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Artigo original

Marcelo de Moraes 1 Lorival José Carminatti 2

VARIÁVEIS IDENTIFICADAS EM TESTES PROGRESSIVOS DE CAMPO:

PROTOCOLO CONTÍNUO VS. INTERMITENTE.

IDENTIFIED VARIABLES IN PROGRESSIVE FIELD TESTS: CONTINUOUS PROTOCOL VS. INTERMITTENT PROTOCOL.

RESUMO

As avaliações de desempenho físico do atleta, sofrem influência direta da especificidade, recomendando que o teste deva primar pela maior validade ecológica possível. O objetivo do presente estudo foi verificar se a resposta das variáveis máximas

e submáximas derivadas dos diferentes protocolos: teste de Carminatti - TCar

(intermitente) e Vameval - TVam (contínuo) são protocolo-dependentes. Participaram do estudo 18 indivíduos ativos, todos do sexo masculino (idade 21,9 ± 2 anos, massa 76,5 ± 8,6 kg, estatura 178,0 ± 8,1 cm e % de gordura 11,2 ± 5,4) que não praticassem modalidades esportivas de forma competitiva. O estudo foi realizado em duas sessões com no mínimo sete e no máximo quinze dias de intervalo. Nos resultados de FCmáx (195 ± 11 Tcar e 194 ± 14 TVam), PV (15,6 ± 1,2 TCar e 15,5 ± 1,3 TVam), FCméd, FCmáxprev e FC correspondente as velocidades submáximas (9, 12 e 15 km/h), pode-se constatar que todos foram muito similares, tanto para as variáveis de esforço máximo quanto para as variáveis submáximas obtidas em ambos os protocolos TCar e TVam. A única exceção ficou para o tempo de duração de cada teste (TD), sendo maiores no TCar. Como conclusão, os resultados não condizem com a hipótese inicial proposta pelo estudo. De acordo com a grande similaridade encontrada nos testes, é possível de se afirmar que a carga imposta pelos protocolos é de mesma magnitude. O TCar apresenta-se como uma boa alternativa para avaliar a aptidão aeróbia de esportes intermitentes.

Palavras-chave: Pico de Velocidade; Freqüência Cardíaca; Avaliação Aeróbia; teste

ABSTRACT

The athlete’s physical performance evaluations suffer direct specificity influence, recommending that the test should prime for the greatest ecological validity possible. The objective of this study was to verify whether the response of the maximal

and sub-maximal variables derived from the different protocols, TCar (intermittent) and TVam (continuous), are protocol-dependents or not. 18 active individuals participated

in the study, all of them males (age 21,9 ± 2, weight 76,5 ± 8,6, height 178,0 ± 8.1 and

fat % 11,2 ± 5,4) that did not practice sports in a competitive way. The study was carried through in two sessions with at least seven and a maximum fifteen days of interval. In the results of maximum HR (heart rate), SP (speed peak), average HR,

predicted maximum HR and HR corresponding to the sub-maximal speeds (9, 12 and 15 km/h), it could be evidenced that all were very similar, for the maximum effort variables

as well as the sub-maximal variables obtained in both the TCar and TVam protocols.

The only exception was made for the DT (duration time) of each test. Concluding, the

results do not reiterate the initial hypothesis proposed by this study. In accordance to the great similarity found in the tests, it is possible to affirm that the load imposed by both protocols represents the same magnitude. The TCar presents itself as a good alternative to evaluate intermittent sports aerobic endurance.

Key-words: Speed Peak; Heart Rate; Aerobic evaluation; Test.

1 Graduando do Curso de Educação Física do Centro de Ciências da Saúde e do Esporte

– CEFID / UDESC

2 Professor Ms. do Curso de Educação Física do Centro de Ciências da Saúde e do

Esporte

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos o desenvolvimento de técnicas e métodos capazes de

determinar a performance durante o exercício de alta intensidade possibilitaram a

grande expansão nas investigações das respostas fisiológicas durante o exercícios

intenso (1) . No processo de avaliação aeróbia são utilizadas variáveis como o VO 2 máx,

limiares de transição fisiológica e velocidade máxima aeróbia entre outras, obtidas com

protocolos de testes em laboratório ou campo.

Atualmente, tem-se conhecimento que alguns dos parâmetros fisiológicos

identificados nas avaliações de desempenho físico de atletas, sofrem influência direta da

especificidade do padrão motor envolvido, recomendando que a escolha do teste deva

primar pela maior validade ecológica possível.

Com esse propósito, testes alternativos com protocolos de campo utilizando a

corrida foram desenvolvidos. Dentre eles, destacam-se os testes progressivos de

natureza contínua: o Shuttle run test multi-estágios de 20m realizado numa quadra –

TLe - LEGÉR et. al. (1984) (2) e o teste similar ao TLe, porém aplicado numa pista

denominado Vameval – TVam (CAZORLA, 1990) e àqueles de natureza intermitente,

como o Yo-Yo intermittent endurance test e o Yo-Yo intermittent recovery test (3) . Mais

recentemente, foi apresentado um teste progressivo de corrida intermitent (4) . Segundo os

autores, neste teste existe a possibilidade de identificação de variáveis indicadoras de

potência aeróbia (pico de velocidade) e capacidade aeróbia (limiar de FC de Conconi),

que podem ser utilizadas para a discriminação da aptidão aeróbia e prescrição de treinamento. Dada a importância dessas variáveis no contexto da avaliação de esportes intermitentes, alguns estudos já foram realizados comparando as variáveis obtidas em testes de natureza contínua vs. natureza intermitente, com objetivo de investigar a influência do princípio da especificidade inerente aos diferentes protocolos,LIMA et. al. (1996) (5) , DENADAI et. al. (2002) (1) e CARMINATTI et. al. (2006) (4) Todos concluíram que os resultados tanto das variáveis máximas como submáximas foram protocolo- dependentes. Cazorla (1990) ao comparar o TLe (realizado numa quadra poliesportiva em sistema de ida-e-volta na distância de 20m) com o TVam (realizado numa pista de atletismo de forma contínua), constatou uma diferença significativa no pico de velocidade (PV), apresentando valores maiores no TVam. Essas diferenças foram pequenas (0,5 a 1,5 km/h) quando o PV foi baixo, mas fazendo extrapolações para PV mais altos (≥ 20 km/h), as diferenças seriam superiores a 4 km/h em média. A partir de estudo similar realizado por Carminatti et. al. (2006), que comparou o PV no TCar e TLe, foi encontrado valores maiores no TCar (2,4 km/h em média). Sendo assim, Carminatti (2006 – dados não publicados) experimentou fazer uma comparação entre os dados medidos no TCar e os valores extrapolados para o TVam a partir dos dados do TLe obtidos em seu estudo, utilizando a relação descrita por Cazorla (1990). O autor não encontrou diferença significante entre os valores de PV encontrados no TCar e obtidos a partir do TLe. Em adição, os valores apresentaram uma correlação quase perfeita (r = 0,99). Achados que contrariam os estudos anteriores referente ao

assunto (5 ), (1), (4) .

Ainda que o PV nos testes TCar e TVam não apresentaram diferenças e correlação altamente significante (r=0,99) a partir de extrapolação de resultados (dados hipotéticos), é preciso confirmar se os valores de PV serão de fato similares, bem como, comparar outras variáveis derivadas dos testes, para que seja possível analisar de maneira ampliada, se a aplicação da carga interna imposta pelos diferentes protocolos pode ser considerada de mesma magnitude. Portanto, o objetivo do presente estudo foi analizar se a resposta das variáveis máximas e submáximas derivadas dos diferentes protocolos: TCar (intermitente) e TVam (contínuo) são protocolo-dependentes.

PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS

CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA

Foram avaliados 18 sujeitos ativos do sexo masculino, que não praticavam modalidades esportivas de forma competitiva com idade entre18 e 30 anos. Os mesmos receberam orientações sobre vestuário necessário, datas e horários das avaliações. Nos dias de avaliação, foi solicitado aos sujeitos da amostra que se apresentassem em estado nutricional adequado, com período pós-prandial entre 2,5 e 4,0 horas. Cada participante foi informado sobre os possíveis riscos envolvidos com o experimento e logo após, todos assinaram um termo de consentimento, concordando em participar voluntariamente da pesquisa. Os procedimentos adotados no estudo foram aprovados pelo Comitê de Ética da Universidade do Estado de Santa Catarina para pesquisas envolvendo seres humanos. Todas as avaliações do estudo foram realizadas nas dependências do Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID) da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC.

PROCEDIMENTOS PARA A COLETA DE DADOS

Para a realização do estudo foram realizadas duas sessões de avaliação, intercaladas por um período mínimo de 7 (sete) e de no máximo 15 (quinze) dias. Antes da aplicação do primeiro teste foi realizado a antropometria (massa, estatura e dobras cutâneas do tórax, abdômem e coxa média). Na primeira sessão de teste foi realizada a avaliação antropométrica e em seguida o primeiro teste progressivo: TCar ou TVam, definido por sorteio (aprox. 50% dos sujeitos em cada tipo de teste). Na segunda sessão, foi aplicado o segundo teste:

TCar ou TVam, conforme o sorteio do primeiro teste.

AVALIAÇÃO ANTROPOMETRICA

Na avaliação antropométrica foram utilizados os seguintes equipamentos e protocolos: medida de massa corporal através de uma balança digital marca Toledo® com precisão de 50 gramas; estatura através de um estadiômetro profissional marca Sanny® com escala milimétrica; para medir as dobras cutâneas (tórax, coxa média e abdominal), foi utilizado um adipômetro científico da marca Sanny® com precisão de

0,1 mm e para o cálculo da estimativa de gordura percentual foi utilizada a equação de Jackson e Pollock (1978). Para realizar o TCar, além de fichas para controle do teste, foram utilizados uma caixa de som amplificada, um notebook com o programa chamado BIP-FitnessTest v1.0, com precisão de 0,001 segundos (JARDIM & CARMINATTI, 2003 – não registrado), capaz de gerar o protocolo de teste - TCar ,CARMINATTI, LIMA-SILVA, DE-OLIVEIRA, (2004) (4) , uma trena de 30 metros, seis cones de PVC de 50 cm de altura e duas fitas brancas com 10 metros de comprimento (sinalizar as linhas de referência e distâncias a percorrer em cada estágio). A freqüência cardíaca foi registrada através de monitores de FC da marca Polar Electro® - modelo S610, armazenadas em intervalos de 5 segundos.

TRATAMENTO ESTATISTICO

Foram

utilizados

testes

paramétricos:

estatística

descritiva

(média,

desvio-

padrão, valores mínimo e máximo, intervalo de confiança - 95%) Para verificar o grau

de associação entre as variáveis, foi utilizado o testes- t student e para verificar o grau

de associação entre as variáveis, será utilizada a correlação produto momento de

Pearson. Em todos os testes, será adotado o nível de significância de 5% (programa

SPSS® for windows v. 13.0)

TESTES PROGRESSIVOS

O protocolo TVam é um teste continuo progressivo máximo e é realizado em uma pista de atletismo. São colocados cones ao redor da pista intercalados em 20 metros. O teste inicia ao lado de um cone com velocidade 8,5 km/h com um incremento de 0,5 km/h em aproximadamente a cada 1 minuto. O ritmo é controlado por sinais sonoros. A cada sinal o participante deve estar ao lado do cone subseqüente. Para critério de encerramento do teste seria por abandono voluntário ou quando tiver 2 atrasos consecutivos aos sinais sonoros maiores que 2 metros O protocolo do TCar é do tipo escalonado, com multi-estágios de 90 segundos de duração (5 vezes 12 segundos de corrida em sistema “vai-e-vem”; intercalados por

pausas de 6 segundos de caminhada). O teste inicia com 9,0 km·h -1 (15m entre os cones) com incrementos de 0,6 km·h -1 a cada estágio, mediante aumento de 1m na distância entre os cones. O ritmo de corrida será ditado por sinais sonoros emitidos com intervalos fixos de seis segundos.

1 m 1 m 1 m 1 m 1 m 1 m 1 m 2,5
1 m
1 m
1 m
1 m
1 m
1 m
1 m
2,5 m
15
m (9 km.h -1 )
(corrida)
0,6 km.h -1 a cada 90s
(pausa)

Figura 1 - Visualização do esquema do teste intermitente TCar.

Em ambos os testes, cada sujeito foi orientado a acompanhar o ritmo do protocolo até a exaustão voluntária, sendo considerado um teste máximo sempre que o sujeito atingiu pelo menos 90% da FCmáx predita (220-idade). No TCar, foi anotada FC final de cada estágio ao longo do protocolo, até a interrupção do teste, considerando-se como FCmáx , o maior valor de FC registrado no teste. A maior velocidade atingida foi chamada de pico de velocidade (PV). Nos casos em que o sujeito interrompeu o teste antes de finalizar o estágio, o PV (km.h -1 ) foi corrigido a partir da seguinte equação:

PVcor = v + [(nv/10)·0,6], onde: v é a velocidade do último estágio completo em km.h - 1 , o nv é o número de voltas percorridas no estágio incompleto, 10 é o número total de voltas de um estágio (excluindo-se as 4 voltas computadas como pausas) e 0,6 km·h -1 o incremento da velocidade (adaptado de Kuipers et al., 1985). No TVam, a FC foi registrada em intervalos de 5s nos monitores de FC e resgatada posteriormente a FC correspondente a cada velocidade do protocolo. A maior velocidade atingida foi chamada de pico de velocidade (PV). Nos casos em que o sujeito interrompeu o teste antes de finalizar o estágio, o PV (km.h -1 ) foi corrigido a partir da seguinte equação: PVcor = v + [(nv/ve)·0,5], onde: “v” é a velocidade do último estágio completo em km.h -1 , o “nv” é o número de voltas percorridas no estágio incompleto, “ve” é o número total de voltas de um estágio e 0,5 km·h -1 o incremento da velocidade (adaptado de Kuipers et al., 1985).

RESULTADOS

Em relação as condições ambientais, temperatura ( o C) e umidade relatuva do ar

– URA - (%), não houve diferenças sigificantes. Sendo no TCar 25,5 ± 3,1 o C (20 – 29)

e no TVam 25,4 ± 2,5 o C (22 – 29), TCar 54,9 ± 12,7 % (39 – 75) e no TVam 50,1 ±

18,2 % (32 – 84), para dados referente a temperatura e URA, respectivamente. Como

pode-se observar, a temperatura apesar de ter suas medias estabelecidas, não grande

houve grandes variações nos testes. Já na URA houve uma diferença considerável em

relação a media dos testes.

As condições previstas na metodologia a respeito de local, data e horários foram

respeitadas.

Tabela 1 – Estatística descritiva (média ± dp) das variáveis de caracterização dos sujeitos avaliados:

Variáveis (n=18)

média ± dp

Idade

(anos)

21,9 ± 2

Massa

(kg)

76,5 ± 8,6

Estatura

(cm)

178,0 ± 8,1

Gordura

(%)

11,2 ± 5,4

Tabela 2 – Estatística descritiva e comparação dos valores médios e desvio-padrão das variáveis: pico de velocidade corrigido (PVcor), freqüência cardíaca máxima (FCmáx), porcentagem de freqüência cardíaca máxima prevista (%FCmáx), freqüência cardíaca média (FCméd, tempo de duração do teste (TDT) valores das correlações de Pearson (r) e FC nas velocidades 9, 12 e 15 km/h obtidos nos diferentes protocolos:

Variáveis

média ± dp

(n=18)

média ± dp (TCar)

(TVam)

r

PVcor

(km/h)

15,6 ± 1,2

15,5 ± 1,3

0,98*

FCmáx

(bpm)

195 ± 11

194 ± 14

0,93*

%FCmáx

(%)

98,4 ± 6,0

98,0 ± 7,3

0,94*

FCméd

(bmp)

167 ± 13

167 ± 15

0,96*

TDT

(seg)

1067 ± 175

947 ± 164*

0,99*

FCv-9(km/h) n=11

128 ± 12

131 ± 11

0,82*

FCv-12(km/h) n=11

159 ± 10

161 ± 11

0,83*

FCv-15(km/h) n=11

185 ± 09

181 ± 11

0,80*

p < 0,05

*p < 0,01 As FC nas velocidades 9 12 e 15 km/h foram comparadas com 11 sujeitos, pois apenas esses conseguiram atingir a velocidade de 15km/h.

18,0 17,0 16,0 15,0 14,0 13,0 12,0 1 2 3 4 5 6 7 8
18,0
17,0
16,0
15,0
14,0
13,0
12,0
1 2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
velocidade km/h

sujeitos

TCAR TVAM
TCAR
TVAM

Figura 1 - Gráfico ilustrativo da comparação intra-pessoal dos valores de PVcor obtidos no TCAR e TVAM.

230 220 210 200 TCAR 190 TVAM 180 170 160 1 2 3 4 5
230
220
210
200
TCAR
190
TVAM
180
170
160
1 2
3
4
5
6
7
8
10 11 12 13 14 15 16 17 18
sujeitos
9
FC

Figura 2 - Gráfico ilustrativo da comparação intra-pessoal dos valores de FCmáx obtido no TCAR e TVAM.

DISCUSSÃO

Analisando os resultados, pode-se constatar que todos foram similares, tanto para as variáveis de esforço máximo quanto para as variáveis submáximas obtidas em ambos os protocolos TCar e TVam. Pode-se observar, no entanto, que a única exceção ficou para o tempo de duração de cada teste, mesmo apresentando uma correlação quase perfeita (r= 0,99), uma diferença significante foi encontrada, sendo 120 segundos superior para o TCar (12,7% em média). Alguma diferença já era esperada, uma vez que o TCar é um protocolo intermitente e apresenta uma relação de esforço:pausa de 2:1 (12 segundos de corrida intercalados por 6 segundos de pausa caminhando). No entanto, essa diferença pode ser considerada pequena, se considerarmos que 1/3 do tempo de duração do teste é gasto com as pausas. Tentado entender os fatores determinantes desse achado, pode-se especular que sejam as particularidades do protocolo TCar. O teste é realizado a partir de corridas num sistema de ida-e-volta em distância variável, com acelerações, desacelerações e mudanças de direção constantes, gerando um desgaste físico visivelmente superior àquele observado no TVam, que é desenvolvido numa corrida contínua em velocidade constante para cada estágio do protocolo. O estudo de BALSON et. al. (1992) (6) , confirma a importância da recuperação para sustentar a performance durante sprints repetidos. Em parte é o que acontece no TCAR, onde o avaliado necessita empreender uma aceleração substancial nas velocidades mais altas do protocolo para percorrer a distância do estágio no tempo determinado. Assim, as pausas parecem proporcionar uma recuperação parcial capaz de compensar o desgaste extra inerente ao protocolo do TCar. No entanto, trata-se de um pressuposto que precisa ser estudado, à luz da etiologia da fadiga proveniente de esforços intensos intermitentes de curta duração. Retomando a discussão da similaridade encontrada entre dois testes bastante distintos em vários aspectos, os achados do presente estudo sem dúvida, levantam muitos questionamentos, seja pela escassez de pesquisas do gênero, seja porque os resultados se contrapõem aos estudos anteriores, LIMA et. al., (1996) (5) , DENADAI et. al. (2002) (1) , CARMINATTI et. al. (2006) (4) , onde os autores concluíram que os resultados tanto das variáveis máximas como submáximas tiveram um comportamento considerado protocolo-dependentes.

LIMA et. al. (1996) (5) , compararam a velocidade do LAn com concentrações

fixas de lactato (CFL) = 3,5 mmol·l -1 (V 3,5 ) em teste incremental contínuo sem mudança

de direção (CON) vs. um teste shuttle run de 20 m – TSR (modificado de LÉGER e

LAMBERT, (1982). A velocidade máxima e a V 3,5 no CON foram significantemente maiores (14,7 e 10,9 km·h -1 vs. 12,5 e 9,5 km·h -1 no TSR, respectivamente), com valores similares para FC e [La] no esforço máximo, bem como FC na V 3,5 . No estudo realizado

por Denadai et. al. (2002) (1) , foi comparado V 3,5 no TSR com V 3,5 no

ergométrica e, apesar das correlações altas (r=0,82 para velocidade e r=0,65 para FC; p<0,05), houve uma diferença significante (14,4 ± 0,8 no CON vs. 11,8 ± 0,5 km·h -1 no TSR), bem como, na velocidade máxima dos testes (16,4 ± 0,8 no CON vs. 12,7 ± 0,4 km·h -1 no TSR). Em outro experimento do mesmo estudo, houve diferenças significantes entre a CFL = 4 mmol·l -1 (V 4 ) interpolada a partir de três repetições de 1200 m em teste contínuo com V 4 interpolada a partir de três velocidades no TSR de 20

m (14,1 ± 0,5 - CON vs. 12,1 ± 0,9 km·h -1 - TSR; r = 0,80; p<0,05). Descarta-se, portanto, o emprego de velocidades de V 3,5 e V 4 para a prescrição da intensidade do treinamento aeróbio de corrida sem mudança de direção (pista, campo ou esteira ergométrica), pois as velocidades ficarão subestimadas (1) . Carminatti et. al. (2006) (4) , realizaram um estudo comparativo entre o TCar (intermitente e distância variável) em relação ao TLe (contínuo e distância fixa), ambos aplicados em sistema de ida-e-volta. Os achados demonstraram diferença significante em relação ao PV (em média 2,4 km/h), velocidade no ponto de deflexão da FC (em média 1,6 km/h) pelo método visual e (em média 1,9 km/h) pelo método matemático, maiores no TCAR, respectivamente. Porém, nesse mesmo estudo, a FC no ponto de deflexão identificada por método visual e matemático não se mostrou protocolo- dependente, sendo encontrada em cargas internas associadas e similares nos diferentes testes de campo. A análise da FC representa uma melhor indicação do consumo de oxigênio durante atividade intermitente do que a análise do tempo em movimento, LOTHIAN & FARRALLY (1995) (7) . Em relação às FCmáx obtidas no TCar (195 bpm) e no TVam (194 bpm) não ouve diferença (p>0,05) e a correlação foi altamente significante (r=0,93), com valores percentuais da FCmáx prevista (220-idade) próximos de 100%. Sendo assim, os valores de FCmáx absolutas e relativas refletem um alto grau de exigência cardíaca em ambos os testes.

CON na esteira

Em estudo realizado por FARDY & HELLERSTEIN (1978) (8) comparando testes progressivos de multi-estágios contínuo vs. intermitente, obteve uma FC menor no primeiro e segundo minutos iniciais e menor também durante todos os três minutos em intensidades moderadas e altas, bem como, durante toda a recuperação do protocolo intermitente, sugerindo uma ligeira vantagem no teste intermitente comparado com o contínuo, para avaliar a função cardiovascular e prescrição de exercício. De acordo com EDWARDS et. al. (1973) (9) a FC foi maior para exercícios intermitentes. Em estudo realizado por Dursty, Reilly & Camble (2000) (10) , os resultados indicam que durante o exercício intermitente o fornecimento de energia pelo sistema anaeróbio é mais importante que no exercício contínuo. Segundo Carminatti, Ribeiro, Lima-Silva e De-Oliveira (2004) (11) , outro ponto a ser investido em futuros pesquisas, diz respeito aos fatores determinantes da velocidade máxima aeróbia (VMA = PV) em testes progressivos intermitentes, pois foi verificado que nesses testes, o PV pode estar mais na dependência da aptidão anaeróbia do que nos testes progressivos de natureza contínua. Para analisar o comportamento de variáveis submáximas no presente estudo, optou-se pela comparação de 3 velocidades comuns aos dois testes (TCar e TVam), obtidas em momentos distintos do protocolo: fase inicial (9 km/h), fase intermediária (12 km/h) e fase submáxima ou máxima (15 km/h). Pode-se constatar que não houve diferenças na resposta da FC nas 3 velocidades comparadas (p>0,05), e que todas as correlações foram altas e significantes. Esse é mais um achado que reforça a tese de rejeição da hipótese do estudo, que tanto as variáveis máximas como as submáximas seriam protocolo-dependentes.

CONCLUSÕES

Como conclusão, os resultados deste estudo sugerem a rejeição da hipótese inicial de que as variáveis máximas e submáximas derivadas dos protocolos, TCar (intermitente) e TVam (contínuo), teriam comportamento considerado protocolo- dependentes. Em adição, à análise das respostas fisiológicas encontradas nos testes demonstraram uma similaridade tão contundente, que é possível afirmar que a carga

interna imposta pelos diferentes protocolos pode ser considerada de mesma magnitude, gerando repercussões relevantes para o contexto de avaliação aeróbia em campo. Cabe destacar, que esses resultados se contrapõem às conclusões reportadas em estudos anteriores relativas ao comportamento de variáveis em testes contínuos vs. intermitentes, gerando repercussões relevantes para o contexto de avaliação aeróbia em campo envolvendo corrida e, merecedoras de aprofundamento em futuras investigações. Em conjunto, esses achados corroboram o estudo realizado por Carminatti (Dissertação de Mestrado, 2006), empregando o TCar em atletas de Futsal, que concluiu que as respostas fisiológicas relativas a máxima fase estável de lactato obtidas neste tipo de teste (absolutas e relativas) são similares ao modelo vigente para esforços de natureza contínua. Dada as características desse protocolo, pode-se especular que o TCar reúne uma especificidade compatível com o padrão motor envolvido nos esportes que repetem corridas intensas de curta duração durante treinos e jogos. Sendo assim, apresenta-se como uma boa alternativa para avaliar a aptidão aeróbia de esportes intermitentes.

REFERÊNCICAS

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