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Considerações sobre USUCAPIÃO em área pública

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A LEGITIMAÇÃO DE POSSE E A INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO

A LEGITIMAÇÃO DE POSSE E A INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO

O instituto da “legitimação de posse” tem sua origem eminentemente agrária, com a edição da Lei de Terras do Império (Lei nº.601 de 18 de setembro de 1850), que prescreveu em seu art. 5º:

“Art. 5º. Serão legitimadas as posses mansas e pacíficas, adquiridas por ocupação primária, ou havidas do primeiro ocupante, que se acharem cultivadas, ou com princípio de cultura e morada habitual do respectivo posseiro, ou de quem o represente, guardadas as regras seguintes:”

A partir de então tal instituto de cunho tipicamente agrário, foi positivado no Estatuto da Terra em seu art. 97, inciso II, e na Constituição de 1967, em seu art. 171.

Entretanto, com a Constituição de 1891 as terras devolutas passaram a integrar o patrimônio dos Estados em que estivessem situadas, passando cada ente federado a ter legislação própria sobre essas terras. Praticamente todos os Estados adotaram o instituto da “legitimação de posse” em suas respectivas legislações, sempre com a exigência do binômio morada habitual e cultura efetiva.

Entretanto, desse período até os dias atuais, o Brasil, então quase totalmente rural, viu a explosão urbana inverter a relação da ocupação de seu território. As legislações estaduais que disciplinavam as terras devolutas, em falta de instrumentos outros, foi e continua sendo aplicada às terras urbanas, adaptando-se à nova realidade. Tal fato não pode nem deve ser desprezado quando da interpretação das normas aplicáveis na espécie sob comento.

Assim, institutos típicos de direito agrário, tal como a “legitimação de posse” passam a ser instrumentos normativos de destinação das terras públicas urbanas. E não podia ser diferente, eis que as cidades surgiam exatamente nas terras devolutas pertencentes aos Estados por atribuição da Carta de 1891.

Ora, tal instituto jurídico não constituía forma de alienação de terras públicas pois suas características em muito diferem entre si. A alienação tem como pressuposto um ato discricionário por parte do Estado. A legitimação de posse pressupõe um direito do posseiro ao título de domínio eis que seria “proprietário putativo” da área onde tem a morada habitual e cultura efetiva por certo lapso temporal. Para melhor entendimento da questão, convém partilhar a opinião de ISMAEL MARINHO FALCÃO:

“O posseiro da terra devoluta não recebe favor em ter o seu direito reconhecido pelo Estado, é dever deste fazê-lo, posto que o posseiro é mais que um simples detentor, ele, com no dizer feliz do mestre Messias Junqueira, é o proprietário putativo da terra que ocupa, como tal faz jus ao título de domínio, independentemente de qualquer pagamento, a não ser pelo da demarcação, se

expressamente ( §§ 1º e 2º do art. (In Direito Agrário Brasileiro.504∕64) já disciplina seu procedimento e a expedição do título (art. (. 62) HELY LOPES MEIRELLES é de mesma opinião: “Legitimação de posse: legitimação de posse é modo excepcional de transferência de domínio de terra devoluta ou área pública sem utilização. 22ª ed.3.170. A alienação é sempre transferência de domínio. sendo que para as terras da União. permuta. pressupõe a transferência de uso. a alienação e a concessão como modalidades de transferência de um bem público para o patrimônio privado.. porque dele é a terra ocupada. São Paulo. proprietário putativo da terra eu pioneiramente desbravou e ocupou. ( O Direito Agrário na Constituição. de 20 de setembro de 1977 e seu Regulamento foi aprovado pelo Decreto nº. podendo ser tomada como gênero de que são espécies a autorização de uso..922.). Essa providência harmoniza-se com o preceito constitucional da função social da propriedade (art. mas como “proprietário putativo” da área que ocupa. também chamada concessão gratuita de domínio). na forma administrativa estabelecida na legislação pertinente. preleciona excluindo a legitimação de posse como modalidade de alienação ao firmar: “O Texto de 1988 refere. 1995. convertendo-as em propriedade em favor dos ocupantes que atendam às condições estabelecidas na legislação da entidade legitimante.” (in Direito Administrativo Brasileiro.1ª edição. Edipro. Bauru. por particulares.. são igualmente passíveis de legitimação de posse para transferência do domínio público ao particular ocupante. p. dá-se mediante venda. parágrafo único).) “Não há usucapião de bem público como direito do posseiro mas. 189.260 de 14 de fevereiro de . o Estatuto da Terra (Lei 4. Quanto às terras estaduais e municipais. p. 188 e art. reconhecimento do Poder Público da conveniência de legitimar determinadas ocupações. esposando mesmo entendimento. Rio de Janeiro. salvo nesta última acepção. para o devido registro do imóvel em nome do legitimado. Também o Mestre em Direito JOSÉ EDGAR PENNA. a legitimação de posse e a concessão de direito real de uso. o aforamento.1. de terras devolutas e de áreas públicas não utilizadas pela Administração. Forense. Nada tem a ver com instituto da aquisição de terra. sim. segundo lição do saudoso mestre Messias Junqueira. 82/83). não cm a legitimação que não pode se confundir com qualquer desses institutos. Já a concessão. a permissão de uso. (.. dação em pagamento. (. porque posseiro de terra devoluta não necessita de ato de liberalidade do Poder Público e muito menos de concessão.III) e resolve as tão freqüentes tensões resultantes da indefinição da ocupação.. porquanto o posseiro de terra devoluta faz jus ao título de domínio não com adquirente de terra pública.11 e 97 a 102).) A Constituição Federal de 1988 preocupou-se com a alienação e a concessão de terras públicas. a concessão de uso propriamente dita. 1997. p. A legitimação da posse há que ser feita na forma da legislação pertinente..455) O Código de Terras do Estado de Mato Grosso está normatizado pela Lei nº. 2005. ocupada por longo tempo por particular que nela se instala. investidura e doação (com ou sem encargo.) A legitimação de posse é conquista centenária que o Direito Agrário abriga pelo fato de se tratar de um direito personalíssimo do posseiro.esta não tiver sido contratada por ele. Lucas Abreu Barroso et alli (org. cultivando-a ou levantando edificação para seu uso. direito que se cristaliza pelo fato da detenção e esta pela manifestação da cultura efetiva e morada habitual..

não se aplica ao caso da legitimação de posse. a abertura de novas fronteiras agrícolas em imensas glebas de colonização estatal e particular. Nessa época.260 de 14 de fevereiro de 1978. 52) O Estado de Mato Grosso também manteve o instituto jurídico da “legitimação de posse”. demarcação.” (Breve História de Mato Grosso e seus Municípios. A legitimação de posse está regrada em capítulo próprio (CAPÍTULO III) enquanto o CAPÍTULO IV trata especificamente “Da Alienação das Terras Devolutas”. a expansão das telecomunicações. O Intermat poderá legitimar posse de área contínua até 100 (cem) hectares ao ocupante de terras devolutas. descabe a incidência da regra geral de exigência de prévio certame licitatório quando o Estado legitima a posse. que as tenha tornado produtivas com o seu trabalho e o da sua família. repita-se. em seu art. caput. iniciou-se uma fase de desenvolvimento jamais vista em Mato Grosso. que criou o Estado de Mato Grosso do Sul. e inc. o que. A ampliação e a melhoria da malha rodoviária pelo Governo Federal. por sua vez.” Da leitura sistemática do Regulamento do Código de Terras depreende-se de forma clara que o legislador mato-grossense não incluiu o instituto da legitimação de posse como modalidade de alienação de terras públicas. não se tratando de alienação. que é modalidade diversa de transferência da propriedade pública ao particular. desde que preencha os seguintes requisitos: a) não seja proprietário de imóvel rural. em seus arts. 37. Parágrafo Único: Para legitimação de área de até 100 (cem) hectares. taxas e emolumentos regulamentares. seguindo a tradição histórico-jurídica desse instituto.1978. Esses fatores todos ajudaram a proporcionar e a consolidar esse desenvolvimento de Mato Grosso.31 de 11/10/1997. principalmente originário dos Estados do sul do país. b) comprove a morada permanente e cultura efetiva pelo prazo mínimo de 1 (um) ano. tratam da exigência de licitação nas “alienações”. mas como modalidade própria de transferência de bem público ao particular. Recém dividido através da Lei Complementar nº. prevendo essa modalidade de destinação de terras públicas no artigo 8º do Regulamento do Código de Terras. dispondo expressamente: “CAPÍTULO III Da Legitimação da Posse Art. a realidade socioeconômica do Estado era completamente diferente da atual. ensejando a fundação de inúmeros núcleos urbanos pioneiros. XXI impõe o prévio certame licitatório nas “alienações” o que não é o caso. Está claro que a norma não tratou a legitimação de posse como alienação. 8º. Ora. e em especial a ocorrência de um intenso fluxo migratório. 2º e 17. entra em um período de crescimento demográfico intenso conforme relata PAULO PITALUGA COSTA E SILVA: “Na década de 70 e princípios dos anos 80. A Lei de Licitações. p. com efeito. Consigne-se que Carta Maior admite exceção à exigência de licitação quanto aos “casos . A Constituição Federal. aprovado pelo Decreto 1. serão cobrados os serviços de medição.

1º).especificados na legislação”. estabelece “normas gerais sobre licitações e contratos administrativos” (art. permitindo aos Estados que legislem sobre a administração de seus bens. por força do surgimento de uma realidade urbana. Lei de Licitações. 11ª edição.8.14) Destarte. passando a regrar a destinação de terras públicas urbanas pertencentes ao patrimônio dos Estados e dos Municípios. sobre as quais a doutrina até os dias atuais não chegou ao consenso quanto aos seus conceitos jurídicos. A evolução da sociedade com o surgimento do fenômeno urbano é que as diferenciou em terras públicas e rurais. com uma única origem. É inadmissível considerar-se com norma geral uma regra acerca da gestão de bens públicos de entes federativos. a União na pode estabelecer regras acerca da doação de bens estaduais ou municipais. Tal fato se deu até em razão da inexistência de legislação para terras urbanas. o instituto jurídico de origem agrária. à esta se adapta. mas não institui órgãos nem interfere sobre os assuntos d peculiar interesse local. conclui-se que o instituto jurídico da “legitimação de posse” incide sobre as áreas de terras públicas urbanas e a sua utilização dispensa o previ certame licitatório por não constituir modalidade de alienação. . Em face da Federação. São Paulo: Dialética.” (in Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos.666/93. Outra não é a lição de MARÇAL JUSTEN FILHO: “Daí se extrai que todas as regras acerca de organização. As terras eram e são uma só. Pois bem. p. Então. funcionamento e competência dos organismos administrativos não se incluem no âmbito de normas gerais. 2005. A Lei nº. A lei federal disciplina o procedimento e as competências. não carece de qualquer fundamento jurídico a alegada nulidade absoluta da legitimação de posse efetivada pelo Autor em favor da Ré em decorrência da ausência de procedimento licitatório.

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