J.L.

AUSTIN
QUANDO DIZER
,
E FAZER
PALAVRAS E AÇÃO
Tradução e apresentação à edição brasilei ra:
Prof. DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO
A936q Austin, John Langshaw
Quando dizer é faze r. / John Langshaw Austin; Trad. de Danilo
Marcondes de Souza Filho. / Porto Alegre: Artes Médicas: 1990.
136p.
CDU:800.1
fndices para o catálogo sistemático:
Filosofia da linguagem 800. 1
Ficha catalográfica elaborada pela Bibl. Carla P. de M. Pires CRB 10/753
~ ~ T E 5
r...::DICAS PORTO ALEGRE/1990
J. L. AUSTI N
QUANDO DIZER
,
E FAZER
PALAVRAS E AÇÃO
Tradução e apresentação à edição brasilei ra:
Prof. DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO
A936q Austin, John Langshaw
Quando dizer é fazer. / John Langshaw Austin; Trad. de Danilo
Marcondes de Souza Fi lho. / Porto Alegre: Artes Médicas: 1990.
136p.
CDU:800.1
rndices para o catálogo sistemático:
;;ilosofia da linguagem 800.1
Ficha catalográfica elaborada pela Bibl. Carla P. de M. Pires CRB 10/753
. ~ l E 5
In :DICAS PORTO ALEGRE/1990
Publicado originalmente em inglês sob o trtulo
HOW TO DO THINGS WITH WORDS
~ Copyright 1962, 1975 by the President and
Fellows of Harvard College.
Capa:
Mário Róhnelt
Supervisão editorial:
l1R1rEXiO
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rua 13 de maio. 468 - 101.(0504)222.6223 - caxias do sul · rs
Reservados todos os direitos de publicação à
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Sumário
Apresentação ... .. . . . . ... ........ .. .. .. .. . ... .. . 7
Prefácio . .. . ..... .. ... .. ..... .. . .... . .. ...... . . 18
Conferências:
I Perfonnativos e Constatativos .. . ..... .. .. .. ......... 2 1
11 Condições para Perfonnativos Felizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
III Infelicidades: Desacertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
IV Infelicidades: Maus usos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
V Clitérios Possíveis de Perfonnativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . S7
VI Performativos Explícitos ...... ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
VII Verbos Perfonnativos Explícitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
VIII Atos Locucionários, Ilocucionários e Perlocucionários . . . . . . 8
IX Distinção entre Atos Ilocucionários e Perlocucionários . . . . . 95
X "Ao dizer ... " versus "Por dizer ... " .. . . . . . . . . . . . . . . . .. 10
XI Declarações, Performativos e Força Ilocucionária .... ... " I I 1
XII Classes de Força Ilocucionária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121
Apêndice ....... . . .. .. . .. . ....... .... .......... 133
Apresentação
A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE J. L. AUSTIN
Danilo Marcondes de Souza Filho
Esta apresentação não pretende ser uma síntese do pensamento fJlos6fi­
co de Austin em geral, ou mesmo das idéias desenvolvidas na presente obra
em particular, já que seria impossível superar, em rigor e concisão, a apre­
sentação do pr6prio autor. Meu objetivo é, antes, situar a teoria dos atos de
fala dentro da chamada "virada lingüística", característica de grande parte
da atividade fJlosófica de nosso século, bem como traçar o percurso desta
teoria, desde sua gênese - em sua motivação fJlosófica inicial, explicitando
os elementos fundamentais do método proposto e empregado por Aus­
tin - até as teses por ele defendidas na presente obra.
O projeto fJlosófico da teoria dos atos de fala, tal como foi inicialmente
proposto por Austin, insere-se na tradição britânica da fJlosofia analítica,
inaugurada por G. E. Moore, B. Russell e L. Wittgenstein nas primeiras dé­
cadas de nosso século. Nesse momento, a fJlosofia analítica surge como uma
dupla reação às correntes de pensamento fJlosófico então dominantes na Grã­
Bretanha ao fmal do século passado: o idealismo absoluto de F. H. Bradley
e T. H. Green e o empirismo, influenciado sobretudo por J. S. Mil!. Bradley
e Green, dentre outros, sustentavam não só a identificação da realidade com
a totalidade, mas também a necessidade de a consciência reconhecer-se como
parte do Absoluto. Já o empirismo psicologista e subjetivista reduzia a reali­
dade à experiência psicológica do sujeito empírico. A fJlosofia analítica, em
seus primórdios, com Moore e Russell, vai partir de uma concepção realista,
mantendo que a principal tarefa da fIlosofia é realizar um processo de clari-
Quando dizer é fazer 7
ficaçüo ou elucidação dos elementos centrais de nossa experiência. Esto "Iu­
cidação se dá não através de um método especulativo ou introspectivo, mas
mediante a análise da fonna lógica das sentenças em que nosso conheci­
mento, crenças e opiniões sobre o real se expressam e nossa experiência se
articula.
A questão central da investigação filosófica passa a ser então: como
pode uma sentença ter significado? A problemática da consciência dá, assim,
lugar à problemática da linguagem, e o conceito de representação, ponto
central da tradição anterior, é substituído pelo conceito de significado.
Podemos, portanto, considerar que dentro da corrente analítica, que
então se inaugura, a tarefa filosófica se desdobra nas duas seguintes ativida­
des: por um lado, analisar a sentença, buscando estabelecer sua fonna lógica
e seus elementos constitutivos; por outro, reinvestigar os problemas filosófi­
cos tradicionais em teoria do conhecimento, teoria da percepção, ética, etc. ,
através da análise lingüística dos conceitos centrais destas áreas e do uso dos
mesmos na linguagem ordinária. Tal análise visa obter um esclarecimento do
sentido destes conceitos, estabelecendo novas distinções, explicitando arti­
culações até então não reconhecidas, elucidando obscuridades, etc. Ambas'
as práticas encontram-se em Russell e Moore, os iniciadores da filosofia
analítica na tradição britânica.
A primeira tarefa a que acima nos referimos dá origem ao que se pode
chamar, em um sentido estrito, de filosofia da linguagem: uma teoria filosó­
-!\
fica sobre a natureza e estrutura da linguagem, examinando noções como
tenno e proposição, sentido e referência, nomes próprios e predicativos, ver­
dade, etc., que virão a ser os conceitos-chave desta teoria da linguagem.
A segunda tarefa da filosofia será desenvolvida pela corrente conheci­
da por vezes como filosofia da linguagem ordinária, filosofia lingüística ou,
ainda, Escola de Oxford. Austin pode ser considerado um dos principais re­
presentantes desta tendência. Muitos de seus mais importantes trabalhos co­
mo A Pleafor Excuses, Other Minds, Three Ways of SpiLling Tnk e Sense
and Sensibilia se caracterizam por suas discussões, de grande sutileza e pe­
netração, de certos problemas centrais da tradição ftlosófica, como responsa­
bilidade e ação, percepção e conhecimento, etc. Todas estas discussões são
desenvolvidas através do método que acima denominamos análise filosófica
da linguagem ordinária, que Austin julgava ser capaz de clarificar e desmis­
tificar estes problemas tradicionais, situando-os em um plano menos abstrato,
genérico e fonnal e, por conseguinte, tomando possível uma análise e com-
K J. l.. AI/stin
prcensi\o destes pr.oblemas sem recurso u I)lcssupustos IIlcluJ CSlcOS lrudiclo
nais que, inevitavelmente, gerariam n.ov.os probJemos e n.ovas discussõcs.
Para ilustrar o método de análise austinno bastaria aqui reconstruirmo
sua elucidação de um problema dos mais importantes da ética, a questão da
responsabilidade que decorre de uma ação. Esta análise encontra-se no qu
talvez seu trabalho mais elaborado no gênero, A Pleafor Excuses. Pelo pro­
cedimento que Austin estabelece, em lugar de partir de noções abstratas
oriundas de uma teoria ética ou de conceitos muito amplos como responsabi­
lidade, ação, vontade, etc. , toma como ponto de partida a análise de advér­
bios como "voluntariamente", "deliberadamente" , "acidentalmente", " i­
nadvertidamente" e outros congêneres, exatamente por serem, enquanto ad­
vérbios, palavras que qualificam ou determinam o tenno "ação" . E a razão
de assim proceder radica-se no fato de as condições de possibilidade de em­
prego destes tennos revelarem as circunstâncias que permitem ao falante usá­
los para justificar, desculpar ou eximir-se da responsabilidade de seu ato.
Neste tipo de análise encontramos o genne de uma de suas concepções
mais originais, desenvolvida no presente livro, segundo a qual. "minha pala­
vra é meu penhor" , o que faz com que se considere o ato de fala, a interação
comunicativa propriamente dita, como tendo um caráter contratual ou de
compromisso entre partes.
Nesta sua análise, Austin recorre a uma série de exemplos tirados não
só da prática cotidiana do uso lingüístico, como também de processos crimi­
nais em que alguém foi ou não responsabilizado por uma ação, e ainda de si­
tuações imaginárias e fictícias. O método de Austin revela, pelo recurso a
exemplos, seu interesse pelas regras de uso da linguagem, pelo que se pode
ou não dizer, enfim pela "gramática". A finalidade da análise não é, está
claro, empírica. O recurso a exemplos, reais ou imaginários, é apenas uma
fonna de tomar a reflexão mais concreta, mais precisa, mais próxima de nos­
sa experiência de falantes, apoiando-se no caráter intersubjetivo da lingua­
gem e assim fazendo com que suas conclusões tenham a ver mais direta­
mente com nosso universo de discurso e nossa prática cotidiana.
Assim, todo problema filosófico fica sistematicamente restrito a um
"campo semântico" bem delimitado, no contexto do qual o uso de certas ex­
pressões deve ser examinado, levando-se em conta quando, como, por que e
por quem determinadas expressões podem ser usadas e outras não. Em ftm­
ção deste procedimento elaboram-se distinções ou aproximações e estabele­
cem-se as características básicas de possibilidade de seu uso, que fornecem
os elementos para a determinação do significado e conseqüentemente para o
esclarecimento ou elucidação dos tennos. Este esclarecimento, contudo,
Quando dizer é fazer 9
sempre deve ser considerado provisório. Não há soluções definitivas em filo­
sofia, uma vez que as mesmas questões sempre podem ser retomadas e ree­
xarrunadas sob novos ângulos, seja pelo estabelecimento de novas relações,
seja pela consideração de outros aspectos do uso até então não examinados.
Neste método de análise, a necessidade de se levar em conta o contexto
de uso das expressões e os elementos constitutivos deste contexto indica cla­
ramente que a linguagem não deve ser considerada em abstrato, em sua es­
trutura formal apenas, mas sempre em relação a uma situação em que faz
sentido o uso de tal expressão. Desta forma superam-se as barreiras entre
linguagem e mundo, entre o sistema de signos sintaticamente ordenados e a
realidade externa a ser representada. Segundo Austin,
quando examinamos o que se deve dizer e quando se deve fazê-lo, que
palavras devemos usar em determinadas situações, não estamos exami­
nando simplesmente palavras (ou seus "significados" ou seja lá o que
isto for) mas sobretudo a realidade sobre a qual falamos ao usar estas
palavras - usamos uma consciência mais aguçada das palavras para
aguçar nossa percepção ( ... ) dos fenômenos.
Philosophical Papers, p. 182
Podemos afirmar, então, que quando analisamos a linguagem nossa finalida­
de não é apenas analisar a linguagem enquanto tal, mas investigar o contexto
social e cultural no qual é usada, as práticas sociais, os paradigmas e valo­
res, a "racionalidade", enfim, desta comunidade, elementos estes dos quais a
linguagem é indissociável. A linguagem é uma prática social concreta e co­
mo tal deve ser analisada. Não há mais uma separação radical entre "lingua­
gem" e "mundo" , porque o que consideramos a "realidade" é constituído
exatamente pela linguagem que adquirimos e empregamos.
Duas são as conseqüências básicas desta nova visão proposta por Aus­
tino Surge um novo paradigma teórico que considera a linguagem como ação,
como forma de atuação sobre o real, e portanto de constituição do real, e não
meramente de representação ou correspondência com a realidade. Em decor­
rência, dá-se a passagem para um segundo plano do conceito de verdade,
conceito central da semântica clássica, j á que corresponde precisamente à
garantia de adequação entre linguagem e realidade, em seu aspecto tanto ló­
gico como epistemológico. A verdade é substituída agora pelo conceito de
eficácia do ato, de sua "felicidade", de suas condições de sucesso, e também
pela dimensão moral do compromisso assumido na interação comunicativa,
sempre enfatizado por Austin.
J. L. Austin
ponto central da concepção de Austin c ~ U H principal contribulçu
fllosofia da üoguagem parece-me ser a idéia de que a linguagem deve ser
tratada essencialmente como uma forma de ação e não de representação da
realidade. O significado de uma sentença não pode ser estabelecido aírav
da análise de seus elementos constituintes, da contribuição do sentido
da referência das partes ao todo da sentença, como quer a tradição insp.irada
em Frege, Russell e Moore, mas, ao contrário, são as condições de uso da
sentença que determinam seu significado. Na verdade, o conceito mesmo d
significado se dissolve, dando lugar a uma concepção de linguagem como
um complexo que envolve elementos do contexto, convenções de uso e in­
tenções dos falantes. As condições de realização do ato de fala apresentadas
por Austin na I Conferência da presente obra explicitam exatamente estas ca­
racterísticas: a investigação fJ.losófica da linguagem deve realizar-se com ba­
se não em uma teoria do significado, mas em uma teoria da ação.
Como se vê, as primeiras contribuições de Austin à fJ.losofia se encon­
tram na linha da assim chamada fJ.losofia da linguagem ordinária, cuja pro­
posta é muito mais metodológica do que doutrinária ou sistemática. Trata-s ...,
como foi dito, de realizar uma reflexão sobre os problemas tradicionais da
fJ.losofia mediante uma análise conceitual, similar, sob certo ponto de vista,
ao método socrático, só que interpretando o conceito como expressão lin­
güística e não como entidade mental ou objeto lógico, e procurando eluci­
dá-la - isto é, estabelecer sua defrnição ou significado - a partir das con­
dições de uso desta expressão. Não se encontra, entretanto, nestes primeiros
trabalhos, uma preocupação em fundamentar teoricamente estas "análises
conceituais", nem em elaborá-las mais sistematicamente, já que é próprio ao
método o caráter provisório e relativo da elucidação obtida.
Este tipo de análise, contudo, levou Austin a refletir sobre a própria
natureza da linguagem, objeto da análise fJ.losófica. Partimos então de uma
preocupação com O significado de determinados termos e expressões lin­
güísticas e passamos a investigar como a linguagem tem significado. Tanto
do ponto de vista da análise da linguagem ordinária, quanto do ponto de
vista de uma teoria sobre a linguagem, a visão de Austin é sempre orientada
pela consideração da linguagem a partir de seu uso, ou seja, da linguagem
como forma de ação. Uma das principais conseqüências desta nova concep­
ção de linguagem consiste no fato de a análise da sentença dar lugar à análj­
se do ato de fala, do uso da linguagem em um determinado contexto, com
uma determinada finalidade e de acordo com certas normas e convenções. O
que se analisa agora não é mais a estrutura da sentença com seus elementos
constitutivos, isto é, o nome e o predicado, ou o sentido e a referência, mas
Quando dizer é fazer
10
11
as condições sob as quais o uso de detenninadas expressões lingü(sticas pro­
duzem certos efeitos e conseqüências em uma dada situação.
Já em 1946, em sua conferência Outras Mentes, Austin criticava o que
considerava a "falácia descritiva" , cometida por certos fIlósofos. Sentenças
do tipo "Eu sei que .. . ", devido à sua forma declarativa, parecem ser descri­
ções de fatos. O fIlósofo, em sua análise, é então levado a buscar os fatos e
situações que tomam tais sentenças verdadeiras. Passa a tratá-las, assim, co­
mo descrições de um ato mental do falante, que seria a cognição, pertencen­
do à mesma categoria da crença e da certeza, porém superior a estas. Austin
vê nisso a causa da confusão e do equívoco que caracterizariam a "falácia
descritiva". Propõe, ao contrário, que se considere a expressão "Eu sei
que ... " do mesmo modo que "Eu prometo ... " . Seriam expressões usadas não
para descrever ou relatar algo, mas parafazer algo, para realizar um ato. Por
isso ele as chama de expressões peiformativas, aquelas que, ao serem usadas
em detenninadas sentenças, constituem "proferimentos performativos". Os
proferimentos performativos, exatamente por serem atos realizados, não es­
tão sujeitos à verdade ou à falsidade, mas a "condições de felicidade", que
explicam seu sucesso ou insucesso. Portanto, a análise destas sentenças não
pode ser feita adequadamente através da Semântica Clássica, que se baseia
na determinação das condições de verdade da sentença, mas, sim, através de
um novo tipo de análise que Austin começa a desenvolver então e que cul­
minará na teoria dos atos de fala.
Os primeiros trabalhos que começam a tematizar mais teoricamente a
questão da natureza da linguagem e do significado são How to Talk (1953­
4), Peiformative Utterances (1956) e a conferência apresentada no Colóquio
de Royaumont em 1958, Peiformatif-Constatif.
Austin apresenta aí as linhas gerais desta teoria que já vinha desenvol­
vendo, segundo ele próprio, desde o início da década de 40 e que será fmal­
mente elaborada em uma série de cursos intitulados Words and Deeds, mi­
nistrados na Universidade de Oxford no início da década de 50 e posterior­
mente em universidades americanas, e que constituem a substância de How
to do things with words (cf. o "Prefácio" a esta obra). Trata-se precisamente
de uma teoria sobre a natureza da linguagem enquanto uma forma de realizar
atos: os atos de fala. Aqui não só se formula uma série de conceitos teóricos
como peiformativo, força ilocucionária, etc., como também se procura esta­
belecer e classificar os diferentes tipos de atos de fala, buscando sua siste­
matização e assim propondo uma nova concepção de linguagem, seja quanto
a sua estrutura, seja quanto a seu funcionamento.
Esta preocupação com uma redefmição de linguagem e com a maneira
de considerá-Ia decorre explicitamente da idéia de que a elucidação ftlosófi­
.J. L. Austin
ca de certos termos e expressões depende de um lIludclo te6rico de l i ngulI
gem que forneça os critérios para realizar esta análise e a elucidação preten­
dida. Não se trata, portanto, de uma ruptura com a proposta anterior de elu­
cidação mediante a análise lingüística, agora substituída por um interesse
meramente teórico sobre a linguagem. Pelo contrário, trata-se da busca d
uma forma mais eficaz e rigorosa de se realizar esta análise e esta elucida­
ção, que agora passa a se fundamentar em uma teoria sobre a linguagem.
Conseqüentemente, o objeto último continua sendo a aplicação destes con­
ceitos teóricos sobre a linguagem à elucidação das questões surgidas no
campo concreto da experiência e da atividade humanas, como afirma expli­
citamente a conclusão de Quando dizer éfazer. Palavras e ação.
Como de costume, não me sobrou o tempo suficiente para mostrar qual
o interesse de tudo isto que acabo de dizer. Darei, porém, um exemplo.
De há muito, os fIlósofos têm demonstrado interesse pela palavra
"bom" e, recentemente, se interessaram pelo modo como a usamos e
pelos fms para que a empregamos. Já se sugeriu, por exemplo, que a
usemos para expressar aprovação, para recomendar ou ainda para qua­
lificar. Mas nunca chegaremos a uma idéia clara sobre a palavra "bom"
e sobre para que a usamos até que tenhamos, de forma satisfatória, le­
vantado a relação completa dos atos ilocucionários dos quais recomen­
dar, qualificar, etc. seriam espécimes isolados; até que saibamos quan­
tos destes atos existem e de que forma se inter-relacionam. Isto seria
um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do tipo que aca­
bamos de considerar; sem dúvida haveria muitas outras. Intencional­
mente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos - alguns
dos quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. Isto
não significa que não tenha consciência da existência desses proble­
mas. É claro que tudo isto é um tanto cansativo e árido para se ouvir e
assimilar; mas não tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. Mas
seu verdadeiro interesse começa quando passamos a aplicá-la à ftloso­
fia.
Austin, 1975, pp. 163-4
Quando dizer é fazer. Palavras e ação é, portanto, uma obra inovadora
e que abre novas perspectivas em ftlosofia da linguagem para novas investi­
gações pelo estabelecimento de elementos teóricos que desenvolvidos, mui­
tas vezes criticamente, por autores como P. F. Strawson, H. P. Grice e, prin­
cipalmente, J. R. Searle, deram origem à teoria dos atos de fala. Suas impli-
Quando dizer é fazer 12 13
caçoes, repercussãO e interesse percorrem, como anteviu Austin, todos os
domínios da fllosofia, bem como de áreas afins, como a lingüística, a psico­
logia, a antropologia, etc.
O texto de Austin apresenta ao tradutor duas dificuldades básicas, ra­
ramente encontradas ao mesmo tempo em um mesmo texto. Em primeiro lu­
gar, trata-se de um texto em linguagem coloquial, idiomático e fluente, exa­
tamente na medida em que é derivado de conferências proferidas por Austin
na Universidade de Harvard. Fica assim óbvio seu propósito de servir mais à
exposição oral do que à leitura. Por outro lado, por se tratar de uma obra
original e polêmica, o texto contém um conjunto de termos técnicos, con­
ceitos teóricos e mesmo neologismos, cunhados pelo autor, de importância
fundamental para os objetivos a que se propõe, mas de difícil adaptação para
nosso idioma. Não desejo com estas ressalvas eximir-me da responsabilidade
pelas eventuais falhas que todo tradutor inevitavelmente comete, mas apenas
indicar as dificuldades inerentes ao texto, para que o leitor as tenha em
mente durante sua leitura. Finalmente, procurei sempre, na medida do possí­
vel, conservar os traços característicos do estilo coloquial de Austin, adap­
tando para o português, quando isto se impunha, seus exemplos e as expres­
sões idiomáticas utilizadas. Quanto aos termos técnicos introduzidos por
Austin e aos conceitos teóricos de que lança mão, procurei torná-los mais
claros ao leitor que se inicia através de notas explicativas, para fazer com
que o texto seja mais acessível.
Por fim, não poderia deixar de agradecer ao Prof. Paulo Alcoforado, da
UFRJ , as inúmeras sugestões feitas a este trabalho de tradução, além do
muito que me ensinou sobre a difícil arte de traduzir.
BffiLIOGRAFIA DE J. L. AUSTIN
Philosophical Papers, organizado por G. J. Warnock e J. O Urmson, Ox­
ford, Claredon Press, 3!! ed. ampliada em 1979.
ontém os seguintes trabalhos:
"Agathon and Eudainwnia in the Ethics of Aristotle" . Escrito na década de
30, também publicado em J. M. E. Moravcsik Corg.) Aristotle, Londres,
Macmillan, 1968, pp. 261-296.
.. Are there A Priori Concepts?", inicialmente publicado em Proceedings qf
the Aristotelian Society, XII, 1939, pp. 83-105.
"The Meaning of a Word", trabalho apresentado em 1940 ao Moral Sciences
Club de Cambridge e a Jowett Society de Oxford.
14 _______
_________________________________ J.L.Austin
"Other Minds", inicialmente publicado em I'rcx'('cdif/gs of the Aristotelicu
Society, sup. voI. XX, 1946, pp. 148-187. 'rraduzido para o português
por Marcelo Guimarães Da Silva Lima e publicado no vol. LU da col.
Os pensadores, S. Paulo, Abril , 1975, I! ed.
"Truth" , publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian Society,
sup. vol. XXIV, 1950, pp. 111-128.
" Unfair to Facts", trabalho apresentado em 1954 na Philosophical Society
de Oxford.
"How to Talk - Some Simple Ways" , inicialmente publicado em Procee­
dings of the Aristotelian Society, LIII, 1953-4, pp. 227-246.
"Performative Uterrances" , trabalho apresentado em 1956 em programa ra­
diofônico da BBC.
"A Plea for Excuses" , publicado inicialmente em Proceedings of the Aris­
totelian Society, LVII, 1956-7, pp. 1-30.
"Ifs and Cans", publicado inicialmente em Proceedings of the British Aca­
demy, XLII, 1956, pp. 109-132.
"Pretending", publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian So­
ciety, sup. vol. XXXII, 1958, pp. 261-278.
"1hree Ways of Spilling lnk" , conferência em 1958 na American Society of
Political and Legal Philosophy. Também publicado em The Philosophi­
cal Review, 75, 1966, pp. 427-440.
"The Line and the Cave in Plato's Republic", reconstruído a partir de notas
por J. O. Urmson, incluído na 3!! ed.
Sense and Sensibilia, ed. por G. J. Warnock, Oxford, Clarendon Press,
1962 .
. How to do Things with Word5, ed. por J. o. Urmson, Oxford, Clarendon
Press, 1962. 2!! ed. preparada por J. O. Urmson e M. S. Sbisà, Oxford,
Clarendon Press, 1975.
The Foundations of Arithmetic, Oxford, Blackwell, 1953. Tradução para
o inglês da obra de G. Frege: Die Grundlagen der Arithmetik, 1884.
"Critical Notice on J. Lukasiewicz's Aristotle's Syllogistic: From the Stand­
point of Modem Formal Logic" , Mind, 61, 1952, pp. 395-404.
"Report on Analysis Problem n2 1: What sort of "if' is the "if' of "I can if
I choose"?, Analysis, 12, 1952, pp. 125-126.
"Report on Analysis Problem n2 12: "AlI Swams are white or b1ack". Does
this Refer to Swans on Canals on Mars?" , Analysis, 18, 1958, pp .
97-99.
"Performatif-Constatif ', trabalho apresentado em 1958 no Colóquio de Ro­
yaumont. Publicado em La Philosophie Analytique, Paris, Cahiers de
Royaumont, Minuit, 1963, pp. 271-304.
Quando dizer é fazer 15
BlBUOGRAFIA SOBRE AUSTlN E A TEORIA OOS ATOS DE FALA*
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cipalmente os artigos de J. O. Urmson, "J. L. Austin" , pp. 232-238; S.
Hampshire, "J. L. Austin", pp. 239-247; J. O. Urmson e G. J. Warnock,
"J. L. Austin", pp. 248-249; e S. Cavell, "Austin at Criticism" pp. 250­
260.
SEARLE, J. R. Speech Acts, Cambridge Univ. Press, 1969.
NOTA BIOGRÁFICA
John Langshaw Austin nasceu em 1911 em Lancaster, Inglaterra, e fa­
leceu em 1960. Era casado e teve dois casais de fIlhos. Estudou Letras Clás­
sicas no BalHol College da Universidade de Oxford, onde sofreu a influência
do filósofo H. A. Prichard. Tomou-se fellow do AlI Souls College da Uni­
.. Trata-se apenas de uma relação de algumas das principais obras sobre Austin e a Teoria dos Atos
de Fala. A bibliografia nesta área é imensa, sobretudo no que diz respeito a artigos em periódicos es­
pecializadoo; remetemos o leitor hs referências bibliográficas encontradas nas proprias obras relacio­
nadas acima.
J. L. Austin
versidadc de Oxford, em 1933, e em 1935 do Magdulcn College. A pw-tir dl'
1952 ocupou a cátedra " White" de Filosofia Moral nessa universidade. Ou
rante a Segunda Guerra Mundial fez parte do Serviço de Wonnaçôcs do
Exército Britânico, chegando ao posto de tenente-coronel e recebendo várias
condecorações. Em 1955 apresentou as Conferências William James na Uni­
versidade de Harvard, nos Estados Unidos, que deram origem à prescnt
obra, e entre 1958 e 1959 apresentou uma série de conferências na Universi­
dade da Califórnia, em Berkeley, posteriormente publicadas como Sense al1d
Sensibilia.
Austin exerceu grande influência em Oxford em seu tempo, sendo fa­
mosos os seminários infonnais que realizava na universidade com alguns de
seus colegas, quando utilizavam o método de análise lingüística na discussão
de problemas fIlosóficos. Este grupo incluía, dentre outros, P. F. Strawson,
H. P. Grice, S. Hampshire, J. O. Urmson, G. J. Warnock, dando origem à
chamada Escola de OJford, embora a rigor não se possa dizer que consti­
tuíssem uma "escola" filosófica.
Quando dizer éfazer
16
17
Prefácio à 1 a e 2
a
edições inglesas
Prefácio à 1~ edição inglesa
As conferências que formam este livro foram apresentadas por Austin
na Universidade de Harvard, em 1955, como parte da série de "Conferências
William James". Em uma breve nota, Austin diz que as idéias que servem de
pano de fundo a estas conferências "se originaram em 1939. Vali-me delas
no artigo 'Outras Mentes' publicado nos Proceedings of the Aristotelian 50­
ciety, Supplementary volume XX (1946), pp. 173 e segs., e pouco depois fiz
emergir um pouco mais deste iceberg diante de diversas associações filosófi­
cas ... ". Durante LlS anos de 1952 a 1954, os cursos de Austin em Oxford
versaram sobre o tema "Palavras e Ações", utilizando-se ele de notas reela­
boradas a cada ano e que cobrem aproximadamente o mesmo campo que as
"Conferências William J ames". Para tais conferências, Austin preparou no­
vas notas, embora incorporando aqui e ali partes das anteriores. Elas consti­
tuem, portanto, as notas mais recentes de Austin sobre esses temas, embora
tenha continuado a dar cursos em Oxford sobre "Palavras e Ações" com ba­
se nas mesmas notas, fazendo apenas algumas pequenas correções e acrésci­
mos.
No presente volume reproduzimos as últimas notas de Austin, com um
mínimo de alterações e tão fielmente quanto possível. Se Austin, ele próprio,
as houvesse publicado, sem dúvida lhes teria dado uma forma mais apropria­
da. Certamente teria reduzido as recapitulações com que inicia a 2 ~ Confe­
rência e que se repetem nas demais. É igualmente certo que em sua apresen­
tação oral Austin desenvolvia o texto encontrado em suas notas. Porém, a
J. L. Austin
mruorla dos leitores preferirá contar com umü versúo heI do que se sabe qu
Austin escreveu, do que com uma versão do que ele suposttuncnte teria es­
crito caso tivesse preparado suas notas para publicação. ou ainda do que
pensamos que teria dito durante as conferências. Pequenas imperfeições da
fonna e do estilo, bem como inconsistências do vocabulário devem ser des­
culpadas e são o preço que devemos pagar por tê-las publicadas.
Mas as conferências aqui publicadas não reproduzem exatamente as
notas escritas por Austin. A razão é a seguinte. Se bem que em sua maior
parte, principalmente no começo das conferências, as notas sejam bastante
completas e redigidas em parágrafos inteiros, com pequenas omissões de ar­
tigos e outras partículas gramaticais; freqüentemente, ao [mal das conferên­
cias, tornam-se cada vez mais fragmentadas, sendo que os acréscimos à mar­
~ gem são abreviados. Nessas partes as notas foram interpretadas e comple­
mentadas recorrendo-se às notas de 1952-1954, acima mencionadas. Pode­
mos ainda compará-las com apontamentos tomados na Inglaterra e nos Esta­
dos Unidos por aqueles que assistiam à exposição oral, levando ainda em
conta a conferência na BBC, entitulada "Proferimentos Performativos" , e
uma gravação da conferência "Performativos" apresentada em Gotemburgo,
em outubro de 1959. No apêndice incluÚllos indicações mais completas des­
sas fontes auxiliares. Pode ter ocorrido que neste processo de interpretação
tenha aparecido no texto uma frase que Austin talvez não aprovasse; porém,
é pouco provável que em qualquer parte o pensamento de Austin, em suas
linhas básicas, tenha sido distorcido.
Agradeço a todos que me ajudaram através do acesso a seus aponta­
mentos e aos que me cederan1 a gravação. Meu especial agradecimento a G.
J. Warnock, que examinou todo o texto cuidadosamente e evitou que eu co­
metesse inúmeros erros. Graças a essa colaboração o leitor dispõe de um
texto bem mais aperfeiçoado.
1. O. Urmson
Prefácio à 2 ~ edição inglesa
A Ora. Marina Sbisà examinou todas as notas preparadas por Austi n
para estas conferências, comparando-as com o texto impresso da 1~ edição e
assinalando os pontos que lhe pareceram merecer revisão. Os editores exa­
minaram, então, conjuntamente as notas de Austin relativas a todos estes
pontos, após o que decidiram corrigir e aperfeiçoar o texto já impresso em
diversas passagens. Consideram que o novo texto é mais claro, mais com-
Quando dizer é fazer 18 19
pleto e, ao mesmo tempo, mais fiel ao que se encontra nas notas de Austin,
incluíram no apêndice uma transcrição literal de um certo número de acrés­
cimos feitos por Austin à margem ou nas entrelinhas de suas notas, cujo
entido não foi considerado suficientemente claro para que sua incorporação
ao texto pudesse auxiliar a leitura ou interessar o leitor.
Marina Sbisà
J. O. Urmson
o J. L. Ausrin
í]
J Conferência
Performativos e constatativos
o que tenho a dizer não é difícil, nem polêmico, O único mérito que
gostaria de reivindicar para esta exposição é o fato de ser verdadeira pelo
menos em parte. O fenômeno a ser discutido é bastante difundido e óbvio, e
não pode ter passado despercebido pelo menos em algumas instâncias. En­
tretanto, ainda não encontrei quem a ele tivesse se dedicado especificamente.
Por mais tempo que o necessário, os fIlósofos acreditaram que o papel
de uma declaração* era tão-somente o de " descrever" um estado de coisas,
ou declarar um fato, o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso. Os
gramáticos, na realidade, indicaram com freqüência que nem todas as sen­
tenças são (usadas para fazer) declaraçõesl , há tradicionalmente, além das
declarações (dos gramáticos), perguntas e exclamações, e sentenças que ex­
pressam ordens, desejos ou concessões. Os filósofos sem dúvida não preten­
"Traduzimos statement por " declaração" sentence oor "sentença", e utterance por "proferimento".
1\ sentença é entendida aqui como uma uni dade lingüfstica, possuindo uma estrutura gramatical e
dOlllda de significado, tomada em abstrato. A declaraç ão seria então o uso da sentença para afirmar
ou uegar algo, podendo ser falsa ou verdadeira. O proferimento é a emissão concreta e particular de
lIllIa sentença, em um momento determinado, por um falante determinado. Assim, a sentença da lín­
uo portuguesa, "A cosa é vermelha" pode ser usada para afirmar uma caracterfstica (ser vermelha)
de um objeto (a rosa) , o que pode ser verdadeiro ou falso, quando proferida por al guém em um con­
texto determinado. Estas di stinções são objeto de inúmeras controvérsias em Filosofia da Lingua­
,em, havendo extensa literatura a respeito. As definições que adotamos correspondem ao emprego
IlO por Austi n. (N. do T.)
1 Nilo é correto realmente Jizer que uma sentença seja uma declaração; na realidade ela é usada para
flUOr uma declaração, e u declaração em si é uma "construção 16gic,'l" tirada da feitura das declara­
çõos.
Qunndo dizer 6 fOJ.cr 21
deram negar tais coisas, apesar de seu uso um tanto vago de "sentença" co­
mo equivalente à "declaração". Tampouco se duvida que tanto os filósofos
quanto os gramáticos sempre perceberam não ser fácil distinguir até uma
pergunta, ou ordem, etc. de uma declaração, utilizando-se os poucos e inci­
pientes critérios gramaticais disponíveis como a ordem das palavras, modos
verbais, etc.; mas, talvez, não tenha sido dada, com freqüência, a atenção
devida às dificuldades que esse fato obviamente apresenta. Pennanece a dú­
vida sobre como decidir qual é a pergunta, qual é a ordem, qual é a declara­
ção. Quais são os limites e as defmições de cada uma?
Recentemente, porém, muitas das sentenças que antigamente teriam si­
do aceitas indiscutivelmente como "declarações", tanto por fIlósofos quanto
por gramáticos, foram examinadas com um novo rigor. Este exame surgiu, ao
menos em filosofia, de fonna um tanto indireta. De início apareceu, nem
sempre fonnulada sem deplorável dogmatismo, a concepção segundo a qual
toda declaração (factual) deveria ser "verificável", o que levou à concepção
de que muitas "declarações" são apenas o que se poderia chamar de pseudo­
declarações. Em um primeiro momento e de fonna mais óbvia, mostrou-se
que muitas "declarações", como Kant* primeiro sustentou de maneira siste­
mática, eram estritamente sem sentido, apesar de sua fonna claramente gra­
matical; e a contínua descoberta de novos tipos de sentenças sem sentido re­
sultou, a grosso modo, em um bem, por mais assistemática que fosse sua
classificação e misteriosa sua explicação. Contudo, até mesmo nós, os filóso­
fos, estabelecemos certos limites para a quantidade de sentenças sem sentido
que estamos dispostos a admitir. Com isto, passou-se a perguntar, em um se­
gundo estágio, se muitas das aparentes pseudodeclarações seriam realmente
"declarações" . Passou-se geralmente a considerar que muitos proferimentos
que parecem declarações não têm, ou têm apenas em parte, o propósito de
registrar ou transmitir infonnação direta acerca dos fatos. Por exemplo, as
"proposições éticas" talvez tenham propósito, no todo ou em parte, de mani­
festar emoção ou prescrever comportamento, ou influenciá-lo de modo espe­
ciaL Aqui também Kant deve ser considerado como um dos pioneiros. Nós,
muitas vezes, também usamos proferimentos cujas fonnas ultrapassam pelo
menos os limites da gramática tradicional. Já se reconhece que muitas pala­
vras que causam notória perplexidade quando inseridas em declarações apa­
rentemente descritivas não se destinam a indicar algum aspecto adicional
particularmente extraordinário da realidade relatada, mas são usadas para in­
"Truto-se de uma referência à distinção feita por Kant, na Critica da razão pura, entre os jufzos da
que representllm conhecimento, e os jufzos da metaffsica especulativa, que seriam meras
pfotcn8Õc.1 n conhecimento sem do fato virem a se constituir legilimamente em ciência. (N. do T.)
J. (Jo Austln
dicar (e não para relatar) as circunstâncias em que a declaração foi feita, as
restrições às quais está sujeita ou a maneira como deve ser)recebida, ou coi­
sas desse teor. Deixar de levar em conta tais possibilidades, como era co­
mum antigamente, denomina-se falácia "descritiva" , embora talvez este não
seja o nome adequado, já que o termo "descritiva" é por si mesmo específi­
co. Nem todas as declarações verdadeiras ou falsas são descrições, razão
pela qual prefIro usar a palavra "constatativa". Seguindo esta linha de pen­
samento, tem-se demonstrado atualmente de maneira minuciosa, ou pelo me­
nos tem-se procurado parecer provável, que muitas perplexidades filosóflCas
tradicionais surgiram de um erro - o erro de aceitar como declarações fac­
tuais diretas proferimentos que ou são sem sentido (de maneiras interessantes
embora não gramaticais) ou então foram feitos com propósito bem diferentes.
O que quer que pensemos sobre todas essas concepções e sugestões, ou
por mais que julguemos deplorável a confusão inicial em que mergulharam a
doutrina e o método ftlosófico, não cabe dúvida de que estão produzindo
uma revolução em ftlosofia. Se alguém quiser considerá-la a maior e mais
saudável das revoluções da história da ftlosofia, não será, se pensarmos bem
nisso, um exagero. Não é de surpreender que o início tenha sido fragmentá­
rio, com parti pris e com motivos extrínsecos, já que isso é comum às revo­
luções.
DELIMITAÇÃO PRELIMINAR DO PERFORMATIV02
o tipo de pro ferimento que vamos aqui considerar não consiste obvia­
mente em um caso de falta de sentido, embora o seu uso inadequado possa
gerar, como veremos, variedades muito especiais de "falta de sentido" (rwn­
sense). Trata-se sobretudo de um tipo de nosso segundo grupo - as expres­
sões que se disfarçam. Esse tipo, porém, não se disfarça sempre necessaria­
mente como declaração factual, descritiva ou constatativa. Mas o que pode
parecer estranho é que isto ocorre exatamente quando assume a sua forma
mais explícita. Creio que os gramáticos ainda não perceberam tal "disfarce"
e os filósofos só muito incidentalmente3. Será portanto, estudar
esse tipo de declaração, inicialmente sob esta fonna enganosa, para explici­
lar suas características, contrastando-as com as declarações factuais que elas
im.itam.
2 Tudo quanto for dito nestas seções é provis6rio e sujeito à reformulação à luz das seções posterio­
res.
de esperar-se que os juristas, mais que ninguém, se apercebessem do verdadeiro estado de coi­
• Talvez al guns agoro já se apercebom. Contudo, tendem a sucumbir à sua pr6pria ficção temerosa
que uma dcclaruçfto "de di reito" 6 umo declnroçllo de fato.
r 23
2
Como primeiros exemplos vamos tomar alguns proferimentos que não
podem ser enquadrados em nenhuma das categorias gramaticais reconheci­
das, exceto a de "declaração" ; tampouco constituem casos de falta de senti­
do, nem encerram aqueles indícios verbais de perigo que os filósofos j á de­
tectaram ou pensam haver detectado (palavras curiosas como "bom" e "to­
do", auxiliares suspeitos como " deve" (ought) ou " pode" (can) , e constru­
ções dúbias como as hipotéticas) . Todos terão, como é natural, verbos usuais
na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa4 . Po­
dem-se encontrar proferimentos que satisfaçam estas condições e
A. que nada "descrevam" nem "relatem", nem constatem, e nem sejam
"verdadeiros ou falsos";
B. cujo proferimento da sentença é, no todo ou em parte, a realização
de uma ação, que não seria normalmente descrita consistindo em
dizer algo.
Isto está longe de ser tão paradoxal quanto possa parecer ou quanto eu
possa ter feito parecer. Na realidade, os exemplos que daremos a seguir se­
rão decepcionantes.
Exemplos:
(a) "Aceito (scilicet), esta mulher como minha legítima esposa" - do
modo que é proferido no decurso de uma cerimônia de casamentos.
(b) "Batizo este navio com o nome de Rainha Elizabeth" - quando
proferido ao quebrar-se a garrafa contra o casco do navio.
(c) "Lego a meu irmão este relógio" - tal como ocorre em um testa­
mento.
(d) "Aposto cem cruzados como vai chover amanhã."
Estes exemplos deixam claro que proferir uma dessas sentenças (nas
circunstâncias apropriadas, evidentemente) não é descrever o ato que estaria
praticando ao dizer o que disse6, nem declarar que o estou praticando: é
fazê-lo. dos pro ferimentos citados é verdadeiro ou falso; considero
4 Isto é deliberado, todos são performativos "explfcitos", e do tipo "prepotente", que mais adiante
chamaremos "exercitivo". (Cf. Xli Conferência, N. do T.)
5 Austin percebeu que a expressão" Aceito" (I do) não é usada na cerimôni a de casamento tarde de
l11uis pura corrigir este erro. Deixamos o erro permanecer no texto por considerá- lo filosoficame nte
Irrelevante. (Nota de J. O. Urmson, editor).
O MuJto monos qualquer coisa que eu já tenha feito ou venha a fazer.
24 _______________________________________
• / •• Austil/
isto tão óbvio que sequer pretendo justificar. De fato, não é necessário justi­
ficar, assim como não é necessário justificar que " Poxa! " não é nem verda­
deiro nem falso. Pode ser que estes proferirnentos "sirvam para infonnar",
mas isso é muito diferente. Batizar um navio é dizer (nas circunstâncias
apropriadas) as palavras "Batizo, etc.". Quando digo, diante do juiz ou no
altar, etc., "Aceito" , não estou relatando um casamento, estou me casando.
Que nome daríamos a uma sentença ou a um proferimento deste tipo??
Proponho denominá-la sentença perfonnativa ou proferimento performativo,
ou, de forma abreviada, " um performativo". O tenno " perfonnativo" será
usado em uma variedade de formas e construções cognatas, assim como se
dá com o termo "imperativo".8 Evidentemente que este nome é derivado do
verbo inglês to perform, verbo correlato do substantivo "ação" , e indica C),ue
ao se emitir o proferimento está - se realizando uma ação, não sendo,
qüentemente, considerado um mero equivalente a dizer algo. /
Muitos outros termos podem ser sugeridos, cada um cobrindo uma ou
outra classe mais ou menos ampla de performativos. Por exemplo, muitos
performativos são "contratuais" ("Aposto"), ou "declaratórios" ("Declaro
guerra"). Mas nenhum termo de uso corrente que eu conheça é suficiente pa­
ra cobrir todos os casos. O termo técnico que mais se aproxima do que ne­
cessitamos seria talvez "operativo" , na acepção em que é usado pelos advo­
gados ingleses ao se referirem àquelas cláusulas de um instrumento legal que
servem para efetuar a transação (isto é, a transmissão de propriedade, ou o
que quer que seja) que constitui sua principal fmalidade, ao passo que o
resto do documento simplesmente "relata" as circunstâncias em que se deve
efetuar a transação.9 Mas "operativo" tem outros significados, e hoje é até
mesmo usado para significar quase a mesma coisa que "eficaz" . Preferi as­
sim um neologismo ao qual não atribuiremos tão prontamente algum signifi­
cado preconcebido, embora sua etimologia não seja irrelevante*.
7 As "sentenças" formam uma classe de "proferi mentos" , classe esta que deve ser definida, em mi­
nha opinião, gramaticalmente, embora duvide que já haja uma definição sati sfatória. Os proferi­
mentos performati vos se contrastam primordialmente com os proferimentos constatativos. Emitir
um proferi mento constatati vo (isto é, proferi -lo com uma referência histórica) é fazer uma declara­
ção. Emitir um proferimento performativo é, por exemplo, fazer uma aposta. Vide mais adiante em
"ilocuçóes'" .
8 Anteriormente usei "performatório". Mas deve-se proferir "performativo" por ser mais curto,
menos feio, mas fácil de usar e mais tradicional em sua formação.
9 Devo esta observação ao Professor H L A. Hart.
*Consideramos o termo "performati vo" preferfvel ao seu equivalente mais próximo em português
que seria " reltli zati vo" , correspondente à idéia de ação. Como o ternlO já se acha consagrado na lite­
r!ltum especiali zada e como se trata de termo técnico e neologismo cunhado por Austin, optamos por
monter O origina l, adapumdo-o para o português. (N. do T.)
úando dizer 6 fltzer ______________________ 25
..­
PODE O DIZER REALIZAR O ATO?
Cabe perguntar, então, se podemos fazer afmnações como:
"Casar-se é dizer umas tantas palavras", ou
"Apostar é simplesmente dizer algo"?
Tal doutrina poderia, a princípio, parecer estranha e até mesmo imper­
tinente, mas com as precauções necessárias pode deixar de causar estranhe­
za.
Uma primeira objeção ponderável ou importante seria a seguinte: é
possível realizar-se um ato do tipo a que acima nos referimos sem proferir
uma única palavra, seja escrita, seja oral, mediante outros meios? Por exem­
plo, em algumas culturas, um casamento pode ser efetuado por coabitação,
ou posso apostar valendo-me de uma máquina automática colocando uma
moeda em sua ranhura. Assim, deveríamos transformar as proposições acima
e afIrmar que "dizer determinadas palavras é casar-se", ou "casar-se, em al­
guns casos, é simplesmente dizer algumas palavras", ou "apenas dizer de­
terminada coisa é apostar".
Mas a verdadeira razão por que tais observações parecem perigosas se
encontra provavelmente em um outro fato óbvio, ao qual teremos que nos re­
ferir mais tarde com maiores detalhes. Trata-se do seguinte: geralmente o
proferimento de certas palavras é uma das ocorrências, senão a principal
ocorrência, na realização de um ato (seja de apostar ou qualquer outro) , cuja
realização é também o alvo do proferirnento, mas este está longe de ser, ain­
da que excepcionalmente o seja, a única coisa necessária para a realização
do ato. Genericamente falando, é sempre necessário que as circunstâncias
em que as palavras forem proferidas sejam, de algum modo, apropriadas;
freqüentemente é necessário que o próprio falante, ou outras pessoas, tam­
bém realize determinadas ações de certo tipo, quer sejam ações "físicas" ou
" mentais", ou mesmo o proferimento de algumas palavras adicionais. Assim,
para eu batizar um navio é essencial que eu seja a pessoa escolhida para fa­
zê-Ia; no casamento (cristão) é essencial para me casar que eu não seja casa­
do com alguém que ainda vive, que é são e de quem não me divorciei, e as­
sim por diante; para que uma aposta se concretize, é geralmente necessário
que a oferta tenha sido aceita pelo interlocutor (que deve fazer algo, como
dizer "Feito") e uma doação não se realiza caso diga "Dou-lhe isto" , mas
não faça a entrega do objeto.
------------_______________J. L. Austin
Até aqui, tudo bem. Uma ação pode ser realizada sem a utilização do
proferimento performativo, mas as circunstâncias, incluindo outras ações.
sempre têm que ser apropriadas. Mas podemos, ao fazer uma objeção, ter em
mente algo totalmente diferente e desta vez bastante equivocado, especial­
mente quando pensamos em alguns dos performativos mais solenes, tais co­
mo "Prometo ... " . Por certo que estas palavras têm de ser ditas "com serie­
dade" e de modo a serem levadas "a sério". Embora um tanto vago, isto é
bem verdade de modo geral , e é também um importante lugar comum em to­
da discussão que envolva um proferimento. Não devo estar, digamos, pilhe­
riando ou escrevendo um poema. Mas temos a tendência a pensar que a se­
riedade das palavras advém de seu proferimento como (um mero) sinal ex­
terno e visível, seja por conveniência ou outro motivo, seja para [ms de in­
formação, de um ato interior e espiritual. Disto falta pouco para que acredi­
temos ou que admitamos sem o perceber que, para muitos propósitos, o pro­
ferimento exteriorizado é a descrição verdadeira ou falsa da ocorrência de
um ato interno. A expressão clássica desta idéia encontra-se no Hipólit,
(1.612)* , onde Hipólito diz,
, I
,
<. \ )
\I\.,
Jl
crFV/ V L Oj
isto é, "minha língua jurou, mas meu coração (ou mente, ou um outro ator
nos bastidores)l f1 não o faz" . Assim, "Prometo ... " me constrange - registra
meu vínvulo a "grilhões espirituais" .
É gratifIcante observar, no mesmo exemplo, como o excesso de profun­
didade, ou melhor, de solenidade, abre o caminho da imoralidade, pois
aquele que diz "prometer não é apenas uma questão de proferir palavras! É
um ato interior e espiritual!", tenderá a parecer um sólido moralista frente a
uma geração de teóricos superficiais. Vemo-lo como ele se vê, examinando
as profundezas invisíveis do espaço ético, com toda a distinção de um espe­
cialista do sui generis. No entanto, ele propicia a Hipólito uma saída, ao bí­
gamo uma desculpa para seu "Aceito" e ao vigarista uma defesa para seu
" Aposto". A exatidão e a moralidade estão, ambas, do lado da simples aflf­
mativa de que nossa palavra é nosso penhor.
Se excluirmos atos interiores fictícios como esse, podemos supor que
todas as demais coisas que certamente são exigidas para completar normal­
* lfipÓlieo. tragédia gregll clássicu de autoria de Eurfpedes. (N. {lo T.J.
10 Mio quero com isso eliminar toda a " equi pe dos - os iluminudorcs, o cenógrafo,
mesmo continufsm; minha objeção é uperuls contro certos " ntores substitutos ofi ciosos".
_______________________________. 2
QULlml o dlLcr <5 rOI.CI'
2
menle um proreri anento <.lo tipo " Prometo que ..... ou " Aceito (esta mu­
lher ... )" são de fato descritas pelo proferimento e, por conseguinte, com sua
presença fazem-no verdadeiro ou, com sua ausência, fazem-no falso? To­
mando a segunda alternativa em primeiro lugar, passamos a considerar o que
realmente dizemos do proferimento em questão quando alguns de seus com­
ponentes elementares está ausente. Nunca dizemos que o proferimento era
falso, mas sim o proferimento - ou melhor, o atol! , isto é, a promessa - foi
vã, ou feita de má-fé, ou não foi levada a cabo, ou coisa semelhante. No ca­
so particular das promessas, e também de muitos outros perfonnativos, é
apropriado que a pessoa que profere a promessa tenha uma detenninada in­
tenção, a saber, a intenção de cumprir com a palavra. Talvez entre todos os
componentes este pareça o mais adequado para fazer o "Prometo" descrever
ou registrar. Não é verdade que quando tal intenção está ausente nós fal amos
de uma "falsa" promessa? E no entanto falar assim não é dizer que o profe­
rimento "Prometo que... " seja falso, no sentido de que, embora a pessoa
afmne que promete, não o faz, ou que ao descrever o que está fazendo dê
uma descrição distorcida. Pois a pessoa realmente promete: a promessa aqui
não é sequer vã, embora feita de má-fé. O proferimento talvez seja deso­
rientador, provavelmente fraudulento e sem dúvida incorreto, mas não é uma
mentira nem um engano. No máximo poderíamos dizer que o proferimento
sugere ou insinua uma falsidade ou um engano (já que há a intenção de fazer
algo); mas isso é um problema muito diferente. Além do mais, não dizemos
que uma aposta é falsa ou que um batismo é falso. E o fato de dizennos que
uma promessa é falsa não nos compromete mais seriamente do que falar de
um passo em falso. "Falso" não é necessariamente usado apenas para dec1a­
rdções.
11 Evitamos di sti nguir entre um e outro precisamente porque a distinção não se encontra aqui em
quoslllo.
!l J. L. Allstin
11 Conferência
Condições para performativos
felizes
Como devem estar lembrados, Íamos considerar alguns (apenas al­
guns, felizmente!) casos e sentidos em que dizer algo é fazer algo; ou em que
por dizermos, ou ao dizennos algo estamos fazendo algo. Este tópico é um
desenvolvimento, entre outros, de uma tendência recente de questionar um
antigo pressuposto filosófico: a idéia de que dizer algo, pelo menos nos ca­
sos dignos de consideração, isto é, em todos os casos considerados, é sempre
declarar algo. Esta é uma idéia inconsciente e, sem dúvida, errônea, mas, ao
que parece, perfeitamente natural em Filosofia. Temos de aprender a correr
antes de sabennos andar. Se nunca cometêssemos erros, como poderíamos
corrigi-los?
Comecei por chamar a atenção, mediante exemplos, para alguns profe­
rimentos simples do tipo conhecido como perfonnatórios ou performati vos.
Estes proferimentos têm a aparência - ou pelo menos a fonna gramatical ­
de "declarações"; observados mais de perto, porém, resultam ser proferi­
mentos que não podem ser " verdadeiros" ou "falsos". No entanto, ser "ver­
dadeiro" ou "falso" é tradicionalmente a marca característica de uma decla­
ração. Um de nossos exemplos era o proferimento "Aceito" (esta mulher
como minha legítima esposa ... ), quando proferido no decurso de uma ceri­
mônia de casamento. Aqui devemos assinalar que ao dizer esta palavra esta­
mos fazendo algo, a saber, estamos nos casando e não relatando algo, a sa­
ber, o fato de nos estarmos casando. E o ato de casar, como, digamos, o ato
de apostar, por exemplo, deve ser de preferência descrito (ainda que de mo-
Quando dizer 6 fazer 2
do inexato) como wn ato de dizer certas palavras, e não como a realização
de um ato distinto, interior e espiritual, de que tais palavras são meros sinais
externos e audíveis. Que isso seja assim, dificilmente pode ser provado, no
entanto me atrevo a afIrmar que se trata de um fato.
Segundo estou informado, no direito processual norte-americano o re­
lato do que se disse vale como prova, caso o que tenha sido dito seja um
proferimento do tipo que chamamos de performativo, porque este é conside­
rado um relato com força legal, não pelo que foi dito, o que resultaria em um
testemunho de segunda mão - não admissível como prova - mas por ter sido
algo realizado, uma ação. Isto coincide perfeitamente com nossa intuição
inicial a respeito dos pro ferimentos performativos.
Até aqui sentimos apenas ruir, sob nossos pés, a sólida base de um pre­
conceito. Mas como devemos agir daqui em diante como filósofos? Uma coi­
sa poderíamos fazer, naturalmente. Poderíamos começar tudo de novo, ou
então caminhar lentamente através de etapas lógicas. Mas tudo isso levaria .
tempo. Primeiro, vamos concentrar nossa atenção em um detalhe já mencio­
nado de passagem - a questão das "circunstâncias adequadas". Apostar não
é, como já assinalei, simplesmente proferir as palavras " Aposto... etc.".
Com efeito, alguém poderia dizer tais palavras e mesmo assim poderíamos
discordar de que tivesse de fato conseguido apostar. Para comprovar o que
acabo de dizer basta, digamos, propor a nossa aposta após o término da cor­
rida de cavalos. Além do proferimento das palavras chamadas performativas,
muitas outras coisas em geral têm que ocorrer de modo adequado para po­
dermos dizer que realizamos, com êxito, a nossa ação. Quais são essas coisas
esperamos descobrir pela observação e classificação dos tipos de casos em
que algo sai errado e nos quais o ato - isto é, casar, apostar, fazer um lega­
do, batizar, etc. - redunda, pelo menos em parte, em fracassar. Em tais casos
não devemos dizer de modo geral que o proferimento seja falso, mas malo­
grado. Por 'esta razão chamamos a doutrina das coisas que podem ser ou re­
sultar malogradas, por ocasião de tal proferimento, de doutrina das infelici­
dades.
Tentemos enunciar esquematicamente, sem reivindicar para tal esquema
qualquer caráter defmitivo, pelo menos algumas das coisas necessárias para
o funcionamento, feliz ou sem tropeços, de um pro ferimento performativo
altamente desenvolvido e explícito, o único, aliás, que nos preocupa aqui. A
seguir daremos exemplos de infelicidades e de suas conseqüências. Receio, e
espero, naturalmente, que estas condições necessárias pareçam óbvias.
30 _J. L. Austin
(A, I xistir um procedimento convc! /lciollullllcnl , l lll
apresente um deterrmnudo efeito convencional c qu incluo o
prorerimento de certas palavras, por certas pessoas, e mceltas
circunstâncias; c al ém disso, qu
(A.2) as pessoas e circunstâncias particulares, em cada caso, devem
ser adequadas ao procedimento especffi co invocado.
(8. 1) O procedimento tem de ser executado, por todos os participan­
tes, de modo correto e
(8. 2) completo.
(1' . 1) Nos casos em que, como ocorre com freqüência, o procedimento
visa às pessoas com seus pensamentos e sentimentos, ou visa li
instauração de uma conduta correspondente por parte de alguns
dos participantes, então aquele que participa do procedimento, c
o invoca deve de fato ter tais pensamentos ou sentimentos, e os
participantes devem ter a intenção de se conduzirem de maneira
adequada,! e, além disso,
(r .2) devem realmente conduzir-se dessa maneira subseqüentemente.
Ora, se transgredirmos uma dessas seis regras, nosso proferime nto per­
formativo será, de uma forma ou de outra, malogrado. Mas é claro que há di­
ferenças consideráveis entre as diversas " maneiras" de ser malogrado - ma­
neiras que, esperamos, estejam assinaladas pelas letras e números seleciona­
dos para cada item.
A primeira grande distinção reside na opinião entre o conjunto das
quatro regras A e B e as duas regras r . Daí o uso de letras latinas em oposi­
ção à letra grega. Se violamos uma das regras de tipo A ou B - isto é, se
proferimos a fórmula incorretamente, ou se as pessoas não estão em posição
de realizar o ato seja porque, por exemplo, já são casadas, seja porque foi o
comissário e não o capitão do navio quem realizou o casamento, então o ato
em questão (o casamento) não se realiza com êxito, não se efetua, não se
concretiza. Nos dois casos, ao contrário, o ato é concretizado, embora reali­
zá- lo em tais circunstâncias, digamos, quando, por exemplo, somos insince­
ros, seja um desrespeito ao procedimento. Isto se passa quando digo " pro­
meto" sem ter a intenção de cumprir o prometido, prometi mas ... Precisamos
de nomes para nos referirmos a esta distinção geral, por isso chamaremos de­
sacertos os atos malogrados do tipo A. I-B .2, em que não se consegue levar a
cabo o ato para cuja realização, ou em cuja realização, é indispensável a
1 Scrd expli cado depoi s por que o fato de se ter estes pensamentos, sentimentos e intençOes MO csUl
lnclufdo dentre as OUlrJS "circunst.!\ncias" j d consideradas em (A).
QUW1do dizer é fazer 31
fonna verbal correspondente. Por outro lado, chamaremos de abusos aqueles
atos malogrados (de tipo r) em que a ação é concretizada (obviamente não
se devem enfatizar as conotações usuais destes termos) .
Quando o proferimento for um desacerto, o procedimento invocado é
esvaziado de sua autoridade e assim nosso ato (casar, etc. ) é nulo ou sem
efeito. Em tais casos dizemos que nosso ato foi tão-somente intencionado ou,
ainda, que foi uma mera tentativa; ou usamos expressões como: " foi uma
forma de união" em oposição a "casamos". Por outro lado, nos casos de tipo
r dizemos que o ato malogrado foi "professado" ou "vazio", em vez de di­
zer que foi " pretendido" ou " nulo". Dizemos que não foi levado a cabo ou
que não foi consumado, em vez de chamá-lo de nulo ou sem efeito. Mas
apresso-me a acrescentar que tais distinções não são rígidas e fixas e, mais
particularmente, que termos como "pretendido" e "professado" não resisti­
rão a um exame mais rigoroso. Duas palavras finai s acerca dos atos nulos ou
sem efeito. O fato de um ato ser nulo ou sem efeito não quer significar que
nada tenha sido feito; pelo contrário, muitas coisas podem ter sido feitas.
Através deles podemos ter cometido um ato de bigamia, sem termos realiza­
do o ato pretendido, a saber, casar. Isto porque, a despeito do nome, o bíga­
mo não se casa duas vezes. (Em resumo, a álgebra do casamento é boolea­
na*.) Além disso, sem efeito, aqui, não significa o mesmo que " sem conse­
qüências, resultados ou efeitos".
A seguir devemos tentar esclarecer, no que diz respeito aos desacertos,
a distinção geral entre os tipos A e B. Nos dois casos classificados como A
existe uma má invocação de um procedimento, sej a porque não há, de modo
geral, um procedimento, seja porque o procedimento em questão não conse­
gue efetivar-se de maneira satisfatória. Daí as infelicidades do tipo A pode­
rem ser chamadas de "más invocações" . Dentre elas podemos arrazoada­
mente batizar o segundo tipo (isto é, A. 2) - em que existe um procedimento,
mas que não foi aplicado como se pretendia - de "má aplicação" . Infeliz­
mente, porém, não consegui encontrar um bom nome para o primeiro tipo
(isto é, A.I ). Em contraste com A, o procedimento nos casos B é correto e
válido, mas a execução do ritual, por ter sido prejudicada, gera conseqüên­
cias mais ou menos desastrosas. Assim, os casos B, em oposição aos casos
A, serão chamados "más execuções", em oposição a "mas invocações". O
ato pretendido fica prejudicado por uma falha ou tropeço na condução da ce­
rimônia. A classe B.I é a dasfalhas, e a classe B.2 é a dos tropeços.
'" Isto é, apenas dois valores: verdadeiro ou falso. Referência ao sistema algébrico formul ado em
meados do séc. XI X pelo 16gico e matemátiéo inglês George Boole. (N. do T.)
J. L. Austin
Assim, temos o seguinte
In rcll vld,ldcs
1\13 I'
I
Desacertos I\husos
Atos pretendidos mas nulos A tos pro fessados mas vazios
/ \ I \
1\ ti r.1 r ')
Más Más eXeL'lleJ)CS Insinceridades
,)
ato rejeitado ato prejudicado
I \ / \
A.l A.2 B.I H,2
'I
Más
falhas Tropeços
aplicações
Não me surpreende que haja dúvidas acerca de A.l e r .2, mas vamos
adiar sua consideração para mais tarde .
Antes de entrar em detalhes, desejo fazer algumas observações gerais
sobre as infelicidades. Podemos indagar:
(1) A que variedade de "ato" se apl ica a noção de infelicidade?
(2) Até que ponto está completa a classificação das infelicidades aci­
ma?
(3) Os vários tipos de infelicidade se excluem mutuamente?
Analisemos estas indagações seguindo a ordem acima.
2 Austin dc vcz em quando usa outros nomes para as diferentes infelicidades. Por serem de interesse
aJlluns são registrados aq ui . A. I não-atuação, A.2 má atuação; B. fracassos, B.I más execuções, O.
nüo-execuções, r . desrespeitos, r .1 dissimulações, r . 2 não realizações, deslealdades, infraçOes,
indisciplinas, rupturas, (N. de ./.0. Unnsoll).
'" Austin joga com o prefixo inglês lI1is, indicativo de erro, falha ou falta. ao formular a mo.lorlo
destes conceitos. Assim temos: lI1is.fire (desacerto), misillvocatioll (má invocação), miSe,ICCltlÍolI (m6
execução) e mi.sllpplicatiorl má aplicação). Entretanto, como o pr6pri o Austi n IlSsi nalu, estes termos
MO devem ser tomados em seu sentido literal, mas de acordo com n defi niçfio dada no texto. (N. d,
7'.).
Quando dizer 6 fazer _ "" 32
(l) Qual o alcance da infelicidade?
Em primeiro lugar, embora isto possa nos ter estimulado (ou deixado
de estimular) em relação a certos atos que são, no todo ou em parte, "atos de
proferir palavras" , parece evidente que a infelicidade é um mal herdado por
todos os atos cujo caráter geral é ser ritual ou cerimonial, ou seja, por todos
os atos convencionais. Não se trata de que todos os rituais ou todos os pro­
ferimentos performativos sejam passíveis de todas as formas de infelicidade.
Isto é óbvio, quanto mais não seja pelo simples fato de que muitos atos con­
vencionais, tais como apostas e legados de propriedade, podem ser realiza­
dos por meios não-verbais. Os mesmos tipos de regras têm de ser observados
em todos estes procedimentos convencionais, basta omitir a referência espe­
cial ao pro ferimento verbal em nosso caso A. Isto pelo menos é óbvio.
Mas importa também chamar a atenção para os inúmeros "atos" que
dizem respeito ao jurista, seja por serem performativos ou por incluírem pro­
ferimentos de performativos, seja por serem ou incluírem a realização de al­
gum procedimento convencional. Neste contexto pode-se ver que, de um
modo ou de outro, os autores de jurisprudência constantemente demonstra­
ram perceber os diversos tipos de infelicidade, e por vezes até mesmo as pe­
culiaridades do proferimento performativo. Apenas a obsessão generalizada
de que os pro ferimentos legais e os proferimentos usados em, digamos, "atos
legais" , tenham que ser de algum modo declarações verdadeiras ou falsas
impediram os juristas de perceber esta questão com mais clareza do que nós.
Por isto não ousaria afirmar que nenhum jurista o tenha feito. Para nós,
contudo, é de importância mais primordial perceber que, pela mesma razão,
um grande número de atos que se incluem no campo da ética não são, em úl­
tima análise, como os filósofos se apressam em afmnar, meros movimentos
f1sicos: . Muitíssimos deles têm o caráter geral, no todo ou em parte, de atos
convencionais ou rituais e assim estão, entre outras coisas, expostos à infeli­
cidade.
Por último, podemos perguntar - e aqui sou forçado a pôr minhas car­
tas na mesa - se a noção de infelicidade se aplica a pro ferimentos que sejam
declarações. Até aqui mostramos a infelicidade como um traço característico
" i\uslin critica aqui uma tradição positivista e cientificista que reduz a ação humana a suas caracte­
rlsticas de movimento f(sico apenas, podendo assim ser explicada através de leis causais no sentido
natural. Chama a atenção para a necessidade de levar em conta os aspectos intencionais e convencio­
nuis na interpretação da ação humana. Contemporaneamente, na tradição analítica, a Filosofia da
i\ çllo tem retomado estas discussões que servem de pano de fundo para o conceito de ação envolvido
na Teoria dos Atos de Fala. Vejam-se, p.ex., dentre outros: A.1. Goldman (1970) A Theory ofHuman
Actioll. Ncw Jersey; Prentice-Hall, D. Davidson (1980) Essays on Actions and Events, Oxford Univ.
Press; A. White (org.) (1968) The Phi/osophy ofAction, Oxford Univ. Press. (N. do T.).
J. L. Austin
do proferimcnto performativo, que foi "deOnldo" (/lO assim podemos dizer)
basicamente em oposição à "declaração" já tida como supostamente conlv'-­
cida. A esta altura, importa, porém, salientar que uma das coisas que os tll
sofos fazem ultimamente é examinar com atenção certo tipo de sen­
tenças declarativas que, embora não exatamente fal sas nem contradit6rias,
parecem, contudo, absurdas - por exemplo, afmnações que se referem ti algo
que não existe, como: "O atual rei da França é careca".* Poderíamos ser le­
vados a aproximar isto da intenção de doar algo que não possuímos. Não há
uma pressuposição de existência em ambos os casos? Não se trata de uma
declaração que se refere a algo que não existe, e que não é propriamente fal­
sa, mas nula? E quanto mais consideramos uma declaração, não como uma
sentença ou proposição, mas como um ato de fala (a partir do qual os demais
são construções lógicas), tanto mais estamos considerando a coisa toda como
um ato. Ou, ainda, há semelhanças óbvias entre uma mentira e uma promessa
falsa. Teremos que voltar a este assunto mais tarde3.
(2) Nossa segunda pergunta foi: até que ponto é completa esta classifi­
cação?
(I) A primeira coisa a ter presente é a seguinte: se ao proferir nossos
performativos estamos de modo efetivo e em sentido inequívoco "realizando
ações", então estes performativos enquanto ações estarão sujeitos às mesmas
deficiências que afetam as ações em geral. Mas tais deficiências são distintas
- ou distinguíveis - do que chamamos de infelicidade. Quero com isto dizer
que as ações em geral, não todas, são passíveis, por exemplo, de serem exe­
cutadas com dificuldade, ou por acidente, ou devido a este ou àquele tipo de
engano, ou, mesmo, sem intenção. Em muitos desses casos não cabe dizer
simplesmente que tal ato foi realizado ou, mesmo, que alguém o praticou.
Não estou aqui no âmbito da doutrina geral, pois em muitos destes casos po­
demos mesmo dizer que o ato foi nulo (ou tomado nulo pela coação ou ainda
por influência indevida) e assim por diante. Ora, suponho que uma doutrina
eral de nível superior possa incluir em um único corpo doutrinário tanto O
de exemplo famoso, anaJisado por Bertrand Russell em seu artigo "On Denotillg" (1905), li
propósito da questão da aparente falta de sentido de sentenças que, como esta, não possuem umO re­
rorencia atual. Estn discussão é retomada posteriormente por P. F. Strawson, em seu artigo, tamb6m
oldssleo, "On Refening" (1950), que é um comentário e uma crftiea ao de Russell. Ambos os artigos
nconlmm-se troduzidos para o portugutls e publicados pela ed. Abril, S. Paulo, no coleção "Os
(lcnsudores", nos volumes relativos nos respectivos autores. (N. do T.).
./lIfro. pp. 47 e S8.
_____________ 35
unndo dizer ó razer 34
que chamamos infelicidade quanto estes aspectos "infelizes" da realização
de ações - isto é, atos que contêm um proferimento perfonnativo. Mas por
nuo incluir em nossa análise esse tipo de infelicidades, importa lembrar que
tais elementos podem imiscuir-se em quaisquer dos casos que estamos discu­
tindo, o que, aliás, com freqüência acontece. Elementos deste tipo poderiam
ser normalmente rotulados de "circunstâncias atenuantes" ou ainda de " fato­
res redutores ou anulatórios da responsabilidade do agente", e assim por
diante.
(lI) Em segundo lugar, os performativos enquanto proferimentos her­
dam também outros tipos de males que infectam todo e qualquer proferi­
mento. Estes, porém, embora possam ser enquadrados em uma regra mais ge­
ral, foram, no momento, deliberadamente excluídos. O que quero dizer é o
seguinte: um proferimento performativo será, digamos, sempre vazio ou nulo
de uma maneira peculiar, se dito por um ator no palco, ou se introduzido em
um poema, ou falado em um solilóqUIO, etc. De modo similar, isto vale para
todo e qualquer pro ferimento , pois trata-se de uma mudança de rumo em cir­
cunstâncias especiais. Compreensivelmente a linguagem, em tais circunstân­
cias, não é lavada ou usada a sério, mas de forma parasitária em relação a
seu uso normal, forma esta que se inclui na doutrina do estiolamento da lin­
guagem*. Tudo isso fica excluído de nossas considerações. Nossos proferi­
mentos performativos, felizes ou não, devem ser entendidos como ocorrendo
em circunstâncias ordinárias.
(III) Pelo menos por ora, o objetivo de excluir esta espécie de conside­
ração é que me levou a não apresentar um tipo de "infelicidade" - já que
realmente pode ser assim chamado - que se deriva do "mal-entendido". Ob­
viamente é necessário que para haver prometido eu tenha normalmente que:
(A) ter sido ouvido por alguém, talvez a pessoa a quem prometi;
(B) ter sido entendido por esta pessoa como tendo prometido.
Se uma outra destas condições não for satisfeita, aparecerão dúvidas
quanto ao fato de eu ter realmente prometido, e pode-se considerar que o ato
foi meramente um intento, ou que foi nulo. Precauções especiais são tomadas
em Direito para evitar essas e outras infelicidades, por exemplo, na apresen­
tação de ordens ou nodificações legais. Esta importante consideração terá
que ser tratada em particular mais tarde em outro contexto.
*0 termo "estiolamento" significa literalmente perda de cor e vitalidade, de ti nhamento , enfraque­
cimento, e é aplicado por Austin para caracterizar o "enfraquecimento" que um ato de fala sofre ao
ser utilizado em um contexto não- literal, de "faz-de-conta", com o teatro, a ficção, etc. (N. do T.).
36 ____
_________ J. L. Austin
(3) Os cosos de infelicidado acima {ulolados cxlucm·sc mutuamente', A
resposta é 6bvia.
(a) Não, no sentido em que podemos nos enganar de duas maneiras a
mesmo tempú, ao prometer insinceramente a um asno dar-lhe uma cenoura.
(b) Não, sobretudo no sentido em que as formas de errar "se sobrl
põem" e "se confundem" e a decisão entre elas acaba por ser "arbitrária" .
Suponhamos, por exemplo, que haja um navio nas docas de um estalei­
ro. Aproximo-me e, quebrando a garrafa presa à proa, proclamo: "Batizo
'8te navio com o nome de "Senhor Stalin" e para completar solto as amar­
ras. A dificuldade, porém, está no fato de não ter sido eu a pessoa escolhida
para batizá-lo (quer o nome "Senhor Stalin" fosse ou não o escolhido; talve
de certa forma seria até pior se o fosse). Todos concordamos que:
(1) o navio não foi batizado por este at04;
(2) foi um terrível vexame.
Pode-se dizer que "fingir" ter batizado o navio, que meu ato foi "nu­
lo" ou "sem efeito", por não ser eu a pessoa indicada ou não ter a "capaci­
dade" 'de realizá-lo. Por outro lado, poder-se-ia também dizer que em casos
onde sequer há pretensão à capacidade ou direito a ela tampouco existem
procedimentos convencionais aceitos. Tratam-se de farsas, como casar-se
com um macaco. Poderíamos dizer também que parte do procedimento é a
pessoa vir a ser designada para praticar o ato. Quando o santo batizou os
pingüins, poderíamos nos perguntar se seu ato foi nulo por que o procedi­
mento de batismo não se aplica a pingüins, ou por que não há procedimento
aceito de batizar qualquer ser que não seja humano? Estas questões, em meu
ntender, não têm importância teórica, embora seja de interesse investigá-las
e, na prática, é conveniente estar familiarizado, como os juristas, com a ter­
minologia apta a lidar com elas.
4 OOlizru uma criança seria ainda mais di fl"cil. Podemos ter o nome errado e o sacerdote errado, isto 6,
ohlll6m capacitado a batizar bebês, mas não escol hido para batizar aquele bebê em particular.
uando dizer é fozer 37
É3
111 Conferência
Infelicidades: desacertos
Na primeira conferência caracterizamos, de modo preliminar,o proferi­
mento performativo como aquela expressão lingüística que não consiste, ou
não consiste, apenas, em dizer algo, mas em fazer algo, não sendo um relato,
verdadeiro ou falso, sobre alguma coisa. Na segunda, chamamos a atenção
para o fato de que, embora não seja sempre verdadeiro ou falso, o proferi­
mento está sempre sujeito à crítica, podendo ser infeliz, e assim sendo apre­
sentamos uma lista de seis desses tipos de infelicidades. Dentre estas, quatro
eram de tal ordem que tomavam o pro ferimento um desacerto, e o ato inten­
cionado nulo e vão, e, como tal, sem surtir qualquer efeito, enquanto que as
demais, ao contrário, faziam do ato pretendido um mero abuso de procedi­
mento. Assim, armamo-nos, ao que parece, com dois novos e brilhantes con­
ceitos com os quais podemos romper o berço da Realidade, ou, quiçá, da
Confusão. Duas novas chaves em nossas mãos e, ao mesmo tempo, dois no­
vos patins em nossos pés. Em filosofia, estarmos previamente armados deve­
ria significar estarmos prevenidos. Depois, estendi-me um pouco mais na
discussão de algumas questões gerais acerca do conceito de infelicidade e
em seu lugar propus um novo mapa para a área. Sustentei (1) que a noção de
infelicidade aplicava-se a todos os atos cerimoniais e não apenas aos atos
verbais, e que estes são mais freqüentes do que se crê; admiti (ll) que a lista
não era completa, e que existem outras dimensões do que se pode razoavel­
mente chamar de "infelicidades" que afetam de modo geral a realização de
atos cerimoniais e de proferimentos em geral, dimensões que são certamente
J. L. Austin
(llJ) quc di rcrcntc:i IIllclicluadt.:1l pOUCIll combUlI1I
se ou sobrepor-sc, tornando-se uma questão mais ou menos opcional a 11111­
neira de classificar um dctenninado exemplo particular.
A seguir, cabe tomar alguns exemplos de infel icidades ou de infruçocs
de nossas seis regras. Primeiro, quero lembrar-lhes a regra A.I, aftmltlntl
que deve haver um procedimento convencional aceito que tenha um detcrl1li
nado efeito convencional, tal procedimento incluindo o proferimento de c ~ r .
tas palavras por certas pessoas em certas circunstâncias, e a regra A.2, com­
plementar da primeira, estabelecendo que as pessoas e as circunstâncias es­
pecíficas têm de ser, em um determinado caso, adequadas para a invocacüo
do procedimento específico referido.
A.l Deve existir um procedimento convencionalmente aceito que p
duz um efeito convencional, tal procedimento devendo incluir o profcri­
mento de determinadas palavras, por detenninadas pessoas e em detennina­
das circunstâncias.
A segunda parte do enunciado acima desti na-se simplesmente a restrin­
gir a regra a casos que envolvem proferimentos, não sendo, em prindp.io,
importante.
Nossa formulação desta regra contém as palavras "existir" e "aceito",
mas poderíamos com razão perguntar não só se "existir" pode ter algum
sentido que não seja o de "ser aceito", como também se "estar (em geral)
em uso" não deveria ser preferível a essas duas palavras. Se assim for, não
mai s deveríamos dizer "(I) existir, (lI) ser aceito". Por força de tal objeçã
examinemos esta questão no que diz respeito à palavra "aceito".
Se alguém emite um pro ferimento performativo, e se o pro ferimento
classificado como um desacerto pelo fato de o procedimento invocado n6
ter sido aceito, trata-se presumivelmente não do falante , mas de uma pessoa
que não o aceita (pelo menos na medida em que o falante fala a sério) . O que
poderíamos tomar como exemplo? Consideremos "Peço divórc io", dito p
um marido à sua esposa, ambos cristãos e não muçulmanos, em um paIS
cristão. Neste caso poderia ser dito "não obstante ter pedido o divórcio, 01
não conseguiu divorciar-se dela; admitimos neste país apenas um outro pro­
cedimento verbal ou não-verbal", ou, até mesmo, " não admitimos neste país
nenhum procedimento para efetivar um divórcio, o casamento é indissolú­
vel". Isto pode chegar ao ponto de se rejeitar todo um c6digo de procedi­
mento - por exemplo o código de honra que inclui o duelo. Assim. um d('<;a.
fio poúeria ser feito através da expressão "meus representantes o procura-
Quando dizer é fazer 38 3
mo" que é equivalente a "eu o desafio", e nós poderíamos simplesmente ig­
norá-lo. Esta situação geral é explorada na infeliz est6ria de Dom Quixote.
Fica evidente que o caso é comparativamente simples se nunca admi­
tinnos um procedimento "desse" tipo; isto é, um procedimento para se reali­
.ar tal tipo de coisa, ou um procedimento específico para se realizar algo em
particular. Mas igualmente possível são os casos em que aceitamos, depen­
dendo das circunstâncias e das pessoas, o procedimento, mas não o aceita­
ríamos em outras circunstâncias, ou com outras pessoas. Podemos aqui fre­
qüentemente hesitar (como no exemplo dado acima) se uma infelicidade de­
veria ser enquadrada na classe A.I ou na classe A.2 (ou mesmo na B.I ou
8.2). Por exemplo, em uma reunião social, ao escolher um parceiro para um
jogo, digo "Escolho Jorge", e Jorge retruca, "Não vou jogar". Pode-se per­
guntar, Jorge foi efetivamente escolhido? Sem dúvida a situação é infeliz.
Podemos dizer que Jorge não foi escolhido seja por inexistir a convenção
segundo a qual se pode escolher uma pessoa que não vai jogar, seja porque
na presente circunstância Jorge é um objeto inadequado para o procedimento
de escolha. Uma outra situação crítica seria a seguinte: em uma ilha deserta
alguém pode dizer-me "Vá apanhar lenha" e eu respondo, "Não recebo or­
dens suas" , ou, ainda, "Você não tem o direito de me dar ordens" , ou " Não
aceito ordens suas quando você está tentando 'afirmar sua autoridade' (que
posso aceitar ou não) em uma ilha deserta". O caso contrário se daria se vo­
cê fosse o capitão do navio, tendo então autoridade.
Por outro lado, poderíamos dizer, considerando um caso do tipo A.2
(má aplicação): o procedimento - isto é, o proferimento de determinadas pa­
lavras, etc. - era correto e foi aceito, embora estivessem erradas as circuns­
tâncias de invocação e as pessoas que o invocaram. " Eu escolho" , no exem­
plo acima, s6 funciona se o objeto do verbo for "um jogador" , e uma ordem
SÓ funciona se o sujeito do verbo for "uma autoridade".
Poderíamos ainda dizer, levando o caso para a regra B.2 (e talvez de­
vêssemos reduzir a esta o exemplo anterior): o procedimento não foi com­
pletamente executado por ser necessário que o objeto do verbo "eu ordeno
que" estabeleça, mediante um procedimento prévio, tácito ou explícito, que
a pessoa que vai dar a ordem tenha autoridade; por exemplo, dizendo: "Pro­
meto fazer o que você me ordenar". Esta é, naturalmente, uma das incertezas
genéricas, subjacentes ao debate, em teoria política, sobre se existe ou não, e
se deveria ou não existir um contrato social.
Em princípio, pouco importa, ao que parece, como decidimos esses ca­
sos particulares, embora possamos preferir, aceitando fatos ou introduzindo
definições, uma solução a outra. Importa, porém, esclarecer:
./. L. Al/stin
(I) A respeito de B.2, por mais que dctcnnillllt;OCH 110
procedimento, sempre será possível que alguém o rejeite //lI totaLidode.
(2) Para um procedimento ser aceito pressupõe-se aJgo mais do que ()
fato de ser considerado efetiva e genericamente usado, até mesmo pelas pes­
soas envolvidas; devendo pennanecer em princfpio aberta a possibilidade d
qualquer pessoa vir a rejeitar qualquer procedimento, ou código de procedi­
mento - mesmo aquele que fora por ela anteriormente aceito - como aconte­
ce, por exemplo, com o código de honra. Quem o fizer estará, naturalmente,
sujeito a sanções. Alguém poderia se recusar a jogar com ela, ou dizer que
não se trata de uma pessoa honrada. Mas, acima de tudo, não podemos redu­
zir as considerações acima a meras circunstâncias factuais, pois estaríamos
sujeitos à velha objeção de termos derivado um "dever" de um "ser" '- pois
-ser aceito não é uma circunstância, em sentido estrito. No caso de muitos
procedimentos, por exemplo, tomar parte em jogos, por mais adequadas que
sejam as circunstâncias eu posso ainda não estar jogando. Além do mais, de­
veríamos considerar que, em última análise, é duvidoso que "ser aceito"
possa ser reduzido a "usualmente empregado" . Esta porém é uma questão
mais complexa.
Em segundo lugar, cabe perguntar o que se quer dizer com a sugestão
de que um procedimento pode sequer existir, o que é diferente da questão de
se um procedimento é aceito e por que o grupo é aceito ou não
l
.
(I) Há o caso de procedimentos que "não mais existem", no sentido de
terem sido outrora aceitos, já não mais o são em geral ou mesmo por alguém,
como no caso do duelo.
(11) Há também o caso de procedimentos recentemente inaugurados.
Por vezes estes podem "dar certo" - tal como no caso do rugby, com o jo­
gador que primeiro pegou a bola com as mãos e saiu correndo. Dar certo é
essencial, a despeito da terminologia suspeita. Consideremos um caso plau­
sível: dizer "você foi covarde" pode ser uma reprimenda ou um insulto, e
posso tornar explícito meu ato dizendo "eu o repreendo" , mas não posso fa­
zer o mesmo em relação ao insulto dizendo "eu o insulto" ; as razões disso
não nos importa aqui2.
1 Se objetamos a que se diga que há dúvida sobre se o procedimento "existe", como bem podemos
objetar, pois a palavra nos dá arrepios que estão na moda e que são em geral indubitavelmente legfti ­
1I10S, poderfamos dizer tj ue a dúvida é sobretudo quanto à natureza, ou ou compreensão do
procedimento que existe c e aceito.
2 Muitos desses procedimentos e f6rmulas plausfveis seriam desvantajosos se reconhecidos. Por
exemplo, talvez não devêssemos permitir a f6rmula "Prometo que vou açoi tá-lo". Mas foi-me dito
que no auge da 6poca dos duelos entre estudantes da Alemanha era costume que os memhros de um
clube marchassem diante dos membros de um outro clube rival, todos em fila, di zendo depoi s cnda
Quando dií'.er é fuer 40 41
o que realmente importa é que uma variedade de não-atuaçã03
pode ocorrer se alguém realmente diz "eu o insulto' . Pois embora insultar
seja um procedimento convencional, e primordialmente verbal, de tal modo
que de certa fonna não podemos deixar de entender o procedimento que al­
guém tenciona invocar quando diz "eu o insulto", contudo somos obrigados
a " não-atuar" com ele, não apenas porque a convenção não é aceita, mas
porque sentimos vagamente a presença de um impedimento, cuja natureza
pode não ser muito clara, contra a aceitação do procedimento em geral.
Muito mais comuns são, entretanto, os casos que não se tem certeza
sobre o alcance do procedimento, isto é, sobre que casos o procedimento co­
bre ou que variedades poderia vir a cobrir. É inerente à natureza de qualquer
procedimento que os limites de sua aplicabilidade, e de sua definição "preci­
sa", permaneçam vagos. Sempre ocorreram casos marginais ou difíceis em
que nada pode servir na história prévia de um procedimento convencional,
para se decidir conclusivamente se este procedimento está ou não sendo cor­
retamente aplicado em um caso determinado. Posso batizar um cão, se o ad­
mitimos como racional? Ou isto seria um caso de não-atuação? Em Direito,
inúmeras são as decisões difíceis como esta, em que é mais ou menos arbitrá­
rio decidir se (A.I) a convenção não existe ou (A.2) se as circunstâncias não
são adequadas para a aplicação de uma convenção que sem dúvida existe.
Assim, acabamos por seguir, de uma maneira ou de outra, o "precedente"
que estabelecemos. Os juristas preferem geralmente a segunda alternativa,
que implica em aplicar a lei e não em criá-la.
Há ainda um outro tipo de caso, capaz de ser classificado de muitas
maneiras, e que merece uma menção especial.
Todos os proferimentos performativos até agora abordados foram ins­
tâncias altamente desenvolvidas do tipo que mais tarde chamaremos de per­
formativos expltcitos, em oposição aos performativos meramente implfcitos.
Em outros termos, todos eles incluem ou têm início com palavras altamente
significativas e inambíguas como "aposto", "prometo", "dôo", palavras
corretamente usadas para designar o ato que, ao fazer tal proferimento, estou
realizando. Por exemplo, apostar, prometer, doar, etc. Mas é tão óbvio
quanto importante que possamos ocasionalmente usar o proferimento "Vá"
para fazer praticamente o mesmo que fazemos com o proferimento "Orde­
no-lhe que vá". E diríamos sem hesitar ao descrever subseqüentemente o que
um a seu Oponente escolhido, à medida que passava e de maneira muito polida, "Beleidigung" . o que
"Eu o insulto".
3 "Não-atuação" foi durante algum tempo a denominação dada por Austin à categoria A.I de infeli­
cidades. Ele veio a rejeitá-la mais tarde, porém a esta altura o termo ainda aparece em suas anotações.
(NotadeJ.O. Urmson)
J. L. Austin
guem fez, que em ambos 014 casos ele II()!I ()IJcnuu que Isso I
de, entretanto, ser de fato incerto, o, no que concenlO ao simples proferi­
mento, sempre pennanece incerto quando usamos uma fórmula tão
cita quanto o mero imperativo "vá", se o falante está dando uma ordem (ou
pretendendo dar uma ordem) ou se está simplesmente aconselhando, incenti­
vando, ou qualquer coisa do tipo. Assim, "Há um touro no campo", pode ser
ou não uma advertência de perigo, pois posso estar simplesmente descreven­
do uma cena. Do mesmo modo, "Estarei lá" pode ser ou não uma promessa.
Em todos estes casos temos performativos primitivos em contraste com per­
formativos explícitos; mas pode não haver absolutamente nada nas circuns­
tâncias dadas que nos possibilite decidir se o proferimento é ou não perfor­
mativo. De qualquer forma, em dada situação sempre é possível considerá-lo
uma coisa ou outra. Mesmo que fosse uma fórmula perforrnativa, o procedi­
mento em questão pode não ter sido invocado de forma suficientemente ex­
plícita. Talvez eu não o tenha tornado como uma ordem ou me sentisse obri­
gado a tomá-lo como uma ordem. A pessoa a quem disse " Estarei lá" não
tomou meu proferimento como uma promessa, isto é, nas circunstâncias es­
pecíficas não aceitou o procedimento, com o argumento de que o ritual foi
executado de maneira incompleta por mim.
Poderíamos assimilar isso a um desempenho defeituoso ou incompleto
(B.I ou B.2) se não fosse na realidade completo, embora não sem ambigüi­
dade. (No Direito, é claro, este performativo não explícito seria normalmente
classificado como B.I ou B.2. É regra que a falta de explicação - por exem­
plo um legado feito de modo inexplícito - resulta em realização incorreta ou
incompleta; na vida cotidiana porém, não há semelhante rigidez.) Podería­
mos também assimilar isso a um mal-entendido (que ainda não estamos con­
siderando), mas de tipo especial, dizendo respeito à força do proferimento, e
não a seu significado. Não se trata aqui de que a audiência não tenha enten­
dido, mas de que não tinha que entender - por exemplo não tinha que to­
má-lo como uma ordem.
Poderíamos até mesmo assimilar isso a A.2, sob a alegação de que o
procedimento não foi projetado para ser usado a menos que resulte claro co­
mo estej a sendo usado, pois, caso contrário, seria absolutamente vão.
ríamos afmnar que só deve ser usado em circunstâncias que tornem total­
mente claro e sem ambigüidade em que acepção está sendo usado. Mas isto
seria recomendar a perfeição.
A.2 As pessoas e circunstâncias particulares em um caso detenninado
têm de ser adequadas à invocação do procedimento específico invocado
Quando dizer é fazer
42
43
Passemos agora às violações de A.2, ao tipo de infelicidade que cha­
mamos de más aplicações. Os exemplos aqui são inúmeros. "Eu o nomeio",
etito quando a pessoa já foi nomeada, ou quando foi nomeada outra pessoa,
ou quando eu não tenho o poder de nomeá-Ia, ou quando o nomeado é um
cavalo. "Sim", quando se tem um grau de parentesco com a noiva que impe­
de o casamento, ou diante de um capitão de navio que não está no mar. "Eu
lhe dou ... ", quando o objeto não é meu, ou quando é uma parte de meu cor­
po e dele não pode ser separado. Temos vários termos especiais para usar em
diferentes tipos de casos: "ultra vires" , "incapacidade", "objeto ou pessoa
inadequado ou inapropriado", "sem direito" e assim por diante.
A linha divisória entre "pessoas inadequadas" e "circunstâncias inade­
quadas" não é necessariamente rígida e inflexível. De fato, o termo "cir­
cunstâncias" pode ser tomado em tal extensão que acabe por abranger "a
natureza" de todas as pessoas participantes. Mas devemos distinguir os casos
em que a inadequação de pessoas, objetos, nomes, etc. é uma questão de
"incapacidade", dos casos mais simples em que o objeto ou o "agente" é da
espécie ou do tipo errado. Esta é, por sua vez, uma distinção imperfeita e
alusiva, mas importante - por exemplo, no Direito. Assim, há que se distin­
guir os casos em que um clérigo batiza a criança errada com o nome correto
ou batiza uma criança com o nome de "Alberto" ao invés de "Alfredo", do
caso em que se diz "Eu batizo esta criança com o nome de 2704", ou "Eu
prometo arrebentar a sua cara", ou ainda em que se nomeia um cavalo côn­
sul. Os três últimos casos envolvem algo cujo defeito se encontra na espécie
ou no tipo, enquanto que nos demais casos a inadequação é apenas uma
questão de incapacidade.
Algumas sobreposições de A.2 com A.l e B.l já foram mencionadas.
Estamos inclinados a chamá-las de más invocações (A.l), mais quando a
pessoa enquanto tal for inadequada, do que indevidamente autorizada; isto é,
quando nenhuma nomeação ou qualquer procedimento anterior regularizam
sua situação. Por outro lado, se tomamos literalmente o caso da nomeação
(isto é, posição em contraste com status) poderemos classificar a infelicidade
como um procedimento erroneamente executado e não como um procedi­
mento mal-aplicado. Por exemplo, se votamos em um candidato antes que ele
tenha sido indicado por seu partido. O problema aqui consiste em determinar
até que ponto devemos remontar à própria noção de "procedimento".
A seguir, cabe discutir exemplos de B Uá anteriormente examinados) a
que chamamos de más execuções.
B.l O procedimento deve ser executado corretamente por todos os par­
ticipantes.
J. L. Austin
Aqui se encontram os casos das rnlhus. Estas consistem no uso de, por
exemplo, fórmulas erradas. Aqui o procedimento é adequado às pessoas c às
circunstâncias, mas é executado incorretamente. Os exemplos mals claros d
falhas se encontram no âmbito do Direito. Na vida cotidiana nem sempre são
tão claros, já que neste se admitem concessões. O uso de fórmulas inexpU­
citas pode ser colocado nesta classe. Nesta classe também entra o uso de
fórmulas vagas e referências imprecisas - por exemplo, se digo " minha ca­
sa" quando tenho duas, ou então se digo"Aposto que a corrida não se reali­
zará hoje" , quando mais de uma corrida estão marcadas.
Trata-se de uma questão distinta seja do mal-entendido, seja da com­
preensão lenta por parte da audiência. Neste caso há uma falha no ritual, não
importando como a audiência o tenha considerado. Algo que causa particu lar
dificuldade é determinar se é necessário o consensus ad idem quando dois
lados estiverem envolvidos. É essencial no caso assegurar-se de que houve
uma compreensão correta, além de tudo mais? Trata-se obviamente de um
tópico que cai sob as regras de tipo B e não sob as regras de tipo.
B.2 O procedimento deve ser executado de forma completa por todos
os participantes.
Aqui encontramos casos de tropeço. Tentamos executar o procedimen­
to, mas o ato é abortivo. Por exemplo, toda tentativa de apostar através da
expressão "Aposto seis cruzados" será abortiva, a menos que o parceiro di­
ga "Aceito", ou palavras equivalentes. Mesmo dizendo "Sim", toda tentati­
va de casar-se é abortiva caso a noiva diga "Não", toda tentativa de duelar
será abortiva, mesmo dizendo "Eu o desafio", se os padrinhos não forem
enviados para marcar hora e lugar. A tentativa de inaugurar, mesmo com to­
da a cerimônia, uma biblioteca será abortiva se eu disser " Inauguro esta bi­
blioteca" , mas a chave venha a se quebrar na fechadura; assim também o
batismo de um barco será abortivo caso se soltem as amarras antes de dizer
"Lanço ao mar este navio". Nestes casos, como nos da vida cotidiana, admi­
te-se uma certa flexibilidade no procedimento, pois, de outro modo, nenhu­
ma atividade universitária jamais poderia ser executada.
Evidentemente, por vezes surgem dúvidas sobre se algo mais é neces­
sário ou não. Assim, é necessário, para que eu presenteie, que meu interlo­
cutor aceite o presente que lhe dou? Por certo, nas negociações formais o
aceite é exigido, mas será assim na vida cotidiana? Dúvida semelhante surge
quando um compromisso é assumido sem o assentimento da pessoa a quem
cabe assurnJ-Io. A questão aqui é a seguinte: até que ponto os atos podem ser
Quando dizer 6 razer 44 45
unilaterais? Da mesma fonoa surge a questão sobre até que ponto pode um
mo ser considerado terminado, ou o que levar em conta para considerá-lo
complet04.
Em relação às questões acima, lembraria que não estamos considerando
as dimensões adicionais da infelicidade, como as que podem ocorrer quando
o agente oomete um simples erro factual, ou quando há discordâncias sobre
questões de fato, sem falar em discordâncias de opinião. Por exemplo, não
há convenção que me autorize a prometer fazer algo em detrimento de meu
interlocutor, colocandlrme assim sob a obrigação de fazê-Io. Mas suponha­
mos que eu diga "Prometo enviá-lo para um convento", quando penso, ao
contrário de meu interlocutor, que isto será para o seu bem; ou, no caso
oposto, quando ele pensa que isto será para o seu bem, mas eu não; ou mes­
mo quando ambos pensamos que será para o seu bem, mas na realidade a
coisa se revela o contrário. Nestas circunstâncias será que invoquei uma .
convenção inexistente em condições inadequadas? É desnecessário dizer.
Como questão geral de princípio, desnecessário é que não pode haver eSClr
lha satisfatória entre tais alternativas, que sejam suficientemente sutis para
dar conta destes casos. Não há como expor, de fonna simples, toda a com­
plexidade da situação que não se ajusta a nenhuma classificação usual.
Pode parecer que estamos apenas desdizendo o que dissemos sobre
nossas próprias regras, mas não se trata disso. Existem claramente essas seis
possibilidades de infelicidades - mesmo que por vezes seja duvidoso quais
delas estejam em questão em um dado caso particular. Poderíamos se quisés­
semos, defini-las, pelo menos para certos casos. Devemos evitar a todo custo
a simplificação excessiva, que poderia ser considerada a doença profissional
dos fIlósofos se não fosse ela própria sua profIssão* .
4 Pode-se assim duvidar se a não-entrega do objeto que damos de presente torna incompleto o ato de
presentear ou se constitui uma infelicidade de tipo .
... Austin refere-se à discussão filos6fica tradicional em tomo da distinção metaffsica entre valores (o
domfnio dos deveres) e fatos (o domfnio da realidade natural). Mais recentemente, esta questão origi­
na-se de um trecho do Tratado da natureza humafUI (llJ, (I) 1) onde David Hume critica a passagem
de uma argumentação com base nas sentenças usando o verbo "ser" (is) para sentenças usando o ver­
bo "dever" (ought). Segundo Hume, esta confusão caracterizaria a chamada falácia naturalista. So­
bre a discução contemporânea em tomo desta questão veja-se sobretudo, a antologia de textos orga­
nlzadn por W. D. Hudson (1971) The Is-Ought Question, Londres, Macmi1lall. (N. do T.)
J. L. Austin
IV Conferência
Infelicidades: maus usos
Na conferência anterior consideramos casos de infelicidades, casos em
que não havia procedimento ou não havia procedimento aceito, ou em que o
procedimento era invocado em circunstâncias não apropriadas, ou ainda em
que o procedimento era defeituoso ou incompletamente executado. Assina­
lamos que, em certos casos, esses tipos de infelicidade podem se sobrepor, e
em geral se sobrepõem; tratam-se de (a) os Mal-entendidos, um tipo de infe­
licidade a que estão expostos todos os proferimentos; e (b) os Enganos, ou
as ações realizadas sob coação.
O último caso é o dos tipos r .1. e r .2, isto é, insinceridades e infra­
ções, e casos de não-cumprimentol . Dizemos então que o ato não é nulo,
embora seja infeliz.
Recordemos as definições:
r .1: Nos casos em que, como ocorre com freqüência, o procedimento visa às
pessoas com seus pensamentos, sentimentos e intenções, ou visa à ins­
tauração de uma conduta correspondente por parte de algum dos parti­
cipantes, então aquele que participa do procedimento, e o invoca, deve
de fato ter tais pensamentos, sentimentos e intenções, e os participantes
devem ter a intenção de se conduzirem de maneira adequada, e, além
disso,
r .2: devem realmente conduzir-se desta maneira subseqüentemente.
I C f. p. 23 e nota de rodapé.
Quando dizer é fazer 46 47
1. Sentimentos
Exemplos em que não se têm os sentimentos requeridos seriam:
"Eu o felicito", dito sem que me sinta satisfeito, ou mesmo quando me sinto
aborrecido.
"Meus pesâmes", dito sem qualquer sentimento de solidariedade com a
dor do interlocutor.
As circunstâncias, em tais casos, estão dentro das regras e sendo assim
o ato é realizado, isto é, não é nulo, mas é realmente insincero, já que sen­
tindo o que sentia não deveria congratulá-lo nem apresentar-lhe meus pêsa­
mes.
2. Pensamentos
Exemplos em que não se têm os pensamentos requeridos são:
"Eu o aconselho a .. .", dito sem pensar que o ato ou a atitude aconse­
lhados sejam os mais benéficos para o interlocutor.
"Declaro-me inocente" ou "Eu o absolvo" , quando creio que a pessoa
é culpada.
Estes atos não são nulos. Dei um conselho e dei um veredito, ainda que
de forma insincera. Temos aqui algo de análogo com o que ocorre com
a mentira, ao realizar-se um ato de fala de tipo assertivo.
3. Intenções
Exemplos em que não têm as intenções requeridas são:
"Prometo", dito quando não tenciono fazer o que prometi.
"Aposto", dito quando não tenho a intenção de pagar a aposta.
"Declaro guerra", dito quando não tenho a intenção de lutar.
Não estou usando as palavras "sentimento", "pensamentos" e "inten­
ções" em uma acepção técnica, em oposição a uma acepção imprecisa. Mas
alguns comentários sobre tais noções fazem-o;e necessários:
(1) Suas distinções são tão imprecisas que tornam difícil distinguir os
vários casos e, estes, por sua vez, podem se corr.binar, o que geralmente
ocorre. Por exemplo, ao dizer "Felicito-o", devo realmente ter o sentimento
ou o pensamento de que o outro deva ser felicitado? É um pensamento ou
um sentimento de que algo é meritório que motiva a felicitação? No caso de
prometer devo ter a intenção de cumprir o prometido, mas cabe não só con­
siderar factível o prometido como também pensar que o ato prometido resul­
tará talvez em algo benéfico para o interlocutor da promessa, ou que este o
considere benéfico.
J. L. Austin
(2) No que diz respeito aos pensamentos, não devemos confundir O que
pensamos que as coisas sejam - por exemplo, pensar que alguém seja culpa­
do, que tenha realizado o ato, que o mérito seja seu, ou que tenha realizado
a proeza - com o fato de que as coisas realmente sejam como pensamos; isto
é, que o pensamento seja correto, em oposição a errôneo. (De modo seme­
lhante, devemos distinguir entre o que sentimos e se o que sentimos é justifi­
cado, e entre ter a intenção de fazer algo e se o que tencionamos fazer é viá­
vel. ) Mas os pensamentos constituem algo de muito interessante, ou seja, al­
go de muito confuso. Com eles aparece a insinceridade, um elemento essen­
cial do mentir, algo distinto de dizer simplesmente o que na realidade é fal­
'so. Exemplos deste tipo são: dizer "Inocente", pensando que o ato foi mes­
mo praticado por aquele indivíduo, ou dizer "Eu o congratulo", pensando
que o feito não foi realizado por aquele que congratulei. Na realidade, po­
rém, posso estar equivocado ao pensar assim.
Se alguns de nossos pensamentos forem incorretos (em oposição a in­
sinceros), isto pode causar Um? infelicidade de tipo diferente:
(a) Posso presentear algo que, na realidade, não seja meu, embora eu
creia que o seja. Poderíamos alegar que se trata de urna "má explicação",
que as circunstâncias, objetos, pessoas, etc. não foram apropriados para o
procedimento de presentear. Mas não é nossa intenção, como dissemos, ocu­
par-nos de todos os casos que poderiam ser chamados de infelicidades, mas
que surgem de um erro ou de um equívoco. Deve-se observar que o erro, em
geral, não torna o ato nulo, mas pode torná-lo desculpável.
(b) "Eu o aconselho a fazer X" é um proferimento performativo. Con­
sideremos o caso de alguém que aconselha outra pessoa a fazer algo que na
realidade não lhe seja benéfico, mesmo que aquele que aconselhou pense
que o seja. Este caso é distinto de (1), posto que aqui inexiste a tentação de
pensar que o ato de aconselhar possa ser nulo ou anulável e, do mesmo mo­
do, inexiste a tentação de se pensar que seja insincero. O melhor é introduzir
aqui uma nova dimensão de crítica - diremos tratar-se de um mau conselho.
Na verdade, isto é a pior coisa que se pode dizer de um conselho. Que um
ato seja feliz ou bem-sucedido em todos os aspectos aqui analisados não o
exime de crítica. Voltaremos a isto.
(c) Mais difícil que os precedentes é o caso que voltaremos a discutir
mais tarde. Há a:nda urna classe de perfonnativos que chamo de vereditivos.
Por exemplo, quando dizemos "De.claro o acusado culpado" ou, simples­
mente, "Culpado", ou quando o árbitro diz "Fora de campo". Quando di­
zemos "Culpado", trata-se, de certo modo, de um ato feliz, se acreditamos
sinceramente, com base nas evidências, que a pessoa tenha realizado o ato.
Quando dizer 6 fnzcr
48
4
De certa fonna, porém, o fundamental é que o procedimento seja correto, o
que pode não ser uma mera questão de opinião. Assim, quando o árbitro diz
"Fora de campo", sua palavra é definitiva. Mas podemos estar diante de um
"mau" veredito. O veredito pode ser injustificado (no caso de um júri), ou
então incorreto (no caso de um árbitro). Desta forma temos aqui uma situa­
ção muito infeliz. Mas ainda assim não se trata de infelicidade em nenhum
dos sentidos que já vimos. O ato não é nulo, porque se o árbitro diz "Fora
de campo", o jogador vai para fora de campo; sua decisão é definitiva. Nem
se trata de um ato insincero. Contudo, não nos preocupam agora estes pro­
blemas urgentes, pois queremos simplesmente distinguir as várias fonnas de
insinceridade.
(3) Nos casos das intenções também aparecem dificuldades especiais:
(a) Já notamos a dificuldade em definir o que constitui uma ação sub:­
seqüente distintamente do que constitui meramente o ato de completar ou
consumar uma mesma ação. Por exemplo, é difícil determinar a relação en­
tre:
" Eu te dou isto" , e dar a alguém a posse de um objeto,
"Eu aceito esta mulher, etc." e a consumação da cerimônia,
"Vendo-Ihe isto" e completar a venda,
embora a distinção seja relativamente fácil no caso da promessa. Podem-se
fazer semelhantes distinções quanto à intenção requerida quando se trata de
completar uma ação presente. Contudo, isto não levanta, em princípio, qual·
quer dificuldade em relação ao conceito de insinceridade.
(b) Distinguimos sumariamente os casos em que uma detenninada in­
tenção é necessária de casos mais particulares, em que é necessário algo
mais para levar a cabo um certo comportamento. Nestes últimos, o procedi­
mento destina-se a introduzir este comportamento adicional, seja tomando-o
obrigatório, seja pennitido. Exemplos deste procedimento mais especializado
seriam o compromisso de realizar uma ação e, provavelmente, o ato de bati­
zar. Para recorrer a tal procedimento é fundamental fazer com que certa con­
duta subseqüente seja correta, enquanto que outras não o sejam. Para muitos
fins - por exemplo, no caso das fónnulas legais, este objetivo se alcança
com mais felicidade. Mas há casos em que não são assim tão simples. Por
exemplo, posso expressar minha intenção dizendo simplesmente, " Eu o fa­
rei", mas é necessário que no momento de dizer isto eu tenha a intenção cor­
respondente, para meu ato não ser insincero. Qual é porém o grau ou tipo de
infelicidade envolvido se eu não vier a fazer o que disse? Para dar outro
exemplo: quando digo "seja bem-vindo", estou efetivamente dando boas-
SO J. L. Austin
vi ndas, mas 6 de presumjr-se que um certo tipo de intcnçOCN meNinO vugu/ol
necessários. Mas o que acontece se a pessoa fi l JUCIlI di ssc isto passe fi
se comportar rudemente? Ou, então, suponhamos que eu dê um conselho a
um antigo e este o siga, mas logo a seguir eu o censure por haver feito o 'lu
lhe aconsel hei. Em que medida sou obrigado a não me comportar desta for·
IllU'? Ou será que a questão se reduz simplesmente a " não se espera" que al­
uém se conduza assim? Ou será ainda que faz parte do pedir-e-dar cons"­
lhos tomar fora de ordem tal conduta subseqüente? Ou, de maneira sem",­
lhante, se rogo a alguém que faça algo e este concorda, e a segUÍl' eu protes­
to, estarei fazendo algo fora de ordem? Provavelmente sim. Mas há uma teo­
constante a esclarecer mais esta ordem de coisas, como quando, em
lugar de di zer " Eu o farei " , digo, por exemplo, "Tenho a intenção de ... " ou
" Prometo" .
Com isso concluímos as observações referentes às diversas maneiras
pelas quais os proferimentos perfonnativos podem ser infelizes, no sentido
de o "ato" ser simplesmente intencionado ou pretendido, etc. De maneira
geral, isto equivale a dizer, para usar o jargão técnico, que certas condições
devem ser satisfeitas para que os proferimentos possam ser felizes. Isto nos
compromete a dizer que um determinado proferimento performativo para ser
reliz exige que certas sentenças declarativas sejam verdadeiras. Em si mes­
mo, isto é, sem dúvida, um resultado trivial de nossas investigações. Para
evitar, pelo menos as infelicidades que já consideramos, devemos examinar:
(1) quais as sentenças declarativas que têm de ser verdadeiras? E se
(2) podemos dizer algo de interesse sobre a relação entre estas senten­
ças declarativas e o proferimento perfonnativo.
Lembrem-se de que na I Conferência dissemos que, de algum modo,
muitas coisas estão implicadas ao dizer "Prometo", mas isto é difere nte de
dizer o proferimento " Prometo" seja uma sentença declarativa verdadeira ou
fa lsa, que afIrma que certas coisas são de determinada forma. Devo agora
ocupar-me de certas coisas importantes e que devem ser verdadeiras para que
o ato seja feliz. Não me ocuparei de todas, mas as que abordarei parecerão
maçantes e triviais. Espero que seja assim, pois isto significa que já se toma­
ram " 6bvias" a esta altura.
Por exemplo, se ao dizer "Peço-lhe desculpas" estou realmente pedin­
do desculpas e sobre isto não paira a menor dúvida, então:
(1) é verdadeiro, e não falso, que estou fazendo (ou que fiz) algo, na
realidade, que fiz inúmeras coisas, entre estas pedir desculpas (ou ter pedido
desculpas);
Quando dlzer é fazer S1
(2) é verdadeiro, e não falso, que certas condições foram satisfeitas, em
particular as do tipo especificado nas regras A.l e A.2;
(3) é verdadeiro, e não falso, que foram satisfeitas também outras con­
dições desse tipo, em particular a condição de estar pensando em algo; e
(4) é verdadeiro, e não falso, que me comprometi a fazer algo subse­
qüentemente.
Estritamente falando, já foi explicado em que sentido "Peço-lhe des­
culpas" implica a verdade de cada uma destas coisas. Isto, aliás, foi exata­
mente o que estávamos explicando. Mas o importante é comparar estas "im­
plicações" dos proferimentos performativos com descobertas relativamente
recentes sobre as "implicações" de um tipo de proferimento privilegiado e
contrastante - isto é, a declaração ou proferimento constatativo - que, ao ..
contrário do performativo, é verdadeiro ou falso.
Tomemos em primeiro lugar a seguinte indagação: (1) qual é a relação
entre o proferimento "Peço-lhe desculpas" e o fato de estar pedindo descul­
pas? Importa perceber que isto é diferente da relação entre "estou correndo"
e o fato de estar correndo; ou caso não se trate de um mero informe, entre
"ele está correndo" e o fato de ele estar correndo. A diferença é marcada em
inglês pelo uso do presente contínuo nas fórmulas performativas; mas isto
nem sempre está marcado em todos os idiomas, já que pode inexistir a forma
contínua do verbo. Mesmo em inglês, aliás, isto nem sempre aparece tão
marcado.
Poderíamos dizer que correr, por exemplo, é o fato de alguém estar
correndo, e isto torna verdadeira a declaração de que ele está correndo. Por
outro lado, a verdade do proferimento constatativo "ele está correndo" de­
pende do fato de ele estar correndo, enquanto que no outro caso é a felicida­
de do performativo "Peço-lhe desculpas" que torna um fato meu, pedido de
desculpas, e meu êxito quanto a pedir desculpas depende da felicidade do
proferimento performativo "Peço-Ihe desculpas". Esta é uma das maneiras
pelas quais podemos justificar a distinção entre performativo e constatativo­
isto é, a distinção entre fazer e dizer.
Examinaremos a seguir três das muitas maneiras pelas quais uma decla­
ração implica a verdade de outras declarações. Um dos temas que pretendo
considerar é conhecido de longa data; os demais são descobertas recentes.
Não pretendo expor a questão de modo demasiadamente técnico, embora isso
possa ser feito. Refiro-me à descoberta de que as maneiras pelas quais po­
demos errar. isto é, falar de modo abusivo, ao formular conjunções de decla­
rações "factuais" , são mais numerosas que a mera contradição, que é uma
relação complicada e exige definições e explicações.
J. L. Austin
1. Impllcaçüo
A declaração "Todos os homens enrubescem" implica logicruncnte qu
"alguns homens enrubescem". Não se pode dizer que " todos os homens en­
rubescem", mas que alguns homens não o fazem, e tampouco se pode ruzer
que "o gato está sob o tapete e sobre o tapete", ou que "o gato está sob
o tapete e não está sobre o tapete". Nestes casos, a primeira sentença implica
logicamente a contraditória da segunda.
2. Implicação
O fato de dizer "o gato está sobre o tapete" implica na acepção de
O.E. Moore**, que creio que o gato está de fato ali. Não podemos dizer "o
gato está sobre o tapete, mas não creio nisso" . (Este não é, na realidade, o
uso comum de "implicar", no sentido de "dar a entender" . Com efeito, "im­
plicar", ou "dar a entender" é mais fraco, por exemplo, quando dizemos,
"Fulano deu a entender que já o sabia", ou "Você deu a entender que sabia
algo (o que é diferente de dizer simplesmente que acreditava em algo").
3. Pressuposição
"Todos os fIlhos de João são calvos" pressupõe que João tenha filhos.
• Austin distingue três tipos de relação entre sentenças: entails, que traduzimos por "implica logica­
mente", mas que também poderia ser traduzido por "acarreta" ou "segue-se"; implies, que traduzi­
mos por "implica"; e pressupposes, que não apresenta nenhum sentido especial e pode ser traduzido
pe lo termo correspondente em português, "pressupõe".
lermo "entail", introduzido por G. E. Mome (1919, " Externai and Internai Relations", Procee­
'illIgs of the Aristotelian SocietyJ, repr,,:senta a noção de implicação lógica ou conseqüência lógica. Isto
significa que a sentença A implica logicamente a sentença B, se não) é possível que A seja verdadeira o
D falsa. A relação de implicação lógica é formal no sentido de que se dá entre duas sentenças inde­
pendentemente de seu conteúdo significativo, mas em virtude apenas de suafoT71UlI6gica.. E a impU ­
cução lógica é uma relação necessária, no sentido precisamente de que não é poss(vel que A seja ver­
dadeira e B falsa (veja-se C. I. Lewis e C. H. Langford, Symbolic Logic, N. York, 1932).
/\. rigor, entretanto, se examinamos os exemplos dados, vemos que Austi n não interpreta a implicnçtlo
lógica como meramente formal. Pode-se considerar que "todos os homens enrubescem" implica lo­
leamente "alguns homens enrubescem" , já que o que se afirma de todos os indivíduos de uma espé­
cie deve-se afirmar também de alguns, independentemente de quais sejam esses indivíduos e do qu
BO afirma. Logo, a segunda sentença não pode ser ·falsa, sendo a pri meira verdadeira. No segund
xemplo, entretanto, não se trata, estritamente falando, de implicação 16gica, já que a implicação se
dó em virtude do significado dos termos "sobre" e "sob", o que contraria o caráter formal da relaçllo
(abstração feita do conteúdo significativo). Trata-se, na realidade, de um recurso 11 noção de anal iLi ­
cidade, já que o termo "sob" é, por definição, a negação do termo "sobre". O tercei ro exemplo seria
um caso legftimo de implicação lógica, já que esta se dá em virtude apenas da relação de conjunçll,
:nlre duas sentenças, sendo uma a negação da outra, independentemente de seus signi ficados.
/\. Implicação é uma noção mais fraca, já que a asserção implica a crença no asserido, mas a negllçll,
du crença no asserido não implica a negação do asserido. O valor de verdade de "eu creio que o gato
al lÓ sobre o tapete" não é determinado pelo valor de verdade de "o gato está sobre o tapete".
U Austin refere-se à di scussão da noção dc implicação por G. E. Moom no arti go citado na nota ael·
ma.
Quando dizer é fazer 52 53
Não podemos dizer " Todos os fIlhos de João são calvos, mas João não tem
filhos" ou "João não tem fIlhos, mas todos os seus fIlhos são calvos".
Em todos esses casos há o sentimento comum de se estar cometendo
um abuso, embora não possamos englobá-los sob um termo geral, como
"Lmplica" ou "contradição", por existir entre eles sensíveis diferenças. Há
muitas maneiras de se matar um gato além de afogá-lo na manteiga, mas isto
é o tipo de coisa (como indica o provérbio inglês) que nos passa despercebi­
da. Há outras maneiras de se cometer abusos lingüísticos além da contradi­
ção. Os principais tópicos a este respeito são: quantas são essas maneiras?
Por que constituem um abuso lingüístico? E em que consiste tal abuso?
Contrastemos estes três tópicos apelando para os procedimentos que
nos são familiares:
1 - Implicação Lógica
Se p implica logicamente q, então - q implica logicamente - p. Se "o
gato está sobre o tapete" implica logicamente que "o tapete está sob o ga­
to", então "o tapete não está sob o gato" implica logicamente que "o gato
não está sobre o tapete". Neste caso, a verdade de uma proposição implica
logicamente a verdade da outra, ou a verdade de uma proposição é inconsis­
tente com a verdade da outra.
2. Implicação
Aqui o caso é diferente. Se o fato de dizer que o gato está sobre o ta­
pete implica que creio que isto realmente ocorre, o fato de eu não crer que o
gato esteja sobre o tapete não implica (na linguagem usual) que o gato não
esteja sobre o tapete. Não nos ocuparemos aqui da inconsistência entre estas
proposições, mesmo porque são perfeitamente compatíveis. Pode ocorrer que
o gato esteja sobre o tapete eu não acredite nisso. Mas, no caso da implica­
ção lógica, não podemos dizer "pode ocorrer que o gato esteja sobre o tapete
e ao mesmo tempo que o tapete não esteja sob o gato". O que não é possível
aqui é dizer "o gato está sobre o tapete", e acrescentar "mas, não creio nis­
so" . A asserção implica a crença no que foi asserido.
3. Pressupõe
Também aqui a situação é distinta da implicação lógica. Se "os fIlhos
de João são calvos" pressupõe que João tenha fIlhos, não é verdade que o
fato de João não ter fIlhos pressuponha que seus ft.lhos não sejam calvos.
Além disso, tanto " os mhos de João são calvos" como "os fIlhos de João
54 _ J. L. Austin
não calvos" pressupõem iguuhnclltc que Jotw tenhu filho:;, MUII nfio ocon·,
que tanto "o gato está sobre o tapete" quanto "o guto nuo está sobre o tape­
te" impliquem logicamente que o gato esteja sob o tapele.
Consideremos novamente, de início, " implicar" e, a seguir, " pressu­
por" :
Implicar
Suponhamos que eu diga "o gato sobre o tapete" quando não creio d
fato que o gato esteja sobre o tapete. O que se poderia dizer então? Trata-s
claramente de um caso de insinceridade. Em outras palavras, aqui a infelici­
dade está afetando uma declaração, exatamente da mesma maneira em que
a infelicidade afeta "Prometo que ... " , quando digo isto e não tenho a inten­
ção, a crença, etc. A insinceridade de uma asserção é a mesma que a de uma
promessa. "Prometo, mas não tenho a intenção de cumprir o prometido"
paralelo a "isto é assim, mas eu não o creio" . Dizer "Prometo" sem ter a
intenção correspondente é análogo a dizer "isto é assim" sem se crer de fato
no que se diz.
Pressuposição
Consideremos os casos de pressuposição. O que devemos dizer da de­
claração "Todos os ftlhos de João são calvos" quando João não tem fIlhos?
Atualmente é costume dizer que a declaração não é falsa por carecer de refe­
rência* . A referência é necessária tanto para a verdade quanto para a falsi­
dade. Assim sendo, carecerá de significado? Não é bem disso que se trata.
Não se trata de uma sentença sem significado, gramaticalmente mal construí­
da, incompleta, disparatada, etc. Diz-se então que "a questão da verdade ou
da falsidade não se aplica neste caso". Direi aqui que o "proferimento é va­
zio" .
Comparemos isto com o nosso exemplo de infelicidade quando dizemos
"Batizo.. .", sem terem sido satisfeitas certas condições relativas a A.i e A.2
(especialmente, talvez, em relação a A.i , mas nos casos de declarações tam­
bém existe uma pressuposição paralela a A.I). Poderíamos ter aqui usado a
fórmula da pressuposição. Poderíamos dizer que a fórmula "Aceito esta
.. Trata-se do velho problema filos6fico da referência do falso, que já aparece no Sofista de Platlio. Se
as sentenças verdadeiras derivam sua verdade e portanto, nesta concepção tradicional, seu signl fi cu­
do, de sua relação de correspondência com a realidade, qual seria o significado das sentenças fal slIs?
Aparentemente não teriam significado, já que não correspondem à realidade. Porém, obviarncnto, lIS
sentenças falsas não são sem signi ficado; caso não tivessem significado não' se poderia sequer deter­
minar sua falsidade. Austin considera, portanto, a referência indispensável, mesmo no caso das sem­
tenças falsas. Veja-se a este respeito a discussão de B. Russell sobre a questllo da referência, Il Con­
ferência, n. do t. da p. 35.
Quando dizer é fazer SS
mulher ... " pressupõe inúmeras coisas. Se tais coisas nüo ocorrem, a fórmula
será infeliz ou nula. Um contrato não chega a se configurar se a referência
falhar ou se for ambígua; como no caso anterior, o que digo não chega a ser

uma declaração. Do mesmo modo, a questão de se um conselho é bom ou
mal não se coloca, se quem pretende aconselhar não estiver em condições de
fazê-lo.
Finalmente, pode ocorrer, nos casos de implicação lógica, que a manei­
v
ra pela qual uma sentença implica outra seja semelhante à maneira pela qual
" Prometo" implica logicamente 'Devo". Não é exatamente o mesmo, mas há
Cri térios possíveis de performativos
uma semelhança entre ambos os casos. "Prometo, mas não devo fazer o que
prometo" é semelhante a "é e não é". Dizer "Prometo" sem realizar o ato
prometido, é semelhante a dizer simultaneamente "é" e "não é" . Assim co­
mo o propósito de uma asserção se frustra devido a uma contradição interna
(quando, ao mesmo tempo, identificamos e contrastamos algo, anulamos ou
neutralizamos o procedimento), o propósito de um contrato também se frus- .
tra se disser "prometo, mas não devo fazer o prometido" . Esta expressão me
compromete, mas ao mesmo tempo, anula o compromisso. Trata-se de um
procedimento que anula a si próprio. Uma asserção nos compromete com
outra asserção e uma realização nos compromete com outra realização. Além Ao final da conferência anterior, estávamos considerando o problema
disso, assim como se p implica logicamente q então - q implica logicamente das relações entre os pro ferimentos perfonnativos e as declarações de vários
- p, do mesmo modo "não devo" implica logicamente "não prometo". tipos que seguramente são verdadeiras ou falsas. Mencionamos como parti­
Concluindo, para explicar o que pode dar errado com as declarações, cularmente notáveis quatro dessas conexões:
não devemos restringir nossa atenção à proposição em questão, seja ela qual 1) Se o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" é feliz, então a
for, como tradicionalmente se tem feito. Devemos considerar de modo global declaração de que estou pedindo desculpas é verdadeira.
a situação em que se fez o pro ferimento - isto é, o ato de fala em sua totali­ 2) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz, a
dade - para que se possa perceber o paralelismo que há entre a declaração e declaração de que se dão certas condições - principalmente as das Regras
o proferimento perfonnativo, e como um e outro podem dar errado. A.I e A.2 - tem que ser verdadeira.
Em casos especiais, a importância do ato de fala total, na totalidade da 3) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz, a
situação da fala, emerge progressivamente da lógica; e assim podemos ir as­ declaração de que dão certas outras condições - principalmente as da Regra
similando o proferimento supostamente constatativo ao perfonnativo. A.l - tem que ser verdadeira.
4) Se certos tipos de proferimentos perfonnativos, por exemplo, os
contratuais, são felizes, então são verdadeiras as declarações que afirmam
que devo ou não devo fazer algo subseqüentemente.
Disse que parecia haver alguma semelhança, e talvez mesmo identida­
de, entre a segunda dessas conexões e o fenômeno que, no caso das declara­
ções opostas aos perfonnativos, foi denominado "pressuposição". Diss
também que há semelhança ou talvez identidade entre a terceira dessas cone­
xões e o fenômeno que, no caso das declarações, é às vezes chamado (incor­
retamente a meu ver) "implicação". A pressuposição e a implicação são duas
maneiras pelas quais a verdade de uma declaração pode estar ligar de modo
56 J. L. Austin Quando dizer é fazer 57
importante com a verdade de outra, sem que se dê o caso de que uma impli­
que logicamente a outra no único sentido que levam em conta as pessoas ob­
secadas pela 16gica*. Apenas a quarta e última dessas conexões pode ser
apresentada - não digo até que ponto isto pode ser feito satisfatoriamen­
te - de modo a parecer uma relação de implicação lógica entre declara­
ções. " Prometo fazer X, mas não estou obrigado a fazê-lo" pode certamente
parecer mais com uma autocontradição - seja lá qual seja - do que "pro­
meto lazer X mas não tenho a intenção de fazê-lo". Também se pode dizer
que "não tenho a obrigação de fazer p" pode implicar logicamente "não
rrometi fazer p" , e poderíamos pensar que a fonna em que um determinado
p me compromete a um detenninado q não difere da maneira em que prome­
ter fazer X me compromete a fazer X. Mas não quero dizer que haja ou não
um paralelo aqui: só quero dizer que pelo menos nos outros dois casos há um
paralelo bem próximo; o que sugere que, pelo menos de alguma maneira,
ex iste o perigo de que se anule a distinção entre proferimentos constatativos
c pcrlonnativos que tentamos estabelecer de início.
Podemos, contudo, fortalecer-nos na convicção de que a distinção é de­
finitiva voltando à velha idéia de que o proferimento constatativo é verdadei­
ro ou falso e que o perfonnativo é feliz ou infeliz. Contraste-se o fato de que
estou pedindo desculpas, que depende de que o perfonnativo "peço descul­
pas" seja feliz, com o caso da declaração "João está correndo" , cuja verda­
de depende do fato de que João esteja correndo. Mas talvez este contraste
não seja tão seguro, também, porque para começar com as declarações o
constatativo "João está correndo" está relacionado com a declaração "estou
afinnando que João está correndo", cuja verdade pode depender de que
"João está correndo" seja um perfonnativo feliz; tal como a verdade de
"estou pedindo desculpas" depende de que "peço desculpas" seja um per­
fonnativo feliz. Tomemos em segundo lugar os perfonnativos. Relacionado
ao perfonnativo (suponho que o seja) "previno-o de que o touro está por
atacá-lo" está o fato, se é este o caso, de que o touro está por atacar meu
interlocutor. Se o touro não está por fazer isso, então, sem dúvida, o profe­
rimento "previno-o de que o touro está por atacá-lo" se encontra aberto a
criticas, mas não em nenhuma das maneiras que até agora caracterizamos
como tipos de infelicidades. Neste caso não diríamos que a advertência foi
nula - que quem tentou fazê-la não fonnulou uma advertência, mas que
apenas utilizou-se de uma fonna de advertência - nem que foi insincera.
~ Veja-se, a este respeito, a nota da p. 53 da conferência anterior, para as distinções entre implicação,
Jmpllcaçllo lógica e pressuposição. (N. do T.)
J.L.Austin
Sentir-nos-íamos muito mais inclinudos u dilcr lluO ti udvcrtêncla foi falsa,
ou melhor, equivocada, como pode ocorrer com uma declaração. Portanto,
considerações de felicidade e infelicidade podem infectar as declarações (ou
algumas delas) e as considerações de falsidade e verdade podem infectar per­
formativos (ou alguns deles).
Temos, então, que dar mais um passo à frente no deserto da precisão
comparativa. Devemos perguntar: há alguma forma precisa para distinguir o
proferimento eonstatativo do perfonnativo? E, em particular, deveríamos
naturalmente indagar primeiro se existe algum critério gramatical (ou lexi­
cográfico) para distinguir os proferimentos performativos.
Até agora só consideramos um pequeno número de exemplos clássicos
de performativos, todos com verbos na primeira pessoa do singular do pre­
-sente do indicativo da voz ativa. Veremos em breve que havia boas razões
para esta pequena astúcia. Os exemplos são: "Batizo", "Aposto", "Prome­
to", "Dou". Há razões bastante óbvias - com as quais me ocuparei rapida­
mente - que fazem com que este seja o tipo mais comum de performativo
explícito. Note-se que "presente" e "indicativo" não são denominações cor­
retas (sem falar nas implicações equívocas de "voz ativa"). Só as uso no
sentido gramatical conhecido. Por exemplo, o "presente", como coisa dis­
tinta de "presente contínuo", geralmente não tem nada a ver com descrever
(e nem mesmo com indicar) o que estou fazendo no momento. "Bebo cerve­
ja", como coisa distinta de "estou bebendo cerveja", não é análogo ao tem­
po futuro, que descreve o que farei no futuro, ou ao tempo passado, que des­
creve o que fiz no passado. É de fato mais comum que o presente indique um
hábito, nos casos em que é realmente "indicativo". E quando não é hábito, e
sim genuinamente "presente", como de alguma fonna ocorre no caso dos
performativos, tais como "batizo", então certamente não se trata de "indica­
tivo" no sentido dos gramáticos; isto é, no de descrever um certo estado de
coisas ou acontecimentos, de informar acerca disso ou relatar o que se pas­
sou. Porque, como vimos, o perfonnativo não descreve, nem infonna, mas
usado para fazer algo ou ao fazer algo. Usamos a expressão "presente do in­
dicativo;' simplesmente para referir-nos à forma gramatical inglesa I name
(batizo), I run (corro), etc. (Este erro na terminologia deve-se ao hto de se
assimilar, por exemplo I run ("corro") com a expressão latina "CUlCO" que
geralmente se deveria traduzir em inglês por I am running ("estou corren­
do"). O latim não tem dois tempos, enquanto que o inglês tem).
Mas o uso da primeira pessoa singular do chamado presente do indica­
tivo da voz ativa é um ingrediente essencial de todo proferimento performa-
Quando dizer é fazer
58
59
UvO? Não 6 necessário perder tempo com as exceçOes evidentes constituídas
pelo uso da primeira pessoa do plural: " prometemos", " aceitamos", etc. Há
exceções mais importantes e óbvias. Já nos referimos a algumas.
Um tipo muito comum e importante do que poderíamos pensar ser, fora
de qualquer dúvida, um performativo, apresenta o verbo na segunda e tercei­
ra pessoas (singular ou plural) e na voz passiva. Portanto, a pessoa e a voz
não são essenciais. Alguns exemplos desse tipo são:
1) "Pela presente está o senhor autorizado a pagar ... "
2) "Adverte-se aos passageiros que devem cruzar a via férrea somente
pela ponte."
Na realidade, o verbo pode ser "impessoal" em casos que levam a for­
ma da voz passiva. Por exemplo:
3) "Pela presente notifica-se que os intrusos serão processados."
Este tipo geralmente aparece em circunstâncias formais ou legais. Ca­
racteriza-se, pelo menos na linguagem escrita, pela inserção freqüente e tal­
vez até constante da expressão "pela presente". Isto serve para indicar que o
proferimento (escrito) da sentença é, como se costuma dizer, o instrumento
que leva a cabo o ato de "advertir", "autorizar", etc. "Pela presente" é um
critério útil de que o proferimento é performativo. Se tal expressão não é in­
serida, "Advertem-se os passageiros de que só devem cruzar a via férrea
pela ponte" , poderia ser usado para descrever o que normalmente acontece:
"ao aproximar-se do túnel, advertem-se os passageiros que não devem colo­
car a cabeça fora da janela", etc.
Contudo, se nos afastamos desses proferimentos performativos explí­
citos e altamente formais, temos de reconhecer que o modo e o tempo (até
aqui mantido em oposição a pessoa e voz) falham como critérios absolutos.
O modo não serve, porque posso ordenar alguém a virar à direita di­
zendo-lhe simplesmente "Vire à direita" e não "Ordeno-Ihe que vire à di­
reita"; posso pennitir que alguém saia dizendo simplesmente, "Pode sair"; e
em vez de " Aconselho-o (ou recomendo-lhe) que vire à direita" posso dizer
" Eu viraria à direita, se fosse você". O tempo também não serve, porque,
por exemplo, em vez de dizer "Acuso-o de ter feito X" posso simplesmente
dizer "você fez X". Isso para não mencionar os casos em que só temos uma
oração truncada, como quando aceito uma aposta dizendo simplesmente
" Está feito", e inclusive em casos em que não há verbo explícito algum, co­
mo ao dizer apenas "Culpado" quando considero a pessoa culpada, ou " Fo­
ra" quando ordeno a alguém que saia do jogo.
No caso particular de algumas palavras especiais que têm aparência de
perfonnativos, como, por exemplo, "falta", "impedido" (em futebol), pare­
.1. L. Austin
nos que poJ":1"ÍlUIlOS refutar até 11 regra tJuc govclllu () uso da VO'l. ativu ou
passiva que demos anterionnente. Em vez de "lJu o dcc)oro em impcdlmen
to" dizemos " Você está impedido". Assim, poderíamos pensar que certas
palavras estão aptas a servir de teste do proferimento perfonnativo, e qu
poderíamos fazer o teste por meio do vocabulário, como coisa distinta da
" gramática". Tais palavras poderiam ser " impedido", " autorizado", " prl
meto", " perigoso", etc., mas isso também não servirá, porque:
L Podemos ter o perfonnativo sem as palavras operacionais, assim:
(1) Em lugar de "esquina perigosa" podemos ter "esquina", e em ve
de "touro perigoso" podemos escrever "touro".
(2) Em vez de "você está autorizado a fazer X", podemos dizer "Você
pode fazer X", e em vez de "Prometo fazer X", podemos dizer "Farei X".
lI. Podemos ter a palavra operacional sem que o proferimento seja per­
formativo, assim:
(1) Em futebol um espectador pode dizer "foi fora mesmo". Do mes­
mo modo posso dizer "você foi culpado" ou "você estava impedido" ou
mesmo " você estava em falta", quando não tenho nenhum direito a fazer es­
se tipo de pronunciamento, em caráter oficial.
(2) Em locuções tais como "você prometeu" , "você autoriza" , etc., a
palavra ocorre em um uso que não é performativo.
Isso nos leva a um impasse no que diz respeito a um critério simples e
único fundado na gramática ou no vocabulário. Mas talvez não seja impossf­
vel produzir um critério complexo, ou pelo menos um conjunto de critérios,
simples ou complexos, que tomem em consideração tanto a gramática quanto
o vocabulário. Por exemplo, um dos critérios poderia ser que toda expressão
com o verbo no modo imperativo é performativa, mas isso nos levaria a en­
frentar muitos problemas, como, por exemplo, determinar quando o verbo
está no imperativo e quando não está, problemas nos quais não quero me en­
volver.
PrefIro voltar atrás por um instante e ver se há ou não uma boa razão
por detrás de nossa preferência inicial pelos verbos no chamado " presente
indicativo da voz ativa".
Dissemos que a idéia de um proferimento performativo exigia que a
expressão consistisse na realização de uma ação (ou que fizesse parte dessa
realização). As ações só podem ser realizadas por pessoas, e, em nossos ca­
sos, é óbvio que quem usa a expressão deve ser o que realiza a ação. Daí
nosso sentimento justificável - que erroneamente apresentamos em termos
puramente gramaticais - em favor da "primeira pessoa", que deve aparecer,
ser mencionada ou referida. Além disso, se quem profere a expressão está
Quando dizer é fazer
60
61
atuando, tom que estar fa:lcnuo al go donde nossa talvez mal­
expressada, pelo presente gramatical e pela voz ativa gramatical do verbo.
Ilá algo que, no momento em que se profere a expressão, está sendo reali­
zado pela pessoa que a profere.
Quando, na fórmula verbal da expressão não há uma referência à pes­
&oa que a profere e assim realiza o ato, isto é, quando não há uma referência
a ela por meio do pronome "eu" (ou por seu nome próprio), então "far-se-á
referência" à dita pessoa por meio de uma dessas fórmulas :
(a) Nas expressões orais, pelo fato de ser ela a pessoa que profere a
expressão, o que podemos chamar de origem do proferimento, que é usado
geralmente em qualquer sistema de coordenadas-de-referência verbais.
(b) Nos proferimentos escritos (ou "inscrições"), pelo fato de ser a
dita pessoa que coloca a sua assinatura (naturalmente que tem de fazer isso,
já que as expressões escritas não estão ligadas à sua origem da mesma forma
em que o estão as orais).
O "eu" que está realizando a ação entra, assim, essencialmente na ce­
na. Uma vantagem da forma com a primeira pessoa do singular do presente
do indicativo da voz ativa - e também das formas na voz passiva (na se­
gunda e terceira pessoas e quando o verbo é "impessoal"), todas elas com a
assinatura aposta - é que se torna explícita esta característica implícita da
situação lingüística. Além do mais, os verbos que, em base do vocabulário,
parecem ser especialmente performativos servem à fmalidade especial de ex­
plicitar (o que não é o mesmo que relatar ou descrever) qual é a ação precisa
que foi realizada ao proferir-se a expressão. As outras palavras que parecem
ter uma função especialmente performativa (e que na realidade a têm), tais
como "culpado", "impedido", etc., se comportam assim quando estão liga­
das em sua "origem" a verbos performativos explícitos, tais como "prome­
ter", "proclamar", "declarar", etc.
A fórmula "por meio da presente" é uma alternativa útil, mas é dema­
siado formal para os fms ordinários, e além disso, podemos dizer, "pela pre­
sente afirmo" ou "pela presente observo", e não devemos esquecer que es­
tamos procurando um critério para distinguir as declarações dos performati­
vos. (Tenho que explicar, a esta altura, mais uma vez, que estamos tateando.
Sentir o terreno fIrme do preconceito escorregar sob nossos pés é gratifIcan­
te, mas traz seus revezes).
Assim, o que nos sentiríamos inclinados a dizer é que todo proferi­
menta que seja de fato um performativo deveria ser capaz de ser reduzido,
expandido ou analisado de modo tal que se obtivesse uma forma na primeira
pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa (gramatical). Esse
é o tipo de teste que na realidade estávamos usando acima. Assim:
J. L. Austin
"fora" equivale a "Eu decluro, procluIl10 ou digo que você está fora
do jogo" (quando é um performativo. Mas nem sempre o é, por exemplo,
quando a pessoa que declara que cu estou fora do jogo não 6 o juiz da parti­
da.)
"Culpado" equivale a "Eu o declaro culpado" .
"Avisa-se que o touro é perigoso" equivale a "Eu, João da Silva, o
aviso que o touro é perigoso" ou equivale a
Este touro é perigoso
(Ass.) João da Silva
Este tipo de expansão torna explícito que o proferimento é performati­
vo, e qual o ato que está sendo realizado. A menos que o proferimento per­
formativo seja reduzido a uma tal forma explícita, será possível normalmente
. tomá-lo como se não o fosse. Por exemplo, "isso é teu" pode ser tomado
como equivalente a "eu te dou isso" ou a "isso já pertence a ti". Na realida­
de, há um jogo de palavras nos usosperformativo e não performativo do
aviso das estradas "Foram avisados que ... "
Contudo, embora possamos avançar ao longo dessa linha (há obstácu­
los) I, é preciso notar que essa primeira pessoa do singular do presente do in­
dicativo da voz ativa, assim chamada, constitui um uso peculiar e especial.
Em particular temos de notar que há uma assimetria sistemática entre essa
forma e as outras pessoas e tempos do mesmo verbo. O fato de haver esta
assimetria é precisamente a nota característica do verbo performativo (e é o
que podemos encontrar de mais próximo a um critério gramatical em cone­
xão com os performativos).
Tomemos como exemplo os usos de "aposto" contrastados com o uso
desse verbo em outro tempo e em outra pessoa. "Apostei" e " Ele aposta"
não são performativos, pois descrevem ações minhas e de outro, respectiva­
mente, ações que, em cada caso, constituem o pro ferimento do performativo
"aposto". Se profuo as palavras "Eu aposto" ... não afmno que profuo as
palavras "Eu aposto", ou qualquer outra, e sim realizo o ato de apostar. Do
mesmo modo, se ele diz que aposta, isto é, diz as palavras "Eu aposto" , ele
aposta. Mas se profuo as palavras "Ele aposta", apenas afmno que ele pro­
fere (ou melhor, proferiu) as palavras "Eu aposto", mas eu não realizo o seu
ato de apostar, que só ele pode realizar; apenas descrevo sua realização do
ato de apostar, mas eu faço minha própria aposta, e ele terá de fazer a sua.
1 Por exemplo, quais são os verbos com que se pode fazer isso? Se o performativo é expandido, qual
é o teste para determinar se a primeira pessoa do singular do presente do indicativo na voz ativa é, em
determinado caso, performativa, levando em conta que todas as outras formas devem ser reduzidas n
esta.
Quando dizer é fazer 62 63
De maneira semelhante, um pai ou mãe ansiosos, quando seu fIlho foi soli­
citado a fazer algo, podem dizer "ele promete, não é mesmo, Toninho?" ,
mas o pequeno Toninho tem que dizer, ele mesmo, "Prometo" para que te­
nha efetivamente prometido. Esta espécie de assimetria não se apresenta em
geral nos casos dos verbos que não são usados como performativos explíci­
tos. Por exemplo, não existe tal assimetria entre "eu corro" e "ele corre".
Contudo, é duvidoso que este seja exatamente um critério "gramatical"
(qual seria?), e de qualquer modo não é um critério muito exato, porque
(1) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­
va pode ser usada para descrever como me comporto habitualmente: "aposto
(todas as manhãs) dez cruzados como vai chover", "prometo unicamente
quando tenho a intenção de cumprir com a minha palavra".
(2) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­
va pode ser usada de modo semelhante ao presente "histórico". Posso usá-Ia
para descrever meus próprios atos realizados em outro tempo e em outro lu­
gar. Por exemplo, "na página 49 protesto contra o veredito". Podemos justi­
ficar isto dizendo que os verbos performativos não são usados no presente
contínuo (na primeira pessoa do singular na voz ativa). Não dizemos "estou
prometendo", nem "estou protestando". Mas mesmo isto não é totalmente
verdade, porque posso dizer "Não me perturbes agora; te verei mais tarde.
Estou me casando" a qualquer altura da cerimônia, quando não estou tendo
que dizer outras palavras tais como, "Aceito". Em tal caso o proferimento
do performativo não constitui todo o ato, que se estende no tempo e contém
diversos elementos. Ou posso dizer "Estou protestando" ao realizar o ato,
valendo-me de outros meio que não o "úer "Protesto", por exemplo, atiran­
do pedras contra os portões de uma embaixada. Ou posso até dizer "Estou
ordenando" enquanto escrevo a palavra "Ordeno".
(3) Alguns verbos podem ser usados na primeira pessoa do singular do
presente do indicativo da voz ativa de duas maneiras simultâneas. Um exem­
plo é "chamo", como quando digo: "chamo inflação ao excesso de dinheiro
em busca de bens escassos", que abarca tanto um pro ferimento performativo
quanto uma descrição de um ato naturalmente conseqüente.
(4) Corremos o risco aparente de incluir fórmulas demais que podería­
mos não querer qualificar de performativas. Por exemplo, "Afirmo que ... "
(pronunciar estas palavras é declarar, da mesma forma que "aposto que ... " é
apostar).
(5) Temos casos de adequação da ação à palavra. Assim, posso dizer
"rio-me de você" e imediatamente rir; ou dizer "acomodo" numa partida de
xadrez, quando toco numa peça apenas para acomodá-la bem; ou dizer, "ci-
J. L. Austin
to" e passar a citar realmente. Se dou uma defmição dizendo, "defi no X c
mo se segue: X é Y" este é um caso de adequar a ação (de deflnir) à palavra.
Quando usamos a fórmula "defino X como Y" temos a transição para um
proferimento performativo de um caso de adequação da ação à palavra. Po­
deríamos acrescentar também que, do mesmo modo, há uma transição ao uso
de performativos. Há uma transição da palavra FIM no final de um romance
para a expressão " [mda a mensagem" no [mal de uma mensagem em código,
levando à expressão "com isto concluo minha defesa", dita por um advoga­
do diante do tribunal. Podemos dizer que estes são casos em que a palavra
indica a ação e nos quais, eventualmente, o uso da palavra chega a ser a
ação de "concluir" (ato difícil de realizar, já que é o cessar da ação, ou, em
, todo caso, difícil de tornar explícito de outras maneiras).
(6) Sempre se dá o caso de ser necessário ter um verbo performativo
para tornar explícito algo que sem dúvida estamos fazendo ao dizer certas
palavras? Por exemplo, posso insultar uma pessoa dizendo-lhe algo, mas não
temos a fórmula "Eu o insulto".
(7) Dá-se realmente o caso de podermos sempre colocar um performa­
tivo numa forma normal sem perder nada? "Estarei lá" pode querer dizer
coisas diferentes. Talvez contemos com esta ambigüidade. Ou quando dize­
mos "Sinto muito", isto equivale exatamente ao performativo explícito "Pe­
ço-Ihe desculpas?".
Teremos que voltar à noção do performativo explícito e devemos dis­
cutir, pelo menos historicamente, como surgem algumas dessas perplexida­
des, que, talvez, em última análise não sejam assim tão graves.
Quando dizer é fazer
64
65
e
VI Conferência
Performativos explícitos
Por haver sugerido que os performativos não são assim tão obviamente
distintos dos constatativos - os primeiros felizes ou infelizes, os segundos
verdadeiros ou falsos - passamos a considerar como definir mais claramente
os performativos. A primeira sugestão foi a de se encontrar um critério ou
critérios gramaticais, ou de vocabulário, ou uma combinação de ambos.
Destacamos o fato de que certamente não há nenhum critério absoluto deste
tipo; e de que muito provavelmente não seria viável sequer fazer uma lista de
todos os critérios possíveis. Além disso, tais critérios não serviriam para dis­
tinguir os performativos dos constatativos, uma vez que é muito comum que
a mesma sentença seja usada, em diferentes ocasiões de proferimento, das
duas formas, como performativo ou como constatativo. O problema parece
sem solução se deixarmos os proferimentos tal como estão e continuarmos a
buscar um critério.
Contudo, o tipo de performativo do qual tiramos nossos primeiros
exemplos, que tem um verbo na primeira pessoa do singular do presente do
indicativo da voz ativa, parece merecer nossa preferência, pelo menos nos
casos em que fazer o pro ferimento é realizar o ato. Nesse caso o pronome
"eu", a "voz ativa" e o "presente" parecem apropriados. Embora os per­
formativos não sejam, na verdade, como os demais verbos nesse "tempo" ,
há uma assimetria essencial entre os performativos e esses outros verbos. Es­
sa assimetria é, na verdade, característica de uma longa lista de verbos que
se parecem com os performativos. Sugerimos então:
J. L. Austin
1) fazer uma lista de todos os verbos com essa pecuJiaridad""
2) Supor que todos os proferimentos perfonnntivos que não se apl\;,"
sentem nessa forma privilegiada - começando com "eu x que ... ", "eu
x a ... ", "eu x ... " - podem ser "reduzidos" a esta forma e convertidos no
que chamaríamos de performativos expltcitos.
Devemos nos perguntar agora se isso será fácil ou sequer poss(vel. t
relativamente fácil aceitar certos usos bastante normais, embora diferentes,
da primeira pessoa do presente do indicativo da voz ativa, mesmo com esses
verbos que podem muito bem ser constatativos ou descritivos, isto é, verbos
no presente habitual, no presente "histórico" e no presente contínuo. Mas
ainda assim, como já haviam mencionado rapidamente ao concluir a confe­
rência anterior, há outras dificuldades adicionais. Mencionei três .delas como
sendo típicas:
(1) "Classifico" ou talvez "Considero" parecem por um lado consta­
tativos, por outro lado performativos. Qual dos dois seriam? Ou se­
riam ambos?
(2) "Declaro que ... " parece adequar-se às nossas exigências gramati­
cais ou "como que gramaticais" , mas desejamos de fato incluí-lo?
Nosso critério, tal como o expusemos, corre o risco de incluir ex­
pressões não performativas.
(3) Às vezes, dizer algo parece ser caracteristicamente fazer algo, por
exemplo, ao insultar ou repreender alguém. Contudo, não existe o
performativo "Eu o insulto". Nossc critério não incluirá todos os
casos em que fazer um proferimento é realizar algo, porque a "rp ­
dução" a um performativo explícito nem sempre é possível.
Paremos um pouco para considerar mais detidamente a expressão "per­
formativo explícito", que introduzimos de maneira um tanto sub-reptícia.
Vamos colocá-la em oposição a "performativo primário" (que preferimos a
peformativo implícito ou inexplícito). Demos como exemplo:
1) proferimento primário: "Estarei lá".
2) performativo explícito: "Prometo que estarei lá". Dissemos que esta
forma tornava explícita a ação realizada ao se fazer o proferimento "Estarei
lá". Se alguém diz "estarei lá" , podemos perguntar "Trata-se de uma pro­
messa?" A resposta pode ser "Sim", ou "Sim, prometo" (ou "Prometo
que ... "). Por outro lado, a resposta poderia ter sido apenas, "Não, mas pre­
tendo estar lá" (expressando ou anunciando uma intenção), ou, então, "Não,
mas posso prever que, conhecendo o meu fraco, eu (provavelmente) estarei
lá" .
Quando dizer é fazer _____________________
66
7
Devemos fonnular agota. duas advertências: "tomar expl1cito" não é o
mesmo que descrever ou relatar (ao menos não no sentido que os ftlósofos
preferem dar a estes tennos) o que estou fazendo. Se "tomar explícito" dá
essa idéia, então é um tenno inadequado. A situação no caso das ações que
não são lingüísticas, mas que se assemelham a proferimentos perfonnativos
por caracterizarem a realização de um ato convencional (ritual ou cerimo­
nial), é a seguinte: suponhamos que eu me incline profundamente diante de
uma pessoa. Pode não ficar claro se estou fazendo uma reverência ou, diga­
mos, se estou me curvando para observar a flora ou para aliviar minha indi­
gestão. De modo geral, então, para esclarecer que se trata de um ato cerimo­
nial convencional, e também para identificar o ato (por exemplo, como um
ato de reverenciar), deve-se incluir, via de regra, um outro elemento espe­
cial, como, por exemplo, tirar o chapéu, tocar o chão com a testa, levar a
mão ao coração, ou até mesmo emitir algum som ou proferir uma palavra
como "Salaam". Ora, proferir "Salaam" não é descrever minha ação, nem
indicar que estou realizando uma reverência, assim como não o é o fato de
tirar o chapéu. Pela mesma razão - mais adiante voltaremos a isso - dizer
"Eu o saúdo" não é descrever meu ato de saudar. Fazer ou dizer tais coisas
é tornar claro como o ato deve ser considerado ou entendido, dizer de que
ação se trata. O mesmo se dá quando usamos a expressão "Prometo que".
Não se trata de uma descrição porque (1) não pode ser verdadeira, nem falsa;
(2) dizer "eu prometo que" (se o perfonnativo for feliz, é claro) constitui,
sem ambigüidades, uma promessa. Podemos dizer que uma fónnula perfor­
mativa como "Prometo" esclarece como se deve entender o que foi dito. Po­
de-se até conceber que a fónnula "declare que" a promessa foi feita. Mas
não se pode dizer que tais proferimentos sejam verdadeiros ou falsos, nem
que sejam descrições ou relatos.
Em segundo lugar, uma advertência menos grave. Observem que, em­
bora nesse tipo de proferimento tenhamos um "que" introduzindo uma frase
depois do verbo, por exemplo, "prometo que", "acho que", "declaro que"
(ou, ainda, verbos como "calculo que"), não se tratam de casos de "discurso
indireto". No discurso indireto ou oratio obliqua, as frases iniciadas por
"que" são, é claro, casos em que relato o que outra pessoa, ou, mesmo, em
outra ocasião, disse.
Um exemplo típico é "Ele disse que ... ", mas também, possivelmente,
"Ele prometeu que ... " (ou será este um duplo uso de " que"?) ou, "na pági­
na 456 afirmei que ... " . Se esta é uma noção claraI vemos então que o "que"
1 Minha explicação ê muito obscura, como as que os livros de gramática dão sobre frases iniciadas
por "que". Compare-se com isto a explicação mais obscura sobre as frases que contêm "o que" .
68 J. L. Austin
do discun;o indireto nlio é de 1110<.10 algum ao ilquc" dos perror
mativos expllcitos. Nestes casos não estou relatando, na primeira pessoa <./0
singular do presente do inclicativo da voz ativa, o meu próprio discurso. Di­
ga-se de passagem, não é absolutamente necessário que um verbo pcrforma­
tivo explícito deva ser seguido de "que". Em muitos tipos de casos impor­
tantes o verbo é seguido por preposição, ou não é seguido de nada. Exem­
plos: "Peço desculpas por. .. ", "eu o saúdo" , etc.
Algo que parece nos pennitir fazer pelo menos uma boa suposiçã",
tanto do ponto de vista da construção lingüística, quanto do da natureza
desta no perfonnativo explícito, é o seguinte: historicamente, do ponto de
vista da evolução da linguagem, o perfonnativo explícito deve ter se desen­
volvido posterionnente a certos proferimentos mais primários, muitos dos
quais são já perfonnativos implícitos, incluídos em muitos dos perfonnativos
explícitos, ou até, em sua maioria, como partes de um todo. Por exemplo,
"Eu o farei" , é anterior a "Prometo que o farei". Uma explicação plausível
(não sei exatamente como poderia ser demonstrada) seria que nas linguagens
primitivas ainda não estaria claro, ainda não seria possível distinguir quais
das diferentes coisas (valendo-nos de distinções posteriores) que poderíamos
estar fazendo, estávamos de fato fazendo. Por exemplo, "touro" ou "tro­
vão", em uma linguagem primitiva que consistisse de proferimentos de uma
s6 palavra,2 poderiam ser uma advertência, uma infoonação, uma predição,
etc. Parece também plausível supor que a distinção explícita das diferentes
forças que um pro ferimento deste tipo possa ter seja uma conquista posterior
da linguagem, de importância considerável. As foonas primitivas ou primá­
rias dos proferimentos conservam, neste sentido, a "ambigüidade", ou "e­
quívoco", ou o "caráter vago" da linguagem primitiva. Tais fonnas não tor­
nam explícita a força exata do proferimento. Isto pode ter suas vantagens,
mas a sofisticação e o desenvolvimento de foonas e procedimentos sociais
exigem clarificação. Mas notem que esta clarificação é um ato tão criativo
quanto uma descoberta ou uma descrição. Trata-se tanto de estabelecer di s­
tinções claras, quanto de tornar claras distinções já existentes.
Uma coisa que tendemos a fazer e que, porém, é muito perigosa, é con­
siderar que de alguma fonna sabemos que o uso primário das sentenças tem
2 possível de fato que as linguagens primitivas fossem deste tipo, cf. Jespersen. "
.. Referência ao lingüista dinamarquês Otto Jespersen e à sua obra Language, its nature, developnl(l/I(
arul origin, Londres, 1922. A questão da origem da Linguagem foi um dos problemas mais centrais
nos prim6rdios da Lingüística, sendo o mais famoso o trabalho de 1. Herder Ablumdlung über d CII
Ursprung der Sprache (Tratado sobre a Origem da Linguagem) publicado em 1772 e escrito em ros­
posta à questão formulada pela Academia de Ciências da Prdssia em 1769.
A discussão sobre a origem da Linguagem é hoje uma questão basicamente abandonada pela pilosono
da Linguagem, devido ao seu caráter eminentemente especulativo. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 6
de ser, porque deve ser; um uso declarativo ou constatativo, no sentido es
cífico do fIlósofo, segundo o qual se trata de um proferimento cuja única
pretensão é ser verdadeiro ou falso e que não está sujeito a nenhum outro ti­
po de critica. Certamente não podemos saber isso, como também não pode­
mos saber se todos os proferimentos tiveram sua origem em imperativos
(como alguns afInnam) ou em xingamentos. Parece muito mais provável que
a "pura" declaração, seja uma meta, um ideal , ao qual o desenvolvimento
gradual da ciência deu impulso, assim como deu impulso ao ideal de preci­
são. A linguagem em si, e nos seus estágios primitivos, não é precisa, nem
explícita, no sentido que demos a esta palavra. A precisão na linguagem tor­
na claro o que foi dito, o significado. A explicitação, em nosso sentido, tor­
na mais clara a força do proferimento, ou seja, como (no sentido indicado
abaixo) deve ser considerado.
A fónnula perfonnativa explícita, além disso, é apenas o último e o
mais eficaz recurso lingüístico, dentre muitos que sempre foram usados com
maior ou menor êxito para desempenhar a mesma função (assim como a pa­
dronização foi o recurso mais bem-sucedido para se desenvolver a precisão
da fala).
Consideremos por um momento alguns destes outros recursos lingüísti­
cos mais primitivos, algumas das funções que podem ser melhor desempe­
nhadas pelo recurso ao performativo explícito (embora, é claro, não sem al­
guma modifIcação ou perda, como veremos).
1. Modo
Já mencionamos o recurso extremamente comum de usar o modo impe­
rativo. Isto faz com que o proferimento seja uma "ordem" (ou uma exorta­
ção, ou permissão, ou concessão, o que seja!). Assim, posso dizer "Fe­
che-a", em diversos contextos:
"Feche-a, faça-o" , assemelha-se a " Ordeno-lhe que a feche" .
"Feche-a, eu o faria" , assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la".
"Feche-a, se quiser" , assemelha-se a "Permito que a feche".
"Muito bem, então feche-a" , assemelha-se a "Consinto que a feche".
"Feche-a, se tiver coragem", assemelha-se a "DesafIo-o a fechá-la" .
Ou, ainda, podemos usar verbos auxiliares.
"Pode fechá-la", assemelha-se a "Dou-lhe perrnissão para que a fe­
che".
"Tem de fechá-la", assemelha-se a "Ordeno-lhe, previno-lhe, que a fe­
che".
"Deve fechá-la" , assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la."
J. L. Austin
• Tom de voz, cudênclll, ênfusc
(Análogo a isto 6 o recurso sofisticado de se usar instruções junto aos
diálogos em peças teatrais; por exemplo, "ameaçadoramente", etc). Exem­
plos desse tipo são:
Vai atacar-nos! (aviso)
Vai atacar-nos? (pergunta)
Vai atacar-nos!? (protesto)
Estes aspectos da linguagem falada não são fáceis de se reproduzir no.
linguagem escrita. Por exemplo, tentamos transmitir o tom de voz, a cadên­
cia e a ênfase de um protesto através do uso de um ponto de exclamação se­
guido de um ponto de interrogação (mas isso é muito insatisfatório). A pon­
tuação, o uso do grifo e a ordem das palavras podem ser úteis, mas são ri
cursos bastante toscos.
3. Advérbios e Expressões Adverbiais
Na linguagem escrita - e, até mesmo, em certos casos, na linguagem
falada, embora nesta isto não seja tão necessário - utilizamos advérbio
expressões adverbiais e certos torneados lingüísticos. Assim, podemos ate­
nuar a força de "Eu o farei" , acrescentando "provavelmente", ou aumen­
tá-la, acrescentando "sem falta" . Podemos dar ênfase (a uma advertência, ou
seja o que for) escrevendo "Seria bom que você nunca se esquecesse dis­
sO... " . Muito se poderia dizer aqui a respeito das conexões que há entre tais
recursos e os fenômenos de insinuar, sugerir, dar a entender, "expressar"
(palavra odiosa!), etc., todos os quais são essencialmente diferentes, embora
envolvam, muito freqüentemente, o emprego de expressões verbais e cir­
cunlóquios semelhantes. Na segunda metade de nossas conferências nos
voltaremos para as importantes e difíceis distinções que devem ser feitas a
este respeito.
4. Partículas conectivas
Em um nível talvez de maior sutileza, aparece o recurso verbal especial
de se usar uma partícula com,:;tiva. Assim, podemos usar a partícula "contu­
do" com a força de " insisto que" ; usamos " portanto" com a força de "con­
cluo que"; usamos "embora" com a força de "admito que". Notem-se tanr
bém os usos de "ao passo que", "dessa forma" e "além do mais"3. O uso de
títulos como Manifesto, Decreto, Proclamação, ou o subtítulo "Um Roman­
ce ... ", serve a um propósito muito semelhante.
3 Mas alguns destes exemplos levantam a velha questão se "admito que" e "concluo que" snoOu nno
performativos.
Quando dizer é fazer 70 71
Al6m do que dizemos c da maneiro do há outros recW'Sos es­
senciais - como os que mencionaremos a seguir - que pennitem veicular,
de algum modo, a força do proferimento.
S. Elementos que acompanham o proferimento
Podemos acompanhar o proferimento das palavras com gestos (piscar
de olhos, sinais, dar de ombros, franzir o cenho, etc.) ou com atos cerimo­
niais não-verbais. Tais recursos, às vezes, podem ser usados sem o proferi­
mento lingüístico e sua importância é bastante evidente.
6. As circunstâncias do proferimento
Uma ajuda extremamente importante resulta das circunstâncias do pro­
ferimento. Assim, podemos dizer: "Vindo dele, interpretei aquilo como uma
ordem e não um pedido". Do mesmo modo, o contexto das palavras: "morre­
rei um dia", "te deixarei o meu relógio" e, em particular, o estado de saúde
da pessoa que fala, são relevantes para determinar como estas palavras de­
vem ser interpretadas.
Mas, de certo modo, tais recursos são excessivamente ricos em signifi­
cado. Prestam-se a equívocos e a distinções errôneas e, além do mais, são
utilizados também para outros propósitos, como, por exemplo, a insinuação.
O performativo explícito exclui os equívocos e mantém a realização relati­
vamente estável.
A dificuldade com esses elementos consiste principalmente no fato de
ser vago o seu significado e incerto o resultado de sua recepção. Mas prova­
velmente também deve haver neles alguma inadequação, em sentido positivo,
para enfrentar a complexidade do âmbito das ações que realizamos com pa­
lavras. Um "imperativo" pode ser uma ordem, uma pennissão, uma exigên­
cia, um pedido, uma sugestão, uma recomendação, uma advertência ("V á,
para você ver o que acontecerá"), ou pode expressar uma condição, uma
concessão, ou uma defmição ("Seja ... "), etc. Entregar algo a alguém pode
ser, quando dizemos "Tome isto" , um presente, um empréstimo ou um ato
de entregar em confiança. Dizer "Estarei lá" pode ser uma promessa, ou po­
de expressar uma intenção, ou pode ser uma previsão para o futuro. E assim
sucessivamente. Sem dúvida que uma combinação de alguns ou de todos es­
ses elementos mencionados acima (e é provável que ainda haja outros) será,
via de regra, suficiente. Assim, quando dizemos "Estarei lá", podemos dei­
xar claro que estamos fazendo uma simples previsão futura, acrescentando os
advérbios "sem dúvida" ou "provavelmente"; ou que estamos expressando
uma intenção, acrescentando o advérbio "com certeza"; ou que estamos fa-
J. L. Austin
ndo UI11U promessa, acrescentando a expressíio tldvt.:rbiul"/)cm faJu,". 011 1\
frase "farei todo o possível".
Deve-se notar que quando existem verbos pcrfonnativos. podemos usá
los não só em fórmulas do tipo "(prometo) que ... " ou "(exorto-o) a ... ", mas
também nas instruções que acompanham um diálogo teatral ("saudações"),
em títulos ("advertência!"), e entre parênteses (este é um teste quase tão
bom da presença de performativos, quanto as outras formas normais qu
apresentamos). Não devemos esquecer tampouco o uso de palavras especiais
como "Fora, etc., que não possuem forma normal.
Contudo, a existência e até mesmo o uso dos performativos explfcitos
não resolvem todas as nossas dificuldades.
(1) Em ftlosofia podemos até levantar a questão da possibilidade de os
performativos serem confundidos com sentenças descritivas ou constatativos.
(la) Nem se trata simplesmente de que o performativo não conserve o
caráter equívoco, por vezes agradável das expressões primárias. Também
temos que considerar, de passagem, os casos em que é duvidoso determinar
se a expressão é ou não um performativo explícito, e casos muito semelhan­
tes aos performativos sem o serem de fato.
(2) Parece haver casos evidentes em que a mesma fórmula aparente­
mente é às vezes um perfonnativo explícito e às vezes é descritiva, e pode
até jogar com esta ambivalência: por exemplo, "Aprovo" e "Concordo".
Assim, "Aprovo" pode ter a força performativa de dar aprovação ou pode
ter o significado descritivo de "Estou a favor disto".
Consideraremos dois tipos clássicos de casos em que se apresenta o
problema e que exibem alguns dos fenômenos incidentais no desenvolvi­
mento das fórmulas performativas explícitas. Há numerosos casos na vida
humana em que sentir uma certa "emoção" ou "desejo", ou adotar uma certa
atitude, é convencionalmente considerado uma resposta ou reação adequada
a certos estados de coisas, incluindo a realização por parte de alguém de um
certo ato, casos em que esta resposta é natural (ou assim queremos crer!,.
Em tais circunstâncias é possível e comum que de fato sintamos a emoção ou
o desejo em questão. E uma vez que nossas emoções e desejos não são fa­
cilmente detectáveis pelos demais, é comum que queiramos informar-lhes
que os sentimos. É compreensível que, embora por razões um pouco düe­
rentes e talvez menos recomendáveis em certos casos, se tome obrigatório
"expressar" tais sentimentos, quando os temos, e até mesmo quando isso
apropriado, quer os tenhamos ou não. Exemplos de expressões usadas desta
forma são:
Quando dizer é fazer 72 7
Agradeço Sou Groto Sinto-mo bYJ'8to
Peço desculpas Lamonto A rrepcndo- me
CritiCO }
Censuro Culpo
Estou chocado com
Estou revoltado com
Aprovo Aprovo Sou favorável a
Dou-lhe as boas­
vi ndas Recebo com prazer
Felicito-o Alegro-me com
Nestas listas, a primeira coluna contém proferimentos performativos; as
expressões na segunda coluna não são puramente descritivas e sim semides­
critivas, e as da terceira coluna são meros relatos. Há, pois, numerosas ex­
pressões, dentre elas algumas muito importantes, que sofrem de uma certa
deliberada ambivalência, ou se beneficiam dela. Tal ambivalência é combati­
da pela introdução constante de frases performativas deliberadamente puras.
Podemos sugerir alguns testes para decidir se "aprovo" ou "lamento" está
sendo usado (ou mesmo se é sempre usado) de uma ou de outra maneira.
Um teste seria se faz sentido dizer "É realmente assim?". Por exemplo,
quando alguém diz "Eu o recebo com prazer" ou "Dou-lhe as boas-vindas",
podemos nos perguntar, da mesma forma, "Será que ele realmente lhe dá as
boas-vindas?" .
Outro teste seria perguntar se a pessoa poderia realmente estar fazendo
algo sem dizer nada; por exemplo, no caso de lametar em vez de pedir des­
culpas, de ser grato em vez de agradecer, de culpar em vez de censurru4. Um
terceiro teste seria, pelo menos em alguns casos, perguntar se poderíamos in­
serir antes do suposto verbo performativo algum advérbio como "delibera­
damente" , ou uma expressão como "estou propenso a", porque (possivel­
mente) se o proferimento é a realização do ato, então é certamente algo que
poderíamos (dada a ocasião) fazer deliberadamente ou estar propenso a fazê­
lo. Assim, podemos dizer: " Eu deliberadamente lhe dei as boas-vindas", "eu
deliberadamente aprovei sua ação", "eu deliberadamente pedi desculpas"; e
podemos dizer: "estou propenso a pedir desculpas". Mas não podemos dizer
"eu deliberadamente estava de acordo com sua ação" , ou "estou propenso a
lamentar" (ao contrário de "estou propenso a dizer que lamento").
Um quarto teste seria perguntar se o que a pessoa diz poderia ser lite­
ralmente falso, como ocorre às vezes quando digo "lamento", ou se poderia
apenas envolver insinceridade (infelicidade), como quando se diz, às vezes,
4 Ilá ddvidas clássicas acerca da possibilidade de consentimento tácito. Aqui a realização não-verbal
ocorre como forma alternativa do ato per formativo. Isto lança ddvidas sobre o segundo teste!
J. L. Austin
"Peço desculpas". Estas expressõcs obscurecem a distinção cnlrl> insincen.
dade e falsidades.
Mas há uma certa distinção a ser feita, acerca de cuja natureza exata
tenho dúvidas. Relacionamos acima "eu peço desculpas" com " lamento",
mas agora há numerosas expressões convencionais de sentimento, muito pa­
recida entre si em certos aspectos, que nada têm a ver com os performativos.
Por exemplo:
"Tenho o prazer de apresentar o próximo orador."
" Lamento ter que dizer que ... "
"Tenho a grata satisfação de poder anunciar _"6
Chamamos estas expressões de frases de cortesia, como "Tenho a hon­
ra de", etc. É convencional formulá-las dessa maneira. Mas não se dá o caso
de que dizer que se tem prazer seja de fato ter prazer em algo. Infelizmente.
Para que algo seja um proferimento performativo, mesmo nos casos vincula­
dos a sentimentos e atitudes que denominarei de "Comportamentais " , não
tem que ser simplesmente uma expressão convencional de sentimentos e ati­
tudes.
Também devemos distinguir os casos de adequação do ato à pala­
vra - um tipo especial de caso que pode dar origem a performativos, mas
que não consiste, por si mesmo, em um proferimento performativo. Um caso
típico é o "Bata a porta assim" (batendo então a porta). Mas esse
tipo de caso leva a "Eu o saúdo" (fazendo então a saudação) . Aqui, "eu O
saúdo" pode tornar-se um substituto para a saudação, tornando-se portanto
um proferimento performativo puro. Dizer "Eu o saúdo" agora é saudar a
pessoa. Compare-se isso com a expressão "Saúdo a memória de ... "
Mas há muitas etapas transitórias entre adequar a ação à palavra e o
performativo puro:
"Cheque". Dizer isso é dar um cheque, quando dito nas circunstâncias
apropriadas. Mas seria isso um cheque, se a palavra não fosse dita?
"Acomodo". Isso é adequar a ação à palavra ou constitui parte do ato
de ajeitar a peça de xadrez em contraste com movê-la?
Talvez tais distinções não sejam importantes, mas há transições seme­
lhantes no caso dos performativos. Assim, por exemplo, quando se diz:
5 Há fenômenos paralelos a estes em outros casos. Um exemplo realmente perturbador se dá com O
que podemos chamar de performativos expositivos.
* Na XII Conferência Austin procede a uma classificação de cinco tipos básicos de atos de fa la, den­
tre os quais se encontram os expositivos e os comportamentais. mencionados logo adiante. (N. do T.)
6 No manuscrito há uma nota à margem: .. Aqui é necessário ampliar a classificação: note-se isso de
passagem."
Quando dizer é fazer
74
75
"Cito", e faz-se uma citação.
" Defino ", e dá-se uma defmição (por exemplo, " x é y" ) .
.. Defino x como y" .
Nestes casos a expressão funciona como um título. Trata-se de um tipo
de perfonnativo? Essencialmente funciona assim quando a ação adequada à
palavra é ela própria uma ação verbal.
J. L. Austin
VII Conferência
Verbos performativos explícitos
Na última conferência consideramos o performativo expltcito em con­
traste com o performativo primário, afmnando que o primeiro resultou natu­
ralmente do segundo a partir do desenvolvimento da linguagem e da socie­
dade. Dissemos, contudo, que isso não eliminaria todos os nossos problemas
em busca de uma lista de verbos performativos explícitos. Demos alguns
exemplos que ao mesmo tempo serviram para ilustrar como o performativo
explícito se desenvolve a partir do primário.
Selecionamos nossos exemplos na esfera do que chamamos "compor­
tamentais", um tipo de performativo que diz respeito a reações ao compor­
tamento dos outros e que se destina a expressar atitudes e sentimentos.
Contrastemos:
P erformativo
P erformativo N áo-Puro Descritivo
Expltcito
(Semidescritivo)
Peço desculpas Lamento Arrepend<rme
Critico Culpo Estou revoltado com
Censuro Dou minha aprovação a Sinto simpatia por
Aprovo Receb<ro com prazer
Dou-lhe as boas-vindas
Quando dizer é fazer 76 77
Sugerimos os seguintes tClllcs púra o perfonnutivo oxpUclto puro:
(1) Faz sentido (ou o mesmo sentido) perguntar " mas, foi assim mes­
mor" Não podemos perguntar "Ele realmente lhe deu as boas-vindas?", no
mesmo sentido em que perguntamos " Ele realmente o recebeu com hospita­
lidade?" Ou, então, "Ele realmente o criticou?", no mesmo sentidó em que
"Ele realmente o considerou culpado?" Este teste não é muito
bom, devido, por exemplo, à possibilidade das infelicidades. Podemos per­
guntar "Ele realmente se casou?" quando disse "Aceito", porque podem ter
havido infelicidades que tomaram problemático o casamento.
(2) Poderia a pessoa estar realizando a ação sem proferir o performati­
vo?
(3) Poderia fazê-lo deliberadamente? Poderia estar propenso a fazê-lo?
(4) Poderia ser literalmente falso, por exemplo, que critico (em con­
traste com culpo) quando disse que criticava? (É claro, isso poderia sempre
ser insincero). .
Às vezes, podemos recorrer a um teste que consiste no uso de uma pa­
lavra diferente, outras vezes de uma construção distinta da fórmula. Assim,
num performativo explícito podemos dizer "aprovo" em vez de "dou minha
aprovação a". Comparemos a distinção entre "Desejaria que você estivesse
no fundo do mar" e "Desejaria você no fundo do mar"; ou entre "Desejo
que você esteja se divertindo" e "Desejo-Ihe felicidades", etc.
Em conclusão, distinguimos nossos performativos de:
(1) Frases rituais convencionais usadas puramente como fórmulas de
cortesia, tais como "Tenho o prazer de... " . Estas são bem típicas, porque,
embora rituais, não necessitam ser sinceras. Segundo os quatro testes sugeri­
dos acima, não são performativos. Parecem constituir uma classe restrita, li­
mitada talvez a manifestações de sentimento, e também a expressão de sen­
timento em resposta a algo dito ou ouvido.
(2) Casos em que se adapta a ação à palavra, cujo exemplo típico seria
o do advogado que termina sua exposição oral dizendo "Concluo assim mi­
nha argumentação". Estas frases são especialmente suscetíveis de se con­
verterem em performativos puros quando a ação adequada à palavra é em si
mesma um ato puramente ritual, como a ação não-verbal de fazer uma reve­
rência ("Eu o saúdo"), ou o ritual verbal de dizer "Bravo" ("Eu aplaudo").
Há uma segunda classe muito importante de palavras em que o mesmo
fenômeno de transição de proferlmento descritivo para performativo, e a os­
cilação entre ambos, ocorre, assim como acontece com os comportamentais,
com grande freqüência. Trata-se da classe dos que chamo expositivos ou
performo.tivos exposicionais. Aqui o corpo principal da expressão tem ge-
J. L. Austin
.rolmcntC', ()lI l'OIll bU/llllnt(' freqüência, li formll expf(t' Itu de UlIllI "dCt'lllrtl
ção", e há um verbo performnllvo cxplfcito 00 iIúcio (,juc mostra como
"declaração" deve encaixar-se no contexto da conversa, da troca verbal , d
diálogo, ou, em geral, da exposição. Aqui vão alguns exemplos:
"Sustento (ou insisto) que a face oculta da lua não existe."
"Concluo (ou infiro) que a face oculta da lua não existe."
"Declaro que a face oculta da lua não existe."
"Admito (ou concedo) que a face oculta da lua não existe."
"Prevejo (ou predigo) que a face oculta da lua não existe."
Dizer isso é sustentar, concluir, declarar, predizer, etc.
Ora, muitos destes verbos parecem ser, de modo plenamente convin­
cente, performativos puros (por mais irritante que seja tê-los, enquanto tais,
ligados a frases que parecem "declarações", falsas ou verdadeiras; mencio­
namos isso anteriormente e voltaremos a este ponto mais tarde). Por exem­
plo, quando digo "prevejo que ... " , "concedo que .. .", "postulo que ... ", a
frase seguinte terá normalmente o aspecto de uma declaração, mas os verbo
em si parecerão performativos puros.
Voltemos aos quatro testes que utilizamos com os comportamentais,
Quando alguém diz, "Postulo que ... " ,
1) não podemos perguntar, "mas ele estava realmente postulando?",
2) não se pode estar postulando algo sem dizê-lo explicitamente,
3) pode-se dizer "Eu, deliberadamente, postulo que .. .", ou "Tenho a
intenção de postular ... ",
4) não pode ser literalmente falso dizer "Postulo que ... " (salvo no sen­
tido já assinalado: "na página 265 postulo que ... "). Em todos estes casos,
"postulo" é como "peço-lhe desculpas" ou "critico-o por ... ". Sem dúvida,
tais proferimentos podem ser infelizes, alguém pode predizer algo quando
não tem o direito de fazê-lo, ou dizer "Confesso que você o fez", ou ser in­
sincero ao dizer "Confesso que o fiz" quando não o fez.
Contudo, há inúmeros verbos que se assemelham muito a esses e quo
parecem pertencer à mesma classe, mas que não passariam nos testes de for­
ma satisfatória. Por exemplo, "Suponho que" em contraste com "postulo
que". Poderia dizer tranqüilamente "estava supondo que ... " mesmo que na­
quele momento eu não estivesse percebendo que estava supondo e sem que
houvesse dito nada a respeito disso. E posso estar supondo algo, no impor­
tante sentido descritivo, ainda que não o perceba ou o manifeste oralment",
Posso, naturalmente, estar afirmando ou negando algo, por exemplo, sem di­
zer nada explicitamente, nos casos em que"Afirmo" e "Nego" são perfor­
mativos explícitos puros em sentido não relevante aqui. Posso afmnar ou n
Quando dizer é fazer 78 79
ar com a cabeça, ou al1nnar ou negar por implicação, em conseqüência de
alguma outra coisa que disse. Mas, no caso de "estava supondo que " eu po­
deria ter suposto algo sem ter dito nada, não por implicação em conseqüên­
cia de alguma outra coisa que disse, mas simplesmente por estar sentado no
meu canto em silêncio de uma forma tal que o meu sentar-me em silêncio
não poderia representar negação.
Em outras palavras, "suponho que" e talvez "considero que" funcio­
nam da mesma maneira ambivalente que "lamento que". Esta última expres­
são às vezes equivale a "peço-lhe desculpas" , às vezes descreve meus sen­
timentos e às vezes serve para ambas as coisas ao mesmo tempo. Do mesmo
modo, "suponho que .. . " às vezes é equivalente a "postulo que ... " e às vezes
não o é.
Ou, ainda, "Concordo que ... " , às vezes funciona como "aprovo sua
conduta", às vezes como "sua conduta tem minha aprovação" , caso em que,
pelo menos em parte, descreve minha atitude, estado de espúito, ou convic­
ção. Aqui, também, pequenas alterações na frase podem ser importantes; por
exemplo, a diferença entre "concordo em ... " e "concordo com ... " , mas este
não é um teste rigoroso.
O mesmo fenômeno geral que ocorre com os comportamentais ocorre
aqui. Assim como temos que "prometo que (postulo que)" é um performati­
vo explícito puro, enquanto "presumo que ... " não o é, temos também o se­
guinte:
"Prevejo (predigo que) " é um performativo explícito puro, enquanto
que "prevejo (espero, antecipo) que" não o é;
" Endosso (confmno) essa opinião" é um performativo explícito puro,
ao passo que "Concordo com essa opinião" não o é.
" Questiono o fato de que ... " é um performativo explícito puro, ao pas­
so que "Duvido que seja assim" não o é.
Aqui, "postular", " predizer", "endossar", "questionar", etc. satisfa­
zem todos os nossos testes do performativo explícito puro, ao passo que os
outros não, ou, pelo menos, nem sempre.
Notemos de passagem que nem todas as coisas que fazemos seguindo
essa linha de adequar o proferimento ao contexto do discurso se podem fazer
com um performativo explícito. Por exemplo, não podemos dizer "exagero
que ... ", "insinuo que ... ", etc.
Comportamentais e expositivos são duas classes muito fundamentais
em que ocorre tal fenômeno. Mas o mesmo se dá também em outras classes,
como, por exemplo, nos que chamo de vereditivos. Exemplos de vereditivos
são "Decreto que ... " , "Julgo que ... ", "Estabeleço que ... ", etc. Assim, se a
J. L. Austin
pessoa é um juiz e diz "Julgo que ... ", dizê-lo é o mesmo que fazê-Jo. com
pessoas sem funções oficiais isso já não é tão claro, podendo tratar-se apenas
de um estado mental. Essa dificuldade pode ser evitada da maneira habitual,
pela invenção de uma palavra especial tal como " veredito", "declaro
que.. . " , "sentencio a ... ", etc. Além do mais, a natureza performativa do pro­
ferimento continuará dependendo parcialmente do seu contexto, como o fato
de tratar-se de um juiz investido de suas funções no tribunal, etc.
De certa forma semelhante a esse é o caso de "Classifico os X como
y" . Vimos que em tal caso havia um uso duplo: o performativo explícito pu­
ro e a descrição de minha realização habitual de atos desse tipo. Podemos
dizer " Ele realmente não classifica .. . ", ou "ele está classificando ... ", e a
pessoa pode estar classificando sem dizer nada. Devemos distinguir esse ca­
~ so daqueles em que ficamos comprometidos pela realização de um único ato.
Por exemplo, "Defino X como Y" não afmna que alguém faz isso regular­
mente, mas o compromete a uma prática regular que consiste em seguir a de­
finição estabelecida. Nesse cO'1texto, é instintivo comparar "Tenho a inten­
ção de" com "Prometo".
Já dissemos o suficiente sobre o tipo de problema em que um verbo
performativo explícito aparente funciona, ao menos às vezes, no todo ou em
parte, como uma descrição, verdadeira ou falsa, de sentimentos, estados
mentais, atitudes, etc. Mas este tipo de caso sugere, por sua vez, o fenômeno
mais amplo sobre o qual chamamos a atenção, em que o proferimento todo
parece ser verdadeiro ou falso, apesar de suas características de performati­
vo. Ainda que tomemos casos intermediários como, por exemplo, "Conside­
ro que ... ", dito por uma pessoa que não é juiz nem membro do júri, ou "Su­
ponho que ... ", parece absurdo supor que tudo que tais proferimentos fazem,
quando o fazem, é descrever ou relatar algo :lcerca das crenças ou expectati­
vas de quem os usa. Supor tal coisa é incorrer no exagero, típico de uma
Alice no País das Maravilhas, de tomar " penso que p" como uma declaração
acerca de si próprio, a qual se poderia responder: "Trata-se de um fato a seu
respeito". ("Eu não penso ... ", começou a dizer Alice, ' ~ E n t ã o não deveria
falar", respondeu-lhe a lagarta, ou seja lá quem foi. * Quando chegamos aos
performativos explícitos puros, tais como "declaro" ou "sustento que", se­
* Referência à obra Alice no par:, das maravilhas (1865) de Lewis CarrolJ , pseudônimo do 16gico e
matemático inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), professor na Universidade de Oxford.
Esta obra-prima da literatura infantil é, ao mesmo tempo, considerada uma fonte importante do
questões sobre l6gica e linguagem a partir dos paradoxos, trocadilhos e jogos de linguagem que Car­
roll constr6i. Veja-se a este respeito o "Comentário filosófico a Alice no par:, das maravilhas" do
Warren Shibles, em seu Wittgenstein, linguagem e filosofia. S. Paulo, CultrixlEdusp, 1974, lrad. do
L. Hegenberg e O. Silveira da Mota. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 80 81
;llramcnte trato-se de algo que pode ser, flllso ou verdadeiro, ainda que nos
caso o proferimento constitua a ação de declarar ou sustentar. E já chama­
mos, repetidas vezes, a atenção para alguns performativos que são clara­
mente clássicos, como "Fora", e que têm estreita relação com a descrição de
fatos, ainda que outros não o tenham.
Isso, porém, não é tão grave. Poderíamos distinguir a parte inicial do
performativo que"), que torna claro que se deve tomar o proferi­
mento, como uma declaração (e não como uma previsão, etc.), da frase que
se segue ao "que " , a qual é necessariamente verdadeira ou falsa. Contudo,
há muitos casos em que, dada a situação atual da linguagem, não se pode se­
parar a sentença em duas partes, ainda que o proferimento pareça conter um
tipo de performativo explícito. Isto se dá, por exemplo, com "Equiparo X a
Y" e "Analiso X como Y". Neste exemplo tanto fazemos a equiparação,
quanto afIrmamos que há uma equiparação por meio de uma frase concisa
que é, pelo menos, como se fosse um performativo. Só para estimular-se em·
nossa jornada, podemos mencionar também "Sei que" , "Creio que", etc.
Até que ponto estes exemplos são complicados? Não podemos partir do
princípio de que sejam puramente descritivos.
Consideremos agora nossa posição a esta altura. Começando com o su­
posto contraste entre proferimentos performativos e constatativos, encontra­
mos indicações suficientes de que a infelicidade, apesar de tudo, parece ca­
racterizar ambos os tipos de proferimento, e não apenas os performativos.
VerifIcamos ainda que a exigência de adequação aos fatos ou, ao menos, de
ter alguma relação com estes, diferentes em diferentes casos, parece caracte­
rizar também os performativos, além da exigência de serem felizes, como
ocorre com os supostos constatativos.
Não conseguimos encontrar um critério gramatical para distinguir os
performativos, mas ocorreu-nos que talvez devêssemos insistir que todo per­
formativo pudesse, em princípio, ser colocado na forma de um performativo
explícito, para fazermos, então, uma lista dos verbos performativos. Desde
então, descobrimos, contudo, que freqüentemente não é fácil assegurar-nos
de que - mesmo quando se apresenta em forma aparentemente explícita - um
proferimento seja ou não perforrnativo. Tipicamente, temos ainda proferi­
mentos iniciados por "Declaro que ... ", que parecem satisfazer as exigências
dos performativos, mas que, no entanto, constituem, na realidade, declara­
ções e são essencialmente verdadeiros ou falsos.
É hora, portanto, de tentar um novo tratamento para o problema.
Pretendemos reconsiderar, de maneira geral, os sentidos em que dizer algo
possa ser fazer algo, ou em que ao dizer algo estejamos fazendo algo (e taI-
J. L. Austin
VO'l. tulllbém considerar O caso dil'crcnlc em que pôr di:rcr 11\1!.!1Il0S algo).
Talvez algum; esclarecimentos e definiçóes aqui possam nos ajudar n suj
desse emaranhado. Afinal , "fazer algo" é uma expressão muito vaga. QlIlUl­
do fazemos um pro ferimento qualquer não estamos "fazendo algo"? Certa,
mente, as maneiras pelas quais nos referimos a "ações" são suscetíveis, aqui
como em outras situações, de gerar confusão. Por exemplo, podemos COOM
trastar homens de letras com homens de ação; podemos dizer que eles não fi­
zeram nada, apenas falaram ou disseram coisas. Contudo, podemos também
contrastar o fato de estar apenas pensando em algo, como o fato de real­
mente dizê-lo (em voz alta), em cujo contexto, então, dizer é fazer algo.
É hora de elaborar nossa reflexão sobre as circunstâncias em que "se
faz um proferimento"l. Para iniciar, há todo um conjunto de sentidos que
rotularei de (A), em que dizer algo tem sempre que se fazer algo, conjunto
esse que constitui em seu todo o "dizer" algo, no sentido pleno de "dizer".
Podemos considerar, sem insistir muito na elaboração de detalhes, que dizer
algo é:
(A.a) sempre realizar o ato de proferir certos ruídos (ato "fonético"), sendo
o proferimento um "phone"*;
(A.b) sempre realizar o ato de proferir certas palavras e vocábulos, isto é,
ruídos de um determinado tipo, pertencendo a um determinado vocabulário e
da maneira como pertencem a esse vocabulário; numa determinada constru­
ção, ou seja, de conformidade com uma determinada gramática e · apenas
quando se conformem a ela; com uma determinada entonação, etc. A este ato
podemos chamar de ato "fático", sendo o proferimento que dele resulta um
"pheme" (para distingui-lo do "pheneme" da teoria lingüística); e
(A.c) geralmente realizar o ato de usar esse "pheme" ou suas partes consti­
tuintes com um certo "sentido" mais ou menos determinado, e uma ".refe­
1 Nem sempre mencionaremos. mas devemos ter em mente a possibilidade de "estiolação" da IIn­
ungem que ocorre quando a usamos no palco, na fiação e na poesia, bem como em citações e Otn re­
cltutivos.
O termo "estiolação" equivale a "desbotamento", "descoloração", e é empregado por Austin
pura indicar o uso n":n-"sério" ou não-literal de expressões lingüfsticas em contextos como o palco, n
ficção, etc. (N. do T.)
.. Austi n parte da lfngua grega clássica para cunhar estes termos técnicos. Assim. "phone" provém do
substantivo grego phoné significando som, voz; "fático" ("phatic"), provém do substantivo plu11/J',
significando "aquilo que é di to", sendo "pheme" oriundo do substantivo pheme signifi cando igll oJ­
mente "algo que é dito" (o verbo pllemi significa dizer. afirmar, declarar, etc.); "rético" (" rheli c")
provém do substantivo rhe/TUI significando "aquilo que é dito". Na Conferência seguinte súo dndos
oxemplos que esclarecem melhor estas noções, já que os tennos gregos de onde se derivum os dois
liltimos têm significados muito pr6ximos. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 82 83
rência" mais ou menos definida (que juntos equivalem a "significado")**. A
este ato podemos chamar de ato "rético" , sendo o proferimento que dele re­
sulta um "rheme".
"'''' AluSllo 1\ distinção formul ada no célebre artigo de G. Frege (1892) "Sobre o Sentido e a Referên­
cia" (trad. para o português de P. A1coforado, em G. Frege. Lógica efilosofia da linguagem,Cultrix,
S. Paulo. 1978). (N. do T.)
J. L. Austin
®
VII! Conferência
Atos locuciónários, i1ocucionários
e perlocucionári os
Ao iniciarmos o programa de encontrar uma lista de verbos performati­
vos explícitos, pareceu-nos que nem sempre seria fácil disting\lÍr proferi­
mentos performativos de proferimentos constatativos, e, portanto, achamos
conveniente recuar por um instante às questões fundamentais, ou seja, consi­
derar desde a base em quantos sentidos se pode entender que dizer algo é fa­
zer algo, ou que ao dizer algo estamos fazendo algo, ou mesmo os casos em
que por dizer algo fazemos algo. E começamos distinguindo todo um grupo
de sentidos de "fazer algo" que dizer algo é, em sentido normal e completo,
fazer algo - o que inclui o proferir certos ruídos, certls palavras em determi­
nada construção, e com um certo "significado" no sentido ftlosófico favorito
da palavra, isto é, com um sentido e uma referência determinados.
A esse ato de "dizer algo" nesta acepção normal e completa chamo de
realização de um ato locucionário, e ao estudo dos proferimentos desse tipo
e alcance chamo de estudo de locuções, ou de unidades completas do discur­
so. Nosso interesse no ato locucionário é, basicamente, esclarecer bem em
que consiste o mesmo para distingüí-Io de outros atos com os quais nos va­
mos ocupar primordialmente. Quero acrescentar simplesmente que um estudo
muito mais detalhado seria possível e necessário caso nos propuséssemos a
discutir o tema em si, detalhes esses que seriam de grande importância não
apenas para os ftlósofos, mas também para os gramáticos e foneticistas.
Distinguimos o ato fonético do ato fático e do ato rético. O ato fonético
consiste simplesmente na emissão de certos ruídos. O ato fático consiste no
Quando di1..er é fU7,c r
84
8
proferimento de certos vocábulos ou palavras, isto é, ruídos de detenninado
tipo considerados como pertencentes a um vocábulo e na medida em que a
ele pertencem, de conformidade com uma certa gramática e na medida em
que a esta se conformam. O ato cético consiste na realização do ato de utili­
ar tais vocábulos com um certo sentido e referência mais ou menos defini­
dos. Assim, "Ele disse: - 'O gato está sobre o tapete' ", relata um ato fático,
ao passo que "Ele disse que o gato estava sobre o tapete" registra um ato
cético. Podemos ilustrar um constante semelhante com os seguintes pares de
expressões:
"Ele disse: - 'Estarei lá' " - "Ele disse que estaria lá"
"Ele disse: - 'Saia'" - "Ele me mandou sair"
"Ele disse: - 'É em Oxford ou em Cambridge?' " - Ele perguntou se
era em Oxford ou em Cambridge".
Para prosseguir com esta questão por sua importância intrínseca, além
de nosso interesse imediato, mencionarei alguns pontos gerais dignos de se­
rem lembrados:
(1) É óbvio que para realizar um ato fático devo realizar um ato fonéti­
co, ou, se o preferem, ao realizar um estou realizando o outro (o que não
quer dizer que os atos fáticos sejam uma subclasse dos atos fonéticos, isto é,
que pertençam à classe destes últimos). Contudo, a afmnação inversa não é
verdadeira, pois se um macaco emite um ruído que se parece com a palavra
"vou" isso não consiste em um ato fático.
(2) É óbvio que na defmição do ato fático duas coisas se juntam: voca­
bulário e gramática. Assim não atribuúoos um nome especial à pessoa que se
diz, por exemplo, "gato inteiramente o se" ou "os insilíosos dombos voeja­
ram". Outro ponto que se apresenta, além da gramática e do vocabulário, é o
da entonação.
(3) O ato fático, contudo, como o fonético, é essencialmente ímitável,
pode ser reproduzido (inclusive na entonação, caretas, gestos, etc.). Pode-se
imitar não apenas o proferimento entre aspas "Ela tem um lindo cabelo",
como também o fato mais complexo de que tal proferimento tenha sido feito
assim: "Ela tem um lindo cabelo" (careta).
Este é o uso de "disse" seguido ou precedido de uma expressão entre
aspas que aparece nos romances: a expressão toda pode ser exatamente re­
produzida entre aspas, ou entre aspas precedida de "ele disse" ou, mais fre­
qüentemente, seguida de "disse ela", etc.
Mas o ato rético é o que relatamos no caso de asserções do tipo "Ele
disse que o gato estava sobre o tapete" , "Ele disse que iria", "Ele disse que
eu deveria ir" (suas palavras foram "Você deverá ir"). Este é o chamado
J. L. Austin
"discurso indireto". Se o sentido ou referência nâo foram entendidos com
clareza, então a expressão toda ou parte dela tem que vir entre aspas. Assim,
eu poderia dizer: - "Ele disse que eu deveria ir ao 'ministro' mas não especi­
ficou qual ministro" , ou "Ele disse que ele estava se comportando mal e ele
me retrucou que 'quanto mais alto chegas menos pessoas encontras' ". Con­
tudo, não podemos sempre usar com facilidade "disse que". Se a pessoa uti­
lizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes, diríamos "mandou-me
que". Se a pessoa utilizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes, di­
rfamos "mandou-me que", "aconselhou-me a
U
, e assim por diante. Compa­
re-se "disse que" com "saudou-me" e ··apresentou suas desculpas".
Acrescentarei mais um ponto a respeito do ato cético. Naturalmente que
sentido e referência (nomear e referir) são aqui atos acessórios realizados ao
realizar-se o ato cético. Assim, podemos dizer "Por 'banco' quis dizer. ..", e
dizemos "quando disse 'ele' estava me referindo a ... ". Podemos realizar um
ato retico sem referinnos a algo ou a alguém e sem nomeá-lo? Em geral pa­
receria que a resposta deveria ser negativa, mas há casos desconcertantes.
Qual é a referência no caso da afirmativa "todos os triângulos têm três la­
dos?" Do mesmo modo, toma-se evidente que podemos realizar um ato fáti­
co que não seja um ato cético, embora o inverso não seja possível. Assim,
podemos repetir as observações de outra pessoa, ou murmurar repetidamente
alguma frase, ou podemos ler uma sentença em latim sem saber o sentido das
palavras.
Aqui não importa muito a questão sobre quando um "pheme" ou um
"rheme" é o mesmo que outro, seja enquanto "tipo" ou enquanto instância
particular*, nem a questão sobre no que consiste um único "pheme" ou
"rheme". Mas, naturalmente, é importante lembrar que o mesmo "pheme"
(instância do mesmo tipo) pode ser utilizado em diferentes ocasiões de profe­
rimento com diferentes sentidos ou referências, e assim constituir-se num
"rheme" distinto. Quando diferentes "phemes" são usados com o mesmo
sentido e referência, podemos falar de atos reticamente equivalentes (em
certo sentido, "a mesma declaração") mas não podemos falar do mesmo
"rheme" ou dos mesmos atos céticos (que constituem a mesma declaração
em outro sentido que envolve o uso das mesmas palavras).
* Os tennos "typte" (tipo gen&ico) e "tokn" (instância particular) são utilizados em filosofia da lin­
guagem para distinguir uma sen1ença ou expressão lingüfstica. tomada em abstrato, de seu proferl ­
mento concreto em um contexto determinado. Toda expressão Iingürstica. com exceção talvez de
nomes próprios stricto ~ n . s u . tem um carftet gen&ico e usos concretos espedficos. A mesma senten­
ça pode, por exemplo, sei" proferida em um mesmo momento por pessoas diferentes, bem como pode
ser proferida em momentos e contextos diferentes. Assim, no exemplo de Strawson (citado acimA, p.
19) a "sentença-tipo" "O atual Rei de França 6 sSlio" pode ser proferida com referência em 178
e sem referência no peIfodo oontemporAneo. (N. do T.)
Quando dizer é fazer
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o "phemc" é uma unidade da linguagem. Sua deficiência característica
é carecer de sentido. Mas, o "rheme" é uma unidade da fala. Sua deficiência
característica é ser impreciso, vago ou obscuro, etc.
Embora tais assuntos sejam de grande interesse, não esclarecem no
momento o nosso problema de contrapor proferimentos performativos a pro­
ferimentos constatativos. Por exemplo, seria perfeitamente possível , com re­
lação ao pro ferimento "Vai atacar", esclarecer devidamente "o que estáva­
mos dizendo" ao emitir o proferimento, em todos os sentidos até agora men­
cionados, e contudo não haver absolutamente aclarado se ao emitir o profe­
rimento eu estava ou não realizando o ato de advertir. Pode estar perfeita­
mente claro o que quero dizer com "Vai atacar" ou "Feche a porta" , mas
pode não estar claro se se trata de uma declaração ou de uma advertência,
etc.
Podemos dizer que realizar um ato locucionário é, em geral, eo ipso,
realizar um ato ilocucioruírio, como me proponho denominá-lo. Para deter­
minar que este ato ilocucionário é realizado dessa forma temos que detenni­
nar de que maneira estamos usando a locução, ou seja:
- perguntando ou respondendo a uma pergunta,
- dando alguma informação, ou garantia ou advertência,
- anunciando um veredito ou uma intenção,
- pronunciando uma sentença,
- marcando um compromisso, fazendo um apelo ou uma crítica,
- fazendo uma identificação ou descrição
e muitos outros casos semelhantes. (Não estou de forma alguma sugerindo
que esta seja uma classe nitidamente definida.) Não há nada de misterioso
aqui a respeito do nosso eo ipso. O problema reside realmente no número de
diferentes sentidos de uma expressão tão vaga quanto "a maneira pela qual
estamos usando ... " Isto pode referir-se até ao ato locucionário, ou mesmo
aos atos perlocucionários que mencionaremos mais adiante. Quando realiza­
mos um ato locucionário, utilizamos a fala. Mas de que maneira a estamos
usando precisamente nesta ocasião? Porque há inúmeras funções ou maneiras
de utilizarmos a fala, e faz uma grande diferença para o nosso ato em certo
sentido - sentido (B)l - a maneira e o sentido em que estávamos "usando" a
fala nessa ocasião. Faz uma grande diferença saber se estávamos advertindo
ou simplesmente sugerindo, ou, na realidade, ordenando; se estávamos es­
tritamente prometendo ou apenas anunciando uma vaga intenção, e assim por
diante. Estas questões penetram um pouco, e não sem confusão, no terreno
1 Ver I/lfra. p. 105.
88 J. L. Ausrin
da gramática (ver acima), mas as discutimos constantemente, considerunoo
se certas palavras (uma certa locução) tinha a força de uma. pergunta, ou s
deveria ter sido tomada como uma estimativa, etc.
Expliquei a realização de um ato nesse novo sentido como sendo a rea·
lização de um ato " ilocucionário", isto é, a realização de um ato ao dizer nJ·
go, em oposição à realização de um ato de dizer algo. Vou referir-me à dOll­
trina dos diferentes tipos de função da linguagem que aqui nos interessam
como sendo a doutrina das "forças ilocucionárias".
Pode-se dizer que por demasiado tempo os ftlósofos negligenciaram
este estudo, tratando todos os problemas como problemas de "uso locucioná­
rio", e também que a "falácia descritiva" mencionada na Conferência I g
ralmente surge do erro de confundir um problema do primeiro tipo com um
problema do segundo. É bem verdade que estamos agora superando tal coo·
fusão; há alguns anos começamos a perceber cada vez com mais clareza que
a ocasião de um proferimento tem enorme importância, e que as palavras
utilizadas têm de ser até certo ponto "explicadas" pelo "contexto" em que
devem estar ou em que foram realmente faladas numa troca lingüística.
Contudo, talvez ainda nos inclinemos demasiado pelas explicações em ter­
mos do "significado das palavras". Admitimos que podemos usar "signifi­
cado" também com referência à força ilocucionária - "Suas palavras tiveram
o significado de uma ordem" , etc. Mas quero distinguir força de significado,
no sentido em que significado equivale a sentido e referência, assim como se
tornou essencial distinguir entre sentido e referência dentro de significado.
Além do mais, temos aqui uma ilustração dos diferentes usos da ex­
pressão "usos da linguagem" , ou "uso de uma sentença", etc. - pois "uso"
é uma palavra incuravelmente ambígua e demasiado ampla, assim como a
palavra "significado", que muitos hoje não levam a sério. Mas "uso", que a
suplantou, não está em posição muito melhor. Podemos esclarecer totalmente
qual foi o "uso de uma sentença" em determinada ocasião, no sentido do ato
locucionário, sem, contudo, tocar no problema de seu uso no sentido do ato
ilocucioruírio.
Antes de elaborar mais essa noção de ato ilocucionário, contrastemos
tanto o ato locucionário quanto o ato ilocucionário com um terceiro tipo d
ato.
Há um outro sentido (C) em que realizar um ato locucionário, e assim
um ato ilocucionário, pode ser também realizar um ato de outro tipo. Dizer
algo freqüentemente, ou até normalmente, produzirá certos efeitos ou conse­
qüências sobre os sentimentos, pensamentos, ou ações dos ouvintes, ou de
quem está falando, ou de outras pessoas. E isso pode ser feito com o propó-
Quando dizer é fazer _ 8
sito, intenção ou objetivo de produzir tais efeitos. Em tal caso podemos di­
,er, então, pensando nisso, que o falante realizou um ato que pode ser des­
crito fazendo-se referencia, meramente oblíqua (C.a), ou mesmo sem fazer
referência alguma (C.b) à realização do ato locucionário ou ilocucionário.
Chamaremos a realização de um ato deste tipo de realização de um ato per­
locuc;onár;o ou perlocução.
Por enquanto não definiremos a idéia com maior cuidado - ainda que o ne­
cessite - mas nos limitaremos apenas a dar exemplos:
Exemplo I :
Ato (A) ou Locução
Ele me disse "Atire nela!" querendo dizer com "atire" atirar e referin­
do-se a ela por "nela".
Ato (B) ou Ilocução
Ele me instigou (ou aconselhou, ordenou, etc.) a atirar nela.
Ato (C.a) ou Perlocução
Ele me persuadiu a atirar nela.
Ato (C.b)
Ele me obrigou a (forçou-me a, etc.) atirar nela.
Exemplo 2:
Ato (A) ou Locução
Ele me disse, "Você não pode fazer isso".
Ato (B) ou Ilocução
Ele protestou contra meu ato.
Ato (C.a) ou Perlocução
Ele me conteve, me refreou.
Ato (C.b)
Ele me impediu, fez-me ver a realidade, etc.
Ele me irritou.
Da mesma maneira podemos distinguir o ato locucionário " ele disse
que ... " do ato ilocucionário "ele argumentou que ... " e do ato perlocucioná­
rio "ele me convenceu que ... ".
Veremos que os efeitos conseqüentes das perlocuções são realmente re­
sultados, que não incluem efeitos convencionais, tais como, por exemplo, o
fato de a pessoa que fala ficar comprometida a cumprir sua promessa (isso
corresponde ao ato ilocucionário). Talvez seja necessário marcar as distin­
ções, uma vez que há nítida diferença entre o que sentimos ser a produção
real de efeitos reais, e o que consideramos como conseqüências meramente
convencionais. De qualquer modo voltaremos a este assunto mais adiante.
J. L. Austill
Distinguimos, portanto, de foona esquemática, três tipos de atos 0 1
cucionário, o ilocucionário e o perlocucionári02. Façwnos alguns cornenb'­
rios gerais sobre estas três classes, deixando-as ainda um tanto esquemáticas.
Os primeiros três pontos serão novamente sobre "o uso da linguagem".
(1) Nosso interesse nestas conferencias consiste essencialmente em
ater-nos ao ato ilocucionário e contrastá-lo com os outros dois. Há uma ten­
dência constante em filosofia a se omitir este tipo de ato em favor de um ou­
tro dos outros dois. Contudo, é distinto de ambos os outros. Já vimos como
expressões "significado" e "uso da sentença" podem obscurecer a distinção
entre atos locucionários e ilocucionários. Agora notamos que falar do "uso"
da linguagem pode, da mesma foona, obscurecer a distinção entre o ato lio­
cucionário e o perlocucionário - portanto vamos diferenciá-los mais cuida ..
dosamente dentro de instantes. Falar do "uso da 'linguagem' para argumen­
tar ou advertir" parece o mesmo que falar do uso da 'linguagem' para per­
suadir, incitar, alannar". No entanto, o primeiro tipo de "uso" pode ser con­
siderado, sem maior precisão e para efeito de contraste, convencional, no
sentido de ser possível, pelo menos, explicitá-lo pela fórmula performativa,
ao passo que tal coisa não ocorre com o segundo. Assim, podemos dizer
" Argumento que" ou "Advirto-o de que" , mas não podemos dizer "Eu con­
venço você que" ou "Eu alanno você que". Além disso, podemos tornar to­
talmente claro o fato de estar alguém argumentando ou não sem tocar na
questão de a pessoa estar ou não convencendo alguém.
(2) Para ir mais além, esclareçamos de uma vez por todas que a expres­
são "uso da linguagem" pode cobrir outros assuntos até mais diversos do
que atos ilocucionários e perlocucionários. Por exemplo, podemos falar do
"uso da linguagem" para alguma coisa, como, por exemplo, para piadas; e
podemos usar "ao" de um modo diferente do "ao" ilocucionário, como
quando dizemos "ao dizer p estava brincando" ou "desempenhando um pa­
pel" ou " fazendo poesia". Ou, também, podemos falar de "um uso poético
da linguagem" distinto do "uso da linguagem na poesia". Tais referências
ao " uso da linguagem" nada têm a ver com o ato ilocucionário. Por exem­
plo, se digo: - " Vá pegar uma estrela cadente"*, podem ser perfeitamente
claros o significado e a força do meu proferimento, mas pode haver dúvidas
acerca de qual desses outros tipos de coisas eu possa estar fazendo. Há usos
2 (Neste ponto aparece no manuscrito uma nota feita em 1958 que diz: (1) Tudo isto nAo está claro (2)
e em todos os sentidos relevantes (A) e (B) como distintos de (C), não serão todos os proferimentoa
performati vos?' )
.. Verso do poema "Song", do poeta Ingles John Donne(1 572-1 63 1). (N. do T.)
Quando dizer 6 fazer 90 91
"parasitários" da linguagem, que n110 süo " tomados a sério", ou " não cons­
tituem seu uso nonnal pleno" . Podem estar suspensas as condições nonnais
de referência, ou pode estar ausente qualquer intenção de levar a cabo um
ato perlocucionário típico, qualquer tentativa de fazer com que o interlocutor
faça algo, como Walt Whitman* não incita realmente a águia da liberdade a
alçar vôo.
(3) Além do mais, podem haver algumas coisas que "fazemos" em al­
guma conexão com o dizer algo que não parecem se encaixar, pelo menos
intuitivamente, em nenhuma dessas classes esquematicamente defInidas, ou
que, então, parecem pertencer vagamente a mais de uma delas. Mas de qual­
quer modo, em princípio, não vemos que as coisas estejam tão distantes de
nossos três atos como o estão contar piadas e fazer poesia. Por exemplo, in­
sinuar, como quando insinuo algo ao emitir um proferimento ou porque o
emito, parece supor algum tipo de convenção, como num ato ilocucionário.
Mas não podemos dizer "Eu insinuo ... ", pois insinuar, como o dar a enten=­
der, mais parece um efeito conseguido com habilidade do que um simples
ato. Outro exemplo é o demonstrar ou exteriorizar emoções. Podemos revelar
emoção ao emitir o proferimento ou porque o emitimos, como quando insul­
tamos. Mas aqui também não cabem as fórmulas perfonnativas, nem para os
outros recursos dos atos ilocucionários. Poderíamos dizer que usamos o in­
sulto para dar vazão a nossos sentimentos. Devemos notar que o ato ilocu­
cionário é um ato convencional: um ato realizado em confonnidade com uma
convenção.
(4) Já que os atos destes três tipos consistem na realização de ações, é
necessário levar em conta os males que podem afetar toda e qualquer ação.
Devemos estar preparados sistematicamente para distinguir entre "o ato de
fazer x", isto é, realizar x, e "o ato de tentar fazer x". Por exemplo, deve­
mos distinguir entre prevenir e tentar prevenir. Aqui cabe estar preparado
para encontrar infelicidades.
Os próximos três pontos surgem principalmente devido ao fato de nos­
sos atos serem atos.
(5) Já que nossos atos são atos, sempre temos que nos lembrar da dis­
tinção entre produzir efeitos ou conseqüências que são intencionais ou não
intencionais; e entre (I) quando a pessoa que fala tenciona causar um efeito
que pode, contudo, não ocorrer e (lI) quando a pessoa que fala não tenciona
causar um efeito ou tenciona deixar de causá-lo e, contudo, o efeito ocorre.
Para enfrentar a complicação (I) invocamos, como já o flzemos, a distinção
entre tentar e conseguir; para enfrentar a complicação (m invocamos os re­
cursos lingüísticos normais para negar nossa responsabilidade (advérbios
.. Poeta americano do século passado (1819-1892). (N. do T.)
J. L. Austin
como "' não intencionalmente" e outros), dlsponIvcÍB para uso indjviduul ~ m
todos os casos de realização de ações.
(6) Além disso, devemos admitir, é claro, que nossos atos, como tais,
podem ser coisas que de fato não flZemos, no sentido em que os realizamos à
força ou de algum outro modo semelhante. No item (2) já aludimos a outros
casos em que podemos não haver plenamente realizado a ação.
(7) Finalmente, temos que enfrentar a objeção a nossos atos ilocucion"­
rios e perlocucionários - a saber, que a noção do que seja um ato não é cla
- utilizando-nos de uma doutrina geral da ação. Temos a idéia de que um
"ato" é uma coisa física de forma deflnida que realizamos, e que se distin­
gue das convenções e das conseqüências. Mas,
(a) O ato ilocucionário e até mesmo o ato locucionário podem estar li­
gados a convenções. Consideremos o caso de render homenagem. É hom
nagem porque é convencional e é prestada apenas porque é convencional.
Compare-se a diferença que há entre dar um pontapé numa parede e dar um
pontapé numa bola para fazer um gol.
(b) O ato perlocucionário pode incluir o que, de certo modo, são con­
seqüências, como quando dizemos: - "Ao fazer x estava fazendo y" (no
sentido de que como conseqüência de haver feito x pude fazer y). Semp
introduzimos nesse caso uma gama maior ou menor de "conseqüências", al­
gumas das quais podem ser "não intencionais". A expressão "um ato" não
está usada, de modo algum, para aludir apenas ao ato físico mínimo. O fato
de podennos incluir no próprio ato uma gama indefInidamente extensa do
que se poderiam chamar "conseqüências" do ato é, ou deveria ser, um ponto
pacífico fundamental da teoria da nossa linguagem acerca de toda a "ação"
em geral. Assim, se nos perguntam: - "O que fez ele?", podemos responder
qualquer uma destas coisas: - "Matou o burro; - Disparou o rev6lver; - Pu­
xou o gatilho; - Apertou o dedo que estava sobre o gatilho"; e todas as res­
postas poderiam estar corretas. Assim, para encurtar a hist6ria infantil dos
esforços da velha que queria levar o porco para casa a tempo de preparar
o jantar de seu marido, poderíamos dizer, como último recurso, que o gat,
lançou-se sobre o porco e conseguiu que este se atirasse por sobre a cerca.
Se em casos como estes mencionamos tanto um ato B (ilocução) como um
ato C (perlocução) diremos que "por haver feito B ele fez C, em vez de di­
zer que ao fazer B ... " Esta razão de chamar C de ato perlocucionário, para
distingui-lo de um ato ilocucionário.
Na próxima conferência voltaremos a nos ocupar da distinção entrl
nossos três tipos de atos e das expressões "ao fazer x estou fazendo y",
"por haver feito x consegui fazer y", com o prop6sito de obter maior clareza
Quando dizer é fazer _____________________
92
em relação às três classes e aos casos que são ou não membros delas. Vere­
mos que do mesmo modo que, para ser completo, um ato locucionário abran­
ge a realização de muitas coisas de uma vez, assim também pode ocorrer
com os atos ilocucionários e perlocucionários.
I X Conferência
Distincão entre atos
-'
i1ocucionários e perlocucionários
Quando sugerimos empreender a tarefa de fazer uma lista de verbos
performativos explícitos, encontramos algumas dificuldades para detenninar
se um proferimento era ou não performativo, ou pelo menos puramente per­
formativo. Pareceu conveniente, portanto, voltar às questões fundamentais
para considerar em quantos sentidos se pode afrrmar que dizer algo é fazer
algo, ou que ao dizer algo estamos fazendo algo, ou mesmo que por dizer
fazemos algo.
Em primeiro lugar, distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao
dizer algo, que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucionário, O
que equivale, a grosso modo, a proferir determinada sentença com detenni­
nado sentido e referência, o que, por sua vez, equivale, a grosso modo,
"significado" no sentido tradicional do termo. Em segundo lugar dissemos
que também realizamos atos ilocucionários tais como informar, ordenar,
prevenir, avisar, comprometer-se, etc., isto é, pro ferimentos que têm uma
certa força (convencional). Em terceiro lugar também podemos realizar atos
perlocucionários, os quais produzimos porque dizemos algo, tais como con­
vencer, persuadir, impedir ou, mesmo, surpreender ou confundir. Aqui temos
três sentidos ou dimensões diferentes, senão mais até, da frase "o uso de
uma sentença" ou "o uso da linguagem" (e, naturalmente, há outras tam­
bém). Todas essas três classes de "ações" estão sujeitas, simplesmente por
serem ações, às dificuldades e reservas costumeiras que consistem em dIstin­
guir uma tentativa de um ato consumado, um ato intencional de um não-in­
__________________________________________
s J. L. Austin 94
______________________________________ _
tencional, e coisas semelhantes. Depois dissemos que tínhamos que conside­
rar essas três classes de atos em maior detalhe.
Devemos distinguir o ato ilocucionário do ato perlocucionário. Por
exemplo, devemos distinguir entre "ao dizer tal coisa eu o estava prevenin­
do" e "por dizer tal coisa eu o convenci, ou surpreendi, ou o fIz parar" .
A NECESSIDADE DE DISTINGUIR "CONSEQÜÊNCIAS"
O que parece criar maiores difIculdades é a distinção entre ilocuções e
perlocuções, e é sobre esse ponto que nos deteremos agora, e só tocaremos
de passagem na distinção entre ilocuções e locuções. É certo que o sentido
perlocucionário de "fazer uma ação" tem de ser excluído, de algum, modo,
como irrelevante, para a interpretação do sentido em que um pro ferimento é
performativo se, ao emiti-lo, "fazemos uma ação", pelo menos quando fa­
zemos esta distinção em relação ao constatativo. Porque é óbvio que todos
os atos perlocucionários, ou quase todos, podem ser realizados em circuns­
tâncias sufic ientemente especiais, ao se emitir qualquer proferimento, com
ou sem o propósito de produzir os efeitos que chamamos de perlocucioná­
rios, e em particular ao emitir um pro ferimento constatativo direto (se é que
existe tal coisa). Você pode, por exemplo, impedir (C.b)l que eu faça algo
simplesmente ao me dar uma informação, talvez inadvertidamente, mas na
ocasião oportuna, sobre as conseqüências reais do ato que eu havia pretendi­
do realizar. E isso se aplica até mesmo a (C.a) porque alguém pode conven­
cer-me (C.a) de que uma mulher é adúltera ao perguntar-me se não era seu o
lenço encontrado no dormitório de X2, ou aÍtrmando ser dele o lenço. *
1 Ver p. 105 para entender importância de tais referências.
2 Que o fato de dar uma informação direta produz, quase sempre, efeitos conseqüentes sobre a ação,
não é mais surpreendente do que o fato inverso, ou seja, que a realização de uma ação qualquer (i n­
cluindo o pro ferimento de um performativo) tem em geral como conseqüência nos tomar e aos outros
conscientes dos fatos. Fazer um ato qualquer de maneira perceptível ou descritrvel também é nos dar
e aos outros, geralmente, a oportunidade: a) de saber o que fizemos, e, além disso, b) de conhecer
muitos outros fatos acerca de nossos motivos, nosso caráter, ou o que seja, que podem ser inferidos
do fato de havermos realizado o ato. Se atiro um tomate durante uma reunião polftica (ou grito
" Protesto" se outra pessoa o faz - supondo que isso seja realizar uma ação) isso terá provavelmente
como conseqüência que os outros percebam que protesto e que tenho determi nadas convicções polfti ­
caso Mas não tomará verdadeiro ou falso o ato de atirar o tomate ou de gritar (ainda que possam ter
sido fei tos, mesmo deliberadamente, para confundir). E assim, também, a produção de qualquer nú­
mero de efeitos ou conseqüências não impedirá que um pro ferimento constatativo seja verdadeiro ou
falso.
* Referência à maneira pela qual, no Othello de Shakespeare, lago insinua a Othello a infidelidade de
Desdêmona (ato m, cena 3). (N. do T.)
J. L. Austin
Temos, portanto, que separar bem a ação que fazemos (no coso um
ilocução) de sua conseqüência. Em geral, se a ação não consiste em c.Iizcr ui
go, mas trata-se de uma ação "física" não convencional, temos uma qucstüo
complicada. Como já vimos, podemos ou, talvez, preferimos pensar que po
demos, por etapas sucessivas, distinguir cada vez mais o que inicialtncnt
estava incluído, ou que possivelmente poderia ser incluído na designoçno
dada ao "nosso ato ele próprio"3 como realmente apenas conseqüências, r>0
mais próximas ou por mais passíveis de serem antecipadas, de nosso oç
real no mínimo sentido físico suposto, que se revelará como sendo n rcaJi1u
ção de um ou mais movimentos com partes do nosso corpo (por exemplo d
brar um dedo, que acionará um gatilho, que resultará na morte do burro). 11 ..,
naturalmente, muito que dizer a esse respeito que não necessita
agora. Mas pelo menos no caso de atos em que se diz algo:
(1) A nomenclatura nos presta uma ajuda que geralmente não
mos no caso das ações "físicas". Pois com as ações físicas nós quase
designamos a ação não em termos do que estamos chamando aqui d
sico mínimo, mas em termos que abrangem uma gama indefInidamente ex.
tensa do que se poderia chamar de conseqüências naturais (ou, vendo a cois
de outro ângulo, a intenção com que o gesto foi feito).
Não apenas deixamos de lado a noção de ato físico mínjmo (que eO'
do o caso é duvidosa), como também não temos qualquer tipo de designa
para distinguir atos físicos de conseqüências. Ao passo que, com os atos em
que se diz algo, o vocabulário de nomes para os atos (B) parece
mente destinado a marcar uma ruptura num determinado ponto entre O ato
(de dizer algo) e suas conseqüências (que geralmente não são o dizer algo)
ou pelo menos não o são na grande maioria dos casos
4

(2) Além do mais, parecemos receber alguma ajuda proveniente dn
natureza especial dos atos de dizer algo em contraste com ações ffsicQll
muns. No caso destas últimas, ainda quando se trate de uma ação física fi.­
nima, que estejamos tentando separar de suas conseqüências, está, por ser
um movimento corporal, in pari mate riaS com pelo menos muitas das suas
3 Não me ocuparei aqui do problema de até onde podem estender-se as conseqilêocins. Os orro.,
muns sobre tal assunto se encontram, por exemplo, nos PrincipÜl ethica de Moore.
4 Note-se que se supomos que o ato ffsico m{nirno seja um movimento do corpo, quando dl:rom
"apertei o dedo", o fato do objeto que se moveu ser par1e do meu corpo n1l0 introduz, ronlmonle, um
sentido novo a "apertei". Assim posso ser capaz de mover as orelhas, como um garoto do clIColn O
faz, ou tomã-las entre o polegar e o indicador, ou mover os pés naturalmente ou com n UJUdA ti
mllos, como quando estão dormentes. O uso comum de "apertar" em tais exemplos como "apertol (l
dedo" é dltimo. Nilo devemos prosseguir para chegnr a "contra( os mdsculos" e ooisns seOlelhunlOI.
5 Este irl pari materla pode ser motivo de confusllo. Nl\o quero dizer que o meu "apertar O dedO" 10111
metafislcamento an6.logo 80 "movimento do gatilho", quo é suo cOI\8eqO/lncln, nem 110 "Olovlmont

96
conseqüências naturrus e imediatas. Por outro lado, quaisquer que sejam as
conseqüências naturais e imediatas de um ato de dizer algo, estas não são
nonnalmente outros atos de dizer algo, quer seja por parte de quem falou
primeiro, quer por parte dos outros6. De modo que temos aqui uma espécie
de ruptura natural da cadeia, que não ocorre no caso das ações físicas, fenô­
meno que se vincula à classe especial de nomes para as ilocuções.
Mas a esta altura cabe perguntar se as conseqüências que introduzimos
com a nomenclatura de perlocuções não são em realidade conseqüências dos
atos (A), isto é, das locuções? Devemos perguntar se, em nossa tentativa de
separar "todas" as conseqüências, não teremos de continuar nosso procedi­
mento regressivo e deixar para trás a ilocução até chegar à locução, e, na
realidade, até chegar ao ato (Aa), que é a emissão de ruídos, que consiste
num movimento físic07• Admitimos, é claro, que para realizar um ato ilocu­
cionário é necessário realizar um ato locucionário; por exemplo, que agrade­
cer é necessariamente dizer certas palavras. E dizer certas palavras é neces­
sariamente, pelo menos em parte, fazer certos movimentos, difíceis de des­
crever, com os órgãos vocais8. Portanto, o divórcio entre ações "físicas" e
atos de dizer algo não é de todo completo - há alguma vinculação. Mas (1)
embora isso possa ser relevante em algumas conexões e contextos, não pare­
ce impedir-nos de delimitarmos nossos propósitos atuais onde o desejamos,
isto é, entre a fmalização do ato ilocucionário e todas as conseqüências pos­
teriores a ele. E além do mais (m, o que é muito mais importante, devemos
evitar a idéia, acima sugerida, ainda que não verbalizada, de que o ato ilocu­
cionário seja uma conseqüência do ato locucionário. Até mesmo a idéia de
que o que é introduzido pela nomenclatura de ilocuções seja uma referência
adicional a algumas das conseqüências das locuções9 , deve ser também evi­
tada; isto é, que dizer "ele me instigou a" é dizer que ele disse certas pala­
vras e além disso o fato dele as haver dito teve, ou talvez tenha sido feito
com a intenção de ter, determinadas conseqüências? (um certo efeito sobre
mim). Ainda que tivéssemos que insistir, por alguma razão e em algum sen­
do gatilho pelo meu dedo". Mas, "apertar o dedo que no gatilho" in pari materia com "o
movimento do gatilho" •
Ou podemos colocar a questão de outra maneira mais importante, dizendo que o sentido em que o di­
zer algo produz efeitos sobre outras pessoas, ou causa algo, é um sentido fundamentalmente distinto
de "causa" daquele que é usado na causação ffsica por pressão, etc. Tem que operar através das con­
venções da linguagem e é uma questão de influência exercida por uma pessoa sobre a outra. Este é
o sentido original de causa.
S Ver infra.
7 Será mesmo? Já notamos que a "produção de ruídos" é em si mesma realmente uma conseqüência
de um ato ffsico minimo de mover os 6rgãos vocais.
8 Por razões de simplicidade nos atemos 115 expressões orais.
9 Contudo, veja infra.
J. L. Austin
Udo, em " voltar para u purtir da HOCIlÇ[IO até o mo fonéti co (A.a), UOo
deveríamos regredjr até a ação fís ica núnima por via da cadeia <.l e SUHSco r)
seqüências, da maneira como supostamente o fudumos partindo du Inorte tio
burro até chegar ao movimento do dedo sobre o gatilho. A emissão de sons
pode ser uma conseqüência (física) do movimento dos órgãos vocilis, da ex­
pulsão do ar, etc., mas a emissão de uma palavra nlio é uma consc(/üe"citl,
física ou de outro tipo, da emissão de um ruído. Do mesmo modo a eOlissÍlo
de palavras com determinado significado não é uma conseqü.ênica {ísica, Oll
de outro tipo, da emissão de palavras. No que diz respeito a isso, nem 1l1CS
mo os atos "fáticos" (Ab) e "céticos" (A.c) são conseqüências, muito 11'\
nos conseqüências físicas, dos atos fonéticos (Aa). O que introduzimos pelo
uso da nomenclatura de ilocução é uma referência, não às conseqüências du
locução (pelo menos não no sentido ordinário de conseqüência), e sim umu
referência às convenções de força ilocucionária relacionadas com as
cunstâncias especiais da ocasião em que o proferimento é emitido. Lo
ocuparemos dos sentidos em que a realização consumada ou bem-su
de um ato ilocucionário produz realmente "conseqüências" ou "efeitos" em
certos sentidos 10.
Até agora argumentei que podemos ter esperança de isolar o ato ilocu­
cionmo do ato perlocucionário, na medida em que este produz
cias e o outro não é, em si mesmo, uma "conseqüência" do ato locucionário.
Agora, contudo, devo assinalar que o ato ilocucionário, distintamente do alo
perlocucionário, está relacionado com a produção de efeitos em certos senti­
dos:
1u Ainda podemos nos sentir tentados a atribuir certa primazia h locução, em relaçllo
ver que, dado certo ato rético individual (A.c), podem haver dúvidas ainda a respeito de ComO $C (lCv
descrevê-lo na terminologia das ilocuçóes. Por que, afinal, rotulamos um de A e outro de Fl ?PodO·
mos estar de acordo quanto 115 palavras realmente emitidas e também quanto a quols os sentido. 11 m
que foram usadas e quais as realidades a que se fez referência com elas, e, contudo, podemos fl ll1dl\
não estar de acordo, nas circunstâncias dadas, sobre se essas palavras representaram um(\ Mdel11, ÚIlUI
nrneaça, um conselho ou uma advertência. No entanto, afinal, há igualmente ampla posslblllilflllo li
discordância nos casos individuais em relação a como deve ser descrito o ato réti co (A.c) 1111 nomen
clatura das locuções. (O que quis dizer quem emitiu o pro ferimento? A que pessoa, tompo, Ole.,
referia realmente?) E, na verdade, freqüentemente podemos estar de acordo que o ato foi, semt1lt V'
o
da, uma ordem, por exemplo, e, no entanto, podemos não saber com certeza o que foi ordolllldo (lo.
cuçllo). plausivel supor que o ato não é menos "suscetível" de ser descrito como um tipo moi . ou
menos definido de ilocuçáo, do que de ser descrito como um ato locucionário (A) mol eou monos tiO­
I1nido. Podem aparecer dificuldades a respeito de convenções e intenções no momcnto do dooldlr 80­
bre a descrição correta tanto de uma locução quanto de uma ilocuçllo. A ambigilidndc do slgnl Oont!o
ou de referência, deliberada ou não. ê talvez tão comum quanto o fracasso, intenclonodo ou n!\oj aLI
esolarecer "como devem ser tomadas as nossas palavras" (em sentido i1ocuclondrio). Além d18llO, In·
do o aparato dos performativos explicitos (vide acima) serve para evitar desacordos quonto h tleACd·
ç\io de atos ilocucionários. De fato é muito mais diflcil evitar desacordos quanlo 11 dcscrlçllo do "010
locucionários". Cnda um desses tipos de ntos, no entanto, é convencionol o sujolto hllllCossldndo li
ter uma interpretaç!lo oferecida por "jufzos".
Quando dizer é fazer ___________________
98
(I) A menos que se obtenha detenninado efeito, o ato ilocucionário
não terá sido realizado de fonna feliz e bem-sucedida. Isso é diferente de di­
zer que o ato ilocucionário consiste na realização de um determinado efeito.
Não se pode dizer que preveni um audit6rio a menos que este escute o que
eu diga e tome o que digo num determinado sentido. Um efeito sobre o au­
dit6rio tem de ser conseguido para que o ato ilocucionário seja levado a ca­
bo. De que maneira podemos expressar melhor isto? E como podemos deli­
mitar melhor esta noção? Em geral o efeito equivale a tornar compreensível
o significado e a força da locução. Assim, a realização de um ato ilocucioná­
rio envolve assegurar sua apreensão.
(2) O ato ilocucionário "tem efeito" de certas maneiras, o que se dis­
tingue de produzir conseqüências no sentido de provocar estados de coisas
de maneira "nonnal", isto é, mudanças no curso normal dos acontecimentos.
Assim, "Batizo este navio com o nome de Queen Elizabeth" tem o efeitó de
batizar ou dar nome ao barco; feito isso, certos atos subseqüentes, tais corrio
referir-se ao barco como Generalíssimo Stalin, serão sem cabimento.
(3) Dissemos, que muitos atos ilocucionários levam, em virtude de
uma convenção, a uma resposta ou seqüela, que pode ter uma ou duas dire­
ções. Assim, podemos distinguir, por um lado, argumentar, ordenar, prome­
ter, sugerir e pedir, e por outro lado oferecer, perguntar a alguém se deseja
algo, e perguntar "sim ou não?". Se a resposta é concedida, ou a seqüela le­
vada adiante, isso requer um segundo ato por parte do protagonista do pri­
meiro ato ou de outra pessoa. E é lugar comum da linguagem com que se ex­
pressam as conseqüências que isso não pode ser incluído na parte inicial da
ação.
Contudo, geralmente podemos sempre dizer "Fiz com que ele ... " atra­
vés de tais palavras. Isto é uma forma de atribuir o ato a mim e, se é o caso
que para realizá-lo se empregam ou podem empregar-se palavras, trata-se de
um ato perlocucionário.Assirn, temos que distinguir "Eu ordenei e ele obe­
deceu" de "Fiz com que ele me obedecesse". A implicação geral da segunda
expressão é que se utilizaram outros meios adicionais para produzir essa
conseqüência como atribuível a mim, meios tais como recursos persuasivos
e, inclusive, freqüentemente o uso de uma influência pessoal chegando à
coação. Há até mesmo, e com freqüência, um ato ilocucionário distinto do
mero ato de ordenar, como quando digo "Ao afirmar X fIz com que ele fI­
zesse ... ".
De modo que temos aqui três maneiras pelas quais os atos ilocucioná­
rios estão ligados a efeitos. Essas três maneiras são todas elas distintas do
fato de produzir efeitos, que é característico do ato pedocucionário.
100 J.L.Ausrin
Temos que di/lljnguir us açõcs que polJSUCllI utn objelo pcrlocudon:íriu
(convencer, persuadjr) daquelas que simplcslncntc produl:cm uIrul scqüclu
perlocucionária. Assim, podemos dizer: "Tentei preveni-lo, mas 1)6 conílcgul
alanná-lo". O que é objeto perlocucionário de uma i1ocução pode ser se
qüela de outra. Por exemplo, o objeto perlocucionário de prevenir, alcrlor
alguém, pode ser uma seqüela de uma ato perlocucionário que alannu ui·
guém. Por outro lado, que alguém se sinta dissuadido pode ser a seqtl(;da ti
uma ilocução, em lugar de ser o objeto de dizer "não faças isso". AI
atos perlocucionários sempre têm seqüelas, mais do que objetos, a snbcr:
aqueles atos que carecem de f6nnula ilocucionária. Assim, posso surpreen­
der, ou perturbar ou humilhar alguém por meio de uma locução, embora n
existam as f6rmulas ilocucionárias "Surpreendo-te por ... ", "Perturbo-tl
por", "Hunúlho-te por ... ".
É característico dos atos perlocucionários que a resposta ou a seqUel1l
que se obtém possa ser conseguida adicionalmente ou inteiramente por melo!
não-locucionários. Assim, se pode intimidar alguém agitando-se um pedaço
de pau ou apontando-lhe uma arma de fogo. Mesmo nos casos de persuadir,
convencer, fazer-se obedecer e fazer-se acreditar, a resposta pode ser obtidu
de maneira não verbal. Contudo, s6 isso não basta para distinguir os atos
ilocucionários, uma vez que podemos, por exemplo, prevenir, ordenar, di
signai, dar, protestar ou pedir desculpas por meios não verbais e estes sft
atos ilocucionários. Assim, podemos fazer certos gestos ou atirar um tomatl
como sinal de protesto.
Mais importante é a questão de saber se os atos perlocucionários po.
dem sempre obter suas respostas ou seqüelas por meios não convencionais.
Não há dúvidas de que podemos conseguir algumas seqüelas de atos pcrJo­
cucionários por meios inteiramente não convencionais, isto é, por meio d
atos que não são de modo algum convencionais, ou não são para esses no".
Assim, posso persuadir alguém balançando suavemente uma vara comprida
ou gentilmente mencionando que seus velhos pais ainda estão no Terccirl
Reich. Estritamente falando, não pode haver um ato ilocucionário a men
que os meios utilizados sejam convencionais, e portanto os mejos para al­
cançar os fIns de um ato desse tipo em fonna não verbal têm de ser conven·
cionais. Mas é difícil dizer onde começam e onde terminam as
Assim, posso prevenir alguém agitando um pedaço de pau ou posso obs
quiar alguém simplesmente entregando-Ihe algo. Mas se o previno agitand
um pedaço de pau, então o agitar o pedaço de pau é um aviso: o outro sab
ria muito bem o que eu queria dizer com o que fazia, poderia parecer um
inequívoco gesto de ameaça. Surgem dificuldades semelhantes com relul
Quando dizer éfazor 101
ao ato de dar consentimento tácito, a algum acordo, ou de prometer tacita­
mente, ou de votar erguendo a mão. Mas permanece o fato de que muitos
atos ilocucionários não podem ser realizados senão dizendo-se algo. Isto é
válido para os atos de enunciar, infonnar (como coisa distinta de mostrar),
argumentar, formular uma apreciação ou estimativa e julgar (em sentido jurí­
dico). É válido também para a maior parte dos judicativos e expositivos co­
mo distintos de muitos exercitivos e compromiss6riosll .
11 Pura definiç1\o de judicativos, expositivos, exercitivos e compromiss6rios ver a XII Conferência
(noUI do editor, J. D. Urimson).
102 J.L.Ausdn
X Conferência
or
dO
"Ao dizer ... "versus
" p
Izer
"
O • •
Deixando de lado por um momento a distinção inicial entre performati­
vos e constatativos e também o programa de encontrar uma lista de palavras
performativas explícitas, especialmente verbos, fizemos uma nova tentativa
de considerar os sentidos em que dizer algo é fazer algo. Assim distinguimos
o ato locucionário (e dentro dele o fonético, o fático e o rético) que tem um
significado; o ato ilocucionário que tem uma certa força ao dizer algo; e o
ato perlocucionário que consiste em se obter certos efeitos pelo fato de se di­
zer algo.
Na última conferência distinguimos, em conexão com isso, alguns sen­
tidos de "conseqüências" e "efeitos"; especialmente três sentidos em que
mesmo nos atos ilocucionários os efeitos têm um papel, representado por
elementos como assegurar a apreensão, ter um resultado e demandar respos­
tas. No caso do ato perlocucionário, fizemos uma distinção esquemática en­
tre alcançar um objetivo e produzir uma seqüela. Atos ilocucionários sã
atos convencionais; atos perlocucionários não são convencionais. Atos d
ambos os tipos podem ser realizados ou, para ser mais preciso, atos chama­
dos pelo mesmo nome podem ser levados a cabo de maneira não verbal (por
exemplo, atos que equivalem ao ato ilocucionário de prevenir ou ao ato per­
locucionário de convencer). Mas, ainda assim, para que um ato mereça
nome de ilocucionário, por exemplo uma "advertência", tem que ser ato
convencional não-verbal. Os atos perlocucionários, contudo, não são con­
vencionais, embora se possam utilizar atos convencionais para produzir o at,
Qunndo dizer é fazor 10
perlocucionário. Um juiz deveria ser capaz de decidir, ouvindo o que foi di­
to, que atos locucionários e que atos ilocucionários foram realizados, mas
não que atos perlocucionários foram produzidos.
Por último destacamos todo um campo de problemas a respeito de
"como estamos usando a linguagem", "o que estamos fazendo ao dizer al­
go", problemas que são, como dissemos, e intuitivamente parecem ser, com­
pletamente distintos. Esses são tópicos adicionais que não vamos deslindar
aqui. Mencionamos, por exemplo, insinuar (e outros usos não literais da lin­
guagem), fazer piadas (e outros usos não-sérios da linguagem) , falar pala­
vrões e contar vantagens (que são talvez usos expressivos da linguagem).
Podemos dizer "Ao dizer X estava brincando" (insinuando ... , expressando
meus sentimentos, etc.).
Agora temos que fazer algumas observações [mais a respeito das fór­
mulas:
"Ao dizer X estava fazendo Y" ou "Fiz Y"
"Por fazer X fiz Y" ou "Estava fazendo y".
Foi por dispormos destas fórmulas que nos parecem particularmente
adequadas que escolhemos os nomes ilocucionário e perlocucionário. A pri­
meira fórmula "ao" (em inglês in) e serve para designar verbos que indicam
atos ilocucionários. A segunda é a fórmula "por" ou "porque" (em inglês
by) e serve para identificar verbos que designam atos perlocucionários. As­
sim, por exemplo:
"Ao dizer que atiraria nele eu o estava ameaçando."
"Por dizer-lhe que atiraria nele eu o alarmei."
Cabe perguntar se tais fórmulas lingüísticas nos fornecerão um teste
para distinguir atos ilocucionários de atos perlocucionários. A resposta é
não. Antes de ocupar-me disto, porém, permitam-me fazer uma observação
geral, ou melhor, uma confissão. Muitos dos leitores já devem estar impa­
cientes com esta maneira de encarar os problemas, e até certo ponto isso é
justificável. Os leitores dirão: "Por que não terminar com esse palavrório?
Por que continuar fazendo listas de nomes disponíveis numa linguagem co­
mum, nomes que designam coisas que fazemos e que têm relação com as
palavras? Para que continuar com fórmulas tais como a de "ao" e a de "por"
ou "porque"? Por que não discutir de uma vez por todas essas coisas de ma­
neira direta, no terreno da lingüística e no da psicologia? Para que dar tantas
voltas? "E claro que estou de acordo que se tem de fazer isso, apenas acho
que deve ser feito depois e não antes de se verificar o que se pode extrair da
linguagem comum, mesmo que o que venha à tona seja inegável. De outro
104 J. L. Austin
modo passariamos por alto de coisas importuntcs e irfrunos ucmllsiuuo mpi
do.
"Ao" e "por(que)" - em todo o caso - são f6rmulas dignus d
investigadas. Também o são "quando", "enquanto", etc. A import
tais investigações é 6bvia em relação à pergunta genérica: "Como est
cionadas entre si as diversas descrições possíveis 'daquilo que faço'?", como
vimos na questão das "conseqüências". Voltaremos, portanto, às f6rmu lu/!
"ao" e "por(que)" , e depois voltaremos novamente à nossa distinção inicjal
entre performativo e constatativo para verificar como funciona dentro des!!
novo marco de referência.
Examinaremos primeiro a fórmula: "Ao dizer X estava fazendo Y" (ou
"Fiz Y").
(1) Seu uso não se limita aos atos ilocucionários; aplica-se a) a atos
locucionários e b) a atos que parecem ficar completamente à margem de nos ..
sa classificação. Admitimos que ainda que possamos afrrmar "ao dizer X
estava fazendo Y", fazer Y não é necessariamente realizar um ato ilocucio­
nário. O máximo que se pode dizer é que a fórmula "por(que)" não é ade­
quada ao ato ilocucionário. Em particular (a) usamos a mesma f6rmula 110"
casos em que o verbo correspondente a Y designa a realização de uma parti
incidental de um ato locucionário, por exemplo, "ao dizer que detestava os
católicos, estava me referindo apenas aos católicos de nosso tempo", ou
"estava pensando nos católicos romanos, ou aludindo a eles". Embora ness
caso pudéssemos mais comumente usar a fórmula "falando de" ou "ao falar
em". Outro exemplo desse tipo é: "ao dizer Said-Ali", estava emitindo o
som de "sai dali". Mas, além destes, há outros casos (b) aparentemente hete­
rogêneos, tais como "Ao dizer X você estava cometendo um erro" ou "dei­
xando de observar uma distinção necessária" ou "infringindo a lei " ou "cor­
rendo o risco" ou "esquecendo" - cometer um erro ou correr um risco nli
é certamente realizar um ato ilocucionário, nem mesmo um ato 10cucion6.tiv.
Podemos tentar livrar-nos de (a), isto é, do fato de que a f6rmula núo
se limita a atos ilocucionários, argumentando que "dizer" é ambíguo. Quan­
do o uso não é ilocucionário, "dizer" pode ser substituído por "falando d-
II
ou "usando a expressão", ou em lugar de "ao dizer X" poderíamos dize
"pela palavra X" ou "usando a palavra X" . Este é o sentido de " dizer" em
que esta palavra aparece seguida de urna ou mais entre aspas, e em tais casos
nos referimos ao ato fático, não ao ato rético.
O caso (b), de atos heterogêneos à margem da nossa classificaçuv,
apresenta maior dificuldade. O seguinte poderia ser um teste poss(vel: onel
pudermos colocar o verbo correspondente ao Y num tempo em que núo apa­
reça o particípio presente, como o presente ou o pret6rito, ou onde puderm
Quando dizer 6 fazer IO ~
mudar "ao" para "por(que)" conservando ao mesmo tempo o particípio pre­
sente, então o verbo Y não é o nome de uma ilocução. Assim, em vez de
"Ao dizer aquilo ele estava cometendo um erro", poderíamos colocar, sem
mudança de sentido, ou "Ao dizer que ele cometeu um erro" ou "Por dizer
que ele estava cometendo um erro". Por outro lado, não é o mesmo dizer
"Ao dizer isto eu estava protestando" e dizer "Ao dizer isso protestei", nem
"Porque disse isso estava protestando" . *
(2) Em geral poderíamos dizer que a fórmula não funciona com verbos
perlocucionários como "convenceu", "persuadiu" , "dissuadiu" . No entanto,
devemos esclarecer isso um pouco. Em primeiro lugar, há exceções que de­
rivam do uso incorreto da linguagem. Assim, as pessoas dizem: "Você está
me intimidando?" em lugar de "ameaçando" e os que falam assim poderiam
dizer "Ao dizer X, ele estava me intimidando". Em segundo lugar, a mesma
palavra pode ser usada genuinamente tanto de forma ilocucionária como
perlocucionária. Por exemplo, "tentar" é um verbo que pode facilmente ser
usado de uma ou de outra maneira. Não temos a expressão "Eu o tento a" ,
mas temos "Deixe-me que o tente", e há diálogos assim: "Sirva-se de mais
sorvete" - "Você está me tentando?". Esta última pergunta seria absurda
num sentido perlocucionário, pois o único que a poderia responder seria
quem a formulou. Se respondo, "Ah, por que não?" parece que o estou ten­
tando, mas ele pode realmente não se sentir tentado. Em terceiro lugar, te­
mos o uso proléptico (antecipante) de verbos tais como, por exemplo, "sedu­
zir" ou "pacificar". Nesse caso, "tratar de" parece sempre uma adição pos­
sível a um verbo perlocucionário. Mas não podemos dizer que o verbo ilocu­
cionário é sempre equivalente a tratar de fazer algo que pudesse ser expres­
sado por um verbo perlocucionário, como por exemplo dizer que "argumen­
tar" é equivalente a "tratar de convencer", ou que "avisar" é equivalente a
"tratar de alarmar" ou de "alertar". Porque, em primeiro lugar, a distinção
entre fazer e tratar de fazer já está presente no verbo ilocucionário, assim
como no verbo perlocucionário. Distinguimos argumentar de tratar de argu­
mentar, assim como convencer de tratar de convencer. Além do mais, muitos
atos ilocucionários não são casos de tratar de fazer algum ato perlocucioná­
rio. Por exemplo, prometer não é tratar de fazer coisa alguma que possa ser
descrita como objeto perlocucionário.
Mas ainda nos podemos perguntar se é de todo possível usar a fórmula
"ao" com o ato perlocucionário. Isso é tentador quando o ato não se concre­
tiza de maneira intencional. Mas, mesmo nesse caso, o uso de tal fórmula é
• A diferença não fica muito clara em português. No original temos "But we do nnt say" "In saying
fhat I prolesled" nor "By saying lhall was prolesting" .
106 J. L. Austin
provavelmente incorreto, e deveríamos djzcr II por(que)" . Em tod
digo, por exemplo, "Ao dizer X eu o estava convencendo", n50 estou
vando em conta como cheguei a dizer-lhe X, mas como cheguei fi conv<m­
cê-lo. Esta situação é inversa àquela em que usamos a fórmuJa "ao dl7..er"
para explicar o que queríamos significar com a frase, e supõe outro sentido
distinto do que a frase tem quando usada com os verbos ilocucionários (ist,
é, o sentido que supõe é o de "no processo de" , "no decurso de", "en­
quanto dizia", como coisa distinta de "um critério").
Consideremos agora o significado geral da f6rmul a " Ao". Se digo " Ao
fazer A eu estava fazendo B" posso querer dizer que A supõe B (ou seja, A
explica B) ou que B supõe A (B explica A). Tal distinção pode ser esclare­
cida contrastando-se (a. 1) "Enquanto fazia A, estava fazendo B" (ao cons
truir uma casa, eu estava construindo uma parede) e (a.2), "Ao fazer A, cu
estava no processo de fazer B" (ao construir uma parede eu estava coo
truindo uma casa). Ou, por outro lado, contraste-se (a.I): "Ao emitir os ru(­
dos R eu estava dizendo D" com (a.2): "Ao dizer D eu estava emitindo os
ruídos R". Em (a.I) explico A (meu ato de emitir os ruídos) e expresso o
que tenho ao t:rniti-Ios, enquanto que no caso (a.2) explico B (meu
ato de emitir os ruídos) e estabeleço assim o efeito desse ato. A f6rmula
usada com freqüência para explicar o fato de fazer algo em resposta à per­
gunta: "Como é que você chegou a fazer isso?" Das duas ênfases diferentes,
o dicionário prefere o primeiro caso (a.1) em que explicamos B, mas com
igual freqüência o usamos no caso (a.2) para explicar A.
Se considerarmos agora o exemplo:
Ao dizer ... estava esquecendo ...
vemos que B (esquecendo) explica como cheguei a dizer X, ou seja, B ex­
plica A. Do mesmo modo:
Ao fazer um zumbido estava pensando que as abelhas zumbem expUca
o meu zumbido (A). Este parece ser o uso de "ao" quando o usamos com
verbos locucionários: explica o fato de haver dito o que disse (e não o seu
significado) .
Mas se considerarmos os exemplos:
(a.3) Ao fazer um zumbido eu estava fingindo ser uma abelha. Ao fa­
zer um zumbido eu estava me comportando como um palhaço.
vemos dizer que o que a pessoa fez (fazer um zumbido), em intenção ou (\
fato constituiu o dizer tal e tal coisa, um ato de determinado tipo, permitind
que se o chamasse por um nome diferente. O exemplo ilocucionário:
Ao dizer tal coisa eu estava avisando,
Quando dizer é fazer 107
6 desse tipo. Não é da classe (a.1) e (a.2) (quando A ex.plica B ou vice-ver­
sa). Mas é diferente dos exemplos locucionários porque o ato é constituído
não pela intenção ou pelo fato, essencialmente, mas pela convenção (que é,
naturalmente, um fato). Estas características servem para distinguir de ma­
neira bastante satisfatória os atos ilocucionários I.
Quando a fórmula "ao dizer" se emprega com verbos perlocucionários,
por outro lado, é empregada no sentido de "no processo de", "como parte
do ato de" (a. 1), mas ela explica B, ao passo que o caso do verbo locucioná­
rio explica A. Assim, é diferente tanto do caso locucionário quanto do caso
ilocucionário.
A pergunta "Como é que você chegou a fazer isso?" não se limita à
questão de meios e fms, como podemos observar. Assim, no exemplo:
Ao dizer A .. . estava esquecendo B
explicamos A, mas num sentido novo de "explicar", que não é o de meios e
fms. Por sua vez, no exemplo:
Ao dizer. .. estava convencendo .. . (estava humilhando ... )
explicamos B (meu ato de convencer ou de humilhar alguém) que é na ver­
dade uma conseqüência, mas não é conseqüência de certos meios.
A fórmula "por (que)" não se limita, da mesma forma, aos verbos per­
locucionários. Há o uso locucionário (porque disse ... me referi ... ), o uso ilo­
cucionário (porque disse ... estava dessa maneira avisando ... ) e uma varieda­
de de usos heterogêneos (porque disse ... me fIz de ridículo). Os usos de
"por (que)" são dois, em geral.
a) Porque martelei o prego eu o estava introduzindo na parede.
b) Porque lhe extraí o molar, estava praticando odontologia.
Em (a) "porque" indica o meio pelo qual, a maneira pela qual, ou o método
pelo qual eu levava a cabo a ação; em (b) "porque" indica um critério, o que
há na minha ação que permite que seja classifIcada como prática de odonto­
logia. Parece haver pouca diferença entre os dois casos, exceto que o uso pa­
ra indicar um critério parece mais externo. Este segundo sentido de "por­
que" - o do critério - parece também achar-se muito próximo de "ao" em
um de seus sentidos; "ao dizer isso eu estava infringindo a lei (violei a lei)";
e dessa maneira "porque" pode certamente ser usado com verbos ilocucioná­
rios na fórmula "porque disse". Assim, podemos dizer "porque disse ... o
estava avisando (o avisei)". Mas, "porque", neste sentido, não é usado com
1 Mas suponhamos o caso de um charlatão que se faz passar por dentista. Podemos dizer "Ao ex­
trair-me o molar, estava praticando a odontologia". Aqui há uma convenção, tal como no caso do
aviso. Um juiz poderia decidir.
LOS J. L. Austin
verbos pcdocucionários. Se digo " porque disse ... o convcnd (pcrsullul)",
" porque" tem aqui o sentido de meios-para-fins, Oll, em todo o CORO, upontll
a maneira em que o fiz, ou o método que segui no fnr,ê-Io. I )sa-se nl gulllu
vez a fórmula " porque" nesse sentido de meios-para-fms com um verbo lIo
cucionário? Pareceria que isso acontece em pelo menos dois tipos de cuso:
(a) Quando adotamos um meio verbal para fazer algo, em vez de um
meio não-verbal. Por exemplo, quando falamos, em vez de fazer uso de um
pedaço de pau. Assim, no exemplo: "Porque disse ' Aceito' eu estava me cu­
sando com ela", o performativo "Aceito" é um meio para o:fim, que é o ca­
samento. Aqui "disse" é usado no sentido em que o que foi dito deve vir
entre aspas; é usar palavras, ou a linguagem. Trata-se de um ato fát ico e n
de um ato rético.
(b) Quando um proferimento performativo é usado como um meio indl­
reto de realizar outro ato. Assim, no exemplo: "Porque disse 'Declaro ter
três copas' eu informei-o de que não tinha ouros", uso o performativo "O
claro ter três copas" como um meio indireto de informá-lo (que é também um
ato ilocucionário).
Em resumo: para usar a fórmula "por disse" como teste de que o
ato é perlocucionário, temos primeiro que nos assegurar:
(1) que "por(que)" está sendo usado como instrumento e não no senti­
dCl de critério;
(2) que "disse" está sendo usado
(a) no sentido pleno de um ato locucionário e não em sentido parcial ,
como, por exemplo, no ato fático;
(b) e não é usado no sentido que supõe uma dupla convenção, como
no exemplo tirado do jogo de cartas, já mencionado.
Há outros dois testes lingüísticos subsidiários que servem para distjn­
guir o ato ilocucionário do perlocucionário:
(1) Parece que no caso dos verbos ilocucionários se pode afirmar com
freqüência que "Dizer X era fazer Y". Já não se pode dizer "martelar o p
go era introduzi-lo na parede" em lugar de "Porque martelou o prego, el
o introduziu na parede". Mas esta fórmula não nos fornece um teste a toda
prova, pois podemos dizer muitas coisas com ela. Assim, podemos dizer
"Dizer isso foi convencê-lo" (uso proléptico ou antecipante?), embora
"convencer" seja um verbo perlocucionário.
(2) Os verbos que classifIcamos (intuitivamente, porque é apenas isso
que ftzemos até agora) como nomes de atos ilocucionários parecem muit,
próximos dos verbos performativos explfcitos, pois podemos dizer "Aviso­
que" e "Ordeno-Ihe que" como performativos explícitos. Mas avisar e ord ..-
________________________________________ _
nar sao atos ilocucíonários. Podemos usar o performativo "Aviso-o que",
mas não "Convenço-o que", e podemos usar o perfonnativo "Eu o ameaço
com", mas não "Eu o intimido por"; convencer e intimidar são atos perlocu­
cionários.
Contudo, a conclusão geral deve ser que tais fórmulas são, na melhor
das hipóteses, testes muito traiçoeiros para decidir se uma expressão é uma
ilocução, e não uma perlocução, ou se não se trata de nenhuma dessas coi­
sas. Mas, de todo modo, "por (que)" e " ao" merecem ser estudadas com va­
gar, tanto quanto o já notório "como".
Mas, então, qual é a relação entre performativos e esses atos ilocucio­
nários? Pareceria que quando temos um performativo explícito também te­
mos um ato ilocucionário. Vejamos, pois, qual a relação entre (1) a distinção
feita nas primeiras conferências com relação aos perfonnativos e (2) esses ti­
pos diferentes de atos.
110 J. L. Austin
uu
X I Conferência
Declarações, performativos
e força i1ocucionária
Quando, no início, contrastamos o proferimento performativo com o
constatativo dissemos que:
(1) o performativo deveria consistir em fazer algo, em oposição a sim­
plesmente dizer algo; e
(2) o performativo é feliz ou infeliz, em oposição a verdadeiro ou faIs".
Havia fundamento real para tais distinções? Nossa discussão subs
qüente, relativa ao fazer e ao dizer, certamente parece levar à conclusão qu"
cada vez que "digo" algo (exceto, talvez, quando emito uma simples excla­
mação como "Poxa" ou "Arre") realizo conjuntamente atos locucionárlos
ilocucionários, e esses dois tipos de atos parecem ser precisamente o qu
tentamos usar como meios de distinguir, com a denominação de "fazer"
"dizer", performativos de constatativos. Se geralmente estamos fazendo am
bas as coisas de uma vez, como pode subsistir a nossa distinção?
Começaremos por considerar novamente o contraste do ponto de vista
dos proferimentos constatativos. Destes, contentamo-nos com a referência à!i
"declarações" como caso típico ou paradigmático. Cabe perguntar se seria
correto dizer que quando declaramos algo:
(1) estamos fazendo algo e ao mesmo tempo dizendo algo, sem nos
restringir ao simples ato de falar; e
(2) nosso proferimento pode ser feliz ou infeliz (assim como, se o qui­
sermos, verdadeiro ou falso)?
Quando dizer é fazer 111
(1) Sem dúvida que, até em seus mínimos detalhes, declarar algo érea­
lizar um ato ilocucionário, como, por exemplo, avisar ou proclamar. É claro
que não se trata de levar a cabo um ato de alguma maneira física especial,
exceto na medida em que pressupõe, quando o ato de declarar é verbal, a
realização de movimentos dos órgãos vocais. Mas o mesmo se pode dizer de
avisar, protestar, prometer ou designar. "Declarar" parece satisfazer todos
os critérios que utilizamos para distinguir o ato ilocucionário. Consideremos
a expressão seguinte, que nada tem de excepcional.
Ao dizer que chovia, eu não estava apostando, nem argumentando, nem
prevenindo. Ou, então,
Ao dizer que isso levava ao desemprego, eu não estava avisando nem
protestando. Estava simplesmente declarando um fato.
Ou, para tomar um tipo de teste diferente, também usado anteriormente.
Não há dúvida de que:
Declaro que ele não o fez, está exatamente no mesmo nível que:
Sugiro que ele não o fez
Aposto que ele não o fez, etc.
Se uso simplesmente a forma primária ou não-explícita de declaração:
Ele não o fez
posso explicitar o que estávamos fazendo ao dizer isso, ou especificar a for­
ça ilocucionária da declaração, dizendo algumas dessas três (ou mais) coisas.
Além do mais, embora o pro ferimento "Ele não o fez" seja com fre­
qüência emitido como uma declaração, caso em que seria indubitavelmente
verdadeiro ou falso, não parece possível dizer que tal declaração difere de
"Declaro que ele não o fez" a esse respeito. Se alguém diz "Declaro que ele
não o fez", investigamos a verdade dessa declaração exatamente da mesma
maneira que se a pessoa houvesse dito simpliciter "Ele não o fez", quando
consideramos isto, como normalmente o fazemos, uma declaração. Ou seja,
dizer "Declaro que ele não o fez" é formular a mesma declaração que "Ele
não o fez". Não é formular uma declaração diferente a respeito do que "eu"
declaro (exceto em casos excepcionais: o presente histórico, o presente ha­
bitual, etc.). Como é notório, mesmo no caso em que se diz "penso que ele o
fez" , seria descortesia que alguém me respondesse: "Essa declaração se re­
fere a você mesmo" . Este último poderia concebivelmente referir-se a mim,
enquanto que a declaração não. De modo que não há necessariamente con­
flito entre:
(a) o fato de ao emitirmos o proferimento estarmos fazendo algo;
(b) o fato de nossa declaração ser falsa ou verdadeira.
112. J. L. Austin
A esse respeito, compare-se, por exemplo, " A viso·o quo () touro cstn !>(II
atacar", caso em que, de maneira semelhante, há uma llovC!rtBncia o, UO
mesmo tempo, é verdadeiro ou falso que o touro esteja por alacar. laso se d ~
tanto na apreciação da advertência, quanto na apreciação da declaração, em­
bora não da mesma maneira.
À primeira vista, "declaro que" não parecer diferir de nenhum mod
especial de "sustento que" (e dizer isso é sustentar que), de " infoono-lh
que", de "confesso que", etc. Talvez seja possível, no entanto, estabelec
algumas diferenças "essenciais" entre tais verbos; mas nada foi feito aind
nesse sentido.
(2) Além do mais, se pensamos no segundo contraste pretendido, d
acordo com o qual os performativos são felizes ou infelizes e as declarações
são verdadeiras ou falsas, e se o examinamos do ponto de vista dos proferi­
mentos constatativos, notadamente declarações, vemos que as declaraçõcs
estão sujeitas a todo tipo de infelicidade a que também estão os perfonnati.
vos. Voltemos atrás, e consideremos se as declarações não podem ser afeta­
das exatamente pelas mesmas falhas que podem, por exemplo, afetar as ad­
vertências, no sentido em que denominamos essas falhas de "infelicidades".
Ou seja, as diversas falhas que fazem com que um proferimento seja infeli .. ,
sem, contudo, torná-lo falso ou verdadeiro.
Já assinalamos o sentido em que dizer ou declarar "o gato está sobre o
tapete" implica em que eu creio que o gato esteja sobre o tapete. Isto é pa­
ralelo ao sentido em que "prometo estar lá" implica que tenho a intenção d'>
estar lá e que acredito que serei capaz de estar lá. Assim a declaração est
exposta à forma de infelicidade que caracteriza os atos insinceros e inclusiv
à forma de infelicidade que denominamos de ruptura, no sentido em que di.
zer ou declarar que o gato está sobre o tapete me compromete a dizer ou de­
clarar "o tapete está debaixo do gato", do mesmo modo que o performativ
"defino X como Y" (no sentido, digamos, de fiat), me compromete a usar
tais palavras de maneiras especiais no discurso futuro, é fácil perceber como
isso se liga a atos do tipo de prometer. Isso significa que as declarações p0­
dem dar origem a infelicidade dos dois tipos.
Ora, o que ocorre com as infelicidades do tipo A e do tipo B, que tor­
nam o ato - de advertir, de assumir compromisso, etc. - nulo e vazio? É pos­
sível que algo que parece ser uma declaração seja nulo e sem valor tal com
pode ser um contrato putativo? A resposta parece ser afirmativa em um sen­
tido importante. Os primeiros casos são A.I e A.2, em que não existe con­
venção (ou pelo menos não uma convenção aceita), ou em que as circunstân­
cias não são adequadas para que a pessoa que emite a expressão recorra
convenção aceita. Muitas infelicidades desse tipo infestam as declaraçõcs.
Quando dizer é fazer 11
Já notamos o caso de uma declaração putativa que pressupõe (como se
diz) a daquilo a que se refere. Se tal coisa não existe, "a declara­
ção" não se refere a nada. Alguns dizem que em tais circunstâncias, se, por
exemplo, se afmna que o atual rei da França é careca, "não surge a questão
de ser careca ou não"*. Mas é melhor dizer que a pretensa declaração é nula
e sem valor, tal como quando digo que vendo algo a outra pessoa, mas o
objeto não é meu ou (por haver-se queimado) já não existe mais. Os contra­
tos são com freqüência nulos porque os objetos sobre os quais versam não
existem, o que envolve falta de referência (ambigüidade total).
Mas é importante notar também que "declarações" estão sujeitas, além
disso a tal tipo de infelicidades de outras maneiras que também são paralelas
ao que pode ocorrer no caso dos contratos, promessas, advertências, etc ...
Assim como dizemos, com freqüência, por exemplo, "Você não pode me dar
ordens", no sentido de "Você não tem o direito de me dar ordens" , o que
equivale a dizer que o outro não se encontra em situação de fazer isso, as­
sim, também, muitas vezes, há coisas que uma pessoa não pode declarar ­
que não tem direito de declarar -, pois não está em posição de fazê-lo. X
não pode declarar agora quantas pessoas há no quarto ao lado. Se X diz "há
cinqüenta pessoas no quarto ao lado", só posso considerar que X está adivi­
nhando ou conjeturando. (Assim como às vezes Y não está dando ordens, o
que seria concebível e que possivelmente me está fazendo um pedido de ma­
neira um tanto brusca; assim também X, de fonna um tanto anômala, está
"dando um palpite".) Trata-se, nesse caso, de algo que, em outras circuns­
tâncias, X poderia estar em situação de declarar, mas o que ocorre com as
declarações a respeito dos sentimentos de outra pessoa sobre o futuro? Por
exemplo, um prognóstico ou uma previsão a respeito do comportamento fu­
turo de outras pessoas constitui realmente uma declaração? É importante
considerar a situação lingüística como um todo.
Do mesmo modo que, às vezes, não podemos fazer uma designação,
mas apenas confmnar uma designação já efetuada, assim, às vezes, não po­
demos fazer uma declaração já feita.
As pretensas declarações também estão expostas às infelicidades do ti­
po B,** que caracterizam as falhas e os tropeços. Suponhamos que alguém
"diga algo que realmente não quis dizer" - use a palavra errada - diga "o
gato está sobre o tapete" quando queria dizer "pato". Podemos mencionar
outras trivialidades semelhantes; ou talvez não sejam realmente trivialidades,
porque é possível discutir tais proferimentos exclusivamente em tennos de
.. Ver N. do T. da p. 36,11 Conferência.
.... Ver classificação das infelicidades na II Conferência.
114 J. L. Austin
significado ou sentido de referência, c, dossa Jluulciru, confundir-nos em
lação a eles, embora sejam realmente fáceis de se entender.
Uma vez que percebemos que o que temos que examinar nliO
tença, mas o ato de emitir um proferimento nwna situação lingüística, MO
torna difícil ver que declarar é realizar um ato. Além do mais, se comparur­
mos o declarar com o que dissemos a respeito do ato ilocucionário vemos
que é um ato que, exatamente como ocorre com outros atos
exige de maneira essencial que "asseguremos sua apreensão". As dt1vidus a
respeito de se declarei algo, no caso de não se haver ouvido ou entendido o
que foi dito, são as mesmas que podem surgir a respeito de se o que se diss
sotto voce foi uma advertência ou se foi um protesto, caso alguém não o lC­
nha tomado como um protesto, etc. E as declarações "têm efeito" do mesmo
modo que o tem o ato de batizar um navio. Se declarei algo, isso me com­
promete a outras declarações: outras declarações minhas posteriores estarão
ou não de acordo com is!)o. Também, daí em diante, outras declarações ou
observações feitas por outras ,essoas estarão ou não em contradição com fi
minha, a refutarão ou não, etc. Se, contudo, uma declaração não pede uma
resposta, isso não é essencial a todos os atos ilocucionários. E, por certo, ao
fazer uma declaração estamos ou podemos estar realizando atos perlocucio­
nários de todo tipo.
O máximo que se pode argumentar, e com alguma plausibilidade, é que
não há nenhum objeto perlocucionário especificamente ligado ao ato de de­
clarar, como acontece com infonnar, argumentar, etc. Essa comparativa pu­
reza pode ser uma razão que explica o fato de darmos às "declarações" uma
certa posição especial. Mas isto certamente não justificaria, por exemplo,
que déssemos às "descrições", se devidamente usadas, uma prioridade
melhante, e essa é uma característica comum a muitos atos ilocucionários.
Contudo, considerando a questão do ponto de vista dos perfonnativos,
ainda podemos ter a impressão de que a estes falta algo que as declarações
têm, mesmo quando, como já vimos, o inverso não é verdade. É certo que os
perfonnativos consistem em se fazer algo, e também consistem, acessoria­
mente, em se dizer algo. Mas podemos ter a impressão que, à diferença das
declarações, não sejam essencialmente verdadeiros ou falsos. Podemos ter
u impressão, aqui, que o ato constatativo (admitindo-se, de antemão, que seja
feliz) pode ser julgado, estimado ou apreciado em uma dimensão que não s
apresenta no caso dos proferimentos perfonnativos ou não-constatativos. Su­
pondo que todas as circunstâncias da situação têm que estar em ordem para
que eu consiga declarar algo satisfatoriamente, surge então a pergunta:
verdadeiro ou falso o que declarei? E temos a impressão de que tal pergunH'l,
Quando dizer <5 razer I I S
para fruar em termos populares, procura determinar se a declaração "corres­
ponde aos fatos". Estou de acordo com isso; as tentativas de dizer que o uso
da expressão "é verdade" é equivalente a endossar, ou coisa parecida, não
são acertadas. Assim temos aqui uma nova dimensão de crítica da declaração
realizada satisfatoriamente.
Mas agora devemos perguntar:
(L) se pelo menos em muitos casos não cabe uma apreciação igual­
mente objetiva de outras expressões livres de infelicidades, que pa­
recem ser tipicamente performativas; e
(2) se nossa explicação das declarações não simplifica excessivamente
as coisas.
Em primeiro lugar, há uma óbvia inclinação pela verdade ou falsidade
no caso, por exemplo, dos judicativos, tais como estimar, decidir e declarar . .
Assim podemos:
estimar acertada ou ex.: que são duas e meia
erroneamente
achar correta ou ex.: que ele é culpado
incorretamente
declarar correta ou ex.: que o atacante
incorretamente está impedido
No caso dos judicativos não dizemos "verdadeiramente", mas com cer­
teza nos faremos a mesma pergunta: e advérbios como "acertadamente",
"erroneamente", "corretamente" e "incorretamente" são usados com decla­
rações também.
Há também um paralelo entre inferir e argumentar com fundamento ou
validade, e declarar a verdade. Não se trata só de saber se alguém efetiva­
mente argumentou ou inferiu, mas também de saber se tinha direito a fazê-lo,
e se o fez de forma satisfatória. Podemos prevenir ou aconselhar correta ou
incorretamente, bem ou mal. Cabem considerações semelhantes com relação
aos atos de elogiar, censurar, felicitar. A censura não cabe, por exemplo, se
o que censura um determinado ato já fez, por sua vez, o mesmo que está cen­
surando. E sempre podemos perguntar se a censura, a felicitação ou o elogio
foram merecidos ou imerecidos. Não basta dizer que uma pessoa censurou a
outra e que isso termina com o caso. Sempre cabe indagar se havia razão pa­
116 J. L. Austin
ra censurar, ou seja, se isso era justificado. Dctcnnlnar se wn elogio ou uma
censura são merecidos é completamente diferente de determinar so suo
oportunos. Cabe fazer a mesma distinção com respeito aos conselhos. I I
uma diferença entre dizer que um conselho é bom ou mau e dizer qu
oportuno ou inoportuno, mesmo que a oportunidade do conselho seja moi
importante para sua qualificação como bom do que a da censura o é para sua
qualificação como merecida.
Podemos estar seguros de que quando afrrmamos que alguém declurou
a verdade estamos fazendo uma apreciação de tipo diferente de que quando
afmnamos que alguém argumentou com fundamento, aconselhou bem, juJgou
com probidade, etc.? Essas coisas não têm algo a ver, ainda que de maneiro
complicada, com os fatos? O mesmo se passa com os exercitivos, tais como
dar um nome, designar, legar e apostar. Os fatos têm importância, tanto
quanto o nosso conhecimento ou opinião sobre os fatos.
É certo que constantemente se fazem tentativas para efetivar essa dis­
tinção. Alega-se que se um argumento é bem fundamentado (quando não s
trata de argumentos dedutivos que são "válidos") e se uma censura é mere­
cida, não são questões objetivas. Ou diz-se que, no caso da advertência, te­
mos que distinguir entre a "declaração" de que o touro está por atacar e a
própria advertência. Mas consideremos por um momento se a questão da
verdade ou da falsidade é tão objetiva quanto se pretende. Podemos pergun­
tar se uma declaração é justa, e se as boas razões e a prova adequada para
fazer uma declaração e dizer algo são tão distintas das boas razões e provas
que se podem invocar em apoio aos atos performativos como argumentar,
prevenir e julgar. Além disso, o constatativo é sempre verdadeiro ou falso?
Quando um constatativo é comparado com os fatos, nós na realidade o apre­
ciamos de maneiras que supõem o emprego de um vasto conjunto de palavras
que se sobrepõem às que utilizamos para apreciar os performativos. Na vida
real, diferentemente das situações mais simples consideradas na teoria 16gi­
ca, nem sempre podemos responder de maneira simples se a declaração é fal­
sa ou verdadeira.
Suponhamos que confrontamos "A França é hexagonal" com os fatos,
nesse caso, com a França, suponho. Esta declaração é verdadeira ou falsa?
Bem, se assim o desejamos, é verdadeira em certa medida. É claro que se
pode entender o que se quer dizer com a afrrmação de que é verdadeira para
certos fms e propósitos. Talvez seja suficiente para um general, mas não o
será para um cartógrafo. "Naturalmente que a declaração é apenas esquemá­
tica", diríamos, "e bastante boa como declaração desse tipo". Suponhamos
que alguém insista: "Mas é verdadeira ou falsa? Não me interessa se é es-
Quando dizer 6 fazor 117
quernatica ou não; claro que é, mas tem de ser verdadeira ou falsa. Trata-se
de uma declaração, não é?" Como poderíamos responder a essa pergunta, se
a declaração de que a França é hexagonal é verdadeira ou falsa? Simples­
mente trata-se de urna declaração esquemática e essa é a resposta correta e
final diante da pergunta a respeito da relação entre "A França é hexagonal"
a a França. É uma descrição aproximada; não é uma descrição verdadeira
nem falsa.
No caso de se fazer uma declaração verdadeira ou falsa, tanto quanto
no caso de se aconselhar bem ou mal, os fms e propósitos do proferimento,
assim como seu contexto, são importantes. O que se julga veJdadeiro em um
livro escolar pode não ser julgado do mesmo modo numa obra de investiga­
ção histórica. Consideremos o constatativo "Lord Raglan* ganhou a batalha
de Alma", lembrando-nos que Alma foi uma batalha entre soldados rasos,
caso inédito, e que as ordens de Lord Raglan nunca foram transmitidas a al­
guns de seus subordinados. Nessas circunstâncias, Lord Raglan ganhou ou
não a batalha de Alma? É claro que em alguns contextos, por exemplo, em
um livro escolar, está perfeitamente justificado dizer isso. Talvez seja um
exagero, mas não se trata aqui de dar uma medalha a Lord Raglan. Assim
como"A França é hexagonal" é uma declaração esquemática, "Lord Raglan
ganhou a batalha de Alma" é uma declaração exagerada, que é adequada pa­
ra alguns contextos e não para outros. Seria inútil insistir em perguntar se é
verdadeira ou falsa.
Em terceiro lugar, consideremos a questão de ser ou não verdade que
todos os gansos migram para o Labrador, tendo em conta que talvez um de­
les se fIra alguma vez e não chegue ao seu destino. Diante de problemas co­
mo esse, muitos têm aftrmado, com muita justiça, que declarações iniciadas
por "Todos... " são defInições prescritas ou recomendações para se adotar
uma regra. Mas que regra? Essa idéia se origina parcialmente da não-com­
preensão de que a referência dessas declarações se limita aos casos conheci­
dos. Não podemos aftrmar simplesmente que a verdade das declarações de­
pende dos fatos, independentemente dos conhecimentos destes. Suponhamos
que antes do descobrimento da Austrália X dissesse "Todos os cisnes são
brancos". Se mais tarde se descobre um cisne negro na Austrália, pode-se
dizer que X foi refutado? Sua declaração passou a ser falsa? Não necessa­
riamente; X pode retificá-la, como também poderia dizer "Não estava falan­
do a respeito de todos os cisnes, em termos absolutos, qualquer que fosse
.. Lord Raglan (1788-1855) foi inicialmente o comandante das tropas inglesas na Guerra da Criméia
( 1854-1856), durante a qual ocorreu a batalha de Alma (1855), considerada ganha graças mais à dis­
ciplina das tropas do que à capacidade dos comandantes. (N. do T.)
118 J. L. Austin
o lugar onde llC encontrassem; por exemplo, minha <.ICl,; ltlIUt;üO nao se re/\.: du
a possíveis cisnes de Marte". A referência depende do conhecimento que S
tem ao emitir o proferimento.
A verdade ou falsidade das declarações é afetada pelo que nelas se in­
clui ou delas se exclui e pelo fato de serem equfvocas, ou coisas semelhun­
teso Assim, por exemplo, as descrições tidas corno falsas ou verdadeiras ou,
se assim o desejamos, tidas como "declarações", estão sem dúvida expostas
a tais críticas, uma vez que são seletivas e proferidas com determinado p
p6sito. É essencial entender que "verdadeiro" e "falso", como " ljvre"
"não livre", não designam, de forma alguma, algo simples. Tais palavras s
representam uma dimensão geral de que, nas circunstâncias dadas, em rela­
ção a um determinado tipo de ouvinte para certos fins e com certas inten­
ções, o que foi dito era adequado ou correto, em oposição a algo incorreto.
Em geral podemos dizer isto: tanto em relação às declarações (e, por
exemplo, descrições) quanto às advertências, etc., pode surgir a questão
admitindo que realmente declaramos, advertimos, ou aconselhamos, etc.,
que tínhamos o direito de fazê-lo - se declaramos, advertimos ou aconselha­
mos corretamente. Não no sentido de perguntar se nosso ato foi oportuno ou
conveniente, mas sim de indagar se, face aos fatos, ao conhecimento que tr­
nhamos deles e ao propósito que nos levou a falar, etc., o que dissemos foi
adequado.
Essa doutrina é totalmente diferente do que sustentaram os pragmatis­
tas, * para quem o verdadeiro é o que dá bons resultados, etc. A verdade ou
falsidade de uma declaração não depende unicamente do significado das pa­
lavras, mas também do tipo de atos que, ao proferi-las, estamos realizando e
das circunstâncias em que os realizamos.
Que resta, então, da distinção entre o proferimento performativo e o
constatativo? Na verdade podemos dizer que o que tínhamos em mente era
isto:
(a) No caso do proferimento constatativo, nos abstraímos dos aspectos
ilocucionários (e de seus aspectos perlocucionários, também) do ato de fala,
e nos concentramos no aspecto locucionário: além do mais, usamos uma no­
ção supersimplificada de correspondência com os fatos - supersimplificadu
porque ela essencialmente absorve o aspecto ilocucionário. Almejamos al ­
cançar um ideal do que seria acertado dizer em todas as circunstâncias, para
• Referência às teorias pragmáticas da verdade, defendidas por fil6sofos amer icanos corno ... . " •
Peirce e William James, segundo as quais, em linhas gerais, o cri tério de verdade de uma senlença .no
os resultados de sua aplicação prática, ou deve ser considerado a partir de limo sinraçllo concrelo.
Quando dizer é fazer 119
quaisquer propósitos, para qualquer tipo do ouvinte, etc. Talvez isto seja al­
gumas vezes realizado.
(b) No caso do proferimento performativo, damos o máximo de atenção
à força ilocucionária do proferimento, e nos abstraímos da dimensão da cor­
respondência com os fatos.
Talvez nenhuma dessas abstrações seja muito conveniente: talvez não
tenhamos aqui realmente dois pólos, mas sim um desenvolvimento histórico.
Em certos casos, talvez com fórmulas matemáticas em livros de física como
exemplos de constatativos, ou com a emissão de simples ordens executivas,
como exemplos de performativos, nos aproximemos na vida real de tais coi­
sas. Foram exemplos desse tipo, como "Peço desculpas" e "O gato está so­
bre o tapete", proferidos sem nenhuma razão concebível , casos marginais
extremos, que deram origem à idéia de dois proferimentos distintos. Mas a
conclusão real tem de ser, certamente, que necessitamos (a) distinguir
atos locucionários e atos ilocucionários e (b) estabelecer especial e cntiça­
mente, com relação a cada tipo de ato ilocucionário - advertências, estimati­
vas, vereditos, declarações e descrições - qual é a maneira específica em que
se pretendeu realizá-los, para saber, primeiro, se estão ou não em ordem e,
segundo, se estão "certos" ou "errados"; que termos de aprovação ou desa­
provação são usados para cada um e o que significam. Este é um campo
vasto e sua análise não nos levará, certamente, a uma simples distinção entre
"falso" e "verdadeiro"; nem levará à distinção das declarações em relação
ao resto, pois fazer uma declaração é apenas um entre numerosíssimos atos
de fala da classe denominada ilocucionária.
Além de tudo, em geral, o ato locucionário, como o ato ilocucionário,
é apenas uma abstração: todo ato lingüístico genuíno é ambas as coisas de
uma só vez. (Isto é semelhante ao modo como o ato fático, o rético, etc., são
meras abstrações.) Mas, naturalmente, é típico que distingamos diferentes
"atos" abstratos por meio de possíveis lapsos, isto é, neste caso, os diferen­
tes tipos de falta de sentido que possam surgir durante a realização de tais
atos. Podemos comparar com este ponto o que dissemos na primeira confe­
rência a respeito da classificação dos diferentes tipos de falta de sentido.
120 J. L. Austin
---1 u
X II Conf erên cia
Classes de força i1ocucionária
Deixamos numerosas questões em aberto, mas, depois de um breve re­
sumo, devemos seguir adiante. Como se apresenta a distinção entre "cons­
tatativos" e "performativos" à luz de nossa teoria recém-exposta? Em geral,
e para todos os proferimentos que já consideramos (exceto, talvez, em rela­
ção às exclamações), notamos o seguinte:
(1) Dimensão de felicidade/infelicidade
(la) Uma força ilocucionária
(2) Dimensão de verdade/falsidade
(2a) Um significado locucionário (sentido e referência).
A doutrina da distinção performativo/constatativo está para a doutrina
dos atos locucionários e ilocucionários dentro do ato de fala total como a
teoria especial está para a teoria geral. E a necessidade da teoria geral su
simplesmente porque a "declaração" tradicional é uma abstração, um ideal,
assim o é também sua tradicional verdade ou falsidade. Mas sobre este pont o
só posso dar alguns rápidos clarões de luz. Gostaria de sugerir, em particu­
lar, as seguintes conclusões:
(A) O ato de fala total na situação de fala total é o único fenômeno
que, em última instância, estamos procurando elucidar.
(B) Declarar, descrever, etc. são apenas dois nomes, dentre muitos,
que atos ilocucionários; não ocupam uma posição sul generis.
(C) Em particular, não ocupam uma posição sui generis quanto a esta­
rem relacionados aos fatos da forma sul generis chamada de verdadeira ou
Quando dizer é fazer 12 1
falsa, porque a verdade e a falsidade não !lão (exceto por meio de uma abs­
tração artificial sempre possfvel e legítima para certos propósitos) nomes de
relações, qualidades, ou o que seja, mas sim da dimensão de apreciação de
como as palavras se situam quanto à sua adequação aos fatos, eventos, situa­
ções, etc., a que se referem.
(D) Do mesmo modo, o familiar contraste entre "normativo ou valora­
tivo" e fatual está precisando, como tantas outras dicotomias, ser eliminado.
(E) Podemos bem suspeitar que a teoria do "significado" como equi­
valente a "sentido e referência" vai certamente necessitar de alguma depura­
ção e reformulação em termos da distinção entre atos locucionários e ilocu­
cionários (caso esta distinção seja fundamentada, aqui ela está apenas esbo­
çada). Admito que não foi feito o suficiente aqui: aceitei o velho "sentido e
referência" sob a influência dos pontos de vista correntes; também quero
destacar que omiti toda e qualquer consideração direta da força ilocucionária
das declarações.
Dissemos que havia uma coisa que deveria ser feita, obviamente, e que
requer prolongada investigação. Dissemos, há bastante tempo atrás, que ne­
cessitávamos de uma lista de "verbos performativos explícitos", mas à luz
da teoria mais geral vemos agora que o que necessitamos é uma lista das for­
ças ilocucionárias de um proferimento. A velha distinção, contudo, entre
performativos primários e performativos explícitos sobreviverá à transição
fundamental de uma distinção entre performativos e constatativos para a teo­
ria dos atos de fala. Vimos que há razões para supor que os testes sugeridos
para identificar os verbos performativos explícitos (dizer ... é fazer. .. , etc.)
são bons testes, e até de fato dão melhores resultados para identificar aqueles
verbos que, como dissemos agora, explicitam a força ilocucionária de um
proferimento, ou mostram qual é o ato ilocucionário que estamos realizando
ao emiti-lo. O que não sobreviverá à transição, exceto talvez como um caso
marginal limite, é a noção da pureza dos performativos. Isso em nada nos
deve surpreender, pois essa noção nos criou dificuldades desde o início. Ela
se baseava, essencialmente, na crença na dicotomia performativos/constata­
tivos, que, como já vimos, tem que ser substituída pela idéia de que háfamí­
lias mais gerais de atos de fala relacionados e sobrepostos parcialmente, que
são, precisamente, os que agora tentaremos classificar.
Vamos, pois, usar com cautela o teste simples da primeira pessoa do
singular do presente do indicativo da voz ativa e recorrendo ao dicionário
(bastará um pequeno), animados por um espírito liberal, obteremos uma lista
de verbos na ordem de 10 à terceira potência 1. Disse que tentaria alguma
1 Por que USdf essa expressão em vez de 1.000? Primeiro, porque impressiona mais e parec(. mais
122 J. L. Austin
classificução gemI prcliminor e que luriu a1gull1as obscrvHçõcs u rcspdlO du
classes propostos. Bem, então comecemos. Só Icvurci os Icit
voltinha, ou melhor, para alguns tropeções.
Distingo cinco classes gerais de verbos, mas não estou totalmente satis­
feito com elas"'. Entretanto, abrem a nossos olhos um campo mais rico d
que se nos movêssemos unicamente com os dois fetiches: 1) verdadeiro/ral­
so; 2) fato/valor. Classifiquei essas classes de proferimentos em função d
sua força ilocucionária, e lhes darei os seguintes nomes:
(1) Veriditivos
(2) Exercitivos
(3) Cornissivos
(4) Comportamentais (um horror este neologismo!)
(5) Expositivos
Vamos considerá-los em ordem, mas antes quero dar uma idéia esqu,,­
mática de cada um.
Os primeiros, veriditivos, caracterizam-se por dar um veredito, como
nome sugere, por um corpo de jurados, por um árbitro, ou por um desempa
tador (terceiro árbitro). Mas não é necessário que sejam defmitivos. Podem
constituir uma estimativa, um cálculo, uma apreciação. Constituem esscn­
cialmente o estabelecimento de algo - fato ou valor - a respeito do qual, por
diferentes razões, é difícil se estar seguro.
Os segundos, exercitivos, consistem no exercício de poderes, direitos
ou influências. Por exemplo: designar, votar, ordenar, instar, aconselhar,
avisar, etc.
Os terceiros, comissivos, caracterizam-se por prometer ou de alguma
forma assumir algo; comprometem a pessoa a fazer algo, mas incluem tam­
bém declarações ou anúncios de intenção, que não constituem promessa!\,
e incluem também coisas um tanto vagas que podemos chamar de adesões,
como, por exemplo, tomar partido. Têm conexões óbvias com os veriditivos
e os exercitivos.
Os quartos, comportamentais, constituem um grupo muito heterogêncv,
e têm a ver com atitudes e comportamento sociLll. Exemplos são: pedir des­
culpas, felicitar, elogiar, dar os pêsames, maldizer e desafiar.
ciontffica. Segundo, porque vai de 1.000 a 9.999, uma boa margem enquanto que a outra podcrlu lIOr
ntendida como "cerca de 1.000", uma margem muito pequena.
• A diliculdade de estabelecimento de critérios para a classificação de verbos il ocucionllrlos tolO si
um dos problemas principais no desenvolvimento da teoria dos atos de fa la. Veja-se a prop6sito dl88
J. R. Searle: "A taxonomy of illocutionary acts" em ExpressiOIl alld Meallillg, Crunbri dgc UnJvcralty
Press, 1979, e K. Bach e R. M. Harnish: Lillgllístic Commullicatioll alld Speeclt ACls. MIT Prosa,
1979, capo 3. (N. do T.)
Quando dizer é fazer 12
Os quintos, expositivos, são difíceis de definir. Eles esclarecem o mo­
do como nossos pro ferimentos se encaixam no curso de uma argumentação
ou de uma conversa, como estamos usando as palavras, ou seja, são, em ge­
ral, expositivos. Exemplos são: "contesto", "argumento", "concedo" , "e­
xemplifico", "suponho", "postulo". Devemos levar em conta, desde o iní­
cio, que ainda há amplas possibilidades de que se apresentem casos margi­
nais ou embaraçosos, ou casos de sobreposições entre essas classes.
As últimas duas classes são as que acho mais difíceis, e bem pode ser
que não estejam nitidamente classificadas ou que estejam um 'tanto embara­
lhadas, ou mesmo que necessitem de uma classificação inteiramente distinta.
Não estou, de modo algum, propondo nada definitivo. Os comportamentais
criam problemas porque parecem demasiado heterogêneos, e os expositivos
porque são excessivamente numerosos e importantes, e tanto parecem estar
incluídos em outras classes quanto parecem, por vezes, ser sui generis de
uma forma que não consegui esclarecer nem para mim mesmo. Bem se pode­
ria dizer que todos os aspectos estão presentes em todas as classes.
1. VEREDITIVOS
Os exemplos são:
absolvo condeno constato (uma
realidade)
considero (em interpreto como entendo
tennos legais)
vejo-o como determino calculo
computo estimo situo
coloco dato meço
(temporalmente)
incluo em torno-o tomo (x como y)
classifico graduo qualifico
valorizo
avalio descrevo
caracterizo
diagnostico analiso
Outros exemplos são encontrados nas apreciações ou avaliações de ca­
ráter, tais como "Eu o chamaria de empreendedor".
Os vereditivos consistem em emitir um juízo, oficial ou extra-oficial,
sobre evidências ou razões quanto ao valor ou ao fato, na medida em que
estes são passíveis de distinção. Um vereditivo é um ato judicial, distinto dos
atos legislativos ou executivos, que são ambos exercitivos. Mas alguns atos
judiciais, no -sentido de atos feitos por um juiz em vez de serem feitos por
124 J.L.Austin
um corpo de jurados, por exemplo, súo realmente exercitivos. Os vcrcdjtivo
têm conexões 6bvias com verdade e falsidade com relação ao fundamento ou
falta de fundamento, à justiça ou injustiça. Nota-se que o conteúdo de um
veredito é verdadeiro ou falso, por exemplo, numa disputa a respeito da d
cisão de um juiz de futebol.
Comparação com exerciti vos
Quanto aos atos oficiais, a determinação de um juiz faz valer a lei; o
que estabelece o corpo de jurados faz de um homem um condenado; a deci­
são de um juiz de futebol que retira de campo um jogador faz com que esse
jogador fique fora de campo. O ato é levado a cabo em virtude de uma posi­
ção oficial; mas, ainda assim, é passível de ser considerado correto ou incor­
reto, certo ou errado, justificado ou injustificado diante da evidência. Não é
realizado como uma decisão a favor ou contra. O ato judicial é, se o dese­
jam, executivo, mas é preciso distinguir o proferimento executivo, "Você
o terá", do veredito, "É seu", e do mesmo modo devemos distinguir entre a
determinação do montante de danos e prejuízos da decisão de quem deve pa­
gá-los.
Comparação com comissivos
Os veriditivos têm efeito, dentro da lei, sobre nós mesmos e sobre os
demais. Emitir um veredito ou uma estimativa nos compromete a uma certa
conduta futura, no sentido em que qualquer ato de fala o faz, ou talvez mais
ainda, pelo menos no que se diz respeito à coerência, e talvez também por­
que sabemos a que o ato nos compromete. Assim, dar um determinado vere­
dito nos comprometerá, ou, como dizemos agora, nos compromete a determi­
nar uma indenização por perdas e danos, por exemplo. Também uma inter­
pretação dos fatos pode comprometer-nos a dar certo veredito ou estimativa.
Dar um veredito pode também implicar em aderir a algo; pode comprometer­
nos a apoiar alguém ou a sair em sua defesa, etc.
Comparação com os comportamentais
Cumprimentar pode implicar um veredito acerca do valor ou do caráter.
Também em um sentido de " culpar", que é equivalente a "considerar res­
ponsável", culpar é um vereditivo, mas em outro sentido, quando significa
adotar uma atitude para com uma pessoa, então é um comportamental.
unndo dizer é fazer 125
Comparação com expositivos
Quando digo "interpreto", "analiso", "descrevo", "caracterizo", etc.,
isto, de certa fonna, é dar um veredito, mas está essencialmente relacionado
a questões verbais e ao esclarecimento de nossa exposição. É preciso distin­
guir entre "eu descreveria isso como uma ação covarde" e "eu descreveria
i s ~ o com a expressão 'ação covarde' " . O primeiro é um veredito, dado o uso
de certas palavras; o segundo é um veredito acerca do uso dessas palavras.
2. EXERCITIVOS
Um exercitivo consiste em tomar uma decisão a favor ou contra um
determinado curso da ação, ou advogá-la. É decidir que algo tem de ser de
determinada maneira, em oposição a julgar que tal coisa é assim. É advogar
que seja assim, em oposição a uma estimativa de que seja assim. É outorgar
uma indenização, o que é oposto a determinar o seu montante. É uma sen­
tença, em oposição a um veredito. Árbitros e juízes empregam exercitivos,
assim como emitem vereditivos. Suas conseqüências podem ser que outros
sejam "compelidos" ou "autorizados" ou "não autorizados" a fazer certos
atos.
É uma classe muito ampla; alguns exemplos são:
nomeio degrado rebaixo
(de categoria)
demito excomungo nomeio
(dar nome, título)
ordeno mando dirijo
sentencio multo concedo
exijo (o pagamento voto em indico
de um imposto)
escolho reclamo dou
lego perdôo renuncio
advirto aconselho advogo
rogo suplico peço
insisto em pressiono recomendo
proclamo anuncio invalido
revogo anulo repilo
sanciono suspendo veto
consagro declaro encerrado declaro aberta
Comparação com vereditivos
"Considero", "interpreto" e expressões semelhantes podem ser exerci­
126 J. L. Austin
tivos quondo constituem atos oOciais. Além dlSSl), "col1cl'do" e "uhsululo"
são cxercitivos baseados em vereditos.
Comparação com comissivos
Muitos exercitivos, tais como pennitir, autorizar. delegar, ofl
conceder, dar, sancionar e consentir, na realidade nos comprometem a uma
linha de ação determinada. A conexão entre um exercitivo e compromcter-s
é tão próxima quanto a que há entre significado e implicação. É óbvio qu
designar e nomear (dar nome ou título) são atos que nos comprometem, mas
seria melhor dizer que tais atos conferem poderes, direitos, nomes, etc., ou
os modificam ou os eliminam.
Comparação com os comportamentais
Há exercitivos, tais como "desafio", "protesto", "aprovo", que estão
estreitamente ligados aos comportamentais. Desafiar, protestar, aprovar, elo­
giar e recomendar podem consistir na adoção de uma atitude ou na realiza­
ção de um ato.
Comparação com os expositivos
Alguns exercitivos, tais como "retiro o que disse", "não faço objeção"
e "faço objeção", têm, no contexto de uma discussão ou de uma conversa, a
mesma força que os expositivos.
Contextos típicos em que se usam exercitivos são:
(1) nomeações de funcionários ou empregados, candidaturas, eleições,
admissões, renúncias, demissões e pedidos de admissão,
(2) conselho, exortação e petição.
(3) facultamentos, ordens, sentenças e anulações,
(4) a condução de negociações, reuniões, etc.,
(5) direitos, reclamações, acusações, etc.
3. COMISSIVOS
o importante de um comissivo é comprometer quem o usa a uma de­
terminada linha de ação. Por exemplo:
prometo compactuo contrato
me comprometo a me obrigo a dou a minha palavra
estou decidido a tenho a intenção de declaro minha intençúo
Quando dizer é fazer 12
pretendo planejo tenho o prop6sito de
me proponho a farei X juro
garanto asseguro que aposto
prometo concordo consinto
solenemente
me consagro a me pronuncio por tomo partido
adoto defendo abraço (uma causa)
adiro me oponho a sou a favor de
As declarações de intenção diferem dos compromissos assumidos e po­
deria questionar-se se devem ser classificados todos juntos. Da mesma forma
que distinguimos entre instar e ordenar, também distinguimos entre ter a in­
tenção e prometer. Mas ambos os casos estão compreendidos no performati­
vo primário "farei"; assim, temos as locuções " provavelmente o farei" e
"farei tudo o que puder".
Há também uma inclinação em direção aos "descritivos". Em um caso
extremo, posso, simplesmente, declarar que tenho uma intenção, mas tam­
bém posso declarar ou expressar ou anunciar minha intenção ou resolução.
"Declaro minha intenção" me compromete, indubitavelmente; e dizer "tenho
a intenção" equivale, geralmente, a declará-la ou anunciá-la. O mesmo ocor­
re com as adesões, como por exemplo, em "consagro minha vida a .. . " . No
caso dos comissivos, como "favoreço", "oponho-me", "adoto o ponto de
vista" e "abraço", não se pode, de modo geral, declarar que se favorece, se
opõe, etc. sem anunciar que o faz. Dizer "Apoio X" pode, de acordo com o
contexto, significar votar em X, aderir a X ou aplaudir X.
Comparação com os vereditivos
Os vereditivos nos comprometem a ações de duas maneiras:
(a) nos comprometem a realizar as ações que são necessárias para sus­
tentar nosso veredito e ser coerente com ele;
(b) nos comprometem a realizar as ações que podem ser conseqüências
de um veredito ou estar incluídas nelas.
Comparação com os exercitivos
Os exercitivos nos comprometem com as conseqüências de um ato, co­
mo ocorre, por exemplo, quando se dá um nome. No caso especial dos per­
missivos caberia perguntar se devem ser classificados como exercitivos ou
como comissivos.
128 J. L. Austin
()mpurll\'ÜO com os comportamento.
Reaçõcs como as de declarar-se ofendido, de aplaudir ou elogiar prc,,·
supõem aderir e comprometer-se, da mesma maneira que acontece com acon­
selhar e escolher. Mas os comportamentais nos comprometem com uma con­
duta semelhante, por implicação, e não a essa conduta efetiva. Assim, S
censuro, adoto uma atitude quanto à conduta de alguém, mas s6 posso fi
comprometer a não fazer algo semelhante.
Comparação com expositivos
Jurar, prometer, e garantir que algo é de uma certa forma, funcionam
como expositivos. Chamar, deftnir, analisar e supor fonnam um grupo, e
apoiar, estar de acordo, estar em desacordo, sustentar e defender formam
outro grupo de ilocuções, que parecem ser ao mesmo tempo expositivas
comissivas.
4. COMPORTAMENTAIS
Os comportamentais incluem a idéia de reação diante da conduta e da
sorte dos demais, e de atitudes e expressões de atitudes diante da conduta
passada ou iminente do próximo. Existem conexões óbvias entre declarar e
descrever quais são os nossos sentimentos, e também expressá-los, no senti­
do de dar-lhes uma válvula de escape, embora os comportamentais sejam
distintos de ambas essas coisas.
Exemplos:
1. Para pedir desculpas temos "peço desculpas".
2. Para agradecer temos "agradeço".
3. Para expressar solidariedade temos "deploro", "me compadeço",
"cumprimento-o", "condôo-me", "me congratulo", "felicito", "me compa­
deço".
4. Para atitudes temos "me declaro ofendido", "não me importo",
"rendo tributo a", "critico", "me queixo", "reclamo", "aplaudo", "passo
por alto" , "recomendo", "lamento" e os usos não exercitivos de "censuro",
"culpo" , "aprovo" e "apóio".
5. Para saudações, temos "seja bem-vindo", "boa sorte".
6. Para desejos, temos "abençôo", "amaldiçôo", "brindo a", "à sua
saúde" e "te desejo" (em seu uso estritamente performativo).
7. Para desafios, temos "desafto-o a" , "duvido que", "protesto",
"convido a" (defender um tema) etc,
Quando dizer é fazer 12
No campo dos comportamentais, .além do risco comum das infelicida­
des, há uma oportunidade bastante grande para a insinceridade.
Há conexões 6bvias com os comissivos, pois elogiar ou apoiar é tanto
reagir diante da conduta alheia quanto comprometer-se com uma linha de
conduta. Há também uma conexão estreita com os exercitivos, porque apro­
var pode ser um exercício de autoridade ou uma reação diante da conduta de
alguém. Outros exemplos marginais são "recomendo", "passo por alto" ,
"protesto", "suplico" e "desafio".
5. EXPOSmVos
Os expositivos se usam nos atos de exposição que consistem em ex­
pressar opiniões, conduzir debates e esclarecer usos e referências. Já dissé­
mos repetidas vezes que estamos abertos à discussão quanto a estes atos se­
rem tanto vereditivos exercitivos, comportarnentais, quanto comissivos, tam­
bém. Podemos discutir também se não são descrições simples e diretas de
nossos sentimentos, práticas, etc., especialmente em relação a situações em
que se trata de ajustar a palavra à ação, como ao dizer "passo agora a ocu­
par-me de ... ", "cito ... " , "recapitulo", "repito que" e "menciono que".
Exemplos que bem podem ser tomados como vereditivos são: "anali­
so", "classifico", "interpreto", que supõem o exercício do julgamento.
Exemplos que bem podem ser tomados como exercitivos são: "concedo",
" insto", "insisto", que supõem o exercício de influência ou de poderes. Os
seguintes podem ser considerados exemplos de comissivos: "defmo", "con­
cordo", "aceito", " sustento", "apóio" , "juro", que supõem assumir uma
obrigação. Há outros que podem considerar-se exemplos de comportamen­
tais: "não me oponho" , "desanimo", que supõem adotar-se uma atitude ou
expressar um sentimento.
Apresentarei algumas listas para indicar a vastidão do campo. Os
exemplos centrais são "declaro", "afIrmo" , "nego", "destaco", "exemplifI­
co", "respondo" e outros semelhantes. Um grande número, tal como "ques­
tiono" , "pergunto", "nego", etc., parece naturalmente referir-se à troca lin­
güística, embora não necessariamente. E todos, naturalmente, são expositi­
vos usados em situações de comunicação.
Aqui, pois, vai uma lista de expositivos:
2
2 Mantivemos a apresentação e a numeração de Austin. O significado geral dos grupos é 6bvio, em­
bora não haja nenhuma explicação nos manuscritos. Os pontos de interrogação são de Austin. (N. do
editor J. O. Urimson.)
l ~ ~ L A u ~
1. u1inl\\J fuço objcçl.l'
nego adiro a
declaro reconheço
descrevo repudio
classifico
identifico 5a. corrijo
revejo
2. observo
menciono 6. postulo
? interponho deduzo
argumento
3. informo negligencio (omito)
aviso ? destaco
digo
respondo
7. começo por
replico
passo a
concluo com
3a. pergunto
4. testifico 7a. interpreto
relato distingo
juro analiso
conjeturo defrno
? duvido
? sei 7b. exemplifIco
? creio explico
formulo
5. aceito
concedo 7c. signifIco (quero dizer)
retiro reftro-me a
concordo entendo
não faço ohjeção considero como
Em suma, podemos dizer que o vereditivo é um exercício de julgamen­
to, o exercitivo é uma aftrmação de influência ou exercício de poder, o co­
missivo é assumir uma obrigação ou declarar uma intenção, o comportamcn­
tal é a adoção de uma atitude e o expositivo é o esclarecimento de razões,
argumentos e comunicações.
Como de costume, não me sobrou tempo suficiente para mostrar qual
o interesse de tudo isso que acabo de dizer. Darei, porém, um exemplo. O
Quando dizer é fazer 131
há muito, os fil ósofos têm demonstrado interesse pela palavra " bom" e, re­
centemente, se interessaram pelo modo como a usamos e pelos fins para que
a empregamos. Já se sugeriu, por exemplo, que a usemos para expressar
aprovação, para recomendar ou ainda para qualificar. Mas nunca chegaremos
a uma idéia clara sobre a palavra "bom" e sobre para que a usamos até que
tenhamos, de forma satisfatória, levantado a relação completa dos atos ilocu­
cionários dos quais recomendar, qualificar, etc. seriam espécimes isolados,
até que saibamos quantos destes atos existem e de que forma se inter-rela­
cionam. Isto seria um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do
tipo que acabamos de considerar; sem dúvida haveria muitas outras. Inten­
cionalmente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos - alguns dos
quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. Isto não signifi­
ca que não tenha consciência da existência de tais problemas. É claro que
tudo isso é um tanto cansativo e árido para se ouvir e assimilar; mas. não
tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. Mas seu verdadeiro interesse
começa quando passamos a aplicá-la à ftlosofIa.
Nestas conferências fiz duas coisas que não gosto muito de fazer, e que
são:
(1) apresentar um programa, isto é, dizer o que deveria ser feito ao in­
vés de fazê-lo,
(2) dar conferências.
Contudo, com relação a (1), gostaria de poder pensar que estive não
proclamando um manifesto individual, mas procurando esclarecer um pouco
a maneira como as coisas começam a caminhar e como estão caminhando
com intensidade cada vez maior, em algumas partes da fIlosofia. E quanto ao
(2), gostaria certamente de dizer que nenhum outro lugar poderia ter sido pa­
ra mim mais agradável para dar conferências do que Harvard.
132 J. L. Austin
Apêndice
A principal utilidade das notas tomadas pelos ouvintes das confi
de Austin - a conferência na BBC sobre performativos publicada nos
sophical Papers, o trabalho apresentado no Colóquio de Royaumoot
o título "Performatif-Constatif', e a gravação da palestra feita em Gotcnt)Ur.
go em outubro de 1959 - foi a de permitir que se verificasse e corrigis
reconstrução do texto feita inicialmente sem levar em conta as notas do prl
prio Austin. Concluiu-se depois que estas notas do próprio Austin ncccssi t
vam de muito pouca suplementação de fontes secundárias, sendo muito mai
completas que qualquer uma destas fontes. Alguns exemplos característicu
tirados destas fontes foram acrescentados, bem como algumas expressõcs
racterísticas em alguns pontos em que as notas de Austin não apresentavum
uma redação definitiva. O principal valor das fontes secundárias foi O d
permitir que se conferissem a ordem e a interpretação em pontos em qu
notas se apresentavam fragmentárias.
Uma relação das passagens mais importantes do texto de Austln
quais foram feitos acréscimos ou que foram reformuladas, encontra-se n
apêndice.
Página 25, linhas 19 e segs. Nas notas uma linha extra foi acrescentndn
após a expressão " de que necessitamos" , contendo o seguinte: " de certo
forma isso ao menos chama a atenção especillcamente para o que necessito­
mos em certos casos" .
Quando dizer é fazer t1
Página 26. Na altura das linhas 20-21 há uma nota à margem dizendo:
"profcrimento de palavras" uma noção nem um pouco simples!"
Página 40. O exemplo sobre George está incompleto nas notas. O texto
baseia-se sobretudo na versão na BBC.
Página 41. Em uma nota separada há um acréscimo ao ponto (1):
"mesmo procedimentos que incluam proferimentos como "Estou participan­
do do jogo", podem ser rejeitados em sua totalidade."
Página 43. Da línha 6 até o [mal do primeiro parágrafo temos uma ex­
pansão feita pelos editores a partir de notas muito sucintas.
Página 44. Desde o segundo parágrafo até o parágrafo [mal da confe­
rência, exclusive, trata-se de uma versão composta a partir de várias notas
incompletas feitas por Austin em datas diferentes.
Página 49. Acréscimo à margem do segundo parágrafo: "Restrições a
"pensamentos" aqui?".
Página 51. Acréscimo à linha 7 da página: "talvez pudéssemos opor
aqui obrigação "moral" X obrigação em sentido '·estrito", mas e se "amea­
çar" não for considerado nem uma nem outra?".
Página 55. Nota à margem da linha 19: "Dizer, pressupõe
dizendo implica
o que se diz implica logica­
mente"
Página 55. O parágrafo final é uma expansão das notas de Austin ba­
seada principalmente nas notas de George Pitcher.
Página 63. Desde o oitavo parágrafo até o final da conferência o texto
foi reconstruído a partir de dois conjuntos de notas feitas por Austin antes de
1955. As notas de 1955 são fragmentárias neste ponto.
Página 68. De "podemos dizer que uma fórmula performativa ... " , na
linha 23 até o [mal do parágrafo, temos um desenvolvimento conjectural das
notas de Austin, nas quais simplesmente encontramos: "Usamos "como pode
ser entendido" e "tomando claro" (e até mesmo "declarando que"), mas
não verdadeiro ou falso, nem descrição ou relato".
Página 70. Acréscimo à margem das primeiras linhas da página: "ne­
cessitamos de critérios de evolução da linguagem".
Página 70. Acréscimo à margem do parágrafo que se inicia: "A fór­
mula perfonnativa explícita", diz: "? enganoso: é o recurso compare-se com
precisão" .
Página 82. Acréscimo à margem da linha 11: "e inexplícitos fazem am­
bos".
l 34 J.L.Austin
Página 83. Nas notas de Austin a V119 COllfcrêndu tCI11111l1t uqui. Jl ••
acordo com as notas de Harvard parece que o início da Vlli2 Conferôncía l
ria sido incluCdo na Vil!!.
Página 86. Nota à margem da linha 6 diz: "disse equivale a afumou,
declarou" .
Página 91. Nota datada de 1958, à margem do início da página diz:
"Nota: (1) Nada está claro! distinções, etc.
(2) em todos os sentidos relevantes «A) e (B) X (C) nA
serão todos os proferimentos performativos?"
Página 92. Na linha 15, "como dar a entender" é baseado nas notas d
Pitcher, no manuscrito de Austin temos, "ou "como dar a entender", é ()
mesmo?"
Página 93. O final do parágrafo que se inicia com (b) foi acrescentado
com base em fontes secundárias, não se encontrando nas notas de Austin.
Página 100. Os exemplos encontrados em (1) e (2) foram acrescentaclv.
com base nas notas de Pitcher.
Página 100. O parágrafo que se inicia "De modo que temos aqui..." foi
acrescentado com base nas notas de Pitcher.
Página 104. Da linha final "um juiz deveria ... " até o final do parágmfo
trata-se de um acréscimo com base nas notas de Pitcher.
Página 105. O exemplo "Said Ali" (originariamente em inglês "Iced
ink" ("I stink"», não se encontra no texto, embora fosse famoso entre os
alunos de Austin.
Página 109. (a) e (b) são desenvolvimentos a partir de notas muito su­
cintas baseadas em fontes secundárias.
Página 114. Encontramos literalmente o seguinte na altura das linhas
7/8: "contratos freqüentemente nulos porque os objetos sobre os quais ver­
sam não existem - um colapso de referência (ambigüidade total ou inexistên­
cia)" .
Página 114. Antes da última linha do segundo parágmfo do texto, te­
mos nas notas: "N. B. Dito é claro jamais não declara (Dito também tem
suas ambigüidades)"
Página 118. O parágrafo que se inicia "em terceiro lugar" foi desen­
volvido a partir das notas de Pitcher e Demos.
Página 119. No manuscrito "estávamos certos em" está escri to por ci­
ma de "tínhamos o direito de" na linha 17, porém esta última expressão não
está riscada.
Página 126. À margem, junto à comparação com o vereditivo há uma
nota dizendo: "cf. declarar guerra, declarar encerrado, declarar que se est
em estado de guerra" .
Quando dizer é fazer 135
Página 128. Após o parágrafo tennínado em "farei tudo o que puder"
há a seguinte nota "Prometo que provavehnente o farei". Supomos que
Austin não pretendia que este fosse um exemplo de uso permissível.
Página 129. Nota relativa a "brindo a" e "à sua saúde" no 6 diz:
"ou adequando a ação às palavras".
Página 131. De "como de costume ... " em diante, trata-se de um desen­
volvimento das notas de Austin com base em um pequeno manuscrito sepa­
rado do próprio Austin e confrnnado por notas dos ouvintes.
136 J. L. Austin
DIRECAO: ALoulSIO MORfl"" Il. IUI"A
TÍTULOS EDITADOS
Austin: Quando I)i/('r (I F/l/(' , "u/lI
e Açá
Calli gari s, c,: Mlh, (' (J I
Cura PSiCI,'J[J If(jclI
Calli garis, C.: Jrit roduçúu 1/ un,,' ( '//1"",' ,
rencial das Psicoses
Dorgeuill e, Cl audc : A Sr!l unllll M!il 1
Jacques Lac;ln
Dor, Joel: Inlroduçlw ti 1t' lI llI /I d,' I
- O Inconsciente EM/lllll ml /o rrlIII ,·
TÍTU LOS EM PROD
seu t nsin
Mclman, Charlcs: 1 11('11111//11./
Psicoses
Nnsio, Juun-Ouvid: O/ll m dr / 111// 1'
NnsiQ &. l)'l l1 u: A c/" "'1''''''"
PCl ricf, Frunçoi'l : F'I' /lIOI (/11111'1" /' 111
çJW d"
Sí.' Ll /II . M • d,' 1111'.' '\/1
" ' (/ 11 11111/ /11
, Wi . AJillú'w M ()/JL 1'\/l'ul/.II"

J. L. AUSTI N

QUANDO DIZER , E FAZER
PALAVRAS E AÇÃO

Tradução e apresentação à edição brasilei ra:
Prof. DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO

A936q

Austin, John Langshaw Quando dizer é fazer. / John Langshaw Austin; Trad. de Danilo Marcondes de Souza Fi lho. / Porto Alegre: Artes Médicas: 1990. 136p. CDU:800.1

rndices para o catálogo sistemático: ;;ilosofia da linguagem Ficha catalográfica elaborada pela Bibl. Carla P. de M. Pires CRB 10/753

800.1

In :DICAS

.~lE5

PORTO ALEGRE/1990

Publicado originalmente em inglês sob o trtulo
HOW TO DO THINGS WITH WORDS
~ Copyright 1962, 1975 by the President and
Fellows of Harvard College.

Capa: Mário Róh nelt

Sum ário

Supervisão editorial:

l1R1rEXiO
r ua 13 de maio. 468 - 101.(0504)222 .6223 - caxias do sul · rs

Apresentação ... .. . . . . ... ........ .. .. .. .. . ... .. . Prefácio . .. . ..... .. ... .. ..... .. . .... . .. ...... . .

7
18

Conferências:
I
Reservados todos os direitos de publicação à EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Fones: 30.3444 e 30.2378 90040 - Porto Alegre, RS, Brasil LOJA-CENTRO Rua General Vitorino, 277 - Fone : 25.8143 90020 - Porto Alegre - RS , Brasil

11 III
IV V VI

VII VIII IX X XI XII

Perfonnativos e Constatativos .. . ..... .. .. .. . . . . . . . . . Condições para Perfonnativos Felizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . Infelicidades: Desacertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Infelicidades: Maus usos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Clitérios Possíveis de Perfonnativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Performativos Explícitos ...... ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . Verbos Perfonnativos Explícitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Atos Locucionários, Ilocucionários e Perlocucionários . . . . . . Distinção entre Atos Ilocucionário s e Perlocucioná rios . . . . . "Ao dizer ... " versus "Por dizer ... " .. . . . . . . . . . . . . . . . .. Declarações, Performativos e Força Ilocucionária .... ... " Classes de Força Ilocucionária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Apêndice ....... . . .. .. . .. . ....... .... . . . . . . . . . .

21
29
38
47
S7
66
77
8
95
10
I I1
12 1
133

IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL

característica de grande parte da atividade fJlosófica de nosso século. vai partir de uma concepção realista. situar a teoria dos atos de fala dentro da chamada "virada lingüística". tal como foi inicialmente proposto por Austin. em rigor e concisão. mas também a necessidade de a consciência reconhecer-se como parte do Absoluto. L. mantendo que a principal tarefa da fIlosofia é realizar um processo de clariQuando dizer é fazer 7 . O projeto fJlosófico da teoria dos atos de fala. influenciado sobretudo por J. Bradley e T. em seus primórdios. dentre outros.até as teses por ele defendidas na presente obra. AUSTIN Danilo Marcondes de Souza Filho Esta apresentação não pretende ser uma síntese do pensamento fJlos6fi­ co de Austin em geral. Moore. a apre­ sentação do pr6prio autor. a fJlosofia analítica surge como uma dupla reação às correntes de pensamento fJlosófico então dominantes na Grã­ Bretanha ao fmal do século passado: o idealismo absoluto de F. com Moore e Russell. já que seria impossível superar. antes. H. Russell e L. Mil!. bem como traçar o percurso desta teoria. desde sua gênese . Nesse momento. E. Wittgenstein nas primeiras dé­ cadas de nosso século. explicitando os elementos fundamentais do método proposto e empregado por Aus­ tin . insere-se na tradição britânica da fJlosofia analítica. Já o empirismo psicologista e subjetivista reduzia a reali­ dade à experiência psicológica do sujeito empírico. H. inaugurada por G. Bradley e Green.em sua motivação fJlosófica inicial. sustentavam não só a identificação da realidade com a totalidade. Green e o empirismo. A fJlosofia analítica. B. ou mesmo das idéias desenvolvidas na presente obra em particular. S. Meu objetivo é.Apresentação A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE J.

por conseguinte. contudo. a questão da responsabilidade que decorre de uma ação. etc. em um sentido estrito. Podemos. como responsa­ bilidade e ação. A segunda tarefa da filosofia será desenvolvida pela corrente conheci­ da por vezes como filosofia da linguagem ordinária. Esta análise encontra-se no qu talvez seu trabalho mais elaborado no gênero. assim. toma como ponto de partida a análise de advér­ bios como "voluntariamente".. Quando dizer é fazer 9 K J . enquanto ad­ vérbios. e o conceito de representação. Ambas' as práticas encontram-se em Russell e Moore. l. pelo que se pode ou não dizer. seu interesse pelas regras de uso da linguagem. estabelecendo novas distinções. AI/stin . Para ilustrar o método de análise austinno bastaria aqui reconstruirmo sua elucidação de um problema dos mais importantes da ética. exatamente por serem. através da análise lingüística dos conceitos centrais destas áreas e do uso dos mesmos na linguagem ordinária.ov. A primeira tarefa a que acima nos referimos dá origem ao que se pode chamar. como. de certos problemas centrais da tradição ftlosófica. situando-os em um plano menos abstrato. Escola de Oxford. ver­ dade. A questão central da investigação filosófica passa a ser então: como pode uma sentença ter significado? A problemática da consciência dá. reais ou imaginários. mais precisa. teoria da percepção. " i­ nadvertidamente" e outros congêneres. O método de Austin revela. sentido e referência. Neste tipo de análise encontramos o genne de uma de suas concepções mais originais. considerar que dentro da corrente analítica. reinvestigar os problemas filosófi­ cos tradicionais em teoria do conhecimento. A Pleafor Excuses. empírica. desenvolvida no presente livro. Muitos de seus mais importantes trabalhos co­ mo A Pleafor Excuses. examinando noções como tenno e proposição. ação . inevitavelmente. Todas estas discussões são desenvolvidas através do método que acima denominamos análise filosófica da linguagem ordinária. que virão a ser os conceitos-chave desta teoria da linguagem. lugar à problemática da linguagem. de grande sutileza e pe­ netração. Austin pode ser considerado um dos principais re­ presentantes desta tendência. vontade. .oblemas sem recurso u I)lcssupustos IIlcluJ CSlcOS lrudiclo nais que. Three Ways of SpiLling Tnk e Sense and Sensibilia se caracterizam por suas discussões. em lugar de partir de noções abstratas oriundas de uma teoria ética ou de conceitos muito amplos como responsabi­ lidade.. que então se inaugura. Nesta sua análise. é substituído pelo conceito de significado. que fornecem os elementos para a determinação do significado e conseqüentemente para o esclarecimento ou elucidação dos tennos. nomes próprios e predicativos. por outro. Assim. a interação comunicativa propriamente dita. de filosofia da linguagem: uma teoria filosó­ fica sobre a natureza e estrutura da linguagem. por que e por quem determinadas expressões podem ser usadas e outras não. ponto central da tradição anterior. como tendo um caráter contratual ou de compromisso entre partes. Em ftm­ ção deste procedimento elaboram-se distinções ou aproximações e estabele­ cem-se as características básicas de possibilidade de seu uso.os probJemos e n. que Austin julgava ser capaz de clarificar e desmis­ tificar estes problemas tradicionais. os iniciadores da filosofia analítica na tradição britânica. "minha pala­ vra é meu penhor" . ainda. segundo a qual.ovas discussõcs. é apenas uma fonna de tomar a reflexão mais concreta. pelo recurso a exemplos. gerariam n. analisar a sentença. portanto. enfim pela "gramática" . explicitando arti­ cu lações até então não reconhecidas. buscando estabelecer sua fonna lógica e seus elementos constitutivos. palavras que qualificam ou determinam o tenno " ação" . desculpar ou eximir-se da responsabilidade de seu ato. a tarefa filosófica se desdobra nas duas seguintes ativida­ des: por um lado. filosofia lingüística ou. mas mediante a análise da fonna lógica das sentenças em que nosso conheci­ mento. no contexto do qual o uso de certas ex­ pressões deve ser examinado. e ainda de si­ tuações imaginárias e fictícias. genérico e fonnal e. o que faz com que se considere o ato de fala. Tal análise visa obter um esclarecimento do sentido destes conceitos. Pelo pro­ cedimento que Austin estabelece. tomando possível uma análise e com- -!\ prcensi\o destes pr. E a razão de assim proceder radica-se no fato de as condições de possibilidade de em­ prego destes tennos revelarem as circunstâncias que permitem ao falante usá­ los para justificar. como também de processos crimi­ nais em que alguém foi ou não responsabilizado por uma ação. percepção e conhecimento. "acidentalmente". crenças e opiniões sobre o real se expressam e nossa experiência se articula. . Esto "Iu­ cidação se dá não através de um método especulativo ou introspectivo. A finalidade da análise não é. Este esclarecimento.ficaçüo ou elucidação dos elementos centrais de nossa experiência. está claro. etc. mais próxima de nos­ sa experiência de falantes. etc. "deliberadamente" . ética. Austin recorre a uma série de exemplos tirados não só da prática cotidiana do uso lingüístico. O recurso a exemplos. etc. levando-se em conta quando. etc. elucidando obscuridades. apoiando-se no caráter intersubjetivo da lingua­ gem e assim fazendo com que suas conclusões tenham a ver mais direta­ mente com nosso universo de discurso e nossa prática cotidiana. todo problema filosófico fica sistematicamente restrito a um "campo semântico" bem delimitado. Other Minds.

a partir das con­ dições de uso desta expressão. as primeiras contribuições de Austin à fJ. nestes primeiros trabalhos. só que interpretando o conceito como expressão lin­ güística e não como entidade mental ou objeto lógico.sempre deve ser considerado provisório. Não se encontra. em seu aspecto tanto ló­ gico como epistemológico. não estamos exami­ nando simplesmente palavras (ou seus "significados" ou seja lá o que isto for) mas sobretudo a realidade sobre a qual falamos ao usar estas palavras .losófica. desta comunidade. ou o sentido e a referência. quando examinamos o que se deve dizer e quando se deve fazê-lo. a necessidade de se levar em conta o contexto de uso das expressões e os elementos constitutivos deste contexto indica cla­ ramente que a linguagem não deve ser considerada em abstrato. e não meramente de representação ou correspondência com a realidade. a visão de Austin é sempre orientada pela consideração da linguagem a partir de seu uso. são as condições de uso da sentença que determinam seu significado. Não há soluções definitivas em filo­ sofia. Uma das principais conseqüências desta nova concep­ ção de linguagem consiste no fato de a análise da sentença dar lugar à análj­ se do ato de fala.usamos uma consciência mais aguçada das palavras para aguçar nossa percepção ( . em sua es­ trutura formal apenas. objeto da análise fJ. Austin ponto central da concepção de Austin c ~UH principal contribulçu fllosofia da üoguagem parece-me ser a idéia de que a linguagem deve ser tratada essencialmente como uma forma de ação e não de representação da realidade. A verdade é substituída agora pelo conceito de eficácia do ato. uma vez que as mesmas questões sempre podem ser retomadas e ree­ xarrunadas sob novos ângulos. O significado de uma sentença não pode ser estabelecido aírav da análise de seus elementos constituintes. ou seja. Em decor­ rência. mas em uma teoria da ação. de suas condições de sucesso. a "racionalidade". Desta forma superam-se as barreiras entre linguagem e mundo. uma preocupação em fundamentar teoricamente estas "análises conceituais". ao método socrático. Não há mais uma separação radical entre "lingua­ gem" e "mundo" . elementos estes dos quais a linguagem é indissociável. mas.. do uso da linguagem em um determinado contexto. similar. da contribuição do sentido da referência das partes ao todo da sentença. como forma de atuação sobre o real. Tanto do ponto de vista da análise da linguagem ordinária. Neste método de análise. os paradigmas e valo­ res. da linguagem como forma de ação. mas sempre em relação a uma situação em que faz sentido o uso de tal expressão. 182 Podemos afirmar. de realizar uma reflexão sobre os problemas tradicionais da fJ. que quando analisamos a linguagem nossa finalida­ de não é apenas analisar a linguagem enquanto tal. Na verdade. Philosophical Papers. dá-se a passagem para um segundo plano do conceito de verdade. quanto do ponto de vista de uma teoria sobre a linguagem. ao contrário. como quer a tradição insp. enfim. Trata-s.. estabelecer sua defrnição ou significado . convenções de uso e in­ tenções dos falantes.isto é. com uma determinada finalidade e de acordo com certas normas e convenções. então. Duas são as conseqüências básicas desta nova visão proposta por Aus­ tino Surge um novo paradigma teórico que considera a linguagem como ação. Partimos então de uma preocupação com O significado de determinados termos e expressões lin­ güísticas e passamos a investigar como a linguagem tem significado. As condições de realização do ato de fala apresentadas por Austin na I Conferência da presente obra explicitam exatamente estas ca­ racterísticas: a investigação fJ. ) dos fenômenos .irada em Frege. sob certo ponto de vista.. já que é próprio ao método o caráter provisório e relativo da elucidação obtida..losofia mediante uma análise conceitual. 10 J. Este tipo de análise. conceito central da semântica clássica. levou Austin a refletir sobre a própria natureza da linguagem. como foi dito . Segundo Austin. nem em elaborá-las mais sistematicamente. seja pelo estabelecimento de novas relações. Russell e Moore. mas investigar o contexto social e cultural no qual é usada. p. de sua "felicidade". o conceito mesmo d significado se dissolve.losófica da linguagem deve realizar-se com ba­ se não em uma teoria do significado. A linguagem é uma prática social concreta e co­ mo tal deve ser analisada. e procurando eluci­ dá-la . j á que corresponde precisamente à garantia de adequação entre linguagem e realidade.losofia se encon­ tram na linha da assim chamada fJ. e portanto de constituição do real. sempre enfatizado por Austin. L. O que se analisa agora não é mais a estrutura da sentença com seus elementos constitutivos. contudo. dando lugar a uma concepção de linguagem como um complexo que envolve elementos do contexto. entre o sistema de signos sintaticamente ordenados e a realidade externa a ser representada. e também pela dimensão moral do compromisso assumido na interação comunicativa. cuja pro­ posta é muito mais metodológica do que doutrinária ou sistemática. entretanto. Como se vê. porque o que consideramos a "realidade" é constituído exatamente pela linguagem que adquirimos e empregamos.losofia da linguagem ordinária. as práticas sociais. o nome e o predicado. seja pela consideração de outros aspectos do uso até então não examinados. que palavras devemos usar em determinadas situações.. isto é. mas Quando dizer é fazer 11 .

De há muito. Peiformative Utterances (1956) e a conferência apresentada no Colóquio de Royaumont em 1958. de uma ruptura com a proposta anterior de elu­ cidação mediante a análise lingüística. buscando sua siste­ matização e assim propondo uma nova concepção de linguagem. segundo ele próprio. Passa a tratá-las. aquelas que. Seriam expressões usadas não para descrever ou relatar algo. L. mi­ nistrados na Universidade de Oxford no início da década de 50 e posterior­ mente em universidades americanas. .. Trata-se precisamente de uma teoria sobre a natureza da linguagem enquanto uma forma de realizar atos: os atos de fala. J. como afirma expli­ citamente a conclusão de Quando dizer é fazer. Grice e. através de um novo tipo de análise que Austin começa a desenvolver então e que cul­ minará na teoria dos atos de fala. que a usemos para expressar aprovação. Austin ca de certos termos e expressões depende de um lIludclo te6rico de l ingulI gem que forneça os critérios para realizar esta análise e a elucidação preten­ dida. por exemplo.as condições sob as quais o uso de detenninadas expressões lingü(sticas pro­ duzem certos efeitos e conseqüências em uma dada situação. seja quanto a sua estrutura. Pelo contrário. não es­ tão sujeitos à verdade ou à falsidade. em sua análise. Strawson. Isto não significa que não tenha consciência da existência desses proble­ mas.. Os proferimentos performativos. assim. para realizar um ato. deram origem à teoria dos atos de fala. exatamente por serem atos realizados. Já se sugeriu. J.. le­ vantado a relação completa dos atos ilocucionários dos quais recomen­ dar. que se considere a expressão "Eu sei que . " do mesmo modo que "Eu prometo . mas parafazer algo. É claro que tudo isto é um tanto cansativo e árido para se ouvir e assimilar. é então levado a buscar os fatos e situações que tomam tais sentenças verdadeiras. cometida por certos fIlósofos. ao serem usadas em detenninadas sentenças. Por isso ele as chama de expressões peiformativas. mas não tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. co­ mo descrições de um ato mental do falante.. O fIlósofo . Austin vê nisso a causa da confusão e do equívoco que caracterizariam a "falácia descritiva" . ao contrário. devido à sua forma declarativa. que seria a cognição. Palavras e ação. Como de costume. etc. Darei. a análise destas sentenças não pode ser feita adequadamente através da Semântica Clássica. e que constituem a substância de How to do things with words (cf. por autores como P. Intencional­ mente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos . sim. como também se procura esta­ belecer e classificar os diferentes tipos de atos de fala. de forma satisfatória. porém superior a estas. Já em 1946. portanto. mas a "condições de felicidade". etc. F. trata-se da busca d uma forma mais eficaz e rigorosa de se realizar esta análise e esta elucida­ ção. Peiformatif-Constatif. pp. que se baseia na determinação das condições de verdade da sentença. R. uma obra inovadora e que abre novas perspectivas em ftlosofia da linguagem para novas investi­ gações pelo estabelecimento de elementos teóricos que desenvolvidos.. para recomendar ou ainda para qua­ lificar. Suas impliQuando dizer é fazer 13 . um exemplo. Mas nunca chegaremos a uma idéia clara sobre a palavra "bom" e sobre para que a usamos até que tenhamos. 1975. portanto. agora substituída por um interesse meramente teórico sobre a linguagem.alguns dos quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. P. Palavras e ação é. força ilocucionária. Não se trata. Conseqüentemente. H. mui­ tas vezes criticamente. Propõe. Mas seu verdadeiro interesse começa quando passamos a aplicá-la à ftloso­ fia. Aqui não só se formula uma série de conceitos teóricos como peiformativo. até que saibamos quan­ tos destes atos existem e de que forma se inter-relacionam. Os primeiros trabalhos que começam a tematizar mais teoricamente a questão da natureza da linguagem e do significado são How to Talk (1953­ 4). porém. Austin. que explicam seu sucesso ou insucesso. desde o início da década de 40 e que será fmal­ mente elaborada em uma série de cursos intitulados Words and Deeds. 163-4 Quando dizer é fazer. Portanto. Austin apresenta aí as linhas gerais desta teoria que já vinha desenvol­ vendo. prin­ cipalmente. seriam espécimes isolados. o objeto último continua sendo a aplicação destes con­ ceitos teóricos sobre a linguagem à elucidação das questões surgidas no campo concreto da experiência e da atividade humanas. Searle. mas. os fIlósofos têm demonstrado interesse pela palavra "bom" e.". não me sobrou o tempo suficiente para mostrar qual o interesse de tudo isto que acabo de dizer. seja quanto a seu funcionamento. se interessaram pelo modo como a usamos e pelos fms para que a empregamos. Austin criticava o que considerava a "falácia descritiva" . que agora passa a se fundamentar em uma teoria sobre a linguagem. Isto seria um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do tipo que aca­ bamos de considerar. constituem "proferimentos performativos". sem dúvida haveria muitas outras.. recentemente. pertencen­ do à mesma categoria da crença e da certeza. Esta preocupação com uma redefmição de linguagem e com a maneira de considerá-Ia decorre explicitamente da idéia de que a elucidação ftlosófi­ 12 . qualificar. " . Sentenças do tipo "Eu sei que . em sua conferência Outras Mentes. parecem ser descri­ ções de fatos. o "Prefácio" a esta obra).

18. vol. LU da col. para fazer com que o texto seja mais acessível. Paris. Urmson. reconstruído a partir de notas por J. pp. 1939. "1hree Ways of Spilling lnk" . O. Finalmente. XII. "The Meaning of a Word". da UFRJ . mas de difícil adaptação para nosso idioma. Fica assim óbvio seu propósito de servir mais à exposição oral do que à leitura. 3!! ed.caçoes. procurei torná-los mais claros ao leitor que se inicia através de notas explicativas. AUSTIN Philosophical Papers. trabalho apresentado em 1940 ao Moral Sciences Club de Cambridge e a Jowett Society de Oxford.Some Simple Ways" . Macmillan. 395-404. Minuit. inicialmente publicado em Proceedings qf the Aristotelian Society. Oxford. "Critical Notice on J. como a lingüística. Por fim. Clarendon Press. o. Sbisà. 1956. "Truth" . O texto de Austin apresenta ao tradutor duas dificuldades básicas. S. vol. seus exemplos e as expres­ sões idiomáticas utilizadas. repercussãO e interesse percorrem. pp. pp. LIII. BffiLIOGRAFIA DE J. Blackwell. pp. preparada por J. 14 _ _ _ _ _ __ " Other Minds". 75. "How to Talk . etc.Austin . Analysis. organizado por G. conservar os traços característicos do estilo coloquial de Austin. XXIV . pp. Claredon Press. M. 1966. 1963. ampliada em 1979. LVII. Oxford. por J. Oxford. pp . 'rraduzido para o português por Marcelo Guimarães Da Silva Lima e publicado no vol. ontém os seguintes trabalhos: "Agathon and Eudainwnia in the Ethics of Aristotle" . O Urmson. The Foundations of Arithmetic. 2!! ed. Sense and Sensibilia. 1958. o texto contém um conjunto de termos técnicos. 1946. 1975. sup. bem como de áreas afins. além do muito que me ensinou sobre a difícil arte de traduzir. pp. a antropologia. "Report on Analysis Problem n2 1: What sort of "if' is the "if' of " I can if I choose"?. por G. pp. Analysis. "Report on Analysis Problem n2 12: "AlI Swams are white or b1ack". Publicado em La Philosophie Analytique. pp. . mas apenas indicar as dificuldades inerentes ao texto. Quanto aos termos técnicos introduzidos por Austin e aos conceitos teóricos de que lança mão. adap­ tando para o português. 227-246. voI. Paulo. 125-1 26. 1952. Moravcsik Corg. publicado inicialmente em Proceedings of the British Aca­ demy. conferência em 1958 na American Society of Political and Legal Philosophy. I! ed. 111-128. Clarendon Press. con­ ceitos teóricos e mesmo neologismos. 271-304. também publicado em J. 427-440. cunhados pelo autor. 1950. Abril . 83-105. Tradução para o inglês da obra de G. XX. How to do Things with Word5. XLII. quando isto se impunha. publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian So­ ciety. J. Urmson e M. sup. 1956-7. 261-296.) Aristotle. Warnock. trata-se de um texto em linguagem coloquial. Clarendon Press. ra­ ramente encontradas ao mesmo tempo em um mesmo texto. como anteviu Austin. não poderia deixar de agradecer ao Prof. 109-132. inicialmente publicado em I'rcx'('cdif/gs of the Aristotelicu Society. pp. de importância fundamental para os objetivos a que se propõe. todos os domínios da fllosofia. J. Does this Refer to Swans on Canals on Mars?" . " Unfair to Facts" . 1962 . Frege: Die Grundlagen der Arithmetik. 1962. 1-30. 1953-4. sup. pp. 1975. a psico­ logia. 6 1. Por outro lado. "A Plea for Excuses" . por se tratar de uma obra original e polêmica. Os pensadores. E. 1968. Paulo Alcoforado. Não desejo com estas ressalvas eximir-me da responsabilidade pelas eventuais falhas que todo tradutor inevitavelmente comete. trabalho apresentado em 1958 no Colóquio de Ro­ yaumont. inicialmente publicado em Procee­ dings of the Aristotelian Society. 1953. "Ifs and Cans". Mind. "Performative Uterrances" . pp. Em primeiro lu­ gar. trabalho apresentado em 1954 na Philosophical Society de Oxford. Também publicado em The Philosophi­ cal Review. Ox­ ford. "Performatif-Constatif '. Escrito na década de 30. "The Line and the Cave in Plato's Republic". Urmson. 97-99. idiomático e fluente. Warnock e J. Londres. 1958. ed. incluído na 3!! ed.L. L. 1952. 12. publicado inicialmente em Proceedings of the Aristotelian Society. exa­ tamente na medida em que é derivado de conferências proferidas por Austin na Universidade de Harvard. na medida do possí­ vel. S. XXXII. 148-187. 1884. as inúmeras sugestões feitas a este trabalho de tradução. Lukasiewicz's Aristotle's Syllogistic: From the Stand­ point of Modem Formal Logic " . ed. pp. Oxford. Quando dizer é fazer 15 _________________________________ J.. procurei sempre. O. publicado inicialmente em Proceedings of the Aris­ totelian Society. . para que o leitor as tenha em mente durante sua leitura. "Pretending" . trabalho apresentado em 1956 em programa ra­ diofônico da BBC. Are there A Priori Concepts?". 26 1-278. Cahiers de Royaumont.

RÉCANATI. Austin' s Philo­ sophy. Blackwell. D. Amsterdam. J. S. The Harvester Press. (org. dando origem à chamada Escola de OJford. MARCONDES DE SOUZA P-. pp. Austin. Les Enoncés Peiformatifs. SEARLE. 1977. J. R. "J. P.BlBUOGRAFIA SOBRE AUSTlN E A TEORIA OOS ATOS DE FALA* BERLlN. Trata-se apenas de uma relação de algumas das principais obras sobre Austin e a Teoria dos Atos de Fala. F. L. Austin: A Critique of Ordinary Language Philosophy. 232-238 . A pw-tir dl' 1952 ocupou a cátedra " White" de Filosofia Moral nessa universidade. Strawson. 1969. Le Scandale du Corps Parlant: Don Juan avec Austin ou La Séduction en deux Langues. Cambridge Univ. Austin exerceu grande influência em Oxford em seu tempo. Era casado e teve dois casais de fIlhos. L. Prichard. Urmson. 250­ 260. nos Estados Unidos. L et alo Essays onJ. Estudou Letras Clás­ sicas no BalHol College da Universidade de Oxford. RORTY. A bibliografia nesta área é imensa. J . versidadc de Oxford. 1969. L. Speech Acts.) Symposiwn on J. Minuit. Oxford.. G. "Austin at Criticism" pp. Austin" . F. dentre outros. FURBERG. 1980. 16 J. Warnock. 248-249. 1981. Austin Quando dizer éfazer 17 . Press. (org. e S. Clarendon Press. 239-247. 1973. Inglaterra. quando utilizavam o método de análise lingüística na discussão de problemas fIlosóficos. pp.) The Linguistic Tum. "J. K. LANIGAN. prin­ cipalmente os artigos de J. embora a rigor não se possa dizer que consti­ tuíssem uma "escola" filosófica. L. Seuil. Oxford Univ. Hassocks. Martinus Nijhoff. Hampshire. sendo fa­ mosos os seminários infonnais que realizava na universidade com alguns de seus colegas. J. Grice. M. L. Speech Act Phenomenology. Sussex. L. Oxford. Este grupo incluía. Haia. Austin" . Warnock. S. O. e fa­ leceu em 1960. Benjamins. L. Urmson e G. 1967 . GRAHAM. Paul. Ou rante a Segunda Guerra Mundial fez parte do Serviço de Wonnaçôcs do Exército Britânico. R. sobretudo no que diz respeito a artigos em periódicos es­ pecializadoo. remetemos o leitor hs referências bibliográficas encontradas nas proprias obras relacio­ nadas acima. J. que deram origem à prescnt obra. P . posteriormente publicadas como Sense al1d Sensibilia. NOTA BIOGRÁFICA John Langshaw Austin nasceu em 1911 em Lancaster. 2!! ed. D. Tomou-se fellow do AlI Souls College da Uni­ . L. "J. R. J. FANN. 1978. Cavell. pp . Austin" . Words and Deeds: Problems in the Theory of Speech Acts. O. S. H. Saying and Meaning: A Main Theme inJ. Paris. Language and Action: A Reassessment ofSpeech Act Theory. em Berkeley. HOLDCROFT. 1977. 1971. Press. Univ. O. chegando ao posto de tenente-coronel e recebendo várias condecorações. onde sofreu a influência do filósofo H. e entre 1958 e 1959 apresentou uma série de conferências na Universi­ dade da Califórnia. Em 1955 apresentou as Conferências William James na Uni­ versidade de Harvard. Hampshire. A. K. Urmson. Londres. e em 1935 do Magdulcn College. 1984. em 1933. J. FELMAN. Austin. T. Routledge & K. of Chicago Press. Paris. L.

Durante LlS anos de 1952 a 1954. ao [mal das conferên­ cias. tornam-se cada vez mais fragmentadas. bem como inconsistências do vocabulário devem ser des­ culpadas e são o preço que devemos pagar por tê-las publicadas. a 18 J. conjuntamente as notas de Austin relativas a todos estes pontos. embora tenha continuado a dar cursos em Oxford sobre "Palavras e Ações" com ba­ se nas mesmas notas. A razão é a seguinte. Vali-me delas no artigo 'Outras Mentes' publicado nos Proceedings of the Aristotelian 50­ ciety. Nessas partes as notas foram interpretadas e comple­ mentadas recorrendo-se às notas de 1952-1954. Para tais conferências. Warnock. comparando-as com o texto impresso da 1~ edição e assinalando os pontos que lhe pareceram merecer revisão. Elas consti­ tuem. acima mencionadas. embora incorporando aqui e ali partes das anteriores. ele próprio. as notas mais recentes de Austin sobre esses temas. as houvesse publicado. Austin preparou no­ vas notas. Pode­ mos ainda compará-las com apontamentos tomados na Inglaterra e nos Esta­ dos Unidos por aqueles que assistiam à exposição oral. Marina Sbisà examinou todas as notas preparadas por Austi n para estas conferências. 1. Agradeço a todos que me ajudaram através do acesso a seus aponta­ mentos e aos que me cederan1 a gravação. em suas linhas básicas. e pouco depois fiz emergir um pouco mais deste iceberg diante de diversas associações filosófi­ cas . Se bem que em sua maior parte. e uma gravação da conferência "Performativos" apresentada em Gotemburgo. do que com uma versão do que ele suposttuncnte teria es­ crito caso tivesse preparado suas notas para publicação. Se Austin. em outubro de 1959. Pode ter ocorrido que neste processo de interpretação tenha aparecido no texto uma frase que Austin talvez não aprovasse. Os editores exa­ minaram. Urmson Prefácio à 2~ edição inglesa A Ora.. 173 e segs. Pequenas imperfeições da fonna e do estilo. entitulada "Proferimentos Performativos" . fazendo apenas algumas pequenas correções e acrésci­ mos. L. No apêndice incluÚllos indicações mais completas des­ sas fontes auxiliares. com pequenas omissões de ar­ tigos e outras partículas gramaticais. tenha sido distorcido. Porém. após o que decidiram corrigir e aperfeiçoar o texto já impresso em diversas passagens. Austin mruorla dos leitores preferirá contar com umü versúo heI do que se sabe qu Austin escreveu.. É igualmente certo que em sua apresen­ tação oral Austin desenvolvia o texto encontrado em suas notas. Consideram que o novo texto é mais claro.. mais comQuando dizer é fazer 19 .Prefácio à 1a e 2a edições inglesas Prefácio à 1~ edição inglesa As conferências que formam este livro foram apresentadas por Austin na Universidade de Harvard. porém. ". freqüentemente. Supplementary volume XX (1946). Certamente teria reduzido as recapitulações com que inicia a 2~ Confe­ rência e que se repetem nas demais. é pouco provável que em qualquer parte o pensamento de Austin. como parte da série de "Conferências William James". sem dúvida lhes teria dado uma forma mais apropria­ da. Mas as conferências aqui publicadas não reproduzem exatamente as notas escritas por Austin. levando ainda em conta a conferência na BBC. em 1955. Austin diz que as idéias que servem de pano de fundo a estas conferências "se originaram em 1939. principalmente no começo das conferências. No presente volume reproduzimos as últimas notas de Austin. as notas sejam bastante completas e redigidas em parágrafos inteiros. portanto. ou ainda do que pensamos que teria dito durante as conferências. J. os cursos de Austin em Oxford versaram sobre o tema "Palavras e Ações". sendo que os acréscimos à mar­ ~ gem são abreviados. com um mínimo de alterações e tão fielmente quanto possível. utilizando-se ele de notas reela­ boradas a cada ano e que cobrem aproximadamente o mesmo campo que as "Conferências William J ames" . então. Graças a essa colaboração o leitor dispõe de um texto bem mais aperfeiçoado. Meu especial agradecimento a G. pp. Em uma breve nota. que examinou todo o texto cuidadosamente e evitou que eu co­ metesse inúmeros erros. O.

além das declarações (dos gramáticos). Por mais tempo que o necessário. e sentenças que ex­ pressam ordens. En­ tretanto. Ausrin Qunndo dizer 6 fOJ.pleto e.em. O. tomada em abstrato. e não pode ter passado despercebido pelo menos em algumas instâncias. podendo ser falsa ou verdadeira. há tradicionalmente. 1 Nilo o J. L. Urmson í] J Conferência Performativos e constatativos o que tenho a dizer não é difícil. e u declaração em si é uma "construção 16gic. havendo ex tensa literatura a respeito. e utterance por "proferimento" . incluíram no apêndice uma transcrição literal de um certo número de acrés­ cimos feitos por Austin à margem ou nas entrelinhas de suas notas. perguntas e exclamações. A declaraç ão seria então o uso da sentença para afirmar ou uegar algo. quando proferida por al guém em um con­ texto determinado. o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso. Os gramáticos. ainda não encontrei quem a ele tivesse se dedicado especificamente. do T. na realidade.'l" tirada da feitura das declara­ çõos. O proferimento é a emissão concreta e particular de lIllIa sentença. cujo entido não foi considerado suficientemente claro para que sua incorporação ao texto pudesse auxiliar a leitura ou interessar o leitor. os fIlósofos acreditaram que o papel de uma declaração* era tão-somente o de " descrever" um estado de coisas. Assim. por um falante determ inado. O único mérito que gostaria de reivindicar para esta exposição é o fato de ser verdadeira pelo menos em parte. O fenômeno a ser discutido é bastante difundido e óbvio. ao mesmo tempo. Marina Sbisà J. o que pode ser verdadeiro ou falso. (N.) é correto realmente Jizer que uma sentença seja uma declaração.cr 21 . As definições que adotamos correspondem ao emprego IlO por Austi n. na realidade ela é usada para flUOr uma declaração. 1\ sentença é entendida aqui como uma uni dade lingüfstica. mais fiel ao que se encontra nas notas de Austin. em um momento determinado . a sentença da lín­ uo portuguesa. indicaram com freqüência que nem todas as sen­ tenças são (usadas para fazer) declaraçõesl . Os filósofos sem dúvida não preten­ "Traduzimos statement por " declaração" sentence oor "sentença". possuindo uma estrutura gramatical e dOlllda de significado. desejos ou concessões. "A cosa é vermelha" pode ser usada para afirmar uma caracterfstica (ser vermelha) de um objeto (a rosa) . ou declarar um fato. nem polêmico. Estas di stinções são objeto de inúmeras controvérsias em Filosofia da Lingua­ .

Este exame surgiu. (Jo Austln r 23 . Com isto. como veremos. não se disfarça sempre necessaria­ mente como declaração factual. e a contínua descoberta de novos tipos de sentenças sem sentido re­ sultou.) res. apesar de seu uso um tanto vago de "sentença" co­ mo equivalente à "declaração". a concepção segundo a qual toda declaração (factual) deveria ser "verificável". do T. Se alguém quiser considerá-la a maior e mais saudável das revoluções da história da ftlosofia. Nem todas as declarações verdadeiras ou falsas são descrições. Por exemplo. inicialmente sob esta fonna enganosa.deram negar tais coisas. Não é de surpreender que o início tenha sido fragmentá­ rio. (N. entre os jufzos da o l ~ lIcjo. tem-se demonstrado atualmente de maneira minuciosa. De início apareceu. utilizando-se os poucos e inci­ pientes critérios gramaticais disponíveis como a ordem das palavras. como era co­ mum antigamente. Contudo. tendem a sucumbir à sua pr6pria ficção temerosa que uma dcc laruçfto "de di reito" 6 umo declnroçllo de fato. mas são usadas para in­ "Truto-se de uma re ferência à distinção feita por Kant.itam. portanto. Passou-se geralmente a considerar que muitos proferimentos que parecem declarações não têm. as "proposições éticas" talvez tenham propósito.o erro de aceitar como declarações fac­ tuais diretas proferimentos que ou são sem sentido (de maneiras interessantes embora não gramaticais) ou então foram feitos com propósito bem diferentes. em um se­ gundo estágio. Quais são os limites e as defmições de cada uma? Recentemente. ou pelo me­ nos tem-se procurado parecer provável. de uma declaração. não tenha sido dada. o propósito de registrar ou transmitir infonnação direta acerca dos fatos. que muitas perplexidades filosóflCas tradicionais surgiram de um erro . mostrou-se que muitas "declarações". variedades muito especiais de "falta de sentido" (rwn­ sense). porém. a grosso modo. Nós. Já se reconhece que muitas pala­ vras que causam notória perplexidade quando inseridas em declarações apa­ rentemente descritivas não se destinam a indicar algum aspecto adicional particularmente extraordinário da realidade relatada. Deixar de levar em conta tais possibilidades. embora o seu uso inadequado possa gerar. 2 J. não será. se apercebessem do verdadeiro estado de coi­ • Talvez al guns agoro já se apercebom. em um bem. por mais assistemática que fosse sua classificação e misteriosa sua explicação. a atenção devida às dificuldades que esse fato obviamente apresenta. mas. ma is que ninguém. as restrições às quais está sujeita ou a maneira como deve ser)recebida. contrastando-as com as declarações factuais que elas im. se muitas das aparentes pseudodeclarações seriam realmente " declarações" . 2 Tudo quanto for dito nestas seções é provis6rio e sujeito à reformulação à luz das seções posterio­ que representllm conhecimento. ou coi­ sas desse teor. Trata-se sobretudo de um tipo de nosso segundo grupo . muitas vezes. DELIMITAÇÃO PRELIMINAR DO PERFORMATIV02 o tipo de pro ferimento que vamos aqui considerar não consiste obvia­ mente em um caso de falta de sentido. passou-se a perguntar. um exagero. Creio que os gramáticos ainda não perceberam tal "disfarce" e os filósofos só muito incidentalmente 3 . denomina-se falácia "descritiva" . os filóso­ fos. não cabe dúvida de que estão produzindo uma revolução em ftlosofia. foram examinadas com um novo rigor. ~rn de esperar-se que os juristas. e os jufzos da metaffsica especulativa. de mani­ festar emoção ou prescrever comportamento. Tampouco se duvida que tanto os filósofos quanto os gramáticos sempre perceberam não ser fácil distinguir até uma pergunta. estabelecemos certos limites para a quantidade de sentenças sem sentido que estamos dispostos a admitir. etc. ou têm apenas em parte. nem sempre fonnulada sem deplorável dogmatismo. estudar esse tipo de declaração. apesar de sua fonna claramente gra­ matical. também usamos proferimentos cujas fonnas ultrapassam pelo menos os limites da gramática tradicional. no todo ou em parte. qual é a declara­ ção. Esse tipo. muitas das sentenças que antigamente teriam si­ do aceitas indiscutivelmente como "declarações". ou ordem. eram estritamente sem sentido. Mas o que pode parecer estranho é que isto ocorre exatamente quando assume a sua forma mais explícita. ou por mais que julguemos deplorável a confusão inicial em que mergulharam a doutrina e o método ftlosófico. ou influenciá-lo de modo espe­ ciaL Aqui também Kant deve ser considerado como um dos pioneiros. porém. já que o termo "descritiva" é por si mesmo específi­ co. Em um primeiro momento e de fonna mais óbvia. Será conveni~nte . talvez. o que levou à concepção de que muitas "declarações" são apenas o que se poderia chamar de pseudo­ declarações. como Kant* primeiro sustentou de maneira siste­ mática. com parti pris e com motivos extrínsecos. etc. Contudo. dicar (e não para relatar) as circunstâncias em que a dec laração foi feita. descritiva ou constatativa. Seguindo esta linha de pen­ samento.. embora talvez este não seja o nome adequado. até mesmo nós. de fonna um tanto indireta.1 n conhec imento sem do fato virem a se constituir legilimamente em ciência. na Critica da razão pura. modos verbais. já que isso é comum às revo­ luções. com freqüência. razão pela qual prefIro usar a palavra "constatativa".as expres­ sões que se disfarçam. que seriam meras pfotcn8Õc. tanto por fIlósofos quanto por gramáticos. qual é a ordem. Pennanece a dú­ vida sobre como decidir qual é a pergunta. O que quer que pensemos sobre todas essas concepções e sugestões. para explici­ lar suas características. se pensarmos bem nisso. ao menos em filosofia.

O MuJto monos qualquer coisa que eu já tenha feito ou venha a fazer. classe esta que deve ser definida. correspondente à idéia de ação. / Muitos outros termos podem ser sugeridos. e hoje é até mesmo usado para significar quase a mesma coisa que "eficaz" . (c) "Lego a meu irmão este relógio" . Urmson.". 8 Anteriormente usei "performatório" . optamos por monter O origina l. esta mulher como minha legítima esposa" . adapumdo-o para o português.se realizando uma ação. Deixamos o erro perma necer no texto por considerá. todos são performativos "explfcitos" . (Cf. considerado um mero equivalente a dizer algo." Estes exemplos deixam claro que proferir uma dessas sentenças (nas circunstâncias apropriadas. "Aceito" . a transmissão de propriedade. e constru­ ções dúbias como as hipotéticas) . que não seria normalmente descrita consistindo em dizer algo. exceto a de "declaração" . B. como é natural. Pode ser que estes proferirnentos "sirvam para infonnar". mas isso é muito diferente. e indica C). a realização de uma ação. Por exemplo. nem constatem. Preferi as­ sim um neologismo ao qual não atribuiremos tão prontamente algum signifi­ cado preconcebido. Exemplos: (a) "Aceito (scilicet). proferi -lo com uma referência histórica) é fazer uma declara­ ção. auxiliares suspeitos como " deve" (ought) ou " pode" (can) . muitos performativos são "contratuais" ("Aposto"). Quando digo. por exemplo. O. isto tão óbvio que sequer pretendo justificar. na acepção em que é usado pelos advo­ gados ingleses ao se referirem àquelas cláusulas de um instrumento legal que servem para efetuar a transação (isto é. considero 4 Isto é deliberado.Como primeiros exemplos vamos tomar alguns proferimentos que não podem ser enquadrados em nenhuma das categorias gramaticais reconheci­ das. gramaticalmente. O tenno " perfonnativo" será usado em uma variedade de formas e construções cognatas. e do tipo "prepotente". que nada "descrevam" nem "relatem".. Mas nenhum termo de uso corrente que eu conheça é suficiente pa­ ra cobrir todos os casos. não sendo. e nem sejam "verdadeiros ou falsos". De fato.do modo que é proferido no decurso de uma cerimônia de casamentos. N. co~seqüentemente. " um performativo". Vide mais adiante em "ilocuçóes'" . que mais adiante chamaremos "exercitivo".9 Mas "operativo" tem outros significados. evidentemente) não é descrever o ato que estaria praticando ao dizer o que disse6 . em mi­ nha opinião. cujo proferimento da sentença é. O termo técnico que mais se aproxima do que ne­ cessitamos seria talvez "operativo" . (N. *Consideramos o termo "performati vo" preferfvel ao seu equivalente mais próximo em português que seria " reltlizati vo" . Hart. Batizar um navio é dizer (nas circunstâncias apropriadas) as palavras "Batizo.tal como ocorre em um testa­ mento. Mas deve-se proferir "performativo" por ser mais curto. os exemplos que daremos a seguir se­ rão decepcionantes. N~nhum dos pro ferimentos citados é verdadeiro ou falso. diante do juiz ou no altar. Que nome daríamos a uma sentença ou a um proferimento deste tipo?? Proponho denominá-la sentença perfonnativa ou proferimento performativo. nem encerram aqueles indícios verbais de perigo que os filósofos já de­ tectaram ou pensam haver detectado (palavras curiosas como "bom" e "to­ do". Emitir um proferimento performativo é . Como o ternlO já se ac ha consagrado na lite­ r!ltum especiali zada e como se trata de termo técnico e neologismo cunhado por Austin. Todos terão. 9 Devo esta observação ao Professor H L A. do T.8 Evidentemente que este nome é derivado do verbo inglês to perform. 7 As "sentenças" formam uma classe de "proferimentos" . ou. verbo correlato do substantivo "ação" . Os proferi­ mentos perfo rmati vos se contrastam primordialmente com os proferimentos constatativos. (d) "Aposto cem cruzados como vai chover amanhã. menos fe io.) 24 _______________________________________ • / •• Austil/ úando dizer 6 fltzer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 25 . embora sua etimologia não seja irrelevante*. nem declarar que o estou praticando: é fazê-lo. ou o que quer que seja) que constitui sua principal fmalidade.) 5 Austin percebeu que a expressão" Aceito" (I do) não é usada na cerimôni a de casamento tarde de l11u is pura corrigir es te erro. não é necessário justi­ ficar. assim como se dá com o termo "imperativo". de forma abreviada. não estou relatando um casamento. estou me casando. assim como não é necessário justificar que " Poxa! " não é nem verda­ deiro nem falso. Xli Conferência.lo filosoficame nte Irrelevante. Po­ dem-se encontrar proferimentos que satisfaçam estas condições e A. mas fácil de usar e mais trad icional em sua formação. ao passo que o resto do documento simplesmente "relata" as circunstâncias em que se deve efetuar a transação. (Nota de J. (b) "Batizo este navio com o nome de Rainha Elizabeth" . etc. Na realidade. do T. Emitir um proferi mento constatati vo (isto é. verbos usuais na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa4 .quando proferido ao quebrar-se a garrafa contra o casco do navio. ou "declaratórios" ("Declaro guerra").ue ao se emitir o proferimento está . Isto está longe de ser tão paradoxal quanto possa parecer ou quanto eu possa ter feito parecer. editor). cada um cobrindo uma ou outra classe mais ou menos ampla de performativos. embora duvide que já haja uma definição sati sfatória. no todo ou em parte. etc. tampouco constituem casos de falta de senti­ do. fazer uma aposta.

parecer estranha e até mesmo imper­ tinente. ou um outro ator nos bastidores)l f1 não o faz" . cuja realização é também o alvo do proferirnento. especial­ mente quando pensamos em alguns dos performativos mais solenes. a única coisa necessária para a realização do ato.-_ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ ___J. ambas. Até aqui. Se excluirmos atos interiores fictícios como esse. mas não faça a entrega do objeto.. Trata-se do seguinte: geralmente o proferimento de certas palavras é uma das ocorrências. mas as circunstâncias.. pois aquele que diz "prometer não é apenas uma questão de proferir palavras! É um ato interior e espiritual!" . y~wrt' J O~Wf1DÀ .os iluminudorcs. na realização de um ato (seja de apostar ou qualquer outro) . ou outras pessoas... examinando as profundezas invisíveis do espaço ético. e é também um importante lugar comum em to­ da discussão que envolva um proferimento. tam­ bém realize determinadas ações de certo tipo. como dizer "Feito") e uma doação não se realiza caso diga "Dou-lhe isto" . tra gédia gregll cláss icu de autoria de Eurfpedes.. ou melhor. A ~ mes mo continufsm. se podemos fazer afmnações como: "Casar-se é dizer umas tantas palavras". Vemo-lo como ele se vê. tais co­ mo "Prometo . É gratifIcante observar. o pro­ ferimento exteriorizado é a descrição verdadeira ou fa lsa da ocorrência de um ato interno. 10 Mio quero com isso eliminar toda a " equi pe dos bl1-~tid ores " . "minha língua jurou.CI' 2 . (1.. (N. que é são e de quem não me divorciei. é sempre necessário que as circunstâncias em que as palavras forem proferidas sejam. abre o caminho da imoralidade. "Prometo . A exatidão e a moralidade estão. podemos supor que todas as demais coisas que certamente são exigidas para completar normal­ * lfipÓlieo. Disto falta pouco para que acredi­ temos ou que admitamos sem o perceber que. 2 . em algumas culturas.J. do lado da simples aflf­ mativa de que nossa palavra é nosso penhor. seja escrita. mas com as precauções necessárias pode deixar de causar estranhe­ za. quer sejam ações "físicas" ou " mentais". senão a principal ocorrência. deveríamos transformar as proposições acima e afIrmar que "dizer determinadas palavras é casar-se" . Embora um tanto vago. então. com toda a distinção de um espe­ cialista do sui generis. ou mesmo o proferimento de algumas palavras adicionais. um casamento pode ser efetuado por coabitação. <. de algum modo.. e as­ sim por diante. é geralmente necessário que a oferta tenha sido aceita pelo interlocutor (que deve fazer algo. Mas podemos. " me constrange . QU Llmlo dlLcr <5 rOI. Não devo estar. ou posso apostar valendo-me de uma máquina automática colocando uma moeda em sua ranhura. Genericamente falando.. o cenógrafo .registra meu vínvulo a "grilhões espirituais" . ain­ da que excepcionalmente o seja. ao fazer uma objeção. ou "casar-se. minha o bjeção é uperuls contro ce rtos " ntores substitu tos o fi ciosos". digamos. L. \I\. para que uma aposta se concretize. I ~ Jl crFV/ V ~ \h}JjvtO L Oj \ ) . no mesmo exemplo. ter em mente algo totalmente diferente e desta vez bastante equivocado. apropriadas. Mas a verdadeira razão por que tais observações parecem perigosas se encontra provavelmente em um outro fato óbvio. mediante outros meios? Por exem­ plo.. seja para [ms de in­ formação.612)* . mas meu coração (ou mente. isto é. de um ato interior e espiritual. freqüentemente é necessário que o próprio falante. para muitos propósitos. em al­ guns casos. seja oral. ele propicia a Hipólito uma saída. ou "apenas dizer de­ terminada coisa é apostar".. Uma primeira objeção ponderável ou importante seria a seguinte: é possível realizar-se um ato do tipo a que acima nos referimos sem proferir uma única palavra.. sempre têm que ser apropriadas. como o excesso de profun­ didade. tudo bem. Mas temos a tendência a pensar que a se­ riedade das palavras advém de seu proferimento como (um mero) sinal ex­ terno e visível. ou "Apostar é simplesmente dizer algo"? Tal doutrina poderia. mas este está longe de ser. onde Hipólito diz. Assim. ­ PODE O DIZER REALIZAR O ATO? Cabe perguntar. é simplesmente dizer algumas palavras" .~_ . para eu batizar um navio é essencial que eu seja a pessoa escolhida para fa­ zê-Ia. {lo T .. Assim. ao qual teremos que nos re­ ferir mais tarde com maiores detalhes. seja por conveniência ou outro motivo. incluindo outras ações... Uma ação pode ser realizada sem a utilização do proferimento performativo. a princípio. de solenidade . A expressão clássica desta idéia encontra-se no Hipólit. " .. pilhe­ riando ou escrevendo um poema. no casamento (cristão) é essencial para me casar que eu não seja casa­ do com alguém que ainda vive.. Por certo que estas palavras têm de ser ditas " com serie­ dade" e de modo a serem levadas "a sério". tenderá a parecer um sólido moralista frente a uma geração de teóricos superficiais. Assim. ao bí­ gamo uma desculpa para seu "Aceito" e ao vigarista uma defesa para seu " Aposto". No entanto. Austin _______________________________. isto é bem verdade de modo geral .

ou melhor.. Temos de aprender a correr antes de sabennos andar.foi vã. mas isso é um problema muito diferente. porém. como poderíamos corrigi-los? Comecei por chamar a atenção. resultam ser proferi­ mentos que não podem ser " verdadeiros" ou "falsos". errônea. por conseguinte. é sempre declarar algo. mas sim o proferimento . a promessa . a saber. )" são de fato descritas pelo proferimento e. no sentido de que.. embora a pessoa afmne que promete. pelo menos nos ca­ sos dignos de consideração. E o fato de dizennos que uma promessa é falsa não nos compromete mais seriamente do que falar de um passo em falso. E o ato de casar. o fato de nos estarmos casando. L. como. Allstin . digamos . ou ao dizennos algo estamos fazendo algo. o ato de apostar. provavelmente fraudulento e sem dúvida incorreto. mas.. Não é verdade que quando tal intenção está ausente nós falamos de uma "falsa" promessa? E no entanto falar assim não é dizer que o profe­ rimento "Prometo que. mediante exemplos. não dizemos que uma aposta é falsa ou que um batismo é falso. fazem-no falso? To­ mando a segunda alternativa em primeiro lugar. ou não foi levada a cabo. ou coisa semelhante. Como devem estar lembrados. Talvez entre todos os componentes este pareça o mais adequado para fazer o "Prometo" descrever ou registrar.ou pelo menos a fonna gramatical ­ de "declarações". Nunca dizemos que o proferimento era falso. ou que ao descrever o que está fazendo dê uma descrição distorcida.lo tipo " Prometo que . passamos a considerar o que realmente dizemos do proferimento em questão quando alguns de seus com­ ponentes elementares está ausente . estamos nos casando e não relatando algo. Estes proferimentos têm a aparência .. Esta é uma idéia inconsciente e. com sua presença fazem-no verdadeiro ou.. quando proferido no decurso de uma ceri­ mônia de casamento. O proferimento talvez seja deso­ rientador. a sa­ ber.. e também de muitos outros perfonnativos.. Um de nossos exemplos era o proferimento "Aceito" (esta mulher como minha legítima esposa . por exemplo.. "Falso" não é necessariamente usado apenas para dec1a­ rdções. em todos os casos considerados. Íamos considerar alguns (apenas al­ guns.. No ca­ so particular das promessas. Este tópico é um desenvolvimento. ). isto é. felizmente !) casos e sentidos em que dizer algo é fazer algo. No entanto. Aqui devemos assinalar que ao dizer esta palavra esta­ mos fazendo algo. de uma tendência recente de questionar um antigo pressuposto filosófico: a idéia de que dizer algo. 11 Conferência Condições para performativos felizes 11 Evitamos di sti nguir entre um e outro precisamente porque a distinção não se encontra aqui em quoslllo. Pois a pessoa realmente promete: a promessa aqui não é sequer vã. mas não é uma mentira nem um engano. ou " Aceito (esta mu­ lher . para alguns profe­ rimentos simples do tipo conhecido como perfonnatórios ou performativos. com sua ausência. ser "ver­ dadeiro" ou "falso" é tradicionalmente a marca característica de uma decla­ ração. " seja falso .menle um prorerianento <. a saber. deve ser de preferência descrito (ainda que de moQuando dizer 6 fazer 2 !l J. isto é.. é apropriado que a pessoa que profere a promessa tenha uma detenninada in­ tenção. perfeitamente natural em Filosofia. não o faz. o atol! . ao que parece. embora feita de má-fé. Se nunca cometêssemos erros. No máximo poderíamos dizer que o proferimento sugere ou insinua uma falsidade ou um engano (já que há a intenção de fazer algo). ou feita de má-fé. Além do mais. ou em que por dizermos. observados mais de perto. a intenção de cumprir com a palavra. sem dúvida. entre outros.

de modo correto e (8. Apostar não é. digamos. Receio. etc. Segundo estou informado.redunda. batizar. somos insince­ ros. casar. por exemplo. caso o que tenha sido dito seja um proferimento do tipo que chamamos de performativo.isto é.2) completo . ou visa li instauração de uma conduta correspondente por parte de alguns dos participantes. Por 'esta razão chamamos a doutrina das coisas que podem ser ou re­ sultar malogradas. Além do proferimento das palavras chamadas performativas. e m celtas circunstâncias. naturalmente. Quais são essas coisas esperamos descobrir pela observação e classificação dos tipos de casos em que algo sai errado e nos quais o ato . sob nossos pés. não pelo que foi dito. de uma forma ou de outra. Para comprovar o que acabo de dizer basta. alguém poderia dizer tais palavras e mesmo assim poderíamos discordar de que tivesse de fato conseguido apostar. uma ação. de um pro ferimento performativo altamente desenvolvido e explícito.ma­ neiras que. xistir um procedimento convc!/lciollullllcnl . (1' . Em tais casos não devemos dizer de modo geral que o proferimento seja falso. Que isso seja assim. fazer um lega­ do. Primeiro.mas por ter sido algo realizado. embora reali­ zá. Mas tudo isso levaria . então aquele que participa do procedimento. a nossa ação.. L. Poderíamos começar tudo de novo. 1) O procedimento tem de ser executado. em cada caso.2) as pessoas e circunstâncias particulares. prometi mas . em fracassar. Isto coincide perfeitamente com nossa intuição inicial a respeito dos proferimentos performativos. que estas condições necessárias pareçam óbvias. c além disso. estejam assinaladas pelas letras e números seleciona­ dos para cada item. Daí o uso de letras latinas em oposi­ ção à letra grega. I csUl 30 _J. não se efetua. tempo. 1) Nos casos em que.! e. quando. de doutrina das infelici­ dades.. ou se as pessoas não estão em posição de realizar o ato seja porque. se transgredirmos uma dessas seis regras. A seguir daremos exemplos de infelicidades e de suas conseqüências. ou então caminhar lentamente através de etapas lógicas. qu (A. I-B. por certas pessoas. c o invoca deve de fato ter tais pensamentos ou sentimentos. simplesmente proferir as palavras " Aposto. no direito processual norte-americano o re­ lato do que se disse vale como prova. sentimentos e intençOes lnclufdo dentre as OUlrJS "c ircunst. Precisamos de nomes para nos referirmos a esta distinção geral.2. Mas como devemos agir daqui em diante como filósofos? Uma coi­ sa poderíamos fazer. muitas outras coisas em geral têm que ocorrer de modo adequado para po­ dermos dizer que realizamos. Mas é claro que há di­ ferenças consideráveis entre as diversas " maneiras" de ser malogrado . é indispensável a 1 Scrd explicado depoi s por que o fato de se ter estes pensamentos. sem reivindicar para tal esquema qualquer caráter defmitivo.lo em tais circunstâncias . pelo menos algumas das coisas necessárias para o funcionamento. além disso. mas malo­ grado. Austin QUW1do dizer é fazer 31 . aliás. interior e espiritual.do inexato) como wn ato de dizer certas palavras. (8. Tentemos enunciar esquematicamente.a questão das "circunstâncias adequadas".. por exemplo. ou em cuja realização. porque este é conside­ rado um relato com força legal.. seja porque fo i o comissário e não o capitão do navio quem realizou o casamento. naturalmente. Isto se passa quando digo " pro­ meto" sem ter a intenção de cumprir o prometido. como já assinalei. por ocasião de tal proferimento. malogrado. já são casadas. e espero. que nos preocupa aqui. digamos. A primeira grande distinção reside na opinião entre o conjunto das quatro regras A e B e as duas regras r . esperamos. de que tais palavras são meros sinais externos e audíveis. ao contrário. Ora.não admissível como prova . Até aqui sentimos apenas ruir. não se concretiza. e os participantes devem ter a intenção de se conduzirem de maneira adequada. em que não se consegue levar a cabo o ato para cuja realização. então o ato em questão (o casamento) não se realiza com êxito. feliz ou sem tropeços. a sólida base de um pre­ conceito. Com efeito.isto é.2) devem realmente conduzir-se dessa maneira subseqüentemente. e não como a realização de um ato distinto. devem ser adequadas ao procedimento espec ffico invocado. por isso chamaremos de­ sacertos os atos malogrados do tipo A. Nos dois casos. no entanto me atrevo a afIrmar que se trata de um fato. o que resultaria em um testemunho de segunda mão . Se violamos uma das regras de tipo A ou B . por todos os participan­ tes. (r . nosso proferime nto per­ formativo será. com êxito. o procedimento visa às pessoas com seus pensamentos e sentimentos. como ocorre com freqüência. etc.". l lll apresen te um deterrmnudo efeito convencional c qu incluo o prorerimento de certas palavras. apostar.!\ncias" jd cons ideradas em (A). se proferimos a fórmula incorretamente. dificilmente pode ser provado. seja um desrespeito ao procedimento. o ato é concretizado. . MO (A. propor a nossa aposta após o término da cor­ rida de cavalos. o único. pelo menos em parte. vamos concentrar nossa atenção em um detalhe já mencio­ nado de passagem .

/.l e r . que foi uma mera tentativa. por ter sido prejudicada. Em contraste com A. mas vamos adiar sua consideração para mais tarde . porém.I más execuções. Infeliz­ mente. B. Quando o proferimento for um desacerto. a distinção geral entre os tipos A e B. no que diz respeito aos desacertos.em que existe um procedimento. Austin Quando dizer 6 fazer _ "" .I \ H. fracassos. Antes de entrar em detalhes. Podemos indagar: (1) A que variedade de "ato" se apl ica a noção de infelicidade? (2) Até que ponto está completa a classificação das infelicidades aci­ ma? (3) Os vários tipos de infelicidade se excluem mutuamente? Analisemos estas indagações seguindo a ordem acima. em oposição aos casos A. (N . seja porque o procedimento em questão não conse­ gue efetivar-se de maneira satisfatória. serão chamados "más execuções". A.) \ Más invoca~ões ato rejeitado Más eXeL'lleJ)CS ato prejudicado I A. Unnso ll).ICCltlÍolI (m6 execução) e mi. como o pr6pri o Austi n IlSsi nalu. nüo-execuções. não consegui encontrar um bom nome para o primeiro tipo (isto é. a saber. chamaremos de abusos aqueles atos malogrados (de tipo r) em que a ação é concretizada (obviamente não se devem enfatizar as conotações usuais destes termos) . mais particularmente. sem efeito. 7'. ao formular a mo. mas que não foi aplicado como se pretendia . (N. (Em resumo. mas de acordo com n de fi niçfio dada no tex to. Em tais casos dizemos que nosso ato foi tão-somente intencionado ou.0. apenas dois valores: verdadeiro ou falso.2 má atuação. a despeito do nome. deslealdades.lorlo destes conceitos. Por serem de in teresse aJlluns são registrados aq ui . em vez de chamá-lo de nulo ou sem efeito. casar.ldcs 1\13 I' I Desacertos Atos pretendidos mas nulos I\husos A tos pro fessados mas vazios / 1\ \ ti r. mas a execução do ritual. falha ou falta. que termos como "pretendido" e " professado" não resisti­ rão a um exame mais rigoroso. em oposição a "mas invocações". em vez de di­ zer que foi " pretendido" ou " nulo". Daí as infelicidades do tipo A pode­ rem ser chamadas de "más invocações" . o procedimento invocado é esvaziado de sua autoridade e assim nosso ato (casar. Isto porque. Dizemos que não foi levado a cabo ou que não foi consumado. '" Austin joga com o prefixo inglês lI1is.sllpplicatiorl má aplicação). não significa o mesmo que " sem conse­ qüências. sem termos realiza­ do o ato pretendido. B. indicativo de erro. seja porque não há. I não-atuação. muitas coisas podem ter sido feitas.2. miSe. pelo contrário.I é a dasfalhas.de "má aplicação" . r . gera conseqüên­ cias mais ou menos desastrosas. ou usamos expressões como: " foi uma forma de união" em oposição a "casamos" . r . Através deles podemos ter cometido um ato de bigamia. 2 não realizações.l \ A. o bíga­ mo não se casa duas vezes. resultados ou efeitos". A seguir devemos tentar esclarecer. (N. de modo geral. infraçOes.2 'I Más aplicações falhas Tropeços Não me surpreende que haja dúvidas acerca de A. Por outro lado. o procedimento nos casos B é correto e válido. misillvocatioll (má invocação). O fato de um ato ser nulo ou sem efeito não quer significar que nada tenha sido feito . indiscip linas. A. desejo fazer algumas observações gerais sobre as infelicidades.2 é a dos tropeços.fire (desacerto). um procedimento. Assim. os casos B. d. aqui. Dentre elas podemos arrazoada­ mente batizar o segundo tipo (isto é. e a classe B. Mas apresso-me a acrescentar que tais distinções não são rígidas e fixas e . O ato pretendido fica prejudicado por uma falha ou tropeço na condução da ce­ rimônia.2 / B. Nos dois casos classificados como A existe uma má invocação de um procedimento. estes termos MO devem ser tomados em seu sentido literal. L.) é nulo ou sem efeito. 2 Austin dc vcz em q uando usa outros nomes para as diferentes infelicidades. O. etc.I ). desrespeitos. Por outro lado.fonna verbal correspondente. Assim.1 Insinceridades I r ') . A. Duas palavras finai s acerca dos atos nulos ou sem efeito. nos casos de tipo r dizemos que o ato malogrado foi "professado" ou "vazio". A.) Além disso.). XI X pe lo 16gico e matemátiéo inglês George Boole. r . 2) . temos o seguinte esquc lllll :~' In rcll vld . do T . Referência ao sistema algébrico formul ado em meados do séc. Assim temos: lI1is. a álgebra do casamento é boolea­ na*. '" Isto é. rupturas.) 32 J. Entretanto. de . A classe B.1dissimu lações. ainda.

mas nula? E quanto mais consideramos uma declaração. Austin unndo dizer ó razer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 35 . Para nós. basta omitir a referência espe­ cial ao pro ferimento verbal em nosso caso A. no todo ou em parte.e aqui sou forçado a pôr minhas car­ tas na mesa . Isto pelo menos é óbvio. pois em muitos destes casos po­ demos mesmo dizer que o ato foi nulo (ou tomado nulo pela coação ou ainda por influência indevida) e assim por diante. ou por acidente. F. Goldman (1970) A Theory ofHuman Actioll. L. Não há uma pressuposição de existência em ambos os casos? Não se trata de uma declaração que se refere a algo que não existe. D. "atos de proferir palavras" . como: "O atual rei da França é careca". Muitíssimos deles têm o caráter geral. seja por serem performativos ou por incluírem pro­ ferimentos de performativos.se a noção de infelicidade se aplica a pro ferimentos que sejam declarações. Apenas a obsessão generalizada de que os pro ferimentos legais e os proferimentos usados em. os autores de jurisprudência constantemente demonstra­ ram perceber os diversos tipos de infelicidade. Não se trata de que todos os rituais ou todos os pro­ ferimentos performativos sejam passíveis de todas as formas de infelicidade.ex. em úl­ tima análise. são passíveis. por todos os atos convencionais. pela mesma razão. embora isto possa nos ter estimulado (ou deixado de estimular) em relação a certos atos que são. . entre outras coisas. que alguém o praticou. parecem. no todo ou em parte. digamos. Press. S. tanto mais estamos considerando a coisa toda como um ato. Até aqui mostramos a infelicidade como um traço característico " i\uslin critica aqui uma tradição positivista e cientificista que reduz a ação humana a suas caracte­ rlsticas de movimento f(sico apenas. ou seja. dentre outros: A. de serem exe­ cutadas com dificuldade. "On Refening" (1950). seja por serem ou incluírem a realização de al­ gum procedimento convencional. ou. Neste contexto pode-se ver que. Oxford Univ. anaJisado por Bertrand Russell em seu artigo 34 J. parece evidente que a infelicidade é um mal herdado por todos os atos cujo caráter geral é ser ritual ou cerimonial.. Vejam-se. quanto mais não seja pelo simples fato de que muitos atos con­ vencionais. Davidson (1980) Essays on Actions and Events. na tradição analítica. embora não exatamente fal sas nem contradit6rias.por exemplo. podem ser realiza­ dos por meios não-verbais. Ambos os artigos nconlmm-se troduzidos para o portugutls e publicados pela ed. Strawson.) (1968) The Phi/osophy ofAction. contudo. mas como um ato de fala (a partir do qual os demais são construções lógicas). não possuem umO re­ rorencia atual. Os mesmos tipos de regras têm de ser observados em todos estes procedimentos convencionais. do T. Isto é óbvio. (2) Nossa segunda pergunta foi: até que ponto é completa esta classifi­ cação? (I) A primeira coisa a ter presente é a seguinte: se ao proferir nossos performativos estamos de modo efetivo e em sentido inequívoco "realizando ações" . nos volumes relativos nos respectivos autores. Ou. um grande número de atos que se incluem no campo da ética não são. ~ Trutll-se de exemplo famoso. (N. como os filósofos se apressam em afmnar. suponho que uma doutrina eral de nível superior possa incluir em um único corpo doutrinário tanto O "On Denotillg" (1905). podemos perguntar . podendo assim ser explicada através de leis causais no sentido natural. pp. A esta altura. do T. Oxford Univ.do que chamamos de infelicidade. Prentice-Hall. Em muitos desses casos não cabe dizer simplesmente que tal ato foi realizado ou. 47 e S8. Por último. e por vezes até mesmo as pe­ culiaridades do proferimento performativo. ou devido a este ou àquele tipo de engano. a Filosofia da i\ çllo tem retomado estas discussões que servem de pano de fundo para o conceito de ação envolvido na Teoria dos Atos de Fala. "atos legais" . Press. Não estou aqui no âmbito da doutrina geral. Ora.(l) Qual o alcance da infelicidade? Em primeiro lugar.* Poderíamos ser le­ vados a aproximar isto da intenção de doar algo que não possuímos. que foi "deOnldo" (/lO assim podemos dizer) basicamente em oposição à "declaração" já tida como supostamente conlv'-­ cida. Ncw Jersey. de atos convencionais ou rituais e assim estão. Mas importa também chamar a atenção para os inúmeros "atos" que dizem respeito ao jurista. porém. do proferimcnto performativo. expostos à infeli­ cidade. p. Paulo. contudo. tamb6m oldssleo. então estes performativos enquanto ações estarão sujeitos às mesmas deficiências que afetam as ações em geral. salientar que uma das coisas que os tll sofos fazem ultimamente é examinar com atenção especi~ certo tipo de sen­ tenças declarativas que .ou distinguíveis . por exemplo. e que não é propriamente fal­ sa. mesmo. li propósito da questão da aparente falta de sentido de sentenças que. meros movimentos f1sicos: . White (org. absurdas . Mas tais deficiências são distintas . que é um comentário e uma crftiea ao de Russell. em seu artigo. Quero com isto dizer que as ações em geral.1. afmnações que se referem ti algo que não existe.). importa. não como uma sentença ou proposição.). A. Teremos que voltar a este assunto mais tarde 3 . Contemporaneamente. como esta. tais como apostas e legados de propriedade. é de importância mais primordial perceber que. no coleção "Os (lcnsudores". Estn discussão é retomada posteriormente por P. há semelhanças óbvias entre uma mentira e uma promessa falsa. (N. mesmo. sem intenção. tenham que ser de algum modo declarações verdadeiras ou falsas impediram os juristas de perceber esta questão com mais clareza do que nós. ainda. Chama a atenção para a necessidade de levar em conta os aspectos intencionais e convencio­ nuis na interpretação da ação humana. não todas. Por isto não ousaria afirmar que nenhum jurista o tenha feito./lIfro. Abril. de um modo ou de outro.

(2) foi um terrível vexame. (lI) Em segundo lugar. O que quero dizer é o seguinte: um proferimento performativo será. de ti nhamento . porém. (b) Não. importa lembrar que tais elementos podem imiscuir-se em quaisquer dos casos que estamos discu­ tindo. aliás. não têm importância teórica.isto é. Precauções especiais são tomadas em Direito para evitar essas e outras infelicidades. embora seja de interesse investigá-las e. devem ser entendidos como ocorrendo em circunstâncias ordinárias. no sentido em que podemos nos enganar de duas maneiras a mesmo tempú. deliberadamente excluídos. Por outro lado.já que realmente pode ser assim chamado . Pode-se dizer que "fingir" ter batizado o navio. *0 termo "estiolamento" significa literalmente perda de cor e vitalidade. talvez a pessoa a quem prometi. digamos. quebrando a garrafa presa à proa. ou por que não há procedimento aceito de batizar qualquer ser que não seja humano? Estas questões. Quando o santo batizou os pingüins. Suponhamos. por não ser eu a pessoa indicada ou não ter a "capaci­ dade" 'de realizá-lo. Esta importante consideração terá que ser tratada em particular mais tarde em outro contexto. como casar-se com um macaco. do T. Se uma outra destas condições não for satisfeita.que chamamos infelicidade quanto estes aspectos "infelizes" da realização de ações . ou falado em um solilóqUIO. Austin uando dizer é fozer 37 . mas de forma parasitária em relação a seu uso normal. embora possam ser enquadrados em uma regra mais ge­ ral. aparecerão dúvidas quanto ao fato de eu ter realmente prometido. (III) Pelo menos por ora. 36 _ _ __ _ ________ J. (N. enfraque­ cimento. De modo similar. e é aplicado por Austin para caracterizar o "enfraquecimento" que um ato de fala sofre ao ser utilizado em um contexto não. por exemplo. mas não escol hid o para batizar aquele bebê em particular.que se deriva do "mal-entendido" . a ficção. poderíamos nos perguntar se seu ato foi nulo por que o procedi­ mento de batismo não se aplica a pingüins. com a ter­ minologia apta a lidar com elas. se dito por um ator no palco. (B) ter sido entendido por esta pessoa como tendo prometido. Poderíamos dizer também que parte do procedimento é a pessoa vir a ser designada para praticar o ato.literal. sempre vazio ou nulo de uma maneira peculiar. Estes. foram. em tais circunstân­ cias. como os juristas. na apresen­ tação de ordens ou nodificações legais. Podemos ter o nome errado e o sacerdote errado . L. atos que contêm um proferimento perfonnativo. Compreensivelmente a linguagem. no momento. Mas por nuo incluir em nossa análise esse tipo de infelicidades. por exemplo. 4 OOlizru uma criança seria ainda mais di fl"cil. os performativos enquanto proferimentos her­ dam também outros tipos de males que infectam todo e qualquer proferi­ mento. etc. com freqüência acontece. Tratam-se de farsas. que haja um navio nas docas de um estalei­ ro. A resposta é 6bvia. na prática. Ob­ viamente é necessário que para haver prometido eu tenha normalmente que: (A) ter sido ouvido por alguém. e assim por diante. que meu ato foi "nu­ lo" ou "sem efeito". etc. (a) Não. com o teatro. forma esta que se inclui na doutrina do estiolamento da lin­ guagem*. felizes ou não. talve de certa forma seria até pior se o fosse). Todos concordamos que: (1) o navio não foi batizado por este at0 4 . isto 6. é conveniente estar familiarizado. de "faz-de-conta". ao prometer insinceramente a um asno dar-lhe uma cenoura. ou se introduzido em um poema.). (3) Os cosos de infelicidado acima {ulolados cxlucm·sc mutuamente'. Tudo isso fica excluído de nossas considerações. poder-se-ia também dizer que em casos onde sequer há pretensão à capacidade ou direito a ela tampouco existem procedimentos convencionais aceitos. Elementos deste tipo poderiam ser normalmente rotulados de "circunstâncias atenuantes" ou ainda de " fato­ res redutores ou anulatórios da responsabilidade do agente". não é lavada ou usada a sério. Aproximo-me e. em meu ntender. A dificuldade. porém. Nossos proferi­ mentos performativos. o objetivo de excluir esta espécie de conside­ ração é que me levou a não apresentar um tipo de "infelicidade" . está no fato de não ter sido eu a pessoa escolhida para batizá-lo (quer o nome "Senhor Stalin" fosse ou não o escolhido. proclamo: "Batizo '8te navio com o nome de "Senhor Stalin" e para completar solto as amar­ ras. ohlll6m capacitado a batizar bebês. o que. sobretudo no sentido em que as formas de errar "se sobrl põem" e "se confundem" e a decisão entre elas acaba por ser "arbitrária" . isto vale para todo e qualquer pro ferimento . pois trata-se de uma mudança de rumo em cir­ cunstâncias especiais. ou que foi nulo. e pode-se considerar que o ato foi meramente um intento.

o casamento é indissolú­ vel". em prindp. chamamos a atenção para o fato de que. mas poderíamos com razão perguntar não só se "existir" pode ter algum sentido que não seja o de "ser aceito" . embora não seja sempre verdadeiro ou falso. como também se "estar (em geral) em uso" não deveria ser preferível a essas duas palavras. fio poúeria ser feito através da expressão "meus representantes o procuraQuando dizer é fazer 3 . ou não consiste. com­ plementar da primeira. até mesmo . dito p um marido à sua esposa. A seg uir. quiçá.2. sobre alguma coisa. ao mesmo tempo. faziam do ato pretendido um mero abuso de procedi­ mento. Nossa formulação desta regra contém as palavras "existir" e "aceito". o. ambos cristãos e não muçulmanos. L. e. Sustentei (1) que a noção de infelicidade aplicava-se a todos os atos cerimoniais e não apenas aos atos verbais.a. Por força de tal objeçã examinemos esta questão no que diz respeito à palavra "aceito". por detenninadas pessoas e em detennina­ das circunstâncias. (lI) ser aceito". tornando-se uma questão mais ou menos opcional a 11111­ neira de classificar um dctenninado exemplo particular. ao que parece. Austin A segunda parte do enunciado acima destina-se simplesmente a restrin­ gir a regra a casos que envolvem proferimentos. um d('<. e que estes são mais freqüentes do que se crê. Em filosofia. ao contrário. Se alguém emite um pro ferimento performativo. e se o pro ferimento classificado como um desacerto pelo fato de o procedimento invocado n6 ter sido aceito. Primeiro. Na primeira conferência caracterizamos. mas em fazer algo.por exemplo o código de honra que inclui o duelo. em dizer algo. Se assim for. Isto pode chegar ao ponto de se rejeitar todo um c6digo de procedi­ mento .o proferi­ mento performativo como aquela expressão lingüística que não consiste. não mais deveríamos dizer "(I) existir. adequadas para a invocacüo do procedimento específico referido. estabelecendo que as pessoas e as circunstâncias es­ pecíficas têm de ser.I. não sendo um relato. e a regra A. e assim sendo apre­ sentamos uma lista de seis desses tipos de infelicidades. i importante. admitimos neste país apenas um outro pro­ cedimento verbal ou não-verbal". O que poderíamos tomar como exemplo? Consideremos "Peço divórc io". com dois novos e brilhantes con­ ceitos com os quais podemos romper o berço da Realidade. e o ato inten­ cionado nulo e vão. aftmltlntl que deve haver um procedimento convenc ional aceito que tenha um detcrl1li nado efeito convencional. estarmos previamente armados deve­ ria significar estarmos prevenidos. o proferi­ mento está sempre sujeito à crítica. Na segunda. em um determinado caso. A. podendo ser infeliz. dois no­ vos patins em nossos pés. como tal. da Confusão. " não admitimos neste país nenhum procedimento para efetivar um divórcio. armamo-nos. Depois. Duas novas chaves em nossas mãos e.É3 111 Conferên cia Infelicidades: desacertos (llJ) quc di rcrcn tc:i IIllclicluadt. tas palavras por certas pessoas em certas circunstâncias. não sendo. tal procedimento devendo incluir o profcri­ mento de determinadas palavras. e que existem outras dimensões do que se pode razoavel­ mente chamar de "infelicidades" que afetam de modo geral a realização de atos cerimoniais e de proferimentos em geral. Assim. admiti (ll) que a lista não era completa.:1l pOUCIll combUlI1I se ou sobrepor-sc. ou. sem surtir qualquer efeito. de modo preliminar. enquanto que as demais. dimensões que são certamente 38 J. Neste caso poderia ser dito "não obstante ter pedido o divórcio.l Deve existir um procedimento convencionalmente aceito que p duz um efeito convencional. quatro eram de tal ordem que tomavam o pro ferimento um desacerto. estendi-me um pouco mais na discussão de algumas questões gerais acerca do conceito de infelicidade e em seu lugar propus um novo mapa para a área. trata-se presumivelmente não do falante . tal procedimento incluindo o proferimento de c~r. mas de uma pessoa que não o aceita (pelo menos na medida em que o falante fala a sério) . Dentre estas. cabe tomar alguns exemplos de infel icidades ou de infruçocs de nossas seis regras. ou. verdadeiro ou falso. quero lembrar-lhes a regra A. 01 não conseg uiu divorciar-se dela. em um paIS cristão. Assim. apenas.

por mais adequadas que sejam as circunstâncias eu posso ainda não estar jogando. Pode-se per­ guntar.er é fuer 41 .era correto e foi aceito. no exem­ plo acima.mo" que é equivalente a "eu o desafio". Por exemplo.2).I ou 8. o proferimento de determinadas pa­ lavras. até mesmo pelas pes­ soas envolvidas. ou código de procedi­ mento .pois -ser aceito não é uma circunstância. Em princípio. isto é. Podemos dizer que Jorge não foi escolhido seja por inexistir a convenção segundo a qual se pode escolher uma pessoa que não vai jogar. " Eu escolho" . em última análise. embora estivessem erradas as circuns­ tâncias de invocação e as pessoas que o invocaram. embora possamos preferir. (2) Para um procedimento ser aceito pressupõe-se aJgo mais do que () fato de ser considerado efetiva e genericamente usado. pois estaríamos sujeitos à velha objeção de termos derivado um "dever" de um "ser" '. poderfamos dizer tjue a dúvida é sobretudo quanto à natureza. ou defin i ~ão. mas não o aceita­ ríamos em outras circunstâncias. "Não recebo or­ dens suas" . como no caso do duelo. devendo pennanecer em princfpio aberta a poss ibilidade d qualquer pessoa vir a rejeitar qualquer procedimento. sobre se existe ou não. Quem o fizer estará. etc. ou com outras pessoas. 2 Muitos desses procedimentos e f6rmulas plausfveis seriam desvantajosos se reconhecidos. que a pessoa que vai dar a ordem tenha autoridade. uma das incertezas genéricas. como bem podemos objetar. por exemplo. e posso tornar explícito meu ato dizendo "eu o repreendo" .2 (ou mesmo na B. Importa. ou compreensão do procedimento que existe c e aceito. em uma reunião social. pois a palavra nos dá arrepios que estão na moda e que são em geral indubitavelmen te legfti ­ 1I10S. Esta situação geral é explorada na infeliz est6ria de Dom Quixote.2 (má aplicação): o procedimento . como decidimos esses ca­ sos particulares. Esta é. Podemos aqui fre­ qüentemente hesitar (como no exemplo dado acima) se uma infelicidade de­ veria ser enquadrada na classe A. com o jo­ gador que primeiro pegou a bola com as mãos e saiu correndo. Por exemplo. naturalmente.I ou na classe A. s6 funciona se o objeto do verbo for "um jogador" . "Você não tem o direito de me dar ordens" . levando o caso para a regra B. poderíamos dizer. com o código de honra. e se deveria ou não existir um contrato social.OCH 110 procedimento.ar tal tipo de coisa. o procedimento. as razões disso não nos importa aqui 2 . L. ainda. Poderíamos ainda dizer./. esclarecer: 40 . em teoria política. ao escolher um parceiro para um jogo. No caso de muitos procedimentos. e uma ordem SÓ funciona se o sujeito do verbo for "uma autoridade". ou dizer que não se trata de uma pessoa honrada. e Jorge retruca. (11) Há também o caso de procedimentos recentemente inaugurados.tal como no caso do rugby. Por outro lado. em sentido estrito. digo "Escolho Jorge". é duvidoso que "ser aceito" possa ser reduzido a "usualmente empregado" . Dar certo é essencial. ou. 1 Se objetamos a que se diga que há dúvida sobre se o procedimento "existe". subjacentes ao debate. aceitando fatos ou introduzindo definições. tácito ou explícito. Além do mais. acima de tudo. Esta porém é uma questão mais complexa. Jorge foi efetivamente escolhido? Sem dúvida a situação é infeliz. mediante um procedimento prévio. ou um procedimento específico para se realizar algo em particular.2. ou " Não aceito ordens suas quando você está tentando 'afirmar sua autoridade ' (que posso aceitar ou não) em uma ilha deserta" . tendo então autoridade. cabe perguntar o que se quer dizer com a sugestão de que um procedimento pode sequer existir. a despeito da terminologia suspeita. já não mais o são em geral ou mesmo por alguém. talvez não devêssemos permitir a f6rmula "Prometo que vou açoi tá-lo". no sentido de terem sido outrora aceitos. Consideremos um caso plau­ sível: dizer "você foi covarde" pode ser uma reprimenda ou um insulto. o que é diferente da questão de se um procedimento é aceito e por que o grupo é aceito ou não l . por exemplo. mas não posso fa­ zer o mesmo em relação ao insulto dizendo "eu o insulto" . Mas foi-m e dito que no auge da 6poca dos due los entre estudantes da Alemanha era costume que os memhros de um clube marchassem diante dos membros de um outro clube rival. dizendo: "Pro­ meto fazer o que você me ordenar". todos em fila.como aconte­ ce. sempre será possível que alguém o rejeite //lI totaLidode. O caso contrário se daria se vo­ cê fosse o capitão do navio. tomar parte em jogos . Alguém poderia se recusar a jogar com ela. Uma outra situação crítica seria a seguinte: em uma ilha deserta alguém pode dizer-me "Vá apanhar lenha" e eu respondo. Mas. (I) Há o caso de procedimentos que "não mais existem".rCIi~'cnlClllOS dctcnnillllt. "Não vou jogar".isto é. . de­ veríamos considerar que. e nós poderíamos simplesmente ig­ norá-lo.2 (e talvez de­ vêssemos reduzir a esta o exemplo anterior): o procedimento não foi com­ pletamente executado por ser necessário que o objeto do verbo "eu ordeno que" estabeleça. por exemplo. naturalmente. Mas igualmente possível são os casos em que aceitamos. Fica evidente que o caso é comparativamente simples se nunca admi­ tinnos um procedimento "desse" tipo. um procedimento para se reali­ . por mais que m. Al/stin (I) A respeito de B.mesmo aquele que fora por ela anteriormente aceito . Por vezes estes podem "dar certo" . Em segundo lugar. depen­ dendo das circunstâncias e das pessoas. seja porque na presente circunstância Jorge é um objeto inadequado para o procedimento de escolha. pouco importa. porém. não podemos redu­ zir as considerações acima a meras circunstâncias factuais. sujeito a sanções. ao que parece. considerando um caso do tipo A. dizendo depoi s cn da Quando dií'. uma solução a outra.

"prometo". É regra que a falta de explicação . e de sua definição "preci­ sa". na vida cotidiana porém. etc.I) a convenção não existe ou (A. se o falante está dando uma ordem (ou pretendendo dar uma ordem) ou se está simplesmente aconselhando. permaneçam vagos. é claro. A pessoa a quem disse " Estarei lá" não tomou meu proferimento como uma promessa.I ou B. embora não sem ambigüi­ dade. que implica em aplicar a lei e não em criá-la.2. estou realizando. Assim. Há ainda um outro tipo de caso. De qualquer forma. os casos que não se tem certeza sobre o alcance do procedimento. E diríamos sem hesitar ao descrever subseqüentemente o que ~ i g njfica ()IJcnuu que rÔ:'liCmo~. o que "Eu o insulto". ou qualquer coisa do tipo.O. Em todos estes casos temos performativos primitivos em contraste com per­ formativos explícitos. que em ambos 014 casos ele II()!I um a seu Oponente escolhido. Pois embora insultar seja um procedimento convencional. em que é mais ou menos arbitrá­ rio decidir se (A. Urmson) 42 J. Mas isto seria recomendar a perfeição. Ele veio a rejeitá-la mais tarde. pois.2) se as circunstâncias não são adequadas para a aplicação de uma convenção que sem dúvida existe. Mas é tão óbvio quanto importante que possamos ocasionalmente usar o proferimento "Vá" para fazer praticamente o mesmo que fazemos com o proferimento "Orde­ no-lhe que vá". este performativo não explícito seria normalmente classificado como B. prometer. mas de tipo especial. dizendo respeito à força do proferimento. isto é. sempre pennanece incerto quando usamos uma fórmula tão ine}C. doar. em oposição aos performativos meramente implfcitos. L. mas porque sentimos vagamente a presença de um impedimento. capaz de ser classificado de muitas maneiras. Posso batizar um cão. entretanto.o que realmente importa é que uma variedade es~cial de não-atuaçã03 pode ocorrer se alguém realmente diz "eu o insulto' . Por exemplo. Sempre ocorreram casos marginais ou difíceis em que nada pode servir na história prévia de um procedimento convencional. à medida que passava e de maneira muito polida. nas circunstâncias es­ pecíficas não aceitou o procedimento. ser de fato incerto. Não se trata aqui de que a audiência não tenha enten­ dido. o "precedente" que estabelecemos. Pod~ ríamos afmnar que só deve ser usado em circunstâncias que tornem total­ mente claro e sem ambigüidade em que acepção está sendo usado. e não a seu significado. Austin Quando dizer é fazer 43 . porém a esta altura o termo ainda aparece em suas anotações.pH~ cita quanto o mero imperativo "vá". de tal modo que de certa fonna não podemos deixar de entender o procedimento que al­ guém tenciona invocar quando diz "eu o insulto". para se decidir conclusivamente se este procedimento está ou não sendo cor­ retamente aplicado em um caso determinado. Do mesmo modo. contudo somos obrigados a " não-atuar" com ele. o procedi­ mento em questão pode não ter sido invocado de forma suficientemente ex­ plícita. A. mas pode não haver absolutamente nada nas circuns­ tâncias dadas que nos possibilite decidir se o proferimento é ou não perfor­ mativo. não apenas porque a convenção não é aceita. (NotadeJ. incenti­ vando. pode ser ou não uma advertência de perigo. palavras corretamente usadas para designar o ato que. "Beleidigung" . não há semelhante rigidez. Os juristas preferem geralmente a segunda alternativa. Isso I de. (No Direito. em dada situação sempre é possível considerá-lo uma coisa ou outra. Em outros termos. "Estarei lá" pode ser ou não uma promessa. cuja natureza pode não ser muito clara. "dôo". ao fazer tal proferimento. Muito mais comuns são. Todos os proferimentos performativos até agora abordados foram ins­ tâncias altamente desenvolvidas do tipo que mais tarde chamaremos de per­ formativos expltcitos. "Há um touro no campo".2) se não fosse na realidade completo. o. mas de que não tinha que entender .I de infeli­ cidades. inúmeras são as decisões difíceis como esta. Mesmo que fo sse uma fórmula perforrnativa. se o ad­ mitimos como racional? Ou isto seria um caso de não-atuação? Em Direito. no que concenlO ao simples proferi­ guem fez.2. É inerente à natureza de qualquer procedimento que os limites de sua aplicabilidade. entretanto. caso contrário. apostar. seria absolutamente vão.I ou B. com o argumento de que o ritual foi executado de maneira incompleta por mim. sobre que casos o procedimento co­ bre ou que variedades poderia vir a cobrir.por exem­ plo um legado feito de modo inexplícito . Poderíamos até mesmo assimilar isso a A. todos eles incluem ou têm início com palavras altamente significativas e inambíguas como "aposto". mento. acabamos por seguir. Assim. contra a aceitação do procedimento em geral. de uma maneira ou de outra. e que merece uma menção especial. e primordialmente verbal. isto é.2 As pessoas e circunstâncias particulares em um caso detenninado têm de ser adequadas à invocação do procedimento específico invocado 3 "Não-atuação" foi durante algum tempo a denominação dada por Austin à categoria A. Talvez eu não o tenha tornado como uma ordem ou me sentisse obri­ gado a tomá-lo como uma ordem.resulta em realização incorreta ou incompleta. sob a alegação de que o procedimento não foi projetado para ser usado a menos que resulte claro co­ mo esteja sendo usado. Poderíamos assimilar isso a um desempenho defeituoso ou incompleto (B.) Podería­ mos também assimilar isso a um mal-entendido (que ainda não estamos con­ siderando). pois posso estar simplesmente descreven­ do uma cena.por exemplo não tinha que to­ má-lo como uma ordem.

quando o objeto não é meu. se os padrinhos não forem enviados para marcar hora e lugar. pois. mas será assim na vida cotidiana? Dúvida semelhante surge quando um compromisso é assumido sem o assentimento da pessoa a quem cabe assurnJ-Io. Neste caso há uma falha no ritual. B. uma distinção imperfeita e alusiva. dos casos mais simples em que o objeto ou o "agente" é da espécie ou do tipo errado. mesmo com to­ da a cerimônia. "sem direito" e assim por diante.l e B. posição em contraste com status) poderemos classificar a infelicidade como um procedimento erroneamente executado e não como um procedi­ mento mal-aplicado. no Direito. assim também o batismo de um barco será abortivo caso se soltem as amarras antes de dizer "Lanço ao mar este navio" . é necessário. de outro modo. para que eu presenteie. A seguir.2. já que neste se admitem concessões. Os exemplos aqui são inúmeros. B. cabe discutir exemplos de B Uá anteriormente examinados) a que chamamos de más execuções. A questão aqui é a seguinte: até que ponto os atos podem ser Quando dizer 6 razer 45 J. seja da com­ preensão lenta por parte da audiência. O uso de fórmulas inexpU­ citas pode ser colocado nesta classe. Nestes casos. ou palavras equivalentes. quando mais de uma corrida estão marcadas. ou ainda em que se nomeia um cavalo côn­ sul. é uma questão de "incapacidade". ou "Eu prometo arrebentar a sua cara". ou quando é uma parte de meu cor­ po e dele não pode ser separado. toda tentativa de apostar através da expressão "Aposto seis cruzados" será abortiva. ou então se digo"Aposto que a corrida não se reali­ zará hoje" . não importando como a audiência o tenha considerado. ao tipo de infelicidade que cha­ mamos de más aplicações. Austin . se digo " minha ca­ sa" quando tenho duas. "objeto ou pessoa inadequado ou inapropriado" . Assim. isto é. "Eu o nomeio" . Por outro lado. Os exemplos mals claros d falhas se encontram no âmbito do Direito. Por exemplo. Por exemplo. Temos vários termos especiais para usar em diferentes tipos de casos: "ultra vires" .l O procedimento deve ser executado corretamente por todos os par­ ticipantes. A tentativa de inaugurar.l). Algo que causa particu lar dificuldade é determinar se é necessário o consensus ad idem quando dois lados estiverem envolvidos. ou quando eu não tenho o poder de nomeá-Ia. enquanto que nos demais casos a inadequação é apenas uma questão de incapacidade. etito quando a pessoa já foi nomeada. ou quando o nomeado é um cavalo. De fato. ou quando foi nomeada outra pessoa. há que se distin­ guir os casos em que um clérigo batiza a criança errada com o nome correto ou batiza uma criança com o nome de "Alberto" ao invés de "Alfredo". Assim. como nos da vida cotidiana. ou diante de um capitão de navio que não está no mar. que meu interlo­ cutor aceite o presente que lhe dou? Por certo. "incapacidade". admi­ te-se uma certa flexibilidade no procedimento. L.por exemplo. É essencial no caso assegurar-se de que houve uma compreensão correta. a menos que o parceiro di­ ga "Aceito".2 O procedimento deve ser executado de forma completa por todos os participantes. mesmo dizendo "Eu o desafio". mas importante . o termo "cir­ cunstâncias" pode ser tomado em tal extensão que acabe por abranger "a natureza" de todas as pessoas participantes. "Eu lhe dou . mas a chave venha a se quebrar na fechadura. Aqui encontramos casos de tropeço. além de tudo mais? Trata-se obviamente de um tópico que cai sob as regras de tipo B e não sob as regras de tipo. Nesta classe também entra o uso de fórmulas vagas e referências imprecisas . quando nenhuma nomeação ou qualquer procedimento anterior regularizam sua situação. A linha divisória entre "pessoas inadequadas" e "circunstâncias inade­ quadas" não é necessariamente rígida e inflexível.por exemplo. ". se votamos em um candidato antes que ele tenha sido indicado por seu partido. Mas devemos distinguir os casos em que a inadequação de pessoas. quando se tem um grau de parentesco com a noiva que impe­ de o casamento. mas o ato é abortivo. do que indevidamente autorizada. por exemplo.l já foram mencionadas..Passemos agora às violações de A. toda tentati­ va de casar-se é abortiva caso a noiva diga "Não". "Sim". se tomamos literalmente o caso da nomeação (isto é. nenhu­ ma atividade universitária jamais poderia ser executada. Mesmo dizendo "Sim". nas negociações formais o aceite é exigido. toda tentativa de duelar será abortiva. Evidentemente. nomes. Trata-se de uma questão distinta seja do mal-entendido. por sua vez.2 com A. O problema aqui consiste em determinar até que ponto devemos remontar à própria noção de " procedimento". mais quando a pessoa enquanto tal for inadequada. mas é executado incorretamente. Estas consistem no uso de. 44 Aqui se encontram os casos das rnlhus. por vezes surgem dúvidas sobre se algo mais é neces­ sário ou não. Aqui o procedimento é adequado às pessoas c às circunstâncias. Tentamos executar o procedimen­ to. Estamos inclinados a chamá-las de más invocações (A. Esta é. Na vida cotidiana nem sempre são tão claros. Algumas sobreposições de A. do caso em que se diz "Eu batizo esta criança com o nome de 2704". Os três últimos casos envolvem algo cujo defeito se encontra na espécie ou no tipo. objetos. etc. uma biblioteca será abortiva se eu disser " Inauguro esta bi­ blioteca" .. fórmulas erradas.

Existem claramente essas seis possibilidades de infelicidades .. ou o que levar em conta para considerá-lo complet04. Como questão geral de princípio. embora seja infeliz.2. Hudson (1971) The Is-Ought Question. então aquele que participa do procedimento. a antologia de textos orga­ nlzadn por W. do T. Não há como expor. e r . Dizemos então que o ato não é nulo. Macmi1lall. no caso oposto. que isto será para o seu bem. defini-las. Pode-se assim duvidar se a não-entrega do objeto que damos de presente torna incompleto o ato de presentear ou se constitui uma infelicidade de tipo . ou. ou ainda em que o procedimento era defeituoso ou incompletamente executado. insinceridades e infra­ ções. como ocorre com freqüência. Austin Quando dizer é fazer 47 . convenção inexistente em condições inadequadas? É desnecessário dizer. toda a com­ plexidade da situação que não se ajusta a nenhuma classificação usual. mas eu não.2: devem realmente conduzir-se desta maneira subseqüentemente.mesmo que por vezes seja duvidoso quais delas estejam em questão em um dado caso particular. Mas suponha­ mos que eu diga "Prometo enviá-lo para um convento". não há convenção que me autorize a prometer fazer algo em detrimento de meu interlocutor. sentimentos e intenções. esta confusão caracterizaria a chamada falácia naturalista. sem falar em discordâncias de opinião. ao contrário de meu interlocutor. O último caso é o dos tipos r . como as que podem ocorrer quando o agente oomete um simples erro factual. Pode parecer que estamos apenas desdizendo o que dissemos sobre nossas próprias regras. sentimentos e intenções. mas não se trata disso. Em relação às questões acima. Mais recentemente. I C f. em certos casos. e o invoca.1: Nos casos em que.1. Recordemos as definições: r . Assina­ lamos que. um tipo de infe­ licidade a que estão expostos todos os proferimentos. esta questão origi­ na-se de um trecho do Tratado da natureza humafUI (llJ. pelo menos para certos casos. p. Devemos evitar a todo custo a simplificação excessiva. ou as ações realizadas sob coação. deve de fato ter tais pensamentos. ou em que o procedimento era invocado em circunstâncias não apropriadas. quando ele pensa que isto será para o seu bem. isto é.unilaterais? Da mesma fonoa surge a questão sobre até que ponto pode um mo ser considerado terminado. e (b) os Enganos. mas na realidade a coisa se revela o contrário. Londres.) 4 46 J. e os participantes devem ter a intenção de se conduzirem de maneira adequada. esses tipos de infelicidade podem se sobrepor. (I) 1) onde David Hume critica a passagem de uma argumentação com base nas sentenças usando o verbo "ser" (is) para sentenças usando o ver­ bo "dever" (ought). e casos de não-cumprimento l . So­ bre a discução contemporânea em tomo desta questão veja-se sobretudo. casos em que não havia procedimento ou não havia procedimento aceito. . L. que sejam suficientemente sutis para dar conta destes casos. e em geral se sobrepõem. o procedimento visa às pessoas com seus pensamentos. Por exemplo. D. Austin refere-se à discussão filos6fica tradicional em tomo da distinção metaffsica entre valores (o domfnio dos deveres) e fatos (o domfnio da realidade natural). que poderia ser considerada a doença profissional dos fIlósofos se não fosse ela própria sua profIssão* . e. desnecessário é que não pode haver eSClr lha satisfatória entre tais alternativas. Nestas circunstâncias será que invoquei uma . tratam-se de (a) os Mal-entendidos. colocandlrme assim sob a obrigação de fazê-Io. 23 e nota de rodapé. ou mes­ mo quando ambos pensamos que será para o seu bem. lembraria que não estamos considerando as dimensões adicionais da infelicidade. ou visa à ins­ tauração de uma conduta correspondente por parte de algum dos parti­ cipantes. Poderíamos se quisés­ semos.. IV Conferência Infelicidades: maus usos Na conferência anterior consideramos casos de infelicidades. Segundo Hume. além disso. (N. quando penso. de fonna simples. ou quando há discordâncias sobre questões de fato. r .

dito sem que me sinta satisfeito. objetos. podem se corr. estes. não torna o ato nulo. (c) Mais difícil que os precedentes é o caso que voltaremos a discutir mais tarde. dito sem qualquer sentimento de solidariedade com a dor do interlocutor. ou seja. (b) "Eu o aconselho a fazer X" é um proferimento performativo. ou mesmo quando me sinto aborrecido. trata-se. simples­ mente. O melhor é introduzir aqui uma nova dimensão de crítica . na realidade. Exemplos deste tipo são: dizer "Inocente". que a pessoa tenha realizado o ato. Temos aqui algo de análogo com o que ocorre com a mentira. algo distinto de dizer simplesmente o que na realidade é fal­ 'so. não foram apropriados para o procedimento de presentear. Se alguns de nossos pensamentos forem incorretos (em oposição a in­ sinceros). L. Mas alguns comentários sobre tais noções fazem-o. ao dizer "Felicito-o".". de um ato feliz. Estes atos não são nulos. "pensamentos" e "inten­ ções" em uma acepção técnica. isto é. "Aposto". "Declaro-me inocente" ou "Eu o absolvo" . dito quando não tenho a intenção de pagar a aposta. mas pode torná-lo desculpável. estão dentro das regras e sendo assim o ato é realizado. quando creio que a pessoa é culpada. não é nulo. "Declaro guerra" . como dissemos. posso estar equivocado ao pensar assim. pensando que o feito não foi realizado por aquele que congratulei. se acreditamos sinceramente. embora eu creia que o seja. pensando que o ato foi mes­ mo praticado por aquele indivíduo. mas é realmente insincero. Con­ sideremos o caso de alguém que aconselha outra pessoa a fazer algo que na realidade não lhe seja benéfico.por exemplo. não seja meu.binar. Na realidade. 2. mas que surgem de um erro ou de um equívoco.com o fato de que as coisas realmente sejam como pensamos. Dei um conselho e dei um veredito. ainda que de forma insincera.) Mas os pensamentos constituem algo de muito interessante. dito quando não tenciono fazer o que prometi. ao realizar-se um ato de fala de tipo assertivo. dito sem pensar que o ato ou a atitude aconse­ lhados sejam os mais benéficos para o interlocutor. em geral. Por exemplo. al­ go de muito confuso. Este caso é distinto de (1). em oposição a errôneo. devemos distinguir entre o que sentimos e se o que sentimos é justifi­ cado. ou que este o considere benéfico. um elemento essen­ cial do mentir. ou quando o árbitro diz "Fora de campo". pessoas. quando dizemos "De. posto que aqui inexiste a tentação de pensar que o ato de aconselhar possa ser nulo ou anulável e. de certo modo. que o pensamento seja correto. "Meus pesâmes". devo realmente ter o sentimento ou o pensamento de que o outro deva ser felicitado? É um pensamento ou um sentimento de que algo é meritório que motiva a felicitação? No caso de prometer devo ter a intenção de cumprir o prometido.. Poderíamos alegar que se trata de urna "má explicação". Que um ato seja feliz ou bem-sucedido em todos os aspectos aqui analisados não o exime de crítica. em tais casos. mesmo que aquele que aconselhou pense que o seja. isto é a pior coisa que se pode dizer de um conselho. Austin (2) No que diz respeito aos pensamentos. As circunstâncias.diremos tratar-se de um mau conselho. inexiste a tentação de se pensar que seja insincero. não devemos confundir O que pensamos que as coisas sejam . que o mérito seja seu. isto pode causar Um? infelicidade de tipo diferente: (a) Posso presentear algo que. já que sen­ tindo o que sentia não deveria congratulá-lo nem apresentar-lhe meus pêsa­ mes. mas cabe não só con­ siderar factível o prometido como também pensar que o ato prometido resul­ tará talvez em algo benéfico para o interlocutor da promessa. Mas não é nossa intenção. Por exemplo. ou que tenha realizado a proeza . que tenha realizado o ato. do mesmo mo­ do. 48 J.claro o acusado culpado" ou.e necessários: (1) Suas distinções são tão imprecisas que tornam difícil distinguir os vários casos e. Pensamentos Exemplos em que não se têm os pensamentos requeridos são: "Eu o aconselho a . Com eles aparece a insinceridade. Intenções Exemplos em que não têm as intenções requeridas são: "Prometo". Voltaremos a isto. Sentimentos Exemplos em que não se têm os sentimentos requeridos seriam: "Eu o felicito". Quando di­ zemos "Culpado". po­ rém. Na verdade. Quando dizer 6 fnzcr 4 . ocu­ par-nos de todos os casos que poderiam ser chamados de infelicidades. o que geralmente ocorre. . isto é. ou dizer "Eu o congratulo". 3. Não estou usando as palavras "sentimento". que as circunstâncias. e entre ter a intenção de fazer algo e se o que tencionamos fazer é viá­ vel. "Culpado". dito quando não tenho a intenção de lutar. (De modo seme­ lhante. com base nas evidências. etc. Há a:nda urna classe de perfonnativos que chamo de vereditivos. pensar que alguém seja culpa­ do. em oposição a uma acepção imprecisa. por sua vez. Deve-se observar que o erro.1.

Por exemplo. no caso das fónnulas legais. como quando. suponhamos que eu dê um conselho a um antigo e este o siga. Mas há casos em que não são assim tão simples. mas 6 de presumjr-se que um certo tipo de intcnçOCN meNinO vugu/ol "~jam necessários. em lugar de di zer " Eu o farei" . Qual é porém o grau ou tipo de infelicidade envolvido se eu não vier a fazer o que disse? Para dar outro exemplo: quando digo "seja bem-vindo" . na realidade. por exemplo. não nos preocupam agora estes pro­ blemas urgentes. qual· quer dificuldade em relação ao conceito de insinceridade. se rogo a alguém que faça algo e este concorda.­ lhante. seja pennitido. Para muitos fins . ou então incorreto (no caso de um árbitro). que afIrma que certas coisas são de determinada forma. mas é necessário que no momento de dizer isto eu tenha a intenção cor­ respondente. o jogador vai para fora de campo. para meu ato não ser insincero. Assim. " Eu o fa­ rei". que certas condições devem ser satisfeitas para que os proferimentos possam ser felizes. Podem-se fazer semelhantes distinções quanto à intenção requerida quando se trata de completar uma ação presente. que estou fazendo (ou que fiz) algo. sua decisão é definitiva. estarei fazendo algo fora de ordem? Provavelmente sim. estou efetivamente dando boas- vindas. O ato não é nulo. Nestes últimos. o que pode não ser uma mera questão de opinião. é difícil determinar a relação en­ tre: " Eu te dou isto" . Mas há uma teo­ d ~n c i a constante a esclarecer mais esta ordem de coisas. (3) Nos casos das intenções também aparecem dificuldades especiais: (a) Já notamos a dificuldade em definir o que constitui uma ação sub:­ seqüente distintamente do que constitui meramente o ato de completar ou consumar uma mesma ação. Devo agora ocupar-me de certas coisas importantes e que devem ser verdadeiras para que o ato seja feliz. enquanto que outras não o sejam. Por exemplo. Isto nos compromete a dizer que um determinado proferimento performativo para ser reliz exige que certas sentenças declarativas sejam verdadeiras. etc. posso expressar minha intenção dizendo simplesmente . Por exemplo. O veredito pode ser injustificado (no caso de um júri). Mas ainda assim não se trata de infelicidade em nenhum dos sentidos que já vimos. Em que medida sou obrigado a não me comportar desta for· IllU '? Ou será que a questão se red uz simplesmente a " não se espera" que al­ uém se conduza assim? Ou será ainda que faz parte do pedir-e-dar cons"­ lhos tomar fora de ordem tal conduta subseqüente? Ou . Espero que seja assim.por exemplo. isto não levanta. que fiz inúmeras coisas. mas logo a seguir eu o censure por haver feito o 'lu lhe aconsel hei. Austin S1 . mas as que abordarei parecerão maçantes e triviais. pois queremos simplesmente distinguir as várias fonnas de insinceridade. Nem se trata de um ato insincero. para usar o jargão técnico. De maneira geral. seja tomando-o obrigatório. Mas o que acontece se a pessoa fi lJUCIlI di ssc isto passe fi se comportar rudemente? Ou . no sentido de o "ato" ser simplesmente intencionado ou pretendido. devemos examinar: (1) quais as sentenças declarativas que têm de ser verdadeiras? E se (2) podemos dizer algo de interesse sobre a relação entre estas senten­ ças declarativas e o proferimento perfonnativo. Contudo. Para evitar. (b) Distinguimos sumariamente os casos em que uma detenninada in­ tenção é necessária de casos mais particulares. em que é necessário algo mais para levar a cabo um certo comportamento. sua palavra é definitiva. Mas podemos estar diante de um " mau" veredito. mas isto é difere nte de dizer o proferimento " Prometo" seja uma sentença declarativa verdadeira ou fa lsa. isto equivale a dizer. "Eu aceito esta mulher. provavelmente. Lembrem-se de que na I Conferência dissemos que. entre estas pedir desculpas (ou ter pedido desculpas). se ao dizer " Peço-lhe desculpas" estou realmente pedin­ do desculpas e sobre isto não paira a menor dúvida. etc. quando o árbitro diz "Fora de campo". " ou " Prometo" . porque se o árbitro diz " Fora de campo". sem dúvida. o ato de bati­ zar. Quando dlzer é fazer SO J. e a segUÍl' eu protes­ to.. L." e a consumação da cerimônia. digo..De certa fonna. pelo menos as infelicidades que já consideramos. embora a distinção seja relativamente fácil no caso da promessa. este objetivo se alcança com mais felicidade. Com isso concluímos as observações referentes às diversas maneiras pelas quais os proferimentos perfonnativos podem ser infelizes. Não me ocuparei de todas. e dar a alguém a posse de um objeto. porém. "Tenho a intenção de . o procedi­ mento destina-se a introduzir este comportamento adicional. Desta forma temos aqui uma situa­ ção muito infeliz. o fundamental é que o procedimento seja correto. então. "Vendo-Ihe isto" e completar a venda. muitas coisas estão implicadas ao dizer "Prometo". de maneira sem". em princípio. um resultado trivial de nossas investigações. Em si mes­ mo. Para recorrer a tal procedimento é fundamental fazer com que certa con­ duta subseqüente seja correta.Contudo. Exemplos deste procedimento mais especializado seriam o compromisso de realizar uma ação e. e não falso . pois isto significa que já se toma­ ram " 6bvias" a esta altura. de algum modo. então: (1) é verdadeiro. isto é.

l e A. a negação do termo "sobre". Isto significa que a sentença A implica logicamente a sentença B. no sentido precisamente de que não é p oss(vel que A seja ver­ dadeira e B falsa (veja-se C. entretanto. a verdade do proferimento constatativo "ele está correndo" de­ pende do fato de ele estar correndo.. aliás.que. Procee­ 'illIgs of the Aristotelian SocietyJ. em particular as do tipo especificado nas regras A. rigor. que foram satisfeitas também outras con­ dições desse tipo. /\. a declaração ou proferimento constatativo . Nestes casos. "im­ plicar".(2) é verdadeiro. Isto. mas que também poderia ser traduzido por "acarreta" ou "segue-se". ou "dar a entender" é mais fraco. ao formular conjunções de decla­ rações "factuais" . por exemplo. E . "Fulano deu a entender que já o sabia". introduzido por G. não se trata. Pode-se considerar que "todos os homens enrubescem" implica lo­ leamente "alguns homens enrubescem" .E. ou "Você deu a entender que sabia algo (o que é diferente de dizer simplesmente que acreditava em algo"). a distinção entre fazer e dizer. sendo uma a negação da outra. Implicação O fato de dizer "o gato está sobre o tapete" implica na acepção de O. e não falso. e isto torna verdadeira a declaração de que ele está correndo. L. Não se pode dizer que " todos os homens en­ rubescem". Quando dizer é fazer 53 . Austin 1. Langford. O tercei ro exemplo seria um caso legftimo de implicação lógica. embora isso possa ser feito. de implicação 16gica. por definição. Impllcaçüo A declaração "Todos os homens enrubescem" implica logicruncnte qu " alguns homens enrubescem". Não podemos dizer "o gato está sobre o tapete. contrário do performativo. • Austin distingue três tipos de relação entre sentenças: entails. lermo "entail". já que a implicação se dó em virtude do significado dos termos "sobre" e "sob". por exemplo. de um recurso 11 noção de anal iLi ­ cidade. que certas condições foram satisfeitas. independentemente de quais sejam esses indivíduos e do qu BO a firma. e não falso. independentemente de seus signi ficados. Esta é uma das maneiras pelas quais podemos justificar a distinção entre performativo e constatativo­ isto é. que é uma relação complicada e exige definições e explicações. e não falso. já que esta se dá em virtude apenas da relação de co njunçll. em particular a condição de estar pensando em algo. sendo a pri meira verdadeira. Refiro-me à descoberta de que as maneiras pelas quais po­ demos errar. já que a asserção implica a crença no asserido. Tomemos em primeiro lugar a seguinte indagação: (1) qual é a relação entre o proferimento "Peço-lhe desculpas" e o fato de estar pedindo descul­ pas? Importa perceber que isto é diferente da relação entre "estou correndo" e o fato de estar correndo. Com efeito. foi exata­ mente o que estávamos explicando. que me comprometi a fazer algo subse­ qüentemente. a primeira sentença implica logicamente a contraditória da segunda. que não apresenta nenhum sentido especial e pode ser traduzido pe lo termo correspondente em português. 52 J. " Externai and Internai Relations". 1932). já que o que se afirma de todos os indivíduos de uma espé­ cie deve-se afirmar também de alguns. o uso comum de "implicar" . quando dizemos. 3. isto nem sempre aparece tão marcado. na realidade. Por outro lado. O valor de verdade de "eu creio que o gato allÓ sobre o tapete" não é determinado pelo valor de verdade de "o gato está sobre o tapete". mas que alguns homens não o fazem. repr. isto é. vemos que Austi n não interpreta a implicnçtlo lógica como meramente formal. N. (3) é verdadeiro. Lewis e C. mas isto nem sempre está marcado em todos os idiomas. estritamente falando. e pressupposes. I. A diferença é marcada em inglês pelo uso do presente contínuo nas fórmulas performativas. o que contraria o caráter formal da relaçllo (abstração feita do conteúdo significativo). du cre nça no asserido não imp lica a negação do asserido. I mplicação é uma noção mais fraca. Moore**. Pressuposição "Todos os fIlhos de João são calvos" pressupõe que João tenha filhos. "pressupõe". :nlre duas sentenças. Logo. Symbolic Logic. Mome (1919. U Austin re fere-se à di scussão da noção dc imp licação por G. ou que " o gato está sob o tapete e não está sobre o tapete". Mesmo em inglês. é verdadeiro ou falso. Estritamente falando. já que pode inexistir a forma contínua do verbo. /\. ou caso não se trate de um mero informe. e tampouco se pode ruzer que " o gato está sob o tapete e sobre o tapete". já que o termo "sob" é. entre "ele está correndo" e o fato de ele estar correndo. aliás.. e (4) é verdadeiro. mas em virtude apenas de suafoT71UlI6gica. 2. Moom no arti go citado na nota ael· ma. York. se não) é possível que A seja verdadeira o D falsa. H. a segunda sentença não pode ser ·falsa. no sentido de " dar a entender" . que traduzimos por "implica logica­ mente". ao . Não pretendo expor a questão de modo demasiadamente técnico. na realidade. E. que creio que o gato está de fato ali. E a impU ­ cução lógica é uma relação necessária. A relação de implicação lógica é formal no sentido de que se dá entre duas sentenças inde­ pendentemente de seu conteúdo significativo. enquanto que no outro caso é a felicida­ de do performativo "Peço-lhe desculpas" que torna um fato meu. mas não creio nisso" .isto é. (Este não é. entretanto. Poderíamos dizer que correr. falar de modo abusivo. já foi explicado em que sentido " Peço-lhe des­ culpas" implica a verdade de cada uma destas coisas. mas a negllçll. Examinaremos a seguir três das muitas maneiras pelas quais uma decla­ ração implica a verdade de outras declarações. se examinamos os exemplos dados. T rata-se. No segund xemplo.. os demais são descobertas recentes. e meu êxito quanto a pedir desculpas depende da felicidade do proferimento performativo "Peço-Ihe desculpas".:senta a noção de implicação lógica ou conseqüência lógica. implies.2. Um dos temas que pretendo considerar é conhecido de longa data. que traduzi­ mos por "implica". pedido de desculpas. é o fato de alguém estar correndo. Mas o importante é comparar estas "im­ plicações" dos proferimentos performativos com descobertas relativamente recentes sobre as "implicações" de um tipo de proferimento privilegiado e contrastante . são mais numerosas que a mera contradição.

então "o tapete não está sob o gato" implica logicamente que "o gato não está sobre o tapete". mas não tenho a intenção de cumprir o prometido" paralelo a "isto é assim. Austin não calvos" press upõem iguuhnclltc que Jotw tenhu filho:. .Não podemos dizer " Todos os fIlhos de João são calvos. carecerá de significado? Não é bem disso que se trata. Se as sentenças verdadeiras derivam sua verdade e portanto. Se o fato de dizer que o gato está sobre o ta­ pete implica que creio que isto realmente ocorre. Il Con­ ferência. seu signl fi cu­ do. Poderíamos ter aqui usado a fórmula da pressuposição. Pressupõe Também aqui a situação é distinta da implicação lógica. 35.p. 3. A referência é necessária tanto para a verdade quanto para a falsi­ dade. Poderíamos dizer que a fórmula "Aceito esta . sem terem sido satisfeitas certas condições relativas a A. nesta concepção tradicional. já que não correspondem à realidade. etc. a crença. Q uando dizer é fazer SS ..q implica logicamente . de início. não podemos dizer "pode ocorrer que o gato esteja sobre o tapete e ao mesmo tempo que o tapete não esteja sob o gato" . mesmo porque são perfeitamente compatíveis. qual seria o significado das sentenças fal slIs? Aparentemente não teriam significado.i . como "Lmplica" ou "contradição". Comparemos isto com o nosso exemplo de infelicidade quando dizemos "Batizo. 2. Direi aqui que o "proferimento é va­ zio" . e acrescentar "mas. disparatada. por existir entre eles sensíveis diferenças. L. não creio nis­ so" . Trata-se do velho problema filos6fico da referência do falso. Se "o gato está sobre o tapete" implica logicamente que "o tapete está sob o ga­ to". mesmo no caso das sem­ tenças falsas. etc. Não se trata de uma sentença sem significado. tanto " os mhos de João são calvos" como "os fIlhos de João 54 _ J. Veja-se a este respeito a discussão de B. a seguir. não é verdade que o fato de João não ter fIlhos pressuponha que seus ft. Em outras palavras. Em todos esses casos há o sentimento comum de se estar cometendo um abuso. " implicar" e. Dizer "Prometo" sem ter a intenção correspondente é análogo a dizer "isto é assim" sem se crer de fato no que se diz. " pressu­ por" : Implicar Suponhamos que eu diga "o gato sobre o tapete" quando não creio d fato que o gato esteja sobre o tapete. Austin considera. da p. Se "os fIlhos de João são calvos" pressupõe que João tenha fIlhos. que já aparece no Sofista de Platlio. O que não é possível aqui é dizer "o gato está sobre o tapete". Assim sendo. A asserção implica a crença no que foi asserido. " . que tanto "o gato está sobre o tapete" quanto "o guto nuo está sobre o tape­ te" impliquem logicamente que o gato esteja sob o tapele. O que devemos dizer da de­ claração "Todos os ftlhos de João são calvos" quando João não tem fIlhos? Atualmente é costume dizer que a declaração não é falsa por carecer de refe­ rência* . no caso da implica­ ção lógica. gramaticalmente mal construí­ da. O que se poderia dizer então? Trata-s claramente de um caso de insinceridade. Pressuposição Consideremos os casos de pressuposição. Pode ocorrer que o gato esteja sobre o tapete eu não acredite nisso. em relação a A. do t. lIS sentenças falsas não são sem signi ficado. MUII nfio ocon·... Diz-se então que "a questão da verdade ou da falsidade não se aplica neste caso". n. embora não possamos englobá-los sob um termo geral.". Porém.Implicação Lógica Se p implica logicamente q. de sua relação de correspondência com a realidade. a referência indispensável. aqui a infelici­ dade está afetando uma declaração. ou a verdade de uma proposição é inconsis­ tente com a verdade da outra. exatamente da mesma maneira em que a infelicidade afeta "Prometo que . incompleta. Neste caso. mas nos casos de declarações tam­ bém existe uma pressuposição paralela a A.i e A. a verdade de uma proposição implica logicamente a verdade da outra. mas eu não o creio" . Os principais tópicos a este respeito são: quantas são essas maneiras? Por que constituem um abuso lingüístico? E em que consiste tal abuso? Contrastemos estes três tópicos apelando para os procedimentos que nos são familiares: 1 . mas isto é o tipo de coisa (como indica o provérbio inglês) que nos passa despercebi­ da. Não nos ocuparemos aqui da inconsistência entre estas proposições. quando digo isto e não tenho a inten­ ção. "Prometo. mas todos os seus fIlhos são calvos".lhos não sejam calvos. obviarncnto. então . Além disso. caso não tivessem significado não' se poderia sequer deter­ minar sua falsidade. Russell sobre a questllo da referência. Mas. Há outras maneiras de se cometer abusos lingüísticos além da contradi­ ção.2 (especialmente. Há muitas maneiras de se matar um gato além de afogá-lo na manteiga.. Implicação Aqui o caso é diferente. portanto. mas João não tem filhos " ou "João não tem fIlhos.. A insinceridade de uma asserção é a mesma que a de uma promessa. o fato de eu não crer que o gato esteja sobre o tapete não implica (na linguagem usual) que o gato não esteja sobre o tapete. talvez.I). Consideremos novamente.

~ v C(JI~feri!llci([ Critérios possíveis de performativos Ao final da conferência anterior. 3) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz. e assim podemos ir as­ similando o proferimento supostamente constatativo ao perfonnativo. Do mesmo modo. como tradicionalmente se tem feito. nos casos de implicação lógica. assim como se p implica logicamente q então . para explicar o que pode dar errado com as declarações. é semelhante a dizer simultaneamente "é" e "não é" . emerge progressivamente da lógica. Não é exatamente o mesmo. entre a segunda dessas conexões e o fenômeno que. 2) Para que o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" seja feliz. e como um e outro podem dar errado. anulamos ou neutralizamos o procedimento). o que digo não chega a ser uma declaração. a declaração de que dão certas outras condições . e talvez mesmo identida­ de. Devemos considerar de modo global a situação em que se fez o proferimento . no caso das declara­ ções opostas aos perfonnativos. identificamos e contrastamos algo. foi denominado "pressuposição". mas não devo fazer o que prometo" é semelhante a "é e não é"..2 . A pressuposição e a implicação são duas maneiras pelas quais a verdade de uma declaração pode estar ligar de modo Quando dizer é fazer 57 56 J. no caso das declarações. Assim co­ mo o propósito de uma asserção se frustra devido a uma contradição interna (quando. os contratuais. o ato de fala em sua totali­ dade . do mesmo modo "não devo" implica logicamente "não prometo" . o propósito de um contrato também se frus.mulher. como no caso anterior.principalmente as da Regra A.principalmente as das Regras A. Trata-se de um procedimento que anula a si próprio. são felizes. é às vezes chamado (incor­ retamente a meu ver) "implicação". Dizer "Prometo" sem realizar o ato prometido. Esta expressão me compromete. não devemos restringir nossa atenção à proposição em questão. "Prometo. por exemplo.l . estávamos considerando o problema das relações entre os pro ferimentos perfonnativos e as declarações de vários tipos que seguramente são verdadeiras ou falsas.isto é. Diss também que há semelhança ou talvez identidade entre a terceira dessas cone­ xões e o fenômeno que. Concluindo.tem que ser verdadeira. a questão de se um conselho é bom ou mal não se coloca.q implica logicamente . Em casos especiais. " pressupõe inúmeras coisas. L. pode ocorrer.. na totalidade da situação da fala. Um contrato não chega a se configurar se a referência falhar ou se for ambígua. se quem pretende aconselhar não estiver em condições de fazê-lo. Mencionamos como parti­ cularmente notáveis quatro dessas conexões: 1) Se o proferimento perfonnativo "Peço desculpas" é feliz. Se tais coisas nüo ocorrem.p. Disse que parecia haver alguma semelhança. mas ao mesmo tempo. Além disso. tra se disser "prometo. Uma asserção nos compromete com outra asserção e uma realização nos compromete com outra realização. que a manei­ ra pela qual uma sentença implica outra seja semelhante à maneira pela qual " Prometo" implica logicamente 'Devo". mas há uma semelhança entre ambos os casos. 4) Se certos tipos de proferimentos perfonnativos. a declaração de que se dão certas condições . então a declaração de que estou pedindo desculpas é verdadeira.I e A. Finalmente. seja ela qual for. Austin .para que se possa perceber o paralelismo que há entre a declaração e o proferimento perfonnativo. a fórmula será infeliz ou nula.. mas não devo fazer o prometido" .tem que ser verdadeira. anula o compromisso. então são verdadeiras as declarações que afirmam que devo ou não devo fazer algo subseqüentemente. ao mesmo tempo. a importância do ato de fala total.

"Dou". Portanto. deveríamos naturalmente indagar primeiro se existe algum critério gramatical (ou lexi­ cográfico) para distinguir os proferimentos performativos. tais como "batizo". Contraste-se o fato de que estou pedindo desculpas. mas usado para fazer algo ou ao fazer algo. Os exemplos são: "Batizo". contudo. I run (corro). não é análogo ao tem­ po futuro. Há razões bastante óbvias . nem infonna. mas não em nenhuma das maneiras que até agora caracterizamos como tipos de infelicidades.não digo até que ponto isto pode ser feito satisfatoriamen­ te .nem que foi insincera. a nota da p. Só as uso no sentido gramatical conhecido. Também se pode dizer que "não tenho a obrigação de fazer p" pode implicar logicamente "não rrometi fazer p" . Porque. como de alguma fonna ocorre no caso dos performativos.de modo a parecer uma relação de implicação lógica entre declara­ ções. nos casos em que é realmente "indicativo".seja lá qual seja . tal como a verdade de "estou pedindo desculpas" depende de que "peço desculpas" seja um per­ fonnativo feliz. geralmente não tem nada a ver com descrever (e nem mesmo com indicar) o que estou fazendo no momento. como pode ocorrer com uma declaração. para as distinções entre implicação.Austin Quando dizer é fazer 59 . "Prome­ to". Veremos em breve que havia boas razões para esta pequena astúcia. Neste caso não diríamos que a advertência foi nula . todos com verbos na primeira pessoa do singular do pre­ sente do indicativo da voz ativa. pelo menos de alguma maneira. de que o touro está por atacar meu interlocutor. sem dúvida. Se o touro não está por fazer isso. a este respeito. como coisa dis­ tinta de "presente contínuo". que dar mais um passo à frente no deserto da precisão comparativa. Temos. etc. como vimos. enquanto que o inglês tem). no de descrever um certo estado de coisas ou acontecimentos. Mas o uso da primeira pessoa singular do chamado presente do indica­ tivo da voz ativa é um ingrediente essencial de todo proferimento performa- 58 J. de informar acerca disso ou relatar o que se pas­ sou. cuja verdade pode depender de que "João está correndo" seja um perfonnativo feliz. porque para começar com as declarações o constatativo "João está correndo" está relacionado com a declaração "estou afinnando que João está correndo" . cuja verda­ de depende do fato de que João esteja correndo. Jmpllcaçllo lógica e pressuposição. Tomemos em segundo lugar os perfonnativos.que fazem com que este seja o tipo mais comum de performativo explícito. mas não estou obrigado a fazê-lo" pode certamente parecer mais com uma autocontradição . por exemplo I run ("corro") com a expressão latina "CUlCO" que geralmente se deveria traduzir em inglês por I am running ("estou corren­ do"). O latim não tem dois tempos. se é este o caso. em particular. Devemos perguntar: há alguma forma precisa para distinguir o proferimento eonstatativo do perfonnativo? E. considerações de felicidade e infelicidade podem infectar as declarações (ou algumas delas) e as considerações de falsidade e verdade podem infectar per­ formativos (ou alguns de les).' simplesmente para referir-nos à forma gramatical inglesa I name (batizo). (Este erro na terminologia deve-se ao hto de se assimilar. que des­ creve o que fiz no passado. então certamente não se trata de "indica­ tivo" no sentido dos gramáticos.L. mas que apenas utilizou-se de uma fonna de advertência . e sim genuinamente "presente" . ~ Veja-se. do T.importante com a verdade de outra. e poderíamos pensar que a fonna em que um determinado p me compromete a um detenninado q não difere da maneira em que prome­ ter fa zer X me compromete a fazer X. então. que descreve o que farei no futuro. ou ao tempo passado.que quem tentou fazê-la não fonnulou uma advertência. com o caso da declaração " João está correndo" . que depende de que o perfonnativo "peço descul­ pas" seja feliz.do que "pro­ meto lazer X mas não tenho a intenção de fazê-lo". o "presente". E quando não é hábito. ou melhor. (N. Por exemplo. o perfonnativo não descreve. É de fato mais comum que o presente indique um hábito. o profe­ rimento "previno-o de que o touro está por atacá-lo" se encontra aberto a criticas. 53 da conferência anterior. também. ex iste o perigo de que se anule a distinção entre proferimentos constatativos c pcrlonnativos que tentamos estabelecer de início. fortalecer-nos na convicção de que a distinção é de­ finitiva voltando à velha idéia de que o proferimento constatativo é verdadei­ ro ou falso e que o perfonnativo é feliz ou infeliz. sem que se dê o caso de que uma impli­ que logicamente a outra no único sentido que levam em conta as pessoas ob­ secadas pela 16gica*. Mas talvez este contraste não seja tão seguro. Note-se que "presente" e "indicativo" não são denominações cor­ retas (sem falar nas implicações equívocas de "voz ativa").) Sentir-nos-íamos muito mais inclinudos u dilcr lluO ti udvcrtêncla foi falsa. isto é. Usamos a expressão "presente do in­ dicativo. "Bebo cerve­ ja". Mas não quero dizer que haja ou não um paralelo aqui: só quero dizer que pelo menos nos outros dois casos há um paralelo bem próximo. como coisa distinta de "estou bebendo cerveja" . Relacionado ao perfonnativo (suponho que o seja) "previno-o de que o touro está por atacá-lo" está o fato. equivocada. Até agora só consideramos um pequeno número de exemplos clássicos de performativos.com as quais me ocuparei rapida­ mente . então. Apenas a quarta e última dessas conexões pode ser apresentada . " Prometo fazer X. o que sugere que. "Aposto". Podemos.

Além disso. poderíamos pensar que certas palavras estão aptas a servir de teste do proferimento perfonnativo. "Advertem-se os passageiros de que só devem cruzar a via férrea pela ponte" . por exemplo. Por exemplo. determinar quando o verbo está no imperativo e quando não está. Ca­ racteriza-se. é óbvio que quem usa a expressão deve ser o que realiza a ação. Isso para não mencionar os casos em que só temos uma oração truncada. Há exceções mais importantes e óbvias. e em vez de "Prometo fazer X". poderia ser usado para descrever o que normalmente acontece: " ao aproximar-se do túnel. PrefIro voltar atrás por um instante e ver se há ou não uma boa razão por detrás de nossa preferência inicial pelos verbos no chamado " presente indicativo da voz ativa". e qu poderíamos fazer o teste por meio do vocabulário. e em ve de "touro perigoso" podemos escrever "touro".que erroneamente apresentamos em termos puramente gramaticais . o verbo pode ser "impessoal" em casos que levam a for­ ma da voz passiva. Isso nos leva a um impasse no que diz respeito a um critério simples e único fundado na gramática ou no vocabulário.em favor da "primeira pessoa". pelo menos na linguagem escrita. por exemplo. Isto serve para indicar que o proferimento (escrito) da sentença é. ser mencionada ou referida. por exemplo. (2) Em vez de "você está autorizado a fazer X" . Portanto. problemas nos quais não quero me en­ volver. um performativo. " autorizado".UvO? Não 6 necessário perder tempo com as exceçOes evidentes constituídas pelo uso da primeira pessoa do plural: " prometemos". como se costuma dizer. que deve aparecer. Austin nos que poJ":1"ÍlUIlOS refutar até 11 regra tJuc govclllu () uso da VO'l. "impedido" (em futebol). em vez de dizer "Acuso-o de ter feito X" posso simplesmente dizer "você fez X" . Por exemplo: 3) "Pela presente notifica-se que os intrusos serão processados.. etc. a pessoa e a voz não são essenciais. Tais palavras poderiam ser " impedido". Assim. etc. etc. mas isso nos levaria a en­ frentar muitos problemas. como coisa distinta da " gramática".. (2) Em locuções tais como "você prometeu" . em caráter oficial." Este tipo geralmente aparece em circunstâncias formais ou legais. pela inserção freqüente e tal­ vez até constante da expressão "pela presente". O modo não serve. fora de qualquer dúvida. etc. ou " Fo­ ra" quando ordeno a alguém que saia do jogo. L. pare­ 60 . advertem-se os passageiros que não devem colo­ car a cabeça fora da janela". "Pela presente" é um critério útil de que o proferimento é performativo. "você autoriza" . Em vez de "lJu o dcc)oro em impcdlmen to" dizemos " Você está impedido". Dissemos que a idéia de um proferimento performativo exigia que a expressão consistisse na realização de uma ação (ou que fizesse parte dessa realização).. Mas talvez não seja impossf­ vel produzir um critério complexo. quando não tenho nenhum direito a fazer es­ se tipo de pronunciamento. As ações só podem ser realizadas por pessoas. ou pelo menos um conjunto de critérios. podemos dizer "Farei X". No caso particular de algumas palavras especiais que têm aparência de perfonnativos. apresenta o verbo na segunda e tercei­ ra pessoas (singular ou plural) e na voz passiva. o instrumento que leva a cabo o ato de "advertir". Alguns exemplos desse tipo são: 1) "Pela presente está o senhor autorizado a pagar. como. como. Já nos referimos a algumas. simples ou complexos. Um tipo muito comum e importante do que poderíamos pensar ser. lI. como quando aceito uma aposta dizendo simplesmente " Está feito". Do mes­ mo modo posso dizer "você foi culpado" ou "você estava impedido" ou mesmo " você estava em falta". O tempo também não serve. podemos dizer "Você pode fazer X" . "Pode sair". Daí nosso sentimento justificável . que tomem em consideração tanto a gramática quanto o vocabulário. " 2) "Adverte-se aos passageiros que devem cruzar a via férrea somente pela ponte. e inclusive em casos em que não há verbo explícito algum. a palavra ocorre em um uso que não é performativo. posso pennitir que alguém saia dizendo simplesmente. porque posso ordenar alguém a virar à direita di­ zendo-lhe simplesmente "Vire à direita" e não "Ordeno-Ihe que vire à di­ reita". "falta"." Na realidade. " perigoso". Contudo. e. co­ mo ao dizer apenas "Culpado" quando considero a pessoa culpada. " prl meto".1. porque. e em vez de " Aconselho-o (ou recomendo-lhe) que vire à direita" posso dizer " Eu viraria à direita.. assim: (1) Em lugar de "esquina perigosa" podemos ter "esquina". mas isso também não servirá. Podemos ter a palavra operacional sem que o proferimento seja per­ formativo. se nos afastamos desses proferimentos performativos explí­ citos e altamente formais. porque: L Podemos ter o perfonnativo sem as palavras operacionais. um dos critérios poderia ser que toda expressão com o verbo no modo imperativo é performativa. "autorizar". " aceitamos" . se quem profere a expressão está Quando dizer é fazer 61 . se fosse você" . etc. assim: (1) Em futebol um espectador pode dizer "foi fora mesmo". ativu ou passiva que demos anterionnente. temos de reconhecer que o modo e o tempo (até aqui mantido em oposição a pessoa e voz) falham como critérios absolutos. em nossos ca­ sos. Se tal expressão não é in­ serida.

tom que estar fa:lcnuo algo donde nossa prcfcr~ncia. Além do mais. Mas se profuo as palavras "Ele aposta". mais uma vez. assim chamada.é que se torna explícita esta característica implícita da situação lingüística.atuando. constituem o pro ferimento do performativo "aposto". na fórmula verbal da expressão não há uma referência à pes­ & que a profere e assim realiza o ato. todas elas com a assinatura aposta . então "far-se-á referência" à dita pessoa por meio de uma dessas fórmulas : (a) Nas expressões orais.. mas traz seus revezes). em cada caso. os verbos que. proferiu) as palavras "Eu aposto"..e também das formas na voz passiva (na se­ gunda e terceira pessoas e quando o verbo é "impessoal"). por exemplo.. parecem ser especialmente performativos servem à fmalidade especial de ex­ plicitar (o que não é o mesmo que relatar ou descrever) qual é a ação precisa que foi realizada ao proferir-se a expressão. Assim. quais são os verbos com que se pode fazer isso? Se o performativo é expandido. Tomemos como exemplo os usos de "aposto" contrastados com o uso desse verbo em outro tempo e em outra pessoa. Austin "fora" equivale a "Eu decluro. a esta altura. o que podemos chamar de origem do proferimento. em base do vocabulário. assim. pelo presente gramatical e pela voz ativa gramatical do verbo. e não devemos esquecer que es­ tamos procurando um critério para distinguir as declarações dos performati­ vos. levando em conta que todas as outras formas devem ser reduzidas n esta. constitui um uso peculiar e especial. tais como "culpado". no momento em que se profere a expressão.. "impedido". Por exemplo. ele aposta.) João da Silva Este tipo de expansão torna explícito que o proferimento é performati­ vo. que é usado geralmente em qualquer sistema de coordenadas-de-referência verbais. essencialmente na ce­ na. e qual o ato que está sendo realizado. mas eu faço minha própria aposta. João da Silva. não afmno que profuo as palavras "Eu aposto" . "proclamar". pois descrevem ações minhas e de outro. "pela pre­ sente afirmo" ou "pela presente observo". "isso é teu" pode ser tomado como equivalente a "eu te dou isso" ou a "isso já pertence a ti" . "declarar". etc. quando não há uma referência oa a ela por meio do pronome "eu" (ou por seu nome próprio). mas é dema­ siado formal para os fms ordinários. há um jogo de palavras nos usosperformativo e não performativo do aviso das estradas "Foram avisados que . diz as palavras "Eu aposto" . respectiva­ mente. performativa. quando a pessoa que declara que cu estou fora do jogo não 6 o juiz da parti­ da. podemos dizer. Assim: 62 J. se ele diz que aposta. Em particular temos de notar que há uma assimetria sistemática entre essa forma e as outras pessoas e tempos do mesmo verbo. apenas descrevo sua realização do ato de apostar. e ele terá de fazer a sua. O "eu" que está realizando a ação entra. ações que. Na realida­ de. O fato de haver esta assimetria é precisamente a nota característica do verbo performativo (e é o que podemos encontrar de mais próximo a um critério gramatical em cone­ xão com os performativos). mas eu não realizo o seu ato de apostar.. o que nos sentiríamos inclinados a dizer é que todo proferi­ menta que seja de fato um performativo deveria ser capaz de ser reduzido. isto é. qual é o teste para determinar se a primeira pessoa do singular do presente do indicativo na voz ativa é. que só ele pode realizar. 1 Por exemplo. já que as expressões escritas não estão ligadas à sua origem da mesma forma em que o estão as orais).) "Culpado" equivale a "Eu o declaro culpado" . pelo fato de ser ela a pessoa que profere a expressão. Do mesmo modo. é preciso notar que essa primeira pessoa do singular do presente do in­ dicativo da voz ativa. e sim realizo o ato de apostar. procluIl10 ou digo que você está fora do jogo" (quando é um performativo. Sentir o terreno fIrme do preconceito escorregar sob nossos pés é gratifIcan­ te. expandido ou analisado de modo tal que se obtivesse uma forma na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa (gramatical). apenas afmno que ele pro­ fere (ou melhor. A menos que o proferimento per­ formativo seja reduzido a uma tal forma explícita. talvez mal­ expressada. Mas nem sempre o é. que estamos tateando. em determinado caso. está sendo reali­ zado pela pessoa que a profere. (b) Nos proferimentos escritos (ou "inscrições"). e além disso. Uma vantagem da forma com a primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa . A fórmula "por meio da presente" é uma alternativa útil. Quando. " Contudo. Se profuo as palavras "Eu aposto" . "Apostei" e " Ele aposta" não são performativos. Quando dizer é fazer 63 . Ilá algo que. (Tenho que explicar. tais como "prome­ ter". "Avisa-se que o touro é perigoso" equivale a "Eu. se comportam assim quando estão liga­ das em sua "origem" a verbos performativos explícitos. embora possamos avançar ao longo dessa linha (há obstácu­ los) I. L. tomá-lo como se não o fosse. pelo fato de ser a dita pessoa que coloca a sua assinatura (naturalmente que tem de fazer isso. As outras palavras que parecem ter uma função especialmente performativa (e que na realidade a têm). etc. isto é. Esse é o tipo de teste que na realidade estávamos usando acima. o aviso que o touro é perigoso" ou equivale a Este touro é perigoso (Ass. será possível normalmente . ou qualquer outra.

"Afirmo que . como quando digo: "chamo inflação ao excesso de dinheiro em busca de bens escassos". Por exemplo. porque (1) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­ va pode ser usada para descrever como me comporto habitualmente: "aposto (todas as manhãs) dez cruzados como vai chover" . "ci64 J.. nem "estou protestando" . "Aceito". difícil de tornar explícito de outras maneiras). Talvez contemos com esta ambigüidade. que. levando à expressão "com isto concluo minha defesa".. "Prometo" para que te­ nha efetivamente prometido. quando toco numa peça apenas para acomodá-la bem. eventualmente. isto equivale exatamente ao performativo explícito "Pe­ ço-Ihe desculpas?". e de qualquer modo não é um critério muito exato. " é apostar). todo caso. Não dizemos "estou prometendo" . " (pronunciar estas palavras é declarar. posso dizer "rio-me de você" e imediatamente rir. como surgem algumas dessas perplexida­ des. podem dizer "ele promete. quando seu fIlho foi soli­ citado a fazer algo. por exemplo. Toninho?" . valendo-me de outros meio que não o "úer "Protesto". "na página 49 protesto contra o veredito". Ou posso dizer "Estou protestando" ao realizar o ato. Há uma transição da palavra FIM no final de um romance para a expressão " [mda a mensagem" no [mal de uma mensagem em código. Podemos justi­ ficar isto dizendo que os verbos performativos não são usados no presente contínuo (na primeira pessoa do singular na voz ativa). Por exemplo. porque posso dizer "Não me perturbes agora. Estou me casando" a qualquer altura da cerimônia. ou. Po­ deríamos acrescentar também que.. Mas mesmo isto não é totalmente verdade. quando não estou tendo que dizer outras palavras tais como. Ou posso até dizer " Estou ordenando" enquanto escrevo a palavra "Ordeno" . (3) Alguns verbos podem ser usados na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa de duas maneiras simultâneas. atiran­ do pedras contra os portões de uma embaixada. ele mesmo. que se estende no tempo e contém diversos elementos. Em tal caso o proferimento do performativo não constitui todo o ato. um pai ou mãe ansiosos. pelo menos historicamente. (2) A primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ati­ va pode ser usada de modo semelhante ao presente "histórico". (4) Corremos o risco aparente de incluir fórmulas demais que podería­ mos não querer qualificar de performativas. Podemos dizer que estes são casos em que a palavra indica a ação e nos quais. "prometo unicamente quando tenho a intenção de cumprir com a minha palavra". dita por um advoga­ do diante do tribunal. que abarca tanto um pro ferimento performativo quanto uma descrição de um ato naturalmente conseqüente. é duvidoso que este seja exatamente um critério "gramatical" (qual seria?).. não existe tal assimetria entre "eu corro" e "ele corre" . há uma transição ao uso de performativos. em última análise não sejam assim tão graves.De maneira semelhante. Austin to" e passar a citar realmente. Assim. Um exem­ plo é "chamo". Quando usamos a fórmula "defino X como Y" temos a transição para um proferimento performativo de um caso de adequação da ação à palavra. Teremos que voltar à noção do performativo explícito e devemos dis­ cutir. Ou quando dize­ mos "Sinto muito" . (5) Temos casos de adequação da ação à palavra. o uso da palavra chega a ser a ação de "concluir" (ato difícil de realizar. Se dou uma defmição dizendo. L. ou dizer "acomodo" numa partida de xadrez. já que é o cessar da ação. "defino X c mo se segue: X é Y" este é um caso de adequar a ação (de deflnir) à palavra. mas o pequeno Toninho tem que dizer. Por exemplo. Posso usá-Ia para descrever meus próprios atos realizados em outro tempo e em outro lu­ gar. Esta espécie de assimetria não se apresenta em geral nos casos dos verbos que não são usados como performativos explíci­ tos. ou dizer. da mesma forma que "aposto que . mas não temos a fórmula "Eu o insulto". do mesmo modo. (7) Dá-se realmente o caso de podermos sempre colocar um performa­ tivo numa forma normal sem perder nada? "Estarei lá" pode querer dizer coisas diferentes. (6) Sempre se dá o caso de ser necessário ter um verbo performativo para tornar explícito algo que sem dúvida estamos fazendo ao dizer certas palavras? Por exemplo. não é mesmo. te verei mais tarde. em . Contudo. posso insultar uma pessoa dizendo-lhe algo. Quando dizer é fazer 65 . talvez.

Se alguém diz "estarei lá" . O problema parece sem solução se deixarmos os proferimentos tal como estão e continuarmos a buscar um critério. característica de uma longa lista de verbos que se parecem com os performativos. Mas ainda assim.. eu (provavelmente) estarei lá" . por outro lado performativos. ou uma combinação de ambos. como performativo ou como constatativo. Demos como exemplo: 1) proferimento primário: "Estarei lá". conhecendo o meu fraco.. embora diferentes. há outras dificuldades adicionais. Contudo. pelo menos nos casos em que fazer o pro ferimento é realizar o ato. na verdade. ou de vocabulário. Nesse caso o pronome "eu". no presente "histórico" e no presente contínuo. das duas formas. Destacamos o fato de que certamente não há nenhum critério absoluto deste tipo. os segundos verdadeiros ou falsos . prometo" (ou "Prometo que . Sugerimos então: 66 J.começando com "eu x que . a "voz ativa" e o "presente" parecem apropriados. "eu x . tais critérios não serviriam para dis­ tinguir os performativos dos constatativos. ou "Sim. parece merecer nossa preferência. "eu x a . "Não. ou. Vamos colocá-la em oposição a "performativo primário" (que preferimos a peformativo implícito ou inexplícito). como já haviam mencionado rapidamente ao concluir a confe­ rência anterior. Austin tativos. 2) performativo explícito: "Prometo que estarei lá" . ao insultar ou repreender alguém. que tem um verbo na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa. como os demais verbos nesse "tempo" . ". Mencionei três .podem ser "reduzidos" a esta forma e convertidos no que chamaríamos de performativos expltcitos.delas como sendo típicas: (1) "Classifico" ou talvez "Considero" parecem por um lado consta­ Performativos explícitos Por haver sugerido que os performativos não são assim tão obviamente distintos dos constatativos . da primeira pessoa do presente do indicativo da voz ativa. "). Devemos nos perguntar agora se isso será fácil ou sequer poss(vel. Por outro lado... dizer algo parece ser caracteristicamente fazer algo." sentem nessa forma privilegiada .os primeiros felizes ou infelizes... por exemplo. "Não.. há uma assimetria essencial entre os performativos e esses outros verbos. tal como o expusemos. (3) Às vezes. " . A primeira sugestão foi a de se encontrar um critério ou critérios gramaticais. mesmo com esses verbos que podem muito bem ser constatativos ou descritivos. na verdade. Contudo. corre o risco de incluir ex­ pressões não performativas. isto é... então.passamos a considerar como definir mais claramente os performativos. verbos no presente habitual. a resposta poderia ter sido apenas. Paremos um pouco para considerar mais detidamente a expressão "per­ formativo explícito". não existe o performativo "Eu o insulto" . podemos perguntar " Trata-se de uma pro­ messa?" A resposta pode ser "Sim". Embora os per­ formativos não sejam. ". mas pre­ tendo estar lá" (expressando ou anunciando uma intenção). mas posso prever que. Quando dizer é fazer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 7 . Além disso. Qual dos dois seriam? Ou se­ riam ambos? (2) "Declaro que .. em diferentes ocasiões de proferimento. porque a "rp ­ dução" a um performativo explícito nem sempre é possível. que introduzimos de maneira um tanto sub-reptícia. t relativamente fácil aceitar certos usos bastante normais. o tipo de performativo do qual tiramos nossos primeiros exemplos.e VI Conferência 1) fazer uma lista de todos os verbos com essa pecuJiaridad"" 2) Supor que todos os proferimentos perfonnntivos que não se apl\. " parece adequar-se às nossas exigências gramati­ cais ou "como que gramaticais" . mas desejamos de fato incluí-lo? Nosso critério. L. Es­ sa assimetria é. Dissemos que esta forma tornava explícita a ação realizada ao se fazer o proferimento "Estarei lá" . e de que muito provavelmente não seria viável sequer fazer uma lista de todos os critérios possíveis.. uma vez que é muito comum que a mesma sentença seja usada. Nossc critério não incluirá todos os casos em que fazer um proferimento é realizar algo.

para esclarecer que se trata de um ato cerimo­ nial convencional. A discussão sobre a origem da Linguagem é hoje uma questão basicamente abandonada pela pilosono da Linguagem. . Se esta é uma noção clara I vemos então que o "que" 1 do discun.10 algum sC lll~ lhaJltc ao il quc" dos perror mativos expllcitos. ou "e­ quívoco". ou até mesmo emitir algum som ou proferir uma palavra como "Salaam" . A situação no caso das ações que não são lingüísticas. então. uma predição. se estou me curvando para observar a flora ou para aliviar minha indi­ gestão. Podemos dizer que uma fónnula perfor­ mativa como "Prometo" esclarece como se deve entender o que foi dito. do ponto de vista da evolução da linguagem. duas advertências: " tomar expl1cito" não é o mesmo que descrever ou relatar (ao menos não no sentido que os ftlósofos preferem dar a estes tennos) o que estou fazendo. tocar o chão com a testa.. Austin Quando dizer é fazer 6 . então é um tenno inadequado. 68 J. " . As foonas primitivas ou primá­ rias dos proferimentos conservam. Herder Ablumdlung über d CII Ursprung der Sprache (Tratado sobre a Origem da Linguagem) publicado em 1772 e escrito em ros­ posta à questão formulada pela Academia de Ciências da Prdssia em 1769. Por exemplo. a "ambigüidade". Por exemplo. Mas notem que esta clarificação é um ato tão criativo quanto uma descoberta ou uma descrição. uma advertência menos grave. etc.. No discurso indireto ou oratio obliqua.) 2 ~ Minha explicação ê muito obscura.Devemos fonnular agota. uma infoonação. tanto do ponto de vista da construção lingüística. o perfonnativo explícito deve ter se desen­ volvido posterionnente a certos proferimentos mais primários. Ora. " (ou será este um duplo uso de " que"?) ou. "prometo que". Compare-se com isto a explicação mais obscura sobre as frases que contêm "o que" .. do T. Parece também plausível supor que a distinção explícita das diferentes forças que um pro ferimento deste tipo possa ter seja uma conquista posterior da linguagem. tirar o chapéu.mais adiante voltaremos a isso . Em muitos tipos de casos impor­ tantes o verbo é seguido por preposição. Di­ ga-se de passagem. " . na primeira pessoa <.. nem indicar que estou realizando uma reverência. uma promessa. Nestes casos não estou relatando. etc. por exemplo. Londres. Um exemplo típico é "Ele disse que . (N. quanto do da natureza desta no perfonnativo explícito. levar a mão ao coração. Em segundo lugar. "declaro que" (ou. Fazer ou dizer tais coisas é tornar claro como o ato deve ser considerado ou entendido. porém. "touro" ou "tro­ vão".dizer "Eu o saúdo" não é descrever meu ato de saudar. casos em que relato o que outra pessoa. "acho que". neste sentido. como as que os livros de gramática dão sobre frases iniciadas por "q ue". O mesmo se dá quando usamos a expressão "Prometo que". sem ambigüidades. quanto de tornar claras distinções já existentes. em uma linguagem primitiva que consistisse de proferimentos de uma s6 palavra. o meu próprio discurso. verbos como "calculo que"). Isto pode ter suas vantagens. ainda não seria possível distinguir quais das diferentes coisas (valendo-nos de distinções posteriores) que poderíamos estar fazendo.. sendo o mais famoso o trabalho de 1. em sua maioria. Uma explicação plausível (não sei exatamente como poderia ser demonstrada) seria que nas linguagens primitivas ainda não estaria claro. incluídos em muitos dos perfonnativos explícitos. Tais fonnas não tor­ nam explícita a força exata do proferimento. mas que se assemelham a proferimentos perfonnativos por caracterizarem a realização de um ato convencional (ritual ou cerimo­ nial). developnl(l/I( arul origin. L. Jespersen. cf. assim como não o é o fato de tirar o chapéu. não se tratam de casos de "discurso indireto". é muito perigosa. é claro. Referência ao lingüista dinamarquês Otto Jespersen e à sua obra Language. um outro elemento espe­ cial. e também para identificar o ato (por exemplo. mesmo. Uma coisa que tendemos a fazer e que. é o seguinte: historicamente. Exe m­ plos: "Peço desculpas por. nem falsa. De modo geral. disse. ". dizer de que ação se trata. (2) dizer "eu prometo que" (se o perfonnativo for feliz.2 poderiam ser uma advertência. Trata-se tanto de estabelecer dis­ tinções claras. muitos dos quais são já perfonnativos implícitos. ou não é seguido de nada. não é absolutamente necessário que um verbo pcrforma­ tivo explícito deva ser seguido de "que". Pela mesma razão . ou o "caráter vago" da linguagem primitiva. mas a sofisticação e o desenvolvimento de foonas e procedimentos sociais exigem clarificação. em outra ocasião. ou.. ainda. devido ao seu caráter eminentemente especulativo. Po­ de-se até conceber que a fónnula "declare que" a promessa foi feita. diga­ mos. "eu o saúdo" . Não se trata de uma descrição porque (1) não pode ser verdadeira. Algo que parece nos pennitir fazer pelo menos uma boa suposiçã". 1922. como um ato de reverenciar). mas também. " Eu o farei" . por exemplo.o indireto nlio é de 1110<.. ou até.. deve-se incluir. ". é anterior a "Prometo que o farei" . its nature. via de regra. nem que sejam descrições ou relatos. como partes de um todo. é con­ siderar que de alguma fonna sabemos que o uso primário das sentenças tem possível de fato que as linguagens primitivas fossem deste tipo. Mas não se pode dizer que tais proferimentos sejam verdadeiros ou falsos. Observem que. possivelmente. de importância considerável. como. A questão da origem da Linguagem foi um dos problemas mais centrais nos prim6rdios da Lingüística. é a seguinte: suponhamos que eu me incline profundamente diante de uma pessoa. em­ bora nesse tipo de proferimento tenhamos um "que" introduzindo uma frase depois do verbo. "Ele prometeu que ./0 singular do presente do inclicativo da voz ativa. Pode não ficar claro se estou fazendo uma reverência ou. proferir "Salaam" não é descrever minha ação. Se "tomar explícito" dá essa idéia. as frases iniciadas por "que" são. estávamos de fato fazendo. "na pági­ na 456 afirmei que . é claro) constitui.

"Feche-a. como veremos). não sem al­ guma modifIcação ou perda. no sentido que demos a esta palavra. aparece o recurso verbal especial de se usar uma partícula com. segundo o qual se trata de um proferimento cuja única pretensão é ser verdadeiro ou falso e que não está sujeito a nenhum outro ti­ po de critica. dar a entender. "ameaçadoramente". como (no sentido indicado abaixo) deve ser considerado. posso dizer "Fe­ che-a". nem explícita. ou seja. sugerir. A precisão na linguagem tor­ na claro o que foi dito. ou seja o que for) escrevendo "Seria bom que você nunca se esquecesse dis­ sO. mas são ri cursos bastante toscos. assemelha-se a " Dou-lhe perrnissão para que a fe­ che". se quiser" . em diversos contextos: "Feche-a. o significado. 3.. assemelha-se a "DesafIo-o a fechá-la" . A fónnula perfonnativa explícita. embora envolvam. etc. todos os quais são essencialmente diferentes. é claro. usamos " portanto" com a força de "con­ cluo que".:. no sentido es cífico do fIlósofo. "expressar" (palavra odiosa!). Advérbios e Expressões Adverbiais Na linguagem escrita . a cadên­ cia e a ênfase de um protesto através do uso de um ponto de exclamação se­ guido de um ponto de interrogação (mas isso é muito insatisfatório). Parece muito mais provável que a "pura" declaração. etc). Ou. Muito se poderia dizer aqui a respeito das conexões que há entre tais recursos e os fenômenos de insinuar. ". podemos ate­ nuar a força de "Eu o farei" . até mesmo. além disso. que a fe­ che" .. embora nesta isto não seja tão necessário . e nos seus estágios primitivos. Decreto.de ser. assemelha-se a "Ordeno-lhe. ou o subtítulo "Um Roman­ ce . podemos usar verbos auxiliares. Assim. um uso declarativo ou constatativo. faça-o" . algumas das funções que podem ser melhor desempe­ nhadas pelo recurso ao performativo explícito (embora. "Pode fechá-la". ainda. assemelha-se a " Ordeno-lhe que a feche" . um ideal. usamos "embora" com a força de "admito que". "dessa forma" e "além do mais"3. acrescentando "sem falta" . muito freqüentemente. Modo Já mencionamos o recurso extremamente comum de usar o modo impe­ rativo. como também não pode­ mos saber se todos os proferimentos tiveram sua origem em imperativos (como alguns afInnam) ou em xingamentos. Assim. ao qual o desenvolvimento gradual da ciência deu impulso. Certamente não podemos saber isso.tiva. "Muito bem. o que seja!). Quando dizer é fazer 71 . serve a um propósito muito semelhante." 70 J.. cudênclll. "Feche-a. Por exemplo. "Deve fechá-la" . se tiver coragem". em nosso sentido. A linguagem em si. ou concessão. ênfusc (Análogo a isto 6 o recurso sofisticado de se usar instruções junto aos diálogos em peças teatrais. o emprego de expressões verbais e cir­ cunlóquios semelhantes.utilizamos advérbio expressões adverbiais e certos torneados lingüísticos. • Tom de voz. A pon­ tuação.e. O uso de títulos como Manifesto. Notem-se tanr bém os usos de "ao passo que". dentre muitos que sempre foram usados com maior ou menor êxito para desempenhar a mesma função (assim como a pa­ dronização foi o recurso mais bem-sucedido para se desenvolver a precisão da fala). então feche-a" . " Feche-a. ou permissão. Assim. Proclamação. Na segunda metade de nossas conferências nos voltaremos para as importantes e difíceis distinções que devem ser feitas a este respeito. em certos casos. podemos usar a partícula "contu­ do" com a força de " insisto que" . porque deve ser. é apenas o último e o mais eficaz recurso lingüístico. assemelha-se a "Permito que a feche" . Podemos dar ênfase (a uma advertência. ou aumen­ tá-la. assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la. Exem­ plos desse tipo são: Vai atacar-nos! (aviso) Vai atacar-nos? (pergunta) Vai atacar-nos!? (protesto) Estes aspectos da linguagem falada não são fáceis de se reproduzir no. por exemplo. L. Consideremos por um momento alguns destes outros recursos lingüísti­ cos mais primitivos. na linguagem falada. não é precisa. "Tem de fechá-la". A explicitação. 1.. o uso do grifo e a ordem das palavras podem ser úteis. assemelha-se a "Aconselho-o a fechá-la".. Isto faz com que o proferimento seja uma "ordem" (ou uma exorta­ ção. " . Austin 4. tentamos transmitir o tom de voz. tor­ na mais clara a força do proferimento. assim como deu impulso ao ideal de preci­ são. seja uma meta. Partículas conectivas Em um nível talvez de maior sutileza. eu o faria" . 3 Mas alguns destes exemplos levantam a velha questão se "admito que" e "concluo que" sno Ou nno performativos. assemelha-se a "Consinto que a feche". acrescentando "provavelmente". linguagem escrita. previno-lhe.

Mas prova­ velmente também deve haver neles alguma inadequação. Dizer "Estarei lá" pode ser uma promessa. em títulos ("advertência!").. o estado de saúde da pessoa que fala. O performativo explícito exclui os equívocos e mantém a realização relati­ vamente estável. mas também nas instruções que acompanham um diálogo teatral ("saudações"). (2) Parece haver casos evidentes em que a mesma fórmula aparente­ mente é às vezes um perfonnativo explícito e às vezes é descritiva. S. A dificuldade com esses elementos consiste principalmente no fato de ser vago o seu significado e incerto o resultado de sua recepção..:rbiul"/)cm faJu. Elementos que acompanham o proferimento Podemos acompanhar o proferimento das palavras com gestos (piscar de olhos. os casos em que é duvidoso determinar se a expressão é ou não um performativo explícito. E assim sucessivamente. em particular. etc. uma advertência ("V á. a força do proferimento. Assim.. via de regra.como os que mencionaremos a seguir . E uma vez que nossas emoções e desejos não são fa­ cilmente detectáveis pelos demais. 6. a existência e até mesmo o uso dos performativos explfcitos não resolvem todas as nossas dificuldades. Há numerosos casos na vida humana em que sentir uma certa "emoção" ou "desejo". e pode até jogar com esta ambivalência: por exemplo. " ou "(exorto-o) a . de passagem. Não devemos esquecer tampouco o uso de palavras especiais como "Fora. "). e entre parênteses (este é um teste quase tão bom da presença de performativos.) ou com atos cerimo­ niais não-verbais. Assim. Em tais circunstâncias é possível e comum que de fato sintamos a emoção ou o desejo em questão. As circunstâncias do proferimento Uma ajuda extremamente importante resulta das circunstâncias do pro­ ferimento. e até mesmo quando isso apropriado. tais recursos são excessivamente ricos em signifi­ cado. em sentido positivo. Do mesmo modo. ou pode ser uma previsão para o futuro. Também temos que considerar. quando dizemos "Tome isto" . é convencionalmente considerado uma resposta ou reação adequada a certos estados de coisas. ou que estamos fa72 J. suficiente. Tais recursos. um pedido. ou que estamos expressando uma intenção. um empréstimo ou um ato de entregar em confiança. Assim. Um "imperativo" pode ser uma ordem.que pennitem veicular. uma exigên­ cia. podemos dizer: "Vindo dele.. que não possuem forma normal. o contexto das palavras: "morre­ rei um dia". podemos dei­ xar claro que estamos fazendo uma simples previsão futura. uma sugestão. às vezes. quando dizemos "Estarei lá". é comum que queiramos informar-lhes que os sentimos. uma pennissão. se tome obrigatório "expressar" tais sentimentos.Al6m do que dizemos c da maneiro do diz~-Jo . há outros recW'Sos es­ senciais . ou uma defmição ("Seja . acrescentando a ex pressíio tldvt. quanto as outras formas normais qu apresentamos). É compreensível que. "te deixarei o meu relógio" e. por vezes agradável das expressões primárias. além do mais. e casos muito semelhan­ tes aos performativos sem o serem de fato. ". casos em que esta resposta é natural (ou assim queremos crer!. podemos usá los não só em fórmulas do tipo "(prometo) que . acrescentando os advérbios "sem dúvida" ou "provavelmente". como. franzir o cenho. Contudo. incluindo a realização por parte de alguém de um certo ato. a insinuação. 011 1\ frase "farei todo o possível". para enfrentar a complexidade do âmbito das ações que realizamos com pa­ lavras. quer os tenhamos ou não.. para você ver o que acontecerá"). acrescentando o advérbio "com certeza". Deve-se notar que quando existem verbos pcrfonnativos.". (1) Em ftlosofia podemos até levantar a questão da possibilidade de os performativos serem confundidos com sentenças descritivas ou constatativos. Exemplos de expressões usadas desta forma são: L. Sem dúvida que uma combinação de alguns ou de todos es­ ses elementos mencionados acima (e é provável que ainda haja outros) será. Entregar algo a alguém pode ser. são utilizados também para outros propósitos. podem ser usados sem o proferi­ mento lingüístico e sua importância é bastante evidente. "Aprovo" pode ter a força performativa de dar aprovação ou pode ter o significado descritivo de "Estou a favor disto". sinais. interpretei aquilo como uma ordem e não um pedido". ou adotar uma certa atitude. ou pode expressar uma condição. são relevantes para determinar como estas palavras de­ vem ser interpretadas. um presente.. uma concessão. dar de ombros.. Austin Quando dizer é fazer 7 . embora por razões um pouco düe­ rentes e talvez menos recomendáveis em certos casos. Prestam-se a equívocos e a distinções errôneas e. quando os temos. Consideraremos dois tipos clássicos de casos em que se apresenta o problema e que exibem alguns dos fenômenos incidentais no desenvolvi­ mento das fórmulas performativas explícitas. etc.. por exemplo. ou po­ de expressar uma intenção. de algum modo. ndo UI11U promessa. "Aprovo" e "Concordo". etc. Mas. de certo modo. (la) Nem se trata simplesmente de que o performativo não conserve o caráter equívoco. uma recomendação.

que sofrem de uma certa deliberada ambivalência. e podemos dizer: "estou propenso a pedir desculpas". Por exemplo: "Tenho o prazer de apresentar o próximo orador. Relacionamos acima "eu peço desculpas" com " lamento". do T. Dizer isso é dar um cheque. Aqui a realização não-verbal ocorre como forma alternativa do ato per formativo. Aqui. Compare-se isso com a expressão "Saúdo a memória de . "eu O saúdo" pode tornar-se um substituto para a saudação. Mas esse tipo de caso leva a "Eu o saúdo" (fazendo então a saudação) . de culpar em vez de censurru4. Mas não se dá o caso de que dizer que se tem prazer seja de fato ter prazer em algo. como "Tenho a hon­ ra de". Estas expressõcs obscurecem a distinção cnlrl> insincen. "Será que ele realmente lhe dá as boas-vindas?" . " " Tenho a grata satisfação de poder anunciar _"6 Chamamos estas expressões de frases de cortesia. Um caso típico é o ~eguinte: "Bata a porta assim" (batendo então a porta).me Lamonto Culpo Aprovo Recebo com prazer Alegro-me com CritiCO } Censuro Aprovo Dou-lhe as boas­ Estou chocado com Estou revoltado com Sou favorável a vi ndas Felicito-o Nestas listas. por exemplo. como ocorre às vezes quando digo "lamento". ou uma expressão como "estou propenso a".. que nada têm a ver com os performativos. da mesma forma. de ser grato em vez de agradecer. Há. Também devemos distinguir os casos de adequação do ato à pala­ vra . às vezes. Um exemplo realmente perturbador se dá com O que podemos chamar de performativos expositivos. Um quarto teste seria perguntar se o que a pessoa diz poderia ser lite­ ralmente falso. no caso de lametar em vez de pedir des­ culpas.) 6 No manuscrito há uma nota à margem: . É convencional formulá-las dessa maneira. tornando-se portanto um proferimento performativo puro. por exemplo. acerca de cuja natureza exata tenho dúvidas.Agradeço Peço desculpas Sou Groto Sinto-mo bYJ'8 to A rrepcndo. numerosas ex­ pressões.. Aqui é necessário ampliar a classificação: note-se isso de passagem. ou se beneficiam dela. (N. como quando se diz. Assim. mas que não consiste." 5 4 Ilá ddvidas clássicas acerca da possibilidade de consentimento tácito. Mas há uma certa distinção a ser feita. por si mesmo. Mas seria isso um cheque. e as da terceira coluna são meros relatos. Tal ambivalência é combati­ da pela introdução constante de frases performativas deliberadamente puras. "Peço desculpas". ou "estou propenso a lamentar" (ao contrário de " estou propenso a dizer que lamento")." " Lamento ter que dizer que .um tipo especial de caso que pode dar origem a performativos. quando alguém diz "Eu o recebo com prazer" ou "Dou-lhe as boas-vindas". ou se poderia apenas envolver insinceridade (infelicidade). Para que algo seja um proferimento performativo. mesmo nos casos vincula­ dos a sentimentos e atitudes que denominarei de "Comportamentais " . mencionados logo adiante. mas agora há numerosas expressões convencionais de sentimento. dentre elas algumas muito importantes. pelo menos em alguns casos. a primeira coluna contém proferimentos performativos. Infelizmente. etc. Um terceiro teste seria. se a palavra não fosse dita? "Acomodo".. pois... * Na XII Conferência Austin procede a uma classificação de cinco tipos básicos de atos de fa la. quando se diz: Há fenômenos paralelos a estes em outros casos. as expressões na segunda coluna não são puramente descritivas e sim semides­ critivas. podemos dizer: " Eu deliberadamente lhe dei as boas-vindas" . Um teste seria se faz sentido dizer "É realmente assim?". Podemos sugerir alguns testes para decidir se "aprovo" ou "lamento" está sendo usado (ou mesmo se é sempre usado) de uma ou de outra maneira. Assim. mas há transições seme­ lhantes no caso dos performativos. então é certamente algo que poderíamos (dada a ocasião) fazer deliberadamente ou estar propenso a fazê­ lo. Por exemplo. "eu deliberadamente pedi desculpas". Isso é adequar a ação à palavra ou constitui parte do ato de ajeitar a peça de xadrez em contraste com movê-la? Talvez tais distinções não sejam importantes. muito pa­ recida entre si em certos aspectos. quando dito nas circunstâncias apropriadas. den­ tre os quais se encontram os expositivos e os comportamentais. "eu deliberadamente aprovei sua ação". podemos nos perguntar. L. em um proferimento performativo. Dizer "Eu o saúdo" agora é saudar a pessoa. perguntar se poderíamos in­ serir antes do suposto verbo performativo algum advérbio como "delibera­ damente" . dade e falsidades. Outro teste seria perguntar se a pessoa poderia realmente estar fazendo algo sem dizer nada. porque (possivel­ mente) se o proferimento é a realização do ato. Austin Quando dizer é fazer 75 . Mas não podemos dizer "eu deliberadamente estava de acordo com sua ação" . " Mas há muitas etapas transitórias entre adequar a ação à palavra e o performativo puro: "Cheque". Isto lança ddvidas sobre o segundo teste! 74 J. não tem que ser simplesmente uma expressão convencional de sentimentos e ati­ tudes.

. Trata-se de um tipo de perfonnativo? Essencialmente funciona assim quando a ação adequada à palavra é ela própria uma ação verbal. Selecionamos nossos exemplos na esfera do que chamamos "compor­ tamentais".Defino x como y" . " x é y" ) . Contrastemos: P erformativo N áo-Puro Descritivo Performativo (Semidescritivo) Expltcito Peço desculpas Critico Censuro Aprovo Dou-lhe as boas-vindas Lamento Culpo Dou minha aprovação a Receb<ro com prazer Arrepend<rme Estou revoltado com Sinto simpatia por 76 J. L. afmnando que o primeiro resultou natu­ ralmente do segundo a partir do desenvolvimento da linguagem e da socie­ dade. que isso não eliminaria todos os nossos problemas em busca de uma lista de verbos performativos explícitos. ."Cito". " Defino ". VII Conferência Verbos performativos explícitos Na última conferência consideramos o performativo expltcito em con­ traste com o performativo primário. Nestes casos a expressão funciona como um título. Demos alguns exemplos que ao mesmo tempo serviram para ilustrar como o performativo explícito se desenvolve a partir do primário. e faz-se uma citação. Dissemos. Austin Quando dizer é fazer 77 . e dá-se uma defmição (por exemplo . um tipo de performativo que diz respeito a reações ao compor­ tamento dos outros e que se destina a expressar atitudes e sentimentos. contudo.

" . "concedo que .. Por exemplo. deliberadamente. . muitos destes verbos parecem ser. e também a expressão de sen­ timento em resposta a algo dito ou ouvido. da exposição. Trata-se da classe dos que chamo expositivos ou performo. ". por exemplo. por exemplo. (2) Poderia a pessoa estar realizando a ação sem proferir o performati­ vo? (3) Poderia fazê-lo deliberadamente? Poderia estar propenso a fazê-lo? (4) Poderia ser literalmente falso. tais como "Tenho o prazer de. Parecem constituir uma classe restrita. nos casos em que"Afirmo" e "Nego" são perfor­ mativos explícitos puros em sentido não relevante aqui. "mas ele estava realmente postulando?". (2) Casos em que se adapta a ação à palavra. Comparemos a distinção entre "Desejaria que você estivesse no fundo do mar" e "Desejaria você no fundo do mar". Posso. E posso estar supondo algo. cujo exemplo típico seria o do advogado que termina sua exposição oral dizendo "Concluo assim mi­ nha argumentação". mas os verbo em si parecerão performativos puros. embora rituais. de modo plenamente convin­ cente.." Dizer isso é sustentar. alguém pode predizer algo quando não tem o direito de fazê-lo.. ou entre "Desejo que você esteja se divertindo" e "Desejo-Ihe felicidades".. concluir. mencio­ namos isso anteriormente e voltaremos a este ponto mais tarde). postulo que . . porque. Às vezes. Aqui vão alguns exemplos: "Sustento (ou insisto) que a face oculta da lua não existe. e há um verbo performnllvo cxplfcito 00 iIúcio (.. " . que critico (em con­ traste com culpo) quando disse que criticava? (É claro. 3) pode-se dizer "Eu. então.. "Postulo que .". " (salvo no sen­ tido já assinalado: "na página 265 postulo que . Aqui o corpo principal da expressão tem ge78 J.. no mesmo sentidó em que ~rguntamos "Ele realmente o considerou culpado?" Este teste não é muito bom. Estas frases são especialmente suscetíveis de se con­ verterem em performativos puros quando a ação adequada à palavra é em si mesma um ato puramente ritual. assim como acontece com os comportamentais. Em conclusão. em geral.. " mesmo que na­ quele momento eu não estivesse percebendo que estava supondo e sem que houvesse dito nada a respeito disso. sem di­ zer nada explicitamente. d diálogo." "Declaro que a face oculta da lua não existe. Quando alguém diz.". da troca verbal . ou ser in­ sincero ao dizer "Confesso que o fiz" quando não o fez.. performativos puros (por mais irritante que seja tê-los. enquanto tais.. não são performativos. ou dizer "Confesso que você o fez". "Ele realmente o criticou?". "). predizer. etc. podemos recorrer a um teste que consiste no uso de uma pa­ lavra diferente.. falsas ou verdadeiras. há inúmeros verbos que se assemelham muito a esses e quo parecem pertencer à mesma classe. com grande freqüência. outras vezes de uma construção distinta da fórmula. Estas são bem típicas. ... "Suponho que" em contraste com "postulo que".rolmcntC'." "Concluo (ou infiro) que a face oculta da lua não existe. devido. Em todos estes casos.." "Admito (ou concedo) que a face oculta da lua não existe.. 4) não pode ser literalmente falso dizer "Postulo que . Assim. Por exem­ plo. li­ mitada talvez a manifestações de sentimento." "Prevejo (ou predigo) que a face oculta da lua não existe. "postulo" é como "peço-lhe desculpas" ou "critico-o por. por exemplo. tais proferimentos podem ser infelizes. ou o ritual verbal de dizer "Bravo" ("Eu aplaudo"). naturalmente. ocorre.Sugerimos os seguintes tClllcs púra o perfonnutivo oxpUclto puro: (1) Faz sentido (ou o mesmo sentido) perguntar " mas. à possibilidade das infelicidades. ". no mesmo sentido em que perguntamos " Ele realmente o recebeu com hospita­ lidade?" Ou. Poderia dizer tranqüilamente "estava supondo que . isso poderia sempre ser insincero). 1) não podemos perguntar. ou. não necessitam ser sinceras. L. Contudo. no impor­ tante sentido descritivo. "postulo que . quando digo "prevejo que . declarar. distinguimos nossos performativos de: (1) Frases rituais convencionais usadas puramente como fórmulas de cortesia... e a os­ cilação entre ambos.tivos exposicionais.. ainda que não o perceba ou o manifeste oralment". Podemos per­ guntar "Ele realmente se casou?" quando disse "Aceito". Há uma segunda classe muito importante de palavras em que o mesmo fenômeno de transição de proferlmento descritivo para performativo. Voltemos aos quatro testes que utilizamos com os comportamentais. estar afirmando ou negando algo. ou "Tenho a intenção de postular . ".. Ora. foi assim mes­ mor" Não podemos perguntar "Ele realmente lhe deu as boas-vindas?" . Posso afmnar ou n Quando dizer é fazer 79 . etc.. " . como a ação não-verbal de fazer uma reve­ rência ("Eu o saúdo"). ()lI l'OIll bU/llllnt(' freqüência. ligados a frases que parecem "declarações". Sem dúvida. Segundo os quatro testes sugeri­ dos acima.juc mostra como " declaração" deve encaixar-se no contexto da conversa. mas que não passariam nos testes de for­ ma satisfatória. li formll expf(t' Itu de UlIllI "dC t'lllrtl ção". Austin . 2) não se pode estar postulando algo sem dizê-lo explicitamente. porque podem ter havido infelicidades que tomaram problemático o casamento. num performativo explícito podemos dizer "aprovo" em vez de "dou minha aprovação a" . a frase seguinte terá normalmente o aspecto de uma declaração.

etc." às vezes é equivalente a "postulo que .. Supor tal coisa é incorrer no exagero.. como uma descrição. Ainda que tomemos casos intermediários como. ou al1nnar ou negar por implicação. 1974. respondeu-lhe a lagarta. das maravilhas (1865) de Lewis CarrolJ. por exemplo. Por exemplo. "endossar". Austin ~ pessoa é um juiz e diz " Julgo que . Por exemplo. pelo menos. Mas. por exemplo.. às vezes como "sua conduta tem minha aprovação" . estados mentais. "sentencio a . como. descreve minha atitude. não por implicação em conseqüên­ cia de alguma outra coisa que disse. " . no todo ou em parte. Já dissemos o suficiente sobre o tipo de problema em que um verbo performativo explícito aparente funciona. Do mesmo modo.. é instintivo comparar "Tenho a inten­ ção de" com "Prometo". por sua vez. " .. enquanto "presumo que .. Assim. trocadilhos e jogos de linguagem que Car­ roll constr6i. mas simplesmente por estar sentado no meu canto em silêncio de uma forma tal que o meu sentar-me em silêncio não poderia representar negação. se­ * Referência à obra Alice no par:.1898)...) Quando dizer é fazer 81 . típico de uma Alice no País das Maravilhas.. dito por uma pessoa que não é juiz nem membro do júri. professor na Universidade de Oxford. Paulo. temos também o se­ guinte: "Prevejo (predigo que) " é um performativo explícito puro. '~Então não deveria falar". Essa dificuldade pode ser evitada da maneira habitual. "postular". etc... do T.. ainda. nos que chamo de vereditivos. ". nem sempre. Podemos dizer " Ele realmente não classifica. se a 80 J. mas o compromete a uma prática regular que consiste em seguir a de­ finição estabelecida. Esta obra-prima da literatura infantil é. às vezes descreve meus sen­ timentos e às vezes serve para ambas as coisas ao mesmo tempo. caso em que. satisfa­ zem todos os nossos testes do performativo explícito puro. ao menos às vezes. Devemos distinguir esse ca­ so daqueles em que ficamos comprometidos pela realização de um único ato. em conseqüência de alguma outra coisa que disse. enquanto que "prevejo (espero. ou seja lá quem foi.. com pessoas sem funções oficiais isso já não é tão claro. "Julgo que . Comportamentais e expositivos são duas classes muito fundamentais em que ocorre tal fenômeno. S. pseudônimo do 16gico e matemático inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832. pela invenção de uma palavra especial tal como " veredito". ao pas­ so que "Duvido que seja assim" não o é. Mas o mesmo se dá também em outras classes. de tomar " penso que p" como uma declaração acerca de si próprio. ao passo que "Concordo com essa opinião" não o é. quando o fazem.. ou " ele está classificando . Além do mais. Esta última expres­ são às vezes equivale a "peço-lhe desculpas" . etc.. "insinuo que . ou convic­ ção. ".. ou "Su­ ponho que . Notemos de passagem que nem todas as coisas que fazemos seguindo essa linha de adequar o proferimento ao contexto do discurso se podem fazer com um performativo explícito.. começou a dizer Alice. " não o é. Exemplos de vereditivos são "Decreto que . ao mesmo tempo.. das maravilhas" do Warren Shibles.. ("Eu não penso .. a qual se poderia responder: "Trata-se de um fato a seu respeito".. "Concordo que . ". em que o proferimento todo parece ser verdadeiro ou falso. Em outras palavras. ". não podemos dizer "exagero que . o fenômeno mais amplo sobre o qual chamamos a atenção. "suponho que .ar com a cabeça. ".. L. ao passo que os outros não.. verdadeira ou falsa. " e "concordo com ..". " é um performativo explícito puro. " Conside­ ro que . (N... etc. etc. no caso de "estava supondo que " eu po­ deria ter suposto algo sem ter dito nada.. também. linguagem e filosofia. considerada uma fonte importante do questões sobre l6gica e linguagem a partir dos paradoxos.. Assim como temos que "prometo que (postulo que)" é um performati­ vo explícito puro. atitudes. e a pessoa pode estar classificando sem dizer nada. O mesmo fenômeno geral que ocorre com os comportamentais ocorre aqui. antecipo) que" não o é. Ou.. é descrever ou relatar algo :lcerca das crenças ou expectati­ vas de quem os usa. Silveira da Mota. parece absurdo supor que tudo que tais proferimentos fazem. etc. "suponho que" e talvez "considero que" funcio­ nam da mesma maneira ambivalente que "lamento que". " predizer". " . CultrixlEdusp.. * Quando chegamos aos performativos explícitos puros. "Estabeleço que . "questionar". apesar de suas características de performati­ vo. lrad. ou... pequenas alterações na frase podem ser importantes." .. Mas este tipo de caso sugere. ". mas este não é um teste rigoroso. por exemplo. Nesse cO'1texto.. ". podendo tratar-se apenas de um estado mental. " Endosso (confmno) essa opinião" é um performativo explícito puro. de sentimentos.. tais como "declaro" ou "sustento que". Vimos que em tal caso havia um uso duplo: o performativo explícito pu­ ro e a descrição de minha realização habitual de atos desse tipo. a natureza performativa do pro­ ferimento continuará dependendo parcialmente do seu contexto. como o fato de tratar-se de um juiz investido de suas funções no tribunal. dizê-lo é o mesmo que fazê-Jo. do L. em seu Wittgenstein... a diferença entre "concordo em . Veja-se a este respeito o "Comentário filosófico a Alice no par:. " e às vezes não o é.. ". "declaro que. Aqui.. De certa forma semelhante a esse é o caso de "Classifico os X como y" . " Questiono o fato de que . ". às vezes funciona como "aprovo sua conduta" . Hegenberg e O. Aqui.. pelo menos em parte. estado de espúito. " Defino X como Y" não afmna que alguém faz isso regular­ mente. ".

a atenção para alguns performativos que são clara­ mente clássicos. contudo. Desde então. pertencendo a um determinado vocabulário e da maneira como pertencem a esse vocabulário. então. aqui como em outras situações. mas devemos ter em mente a possibilidade de "estiolação" da IIn­ ungem que ocorre quando a usamos no palco. as maneiras pelas quais nos referimos a "ações" são suscetíveis. significando "aquilo que é di to". podemos mencionar também "Sei que" . declarar. com "Equiparo X a Y" e "Analiso X como Y". "Creio que". etc. Pretendemos reconsiderar. como uma declaração (e não como uma previsão. podemos também contrastar o fato de estar apenas pensando em algo. em que dizer algo tem sempre que se fazer algo. "fazer algo" é uma expressão muito vaga. como o fato de real­ mente dizê-lo (em voz alta). declara­ ções e são essencialmente verdadeiros ou falsos. com uma determinada entonação. A este ato podemos chamar de ato "fático". "rético" (" rheli c") provém do substantivo rhe/TUI significando "aquilo que é dito". parece ca­ racterizar ambos os tipos de proferimento. Só para estimular-se em· nossa jornada. sendo "pheme" oriundo do substantivo pheme signifi cando iglloJ­ mente "algo que é dito" (o verbo pllemi significa dizer. como se fosse um performativo. para fazermos. por exemplo. encontra­ mos indicações suficientes de que a infelicidade. etc.. numa determinada constru­ ção. Para iniciar. Contudo. que torna claro que se deve tomar o proferi­ mento. voz. Por exemplo. ou em que ao dizer algo estejamos fazendo algo (e taI82 J. uma lista dos verbos performativos. de conformidade com uma determinada gramática e · apenas quando se conformem a ela. de gerar confusão. O termo "estiolação" equivale a "desbotamento". ". na realidade. há muitos casos em que. então.mesmo quando se apresenta em forma aparentemente explícita . Até que ponto estes exemplos são complicados? Não podemos partir do princípio de que sejam puramente descritivos. apesar de tudo. do T. (N. no entanto.. L. isto é. bem como em citações e Otn re­ cltutivos. como ocorre com os supostos constatativos. dizer é fazer algo. de tentar um novo tratamento para o problema.llramcnte trato-se de algo que pode ser. É hora de elaborar nossa reflexão sobre as circunstâncias em que "se faz um proferimento"l. n ficção. Tipicamente. quanto afIrmamos que há uma equiparação por meio de uma frase concisa que é. Podemos considerar. em cujo contexto.b) sempre realizar o ato de proferir certas palavras e vocábulos. como "Fora". dada a situação atual da linguagem. É hora. e não apenas os performativos. Austi n parte da lfngua grega clássica para cunhar estes termos técnicos. "fático" ("phatic").) . ainda que nos caso o proferimento constitua a ação de declarar ou sustentar.c) geralmente realizar o ato de usar esse "pheme" ou suas partes consti­ tuintes com um certo "sentido" mais ou menos determinado. não se pode se­ parar a sentença em duas partes.. pelo menos. em princípio. Neste exemplo tanto fazemos a equiparação. (A. temos ainda proferi­ mentos iniciados por "Declaro que . do T. de ter alguma relação com estes. que freqüentemente não é fácil assegurar-nos de que . os sentidos em que dizer algo possa ser fazer algo. na fiação e na poesia. e uma " . ser colocado na forma de um performativo explícito. Poderíamos distinguir a parte inicial do performativo ("Decl~Io que"). e é empregado por Austin pura indicar o uso n":n-"sério" ou não-literal de expressões lingüfsticas em contextos como o palco. Austin VO'l. ainda que o proferimento pareça conter um tipo de performativo explícito. podemos COO trastar homens de letras com homens de ação. que dizer algo é: (A. flllso ou verdadeiro. da frase que se segue ao "que " . descobrimos. mas que..) Quando dizer é fazer 83 . além da exigência de serem felizes. há todo um conjunto de sentidos que rotularei de (A). porém. etc. ruídos de um determinado tipo. diferentes em diferentes casos. VerifIcamos ainda que a exigência de adequação aos fatos ou. mente. Contudo. etc. de maneira geral.um proferimento seja ou não perforrnativo.). constituem.!1Il0S algo). Isso. não é tão grave. Não conseguimos encontrar um critério gramatical para distinguir os performativos. Começando com o su­ posto contraste entre proferimentos performativos e constatativos. conjunto esse que constitui em seu todo o "dizer" algo. no sentido pleno de "dizer". sendo o proferimento que dele resulta um "pheme" (para distingui-lo do "pheneme" da teoria lingüística). efe­ r M 1 Nem sempre mencionaremos. sendo o proferimento um "phone"*. a qual é necessariamente verdadeira ou falsa. podemos dizer que eles não fi­ zeram nada. Afinal . Consideremos agora nossa posição a esta altura.a) sempre realizar o ato de proferir certos ruídos (ato "fonético"). que parecem satisfazer as exigências dos performativos. ao menos. esclarecimentos e definiçóes aqui possam nos ajudar n suj desse emaranhado. Assim. QlIlUl­ do fazemos um pro ferimento qualquer não estamos "fazendo algo"? Certa. e que têm estreita relação com a descrição de fatos. ainda que outros não o tenham. parece caracte­ rizar também os performativos. E já chama­ mos.). apenas falaram ou disseram coisas. portanto. Talvez algum. etc. "phone" provém do substantivo grego phoné significando som. tulllbém considerar O caso dil'crcnlc em que pôr di:rcr 11\1!. ou seja. e (A. provém do substantivo plu11/J'. Na Conferênc ia seguinte súo dndos oxemplos que esclarecem melhor estas noções. já que os tennos gregos de onde se derivum os dois liltimos têm sig nificados muito pr6ximos. "descoloração" . sem insistir muito na elaboração de detalhes. mas ocorreu-nos que talvez devêssemos insistir que todo per­ formativo pudesse. repetidas vezes. afirmar. Isto se dá. (N.

o que inclui o proferir certos ruídos. Austin . A1coforado.cr 8 84 J. fazer algo . Nosso interesse no ato locucionário é. achamos conveniente recuar por um instante às questões fundamentais. esclarecer bem em que consiste o mesmo para distingüí-Io de outros atos com os quais nos va­ mos ocupar primordialmente. L. O ato fonético consiste simplesmente na emissão de certos ruídos. Frege. com um sentido e uma referência determinados. e ao estudo dos proferimentos desse tipo e alcance chamo de estudo de locuções. ® VII! Conferência Atos locuciónários. Distinguimos o ato fonético do ato fático e do ato rético. ou que ao dizer algo estamos fazendo algo. A este ato podemos chamar de ato " rético" . certls palavras em determi­ nada construção. para o português de P.er é fU7. e com um certo "significado" no sentido ftlosófico favorito da palavra. pareceu-nos que nem sempre seria fácil disting\lÍr proferi­ mentos performativos de proferimentos constatativos. (N. mas também para os gramáticos e foneticistas. Lógica efilosofia da linguagem. consi­ derar desde a base em quantos sentidos se pode entender que dizer algo é fa­ zer algo. O ato fático consiste no Quando di1. ou mesmo os casos em que por dizer algo fazemos algo.Cultrix. Paulo. em sentido normal e completo. 1978). i1ocucionários e perlocucionários "'''' AluSllo 1\ distinção formul ada no célebre artigo de G. S. sendo o proferimento que dele re­ sulta um "rheme".rência" mais ou menos definida (que juntos equivalem a "significado")**. A esse ato de "dizer algo" nesta acepção normal e completa chamo de realização de um ato locucionário. basicamente. E começamos distinguindo todo um grupo de sentidos de "fazer algo" que dizer algo é.. ou de unidades completas do discur­ so. e. isto é. detalhes esses que seriam de grande importância não apenas para os ftlósofos. ou seja. portanto. em G. Frege (1892) "Sobre o Sentido e a Referên­ cia" (trad.) Ao iniciarmos o programa de encontrar uma lista de verbos performati­ vos explícitos. do T. Quero acrescentar simplesmente que um estudo muito mais detalhado seria possível e necessário caso nos propuséssemos a discutir o tema em si.

podemos dizer "Por 'banco' quis dizer. Este é o chamado 86 J. toma-se evidente que podemos realizar um ato fáti­ co que não seja um ato cético. . Pode-se imitar não apenas o proferimento entre aspas "Ela tem um lindo cabelo" . "a mesma declaração") mas não podemos falar do mesmo "rheme" ou dos mesmos atos céticos (que constituem a mesma declaração em outro sentido que envolve o uso das mesmas palavras). ou entre aspas precedida de "ele disse" ou. diríamos "mandou-me que". etc. "Ele disse que iria". do T. (3) O ato fático. p. e dizemos "quando disse 'ele' estava me referindo a. além da gramática e do vocabulário. sei" proferida em um mesmo momento por pessoas diferentes. ou murmurar repetidamente alguma frase. contudo. A mesma senten­ ça pode. e assim constituir-se num "rheme" distinto. de seu proferl ­ mento concreto em um contexto determinado. O ato cético consiste na realização do ato de utili­ ar tais vocábulos com um certo sentido e referência mais ou menos defini­ dos.Ele perguntou se era em Oxford ou em Cambridge". Assim. Assim. ou podemos ler uma sentença em latim sem saber o sentido das palavras. caretas.'O gato está sobre o tapete' ". bem como pode ser proferida em momentos e contextos diferentes. tem um carftet gen&ico e usos concretos espedficos. não podemos sempre usar com facilidade "disse que".. pode ser reproduzido (inclusive na entonação. Contudo. nem a questão sobre no que consiste um único "pheme" ou " rheme". por exemplo. Qual é a referência no caso da afirmativa "todos os triângulos têm três la­ dos?" Do mesmo modo. ruídos de detenninado tipo considerados como pertencentes a um vocábulo e na medida em que a ele pertencem. Este é o uso de "disse" seguido ou precedido de uma expressão entre aspas que aparece nos romances: a expressão toda pode ser exatamente re­ produzida entre aspas. naturalmente. isto é. Se a pessoa utilizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes. Assim. que pertençam à classe destes últimos). embora o inverso não seja possível. gestos.) Quando dizer é fazer 87 .. Aqui não importa muito a questão sobre quando um "pheme" ou um "rheme" é o mesmo que outro.'É em Oxford ou em Cambridge?' " .'Estarei lá' " . Podemos ilustrar um constante semelhante com os seguintes pares de expressões: "Ele disse: . como o fonético. tomada em abstrato. Mas o ato rético é o que relatamos no caso de asserções do tipo "Ele disse que o gato estava sobre o tapete" . com exceção talvez de nomes próprios stricto ~n. podemos repetir as observações de outra pessoa. Se o sentido ou referência nâo foram entendidos com clareza. Mas. como também o fato mais complexo de que tal proferimento tenha sido feito assim: "Ela tem um lindo cabelo" (careta). Naturalmente que sentido e referência (nomear e referir) são aqui atos acessórios realizados ao realizar-se o ato cético. etc. eu poderia dizer: . di­ rfamos "mandou-me que".proferimento de certos vocábulos ou palavras. podemos falar de atos reticamente equivalentes (em certo sentido. no exemplo de Strawson (citado acimA. é importante lembrar que o mesmo "pheme" (instância do mesmo tipo) pode ser utilizado em diferentes ocasiões de profe­ rimento com diferentes sentidos ou referências. Podemos realizar um ato retico sem referinnos a algo ou a alguém e sem nomeá-lo? Em geral pa­ receria que a resposta deveria ser negativa. Se a pessoa uti­ lizou-se do modo imperativo ou frases equivalentes. é o da entonação. é essencialmente ímitável. ao passo que "Ele disse que o gato estava sobre o tapete" registra um ato cético. ou "Ele disse que ele estava se comportando mal e ele me retrucou que 'quanto mais alto chegas menos pessoas encontras' ". 19) a "sentença-tipo" "O atual Rei de França 6 sSlio" pode ser proferida com referência em 178 e sem referência no peIfodo oontemporAneo. mencionarei alguns pontos gerais dignos de se­ rem lembrados: (1) É óbvio que para realizar um ato fático devo realizar um ato fonéti­ co. seja enquanto "tipo" ou enquanto instância particular*. se o preferem.'Saia'" . pois se um macaco emite um ruído que se parece com a palavra "vou" isso não consiste em um ato fático."Ele me mandou sair" "Ele disse: . Quando diferentes "phemes" são usados com o mesmo sentido e referência. L. Compa­ re-se "disse que" com "saudou-me" e ··apresentou suas desculpas". mas há casos desconcertantes. então a expressão toda ou parte dela tem que vir entre aspas. seguida de "disse ela"."Ele disse que estaria lá" "Ele disse: . ". Con­ tudo. relata um ato fático. Acrescentarei mais um ponto a respeito do ato cético.". por exemplo. isto é. (2) É óbvio que na defmição do ato fático duas coisas se juntam: voca­ bulário e gramática. U . a afmnação inversa não é verdadeira. Assim.. Assim não atribuúoos um nome especial à pessoa que se diz. "aconselhou-me a e assim por diante. "Ele disse que eu deveria ir" (suas palavras foram "Você deverá ir"). mais fre­ qüentemente. Austin "discurso indireto" . de conformidade com uma certa gramática e na medida em que a esta se conformam. Outro ponto que se apresenta."Ele disse que eu deveria ir ao 'ministro' mas não especi­ ficou qual ministro" . além de nosso interesse imediato. "gato inteiramente o se" ou "os insilíosos dombos voeja­ ram". ou.). Assim. ao realizar um estou realizando o outro (o que não quer dizer que os atos fáticos sejam uma subclasse dos atos fonéticos. (N. "Ele disse: .su. * Os tennos "typte" (tipo gen&ico) e "tokn" (instância particular) são utilizados em filosofia da lin ­ guagem para distinguir uma sen1ença ou expressão lingüfstica. Toda expressão Iingürstica. Para prosseguir com esta questão por sua importância intrínseca.

e faz uma grande diferença para o nosso ato em certo sentido . assim como se tornou essencial distinguir entre sentido e referência dentro de significado.pois "uso" é uma palavra incuravelmente ambígua e demasiado ampla. Para deter­ minar que este ato ilocucionário é realizado dessa forma temos que detenni­ nar de que maneira estamos usando a locução. Vou referir-me à dOll­ trina dos diferentes tipos de função da linguagem que aqui nos interessam como sendo a doutrina das "forças ilocucionárias" . contudo. fazendo um apelo ou uma crítica. etc. ordenando. É bem verdade que estamos agora superando tal coo· fusão. 105. da gramática (ver acima). produzirá certos efeitos ou conse­ qüências sobre os sentimentos. ou garantia ou advertência.a maneira e o sentido em que estávamos "usando" a fala nessa ocasião. Quando realiza­ mos um ato locucionário. e também que a "falácia descritiva" mencionada na Conferência I g ralmente surge do erro de confundir um problema do primeiro tipo com um problema do segundo. em geral. etc. . tocar no problema de seu uso no sentido do ato ilocucioruírio. Mas de que maneira a estamos usando precisamente nesta ocasião? Porque há inúmeras funções ou maneiras de utilizarmos a fala. que muitos hoje não levam a sério. ou de outras pessoas.pronunciando uma sentença.. Pode-se dizer que por demasiado tempo os ftlósofos negligenciaram este estudo. pode ser também realizar um ato de outro tipo. há alguns anos começamos a perceber cada vez com mais clareza que a ocasião de um proferimento tem enorme importância. talvez ainda nos inclinemos demasiado pelas explicações em ter­ mos do "significado das palavras" . ou de quem está falando. p. eo ipso. seria perfeitamente possível. em oposição à realização de um ato de dizer algo. Contudo.. Embora tais assuntos sejam de grande interesse.) Não há nada de misterioso aqui a respeito do nosso eo ipso. a realização de um ato ao dizer nJ· go. esclarecer devidamente "o que estáva­ mos dizendo" ao emitir o proferimento. utilizamos a fala. ou ações dos ouvintes. não esclarecem no momento o nosso problema de contrapor proferimentos performativos a pro­ ferimentos constatativos. Sua deficiência característica é ser impreciso.sentido (B)l . e contudo não haver absolutamente aclarado se ao emitir o profe­ rimento eu estava ou não realizando o ato de advertir. . e assim um ato ilocucionário. na realidade. mas as disc utimos constantemente. com re­ lação ao proferimento "Vai atacar". isto é. e que as palavras utilizadas têm de ser até certo ponto "explicadas" pelo "contexto" em que devem estar ou em que foram realmente faladas numa troca lingüística. temos aqui uma ilustração dos diferentes usos da ex­ pressão "usos da linguagem" . Expliquei a realização de um ato nesse novo sentido como sendo a rea· lização de um ato " ilocucionário".perguntando ou respondendo a uma pergunta. ou mesmo aos atos perlocucionários que mencionaremos mais adiante. ou s deveria ter sido tomada como uma estimativa. vago ou obscuro."Suas palavras tiveram o significado de uma ordem" . Mas "uso". se estávamos es­ tritamente prometendo ou apenas anunciando uma vaga intenção. . Podemos dizer que realizar um ato locucionário é. no sentido em que significado equivale a sentido e referência. não está em posição muito melhor. pergunta. ou até normalmente. realizar um ato ilocucioruírio. . L. tratando todos os problemas como problemas de "uso locucioná­ rio". E isso pode ser feito com o propóQuando dizer é fazer _ 8 88 J.o "phemc" é uma unidade da linguagem. e assim por diante.anunciando um veredito ou uma intenção. em todos os sentidos até agora men­ cionados. Antes de elaborar mais essa noção de ato ilocucionário.fazendo uma identificação ou descrição e muitos outros casos semelhantes. Admitimos que podemos usar "signifi­ cado" também com referência à força ilocucionária . Podemos esclarecer totalmente qual foi o "uso de uma sentença" em determinada ocasião. sem. Pode estar perfeita­ mente claro o que quero dizer com "Vai atacar" ou "Feche a porta" . Ausrin .dando alguma informação. mas pode não estar claro se se trata de uma declaração ou de uma advertência. Por exemplo. pensamentos. ou "uso de uma sentença". etc. " Isto pode referir-se até ao ato locucionário. Mas quero distinguir força de significado. que a suplantou. (Não estou de forma alguma sugerindo que esta seja uma classe nitidamente definida. o "rheme" é uma unidade da fala. Sua deficiência característica é carecer de sentido. etc. como me proponho denominá-lo. ou. Há um outro sentido (C) em que realizar um ato locucionário. . Estas questões penetram um pouco. Dizer algo freqüentemente. Mas. . e não sem confusão. no terreno 1 Ver I/lfra. assim como a palavra "significado". ou seja: . Além do mais. considerunoo se certas palavras (uma certa locução) tinha a força de uma. Faz uma grande diferença saber se estávamos advertindo ou simplesmente sugerindo. contrastemos tanto o ato locucionário quanto o ato ilocucionário com um terceiro tipo d ato. O problema reside realmente no número de diferentes sentidos de uma expressão tão vaga quanto "a maneira pela qual estamos usando .marcando um compromisso. etc. no sentido do ato locucionário.

da mesma foona.a) ou Perlocução Ele me persuadiu a atirar nela. etc. deixando-as ainda um tanto esquemáticas. incitar.. Ato (C. podem ser perfeitamente claros o significado e a força do meu proferimento. De qualquer modo voltaremos a este assunto mais adiante. Assim. do T .. Ato (C. (N. ao passo que tal coisa não ocorre com o segundo. Há usos 2 (Neste ponto aparece no manuscrito uma nota feita em 1958 que diz: (1) Tudo isto nAo está claro (2) e em todos os sentidos relevantes (A) e (B) como distintos de (C). esclareçamos de uma vez por todas que a expres­ são "uso da linguagem" pode cobrir outros assuntos até mais diversos do que atos ilocucionários e perlocucionários. de foona esquemática.e r. " e do ato perlocucioná­ rio "ele me convenceu que . não serão todos os proferimentoa performati vos?') . também. etc. "Você não pode fazer isso".. Ato (C. Por enquanto não definiremos a idéia com maior cuidado .ainda que o ne­ cessite . podemos dizer " Argumento que" ou "Advirto-o de que" . obscurecer a distinção entre o ato lio­ cucionário e o perlocucionário . que não incluem efeitos convencionais. tais como. Já vimos como expressões "significado" e "uso da sentença" podem obscurecer a distinção entre atos locucionários e ilocucionários. o fato de a pessoa que fala ficar comprometida a cumprir sua promessa (isso corresponde ao ato ilocucionário). como quando dizemos "ao dizer p estava brincando" ou "desempenhando um pa­ pel" ou " fazendo poesia" .b) à realização do ato locucionário ou ilocucionário. convencional. Façwnos alguns cornenb'­ rios gerais sobre estas três classes. Distinguimos. e podemos usar "ao" de um modo diferente do "ao" ilocucionário. três tipos de atos 0 1 cucionário.) atirar nela. (2) Para ir mais além. Os primeiros três pontos serão novamente sobre "o uso da linguagem".a). pelo menos. para piadas..b) Ele me impediu. sem maior precisão e para efeito de contraste. Da mesma maneira podemos distinguir o ato locucionário " ele disse que . podemos falar do " uso da linguagem" para alguma coisa. Austill Quando dizer 6 fazer 91 . Falar do "uso da 'linguagem' para argumen­ tar ou advertir" parece o mesmo que falar do uso da 'linguagem' para per­ suadir. Agora notamos que falar do "uso" da linguagem pode. então.) a atirar nela. Chamaremos a realização de um ato deste tipo de realização de um ato per­ locuc. " do ato ilocucionário "ele argumentou que . Verso do poema "Song". é distinto de ambos os outros. do poeta Ingles John Donne(1 572-1 63 1). fez-me ver a realidade. Há uma ten­ dência constante em filosofia a se omitir este tipo de ato em favor de um ou­ tro dos outros dois. no sentido de ser possível. e o que consideramos como conseqüências meramente convencionais. por exemplo. No entanto. Ou. portanto.b) Ele me obrigou a (forçou-me a. intenção ou objetivo de produzir tais efeitos. Talvez seja necessário marcar as distin­ ções. Por exemplo. mas pode haver dúvidas acerca de qual desses outros tipos de coisas eu possa estar fazendo. Tais referências ao " uso da linguagem" nada têm a ver com o ato ilocucionário. Ele me irritou. Veremos que os efeitos conseqüentes das perlocuções são realmente re­ sultados.mas nos limitaremos apenas a dar exemplos: Exemplo I : Ato (A) ou Locução Ele me disse "Atire nela!" querendo dizer com "atire" atirar e referin­ do-se a ela por "nela". meramente oblíqua (C. L." Vá pegar uma estrela cadente"*. alannar". uma vez que há nítida diferença entre o que sentimos ser a produção real de efeitos reais. dosamente dentro de instantes. Contudo. Por exem­ plo. pensando nisso..a) ou Perlocução Ele me conteve. que o falante realizou um ato que pode ser des­ crito fazendo-se referencia. Ato (B) ou Ilocução Ele protestou contra meu ato. se digo: . ordenou. me refreou.portanto vamos diferenciá-los mais cuida. (1) Nosso interesse nestas conferencias consiste essencialmente em ater-nos ao ato ilocucionário e contrastá-lo com os outros dois. podemos tornar to­ talmente claro o fato de estar alguém argumentando ou não sem tocar na questão de a pessoa estar ou não convencendo alguém. etc. explicitá-lo pela fórmula performativa. o primeiro tipo de "uso" pode ser con­ siderado. Ato (B) ou Ilocução Ele me instigou (ou aconselhou. como.. por exemplo. ou mesmo sem fazer referência alguma (C.onár. Ato (C.) 90 J. Além disso. Em tal caso podemos di­ . mas não podemos dizer "Eu con­ venço você que" ou "Eu alanno você que" .o ou perlocução. Exemplo 2: Ato (A) ou Locução Ele me disse... o ilocucionário e o perlocucionári02. ".sito. podemos falar de "um uso poético da linguagem" distinto do "uso da linguagem na poesia".

em vez de di­ zer que ao fazer B. contudo. Devemos notar que o ato ilocu­ cionário é um ato convencional: um ato realizado em confonnidade com uma convenção. Se em casos como estes mencionamos tanto um ato B (ilocução) como um ato C (perlocução) diremos que "por haver feito B ele fez C. que nossos atos. podem ser coisas que de fato não flZemos. Semp introduzimos nesse caso uma gama maior ou menor de "conseqüências". (b) O ato perlocucionário pode incluir o que. (6) Além disso. É hom nagem porque é convencional e é prestada apenas porque é convencional. devemos admitir. podem haver algumas coisas que "fazemos" em al­ guma conexão com o dizer algo que não parecem se encaixar. sempre temos que nos lembrar da dis­ tinção entre produzir efeitos ou conseqüências que são intencionais ou não intencionais. Consideremos o caso de render homenagem. No item (2) já aludimos a outros casos em que podemos não haver plenamente realizado a ação. é necessário levar em conta os males que podem afetar toda e qualquer ação. de certo modo. mais parece um efeito conseguido com habilidade do que um simples ato. A expressão "um ato" não está usada. Na próxima conferência voltaremos a nos ocupar da distinção entrl nossos três tipos de atos e das expressões "ao fazer x estou fazendo y" ."parasitários" da linguagem. Poeta americano do século passado (1819-1892). como quando insul­ tamos."Ao fazer x estava fazendo y" (no sentido de que como conseqüência de haver feito x pude fazer y). do T. " por haver feito x consegui fazer y" .. que a noção do que seja um ato não é cla . (5) Já que nossos atos são atos.. como quando dizemos : . para distingui-lo de um ato ilocucionário. em princípio. de modo algum. Assim. a distinção entre tentar e conseguir.Pu­ xou o gatilho. como o dar a enten=­ der.) como "'não intencionalmente" e outros). realizar x. Mas não podemos dizer "Eu insinuo ."Matou o burro. pois insinuar. " Esta razão de chamar C de ato perlocucionário. dlsponIvcÍB para uso indjviduul ~m todos os casos de realização de ações.Apertou o dedo que estava sobre o gatilho" .. podemos responder qualquer uma destas coisas: . como tais. parece supor algum tipo de convenção. que o gat."O que fez ele?". (a) O ato ilocucionário e até mesmo o ato locucionário podem estar li­ gados a convenções. pelo menos intuitivamente. ou deveria ser. Outro exemplo é o demonstrar ou exteriorizar emoções. Por exemplo. ". como num ato ilocucionário. Compare-se a diferença que há entre dar um pontapé numa parede e dar um pontapé numa bola para fazer um gol. al­ gumas das quais podem ser "não intencionais". Austin . contudo. para aludir apenas ao ato físico mínimo. o efeito ocorre. não ocorrer e (lI) quando a pessoa que fala não tenciona causar um efeito ou tenciona deixar de causá-lo e. Por exemplo. então.a saber. temos que enfrentar a objeção a nossos atos ilocucion"­ rios e perlocucionários . O fato de podennos incluir no próprio ato uma gama indefInidamente extensa do que se poderiam chamar "conseqüências" do ato é. (N. que n110 süo " tomados a sério". como quando insinuo algo ao emitir um proferimento ou porque o emito. Os próximos três pontos surgem principalmente devido ao fato de nos­ sos atos serem atos. como já o flzemos.Disparou o rev6lver. Poderíamos dizer que usamos o in­ sulto para dar vazão a nossos sentimentos.. nem para os outros recursos dos atos ilocucionários.utilizando-nos de uma doutrina geral da ação. lançou-se sobre o porco e conseguiu que este se atirasse por sobre a cerca. (4) Já que os atos destes três tipos consistem na realização de ações. isto é. . ou que. como último recurso. em nenhuma dessas classes esquematicamente defInidas. no sentido em que os realizamos à força ou de algum outro modo semelhante. (3) Além do mais. e todas as res­ postas poderiam estar corretas. ou " não cons­ tituem seu uso nonnal pleno" . é claro. e que se distin­ gue das convenções e das conseqüências. Temos a idéia de que um "ato" é uma coisa física de forma deflnida que realizamos. para enfrentar a complicação (m invocamos os re­ cursos lingüísticos normais para negar nossa responsabilidade (advérbios . Para enfrentar a complicação (I) invocamos. qualquer tentativa de fazer com que o interlocutor faça algo. com o prop6sito de obter maior clareza Quando dizer é fazer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 92 J. Podem estar suspensas as condições nonnais de referência. . Mas aqui também não cabem as fórmulas perfonnativas. Podemos revelar emoção ao emitir o proferimento ou porque o emitimos. parecem pertencer vagamente a mais de uma delas. (7) Finalmente. deve­ mos distinguir entre prevenir e tentar prevenir. Aqui cabe estar preparado para encontrar infelicidades.. . e entre (I) quando a pessoa que fala tenciona causar um efeito que pode. para encurtar a hist6ria infantil dos esforços da velha que queria levar o porco para casa a tempo de preparar o jantar de seu marido. in­ sinuar. Mas. ou pode estar ausente qualquer intenção de levar a cabo um ato perlocucionário típico. se nos perguntam: . um ponto pacífico fundamental da teoria da nossa linguagem acerca de toda a "ação" em geral. como Walt Whitman* não incita realmente a águia da liberdade a alçar vôo. e "o ato de tentar fazer x" . não vemos que as coisas estejam tão distantes de nossos três atos como o estão contar piadas e fazer poesia. são con­ seqüências. Mas de qual­ quer modo. Assim. poderíamos dizer. L. Devemos estar preparados sistematicamente para distinguir entre "o ato de fazer x".

a grosso modo. Austin __________________________________________ s . Vere­ mos que do mesmo modo que. prevenir. isto é. Pareceu conveniente. um ato locucionário abran­ ge a realização de muitas coisas de uma vez. às dificuldades e reservas costumeiras que consistem em dIstin­ guir uma tentativa de um ato consumado. o que. ou pelo menos puramente per­ formativo. portanto. surpreender ou confundir. encontramos algumas dificuldades para detenninar se um proferimento era ou não performativo. pro ferimentos que têm uma certa força (convencional). simplesmente por serem ações. ordenar. L. há outras tam­ bém). ou que ao dizer algo estamos fazendo algo. a proferir determinada sentença com detenni­ nado sentido e referência. Em terceiro lugar também podemos realizar atos perlocucionários. um ato intencional de um não-in­ QUMdod~r6f~r 94 J. tais como con­ vencer. senão mais até. "significado" no sentido tradicional do termo. persuadir. naturalmente.em relação às três classes e aos casos que são ou não membros delas. mesmo. impedir ou. que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucionário. I X Conferência Distincão entre atos -' i1ocucionários e perlocucionários Quando sugerimos empreender a tarefa de fazer uma lista de verbos performativos explícitos. Aqui temos três sentidos ou dimensões diferentes. da frase "o uso de uma sentença" ou "o uso da linguagem" (e. voltar às questões fundamentais para considerar em quantos sentidos se pode afrrmar que dizer algo é fazer algo. etc. equivale. avisar. distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao dizer algo. Todas essas três classes de "ações" estão sujeitas. por sua vez. ou mesmo que por dizer fazemos algo.. assim também pode ocorrer com os atos ilocucionários e perlocucionários. os quais produzimos porque dizemos algo. comprometer-se. O que equivale. para ser completo. Em segundo lugar dissemos que também realizamos atos ilocucionários tais como informar. a grosso modo. Em primeiro lugar.

de nosso oç real no mínimo sentido físico suposto.logo 80 "movimento do gatilho". * Ver p. Não apenas deixamos de lado a noção de ato físico mínjmo (que eO' do o caso é duvidosa). devemos distinguir entre "ao dizer tal coisa eu o estava prevenin­ do" e "por dizer tal coisa eu o convenci. ou aÍtrmando ser dele o lenço. ou o que seja. No caso destas últimas. muns sobre tal assunto se encontram. que acionará um gatilho. mesmo deliberadamente. ou tomã-las entre o polegar e o indicador. e é sobre esse ponto que nos deteremos agora. muito que dizer a esse respeito que não necessita ocllpor-llO~ agora. impedir (C. quase sempre. Como já vimos. talvez. Porque é óbvio que todos os atos perlocucionários. do T. para confundir). por exemplo. pelo menos quando fa­ zemos esta distinção em relação ao constatativo. b) de conhecer muitos outros fatos acerca de nossos motivos. Austin _______________________________________ Q U M d o d t t e r é f ~ e r . lago insinua a Othello a infidelidade de Desdêmona (ato m. ou mover os pés naturalmente ou com n UJUdA ti mllos. não é mais surpreendente do que o fato inverso. como quando estão dormentes. a oportunidade: a) de saber o que fizemos. ou o fIz parar" . ronlmonle.. está. Se atiro um tomate durante uma reunião polftica (ou grito " Protesto" se outra pessoa o faz . portanto. (N. sobre as conseqüências reais do ato que eu havia pretendi­ do realizar. de algum. quando dl:rom "apertei o dedo". que podem ser inferidos do fato de havermos realizado o ato. o fato do objeto que se moveu ser par1e do meu corpo n1l0 introduz. parecemos receber alguma ajuda proveniente dn natureza especial dos atos de dizer algo em contraste com ações ffsicQll muns. no Othello de Shakespeare.. ou surpreendi. por ser um movimento corporal. ao se emitir qualquer proferimento.. Ao passo que. Que o fato de dar uma informação direta produz. e.Iizcr ui go. a intenção com que o gesto foi feito). L. podem ser realizados em circuns­ tâncias sufic ientemente especiais. Devemos distinguir o ato ilocucionário do ato perlocucionário.supondo que isso seja realizar uma ação) isso terá provavelmente como conseqüência que os outros percebam que protesto e que tenho determinadas convicções polfti­ caso Mas não tomará verdadeiro ou falso o ato de atirar o tomate ou de gritar (ainda que possam ter sido fei tos. quo é suo cOI\8eqO/lncln. e coisas semelhantes. preferimos pensar que po demos. ao emiti-lo. tensa do que se poderia chamar de conseqüências naturais (ou. Fazer um ato qualquer de maneira perceptível ou descritrvel também é nos dar e aos outros. 105 para entender importância de tais referências. É certo que o sentido perlocucionário de "fazer uma ação" tem de ser excluído. talvez inadvertidamente. naturalmente. Em geral. A NECESSIDADE DE DISTINGUIR "CONSEQÜÊNCIAS" O que parece criar maiores difIculdades é a distinção entre ilocuções e perlocuções. além disso. ou quase todos. cena 3). como também não temos qualquer tipo de designa para distinguir atos físicos de conseqüências. Assim posso ser capaz de mover as orelhas. E assim. distinguir cada vez mais o que inicialtncn t estava incluído. como um garoto do clIColn O faz. 4 Note-se que se supomos que o ato ffsico m{nirno seja um movimento do corpo. nosso caráter. vendo a cois de outro ângulo. O uso comum de "apertar" em tais exemplos como "apertol (l dedo" é dltimo. in pari materiaS com pelo menos muitas das suas 3 fi. Depois dissemos que tínhamos que conside­ rar essas três classes de atos em maior detalhe. por etapas sucessivas. Você pode. por exemplo. 11 . Pois com as ações físicas nós quase designamos a ação não em termos do que estamos chamando aqui d sico mínimo. que a realização de uma ação qualquer (in­ cluindo o pro ferimento de um performativo) tem em geral como conseqüência nos tomar e aos outros conscientes dos fatos. que estejamos tentando separar de suas conseqüências. e só tocaremos de passagem na distinção entre ilocuções e locuções. E isso se aplica até mesmo a (C. nem 110 "Olovlmont 96 J. Nilo devemos prosseguir para chegnr a "contra( os mdsculos" e ooisns seOlelhunlOI. r>0 mais próximas ou por mais passíveis de serem antecipadas. também. * Referência à maneira pela qual. que se revelará como sendo n rcaJi1u ção de um ou mais movimentos com partes do nosso corpo (por exemplo d brar um dedo. podemos ou.) 1 2 Temos. um sentido novo a "apertei". ou seja. "fazemos uma ação". mas na ocasião oportuna. modo. ou que possivelmente poderia ser incluído na designoçno dada ao "nosso ato ele próprio"3 como realmente apenas conseqüências. nos PrincipÜl ethica de Moore. com os atos em que se diz algo. que separar bem a ação que fazemos (no coso um ilocução) de sua conseqüência. efeitos conseqüentes sobre a ação. Mas pelo menos no caso de atos em que se diz algo: (1) A nomenclatura nos presta uma ajuda que geralmente não mos no caso das ações "físicas". se a ação não consiste em c. como irrelevante.tencional. mas em termos que abrangem uma gama indefInidamente ex.­ Não me ocuparei aqui do problema de até onde podem estender-se as conseqilêocins. temos uma qucstüo complicada. para a interpretação do sentido em que um pro ferimento é performativo se. Os orro. com ou sem o propósito de produzir os efeitos que chamamos de perlocucioná­ rios. geralmente.a) porque alguém pode conven­ cer-me (C. e em particular ao emitir um pro ferimento constatativo direto (se é que existe tal coisa). a produção de qualquer nú­ mero de efeitos ou conseqüências não impedirá que um pro ferimento constatativo seja verdadeiro ou falso. ainda quando se trate de uma ação física nima. 5 Este irl pari materla pode ser motivo de confusllo.b)l que eu faça algo simplesmente ao me dar uma informação.a) de que uma mulher é adúltera ao perguntar-me se não era seu o lenço encontrado no dormitório de X2 . o vocabulário de nomes para os atos (B) parece expressn~ mente destinado a marcar uma ruptura num determinado ponto entre O ato (de dizer algo) e suas conseqüências (que geralmente não são o dizer algo) ou pelo menos não o são na grande maioria dos casos4 • (2) Além do mais. Por exemplo. mas trata-se de uma ação "física" não convencional. Nl\o quero dizer que o meu "apertar O dedO" 10111 metafislcamento an6. que resultará na morte do burro).

e sim umu referência às convenções de força ilocucionária relacionadas com as cunstâncias especiais da ocasião em que o proferimento é emitido. acima sugerida. do que de ser descrito como um ato locucionário (A) mol e ou monos tiO­ I1nido. Por que. deliberada ou não. sobre se essas palavras representaram um(\ Mdel11. é claro. fenô­ meno que se vincula à classe especial de nomes para as ilocuções. isto é. em " voltar para rrá~" u purtir da HOCIlÇ[IO até o mo fonético (A . na medida em que este produz conseqi. não às conseqüências du locução (pelo menos não no sentido ordinário de conseqüência). Mas a esta altura cabe perguntar se as conseqüências que introduzimos com a nomenclatura de perlocuções não são em realidade conseqüências dos atos (A). deve ser também evi­ tada. 7 Será mesmo? Já notamos que a "produção de ruídos" é em si mesma realmente uma conseqüência de um ato ffsico minimo de mover os 6rgãos vocais. física ou de outro tipo. Portanto. das locuções? Devemos perguntar se. quer seja por parte de quem falou primeiro. Por outro lado.c).l~n cias e o outro não é. em relaçllo 1I11OC\I~ft ver que. que agrade­ cer é necessariamente dizer certas palavras. por exemplo. etc. com os órgãos vocais 8 . afinal. isto é. dizendo que o sentido em que o di­ zer algo produz efeitos sobre outras pessoas. que consiste num movimento físic0 7 • Admitimos. O que introduzimos pelo uso da nomenclatura de ilocução é uma referência. na realidade. muito 11'\ nos conseqüências físicas . até chegar ao ato (Aa). No que diz respeito a isso. dos atos fonéticos (Aa). intenclonodo ou n!\oj aLI esolarecer "como devem ser tomadas as nossas palavras" (em sentido i1ocuclondrio). Até agora argumentei que podemos ter esperança de isolar o ato ilocu­ cionmo do ato perlocucionário. que não ocorre no caso das ações físicas. Lo ocuparemos dos sentidos em que a realização consumada ou bem-su de um ato ilocucionário produz realmente "conseqüências" ou "efeitos" em certos sentidos 10. L. contudo. estas não são nonnalmente outros atos de dizer algo. ê talvez tão comum quanto o fracasso. Udo. em nossa tentativa de separar "todas" as conseqüências. não pare­ ce impedir-nos de delimitarmos nossos propósitos atuais onde o desejamos. quaisquer que sejam as conseqüências naturais e imediatas de um ato de dizer algo. por alguma razão e em algum sen­ do gatilho pelo meu dedo". e. da emissão de um ruído. veja infra. Mas. quer por parte dos outros6 . Austin Quando dizer é fazer _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ . uma ordem.c) são conseqüências. contudo. fazer certos movimentos. em si mesmo.há alguma vinculação. isto é. ainda que não verbalizada. está relacionado com a produção de efeitos em certos senti­ dos: 1u Ainda podemos nos sentir tentados a atribuir certa primazia h locução. entre a fmalização do ato ilocucionário e todas as conseqüências pos­ teriores a ele. E além do mais (m.c) 1111 nomen clatura das locuções. no entanto.. difíceis de des­ crever. Do mesmo modo a eOlissÍlo de palavras com determinado significado não é uma conseqü. devo assinalar que o ato ilocucionário. rotulamos um de A e outro de Fl ? PodO· mos estar de acordo quanto 115 palavras realmente emitidas e também quanto a quols os sentido. e. podemos não saber com certeza o que foi ordolllldo (lo. determinadas conseqüências? (um certo efeito sobre mim). Agora. De modo que temos aqui uma espécie de ruptura natural da cadeia. 98 J. referia realmente?) E. 8 Por razões de simplicidade nos atemos 115 expressões orais. Podem aparecer dificuldades a respeito de convenções e intenções no momcnto do dooldlr 80­ bre a descrição correta tanto de uma locução quanto de uma ilocuçllo. no entanto. por exemplo. ou talvez tenha sido feito com a intenção de ter. cuçllo). podemos fl ll1d l\ não estar de acordo. da ex­ pulsão do ar. UOo deveríamos regredjr até a ação fís ica núnima por via da cadeia <. Oll de outro tipo. não teremos de continuar nosso procedi­ mento regressivo e deixar para trás a ilocução até chegar à locução. o divórcio entre ações "físicas" e atos de dizer algo não é de todo completo . da emissão de palavras. afinal. A lém d18llO. dado certo ato rético individual (A. (O que quis dizer quem em itiu o pro ferimento? A que pessoa. pelo menos em parte. Tem que operar através das con­ venções da linguagem e é uma questão de influência exercida por uma pessoa sobre a outra. Até mesmo a idéia de que o que é introduzido pela nomenclatura de ilocuções seja uma referência adicional a algumas das conseqüências das locuções9 . ou menos definido de ilocuçáo. ou causa algo. A ambigilidndc do slgnl Oont!o ou de referência. distintamente do alo perlocucionário. o que é muito mais importante. "apertar o dedo que es~ no gatilho" es~ in pari materia com "o movimento do gatilho" • Ou podemos colocar a questão de outra maneira mais importante. 11m que foram usadas e quais as realidades a que se fez referência com elas. que é a emissão de ruídos. um conselho ou uma advertência. uma "conseqüência" do ato locucionário. Ainda que tivéssemos que insistir. etc.a). nem 1l1CS mo os atos " fáticos" (Ab) e "céticos" (A. De fato é muito mais diflcil evitar desacordos quanlo 11 dcscrlçllo do "010 locucionários". Cnda um desses tipos de ntos..conseqüências naturrus e imediatas. S Ver infra. sem t1lt Vo ' da. ~ plausivel supor que o ato não é menos "suscetível" de ser descrito como um tipo moi. A emissão de sons pode ser uma conseqüência (física) do movimento dos órgãos vocilis. E dizer certas palavras é neces­ sariamente. é um sentido fundamentalmente distinto de "causa" daquele que é usado na causação ffsica por pressão. Ole. 9 Contudo. podem haver dúvidas ainda a respeito de Co mO $C (lCv descrevê-lo na terminologia das ilocuçóes. é convencionol o sujolto hllllCossldndo li ter uma interpretaç!lo oferecida por "jufzos".ênica {ísica. In· do o aparato dos performativos explicitos (vide acima) serve para evitar desacordos quonto h tleACd· ç\io de atos ilocucionários. e. devemos evitar a idéia. da maneira como supostamente o fudumos partindo du Inorte tio burro até chegar ao movimento do dedo sobre o gatilho. há igualmente ampla posslblllilflllo li discordância nos casos individuais em relação a como deve ser descrito o ato rético (A . to mpo. de que o ato ilocu­ cionário seja uma conseqüência do ato locucionário. ÚIlUI nrneaça. Este é ~ovavelmente o sentido original de causa. No entanto. que para realizar um ato ilocu­ cionário é necessário realizar um ato locucionário. freqüentemente podemos estar de acordo que o ato foi. na verdade. mas a emissão de uma palavra nlio é uma consc(/üe"citl. nas circunstâncias dadas. que dizer "ele me instigou a" é dizer que ele disse certas pala­ vras e além disso o fato dele as haver dito teve. Mas (1) embora isso possa ser relevante em algumas conexões e contextos.l e S UHSco r) seqüências.

di signai.. Mas é difícil dizer onde começam e onde terminam as convençõc~. perguntar a alguém se deseja algo. serão sem cabimento. Estritamente falando. e com freqüência. a realização de um ato ilocucioná­ rio envolve assegurar sua apreensão. ou não são para esses no". Contudo. isto é. ou perturbar ou humilhar alguém por meio de uma locução. feito isso. Se a resposta é concedida. Por exemplo. Contudo. em lugar de ser o objeto de dizer "não faças isso". posso surpreen­ der.. Isto é uma forma de atribuir o ato a mim e. De que maneira podemos expressar melhor isto? E como podemos deli­ mitar melhor esta noção? Em geral o efeito equivale a tornar compreensível o significado e a força da locução.L. posso prevenir alguém agitando um pedaço de pau ou posso obs quiar alguém simplesmente entregando-Ihe algo. ordenar. Assim. por meio d atos que não são de modo algum convencionais. A implicação geral da segunda expressão é que se utilizaram outros meios adicionais para produzir essa conseqüência como atribuível a mim. ". convencer. embora n existam as f6rmulas ilocucionárias "Surpreendo-te por. Não há dúvidas de que podemos conseguir algumas seqüelas de atos pcrJo­ cucionários por meios inteiramente não convencionais. certos atos subseqüentes. De modo que temos aqui três maneiras pelas quais os atos ilocucioná­ rios estão ligados a efeitos. meios tais como recursos persuasivos e. dem sempre obter suas respostas ou seqüelas por meios não convencionais.. Um efeito sobre o au­ dit6rio tem de ser conseguido para que o ato ilocucionário seja levado a ca­ bo. e portanto os mejos para al­ cançar os fIns de um ato desse tipo em fonna não verbal têm de ser conven· cionais. geralmente podemos sempre dizer "Fiz com que ele . tais corrio referir-se ao barco como Generalíssimo Stalin. em virtude de uma convenção. temos que distinguir "Eu ordenei e ele obe­ deceu" de "Fiz com que ele me obedecesse". O que é objeto perlocucionário de uma i1ocução pode ser se qüela de outra.da ti uma ilocução. por exemplo.. isso requer um segundo ato por parte do protagonista do pri­ meiro ato ou de outra pessoa. pode ser uma seqüela de uma ato perlocucionário que alannu ui· guém. prome­ ter. Surgem dificuldades semelhantes com relul Quando dizer éfazor 101 . "Batizo este navio com o nome de Queen Elizabeth" tem o efeitó de batizar ou dar nome ao barco.(I) A menos que se obtenha detenninado efeito..Assirn. uma vez que podemos. É característico dos atos perlocucionários que a resposta ou a seqUel1l que se obtém possa ser conseguida adicionalmente ou inteiramente por melo! não-locucionários. e por outro lado oferecer. Assim. persuadjr) daquelas que simplcslncntc produl:cm uIrul scqüclu perlocucionária.. AI atos perlocucionários sempre têm seqüelas. que muitos atos ilocucionários levam. inclusive. Assim. ". ou a seqüela le­ vada adiante. o objeto perlocucionário de prevenir. podemos dizer: "Tentei preveni-lo. Por outro lado. Mesmo nos casos de persuadir. Assim. prevenir. como quando digo "Ao afirmar X fIz com que ele fI­ zesse . posso persuadir alguém balançando suavemente uma vara comprida ou gentilmente mencionando que seus velhos pais ainda estão no Terccirl Reich. 100 J. "Hunúlho-te por . Assim. s6 isso não basta para distinguir os atos ilocucionários. podemos fazer certos gestos ou atirar um tomatl como sinal de protesto. que é característico do ato pedocucionário. freqüentemente o uso de uma influência pessoal chegando à coação. Não se pode dizer que preveni um audit6rio a menos que este escute o que eu diga e tome o que digo num determinado sentido. a resposta pode ser obtidu de maneira não verbal. então o agitar o pedaço de pau é um aviso: o outro sab ria muito bem o que eu queria dizer com o que fazia. se é o caso que para realizá-lo se empregam ou podem empregar-se palavras. que alguém se sinta dissuadido pode ser a seqtl(. podemos distinguir. não pode haver um ato ilocucionário a men que os meios utilizados sejam convencionais. fazer-se obedecer e fazer-se acreditar. isto é. E é lugar comum da linguagem com que se ex­ pressam as conseqüências que isso não pode ser incluído na parte inicial da ação. que pode ter uma ou duas dire­ ções. Essas três maneiras são todas elas distintas do fato de produzir efeitos. poderia parecer um inequívoco gesto de ameaça. " atra­ vés de tais palavras. protestar ou pedir desculpas por meios não verbais e estes sft atos ilocucionários. o que se dis­ tingue de produzir conseqüências no sentido de provocar estados de coisas de maneira "nonnal". ordenar. dar. se pode intimidar alguém agitando-se um pedaço de pau ou apontando-lhe uma arma de fogo. alcrlor alguém. ".Ausrin Temos que di/lljnguir us açõcs que polJSUCllI utn objelo pcrlocudon:íriu (convencer. (2) O ato ilocucionário "tem efeito" de certas maneiras. o ato ilocucionário não terá sido realizado de fonna feliz e bem-sucedida. mudanças no curso normal dos acontecimentos.. Assim. Há até mesmo. sugerir e pedir. a uma resposta ou seqüela. "Perturbo-tl por". trata-se de um ato perlocucionário. um ato ilocucionário distinto do mero ato de ordenar. argumentar. Mas se o previno agitand um pedaço de pau. Assim. mais do que objetos. Assim. (3) Dissemos.. Isso é diferente de di­ zer que o ato ilocucionário consiste na realização de um determinado efeito. Mais importante é a questão de saber se os atos perlocucionários po. e perguntar "sim ou não?". mas 1)6 conílcgul alanná-lo". por um lado. a snbcr: aqueles atos que carecem de f6nnula ilocucionária. Assim.

ainda assim. exercitivos e compromiss6rios ver a XII Conferência (noUI do editor.ao ato de dar consentimento tácito. atos chama­ dos pelo mesmo nome podem ser levados a cabo de maneira não verbal (por exemplo. Na última conferência distinguimos. Atos d ambos os tipos podem ser realizados ou. formular uma apreciação ou estimativa e julgar (em sentido jurí­ dico). ter um resultado e demandar respos­ tas. a algum acordo. X Conferên cia "Ao dizer . argumentar. J. alguns sen­ tidos de "conseqüências" e "efeitos".. Atos ilocucionários sã atos convencionais. o ato ilocucionário que tem uma certa força ao dizer algo. Mas. tem que ser ato convencional não-verbal. e o ato perlocucionário que consiste em se obter certos efeitos pelo fato de se di­ zer algo. por exemplo uma "advertência". infonnar (como coisa distinta de mostrar). Os atos perlocucionários. Urimson).L. atos perlocucionários não são convencionais. especialmente verbos. expositivos. representado por elementos como assegurar a apreensão. ou de votar erguendo a mão. para ser mais preciso. D. fizemos uma nova tentativa de considerar os sentidos em que dizer algo é fazer algo.. em conexão com isso. Isto é válido para os atos de enunciar. fizemos uma distinção esquemática en­ tre alcançar um objetivo e produzir uma seqüela. No caso do ato perlocucionário. Deixando de lado por um momento a distinção inicial entre performati­ vos e constatativos e também o programa de encontrar uma lista de palavras performativas explícitas. embora se possam utilizar atos convencionais para produzir o at. Qunndo dizer é fazor 10 102 J. o fático e o rético) que tem um significado. para que um ato mereça nome de ilocucionário. Assim distinguimos o ato locucionário (e dentro dele o fonético. atos que equivalem ao ato ilocucionário de prevenir ou ao ato per­ locucionário de convencer).Ausdn . ou de prometer tacita­ mente. "versus " p or dO Izer O • • " 11 Pura definiç1\o de judicativos. Mas permanece o fato de que muitos atos ilocucionários não podem ser realizados senão dizendo-se algo. não são con­ vencionais. É válido também para a maior parte dos judicativos e expositivos co­ mo distintos de muitos exercitivos e compromiss6riosll . contudo. especialmente três sentidos em que mesmo nos atos ilocucionários os efeitos têm um papel.

" Cabe perguntar se tais fórmulas lingüísticas nos fornecerão um teste para distinguir atos ilocucionários de atos perlocucionários. do fato de que a f6rmula núo se limita a atos ilocucionários. Em particular (a) usamos a mesma f6rmula 110" casos em que o verbo correspondente a Y designa a realização de uma parti incidental de um ato locucionário.). Também o são "quando". "ao dizer que detestava os católicos. Admitimos que ainda que possamos afrrmar "ao dizer X estava fazendo Y" . "enquanto" . Podemos tentar livrar-nos de (a). apresenta maior dificuldade. Quan­ do o uso não é ilocucionário. mas não que atos perlocucionários foram produzidos. Muitos dos leitores já devem estar impa­ cientes com esta maneira de encarar os problemas. nem mesmo um ato 10cucion6. portanto. A segunda é a fórmula "por" ou "porque" (em inglês by) e serve para identificar verbos que designam atos perlocucionários. sa classificação. como dissemos. Mas. Mencionamos. estava me referindo apenas aos católicos de nosso tempo". "dizer" pode ser substituído por "falando d. (1) Seu uso não se limita aos atos ilocucionários. além destes. ou "estava pensando nos católicos romanos. apenas acho que deve ser feito depois e não antes de se verificar o que se pode extrair da linguagem comum. permitam-me fazer uma observação geral. com­ pletamente distintos. ou aludindo a eles". insinuar (e outros usos não literais da lin­ guagem). Agora temos que fazer algumas observações [mais a respeito das fór­ mulas: "Ao dizer X estava fazendo Y" ou "Fiz Y" "Por fazer X fiz Y" ou "Estava fazendo y". de atos heterogêneos à margem da nossa classificaçuv. que atos locucionários e que atos ilocucionários foram realizados. L. etc. Um juiz deveria ser capaz de decidir.em todo o caso . por exemplo. Outro exemplo desse tipo é: "ao dizer Said-Ali". As­ sim.. há outros casos (b) aparentemente hete­ rogêneos.. e intuitivamente parecem ser. O caso (b). problemas que são.II ou "usando a expressão". ou onde puderm Quando dizer 6 fazer IO~ . Por último destacamos todo um campo de problemas a respeito de "como estamos usando a linguagem" . às f6rmu lu/! "ao" e "por(que)" .são f6rmulas dignus d investigadas. fazer Y não é necessariamente realizar um ato ilocucio­ nário. estava emitindo o som de "sai dali". ou melhor. argumentando que "dizer" é ambíguo. De outro 104 J." "Por dizer-lhe que atiraria nele eu o alarmei. expressando meus sentimentos. uma confissão. não ao ato rético. A import tais investigações é 6bvia em relação à pergunta genérica: "Como est cionadas entre si as diversas descrições possíveis 'daquilo que faço'?". tais como "Ao dizer X você estava cometendo um erro" ou "dei­ xando de observar uma distinção necessária" ou "infringindo a lei " ou "cor­ rendo o risco" ou "esquecendo" . Os leitores dirão: "Por que não terminar com esse palavrório? Por que continuar fazendo listas de nomes disponíveis numa linguagem co­ mum. como vimos na questão das "conseqüências". Foi por dispormos destas fórmulas que nos parecem particularmente adequadas que escolhemos os nomes ilocucionário e perlocucionário. isto é. nomes que designam coisas que fazemos e que têm relação com as palavras? Para que continuar com fórmulas tais como a de "ao" e a de "por" ou "porque"? Por que não discutir de uma vez por todas essas coisas de ma­ neira direta. Voltaremos. Este é o sentido de " dizer" em que esta palavra aparece seguida de urna ou mais entre aspas. Examinaremos primeiro a fórmula: "Ao dizer X estava fazendo Y" (ou "Fiz Y"). Austin modo passariamos por alto de coisas importuntcs e irfrunos ucmllsiuuo mpi do. Esses são tópicos adicionais que não vamos deslindar aqui.perlocucionário. ou em lugar de "ao dizer X" poderíamos dize "pela palavra X" ou "usando a palavra X" . e em tais casos nos referimos ao ato fático.tiv. "Ao" e "por(que)" . O seguinte poderia ser um teste poss(vel: onel pudermos colocar o verbo correspondente ao Y num tempo em que núo apa­ reça o particípio presente. Antes de ocupar-me disto. etc. porém. por exemplo: "Ao dizer que atiraria nele eu o estava ameaçando. ouvindo o que foi di­ to. falar pala­ vrões e contar vantagens (que são talvez usos expressivos da linguagem). Embora ness caso pudéssemos mais comumente usar a fórmula "falando de" ou "ao falar em" . no terreno da lingüística e no da psicologia? Para que dar tantas voltas? "E claro que estou de acordo que se tem de fazer isso. por exemplo. Podemos dizer "Ao dizer X estava brincando" (insinuando .cometer um erro ou correr um risco nli é certamente realizar um ato ilocucionário. fazer piadas (e outros usos não-sérios da linguagem) . aplica-se a) a atos locucionários e b) a atos que parecem ficar completamente à margem de nos. como o presente ou o pret6rito.. A resposta é não. O máximo que se pode dizer é que a fórmula "por(que)" não é ade­ quada ao ato ilocucionário. "o que estamos fazendo ao dizer al­ go" . e depois voltaremos novamente à nossa distinção inicjal entre performativo e constatativo para verificar como funciona dentro des!! novo marco de referência. e até certo ponto isso é justificável. A pri­ meira fórmula "ao" (em inglês in) e serve para designar verbos que indicam atos ilocucionários. . mesmo que o que venha à tona seja inegável.

estava fazendo B" (ao cons truir uma casa. Do mesmo modo: Ao fazer um zumbido estava pensando que as abelhas zumbem expUca o meu zumbido (A). n50 estou lc~ vando em conta como cheguei a dizer-lhe X.* (2) Em geral poderíamos dizer que a fórmula não funciona com verbos perlocucionários como "convenceu". e supõe outro sentido distinto do que a frase tem quando usada com os verbos ilocucionários (ist. "en­ quanto dizia". Em primeiro lugar. Por exemplo. cu estava no processo de fazer B " (ao construir uma parede eu estava coo truindo uma casa). a distinção entre fazer e tratar de fazer já está presente no verbo ilocucionário.2). Em tod digo. provavelmente incorreto. Em terceiro lugar. muitos atos ilocucionários não são casos de tratar de fazer algum ato perlocucioná­ rio. "tentar" é um verbo que pode facilmente ser usado de uma ou de outra maneira. mas com igual freqüência o usamos no caso (a. em vez de "Ao dizer aquilo ele estava cometendo um erro". Mas. Quando dizer é fazer 107 106 J. como coisa distinta de "um critério").2): "Ao dizer D eu estava emitindo os ruídos R". ele estava me intimidando". 1) "Enquanto fazia A. por exemplo. Este parece ser o uso de "ao" quando o usamos com verbos locucionários: explica o fato de haver dito o que disse (e não o seu significado) . Se considerarmos agora o exemplo: Ao dizer. "Ao dizer X eu o estava convencendo". o dicionário prefere o primeiro caso (a.. Assim. como por exemplo dizer que "argumen­ tar" é equivalente a "tratar de convencer". vemos que B (esquecendo) explica como cheguei a dizer X. sem mudança de sentido. Distinguimos argumentar de tratar de argu­ mentar. "sedu­ zir" ou "pacificar" . em primeiro lugar. eu estava construindo uma parede) e (a. A f6rmula usada com freqüência para explicar o fato de fazer algo em resposta à per­ gunta: "Como é que você chegou a fazer isso?" Das duas ênfases diferentes. não é o mesmo dizer "Ao dizer isto eu estava protestando" e dizer "Ao dizer isso protestei".mudar "ao" para "por(que)" conservando ao mesmo tempo o particípio pre­ sente.. assim como convencer de tratar de convencer.1) em que explicamos B.I): "Ao emitir os ru(­ dos R eu estava dizendo D" com (a. Além do mais. Nesse caso. o sentido que supõe é o de "no processo de" . Em segundo lugar. pois o único que a poderia responder seria quem a formulou. ou "Ao dizer que ele cometeu um erro" ou "Por dizer que ele estava cometendo um erro". poderíamos colocar.I) explico A (meu ato de emitir os ruídos) e expresso o propósi~o que tenho ao t:rniti-Ios. em intenção ou (\ fato constituiu o dizer tal e tal coisa. No original temos "But we do nnt say" "In saying fhat I prolesled" nor "By saying lhall was prolesting" . permitind que se o chamasse por um nome diferente. No entanto.2) explico B (meu ato de emitir os ruídos) e estabeleço assim o efeito desse ato. "Ao fazer A. Consideremos agora o significado geral da f6rmula " Ao". prometer não é tratar de fazer coisa alguma que possa ser descrita como objeto perlocucionário. Não temos a expressão "Eu o tento a" . vemos dizer que o que a pessoa fez (fazer um zumbido). mas temos "Deixe-me que o tente" . por outro lado. Porque. "dissuadiu" . O exemplo ilocucionário: Ao dizer tal coisa eu estava avisando. Ou. Ao fa­ zer um zumbido eu estava me comportando como um palhaço. Esta última pergunta seria absurda num sentido perlocucionário. um ato de determinado tipo. "persuadiu" .er" para explicar o que queríamos significar com a frase. assim como no verbo perlocucionário.. mesmo nesse caso. há exceções que de­ rivam do uso incorreto da linguagem. e deveríamos djzcr II por(que)" . a mesma palavra pode ser usada genuinamente tanto de forma ilocucionária como perlocucionária.. Isso é tentador quando o ato não se concre­ tiza de maneira intencional. Se respondo. "Ah. Assim. ou que "avisar" é equivalente a "tratar de alarmar" ou de "alertar". "no decurso de". B ex­ plica A. é. Por exemplo.2) para explicar A. Esta situação é inversa àquela em que usamos a fórmuJa "ao dl7. "tratar de" parece sempre uma adição pos­ sível a um verbo perlocucionário. Por outro lado. Mas não podemos dizer que o verbo ilocu­ cionário é sempre equivalente a tratar de fazer algo que pudesse ser expres­ sado por um verbo perlocucionário. nem "Porque disse isso estava protestando" . Tal distinção pode ser esclare­ cida contrastando-se (a. Em (a. Mas se considerarmos os exemplos: (a. enquanto que no caso (a. estava esquecendo . as pessoas dizem: "Você está me intimidando?" em lugar de "ameaçando" e os que falam assim poderiam dizer "Ao dizer X. e há diálogos assim: "Sirva-se de mais sorvete" . então o verbo Y não é o nome de uma ilocução. Se digo " Ao fazer A eu estava fazendo B" posso querer dizer que A supõe B (ou seja. por que não?" parece que o estou ten­ tando. ou seja. te­ mos o uso proléptico (antecipante) de verbos tais como."Você está me tentando?" .3) Ao fazer um zumbido eu estava fingindo ser uma abelha. contraste-se (a. mas como cheguei fi conv<m­ cê-lo. Austin .. o uso de tal fórmula é • A diferença não fica muito clara em português. por exemplo. A explica B) ou que B supõe A (B explica A). L. devemos esclarecer isso um pouco. mas ele pode realmente não se sentir tentado. Mas ainda nos podemos perguntar se é de todo possível usar a fórmula "ao" com o ato perlocucionário.

(2) que "disse" está sendo usado (a) no sentido pleno de um ato locucionário e não em sentido parcial . tal como no caso do aviso. e dessa maneira "porque" pode certamente ser usado com verbos ilocucioná­ rios na fórmula "porque disse" . ao passo que o caso do verbo locucioná­ rio explica A. podemos dizer "porque disse . no exemplo: Ao dizer. Mas é diferente dos exemplos locucionários porque o ato é constituído não pela intenção ou pelo fato. o convcnd (pcrsullul)".. mas ela explica B.. neste sentido... porque é apenas isso que ftzemos até agora) como nomes de atos ilocucionários parecem muit. " porque" tem aqui o sentido de meios-para-fins. em vez de fazer uso de um pedaço de pau. . (b) e não é usado no sentido que supõe uma dupla convenção. pois podemos dizer "Aviso­ que" e "Ordeno-Ihe que" como performativos explícitos. podemos dizer "Dizer isso foi convencê-lo" (uso proléptico ou antecipante?).... em geral. A fórmula "por (que)" não se limita.1) e (a. Os usos de "por (que)" são dois. "ao dizer isso eu estava infringindo a lei (violei a lei)". Por sua vez..2) (quando A ex. ou o método pelo qual eu levava a cabo a ação.. me referi . estava convencendo .. da mesma forma. o performativo "Aceito" é um meio para o:fim. Austin _________________________________________ . Um juiz poderia decidir. Mas avisar e ord . Em (a) "porque" indica o meio pelo qual. no exemplo: Ao dizer A . Há o uso locucionário (porque disse .. el o introduziu na parede". Assim. Assim.Q u andod nc r é f~ r LOS J. é diferente tanto do caso locucionário quanto do caso ilocucionário. Aqui "disse" é usado no sentido em que o que foi dito deve vir entre aspas. é usar palavras. Podemos dizer "Ao ex­ trair-me o molar. estava dessa maneira avisando . mas pela convenção (que é. próximos dos verbos performativos explfcitos. o que há na minha ação que permite que seja classifIcada como prática de odonto­ logia. ). o estava avisando (o avisei)". uso o performativo " O claro ter três copas" como um meio indireto de informá-lo (que é também um ato ilocucionário). que não é o de meios e fms. ou o método que segui no fnr. como. por outro lado. no ato fático. como podemos observar. Quando a fórmula "ao dizer" se emprega com verbos perlocucionários. Se digo " porque disse . que é o ca­ samento. (2) Os verbos que classifIcamos (intuitivamente.plica B ou vice-ver­ sa). I )sa-se nlgulllu vez a fórmula " porque" nesse sentido de meios-para-fms com um verbo lIo cucionário? Pareceria que isso acontece em pelo menos dois tipos de cuso: (a) Quando adotamos um meio verbal para fazer algo. um fato). Parece haver pouca diferença entre os dois casos. quando falamos. estava praticando odontologia. Este segundo sentido de "por­ que" . 1). "como parte do ato de" (a. upontll ll. por exemplo. Por exemplo. A pergunta "Como é que você chegou a fazer isso?" não se limita à questão de meios e fms.. Mas. naturalmente. Trata-se de um ato fático e n de um ato rético.. estava praticando a odontologia". Assim.. exceto que o uso pa­ ra indicar um critério parece mais externo.6 desse tipo. Assim. Aqui há uma convenção. aos verbos per­ locucionários. a) Porque martelei o prego eu o estava introduzindo na parede..ê-Io. a maneira pela qual. Assim. como no exemplo tirado do jogo de cartas. "porque". mas não é conseqüência de certos meios. no exemplo: " Porque disse 'Aceito' eu estava me cu­ sando com ela".. Em resumo: para usar a fórmula "por ~ue) disse" como teste de que o ato é perlocucionário. temos primeiro que nos assegurar: (1) que "por(que)" está sendo usado como instrumento e não no senti­ dCl de critério. Já não se pode dizer "martelar o p go era introduzi-lo na parede" em lugar de "Porque martelou o prego. ) explicamos B (meu ato de convencer ou de humilhar alguém) que é na ver­ dade uma conseqüência. ou a linguagem. Há outros dois testes lingüísticos subsidiários que servem para distjn­ guir o ato ilocucionário do perlocucionário: (1) Parece que no caso dos verbos ilocucionários se pode afirmar com Mas suponhamos o caso de um charlatão que se faz passar por dentista. L. embora " convencer" seja um verbo perlocucionário. Assim.parece também achar-se muito próximo de "ao" em um de seus sentidos. em vez de um meio não-verbal.. (b) Quando um proferimento performativo é usado como um meio indl­ reto de realizar outro ato. Estas características servem para distinguir de ma­ neira bastante satisfatória os atos ilocucionários I.. é empregada no sentido de " no processo de" . pois podemos dizer muitas coisas com ela... a maneira em que o fiz. me fIz de ridículo). Não é da classe (a. estava esquecendo B explicamos A. b) Porque lhe extraí o molar. mas num sentido novo de "explicar". não é usado com 1 verbos pcdocucionários. O em todo o CORO. Mas esta fórmula não nos fornece um teste a toda prova. o uso ilo­ cucionário (porque disse . ) e uma varieda­ de de usos heterogêneos (porque disse . já mencionado. no exemplo: "Porque disse 'Declaro ter três copas' eu informei-o de que não tinha ouros" . freqüência que "Dizer X era fazer Y".o do critério .. (estava humilhando .. em (b) "porque" indica um critério. essencialmente.

mas não "Eu o intimido por". qual é a relação entre performativos e esses atos ilocucio­ nários? Pareceria que quando temos um performativo explícito também te­ mos um ato ilocucionário. se o qui­ sermos. então. com a denominação de "fazer" "dizer" . Mas. e (2) o performativo é feliz ou infeliz. como pode subsistir a nossa distinção? Começaremos por considerar novamente o contraste do ponto de vista dos proferimentos constatativos. uu X I Conferência D eclarações. relativa ao fazer e ao dizer. Contudo. verdadeiro ou falso)? Quando dizer é fazer 111 110 J. pois. certamente parece levar à conclusão qu" cada vez que "digo" algo (exceto. performativos de constatativos. Vejamos. contrastamos o proferimento performativo com o constatativo dissemos que: (1) o performativo deveria consistir em fazer algo. mas não "Convenço-o que". Podemos usar o performativo "Aviso-o que". Se geralmente estamos fazendo am bas as coisas de uma vez. sem nos restringir ao simples ato de falar. e (2) nosso proferimento pode ser feliz ou infeliz (assim como. em oposição a verdadeiro ou faIs". na melhor das hipóteses. Mas. e não uma perlocução. talvez. tanto quanto o já notório "como". L. testes muito traiçoeiros para decidir se uma expressão é uma ilocução. Cabe perguntar se seria correto dizer que quando declaramos algo: (1) estamos fazendo algo e ao mesmo tempo dizendo algo. Austin . Destes. convencer e intimidar são atos perlocu­ cionários. e podemos usar o perfonnativo "Eu o ameaço com". "por (que)" e " ao" merecem ser estudadas com va­ gar. em oposição a sim­ plesmente dizer algo. e esses dois tipos de atos parecem ser precisamente o qu tentamos usar como meios de distinguir. a conclusão geral deve ser que tais fórmulas são. de todo modo. no início. Havia fundamento real para tais distinções? Nossa discussão subs qüente. qual a relação entre (1) a distinção feita nas primeiras conferências com relação aos perfonnativos e (2) esses ti­ pos diferentes de atos. quando emito uma simples excla­ mação como "Poxa" ou "Arre") realizo conjuntamente atos locucionárlos ilocucionários. performativos e força i1ocucionária Quando. ou se não se trata de nenhuma dessas coi­ sas. contentamo-nos com a referência à!i "declarações" como caso típico ou paradigmático.nar sao atos ilocucíonários.

embora o pro ferimento "Ele não o fez" seja com fre­ qüência emitido como uma declaração. vemos que as declaraçõcs estão sujeitas a todo tipo de infelicidade a que também estão os perfonnati. enquanto que a declaração não. as diversas falhas que fazem com que um proferimento seja infeli . por exemplo. e consideremos se as declarações não podem ser afeta­ das exatamente pelas mesmas falhas que podem. declarar algo érea­ lizar um ato ilocucionário. Ao dizer que chovia. UO mesmo tempo. em­ bora não da mesma maneira. Ou. como normalmente o fazemos. protestar. é fácil perceber como isso se liga a atos do tipo de prometer. por exemplo. de " infoono-lh que". Se alguém diz "Declaro que ele não o fez". Ou seja. Ou seja. de assumir compromisso. Assim a declaração est exposta à forma de infelicidade que caracteriza os atos insinceros e inclusiv à forma de infelicidade que denominamos de ruptura. me compromete a usar tais palavras de maneiras especiais no discurso futuro. do mesmo modo que o performativ "defino X como Y" (no sentido. . contudo. Não há dúvida de que: Declaro que ele não o fez. Voltemos atrás. Isso significa que as declarações p0­ dem dar origem a infelicidade dos dois tipos. que nada tem de excepcional. compare-se. Estava simplesmente declarando um fato. Isto é pa­ ralelo ao sentido em que "prometo estar lá" implica que tenho a intenção d'> estar lá e que acredito que serei capaz de estar lá. mesmo no caso em que se diz "penso que ele o fez" . A esse respeito. ou em que as circunstân­ cias não são adequadas para que a pessoa que emite a expressão recorra convenção aceita. etc. digamos. Talvez seja possível. para tomar um tipo de teste diferente. (b) o fato de nossa declaração ser falsa ou verdadeira. etc. L. no sentido em que di. é verdadeiro ou falso que o touro esteja por alacar. nem prevenindo. caso em que. notadamente declarações. de maneira semelhante. uma declaração.de advertir. também usado anteriormente.(1) Sem dúvida que.I e A. nem argumentando. " Aviso·o quo () touro cstn !>(II atacar". laso se d~ tanto na apreciação da advertência. por exemplo. 112. "declaro que" não parecer diferir de nenhum mod especial de "sustento que" (e dizer isso é sustentar que). Não é formular uma declaração diferente a respeito do que "eu" declaro (exceto em casos excepcionais: o presente histórico. "Declarar" parece satisfazer todos os critérios que utilizamos para distinguir o ato ilocucionário. em que não existe con­ venção (ou pelo menos não uma convenção aceita). Ao dizer que isso levava ao desemprego. quanto na apreciação da declaração. que tor­ nam o ato . exceto na medida em que pressupõe. Se uso simplesmente a forma primária ou não-explícita de declaração: Ele não o fez posso explicitar o que estávamos fazendo ao dizer isso. prometer ou designar. Consideremos a expressão seguinte. estabelec algumas diferenças "essenciais" entre tais verbos. no sentido em que denominamos essas falhas de "infelicidades". Austin 11 . zer ou declarar que o gato está sobre o tapete me compromete a dizer ou de­ clarar "o tapete está debaixo do gato" . Este último poderia concebivelmente referir-se a mim. e se o examinamos do ponto de vista dos proferi­ mentos constatativos. Além do mais. vos. ou especificar a for­ ça ilocucionária da declaração.nulo e vazio? É pos­ sível que algo que parece ser uma declaração seja nulo e sem valor tal com pode ser um contrato putativo? A resposta parece ser afirmativa em um sen­ tido importante. dizendo algumas dessas três (ou mais) coisas. torná-lo falso ou verdadeiro. então. de "confesso que". Muitas infelicidades desse tipo infestam as declaraçõcs. eu não estava avisando nem protestando. .). o presente ha­ bitual.. De modo que não há necessariamente con­ flito entre: (a) o fato de ao emitirmos o proferimento estarmos fazendo algo. de fiat). até em seus mínimos detalhes. sem. Como é notório. seria descortesia que alguém me respondesse: "Essa declaração se re­ fere a você mesmo" . d acordo com o qual os performativos são felizes ou infelizes e as declarações são verdadeiras ou falsas. está exatamente no mesmo nível que: Sugiro que ele não o fez Aposto que ele não o fez. afetar as ad­ vertências. mas nada foi feito aind nesse sentido. quando consideramos isto. o que ocorre com as infelicidades do tipo A e do tipo B. avisar ou proclamar. etc. não parece possível dizer que tal declaração difere de "Declaro que ele não o fez" a esse respeito. a realização de movimentos dos órgãos vocais. no entanto. há uma llovC!rtBncia o. dizer "Declaro que ele não o fez" é formular a mesma declaração que "Ele não o fez ". investigamos a verdade dessa declaração exatamente da mesma maneira que se a pessoa houvesse dito simpliciter "Ele não o fez". À primeira vista. Quando dizer é fazer J. se pensamos no segundo contraste pretendido. eu não estava apostando. quando o ato de declarar é verbal. (2) Além do mais. como. caso em que seria indubitavelmente verdadeiro ou falso. Já assinalamos o sentido em que dizer ou declarar "o gato está sobre o tapete" implica em que eu creio que o gato esteja sobre o tapete.2. Ou. Mas o mesmo se pode dizer de avisar. Ora. Os primeiros casos são A. É claro que não se trata de levar a cabo um ato de alguma maneira física especial. etc.

Já notamos o caso de uma declaração putativa que pressupõe (como se diz) a ~xistência daquilo a que se refere. Se tal coisa não existe, "a declara­ ção" não se refere a nada. Alguns dizem que em tais circunstâncias, se, por exemplo, se afmna que o atual rei da França é careca, "não surge a questão de ser careca ou não"*. Mas é melhor dizer que a pretensa declaração é nula e sem valor, tal como quando digo que vendo algo a outra pessoa, mas o objeto não é meu ou (por haver-se queimado) já não existe mais. Os contra­ tos são com freqüência nulos porque os objetos sobre os quais versam não existem, o que envolve falta de referência (ambigüidade total). Mas é importante notar também que "declarações" estão sujeitas, além disso a tal tipo de infelicidades de outras maneiras que também são paralelas ao que pode ocorrer no caso dos contratos, promessas, advertências, etc ... Assim como dizemos, com freqüência, por exemplo, "Você não pode me dar ordens" , no sentido de "Você não tem o direito de me dar ordens" , o que equivale a dizer que o outro não se encontra em situação de fazer isso, as­ sim, também, muitas vezes, há coisas que uma pessoa não pode declarar ­ que não tem direito de declarar -, pois não está em posição de fazê-lo. X não pode declarar agora quantas pessoas há no quarto ao lado. Se X diz "há cinqüenta pessoas no quarto ao lado", só posso considerar que X está adivi­ nhando ou conjeturando. (Assim como às vezes Y não está dando ordens, o que seria concebível e que possivelmente me está fazendo um pedido de ma­ neira um tanto brusca; assim também X, de fonna um tanto anômala, está "dando um palpite".) Trata-se, nesse caso, de algo que, em outras circuns­ tâncias, X poderia estar em situação de declarar, mas o que ocorre com as declarações a respeito dos sentimentos de outra pessoa sobre o futuro? Por exemplo, um prognóstico ou uma previsão a respeito do comportamento fu­ turo de outras pessoas constitui realmente uma declaração? É importante considerar a situação lingüística como um todo. Do mesmo modo que, às vezes, não podemos fazer uma designação, mas apenas confmnar uma designação já efetuada, assim, às vezes, não po­ demos fazer uma declaração já feita. As pretensas declarações também estão expostas às infelicidades do ti­ po B,** que caracterizam as falhas e os tropeços. Suponhamos que alguém "diga algo que realmente não quis dizer" - use a palavra errada - diga "o gato está sobre o tapete" quando queria dizer "pato". Podemos mencionar outras trivialidades semelhantes; ou talvez não sejam realmente trivialidades, porque é possível discutir tais proferimentos exclusivamente em tennos de
.. Ver N. do T. da p. 36,11 Conferência.
.... Ver classificação das infelicidades na II Conferência.

significado ou sentido de referência, c, dossa Jluulciru, confundir-nos em ~. lação a eles, embora sejam realmente fáceis de se entender. Uma vez que percebemos que o que temos que examinar nliO tença, mas o ato de emitir um proferimento nwna situação lingüística, MO torna difícil ver que declarar é realizar um ato. Além do mais, se comparur­ mos o declarar com o que dissemos a respeito do ato ilocucionário vemos que é um ato que, exatamente como ocorre com outros atos ilocucionário~ , exige de maneira essencial que "asseguremos sua apreensão". As dt1vidus a respeito de se declarei algo, no caso de não se haver ouvido ou entendido o que foi dito, são as mesmas que podem surgir a respeito de se o que se diss sotto voce foi uma advertência ou se foi um protesto, caso alguém não o lC ­ nha tomado como um protesto, etc. E as declarações "têm efeito" do mesmo modo que o tem o ato de batizar um navio. Se declarei algo, isso me com­ promete a outras declarações: outras declarações minhas posteriores estarão ou não de acordo com is!)o. Também, daí em diante, outras declarações ou observações feitas por outras ,essoas estarão ou não em contradição com fi minha, a refutarão ou não, etc. Se, contudo, uma declaração não pede uma resposta, isso não é essencial a todos os atos ilocucionários. E, por certo, ao fazer uma declaração estamos ou podemos estar realizando atos perlocucio­ nários de todo tipo. O máximo que se pode argumentar, e com alguma plausibilidade, é que não há nenhum objeto perlocucionário especificamente ligado ao ato de de­ clarar, como acontece com infonnar, argumentar, etc. Essa comparativa pu­ reza pode ser uma razão que explica o fato de darmos às "declarações" uma certa posição especial. Mas isto certamente não justificaria, por exemplo, que déssemos às "descrições", se devidamente usadas, uma prioridade melhante, e essa é uma característica comum a muitos atos ilocucionários. Contudo, considerando a questão do ponto de vista dos perfonnativos, ainda podemos ter a impressão de que a estes falta algo que as declarações têm, mesmo quando, como já vimos, o inverso não é verdade. É certo que os perfonnativos consistem em se fazer algo, e também consistem, acessoria­ mente, em se dizer algo. Mas podemos ter a impressão que, à diferença das declarações, não sejam essencialmente verdadeiros ou falsos. Podemos ter u impressão, aqui, que o ato constatativo (admitindo-se, de antemão, que seja feliz) pode ser julgado, estimado ou apreciado em uma dimensão que não s apresenta no caso dos proferimentos perfonnativos ou não-constatativos. Su­ pondo que todas as circunstâncias da situação têm que estar em ordem para que eu consiga declarar algo satisfatoriamente, surge então a pergunta: verdadeiro ou falso o que declarei? E temos a impressão de que tal pergunH'l,
Quando dizer <5 razer I IS

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para fruar em termos populares, procura determinar se a declaração "corres­ ponde aos fatos". Estou de acordo com isso; as tentativas de dizer que o uso da expressão "é verdade" é equivalente a endossar, ou coisa parecida, não são acertadas. Assim temos aqui uma nova dimensão de crítica da declaração realizada satisfatoriamente. Mas agora devemos perguntar: (L) se pelo menos em muitos casos não cabe uma apreciação igual­ mente objetiva de outras expressões livres de infelicidades, que pa­ recem ser tipicamente performativas; e (2) se nossa explicação das declarações não simplifica excessivamente as coisas. Em primeiro lugar, há uma óbvia inclinação pela verdade ou falsidade no caso, por exemplo, dos judicativos, tais como estimar, decidir e declarar . . Assim podemos:
estimar acertada ou erroneamente
correta ou incorretamente
correta ou incorretamente ex.: que são duas e meia

achar

ex.: que ele é culpado

declarar

ex.: que o atacante está impedido

No caso dos judicativos não dizemos "verdadeiramente", mas com cer­ teza nos faremos a mesma pergunta: e advérbios como "acertadamente", "erroneamente", "corretamente" e "incorretamente" são usados com decla­ rações também. Há também um paralelo entre inferir e argumentar com fundamento ou validade, e declarar a verdade. Não se trata só de saber se alguém efetiva­ mente argumentou ou inferiu, mas também de saber se tinha direito a fazê-lo, e se o fez de forma satisfatória. Podemos prevenir ou aconselhar correta ou incorretamente, bem ou mal. Cabem considerações semelhantes com relação aos atos de elogiar, censurar, felicitar. A censura não cabe, por exemplo, se o que censura um determinado ato já fez, por sua vez, o mesmo que está cen­ surando. E sempre podemos perguntar se a censura, a felicitação ou o elogio foram merecidos ou imerecidos. Não basta dizer que uma pessoa censurou a outra e que isso termina com o caso. Sempre cabe indagar se havia razão pa­
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ra censurar, ou seja, se isso era justificado. Dctcnnlnar se wn elogio ou uma censura são merecidos é completamente diferente de determinar so suo oportunos. Cabe fazer a mesma distinção com respeito aos conselhos. I I uma diferença entre dizer que um conselho é bom ou mau e dizer qu oportuno ou inoportuno, mesmo que a oportunidade do conselho seja moi importante para sua qualificação como bom do que a da censura o é para sua qualificação como merecida. Podemos estar seguros de que quando afrrmamos que alguém declurou a verdade estamos fazendo uma apreciação de tipo diferente de que quando afmnamos que alguém argumentou com fundamento, aconselhou bem, juJgou com probidade, etc.? Essas coisas não têm algo a ver, ainda que de maneiro complicada, com os fatos? O mesmo se passa com os exercitivos, tais como dar um nome, designar, legar e apostar. Os fatos têm importância, tanto quanto o nosso conhecimento ou opinião sobre os fatos. É certo que constantemente se fazem tentativas para efetivar essa dis­ tinção. Alega-se que se um argumento é bem fundamentado (quando não s trata de argumentos dedutivos que são "válidos") e se uma censura é mere­ cida, não são questões objetivas. Ou diz-se que, no caso da advertência, te­ mos que distinguir entre a "declaração" de que o touro está por atacar e a própria advertência. Mas consideremos por um momento se a questão da verdade ou da falsidade é tão objetiva quanto se pretende. Podemos pergun­ tar se uma declaração é justa, e se as boas razões e a prova adequada para fazer uma declaração e dizer algo são tão distintas das boas razões e provas que se podem invocar em apoio aos atos performativos como argumentar, prevenir e julgar. Além disso, o constatativo é sempre verdadeiro ou falso? Quando um constatativo é comparado com os fatos, nós na realidade o apre­ ciamos de maneiras que supõem o emprego de um vasto conjunto de palavras que se sobrepõem às que utilizamos para apreciar os performativos. Na vida real, diferentemente das situações mais simples consideradas na teoria 16gi­ ca, nem sempre podemos responder de maneira simples se a declaração é fal­ sa ou verdadeira. Suponhamos que confrontamos "A França é hexagonal" com os fatos, nesse caso, com a França, suponho. Esta declaração é verdadeira ou falsa? Bem, se assim o desejamos, é verdadeira em certa medida. É claro que se pode entender o que se quer dizer com a afrrmação de que é verdadeira para certos fms e propósitos. Talvez seja suficiente para um general, mas não o será para um cartógrafo. "Naturalmente que a declaração é apenas esquemá­ tica", diríamos, "e bastante boa como declaração desse tipo". Suponhamos que alguém insista: "Mas é verdadeira ou falsa? Não me interessa se é es-

Quando dizer 6 fazor

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quernatica ou não; claro que é, mas tem de ser verdadeira ou falsa. Trata-se de uma declaração, não é?" Como poderíamos responder a essa pergunta, se a declaração de que a França é hexagonal é verdadeira ou falsa? Simples­ mente trata-se de urna declaração esquemática e essa é a resposta correta e final diante da pergunta a respeito da relação entre "A França é hexagonal" a a França. É uma descrição aproximada; não é uma descrição verdadeira nem falsa. No caso de se fazer uma declaração verdadeira ou falsa, tanto quanto no caso de se aconselhar bem ou mal, os fms e propósitos do proferimento, assim como seu contexto, são importantes. O que se julga veJdadeiro em um livro escolar pode não ser julgado do mesmo modo numa obra de investiga­ ção histórica. Consideremos o constatativo "Lord Raglan* ganhou a batalha de Alma", lembrando-nos que Alma foi uma batalha entre soldados rasos, caso inédito, e que as ordens de Lord Raglan nunca foram transmitidas a al­ guns de seus subordinados. Nessas circunstâncias, Lord Raglan ganhou ou não a batalha de Alma? É claro que em alguns contextos, por exemplo, em um livro escolar, está perfeitamente justificado dizer isso. Talvez seja um exagero, mas não se trata aqui de dar uma medalha a Lord Raglan. Assim como" A França é hexagonal" é uma declaração esquemática, "Lord Raglan ganhou a batalha de Alma" é uma declaração exagerada, que é adequada pa­ ra alguns contextos e não para outros. Seria inútil insistir em perguntar se é verdadeira ou falsa. Em terceiro lugar, consideremos a questão de ser ou não verdade que todos os gansos migram para o Labrador, tendo em conta que talvez um de­ les se fIra alguma vez e não chegue ao seu destino. Diante de problemas co­ mo esse, muitos têm aftrmado, com muita justiça, que declarações iniciadas por "Todos... " são defInições prescritas ou recomendações para se adotar uma regra. Mas que regra? Essa idéia se origina parcialmente da não-com­ preensão de que a referência dessas declarações se limita aos casos conheci­ dos. Não podemos aftrmar simplesmente que a verdade das declarações de­ pende dos fatos, independentemente dos conhecimentos destes. Suponhamos que antes do descobrimento da Austrália X dissesse "Todos os cisnes são brancos". Se mais tarde se descobre um cisne negro na Austrália, pode-se dizer que X foi refutado? Sua declaração passou a ser falsa? Não necessa­ riamente; X pode retificá-la, como também poderia dizer "Não estava falan­ do a respeito de todos os cisnes, em termos absolutos, qualquer que fosse
.. Lord Raglan (1788-1855) foi inicialmente o comandante das tropas inglesas na Guerra da Criméia ( 1854-1856), durante a qual ocorreu a batalha de Alma (1855), considerada ganha graças mais à dis­ ciplina das tropas do que à capacidade dos comandantes. (N. do T.)

o lugar onde llC encontrassem; por exemplo, minha <.ICl,; ltlIUt;üO nao se re/\.:du a possíveis cisnes de Marte". A referência depende do conhecimento que S tem ao emitir o proferimento. A verdade ou falsidade das declarações é afetada pelo que nelas se in­ clui ou delas se exclui e pelo fato de serem equfvocas, ou coisas semelhun­ teso Assim, por exemplo, as descrições tidas corno falsas ou verdadeiras ou, se assim o desejamos, tidas como "declarações", estão sem dúvida expostas a tais críticas, uma vez que são seletivas e proferidas com determinado p p6sito. É essencial entender que "verdadeiro" e "falso", como " ljvre" "não livre", não designam, de forma alguma, algo simples. Tais palavras s representam uma dimensão geral de que, nas circunstâncias dadas , em rela­ ção a um determinado tipo de ouvinte para certos fins e com certas inten­ ções, o que foi dito era adequado ou correto, em oposição a algo incorreto. Em geral podemos dizer isto: tanto em relação às declarações (e, por exemplo, descrições) quanto às advertências, etc., pode surgir a questão admitindo que realmente declaramos, advertimos, ou aconselhamos, etc., que tínhamos o direito de fazê-lo - se declaramos, advertimos ou aconselha­ mos corretamente. Não no sentido de perguntar se nosso ato foi oportuno ou conveniente, mas sim de indagar se, face aos fatos, ao conhecimento que tr­ nhamos deles e ao propósito que nos levou a falar, etc., o que dissemos foi adequado. Essa doutrina é totalmente diferente do que sustentaram os pragmatis­ tas, * para quem o verdadeiro é o que dá bons resultados, etc. A verdade ou falsidade de uma declaração não depende unicamente do significado das pa­ lavras, mas também do tipo de atos que, ao proferi-las, estamos realizando e das circunstâncias em que os realizamos. Que resta, então, da distinção entre o proferimento performativo e o constatativo? Na verdade podemos dizer que o que tínhamos em mente era isto: (a) No caso do proferimento constatativo, nos abstraímos dos aspectos ilocucionários (e de seus aspectos perlocucionários, também) do ato de fala , e nos concentramos no aspecto locucionário: além do mais, usamos uma no­ ção supersimplificada de correspondência com os fatos - supersimplificadu porque ela essencialmente absorve o aspecto ilocucionário. Almejamos al­ cançar um ideal do que seria acertado dizer em todas as circunstâncias, para

• Referência às teorias pragmáticas da verdade, defendidas por fil6sofos amer icanos co rno .... " • Peirce e William James, segundo as quais, em linhas gera is, o cri tério de verdade de uma senlença os resultados de sua aplicação prática, ou deve ser considerado a partir de limo sinraçllo concrelo.

.no

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Quando dizer é fazer

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não ocupam uma posição sui generis quanto a esta­ rem relacionados aos fatos da forma sul generis chamada de verdadeira ou Quando dizer é fazer 12 1 120 J. pois fazer uma declaração é apenas um entre numerosíssimos atos de fala da classe denominada ilocucionária. os diferen­ tes tipos de falta de sentido que possam surgir durante a realização de tais atos. (Isto é semelhante ao modo como o ato fático. Foram exemplos desse tipo. Talvez nenhuma dessas abstrações seja muito conveniente: talvez não tenhamos aqui realmente dois pólos. Além de tudo. talvez com fórmulas matemáticas em livros de física como exemplos de constatativos. Em certos casos. Mas a conclusão real tem de ser. como exemplos de performativos. devemos seguir adiante. são apenas dois nomes. em particu­ lar. estimati­ vas. que necessitamos (a) distinguir ~ntre atos locucionários e atos ilocucionários e (b) estabelecer especial e cntiça­ mente. estamos procurando elucidar. declarações e descrições . em última instância. proferidos sem nenhuma razão concebível . Gostaria de sugerir. A doutrina da distinção performativo/constatativo está para a doutrina dos atos locucionários e ilocucionários dentro do ato de fala total como a teoria especial está para a teoria geral. se estão "certos" ou "errados". nos aproximemos na vida real de tais coi­ sas. para saber. ou com a emissão de simples ordens executivas. em rela­ ção às exclamações). e para todos os proferimentos que já consideramos (exceto. o ato locucionário. assim o é também sua tradicional verdade ou falsidade. são meras abstrações. (b) No caso do proferimento performativo. (C) Em particular. isto é. para qualquer tipo do ouvinte. primeiro. E a necessidade da teoria geral su simplesmente porque a "declaração" tradicional é uma abstração. como o ato ilocucionário. com relação a cada tipo de ato ilocucionário . as seguintes conclusões: (A) O ato de fala total na situação de fala total é o único fenômeno que.. L. talvez. Talvez isto seja al­ gumas vezes realizado. nem levará à distinção das declarações em relação ao resto. o rético. não ocupam uma posição sul generis.quaisquer propósitos. a uma simples distinção entre "falso" e "verdadeiro". etc. Mas sobre este po nto só posso dar alguns rápidos clarões de luz. depois de um breve re­ sumo. -1 u X II Conf erên cia Classes de força i1ocucionária Deixamos numerosas questões em aberto. casos marginais extremos. em geral. vereditos. se estão ou não em ordem e. como "Peço desculpas" e "O gato está so­ bre o tapete" . Austin . (B) Declarar.) Mas. segundo. certamente. etc. que desi~nam atos ilocucionários. mas. Este é um campo vasto e sua análise não nos levará. e nos abstraímos da dimensão da cor­ respondência com os fatos. Podemos comparar com este ponto o que dissemos na primeira confe­ rência a respeito da classificação dos diferentes tipos de falta de sentido. naturalmente. notamos o seguinte: (1) Dimensão de felicidade/infelicidade (la) Uma força ilocucionária (2) Dimensão de verdade/falsidade (2a) Um significado locucionário (sentido e referência). certamente. damos o máximo de atenção à força ilocucionária do proferimento. mas sim um desenvolvimento histórico. neste caso. descrever.advertências. que deram origem à idéia de dois proferimentos distintos. dentre muitos. que termos de aprovação ou desa­ provação são usados para cada um e o que significam. um ideal. etc.qual é a maneira específica em que se pretendeu realizá-los. é típico que distingamos diferentes "atos" abstratos por meio de possíveis lapsos. é apenas uma abstração: todo ato lingüístico genuíno é ambas as coisas de uma só vez. Como se apresenta a distinção entre "cons­ tatativos" e "performativos" à luz de nossa teoria recém-exposta? Em geral.

Os primeiros.000? Primeiro. direitos ou influências. M. porque a verdade e a falsidade não !lão (exceto por meio de uma abs­ tração artificial sempre possfvel e legítima para certos propósitos) nomes de relações. Os quartos. e incluem também coisas um tanto vagas que podemos chamar de adesões. maldizer e desafiar. L. tomar partido. veriditivos. há bastante tempo atrás. ciontffica. para alguns tropeções.000 a 9. Segundo. etc.a respeito do qual. Searle: "A taxonomy of illocutionary acts" em ExpressiOIl alld Meallillg. Classifiquei essas classes de proferimentos em função d sua força ilocucionária. mais 122 J.. Entretanto.. Vamos.000". e até de fato dão melhores resultados para identificar aqueles verbos que. 1979. . (N. então comecemos. O que não sobreviverá à transição. usar com cautela o teste simples da primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa e recorrendo ao dicionário (bastará um pequeno). que são. e lhes darei os seguintes nomes: (1) Veriditivos (2) (3) (4) (5) Exercitivos Cornissivos Comportamentais (um horror este neologismo!) Expositivos Vamos considerá-los em ordem. mas antes quero dar uma idéia esqu. Os segundos. ou o que seja. Podem constituir uma estimativa. uma boa margem enquanto que a outra podcrlu lIOr ntendida como "cerca de 1. por um corpo de jurados. felicitar. é difícil se estar seguro. ou melhor. na crença na dicotomia performativos/constata­ tivos. Admito que não foi feito o suficiente aqui: aceitei o velho "sentido e referência" sob a influência dos pontos de vista correntes. que ne­ cessitávamos de uma lista de "verbos performativos explícitos". Dissemos que havia uma coisa que deveria ser feita.­ mática de cada um. Bach e R.falsa. uma margem muito pequena. . como já vimos. comissivos. uma apreciação.) são bons testes. Dissemos. Os terceiros. situa­ ções. um cálculo. animados por um espírito liberal. e K. dar os pêsames. pois essa noção nos criou dificuldades desde o início. Crunbridgc UnJvcralty Press. Mas não é necessário que sejam defmitivos.. o familiar contraste entre "normativo ou valora­ tivo" e fatual está precisando. abrem a nossos olhos um campo mais rico d que se nos movêssemos unicamente com os dois fetiches: 1) verdadeiro/ra l­ so. caracterizam-se por dar um veredito.999. aqui ela está apenas esbo­ çada). como dissemos agora. entre performativos primários e performativos explícitos sobreviverá à transição fundamental de uma distinção entre performativos e constatativos para a teo­ ria dos atos de fala. porque vai de 1. como.. como tantas outras dicotomias. Veja-se a prop6sito dl88 J. ordenar. também quero destacar que omiti toda e qualquer consideração direta da força ilocucionária das declarações. contudo. Vimos que há razões para supor que os testes sugeridos para identificar os verbos performativos explícitos (dizer . obviamente. ou por um desempa tador (terceiro árbitro).fato ou valor . Bem. obteremos uma lista de verbos na ordem de 10 à terceira potência1. ou mostram qual é o ato ilocucionário que estamos realizando ao emiti-lo.) Por que USdf essa expressão em vez de 1. comprometem a pessoa a fazer algo. a que se referem. que não constituem promessa!\. Exemplos são: pedir des­ culpas. Têm conexões óbvias com os veriditivos e os exercitivos. exercitivos. os que agora tentaremos classificar. (D) Do mesmo modo. 1979. Harnish: Lillgllístic Commullicatioll alld Speeclt ACls. constituem um grupo muito heterogêncv. pois. mas sim da dimensão de apreciação de como as palavras se situam quanto à sua adequação aos fatos. é a noção da pureza dos performativos. instar. Distingo cinco classes gerais de verbos. mas incluem tam­ bém declarações ou anúncios de intenção. e têm a ver com atitudes e comportamento sociLll. Disse que tentaria alguma 1 classificução gemI prcliminor e que luriu a1gull1as obscrvHçõcs u rcspdlO du classes propostos. Por exemplo: designar. Isso em nada nos deve surpreender. avisar. por um árbitro. exceto talvez como um caso marginal limite. que. tem que ser substituída pela idéia de que háfamí­ lias mais gerais de atos de fala relacionados e sobrepostos parcialmente. Ela se baseava. qualidades. A velha distinção. do T. explicitam a força ilocucionária de um proferimento. ser eliminado. aconselhar. elogiar. (E) Podemos bem suspeitar que a teoria do "significado" como equi­ valente a "sentido e referência" vai certamente necessitar de alguma depura­ ção e reformulação em termos da distinção entre atos locucionários e ilocu­ cionários (caso esta distinção seja fundamentada.. essencialmente. etc. 2) fato/valor. precisamente. etc. por diferentes razões. votar. MIT Prosa. porque impressiona mais e parec(. é fazer. comportamentais. mas à luz da teoria mais geral vemos agora que o que necessitamos é uma lista das for­ ças ilocucionárias de um proferimento. mas não estou totalmente satis­ feito com elas"'. eventos. caracterizam-se por prometer ou de alguma forma assumir algo. como nome sugere. cap o3. consistem no exercício de poderes. por exemplo. • A diliculdade de estabelecimento de critérios para a classificação de verbos il ocucionllrlos tolO si um dos problemas principais no desenvolvimento da teoria dos atos de fa la. Austin Quando dizer é fazer 12 . R. Só Icvurci os Icit voltinha. Constituem esscn­ cialmente o estabelecimento de algo . e que requer prolongada investigação.

são. "postulo". por exemplo. Mas alguns atos judiciais. é passível de ser considerado correto ou incor­ reto. sobre evidências ou razões quanto ao valor ou ao fato. Também em um sentido de " culpar" . Eles esclarecem o mo­ do como nossos proferimentos se encaixam no curso de uma argumentação ou de uma conversa. Um vereditivo é um ato judicial. Bem se pode­ ria dizer que todos os aspectos estão presentes em todas as classes. são difíceis de definir. na medida em que estes são passíveis de distinção. súo realmente exercitivos. o que estabelece o corpo de jurados faz de um homem um condenado. etc. distinto dos atos legislativos ou executivos. então é um comportamental. mas. O ato é levado a cabo em virtude de uma posi­ ção oficial. pode comprometer­ nos a apoiar alguém ou a sair em sua defesa. Também uma inter­ pretação dos fatos pode comprometer-nos a dar certo veredito ou estimativa. ser sui generis de uma forma que não consegui esclarecer nem para mim mesmo. ou casos de sobreposições entre essas classes. um corpo de jurados. Os vcrcdjtivo têm conexões 6bvias com verdade e falsidade com relação ao fundamento ou falta de fundamento.L. certo ou errado. à justiça ou injustiça. se o dese­ jam. ainda assim. Comparação com exerciti vos Quanto aos atos oficiais. unndo dizer é fazer 125 . As últimas duas classes são as que acho mais difíceis. Devemos levar em conta. O ato judicial é. culpar é um vereditivo.Austin Cumprimentar pode implicar um veredito acerca do valor ou do caráter. e do mesmo modo devemos distinguir entre a determinação do montante de danos e prejuízos da decisão de quem deve pa­ gá-los. Nota-se que o conteúdo de um veredito é verdadeiro ou falso. ou. expositivos. ou talvez mais ainda. Os vereditivos consistem em emitir um juízo. a determinação de um juiz faz valer a lei. VEREDITIVOS Os exemplos são: absolvo considero (em tennos legais) vejo-o como computo coloco incluo em classifico valorizo caracterizo condeno interpreto como determino estimo dato (temporalmente) torno-o graduo avalio diagnostico constato (uma realidade) entendo calculo situo meço tomo (x como y) qualifico descrevo analiso Os veriditivos têm efeito. numa disputa a respeito da d cisão de um juiz de futebol. a deci­ são de um juiz de futebol que retira de campo um jogador faz com que esse jogador fique fora de campo. e bem pode ser que não estejam nitidamente classificadas ou que estejam um 'tanto embara­ lhadas. Comparação com os comportamentais Outros exemplos são encontrados nas apreciações ou avaliações de ca­ ráter. Assim.Os quintos. executivo. mas em outro sentido. justificado ou injustificado diante da evidência. desde o iní­ cio. e os expositivos porque são excessivamente numerosos e importantes. dentro da lei. que ainda há amplas possibilidades de que se apresentem casos margi­ nais ou embaraçosos. no sentido em que qualquer ato de fala o faz. "suponho". Emitir um veredito ou uma estimativa nos compromete a uma certa conduta futura. no -sentido de atos feitos por um juiz em vez de serem feitos por 124 J. pelo menos no que se diz respeito à coerência. que são ambos exercitivos. como dizemos agora. "Você o terá". "concedo" . mas é preciso distinguir o proferimento executivo. "argumento". e tanto parecem estar incluídos em outras classes quanto parecem. oficial ou extra-oficial. como estamos usando as palavras. por exemplo. Não estou. que é equivalente a "considerar res­ ponsável" . "e­ xemplifico" . propondo nada definitivo. Comparação com comissivos 1. e talvez também por­ que sabemos a que o ato nos compromete. ou seja. sobre nós mesmos e sobre os demais. em ge­ ral. tais como "Eu o chamaria de empreendedor". "É seu". Os comportamentais criam problemas porque parecem demasiado heterogêneos. Não é realizado como uma decisão a favor ou contra. ou mesmo que necessitem de uma classificação inteiramente distinta. dar um determinado vere­ dito nos comprometerá. expositivos. por exemplo. do veredito. nos compromete a determi­ nar uma indenização por perdas e danos. quando significa adotar uma atitude para com uma pessoa. Dar um veredito pode também implicar em aderir a algo. por vezes. de modo algum. Exemplos são: "contesto".

tais como pennitir. (2) conselho. admissões. "não faço objeção" e "faço objeção" .. Por exemplo: prometo me comprometo a estou decidido a compactuo me obrigo a tenho a intenção de contrato dou a minha palavra declaro minha intençúo o Comparação com vereditivos "Considero". "protesto". É preciso distin­ guir entre "eu descreveria isso como uma ação covarde" e "eu descreveria is~o com a expressão 'ação covarde' " . etc. exortação e petição. em oposição a julgar que tal coisa é assim. de certa fonna. reuniões. direitos. assim como emitem vereditivos. mas está essencialmente relacionado a questões verbais e ao esclarecimento de nossa exposição. ofl conceder. "col1cl'do" e "uhsululo" são cxercitivos baseados em vereditos. "aprovo" . isto. ordens. etc. etc. 2. É decidir que algo tem de ser de determinada maneira. Árbitros e juízes empregam exercitivos. mas seria melhor dizer que tais atos conferem poderes. Comparação com os comportamentais Há exercitivos. elo­ giar e recomendar podem consistir na adoção de uma atitude ou na realiza­ ção de um ato. o que é oposto a determinar o seu montante.Comparação com expositivos Quando digo "interpreto". COMISSIVOS importante de um comissivo é comprometer quem o usa a uma de­ terminada linha de ação. na realidade nos comprometem a uma linha de ação determinada. É uma sen­ tença. autorizar. ou advogá-la. demissões e pedidos de admissão. que estão estreitamente ligados aos comportamentais. alguns exemplos são: nomeio demito ordeno sentencio exijo (o pagamento de um imposto) escolho lego advirto rogo insisto em proclamo revogo sanciono consagro degrado excomungo mando multo voto em reclamo perdôo aconselho suplico pressiono anuncio anulo suspendo declaro encerrado rebaixo (de categoria) nomeio (dar nome. tais como "desafio" . O primeiro é um veredito. etc. protestar. Comparação com os expositivos Alguns exercitivos. tivos quondo constituem atos oOciais. A conexão entre um exercitivo e compromcter-s é tão próxima quanto a que há entre significado e implicação. Desafiar. dar. aprovar. renúncias. dado o uso de certas palavras. Comparação com comissivos Muitos exercitivos. "interpreto" e expressões semelhantes podem ser exerci­ 126 J. é dar um veredito. título) dirijo concedo indico dou renuncio advogo peço recomendo invalido repilo veto declaro aberta 3. acusações. É advogar que seja assim. "caracterizo" . É uma classe muito ampla. em oposição a um veredito. Suas conseqüências podem ser que outros sejam "compelidos" ou "autorizados" ou "não autorizados" a fazer certos atos. o segundo é um veredito acerca do uso dessas palavras. no contexto de uma discussão ou de uma conversa. (5) direitos. ou os modificam ou os eliminam. Além dlSSl). nomes. eleições. sancionar e consentir. reclamações... L. (4) a condução de negociações. em oposição a uma estimativa de que seja assim. Contextos típicos em que se usam exercitivos são: (1) nomeações de funcionários ou empregados. delegar. É outorgar uma indenização. Austin Quando dizer é fazer 12 . (3) facultamentos. É óbvio qu designar e nomear (dar nome ou título) são atos que nos comprometem. EXERCITIVOS Um exercitivo consiste em tomar uma decisão a favor ou contra um determinado curso da ação. têm. sentenças e anulações. "descrevo". "analiso". a mesma força que os expositivos. candidaturas. tais como "retiro o que disse".

Para desejos. Para agradecer temos "agradeço". co­ mo ocorre. significar votar em X. temos "abençôo". Existem conexões óbvias entre declarar e descrever quais são os nossos sentimentos. Da mesma forma que distinguimos entre instar e ordenar. posso. "aplaudo". assim. . também distinguimos entre ter a in­ tenção e prometer. sustentar e defender formam outro grupo de ilocuções. "culpo" . Comparação com os vereditivos Os vereditivos nos comprometem a ações de duas maneiras: (a) nos comprometem a realizar as ações que são necessárias para sus­ tentar nosso veredito e ser coerente com ele. etc. 4. 2. deftnir. prometer. por exemplo. Para saudações. "Declaro minha intenção" me compromete. Assim.pretendo me proponho a garanto prometo solenemente me consagro a adoto adiro planejo farei X asseguro que concordo me pronuncio por defendo me oponho a tenho o prop6sito de juro aposto consinto tomo partido abraço (uma causa) sou a favor de ()mpurll\'ÜO com os comportamento. Para desafios. simplesmente. Há também uma inclinação em direção aos "descritivos". funcionam como expositivos. No caso dos comissivos. estar em desacordo. declarar que se favorece. "amaldiçôo". e dizer "tenho a intenção" equivale. quando se dá um nome. "rendo tributo a" . O mesmo ocor­ re com as adesões. "boa sorte" . Reaçõcs como as de declarar-se ofendido. L. Para expressar solidariedade temos "deploro".· supõem aderir e comprometer-se. Para atitudes temos "me declaro ofendido". As declarações de intenção diferem dos compromissos assumidos e po­ deria questionar-se se devem ser classificados todos juntos. mas s6 posso fi comprometer a não fazer algo semelhante. Em um caso extremo. embora os comportamentais sejam distintos de ambas essas coisas. "adoto o ponto de vista" e "abraço". como por exemplo. da mesma maneira que acontece com acon­ selhar e escolher." . de acordo com o contexto. e também expressá-los. Comparação com os exercitivos Os exercitivos nos comprometem com as conseqüências de um ato. e garantir que algo é de uma certa forma. "à sua saúde" e "te desejo" (em seu uso estritamente performativo). em "consagro minha vida a . temos "desafto-o a" . de modo geral. sem anunciar que o faz. geralmente. 7. COMPORTAMENTAIS Os comportamentais incluem a idéia de reação diante da conduta e da sorte dos demais. Mas os comportamentais nos comprometem com uma con­ duta semelhante. Quando dizer é fazer 12 128 J. "reclamo". 4. "me queixo". Para pedir desculpas temos "peço desculpas" . Chamar. e não a essa conduta efetiva. Exemplos: 1. que parecem ser ao mesmo tempo expositivas comissivas. "critico". "convido a" (defender um tema) etc. no senti­ do de dar-lhes uma válvula de escape. analisar e supor fonnam um grupo. se opõe. Dizer "Apoio X" pode. de aplaudir ou elogiar prc. "passo por alto" . "me compa­ deço" . e de atitudes e expressões de atitudes diante da conduta passada ou iminente do próximo. Mas ambos os casos estão compreendidos no performati­ vo primário "farei". "cumprimento-o".. por implicação. aderir a X ou aplaudir X. como "favoreço". "brindo a". temos "seja bem-vindo". a declará-la ou anunciá-la. 3. estar de acordo. (b) nos comprometem a realizar as ações que podem ser conseqüências de um veredito ou estar incluídas nelas. "protesto". "condôo-me" . "felicito". 6. "aprovo" e "apóio". "me congratulo". temos as locuções " provavelmente o farei" e "farei tudo o que puder".. não se pode. e apoiar. "não me importo". declarar que tenho uma intenção. Comparação com expositivos Jurar. 5. "oponho-me". No caso especial dos per­ missivos caberia perguntar se devem ser classificados como exercitivos ou como comissivos. adoto uma atitude quanto à conduta de alguém. Austin . "lamento" e os usos não exercitivos de "censuro". mas tam­ bém posso declarar ou expressar ou anunciar minha intenção ou resolução. S censuro. "me compadeço" . "recomendo". indubitavelmente. "duvido que".

Exemplos que bem podem ser tomados como exercitivos são: "concedo" .. Aqui. comportarnentais.. Os exemplos centrais são "declaro". o comportamcn­ tal é a adoção de uma atitude e o expositivo é o esclarecimento de razões. tam­ bém. "classifico" . "exemplifI­ co". corrijo revejo 6. aceito concedo retiro concordo não faço ohjeção fuço objcçl. Os pontos de interrogação são de Austin. etc. pois. "juro". que supõem assumir uma obrigação. "protesto" . Podemos discutir também se não são descrições simples e diretas de nossos sentimentos. "cito . "destaco". que supõem adotar-se uma atitude ou expressar um sentimento. . Já dissé­ mos repetidas vezes que estamos abertos à discussão quanto a estes atos se­ rem tanto vereditivos exercitivos. " insto" .. "insisto" . "recapitulo" .além do risco comum das infelicida­ des. parece naturalmente referir-se à troca lin­ güística. não me sobrou tempo suficiente para mostrar qual o interesse de tudo isso que acabo de dizer. em­ bora não haja nenhuma explicação nos manuscritos. embora não necessariamente. porque apro­ var pode ser um exercício de autoridade ou uma reação diante da conduta de alguém. o co­ missivo é assumir uma obrigação ou declarar uma intenção. Darei.. "pergunto". Apresentarei algumas listas para indicar a vastidão do campo.. "interpreto". exemplifIco explico formulo 7c. "desanimo".No campo dos comportamentais. vai uma lista de expositivos: 2 2 Mantivemos a apresentação e a numeração de Austin. E todos. quanto comissivos. que supõem o exercício do julgamento. Há outros que podem considerar-se exemplos de comportamen­ tais: "não me oponho" . etc. Há também uma conexão estreita com os exercitivos. EXPOSmVos Os expositivos se usam nos atos de exposição que consistem em ex­ pressar opiniões. testifico relato juro conjeturo ? duvido ? sei ? creio 5. naturalmente. podemos dizer que o vereditivo é um exercício de julgamen­ to. postulo deduzo argumento negligencio (omito) ? destaco 7. tal como "ques­ tiono" .l' adiro a reconheço repudio 5a. Um grande número. O. são expositi­ vos usados em situações de comunicação. ". (N. Urimson. signifIco (quero dizer) reftro-me a entendo considero como 5. informo aviso digo respondo replico 3a. interpreto distingo analiso defrno 7b. "nego". " sustento". Exemplos que bem podem ser tomados como vereditivos são: "anali­ so". "aceito". u1inl\\J nego declaro descrevo classifico identifico 2. argumentos e comunicações. "afIrmo" . "suplico" e "desafio". "con­ cordo". observo menciono ? interponho 3. 1. " . o exercitivo é uma aftrmação de influência ou exercício de poder. práticas. "repito que" e "menciono que". O significado geral dos grupos é 6bvio. porém. Há conexões 6bvias com os comissivos. como ao dizer "passo agora a ocu­ par-me de . "nego" . O Quando dizer é fazer 131 . há uma oportunidade bastante grande para a insinceridade. que supõem o exercício de influência ou de poderes. Os seguintes podem ser considerados exemplos de comissivos: "defmo". "apóio" . do editor J. "passo por alto" . pergunto 4. pois elogiar ou apoiar é tanto reagir diante da conduta alheia quanto comprometer-se com uma linha de conduta. começo por passo a concluo com 7a.. Como de costume. Outros exemplos marginais são "recomendo" . conduzir debates e esclarecer usos e referências. um exemplo. "respondo" e outros semelhantes. especialmente em relação a situações em que se trata de ajustar a palavra à ação.) l~ ~LAu~ Em suma.

Mas seu verdadeiro interesse começa quando passamos a aplicá-la à ftlosofIa. O principal valor das fontes secundárias foi O d permitir que se conferissem a ordem e a interpretação em pontos em qu notas se apresentavam fragmentárias. (2) dar conferências. que a usemos para expressar aprovação. L. Concluiu-se depois que estas notas do próprio Austin ncccssit vam de muito pouca suplementação de fontes secundárias. com relação a (1). isto é. não tanto quanto o foi conceber e redigir a teoria. Austin Quando dizer é fazer t1 . mas. gostaria certamente de dizer que nenhum outro lugar poderia ter sido pa­ ra mim mais agradável para dar conferências do que Harvard. re­ centemente.alguns dos quais tão complexos que chegam a merecer sua celebridade. gostaria de poder pensar que estive não proclamando um manifesto individual. os filósofos têm demonstrado interesse pela palavra " bom" e. e a gravação da palestra feita em Gotcnt)Ur. por exemplo.foi a de permitir que se verificasse e corrigis reconstrução do texto feita inicialmente sem levar em conta as notas do pr prio Austin. para recomendar ou ainda para qualificar.há muito. 132 J. seriam espécimes isolados. dizer o que deveria ser feito ao in­ vés de fazê-lo. sendo muito mai completas que qualquer uma destas fontes. bem como algumas expressõcs racterísticas em alguns pontos em que as notas de Austin não apresentavum uma redação definitiva. de forma satisfatória. e que são: (1) apresentar um programa. contendo o seguinte: " de certo forma isso ao menos chama a atenção especillcamente para o que necessito­ mos em certos casos" . Uma relação das passagens mais importantes do texto de Austln quais foram feitos acréscimos ou que foram reformuladas. levantado a relação completa dos atos ilocu­ cionários dos quais recomendar. encontra-se n apêndice. o trabalho apresentado no Colóquio de Royaumoot o título "Performatif-Constatif'. sem dúvida haveria muitas outras. em algumas partes da fIlosofia. qualificar. l Página 25. linhas 19 e segs. Isto seria um exemplo de aplicação possível de uma teoria geral do tipo que acabamos de considerar. etc.a conferência na BBC sobre performativos publicada nos sophical Papers. se interessaram pelo modo como a usamos e pelos fins para que a empregamos. go em outubro de 1959 . Alguns exemplos característicu tirados destas fontes foram acrescentados. Inten­ cionalmente deixei de fora da teoria geral problemas ftlosóficos . Nas notas uma linha extra foi acrescentndn após a expressão " de que necessitamos" . Já se sugeriu. Apêndice A principal utilidade das notas tomadas pelos ouvintes das confi de Austin . Mas nunca chegaremos a uma idéia clara sobre a palavra "bom" e sobre para que a usamos até que tenhamos. E quanto ao (2). Nestas conferências fiz duas coisas que não gosto muito de fazer. Isto não signifi­ ca que não tenha consciência da existência de tais problemas. mas procurando esclarecer um pouco a maneira como as coisas começam a caminhar e como estão caminhando com intensidade cada vez maior. até que saibamos quantos destes atos existem e de que forma se inter-rela­ cionam. Contudo. É claro que tudo isso é um tanto cansativo e árido para se ouvir e assimilar.

L. Encontramos literalmente o seguinte na altura das linhas 7/8: "contratos freqüentemente nulos porque os objetos sobre os quais ver­ sam não existem . Na altura das linhas 20-21 há uma nota à margem dizendo: "profcrimento de palavras" uma noção nem um pouco simples!" Página 40." foi acrescentado com base nas notas de Pitcher. não se encontrando nas notas de Austin. Da línha 6 até o [mal do primeiro parágrafo temos uma ex­ pansão feita pelos editores a partir de notas muito sucintas. pressupõe dizendo implica o que se diz implica logica­ mente" Página 55. declarar guerra. (a) e (b) são desenvolvimentos a partir de notas muito su­ cintas baseadas em fontes secundárias. é () mesmo?" Página 93. Desde o segundo parágrafo até o parágrafo [mal da confe­ rência. Página 126. Página 68. mas não verdadeiro ou falso. Página 51.um colapso de referência (ambigüidade total ou inexistên­ cia)" . O parágrafo que se inicia "De modo que temos aqui. nem descrição ou relato" . Nota à margem da linha 6 diz: "disse equivale a afumou. Página 86. Quando dizer é fa zer 135 l 34 J. Acréscimo à margem do segundo parágrafo: "Restrições a "pensamentos" aqui?" . com base nas notas de Pitcher. Página 119. exclusive. Página 82.. podem ser rejeitados em sua totalidade. No manuscrito "estávamos certos em" está escrito por ci­ ma de "tínhamos o direito de" na linha 17. Nas notas de Austin a V11 9 COllfcrêndu tCI11111l1t uqui. O texto baseia-se sobretudo na versão na BBC. Página 70. não se encontra no texto. Acréscimo à margem das primeiras linhas da página: "ne­ cessitamos de critérios de evolução da linguagem" . trata-se de uma versão composta a partir de várias notas incompletas feitas por Austin em datas diferentes.. O parágrafo final é uma expansão das notas de Austin ba­ seada principalmente nas notas de George Pitcher. Página 105. O exemplo sobre George está incompleto nas notas. Acréscimo à margem da linha 11: "e inexplícitos fazem am­ bos".. Acréscimo à linha 7 da página: "talvez pudéssemos opor aqui obrigação "moral" X obrigação em sentido '·estrito". " . Página 70. "como dar a entender" é baseado nas notas d Pitcher. Página 63. Página 44. (2) em todos os sentidos relevantes «A) e (B) X (C) nA serão todos os proferimentos performativos?" Página 92. declarar encerrado. no manuscrito de Austin temos. " até o final do parágmfo trata-se de um acréscimo com base nas notas de Pitcher. Página 83. Página 91. O exemplo "Said Ali" (originariamente em inglês "Iced ink" ("I stink"». De "podemos dizer que uma fórmula performativa . Antes da última linha do segundo parágmfo do texto. Acréscimo à margem do parágrafo que se inicia: "A fór­ mula perfonnativa explícita". Jl •• acordo com as notas de Harvard parece que o início da Vlli 2 Conferôncía l ria sido incluCdo na Vil!!. embora fosse famoso entre os alunos de Austin. na linha 23 até o [mal do parágrafo.Austin . B.Página 26. As notas de 1955 são fragmentárias neste ponto. "ou "como dar a entender". temos um desenvolvimento conjectural das notas de Austin. Página 55. Página 49. Página 109. O final do parágrafo que se inicia com (b) foi acrescentado com base em fontes secundárias. mas e se "amea­ çar" não for considerado nem uma nem outra?" . O parágrafo que se inicia "em terceiro lugar" foi desen­ volvido a partir das notas de Pitcher e Demos. Na linha 15. Nota à margem da linha 19: "Dizer. Página 114. Página 114. Em uma nota separada há um acréscimo ao ponto (1): "mesmo procedimentos que incluam proferimentos como "Estou participan­ do do jogo" .. junto à comparação com o vereditivo há uma nota dizendo: "cf. Da linha final "um juiz deveria." Página 43. Página 104. declarar que se est em estado de guerra" . Página 100.. nas quais simplesmente encontramos: "Usamos "como pode ser entendido" e "tomando claro" (e até mesmo "declarando que"). Nota datada de 1958. Página 100. porém esta última expressão não está riscada. Os exemplos encontrados em (1) e (2) foram acrescentaclv. Desde o oitavo parágrafo até o final da conferência o texto foi reconstruído a partir de dois conjuntos de notas feitas por Austin antes de 1955. etc. diz: "? enganoso: é o recurso compare-se com precisão" . declarou" . À margem. à margem do início da página diz: "Nota: (1) Nada está claro! distinções. Página 41.. Dito é claro jamais não declara (Dito também tem suas ambigüidades)" Página 118. te­ mos nas notas: "N.

'J[J If(jclI Calligaris. "u/lI e Açá Calligaris. Wi. Juun-Ouvid: ()~ O/ll m dr / 111// 1' NnsiQ &.II" .. Página 129.: Jritroduçúu 1/ un. C.'Ll /II .' ( '//1"". Claudc : A Sr!l unllll M!il 1 Jacques Lac. c. Charlcs: F~trll'lI rtt 1 11('11111//11. Joel: Inlroduçlw ti 1 t' lI llI /I d. rencial das Psicoses Dorgeuille.. " em diante. (' (J I ""'"""~ Cura PS iCI. L.I'" d. IUI"A TÍTULOS EDITADOS Austin: Quando I)i/('r (I F/l/(' .' '\/1 " ' (/ 11 11111//11 .· TÍTU LOS EM PROD se u t nsin M clman.O Inconsciente EM /lllll ml /o rrlIII .' . Página 131.' 136 J.Página 128. l)'ll1u: A ('I/JIII~'II c/" PClricf.' I . Nota relativa a "brindo a" e "à sua saúde" no n~ 6 diz: "ou adequando a ação às palavras" . AJillú'w M ()/JL 1'\/l'ul/. De "como de costume .ln Dor./ P sicoses Nnsio. Austin çJW d" P~lru/l( I/ "IOI Sí.. DIR ECAO: ALoulSIO M ORfl"" Il. Após o parágrafo tennínado em "farei tudo o que puder" há a seguinte nota "Prometo que provavehnente o farei" .: flir()l c~c Mlh. Frunçoi'l: F'I'/lIOI (/11111'1" /' 111 "'1' ' ' " 1111'. Supomos que Austin não pretendia que este fosse um exemplo de uso permissível. trata-se de um desen­ volvimento das notas de Austin com base em um pequeno manuscrito sepa­ rado do próprio Austin e confrnnado por notas dos ouvintes. A l d ll (~i() M • ~I'/.

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