pessoa do presente do indicativo da voz ativa.. embora diferentes.. Além disso. porque a "rp ­ dução" a um performativo explícito nem sempre é possível. mas desejamos de fato incluí-lo? Nosso critério.. mas posso prever que. ou de vocabulário. mas pre­ tendo estar lá" (expressando ou anunciando uma intenção). "Não. ou "Sim. como os demais verbos nesse "tempo" . t relativamente fácil aceitar certos usos bastante normais. parece merecer nossa preferência. no presente "histórico" e no presente contínuo. tais critérios não serviriam para dis­ tinguir os performativos dos constatativos.. "Não. Devemos nos perguntar agora se isso será fácil ou sequer poss(vel. tal como o expusemos. a resposta poderia ter sido apenas.. ". Nossc critério não incluirá todos os casos em que fazer um proferimento é realizar algo.

1922.Devemos fonnular agota. A discussão sobre a origem da Linguagem é hoje uma questão basicamente abandonada pela pilosono da Linguagem. (2) dizer "eu prometo que" (se o perfonnativo for feliz. nem que sejam descrições ou relatos. do ponto de vista da evolução da linguagem. as frases iniciadas por "que" são. A questão da origem da Linguagem foi um dos problemas mais centrais nos prim6rdios da Lingüística.mais adiante voltaremos a isso . As foonas primitivas ou primá­ rias dos proferimentos conservam. " Eu o farei" . diga­ mos. Londres. ou até. Trata-se tanto de estabelecer dis­ tinções claras.. não se tratam de casos de "discurso indireto". "eu o saúdo" . "touro" ou "tro­ vão". Jespersen. proferir "Salaam" não é descrever minha ação. mas também. em outra ocasião. o perfonnativo explícito deve ter se desen­ volvido posterionnente a certos proferimentos mais primários. por exemplo. ou. " . ou até mesmo emitir algum som ou proferir uma palavra como "Salaam" . etc. por exemplo. Pode não ficar claro se estou fazendo uma reverência ou.. Não se trata de uma descrição porque (1) não pode ser verdadeira. é a seguinte: suponhamos que eu me incline profundamente diante de uma pessoa. do T. Compare-se com isto a explicação mais obscura sobre as frases que contêm "o que" . porém. então. mas a sofisticação e o desenvolvimento de foonas e procedimentos sociais exigem clarificação. Referência ao lingüista dinamarquês Otto Jespersen e à sua obra Language. nem indicar que estou realizando uma reverência. não é absolutamente necessário que um verbo pcrforma­ tivo explícito deva ser seguido de "que". Por exemplo. em sua maioria. " . Por exemplo. "prometo que". assim como não o é o fato de tirar o chapéu.dizer "Eu o saúdo" não é descrever meu ato de saudar. é o seguinte: historicamente. Po­ de-se até conceber que a fónnula "declare que" a promessa foi feita. "Ele prometeu que . casos em que relato o que outra pessoa. de importância considerável. O mesmo se dá quando usamos a expressão "Prometo que". neste sentido. De modo geral.) 2 ~ Minha explicação ê muito obscura. levar a mão ao coração. L. "acho que". verbos como "calculo que"). Podemos dizer que uma fónnula perfor­ mativa como "Prometo" esclarece como se deve entender o que foi dito. Herder Ablumdlung über d CII Ursprung der Sprache (Tratado sobre a Origem da Linguagem) publicado em 1772 e escrito em ros­ posta à questão formulada pela Academia de Ciências da Prdssia em 1769. Exe m­ plos: "Peço desculpas por. o meu próprio discurso. é claro. ". muitos dos quais são já perfonnativos implícitos. A situação no caso das ações que não são lingüísticas./0 singular do presente do inclicativo da voz ativa. (N. Isto pode ter suas vantagens. ou o "caráter vago" da linguagem primitiva. duas advertências: " tomar expl1cito" não é o mesmo que descrever ou relatar (ao menos não no sentido que os ftlósofos preferem dar a estes tennos) o que estou fazendo. Um exemplo típico é "Ele disse que . uma infoonação.. "na pági­ na 456 afirmei que . em uma linguagem primitiva que consistisse de proferimentos de uma s6 palavra. disse. a "ambigüidade". possivelmente. uma promessa. como. em­ bora nesse tipo de proferimento tenhamos um "que" introduzindo uma frase depois do verbo. its nature. Observem que. Se "tomar explícito" dá essa idéia.10 algum sC lll~ lhaJltc ao il quc" dos perror mativos expllcitos.. uma advertência menos grave. é anterior a "Prometo que o farei" . Se esta é uma noção clara I vemos então que o "que" 1 do discun. se estou me curvando para observar a flora ou para aliviar minha indi­ gestão. nem falsa. uma predição. na primeira pessoa <. Austin Quando dizer é fazer 6 . Uma explicação plausível (não sei exatamente como poderia ser demonstrada) seria que nas linguagens primitivas ainda não estaria claro. e também para identificar o ato (por exemplo. No discurso indireto ou oratio obliqua. para esclarecer que se trata de um ato cerimo­ nial convencional. Uma coisa que tendemos a fazer e que. " (ou será este um duplo uso de " que"?) ou. sendo o mais famoso o trabalho de 1. ou "e­ quívoco". como partes de um todo. é muito perigosa. é claro) constitui. tanto do ponto de vista da construção lingüística. ".. via de regra.. devido ao seu caráter eminentemente especulativo. 68 J. Tais fonnas não tor­ nam explícita a força exata do proferimento. tirar o chapéu. Algo que parece nos pennitir fazer pelo menos uma boa suposiçã". estávamos de fato fazendo.2 poderiam ser uma advertência. Di­ ga-se de passagem. quanto do da natureza desta no perfonnativo explícito. "declaro que" (ou.. developnl(l/I( arul origin. ou não é seguido de nada. . então é um tenno inadequado. Nestes casos não estou relatando. Em muitos tipos de casos impor­ tantes o verbo é seguido por preposição. Mas não se pode dizer que tais proferimentos sejam verdadeiros ou falsos. Ora. é con­ siderar que de alguma fonna sabemos que o uso primário das sentenças tem possível de fato que as linguagens primitivas fossem deste tipo. mesmo. Pela mesma razão . Fazer ou dizer tais coisas é tornar claro como o ato deve ser considerado ou entendido. ainda não seria possível distinguir quais das diferentes coisas (valendo-nos de distinções posteriores) que poderíamos estar fazendo. dizer de que ação se trata.o indireto nlio é de 1110<. Mas notem que esta clarificação é um ato tão criativo quanto uma descoberta ou uma descrição. etc. como as que os livros de gramática dão sobre frases iniciadas por "q ue". deve-se incluir.. cf. tocar o chão com a testa. sem ambigüidades. Em segundo lugar. mas que se assemelham a proferimentos perfonnativos por caracterizarem a realização de um ato convencional (ritual ou cerimo­ nial). como um ato de reverenciar). Parece também plausível supor que a distinção explícita das diferentes forças que um pro ferimento deste tipo possa ter seja uma conquista posterior da linguagem. incluídos em muitos dos perfonnativos explícitos. quanto de tornar claras distinções já existentes. ainda. um outro elemento espe­ cial.

em diversos contextos: "Feche-a. a cadên­ cia e a ênfase de um protesto através do uso de um ponto de exclamação se­ guido de um ponto de interrogação (mas isso é muito insatisfatório). Quando dizer é fazer 71 . então feche-a" . nem explícita. Partículas conectivas Em um nível talvez de maior sutileza. como (no sentido indicado abaixo) deve ser considerado. dentre muitos que sempre foram usados com maior ou menor êxito para desempenhar a mesma função (assim como a pa­ dronização foi o recurso mais bem-sucedido para se desenvolver a precisão da fala). tentamos transmitir o tom de voz. " . no sentido es cífico do fIlósofo. "dessa forma" e "além do mais"3. L. etc). se tiver coragem". o emprego de expressões verbais e cir­ cunlóquios semelhantes. "Deve fechá-la" . segundo o qual se trata de um proferimento cuja única pretensão é ser verdadeiro ou falso e que não está sujeito a nenhum outro ti­ po de critica. ou seja o que for) escrevendo "Seria bom que você nunca se esquecesse dis­ sO. "ameaçadoramente". podemos ate­ nuar a força de "Eu o farei" . ainda. assim como deu impulso ao ideal de preci­ são. Decreto. " Feche-a. A precisão na linguagem tor­ na claro o que foi dito. dar a entender. 3. ou seja. acrescentando "provavelmente". algumas das funções que podem ser melhor desempe­ nhadas pelo recurso ao performativo explícito (embora. embora nesta isto não seja tão necessário .tiva.de ser. usamos " portanto" com a força de "con­ cluo que". Assim. um ideal. Parece muito mais provável que a "pura" declaração. Ou. "Muito bem. ou permissão. assemelha-se a "Consinto que a feche". faça-o" . além disso. "Feche-a. A pon­ tuação. 1. Austin 4. Na segunda metade de nossas conferências nos voltaremos para as importantes e difíceis distinções que devem ser feitas a este respeito. Consideremos por um momento alguns destes outros recursos lingüísti­ cos mais primitivos. não é precisa. ou o subtítulo "Um Roman­ ce . linguagem escrita. até mesmo. O uso de títulos como Manifesto. como também não pode­ mos saber se todos os proferimentos tiveram sua origem em imperativos (como alguns afInnam) ou em xingamentos. "expressar" (palavra odiosa!). que a fe­ che" . em certos casos. "Tem de fechá-la". assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la". Muito se poderia dizer aqui a respeito das conexões que há entre tais recursos e os fenômenos de insinuar." 70 J. A linguagem em si. posso dizer "Fe­ che-a". aparece o recurso verbal especial de se usar uma partícula com..:. seja uma meta. eu o faria" . Podemos dar ênfase (a uma advertência. Assim. Exem­ plos desse tipo são: Vai atacar-nos! (aviso) Vai atacar-nos? (pergunta) Vai atacar-nos!? (protesto) Estes aspectos da linguagem falada não são fáceis de se reproduzir no. serve a um propósito muito semelhante. um uso declarativo ou constatativo. Modo Já mencionamos o recurso extremamente comum de usar o modo impe­ rativo.utilizamos advérbio expressões adverbiais e certos torneados lingüísticos. não sem al­ guma modifIcação ou perda. por exemplo. A fónnula perfonnativa explícita. assemelha-se a "Ordeno-lhe.. acrescentando "sem falta" . Notem-se tanr bém os usos de "ao passo que". ênfusc (Análogo a isto 6 o recurso sofisticado de se usar instruções junto aos diálogos em peças teatrais. ou aumen­ tá-la. muito freqüentemente. como veremos). previno-lhe. "Feche-a. embora envolvam. assemelha-se a " Ordeno-lhe que a feche" . sugerir. mas são ri cursos bastante toscos. Advérbios e Expressões Adverbiais Na linguagem escrita .. tor­ na mais clara a força do proferimento. todos os quais são essencialmente diferentes. o que seja!). porque deve ser. assemelha-se a "Permito que a feche" . no sentido que demos a esta palavra. Proclamação. "Pode fechá-la". Assim. assemelha-se a " Dou-lhe perrnissão para que a fe­ che". assemelha-se a "DesafIo-o a fechá-la" . na linguagem falada. é apenas o último e o mais eficaz recurso lingüístico. se quiser" . etc.. o uso do grifo e a ordem das palavras podem ser úteis. podemos usar a partícula "contu­ do" com a força de " insisto que" . 3 Mas alguns destes exemplos levantam a velha questão se "admito que" e "concluo que" sno Ou nno performativos. ou concessão. Por exemplo. ao qual o desenvolvimento gradual da ciência deu impulso. o significado. ". é claro.. • Tom de voz.e. cudênclll. usamos "embora" com a força de "admito que". podemos usar verbos auxiliares. Certamente não podemos saber isso. A explicitação. assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la. em nosso sentido. Isto faz com que o proferimento seja uma "ordem" (ou uma exorta­ ção. e nos seus estágios primitivos.

E assim sucessivamente.. Também temos que considerar. "te deixarei o meu relógio" e. a insinuação. ou que estamos expressando uma intenção. ou pode ser uma previsão para o futuro. ". acrescentando o advérbio "com certeza". uma exigên­ cia. e até mesmo quando isso apropriado. Deve-se notar que quando existem verbos pcrfonnativos.como os que mencionaremos a seguir . podemos dizer: "Vindo dele. Austin Quando dizer é fazer 7 . Dizer "Estarei lá" pode ser uma promessa. ou pode expressar uma condição. 011 1\ frase "farei todo o possível". etc. Em tais circunstâncias é possível e comum que de fato sintamos a emoção ou o desejo em questão. dar de ombros. Consideraremos dois tipos clássicos de casos em que se apresenta o problema e que exibem alguns dos fenômenos incidentais no desenvolvi­ mento das fórmulas performativas explícitas.:rbiul"/)cm faJu. Elementos que acompanham o proferimento Podemos acompanhar o proferimento das palavras com gestos (piscar de olhos.. que não possuem forma normal. Mas. quer os tenhamos ou não. às vezes. Mas prova­ velmente também deve haver neles alguma inadequação. acrescentando a ex pressíio tldvt. " ou "(exorto-o) a . via de regra. há outros recW'Sos es­ senciais . um pedido. quanto as outras formas normais qu apresentamos).. sinais. de passagem. os casos em que é duvidoso determinar se a expressão é ou não um performativo explícito. casos em que esta resposta é natural (ou assim queremos crer!. Sem dúvida que uma combinação de alguns ou de todos es­ ses elementos mencionados acima (e é provável que ainda haja outros) será. ou po­ de expressar uma intenção. e pode até jogar com esta ambivalência: por exemplo. É compreensível que. em particular. uma recomendação.) ou com atos cerimo­ niais não-verbais. a força do proferimento. (la) Nem se trata simplesmente de que o performativo não conserve o caráter equívoco. E uma vez que nossas emoções e desejos não são fa­ cilmente detectáveis pelos demais. uma sugestão. A dificuldade com esses elementos consiste principalmente no fato de ser vago o seu significado e incerto o resultado de sua recepção. ndo UI11U promessa. se tome obrigatório "expressar" tais sentimentos. em sentido positivo.Al6m do que dizemos c da maneiro do diz~-Jo . em títulos ("advertência!"). 6. um empréstimo ou um ato de entregar em confiança.". Entregar algo a alguém pode ser. uma advertência ("V á. Do mesmo modo. ou uma defmição ("Seja . suficiente. por vezes agradável das expressões primárias. além do mais. é convencionalmente considerado uma resposta ou reação adequada a certos estados de coisas. uma pennissão. são relevantes para determinar como estas palavras de­ vem ser interpretadas. incluindo a realização por parte de alguém de um certo ato. Tais recursos. mas também nas instruções que acompanham um diálogo teatral ("saudações").. franzir o cenho. e entre parênteses (este é um teste quase tão bom da presença de performativos. "Aprovo" e "Concordo". um presente. são utilizados também para outros propósitos. Um "imperativo" pode ser uma ordem. o contexto das palavras: "morre­ rei um dia". "Aprovo" pode ter a força performativa de dar aprovação ou pode ter o significado descritivo de "Estou a favor disto". uma concessão. a existência e até mesmo o uso dos performativos explfcitos não resolvem todas as nossas dificuldades.. quando dizemos "Tome isto" . etc. tais recursos são excessivamente ricos em signifi­ cado.. quando dizemos "Estarei lá". Exemplos de expressões usadas desta forma são: L.que pennitem veicular. (1) Em ftlosofia podemos até levantar a questão da possibilidade de os performativos serem confundidos com sentenças descritivas ou constatativos. por exemplo. O performativo explícito exclui os equívocos e mantém a realização relati­ vamente estável. de algum modo. ou que estamos fa72 J. e casos muito semelhan­ tes aos performativos sem o serem de fato. Assim. Contudo. Há numerosos casos na vida humana em que sentir uma certa "emoção" ou "desejo". acrescentando os advérbios "sem dúvida" ou "provavelmente". Não devemos esquecer tampouco o uso de palavras especiais como "Fora.. para você ver o que acontecerá"). é comum que queiramos informar-lhes que os sentimos. Assim. de certo modo. como. (2) Parece haver casos evidentes em que a mesma fórmula aparente­ mente é às vezes um perfonnativo explícito e às vezes é descritiva. interpretei aquilo como uma ordem e não um pedido". podemos dei­ xar claro que estamos fazendo uma simples previsão futura. podemos usá los não só em fórmulas do tipo "(prometo) que . S. para enfrentar a complexidade do âmbito das ações que realizamos com pa­ lavras. Prestam-se a equívocos e a distinções errôneas e. ou adotar uma certa atitude. Assim. embora por razões um pouco düe­ rentes e talvez menos recomendáveis em certos casos. "). quando os temos. As circunstâncias do proferimento Uma ajuda extremamente importante resulta das circunstâncias do pro­ ferimento.. podem ser usados sem o proferi­ mento lingüístico e sua importância é bastante evidente. etc. o estado de saúde da pessoa que fala.

por exemplo. como "Tenho a hon­ ra de". Um caso típico é o ~eguinte: "Bata a porta assim" (batendo então a porta). dentre elas algumas muito importantes. quando alguém diz "Eu o recebo com prazer" ou "Dou-lhe as boas-vindas". que nada têm a ver com os performativos. Um exemplo realmente perturbador se dá com O que podemos chamar de performativos expositivos. acerca de cuja natureza exata tenho dúvidas. mencionados logo adiante. Mas não se dá o caso de que dizer que se tem prazer seja de fato ter prazer em algo. Dizer isso é dar um cheque. às vezes.Agradeço Peço desculpas Sou Groto Sinto-mo bYJ'8 to A rrepcndo. (N. L. da mesma forma. etc. É convencional formulá-las dessa maneira. " " Tenho a grata satisfação de poder anunciar _"6 Chamamos estas expressões de frases de cortesia. perguntar se poderíamos in­ serir antes do suposto verbo performativo algum advérbio como "delibera­ damente" . porque (possivel­ mente) se o proferimento é a realização do ato. "Peço desculpas". se a palavra não fosse dita? "Acomodo". então é certamente algo que poderíamos (dada a ocasião) fazer deliberadamente ou estar propenso a fazê­ lo. Compare-se isso com a expressão "Saúdo a memória de . quando dito nas circunstâncias apropriadas. den­ tre os quais se encontram os expositivos e os comportamentais. por exemplo. Estas expressõcs obscurecem a distinção cnlrl> insincen. Há. dade e falsidades.um tipo especial de caso que pode dar origem a performativos. de ser grato em vez de agradecer... Para que algo seja um proferimento performativo.. podemos nos perguntar. "Será que ele realmente lhe dá as boas-vindas?" . ou uma expressão como "estou propenso a". mas agora há numerosas expressões convencionais de sentimento. Também devemos distinguir os casos de adequação do ato à pala­ vra . ou "estou propenso a lamentar" (ao contrário de " estou propenso a dizer que lamento").. Aqui. Podemos sugerir alguns testes para decidir se "aprovo" ou "lamento" está sendo usado (ou mesmo se é sempre usado) de uma ou de outra maneira. Outro teste seria perguntar se a pessoa poderia realmente estar fazendo algo sem dizer nada. e as da terceira coluna são meros relatos. Mas não podemos dizer "eu deliberadamente estava de acordo com sua ação" . tornando-se portanto um proferimento performativo puro. * Na XII Conferência Austin procede a uma classificação de cinco tipos básicos de atos de fa la. Isto lança ddvidas sobre o segundo teste! 74 J. " Mas há muitas etapas transitórias entre adequar a ação à palavra e o performativo puro: "Cheque". a primeira coluna contém proferimentos performativos. Infelizmente. Por exemplo. Aqui a realização não-verbal ocorre como forma alternativa do ato per formativo. pois. do T. as expressões na segunda coluna não são puramente descritivas e sim semides­ critivas. e podemos dizer: "estou propenso a pedir desculpas". Um terceiro teste seria. "eu deliberadamente pedi desculpas". Dizer "Eu o saúdo" agora é saudar a pessoa.. de culpar em vez de censurru4. Assim. por si mesmo. mesmo nos casos vincula­ dos a sentimentos e atitudes que denominarei de "Comportamentais " . Mas há uma certa distinção a ser feita. Um quarto teste seria perguntar se o que a pessoa diz poderia ser lite­ ralmente falso. muito pa­ recida entre si em certos aspectos. ou se beneficiam dela. no caso de lametar em vez de pedir des­ culpas. mas que não consiste. Tal ambivalência é combati­ da pela introdução constante de frases performativas deliberadamente puras. podemos dizer: " Eu deliberadamente lhe dei as boas-vindas" . "eu O saúdo" pode tornar-se um substituto para a saudação. "eu deliberadamente aprovei sua ação". ou se poderia apenas envolver insinceridade (infelicidade). quando se diz: Há fenômenos paralelos a estes em outros casos. que sofrem de uma certa deliberada ambivalência. Assim. Um teste seria se faz sentido dizer "É realmente assim?". pelo menos em alguns casos. Aqui é necessário ampliar a classificação: note-se isso de passagem. Mas esse tipo de caso leva a "Eu o saúdo" (fazendo então a saudação) .) 6 No manuscrito há uma nota à margem: . não tem que ser simplesmente uma expressão convencional de sentimentos e ati­ tudes.me Lamonto Culpo Aprovo Recebo com prazer Alegro-me com CritiCO } Censuro Aprovo Dou-lhe as boas­ Estou chocado com Estou revoltado com Sou favorável a vi ndas Felicito-o Nestas listas. Por exemplo: "Tenho o prazer de apresentar o próximo orador." " Lamento ter que dizer que . Austin Quando dizer é fazer 75 . Relacionamos acima "eu peço desculpas" com " lamento"." 5 4 Ilá ddvidas clássicas acerca da possibilidade de consentimento tácito. mas há transições seme­ lhantes no caso dos performativos. como quando se diz. Isso é adequar a ação à palavra ou constitui parte do ato de ajeitar a peça de xadrez em contraste com movê-la? Talvez tais distinções não sejam importantes. numerosas ex­ pressões. em um proferimento performativo. como ocorre às vezes quando digo "lamento". Mas seria isso um cheque.

Dissemos. Demos alguns exemplos que ao mesmo tempo serviram para ilustrar como o performativo explícito se desenvolve a partir do primário. Selecionamos nossos exemplos na esfera do que chamamos "compor­ tamentais". " Defino ". Contrastemos: P erformativo N áo-Puro Descritivo Performativo (Semidescritivo) Expltcito Peço desculpas Critico Censuro Aprovo Dou-lhe as boas-vindas Lamento Culpo Dou minha aprovação a Receb<ro com prazer Arrepend<rme Estou revoltado com Sinto simpatia por 76 J. Nestes casos a expressão funciona como um título."Cito". L. e dá-se uma defmição (por exemplo . VII Conferência Verbos performativos explícitos Na última conferência consideramos o performativo expltcito em con­ traste com o performativo primário. que isso não eliminaria todos os nossos problemas em busca de uma lista de verbos performativos explícitos. ..Defino x como y" . um tipo de performativo que diz respeito a reações ao compor­ tamento dos outros e que se destina a expressar atitudes e sentimentos. contudo. " x é y" ) . afmnando que o primeiro resultou natu­ ralmente do segundo a partir do desenvolvimento da linguagem e da socie­ dade. e faz-se uma citação. Austin Quando dizer é fazer 77 . Trata-se de um tipo de perfonnativo? Essencialmente funciona assim quando a ação adequada à palavra é ela própria uma ação verbal.

". li formll expf(t' Itu de UlIllI "dC t'lllrtl ção". . Ora. d diálogo. da troca verbal ." "Prevejo (ou predigo) que a face oculta da lua não existe.. 4) não pode ser literalmente falso dizer "Postulo que . porque. tais como "Tenho o prazer de. no impor­ tante sentido descritivo. Por exemplo. à possibilidade das infelicidades. Parecem constituir uma classe restrita. com grande freqüência.". devido. foi assim mes­ mor" Não podemos perguntar "Ele realmente lhe deu as boas-vindas?" . enquanto tais.juc mostra como " declaração" deve encaixar-se no contexto da conversa. Estas frases são especialmente suscetíveis de se con­ verterem em performativos puros quando a ação adequada à palavra é em si mesma um ato puramente ritual. E posso estar supondo algo. por exemplo. Em todos estes casos. "Postulo que . mencio­ namos isso anteriormente e voltaremos a este ponto mais tarde).. embora rituais. (2) Poderia a pessoa estar realizando a ação sem proferir o performati­ vo? (3) Poderia fazê-lo deliberadamente? Poderia estar propenso a fazê-lo? (4) Poderia ser literalmente falso. num performativo explícito podemos dizer "aprovo" em vez de "dou minha aprovação a" . " . de modo plenamente convin­ cente. "postulo que . " (salvo no sen­ tido já assinalado: "na página 265 postulo que . Às vezes.. falsas ou verdadeiras. por exemplo. postulo que .tivos exposicionais. " . ". etc. Contudo. alguém pode predizer algo quando não tem o direito de fazê-lo. a frase seguinte terá normalmente o aspecto de uma declaração. Quando alguém diz. ou o ritual verbal de dizer "Bravo" ("Eu aplaudo"). 2) não se pode estar postulando algo sem dizê-lo explicitamente.. declarar. sem di­ zer nada explicitamente. " . L.. etc.. por exemplo. Posso. outras vezes de uma construção distinta da fórmula.rolmcntC'. ainda que não o perceba ou o manifeste oralment"." Dizer isso é sustentar. Podemos per­ guntar "Ele realmente se casou?" quando disse "Aceito". no mesmo sentidó em que ~rguntamos "Ele realmente o considerou culpado?" Este teste não é muito bom. Estas são bem típicas. estar afirmando ou negando algo. Por exem­ plo. Poderia dizer tranqüilamente "estava supondo que . mas que não passariam nos testes de for­ ma satisfatória.. ou ser in­ sincero ao dizer "Confesso que o fiz" quando não o fez. ou. muitos destes verbos parecem ser. naturalmente. (2) Casos em que se adapta a ação à palavra. Austin . ". distinguimos nossos performativos de: (1) Frases rituais convencionais usadas puramente como fórmulas de cortesia. Posso afmnar ou n Quando dizer é fazer 79 . Segundo os quatro testes sugeri­ dos acima. quando digo "prevejo que .. mas os verbo em si parecerão performativos puros.. isso poderia sempre ser insincero). "Suponho que" em contraste com "postulo que".. Aqui vão alguns exemplos: "Sustento (ou insisto) que a face oculta da lua não existe. nos casos em que"Afirmo" e "Nego" são perfor­ mativos explícitos puros em sentido não relevante aqui. ou dizer "Confesso que você o fez". Trata-se da classe dos que chamo expositivos ou performo. como a ação não-verbal de fazer uma reve­ rência ("Eu o saúdo"). e também a expressão de sen­ timento em resposta a algo dito ou ouvido. podemos recorrer a um teste que consiste no uso de uma pa­ lavra diferente. não necessitam ser sinceras.". então. . "concedo que . " mesmo que na­ quele momento eu não estivesse percebendo que estava supondo e sem que houvesse dito nada a respeito disso. li­ mitada talvez a manifestações de sentimento. Em conclusão. assim como acontece com os comportamentais.. Há uma segunda classe muito importante de palavras em que o mesmo fenômeno de transição de proferlmento descritivo para performativo. cujo exemplo típico seria o do advogado que termina sua exposição oral dizendo "Concluo assim mi­ nha argumentação". "). tais proferimentos podem ser infelizes. da exposição. ocorre. e a os­ cilação entre ambos. "postulo" é como "peço-lhe desculpas" ou "critico-o por." "Declaro que a face oculta da lua não existe. que critico (em con­ traste com culpo) quando disse que criticava? (É claro." "Concluo (ou infiro) que a face oculta da lua não existe. "mas ele estava realmente postulando?". Comparemos a distinção entre "Desejaria que você estivesse no fundo do mar" e "Desejaria você no fundo do mar".. em geral. ()lI l'OIll bU/llllnt(' freqüência." "Admito (ou concedo) que a face oculta da lua não existe. 1) não podemos perguntar... não são performativos. deliberadamente. Voltemos aos quatro testes que utilizamos com os comportamentais. Sem dúvida. ou entre "Desejo que você esteja se divertindo" e "Desejo-Ihe felicidades".. Aqui o corpo principal da expressão tem ge78 J. ou "Tenho a intenção de postular .. "Ele realmente o criticou?". há inúmeros verbos que se assemelham muito a esses e quo parecem pertencer à mesma classe. concluir.. porque podem ter havido infelicidades que tomaram problemático o casamento... predizer. . 3) pode-se dizer "Eu. no mesmo sentido em que perguntamos " Ele realmente o recebeu com hospita­ lidade?" Ou.. performativos puros (por mais irritante que seja tê-los. ligados a frases que parecem "declarações". Assim. e há um verbo performnllvo cxplfcito 00 iIúcio (.Sugerimos os seguintes tClllcs púra o perfonnutivo oxpUclto puro: (1) Faz sentido (ou o mesmo sentido) perguntar " mas.

das maravilhas" do Warren Shibles. verdadeira ou falsa..1898). Mas o mesmo se dá também em outras classes. Ainda que tomemos casos intermediários como. Por exemplo. " Questiono o fato de que ." . etc. Esta última expres­ são às vezes equivale a "peço-lhe desculpas" .. etc. às vezes como "sua conduta tem minha aprovação" . em conseqüência de alguma outra coisa que disse. enquanto "presumo que . " Endosso (confmno) essa opinião" é um performativo explícito puro.. Supor tal coisa é incorrer no exagero. CultrixlEdusp. 1974. " é um performativo explícito puro. "endossar". e a pessoa pode estar classificando sem dizer nada. descreve minha atitude. Nesse cO'1texto.. trocadilhos e jogos de linguagem que Car­ roll constr6i.... como uma descrição. pelo menos. antecipo) que" não o é.. ". de sentimentos. ou seja lá quem foi. linguagem e filosofia. " Conside­ ro que ..... etc. de tomar " penso que p" como uma declaração acerca de si próprio.. Notemos de passagem que nem todas as coisas que fazemos seguindo essa linha de adequar o proferimento ao contexto do discurso se podem fazer com um performativo explícito.. ". podendo tratar-se apenas de um estado mental.. o fenômeno mais amplo sobre o qual chamamos a atenção. ". " . Em outras palavras. Do mesmo modo. Aqui. "postular". por sua vez. em seu Wittgenstein. Exemplos de vereditivos são "Decreto que . L. Veja-se a este respeito o "Comentário filosófico a Alice no par:. enquanto que "prevejo (espero. satisfa­ zem todos os nossos testes do performativo explícito puro. não podemos dizer "exagero que . Aqui.. ("Eu não penso . Devemos distinguir esse ca­ so daqueles em que ficamos comprometidos pela realização de um único ato. Assim como temos que "prometo que (postulo que)" é um performati­ vo explícito puro. Mas este tipo de caso sugere... pela invenção de uma palavra especial tal como " veredito". temos também o se­ guinte: "Prevejo (predigo que) " é um performativo explícito puro. parece absurdo supor que tudo que tais proferimentos fazem.. ou al1nnar ou negar por implicação. Esta obra-prima da literatura infantil é... como. ".) Quando dizer é fazer 81 . não por implicação em conseqüên­ cia de alguma outra coisa que disse. mas este não é um teste rigoroso.. etc. " não o é. nem sempre. pseudônimo do 16gico e matemático inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832. Podemos dizer " Ele realmente não classifica. Austin ~ pessoa é um juiz e diz " Julgo que .. ou convic­ ção. ainda. ao pas­ so que "Duvido que seja assim" não o é. às vezes descreve meus sen­ timentos e às vezes serve para ambas as coisas ao mesmo tempo. Por exemplo. ao menos às vezes. Mas. pelo menos em parte.. (N. professor na Universidade de Oxford..". "Julgo que .. por exemplo. começou a dizer Alice. do T. Paulo. é instintivo comparar "Tenho a inten­ ção de" com "Prometo". como o fato de tratar-se de um juiz investido de suas funções no tribunal. no caso de "estava supondo que " eu po­ deria ter suposto algo sem ter dito nada. pequenas alterações na frase podem ser importantes. "..... ". se a 80 J. " predizer". "questionar". a natureza performativa do pro­ ferimento continuará dependendo parcialmente do seu contexto. "Concordo que . em que o proferimento todo parece ser verdadeiro ou falso. estados mentais. a diferença entre "concordo em . etc. "declaro que. " Defino X como Y" não afmna que alguém faz isso regular­ mente. tais como "declaro" ou "sustento que"... mas simplesmente por estar sentado no meu canto em silêncio de uma forma tal que o meu sentar-me em silêncio não poderia representar negação. a qual se poderia responder: "Trata-se de um fato a seu respeito". ". O mesmo fenômeno geral que ocorre com os comportamentais ocorre aqui. ou " ele está classificando . "insinuo que . '~Então não deveria falar". por exemplo. lrad. é descrever ou relatar algo :lcerca das crenças ou expectati­ vas de quem os usa. se­ * Referência à obra Alice no par:. atitudes. ". Além do mais. caso em que. também. S.. por exemplo. Vimos que em tal caso havia um uso duplo: o performativo explícito pu­ ro e a descrição de minha realização habitual de atos desse tipo..... * Quando chegamos aos performativos explícitos puros.. Essa dificuldade pode ser evitada da maneira habitual. "suponho que . ou "Su­ ponho que . " e às vezes não o é.ar com a cabeça. " . das maravilhas (1865) de Lewis CarrolJ. considerada uma fonte importante do questões sobre l6gica e linguagem a partir dos paradoxos. " e "concordo com . ao mesmo tempo. De certa forma semelhante a esse é o caso de "Classifico os X como y" . ou. Já dissemos o suficiente sobre o tipo de problema em que um verbo performativo explícito aparente funciona. Hegenberg e O. ". ". Ou. etc.. ao passo que "Concordo com essa opinião" não o é. respondeu-lhe a lagarta. nos que chamo de vereditivos. dizê-lo é o mesmo que fazê-Jo. típico de uma Alice no País das Maravilhas. "sentencio a . Silveira da Mota. Comportamentais e expositivos são duas classes muito fundamentais em que ocorre tal fenômeno. apesar de suas características de performati­ vo. quando o fazem. Assim. dito por uma pessoa que não é juiz nem membro do júri." às vezes é equivalente a "postulo que . " . estado de espúito. com pessoas sem funções oficiais isso já não é tão claro.. do L. mas o compromete a uma prática regular que consiste em seguir a de­ finição estabelecida. às vezes funciona como "aprovo sua conduta" . "suponho que" e talvez "considero que" funcio­ nam da mesma maneira ambivalente que "lamento que". ao passo que os outros não. "Estabeleço que . no todo ou em parte.

na realidade.) . "fazer algo" é uma expressão muito vaga. repetidas vezes. esclarecimentos e definiçóes aqui possam nos ajudar n suj desse emaranhado. em cujo contexto.mesmo quando se apresenta em forma aparentemente explícita .b) sempre realizar o ato de proferir certas palavras e vocábulos. A este ato podemos chamar de ato "fático". Só para estimular-se em· nossa jornada. diferentes em diferentes casos. como o fato de real­ mente dizê-lo (em voz alta)..llramcnte trato-se de algo que pode ser. temos ainda proferi­ mentos iniciados por "Declaro que . do T. etc. Contudo. aqui como em outras situações. apesar de tudo. Talvez algum.c) geralmente realizar o ato de usar esse "pheme" ou suas partes consti­ tuintes com um certo "sentido" mais ou menos determinado. voz. declara­ ções e são essencialmente verdadeiros ou falsos. numa determinada constru­ ção.) Quando dizer é fazer 83 . como se fosse um performativo. QlIlUl­ do fazemos um pro ferimento qualquer não estamos "fazendo algo"? Certa. já que os tennos gregos de onde se derivum os dois liltimos têm sig nificados muito pr6ximos. do T. "phone" provém do substantivo grego phoné significando som. portanto. Podemos considerar. Contudo. no entanto. Pretendemos reconsiderar. Isto se dá. há todo um conjunto de sentidos que rotularei de (A). e (A. Poderíamos distinguir a parte inicial do performativo ("Decl~Io que"). a qual é necessariamente verdadeira ou falsa.. mas ocorreu-nos que talvez devêssemos insistir que todo per­ formativo pudesse. Tipicamente. sem insistir muito na elaboração de detalhes. Austi n parte da lfngua grega clássica para cunhar estes termos técnicos. Na Conferênc ia seguinte súo dndos oxemplos que esclarecem melhor estas noções. Para iniciar. além da exigência de serem felizes. sendo o proferimento um "phone"*. podemos também contrastar o fato de estar apenas pensando em algo. e que têm estreita relação com a descrição de fatos. etc. Começando com o su­ posto contraste entre proferimentos performativos e constatativos. como uma declaração (e não como uma previsão. O termo "estiolação" equivale a "desbotamento". provém do substantivo plu11/J'. (N. Isso. ou seja. no sentido pleno de "dizer".. mas devemos ter em mente a possibilidade de "estiolação" da IIn­ ungem que ocorre quando a usamos no palco. os sentidos em que dizer algo possa ser fazer algo. Neste exemplo tanto fazemos a equiparação. não se pode se­ parar a sentença em duas partes. contudo. podemos COO trastar homens de letras com homens de ação. na fiação e na poesia. as maneiras pelas quais nos referimos a "ações" são suscetíveis. então. n ficção. "rético" (" rheli c") provém do substantivo rhe/TUI significando "aquilo que é dito". porém. isto é. que dizer algo é: (A. significando "aquilo que é di to". como "Fora". da frase que se segue ao "que " . quanto afIrmamos que há uma equiparação por meio de uma frase concisa que é.). ser colocado na forma de um performativo explícito. há muitos casos em que. podemos dizer que eles não fi­ zeram nada. com uma determinada entonação. que torna claro que se deve tomar o proferi­ mento. "descoloração" . É hora. em princípio. etc. e não apenas os performativos. "fático" ("phatic"). de maneira geral. dizer é fazer algo. etc. VerifIcamos ainda que a exigência de adequação aos fatos ou. como ocorre com os supostos constatativos. ainda que nos caso o proferimento constitua a ação de declarar ou sustentar. mente. Por exemplo. de conformidade com uma determinada gramática e · apenas quando se conformem a ela. sendo "pheme" oriundo do substantivo pheme signifi cando iglloJ­ mente "algo que é dito" (o verbo pllemi significa dizer. tulllbém considerar O caso dil'crcnlc em que pôr di:rcr 11\1!. e é empregado por Austin pura indicar o uso n":n-"sério" ou não-literal de expressões lingüfsticas em contextos como o palco. afirmar. (N. (A. ao menos. Assim. descobrimos. ainda que outros não o tenham. ruídos de um determinado tipo. Austin VO'l. Consideremos agora nossa posição a esta altura. que freqüentemente não é fácil assegurar-nos de que .). efe­ r M 1 Nem sempre mencionaremos. de ter alguma relação com estes. Desde então. Até que ponto estes exemplos são complicados? Não podemos partir do princípio de que sejam puramente descritivos. bem como em citações e Otn re­ cltutivos. É hora de elaborar nossa reflexão sobre as circunstâncias em que "se faz um proferimento"l. então. conjunto esse que constitui em seu todo o "dizer" algo. sendo o proferimento que dele resulta um "pheme" (para distingui-lo do "pheneme" da teoria lingüística). por exemplo. e uma " . mas que. parece caracte­ rizar também os performativos. podemos mencionar também "Sei que" . pertencendo a um determinado vocabulário e da maneira como pertencem a esse vocabulário. ou em que ao dizer algo estejamos fazendo algo (e taI82 J. parece ca­ racterizar ambos os tipos de proferimento. apenas falaram ou disseram coisas. Afinal .!1Il0S algo). com "Equiparo X a Y" e "Analiso X como Y". constituem. flllso ou verdadeiro. dada a situação atual da linguagem.a) sempre realizar o ato de proferir certos ruídos (ato "fonético"). E já chama­ mos. ainda que o proferimento pareça conter um tipo de performativo explícito.um proferimento seja ou não perforrnativo. encontra­ mos indicações suficientes de que a infelicidade. pelo menos. uma lista dos verbos performativos. ". de gerar confusão. a atenção para alguns performativos que são clara­ mente clássicos. que parecem satisfazer as exigências dos performativos. declarar. "Creio que". Não conseguimos encontrar um critério gramatical para distinguir os performativos. L. de tentar um novo tratamento para o problema. não é tão grave. em que dizer algo tem sempre que se fazer algo. etc.. para fazermos.

er é fU7.) Ao iniciarmos o programa de encontrar uma lista de verbos performati­ vos explícitos. do T. e. 1978). basicamente. L. E começamos distinguindo todo um grupo de sentidos de "fazer algo" que dizer algo é. portanto.o que inclui o proferir certos ruídos. para o português de P. A este ato podemos chamar de ato " rético" . i1ocucionários e perlocucionários "'''' AluSllo 1\ distinção formul ada no célebre artigo de G.Cultrix. achamos conveniente recuar por um instante às questões fundamentais.. (N. ou mesmo os casos em que por dizer algo fazemos algo. em G. esclarecer bem em que consiste o mesmo para distingüí-Io de outros atos com os quais nos va­ mos ocupar primordialmente. ou de unidades completas do discur­ so. certls palavras em determi­ nada construção. A1coforado. ou que ao dizer algo estamos fazendo algo. O ato fonético consiste simplesmente na emissão de certos ruídos. Frege. ou seja.rência" mais ou menos definida (que juntos equivalem a "significado")**. em sentido normal e completo. fazer algo . e ao estudo dos proferimentos desse tipo e alcance chamo de estudo de locuções. mas também para os gramáticos e foneticistas. Frege (1892) "Sobre o Sentido e a Referên­ cia" (trad. Quero acrescentar simplesmente que um estudo muito mais detalhado seria possível e necessário caso nos propuséssemos a discutir o tema em si. Paulo. sendo o proferimento que dele re­ sulta um "rheme". consi­ derar desde a base em quantos sentidos se pode entender que dizer algo é fa­ zer algo. S. Distinguimos o ato fonético do ato fático e do ato rético. pareceu-nos que nem sempre seria fácil disting\lÍr proferi­ mentos performativos de proferimentos constatativos. Lógica efilosofia da linguagem. Nosso interesse no ato locucionário é.cr 8 84 J. O ato fático consiste no Quando di1. ® VII! Conferência Atos locuciónários. detalhes esses que seriam de grande importância não apenas para os ftlósofos. e com um certo "significado" no sentido ftlosófico favorito da palavra. com um sentido e uma referência determinados. Austin . isto é. A esse ato de "dizer algo" nesta acepção normal e completa chamo de realização de um ato locucionário.

gestos. Se a pessoa utilizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes. mais fre­ qüentemente. ". "a mesma declaração") mas não podemos falar do mesmo "rheme" ou dos mesmos atos céticos (que constituem a mesma declaração em outro sentido que envolve o uso das mesmas palavras). Quando diferentes "phemes" são usados com o mesmo sentido e referência.. U . (3) O ato fático. Este é o uso de "disse" seguido ou precedido de uma expressão entre aspas que aparece nos romances: a expressão toda pode ser exatamente re­ produzida entre aspas. como também o fato mais complexo de que tal proferimento tenha sido feito assim: "Ela tem um lindo cabelo" (careta).) Quando dizer é fazer 87 . Mas. Pode-se imitar não apenas o proferimento entre aspas "Ela tem um lindo cabelo" .'O gato está sobre o tapete' ".'Estarei lá' " . * Os tennos "typte" (tipo gen&ico) e "tokn" (instância particular) são utilizados em filosofia da lin ­ guagem para distinguir uma sen1ença ou expressão lingüfstica. Assim. sei" proferida em um mesmo momento por pessoas diferentes. ou "Ele disse que ele estava se comportando mal e ele me retrucou que 'quanto mais alto chegas menos pessoas encontras' ". di­ rfamos "mandou-me que".. Este é o chamado 86 J. tomada em abstrato. que pertençam à classe destes últimos).. Austin "discurso indireto" . tem um carftet gen&ico e usos concretos espedficos. relata um ato fático. Se o sentido ou referência nâo foram entendidos com clareza. "Ele disse que iria". ao realizar um estou realizando o outro (o que não quer dizer que os atos fáticos sejam uma subclasse dos atos fonéticos. no exemplo de Strawson (citado acimA. isto é. por exemplo."Ele disse que estaria lá" "Ele disse: . ruídos de detenninado tipo considerados como pertencentes a um vocábulo e na medida em que a ele pertencem. seja enquanto "tipo" ou enquanto instância particular*. por exemplo. "Ele disse que eu deveria ir" (suas palavras foram "Você deverá ir").'Saia'" .). Contudo. naturalmente.'É em Oxford ou em Cambridge?' " . e assim constituir-se num "rheme" distinto. Naturalmente que sentido e referência (nomear e referir) são aqui atos acessórios realizados ao realizar-se o ato cético.proferimento de certos vocábulos ou palavras. 19) a "sentença-tipo" "O atual Rei de França 6 sSlio" pode ser proferida com referência em 178 e sem referência no peIfodo oontemporAneo. a afmnação inversa não é verdadeira. como o fonético. ou podemos ler uma sentença em latim sem saber o sentido das palavras. Con­ tudo. Podemos ilustrar um constante semelhante com os seguintes pares de expressões: "Ele disse: . mencionarei alguns pontos gerais dignos de se­ rem lembrados: (1) É óbvio que para realizar um ato fático devo realizar um ato fonéti­ co. Outro ponto que se apresenta. pode ser reproduzido (inclusive na entonação. diríamos "mandou-me que". de conformidade com uma certa gramática e na medida em que a esta se conformam. Assim. eu poderia dizer: . se o preferem.Ele perguntou se era em Oxford ou em Cambridge". isto é. Para prosseguir com esta questão por sua importância intrínseca. além da gramática e do vocabulário. . Mas o ato rético é o que relatamos no caso de asserções do tipo "Ele disse que o gato estava sobre o tapete" . Toda expressão Iingürstica. não podemos sempre usar com facilidade "disse que". caretas. seguida de "disse ela"."Ele me mandou sair" "Ele disse: . então a expressão toda ou parte dela tem que vir entre aspas. de seu proferl ­ mento concreto em um contexto determinado. ao passo que "Ele disse que o gato estava sobre o tapete" registra um ato cético. Podemos realizar um ato retico sem referinnos a algo ou a alguém e sem nomeá-lo? Em geral pa­ receria que a resposta deveria ser negativa. ou. mas há casos desconcertantes. O ato cético consiste na realização do ato de utili­ ar tais vocábulos com um certo sentido e referência mais ou menos defini­ dos. podemos repetir as observações de outra pessoa. (2) É óbvio que na defmição do ato fático duas coisas se juntam: voca­ bulário e gramática. é o da entonação. Assim não atribuúoos um nome especial à pessoa que se diz. etc. Assim. p. etc. podemos dizer "Por 'banco' quis dizer. Se a pessoa uti­ lizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes. toma-se evidente que podemos realizar um ato fáti­ co que não seja um ato cético. é importante lembrar que o mesmo "pheme" (instância do mesmo tipo) pode ser utilizado em diferentes ocasiões de profe­ rimento com diferentes sentidos ou referências.su. pois se um macaco emite um ruído que se parece com a palavra "vou" isso não consiste em um ato fático.". Compa­ re-se "disse que" com "saudou-me" e ··apresentou suas desculpas". Qual é a referência no caso da afirmativa "todos os triângulos têm três la­ dos?" Do mesmo modo. A mesma senten­ ça pode. "gato inteiramente o se" ou "os insilíosos dombos voeja­ ram". Acrescentarei mais um ponto a respeito do ato cético. bem como pode ser proferida em momentos e contextos diferentes. Aqui não importa muito a questão sobre quando um "pheme" ou um "rheme" é o mesmo que outro. "Ele disse: . embora o inverso não seja possível. contudo. L. "aconselhou-me a e assim por diante. (N. e dizemos "quando disse 'ele' estava me referindo a. do T. Assim. é essencialmente ímitável. ou murmurar repetidamente alguma frase."Ele disse que eu deveria ir ao 'ministro' mas não especi­ ficou qual ministro" . podemos falar de atos reticamente equivalentes (em certo sentido. nem a questão sobre no que consiste um único "pheme" ou " rheme". além de nosso interesse imediato. com exceção talvez de nomes próprios stricto ~n. Assim. ou entre aspas precedida de "ele disse" ou.

Expliquei a realização de um ato nesse novo sentido como sendo a rea· lização de um ato " ilocucionário". Para deter­ minar que este ato ilocucionário é realizado dessa forma temos que detenni­ nar de que maneira estamos usando a locução. isto é. e não sem confusão. e que as palavras utilizadas têm de ser até certo ponto "explicadas" pelo "contexto" em que devem estar ou em que foram realmente faladas numa troca lingüística. tocar no problema de seu uso no sentido do ato ilocucioruírio.pronunciando uma sentença. .fazendo uma identificação ou descrição e muitos outros casos semelhantes. no sentido do ato locucionário. . que muitos hoje não levam a sério.. pergunta. Admitimos que podemos usar "signifi­ cado" também com referência à força ilocucionária . em geral. Mas "uso".) Não há nada de misterioso aqui a respeito do nosso eo ipso. ou garantia ou advertência. e faz uma grande diferença para o nosso ato em certo sentido . seria perfeitamente possível. etc. ou até normalmente.perguntando ou respondendo a uma pergunta. ou s deveria ter sido tomada como uma estimativa. o "rheme" é uma unidade da fala. Estas questões penetram um pouco. Mas. . p.a maneira e o sentido em que estávamos "usando" a fala nessa ocasião.pois "uso" é uma palavra incuravelmente ambígua e demasiado ampla. com re­ lação ao proferimento "Vai atacar". ou de outras pessoas. Vou referir-me à dOll­ trina dos diferentes tipos de função da linguagem que aqui nos interessam como sendo a doutrina das "forças ilocucionárias" . como me proponho denominá-lo. pensamentos. produzirá certos efeitos ou conse­ qüências sobre os sentimentos. Podemos esclarecer totalmente qual foi o "uso de uma sentença" em determinada ocasião. em todos os sentidos até agora men­ cionados. não está em posição muito melhor. contudo. etc. . realizar um ato ilocucioruírio. ou de quem está falando. mas pode não estar claro se se trata de uma declaração ou de uma advertência. Dizer algo freqüentemente. . talvez ainda nos inclinemos demasiado pelas explicações em ter­ mos do "significado das palavras" . Pode estar perfeita­ mente claro o que quero dizer com "Vai atacar" ou "Feche a porta" . mas as disc utimos constantemente. ordenando. sem. há alguns anos começamos a perceber cada vez com mais clareza que a ocasião de um proferimento tem enorme importância.dando alguma informação. Antes de elaborar mais essa noção de ato ilocucionário. a realização de um ato ao dizer nJ· go. Por exemplo. que a suplantou. etc. no terreno 1 Ver I/lfra. contrastemos tanto o ato locucionário quanto o ato ilocucionário com um terceiro tipo d ato. 105. Há um outro sentido (C) em que realizar um ato locucionário. É bem verdade que estamos agora superando tal coo· fusão.marcando um compromisso.. no sentido em que significado equivale a sentido e referência. utilizamos a fala. Quando realiza­ mos um ato locucionário. L. Embora tais assuntos sejam de grande interesse. Além do mais. pode ser também realizar um ato de outro tipo. em oposição à realização de um ato de dizer algo. etc."Suas palavras tiveram o significado de uma ordem" . Contudo. Sua deficiência característica é ser impreciso. eo ipso. considerunoo se certas palavras (uma certa locução) tinha a força de uma. ou. tratando todos os problemas como problemas de "uso locucioná­ rio". O problema reside realmente no número de diferentes sentidos de uma expressão tão vaga quanto "a maneira pela qual estamos usando . Pode-se dizer que por demasiado tempo os ftlósofos negligenciaram este estudo. Mas de que maneira a estamos usando precisamente nesta ocasião? Porque há inúmeras funções ou maneiras de utilizarmos a fala. Sua deficiência característica é carecer de sentido. assim como se tornou essencial distinguir entre sentido e referência dentro de significado. (Não estou de forma alguma sugerindo que esta seja uma classe nitidamente definida. ou seja: . assim como a palavra "significado". da gramática (ver acima). fazendo um apelo ou uma crítica.sentido (B)l . " Isto pode referir-se até ao ato locucionário. temos aqui uma ilustração dos diferentes usos da ex­ pressão "usos da linguagem" . ou ações dos ouvintes.anunciando um veredito ou uma intenção. Ausrin . Mas quero distinguir força de significado. vago ou obscuro. na realidade. . Podemos dizer que realizar um ato locucionário é. se estávamos es­ tritamente prometendo ou apenas anunciando uma vaga intenção. ou "uso de uma sentença".o "phemc" é uma unidade da linguagem. e assim um ato ilocucionário. e também que a "falácia descritiva" mencionada na Conferência I g ralmente surge do erro de confundir um problema do primeiro tipo com um problema do segundo. esclarecer devidamente "o que estáva­ mos dizendo" ao emitir o proferimento. não esclarecem no momento o nosso problema de contrapor proferimentos performativos a pro­ ferimentos constatativos. e contudo não haver absolutamente aclarado se ao emitir o profe­ rimento eu estava ou não realizando o ato de advertir. e assim por diante. etc. Faz uma grande diferença saber se estávamos advertindo ou simplesmente sugerindo. E isso pode ser feito com o propóQuando dizer é fazer _ 8 88 J. ou mesmo aos atos perlocucionários que mencionaremos mais adiante.

. Façwnos alguns cornenb'­ rios gerais sobre estas três classes. Há uma ten­ dência constante em filosofia a se omitir este tipo de ato em favor de um ou­ tro dos outros dois. Ele me irritou. Contudo. me refreou. incitar. da mesma foona. "Você não pode fazer isso". Austill Quando dizer 6 fazer 91 . intenção ou objetivo de produzir tais efeitos. pensando nisso. Ato (B) ou Ilocução Ele me instigou (ou aconselhou. meramente oblíqua (C. então... Chamaremos a realização de um ato deste tipo de realização de um ato per­ locuc. como quando dizemos "ao dizer p estava brincando" ou "desempenhando um pa­ pel" ou " fazendo poesia" . (2) Para ir mais além. Por enquanto não definiremos a idéia com maior cuidado . Verso do poema "Song". convencional. que não incluem efeitos convencionais. Por exemplo. que o falante realizou um ato que pode ser des­ crito fazendo-se referencia. Exemplo 2: Ato (A) ou Locução Ele me disse. não serão todos os proferimentoa performati vos?') . esclareçamos de uma vez por todas que a expres­ são "uso da linguagem" pode cobrir outros assuntos até mais diversos do que atos ilocucionários e perlocucionários. portanto.. Há usos 2 (Neste ponto aparece no manuscrito uma nota feita em 1958 que diz: (1) Tudo isto nAo está claro (2) e em todos os sentidos relevantes (A) e (B) como distintos de (C).o ou perlocução. Ato (C. Ato (C. podemos dizer " Argumento que" ou "Advirto-o de que" .a) ou Perlocução Ele me conteve. e o que consideramos como conseqüências meramente convencionais. por exemplo. De qualquer modo voltaremos a este assunto mais adiante. podem ser perfeitamente claros o significado e a força do meu proferimento. pelo menos. " do ato ilocucionário "ele argumentou que . é distinto de ambos os outros. Ou.b) Ele me impediu. e podemos usar "ao" de um modo diferente do "ao" ilocucionário. do poeta Ingles John Donne(1 572-1 63 1). Os primeiros três pontos serão novamente sobre "o uso da linguagem". Em tal caso podemos di­ . no sentido de ser possível. podemos falar do " uso da linguagem" para alguma coisa. Agora notamos que falar do "uso" da linguagem pode. mas pode haver dúvidas acerca de qual desses outros tipos de coisas eu possa estar fazendo. podemos tornar to­ talmente claro o fato de estar alguém argumentando ou não sem tocar na questão de a pessoa estar ou não convencendo alguém. o primeiro tipo de "uso" pode ser con­ siderado.. explicitá-lo pela fórmula performativa. mas não podemos dizer "Eu con­ venço você que" ou "Eu alanno você que" .onár. " e do ato perlocucioná­ rio "ele me convenceu que .e r.) atirar nela. como.a) ou Perlocução Ele me persuadiu a atirar nela. Ato (C. uma vez que há nítida diferença entre o que sentimos ser a produção real de efeitos reais. Assim. Ato (B) ou Ilocução Ele protestou contra meu ato." Vá pegar uma estrela cadente"*.) 90 J. deixando-as ainda um tanto esquemáticas. o ilocucionário e o perlocucionári02. do T . ordenou.mas nos limitaremos apenas a dar exemplos: Exemplo I : Ato (A) ou Locução Ele me disse "Atire nela!" querendo dizer com "atire" atirar e referin­ do-se a ela por "nela". Veremos que os efeitos conseqüentes das perlocuções são realmente re­ sultados. Distinguimos. (1) Nosso interesse nestas conferencias consiste essencialmente em ater-nos ao ato ilocucionário e contrastá-lo com os outros dois. Por exem­ plo. L.. (N. ou mesmo sem fazer referência alguma (C.a). etc. sem maior precisão e para efeito de contraste.portanto vamos diferenciá-los mais cuida. Da mesma maneira podemos distinguir o ato locucionário " ele disse que . também. três tipos de atos 0 1 cucionário. o fato de a pessoa que fala ficar comprometida a cumprir sua promessa (isso corresponde ao ato ilocucionário). Tais referências ao " uso da linguagem" nada têm a ver com o ato ilocucionário.) a atirar nela. podemos falar de "um uso poético da linguagem" distinto do "uso da linguagem na poesia".b) Ele me obrigou a (forçou-me a. dosamente dentro de instantes. ". fez-me ver a realidade. por exemplo. de foona esquemática.. Ato (C.ainda que o ne­ cessite . Falar do "uso da 'linguagem' para argumen­ tar ou advertir" parece o mesmo que falar do uso da 'linguagem' para per­ suadir. alannar". etc. obscurecer a distinção entre o ato lio­ cucionário e o perlocucionário . Talvez seja necessário marcar as distin­ ções. para piadas. No entanto. ao passo que tal coisa não ocorre com o segundo. Já vimos como expressões "significado" e "uso da sentença" podem obscurecer a distinção entre atos locucionários e ilocucionários.b) à realização do ato locucionário ou ilocucionário. tais como.sito. Além disso.. se digo: . etc.

Por exemplo. como Walt Whitman* não incita realmente a águia da liberdade a alçar vôo.. " por haver feito x consegui fazer y" . (6) Além disso. (3) Além do mais. como num ato ilocucionário. contudo.Disparou o rev6lver. que a noção do que seja um ato não é cla . " Esta razão de chamar C de ato perlocucionário. (a) O ato ilocucionário e até mesmo o ato locucionário podem estar li­ gados a convenções. em princípio. podem ser coisas que de fato não flZemos. O fato de podennos incluir no próprio ato uma gama indefInidamente extensa do que se poderiam chamar "conseqüências" do ato é. como o dar a enten=­ der. (N. ou pode estar ausente qualquer intenção de levar a cabo um ato perlocucionário típico. podemos responder qualquer uma destas coisas: . em nenhuma dessas classes esquematicamente defInidas. isto é. (7) Finalmente.. Podemos revelar emoção ao emitir o proferimento ou porque o emitimos. Semp introduzimos nesse caso uma gama maior ou menor de "conseqüências". é claro. (4) Já que os atos destes três tipos consistem na realização de ações. (b) O ato perlocucionário pode incluir o que. Mas de qual­ quer modo. Se em casos como estes mencionamos tanto um ato B (ilocução) como um ato C (perlocução) diremos que "por haver feito B ele fez C. Assim. em vez de di­ zer que ao fazer B. al­ gumas das quais podem ser "não intencionais"."parasitários" da linguagem. podem haver algumas coisas que "fazemos" em al­ guma conexão com o dizer algo que não parecem se encaixar.. a distinção entre tentar e conseguir. um ponto pacífico fundamental da teoria da nossa linguagem acerca de toda a "ação" em geral. pois insinuar. e que se distin­ gue das convenções e das conseqüências.. ou que. Para enfrentar a complicação (I) invocamos. in­ sinuar.Apertou o dedo que estava sobre o gatilho" . Compare-se a diferença que há entre dar um pontapé numa parede e dar um pontapé numa bola para fazer um gol. então.utilizando-nos de uma doutrina geral da ação. que o gat. pelo menos intuitivamente. Temos a idéia de que um "ato" é uma coisa física de forma deflnida que realizamos. qualquer tentativa de fazer com que o interlocutor faça algo. Consideremos o caso de render homenagem. lançou-se sobre o porco e conseguiu que este se atirasse por sobre a cerca."Ao fazer x estava fazendo y" (no sentido de que como conseqüência de haver feito x pude fazer y). para aludir apenas ao ato físico mínimo.. Mas aqui também não cabem as fórmulas perfonnativas. ". Por exemplo. é necessário levar em conta os males que podem afetar toda e qualquer ação. Assim. Na próxima conferência voltaremos a nos ocupar da distinção entrl nossos três tipos de atos e das expressões "ao fazer x estou fazendo y" . que n110 süo " tomados a sério". É hom nagem porque é convencional e é prestada apenas porque é convencional. como já o flzemos.) como "'não intencionalmente" e outros). ou " não cons­ tituem seu uso nonnal pleno" . o efeito ocorre. como último recurso. deve­ mos distinguir entre prevenir e tentar prevenir. parecem pertencer vagamente a mais de uma delas. contudo. poderíamos dizer. Mas. Devemos notar que o ato ilocu­ cionário é um ato convencional: um ato realizado em confonnidade com uma convenção. para enfrentar a complicação (m invocamos os re­ cursos lingüísticos normais para negar nossa responsabilidade (advérbios . Devemos estar preparados sistematicamente para distinguir entre "o ato de fazer x"."Matou o burro. Austin . e entre (I) quando a pessoa que fala tenciona causar um efeito que pode. não vemos que as coisas estejam tão distantes de nossos três atos como o estão contar piadas e fazer poesia. (5) Já que nossos atos são atos. Poderíamos dizer que usamos o in­ sulto para dar vazão a nossos sentimentos. A expressão "um ato" não está usada. Aqui cabe estar preparado para encontrar infelicidades. se nos perguntam: . e "o ato de tentar fazer x" . do T. mais parece um efeito conseguido com habilidade do que um simples ato. são con­ seqüências. Poeta americano do século passado (1819-1892). de certo modo. como quando insinuo algo ao emitir um proferimento ou porque o emito. com o prop6sito de obter maior clareza Quando dizer é fazer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 92 J. para encurtar a hist6ria infantil dos esforços da velha que queria levar o porco para casa a tempo de preparar o jantar de seu marido. como quando dizemos : . ou deveria ser. no sentido em que os realizamos à força ou de algum outro modo semelhante. como quando insul­ tamos. devemos admitir. de modo algum. como tais. temos que enfrentar a objeção a nossos atos ilocucion"­ rios e perlocucionários . No item (2) já aludimos a outros casos em que podemos não haver plenamente realizado a ação. nem para os outros recursos dos atos ilocucionários.a saber. Os próximos três pontos surgem principalmente devido ao fato de nos­ sos atos serem atos."O que fez ele?". que nossos atos. parece supor algum tipo de convenção. L.Pu­ xou o gatilho. e todas as res­ postas poderiam estar corretas. Mas não podemos dizer "Eu insinuo . . . . Podem estar suspensas as condições nonnais de referência. dlsponIvcÍB para uso indjviduul ~m todos os casos de realização de ações. realizar x. para distingui-lo de um ato ilocucionário. sempre temos que nos lembrar da dis­ tinção entre produzir efeitos ou conseqüências que são intencionais ou não intencionais. Outro exemplo é o demonstrar ou exteriorizar emoções. não ocorrer e (lI) quando a pessoa que fala não tenciona causar um efeito ou tenciona deixar de causá-lo e.

naturalmente. a grosso modo. os quais produzimos porque dizemos algo. surpreender ou confundir. I X Conferência Distincão entre atos -' i1ocucionários e perlocucionários Quando sugerimos empreender a tarefa de fazer uma lista de verbos performativos explícitos. L. a proferir determinada sentença com detenni­ nado sentido e referência. um ato locucionário abran­ ge a realização de muitas coisas de uma vez. por sua vez. Em primeiro lugar. distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao dizer algo. assim também pode ocorrer com os atos ilocucionários e perlocucionários.. para ser completo. equivale. que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucionário. ou que ao dizer algo estamos fazendo algo.em relação às três classes e aos casos que são ou não membros delas. portanto. Em segundo lugar dissemos que também realizamos atos ilocucionários tais como informar. ou pelo menos puramente per­ formativo. há outras tam­ bém). um ato intencional de um não-in­ QUMdod~r6f~r 94 J. a grosso modo. às dificuldades e reservas costumeiras que consistem em dIstin­ guir uma tentativa de um ato consumado. voltar às questões fundamentais para considerar em quantos sentidos se pode afrrmar que dizer algo é fazer algo. o que. mesmo. Todas essas três classes de "ações" estão sujeitas. Austin __________________________________________ s . senão mais até. simplesmente por serem ações. impedir ou. da frase "o uso de uma sentença" ou "o uso da linguagem" (e. comprometer-se. ou mesmo que por dizer fazemos algo. ordenar. O que equivale. avisar. prevenir. Em terceiro lugar também podemos realizar atos perlocucionários. Aqui temos três sentidos ou dimensões diferentes. persuadir. Vere­ mos que do mesmo modo que. tais como con­ vencer. encontramos algumas dificuldades para detenninar se um proferimento era ou não performativo. Pareceu conveniente. "significado" no sentido tradicional do termo. isto é. etc. pro ferimentos que têm uma certa força (convencional).

Iizcr ui go. mas na ocasião oportuna. Austin _______________________________________ Q U M d o d t t e r é f ~ e r . Pois com as ações físicas nós quase designamos a ação não em termos do que estamos chamando aqui d sico mínimo.b)l que eu faça algo simplesmente ao me dar uma informação. L. lago insinua a Othello a infidelidade de Desdêmona (ato m. ronlmonle.. se a ação não consiste em c. Não apenas deixamos de lado a noção de ato físico mínjmo (que eO' do o caso é duvidosa).a) de que uma mulher é adúltera ao perguntar-me se não era seu o lenço encontrado no dormitório de X2 . como também não temos qualquer tipo de designa para distinguir atos físicos de conseqüências. quando dl:rom "apertei o dedo". mas em termos que abrangem uma gama indefInidamente ex. Nl\o quero dizer que o meu "apertar O dedO" 10111 metafislcamento an6. ainda quando se trate de uma ação física nima. efeitos conseqüentes sobre a ação. também. quo é suo cOI\8eqO/lncln. que a realização de uma ação qualquer (in­ cluindo o pro ferimento de um performativo) tem em geral como conseqüência nos tomar e aos outros conscientes dos fatos. ou o fIz parar" . temos uma qucstüo complicada. o vocabulário de nomes para os atos (B) parece expressn~ mente destinado a marcar uma ruptura num determinado ponto entre O ato (de dizer algo) e suas conseqüências (que geralmente não são o dizer algo) ou pelo menos não o são na grande maioria dos casos4 • (2) Além do mais. Assim posso ser capaz de mover as orelhas. podemos ou. Ao passo que. um sentido novo a "apertei". tensa do que se poderia chamar de conseqüências naturais (ou. do T. * Referência à maneira pela qual. "fazemos uma ação". ou aÍtrmando ser dele o lenço. Devemos distinguir o ato ilocucionário do ato perlocucionário. Fazer um ato qualquer de maneira perceptível ou descritrvel também é nos dar e aos outros. vendo a cois de outro ângulo. nem 110 "Olovlmont 96 J. E isso se aplica até mesmo a (C. Depois dissemos que tínhamos que conside­ rar essas três classes de atos em maior detalhe. ou quase todos. que resultará na morte do burro). que acionará um gatilho. de algum.logo 80 "movimento do gatilho". a intenção com que o gesto foi feito). ou surpreendi. podem ser realizados em circuns­ tâncias sufic ientemente especiais. com os atos em que se diz algo. e em particular ao emitir um pro ferimento constatativo direto (se é que existe tal coisa). in pari materiaS com pelo menos muitas das suas 3 fi. ao emiti-lo. ou mover os pés naturalmente ou com n UJUdA ti mllos. ou tomã-las entre o polegar e o indicador. 11 . de nosso oç real no mínimo sentido físico suposto. sobre as conseqüências reais do ato que eu havia pretendi­ do realizar. Se atiro um tomate durante uma reunião polftica (ou grito " Protesto" se outra pessoa o faz . não é mais surpreendente do que o fato inverso. pelo menos quando fa­ zemos esta distinção em relação ao constatativo.) 1 2 Temos. A NECESSIDADE DE DISTINGUIR "CONSEQÜÊNCIAS" O que parece criar maiores difIculdades é a distinção entre ilocuções e perlocuções.a) porque alguém pode conven­ cer-me (C. cena 3). impedir (C. para confundir). ao se emitir qualquer proferimento. que se revelará como sendo n rcaJi1u ção de um ou mais movimentos com partes do nosso corpo (por exemplo d brar um dedo. que separar bem a ação que fazemos (no coso um ilocução) de sua conseqüência. que podem ser inferidos do fato de havermos realizado o ato. Os orro. É certo que o sentido perlocucionário de "fazer uma ação" tem de ser excluído. como irrelevante. Como já vimos. a produção de qualquer nú­ mero de efeitos ou conseqüências não impedirá que um pro ferimento constatativo seja verdadeiro ou falso. que estejamos tentando separar de suas conseqüências. nos PrincipÜl ethica de Moore. muito que dizer a esse respeito que não necessita ocllpor-llO~ agora. Nilo devemos prosseguir para chegnr a "contra( os mdsculos" e ooisns seOlelhunlOI. portanto. ou o que seja. no Othello de Shakespeare. ou que possivelmente poderia ser incluído na designoçno dada ao "nosso ato ele próprio"3 como realmente apenas conseqüências. por exemplo. mas trata-se de uma ação "física" não convencional. por exemplo. para a interpretação do sentido em que um pro ferimento é performativo se. e só tocaremos de passagem na distinção entre ilocuções e locuções. modo. o fato do objeto que se moveu ser par1e do meu corpo n1l0 introduz. nosso caráter. b) de conhecer muitos outros fatos acerca de nossos motivos. Você pode. 5 Este irl pari materla pode ser motivo de confusllo. E assim. muns sobre tal assunto se encontram. a oportunidade: a) de saber o que fizemos. * Ver p. por etapas sucessivas. O uso comum de "apertar" em tais exemplos como "apertol (l dedo" é dltimo. (N. ou seja. como quando estão dormentes.. Em geral. além disso.. como um garoto do clIColn O faz. Que o fato de dar uma informação direta produz. devemos distinguir entre "ao dizer tal coisa eu o estava prevenin­ do" e "por dizer tal coisa eu o convenci. quase sempre. Por exemplo. geralmente. No caso destas últimas.­ Não me ocuparei aqui do problema de até onde podem estender-se as conseqilêocins. talvez.supondo que isso seja realizar uma ação) isso terá provavelmente como conseqüência que os outros percebam que protesto e que tenho determinadas convicções polfti­ caso Mas não tomará verdadeiro ou falso o ato de atirar o tomate ou de gritar (ainda que possam ter sido fei tos. naturalmente. preferimos pensar que po demos. com ou sem o propósito de produzir os efeitos que chamamos de perlocucioná­ rios. talvez inadvertidamente. mesmo deliberadamente. r>0 mais próximas ou por mais passíveis de serem antecipadas. parecemos receber alguma ajuda proveniente dn natureza especial dos atos de dizer algo em contraste com ações ffsicQll muns. 105 para entender importância de tais referências. e é sobre esse ponto que nos deteremos agora. Porque é óbvio que todos os atos perlocucionários. distinguir cada vez mais o que inicialtncn t estava incluído. e. Mas pelo menos no caso de atos em que se diz algo: (1) A nomenclatura nos presta uma ajuda que geralmente não mos no caso das ações "físicas". está.tencional. e coisas semelhantes. por ser um movimento corporal. 4 Note-se que se supomos que o ato ffsico m{nirno seja um movimento do corpo.

podem haver dúvidas ainda a respeito de Co mO $C (lCv descrevê-lo na terminologia das ilocuçóes.a). nem 1l1CS mo os atos " fáticos" (Ab) e "céticos" (A. O que introduzimos pelo uso da nomenclatura de ilocução é uma referência. Até agora argumentei que podemos ter esperança de isolar o ato ilocu­ cionmo do ato perlocucionário. Oll de outro tipo. no entanto.l e S UHSco r) seqüências. E dizer certas palavras é neces­ sariamente. por exemplo. Udo. etc. em si mesmo. na medida em que este produz conseqi. Austin Quando dizer é fazer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ . quer seja por parte de quem falou primeiro..c). afinal. contudo. sobre se essas palavras representaram um(\ Mdel11. (O que quis dizer quem em itiu o pro ferimento? A que pessoa. que para realizar um ato ilocu­ cionário é necessário realizar um ato locucionário. Até mesmo a idéia de que o que é introduzido pela nomenclatura de ilocuções seja uma referência adicional a algumas das conseqüências das locuções9 . dizendo que o sentido em que o di­ zer algo produz efeitos sobre outras pessoas. e sim umu referência às convenções de força ilocucionária relacionadas com as cunstâncias especiais da ocasião em que o proferimento é emitido. No que diz respeito a isso. ê talvez tão comum quanto o fracasso. é convencionol o sujolto hllllCossldndo li ter uma interpretaç!lo oferecida por "jufzos". quer por parte dos outros6 . Ole. da ex­ pulsão do ar.ênica {ísica. até chegar ao ato (Aa). é claro.há alguma vinculação. do que de ser descrito como um ato locucionário (A) mol e ou monos tiO­ I1nido. L. Podem aparecer dificuldades a respeito de convenções e intenções no momcnto do dooldlr 80­ bre a descrição correta tanto de uma locução quanto de uma ilocuçllo. isto é. que agrade­ cer é necessariamente dizer certas palavras. ou menos definido de ilocuçáo. 7 Será mesmo? Já notamos que a "produção de ruídos" é em si mesma realmente uma conseqüência de um ato ffsico minimo de mover os 6rgãos vocais. deliberada ou não. intenclonodo ou n!\oj aLI esolarecer "como devem ser tomadas as nossas palavras" (em sentido i1ocuclondrio). UOo deveríamos regredjr até a ação fís ica núnima por via da cadeia <. e. por exemplo. acima sugerida. uma "conseqüência" do ato locucionário. devo assinalar que o ato ilocucionário. com os órgãos vocais 8 . que é a emissão de ruídos. não teremos de continuar nosso procedi­ mento regressivo e deixar para trás a ilocução até chegar à locução. devemos evitar a idéia. no entanto. entre a fmalização do ato ilocucionário e todas as conseqüências pos­ teriores a ele. está relacionado com a produção de efeitos em certos senti­ dos: 1u Ainda podemos nos sentir tentados a atribuir certa primazia h locução. Mas a esta altura cabe perguntar se as conseqüências que introduzimos com a nomenclatura de perlocuções não são em realidade conseqüências dos atos (A). "apertar o dedo que es~ no gatilho" es~ in pari materia com "o movimento do gatilho" • Ou podemos colocar a questão de outra maneira mais importante. veja infra. De fato é muito mais diflcil evitar desacordos quanlo 11 dcscrlçllo do "010 locucionários". pelo menos em parte. ou talvez tenha sido feito com a intenção de ter. ou causa algo. que não ocorre no caso das ações físicas. deve ser também evi­ tada. e. um conselho ou uma advertência.. Por outro lado. Do mesmo modo a eOlissÍlo de palavras com determinado significado não é uma conseqü.c) 1111 nomen clatura das locuções. fenô­ meno que se vincula à classe especial de nomes para as ilocuções. por alguma razão e em algum sen­ do gatilho pelo meu dedo". não pare­ ce impedir-nos de delimitarmos nossos propósitos atuais onde o desejamos. De modo que temos aqui uma espécie de ruptura natural da cadeia. In· do o aparato dos performativos explicitos (vide acima) serve para evitar desacordos quonto h tleACd· ç\io de atos ilocucionários. afinal. Portanto. muito 11'\ nos conseqüências físicas . Mas (1) embora isso possa ser relevante em algumas conexões e contextos. Tem que operar através das con­ venções da linguagem e é uma questão de influência exercida por uma pessoa sobre a outra. sem t1lt Vo ' da. na verdade. fazer certos movimentos. Este é ~ovavelmente o sentido original de causa. to mpo. física ou de outro tipo. podemos fl ll1d l\ não estar de acordo. em " voltar para rrá~" u purtir da HOCIlÇ[IO até o mo fonético (A . freqüentemente podemos estar de acordo que o ato foi. nas circunstâncias dadas. uma ordem.l~n cias e o outro não é. em nossa tentativa de separar "todas" as conseqüências. o divórcio entre ações "físicas" e atos de dizer algo não é de todo completo . há igualmente ampla posslblllilflllo li discordância nos casos individuais em relação a como deve ser descrito o ato rético (A . difíceis de des­ crever. que consiste num movimento físic0 7 • Admitimos. S Ver infra. na realidade. referia realmente?) E. dado certo ato rético individual (A. é um sentido fundamentalmente distinto de "causa" daquele que é usado na causação ffsica por pressão. Cnda um desses tipos de ntos. 98 J. A lém d18llO. mas a emissão de uma palavra nlio é uma consc(/üe"citl. Mas. A ambigilidndc do slgnl Oont!o ou de referência. Ainda que tivéssemos que insistir. isto é. estas não são nonnalmente outros atos de dizer algo. em relaçllo 1I11OC\I~ft ver que. quaisquer que sejam as conseqüências naturais e imediatas de um ato de dizer algo.c) são conseqüências. o que é muito mais importante. Lo ocuparemos dos sentidos em que a realização consumada ou bem-su de um ato ilocucionário produz realmente "conseqüências" ou "efeitos" em certos sentidos 10. das locuções? Devemos perguntar se. não às conseqüências du locução (pelo menos não no sentido ordinário de conseqüência). cuçllo). da emissão de palavras. E além do mais (m. ~ plausivel supor que o ato não é menos "suscetível" de ser descrito como um tipo moi. No entanto. dos atos fonéticos (Aa). rotulamos um de A e outro de Fl ? PodO· mos estar de acordo quanto 115 palavras realmente emitidas e também quanto a quols os sentido. Por que. que dizer "ele me instigou a" é dizer que ele disse certas pala­ vras e além disso o fato dele as haver dito teve. podemos não saber com certeza o que foi ordolllldo (lo. e. 8 Por razões de simplicidade nos atemos 115 expressões orais. isto é. contudo. de que o ato ilocu­ cionário seja uma conseqüência do ato locucionário. ÚIlUI nrneaça. distintamente do alo perlocucionário. 9 Contudo. 11m que foram usadas e quais as realidades a que se fez referência com elas. Agora. da emissão de um ruído.conseqüências naturrus e imediatas. A emissão de sons pode ser uma conseqüência (física) do movimento dos órgãos vocilis. da maneira como supostamente o fudumos partindo du Inorte tio burro até chegar ao movimento do dedo sobre o gatilho. ainda que não verbalizada. determinadas conseqüências? (um certo efeito sobre mim). etc.

Por outro lado. convencer. Assim. ordenar. que é característico do ato pedocucionário. Isso é diferente de di­ zer que o ato ilocucionário consiste na realização de um determinado efeito.Ausrin Temos que di/lljnguir us açõcs que polJSUCllI utn objelo pcrlocudon:íriu (convencer. pode ser uma seqüela de uma ato perlocucionário que alannu ui· guém. não pode haver um ato ilocucionário a men que os meios utilizados sejam convencionais. " atra­ vés de tais palavras. ou a seqüela le­ vada adiante. (2) O ato ilocucionário "tem efeito" de certas maneiras. Não se pode dizer que preveni um audit6rio a menos que este escute o que eu diga e tome o que digo num determinado sentido.. protestar ou pedir desculpas por meios não verbais e estes sft atos ilocucionários. mudanças no curso normal dos acontecimentos. e por outro lado oferecer. Mas se o previno agitand um pedaço de pau. podemos fazer certos gestos ou atirar um tomatl como sinal de protesto. a snbcr: aqueles atos que carecem de f6nnula ilocucionária.. (3) Dissemos. isto é. fazer-se obedecer e fazer-se acreditar. um ato ilocucionário distinto do mero ato de ordenar. perguntar a alguém se deseja algo. prome­ ter. ou não são para esses no". s6 isso não basta para distinguir os atos ilocucionários.. Assim.. feito isso. serão sem cabimento. ordenar. o que se dis­ tingue de produzir conseqüências no sentido de provocar estados de coisas de maneira "nonnal". Assim. 100 J. persuadjr) daquelas que simplcslncntc produl:cm uIrul scqüclu perlocucionária. ou perturbar ou humilhar alguém por meio de uma locução.. e portanto os mejos para al­ cançar os fIns de um ato desse tipo em fonna não verbal têm de ser conven· cionais. freqüentemente o uso de uma influência pessoal chegando à coação. Assim.(I) A menos que se obtenha detenninado efeito. prevenir. se pode intimidar alguém agitando-se um pedaço de pau ou apontando-lhe uma arma de fogo. isto é. mais do que objetos. inclusive. que pode ter uma ou duas dire­ ções. Isto é uma forma de atribuir o ato a mim e. meios tais como recursos persuasivos e. podemos distinguir. Surgem dificuldades semelhantes com relul Quando dizer éfazor 101 . Não há dúvidas de que podemos conseguir algumas seqüelas de atos pcrJo­ cucionários por meios inteiramente não convencionais. por exemplo. "Batizo este navio com o nome de Queen Elizabeth" tem o efeitó de batizar ou dar nome ao barco. Assim. mas 1)6 conílcgul alanná-lo". sugerir e pedir.L. Há até mesmo. di signai. ". Estritamente falando. E é lugar comum da linguagem com que se ex­ pressam as conseqüências que isso não pode ser incluído na parte inicial da ação. então o agitar o pedaço de pau é um aviso: o outro sab ria muito bem o que eu queria dizer com o que fazia. o objeto perlocucionário de prevenir. ". Assim. Assim. e com freqüência. A implicação geral da segunda expressão é que se utilizaram outros meios adicionais para produzir essa conseqüência como atribuível a mim. tais corrio referir-se ao barco como Generalíssimo Stalin. posso persuadir alguém balançando suavemente uma vara comprida ou gentilmente mencionando que seus velhos pais ainda estão no Terccirl Reich. Assim. Essas três maneiras são todas elas distintas do fato de produzir efeitos.da ti uma ilocução. alcrlor alguém. embora n existam as f6rmulas ilocucionárias "Surpreendo-te por. Mas é difícil dizer onde começam e onde terminam as convençõc~. podemos dizer: "Tentei preveni-lo. De modo que temos aqui três maneiras pelas quais os atos ilocucioná­ rios estão ligados a efeitos. dem sempre obter suas respostas ou seqüelas por meios não convencionais. a realização de um ato ilocucioná­ rio envolve assegurar sua apreensão. Contudo. poderia parecer um inequívoco gesto de ameaça. e perguntar "sim ou não?". se é o caso que para realizá-lo se empregam ou podem empregar-se palavras.. como quando digo "Ao afirmar X fIz com que ele fI­ zesse .. geralmente podemos sempre dizer "Fiz com que ele . o ato ilocucionário não terá sido realizado de fonna feliz e bem-sucedida.Assirn. que muitos atos ilocucionários levam. É característico dos atos perlocucionários que a resposta ou a seqUel1l que se obtém possa ser conseguida adicionalmente ou inteiramente por melo! não-locucionários. Mais importante é a questão de saber se os atos perlocucionários po. certos atos subseqüentes. temos que distinguir "Eu ordenei e ele obe­ deceu" de "Fiz com que ele me obedecesse". por meio d atos que não são de modo algum convencionais. em lugar de ser o objeto de dizer "não faças isso". a resposta pode ser obtidu de maneira não verbal. Se a resposta é concedida. dar. "Perturbo-tl por". por um lado. a uma resposta ou seqüela. trata-se de um ato perlocucionário.. isso requer um segundo ato por parte do protagonista do pri­ meiro ato ou de outra pessoa. posso surpreen­ der. ". De que maneira podemos expressar melhor isto? E como podemos deli­ mitar melhor esta noção? Em geral o efeito equivale a tornar compreensível o significado e a força da locução. Por exemplo. que alguém se sinta dissuadido pode ser a seqtl(. Mesmo nos casos de persuadir. em virtude de uma convenção. posso prevenir alguém agitando um pedaço de pau ou posso obs quiar alguém simplesmente entregando-Ihe algo. O que é objeto perlocucionário de uma i1ocução pode ser se qüela de outra. Contudo. uma vez que podemos. Um efeito sobre o au­ dit6rio tem de ser conseguido para que o ato ilocucionário seja levado a ca­ bo. argumentar. Assim. "Hunúlho-te por . AI atos perlocucionários sempre têm seqüelas.

para ser mais preciso. ter um resultado e demandar respos­ tas. X Conferên cia "Ao dizer . argumentar. formular uma apreciação ou estimativa e julgar (em sentido jurí­ dico). o fático e o rético) que tem um significado. fizemos uma nova tentativa de considerar os sentidos em que dizer algo é fazer algo.. representado por elementos como assegurar a apreensão. D. Mas. fizemos uma distinção esquemática en­ tre alcançar um objetivo e produzir uma seqüela. a algum acordo. exercitivos e compromiss6rios ver a XII Conferência (noUI do editor. e o ato perlocucionário que consiste em se obter certos efeitos pelo fato de se di­ zer algo. atos que equivalem ao ato ilocucionário de prevenir ou ao ato per­ locucionário de convencer). Deixando de lado por um momento a distinção inicial entre performati­ vos e constatativos e também o programa de encontrar uma lista de palavras performativas explícitas. Urimson). infonnar (como coisa distinta de mostrar).. "versus " p or dO Izer O • • " 11 Pura definiç1\o de judicativos. tem que ser ato convencional não-verbal. J.Ausdn . Atos ilocucionários sã atos convencionais.L. especialmente verbos. ou de votar erguendo a mão. No caso do ato perlocucionário. É válido também para a maior parte dos judicativos e expositivos co­ mo distintos de muitos exercitivos e compromiss6riosll . contudo. Na última conferência distinguimos. expositivos. Mas permanece o fato de que muitos atos ilocucionários não podem ser realizados senão dizendo-se algo. atos perlocucionários não são convencionais. especialmente três sentidos em que mesmo nos atos ilocucionários os efeitos têm um papel. embora se possam utilizar atos convencionais para produzir o at. alguns sen­ tidos de "conseqüências" e "efeitos". Assim distinguimos o ato locucionário (e dentro dele o fonético.ao ato de dar consentimento tácito. Os atos perlocucionários. em conexão com isso. Qunndo dizer é fazor 10 102 J. Isto é válido para os atos de enunciar. ou de prometer tacita­ mente. atos chama­ dos pelo mesmo nome podem ser levados a cabo de maneira não verbal (por exemplo. Atos d ambos os tipos podem ser realizados ou. por exemplo uma "advertência". para que um ato mereça nome de ilocucionário. o ato ilocucionário que tem uma certa força ao dizer algo. não são con­ vencionais. ainda assim.

Esses são tópicos adicionais que não vamos deslindar aqui. Podemos dizer "Ao dizer X estava brincando" (insinuando .são f6rmulas dignus d investigadas. de atos heterogêneos à margem da nossa classificaçuv.tiv. como vimos na questão das "conseqüências". O caso (b). por exemplo. "ao dizer que detestava os católicos. A resposta é não. As­ sim. insinuar (e outros usos não literais da lin­ guagem). Mencionamos. tais como "Ao dizer X você estava cometendo um erro" ou "dei­ xando de observar uma distinção necessária" ou "infringindo a lei " ou "cor­ rendo o risco" ou "esquecendo" . aplica-se a) a atos locucionários e b) a atos que parecem ficar completamente à margem de nos. Admitimos que ainda que possamos afrrmar "ao dizer X estava fazendo Y" . fazer Y não é necessariamente realizar um ato ilocucio­ nário. Este é o sentido de " dizer" em que esta palavra aparece seguida de urna ou mais entre aspas. ou em lugar de "ao dizer X" poderíamos dize "pela palavra X" ou "usando a palavra X" .). A pri­ meira fórmula "ao" (em inglês in) e serve para designar verbos que indicam atos ilocucionários. . falar pala­ vrões e contar vantagens (que são talvez usos expressivos da linguagem). no terreno da lingüística e no da psicologia? Para que dar tantas voltas? "E claro que estou de acordo que se tem de fazer isso. Em particular (a) usamos a mesma f6rmula 110" casos em que o verbo correspondente a Y designa a realização de uma parti incidental de um ato locucionário. permitam-me fazer uma observação geral. ou "estava pensando nos católicos romanos. expressando meus sentimentos. Examinaremos primeiro a fórmula: "Ao dizer X estava fazendo Y" (ou "Fiz Y"). apenas acho que deve ser feito depois e não antes de se verificar o que se pode extrair da linguagem comum. "Ao" e "por(que)" . do fato de que a f6rmula núo se limita a atos ilocucionários. fazer piadas (e outros usos não-sérios da linguagem) .perlocucionário. estava me referindo apenas aos católicos de nosso tempo". portanto. "dizer" pode ser substituído por "falando d. ou onde puderm Quando dizer 6 fazer IO~ . Agora temos que fazer algumas observações [mais a respeito das fór­ mulas: "Ao dizer X estava fazendo Y" ou "Fiz Y" "Por fazer X fiz Y" ou "Estava fazendo y". Outro exemplo desse tipo é: "ao dizer Said-Ali". Austin modo passariamos por alto de coisas importuntcs e irfrunos ucmllsiuuo mpi do. Também o são "quando". L. nomes que designam coisas que fazemos e que têm relação com as palavras? Para que continuar com fórmulas tais como a de "ao" e a de "por" ou "porque"? Por que não discutir de uma vez por todas essas coisas de ma­ neira direta. Foi por dispormos destas fórmulas que nos parecem particularmente adequadas que escolhemos os nomes ilocucionário e perlocucionário. Por último destacamos todo um campo de problemas a respeito de "como estamos usando a linguagem" . e até certo ponto isso é justificável. estava emitindo o som de "sai dali". ou aludindo a eles". Os leitores dirão: "Por que não terminar com esse palavrório? Por que continuar fazendo listas de nomes disponíveis numa linguagem co­ mum. Um juiz deveria ser capaz de decidir. ou melhor. Mas. De outro 104 J. que atos locucionários e que atos ilocucionários foram realizados. isto é. porém. A segunda é a fórmula "por" ou "porque" (em inglês by) e serve para identificar verbos que designam atos perlocucionários. e depois voltaremos novamente à nossa distinção inicjal entre performativo e constatativo para verificar como funciona dentro des!! novo marco de referência. mesmo que o que venha à tona seja inegável. etc. como o presente ou o pret6rito.. e em tais casos nos referimos ao ato fático. às f6rmu lu/! "ao" e "por(que)" . apresenta maior dificuldade. A import tais investigações é 6bvia em relação à pergunta genérica: "Como est cionadas entre si as diversas descrições possíveis 'daquilo que faço'?". ouvindo o que foi di­ to. O seguinte poderia ser um teste poss(vel: onel pudermos colocar o verbo correspondente ao Y num tempo em que núo apa­ reça o particípio presente. mas não que atos perlocucionários foram produzidos.II ou "usando a expressão". "enquanto" .. há outros casos (b) aparentemente hete­ rogêneos. Embora ness caso pudéssemos mais comumente usar a fórmula "falando de" ou "ao falar em" .em todo o caso . com­ pletamente distintos. problemas que são. por exemplo. uma confissão. e intuitivamente parecem ser. "o que estamos fazendo ao dizer al­ go" . não ao ato rético." Cabe perguntar se tais fórmulas lingüísticas nos fornecerão um teste para distinguir atos ilocucionários de atos perlocucionários. além destes.. sa classificação. como dissemos. Antes de ocupar-me disto. O máximo que se pode dizer é que a fórmula "por(que)" não é ade­ quada ao ato ilocucionário. Voltaremos. Podemos tentar livrar-nos de (a).cometer um erro ou correr um risco nli é certamente realizar um ato ilocucionário." "Por dizer-lhe que atiraria nele eu o alarmei. Muitos dos leitores já devem estar impa­ cientes com esta maneira de encarar os problemas. argumentando que "dizer" é ambíguo. Quan­ do o uso não é ilocucionário. (1) Seu uso não se limita aos atos ilocucionários. nem mesmo um ato 10cucion6. por exemplo: "Ao dizer que atiraria nele eu o estava ameaçando. etc.

ou "Ao dizer que ele cometeu um erro" ou "Por dizer que ele estava cometendo um erro". cu estava no processo de fazer B " (ao construir uma parede eu estava coo truindo uma casa). por exemplo. um ato de determinado tipo. assim como convencer de tratar de convencer. 1) "Enquanto fazia A. Mas se considerarmos os exemplos: (a. eu estava construindo uma parede) e (a. como por exemplo dizer que "argumen­ tar" é equivalente a "tratar de convencer". "Ah. Assim.3) Ao fazer um zumbido eu estava fingindo ser uma abelha. por outro lado. Nesse caso. L. Mas ainda nos podemos perguntar se é de todo possível usar a fórmula "ao" com o ato perlocucionário. te­ mos o uso proléptico (antecipante) de verbos tais como. por que não?" parece que o estou ten­ tando.2).. não é o mesmo dizer "Ao dizer isto eu estava protestando" e dizer "Ao dizer isso protestei".* (2) Em geral poderíamos dizer que a fórmula não funciona com verbos perlocucionários como "convenceu". Se digo " Ao fazer A eu estava fazendo B" posso querer dizer que A supõe B (ou seja. mesmo nesse caso. por exemplo. A explica B) ou que B supõe A (B explica A). Por outro lado. e deveríamos djzcr II por(que)" . No original temos "But we do nnt say" "In saying fhat I prolesled" nor "By saying lhall was prolesting" . "tentar" é um verbo que pode facilmente ser usado de uma ou de outra maneira. e há diálogos assim: "Sirva-se de mais sorvete" . a distinção entre fazer e tratar de fazer já está presente no verbo ilocucionário.2): "Ao dizer D eu estava emitindo os ruídos R". Austin . Por exemplo. Além do mais."Você está me tentando?" . prometer não é tratar de fazer coisa alguma que possa ser descrita como objeto perlocucionário. é.mudar "ao" para "por(que)" conservando ao mesmo tempo o particípio pre­ sente. contraste-se (a.. o uso de tal fórmula é • A diferença não fica muito clara em português. "sedu­ zir" ou "pacificar" . enquanto que no caso (a. as pessoas dizem: "Você está me intimidando?" em lugar de "ameaçando" e os que falam assim poderiam dizer "Ao dizer X. permitind que se o chamasse por um nome diferente. devemos esclarecer isso um pouco. Em (a. Porque. Consideremos agora o significado geral da f6rmula " Ao". e supõe outro sentido distinto do que a frase tem quando usada com os verbos ilocucionários (ist. mas temos "Deixe-me que o tente" . "persuadiu" .er" para explicar o que queríamos significar com a frase. estava fazendo B" (ao cons truir uma casa. poderíamos colocar. "Ao fazer A. em vez de "Ao dizer aquilo ele estava cometendo um erro". nem "Porque disse isso estava protestando" . Mas.2) para explicar A. No entanto. Este parece ser o uso de "ao" quando o usamos com verbos locucionários: explica o fato de haver dito o que disse (e não o seu significado) . ou que "avisar" é equivalente a "tratar de alarmar" ou de "alertar". pois o único que a poderia responder seria quem a formulou. o sentido que supõe é o de "no processo de" . Em terceiro lugar. estava esquecendo . "tratar de" parece sempre uma adição pos­ sível a um verbo perlocucionário. ou seja. muitos atos ilocucionários não são casos de tratar de fazer algum ato perlocucioná­ rio. então o verbo Y não é o nome de uma ilocução. sem mudança de sentido. Distinguimos argumentar de tratar de argu­ mentar. Isso é tentador quando o ato não se concre­ tiza de maneira intencional. Não temos a expressão "Eu o tento a" .2) explico B (meu ato de emitir os ruídos) e estabeleço assim o efeito desse ato. vemos dizer que o que a pessoa fez (fazer um zumbido).. mas com igual freqüência o usamos no caso (a. Em primeiro lugar. "dissuadiu" .I): "Ao emitir os ru(­ dos R eu estava dizendo D" com (a. O exemplo ilocucionário: Ao dizer tal coisa eu estava avisando. Se considerarmos agora o exemplo: Ao dizer. Em tod digo. mas ele pode realmente não se sentir tentado. em intenção ou (\ fato constituiu o dizer tal e tal coisa. Assim. assim como no verbo perlocucionário. Tal distinção pode ser esclare­ cida contrastando-se (a. Esta situação é inversa àquela em que usamos a fórmuJa "ao dl7. Em segundo lugar. ele estava me intimidando". Do mesmo modo: Ao fazer um zumbido estava pensando que as abelhas zumbem expUca o meu zumbido (A). Por exemplo.I) explico A (meu ato de emitir os ruídos) e expresso o propósi~o que tenho ao t:rniti-Ios. como coisa distinta de "um critério").1) em que explicamos B. provavelmente incorreto. "en­ quanto dizia". "Ao dizer X eu o estava convencendo". Quando dizer é fazer 107 106 J. Ou. a mesma palavra pode ser usada genuinamente tanto de forma ilocucionária como perlocucionária. A f6rmula usada com freqüência para explicar o fato de fazer algo em resposta à per­ gunta: "Como é que você chegou a fazer isso?" Das duas ênfases diferentes.. em primeiro lugar. há exceções que de­ rivam do uso incorreto da linguagem. n50 estou lc~ vando em conta como cheguei a dizer-lhe X. o dicionário prefere o primeiro caso (a.. "no decurso de". mas como cheguei fi conv<m­ cê-lo. B ex­ plica A. Mas não podemos dizer que o verbo ilocu­ cionário é sempre equivalente a tratar de fazer algo que pudesse ser expres­ sado por um verbo perlocucionário. Esta última pergunta seria absurda num sentido perlocucionário. Se respondo. vemos que B (esquecendo) explica como cheguei a dizer X. Ao fa­ zer um zumbido eu estava me comportando como um palhaço.

ou o método que segui no fnr. Aqui há uma convenção. como no exemplo tirado do jogo de cartas.. ). I )sa-se nlgulllu vez a fórmula " porque" nesse sentido de meios-para-fms com um verbo lIo cucionário? Pareceria que isso acontece em pelo menos dois tipos de cuso: (a) Quando adotamos um meio verbal para fazer algo.. pois podemos dizer muitas coisas com ela. mas não é conseqüência de certos meios. Por exemplo.ê-Io. como podemos observar. mas ela explica B... (b) Quando um proferimento performativo é usado como um meio indl­ reto de realizar outro ato. no exemplo: Ao dizer. Podemos dizer "Ao ex­ trair-me o molar. Mas esta fórmula não nos fornece um teste a toda prova. "porque".. o estava avisando (o avisei)". porque é apenas isso que ftzemos até agora) como nomes de atos ilocucionários parecem muit.. em (b) "porque" indica um critério. Quando a fórmula "ao dizer" se emprega com verbos perlocucionários. estava praticando a odontologia". Mas avisar e ord . el o introduziu na parede". no exemplo: "Porque disse 'Declaro ter três copas' eu informei-o de que não tinha ouros" ... freqüência que "Dizer X era fazer Y". por outro lado. em vez de fazer uso de um pedaço de pau. estava praticando odontologia. Assim. essencialmente. temos primeiro que nos assegurar: (1) que "por(que)" está sendo usado como instrumento e não no senti­ dCl de critério. Trata-se de um ato fático e n de um ato rético. b) Porque lhe extraí o molar. L. um fato). "ao dizer isso eu estava infringindo a lei (violei a lei)". Aqui "disse" é usado no sentido em que o que foi dito deve vir entre aspas.. estava convencendo . no ato fático. "como parte do ato de" (a. não é usado com 1 verbos pcdocucionários. neste sentido. Por sua vez. O em todo o CORO. a maneira pela qual.. Um juiz poderia decidir. Em (a) "porque" indica o meio pelo qual. Austin _________________________________________ . o performativo "Aceito" é um meio para o:fim. podemos dizer "porque disse .. A fórmula "por (que)" não se limita. é usar palavras. quando falamos. da mesma forma. upontll ll. que é o ca­ samento.o do critério . mas pela convenção (que é. ou a linguagem. estava dessa maneira avisando .Q u andod nc r é f~ r LOS J. 1).plica B ou vice-ver­ sa)... Este segundo sentido de "por­ que" . podemos dizer "Dizer isso foi convencê-lo" (uso proléptico ou antecipante?). é diferente tanto do caso locucionário quanto do caso ilocucionário.. ao passo que o caso do verbo locucioná­ rio explica A. ) e uma varieda­ de de usos heterogêneos (porque disse ..2) (quando A ex. Há o uso locucionário (porque disse . uso o performativo " O claro ter três copas" como um meio indireto de informá-lo (que é também um ato ilocucionário).. Estas características servem para distinguir de ma­ neira bastante satisfatória os atos ilocucionários I. já mencionado. Se digo " porque disse . " porque" tem aqui o sentido de meios-para-fins. (2) Os verbos que classifIcamos (intuitivamente. é empregada no sentido de " no processo de" . me referi . A pergunta "Como é que você chegou a fazer isso?" não se limita à questão de meios e fms.. que não é o de meios e fms. o uso ilo­ cucionário (porque disse . (estava humilhando . o que há na minha ação que permite que seja classifIcada como prática de odonto­ logia. aos verbos per­ locucionários. em vez de um meio não-verbal. no exemplo: Ao dizer A . Assim. (2) que "disse" está sendo usado (a) no sentido pleno de um ato locucionário e não em sentido parcial .parece também achar-se muito próximo de "ao" em um de seus sentidos. estava esquecendo B explicamos A.. ou o método pelo qual eu levava a cabo a ação. pois podemos dizer "Aviso­ que" e "Ordeno-Ihe que" como performativos explícitos. Assim. mas num sentido novo de "explicar". Assim. Mas é diferente dos exemplos locucionários porque o ato é constituído não pela intenção ou pelo fato. Em resumo: para usar a fórmula "por ~ue) disse" como teste de que o ato é perlocucionário. ) explicamos B (meu ato de convencer ou de humilhar alguém) que é na ver­ dade uma conseqüência. (b) e não é usado no sentido que supõe uma dupla convenção. Assim. Não é da classe (a. Já não se pode dizer "martelar o p go era introduzi-lo na parede" em lugar de "Porque martelou o prego.. Há outros dois testes lingüísticos subsidiários que servem para distjn­ guir o ato ilocucionário do perlocucionário: (1) Parece que no caso dos verbos ilocucionários se pode afirmar com Mas suponhamos o caso de um charlatão que se faz passar por dentista. Mas.. próximos dos verbos performativos explfcitos.. naturalmente. e dessa maneira "porque" pode certamente ser usado com verbos ilocucioná­ rios na fórmula "porque disse" . o convcnd (pcrsullul)". Assim. tal como no caso do aviso. me fIz de ridículo). a) Porque martelei o prego eu o estava introduzindo na parede.1) e (a. a maneira em que o fiz. Parece haver pouca diferença entre os dois casos. como. por exemplo. em geral..6 desse tipo. Os usos de "por (que)" são dois. exceto que o uso pa­ ra indicar um critério parece mais externo. embora " convencer" seja um verbo perlocucionário. . no exemplo: " Porque disse 'Aceito' eu estava me cu­ sando com ela".

pois. em oposição a sim­ plesmente dizer algo. mas não "Convenço-o que".nar sao atos ilocucíonários. certamente parece levar à conclusão qu" cada vez que "digo" algo (exceto. sem nos restringir ao simples ato de falar. ou se não se trata de nenhuma dessas coi­ sas. testes muito traiçoeiros para decidir se uma expressão é uma ilocução. contentamo-nos com a referência à!i "declarações" como caso típico ou paradigmático. e (2) nosso proferimento pode ser feliz ou infeliz (assim como. Mas. e (2) o performativo é feliz ou infeliz. qual a relação entre (1) a distinção feita nas primeiras conferências com relação aos perfonnativos e (2) esses ti­ pos diferentes de atos. como pode subsistir a nossa distinção? Começaremos por considerar novamente o contraste do ponto de vista dos proferimentos constatativos. Austin . quando emito uma simples excla­ mação como "Poxa" ou "Arre") realizo conjuntamente atos locucionárlos ilocucionários. Se geralmente estamos fazendo am bas as coisas de uma vez. então. tanto quanto o já notório "como". convencer e intimidar são atos perlocu­ cionários. Vejamos. Destes. verdadeiro ou falso)? Quando dizer é fazer 111 110 J. com a denominação de "fazer" "dizer" . a conclusão geral deve ser que tais fórmulas são. Cabe perguntar se seria correto dizer que quando declaramos algo: (1) estamos fazendo algo e ao mesmo tempo dizendo algo. mas não "Eu o intimido por". em oposição a verdadeiro ou faIs". e não uma perlocução. se o qui­ sermos. contrastamos o proferimento performativo com o constatativo dissemos que: (1) o performativo deveria consistir em fazer algo. e esses dois tipos de atos parecem ser precisamente o qu tentamos usar como meios de distinguir. na melhor das hipóteses. talvez. Havia fundamento real para tais distinções? Nossa discussão subs qüente. e podemos usar o perfonnativo "Eu o ameaço com". no início. de todo modo. qual é a relação entre performativos e esses atos ilocucio­ nários? Pareceria que quando temos um performativo explícito também te­ mos um ato ilocucionário. performativos e força i1ocucionária Quando. relativa ao fazer e ao dizer. uu X I Conferência D eclarações. "por (que)" e " ao" merecem ser estudadas com va­ gar. L. performativos de constatativos. Podemos usar o performativo "Aviso-o que". Mas. Contudo.

(2) Além do mais. A esse respeito.de advertir. nem argumentando. . como. para tomar um tipo de teste diferente. sem. d acordo com o qual os performativos são felizes ou infelizes e as declarações são verdadeiras ou falsas. seria descortesia que alguém me respondesse: "Essa declaração se re­ fere a você mesmo" . a realização de movimentos dos órgãos vocais. etc. quando o ato de declarar é verbal.I e A. que nada tem de excepcional. quanto na apreciação da declaração. laso se d~ tanto na apreciação da advertência. Ou. por exemplo. Este último poderia concebivelmente referir-se a mim. então. "declaro que" não parecer diferir de nenhum mod especial de "sustento que" (e dizer isso é sustentar que). não parece possível dizer que tal declaração difere de "Declaro que ele não o fez" a esse respeito. por exemplo. mesmo no caso em que se diz "penso que ele o fez" .2. por exemplo. declarar algo érea­ lizar um ato ilocucionário. digamos. de "confesso que".). ou em que as circunstân­ cias não são adequadas para que a pessoa que emite a expressão recorra convenção aceita. Talvez seja possível. Muitas infelicidades desse tipo infestam as declaraçõcs. . eu não estava apostando. Voltemos atrás. (b) o fato de nossa declaração ser falsa ou verdadeira. Ao dizer que isso levava ao desemprego. e consideremos se as declarações não podem ser afeta­ das exatamente pelas mesmas falhas que podem. mas nada foi feito aind nesse sentido. etc. De modo que não há necessariamente con­ flito entre: (a) o fato de ao emitirmos o proferimento estarmos fazendo algo. em­ bora não da mesma maneira.(1) Sem dúvida que. estabelec algumas diferenças "essenciais" entre tais verbos. Além do mais. Ou. uma declaração. vemos que as declaraçõcs estão sujeitas a todo tipo de infelicidade a que também estão os perfonnati. Não é formular uma declaração diferente a respeito do que "eu" declaro (exceto em casos excepcionais: o presente histórico. embora o pro ferimento "Ele não o fez" seja com fre­ qüência emitido como uma declaração. Os primeiros casos são A. contudo. Austin 11 . Isso significa que as declarações p0­ dem dar origem a infelicidade dos dois tipos. como normalmente o fazemos. também usado anteriormente. de assumir compromisso. Estava simplesmente declarando um fato. 112. L. se pensamos no segundo contraste pretendido.. Se uso simplesmente a forma primária ou não-explícita de declaração: Ele não o fez posso explicitar o que estávamos fazendo ao dizer isso. Assim a declaração est exposta à forma de infelicidade que caracteriza os atos insinceros e inclusiv à forma de infelicidade que denominamos de ruptura. quando consideramos isto. Se alguém diz "Declaro que ele não o fez". investigamos a verdade dessa declaração exatamente da mesma maneira que se a pessoa houvesse dito simpliciter "Ele não o fez". até em seus mínimos detalhes. Isto é pa­ ralelo ao sentido em que "prometo estar lá" implica que tenho a intenção d'> estar lá e que acredito que serei capaz de estar lá. UO mesmo tempo. notadamente declarações. etc. o que ocorre com as infelicidades do tipo A e do tipo B. À primeira vista. zer ou declarar que o gato está sobre o tapete me compromete a dizer ou de­ clarar "o tapete está debaixo do gato" . do mesmo modo que o performativ "defino X como Y" (no sentido. em que não existe con­ venção (ou pelo menos não uma convenção aceita). Quando dizer é fazer J. vos. Ao dizer que chovia. compare-se. de fiat). dizendo algumas dessas três (ou mais) coisas. caso em que seria indubitavelmente verdadeiro ou falso. " Aviso·o quo () touro cstn !>(II atacar". eu não estava avisando nem protestando. Ou seja. dizer "Declaro que ele não o fez" é formular a mesma declaração que "Ele não o fez ". há uma llovC!rtBncia o. Como é notório. Ou seja. É claro que não se trata de levar a cabo um ato de alguma maneira física especial. etc. no entanto. afetar as ad­ vertências. Não há dúvida de que: Declaro que ele não o fez. protestar. "Declarar" parece satisfazer todos os critérios que utilizamos para distinguir o ato ilocucionário. de maneira semelhante. me compromete a usar tais palavras de maneiras especiais no discurso futuro. o presente ha­ bitual. Consideremos a expressão seguinte. enquanto que a declaração não. é verdadeiro ou falso que o touro esteja por alacar. Mas o mesmo se pode dizer de avisar. as diversas falhas que fazem com que um proferimento seja infeli . que tor­ nam o ato . Já assinalamos o sentido em que dizer ou declarar "o gato está sobre o tapete" implica em que eu creio que o gato esteja sobre o tapete. de " infoono-lh que". está exatamente no mesmo nível que: Sugiro que ele não o fez Aposto que ele não o fez. torná-lo falso ou verdadeiro. Ora. no sentido em que denominamos essas falhas de "infelicidades".nulo e vazio? É pos­ sível que algo que parece ser uma declaração seja nulo e sem valor tal com pode ser um contrato putativo? A resposta parece ser afirmativa em um sen­ tido importante. avisar ou proclamar. exceto na medida em que pressupõe. no sentido em que di. caso em que. e se o examinamos do ponto de vista dos proferi­ mentos constatativos. é fácil perceber como isso se liga a atos do tipo de prometer. ou especificar a for­ ça ilocucionária da declaração. nem prevenindo. prometer ou designar.

Já notamos o caso de uma declaração putativa que pressupõe (como se diz) a ~xistência daquilo a que se refere. Se tal coisa não existe, "a declara­ ção" não se refere a nada. Alguns dizem que em tais circunstâncias, se, por exemplo, se afmna que o atual rei da França é careca, "não surge a questão de ser careca ou não"*. Mas é melhor dizer que a pretensa declaração é nula e sem valor, tal como quando digo que vendo algo a outra pessoa, mas o objeto não é meu ou (por haver-se queimado) já não existe mais. Os contra­ tos são com freqüência nulos porque os objetos sobre os quais versam não existem, o que envolve falta de referência (ambigüidade total). Mas é importante notar também que "declarações" estão sujeitas, além disso a tal tipo de infelicidades de outras maneiras que também são paralelas ao que pode ocorrer no caso dos contratos, promessas, advertências, etc ... Assim como dizemos, com freqüência, por exemplo, "Você não pode me dar ordens" , no sentido de "Você não tem o direito de me dar ordens" , o que equivale a dizer que o outro não se encontra em situação de fazer isso, as­ sim, também, muitas vezes, há coisas que uma pessoa não pode declarar ­ que não tem direito de declarar -, pois não está em posição de fazê-lo. X não pode declarar agora quantas pessoas há no quarto ao lado. Se X diz "há cinqüenta pessoas no quarto ao lado", só posso considerar que X está adivi­ nhando ou conjeturando. (Assim como às vezes Y não está dando ordens, o que seria concebível e que possivelmente me está fazendo um pedido de ma­ neira um tanto brusca; assim também X, de fonna um tanto anômala, está "dando um palpite".) Trata-se, nesse caso, de algo que, em outras circuns­ tâncias, X poderia estar em situação de declarar, mas o que ocorre com as declarações a respeito dos sentimentos de outra pessoa sobre o futuro? Por exemplo, um prognóstico ou uma previsão a respeito do comportamento fu­ turo de outras pessoas constitui realmente uma declaração? É importante considerar a situação lingüística como um todo. Do mesmo modo que, às vezes, não podemos fazer uma designação, mas apenas confmnar uma designação já efetuada, assim, às vezes, não po­ demos fazer uma declaração já feita. As pretensas declarações também estão expostas às infelicidades do ti­ po B,** que caracterizam as falhas e os tropeços. Suponhamos que alguém "diga algo que realmente não quis dizer" - use a palavra errada - diga "o gato está sobre o tapete" quando queria dizer "pato". Podemos mencionar outras trivialidades semelhantes; ou talvez não sejam realmente trivialidades, porque é possível discutir tais proferimentos exclusivamente em tennos de
.. Ver N. do T. da p. 36,11 Conferência.
.... Ver classificação das infelicidades na II Conferência.

significado ou sentido de referência, c, dossa Jluulciru, confundir-nos em ~. lação a eles, embora sejam realmente fáceis de se entender. Uma vez que percebemos que o que temos que examinar nliO tença, mas o ato de emitir um proferimento nwna situação lingüística, MO torna difícil ver que declarar é realizar um ato. Além do mais, se comparur­ mos o declarar com o que dissemos a respeito do ato ilocucionário vemos que é um ato que, exatamente como ocorre com outros atos ilocucionário~ , exige de maneira essencial que "asseguremos sua apreensão". As dt1vidus a respeito de se declarei algo, no caso de não se haver ouvido ou entendido o que foi dito, são as mesmas que podem surgir a respeito de se o que se diss sotto voce foi uma advertência ou se foi um protesto, caso alguém não o lC ­ nha tomado como um protesto, etc. E as declarações "têm efeito" do mesmo modo que o tem o ato de batizar um navio. Se declarei algo, isso me com­ promete a outras declarações: outras declarações minhas posteriores estarão ou não de acordo com is!)o. Também, daí em diante, outras declarações ou observações feitas por outras ,essoas estarão ou não em contradição com fi minha, a refutarão ou não, etc. Se, contudo, uma declaração não pede uma resposta, isso não é essencial a todos os atos ilocucionários. E, por certo, ao fazer uma declaração estamos ou podemos estar realizando atos perlocucio­ nários de todo tipo. O máximo que se pode argumentar, e com alguma plausibilidade, é que não há nenhum objeto perlocucionário especificamente ligado ao ato de de­ clarar, como acontece com infonnar, argumentar, etc. Essa comparativa pu­ reza pode ser uma razão que explica o fato de darmos às "declarações" uma certa posição especial. Mas isto certamente não justificaria, por exemplo, que déssemos às "descrições", se devidamente usadas, uma prioridade melhante, e essa é uma característica comum a muitos atos ilocucionários. Contudo, considerando a questão do ponto de vista dos perfonnativos, ainda podemos ter a impressão de que a estes falta algo que as declarações têm, mesmo quando, como já vimos, o inverso não é verdade. É certo que os perfonnativos consistem em se fazer algo, e também consistem, acessoria­ mente, em se dizer algo. Mas podemos ter a impressão que, à diferença das declarações, não sejam essencialmente verdadeiros ou falsos. Podemos ter u impressão, aqui, que o ato constatativo (admitindo-se, de antemão, que seja feliz) pode ser julgado, estimado ou apreciado em uma dimensão que não s apresenta no caso dos proferimentos perfonnativos ou não-constatativos. Su­ pondo que todas as circunstâncias da situação têm que estar em ordem para que eu consiga declarar algo satisfatoriamente, surge então a pergunta: verdadeiro ou falso o que declarei? E temos a impressão de que tal pergunH'l,
Quando dizer <5 razer I IS

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para fruar em termos populares, procura determinar se a declaração "corres­ ponde aos fatos". Estou de acordo com isso; as tentativas de dizer que o uso da expressão "é verdade" é equivalente a endossar, ou coisa parecida, não são acertadas. Assim temos aqui uma nova dimensão de crítica da declaração realizada satisfatoriamente. Mas agora devemos perguntar: (L) se pelo menos em muitos casos não cabe uma apreciação igual­ mente objetiva de outras expressões livres de infelicidades, que pa­ recem ser tipicamente performativas; e (2) se nossa explicação das declarações não simplifica excessivamente as coisas. Em primeiro lugar, há uma óbvia inclinação pela verdade ou falsidade no caso, por exemplo, dos judicativos, tais como estimar, decidir e declarar . . Assim podemos:
estimar acertada ou erroneamente
correta ou incorretamente
correta ou incorretamente ex.: que são duas e meia

achar

ex.: que ele é culpado

declarar

ex.: que o atacante está impedido

No caso dos judicativos não dizemos "verdadeiramente", mas com cer­ teza nos faremos a mesma pergunta: e advérbios como "acertadamente", "erroneamente", "corretamente" e "incorretamente" são usados com decla­ rações também. Há também um paralelo entre inferir e argumentar com fundamento ou validade, e declarar a verdade. Não se trata só de saber se alguém efetiva­ mente argumentou ou inferiu, mas também de saber se tinha direito a fazê-lo, e se o fez de forma satisfatória. Podemos prevenir ou aconselhar correta ou incorretamente, bem ou mal. Cabem considerações semelhantes com relação aos atos de elogiar, censurar, felicitar. A censura não cabe, por exemplo, se o que censura um determinado ato já fez, por sua vez, o mesmo que está cen­ surando. E sempre podemos perguntar se a censura, a felicitação ou o elogio foram merecidos ou imerecidos. Não basta dizer que uma pessoa censurou a outra e que isso termina com o caso. Sempre cabe indagar se havia razão pa­
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ra censurar, ou seja, se isso era justificado. Dctcnnlnar se wn elogio ou uma censura são merecidos é completamente diferente de determinar so suo oportunos. Cabe fazer a mesma distinção com respeito aos conselhos. I I uma diferença entre dizer que um conselho é bom ou mau e dizer qu oportuno ou inoportuno, mesmo que a oportunidade do conselho seja moi importante para sua qualificação como bom do que a da censura o é para sua qualificação como merecida. Podemos estar seguros de que quando afrrmamos que alguém declurou a verdade estamos fazendo uma apreciação de tipo diferente de que quando afmnamos que alguém argumentou com fundamento, aconselhou bem, juJgou com probidade, etc.? Essas coisas não têm algo a ver, ainda que de maneiro complicada, com os fatos? O mesmo se passa com os exercitivos, tais como dar um nome, designar, legar e apostar. Os fatos têm importância, tanto quanto o nosso conhecimento ou opinião sobre os fatos. É certo que constantemente se fazem tentativas para efetivar essa dis­ tinção. Alega-se que se um argumento é bem fundamentado (quando não s trata de argumentos dedutivos que são "válidos") e se uma censura é mere­ cida, não são questões objetivas. Ou diz-se que, no caso da advertência, te­ mos que distinguir entre a "declaração" de que o touro está por atacar e a própria advertência. Mas consideremos por um momento se a questão da verdade ou da falsidade é tão objetiva quanto se pretende. Podemos pergun­ tar se uma declaração é justa, e se as boas razões e a prova adequada para fazer uma declaração e dizer algo são tão distintas das boas razões e provas que se podem invocar em apoio aos atos performativos como argumentar, prevenir e julgar. Além disso, o constatativo é sempre verdadeiro ou falso? Quando um constatativo é comparado com os fatos, nós na realidade o apre­ ciamos de maneiras que supõem o emprego de um vasto conjunto de palavras que se sobrepõem às que utilizamos para apreciar os performativos. Na vida real, diferentemente das situações mais simples consideradas na teoria 16gi­ ca, nem sempre podemos responder de maneira simples se a declaração é fal­ sa ou verdadeira. Suponhamos que confrontamos "A França é hexagonal" com os fatos, nesse caso, com a França, suponho. Esta declaração é verdadeira ou falsa? Bem, se assim o desejamos, é verdadeira em certa medida. É claro que se pode entender o que se quer dizer com a afrrmação de que é verdadeira para certos fms e propósitos. Talvez seja suficiente para um general, mas não o será para um cartógrafo. "Naturalmente que a declaração é apenas esquemá­ tica", diríamos, "e bastante boa como declaração desse tipo". Suponhamos que alguém insista: "Mas é verdadeira ou falsa? Não me interessa se é es-

Quando dizer 6 fazor

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quernatica ou não; claro que é, mas tem de ser verdadeira ou falsa. Trata-se de uma declaração, não é?" Como poderíamos responder a essa pergunta, se a declaração de que a França é hexagonal é verdadeira ou falsa? Simples­ mente trata-se de urna declaração esquemática e essa é a resposta correta e final diante da pergunta a respeito da relação entre "A França é hexagonal" a a França. É uma descrição aproximada; não é uma descrição verdadeira nem falsa. No caso de se fazer uma declaração verdadeira ou falsa, tanto quanto no caso de se aconselhar bem ou mal, os fms e propósitos do proferimento, assim como seu contexto, são importantes. O que se julga veJdadeiro em um livro escolar pode não ser julgado do mesmo modo numa obra de investiga­ ção histórica. Consideremos o constatativo "Lord Raglan* ganhou a batalha de Alma", lembrando-nos que Alma foi uma batalha entre soldados rasos, caso inédito, e que as ordens de Lord Raglan nunca foram transmitidas a al­ guns de seus subordinados. Nessas circunstâncias, Lord Raglan ganhou ou não a batalha de Alma? É claro que em alguns contextos, por exemplo, em um livro escolar, está perfeitamente justificado dizer isso. Talvez seja um exagero, mas não se trata aqui de dar uma medalha a Lord Raglan. Assim como" A França é hexagonal" é uma declaração esquemática, "Lord Raglan ganhou a batalha de Alma" é uma declaração exagerada, que é adequada pa­ ra alguns contextos e não para outros. Seria inútil insistir em perguntar se é verdadeira ou falsa. Em terceiro lugar, consideremos a questão de ser ou não verdade que todos os gansos migram para o Labrador, tendo em conta que talvez um de­ les se fIra alguma vez e não chegue ao seu destino. Diante de problemas co­ mo esse, muitos têm aftrmado, com muita justiça, que declarações iniciadas por "Todos... " são defInições prescritas ou recomendações para se adotar uma regra. Mas que regra? Essa idéia se origina parcialmente da não-com­ preensão de que a referência dessas declarações se limita aos casos conheci­ dos. Não podemos aftrmar simplesmente que a verdade das declarações de­ pende dos fatos, independentemente dos conhecimentos destes. Suponhamos que antes do descobrimento da Austrália X dissesse "Todos os cisnes são brancos". Se mais tarde se descobre um cisne negro na Austrália, pode-se dizer que X foi refutado? Sua declaração passou a ser falsa? Não necessa­ riamente; X pode retificá-la, como também poderia dizer "Não estava falan­ do a respeito de todos os cisnes, em termos absolutos, qualquer que fosse
.. Lord Raglan (1788-1855) foi inicialmente o comandante das tropas inglesas na Guerra da Criméia ( 1854-1856), durante a qual ocorreu a batalha de Alma (1855), considerada ganha graças mais à dis­ ciplina das tropas do que à capacidade dos comandantes. (N. do T.)

o lugar onde llC encontrassem; por exemplo, minha <.ICl,; ltlIUt;üO nao se re/\.:du a possíveis cisnes de Marte". A referência depende do conhecimento que S tem ao emitir o proferimento. A verdade ou falsidade das declarações é afetada pelo que nelas se in­ clui ou delas se exclui e pelo fato de serem equfvocas, ou coisas semelhun­ teso Assim, por exemplo, as descrições tidas corno falsas ou verdadeiras ou, se assim o desejamos, tidas como "declarações", estão sem dúvida expostas a tais críticas, uma vez que são seletivas e proferidas com determinado p p6sito. É essencial entender que "verdadeiro" e "falso", como " ljvre" "não livre", não designam, de forma alguma, algo simples. Tais palavras s representam uma dimensão geral de que, nas circunstâncias dadas , em rela­ ção a um determinado tipo de ouvinte para certos fins e com certas inten­ ções, o que foi dito era adequado ou correto, em oposição a algo incorreto. Em geral podemos dizer isto: tanto em relação às declarações (e, por exemplo, descrições) quanto às advertências, etc., pode surgir a questão admitindo que realmente declaramos, advertimos, ou aconselhamos, etc., que tínhamos o direito de fazê-lo - se declaramos, advertimos ou aconselha­ mos corretamente. Não no sentido de perguntar se nosso ato foi oportuno ou conveniente, mas sim de indagar se, face aos fatos, ao conhecimento que tr­ nhamos deles e ao propósito que nos levou a falar, etc., o que dissemos foi adequado. Essa doutrina é totalmente diferente do que sustentaram os pragmatis­ tas, * para quem o verdadeiro é o que dá bons resultados, etc. A verdade ou falsidade de uma declaração não depende unicamente do significado das pa­ lavras, mas também do tipo de atos que, ao proferi-las, estamos realizando e das circunstâncias em que os realizamos. Que resta, então, da distinção entre o proferimento performativo e o constatativo? Na verdade podemos dizer que o que tínhamos em mente era isto: (a) No caso do proferimento constatativo, nos abstraímos dos aspectos ilocucionários (e de seus aspectos perlocucionários, também) do ato de fala , e nos concentramos no aspecto locucionário: além do mais, usamos uma no­ ção supersimplificada de correspondência com os fatos - supersimplificadu porque ela essencialmente absorve o aspecto ilocucionário. Almejamos al­ cançar um ideal do que seria acertado dizer em todas as circunstâncias, para

• Referência às teorias pragmáticas da verdade, defendidas por fil6sofos amer icanos co rno .... " • Peirce e William James, segundo as quais, em linhas gera is, o cri tério de verdade de uma senlença os resultados de sua aplicação prática, ou deve ser considerado a partir de limo sinraçllo concrelo.

.no

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Quando dizer é fazer

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são apenas dois nomes.advertências. devemos seguir adiante. para saber. certamente. se estão ou não em ordem e. as seguintes conclusões: (A) O ato de fala total na situação de fala total é o único fenômeno que. Mas sobre este po nto só posso dar alguns rápidos clarões de luz. é apenas uma abstração: todo ato lingüístico genuíno é ambas as coisas de uma só vez. (B) Declarar. isto é. não ocupam uma posição sui generis quanto a esta­ rem relacionados aos fatos da forma sul generis chamada de verdadeira ou Quando dizer é fazer 12 1 120 J. que necessitamos (a) distinguir ~ntre atos locucionários e atos ilocucionários e (b) estabelecer especial e cntiça­ mente. nos aproximemos na vida real de tais coi­ sas. como "Peço desculpas" e "O gato está so­ bre o tapete" . talvez. Mas a conclusão real tem de ser. não ocupam uma posição sul generis. -1 u X II Conf erên cia Classes de força i1ocucionária Deixamos numerosas questões em aberto. Este é um campo vasto e sua análise não nos levará. mas sim um desenvolvimento histórico. L. a uma simples distinção entre "falso" e "verdadeiro". Como se apresenta a distinção entre "cons­ tatativos" e "performativos" à luz de nossa teoria recém-exposta? Em geral. naturalmente. Foram exemplos desse tipo.) Mas. como exemplos de performativos. etc. que desi~nam atos ilocucionários. mas. pois fazer uma declaração é apenas um entre numerosíssimos atos de fala da classe denominada ilocucionária. etc. Podemos comparar com este ponto o que dissemos na primeira confe­ rência a respeito da classificação dos diferentes tipos de falta de sentido. como o ato ilocucionário. ou com a emissão de simples ordens executivas. o rético. e nos abstraímos da dimensão da cor­ respondência com os fatos. que termos de aprovação ou desa­ provação são usados para cada um e o que significam. em última instância. A doutrina da distinção performativo/constatativo está para a doutrina dos atos locucionários e ilocucionários dentro do ato de fala total como a teoria especial está para a teoria geral. declarações e descrições . em particu­ lar. o ato locucionário. primeiro. Além de tudo. que deram origem à idéia de dois proferimentos distintos. um ideal. Gostaria de sugerir. estamos procurando elucidar. Austin . casos marginais extremos. certamente. (C) Em particular. notamos o seguinte: (1) Dimensão de felicidade/infelicidade (la) Uma força ilocucionária (2) Dimensão de verdade/falsidade (2a) Um significado locucionário (sentido e referência). os diferen­ tes tipos de falta de sentido que possam surgir durante a realização de tais atos. em geral. proferidos sem nenhuma razão concebível . neste caso. Em certos casos. com relação a cada tipo de ato ilocucionário . para qualquer tipo do ouvinte. é típico que distingamos diferentes "atos" abstratos por meio de possíveis lapsos. vereditos.. talvez com fórmulas matemáticas em livros de física como exemplos de constatativos. E a necessidade da teoria geral su simplesmente porque a "declaração" tradicional é uma abstração. estimati­ vas. Talvez nenhuma dessas abstrações seja muito conveniente: talvez não tenhamos aqui realmente dois pólos. Talvez isto seja al­ gumas vezes realizado. (Isto é semelhante ao modo como o ato fático. dentre muitos. nem levará à distinção das declarações em relação ao resto. depois de um breve re­ sumo. segundo. damos o máximo de atenção à força ilocucionária do proferimento. descrever.qual é a maneira específica em que se pretendeu realizá-los. (b) No caso do proferimento performativo.quaisquer propósitos. em rela­ ção às exclamações). e para todos os proferimentos que já consideramos (exceto. assim o é também sua tradicional verdade ou falsidade. são meras abstrações. etc. se estão "certos" ou "errados".

para alguns tropeções. . Bach e R. situa­ ções. mas sim da dimensão de apreciação de como as palavras se situam quanto à sua adequação aos fatos.. Os primeiros. avisar. e têm a ver com atitudes e comportamento sociLll. um cálculo. comissivos. Por exemplo: designar. pois essa noção nos criou dificuldades desde o início. felicitar. consistem no exercício de poderes. que não constituem promessa!\. como nome sugere. e lhes darei os seguintes nomes: (1) Veriditivos (2) (3) (4) (5) Exercitivos Cornissivos Comportamentais (um horror este neologismo!) Expositivos Vamos considerá-los em ordem. 2) fato/valor. etc. exceto talvez como um caso marginal limite.­ mática de cada um. ou melhor. Searle: "A taxonomy of illocutionary acts" em ExpressiOIl alld Meallillg. MIT Prosa. mas antes quero dar uma idéia esqu. Os quartos. Veja-se a prop6sito dl88 J. Os segundos. Entretanto. e K. O que não sobreviverá à transição. por um árbitro. votar. veriditivos. como tantas outras dicotomias. Mas não é necessário que sejam defmitivos. aqui ela está apenas esbo­ çada). dar os pêsames. L. comprometem a pessoa a fazer algo. 1979. porque a verdade e a falsidade não !lão (exceto por meio de uma abs­ tração artificial sempre possfvel e legítima para certos propósitos) nomes de relações. abrem a nossos olhos um campo mais rico d que se nos movêssemos unicamente com os dois fetiches: 1) verdadeiro/ra l­ so. (E) Podemos bem suspeitar que a teoria do "significado" como equi­ valente a "sentido e referência" vai certamente necessitar de alguma depura­ ção e reformulação em termos da distinção entre atos locucionários e ilocu­ cionários (caso esta distinção seja fundamentada. constituem um grupo muito heterogêncv. ciontffica. uma boa margem enquanto que a outra podcrlu lIOr ntendida como "cerca de 1. entre performativos primários e performativos explícitos sobreviverá à transição fundamental de uma distinção entre performativos e constatativos para a teo­ ria dos atos de fala. por exemplo.. mas incluem tam­ bém declarações ou anúncios de intenção.999. comportamentais. Dissemos que havia uma coisa que deveria ser feita. Distingo cinco classes gerais de verbos. etc. que. aconselhar. Os terceiros. Isso em nada nos deve surpreender.000? Primeiro. usar com cautela o teste simples da primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa e recorrendo ao dicionário (bastará um pequeno). maldizer e desafiar. porque vai de 1. ou por um desempa tador (terceiro árbitro).000". Disse que tentaria alguma 1 classificução gemI prcliminor e que luriu a1gull1as obscrvHçõcs u rcspdlO du classes propostos. Exemplos são: pedir des­ culpas. etc. uma margem muito pequena. os que agora tentaremos classificar. Crunbridgc UnJvcralty Press. ou o que seja. é difícil se estar seguro. 1979. porque impressiona mais e parec(. que são. eventos. explicitam a força ilocucionária de um proferimento. essencialmente. Têm conexões óbvias com os veriditivos e os exercitivos. Bem. Austin Quando dizer é fazer 12 . como já vimos. Admito que não foi feito o suficiente aqui: aceitei o velho "sentido e referência" sob a influência dos pontos de vista correntes. mas não estou totalmente satis­ feito com elas"'.. direitos ou influências. Harnish: Lillgllístic Commullicatioll alld Speeclt ACls. instar. caracterizam-se por prometer ou de alguma forma assumir algo. então comecemos.a respeito do qual. exercitivos. do T. e incluem também coisas um tanto vagas que podemos chamar de adesões. M. • A diliculdade de estabelecimento de critérios para a classificação de verbos il ocucionllrlos tolO si um dos problemas principais no desenvolvimento da teoria dos atos de fa la. precisamente.fato ou valor . Constituem esscn­ cialmente o estabelecimento de algo . qualidades. na crença na dicotomia performativos/constata­ tivos. animados por um espírito liberal. que ne­ cessitávamos de uma lista de "verbos performativos explícitos". obteremos uma lista de verbos na ordem de 10 à terceira potência1. ou mostram qual é o ato ilocucionário que estamos realizando ao emiti-lo.falsa. Segundo. Vimos que há razões para supor que os testes sugeridos para identificar os verbos performativos explícitos (dizer . Dissemos.) Por que USdf essa expressão em vez de 1. mas à luz da teoria mais geral vemos agora que o que necessitamos é uma lista das for­ ças ilocucionárias de um proferimento. R. por diferentes razões. tomar partido. é a noção da pureza dos performativos.000 a 9. ordenar. Vamos.. uma apreciação. e que requer prolongada investigação. há bastante tempo atrás. ser eliminado. mais 122 J.. o familiar contraste entre "normativo ou valora­ tivo" e fatual está precisando. pois. (D) Do mesmo modo. caracterizam-se por dar um veredito. como. e até de fato dão melhores resultados para identificar aqueles verbos que. contudo. é fazer. a que se referem. Podem constituir uma estimativa. como dissemos agora. (N. obviamente. elogiar. também quero destacar que omiti toda e qualquer consideração direta da força ilocucionária das declarações. Classifiquei essas classes de proferimentos em função d sua força ilocucionária.) são bons testes. Ela se baseava. por um corpo de jurados. Só Icvurci os Icit voltinha. cap o3. . A velha distinção. tem que ser substituída pela idéia de que háfamí­ lias mais gerais de atos de fala relacionados e sobrepostos parcialmente.

pode comprometer­ nos a apoiar alguém ou a sair em sua defesa. Dar um veredito pode também implicar em aderir a algo. quando significa adotar uma atitude para com uma pessoa. Também em um sentido de " culpar" . "É seu". um corpo de jurados. O ato judicial é. ou talvez mais ainda. que ainda há amplas possibilidades de que se apresentem casos margi­ nais ou embaraçosos. Mas alguns atos judiciais. se o dese­ jam. são difíceis de definir. Assim. etc. "postulo". ou mesmo que necessitem de uma classificação inteiramente distinta. Nota-se que o conteúdo de um veredito é verdadeiro ou falso. expositivos. à justiça ou injustiça. culpar é um vereditivo. desde o iní­ cio. por exemplo. e os expositivos porque são excessivamente numerosos e importantes. Comparação com comissivos 1. e talvez também por­ que sabemos a que o ato nos compromete. "e­ xemplifico" . As últimas duas classes são as que acho mais difíceis. Também uma inter­ pretação dos fatos pode comprometer-nos a dar certo veredito ou estimativa. Emitir um veredito ou uma estimativa nos compromete a uma certa conduta futura. por exemplo. por vezes. são. "argumento". e bem pode ser que não estejam nitidamente classificadas ou que estejam um 'tanto embara­ lhadas. ou. oficial ou extra-oficial. Não estou. então é um comportamental. expositivos. Eles esclarecem o mo­ do como nossos proferimentos se encaixam no curso de uma argumentação ou de uma conversa. Comparação com os comportamentais Outros exemplos são encontrados nas apreciações ou avaliações de ca­ ráter. Os comportamentais criam problemas porque parecem demasiado heterogêneos.L. Os vcrcdjtivo têm conexões 6bvias com verdade e falsidade com relação ao fundamento ou falta de fundamento. executivo. mas. súo realmente exercitivos. e do mesmo modo devemos distinguir entre a determinação do montante de danos e prejuízos da decisão de quem deve pa­ gá-los. Um vereditivo é um ato judicial. a determinação de um juiz faz valer a lei. sobre evidências ou razões quanto ao valor ou ao fato. no -sentido de atos feitos por um juiz em vez de serem feitos por 124 J. ou seja. certo ou errado. na medida em que estes são passíveis de distinção. "concedo" . no sentido em que qualquer ato de fala o faz. pelo menos no que se diz respeito à coerência. Os vereditivos consistem em emitir um juízo. justificado ou injustificado diante da evidência. o que estabelece o corpo de jurados faz de um homem um condenado. "suponho". como estamos usando as palavras. que são ambos exercitivos. mas em outro sentido. por exemplo. Exemplos são: "contesto". em ge­ ral. e tanto parecem estar incluídos em outras classes quanto parecem. O ato é levado a cabo em virtude de uma posi­ ção oficial. ainda assim. unndo dizer é fazer 125 . numa disputa a respeito da d cisão de um juiz de futebol. "Você o terá". ou casos de sobreposições entre essas classes. a deci­ são de um juiz de futebol que retira de campo um jogador faz com que esse jogador fique fora de campo. Comparação com exerciti vos Quanto aos atos oficiais.Os quintos. dar um determinado vere­ dito nos comprometerá. nos compromete a determi­ nar uma indenização por perdas e danos. Bem se pode­ ria dizer que todos os aspectos estão presentes em todas as classes. dentro da lei. mas é preciso distinguir o proferimento executivo. VEREDITIVOS Os exemplos são: absolvo considero (em tennos legais) vejo-o como computo coloco incluo em classifico valorizo caracterizo condeno interpreto como determino estimo dato (temporalmente) torno-o graduo avalio diagnostico constato (uma realidade) entendo calculo situo meço tomo (x como y) qualifico descrevo analiso Os veriditivos têm efeito. do veredito. tais como "Eu o chamaria de empreendedor".Austin Cumprimentar pode implicar um veredito acerca do valor ou do caráter. distinto dos atos legislativos ou executivos. ser sui generis de uma forma que não consegui esclarecer nem para mim mesmo. de modo algum. propondo nada definitivo. Não é realizado como uma decisão a favor ou contra. como dizemos agora. que é equivalente a "considerar res­ ponsável" . é passível de ser considerado correto ou incor­ reto. sobre nós mesmos e sobre os demais. Devemos levar em conta.

em oposição a um veredito. dar. protestar. "caracterizo" . reuniões. Suas conseqüências podem ser que outros sejam "compelidos" ou "autorizados" ou "não autorizados" a fazer certos atos. que estão estreitamente ligados aos comportamentais. dado o uso de certas palavras. (3) facultamentos. (5) direitos. elo­ giar e recomendar podem consistir na adoção de uma atitude ou na realiza­ ção de um ato. "aprovo" . aprovar. Desafiar. etc. "protesto". tivos quondo constituem atos oOciais. 2. (2) conselho.. o que é oposto a determinar o seu montante. É uma sen­ tença. alguns exemplos são: nomeio demito ordeno sentencio exijo (o pagamento de um imposto) escolho lego advirto rogo insisto em proclamo revogo sanciono consagro degrado excomungo mando multo voto em reclamo perdôo aconselho suplico pressiono anuncio anulo suspendo declaro encerrado rebaixo (de categoria) nomeio (dar nome. delegar. Comparação com os expositivos Alguns exercitivos. assim como emitem vereditivos. na realidade nos comprometem a uma linha de ação determinada.. admissões.. O primeiro é um veredito. ou os modificam ou os eliminam. Por exemplo: prometo me comprometo a estou decidido a compactuo me obrigo a tenho a intenção de contrato dou a minha palavra declaro minha intençúo o Comparação com vereditivos "Considero". etc. mas seria melhor dizer que tais atos conferem poderes. "descrevo". etc. É uma classe muito ampla. ordens. "não faço objeção" e "faço objeção" . É outorgar uma indenização. COMISSIVOS importante de um comissivo é comprometer quem o usa a uma de­ terminada linha de ação. Austin Quando dizer é fazer 12 . É decidir que algo tem de ser de determinada maneira. exortação e petição. autorizar. É óbvio qu designar e nomear (dar nome ou título) são atos que nos comprometem. "col1cl'do" e "uhsululo" são cxercitivos baseados em vereditos. (4) a condução de negociações. Contextos típicos em que se usam exercitivos são: (1) nomeações de funcionários ou empregados. ou advogá-la. a mesma força que os expositivos. etc. eleições. É preciso distin­ guir entre "eu descreveria isso como uma ação covarde" e "eu descreveria is~o com a expressão 'ação covarde' " . tais como "retiro o que disse". em oposição a julgar que tal coisa é assim. ofl conceder. tais como "desafio" . de certa fonna. sancionar e consentir. nomes. é dar um veredito. Além dlSSl). em oposição a uma estimativa de que seja assim. candidaturas.Comparação com expositivos Quando digo "interpreto". Árbitros e juízes empregam exercitivos. direitos. reclamações. isto. mas está essencialmente relacionado a questões verbais e ao esclarecimento de nossa exposição. "interpreto" e expressões semelhantes podem ser exerci­ 126 J. L. A conexão entre um exercitivo e compromcter-s é tão próxima quanto a que há entre significado e implicação. tais como pennitir. Comparação com comissivos Muitos exercitivos. título) dirijo concedo indico dou renuncio advogo peço recomendo invalido repilo veto declaro aberta 3. demissões e pedidos de admissão. Comparação com os comportamentais Há exercitivos. sentenças e anulações. têm. EXERCITIVOS Um exercitivo consiste em tomar uma decisão a favor ou contra um determinado curso da ação. É advogar que seja assim. acusações. renúncias. "analiso". no contexto de uma discussão ou de uma conversa. o segundo é um veredito acerca do uso dessas palavras.

assim. Para pedir desculpas temos "peço desculpas" .· supõem aderir e comprometer-se. "condôo-me" . Mas ambos os casos estão compreendidos no performati­ vo primário "farei". "me compa­ deço" . Há também uma inclinação em direção aos "descritivos". mas tam­ bém posso declarar ou expressar ou anunciar minha intenção ou resolução. 3. Comparação com expositivos Jurar. Da mesma forma que distinguimos entre instar e ordenar. a declará-la ou anunciá-la. "duvido que". prometer. O mesmo ocor­ re com as adesões. Comparação com os vereditivos Os vereditivos nos comprometem a ações de duas maneiras: (a) nos comprometem a realizar as ações que são necessárias para sus­ tentar nosso veredito e ser coerente com ele. No caso dos comissivos. de acordo com o contexto. por implicação. simplesmente. As declarações de intenção diferem dos compromissos assumidos e po­ deria questionar-se se devem ser classificados todos juntos. declarar que se favorece. estar em desacordo. "passo por alto" . "adoto o ponto de vista" e "abraço". temos "desafto-o a" . Mas os comportamentais nos comprometem com uma con­ duta semelhante. e dizer "tenho a intenção" equivale. Exemplos: 1. "critico". "rendo tributo a" . "reclamo". posso. aderir a X ou aplaudir X. declarar que tenho uma intenção. temos "seja bem-vindo"." .. "me congratulo". sem anunciar que o faz. 6. co­ mo ocorre. "lamento" e os usos não exercitivos de "censuro". em "consagro minha vida a . "Declaro minha intenção" me compromete. "convido a" (defender um tema) etc. Para agradecer temos "agradeço".. e também expressá-los. significar votar em X. Existem conexões óbvias entre declarar e descrever quais são os nossos sentimentos. funcionam como expositivos. "me compadeço" . Comparação com os exercitivos Os exercitivos nos comprometem com as conseqüências de um ato. "não me importo". e não a essa conduta efetiva. embora os comportamentais sejam distintos de ambas essas coisas. se opõe. como "favoreço". Dizer "Apoio X" pode. e apoiar. no senti­ do de dar-lhes uma válvula de escape. "culpo" . "me queixo". que parecem ser ao mesmo tempo expositivas comissivas. "oponho-me". deftnir. não se pode. "cumprimento-o". Chamar. por exemplo. estar de acordo. "recomendo". "brindo a". "à sua saúde" e "te desejo" (em seu uso estritamente performativo). Para saudações. "boa sorte" . mas s6 posso fi comprometer a não fazer algo semelhante. analisar e supor fonnam um grupo. "felicito". 2. de aplaudir ou elogiar prc. Quando dizer é fazer 12 128 J. "aplaudo". 4. e garantir que algo é de uma certa forma. Para atitudes temos "me declaro ofendido". como por exemplo. temos "abençôo". 7. S censuro. etc. temos as locuções " provavelmente o farei" e "farei tudo o que puder". Em um caso extremo. "aprovo" e "apóio". No caso especial dos per­ missivos caberia perguntar se devem ser classificados como exercitivos ou como comissivos. Para desejos. Austin . indubitavelmente. sustentar e defender formam outro grupo de ilocuções.pretendo me proponho a garanto prometo solenemente me consagro a adoto adiro planejo farei X asseguro que concordo me pronuncio por defendo me oponho a tenho o prop6sito de juro aposto consinto tomo partido abraço (uma causa) sou a favor de ()mpurll\'ÜO com os comportamento. Reaçõcs como as de declarar-se ofendido. Assim. geralmente. da mesma maneira que acontece com acon­ selhar e escolher. 5. quando se dá um nome. e de atitudes e expressões de atitudes diante da conduta passada ou iminente do próximo. de modo geral. COMPORTAMENTAIS Os comportamentais incluem a idéia de reação diante da conduta e da sorte dos demais. também distinguimos entre ter a in­ tenção e prometer. . Para desafios. adoto uma atitude quanto à conduta de alguém. "amaldiçôo". L. "protesto". (b) nos comprometem a realizar as ações que podem ser conseqüências de um veredito ou estar incluídas nelas. Para expressar solidariedade temos "deploro". 4.

signifIco (quero dizer) reftro-me a entendo considero como 5..l' adiro a reconheço repudio 5a. não me sobrou tempo suficiente para mostrar qual o interesse de tudo isso que acabo de dizer. o exercitivo é uma aftrmação de influência ou exercício de poder. que supõem o exercício de influência ou de poderes. observo menciono ? interponho 3. corrijo revejo 6. postulo deduzo argumento negligencio (omito) ? destaco 7. Outros exemplos marginais são "recomendo" . O significado geral dos grupos é 6bvio. há uma oportunidade bastante grande para a insinceridade. EXPOSmVos Os expositivos se usam nos atos de exposição que consistem em ex­ pressar opiniões. "cito . Os seguintes podem ser considerados exemplos de comissivos: "defmo". embora não necessariamente. 1. tam­ bém. são expositi­ vos usados em situações de comunicação. quanto comissivos.No campo dos comportamentais. que supõem o exercício do julgamento. Apresentarei algumas listas para indicar a vastidão do campo. o co­ missivo é assumir uma obrigação ou declarar uma intenção... "con­ cordo". pois. "protesto" . Há outros que podem considerar-se exemplos de comportamen­ tais: "não me oponho" . "aceito". pois elogiar ou apoiar é tanto reagir diante da conduta alheia quanto comprometer-se com uma linha de conduta. Darei. O. o comportamcn­ tal é a adoção de uma atitude e o expositivo é o esclarecimento de razões. "desanimo".. naturalmente. podemos dizer que o vereditivo é um exercício de julgamen­ to. " . do editor J. Exemplos que bem podem ser tomados como exercitivos são: "concedo" . "interpreto".além do risco comum das infelicida­ des. porém. "juro". ". especialmente em relação a situações em que se trata de ajustar a palavra à ação. vai uma lista de expositivos: 2 2 Mantivemos a apresentação e a numeração de Austin. Já dissé­ mos repetidas vezes que estamos abertos à discussão quanto a estes atos se­ rem tanto vereditivos exercitivos. "nego". Como de costume. "destaco". Podemos discutir também se não são descrições simples e diretas de nossos sentimentos.. "nego" . "suplico" e "desafio". "afIrmo" . "insisto" . testifico relato juro conjeturo ? duvido ? sei ? creio 5. "passo por alto" . Um grande número. pergunto 4. Há também uma conexão estreita com os exercitivos. como ao dizer "passo agora a ocu­ par-me de . tal como "ques­ tiono" . . " insto" . Os exemplos centrais são "declaro". interpreto distingo analiso defrno 7b. "respondo" e outros semelhantes. Exemplos que bem podem ser tomados como vereditivos são: "anali­ so". exemplifIco explico formulo 7c. "recapitulo" . " sustento". porque apro­ var pode ser um exercício de autoridade ou uma reação diante da conduta de alguém. "classifico" . Aqui. "exemplifI­ co". "pergunto". argumentos e comunicações. O Quando dizer é fazer 131 . etc. Urimson. u1inl\\J nego declaro descrevo classifico identifico 2. aceito concedo retiro concordo não faço ohjeção fuço objcçl. comportarnentais. "apóio" . Há conexões 6bvias com os comissivos. começo por passo a concluo com 7a. que supõem adotar-se uma atitude ou expressar um sentimento. E todos. etc. práticas. um exemplo.. (N.) l~ ~LAu~ Em suma. parece naturalmente referir-se à troca lin­ güística. "repito que" e "menciono que". que supõem assumir uma obrigação. conduzir debates e esclarecer usos e referências. informo aviso digo respondo replico 3a. em­ bora não haja nenhuma explicação nos manuscritos. Os pontos de interrogação são de Austin.

em algumas partes da fIlosofia. sem dúvida haveria muitas outras.a conferência na BBC sobre performativos publicada nos sophical Papers. dizer o que deveria ser feito ao in­ vés de fazê-lo. Isto seria um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do tipo que acabamos de considerar. Uma relação das passagens mais importantes do texto de Austln quais foram feitos acréscimos ou que foram reformuladas. mas procurando esclarecer um pouco a maneira como as coisas começam a caminhar e como estão caminhando com intensidade cada vez maior.foi a de permitir que se verificasse e corrigis reconstrução do texto feita inicialmente sem levar em conta as notas do pr prio Austin. Mas seu verdadeiro interesse começa quando passamos a aplicá-la à ftlosofIa. levantado a relação completa dos atos ilocu­ cionários dos quais recomendar. sendo muito mai completas que qualquer uma destas fontes. isto é.alguns dos quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. por exemplo. e a gravação da palestra feita em Gotcnt)Ur. não tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. 132 J. Austin Quando dizer é fazer t1 . seriam espécimes isolados. Nestas conferências fiz duas coisas que não gosto muito de fazer. Alguns exemplos característicu tirados destas fontes foram acrescentados. para recomendar ou ainda para qualificar. até que saibamos quantos destes atos existem e de que forma se inter-rela­ cionam. encontra-se n apêndice. Mas nunca chegaremos a uma idéia clara sobre a palavra "bom" e sobre para que a usamos até que tenhamos. Apêndice A principal utilidade das notas tomadas pelos ouvintes das confi de Austin . gostaria certamente de dizer que nenhum outro lugar poderia ter sido pa­ ra mim mais agradável para dar conferências do que Harvard. Já se sugeriu. qualificar. os filósofos têm demonstrado interesse pela palavra " bom" e. Isto não signifi­ ca que não tenha consciência da existência de tais problemas. linhas 19 e segs. Inten­ cionalmente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos . Nas notas uma linha extra foi acrescentndn após a expressão " de que necessitamos" . e que são: (1) apresentar um programa. de forma satisfatória. L. Contudo. mas. gostaria de poder pensar que estive não proclamando um manifesto individual. com relação a (1). É claro que tudo isso é um tanto cansativo e árido para se ouvir e assimilar. l Página 25. bem como algumas expressõcs racterísticas em alguns pontos em que as notas de Austin não apresentavum uma redação definitiva. E quanto ao (2). etc. que a usemos para expressar aprovação. O principal valor das fontes secundárias foi O d permitir que se conferissem a ordem e a interpretação em pontos em qu notas se apresentavam fragmentárias. go em outubro de 1959 . contendo o seguinte: " de certo forma isso ao menos chama a atenção especillcamente para o que necessito­ mos em certos casos" . (2) dar conferências. Concluiu-se depois que estas notas do próprio Austin ncccssit vam de muito pouca suplementação de fontes secundárias.há muito. re­ centemente. se interessaram pelo modo como a usamos e pelos fins para que a empregamos. o trabalho apresentado no Colóquio de Royaumoot o título "Performatif-Constatif'.

. Página 126. Acréscimo à margem do segundo parágrafo: "Restrições a "pensamentos" aqui?" . Nas notas de Austin a V11 9 COllfcrêndu tCI11111l1t uqui. Acréscimo à margem do parágrafo que se inicia: "A fór­ mula perfonnativa explícita". na linha 23 até o [mal do parágrafo. Página 83. Jl •• acordo com as notas de Harvard parece que o início da Vlli 2 Conferôncía l ria sido incluCdo na Vil!!. O exemplo "Said Ali" (originariamente em inglês "Iced ink" ("I stink"»." Página 43. B. trata-se de uma versão composta a partir de várias notas incompletas feitas por Austin em datas diferentes. etc. pressupõe dizendo implica o que se diz implica logica­ mente" Página 55. porém esta última expressão não está riscada. diz: "? enganoso: é o recurso compare-se com precisão" . Quando dizer é fa zer 135 l 34 J. Página 82. com base nas notas de Pitcher. Página 44. Da línha 6 até o [mal do primeiro parágrafo temos uma ex­ pansão feita pelos editores a partir de notas muito sucintas. junto à comparação com o vereditivo há uma nota dizendo: "cf.. mas e se "amea­ çar" não for considerado nem uma nem outra?" . O texto baseia-se sobretudo na versão na BBC. O exemplo sobre George está incompleto nas notas. declarou" . Os exemplos encontrados em (1) e (2) foram acrescentaclv. Nota à margem da linha 19: "Dizer. O final do parágrafo que se inicia com (b) foi acrescentado com base em fontes secundárias. exclusive... Página 70. Página 41. As notas de 1955 são fragmentárias neste ponto. O parágrafo final é uma expansão das notas de Austin ba­ seada principalmente nas notas de George Pitcher.Página 26. nas quais simplesmente encontramos: "Usamos "como pode ser entendido" e "tomando claro" (e até mesmo "declarando que"). Encontramos literalmente o seguinte na altura das linhas 7/8: "contratos freqüentemente nulos porque os objetos sobre os quais ver­ sam não existem . te­ mos nas notas: "N. não se encontrando nas notas de Austin. À margem. " . mas não verdadeiro ou falso. declarar que se est em estado de guerra" .. Página 119. Desde o oitavo parágrafo até o final da conferência o texto foi reconstruído a partir de dois conjuntos de notas feitas por Austin antes de 1955. Página 114. (2) em todos os sentidos relevantes «A) e (B) X (C) nA serão todos os proferimentos performativos?" Página 92. Da linha final "um juiz deveria. Página 100. " até o final do parágmfo trata-se de um acréscimo com base nas notas de Pitcher. Página 114. Página 51. no manuscrito de Austin temos. declarar encerrado. à margem do início da página diz: "Nota: (1) Nada está claro! distinções. O parágrafo que se inicia "em terceiro lugar" foi desen­ volvido a partir das notas de Pitcher e Demos. Nota datada de 1958. Acréscimo à linha 7 da página: "talvez pudéssemos opor aqui obrigação "moral" X obrigação em sentido '·estrito". (a) e (b) são desenvolvimentos a partir de notas muito su­ cintas baseadas em fontes secundárias. Página 63.um colapso de referência (ambigüidade total ou inexistên­ cia)" . Página 105. Página 109.Austin . Página 86. Antes da última linha do segundo parágmfo do texto. Desde o segundo parágrafo até o parágrafo [mal da confe­ rência.L. Na linha 15. Em uma nota separada há um acréscimo ao ponto (1): "mesmo procedimentos que incluam proferimentos como "Estou participan­ do do jogo" . nem descrição ou relato" . Página 68." foi acrescentado com base nas notas de Pitcher. No manuscrito "estávamos certos em" está escrito por ci­ ma de "tínhamos o direito de" na linha 17. é () mesmo?" Página 93. De "podemos dizer que uma fórmula performativa . Nota à margem da linha 6 diz: "disse equivale a afumou. Página 104. temos um desenvolvimento conjectural das notas de Austin. Acréscimo à margem da linha 11: "e inexplícitos fazem am­ bos". "como dar a entender" é baseado nas notas d Pitcher. Página 70. O parágrafo que se inicia "De modo que temos aqui. Página 91. Página 49. "ou "como dar a entender". declarar guerra. Página 55. Acréscimo à margem das primeiras linhas da página: "ne­ cessitamos de critérios de evolução da linguagem" . Página 100.. não se encontra no texto. embora fosse famoso entre os alunos de Austin. Na altura das linhas 20-21 há uma nota à margem dizendo: "profcrimento de palavras" uma noção nem um pouco simples!" Página 40. Dito é claro jamais não declara (Dito também tem suas ambigüidades)" Página 118. podem ser rejeitados em sua totalidade.

Juun-Ouvid: ()~ O/ll m dr / 111// 1' NnsiQ &. trata-se de um desen­ volvimento das notas de Austin com base em um pequeno manuscrito sepa­ rado do próprio Austin e confrnnado por notas dos ouvintes.. A l d ll (~i() M • ~I'/.: flir()l c~c Mlh. " em diante..ln Dor. Após o parágrafo tennínado em "farei tudo o que puder" há a seguinte nota "Prometo que provavehnente o farei" . Claudc : A Sr!l unllll M!il 1 Jacques Lac./ P sicoses Nnsio. l)'ll1u: A ('I/JIII~'II c/" PClricf. Página 129. C. c. DIR ECAO: ALoulSIO M ORfl"" Il. Joel: Inlroduçlw ti 1 t' lI llI /I d.'Ll /II .' I . rencial das Psicoses Dorgeuille. "u/lI e Açá Calligaris. Nota relativa a "brindo a" e "à sua saúde" no n~ 6 diz: "ou adequando a ação às palavras" .' . Wi. Supomos que Austin não pretendia que este fosse um exemplo de uso permissível.' ( '//1"".: Jritroduçúu 1/ un. Página 131. AJillú'w M ()/JL 1'\/l'ul/. IUI"A TÍTULOS EDITADOS Austin: Quando I)i/('r (I F/l/(' .' '\/1 " ' (/ 11 11111//11 . (' (J I ""'"""~ Cura PS iCI. Frunçoi'l: F'I'/lIOI (/11111'1" /' 111 "'1' ' ' " 1111'.O Inconsciente EM /lllll ml /o rrlIII . De "como de costume .. Austin çJW d" P~lru/l( I/ "IOI Sí.' 136 J.Página 128.'J[J If(jclI Calligaris. L.II" .· TÍTU LOS EM PROD se u t nsin M clman.I'" d. Charlcs: F~trll'lI rtt 1 11('11111//11.

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