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Debruada no parapeito da ponte Carla olhava o rio cinza.

sua volta a manh envolta em uma nvoa quente deixava o cu tambm cinza e opaco. O sol de um amarelo mortio conseguia romper a nvoa apenas com seu disco. Em seu peito uma angstia irrompia pois no tinha receita mdica para comprar o lexotan, primeiro interlocutor de suas manhas. Sentia um profundo mal-estar, nada estava bom, havia um erro fundamental que no se fazia visvel. Ela achava que essa sensao que de h muito lhe acompanhava devia ser aquela que um beb sentia quando estava com as fraldas sujas de coc. Ai...um Lexotan mandava tudo aquilo embora. Um lexotan mame que trocava as fraldas e que a deixava limpinha de novo, tudo em seu lugar, sem desordem nenhuma. Mas naquela manh no tinha lexotan nem mame. Tudo parecia errado e fora de lugar. Olhou sua volta e tudo estava feio, feio demais. Porque saira para caminhar? Estava arrependida. Sua casa parecia infinitamente longe e ela sentia-se sem energia nenhuma. Por ela, sentava-se no piso da calada da ponte, fechava os olhos e aguardaria. Aguardaria no sabia bem o que, mas aguardaria. Mas no podia, era advogada e a cidade pequena. O que diriam se vissem a Dra. Carla ali, sentada na ponte. E certamente, inevitavelmente, algum conhecido a veria. Pegou um caco de telha que estava no piso e o jogou no rio. Ouviu o barulho do choque com a gua e observou os respingos. A ponte era alta e no permitia fazer o que se lembrou: quando menina ia na chcara de um tio e ela e as primas jogavam cacos de telha rentes na superfcie da gua e eles saiam pulando, no afundavam de sada. Seu tio dizia que aquilo era brincadeira de meninos e no de meninas. Na volta o tio colocava no radio do carro uma fita com musicas italianas. Ela gostava, mais do que gostava, adorava. Lembrava ainda os nomes dos cantores: Srgio Endrigo, Pepino di Capri, Nico Fidenco, Gigliolla Cinquetti, Rita Pavone