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Dialogo Das Fontes

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UNIDADE E COERÊNCIA: O PROBLEMA DAS ANTINOMIAS E SUA SOLUÇÃO PELO DIÁLOGO DAS FONTES

Fabio Queiroz Pereira
Doutorando em Direito Civil pela UFMG Mestre em Direito Civil pela Universidade de Coimbra - Portugal Professor de Direito Civil na Faculdade de Direito Milton Campos e no IBMEC

EDITAL

5.4. Teoria Geral do Direito e da Política 6. Unidade e coerência: o problema das antinomias, sua solução pelo diálogo das fontes.

BIBLIOGRAFIA DO EDITAL

MARQUES, Cláudia Lima (Org.). Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012.

ORDENAMENTO JURÍDICO  Um ordenamento é um conjunto de normas. o ordenamento jurídico brasileiro é o conjunto de todas as suas normas.  . Desse modo.

direta ou indiretamente.ORDENAMENTO JURÍDICO E UNIDADE  Só se pode falar de unidade do ordenamento jurídico se se pressupõe como base do ordenamento uma norma fundamental com a qual se possam. O fato de essa norma não ser expressa não significa que não exista.  . relacionar todas as normas do ordenamento.

59) A Constituição é legítima legitimamente estabelecida. decisões judiciárias. p.” (BOBBIO. que dá origem às leis ordinárias. porque foi  .. por sua vez. dão origem aos regulamentos. etc. que. impõe a todos aqueles aos quais se referem as normas constitucionais o dever de obedecê-las. “A norma fundamental atribui aos órgãos constitucionais o poder de fixar normas válidas. 1993..] Essa norma única não pode ser senão aquela que impõe obedecer ao poder originário do qual deriva a Constituição. [.

mas também num relacionamento de coerência entre si.   .ORDENAMENTO JURÍDICO COMO SISTEMA  Sistema: uma totalidade ordenada. Para se falar de ordem é necessário que os entes que a constituem não estejam somente em relacionamento com o todo. Um conjunto de entes entre os quais existe uma certa ordem.

e não normativos (definições. preâmbulos. nele se incluem elementos normativos (as normas) que são os principais. sua estrutura revela regras de vários tipos. etc. critérios classificatórios. “O conceito de ordenamento é operacionalmente importante para a dogmática.). a dogmática tende a vê-lo como um conjunto sistemático: quem fala em ordenamento pensa logo em sistema”. Corpus Iuris Civilis: não era concebido como sistema (compilação sem preocupação sistemática – sequer era conhecida a  . no direito contemporâneo.

capta as normas dentro de um processo de contínua transformação.SISTEMA DINÂMICO  A expressão sistema dinâmico provém de Kelsen e.   . são substituídas por outras ou perdem sua atualidade em decorrência de alterações nas situações normadas. A dogmática capta o ordenamento de forma sistemática para atender às exigências da decidibilidade de conflitos. subsistem no tempo. em oposição ao estático. Normas são promulgadas. atuam.

178)  . (FERRAZ JÚNIOR. Mas. posto que sistema implica a noção de limite. o que entra. é preciso integrá-la no conjunto. para isso. “Este conjunto tem de apresentar contornos razoavelmente precisos: a ideia de sistema permite traçar esses contornos. se a prescrição é válida. É preciso dizer se estamos ou não diante de uma norma jurídica. 2003. o que sai e o que permanece fora”. esta linha diferencial abstrata que nos autoriza a identificar o que está dentro. p.

uma das duas ou ambas devem ser eliminadas. 1995. sistema equivale à validade do princípio que exclui a incompatibilidade das normas. (BOBBIO. 80) . que implica a exclusão da incompatibilidade”.ORDENAMENTO SISTEMÁTICO  “Diz-se que um ordenamento jurídico constitui um sistema porque não podem coexistir nele normas incompatíveis. e esse relacionamento é o relacionamento de compatibilidade. Aqui. quer dizer que as normas de um ordenamento têm um certo relacionamento entre si. Se num ordenamento vêm a existir normas incompatíveis. p. Se isso é verdade.

 Nova noção de sistema aberto e móvel. ela não dá os critérios necessários para a sua concretização. podendo estes se determinar com a consideração do caso  . mediante o uso de cláusula geral. bem como em sua capacidade de responder de modo eficaz às situações de fato mediante atividade de interpretação e aplicação das leis. ou seja. autossuficiente e fundado na crença da coerência interna das normas que o compõem.SISTEMA FECHADO E SISTEMA ABERTO O sistema de direito privado compunha-se como sistema fechado. isto é. que carece de preenchimento com valorações.

. e sua ingerência sobre as relações entre particulares exigiu a formação de uma lógica rigorosa que pressupõe a unidade do sistema normativo e a não contradição entre normas pertencentes ao mesmo ordenamento”.MODERNIDADE  “A neutralidade judicial e sua vinculação estrita ao texto da lei são concebidas como limitação do poder do Estado.

 . critérios de identificação e preenchimento de lacunas na lei. contrariedade entre normas do mesmo sistema jurídico. o estabelecimento de critérios para a solução de eventuais antinomias.DUAS QUESTÕES TORNAM-SE CENTRAIS  a) de um lado. b) de outro.

Aurélio Holanda. Oposição recíproca. Contradição entre duas leis ou princípios.ANTINOMIA 1. Buarque de da Língua .  3. Conflito entre duas afirmações demonstradas ou refutadas.   Fonte: FERREIRA. Novo Dicionário Portuguesa.  2.

 B) as duas normas devem ter o mesmo âmbito de validade: temporal. ou uma obriga e a outra permite. 1993. p. 86) Condições:  A) as duas normas devem pertencer ao mesmo ordenamento. das quais uma obriga e a outra proíbe. pessoal e material.  .ANTINOMIA JURÍDICA  “Definimos antinomia jurídica como aquela situação na qual são colocadas em existência duas normas. ou uma proíbe e a outra permite o mesmo comportamento”. (BOBBIO. espacial.

CONSISTÊNCIA DO SISTEMA  Consistência: inocorrência ou a extirpação de antinomias. . isto é. da presença simultânea de normas válidas que se excluem mutuamente.

. que determinado conjunto de normas jurídicas siga certa ordem e possua caráter unitário e íntegro. fazendo com que incompatibilidades óbvias ou difusas confundam os sujeitos e operadores do Direito. É esperado. segundo seu reflexo no Direito. é necessário aplicar soluções provindas da terapêutica jurídica para resolver estes conflitos e conformá-los ao restante do ordenamento. Por isso. tipicamente. O fenômeno da antinomia possui um caráter inerentemente danoso ao sistema jurídico. dando abertura excessiva para múltiplas interpretações de uma mesma situação real. fazendo com que esse perca parte de seu componente lógico e reduzindo sua credibilidade como um todo.

.SOLUÇÃO TRADICIONAL PARA AS ANTINOMIAS  A regra tradicional para a solução da antinomias é trazida pela Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro.

657. § 3º. A lei nova. não revoga nem modifica a lei anterior. Não se destinando à vigência temporária. Salvo disposição em contrário. § 2º. quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior.LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO  Decreto-Lei nº 4. A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare.     . a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue. que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes. § 1º. de 4 de setembro de 1942 Art. 2º. a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência.

SILOGISMO DE SOLUÇÃO DAS ANTINOMIAS  Tese: Lei Antiga Antítese: Lei Nova Síntese: Revogação   .

prevalece a hierarquicamente superior (que tenha maior força de seu poder normativo) – lex superior derogat inferiori. . c) de especialidade: entre duas normas incompatíveis. prevalece a segunda – lex specialis derogat generali. prevalece a norma posterior – lex posterior derogat priori.CRITÉRIOS TRADICIONAIS PARA RESOLVER OS CONFLITOS DE LEI NO TEMPO a) cronológico: entre duas normas incompatíveis. b) hierárquico: entre duas normas incompatíveis. uma geral e uma especial.

com expresso objetivo de assegurar sua validade e autoridade frente ao caráter dinâmico das relações da vida sobre as quais deve incidir a norma. perdem atualidade em vista da crescente complexidade da sociedade contemporânea e da afirmação dos direitos fundamentais e da dignidade da pessoa humana como valores superiores do ordenamento jurídico”.INSUFICIÊNCIA DOS CRITÉRIOS  “Ocorre que essas soluções ofertadas pela ciência do direito. p. 71) . 2012. (MIRAGEM.

72) . 2012. mas que se estabeleça a partir de uma interpretação da norma jurídica que não se oriente apenas pelo critério de compatibilidade/não contrariedade entre normas. (MIRAGEM. “Frente à complexidade dos fatos sociais e das fontes normativas que os regulam total ou parcialmente – porém simultaneamente – é que se exige método de solução de antinomias não afetas ao paradigma de mera validade formal do direito. p. mas pelo caráter valorativo e promocional do direito”.

mediante derrogação ou ab-rogação da norma incompatível revela-se insuficiente para responder ao desafio de coordenação e do complexo de normas existentes nos sistemas jurídicos contemporâneos. Assim. a técnica tradicional para a solução de antinomias. . que importa em geral em um resultado de “tudo ou nada”. ou seja de revogação tácita.

RESPOSTA À INSUFICIÊNCIA: O DIÁLOGO DAS FONTES  Abdica da solução de incompatibilidade absoluta entre normas em benefício de uma coordenação e aplicação simultânea.  . a partir das normas e valores constitucionais que informam a interpretação e aplicação do direito infraconstitucional. a uma mesma situação jurídica. Esse fundamento lógico sustenta-se em uma hierarquia axiológico-normativa. informando o fundamento lógico de validade de uma dada norma em relação a outra.

Fuga através da descodificação em microssistemas.A ERA DA DESCODIFICAÇÃO  Natalino Irti Antecedente ao diálogo das fontes.    . Código civil apenas com função residual.

)  . e em uma variedade grande de leis especiais com diferentes campos de aplicação (Estatuto do Idoso. Lei do consórcio. mas em microcodificações. etc. como exemplifica bem o direito do consumidor no Brasil. Fenômeno da descentralização da produção normativa: as normas positivas não estão mais concentradas em códigos únicos ou macrocódigos (como o Código Civil de 2002). apesar da multiplicação das leis especiais. Estatuto da Criança e do Adolescente. Ausência de redução da racionalidade sistêmica do direito privado.

Recueil des cours de l’Academia de Droit International de la Haye. Identité culturelle et intégration: le droit internationale privé postmoderne.TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES Erik Jayme  Professor na Universidade de Heidelberg.  JAYME. Erik.  . 1995.  Direito Internacional Privado. Haye: Martinus Nijhoff.

 Professora da UFRGS  .TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES NO BRASIL Repercussão da Teoria do Diálogo das Fontes por meio dos trabalhos de Cláudia Lima Marques.  Desenvolve o método do diálogo das fontes tendo por objetivo a interpretação e solução de eventuais antinomias entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil.

 “Trata-se de um fenômeno cultural que supera a modernidade em seus paradigmas e conceitos. desconstruindo as verdades modernas.  . sem que esta desconstrução se traduza em assimilação e conhecimento das mesmas”. sobretudo em face da possibilidade de acesso a um número imenso de informações. de crise. procura Erik Jayme demonstrar o caráter de mudança.PÓS-MODERNIDADE Erik Jayme: filósofo da Pós-Modernidade  Com a utilização da expressão sociofilosófica “pós-moderno”. de variabilidade de nosso tempo e de nosso direito.

leva-nos a ser mais sensíveis ao diferente. somado ao senso de tolerância entre as pessoas. visualizando-se a pluralidade de estilos de vida como um valor jurídico que. Pluralismo: a) De fontes legislativas b) Sujeitos a proteger c) Sujeitos ativos  .PLURALISMO  É característica da pós-modernidade a atenção à identidade cultural do indivíduo e dos povos.

sim. dialogam ambas as fontes.  . e. hoje. pela luz dos direitos humanos”. desta nova ordem de fontes. em que uma não mais revoga a outra (que seria um monólogo.TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES  Diálogos: di-a-logos – “Duas leis a seguir e a coordenar um só encontro”. em uma aplicação conjunta e harmoniosa guiada pelos valores constitucionais e. “Uma coerência necessariamente a restaurar os valores deste sistema. pois só uma lei fala). em especial.

 . ao diálogo das fontes. Coordenação dessas fontes: retirada do sistema ou monólogo de uma norma só à convivência das normas. Pluralismo pós-moderno de fontes legislativas e necessidade de coordenação entre as leis no mesmo ordenamento jurídico – sistema eficiente e justo.

DIÁLOGOS  Influências recíprocas. Opção voluntária prevalente. das partes pela fonte    Solução mais favorável ao mais fraco. Aplicação conjunta das duas normas ao mesmo caso: complementarmente ou subsidiariamente. .

 . DIREITOS HUMANOS E DIREITOS FUNDAMENTAIS  Direito: inserção da pessoa humana em seu centro. Diálogo das normas: para alcançar a sua ratio e a finalidade narrada ou comunicada em ambas.VALORES CONSTITUCIONAIS. sob a luz da Constituição de seu sistema de valores e dos direitos humanos em geral.

prudente e justa.  . o núcleo de proteção que reveste e caracteriza o bem jurídico em conflito. sempre a partir das regras e princípios Constitucionais. o intérprete e aplicador do Direito deve perscrutar. Para que esta solução jurídica se revele razoável. sempre. Direitos Fundamentais e os valores constitucionais iluminam a aplicação simultânea e coerente de várias fontes.

ao aplicar uma regra prevista no Código Civil em uma relação de Consumo. porém se manifesta de modo mais avançado. hierárquico e especial). aproxima-se dos métodos sistemático e teleológico da Hermenêutica Jurídica. como por exemplo. permite a melhor solução jurídica  . na medida em que pode contrariálos.  Em suma.DIÁLOGO DAS FONTES E CRITÉRIOS TRADICIONAIS DE SOLUÇÃO DE ANTINOMIAS A Teoria do Diálogo das Fontes não se confunde com os critérios tradicionais de solução de conflitos (temporal. sem tantos freios literais e mais voltada à concretização da essência material do bem jurídico respectivo. A rigor.

de igualdade. Realizar os valores ideais da Constituição. Evitar a revogação.OBJETIVOS  Restaurar a coerência do sistema. Reduzir a sua complexidade. liberdade e solidariedade na sociedade.    .

resta a revogação tácita que exige para a sua determinação um exame atento do intérprete. significa sua saída definitiva do sistema do direito.  A revogação expressa ocorre somente em casos específicos e claros e está cada vez mais rara. por incompatível com as novas normas impostas pelo legislador.  Maior atuação do intérprete nas hipóteses em que a solução do conflito não advém do  . a vigência de uma norma.  Nos demais casos.REVOGAÇÃO Revogação significa tirar a força obrigatória.

no que couberem.   .NOVA VISÃO DOS CRITÉRIOS TRADICIONAIS  Hierarquia: coerência dada pelos valores constitucionais e a prevalência dos direitos humanos. primeiro a mais valorativa. com tempo e ordem nesta aplicação. Especialidade: ideia de complementação ou aplicação subsidiária das normas especiais. Anterioridade: necessidade de adaptar o sistema cada vez que uma nova lei nele é inserida pelo legislador. depois. as outras. entre elas.

preservando a natureza especial e de fundamento constitucional explícito da legislação de proteção do consumidor.POSSIBILIDADES DE DIÁLOGOS  Cláudia Lima Marques desenvolve o método sustentando três espécies de diálogos possíveis entre as normas do Código Civil de 2002 e do Código Civil. .

Aqui. Uma lei pode servir de base conceitual para outras. especialmente se uma lei é geral e a outra especial. lembrando os microssistemas de Natalino Irti. . a estes a regulamentação dos respectivos conceitos. Preserva-se o âmbito de aplicação de ambas as leis. ter-se-ia que os conceitos e institutos da lei geral devem ser aplicados também aos microssistemas. evitando a sobreposição.DIÁLOGO SISTEMÁTICO DE COERÊNCIA    Fala-se em diálogo sistemático de coerência quando se está diante de uma lei geral e uma lei especial. deixando-se diferentemente.

 Uma lei pode complementar a aplicação de outra. quanto seus princípios e cláusulas gerais podem encontrar uso subsidiário ou complementar.  Sustenta a possibilidade de aplicação de normas do Código Civil às relações de consumo. tanto suas normas.  .DIÁLOGO SISTEMÁTICO DE COMPLEMENTARIDADE OU SUBSIDIARIEDADE O chamado diálogo sistemático de complementaridade e subsidiariedade indica a aplicação complementar ou subsidiária de normas e de princípios no que for necessário. a depender do seu campo de aplicação.

etc.  .DIÁLOGO DE COORDENAÇÃO E ADAPTAÇÃO SISTEMÁTICAS Também chamado de diálogo das influências recíprocas sistemáticas.  Ex. É verificável por exemplo no caso de eventual redefinição do campo de aplicação de uma lei. abuso do direito. A jurisprudência produzida a partir da aplicação das normas de proteção do consumidor serve igualmente à interpretação e aplicação das normas civis.: princípio da boa fé objetiva. como na hipótese de transposição das conquistas da jurisprudência alcançadas de uma lei para a outra.

CRIANÇAS E CONSUMIDORES HIPERVULNERÁVEIS  Igualdade material: chega-se à igualdade ao se levar em consideração as diferenças. por sua natureza. Vulnerabilidade: significa o estado daquele que é vulnerável. a sofrer ataques.  . No Direito.DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS IDOSOS. daquele que está suscetível. vulnerabilidade é o princípio segundo o qual o sistema jurídico brasileiro reconhece a qualidade do agente mais fraco na relação de consumo.

saúde e segurança. a melhoria da sua qualidade de vida. atendidos os seguintes princípios:  I . o respeito à sua dignidade.CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR Art.  .reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo. a proteção de seus interesses econômicos. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores. bem como a transparência e harmonia das relações de consumo.

índios. doentes. a levar a uma verdadeira eficácia horizontal dos direitos fundamentais. pessoas com necessidades especiais. especial ou agravada. adolescentes.LEIS ESPECIAIS  Leis especiais que regulam situações de vulnerabilidade potencializada. Exemplos: idosos. etc. humanizando o direito privado. crianças. Neste caso. trata-se de um diálogo entre valores constitucionais de proteção de sujeitos vulneráveis nas suas relações privadas.   .

a hipervulnerabilidade seria a situação social fática e objetiva de agravamento da vulnerabilidade da pessoa física consumidora. 43) . por circunstâncias pessoais aparentes ou conhecidas do fornecedor. (MARQUES. “Em minha opinião. como sua idade reduzida ou sua idade alentada ou sua situação de doente”. p. 2012.

48) . por exemplo. 2012. “Os hipervulneráveis mencionados nas normas constitucionais se beneficiam do mandamento de proteção constitucional (com efeitos e força normativa no direito privado). enquanto. os doentes e analfabetos são hipervulneráveis cuja proteção especial dependerá da atuação ativa do Judiciário e das especificidades do caso concreto”. (MARQUES. p.

ou se transformará em analogia in pejus. por respeito aos valores constitucionais e direitos humanos que lhe servem de base. não deve ser usado para retirar direitos do consumidor.DIÁLOGO SEMPRE FAVOR DEBILIS  O método do diálogo das fontes. é aplicação apenas da lei menos favorável: é   . O diálogo só pode ser usado a favor do sujeito vulnerável. A lógica da preponderância da lei menos favorável ao consumidor não é diálogo.

 Diálogo das fontes é sempre a aplicação harmônica e sistemática das leis especiais e gerais a favor dos direitos fundamentais e dos valores mais elevados. Elevação da visão do intérprete para o telos do conjunto sistemático de normas e dos valores constitucionais. sociais e públicos.  .

costumes e equidade. da legislação interna ordinária. de regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes.DIÁLOGO PREVISTO PELO PRÓPRIO CDC  O próprio artigo 7º do CDC estabelece esse diálogo: Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário. analogia.  . bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito.

 .EXTENSÃO DO DIÁLOGO PARA OUTRAS ÁREAS DO DIREITO  Pressupostos: A) primeiro. e que deve ser compreendido segundo as premissas do pensamento sistemático. que se trata de um método de interpretação sistemático.  B) segundo. com vista ao atendimento da finalidade de realização dos direitos fundamentais expressos na Constituição Federal orientado pelo princípio da dignidade humana. de que propõe uma interpretação orientada por fundamentos axiológicos.

OBJEÇÕES AO DIÁLOGO DAS FONTES    1) Não se constitui em um método novo de interpretação e aplicação das leis. mas apenas àquelas situações em que exista expressa previsão legal (caso do art. 2) O método. . dá excessiva liberdade ao intérprete. como é o caso do direito internacional privado. ou quando se trate de disciplinar materialmente o conflito de leis. 3) Não possui aplicação geral. ofendendo os princípios da legalidade e da segurança jurídica. mas mera expressão do método sistemático. 7º do CDC). ao promover a possibilidade de aplicação simultânea de mais de uma lei a um mesmo fato.

bem como devessem ser tomadas individualmente. 2) o que coordena e dá unidade lógica ao diálogo das fontes é a conformidade do resultado concreto da aplicação com direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição. mas especialmente do resultado de sua aplicação. 3) desvalorização da interpretação jurídica. como se as normas possuíssem um sentido unívoco e incontroverso. Logo. em . não é modalidade da interpretação sistemática.RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES    1) o método do diálogo das fontes não se ocupa apenas da interpretação da norma.

Como ordem fundamental jurídica da coletividade. em si.A TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES PODE SER TRANSPORTADA PARA A TEORIA DA CONSTITUIÇÃO?  O próprio conceito de constituição encerra. é essencial que os vários âmbitos interajam entre si. a existência de um diálogo entre as fontes normativas que integram o ordenamento jurídico.  . o que pressupõe a prática de um diálogo.

 . em particular na busca da otimização da proteção das normas vigentes. A necessidade de uma comunicação frutífera entre as fontes normativas é decisiva para a manutenção da unidade do ordenamento jurídico. A Constituição só é colocada no centro do ordenamento jurídico pelo fato de reconhecer a pessoa como seu fundamento supremo.

há que se considerar paralelamente os direitos fundamentais concorrentes. onde diversos princípios concorrem entre si pra prestar uma proteção mais eficiente à pessoa”. p. (DUQUE. “Frente à concorrência de direitos fundamentais. pode-se dizer que o diálogo das fontes produz uma sadia concorrência dentro da própria constituição. Na linha aqui investigada. 145) . 2012. desde que outra solução mais específica não se deixe resultar da interpretação da constituição.

o diálogo das fontes permitiu assegurar à pessoa humana. os Tribunais consolidaram o uso do método do diálogo das fontes como caminho para. uma tutela especial e digna. por aplicação do CDC às relações privadas. no Brasil.  . consumidora e leiga. 5º. da Constituição. XXXII.  Em matéria de relações de consumo no Brasil. assegurar a prevalência do princípio pro homine e desta eficácia horizontal dos direitos fundamentais. em casos difíceis.JURISPRUDÊNCIA CONTEMPORÂNEA É possível afirmar que. hoje. conforme aos valores e princípios constitucionais de proteção especial do art.

DIÁLOGO ENTRE AS FONTES NACIONAIS E INTERNACIONAIS  Consumidor depositário infiel. Prevalência dos tratados internacionais de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica). 466. Norma mais favorável ao consumidor.    .343/SP – Rel. Recurso extraordinário Gilmar Mendes.

Recurso improvido. . Insubsistência da previsão constitucional e das normas subalternas.566. Depósito. § 7. da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica). Interpretação do art. Depositário infiel.585 e nº 92. 7º. inc. LXVII e §§ 1º. qualquer que seja a modalidade do depósito”. É ilícita a prisão civil de depositário infiel. Julgamento conjunto do RE nº 349. da CF. 2º e 3º. Decretação da medida coercitiva. Alienação fiduciária. “EMENTA: PRISÃO CIVIL.703 e dos HCs nº 87. Inadmissibilidade absoluta. 5º. à luz do art.

06. Em muitos casos.591  DJ.2006  “Entendo que o regramento do sistema financeiro e a disciplina do consumo e da defesa do consumidor podem perfeitamente conviver. o operador do direito irá deparar-se com fatos que conclamam a aplicação de normas tanto de uma como de outra área do conhecimento jurídico. Assim ocorre em razão dos diferentes aspectos que uma mesma realidade apresenta. 07.  .DIÁLOGO ENTRE O CDC E AS LEIS ESPECIAIS QUE REGULAM O SISTEMA FINANCEIRO ADI 2. fazendo com que ela possa amoldar-se aos âmbitos normativos de diferentes leis”.

sim. em aplicação conjunta das duas normas ao mesmo tempo e ao mesmo caso. a priori. em influências recíprocas. “Não há. seja permitindo a opção voluntária das partes sobre a fonte prevalente”. seja subsidiariamente. mas. Ministro Joaquim Barbosa . seja complementarmente. por que falar em exclusão formal entre essas espécies normativas.

  .DIÁLOGO ENTRE O CDC E A LEI DE PLANOS DE SAÚDE  A Lei de Planos de Saúde é de 1996 e o CDC de 1990. aplicando-se as duas leis especiais complementarmente e em uma convivência conforme aos valores da Constituição de 1988. Duas leis especiais. Há diálogo de coerência e complementaridade.

INAPLICABILIDADE. RECURSO NÃO PROVIDO. PRESCRIÇÃO. REAJUSTE. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ART. 27 DO CDC. A previsão infraconstitucional a respeito da atuação do Ministério Público como autor da ação civil pública encontra-se na Lei 7. RECURSO ESPECIAL. PRAZO PRESCRICIONAL DE 10 ANOS. LEI 7. silente. . CLÁUSULA ABUSIVA. objeto e dá outras providências.347⁄85 que dispõe sobre a titularidade da ação. esse diploma legal é. 205 DO CC⁄02. MINISTÉRIO PÚBLICO. APLICAÇÃO DO ART.RECURSO ESPECIAL N. PLANO DE SAÚDE. No que concerne ao prazo prescricional para seu ajuizamento. INTERESSE INDIVIDUAL INDISPONÍVEL. contudo. 995. 1.347⁄85 OMISSA.995   PROCESSUAL CIVIL.

3.   2. em que se discute a abusividade de cláusula contratual. conforme o disposto no art. em sua essência. portanto. de modo que. 35-G da Lei 9. uma vez que a relação em exame é de consumo. . porquanto visa a tutela de interesses individuais homogêneos de uma coletividade. aplicam-se as diretrizes consignadas no CDC. não se aplicando. à hipótese dos autos. 4. A única previsão relativa à prescrição contida no diploma consumerista (art. Aos contratos de plano de saúde. Por outro lado. relações civis – e o CC. em casos de omissão da lei consumerista. aplica-se o CC.656⁄98. convivem ambos os diplomas legislativos no mesmo sistema. lei geral sobre direito civil. 27) tem seu campo de aplicação restrito às ações de reparação de danos causados por fato do produto ou do serviço. em sendo o CDC lei especial para as relações de consumo – as quais não deixam de ser.

o prazo prescricional de 10 (dez) anos disposto no art.995. 7.2010) . ainda que lei geral. 995. Dessa forma. 6. Nancy Andrighi. (REsp n. frente à lacuna existente. quanto no CDC. Rel. considerando-se a subsidiariedade do CC às relações de consumo. deve-se aplicar. permite que o CC. tanto na Lei 7.11.347⁄85. Recurso especial não provido”. e.   5. voltada para a realização do mandamento constitucional de proteção ao consumidor. 205 do CC. encontre aplicação quando importante para a consecução dos objetivos da norma consumerista. Permeabilidade do CDC. Dje 16. no que concerne ao prazo prescricional aplicável em hipóteses em que se discute a abusividade de cláusula contratual. Terceira Turma. na espécie. Min.

476. 52. Função social do contrato. § 1º.É aplicável aos contratos de prestações de serviços educacionais o limite de 2% para a multa moratória. Recurso especial não conhecido. Art. Mensalidades escolares.DIÁLOGO ENTRE O CDC E A LEI 9. Aplicabilidade. § 1º. Consumidor.2004. Eqüidade. do CDC. do CDC. Contrato de prestações de serviços educacionais.  . Multa moratória de 10% limitada em 2%.02.649 Relatora Ministra Nancy Andrighi Dje 25. . em harmonia com o disposto no § 1º do art. Interpretação sistemática e teleológica.870/99    Recurso Especial n. 52.

e 51.078/1990. . 24. à Lei 8. O CÓDIGO BRASILEIRO DE AERONÁUTICA E A CONVENÇÃO DE VARSÓVIA DE 1928. 25.º.  O Superior Tribunal de Justiça. neste ponto específico. I). em confronto com o princípio da indenização integral do Código de Defesa do Consumidor (arts. 6. Após alguma divergência inicial o STJ deu prevalência. VI.DIÁLOGOS ENTRE O CDC. ao examinar a permissão de indenização tarifada (limitada) constante tanto do Código Brasileiro de Aeronáutica (Lei 7.565/1986) como na Convenção de Varsóvia.

Ministro Ruy Rosado de Aguiar  DJ 05.2001. mas desprovido”. aplica-se o disposto no Código de Defesa do Consumidor.  Recurso conhecido pela divergência.506 Rel. Extravio de carga.  Para a apuração da responsabilidade civil do transportador aéreo internacional pelo extravio da carga.03.RECURSO ESPECIAL N° 171.  .  “RESPONSABILIDADE CIVIL. Transporte aéreo internacional. Código de Defesa do Consumidor.

II. como acontece no caso de exoneração ou diminuição excessiva da responsabilidade. quando ofendem o princípio legal de responsabilidade do transportador pelos danos ocasionados durante o transporte”.  “Mudaram as condições técnicas de segurança do vôo e também se modificaram as normas que protegem o usuário dos serviços prestados pelo transportador. do CDC). portanto. § 1º. diante do CDC. de tal modo a ameaçar o equilíbrio contratual (art. que não prevalecem. ocasionados pelo mau serviço. . as disposições que limitam a responsabilidade do transportador aéreo.considerando abusiva a cláusula que restringe direitos inerentes à natureza do contrato. 51. O Código de Defesa do Consumidor tem regra expressa. Tenho para mim.

DIÁLOGO ENTRE O CDC E A LEI 4.591/64
  

Recurso Especial nº 747.768. Rel. Min. João Otávio Noronha. “DIREITO CIVIL. CONTRATO DE INCORPORAÇÃO. CÓDIGO
DE DEFESA DO CONSUMIDOR. APLICABILIDADE. RESTITUIÇÃO DE PARCELAS PAGAS. SÚMULA N. 7⁄STJ.

1. Em que pese o contrato de incorporação ser regido pela Lei n. 4.591⁄64, admite-se, outrossim, a incidência do Código de Defesa do Consumidor, devendo ser observados os princípios gerais do direito que buscam a justiça contratual, a equivalência das prestações e a boa-fé objetiva e vedam o locupletamento ilícito. 2. Aplica-se a Súmula n. 7 do STJ na hipótese em que a tese versada no recurso especial reclama a análise dos elementos fáticos produzidos ao longo da demanda. 3. Recurso especial não-conhecido”.

MONÓLOGO DE LEI ESPECIAL IN PEJUS

PROCESSUAL CIVIL E BANCÁRIO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TÍTULOS DE CAPITALIZAÇÃO. CLÁUSULA INSTITUIDORA DE PRAZO DE CARÊNCIA PARA DEVOLUÇÃO DE VALORES APLICADOS. ABUSIVIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. 1. A manifestação do Ministério Público após a sustentação oral realizada pela parte não importa em violação do art. 554 do CPC se sua presença no processo se dá na condição de fiscal da lei. 2. Não pode ser considerada abusiva cláusula contratual que apenas repercute norma legal em vigor, sem fugir aos parâmetros estabelecidos para sua incidência.

3. Nos contratos de capitalização, é válida a convenção que prevê, para o caso de resgate antecipado, o prazo de carência de até 24 (vinte e quatro) meses para a devolução do montante da provisão matemática. 4. Não pode o juiz, com base no CDC, determinar a anulação de cláusula contratual expressamente admitida pelo ordenamento jurídico pátrio se não houver evidência de que o consumidor tenha sido levado a erro quanto ao seu conteúdo. No caso concreto, não há nenhuma alegação de que a recorrente tenha omitido informações aos aplicadores ou agido de maneira a neles incutir falsas expectativas. 5. Deve ser utilizada a técnica do "diálogo das fontes" para harmonizar a aplicação concomitante de dois diplomas legais ao mesmo negócio jurídico; no caso, as normas específicas que regulam os títulos de capitalização e o CDC, que assegura aos investidores a transparência

 TJMG Apelação Cível n.Art.07. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor. 47.Art. 423. dever-se-á adotar a interpretação mais favorável ao aderente. Quando houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou contraditórias.4631730/001  Relator Desembargador Nicolau Masseli  .0024. 1.  CDC .DIÁLOGO ENTRE O CDC E O CÓDIGO CIVIL  Contratos de adesão Código Civil .

não sendo capaz de causar um desequilíbrio psicológico do segurado. . . e primordialmente. aborrecimento. DANO MATERIAL DEVIDO.A interpretação dada às cláusulas de um contrato de adesão. razão pela qual não há que se falar no instituto do dano moral”. a partir da citação e do efetivo desembolso. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONSUMIDOR-ADERENTE. respectivamente. mas também. tentando-se extrair delas a maior utilidade possível. . . CLÁUSULAS CONTRADITÓRIAS. deve ocorrer de forma mais favorável ao consumidor-aderente. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA. “AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. à luz da norma prevista no art. deve ocorrer.O contrato de seguro não pode ficar adstrito ao pagamento de uma indenização. CONTRATO DE SEGURO. PEDIDO DE TRANSPORTE AÉREO NEGADO. em caso de dúvida.A situação apresentada nos autos cinge-se a um mero dissabor.O termo a quo dos juros de mora e da correção monetária no valor do dano material. 423 do CC. parte mais fraca da relação. APLICABILIDADE DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. em prestar uma garantia e segurança ao segurado. ART. 47 do CDC e no art. COBERTURA DE ACIDENTE PESSOAL. 47 DO CDC E ART. DANOS MORAIS E MATERIAIS. . 423 DO CC.

com .queiroz.direito@gmail.Obrigado pela atenção! Fabio Queiroz Pereira fabio.

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