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Resumo de Direitos Humanos - Piovesan

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RESUMO

DIREITOS HUMANOS E O DIREITO CONSTITUCIONAL INTERNACIONAL

FLÁVIA PIOVESAN

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Primeira Parte

A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1998 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Capítulo I INTRODUÇÃO A proposta deste estudo é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil. A Constituição de 1988 situa-se como marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Por isso, importa examinar se a Carta de 1988 contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e o impacto dessa reinserção na ordem jurídica brasileira. Buscar-se-á também analisar o modo pelo qual a Constituição brasileira incorpora os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado. Essa análise será complementada pelo estudo do impacto jurídico desses tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro, pois embora esses tratados sejam elaborados no sentido de importar em obrigações aos Estados que os ratificam, os seus beneficiários finais são os indivíduos que estão a jurisdição do Estado. A comunidade internacional atualmente tenta – por meio do uso de tratados – obrigar os Estados a melhorar a condição dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A investigação a respeito da incorporação dos tratados de direitos humanos pelo direito brasileiro conduzirá ao exame do sistema internacional de proteção dos direitos humanos, suas peculiaridades, limites e possibilidades. O ponto de partida será uma reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos, o que permitira compreender o discurso contemporâneo de direitos, a partir do processo de universalização dos direitos humanos, deflagrado no pós-guerra. Com isso perceber-se-á que em faze das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional passou a reconhecer que a proteção dos direitos humanos constitui questão de legitimo interesse e preocupação internacional: são criados parâmetros 2

globais de ação estatal, ao quais os Estados devem se conformar, no que diz respeito à promoção e proteção dos direitos humanos. Consolida-se o movimento do “Direito Internacional dos Direitos Humanos” que, nos dizeres de Thomas Buergenthal, tem humanizado o direito internacional contemporâneo e internacionalizado os direitos humanos, ao reconhecer que os seres humanos têm direitos protegidos pelo direito internacional e que a denegação desses direitos enseja a responsabilidade internacional dos Estados, independentemente da nacionalidade das vítimas de tais violações. Segundo Richard B. Bilder, o movimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e a responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar essa concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, em âmbito mundial. E muito embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais que lhes são inerentes há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que direitos humanos constituem objeto próprio de regulação internacional é bastante recente. Nesse contexto será também analisado o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos. Essa análise buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui ao individuo status de sujeito de direito internacional, conferindo-lhe diretamente direitos e obrigações no plano internacional. Nesse sentido, de objeto das relações internacionais, o individuo se converte em sujeito, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional – direitos tais que não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, mas passaram a ser “inerentes” ou “inalienáveis”, e, portanto, não poderiam ser reduzidos ou negados por qualquer motivo. O reconhecimento de que os seres humanos têm direitos no plano internacional implica a noção de que a negação desses mesmos direitos impõe, como resposta, a responsabilização internacional do Estado violador. Isto é, emerge a necessidade de delinear limites à noção tradicional de soberania estatal, introduzindo formas de responsabilização do Estado na arena internacional, quando as instituições nacionais se mostrarem omissas ou falhas na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados. Na ordem contemporânea se reforça, cada vez mais, esse complexo sistema de “concorrência institucional”, pelo qual a ausência ou insuficiência de respostas às violações de direitos humanos, no âmbito nacional, justifica o controle, a vigilância e o monitoramento desses direitos pela comunidade internacional. 3

Pode-se afirmar, então, que a noção tradicional de soberania vem sendo flexibilizada, pois se no exercício de sua soberania, os Estados aceitam as obrigações jurídicas decorrentes dos tratados de direitos humanos, passam então a se submeter à autoridade das instituições internacionais, no que se refere à tutela e fiscalização desses direitos em seu território. Por fim, a parte final deste trabalho será dedicada ao exame da posição do Estado do Brasil perante os tratados internacionais de direitos humanos. Este estudo será complementado pela analise do exercício da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, que será concentrado no estudo das ações internacionais perpetradas contra o Estado brasileiro, perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o enfoque do modo pelo qual a advocacia do direito Internacional dos Direitos Humanos é exercida no País, quais os atores sociais envolvidos e os direitos humanos violados1.

Capítulo II UM ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO

a) Delimitando o objeto de estudo: a Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos O objeto deste trabalho, como atenta sua introdução, é analisar o modo pela qual a Constituição brasileira de 1988 se relaciona com o aparato internacional de proteção dos direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídico que ela lhes atribui. É também objeto deste estudo averiguar o modo pelo qual o sistema internacional de proteção dos direitos humanos pode contribuir para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, nesse sentido, o próprio constitucionalismo de direito inaugurado pela Carta brasileira de 1988. Considerando ser a Constituição brasileira de 1988 o marco jurídico do processo de transição democrática, bem como da institucionalização de direitos humanos no País, este estudo buscar responder a três questões centrais:

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Sobre as violações de direitos humanos, Henry Steiner distingue-as em episódicas e sistemáticas. Episódicas ocorrem em sociedades que geralmente observam as normas de direitos humanos, mas que podem praticar desvios incidentais ou ocasionais e, se contínuos, desvios que afetam discretamente determinadas áreas ou grupos, não atingindo a vida social como um todo. As violações sistemáticas de direitos humanos têm um caráter radicalmente diferente. Elas refletem a ordem política e jurídica do Estado. Nessa circunstância, um poderoso regime internacional se torna essencial.

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objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do direito constitucional que disciplinam o Direito Internacional dos Direitos Humanos. deflagrado no Brasil a partir de 1985. ao concentrar seu objeto nos direitos da pessoa humana. ramo do Direito no qual se verifica a fusão e a interação entre o direito constitucional e o direito internacional. não seria adequado classificar este trabalho como um estudo puramente de direito constitucional ou de direito internacional. que integram o Direito Internacional dos Direitos Humanos. mas sim ao estudo da relação entre a Constituição e os tratados internacionais de proteção de direitos humanos. a fonte de tais direitos é de natureza internacional. o enfoque da investigação é interdisciplinar. ao longo da experiência constitucional. Ao tratar da relação entre a Constituição brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Por sua vez. sempre foram considerados matéria constitucional. que assume caráter especial quando esse dois campos do direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana. revela um conteúdo materialmente constitucional. no âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Contudo. já que se localiza justamente na interação entre o Direito Constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. já que os direitos humanos. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. como os tratados adotados pela ONU e pela OEA? 3) Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como os instrumentos internacionais podem fortalecer o regime de proteção de direitos nacionalmente previstos? b) Delimitando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional Este trabalho não se atém ao estudo da relação entre a Constituição e os tratados internacionais em geral. sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização estimulou a ratificação de tratados internacionais de proteção dos direitos humanos? 2) Como a constituição brasileira de 1988 se relaciona com o direito internacional dos direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Por esses motivos. já que seu objeto alcança 5 . Assim.1) Qual o impacto do processo de democratização. A interdisciplinaridade aponta para uma resultante: o chamado Direito Constitucional Internacional.

Essa metodologia se justifica na medida em que a compreensão da sistemática internacional de proteção dos direitos humanos se impõe como requisito necessário para que se prossiga no estudo da relação entre a Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. a segunda parte do trabalho é dedicada ao exame da estrutura normativa do sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. Por fim. É através da compreensão deste estudo que será possível estabelecer a relação entre a Constituição de 1988 e os tratados internacionais de direitos humanos. ao consolidar a ruptura com o regime autoritário militar. o que permitirá o exame do modo pelo qual a Constituição de 1988 interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos e a análise do impacto jurídico desses instrumentos internacionais no direito brasileiro. Nesse sentido.A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS Este capítulo tem como finalidade avaliar o modo pelo qual a Constituição de 1988 disciplina a temática dos direitos e garantias fundamentais. instrumentos e mecanismos. Nesse contexto. Este estudo suscitará uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional de proteção dos direitos humanos – sua estrutura. Capítulo III A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL . O exame do aparato internacional de proteção dos direitos humanos introduzirá elementos fundamentais para que se desenvolva a análise acerca da posição do Estado brasileiro perante os tratados internacionais de direitos humanos.uma complexidade disciplinar que resulta neste campo inovador que é o direito constitucional internacional. a Constituição de 1988 demarca. c) justificativas para a opção metodológica Se a proposta deste livro é analisar a relação entre os dois temas – a Constituição brasileira de 1988 e o direito Internacional dos Direitos Humanos – opta-se preliminarmente por avaliar os avanços introduzidos pela Carta de 1988 no que se refere à institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. instalado em 1964. no âmbito jurídico. 6 . o processo de democratização do Estado brasileiro. nas conclusões será desenvolvida uma avaliação crítica sobre o direito Internacional dos Direitos Humanos e a redefinição da cidadania no Brasil. em particular sobre a forma pela qual o aparato internacional pode servir como importante estratégia do reforço dos direitos constitucionais assegurados no âmbito do direito brasileiro.

que refizesse o pacto políticosocial. permitiu a formação de um controle civil sobre as forças militares. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e 7 garantias fundamentais . bem como na proteção de setores vulneráveis da sociedade brasileira. Como bem observa Antônio Augusto Cançado Trindade. faz-se necessário se aproximar da Constituição de 1988. o equacionamento dos direitos humanos no âmbito da ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que a questão dos direitos humanos se impusesse como tema fundamental na agenda internacional do País. as relevantes transformações internas tiveram acentuada repercussão no plano internacional dos direitos humanos. lenta e gradual. bem como uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. Nesse contexto.Assim. situando-se a Carta de 1988 como o documento mais abrangente e pormenorizado sobre os direitos humanos jamais adotado no Brasil. avaliando brevemente seu perfil e particularmente o universo dos direitos e garantias fundamentais que enuncia. Vejamos. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no País muda substancialmente a política brasileira de direitos humanos. deflagrou-se o processo de democratização no Brasil. Isto porque. possibilitando um progresso significativo no reconhecimento de obrigações internacionais nesse âmbito. É com a Constituição de 1988 que os direitos humanos ganham relevo extraordinário. para iniciar o estudo é necessário analisar o processo de democratização no Brasil como importante contexto no qual emerge a Carta de 1988. Nascia. introduz indiscutível avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais. No caso brasileiro. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988 Após o longo período de vinte e um anos de regime militar ditatorial que perdurou de 1964 a 1985 no País. Essa transição democrática. Exigiu ainda a elaboração de um novo código. A Constituição de 1988 institucionaliza a instauração de um regime político democrático no Brasil. que culminou com a promulgação de uma nova ordem constitucional. assim. a Constituição de outubro de 1988. essas transformações têm gerado um novo constitucionalismo. Para que se compreenda o processo de internacionalização da proteção dos direitos humanos no Brasil.

ainda. destacam-se a cidadania e dignidade da pessoa humana. “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais. considerando que toda Constituição há de ser compreendida como unidade e como sistema que privilegia determinados valores sociais. pluralista e sem preconceitos (. a Constituição de 1988 projeta a construção de um Estado Democrático de Direito. o desenvolvimento. incluindo no catálogo de direitos fundamentais não apenas os direitos civis e políticos. o bem-estar. a orientar tanto o Direito Internacional como o Direito interno. somente então. assumindo especial prioridade. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio.. É possível observar através da leitura do artigo terceiro da Constituição. a Constituição consagra as três dimensões fundamentais do princípio do Estado de Direito. A nova topografia Constitucional inaugurada com a Carta de 1988 reflete uma mudança paradigmática. seja no âmbito interno. pode-se afirmar que a Carta de 1988 elege o valor da dignidade humana como valor essencial que lhe dá unidade de sentido. que é no princípio da dignidade da pessoa humana que a ordem jurídica encontra o próprio sentido. a preocupação que teve o legislador em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo de justiça social. há o encontro do princípio do Estado Democrático de Direito e dos direitos fundamentais. Assim. Sustenta. a saber. o Texto de 1988 inova ao alargar a dimensão dos direitos e garantias. isto é. para. Ademais. radicado nos deveres dos súditos. a juridicidade. a igualdade e a justiça. mas também os sociais. assim. acolhendo-se assim. de um Direito inspirado pela ótica do Estado. São nos artigos supracitados que se encontram os fundamentos e os objetivos do Estado Democrático de Direito brasileiro. disciplinarem os direitos. seja no âmbito internacional. radicado nos direitos dos Cidadãos. transita-se a um Direito inspirado pela ótica da cidadania. Logo. É importante ressaltar que as Constituições anteriores primeiramente tratavam do Estado. Nos artigos primeiro e terceiro. a dignidade da pessoa humana é princípio que unifica e centraliza todo o sistema normativo.Desde o seu preâmbulo. a constitucionalidade e os direitos fundamentais. como valores supremos de uma sociedade fraterna. a liberdade. o princípio da indivisibilidade e 8 . consagrando-se.. Dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito brasileiro.)”. a segurança. Nesse contexto.

acenando para a existência de novos sujeitos de direitos. não são meras normas para a produção de outras normas. Sem contar que a Constituição de 1988. que esse princípio realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. Lembrando-se aqui. É neste contexto que há de ser feita a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. os direitos coletivos e difusos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. Por fim. chegando ao ponto de ampliar os valores trazidos pela própria Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. objetiva tornar tais direitos prerrogativas diretamente aplicáveis pelos Poderes Legislativo. por meio da ampliação de direitos sociais. vale dizer que cabe aos Poderes Públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais 9 . nos termos do artigo quinto parágrafo primeiro. os direitos e garantias fundamentais são dotados de especial força expansiva. o sentido fundamental da aplicabilidade direta está em reafirmar que “os direitos. econômicos e culturais (direitos de segunda dimensão). liberdades e garantias são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. concedeu-lhes uma posição de destaque dentro do ordenamento jurídico brasileiro. ao mesmo tempo em que consolida a extensão de titularidade de direito. por via direta da Constituição e não através da auctoritas interpositio do legislador. Ademais. ou seja. também consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. prevendo um regime jurídico específico endereçado a tais direitos. Tal princípio intenta assegurar a força vinculante dos direitos e garantias de cunho fundamental. pelo qual o valor da liberdade se conjuga com o valor da igualdade. no intuito de reforçar a imperatividade das normas que traduzem direitos e garantias fundamentais. Não são simples norma normarum mas norma normata. acrescenta além dos direitos individuais. a Carta de 1988. mas sim normas diretamente reguladoras de relações jurídico-materiais”. Desta forma. isto é. não havendo como divorciar os direitos de liberdade dos direitos de igualdade. liberdades e garantias fundamentais. No entender de Canotilho. Nesse sentido. Executivo e Judiciário. concluindo-se que a Constituição Federal de 1988 não só acolheu o ideal dos Direitos Humanos.interdependência dos direitos humanos. mais do que isso. como também. a Constituição de 1988 institui o princípio da aplicabilidade imediata dessas normas.

pelos seguintes princípios: independência nacional (inciso I). nos termos do art. A partir do momento em que o Brasil se propõe a fundamentar suas relações com base na prevalência dos direitos humanos. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. 4º da Constituição simboliza a reinserção do Brasil na arena internacional. Estes são os novos valores incorporados pelo Texto de 1988. nos termos do art. cooperação entre os povos para o progresso da humanidade (inciso IX) e concessão de asilo político (inciso X). Com efeito. como princípio fundamental a reger o Estado nas relações internacionais. fica determinado que o Brasil se rege. igualdade entre os Estados (inciso v). A Carta de 1988 introduziu inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. Se. está ao mesmo tempo reconhecendo a existência de limites e condicionamentos à noção de soberania estatal. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação internacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. O art. 5º. da autodeterminação dos povos. a soberania do Estado brasileiro fica submetida a regras jurídicas. surge a necessidade de interpretar os antigos conceitos de soberania estatal e não-intervenção. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. defesa da paz (inciso VI). do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. repúdio ao terrorismo e ao racismo (inciso VIII). § 2º. Dentre eles. 4º. incisos II. 4º do Texto. prevalência dos direitos humanos (inciso II). autodeterminação dos povos (inciso III). Isto é. da Carta de 1988. e que compõem a tônica do constitucionalismo contemporâneo. nãointervenção (inciso IV). VIII e IX. por um lado.A Carta de 1988 é a primeira Constituição brasileira a elencar o princípio da prevalência dos direitos humanos. também de extrema relevância é o alcance da previsão do art. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império no que se refere à independência nacional e à nãointervenção como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. nas suas relações internacionais. ao determinar que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros decorrentes dos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. destaque-se o princípio da prevalência dos direitos humanos. à luz de princípios inovadores da ordem constitucional. Esse dispositivo tece a interação entre a ordem jurídica interna e a ordem jurídica internacional dos direitos humanos. Para o estudo das relações entre a Constituição de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. solução pacífica dos conflitos (inciso VII). Vale dizer. Capítulo IV 10 . III.

que são da competência do órgão do Poder 11 . A necessidade de disciplinar e regular o processo de formação dos tratados internacionais resultou na elaboração da Convenção de Viena. o Estado contraiu obrigações jurídicas no plano internacional. quando da assinatura.). uma vez que Estados soberanos.. Contudo. as reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. no livre exercício de sua soberania. os tratados permitem sejam formulados reservas. por excelência. quando de sua aplicação naquele Estado”. na medida em que. ou seja. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculantes (pacta sunt servanda) constituem a principal fonte de obrigação do direito internacional. (.”. limitou-se aos tratados celebrados entre os Estados. não envolvendo aqueles dos quais participam organizações internacionais.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS a) Breves considerações sobre os tratados internacionais Começa-se por afirmar que os tratados internacionais. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. pelo qual cabe ao Estado conferir plena observância ao tratado de que é parte. aos Estados que expressamente consentiram em sua adoção. comprometem-se a respeitá-los. Acrescenta o art. Como dispõe a Convenção de Viena: “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé”. ratificação. Na definição de Louis Henkin: “O termo ‘tratado’ é geralmente usado para se referir aos acordos obrigatórios celebrados entre sujeitos de Direito Internacional. que são regulados pelo Direito Internacional. Nos termos da Convenção de Viena. Consagra-se. o princípio da boa-fé. Em geral.. o que pode contribuir para a adesão de maior número de Estados. adesão ou aprovação de um tratado. b) O processo de formação dos tratados internacionais Em geral. expressão de consenso. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. Enfatize-se que os tratados são. acessão. 27 da Convenção: “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o nãocumprimento do tratado”. A primeira regra a ser fixada é a de que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. assim. concluída em 1969. que teve por finalidade servir como a Lei dos Tratados. conclusão e assinatura do tratado. o processo de formação dos tratados tem início com os atos de negociação. ao aceitá-los.

VIII. o poder de celebrar tratados – como é concebido e como de fato se opera – é uma autêntica expressão do constitucionalismo. a colaboração entre Executivo e Legislativo na conclusão de tratados internacionais. tampouco previsão de prazo para que o Presidente da República ratifique o tratado. Consagra-se. por si só. Ao atribuir o poder de celebrar tratados ao Presidente. Por sua vez. traz uma sistemática lacunosa. manifestada pelo Presidente da República. sujeitos a referendo do Congresso Nacional. convenções e atos internacionais. ao manter ampla discricionariedade aos Poderes Executivo e Legislativo no processo de formação dos tratados. Não há ainda previsão de prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado assinado. busca-se limitar e descentralizar o poder de celebrar tratados. Contudo. Com efeito. Entre a assinatura e a ratificação. e 84. não se somar à vontade do Congresso Nacional. VIII). Assim. em seu art. No caso brasileiro. se aprovado pelo Congresso. A ratificação significa a subseqüente confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado. A ratificação é ato jurídico que irradia necessariamente efeitos no plano internacional. prevenindo o abuso desse poder. No Direito Internacional. 84. traduz o aceite precário e provisório. mas apenas mediante o referendo do Legislativo. passa o tratado a produzir efeitos jurídicos. por exemplo. pelo qual o Estado se obriga pelo tratado no plano internacional. não irradiando efeitos jurídicos vinculantes. aprovado o tratado pelo Legislativo. 49. 12 . determina que é da competência privativa do Presidente da República celebrar tratados. acordos ou atos internacionais. I. o aceite definitivo. falha e imperfeita: não prevê. cabe observar que a Constituição brasileira de 1988. pois. ratificado pelo Presidente da República. prazo para que o Presidente da República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado por ele assinado. claramente ele estabelece a sistemática de ‘checks and balances’. ao estabelecer apenas esses dois dispositivos supracitados (os arts. de que está obrigado a cumprir o tratado. acaba por contribuir para a afronta ao princípio da boa-fé vigente no direito internacional.Executivo. a ratificação se refere à subseqüente confirmação formal (após a assinatura) por um Estado. Essa sistemática constitucional. Significa. a Constituição de 1988. o segundo passo é a sua apreciação e aprovação pelo Poder Legislativo (Congresso Nacional). celebrado por representante do Poder Executivo. da mesma Carta prevê ser da competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados. aprovado pelo Congresso Nacional e. 49. que não se aperfeiçoa enquanto a vontade do Poder Executivo. por fim. I. assim. o art. A assinatura do tratado. o Estado está sob a obrigação de obstar atos que violem os objetivos ou os propósitos do tratado. Em seqüência. há o seu ato de ratificação pelo Poder Executivo. Após a assinatura do tratado pelo Poder Executivo.

. considerando o processo de formação dos tratados e reiterando a concepção de que apresentam força jurídica obrigatória e vinculante. a natureza de norma constitucional. qual seja. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. O constitucionalista José Joaquim Gomes Canotilho se orienta na mesma direção quando pondera: “(. ao prescrever que “os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais”. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art.. portanto. É como se o Direito Internacional fosse transformado em parâmetro de validade das próprias Constituições nacionais (cujas normas passam a ser consideradas nulas se violadoras das normas do jus cogens internacional). que os direitos e garantias expressos na Constituição “não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados.. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. Ao efetuar a incorporação. a Carta atribui aos direitos internacionais uma natureza especial e diferenciada. ao fim da extensa Declaração de Direitos por ela prevista. A Constituição assume expressamente o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. de forma inédita. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. a Carta de 1988 está a incluir. Os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. resta frisar que a violação de um tratado implica a violação de obrigações assumidas no âmbito internacional. Ora. Ainda que esses direitos 13 . O descumprimento de tais deveres implica. 5º.De todo modo. O constitucionalismo global compreende não apenas o clássico paradigma das relações horizontais entre Estados. portanto. na emergência de um direito internacional dos direitos humanos e na tendencial elevação da dignidade humana a pressuposto ineliminável de todos os constitucionalismos. responsabilização internacional do Estado violador.) Os direitos humanos articulados com o relevante papel das organizações internacionais fornecem um enquadramento razoável para o constitucionalismo global. conseqüentemente.)”. Essa conclusão advém ainda de interpretação sistemática e teleológica do Texto. § 2º). (. o Poder Constituinte dos Estados e. Por isso. das respectivas Constituições nacionais. como parâmetros axiológicos a orientar a compreensão do fenômeno constitucional.. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. a contrario sensu. mas no novo paradigma centrado: nas relações Estado/povo. c) A hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos A Carta de 1988 consagra. está hoje cada vez mais vinculado a princípios e regras de direito internacional.

o chamado “bloco de constitucionalidade”. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição). de forma positivística. por fim. Quanto ao caráter aberto da cláusula constitucional constante do art. como o são os decorrentes do regime e dos princípios constitucionais. Consoante o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. colocando numa mesma categoria os direitos decorrentes dos tratados internacionais e os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição não é correto. Assim. 5º. mas sob a forma de tratados internacionais. alargando o ‘bloco da constitucionalidade’ a princípios não escritos. No dizer de Jorge Miranda. e. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. o grupo dos direitos individuais decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. as normas e princípios da constituição. certos desdobramentos do direito à vida. que “não são nem explícita nem implicitamente enumerados. Há que densificar. o dos direitos individuais implícitos. Os direitos internacionais integrariam. densificando a regra constitucional positivada no § 2º do art. enumerados e claramente elencados. Nesse sentido. c) o dos direitos implícitos (subentendidos nas regras de garantias. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. pois os direitos internacionais são expressos. § 2º.não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. é ele evidenciado por José Afonso da Silva ao afirmar que os direitos individuais podem ser classificados em três grupos: o dos direitos individuais expressos. a partir da Constituição de 1988. mas provêm ou podem vir a prover do regime adotado. explicitamente enunciados nos incisos do art. Ocorre que classificar os direitos individuais. a cada norma constitucional é preciso conferir. já que preenchem e complementam o catálogo de direitos fundamentais previsto pelo Texto Constitucional. em profundidade. ligada a 14 . como o direito de resistência. o que justifica estender a esses direitos o regime constitucional conferido aos demais direitos e garantias fundamentais. 5º. afirma Canotilho: “O programa normativo-constitucional não pode se reduzir. caracterizada como cláusula constitucional aberta. 5º. a Carta lhes confere o valor jurídico de norma constitucional. os direitos constantes de tratados internacionais integram e complementam o catálogo de direitos constitucionalmente previstos. como formas de densificação ou revelação específicas de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. como o direito à identidade pessoal. assim. uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição sugere o seguinte: a) o dos direitos expressos na Constituição. entre outros de difícil caracterização a priori”. b) o dos direitos expressos em tratados internacionais de que o Brasil seja parte. ao ‘texto’ da Constituição. subentendidos nas regras de garantias.

15 . o sentido da proposição normativa dentro das condições reais dominantes numa determinada situação. sendo.11. (. A nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma. que não cabe atribuir. de forma excelente. b. Com efeito.) A interpretação adequada é aquela que consegue concretizar. Essa concepção não apenas compromete o princípio da boa-fé. o máximo de capacidade de regulamentação”. o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais “é hoje sobretudo invocado no âmbito dos direitos fundamentais – no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça mais eficácia aos direitos fundamentais”. no julgamento do HC 72. passou a acolher a concepção de que os tratados internacionais e as leis federais apresentavam a mesma hierarquia jurídica. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção dos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. 5º. III. o STF. em votação não unânime afirmou: “Parece-me irrecusável.1995). “as causas decididas em única ou última instância. no exame da questão concernente à primazia das normas de direito internacional público sobre a legislação interna ou doméstica do Estado brasileiro. portanto.131-RJ (22.. ao enfrentar a questão concernente ao impacto do Pacto de São José Costa Rica no direito brasileiro. mas constitui afronta à Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. À luz do art. Na lição de Konrad Hesse: “A interpretação constitucional está submetida aos princípios da ótima concretização da norma. Segundo Canotilho. Está-se assim a conferir máxima efetividade aos princípios constitucionais. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o nãocumprimento de tratado. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido que maior eficácia lhe dê. contudo. mediante recurso extraordinário. Sustenta-se que os tratados tradicionais têm hierarquia infraconstitucional. em especial ao princípio do art. e que tem como reflexo o art. pois só assim não se desrespeita o princípio da boa-fé vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda).” Todas as normas constitucionais são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma função útil no ordenamento. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal”. §2º. uma tendência da doutrina brasileira. aplicável o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional. por efeito do que prescreve 2 Tal artigo confere ao STF a competência para julgar.. 102. supralegal.todas as outras normas. da Constituição Federal de 19882. Há que enfatizar ainda que. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. 27 da Convenção de Viena. especialmente quando se trata de norma instituidora de direitos e garantias fundamentais. porém.

que conferir hierarquia constitucional aos tratados de direitos humanos. Declaração Universal dos Direitos do Homem. da Carta de 1988. b). de sua típica atividade político-jurídica consistente no desempenho da função de legislar. defende posição diversa. 5º. com a observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. bem como com sua racionalidade e principiologia. reflete o sistema que. Seguem dizendo que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. Vejamos: Argumenta Hildebrando Accioly. além de traduzir um imperativo que decorre de nossa própria Constituição (art.) A indiscutível supremacia da ordem constitucional brasileira sobre os tratado internacionais. sob pena de essa interpretação inviabilizar. defendendo a natureza supraconstitucional dos direitos internacionais humanos: “É lícito sustentar-se. Trata-se de interpretação que está em harmonia com os valores prestigiados pelo sistema jurídico de 1988. 5º. Esse tratamento jurídico diferenciado. §2º. art. no entanto. 5º. todas essas normas (Carta das Nações Unidas. III. com algumas poucas exceções. sem dúvida. como uma ‘supra-legalidade internacional’”. Lecionam André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros que “Para doutrina dominante. em especial com o valor da dignidade humana – que é valor fundamente do sistema constitucional. é razoável admitir a hierarquia especial e privilegiada dos tratados internacionais de direitos humanos em relação aos demais tratados internacionais. conferido pelo art.. 102.o art. a consagração definitiva do jus cogens no topo da hierarquia das fontes do Direito internacional. tem prevalecido no plano do direito comparado”. há outra no sentido de lhes conferir hierarquia supraconstitucional. Acredita-se. pelo Congresso Nacional. com a opinião da 16 . Tendo em vista que os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus cogens. especialmente sobre as prescrições fundadas em texto constitucional. Ao lado da corrente que defende a natureza constitucional e outra que defende status paritário à lei federal dos tratados internacionais de direitos humanos. que constitui Direito imperativo para os Estados”. LXVII) – o próprio exercício. e nas das prerrogativas dos Estados. distinguindo-se dos tratados internacionais comuns – os tratados de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. (.. de acordo. e outra defendendo a natureza supralegal. um inexistente grau hierárquico das convenções internacionais sobre o direito positivo interno vigente no Brasil. Pactos Internacionais aprovados pelas Nações Unidas) e todos esses princípios fazem hoje parte do jus cogens internacional. com manifesta ofensa à supremacia da Constituição – que expressamente autoriza a instituição da prisão civil por dívida em duas hipóteses extraordinárias (CF. da Carta Política. justifica-se na medida em que os tratados internacionais de direitos humanos apresentam um caráter especial. aliás. ao revés. parágrafo 2º. Este trabalho.

à primeira vista. mas supralegal e d) a paridade hierárquica entre tratado e lei federal. Ainda sem certezas suficientemente amadurecidas. de 8 de dezembro de 2004. traduziu uma abertura significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. merece menção o entendimento do Ministro Sepúlveda Pertence por ocasião do julgamento do RHC n. introduziu um §3º no art. mas supralegal dos tratados de direitos humanos. (. contrárias à primeira. se é verdade que uma lei interna revoga outra ou outras anteriores. seria esvaziar de muito do seu sentido útil a inovação. malgrado os termos equívocos do seu enunciado. contra a lei ordinária – sempre que. na legislação interna. porque o Estado tem o dever de respeitar suas obrigações contratuais e não as pode revogar unilateralmente. os tratos ou convenções a ela incorporados formam um direito especial que a lei interna. b) a hierarquia constitucional. especificando ou ampliando os direito e garantias dela constantes”. Se assim é. com grande freqüência. tal como o pacta sunt servanda e o voluntas civitatis maximae est servanda.785-RJ. da linha desenvolvida no Brasil por Cançado Trindade e pela ilustrada Flávia Piovesan – a aceitar a outorga de força supralegal às convenções de direitos humanos. assim como à recepção das anterior à Constituição. Daí porque dizer-se que. há quatro correntes acerca da hierarquia dos tratados de proteção dos direitos humanos. de modo a dar aplicação direta às suas normas – até. 79. dispondo: “Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. No sentido de responder à polêmica doutrinária e jurisprudencial concernente à hierarquia dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. que o direito internacional é superior ao Estado. em 17 . Não se dirá que o poder do Estado seja uma delegação do direito internacional. a complementem. Em síntese.. leciona Marotta Rangel: “A superioridade do tratado em relação às normas do Direito Interno é consagrada pela jurisprudência internacional e tem por fundamento a noção de unidade e solidariedade do gênero humano e deflui normalmente de princípios jurídicos fundamentais. por isto que deriva de um princípio superior à vontade dos Estados. c) a hierarquia infraconstitucional. da Constituição. Quanto à corrente que defende a hierarquia infraconstitucional. 5º. comum.maioria dos internacionalistas contemporâneos. em maio de 2000: “Na ordem interna. tem supremacia sobre o direito interno.) Realmente. 5º §2º. direitos e garantias fundamentais o são. parificar às leis ordinárias os tratados a que alude o art. o mesmo não se poderá dizer quando a lei anterior representa direito convencional transformado em direito interno. sem ferir a Constituição.. que sustentam: a) a hierarquia supraconstitucional de tais tratados. não pode revogar. a Emenda Constitucional n. que. no STF. tendo assim – aproximando-se. mas parece incontestável que este constitui um limite jurídico ao dito poder. 45. No mesmo sentido. creio. se necessário. precisamente porque – alçados ao texto constitucional – se erigem em limitações positivas ou negativas ao conteúdo das leis futuras.

Se os tratados de direitos humanos ratificados anteriormente à Emenda n. 5º. têm hierarquia constitucional. 5º. da CF. em face do § 3º do art. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. De acordo com a opinião doutrinária tradicional. 45/2004. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. com relação aos novos tratados de direitos humanos a serem ratificados. serão normas materialmente constitucionais. 5º.cada Casa do Congresso Nacional. são materialmente constitucionais. 5º”. 5º pode ser considerado como uma lei interpretativa destinada a encerrar as controvérsias jurisprudenciais e doutrinárias suscitadas pelo parágrafo 2º do art. independentemente do quorum de sua aprovação. como realça Celso Lafer. ou seja. Vale dizer. uma lei interpretativa nada mais faz do que declarar o que pré-existe. por três quintos dos votos dos respectivos membros. corrobora-se o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados anteriormente ao mencionado parágrafo. O quorum qualificado está tão-somente a reforçar tal natureza. 45/2004. são normas material e formalmente constitucionais. em dois turnos. 5º. por força do §2º do mesmo art. 5º surgem duas categorias de tratados internacionais de proteção de direitos humanos: a) os materialmente constitucionais. todos os tratados de direitos humanos já ratificados seriam recepcionados como norma constitucional. afirma Celso Lafer: “Com a vigência da Emenda Constitucional n. para converterem-se em normas também formalmente constitucionais deverão percorrer o procedimento demandado pelo § 3º. Reitere-se que. Desde logo há que se afastar o entendimento segundo o qual. demandado pelo aludido parágrafo. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. os tratados internacionais a que o Brasil venha a aderir. ao revés. e b) os 18 . serão equivalentes às emendas à Constituição”. todos os tratados de direitos humanos. de 08 de dezembro de 2004. Uma vez mais. 5º. Contudo. “o novo parágrafo 3º do art. 45. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. Ademais. por força dos §§ 2º e 3º do art. com o advento do § 3º do art. devem obedecer ao iter previsto no novo parágrafo 3º do art. para serem recepcionados formalmente como normas constitucionais. independentemente de seu quorum de aprovação. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. pois não teriam obtido o quorum qualificado de três quintos. No mesmo sentido. ao clarificar a lei existente”. ser interpretado à luz do sistema constitucional. anteriormente à Emenda Constitucional n. mas deve. por força do art. compondo o bloco de constitucionalidade. 5º da Constituição. situando-se como normas material e formalmente constitucionais. já que o último não revogou o primeiro. ao adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. §2º. Esse entendimento decorre de quatro argumentos: a) a interpretação sistemática da Constituição.

uma natureza constitucional diferenciada. Para além de serem materialmente constitucionais. os tratados material e formalmente constitucionais. a partir do §3º do mesmo dispositivo. Os tratados internacionais de Direitos Humanos material e formalmente constitucionais não podem ser denunciados porque os direitos neles enunciados receberam assento no texto constitucional. O ato da denúncia em muitos tratados (p. para a ratificação é necessário um ato complexo. fruto da conjugação de vontades do Executivo e do Legislativo. poderão. a denúncia continua a constituir ato privativo do Executivo. Convenção Americana sobre Direitos Humanos. como os direitos e garantias individuais consagrados na CF. 60. não sendo eliminados via emenda constitucional. Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial) não eximirá o Estado-parte das obrigações que lhe impõe os respectivos tratados internacionais. acrescer a qualidade de formalmente constitucionais. por sua vez. para o ato de denúncia este também deveria ser o procedimento. no âmbito formal. A denúncia é ato unilateral pelo qual o Estado se retira de um tratado. assim. § 4º. embora sejam alcançados pela cláusula pétrea. Com efeito. nos termos do art. por força do §2º do art. equiparando-se às emendas à Constituição. não apenas pela matéria que veiculam. os tratados internacionais de Direitos Humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. Entretanto. Se admitindo a natureza constitucional de todos os Tratados de Direitos Humanos.material e formalmente constitucionais. não podem ser denunciados. Importante realçar a diversidade de regimes jurídicos que se aplica aos tratados apenas materialmente constitucionais e aos tratados que. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. além de materialmente constitucionais. relativamente a qualquer ação ou omissão ocorrida antes da data em que a denúncia vier a produzir efeitos. constituem cláusula pétrea e não podem ser abolidos por emenda à Constituição. Frise-se: todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais. também são formalmente constitucionais. Convenção sobre os Direitos das Crianças. A diferença entre esses tratados materialmente e formalmente constitucionais está na denúncia. os Tratados Internacionais de Direitos Humanos estabelecem regras específicas concernentes à possibilidade de denúncia. Seria mais coerente aplicar ao ato da denúncia o mesmo procedimento do ato de ratificação. por isso os direitos constantes nestes tratados. no direito brasileiro.ex: Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional de Direito Civis e Políticos. 5º. sem qualquer participação do Legislativo. Isto é. mas pelo grau de 19 . Entretanto. Os direitos internacionais apresentam. Convenção contra a Tortura.

Veja-se como o direito comparado trata da interação entre os Tratados Internacionais de Direitos Humanos e a ordem jurídica interna: • Argentina: Tratados em geral: hierarquia infraconstitucional. convenção ou acordo. §2º. • Venezuela: Tratados Internacionais de Direitos Humanos têm hierarquia constitucional e prevalecem na ordem interna quando contenham normas mais favoráveis às estabelecidas na Constituição e são de aplicação imediata. da CF ao estatuir que os direitos e garantias expressos não excluem outros decorrentes dos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. sem consulta. em virtude da constitucionalização formal do tratado no âmbito jurídico interno. permitindo que o Poder Executivo o denuncie. É como se o Estado renunciasse a prerrogativa de denunciar ao tratado. Ora. • Peru: Sua Constituição consagra que os direitos constitucionalmente reconhecidos devem ser interpretados conforme a Declaração Universal de Direitos Humanos e com os Tratados de Direitos Humanos ratificados pelo Peru. • Nicarágua: Sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes nos instrumentos internacionais de proteção de Direitos Humanos. por sua vez. • Chile: consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos Tratados Internacionais por ele ratificados. nem aprovação. em cada casa do Congresso Nacional. No Brasil. os tratados internacionais de Direitos Humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. d) A incorporação dos tratados internacionais de Direitos Humanos. O princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais é assegurado no §1º do artigo 5º. é subversivo aos princípios constitucionais”. em duplo turno de votação. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se.legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. concernente à maioria qualificada de três quintos dos votos dos membros. mas supralegal. e os Direitos Humanos constitucionalmente consagrados serão interpretados conforme os Tratados Internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo país. para quem “aprovar tratado. têm preeminência sobre o direito interno. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de Direitos Humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. por ela ratificados. Neste sentido segue o magistério de Pontes de Miranda. o artigo 5º. Tratados de Direitos Humanos têm hierarquia constitucional. • Guatemala: Tratados Internacionais de Direitos Humanos. • Colômbia: Tratados de Direitos Humanos prevalecem na ordem interna. conclui-se 20 .

através da qual o direito interno e o internacional compõe uma mesma unidade. então. Entretanto. inclusive em relação aos tratados de direitos humanos. sustentando. que passa. Até o momento esse é o entendimento da jurisprudência do STF. Essa incorporação é feita em 04 etapas: 21 . ao contrário. a vincular e a obrigar no plano do direito positivo interno. Portanto. segundo a doutrina majoritária o Brasil adota a teoria dualista (com duas ordens jurídicas diversas – a interna e a internacional). Esse sistema misto é chamado de cláusula geral de recepção semiplena. a aplicabilidade imediata dos tratados internacionais de Direitos Humanos. para a referida autora. os tratados internacionais apresentam status infraconstitucional (mas supralegal) e aplicação não imediata (teoria dualista). nos termos da Carta Constitucional. O princípio da aplicabilidade imediata identifica-se com a teoria monista. Para esse posicionamento existem duas ordens jurídicas distintas. §1º. diversa do ato de ratificação. Portanto. na incorporação dos tratados internacionais o Brasil adota um sistema misto: 1) Nos tratados internacionais de Direitos Humanos – há a incorporação automática (Art. sob pena de invalidação. por assegurar a promulgação do tratado internamente. por exigir um ato normativo para tornar o ato obrigatório na ordem interna. para o Supremo e grande parte da doutrina. 5º. Com efeito. portanto. sem necessidade de edição de ato com força de lei. Dessa forma os tratados que não versem sobre Direitos Humanos não são incorporados de plano pelo direito nacional. a internacional e a interna. Estes tratados incorporam-se de imediato ao direito nacional em virtude do ato de ratificação. pela qual aquela só vigorará na ordem interna se e na medida em que cada norma internacional for transformada em direito interno. dependem de legislação que os implementem. nesse sentido Celso Bastos e Ives Gandra Martins. 2) Aos demais tratados internacionais se aplica a sistemática da incorporação legislativa. possível a invocação imediata de tratados e convenções de Direitos Humanos. A incorporação automática do direito internacional dos direitos humanos permite ao particular a invocação direta dos direitos e liberdades internacionalmente assegurados e proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. CF). uma única ordem jurídica.que tais normas merecem aplicação imediata. Este é o entendimento de Flávia Piovesan. garantir o princípio da publicidade e conferir executoriedade ao texto do tratado ratificado. a qual tem exigido a expedição de um decreto como ato culminante no processo de incorporação dos tratados. dos quais o Brasil seja signatário. voltado à outorga de vigência interna aos acordos internacionais.

complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. de modo a ajustá-lo.1) celebração. As conseqüências do impacto jurídico da incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos no ordenamento jurídico brasileiro são: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. mas também internacional. ou c) contrariar preceitos internos. que é a assinatura do tratado pelo Presidente da República. embora não previstos no âmbito nacional. Nesse caso. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. encontram-se enumerados nesses tratados. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. Aqui há a incorporação ao direito interno. passando a incorporar ao direito brasileiro. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. 22 complementem ou ampliem as normas constitucionais. Vários são os casos em que direitos. elas terão a função de reforçar a . e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. 4) promulgação do tratado por decreto regulamentar do Presidente da República. a Constituição Federal assegura a incorporação instantânea dos tratados internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo Brasil. irradiando efeitos e assegurando direitos direta e imediatamente exigíveis no ordenamento interno. 3) troca (entre dois países) ou depósito (pacto multilateral) dos instrumentos de ratificação. com harmonia e consonância. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. b) integrar. que é a aprovação do tratado pelo Congresso Nacional. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. por meio de decreto legislativo (quorum de aprovação da maioria simples). eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. 2) ratificação. assim. Não obstante exista esse entendimento. Sendo assim.

adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. pode-se imaginar. ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. representativa da categoria profissional ou econômica. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. É a escolha da norma mais favorável à vítima. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. em qualquer grau. Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a Constituição 23 . nunca a restringir ou deliberar. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favoráveis à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. como primeira alternativa.imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. O próprio art. respectivamente. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. titular do direito. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. Porém. Logo. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. na mesma base territorial. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. Contudo. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. com outras.

conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. se a norma constitucional fosse mais benéfica que a norma internacional. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. Por fim. no Brasil. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. Em todas as três hipóteses. três hipóteses poderão ocorrer. qual seja. ora reforçando sua imperatividade. Pois bem. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. admite não apenas uma exceção. ora adicionando novos direitos. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas 24 . b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. Pela norma. Observe-se que se a situação fosse inversa. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. a dívida de créditos alimentícios. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. contudo. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. Vale dizer. como na Convenção Americana. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. acrescendo apenas uma exceção. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. Na primeira hipótese.com aplicação imediata. Enunciado semelhante é o do art. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Na segunda. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. 7º da Convenção Americana. aplicar-se-ia Constituição Federal. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. quanto à terceira hipótese. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. ou seja.

a premente necessidade de se dar efetividade à proteção dos direitos humanos nos planos interno e internacional torna imperiosa uma mudança de posição quanto ao papel dos tratados internacionais sobre direitos na ordem jurídica nacional. DJ 29. Essa posição começa a ser alterada. porém acima da legislação interna. Preconizada pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal desde o remoto julgamento do RE n° 80. referida tese encontra respaldo em um largo repertório de casos julgados após o advento da Constituição de 1988.12. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno.1977. restringe-se à hipótese clássica ou tradicional na qual o devedor recebe a guarda de 25 . O STF tinha entendimento consolidado de que os tratados internacionais tinham “status” de lei ordinária.343/SP: “O meu entendimento é o de que. inciso LXVII. pois o caráter especial desses diplomas internacionais sobre direitos humanos lhes reserva lugar especial. é forçoso ponderar se. Acredito que a própria mudança constitucional. acena para a insuficiência da tese da legalidade ordinária dos tratados e convenções internacionais já ratificados pelo Brasil. 5º. Considerando que as legislações mais avançadas em direitos humanos proíbem expressamente qualquer tipo de prisão civil.287 do Código Civil de 1916 e com o Decreto-Lei n° 911/69. parte da doutrina tem entendido que o depósito de que trata a norma do art. excepcionando apenas o caso do alimentante inadimplente. no contexto atual. no que se refere à questão específica da prisão civil por dívida. decorrente do descumprimento de obrigações contratuais. haja vista o voto do Min. 652 do Novo Código Civil (Lei n° 10. Assim ocorreu com o art. inexiste uma base legal para a prisão civil do depositário infiel.vêm aprimorar e fortalecer. da Constituição. seja ela anterior ou posterior ao ato de ratificação. Ademais. desde a ratificação dos referidos tratados. estando abaixo da Constituição. 1. da relatoria do Ministro Xavier de Albuquerque (julgado em 1o. em que se pode observar a abertura cada vez maior do Estado constitucional a ordens jurídicas supranacionais de proteção de direitos humanos. É que o status normativo supralegal dos tratados internacionais de direitos humanos subscritos pelo Brasil torna inaplicável a legislação infraconstitucional com ele conflitante.406/2002). a tese da legalidade ordinária dos tratados internacionais. O meu entendimento é o de que. Gilmar Mendes RE 466. há muito adotada por esta Corte.004/SE. não haveria de ser revisitada. trazida pela EC nº 45/2004.6. assim como em relação ao art.1977). pois o caráter especial desses diplomas internacionais sobre direitos humanos lhes reserva lugar específico no ordenamento jurídico. Portanto. inexiste uma base legal para a prisão civil do depositário infiel. desde a ratificação dos referidos tratados.

Ademais.000701-2). nos termos e na extensão acima especificados. 26 . creio ser o caso de deferir a medida liminar. nas quais seja patente o constrangimento ilegal alegado. ii) o inteiro teor da decisão que determinou a prisão civil do ora paciente (Processo no 007.11. reparadora do estado de constrangimento ilegal causado pelas decisões das instâncias inferiores. Segundo jurisprudência firmada por este Supremo Tribunal Federal.determinado bem. Ante os fundamentos expostos. Acredito que a prisão civil do depositário infiel não mais se compatibiliza com os valores supremos assegurados pelo Estado Constitucional. ainda que essas tenham sido proferidas monocraticamente (não conhecimento da causa ou indeferimento de liminar. deverá ser posto em liberdade imediatamente.137/SP . Após. sob a égide da Constituição de 1967/69.000701-2). requisitem-se ao Juízo da 2ª Vara da Comarca de Biguaçu/SC informação com relação aos seguintes elementos: i) se ainda persiste a decretação da prisão civil do depositário. como é o caso destes autos.1995. inconstitucionalidade que tem o condão de fulminar a norma em referência desde a sua concepção. no contrato de alienação fiduciária não haveria um depósito no sentido estrito ou constitucional do termo. mas compartilha com as demais entidades soberanas. e iii) cópia dos principais documentos que ensejaram a decretação da prisão civil do paciente para fins de execução. constato. casos em que se possibilita o afastamento da Súmula n. Outro não foi o entendimento adotado pelos votos vencidos dos Ministros Marco Aurélio. Carlos Velloso e Sepúlveda Pertence no julgamento do HC n° 72. § 4º do CPP. não há dúvida de que a prisão civil do devedorfiduciante viola o princípio da reserva legal proporcional. considerada a plausibilidade da tese do impetrante no caso concreto ora em apreço.131/RJ. Assim sendo. em favor do ora paciente. Caso o paciente já se encontre preso em decorrência de eventual decisão proferida na origem (Autos no 007. a existência dos requisitos autorizadores da concessão da liminar pleiteada. Francisco Rezek. o dever de efetiva proteção dos direitos humanos.01.137/SC pelo Superior Tribunal de Justiça. de cujo teor deverá constar a parte dispositiva mencionada no parágrafo anterior.01. a concessão de medida cautelar em sede de habeas corpus somente é possível em hipóteses excepcionais. que não está mais voltado apenas para si mesmo. e/ou ii) do inteiro teor do acórdão que eventualmente venha a ser proferido no referido habeas corpus. abra-se vista à Procuradoria-Geral da República (RI/STF. Expeça-se salvo-conduto. Ante o exposto. 691 do STF). em contextos internacionais e supranacionais. de 22. 660. incumbindo-se da obrigação contratual ou legal de restituí-lo quando o credor o requeira. art. mas apenas um "depósito por equiparação" ou "depósito atípico" que não legitimaria a incidência da norma constitucional que comina a prisão civil. portanto. Solicitem-se informações ao Superior Tribunal de Justiça acerca: i) da previsão de ocorrência do julgamento de mérito do HC no 77. Desta forma. Ressalvado melhor juízo quando da apreciação de mérito. defiro o pedido de medida liminar. nos termos e para os fins a que se refere o art. em ordem a assegurar ao paciente o direito de permanecer em liberdade até a apreciação do mérito do HC nº 77.

Ao se referir a situações de extrema gravidade. Ministro GILMAR MENDES Relator 1 HC n° 72.053/SP. 2. em constante processo de construção e reconstrução. É o direito que se aplica na hipótese de guerra.870/SP. Na definição de Thomas Buergenthal. Min. Marco Aurélio. náufragos. DJ 20. em caso de guerra. o Direito Humanitário ou o Direito Internacional da Guerra impõe a regulamentação jurídica do emprego da violência no âmbito internacional”. RE n° 206. na busca por dignidade humana.8.482/SP. 3. Maurício Corrêa.8. Publique-se. Rel. Rel.131/RJ.1998.10. Min. o Organização Internacional do Trabalho. a Liga das Nações.035/SC. uma intervenção humana. Brasília. DJ 17. Rel. ADI-MC n° 1.5. A proteção humanitária se destina. Moreira Alves. Min. DJ 4. No âmbito do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos.2003. Min. DJ 18. Min. DJ 1o. 8 de março de 2007. Situam-se como primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos: 1.9. “o Direito Humanitário constitui o componente dos direitos humanos da lei da guerra (the human rights component of the law of war). devem ser eles entendidos como direitos históricos – adoção pelo livro da corrente da historicidade dos direitos humanos – na medida em que estes não são um dado. Min.9. HC n° 79. Rel.2001.192).480/DF. RHC n° 80. a militares postos fora de combate (feridos. Celso de Mello.” Segunda Parte O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Capítulo V PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS a) Primeiros precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito humanitário. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. no intuito de fixar limites à atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. mas um construído. Celso de Mello. doentes.2003. 27 . o Direito Humanitário. o que compõe um construído axiológico emancipatório. DJ 5.2001. Maurício Corrêa. Enquanto reivindicações morais. Rel. prisioneiros) e a populações civis.2000. os direitos humanos são fruto de um espaço simbólico de luta e ação social. Rel. HC n° 77.

torna-se necessária a reconstrução dos direitos humanos como paradigma ético capaz de restaurar a lógica do razoável pós-totalitarismo. paz e segurança internacional.A Liga das Nações. Não seria descipiendo afirmar que a processo de internacionalização dos direitos humanos foi conseqüência da maior violação de direitos que a história já testemunhou. transcendem os interesses exclusivos dos Estados contratantes. Nesse diapasão. como resposta às atrocidades e aos horrores cometidos durante o nazismo que. Logo. apontando para a necessidade de relativizar a soberania dos Estados. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política de seus membros. Em síntese. a verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em meados do século XX. por sua vez. rompe-se ainda com a noção de soberania nacional absoluta. o processo de internacionalização aqui enfocado associa-se diretamente ao Holocausto. veio a reforçar essa mesma concepção. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte dessas violações poderiam ser prevenidas se um efetivo sistema de proteção internacional de direitos humanos existisse”. b) A internacionalização dos direitos humanos – o pós-guerra Contudo. o indivíduo passa a ser sujeito de Direito Internacional. buscava assegurar o convívio amistoso entre as nações. marcado pela destruição e pela descartabilidade da pessoa humana. na medida em que se admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. Os Estados-Partes comprometeram-se a assegurar um padrão justo e digno nas condições de trabalho. Este novo cenário evidencia que o alcance das obrigações internacionais a serem garantidas/implementadas coletivamente a partir de então. mas também dos direitos humanos como matéria de legitimo interesse internacional. Criada após a Primeira Guerra Mundial. em decorrência da Segunda Guerra Mundial. tendo início a consolidação não só da capacidade processual internacional dos indivíduos. Por outras palavras. pela sua própria natureza. Por último. resultou no extermínio de mais de onze milhões de pessoas. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. também contribuiu para o processo de internacionalização dos direitos humanos a Organização Internacional do Trabalho. “o moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-guerra. Segundo Thomas Buergenthal. a Liga das Nações tinha como finalidade promover a cooperação. 28 . Também criada com o fim da Primeira guerra Mundial. E mais.

social e cultural. porque revela tema de legítimo interesse internacional. sob o argumento de que os atos punidos pelo Tribunal de Nuremberg não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. culminando na criação da sistemática normativa de proteção internacional. A partir daí estão lançados. como legítima preocupação da comunidade internacional. c) A Carta das Nações Unidas de 1948 A Segunda Guerra Mundial foi um divisor de águas no que tange à proteção dos Direitos Humanos. A necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção dos direitos humanos impulsionou o processo de internacionalização desses direitos. sobretudo. Digna de nota a enorme polêmica que surgiu com base na alegação de que a condenação dos responsáveis pelo Holocausto fundamentada nos costumes internacionais afrontaria o princípio da legalidade do Direito Penal. 3 O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos a serem protegidos inclusive pelo direito internacional. portanto. adotada a terminologia de Hannah Arendt.A esta época o maior direito passa a ser. cooperação internacional em âmbito econômico. A Carta das Nações Unidas tinha por objetivos a manutenção da paz e da segurança internacional. a proteção aos Direitos Humanos. veio a condenar os nazistas e proporcionou um verdadeiro salto no processo de internacionalização da proteção dos direitos humanos. Sob esse prisma.946. garantir um padrão internacional de saúde.945-1. o que configuraria uma violação ao princípio do juiz natural. com fulcro nos costumes internacionais – os quais possuem eficácia erga omnes –. 29 . garantir relacionamento amistoso entre os Estados. ou melhor. Traduz-se em momento de expansão e internacionalização dos Direitos Humanos. o direito a ter direitos. Os Aliados criaram as Nações Unidas através de Carta assinada em 26 de junho de 1945. e sim como problema de relevância internacional. a proteção ao meio ambiente. a violação dos direitos humanos não pode ser concebida como questão doméstica do Estado. os mais decisivos passos para a internacionalização dos direitos humanos. a constituição de uma nova ordem econômica internacional e. carta esta ratificada pelo Brasil em 21 de setembro do mesmo ano. Os principais órgãos das Nações Unidas são: 3 Essa mudança de paradigma em face das práticas atentatórias aos direitos humanos teve como precedente o Tribunal de Nuremberg que em 1. Serviu ainda o traumático pós-guerra para trazer-nos a certeza de que a proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. o direito a ser sujeito de direitos. que faz possível a responsabilização do Estado no domínio internacional quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na tarefa de proteger os direitos humanos.

Propósito de promoção dos Direitos Humanos – artigos 55 e 56 da Carta das Nações Unidas. que dependem de votos de 2/3 dos presentes votantes para aprovação. dentre outros diplomas normativos veio definir o significado da expressão “Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais”. sem ameaçar a soberania dos Estados nos quais promove tal intervenção. A Organização tem por escopo – e o tem efetivado – compelir os Estados 30 . Carta das Nações Unidas – artigo 1º . • Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer convenções e projetos de Convenções Internacionais para este fim – artigo 62 da Carta das Nações Unidas. Conselho Econômico e Social. Alto Comissário para os Direitos Humanos: Resolução 48/141 de 20/12/93. que são objeto de preocupação internacional e não somente da jurisdição doméstica. recomendações sobre instrumentos de proteção e prevenção à discriminação. A definição foi trazida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 – artigo 1º (3). Carta das Nações Unidas – internacionalizou os Direitos Humanos – Tratado Multilateral. É composto por 05 membros permanentes e 10 não-permanentes com mandato de 02 anos. Corte Internacional de Justiça: Principal órgão jurídico das Nações Unidas. determinado pela Assembléia Geral. respeito aos Direitos Humanos e liberdades fundamentais sem qualquer distinção. Submete ao Conselho questões sobre proteção das minorias. 55. Comissão de Direitos Humanos: composta por 53 membros governamentais eleitos pelo Conselho Econômico e Social. em cooperação com a própria Organização para atingir os propósitos previstos no artigo 55. culturais. Conselho de Segurança: Tem por escopo garantir a paz e segurança internacionais. Promove contatos diplomáticos para a prevenção e coerção de situações de violências maciças. Quem o adere reconhece os Direitos Humanos. desenvolvem análises e votam questões sobre qualquer ponto integrante da Carta.Cooperação Internacional para a solução de problemas econômicos. A adoção da International Bill of Human Rights. Secretariado: Secretário Geral com mandato de 05 anos. Conceito – Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais Trata-se de conceito aberto.Assembléia Geral: todos os integrantes das Nações Unidas dela fazem parte. 13. seguindo o disposto no artigo 13 da Carta. 56 e 62. de caráter humanitário. Coordena atividades do sistema das Nações Unidas de proteção aos Direitos Humanos. O artigo 56 reafirma o dever de todos os membros das Nações Unidas de exercer ações conjuntas ou em separado. • Cabe à Assembléia Geral desenvolver estudos e fazer recomendações a respeito.

de 1776. conscientemente.). Devem observar resoluções feitas pela ONU que exigem que os Estados cessem com as violações de modo a fortalecer a Comissão de Direitos Humanos da ONU e suas subsidiárias. tendo em vista que. bem como aliar o valor da liberdade ao da igualdade. moral e intelectual. a comunidade internacional reconheceu que o indivíduo é membro direto da sociedade humana. A existência de questionamento. a Assembléia Geral. reserva ou mesmo votação contrária à Declaração a alçou ao patamar de Código ou Plataforma comum de ação. Sua segunda característica é a universalidade: é aplicável a todas as pessoas de todos os países. sobretudo de violações de maior gravidade. 153. No final do século XVIII as principais Declarações representativas do momento histórico eram a Declaração de Direitos Francesa. proclamou a Declaração Universal.. Naturalmente. era denominada Declaração Internacional. Sociais e Culturais. Compreende um conjunto de direitos e faculdades sem as quais um ser humano não pode desenvolver a sua personalidade física. na condição de sujeito direto do Direito das Gentes.Membros a criar instituições com base na Carta das Nações Unidas para assegurar o cumprimento e observância dos direitos fundamentais pelo Estado. rodapé n. estabelecendo procedimentos para apreciar as alegações. seja qual for o regime político dos territórios nos quais incide. graças à minha proposição. p. Ao finalizar os trabalhos. 31 .. pelo fato mesmo da proteção internacional que lhe é assegurada. elaborada a partir de nossos debates no período de 1947 a 1948. acrescidos do direito à resistência e opressão. Conceito de Reneé Cassin sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos (letra D. religiões e sexos. Ao fazê-lo. por sua amplitude. antes de concluir. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 Aprovada em 10 de dezembro de 1948. Essa Declaração se caracteriza. Trata-se de conjugação entre o discurso liberal e social da cidadania. até então. A Declaração estabelece duas categorias de direitos: 1) Direitos Civis e Políticos. datada de 1789 e tinha ótica contratualista liberal e a Declaração de Direitos Americana. que entendia que os Direitos Humanos eram apenas os atinentes a liberdade. é cidadão de seu país. Tais são as características centrais da Declaração (. criando consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. por 48 votos a zero e nenhuma abstenção. segurança e propriedade. primeiramente. Perspectiva histórica – Dicotomia entre liberdade e igualdade enquanto direitos. 155 – 3ª edição: “Seja-me permitido. mas também é cidadão do mundo. 2) Direitos Econômicos. ao longo dos trabalhos. raças. resumir as características da Declaração.

32 . econômica e cultural que dependesse de intervenção do Estado. elencando inúmeros direitos econômicos. Elaboração da Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado da URSS. liberdades civis (pensamento. a ser agente de processos transformadores dada a emergência dos direitos a prestação social. Já os chamados Direitos Sociais foram introduzidos no Estado Social. e tendo a igualdade como direito basilar. de Segunda Geração os direitos sociais. Sociais e Culturais (instrução e participação na vida da comunidade). presunção de inocência e remédios constitucionais). Direitos de Subsistência (alimentação e padrão de vida adequado). 6. Diante de tal contexto. Os direitos de Terceira Geração. Surgem então as chamadas gerações de direitos. 3. também denominados direitos de fraternidade. por sua vez. A contenção do poder do Estado gerou. inclusive. Os Direitos Civis e políticos correspondem à fase inaugural do fenômeno da Constitucionalização no Ocidente. discurso social da cidadania. sociais e culturais. crença). 7. liberdade e fraternidade. 5. A não-atuação estatal significa liberdade. visto que tais direitos passam a ser vistos como unidade interdependente e indivisível. a idéia dos direitos fundamentais e da divisão de poderes. judiciais (acesso à justiça. 2. Não há que se falar em direito à liberdade quando não assegurado o direito à igualdade. pois combina o discurso liberal de cidadania com o discurso social. Cenário pós-1ª guerra: Discurso liberal da cidadania. Daí o primado do valor da liberdade. a Declaração de 1948 se traduz em manifesta inovação. econômicos e culturais e os de Terceira Geração. fundado nas idéias de Montesquieu e Rousseau. também denominados Direitos de Fraternidade destinam-se a todo o gênero humano. francamente inspiradas no lema da Revolução Francesa: igualdade. Jack Donnely afirma que a Declaração de 1948 enuncia as seguintes categorias de direitos: 1. 22 a 28). econômicos e culturais (art. com supremacia dos Direitos Civis e Políticos e ausência de previsão de quaisquer direitos de ordem social. em 1917 – Passa-se ao primado da igualdade em que o Estado passa a ter deveres prestacionais. tratando-se de direitos prestacionais do Estado. Aliada à Constituição de Weimar (1919) e à Constituição mexicana (1917). Direitos Políticos. elencando direitos civis e políticos (artigos 3º a 21) e direitos sociais. A conjugação dos valores liberdade/igualdade marca a concepção contemporânea dos Direitos Humanos. pessoais. O Estado deveria respeitar os Direitos Fundamentais. primaram por um discurso social de cidadania. sendo os chamados Direitos de Primeira Geração os civis e políticos.A figura da Constituição surge tendo o papel de garantia aos cidadãos contra o arbítrio do Estado Absolutista. 4. Econômicos (direito ao trabalho).

2. tendo por escopo promover o reconhecimento universal dos Direitos Humanos e liberdades fundamentais. mas foi admitida pela Assembléia Geral como resolução (sem força de lei).Cumpre ressaltar que uma geração de direitos não substitui outra. bem como pela força jurídica da Declaração. assim. que em verdade se traduzem em uma unidade indivisível de direitos que visa idéia de expansão. parte de três pressupostos: 1. 33 . Enquanto Direito Costumeiro Internacional. de 1993. razão pela qual forçosamente se conclui pela eficácia obrigatória e vinculante. por isso. constituindo. a Declaração de 1948 demarca a Teoria Contemporânea dos Direitos Humanos (direitos humanos universais e admissão de diversas gerações de direitos de forma concomitante). obrigação dos membros da comunidade internacional observá-los e protegê-los. A Declaração não é um tratado. Tal concepção foi reafirmada no artigo 5º da Convenção de Viena. 3. decisões proferidas por cortes nacionais que se referem à Declaração como fonte de Direito. qualquer que seja o tipo a que pertencem. em que diferentes direitos estão necessariamente ligados e são interdependentes. adotada ainda pela autora Flávia Piovesan. promover o respeito e observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. por sua vez. Não existe uma sucessão geracional de Direitos Humanos. Trata-se ainda de interpretação autorizada da expressão “Direitos Humanos” prevista no artigo 1º (3) e 55 da Carta das Nações e compele os Estados a assumirem o compromisso de assegurar a tais direitos respeito universal e efetivo. suas proposições devem se aplicar a todos os Estados. único e indivisível. Deve servir como um norte aos países integrantes das Nações Unidas. se inter-relacionam necessariamente entre si. e não somente aos signatários da Declaração. Justiça social e liberdade apresentam-se aqui como premissas intimamente ligadas. que considera tais direitos invioláveis e inalienáveis. que deverão. Há quem defenda que a Declaração integra o Direito Costumeiro Internacional e/ou os Princípios Gerais do Direito. Estabelece a Resolução 32/130 da Assembléia Geral das Nações Unidas que “todos os direitos humanos. Por isso é que ao invés de geração melhor se afigura a expressão “dimensão”. Por todo o exposto. O não cumprimento de uma acarreta o total esvaziamento da outra. Tal corrente. a incorporação pelas constituições nacionais de previsões da Declaração Universal de Direitos Humanos. A Declaração de Teerã de 1968 foi endossada pela Assembléia Geral da ONU como importante reafirmação aos direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os Direitos Humanos constituem complexo integral. possuindo. e são indivisíveis e interdependentes”. conciliação e fortalecimento. referências constantes à Declaração feitas por resoluções das Nações Unidas à obrigação legal de todos os Estados observarem suas proposições. força vinculante.

fortes resistências dos aspectos do movimento do relativismo cultural.A Declaração certamente constitui um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX. consolidando parâmetro de proteção para os mesmos. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos demarcada pela Declaração sofreu e sofre. Daí a adoção de expressões como “todas as pessoas” (ex: “todas as pessoas têm direito à vida” – art. cada cultura possui seu próprio discurso acerca dos direitos fundamentais. justa e eqüitativa. na ótica universalista. Na ótica relativista há o primado do coletivismo. caberia mencionar a adoção da prática da clitorectomia e da mutilação feminina por muitas sociedades da cultura não ocidental. A Declaração de Viena. ainda que a prerrogativa de exercer a própria cultura seja um direito fundamental. Assim sendo. Debate entre universalistas e os relativistas culturais retoma o velho dilema sobre o alcance das normas de direitos humanos. adotada em 25 de junho de 1993. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. interdependentes e interrelacionados. Para Antônio Cassesse. há o primado do individualismo. a Declaração possui ainda o poder de “deslegitimar” Estados que sistematicamente violem suas disposições. importará em violação a direitos humanos. fazendo com que os mesmos percam aprovação pela comunidade mundial. Tem profundo impacto nas ordens jurídicas nacionais que absorvem suas proposições em suas constituições e a tem por base legal para proferir decisões judiciais. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. nenhuma concessão é feita às “peculiaridades culturais” quando houver risco de violação aos direitos fundamentais. o ponto de partida é a coletividade e o indivíduo é percebido como parte integrante da sociedade. indivisíveis. estabelece em seu artigo 5º: “Todos os direitos humanos são universais. uma vez que buscam assegurar a proteção universal dos direitos e liberdades fundamentais. Tem como maior significado o reconhecimento dos Direitos Humanos pelos Estados. Os instrumentos internacionais de direitos humanos são claramente universalistas. ainda que em nome da cultura. 2º da Declaração) e “ninguém” (ex: “ninguém poderá ser submetido à tortura”). Isto é. Para os relativistas. entretanto. Qualquer afronta ao “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. Diversamente. se impondo como código de atuação e conduta para os Estados integrantes da comunidade internacional. Estimula ainda a criação de medidas de proteção e de resoluções versando sobre o assunto pelas Nações Unidas. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. Como ilustração. Embora particularidades 34 .

v. Para Antônio Augusto Cançado Trindade: “compreendeu-se finalmente que a universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. 35 . a chamada “international accountability”. p. a compor o multiculturalismo emancipatório (in Uma concepção multicultural de direitos humanos. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. com respeito à diversidade e com base no reconhecimento do outro. também. discursivo de diálogo. 39. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos” (in A proteção Internacional dos direitos humanos no novo século e as perspectivas brasileiras. (in Direitos Humanos. um universalismo de ponto de chegada e não de ponto de partida. p. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção internacional dos direitos humanos. No mesmo sentido. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. 7). p. culturais e religiosos. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas como pressuposto para um diálogo intercultural. examinou-se o modo como os direitos humanos se converteram em tema de legítimo interesse internacional. sejam quais forem seus sistemas políticos. Capítulo VI A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS a) Introdução No capítulo anterior. Revista Lua Nova. transcendendo o âmbito estritamente doméstico. em defesa de uma concepção multicultural de direitos humanos. mas são incompletas. ou seja. Ao universal há que se chegar depois (e não antes) de um processo conflitivo. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. como ser pleno de dignidade e direitos. interculturalidade e racionalidade de resistência. a visão de Boaventura de Sousa Santos. 112). é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. inspirada no diálogo entre as culturas.nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. O autor defende a necessidade de superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. econômicos e culturais”. alcançado por um universalismo de confluência. 173) Destaca-se. o que implicou o reexame do valor da soberania absoluta do Estado. Joaquín Herrera Flores sustenta um universalismo de confluência. Acredita-se que a abertura do diálogo entre as culturas. assim como diversos contextos históricos.

não apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados em 1966 pela Assembléia Geral das Nações Unidas. determinou fossem elaborados dois pactos em separado. discriminação racial. interamericano e africano. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. Sociais e Culturais entraram em vigor apenas dez anos depois. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois pactos internacionais. Atente-se que o Direito Internacional dos Direitos Humanos situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. em 1951. que fosse juridicamente obrigatório e vinculante no âmbito do Direito Internacional. assim. Sociais e Culturais. em 1976. À luz desse raciocínio. No início de suas atividades (de 1949 a 1951). no sentido de enfatizar a unidade dos direitos neles previstos. Contudo. o sistema global de proteção desses direitos.Insta relembrar que a Carta da ONU de 1945. que conjugava as duas categorias de direitos. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridiciada” sob a forma de tratado internacional. ao lado do que já delineava o sistema regional. a Assembléia Geral. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. “International Bill of Rights”. tendo em vista que somente nesta data alcançaram o número de ratificações necessário para tanto. sob a influência dos paises ocidentais. se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. a Declaração Universal. no sentido de permitir sejam superadas suas omissões e deficiências. Contudo. mas simultâneos. tortura. Esse processo de “juridicização” culminou na elaboração de dois tratados internacionais distintos: Pacto Internacional dos Direito Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. haja vista ter a força de uma declaração (e não de um Tratado). em seu artigo 55 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais. discriminação contra as mulheres. nos âmbitos europeu. sob um enfoque estritamente legalista (não compartilhado por este trabalho). O sistema global foi ampliado com o advento de diversos tratados multilaterais de direitos humanos. violação dos direitos das crianças. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. como genocídio. A partir da elaboração desses Pactos. etc. em si mesma. 36 . instaurou-se larga discussão sobre qual seria a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e a observância universal dos direitos nela previstos.

O Pacto admite a derrogação temporária de alguns direitos. desde que haja estado de emergência. segurança pessoal. contudo. Os principais direitos e liberdades cobertos pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos são: vida. O Pacto dos Direitos Civis e Políticos permite ainda limitações em relação a determinados direitos. econômicos e culturais eram programáticos.Para os países ocidentais. e que entrou em vigor em 11 de julho de 1991. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública (ex: art 21 e 22). direito a reunião pacífica. etc. proibição de tortura e tratamento cruel. Há. direito à autodeterminação. direito à liberdade de pensamento. instituído pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. segundo a qual os Estados-partes. religião. ainda. contava com 57 Estadospartes. ao ratificarem o Pacto. adotado em 15 de dezembro de 1989. não ser sujeito a prisão arbitrária. e demandavam realização progressiva. direito de ser reconhecido como pessoa. Os direitos previstos no Pacto. liberdade de pensamento. Outrossim. direito de votar e tomar parte no Governo. não ser submetido a tortura. e devem ser encaminhados em um ano a 37 . O Pacto dos Direitos Civis e Políticos proclama o dever de cada Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações de direitos civis e políticos. a vedação contra a pena de morte. direito de não ser preso por descumprimento contratual. proteção dos direitos das minorias. a fim de ver implementados os direitos enunciados. O Pacto desenvolve uma sistemática de monitoramento e implementação dos direitos (“special enforcement machinery”). administrativas e judiciárias adotadas. passam a ter a obrigação de encaminhar relatórios sobre as medidas legislativas. mas não na Declaração Universal são: direito de não ser preso em razão de descumprimento contratual. o pacto não só incorpora inúmeros dispositivos da Declaração. consciência. estabelece direitos inderrogáveis: vida. nacionalidade. instituída pelo Segundo Protocolo ao Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. direito ao nome e à nacionalidade. com maior detalhamento (basta comparar os artigos 10 e 11 da Declaração com os artigos 14 e 15 do Pacto). era necessária a elaboração de dois pactos distintos porque os direitos civis e políticos eram auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata e os direitos sociais. entre outros. Esses relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. No tocante ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos. Em maio de 2006. como ainda estende o elenco desses direitos. liberdade. não ser escravizado. ainda NÃO o ratificou. proibição da propaganda de guerra. proibição de escravidão e servidão. O Brasil. As obrigações são tanto de natureza negativa (ex: não torturar) como positiva (ex: prover um sistema legal capaz de responder às violações de direitos).

vem acionar a essa sistemática um importante mecanismo. 38 . Esta nova sistemática permite que indivíduos apresentem petições denunciando violações de direitos enunciados no Pacto. O Comitê de Direitos Humanos é integrado por 18 membros nacionais dos Estados-partes e por eles eleitos. O Pacto também estabelece a sistemática das comunicações interestatais (“inter-state communications”). Como esclarece Antônio Augusto Cançado Trindade: “o vinculo exigido. as comunicações interestatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos (denunciador e denunciado) reconhecerem e aceitarem a competência do Comitê para recebê-las e examiná-las. Assim a importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. A petição ou comunicação individual só será permitida se o Estado membro tiver ratificado tanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos como o Protocolo Facultativo. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou a violação dos direitos humanos que denuncia”. Cabe observar que recentemente. que traz significativos avanços ao âmbito internacional. Em se tratando de cláusula facultativa. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado.contar da ratificação do Pacto e sempre que solicitado pelo Comitê. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos O Protocolo Facultativo. adotado em 16 de dezembro de 1966. Ao Comitê cabe examinar e estudar relatórios. segundo a qual um Estado-parte pode alegar que outro está violando direitos humanos enunciados no Pacto. nos termos do artigo 41. já que só assim o Estado terá reconhecido a competência do Comitê para tanto. principalmente no âmbito da internacional accountability. o Comitê de Direitos Humanos concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. 46 haviam feito essa declaração. Até maio de 2006. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações interestatais. a serem apreciadas pelo Comitê de Direitos Humanos. ao invés da nacionalidade. que aleguem ser vítimas de violação de direitos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Contudo. As petições só podem ser propostas contra Estados partes no pacto que tenham ratificado o protocolo. Trata-se do mecanismo das petições individuais. instituídos pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. tecendo comentários e observações gerais a respeito. dos 156 Estados-partes do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.

tal decisão não tem força obrigatória ou vinculante. poderá recomendar ações necessárias em respeito as vítimas. a partir de 1990. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais. Embora não exista sanção no âmbito jurídico. Contudo. O Comitê assim. Os esclarecimentos são então encaminhados para o autor da comunicação que poderá enviar informações adicionais. pelo voto da maioria dos membros presentes. como o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostrarem injustificadamente prolongada. o Comitê criou a figura do Special Rapporteur for the Follow-up of views . ainda é grande a resistência de muitos estados em consentir que indivíduos tenham poder de encaminhar petições individuais. Todavia. ou ainda se não se assegurar à vítima o acesso aos recursos de jurisdição interna. bem como medidas que tenham sido eventualmente adotadas. o Estado dispõe do prazo de 06 meses para submeter ao Comitê explicações e esclarecimentos sobre o caso. como também apontará os Estados que satisfarão a decisão do Comitê. Ao decidir o Comitê não apenas declara a violação alegada a direito previsto no pacto como também pode determinar que o Estado repare a violação cometida.A petição individual deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade previsto no artigo 5º do Protocolo. considerando todas as informações colhidas. adotou novas medidas para fiscalizar e monitorar os Estados signatários. que clamam que nenhum remédio apropriado foi tomado. assumindo independência na arena internacional para acusá-los da inobservância de determinado direito. Tal como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. com essas novas medidas o Comitê agora solicita ao Estado – membro informações sobre as ações adotadas em relação ao caso. Satisfeitos tais requisitos de admissibilidade e recebida a comunicação pelo Comitê. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que falharam em prover um remédio eficaz à vítima. embora esforços sejam empenhados no sentido de alcançar votação unânime. a condenação do Estado pode trazer conseqüências no plano político e moral ao Estado violador. O comitê de direitos humanos. Assim. proferirá uma decisão. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e 39 . o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. ou inexistir no Direito interno o devido processo legal. Outro requisito de admissibilidade é a comprovação de que a mesma questão não está sendo questionada em nenhum outra instancia internacional. que podendo comunicar-se diretamente com os governos e com as vítimas. Por fim. em prazo não superior a 180 dias.

o núcleo essencial mínimo. o direito a um nível de vida adequado.. Sociais e Culturais enuncia um extenso catálogo de direitos. Os direitos sociais são endereçados aos Estados e o Pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a. o minimum core obligation relativamente a cada direito enunciado no Pacto.. o Pacto dos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais não estabelece o mecanismo de comunicação interestatal e tampouco permite a sistemática das comunicações individuais.. ensejando a responsabilização internacional em caso de violação dos direitos que enuncia. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes assegurar. não se faz possível em curto período de tempo. econômicos e culturais não são direitos legais. A sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla inclui o mecanismo de relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes.vinculantes. ao incluir o direito ao trabalho e à justa remuneração. Além disso. O Comitê de Direitos Econômicos. 40 . até o máximo de recursos disponíveis. ao menos. Os direitos sociais apresentam realização progressiva. expandindo o elenco dos direitos previstos na Declaração Universal.. sociais e culturais são autênticos e verdadeiros direitos fundamentais e a obrigação de implementar esses direitos deve ser compreendida à luz do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. o direito a formar e a associar-se a sindicatos. o direito à moradia. o direito à previdência social. mediante protocolo adicional. está superada a concepção de que os direitos sociais. Diversamente do Pacto dos Direitos Civis e Políticos. o direito à educação. sociais e culturais decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social ou redução de políticas públicas voltadas à garantia de tais direitos. isoladamente e por meio da assistência e cooperação internacionais. mediante a sistemática international accountability. Esse pacto criou obrigações legais aos Estados-partes. Os direitos econômicos. em geral. embora a Convenção de Viena tenha recomendado a incorporação do direito de petição a esse Pacto. que confere aplicabilidade imediata aos direitos nele enunciados. o direito à saúde e o direito à participação na vida cultural da comunidade. condicionados à atuação do Estado. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. que deve adotar medidas econômicas e técnicas. “ e não mais a fórmula usada no Pacto dos Direitos Civis e Políticos “todos têm direito a.”. A implementação progressiva reflete o reconhecimento de que a realização integral e completa desses direitos. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. A natureza da obrigação é significativamente distinta da obrigação requerida no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.

econômicos e culturais. provocariam imediato repúdio internacional. Em geral. aprofundando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. dentre outras. No entanto. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. Com o advento da International Bill of Rights. econômicos e culturais é resultado tanto da ausência de forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. Os direitos fundamentais – sejam civis e políticos. assim como em suas resoluções em disputas privadas. em parte. Social and Cultural Rights: “Com efeito.. A elaboração dessas 41 . Quanto ao debate sobre a acionabilidade dos direitos sociais. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. portanto. de condições econômicas. A globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. a violação dos direitos sociais. Fica. democracia. com todas as suas tragédias e problemas. mas também quando interpretam legislações de Direito econômico. um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. econômicos e culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. miséria e negligência.) Direitos sociais. trabalhista e ambientalista. sejam sociais. econômicos e culturais que.A idéia de proteção a esses direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. incluindo fluxos adicionais de refugiados e migrantes. (. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. É. a comunidade internacional continua a tolerar freqüentes violações aos direitos sociais. Além disso. marco do processo de proteção internacional dos direito humanos. estabilidade e paz não podem conviver com condições de pobreza crônica. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. essa insatisfação criará grandes e renovadas escalas de movimentos de pessoas. algumas sobre direitos novos. sociais e culturais. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. por fim. denominados ’refugiados econômicos’. se perpetradas em relação aos direitos civis e políticos. o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committe on Economic.. compartilha-se da visão de que “a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais parece ignorar a sua histórica e contínua intervenção nesta área. nas quais todos nós vivemos. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas.

mas ao indivíduo “especificado”. correspondente ao ideal de justiça social e distributiva.inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. propondo o desenvolvimento de uma concepção bidimensional da justiça. raça. idade. Esta concepção trata da redistribuição e do reconhecimento como 42 . às vítimas de tortura e de discriminação racial. orientação sexual. Na visão de Bobbio. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. as organizações sindicais. refletindo o próprio temor da diferença (que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição). As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. raça. aos idosos. idade. considerando categorizações relativas ao gênero. etc. em face de sua própria vulnerabilidade. etnia e demais critérios. que ao seu tempo foi crucial para a abolição de privilégios. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. que merecem tutela especial. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. Para Nancy Fraser. fundamentalmente. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. o sujeito é visto em sua abstração. resultou um complexo sistema internacional de proteção. b) a igualdade material. incluindo os indivíduos. às mulheres. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. orientada pelos critérios gênero. Ou seja. a justiça exige. c) igualdade material. Destacam-se. etnia. redistribuição e reconhecimento de identidades. mas sim para promoção de direitos. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. simultaneamente. assim. a diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. alargando o conceito de sujeito de direitos. se uma primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. O processo de internacionalização dos direitos humanos. Na esfera internacional. ou seja. percebe-se. entre outros. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). igualdade orientada pelo critério sócio-econômico. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. as entidades de classe. mas também aumentou a titularidade de direitos. posteriormente. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. buscam responder a uma específica violação de direito.

em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. progressivamente. alimente ou reproduza as desigualdades”. ao abordar o tema afirmou que “temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. Ao ratificar esta convenção. compete ao Comitê a apreciação dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e. Convenção sobre os Direitos das Crianças. em regra. Boaventura de Sousa Santos. Pela Convenção. abarca ambas em um marco mais amplo. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. Em geral. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. Convenção contra a Tortura. a discriminação significa toda distinção. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. Desde o seu preâmbulo. Essas Convenções mencionadas apresentam. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. se se tratar da hipótese. assegurando a efetiva igualdade. dentre outros. em igualdade de condições. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. o Estado assume a obrigação internacional de. Sem reduzir uma à outra. a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial apresentou como marco histórico o ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. em julho de 2007. eliminar a discriminação racial. exclusão. com 173 Estados-partes. A Convenção contava. cabe também ao Comitê receber e considerar as comunicações interestaduais e as petições individuais. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial Adotada pela ONU em 21 de dezembro de 1965. O combate à discriminação racial é medida fundamental para que se 43 .perspectivas e dimensões distintas da justiça.

44 . Podemos destacar entre os direitos consagrados pela Convenção o direito à igualdade perante a lei. objetivam acelerar o processo de igualdade. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. além do combate à própria discriminação. além da habilitação do Comitê. significa a inclusão social. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. as ações afirmativas objetivam transformar a igualdade formal em igualdade material e substantiva.garanta o pleno exercício dos direitos civis e políticos. o direito a tratamento equânime perante os Tribunais e perante os órgãos administradores da justiça. Para que seja admitida a petição individual. 1º. econômicos e culturais. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. cabendo a este examinar as petições individuais. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. é publicada no relatório anual do Comitê. A decisão do Comitê. é destituída de força jurídica obrigatória ou vinculante. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. também conhecidas como ações afirmativas. não basta a legislação repressiva. mister. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. à luz dessas informações. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. No tocante ao seu sistema de monitoramento. Contudo. A igualdade. tal como a decisão do Comitê de Direitos Humanos. por sua vez. buscada na Convenção. Assim. como também dos direitos sociais. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. Ou seja. assegurando a diversidade e pluralidade social. §4º a possibilidade de discriminação positiva. o direito à segurança e à proteção contra a violência. o direito ao voto. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. buscando remediar um passado discriminatório. para assegurar a igualdade. No combate à discriminação. fazendo recomendações às partes. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. a igualdade e a exclusão pairam sob o binômio inclusão-exclusão. entre outros. Enquanto políticas compensatórias adotadas para aliviar e remediar as condições resultantes de um passado discriminatório. que é. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. contudo. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. formula a sua opinião.

exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. social. Desse modo.g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Tendo como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. cultural ou mesmo legal. esta Convenção contava com 185 Estados-partes). que em muitas sociedades confina a mulher ao espaço exclusivamente doméstico da casa e da família. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. assegurando a efetiva igualdade. Ao ratificar esta convenção. a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. independentemente de seu estado civil. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados (até julho de 2007. exercício pela mulher. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. Discriminação contra mulher significa “toda distinção. Isto reforça o quanto a implementação dos direitos humanos das mulheres está condicionada à dicotomia entre os espaços público e privado. no dizer de Andrew Byrnes: “a Convenção reflete a 45 . ambos em 1975. Trata do princípio da igualdade seja como obrigação vinculante. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. Isto é. o Estado assume o compromisso de. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importantes medidas a serem adotadas pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. com base na igualdade do homem e da mulher. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. cultural e civil ou em qualquer outro campo”. gozo. esta Convenção foi aprovada pelas Nações Unidas em 1979. econômico. progressivamente. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade entre homens e mulheres na família. seja como objetivo.

Quanto aos mecanismos de monitoramento. Apenas em 1999. senão vejamos: 46 . concluindo-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. que permitiria a um Estado-parte denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. bem como para realizar investigações in loco. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. Flavia Piovesan sugere a introdução de um mecanismo de petição individual. desumanos ou degradantes. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. ao enfatizarem que os direitos da mulher são partes inalienável. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. h) Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades”. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. Importa observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. foi adotada a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. ainda. Em 1993. na medida em que tal mecanismo constitui o mais eficiente sistema de monitoramento dos direitos humanos internacionalmente anunciados. A Declaração estabelece. que define a violência contra a mulher como um padrão de violência específico. Uma segunda proposta seria a introdução de um mecanismo de comunicação interestatal. mas também alcança o domínio privado.visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. O artigo 1º da Convenção em análise expõe a definição da tortura. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. mediante a elaboração de um Protocolo Facultativo à Convenção. A proteção internacional das mulheres foi reforçada com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). que causa morte. embora a violência seja uma grave discriminação. não invocando qualquer costume. adicionalmente. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. integral e indivisível dos direitos humanos universais. baseado no gênero.

é infligido intencionalmente a uma pessoa. inciso XLIII. a inflição de dor e a finalidade do ato. físico ou mental. A Constituição Federal de 1988 foi a primeira Carta Magna brasileira a consagrar a tortura como crime. Da concepção acima transcrita. c) vinculação do agente ou responsável. ou ainda por instigação dele ou com o seu consentimento ou aquiescência”. extraem-se três elementos essenciais para caracterização do delito de tortura. Coube a Lei n. de intimidar ou coagir ela ou uma terceira pessoa. No Brasil. tal como um delito inafiançável. O Brasil ratificou a Convenção da ONU em 28 de setembro de 1989 e a Convenção Interamericana em 20 de julho de 1989. quais sejam: a) b) inflição deliberada de dor ou sofrimentos físicos mentais. intimidação ou coação e qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). esse nexo configura um aumento de pena 47 . Desumanos ou Degradantes (ONU) data de 28 de setembro de 1984.“designa qualquer ato pelo qual uma violenta dor ou sofrimento. sendo que essa norma brasileira só conjuga dois dos elementos essenciais para caracterização do crime. insuscetível de graça ou anistia.455 de 1997 a tipificação autônoma e específica do crime de tortura. Cabe tecer a distinção entre as regras brasileiras e da Convenção da ONU no que se refere à tortura. direta ou indiretamente. disposto em artigo 5º. por ele respondendo mandante. finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. com o fim de se obter dela ou de uma terceira pessoa informações ou confissão. ao passo que a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura é de 09 de dezembro de 1985. 9. No que diz respeito ao histórico das normas. para configuração de é do agente/responsável tortura com o Estado. até então punida como forma de lesão corporal ou constrangimento ilegal. ou por qualquer razão baseada em discriminação de qualquer espécie. Vejamos então um quadro comparativo entre a lei brasileira e a Convenção da ONU sobre a tortura: Lei nº 9455/97 só se refere a discriminação racial e religiosa não requer a vinculação pela do Convenção da ONU menciona discriminação qualquer natureza a vinculação agente/Estado requisito crime. executor e os que se omitiram quando podiam evitá-lo. de puní-la por um ato que ela ou uma terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido. com o Estado. aplicação de castigo. quando tal dor ou sofrimento é imposto por um funcionário público ou por outra pessoa atuando no exercício de funções públicas. a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. quais sejam.

48 . o documento internacional estabelece três mecanismos: 1 – comunicação ou petição individual. de maneira que nenhuma “circunstância excepcional (. Vale frisar que a maioria das convenções internacionais somente conta com a técnica do relatório para fiscalização dos direitos protegidos. Para o encaminhamento das comunicações ao Comitê exige-se que o Estado-parte emita uma declaração. Atinente à jurisdição contra a tortura. inciso I da lei) Em relação a essas distinções. no tocante ao fator discriminatório.jurisdição compulsória: porque obriga o Estado-parte a punir os torturadores. na medida em que a tortura elevada a crime de ordem internacional justifica-se quando sua prática revela a perversidade do Estado que. tal como por orientação sexual.. O tratado em comento prevê a publicidade das decisões.. Com relação aos requisitos do delito. auxiliam no exercício dos direitos humanos reconhecidos internacionalmente. As decisões do Comitê contra a tortura baseiam-se em todas as informações coletadas do caso e. 3 – comunicação interestatais. haja vista o elevado número de denúncias envolvendo outras espécies de discriminação. parágrafo 4º. de protetor de direito passa a ter agentes violadores dos mesmos. independentemente do território onde a violação tenha ocorrido ou da nacionalidade do agente e da vítima. nos termos do artigo 2º. a restrição imposta pela lei brasileira é descabida. embora não sejam legalmente vinculantes e obrigatórias.) ou qualquer outra emergência pública poderá ser invocada como justificativa para a tortura”. aponta as seguintes características: . Flávia Piovesan explicita que. do contrário o Comitê não as admitirá. 2 – relatórios dos Estados-partes. as quais. o Comitê solicitará ao Estado violador informações sobre as ações adotadas para satisfazer o cumprimento da sua decisão. concluindo-se pela existência de violação ao direito consagrado pela Convenção. entende ser mais adequada a concepção trazida pela Convenção.jurisdição universal: porque o Estado-parte onde se encontra o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite.(artigo. 2. A Convenção estipula ainda a impossibilidade de derrogação da proibição contra a tortura. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. . Quanto ao Sistema de Monitoramento dos direitos consagrados pela Convenção. de forma a habilitar esse órgão a receber as petições.

o artigo 227 da Constituição Federal de 1988. Destarte. bem como defende a estipulação dos direitos da criança como prioridade em todas as atividades das Nações Unidas na área dos direitos humanos. a prostituição e a pornografia infantis. Ao ratificarem a Convenção. com vistas a apoiar a implementação dessa Convenção. com o objetivo de fortalecer o rol de medidas protetivas no tocante à violações sobre as quais discorrem. até 2001). i) Convenção sobre os Direitos da Criança Adotada em 1989 e vigente desde 1990. a fim de erradicar a prática da tortura no mundo. considera-se criança “todo ser humano com menos de dezoito anos de idade. Em relação à exploração econômica e sexual das crianças. a maioridade seja alcançada antes”. abarcando todas as áreas tradicionalmente definidas no campo de direitos humanos (civis. Exige-se ainda que promovam. políticos. adotando tal noção. constitui o tratado internacional de proteção de direitos humanos com maior número de ratificações (191 Estados-partes. em 25 de maio de 2000 foram adotados dois Protocolos Facultativos à Convenção. os Estadospartes se comprometem a proteger a criança de todas as formas de discriminação e a assegurar-lhe assistência apropriada.Destaca-se uma peculiaridade do Comitê contra a tortura: o poder de iniciar investigação própria quando recebem informações compostas de fortes indicadores da prática sistemática da tortura em certo Estado-parte. Em julho de 2002 adotou-se um Protocolo Adicional à Convenção contra a tortura. Seus principais aspectos são: 1º Protocolo: impõe aos Estados-partes a obrigação de proibirem a venda das crianças. em conformidade com a lei aplicável à criança. No Brasil. cuja finalidade é estabelecer um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. No que toca aos direitos assegurados pela Convenção. a criminalização dessas condutas (artigo 3º). assim como à participação destas em conflitos armados. econômicos. Nos termos do artigo 1º do documento. o mencionado instrumento é extraordinariamente abrangente em escopo. sociais e culturais). a Convenção acolhe a concepção de desenvolvimento integral da criança. A Declaração de Viena incentiva a promoção da cooperação e da solidariedade internacionais. 2º Protocolo: estabelece que os Estados-partes devem tomar todas as medidas possíveis para assegurar que os membros das forças armadas (artigo 1º) ou de qualquer 49 . reconhecendo-a como sujeito de direito que exige proteção especial e absoluta prioridade. como medida mínima. a não ser que. como ensinam Henry Steiner e Philip Alston.

conta-se apenas com o exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes ao Comitê sobre os Direitos da Criança. O artigo 2º do citado tratado define como crime de genocídio “qualquer dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir. é importante destacar que nenhum dos dois protocolos encontra-se em vigor. c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial. enfatiza que somente em 1998 o sistema global passou a contemplar um órgão jurisdicional penal competente para julgar os mais graves crimes que atentem contra a ordem internacional. O Brasil ratificou a Convenção sobre os direitos da Criança em 25 de setembro de 1990. No que tange ao Sistema de Monitoramento. A Convenção para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio consubstancia o primeiro tratado internacional de proteção dos direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. no todo ou em parte. Os protocolos facultativos não inovaram em termos de mecanismo de fiscalização. b) causar lesão grave à integridade de física ou mental de membros do grupo. d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo. sejam elas governantes.haja vista a ausência de tal característica nos comitês internacionais -. j) Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. não introduzindo a sistemática de petições e comunicações interestatais. já os protocolos facultativos em 24 de janeiro de 2004. 50 . não participem diretamente das disputas. adotado em 09 de dezembro de 1948. assim como a adoção do mecanismo de petição individual por todos os instrumentos internacionais correlacionados. racial ou religioso. e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”.grupo armado (extensão imposta no artigo 4º). revela que a Convenção não estabeleceu mecanismos próprios de controle e fiscalização. étnico. Entretanto. eis que ainda não alcançaram o número mínimo de 10 Estados-partes. conforme determinam seus textos legais. Ademais. Quanto ao Sistema de Monitoramento dos direitos assegurados pela Convenção. Flávia Piovesan elabora uma ressalva em relação a esse tema e destaca que o aprimoramento desse sistema de fiscalização e controle dos direitos impõe não apenas a criação de órgãos jurisdicionais para proteção dos direitos humanos . que contem com menos de 18 anos de idade. como tal: a) matar membros do grupo. um grupo nacional. assevera que se punem as pessoas que tiverem cometido. funcionários ou particulares (artigo 4º). o Tribunal Penal Internacional. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. Por fim.

jurisdição tem caráter complementar e adicional. • Características: o TPI atua à luz do princípio da complementaridade. Kosovo. tais como os conflitos da Bósnia. A razão disso é que. tendo a comunidade internacional uma responsabilidade subsidiária. revelando que a preocupação nesse sentido remonta a 1948. criadas somente quando uma jurisdição internacional se introdução e ao aperfeiçoamento da disciplina dos direitos humanos pelos Estados. impuser concretamente sobre as ordens nacionais.Constata-se que a Convenção já previa a criação de uma Corte Penal Internacional. Graefrath destaca que a criação de uma Corte Internacional Criminal é o único meio de garantir uma jurisdição imparcial e objetiva. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e controle dos direitos humanos. não dispondo do aparato da garantia. bem como os recentes A importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os direitos humanos foi revigorada na década de 1990. É uma instituição permanente. • O Estatuto de Roma: aprovado em 17 de julho de 1998. sendo aquelas que cobram dos Estados a observância das atividades de garantia. Significa que com relação ao julgamento de violações aos direitos humanos. como se verifica em seu artigo 6º. • Precedentes históricos: Tribunais de Nuremberg. é fácil concluir que. independente e vinculada ao sistema das Nações Unidas. Ruanda. sua Tribunais ad hoc da Bósnia e de Ruanda. Acerca de tal aspecto. obrigações por eles contraídas internacionalmente. Tóquio. em face dos genocídios que a marcaram. quando então passou a contar com a exigência mínima de 60 (sessenta) ratificações. dada a gravidade do delito e a sua relevância internacional. até a aprovação do Estatuto do Tribunal Internacional Criminal Permanente. 51 . O Brasil ratificou o referido tratado em 20 de junho de 2002. as instâncias nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. ou seja. Sobre o tema. assim como evita punições diferenciadas aos indivíduos pelos Estados. entrou em vigor em 01 de julho de 2002. a responsabilidade primária ainda é do Estado. correspondendo ao conjunto de ações destinadas à atividades de controle. Noberto Bobbio classifica em três categorias as atividades internacionais na área de direitos humanos: a) b) c) atividades de promoção. Timor Leste e outros. Portanto. contra os Estados e em defesa dos cidadãos.

Tribunal julgar os seguintes crimes: a) O crime de genocídio. diversas da exposta pela autora). Câmaras – divididas em Câmara de Questão Preliminar. c) Crimes de guerra. compete ao examiná-las. admitindo a prisão perpétua excepcionalmente.requisitos de admissibilidade para o exercício: constantes do artigo 17 do Tratado. sem distinção baseada em cargo oficial.qualquer pessoa está sujeita ao Estatuto. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal.seu exercício encontra-se condicionado à adesão do Estado ao Tratado. . d) O crime de agressão (ainda não tipificado) • Exercício da jurisdição internacional: . podendo esta iniciar de ofício (arts. k) Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias 52 . . competente para receber denúncias sobre crime. b) Crimes contra a humanidade.Quanto à pena (artigo 77). Câmara de Primeira Instância seguintes órgãos (artigo 34): e Câmara de Apelação – sic (cuidado! O dispositivo em tela explicita o termo “seção” e traz outras nomenclaturas. nos termos do artigo 120 do diploma. é composto pelos Presidência – responsável pela administração do Tribunal. a máxima cominada é de 30 anos. Secretaria . sendo que a ratificação não comporta reservas. deve ocorrer na íntegra. reconhecendo expressamente a jurisdição internacional. quando justificada pela extrema gravidade do delito e pelas circunstâncias pessoais do condenado. 13 a 15 do Estatuto). • a) b) Composição: integrado por 18 juízes. . c) d) • Promotoria – órgão autônomo.encarregada de aspectos não judiciais. dos quais se destaca a indisposição (tal como a demora injustificada ou a falta de independência ou imparcialidade no julgamento) e a incapacidade do Estado-parte proceder a investigação e o julgamento do crime. . apresentada à Promotoria.inicia-se mediante denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança. com mandato de 9 anos. 27). Competência para julgamento: nos termos do artigo 5º do Estatuto. tampouco a qualidade funcional importará em redução de pena (art.• Objetivo: equacionar a garantia do direito à justiça e o fim da impunidade para os crimes internacionais de maior gravidade.

composto por 12 experts de alta autoridade moral. Dentre os direitos previstos na Convenção em comento. quando o Conselho Econômico e Social. educação. A Convenção estimula ações para prevenir e eliminar os movimentos clandestinos e o tráfico de trabalhadores migrantes. direito a um tratamento não menos favorável. os seguintes direitos: ao nome. l) Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 53 ao registro de nascimento. fixando parâmetros protetivos mínimos a serem aplicados pelos Estados-partes. consagram-se. No tocante aos filhos dos trabalhadores migrantes.920 (XXVII). direito à liberdade de expressão. imparcialidade e reconhecida competência no domínio abrangido pela Convenção. direito de não ser submetido a tortura e nem a penas e tratamentos cruéis e desumanos. acesso à . através da Resolução nº 2. No âmbito da ONU. independentemente do status migratório. direito à assistência das autoridades diplomáticas de seu Estado. a primeira preocupação expressa foi em 1972. A Convenção sobre os Direitos dos Trabalhadores Migrantes foi adotada em 1990. considerando-se. proteger seus direitos. nacionalidade. de 18 de dezembro de 1990. de acordo com o previsto no artigo 73. Os Estados-partes devem elaborar relatórios periodicamente. direito à vida privada e familiar. Os direitos previstos na Convenção não podem ser objeto de renúncia. a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias entrou em vigor em 1º de julho de 2003. através da Resolução nº 1. direito a não ser constrangido a realizar trabalho forçado. sob a perspectiva dos direitos humanos e enfoca a problemática da imigração. nos termos do artigo 92. É instituído um Comitê para Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias. Essa problemática já havia sido objeto de Convenções da OIT. entre outros. O princípio da não discriminação é um princípio fundamental da Convenção.706 (LIII) alertou para os problemas do transporte ilegal de trabalhadores para países europeus e de exploração de trabalhadores de paises africanos em condições similares a escravidão e trabalho forçado. destacam-se: direito à vida. nos termos de seu artigo 97. contemplando as medidas adotadas para a implementação da Convenção. e ao mesmo tempo. a Assembléia Geral condenou a discriminação contra trabalhadores estrangeiros.Adotada pela Resolução nº 45/158 da Assembléia Geral da ONU. No mesmo ano. sobretudo a situação de vulnerabilidade em que freqüentemente se encontram.

A história da construção dos direitos humanos das pessoas com deficiência compreende quatro fases: a) uma fase de intolerância em relação às pessoas com deficiência. O conceito de discriminação com base em deficiência envolve toda distinção. A Convenção contempla as vertentes repressivas (proibição da discriminação) e promocional (promoção da igualdade). É sob esta inspiração que. Oito são os princípios inspiradores da Convenção: a) respeito à dignidade. g) igualdade entre homens e mulheres. A inovação está no reconhecimento explícito de que o meio ambiente econômico e social pode ser causa ou fator de agravamento da deficiência. sendo um relevante instrumento para a alteração da percepção da deficiência. é instituído. sendo que a deficiência pode resultar em pobreza. § 4º. exclusão ou restrições baseadas na deficiência. h) respeito ao desenvolvimento das crianças com deficiência e respeito aos direitos destas crianças de preservar sua identidade. autonomia individual para fazer suas próprias escolhas. d) uma quarta fase orientada pelo paradigma dos direitos humanos. Deficiência e pobreza são termos inter-relacionados. Em seu artigo 5º. c) efetiva participação e inclusão social. apontando o dever do Estado de adotar adaptações ou modificações apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o exercício dos direitos humanos em igualdade de condições com as demais. As pessoas mais pobres têm uma chance significativa de adquirir uma deficiência ao longo de suas vidas.Organismos internacionais estimam haver no mundo aproximadamente 650 milhões de pessoas com deficiências. expressamente enuncia a possibilidade dos Estados adotarem medidas especiais necessárias. no artigo 34 da Convenção. o que corresponde a 10 % da população mundial. No tocante ao monitoramento dos direitos. integrado por 12 54 . c) uma terceira fase orientada por uma ótica assistencialista. em 13 de dezembro de 2006. reconhecendo que todas as pessoas devem ter a oportunidade de alcançar de forma plena o seu potencial. e) igualdade de oportunidades. b) uma fase marcada pela invisibilidade das pessoas com deficiência. foi adotada pela ONU a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. f) acessibilidade. De “objeto” de políticas assistencialistas e tratamentos médicos. Incorpora uma mudança de perspectiva. bem como a necessidade de eliminar obstáculos e barreiras superáveis. d) respeito às diferenças. que tenham por efeito ou objetivo impedir ou obstar o exercício pleno dos direitos. A Convenção introduz o conceito de “reasonable accomodation”. b) não discriminação. nos termos da Resolução da Assembléia Geral nº 61/106. as pessoas com deficiência passam a ser concebidas como verdadeiros sujeitos titulares de direitos. em que emergem os direitos à inclusão social. um Comitê para os Direitos das Pessoas com Deficiência.

um órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. Havendo graves e sistemáticas violações dos direitos. Social e a Comissão de Direitos Humanos. iniciar o estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. em último caso. mecanismos não convencionais. Deve-se observar a representação geográfica eqüitativa. Ela abrange. Porém. Cumpre assinalar. o Comitê poderá realizar investigações in locco. Tratar-se-á aqui especificamente da Comissão de Direitos Humanos. geralmente focalizam-se em uma gama diversificada de temas. o sistema global passou a contemplar um órgão jurisdicional internacional penal competente para julgar os mais graves crimes que atentem contra a ordem internacional. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. por exemplo. isto é. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. m) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos A proteção internacional não se restringe aos mecanismos convencionais explicitados neste capítulo. em 17 de junho de 1998. decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. os órgãos políticos. O Brasil obteve 55 . primeiramente. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. como. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. Os Estados-partes devem elaborar relatórios periodicamente. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. em Roma. a Comissão de Direitos Humanos. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. com a prévia anuência do Estado-parte (artigo 6 do protocolo). uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. em ações conflitantes no tocante aos Estados. o equilíbrio de gênero e a participação de experts com deficiência. a representação dos distintos sistemas jurídicos. entre outros. ainda.experts. isto é. inexiste uma Corte Internacional dos Direitos Humanos. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. No âmbito do sistema global. Em contraste. de acordo com o previsto no artigo 35 da Convenção. Cabe. o Conselho Econômico. doravante. insta diferenciar os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. antes de iniciar o estudo da Comissão de Direitos Humanos. como a Assembléia Geral. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. Somente a partir do Estatuto do Tribunal Penal Internacional.

Preenchido esses requisitos e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. e. devia descrever os fatos e os direitos que foram violados. A análise dos casos pode ensejar. não devia ter motivações manifestamente políticas e os remédios existentes no âmbito nacional deviam ter sido exauridos ou deviam ter-se mostrado ineficientes. com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. concentrou-se nos parâmetros mínimos para a proteção desses direitos. composto por no máximo cinco membros. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. esta podia adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. a comunicação devia ser endereçada por indivíduos ou organização não-governamental.mandatos sucessivos de 1978 a 1998. A Comissão foi criada em 1946. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. Os requisitos de admissibilidade eram os seguintes: o objeto da comunicação não podia ser inconsistente com os princípios da Carta das Nações Unidas. seguem-se basicamente dois procedimentos. No que concerne ao Procedimento 1503 foi criado pela Resolução nº 1503 do Conselho Econômico e Social em 27 de maio de 1970. que seria responsável por considerar todas as comunicações encaminhadas por indivíduos. Nos primeiros 20 anos de sua existência. grupos de indivíduos ou organizações não-governamentais. Essa autorização servia de base tanto para a realização de um debate público anual quanto para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social em 6 de junho de 1967. devia haver fundamentos razoáveis para acreditar que a comunicação revelava um padrão consistente de violações sistemáticas a direitos humanos. denominada Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. que consiste na apreciação de casos específicos de violações a direitos humanos. o 1235 e o 1503. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. a Comissão assumiu uma segunda função. a comunicação não devia ser anônima. b) manter a situação sob análise. em 1967. O Procedimento 1235. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. c) apontar um especialista 56 . a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. entre outras medidas. sendo novamente eleito em 2000. Essa resolução autorizou a Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos a indicar um grupo de trabalho.

por vezes. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. pobreza extrema. em 2003. Insta ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. A segunda crítica se atinha ao fato de que a Comissão se restringia quase completamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. referente à tortura. portanto. possuindo. combate ao terrorismo. direito à educação. desaparecimento forçado. 57 . mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. cabendo destaque a visita: em 1996. referente ao direito ao desenvolvimento. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. xenofobia. pela Comissão de Direitos Humanos. em 2004. violência contra a mulher. direito à alimentação. em mecanismos convencionais e não convencionais que apresentam características consideravelmente diversas. referente às execuções sumárias e arbitrárias. as medidas urgentes são. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos (exemplo: detenção arbitrária. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podiam envolver a indicação.independente. de um relator especial com mandato para países específicos. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. referente à independência de juízes e advogados. em 2003. referente à venda de crianças e à prostituição infantil. etc) A título ilustrativo. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. execuções sumárias. excepcionado apenas quanto à divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. da relatora referente à violência contra a mulher. Por fim. em 2000. a terceira crítica enfatizava que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. No que tange a execuções arbitrárias. para que seja efetivada a proteção buscada. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. o Brasil recebeu a visita de relatores temáticos. referente ao direito à alimentação. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. o relator especial transmite a apelação aos governos. A primeira se atinha ao caráter confidencial do procedimento. em 2002. em 2004. Fundamentalmente. três críticas eram apresentadas à Resolução nº 1503. direitos humanos e liberdades fundamentais de pessoas nativas. ou e) cancelar o estudo da situação sob a Resolução nº 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução nº 1235. existir ou não em construir precedentes normativos. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. referente ao direito à moradia e em 2004.

um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. Human rights: na agenda for the next century. seja com relação aos textos convencionais. sob o risco de uma condenação pública internacional. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior integram o sistema global de proteção. integrado. tendo em vista foram produzidos no âmbito das Nações Unidas. particularmente na Europa. Muitas regiões são ainda homogêneas. por fim. Reiteram-se. Shimth destaca que. à língua. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. Rhona K. Ao apontar as vantagens do sistema regional. que buscam internacionalizar os direitos humanos no plano regional. às tradições. parece uma importante estratégia a ser utilizada e potencializada pelos indivíduos titulares de direitos internacionais. surgem os sistemas regionais. nº 26. verificou-se que os instrumentos internacionais formam um complexo conjunto de regras. pelo sistema interamericano. O sistema internacional de proteção dos direitos humanos pode apresentar diferentes âmbitos de aplicação. por vezes. a) Introdução No capítulo anterior. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. 58 . por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. distintos destinatários. M. tanto no âmbito doméstico como no internacional” (in Adressing Gross human rights abuses: punishment and victim compensation. as palavras de Diane F. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. Orentlicher: “Cada vez mais. existindo. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido.Ainda que consideradas as limitações vigentes no sistema global de proteção. Consolida-se. o que oferece vantagens”. atualmente. a possibilidade de submeter o Estado ao monitoramento e controle da comunidade internacional. ainda. assim. que apresentam. que por sua vez representam os Estados participantes da comunidade internacional. pág 84). com respeito à cultura. Capítulo VII A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. o consenso político se torna mais facilitado. Ao lado do sistema global. in Louis Henkin e John Lawrence Hargrove. o respeito aos direitos humanos tem se tornado um aspecto crucial de legitimidade governamental. pág 435). América e África. (in Textbook on international human rights.

Ambos são úteis e complementares. O que importa é o grau de eficácia da proteção. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. aperfeiçoando outros. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana.Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. Diante desse universo de instrumentos internacionais. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. enquanto o instrumento regional deve ir além.. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte Européia de Direitos Humanos. Contribui em segundo lugar.garantindo os mesmo direitos – são no sentido de ampliar e fortalecer a proteção” (in Antonio Augusto 59 . haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. para obter maior coordenação entre tais instrumentos em dimensão tanto vertical (tratados e instrumentos de Direito interno) quanto vertical (dois ou mais tratados). que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto melhor proteja a vítima. leciona Antônio Augusto Cançado Trindade: “O critério de primazia da norma mais favorável às pessoas protegidas. adicionando novos direitos. o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. para demonstrar que a tendência e o propósito da coexistência de distintos instrumentos jurídicos . Quanto à conveniência dos sistemas global e o regional. pelo contrário. Contribui. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. Por fim. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. consagrado expressamente em tantos tratados de direitos humanos. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. eventualmente. Nesse sentido. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. em 1950. em terceiro lugar. No sistema europeu. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. tendo em vista que. mas sim complementares. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo.. contribui em primeiro lugar para reduzir ou minimizar consideravelmente as pretensas possibilidades de “conflitos” entre instrumentos legais em seus aspectos normativos. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969.

A contraditório. É também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduo ou grupo de indivíduos. juntamente com a Corte Interamericana. entrou em vigor em 1978. São requisitos de admissibilidade da comunicação: 1) prévio esgotamento dos recursos internos (salvo injustificada demora processual. ou no caso de a legislação doméstica não prover o devido processo legal). legitimadora. promotora e protetora. por Estado que dela seja parte. a Assembléia Geral da OEA adotou o Protocolo de San Salvador (1988) concernente aos direitos sociais. ainda. cultural ou econômico. 2) inexistência de litispendência internacional. limita-se a determinar aos Estados que alcancem. 60 tramitação das reclamações segue duas etapas: admissibilidade e . A interação entre o direito internacional e o direito interno na proteção dos direitos humanos. mediante medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. todos os Estados membros da OEA. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. crítica. econômicos e culturais. A Comissão tem funções: conciliadora.Cançado Trindade. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. Abrange apenas os Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA). pág 52-53) b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos A Convenção Americana de Direitos Humanos é o instrumento de maior importância no sistema regional interamericano. constituem o aparato de monitoramento estabelecido pela Convenção Americana. progressivamente. em relação aos direitos nela consagrados. sendo que o Brasil aderiu em 1992. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A Comissão Interamericana de Direitos Humanos. É conhecida como Pacto de San José da Costa Rica (1969). que contenham denúncia de violação de direito consagrado pela Convenção. Alcança. a plena realização desses direitos. Posteriormente. A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança todos os Estados-partes da Convenção Americana. ou ainda entidade não governamental. assessora.

É a justicialização do sistema interamericano. em casos de extrema gravidade e urgência. ex. decidirá se as medidas foram adotadas e se publicará o informe no relatório anual. Tem competência consultiva e contenciosa. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. e toda vez que resulte necessário. de acordo com as informações disponíveis (p. por iniciativa própria ou petição da parte. não sendo prevista a legitimação do indivíduo. Vencido o prazo. por maioria absoluta de votos. em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. eleitos a título pessoal pelos Estados partes da Convenção. submeterá o caso à Corte Interamericana. desde que o Estado-parte reconheça. em matéria ainda não submetida à apreciação da Corte. a Comissão redigirá um relatório. recomendações ao Estado-parte. Em casos de gravidade e urgência.Se não é alcançada solução amistosa. O mecanismo das comunicações interestatais é também cláusula facultativa. Apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. a competência da Corte quanto à aplicação da Convenção. a Comissão poderá. É necessário que ambos os Estados tenham feito declaração expressa reconhecendo a competência da Comissão para tanto. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. eventualmente. Qualquer membro da OEA – parte ou não da Convenção – pode solicitar o parecer da Corte no plano consultivo. o caso pode ser solucionado ou encaminhado à Corte Interamericana de Direitos Humanos. O encaminhamento à Corte se faz de forma direta e automática. A Comissão faz recomendações e fixa um prazo para a adoção das medidas. A 61 . Se nesse prazo o caso não for solucionado e nem submetido à Corte. apresentando fatos e conclusões pertinentes ao caso e. Se a Comissão considerar que o Estado em questão não cumpriu as recomendações do informe. vida da vítima encontrar-se em perigo real ou iminente). a Comissão poderá emitir opinião e conclusão. mediante declaração expressa. Durante o período de 03 meses. que tem o prazo de 03 meses para cumpri-las. para evitar dano irreparável à pessoa. salvo decisão fundada na maioria absoluta dos membros da Comissão. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos É o órgão jurisdicional do sistema regional.

o controle da convencionalidade das leis. sobre desaparecimento forçado de indivíduo no Estado de Honduras. determinará medidas necessárias à restauração do direito violado. podendo condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. dois outros julgamentos foram proferidos pela Corte Interamericana. seria privação arbitrária do direito à vida (pedido de consulta do México em casos de presos mexicanos condenados à morte nos EUA). a Corte tem jurisdição para examinar casos que envolvam denúncia de que um Estado parte violou direito protegido pela Convenção. condenado o Estado de Honduras a pagar uma justa compensação nos termos do art. 63 da Convenção.Corte ainda pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face dos instrumentos internacionais. A decisão que fixa uma compensação à vítima valerá como título executivo. No plano da jurisdição contenciosa. a Corte condenou Honduras ao pagamento de indenização aos familiares do desaparecido (Angel Manfredo Velásquez Rodriguez). 62 . No plano contencioso. viola o devido processo legal a ausência de notificação a um preso estrangeiro sobre seu direito de assistência consular. O Brasil reconheceu a competência contenciosa (jurisdicional) da Corte em 1998. ambos envolvendo desaparecimentos no Estado de Honduras. Outros pareceres: Costa Rica violava Convenção ao exigir diploma universitário e filiação ao Conselho Profissional dos Jornalistas – restringe a liberdade de expressão e direito de todos de receber informações. HC é garantia insuscetível de ser suspensa. Acolhendo a comunicação encaminhada pela Comissão Interamericana. conforme os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. ainda em situações de emergência. Se reconhecer que efetivamente houve violação. Destaca-se o parecer da Corte acerca da impossibilidade da adoção da pena de morte na Guatemala: “A Convenção impõe uma proibição absoluta quanto à extensão da pena de morte a crimes adicionais. Após o caso Velásquez Rodriguez. • O caso Fairen Garbi e Solis Corrales – foi julgado improcedente pela Corte. onde a Corte proferiu decisão similar. Se o preso foi condenado à morte. efetuando. que entendeu inexistirem provas de que o Estado de Honduras seria o responsável pelo desaparecimento dos indivíduos. ainda que uma reserva a esta relevante previsão da Convenção tenha entrado em vigor ao tempo da ratificação”. assim. A decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. • O caso Goldinez – similar ao caso Velásquez. destaca-se o famoso caso “Velásquez Rodriguez”.

Referido massacre envolve a denúncia de execução de 15 pessoas por agentes policiais O Peru foi condenado.A Comissão Interamericana encaminhou à Corte um caso contencioso contra o Estado de Suriname (caso Aloeboetoe). Constantine e Benjamin. que foi implementada por este Estado. No caso Lori Berenson Mejía. em que este Estado foi condenado pela Corte. 63 da Convenção. decorrentes da violação aos direitos de liberdade de pensamento e expressão. a Corte ordenou medidas provisórias para evitar novas mortes de internos do Presídio Urso Branco. O Estado do Suriname assumiu tal responsabilidade e ao final foi condenado pela Corte ao pagamento de justa e apropriada indenização aos familiares das vítimas. No caso “A Última Tentação de Cristo”. relativos ao massacre de Barrios Altos de forma a derrogar as leis de anistias mencionadas. Com essa decisão a Corte consolidou o entendimento de que leis de anistia são incompatíveis com a Convenção Americana. em virtude da impunidade relativa à morte de cinco 63 . a Corte condenou o Chile em virtude de censura prévia à exibição cinematográfica do referido filme. a prestar reparação civil. em Porto VelhoRO. No caso do Presídio Urso Branco em face do Brasil. onde Corte determinou a Trinidad e Tobago que modificasse a legislação doméstica que impunha obrigatoriamente a pena de morte a qualquer pessoa condenada por homicídio. Também no sentido de condenar o Estado a modificar sua legislação interna à luz dos parâmetros protetivos internacionais. merece destaque o caso Hilaire. de forma a abolir a censura prévia. o Peru foi condenado a reabrir investigações judiciais sobre os fatos em questão. No caso Barrios Altos em virtude da promulgação e aplicação de lei de anistia.. e quando necessário para evitar danos irreparáveis a pessoas. A Corte demandou do Chile a reforma de sua legislação doméstica.. Cabe também menção ao caso Villagran Morales. que foi condenada a 20 anos de privação de liberdade por colaboração ao terrorismo. providenciar atenção médica adequada à vítima. compreendendo a adoção de nova lei e a reforma da Constituição. à luz dos parâmetros protetivos internacionais. bem como ao cumprimento de obrigação de fazer concernente à instalação de posto médico e reabertura de escola na região dos saramacas. a Corte. à reparação integral e adequada dos danos materiais e morais sofridos pelos familiares das vítimas. o Estado peruano foi condenado a harmonizar sua legislação interna. ainda. concernente ao assassinato de sete civis pela polícia do Estado. etc. pode adotar medidas provisórias que lhe pareçam pertinentes. por afrontarem direitos inderrogáveis reconhecidos pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos. bem como de liberdade de consciência e religião. que estabelece que em casos de extrema gravidade e urgência. contra a Guatemala. onde ao menos 37 internos foram brutalmente assassinados entre 1º de janeiro a 5 de junho de 2002. Essa decisão da corte fundamenta-se no art. nos assuntos que estiverem conhecendo.

Outro caso que merece menção é o caso Damião Ximenes Lopes contra o Brasil. Dentre as medidas determinadas pela Corte estão: pagamento de indenização aos familiares das vítimas. aquiescência e colaboração com grupos paramilitares pertencentes à Autodefesa Unida da Colômbia (AUC). Terceira Parte O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Capítulo VIII O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. resta concluir que. de pessoa com deficiência mental. Foi o primeiro caso sobre saúde mental a ser decidido pela Corte. No caso do Massacre de Ituango contra a Colômbia a Corte Interamericana condenou o Estado da Colômbia por omissão. pois neste caso houve violação de direitos civis e políticos. Considerando a atuação da Comissão e da Corte Interamericana nesses casos destacados. após três dias de internação em Hospital Psiquiátrico. em virtude de uma lei que determinava a demissão em massa de aludidos funcionários públicos que haviam participado de uma manifestação trabalhista. envolvendo a demissão sumária de 270 trabalhadores. Destaque-se ainda o caso Baena Ricardo e outros contra o Estado do Panamá. Este estudo se concentrará no período de 64 . O objetivo deste capítulo é avaliar a posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. No final o Estado do Panamá foi condenado a pagar o salário dos 270 trabalhadores. bem como a pagar indenização por danos morais.meninos de rua. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. brutalmente torturados e assassinados por dois policiais nacionais da Guatemala. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. que assassinou civis indefesos. envolvendo a morte. embora recente a jurisprudência da Corte. a reforma do ordenamento jurídico interno visando a maior proteção aos direitos da criança e adolescente. a reintegrá-los.

em 11 de janeiro de 2007. em 1º de fevereiro de 1984.democratização. deflagrado no Brasil a partir de 1985 e que adota como marco jurídico referencial a Constituição Federal de 1988. E a afirmação dos direitos humanos como tema global vem acenar para a relação de interdependência existente entre democracia. em 27 de novembro de 1995. c) a Convenção sobre os Direitos da Criança. b) a Convenção contra a Tortura e outros tratamentos Cruéis. de 24 de janeiro de 1992. Ao longo do processo de democratização. em 15 de agosto de 2001. em 25 de setembro de 1992. de 24 de setembro de 1990. da convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a Mulher. g) a Convenção Interamericana para Prevenir. em 28 de setembro de 1989. A partir da Carta de 1988 importantes tratados internacionais de direitos humanos foram ratificados pelo Brasil. em 13 de agosto de 1996. d) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. i) o Protocolo à convenção americana referente aos Direitos Econômicos. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo País às obrigações internacionais assumidas. 65 . b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos O marco inicial do processo de incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo Direito brasileiro foi a ratificação. f) a Convenção Americana de Direitos Humanos. k) o Estatuto de Roma. em 20 de junho de 2002. e) o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. em 24 de janeiro de 1992. O novo quadro criado com o fim da Guerra Fria possibilitou a afirmação dos direitos humanos como tema global. n) o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis. de 27 de janeiro de 2004. h) o Protocolo à Convenção Americana referente à Abolição da Pena de Morte. Sociais e Culturais. que cria o Tribunal Penal Internacional. desenvolvimento e direitos humanos. Desumanos ou Degradantes. em 20 de julho de 1989. Desumanos ou Degradantes. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). l) o Protocolo Facultativo à Convenção Sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. de 21 de agosto de 1996: j) a Convenção Interamericana para Eliminação de todas as formas de Discriminação contra Pessoa Portadora de Deficiência. Dentre eles destaque-se: a) a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura. em 28 de junho de 2002: m) o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança sobre o envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos.

A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. Trata-se de posição incoerente. O Brasil assume. perante a comunidade internacional. o Brasil declarou não estar vinculado ao disposto no artigo 29 (1) da Convenção. mediante o reconhecimento da competência da Corte Internacional de Justiça. segundo o qual. Isto porque além dos direitos constitucionalmente previstos no âmbito nacional. Não bastando a eliminação de reservas. e se ainda assim não se alcançar um acordo. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas e procedimentos facultativos e outras medidas. Sugere-se que o Estado Brasileiro reveja essa posição. a qual contém dispositivo semelhante (artigo 22). Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. qualquer dos Estados poderá encaminhar a controvérsia à Corte Internacional de Justiça. especialmente em 1992. um núcleo de direitos básicos e inderrogáveis. se não for solucionada mediante solução amigável. a questão será submetida à arbitragem. pois tal declaração de ressalva não foi feita na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. os indivíduos passam a ser titulares de direitos internacionais. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. 66 .A reinserção do Brasil na sistemática de proteção internacional dos direitos humanos vem redimensionar o próprio alcance do termo cidadania. a obrigação de manter e desenvolver o Estado Democrático de Direito e de proteger mesmo em situações de emergência. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. por exemplo. de modo a não adotar reservas incompatíveis com o objeto e propósito do tratado em questão e a reconsiderar regularmente tais reservas com vistas a eliminá-las. por ocasião da adesão aos três tratados gerais de proteção dos direitos humanos – a Convenção Americana e os dois Pactos de Direitos Humanos das Nações Unidas – o Estado brasileiro passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. de modo a acolher a sistemática de monitoramento internacional. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. O Programa de Ação de Viena orienta os Estados a formular tais reservas da forma mais precisa e estrita possível. Deste modo.

habilitando a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestaduais. decorrente de um tratado. o qual é previsto no Estatuto de Roma (julho de 1998). o Estado brasileiro finalmente a reconheceu. Configurada a omissão. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direito enunciado no Pacto. O Tribunal Penal Internacional constitui extraordinário avanço para a realização da justiça e o fim da impunidade relativamente aos crimes mais graves contra a ordem internacional. Quanto à competência jurisdicional da Corte Interamericana de Direitos Humanos. cláusula facultativa das petições individuais (artigo 14 da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação racial).O Brasil interpreta os artigos 43 e 48 da Convenção Americana de Direitos Humanos. relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Esclarece-se que em outras Convenções e Pactos. Ressalta-se que a criação da Corte foi sugerida pela delegação do Brasil. ao menos que adote outros meios para satisfazer a obrigação. 67 . Outrossim. desumanos e degradantes) e. Dos 24 países que ratificaram a Convenção. Novamente. no âmbito regional. em seu § 90 recomenda que os Estados-partes aceitem todos os procedimentos facultativos. de modo a possibilitar a fiscalização efetiva. deve elaborar a declaração de que trata o artigo 45 da Convenção Americana. 550). faz-se necessário que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo. o Brasil não elaborou qualquer reserva. Na lição de Louis Henkin: “se um Estado incorrer em uma obrigação. exigia-se uma postura coerente do Brasil. p. através do Decreto Legislativo nº 89. cabe ao estado brasileiro reavaliar sua posição. O Brasil já aceitou o procedimento facultativo nos seguintes: Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. ainda.. dependendo do expresso consentimento do Estado brasileiro. responsável pela omissão" (in International law: cases and materials. de 03 de dezembro de 1998. o Programa de Ação de Viena de 1993. No âmbito do sistema global das Nações Unidas. Assim. o fracasso do Estado em adotar tal legislação resultará em sua responsabilização. O Brasil ratificou a competência do Tribunal Penal Internacional. cláusula facultativa das petições individuais (artigo 22 da Convenção sobre a Tortura e outros tratamentos e penas cruéis. Em 2002. em 1948. que tratam do sistema de visitas e inspeções in loco. ou seja. o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Tortura. no sentido de reconhecer a competência jurisdicional da Corte.. como sendo “não automáticos”. é cabível o ajuizamento de ação de perdas e danos contra a pessoa de direito público. O Estado brasileiro deve enviar relatórios aos órgãos competentes internacionais. e. o Brasil é o único a fazer essa declaração interpretativa. que requeira legislação.

Contudo. sem demora. A lacuna foi preenchida em 1997. o que já era previsto no artigo 223 ECA). todas as medidas apontadas são essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. em virtude de maus tratos em clínica psiquiátrica no Ceará. a falta. elaborar a necessária legislação interna acerca do tema. A primeira sentença condenatória contra o Brasil foi proferida em 04 de julho de 2006. quando então foi adotada a Lei Maria da Penha (Lei 11. até 1997. o Brasil apenas elaborou a legislação específica em 2006. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (“Convenção de Belém do Pará”).455/97.Pode-se citar dois exemplos acerca da omissão legislativa do Estado brasileiro: Primeiramente. Outrossim. até setembro de 2006 apenas cinco casos haviam sido encaminhados à Corte Interamericana contra o Estado brasileiro. Para isso. No artigo 7º da Convenção Interamericana para Prevenir. o Brasil assumiu o dever de. há a urgência de incorporar relevantes tratados internacionais ainda pendentes de ratificação. a reavaliação quanto a procedimentos facultativos. Diante desse quadro. Devido a esse recente reconhecimento. no caso Damião Ximenes Lopes. Outro exemplo referia-se à inexistência de normatividade específica em relação ao combate da violência contra a mulher. de tipificação do crime de tortura no ordenamento jurídico brasileiro (salvo se o crime fosse praticado contra criança e adolescente. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. sendo que dois casos são contenciosos e três envolvem medidas provisórias. 68 . Capítulo IX A ADVOCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE O SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS a) Introdução O objetivo desse capítulo é analisar de que modo a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercida no Brasil. bem como a adoção de medidas que assegurem eficácia aos direitos constantes nos instrumentos internacionais de proteção. que prevê o crime de tortura. O Brasil reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana em dezembro de 1998. É emergencial a revisão de reservas e declarações restritivas.340/06). com a edição da Lei nº 9. analisar-se-ão casos de violação de direitos humanos submetidos à apreciação do sistema interamericano.

O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República.b) Federalização das violações de direitos humanos As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmica integrada do sistema de proteção dos direitos humanos. De acordo com o Direito Internacional. a separação de poderes (Executivo. um sistema de combate à impunidade. por exemplo. a qual foi introduzida pela EC 45/04. Até 2004. pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. ao mesmo tempo em que a detém a responsabilidade internacional. sob o risco de deslocamento de competências e por outro. a responsabilidade primária no tocante aos direitos humanos é dos Estados. Cria-se. 69 . para os Estados cujas instituições responderem de forma eficaz as violações. Com a federalização. Legislativo ou Judiciário) no âmbito nacional não afeta a forma de responsabilização do Estado. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. a responsabilidade pelas violações de direitos humanos é sempre da União. em qualquer fase do inquérito ou processo. processar e punir a violação. requerer ao STJ o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. apenas 02 casos apontam a responsabilidade direta da União: um dele se atém a trabalho escravo – caso José Pereira e outro à morte da indígena Macuxi em uma delegacia de Roraima. a federalização não terá incidência maior – tão somente encorajará a importância da eficácia dessas respostas. aumenta-se a responsabilidade das instâncias federais para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. pois de um lado encoraja a firme atuação do Estado. como. Assim sendo. havia 64 casos contra o Brasil pendentes de apreciação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. já que não dispõe de competência de investigar. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. a União não é responsável em âmbito nacional. quando a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esses mesmos direitos. pela qual internacionalmente está convocada a responder. o Conselho de Defesa da Pessoa Humana. Entende-se que a EC 45/04 poderia ter previsto outros legitimados para o incidente de deslocamento. Diante desse quadro é que se insere a federalização das violações a direitos humanos. enquanto a responsabilidade subsidiária passa a ser da União. pela qual os atos internos do estado estão sujeitos à supervisão dos órgãos internacionais de proteção. Desses 64. Paradoxalmente. mas já era prevista desde 1996. assim. Destarte.

dez envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. 2) Casos de violação dos direitos dos povos indígenas 70 . devido processo legal e proteção contra denúncia arbitrária. esta optou por não publicar em seu relatório anual as conclusões e recomendações. A terceira comunicação alegava existência de pelo menos 12. As vítimas das violações perpetradas eram lideranças da Igreja Católica. segurança. A Comissão publicou em seu relatório anual a recomendação ao Brasil. tortura e assassinato cometido durante o regime autoritário militar. encaminhado à Comissão em 1997). apresentavam reação e resistência ao regime repressivo de 1964-1985. Desaparecimento de mais de vinte integrantes da guerrilha na década de 70. ademais. de alguma forma. reiterando que “as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção que no Brasil há sérios casos de tortura. intelectuais e estudantes que. As denúncias foram feitas por indivíduos ou grupos de indivíduos e não por organização não governamental. Dos 78 casos examinados neste tópico. que foram privadas de sua liberdade”. à análise de ações internacionais impetradas contra o Estado do Brasil perante a Comissão Interamericana. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. em razão da violação de direitos humanos. Em 1997 foi submetido à Comissão o caso “guerrilha do Araguaia”. 1) Casos de detenção arbitrária. deveriam ser punidos pelo Estado brasileiro. desconhecendo-se os motivos dessa opção. Adicionou que o Governo se recusou a adotar as medidas recomendadas.000 presos políticos no país. no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abusos foram praticados por militares ou autoridades policiais que.Passa-se. Caso 1684 – composto por 03 comunicações enviadas à Comissão em 1970. Quanto aos oito outros casos. ainda que admitidos pela Comissão Interamericana. trabalhadores. o Brasil não era signatário da Convenção Americana. liberdade. Como na época (1970-1974). Desde 1982 familiares buscam informações sobre desaparecimento das vítimas. se comprovadamente responsáveis. todas essas ações se fundamentaram na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (exceto o caso da “guerrilha do Araguaia”. Levou-se ao conhecimento da Comissão a violação aos direitos à vida.

chacina de 16 índios Yanomamis em 1993. Além do Caso 7615. Caso 11287 – assassinato de João Canuto. Em 1999. segurança. o que resultou graves confrontos implicando violação dos direitos humanos daquele povo indígena. 13 envolvem situações de violência rural. Recomendou. em Haximu. caracteriza-se violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: direito à vida. combate e erradicação do trabalho escravo. o Executivo do Pará promulgou decreto estabelecendo pensão mensal especial em favor da viúva do líder rural assassinado. segurança. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. Survival International. indenização aos familiares da vítima. Houve solução amistosa. 71 . Caso 11289 – tentativa de assassinato do trabalhador rural José Pereira. sob assessoria de pessoal de competência científica. ainda. submeteu-se à Comissão o Caso 11745. O relatório final condenou o Brasil pela violação dos direitos à vida. o território Yanomami foi invadido por garimpeiros. proteção médica e integração social dos Yanomamis. d) informasse à Comissão sobre medidas adotadas em cumprimento às recomendações. preservação da saúde e bem-estar. Investigação policial durou oito anos e até o momento não havia indiciamento. b) procedesse à demarcação do Parque Yanomami.Caso 7615 – comunidade Yanomami em 1980. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. por ocasião da tentativa de fuga do regime de trabalho escravo. residência e ao movimento. American Anthropological Association. com pagamento de indenização à vítima e compromisso do Estado brasileiro adotar medidas para prevenção. médica e antropológica. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos examinados. caracterizando o esgotamento dos recursos internos. Os 13 casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais internacionais e nacionais. Segundo a denúncia. presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria (Pará). a fim de que os responsáveis sejam punidos. A Comissão declarou que “há prova suficiente para concluir que. dentre outras). em razão da omissão do Governo brasileiro. c) conduzisse programas de educação. A Comissão recomendou ao Governo brasileiro que: a) adotasse medidas de proteção à vida e saúde dos Yanomamis. integridade física e à justiça e recomendou seja conferida mais celeridade no processo criminal relativo ao caso. liberdade. liberdade. O caso 7615 se destaca por ser o primeiro submetido por organização não governamental de âmbito internacional contra o Brasil (Indian Law Resource Center.

O relatório deste caso recomendou ao Brasil. no relatório final de mérito.299 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares (antes era competência da Justiça Militar). de vítimas inocentes. sem justificativa. os peticionários denunciaram o abuso e violência policial. Dez pessoas ligadas ao MST foram mortas por policiais militares e mais de cem ficaram feridas. As vítimas haviam interrompido trecho de uma rodovia no Pará quando foram desalojadas de forma violenta por policiais militares.299. resultando na morte por asfixia de 18 detentos. o que resultou na morte de dezenove pessoas. A Comissão. na qual foram lançados gases lacrimogêneos. em 1996. propôs-se a cumprir as recomendações e foi aprovada a Lei 9. 111 detentos foram massacrados por policiais na Casa de Detenção de São Paulo. ineficiência de resposta do Estado brasileiro. ficou conhecido como o “massacre do Eldorado de Carajás”. Todos os casos foram submetidos à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. 72 . dentre outras medidas. que apresentou amplo impacto nacional e internacional. O caso. a transferência para a Justiça comum do julgamento de crimes cometidos por policiais militares. 50 detentos foram encarcerados em uma cela de 1 m x 3 m. no 42º Distrito Policial de São Paulo. Caso “Parque São Lucas” – em 1989. ainda. O governo brasileiro. Caso “Carandiru” – em 1992. que implica o assassinato. Denunciam. Caso 11556 – com larga repercussão nacional e internacional. denominado “Corumbiara” em virtude de conflito agrário na fazenda Santa Elina (em Rondônia). ou mesmo a inexistência de qualquer resposta em face da falta de punição dos responsáveis pelas violações. ao aceitar a solução amistosa. 4) Casos de violência policial Dos 78 casos examinados. As pressões internacionais decorrentes dos casos submetidos à Comissão Interamericana contribuíram para a adoção. dentre elas o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL). Em todos os casos. 34 são de situações de violência policial a partir de 1982. condenou o Estado brasileiro por violação dos direitos previstos na Convenção Americana. da Lei 9.Caso 11820 – envolve o assassinato de dezenove integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra em 1996.

73 . tendo em vista a proporção e o alcance da violação de direitos internacionalmente assegurados. com intensa repercussão. o que caracteriza o fato como o mais sério massacre em prisão da história brasileira. com a implosão do complexo em 2003. em razão da morte de quatro policiais nas imediações da favela. denominado “Candelária”: oito crianças e adolescentes foram encontrados mortos nos arredores da igreja da Candelária. Com relação ao pedido formulado pelos peticionários. 5) Casos de violação dos direitos de criança e adolescentes Os casos que merecem destaque são: . maus-tratos e violência sexual por parte de funcionários dos estabelecimentos. 19 e 25 da Convenção Americana. 4. Também é requerido que seja recomendada ao Governo brasileiro a adoção das medidas necessárias para que os responsáveis sejam investigados. em julho de 1993. Quanto à indenização aos familiares das vítimas. previstos nos arts. bem como seja determinado o pagamento de indenização aos familiares das vítimas. sendo-lhes aplicáveis as sanções correspondentes. em São Paulo. sendo solicitada à Comissão que seja declarada a violação pelo Estado brasileiro do direito à vida. . A petição alega que os responsáveis pelas mortes são policiais militares. O Caso 12008 também merece menção. especialmente na imprensa.Caso 12328: denúncia de tortura e maus-tratos sofridos por adolescentes internos da Fedem do complexo do Tatuapé. . no Rio de Janeiro.A denúncia indica que ao menos 84 dos prisioneiros mortos estavam aguardando julgamento. vítimas de espancamentos. Segundos os peticionários. compleição física e gravidade da infração. O Caso Carandiru foi o que maior atenção recebeu da Comunidade Internacional. especialmente em virtude da violação ao ECA quanto à separação dos adolescentes por critérios de idade. Os peticionários apontam irregularidades nos estabelecimentos. acerca da desativação do Complexo do Carandiru. foi acolhido.Caso 11702: solicita medidas cautelares para a proteção dos direitos à vida e à integridade física de adolescentes internos em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. A Comissão Interamericana solicitou medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. do direito da criança à proteção especial e do direito à proteção judicial. processados e punidos. os responsáveis são agentes policiais que teriam cometido o ato criminoso como vingança. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos os adolescentes. a Procuradoria de Assistência Jurídica propôs 59 ações indenizatórias. Denunciou a morte de 21 pessoas na Favela de Vigário Geral no Rio de Janeiro em 1993.Caso 1193.

. Segundo a denúncia. dos deveres assumidos em face da ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos e da Convenção Interamericana para Prevenir. marcado pela violência e abuso sexual. obteve a concessão de HC. valendo-se de sucessivos recursos contra a decisão do Tribunal do Júri. no Estado do Maranhão.Caso 12263: assassinato da estudante Márcia Barbosa de Souza. pelo Estado. foi agredida por seu então companheiro. As tentativas de homicídio e agressões acabaram por provocar várias lesões além de uma paraplegia irreversível na vítima.Caso 11996: Márcia Cristina Rigo Leopoldi. 6) Casos de violência contra a mulher Os casos apresentados têm como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. É a primeira vez que um caso de violência doméstica leva à condenação de um país. . entre 9 e 14 anos. culminando na extração de órgãos genitais das vítimas. punir e erradicar a violência contra a mulher. o que levou o caso à Comissão Interamericana. Desde a concessão do HC. no Estado da Paraíba. ratificada pelo Brasil em 26/11/1995. que foi posteriormente afastada pelo TJ. 74 . em face da impunidade. estudante de Arquitetura. o acusado encontra-se foragido. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. em 1998. Em virtude da então imunidade parlamentar só poderia ser processado criminalmente com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. foram vítimas dessa grave violação. no âmbito do sistema interamericano de proteção aos direitos humanos. motivou. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (convenção do Belém do Pará). o principal acusado é um deputado estadual.Caso 12051: Maria da Penha Maia Fernandes. Trata-se do primeiro caso contra o Estado brasileiro que se baseia em dispositivos da Convenção Interamericana para prevenir. De acordo com o inquérito policial. a Comissão Interamericana condenou o Estado brasileiro por negligência e omissão em relação à violência doméstica. Apesar de condenado. A decisão fundamentou-se na violação. Condenado a quinze anos de reclusão pelo Tribunal do Júri de Santos.Casos 12426 e 12427: referem-se ao caso dos “meninos emasculados do Maranhão”. em 18/06/1998. Crianças e adolescentes têm sido vítimas de assassinato. morta em 10/03/1984. nos arredores de João Pessoa. dezenove meninos. em Santos. Em 2001.. Contudo. . após 15 anos o réu permanece em liberdade. a estudante foi estrangulada em sua casa pelo ex-namorado. a apresentação do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. a licença foi negada duas vezes. A impunidade e a inefetividade do sistema judicial diante da violência doméstica contra as mulheres no Brasil. No período de 1991 a 2000.

grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidos. O advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial na região e também atuava como assistente do MP nos processos que examinavam a possível existência de grupo de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Norte. 75 . no Estado do Rio Grande do Norte. O caso refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. e o período concernente ao processo de transição democrática. As mudanças políticas ocorridas no Brasil a partir de 1985. deflagrado a partir de 1985. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime repressivo militar vigente no período de 1964 a 1985. em face de decisão definitiva proferida pelo STF. em nota de 19/01/2005. que negou direito à licença maternidade à mãe adotiva. 9) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Brasil Para a análise do quadro das ações internacionais (sobre os casos admitidos pela Comissão Interamericana contra o Estado brasileiro).Caso 12397: denúncia de ameaça de morte recebida por histórico defensor de direitos humanos no Estado de SP.Caso 12378: denúncia de discriminação contra mães adotivas e seus respectivos filhos. implicaram em mudanças relativas à própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. .. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. entendeu por encaminhar o caso à Corte. .Caso 12001: único caso a envolver denúncia de discriminação racial. em 20 de outubro de 1996. 8) Casos de violência contra defensores de direitos humanos Defensores de direitos humanos: são todos os indivíduos.Caso 12058: destaca-se o assassinato do defensor de direitos humanos Gilson Nogueira Carvalho. por grupo de extermínio. A Comissão Interamericana. 7) Caso de discriminação racial .

Estes dados. por um lado. 1 à discriminação racial e 6 violência contra defensores de direitos humanos. nove se referem a casos de detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. relativo ao processo de democratização. de âmbito nacional ou internacional.Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. a sistemática violência 76 . 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. relativo ao regime militar. a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. A distinção entre as práticas verificadas no regime militar e no processo de democratização está no fato de que. dos dez casos apreciados. 3 envolvem violência contra a mulher. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. Se no primeiro período. 5 referem-se à violação de direitos da criança e adolescente. 1 violação aos direitos da população indígena. 90% dos casos denunciaram violência do regime militar. pela atuação conjunta dessas entidades. que não consegue ser controlada pelo aparelho estatal. no primeiro caso. Indaga-se: quem são os proponentes dessas ações internacionais submetidas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. e. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. 34 envolvem violência policial. dos 68 casos apreciados. Esses dados demonstram que o processo de democratização no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. Se. por si sós. Essas ações internacionais denunciam a violação de qual categoria de direitos? Qual a natureza dos direitos violados? Considerando o primeiro período. a partir do processo da democratização iniciado em 1985. constata-se que. 13 revelam violência rural. por sua vez a reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. É notável perceber que a partir da democratização. deve-se primeiramente analisar os atores sociais envolvidos. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. por vezes. Já no segundo período. Já no processo de democratização. no segundo 50% dos casos denunciaram violência policial. que passou a contar com novos atores a partir da criação de inúmeras entidades não governamentais. o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. de 1964 a 1985. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. observa-se que durante o regime militar. Já no segundo período.

Importante assinalar que 97% dos casos que integram o período da democratização foram submetidos à Comissão a partir de 1992. economistas e outros profissionais. no segundo período. refletem violência cometida em face de grupos socialmente vulneráveis. vendedores. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. sociais ou culturais. mecânicos ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. a inexistência de resposta por parte do Estado brasileiro é fator que. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. Nesse sentido. ajudantes de obras. concernentes ao período de democratização. advogados. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e contra lideranças rurais. cabe menção a seis avanços: 77 . A insuficiência. Se no período de autoritarismo militar. configura requisito do prévio esgotamento dos recursos internos e enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. não são mais dos setores da classe média. Não mais pelo critério político. em 87% dos casos examinados. mas pelo critério econômico. Tal como no regime militar. seja durante o período de democratização. mas de uma omissão do Estado ao não ser capaz de deter os abusos perpetrados por seus agentes. Quanto ao impacto da litigância internacional no âmbito brasileiro. as mulheres. via de regra. não se verifica a punição dos responsáveis. destaca-se que casos submetidos à Comissão Interamericana têm apresentado relevante impacto no que tange à mudança de legislação e de políticas públicas de direitos humanos. Como caracterizar as vítimas dessas violações de direitos? Quanto às vítimas dessas violações. as vítimas. auxiliares de escritório. denunciaram violação de direitos civis e/ou políticos. com o qual se conjuga um componente sóciopolítico. todos. professores universitários.policial apresenta-se como resultado não mais de uma ação. constata-se que os demais 34 casos restantes. ou seja. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. Todos os casos submetidos ao conhecimento da Comissão Interamericana. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. mas pessoas pobres. como os povos indígenas. líderes de trabalhadores. a partir da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Estado brasileiro. se no primeiro período. em geral integrantes da classe média brasileira. seja durante o período ditatorial. sem qualquer liderança destacada. as crianças e os adolescentes. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. relativo ao processo de democratização. ou mesmo. A título ilustrativo. Ao lado dos 34 casos de violência policial. estudantes. a população negra.

299/96. que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. considerando a experiência brasileira. nesse sentido. de Maria Penha de Maia Fernandes. Os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. os instrumentos internacionais constituem poderosos mecanismos 78 . o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas a respeito de sua prática. c) o caso 12378. que negou o direito à licença gestante à mãe adotiva. relativo ao assassinato da estudante por deputado estadual foi essencial para a adoção da EC 35/2001 que restringe o alcance da imunidade parlamentar no Brasil. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao Estado violador.a) os casos de violência policial.340/2006. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. 11. Ademais. que determinou a transferência da Justiça Militar para Justiça Comum do julgamento de crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. que estendeu o direito à licença maternidade às mães de filhos adotivos. em face da decisão definitiva do STF. resultou na condenação do Brasil por violência doméstica sofrida pela vítima. culminou com a aprovação da lei 10. conferindo suporte ou estímulo para reformas internas. b) o caso 12263. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. pode-se afirmar que. A experiência brasileira revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. nacionais e internacionais. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. Esse fator é positivo na medida em que os Estados são convocados a responder com mais seriedade aos casos de violação de direitos. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos.421/2002. d) o caso 12051. especialmente os que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. e) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. envolvendo a denúncia de discriminação contra mães adotivas e seus respectivos filhos. surge como significado fator para a proteção dos direitos humanos. e f) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. A ação internacional e as pressões internacionais podem contribuir para transformar uma prática governamental específica. culminou na condenação do Brasil por violência doméstica sofrida pela vítima. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. no que se refere aos direitos humanos. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. Enfim. com o intenso envolvimento das organizações não governamentais. e. e culminou na adoção da Lei n.

Capítulo X ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Nestas considerações finais. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. A partir do pós-guerra. 3) Os indivíduos e grupos 79 . controle e fiscalização internacional. O sistema nacional de proteção interage e se completa com a sistemática internacional. constituindo garantia adicional de proteção dos direitos humanos. São argumentos para a democratização do acesso às Cortes internacionais: 1) Implementação dos direitos humanos deve ser realizado de modo geral. O controle internacional é acionável quando o Estado se mostra falho ou omisso. Por exemplo. contudo. não atribui ao indivíduo ou entidades não governamentais legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Todavia. ainda se faz necessário democratizar determinados instrumentos e instituições internacionais para permitir maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. Os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. de âmbito global e regional. inserindo os indivíduos e as organizações não governamentais. que a ação internacional é sempre uma ação suplementar. como também de âmbito geral e específico. em caso de violação a direitos fundamentais. Os processos de universalização e internacionalização dos Direitos Humanos levaram à formação de um sistema normativo internacional de proteção de direitos humanos. a fim de proporcionar a maior efetividade possível na tutela e promoção de direitos fundamentais. e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. da Convenção Americana. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. examina-se a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos. surgiu o Direito Internacional dos Direitos Humanos como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea.para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. o art. com legitimação ao acionamento direto de mecanismos internacionais (petições ou comunicações aos órgãos internacionais). 2) Fortalecimento da implementação do sistema internacional dos direitos humanos. Ao acolher o aparato internacional de proteção. Ressalte-se. O movimento de internacionalização dos direitos humanos contribui para a democratização dos sujeitos de direito internacional. o Estado passa a aceitar o monitoramento. 61.

como marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no País. compondo o bloco de constitucionalidade. Com esse raciocínio se conjuga o princípio das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. Com a Carta democrática de 1988. os tratados de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. 5º. O texto democrático ainda rompe com as Constituições anteriores ao estabelecer um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. todos os tratados de direitos humanos. exigindo nova interpretação de princípios tradicionais. os quais se sujeitam à sistemática da incorporação legislativa e detêm status hierárquico infraconstitucional. da Constituição Federal de 1988. 5. Nesta hipótese. até mesmo contra o próprio Estado pactuante. inovando a ordem jurídica brasileira. Por força do art. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível 80 . que apresentam aplicabilidade imediata. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico brasileiro. que objetivam assegurar uma relação de equilíbrio e reciprocidade entre Estados pactuantes – priorizam a busca em assegurar a proteção da pessoa humana. §1. A Carta de 1988 acolhe. devendo os mesmo ter acesso às Cortes e os Estados são relutantes em submeter casos por razões políticas. §2º. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. o aparato internacional permite o aperfeiçoamento do próprio regime democrático. Em síntese: A Constituição de 1988. §2 e §3. que combina regimes jurídicos diferenciados – um aplicável aos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos e outro aplicável aos tratados tradicionais. Esse sistema misto se fundamenta na natureza especial dos tratados internacionais de direitos humanos que – distintamente dos tratados tradicionais. passam a integrar formalmente o Texto Constitucional. a dignidade da pessoa humana. isto é. vêm a constituir os princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (EC/45). ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. No caso Brasileiro. diversamente dos tratados tradicionais. os tratados de direitos humanos são incorporados automaticamente pelo direito brasileiro e passam a apresentar hierarquia de norma constitucional. independentemente do quorum de sua aprovação. ineditamente consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. bem como os direitos e garantias fundamentais. por força do art. incluindo-os no elenco dos direitos constitucionais garantidos. À luz desse regime. como a soberania nacional e a não-intervenção. são materialmente constitucionais. atribuiu aos direitos humanos internacionais hierarquia de norma constitucional. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. um sistema misto. desse modo. Enfatize-se que a Constituição Brasileira de 1988.são aqueles diretamente afetados.

Ademais. o Direito Internacional dos Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. Há que ser também afastada a frágil argumentação de que os direitos internacionais integrariam o universo impreciso e indefinido dos direitos implícitos. embora decorrentes de fonte internacional. por vezes. nacional e internacionalmente assegurados. decorrentes do regime ou dos princípios adotados pela Constituição. Ainda que não bastando para tanto a menção aos dispositivos dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Diante da publicidade de casos de violações de direitos humanos e de pressões internacionais. os direitos internacionais dos Direitos Humanos – por força do princípio da norma mais favorável à vítima.– o princípio vem a consolidar o alcance interpretativo que se propõe relativamente aos parágrafos do art. Quando o Governo torna-se ciente de problema e do possível risco de constrangimento. jamais a restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. que demarcam um catálogo claro. 5º do Texto. permitindo. precisão e definido de direitos. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos – apenas vêm a aprimorar e fortalecer. Capítulo XI SÍNTESE 81 . Seja em face da sistemática de monitoramento internacional que proporciona. A sistemática internacional de accountabilty vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em visa que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo a amplo dos direitos humanos. sendo a publicidade um importante fator para a implementação dos direitos humanos. que passou a incorporar preceitos enunciados de direitos fundamentais que. a abertura da Constituição à normação internacional resultou na ampliação do bloco de constitucionalidade. Também. veiculam matéria e conteúdo de inegável natureza constitucional. Admitir o contrário traduziria o equivoco de consentir na existência de duas categorias diversas de direitos fundamentais – uma de status constitucional e outra de status ordinário. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. seja em face do extenso universo de direitos que assegura. oficiais diplomáticos devem tomar medidas para remediar a situação. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos.

1. A Constituição brasileira de 1988 simboliza o marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. 2. O valor da dignidade humana impõe-se como núcleo básico e informador do ordenamento jurídico brasileiro, como critério e parâmetro de valoração a orientar a interpretação e compreensão do sistema constitucional instaurado em 1988. Os direitos e garantias fundamentais passam a ser dotados de uma especial força expansiva, servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico nacional. 3. O equacionamento dos direitos humanos no âmbito da ordem jurídica interna permitiu que tais direitos se convertessem em tema fundamental na agenda internacional do País. Essa mudança tem gerado um novo constitucionalismo. 4. A CF-88 reproduz tanto a antiga preocupação referente à independência nacional e à não intervenção como, também, inova ao realçar uma orientação internacionalista jamais vista na história brasileira. Essa orientação se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos, do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. 5. A CF-88 ineditamente consagra o primado do respeito aos direitos humanos, como paradigma propugnado para a ordem internacional. Assim sendo, a soberania do Estado brasileiro fica submetida às regras jurídicas, tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. 6. Os direitos humanos surgem para o constituinte como tema global. 7. Ineditamente, a CF-88 prevê que os direitos e garantias expressos no Texto não excluem outros decorrentes de princípios ou Tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte (art 5º, § 2º CF). Assim sendo, a CF atribui natureza de norma constitucional aos tratados internacionais de direitos humanos. 8. Todos os tratados de direitos humanos, independentemente do quorum de aprovação são materialmente constitucionais. Se aprovados com quorum qualificado (art 5º, § 3º, introduzido pela EC 45/04), serão também formalmente constitucionais, sendo equiparados às emendas à Constituição. 9. Em favor dessa constitucionalização, normas constitucionais referentes aos direitos humanos. 10. De acordo com o artigo 5º, § 2º CF, há 03 grupos de direitos fundamentais: a) direitos expressos na CF, b) direitos expressos em tratados internacionais de que o Brasil seja parte, c) direitos implícitos. 11. Enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional (art 102, III, b, CF), os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos têm força constitucional, por apresentarem caráter especial e por não buscarem apenas o equilíbrio e reciprocidade entre os Estados-partes. 82 há a natureza materialmente constitucional dos direitos fundamentais, como ainda o princípio da máxima efetividade das

12. Os direitos constantes nos tratados internacionais de direitos humanos, assim como os demais direitos e garantias individuais consagrados na Constituição constituem cláusulas pétreas, e não podem ser abolidos nem por Emenda à Constituição (artigo 60, § 4º CF). Todavia, os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis denúncia por parte do Estado signatário. Propõe-se a necessidade de prévia autorização do Legislativo, assim como ocorre na Ratificação. 13. Os tratados internacionais de direitos humanos formal e materialmente constitucionais não são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário, devido ao grau de legitimidade popular e ao dificultoso processo de aprovação (maioria de 3/5 dos votos dos membros em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos de votação). 14. A CF-88 situa-se num contexto em que diversas Constituições latino americanas recentes buscam dispensar tratamento especial e diferenciado aos preceitos de direitos humanos. 15. Quanto à incorporação dos tratados de direitos humanos no Direito brasileiro, aplica-se o princípio da aplicabilidade imediata das normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais (art 5º, § 1º CF), havendo, pois, incorporação automática desses tratados, sem a necessidade de ato jurídico complexo. Com o ato de ratificação, a regra passa a vigorar de imediato. Isso não ocorre com os tratados tradicionais, para os quais se aplica a regrada incorporação legislativa. 16. Considerando-se a hierarquia dos direitos humanos, três hipóteses podem ocorrer. O direito enunciado nos tratados poderá: a) reproduzir direito assegurado pela Constituição; b) integrar o universo de direitos constitucionalmente previstos; c) contrariar preceito constitucional. Neste último caso, prevalecerá a norma mais favorável ao ser humano. 17. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário, a Liga das Nações Unidas e a Organização Internacional do Trabalho. Esses institutos registram o fim de uma época em que o direito Internacional era, salvo raras exceções, confinado a regular relações entre Estados, no âmbito estritamente governamental. Rompem, também, com a noção de soberania absoluta, pois admitem intervenções no plano nacional, em prol da proteção dos direitos humanos. 18. Contudo, a efetiva consolidação do Direito Internacional dos direitos humanos surgiu em meados do Século XX, em decorrência da II Guerra Mundial. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da Era Hitler. 19. O Tribunal de Nuremberg (1945-1946) significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos, pois consolida a idéia de limitação da soberania nacional e reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo Direito Internacional. 83

20. A Carta das Nações Unidas de 1945 consolida, de forma decisiva, o movimento de internacionalização dos direitos humanos. Definitivamente, a relação entre um Estado e seus nacionais passa a constituir uma problemática internacional. 21. A Declaração Universal dos direitos humanos, em 1948, define com precisão o elenco de “direitos humanos e liberdades fundamentais”. 22. Concebida como a interpretação autorizada dos artigos 1º (3) e 55 da Carta da ONU, a declaração de 1948 estabelece duas categorias de direitos: direitos civis e políticos e direitos econômicos, sociais e culturais. Combina ineditamente o discurso liberal e o discurso social da cidadania, conjugando o valor da liberdade ao valor da igualdade. Os direitos humanos passam a ser concebidos como unidade interdependente e indivisível. A Declaração, além da indivisibilidade, endossa ainda a universalidade desses direitos. 23. A declaração Universal de 1948, ainda que não assuma a forma de tratado internacional, apresenta força jurídica obrigatória e vinculante, na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante dos artigos 1º (3) e 55 da Carta das Nações Unidas. Outrossim, ao logo de mais de cinqüenta anos de sua adoção, transformou-se em direito costumeiro internacional e princípio geral de Direito Internacional. 24. A concepção universal dos direitos humanos sofreu e sofre resistências dos adeptos do relativismo cultural. Para os relativistas, cada cultura possui seu próprio discurso acerca dos direitos fundamentais, de acordo com as peculiaridades culturais e históricas de cada sociedade. Em contrapartida, a corrente universalista, acolhida pela Declaração de Viena de 1993, consagra que todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados. Compartilha-se de um “universalismo de confluência”, ou seja, um universalismo de ponto de chegada e não de ponto de partida, observando-se, ainda, um “mínimo ético irredutível”. 25. Sob o enfoque estritamente legalista, a Declaração Universal não apresenta força jurídica obrigatória e vinculante, já que assume a forma de declaração e não de tratado. Por isso, houve o processo de “juridicização” da Declaração, concluído com a elaboração de 02 Pactos: Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Formou-se, assim, a Carta Internacional dos Direitos Humanos (International Bill of Rights). 26. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura o sistema normativo global de proteção desses direitos, ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. Assim sendo, faz-se possível a responsabilização do Estado no domínio internacional quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas. A sistemática internacional é, portanto, sempre adicional e subsidiária. 27. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais não apenas incorporam os direitos originariamente previstos na Declaração Universal de 1948 como os estendem e ampliam. 84

Os direitos previstos no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos possuem aplicabilidade imediata, sendo que os previstos no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais têm aplicação “progressiva”, pois estão condicionados à atuação do Estado. Para esse estudo, esses últimos também são direitos acionáveis, já que a idéia de não-acionabilidade dos direitos sociais é meramente ideológica e não científica. 28. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresenta um peculiar mecanismo que envolve a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática opcional das comunicações interestatais. O protocolo Facultativo prevê, ainda, o mecanismo das petições individuais a serem encaminhadas pelos indivíduos e examinadas pelo Comitê de Direitos Humanos. Como requisito de admissibilidade dessas petições, tem-se: esgotamento prévio dos recursos internos e comprovação de que a questão não está sendo examinada por outra instancia internacional. Já o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais apresenta apenas o mecanismo de relatórios encaminhados pelos Estados-partes acerca das medidas que estão sendo adotadas. Encontra-se em processo de elaboração um Protocolo Facultativo que prevê o mecanismo de petições individuais. 29. O sistema global de proteção dos direitos humanos tem sido ampliado com o advento de tratados multilaterais de direitos humanos, pertinentes a violações específicas, como o genocídio, tortura, discriminação contra a mulher, etc. Assim, forma-se a coexistência de sistema geral e sistema especial, os quais são complementares. 30. Constata-se que, no sistema normativo global de proteção, até o advento do estatuto do Tribunal Penal Internacional, em 1998, não era previsto um órgão jurisdicional com competência para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. Com exceção dessa jurisdição de natureza estritamente penal, no âmbito global a sistemática de monitoramento internacional continua a se restringir ao mecanismo dos relatórios. Impõe-se a necessidade da instituição de um Tribunal Internacional de Direitos Humanos, que tenha o poder de proferir decisões com força jurídica vinculante e obrigatória aos Estados perpetradores de violações. Faz-se também necessária a adoção do mecanismo de petição individual por todos os tratados internacionais de direitos humanos 31. A possibilidade de submeter o Estado-parte ao monitoramento e controle da comunidade internacional, sob o risco de constrangimento (embarrassment), em face de uma condenação política e moral é importante estratégia a ser utilizada pelos indivíduos titulares de direitos internacionais. 32. Ao lado do sistema normativo global, surge o sistema normativo regional de proteção, que busca internacionalizar os direitos humanos no plano regional, especialmente na Europa, América e África. Esses sistemas não são dicotômicos, mas complementares. Cabe ao indivíduo a escolha do aparato mais favorável. 85

por vezes. A Corte pode determinar a adoção de medidas necessárias à restauração do direito. O marco inicial do processo de incorporação de tratados internacionais de direitos humanos pelo Direito brasileiro foi a ratificação. 35. desumanos e degradantes (2007) 38. cultural ou econômico. é órgão jurisdicional do sistema regional interamericano que apresenta competência consultiva e contenciosa. não estando prevista a legitimação do indivíduo. Quanto à Corte Interamericana. sendo que o último foi o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e outros Tratamento ou penas cruéis. diversos instrumentos internacionais foram incorporados ao Direito brasileiro. cabe à Comissão: fazer recomendações aos governos. não enunciando de forma específica qualquer direito social. 37. aceitando expressamente a legitimidade das instâncias internacionais quanto ao cumprimento conferido pelo País às obrigações internacionalmente assumidas concernentes aos direitos humanos. sob a égide da CF-88. A Convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos humanos. preparar estudos e relatórios. 36. limitada aos Estados-partes que reconheçam expressamente tal jurisdição. A Corte Interamericana possui jurisdição para examinar casos que envolvam a denúncia de que um Estado-parte violou direito protegido pela Convenção. integrantes do sistema global e regional. A competência da Corte é. 34. de modo a 86 . O instrumento de maior importância do sistema regional interamericano é a Convenção Americana de Direitos Humanos. Para que o Brasil se alinhe efetivamente à sistemática internacional de proteção dos direitos humanos. mas determinando que os estados alcancem progressivamente a plena realização desses direitos. em 1º de fevereiro de 1984. Atente-se que apenas os Estados-partes e a Comissão Interamericana podem submeter um caso à Corte Interamericana. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. O Brasil aderiu a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. solicitar informações dos governos quanto às medidas adotadas. o qual é integrado pela Comissão Interamericana de direitos humanos e pela Corte Interamericana.33. a qual assegura um catálogo de direitos civis e políticos. tendo sua decisão força jurídica vinculante e obrigatória. da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. é emergencial uma mudança de atitude política. Para tanto. processo deflagrado com o fim da Guerra Fria. A reinserção do Estado brasileiro ocorre em um contexto em que o processo de democratização no Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. submeter relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). Desde então. examinar comunicações que contenham denúncias. A principal função da Comissão é promover a observância e proteção dos direitos humanos na América.

41. A advocacia dos instrumentos internacionais permite a tutela. 40. A ação internacional auxilia na publicidade das violações de direitos humanos. O aparato internacional permite intensificar as respostas jurídicas diante de casos de violação de direitos humanos. É preciso também reavaliar a postura quanto aos procedimentos facultativos.não se recusar a aceitar procedimentos que permitam acionar de forma direta e eficaz a international accountability. O Direito Internacional dos Direitos Humanos instaura um processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. na medida em que passa a incluir direitos previstos no plano nacional e também os direitos internacionalmente enunciados. o qual se vê alargado. 39. Outrossim. oferecendo o risco de constrangimento (embarrassment) político e moral do Estado violador. 87 . ocorre o aperfeiçoamento do próprio regime democrático. aceitando mecanismos de petição individual e comunicação interestatal. supervisão e monitoramento do modo pelo qual o Brasil garante os direitos humanos internacionalmente assegurados. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. A advocacia dos tratados de direitos humanos oferece relevantes estratégias de ação. há relevantes tratados pendentes de ratificação. Assim sendo.

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