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Monografia Aborto

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Publicado porEduardo Caetano
No decorrer do trabalho, nos propusemos a mostrar o aborto sob os pontos de vista médico, jurídico, moral, psicológico e religioso. Adiante, evidenciamos a realidade brasileira, os movimentos a favor e contra o aborto e o movimento da legalização de sua prática. Por fim, apresentamos as opiniões dos entrevistados a cerca do assunto em tela. Não temos a pretensão e nem a capacidade de esgotar o assunto. Ensejamos apenas clarificar os problemas envolvidos no aborto e oferecer um tipo racional de respostas que possam ser consideradas seriamente por todos aqueles de boa vontade que, como nos questionam: Legalizar é ou não é a solução.
No decorrer do trabalho, nos propusemos a mostrar o aborto sob os pontos de vista médico, jurídico, moral, psicológico e religioso. Adiante, evidenciamos a realidade brasileira, os movimentos a favor e contra o aborto e o movimento da legalização de sua prática. Por fim, apresentamos as opiniões dos entrevistados a cerca do assunto em tela. Não temos a pretensão e nem a capacidade de esgotar o assunto. Ensejamos apenas clarificar os problemas envolvidos no aborto e oferecer um tipo racional de respostas que possam ser consideradas seriamente por todos aqueles de boa vontade que, como nos questionam: Legalizar é ou não é a solução.

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EDUARDO CAETANO GOMES

ABORTO

O presente estudo tem cunho científico, trabalho, no nos decorrer propusemos do a

mostrar o aborto sob os pontos de vista médico, jurídico, moral, psicológico e religioso.

A divulgação desse trabalho foi autorizada pelo autor, o Dr. Eduardo Caetano Gomes, desde que citada e respeitada às devidas fontes. Facebook: http://www.facebook.com/duducaetano Email: edugomes90@hotmail.com

INTRODUÇÃO

Eu preciso abortar. Condenável perante a lei, pecaminosa aos olhos da Igreja e ignorada por parte da sociedade, essa afirmação é repetida pelo menos 1,5 milhão de vezes por ano no Brasil. Consuma-se de maneira clandestina e, em 80% dos casos, insegura: cerca de 9 mil mulheres por ano morrem no país em conseqüência de abortos mal feitos sem acompanhamento médico ( pesquisa feita em 1995 pelo prof. Rui Laurenti, da Faculdade de Saúde Pública da USP / Revista Marie Claire, agosto/95). A interrupção da gravidez, como teremos oportunidade de ver adiante, só é permitida quando a gestante corre risco de vida ou quando a gravidez resulta de estupro. Os demais casos configuram crime segundo o Código Penal, mas acabam resolvidos à revelia da lei, sem condições mínimas de segurança. De acordo com o Instituto Alan Guttmacher (EUA), responsável pela mais completa pesquisa sobre o tema feita na América Latina em 1994, o aborto clandestino é a terceira causa de morte de mulheres brasileiras (Revista Marie Claire, agosto/95). Para alguns, a saída para essa tragédia nacional é a legalização da prática. Mas há quem defenda a preservação do tabu. Qual será a melhor resposta? A legalização do aborto no Brasil seria ou não a solução? Enquanto a discussão se arrasta, milhares de mulheres são obrigadas a tomar, sozinhas, a difícil decisão de interromper ou não uma gravidez.

Diante disso, o aborto sempre foi e continuará sempre sendo, uma questão polêmica, despertando fortes emoções em ambos os lados, tanto do lado pró quanto do lado anti-aborto. O interesse pelo tema surgiu, assim, da sua atualidade e da sua proximidade, visto que aborto é algo com o qual convivemos no dia a dia. Sempre há uma amiga, uma prima, uma vizinha, uma namorada passando por essa dúvida e sempre somos chamados a opinar; de tal sorte que o aborto, embora “por debaixo dos panos”, é uma constante em nossas vidas.

I– CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

1.1 Conceito de aborto

A palavra aborto é hoje uma das palavras mais explosivas e carregadas de tabus e preconceitos de nossa linguagem cotidiana. Aborto é a interrupção da gravidez antes do bebê atingir viabilidade, isto é, a capacidade de viver fora do organismo da mãe. Não é preciso haver expulsão do conteúdo uterino para caracterizar-se aborto, basta cessar o desenvolvimento do ovo. O ovo tanto pode ser feto, embrião ou zigoto; cada um desses nomes se refere ao produto da fecundação ou concepção, o concepto em uma de suas diferentes fases de

desenvolvimento ao longo da gestação.
“O termo correto empregado nos meios médicos é abortamento. Aborto é uma corruptela da palavra, de uso corrente, e a definição obstétrica do abortamento é: a perda de uma gravidez antes que o embrião e posterior feto (até à oitava semana diz-se embrião, a partir da nona semana, feto) seja potencialmente capaz de vida independente da mãe.” (Danda, Prado; O que é aborto; 4ª Edição/91; Editora Brasiliense; pág. 11).

1.2 Em que consiste o aborto

Em ambos os casos, o objetivo é deslocar o embrião da parede uterina onde se aninhou, seja de maneira mecânica despregando-o com

algum instrumento , seja forçando o útero a contrair-se (como o faria no momento do nascimento) até que o expulse. A maioria dos dados disponíveis sobre índices de abortos ilegais demonstra que as mulheres praticam o aborto em si próprias ou deixam que terceiros os provoquem em quaisquer circunstâncias, tratando-se, muitas vezes, de pessoas não qualificadas para tais operações. Quando os métodos empregados são perigosos, como os instrumentos agudos (agulhas de tricô, pedaços de fios elétricos, de canos, talos de plantas, etc.) podem perfurar o útero, sendo quase sempre dolorosas essas intervenções, degenerando em hemorragias ou infecções graves que requerem hospitalização.
“Outras práticas são aquelas que visam originar contrações no útero empregando saponáceos ou misturas venenosas, que podem causar infecções graves e intoxicações mortais.” (Prado, Danda; O que é aborto; 4ª Edição/91; Editora Brasiliense; pág. 37).

Atualmente o aborto é legal em muitos países; no Brasil, mesmo sendo ilegal, todos os anos muitas mulheres interrompem a gravidez. Em países onde o aborto é ilegal, como ocorre no Brasil, é freqüente o internamento de mulheres com hemorragias e infecções sérias provocadas por abortos que são realizados em condições muito precárias. Muitas dessas mulheres morrem, outras ficam estéreis, e as que conseguem sair ilesas fisicamente, muitas vezes ficam emocionalmente arrasadas. Temendo a censura e o desprezo da família e dos amigos, muitas delas mantêm segredo sobre a experiência. Nos países onde o aborto é legalizado, as mulheres podem sentirse seguras com uma operação realizada sob boas condições de higiene e com técnicas modernas; podem também compartilhar seus medos e reservas com os amigos sem sofrer constrangimento ou ostracismo social.

Na última década as técnicas de aborto foram muito aperfeiçoadas; e nos países onde a intervenção é legal, a idéia integrou-se de tal forma aos hábitos da sociedade que se criaram centros de aconselhamento psicológico e emocional para dar apoio às mulheres com qualquer problema ligado a aborto. 1.3 História do Aborto Moderno Como já dito anteriormente este trabalho discorrerá sobre a proibição da Liberdade Provisória existente na Lei nº 8.072/90, Lei de crimes hediondos (LCH). No entanto, é inevitável tecer algumas

considerações a respeito da lei em si, para ter maior alcance ao que significa o disposto no art. 2º, II, segunda parte, da referida lei, face o ordenamento jurídico brasileiro. Os abortos são classificados de acordo com o tempo de gravidez, que é dividida em trimestres, de acordo com o livro O corpo da mulher; de Lauersen, Niels e Whitney, Steven; 3ª Edição/96; Editora Abril; qual seja: O primeiro trimestre vai até a décima-segunda semana após o primeiro dia da última menstruação, ou a décima semana após a concepção. Até algum tempo atrás, o método utilizado para o aborto era a dilatação e curetagem (evacuação instrumental via vaginal), geralmente durante o primeiro trimestre de gravidez. O processo envolve o alargamento do canal cervical pela inserção de dilatadores metálicos de calibre crescente e quando a cavidade uterina se torna acessível o seu conteúdo é removido com pinça, completando-se a operação com a remoção do tecido restante, pela raspagem das paredes uterinas com cureta metálica. Os chineses foram os primeiros a abandonar essa técnica, e aos fins da década de cinqüenta, eles introduziram o aspirador. Na década

seguinte, a técnica de aspiração chegou à Europa, Inglaterra e aos Estados Unidos. Transformou o aborto numa operação relativamente segura, por dilatar menos o colo do útero e diminuir o tempo da operação, sem raspar as paredes do útero. Entre a décima-segunda e a vigésima-quarta semana de gravidez faz-se um aborto do segundo semestre, ou tardio. Esse aborto, em vez de aspirar mecanicamente os produtos da concepção, é induzido pela imitação de um aborto espontâneo. Para isso, usaram-se soluções como catalizadores. Um dos primeiros métodos envolvia a injeção intraamniótica de uma solução salina no saco de líquido que envolve o feto. Desenvolveram uma solução de 50% de glicose, porém não teve repercussão, por mostrar-se um meio favorável a infecções, mesmo quando administrada com antibióticos. Usaram-se também outras soluções, nas quais algumas mostraram-se eficazes mesmo quando injetadas entre a membrana do feto e do útero, sem penetrar no saco amniótico. Na década de quarenta, o uso da solução salina ganhou ampla aceitação, até que mostraram uma alta incidência de infecções, hemorragias uterinas e até mesmo hemorragia cerebral. Essa solução ainda é usada, mas só que em doses limitadas e seguras sob estrita supervisão. Contudo, em muitos lugares, ela foi substituída pelas prostaglandinas. Trata-se de uma substância isolada da próstata e do sêmen que provoca contrações uterinas, podendo ser usada com êxito para induzir um aborto tardio. Só que esse tipo de aborto era acompanhado de náuseas, vômitos e diarréia. Essa droga era administrada de vários modos até que se descobriu que a injeção infraamniótica diminuía os efeitos colaterais e provocava contrações uterinas fortes o suficiente para causar a expulsão do feto. Extração Menstrual, ou Miniaborto: Dentre os métodos de aborto, o mais rápido, fácil, e seguro é o conhecido como regulação, ou

extração menstrual, desenvolvido na tentativa de minimizar o trauma psicológico do aborto. A “regulação menstrual” é o método que se propõe para ocupar a lacuna entre a “anticoncepção apriorística” e o “abortamento retroativo”. A princípio, esse procedimento foi aplicado em mulheres que deixavam de menstruar, mas cujo teste de gravidez dava negativo. O método consiste simplesmente na remoção do endométrio, que normalmente seria expelido pelo mênstruo. A técnica consistente na aspiração à vácuo do endométrio alguns dias a poucas semanas após uma menstruação atrasada, é também conhecida como indução menstrual, planejamento menstrual, aspiração endometrial, abortamento antecipado, suspensão atraumática da gravidez ou simplesmente extração menstrual como definiu o Supremo Tribunal dos Estados Unidos, em 1973, ao legalizar o abortamento no início da gravidez. Posteriormente, o termo “extração menstrual” foi considerado inadequado e a técnica passou a ser chamada “miniaborto”, sendo recomendado somente quando o teste de gravidez tem resultado positivo e a mulher está há menos de sete semanas sem menstruar. O miniaborto é apregoado por oferecer muitas vantagens: é técnica simples, segura e rápida; pode ser executada por médicos e paramédicos; as complicações são mínimas; os efeitos a curto e longo praz são de pequeno porte ou inexistentes; dispensa internação e anestesia geral; o equipamento é simples e o procedimento de baixo custo. Aborto por sucção: Mais recentemente, a curetagem cirúrgica tem sido paulatinamente substituída pela curetagem aspirativa ou por sucção, que consta da introdução de uma cânula plástica ou metálica no interior do útero. Pode ser feito até doze semanas depois da amenorréia (ausência de menstruação), pois, à partir desse período, o feto fica bem

maior e pode ocorrer um sangramento grave caso tente a sucção. Além disso, como o feto já está grande, o colo do útero pode ser rasgado com a tentativa de aborto por sucção na gravidez de mais de doze meses. O vácuo necessário para a sucção é produzido por bomba, acionada por motor elétrico ou manualmente. A sucção deve subir até pelo menos 60 cm de pressão da água para evacuar completamente os produtos da concepção. A sucção da bomba afrouxa delicadamente o tecido fetal da parede do útero e aspira-o, provocando contrações do útero, diminuindo a perda de sangue. Com anestesia local, usa-se uma injeção de Ergotrate para contrair o útero, o que pode causar náuseas e vômito. Alguns completam a aspiração com a raspagem da cavidade para assegurar seu esvaziamento integral. É a melhor técnica para a interrupção da gravidez entre a sétima e a décima-segunda semana após o último período menstrual. Aborto na “zona cinzenta” “Zona cinzenta” é o período de tempo que vai da décima segunda à décima-sexta semana após a última menstruação. Geralmente não se fazem aborto nesse período, pois o feto já está muito grande para a sucção e há pouco líquido amniótico para permitir uma injeção intra-amniótica. Isso significa que a mulher que descobre que está grávida, ou que por alguma razão adia a decisão de abortar até esse momento, deve esperar mais um mês até entrar no período em que é possível fazer um aborto tardio. O aborto realizado durante a “zona cinzenta” é feito com supositórios vaginais de prostaglandina E2, que é uma droga que provoca contrações uterinas e aborto. A 15(S)-15-metil prostaglandina F2 alfa, é um outro tipo de prostaglandina desenvolvida, que também pode induzir o aborto nesse período, quando injetada intramuscularmente a cada duas ou três horas e

provoca o aborto em cerca de catorze horas. Aparentemente, relaxa o colo do útero, reduzindo com isso a dor associada ao aborto. Aborto tardio: As mulheres devem estar conscientes das dificuldades relacionadas a um aborto tardio, pois a interrupção da gravidez entre a décima-sexta semana e a vigésima-quarta semanas de gestação é a mais difícil e complicada de todas as técnicas de aborto. Por isso, a mulher que está pensando em interromper a gravidez deve fazê-lo assim que souber que está grávida. Além das complicações médicas, os abortos tardios são associados a dificuldades psicológicas mais acentuadas. O aborto depois de três meses costuma ser uma operação tanto dolorosa, mas sua principal seqüela costuma ser o trauma psicológico. A depressão que acostuma acompanhar o aborto tardio pode ser muito séria, levando mesmo ao suicídio. Algumas mulheres ficam deprimidas ao ponto de serem hospitalizadas. Torna-se importante o apoio da família depois de qualquer tipo de aborto. Elas precisam saber que a depressão passa e que nada impede que futuramente engravidem e tenham filhos, desde que o aborto tenha sido bem feito. Outros Métodos: A introdução de dispositivos como vonolas finas no espaço extra ovular é o método usual das aborteiras (fazedoras de anjos), tendo como complicação importante a infecção da cavidade uterina. Esse método na maior parte das vezes apenas inicia o processo abortivo, sendo necessário posteriormente intervenção hospitalar e curetagem uterina para o esvaziamento total da cavidade. As Pílulas do Aborto: Interromper uma gravidez não é, em situação alguma, uma experiência agradável. Mas se não fossem as implicações morais e legais que o ato carrega, poderia ser uma situação menos traumática. Se a questão dependesse apenas de aspectos médicos, a

maioria das mulheres que decidem não ter um filho não precisaria passar pelas famigeradas clínicas. Tudo poderia ser um segredo guardado entre pacientes e ginecologistas no anonimato dos consultórios. Hoje, existe uma série de medicamentos capazes de induzir um aborto de forma segura, com a orientação de médicos, mas dispensando o aparato hospitalar exigido para uma cirurgia. O medicamento mais famoso deles, é a RU-486, a chamada pílula do aborto. Existente no Brasil, onde o aborto é enquadrado como crime na maioria dos casos; porém, existem outros remédios, que não são exclusivamente abortivos, mas que também funcionam para este fim. A pílula do dia seguinte é uma pílula anticonceptiva de alta dosagem hormonal, como a Anfertil, a Neovular e a Evanor. Quando tomada até 72 horas depois da relação sexual, pode evitar a implantação do óvulo fecundado. É amplamente receitada pelos ginecologistas do país, apesar de terem as mesmas contra-indicações de qualquer pílula. A mulher, ao tomar essa pílula, jamais saberá se chegou a ficar grávida. No entanto, muitos de nós, sequer sabem da existência de tais “medidas de emergência”. Os órgãos oficiais de saúde, longe de demonstrar qualquer interesse em divulgar esses meios, procuram coibir o seu uso, como por exemplo, o caso do misoprostol, ou Cytotec, um remédio contra úlceras gastroduenais que era usado para provocar abortos no Brasil. Numa pesquisa realizada em sete hospitais públicos do Rio de Janeiro pela Escola Nacional de Saúde Pública, os resultados revelaram que, de um grupo de 803 mulheres internadas em virtude de complicação no aborto, 57% relataram o uso do Cytotec. A RU-486, ainda já existente e distribuído no Brasil, é, na verdade, um novo método abortivo, mais simples e seguro que os cirúrgicos, que foi desenvolvido em 1980 pelo cientista francês Etienne-

Emile Baulieu. A pílula RU-486, mesmo nos países onde o aborto é permitido, despertou muita controvérsia: Depois de anos de testes em cerca de 17000 mulheres, o governo francês anunciou que a pílula seria liberada para uso público em 1988. Em resposta, grupos oposicionistas manifestaram-se contra, até que o laboratório decidiu retirar o medicamento do mercado alegando não ter nenhuma intenção de participar de um “debate moral”. A reação da comunidade médica internacional foi imediata; e a partir do momento em que o governo aprovou o medicamento, a RU-486 passou a ser propriedade moral das mulheres. Atualmente, a RU-486 é empregada em vinte países, incluindo a Inglaterra, a Suécia, a China e a Holanda. No Brasil, o Ministério da Saúde não recebeu nenhum pedido de registro do medicamento, nem mesmo para prescrição nas duas circunstâncias em que a prática do aborto é permitida por lei: quando a gravidez resulta de estupro e para salvar a vida da mãe. A insistência das autoridades em ignorar os avanços da medicina não impede que o aborto seja praticado em larga escala no Brasil, apesar da proibição prescrita na lei. Estima-se que em todos os anos são praticados de um a quatro milhões de abortos clandestinos, que na maioria das vezes ocorrem em situações precárias, sem as mínimas condições de higiene. Somente as mulheres de alto poder aquisitivo têm condições de pagar por um aborto seguro. As outras, ou seja, as demais, quando não podem recorrer a clínicas improvisadas que não dispõem sequer de anestesia (só sedativos), se sujeitam a curiosas ou adotam por si mesmas medidas dolorosas, que envolvem um alto risco de infecção e apenas iniciam a expulsão do feto. Entre as Técnicas utilizadas por elas estão a introdução de sondas no colo do útero, a injeção de substâncias cáusticas pela vagina e o

emprego de talos de couve e de bambu, agulhas de tricô e crochê e outros objetos. Segundo uma pesquisa realizada pelo Fundo de Populações das Nações Unidas, pelo menos quatro mulheres morrem todos os dias no Brasil com complicações dessa prática. Embora não exista um consenso entre os médicos quanto ao uso dos remédios como o Cytotec e mesmo o RU-486, um número considerável já admite a prática do aborto. Na opinião da socióloga Karen Giffin, a maioria é favorável à legalização, usando como argumento uma diminuição na mortalidade das mulheres. (Revista Nova, junho/94). Estas pílulas e injeções usadas por mulheres que desejam interromper a gravidez não são totalmente seguras e eficazes, pois algumas delas não fazem nenhum efeito e podem provocar sérios danos à saúde. Além disso, jamais devem ser tomadas sem orientação médica. São elas, em suma:  RU-486 - Conhecida como “pílula do mês seguinte”, a mifepristone é uma molécula que inibe a ação da progesterona (hormônio indispensável à gravidez). Impede a permanência do óvulo no útero, se usada até a sétima semana após o primeiro dia da última menstruação.  Cytotec - Nome comercial do misoprostol, que é uma prostaglandina de origem sintética, usada por via oral para o tratamento de úlceras gastroduenais. Essa substância age sobre a musculatura uterina e causa contrações.  Pílula do dia seguinte - Anticoncepcional de alta dosagem hormonal tomado até 72 horas após o ato sexual. Fornece ao organismo uma grande

quantidade de hormônios, como por exemplo, o estrógeno, e pode expulsar o óvulo.  Injeções - Uma delas faz a menstruação descer: à base de hormônios, promove uma súbita oscilação nas taxas dessas substâncias, caso a mulher não esteja grávida. Uma outra, supõe-se que seja uma mistura de hormônios, laxantes e produtos tóxicos. Provoca um abalo corporal, podendo levar ao aborto. Contudo, são pouco eficazes e muito perigosas.

Complicações: As complicações imediatas sérias são raras nos abortamentos legais. Incluem a perfuração uterina, combinada ou não à lesão intestinal ou de outros órgãos, hemorragia severa, laceração cervical. As complicações mediatas mais freqüentes incluem retenção de restos placentais (que causam hemorragia), infecção (desde leve indometrites até doenças inflamátorias pélvicas com peritonite e/ou septicemia). As seqüelas psicológicas do abortamento provocado (ainda que legal) tem sido objeto de grande preocupação. Conclusão de um grupo de estudos da OMS, de 1978, entretanto esclarece que “existe”, agora, substancial quantidade de informações sugerindo freqüentes benefícios psicológicos e uma baixa incidência de seqüelas psicológicas negativas1. MORTALIDADE: Quando a mulher fica grávida e não quer ter filhos, é importante que se decida o mais rápido possível pela interrupção da gravidez. O miniaborto e a curetagem no primeiro trimestre constituem as operações menos complicadas tanto do ponto de vista médico como psicológico. Como regra geral, quanto mais tardio o aborto, maior a probabilidade de complicações.

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http://www.oms.org

Estatísticas reunidas entre 1972 e 1975 nos Estados Unidos, indicam a taxa de mortalidade associada aos seguintes métodos de aborto:
“por sucção - 1,6 por cem mil abortos; instilação intraamniótica de solução salina - 22,9 por cem mil abortos; histerotomia - 45,0 por cem mil abortos.” (Niels Lauersen e Steven Whitney;.O Corpo da Mulher; 1ª Edição/90; Editora Abril)

O Aborto do Futuro: Futuramente, com mais educação e acompanhamento sexual, as mulheres compreenderão melhor seus corpos e serão capazes de detectar os sinais da gravidez mais cedo. Espera-se que os abortos de gravidez precoce tornem-se acessíveis a todas as mulheres e que elas tenham condições de descobrirem se estão grávidas sem medo de recriminações. Se a gravidez for confirmada e não puder ser mantida, deverá interromper o mais cedo possível, momento em que há maior margem de segurança e menor rigor de dano permanente ao organismo.
“Fazem-se pesquisas com a administração de diferentes tipos de prostaglandinas para a indução de aborto bem no início do primeiro trimestre de gestação. Essas substâncias talvez venham a substituir vários tipos de abortos mecânicos ou por sucção. Elas provocam a atividade uterina, que resulta na expulsão dos produtos da concepção. Talvez elas também venham a ser usadas para induzir a menstruação em mulheres com alguns dias de atraso.” (Niels Lauersen e Steven Whitney;.O Corpo da Mulher; 1ª Edição/90; Editora Abril).

II – O ABORTO E A IGREJA

A Igreja Católica desenvolve grande pressão contra a legalização do aborto, pois defende a tese de que o feto já seria um ser humano, com alma, desde a concepção. Abortar é matar. Entre a vida do feto e a da mãe, prevalece a do feto. Esta não é uma questão simples, pois implica determinar quando a vida começa a existir. “O Prêmio Nobel de Medicina e Filosofia professor François Jacob, quando depôs num famoso caso judiciário, em 1972, que marcou o início das campanhas favoráveis à legalização do aborto na França, declarou: „Não há solução para esse problema mal colocado, pois é bem evidente agora que a vida jamais começa, ela continua. Continua há três bilhões de anos. Um espermatozóide isolado ou um óvulo não está menos “vivo” que um ovo fecundado. Entre o ovo e o recém-nascido que dele surgirá não há um momento privilegiado nem etapas decisivas conferindo de repente a dignidade de pessoa humana. Há uma evolução progressiva, uma série de saltos, de reações e de sínteses, através dos quais se forma pouco a pouco o filhote do homem. A pessoa humana não surge num momento preciso. Quem então teria condições para decidir quando uma gravidez pode ser interrompida? Certamente, não o biólogo e muito menos o bispo ou o juiz. Eu não vejo outra pessoa além dos pais com direito a essa decisão.

“Para os representantes oficiais da Igreja Católica, contudo, a predisposição para praticar o aborto, que mesmo o uso de uma pílula como a do dia seguinte envolve, já é moralmente condenável. A Igreja parte do princípio de que a vida começa a existir quando o óvulo se une ao espermatozóide e desde esse momento passa a ser intocável. E ela é taxativa: não admite em nenhuma circunstância e por nenhum motivo o aborto, que é considerado um crime nefano e abominável” (Padre Júlio Munaro, coordenador da Pastoral da Saúde da Arquidiocese de São Paulo). “Porém, já existe dentro da própria Igreja uma posição extraoficial que considera o aborto justificável do ponto de vista ético. O feto, segundo esse grupo, torna-se um ser humano quando a mulher o aceita. Discute-se até hoje sobre o momento em que começa a vida, mas nunca chegam a um denominador comum. Entre os cientistas, existe um bom número que acredita que o ser humano é viável quando passa a ter condições de viver fora do organismo materno, o que não acontece antes da 24ª semana de gestação.”(Revista Nova, junho/94)

A Igreja condena o aborto arrogando-se a missão de defender os planos de Deus e de emprestar uma voz aos que não podem falar: os nascituros. A Igreja condena também a violência sexual e lamenta que crimes como esses continuem acontecendo. Mas pensa que se a mãe é inocente a criança também é. Ela tem o direito de viver. Assim, a igreja, aconselha que a mãe deve ter a criança com a ajuda da Sociedade.
“Tudo o que atenta contra a vida, como qualquer espécie de homicídio, o genocídio, o aborto, a eutanásia, e o próprio suicídio voluntário...todas estas práticas e outras semelhantes são dignas de censura. Enquanto mancham a civilização humana, desonram mais os que as praticam do que aqueles que as sofrem como vítimas. (Constituição “Gaudium et Spes”, nº 27)”.

A vida deve ser protegida com o máximo cuidado desde a concepção. O aborto, como o infanticídio, são crimes nefandos” manifestam-se todos os Bispos do Mundo no Concílio Vaticano II.

E ainda, no Sínodo dos Bispos, em 1971, no Documento sobre Justiça no Mundo, nº 24: “A contestação contra o aborto legal e contra a imposição de meios anticoncepcionais... são formas bem significativas da reivindicação do direito à vida.” Judaísmo: Desde séculos, o judaísmo permite o aborto terapêutico para salvar a vida da mãe. Em Israel, desde 1977, o aborto é permitido se a mulher o desejar, se for feito em hospital, se a gravidez resultar de incesto, estupro ou adultério, se a mulher tiver menos de dezesseis ou mais de quarenta anos. Protestantismo: Existem muitas igrejas protestantes, algumas de orientação fundamentalista, que rejeitam o aborto tão veementemente quanto a Igreja Católica. Mas algumas das Igrejas Protestantes reconhecem o aborto como uma escolha legítima da mulher (mórmons). A Igreja Metodista: Com 80.000 membros dispersos pelo país, na palavra do reverendo Dorival R. Beulker, dirigente de uma das Faculdades do Instituto Metodista de Ensino Superior de São Paulo, afirma que a Igreja Metodista não tem um dogma a respeito do aborto.
“O aborto é um tema que preocupa a Igreja e é assunto em aberto para ser discutido. Não é raro a comunidade ser convidada para esse tipo de debate. A Igreja metodista procura mostrar os prós e contras do abortamento, mas a decisão final pertence ao indivíduo”.

Espiritismo: Para os espíritas, religião extremamente difundida no Brasil, o aborto é um crime. No livro Vida e Sexo, de Francisco Xavier, o autor o cita como crime, em qualquer período de gestação, pois haverá crime sempre que a mãe ou quem quer que seja tirar a vida a uma criança antes de seu nascimento, pois isso impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.

III– ABORTO SOB O PONTO DE VISTA PSICOLÓGICO E MORAL

Ficar grávida é uma experiência quer pode ser motivo de enorme alegria ou desespero. Para a maioria das mulheres que engravida se têm um momento de alegria e festejação. Entretanto, mesmo em situação de alegria, estar grávida, pode gerar outra pessoa, a expectativa da responsabilidade pela vida de outro ser humano e a revivência de experiências primitivas com a própria mãe podem desencadear imensos conflitos. Na situação de aborto induzido, que é a terminação provocada de uma gravidez, além dos sentimentos, medos, conflitos muitas vezes naturais, despertados pela gravidez, a mulher tem que lidar com a impossibilidade de ter a criança e com a necessidade de enfrentar a eliminação desse feto, às vezes, sentindo que está eliminando uma vida, outras vezes acreditando que encerra uma vida ainda não existente mas que poderia vir a ser. Nesta decisão dificílima entram questões práticas como: tenho condições financeiras e emocionais para ter mais um filho? De que nos privaremos com a sua vinda? Como ele afetará o meu relacionamento com meu marido? Sendo solteira, como criarei meu filho? E os meus estudos? Existem creches ou condições para que eu possa continuar trabalhando? As respostas a estas e outras questões mais complexas podem levar a mulher e seu companheiro a optar pelo aborto.

Aí se inicia a questão ética: a minha vida é mais importante do que o direito de existir deste feto? E, em seguida, o aspecto mais complexo que é o emocional: vou me sentir culpada, vou me arrepender?
“A culpa por esta atitude de destruição pode ser bastante angustiante e difícil de tratar. Ainda mais quando é alimentada pela situação real de condenação social do aborto. A frustração pela interrupção da gravidez também é um sentimento muito comum. Restam a tristeza e a frustração, apesar da convicção de que foi a melhor alternativa. Muitas mulheres também comunicam uma sensação de alívio que ultrapassa a frustração e a tristeza. Em outras, o medo do arrependimento torna a decisão ou período pós-aborto muito difícil.” (Suplicy, Marta; Conversando sobre sexo; 17ª Edição/91; Editora Vozes)

Entretanto, na realidade brasileira, além destas preocupações ainda existe a de estar infringindo a lei, pois o aborto não é legal no nosso país. Isto não quer dizer, porém, que a mulher que decide pelo aborto, não o faça. Como fica a cabeça da mulher que faz um aborto? Com certeza, por mais consciente que tenha sido a decisão de abortar, ninguém sai da situação satisfeita. No máximo, aliviada. Algumas se referem a uma série de pressão, que pode ser passageira. Ao contrário do que se pensa, por mais integrado que seja o casal, muitas vezes esta é, para a mulher, uma decisão solitária, e mesmo que não o seja, o seu ônus, em todos os aspectos, geralmente cabe a ela. A decisão de abortar um filho não desejado pode ser vista como mais uma dificuldade que se tenha que enfrentar na vida. Algumas mulheres conseguem gerenciar este e outros momentos de conflito como trocar de emprego ou desfazer um casamento de forma construtiva. Outras, não. Uma questão que certamente passa pela autoestima. E que se resolve de forma mais ou menos clara em função da estrutura psíquica de cada mulher, do que rola no seu íntimo neste instante

e ainda do que cada gravidez significa para ela. É nessa hora, diante da responsabilidade de interromper ou não uma gravidez, que a mulher geralmente se dá conta do quanto está sozinha. Em geral, quando a gravidez é fruto de uma relação instável, a falta de desejo de outra surge como uma opção e desculpabiliza a mulher. Se a relação é frágil, a ausência de solidariedade dele pode ser a gota d‟água para arrebentar com ela. Porque mesmo quando o homem diz que quem decide é a mulher, ele está na verdade, se esquivando de sua responsabilidade. O homem que tende a assumir, demonstra claramente este desejo. A sociedade marginaliza muito mais a mulher solteira que aborta um filho do que a casada que toma a mesma decisão. A terminação voluntária de gravidez tem sido defendida como um direito feminino, moralmente justificado em alguns casos, como: quando a gravidez ou parto representam alto risco de vida para a mulher; quando há razões fundadas para crer que muito provavelmente a criança nascerá deformada ou portadora de alguma deficiência grave e incurável e quando o nascimento da criança venha a ferir certos sentimentos profundos da mulher (este caso, o mais abrangente dos três, pode referir-se à maternidade em geral, quando a mulher a julga perigosa, prematura, era demais para seus meios; trabalhosa demais para sua saúde, incompatível com os projetos de vida. Ou também quando ela tenha razões especiais para não desejar aquela criança, talvez gerada num estupro, ou por um homem que não assumirá sua paternidade).

IV – O ABORTO SOB O PONTO DE VISTA JURÍDICO: 4.1 As Leis e o Aborto no Decorrer do Tempo

Historicamente, os primeiros dados disponíveis referentes ao aborto são do código de Hammurabi, 1700 anos antes de Cristo. Nele, considera-se o aborto como um crime acidental contra os interesses do pai e do marido, e também uma lesão contra a mulher. Deixava-se no entanto bem claro que o marido era o prejudicado e ofendido economicamente. No livro do Êxodo da lei hebraica (1000 anos antes de Cristo) se diz textualmente: “Se qualquer homem durante uma briga espancar uma mulher grávida provocando-lhe um parto prematuro, sem mais outro prejuízo, o culpado será punido conforme o que lhe impuser seu marido e o arbítrio social”. Condena-se aqui aquele que provocou o aborto com violência, mas sempre sujeitando o prejuízo econômico que for feito ao marido da vítima.A legislação não se aplicava às escravas, que nunca poderiam tornar-se cidadãs, nem às estrangeiras. Assim, constatamos que a lei de Mileto decretava a pena de morte para a mulher que abortasse sem o consentimento do marido, e os filhos eram propriedade privada do pai que sobre eles tinha o direito de vida e morte. Aspásia, no entanto, originária de Mileto, mas tendo vivido em Atenas no ano 500 antes de Cristo, por ser aí estrangeira, pôde livremente praticar aborto. Deixou, aliás, um livro escrito a respeito, que é o documento mais antigo que se conhece sobre o aborto redigido por uma mulher.

Hipócrates, que viveu 400 anos antes Cristo, apesar de seu juramento no qual promete “não dar à mulher grávida nenhum medicamento que possa fazê-la abortar”, não hesitava em aconselhar às parteiras métodos tanto anticoncepcionais com abortivos. Essa aparente contradição em Hipócrates em suas recomendações aos médicos deve ser vista, portanto, sob esse ângulo, o da proteção aos direitos de um cidadão e não somente em relação ao aborto voluntário. Sócrates, seu contemporâneo, era partidário de “facilitar o aborto quando a mulher o desejasse”, e seu discípulo Platão propunha em seu escrito A República que as mulheres de mais de 40 anos deveriam abortar obrigatoriamente, e aconselhava o aborto para regulamentar o excessivo aumento da população. Aristóteles chamava a atenção dos políticos da época, opinando que, a seu ver, em casos de excesso de população, deveria ser autorizado o aborto antes da “animação” do feto (considerava-se o feto “animado” sessenta dias após sua concepção) para aquelas mulheres que tivessem engravidado fora das exigências da legislação. Esparta, em posição demográfica inversa aos gregos, proibia o aborto juridicamente, pois sua principal preocupação era atingir o maior número de atletas e guerreiros. Em Roma, no início, o aborto voluntário não foi considerado um delito, já que juristas e filósofos não viam o feto como um ser vivo. Ovídio, poeta do século 1 da era cristã, declara em suas obras que as patrícias (mulheres nascidas nas classes dominantes romanas) abortavam com freqüência para castigar seus maridos e Marcial, poeta satírico da época, começa a criticar esta prática. Inicia-se, nesse período, a reação do Estado. Considerando o aborto como um ato indigno contra a moral, passando a defender os

interesses demográficos e a proteção dos costumes. Apesar da nova legislação e da punição atinente, a interrupção da gravidez com o consentimento do marido era permitida, e em legislações posteriores a mulher foi sempre considerada como o sujeito do crime, cabendo ao marido puni-la ou não, considerando-se ele o único prejudicado. Foi somente a partir desse momento que o aborto começou a fazer parte do Direto Privado e da Família, e a ser um assunto de Direito Penal.
“Durante os governos de Sétimo Severo e de seu filho Caracala (século I) foi que o Império Romano assumiu uma atitude deliberadamente repressiva a fim de defender bens patrimoniais (terras, castelos) das invasões estrangeiras. Foi só então que o Império se viu na necessidade de promulgar e fazer cumprir as leis que castigavam o aborto, porque este era um delito que podia dificultar o aumento da população.” (Danda , Prado; O que é aborto; 4ª Edição/91; Editora Brasiliense).

4.2 Civilizações Contemporâneas: As primeiras descobertas da embriologia contribuem

significativamente para derrubar as antigas crenças referentes ao aborto e formar um base importante para a interferência do Estado nesta questão. Ao contrário do que se pensava, o desenvolvimento embrionário era um processo contínuo onde os movimentos fetais constituíam apenas uma etapa. A ciência evolui no século XIX e reavalia as condições de realização do aborto e a segurança para a mulher em tal procedimento. É evidente que os resultados dessas avaliações foram negativas e a moderna ciência passou a condenar o aborto como técnica de risco para a mulher. Além disso, associou-se a necessidade de se elevar o número de nascimentos nos países onde se firmou o capitalismo.

Criam-se,

então,

as

primeiras

modificações

no

direito

consuetudinário e a Inglaterra, em 1.803, inclui a punição para aborto na consolidação do Código Penal. A França segue a mesma tendência, e em 1.810, o Código Napoleônico institui pena de 5 a 10 anos para quem se submete e para quem pratica o aborto. Em 1.861, as leis do aborto estão firmadas na Inglaterra com pena de prisão. Nos Estados Unidos da América a pressão médica, mais que a religiosa, possibilita a aprovação de leis restritivas em quase todos os Estados, completando-se o processo em 1.868. Este quadro restritivo mantém-se até o fim da segunda guerra mundial, quando se dá a formação do bloco socialista europeu, quando são, então, reavaliadas as políticas sociais do Estado a partir da necessidade de garantir a saúde da mulher trabalhadora. É na Rússia pré-stalinista que pela primeira vez o aborto é legalizado e oferecido pelo Estado. A liberação acontece em um contexto de transformação global da sociedade que incorpora as reivindicações das mulheres. Durante o governo de Stalin são cobradas algumas limitações na legislação, mas que não são restrições definitivas. Nas décadas seguintes, o tema do aborto será retomado pelo movimento feminista dos países desenvolvidos, e será o principal fator para as modificações das leis do aborto. Nos países desenvolvidos, as mudanças legislativas se dão à partir de 1.960 e o movimento feminista é o principal motor das transformações que se seguem. Retomando as discussões do século XIX e ancorado na construção de uma nova identidade feminina, o feminismo levanta questões à respeito da autonomia da mulher frente a si própria que buscam redefinir o seu lugar na sociedade. Pela primeira vez, os temas do corpo, da

sexualidade, da maternidade indesejada e, em conseqüência, o aborto, vêm à público e são discutidos do ponto de vista feminino. No Brasil, em 1830, no Código Criminal do Império, surge pela primeira vez a figura isolada do aborto no capítulo referente aos crimes contra a segurança das pessoas e das vidas. Já no Código da República de 1890, previa-se a redução da pena para aquelas mulheres que praticassem o auto-aborto visando “ocultar desonra própria”. Portanto, a legislação sobre o aborto no mundo é um reflexo das estruturas sócio-econômicas e ideológicas de cada época e de cada país em particular, e reflete também a condição dependente das mulheres nessas sociedades. Também é preciso lembrar que a legislação se põe, com freqüência, a serviço de razões político-demográficas do Estado, e situa-se aí a causa da separação que sempre existiu entre a legislação sobre o aborto e o aborto de fato. A esse respeito, o fenômeno observado através dos tempos é que mulheres abortam dentro ou fora da lei, mas o que se modifica consideravelmente é o índice de abortos mortais ou prejudiciais à saúde da mãe (tecnicamente se chama índice de mortalidade e morbidade), pois este se reduz quando o aborto sai da clandestinidade. Hoje, o aborto é estritamente proibido, sem exceção, na maioria das nações muçulmanas da Ásia, na maioria dos países da África, em quase 2/3 dos países latino-americanos, e, entre os europeus, em Portugal e na Espanha. No outro extremo estão os países liberalizados em maior ou menor grau. Estes permitem o aborto nos três primeiros meses de gravidez por grande número de razões relativas à saúde física e psíquica. Cerca de 24% da população reside em países cujos fatores sociais, tais como a baixa renda, falta de habitação, concubinato e fatores

semelhantes, são levados em conta ao serem avaliadas as indicações médico-sociais referentes à saúde que justifiquem a interrupção da gravidez. Fazem parte deste grupo países significativos como a República Federal da Alemanha, Índia, Japão, Reino Unido e a maioria dos Estados Socialistas do Leste europeu. Ninguém desconhece que nos países de legislação proibitiva os médicos particulares agem na clandestinidade, sem interferência das autoridades policiais. Mas acontece também que, naqueles com legislação liberal, ocorre às vezes uma carência de pessoal médico, ou então atitudes conservadoras por parte dos médicos e administradores de hospitais, fatos esses responsáveis por impedir o acesso ao aborto, especialmente para as mulheres econômica ou socialmente carentes. Em diversos países a legislação condenatória do aborto existe, mas seu cumprimento não é fiscalizado (como é o caso da América Latina). Medidas sobre planejamento familiar estão sendo debatidas no mundo inteiro, e a elas está estreitamente vinculada a questão do aborto. O avanço das pesquisas científicas e os interesses econômicos de laboratórios industriais pressionam por seu lado as instituições governamentais. Existe, é inegável, uma competição econômica a nível internacional por trás dessa questão. Tomemos, por exemplo, os imensos lucros que adviriam do uso generalizado da pílula por todas as mulheres em idade fértil no mundo. Do ponto de vista da saúde da mulher, seria a solução menos indicada, apesar de sua eficácia ser indiscutível. É de se supor que aos laboratórios não interesse a liberalização do aborto pois, sendo proibido, a preocupação em empregar um método com quase 100% de garantia é maior do que existindo o recurso ao aborto.

Pelo exposto, vemos que o problema vai além de soluções nacionais. Atravessa fronteiras, indicando que enquanto não se obtiverem estatísticas mais amplas sobre os abortos realmente praticados, incluindo taxas de mortalidade, morbidade, suas motivações psicológicas, suas conseqüências, seus índices a nível internacional, desconheceremos o problema em seus múltiplos aspectos. Na maioria das legislações reformadas permanecem as indicações tradicionais baseadas em razão da saúde da mulher e ou lesão fetal irreversível. É possível listar pelo menos oito tipos de indicações para a realização legal do aborto:

A - Risco de vida para a mulher B - Para a preservação da saúde física ou mental da mulher. C - Anomalia fetal. D - Em razão de estupro, incesto ou crime sexual específico. E - Razões sociais, sócio-médicas ou sócio-econômicas F - Em função da família G - Por falha da contracepção H - Por solicitação da mulher, geralmente no primeiro trimestre2.

Nos países de legislação mais avançada, novas indicações surgiram nos últimos anos baseadas na epidemiologia e ciências sociais. Assim, a idade materna, muito jovem ou mais avançada, quando a gravidez comporta maior risco para a saúde, e razões de ordem psico-sociais, como angústia provocada pela gravidez, e alteração na conformação familiar, já constituem razões jurídicas válidas para a interrupção da gravidez.

2

O que entendemos diante do estudo realizado.

Existem ainda indicações médicas novas como nos casos de AIDS ou HIV positivo. Os processos não são homogêneos e se em alguns países as reformas se deram de forma radical, em outros, as transformações ocorreram gradualmente como na Espanha e em Portugal onde as permissões são agregadas pouco a pouco. Existem várias restrições mesmo nos países onde a legislação é avançada e referem-se sobretudo às condições de implantação dos serviços que realizam o aborto. A reivindicação básica do movimento feminista é a realização do aborto pela solicitação da mulher na rede oficial de saúde. Verificamos que nem todos os países de legislação liberal aceitam a indicação de solicitação e, no que se refere às condições concretas de realização, as dificuldades são grandes. Com relação aos custos, nem sempre o Estado os assume integralmente. No rol das restrições estão ainda a exigência de autorização dos pais para mulheres menores e limitação de tempo de gestação. Contam também objeções do pessoal da área de saúde motivadas pela consciência ou ética. 4.3 O Aborto em Países do 1º Mundo Aborto nos EUA: Segundo pesquisa publicada pelo jornal “Washington Post”, 55% dos norte-americanos declaram-se a favor da manutenção do direito ao aborto voluntário, enquanto 38% são contrários a ela. Os Estados Unidos têm um dos índices de interrupção voluntária da gravidez mais elevados dos países ocidentais3. A cada ano, cerca de 3% das mulheres de 15 a 44 anos abortam no país. Mais de 22 milhões de abortos foram realizados entre 1973 e 1988.
3

http//www.washingtonpost.com.br

Porém os Estados Unidos já retrocederam em alguns aspectos, como por exemplo: a gratuidade da interrupção da gravidez foi suspensa. Aborto na Itália: Desde 1978, o aborto na Itália é permitido e pode ser realizado gratuitamente nos hospitais públicos. A mulher que decide interromper a gravidez deve fazê-lo até o terceiro mês e dirigir-se a um consultório, onde, além de realizar os exames médicos necessários, terá uma entrevista com um psicólogo para expor o que motivou sua decisão. A permissão do aborto se estende até o quinto mês, quando surgem problemas graves de saúde da mãe ou há comprovadas anomalias fetais. Por outro lado, médicos e enfermeiros podem ser dispensados de participar da intervenção, por causa de convicções religiosas e morais. Aborto na Suíça: Na Suíça, faz anos que o aborto terapêutico é autorizado segundo o parecer de uma comissão chamada Pré-Perícia, que leva em consideração não só os problemas médicos, mas também o estado psíquico e os problemas familiares criados pela gravidez. Aborto na Inglaterra: Na Inglaterra, desde agosto de 1967, o aborto é praticamente livre, isto é, pode ser concedido a qualquer pessoa, inglesa ou estrangeira, conforme o parecer de dois médicos. Em 1969, 40.000 mulheres solicitaram e obtiveram um aborto. São numerosas as européias de países, mesmo liberais, que vão à Inglaterra solicitar a interrupção de uma gravidez não desejada. A Legislação do Aborto no Brasil: Hoje, no Brasil, está legalizado o aborto em determinados casos. Isto é, se não houver outro meio de salvar a vida da gestante, se a gravidez resultar de estupro e a gestante desejar interrompê-la, os médicos poderão praticar um aborto sem serem punidos (artigo 128 do Código Penal). Fora esses dois casos, trata-se de um crime previsto em lei denominado “aborto voluntário”.

No primeiro caso, trata-se do que se chama de aborto necessário ou terapêutico, não podendo o médico ser substituído por uma parteira. Ocorrendo um desses diagnósticos, o médico se vê obrigado a remover o feto ou embrião, existindo normas específicas para justificar esse ato diante do Conselho Federal de Medicina. O aborto resultante de estupro também é chamado de aborto sentimental ou por indicação ética, aquele que pode ser justificado pelo estado de necessidade em face das conseqüências morais familiares e sociais de um parto nessas condições. É preciso no entanto, conforme a lei, provar que houve um estupro, não bastando o testemunho da mulher. A dificuldade maior, no entanto, em alguns casos, não é só encontrar um médico, mas provar diante do juiz que houve de fato um estupro, quando não estão evidentes as marcas de agressões e danos sofridos (em caso de ameaças com emprego de força, de armas diversas). Segundo a lei, basta a mulher não dar seu consentimento ao ato sexual que este é considerado uma violação, um estupro. 4.4 A legislação brasileira e o aborto O Código Penal Brasileiro, de 1940, se refere ao aborto em cinco artigos e permanece em vigor até hoje, e o enquadra no rol dos crimes contra a pessoa, particularmente nos crimes contra a vida.

O QUE É PROIBIDO:
ART. 124 - condena a gestante que provoca o aborto em si mesma ou autoriza outros a fazerem isso. Pena: de um a três anos de detenção.

ART.125 - prevê punição para qualquer pessoa que faça o aborto sem autorização da gestante. Pena: de três a dez anos de reclusão (que se aplica também quando a gestante tem menos de 14 anos, é débil-mental ou consente mediante ameaça ou violência). ART.126 - condena qualquer pessoa que provoque o aborto com o consentimento da gestante. Pena: de um a quatro anos de reclusão. ART.127 - Estabelece que as penas dos dois artigos anteriores serão acrescidas de um terço, se a gestante sofrer lesão corporal grave no aborto, ou serão duplicadas, se ela morrer.

O QUE É PERMITIDO
ART. 128 - Afirma que o médico não será punido pelo aborto quando não há outro meio de salvar a vida da gestante ou a gravidez resulta de estupro (desde que antes ela ou seu representante legal, quando incapaz, dê o consentimento).

Verifica-se que a legislação penal brasileira consente tanto no aborto terapêutico, como no aborto causa honoris. O que a legislação brasileira não permite, em nenhum caso, é o apelo à eugenia ou à deficiência econômica. Nem o aborto eugênico, por suspeita de doenças ou anomalias graves do nascituro, nem o aborto justificado pela incapacidade dos pais para sustentar os filhos. Somente em alguns detalhes o novo Código Penal de 1940 trata a matéria de modo diverso, fiel aos princípios humanitários que sempre inspiram nossa legislação penal. As disposições do Código Penal conseguem desagradar a todos, defensores e inimigos do aborto. Para os primeiros, além de extremamente restritivas, as medidas não funcionam na prática. No caso do aborto terapêutico, a decisão fica na mão dos médicos, nem sempre fácil de conseguir. Já no aborto sentimental, a questão fica na mão dos juízes. E a decisão demora tanto que, quando chega a autorização, já é impossível

praticar o aborto, porque a gravidez já está adiantada demais. Mesmo com a autorização do médico e do juiz, a gestante ainda tem enfrentar os escrúpulos dos hospitais, que relutam em fazer o aborto. A Lei de Contravenção Penal: Além do Código Penal, há outras normas jurídicas que punem aspectos correlatos do aborto. Assim, a lei de Contravenções Penais, que em seu artigo 20 proíbe “Anunciar processo substância ou objeto destinado a provocar aborto”, prescrevendo pena de multa. Consolidações das Leis do Trabalho (CLT): Temos ainda a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que em seu artigo 395, nega o repouso remunerado e o direito à estabilidade à mulher trabalhadora em caso de aborto ilegal, punindo-a assim injustamente, sem avaliar suas condições objetivas de criar filhos. A Constituição e o Aborto: A Constituição de 1988 não tocou nas questão do aborto no país, embora a bandeira da legalização tenha sido empunhada por inúmeras entidades feministas e por políticos progressistas de vários partidos.

4.5 jurisprudências

EMENTA HABEAS CORPUS. PENAL. PEDIDO DE AUTORIZAÇÃO PARA A PRÁTICA DE ABORTO. NASCITURO ACOMETIDO DE ANENCEFALIA. INDEFERIMENTO. APELAÇÃO. DECISÃO LIMINAR DA RELATORA RATIFICADA PELO COLEGIADO DEFERINDO O PEDIDO. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. IDONEIDADE DO WRIT PARA A DEFESA DO NASCITURO. A eventual ocorrência de abortamento fora das hipóteses previstas no Código Penal acarreta a aplicação de pena corpórea máxima, irreparável, razão pela qual não há se falar em impropriedade da via eleita, já que, como é cediço, o writ se presta justamente a defender o direito de ir e vir, o que, evidentemente, inclui o direito à preservação da vida do nascituro. Mesmo

tendo a instância de origem se manifestado, formalmente, apenas acerca da decisão liminar, na realidade, tendo em conta o caráter inteiramente satisfativo da decisão, sem qualquer possibilidade de retrocessão de seus efeitos, o que se tem é um exaurimento definitivo do mérito. Afinal, a sentença de morte ao nascituro, caso fosse levada a cabo, não deixaria nada mais a ser analisado por aquele ou este Tribunal. A legislação penal e a própria Constituição Federal, como é sabido e consabido, tutelam a vida como bem maior a ser preservado. As hipóteses em que se admite atentar contra ela estão elencadas de modo restrito, inadmitindo-se interpretação extensiva, tampouco analogia in malam partem. Há de prevalecer, nesse casos, o princípio da reserva legal. O Legislador eximiu-se de incluir no rol das hipóteses autorizativas do aborto, previstas no art. 128 do Código Penal, o caso descrito nos presentes autos. O máximo que podem fazer os defensores da conduta proposta é lamentar a omissão, mas nunca exigir do Magistrado, intérprete da Lei, que se lhe acrescente mais uma hipótese que fora excluída de forma propositada pelo Legislador. Ordem concedida para reformar a decisão proferida pelo Tribunal a quo, desautorizando o aborto; outrossim, pelas peculiaridades do caso, para considerar prejudicada a apelação interposta, porquanto houve, efetivamente, manifestação exaustiva e definitiva da Corte Estadual acerca do mérito por ocasião do julgamento do agravo regimental. ACÓRDÃO Vistos relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, conceder a ordem, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros José Arnaldo da Fonseca, Felix Fischer, Gilson Dipp e Jorge Scartezzini votaram com a Sra. Ministra Relatora. STF – DECISÃO MONOCRÁTICA Classe / Origem ADPF 54 MC / DF MEDIDA CAUTELAR EM ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL Relator(a) Min. MARCO AURÉLIO DJ DATA02/08/2004 P - 00064 Julgamento 01/07/2004 Despacho DECISÃO-LIMINAR ARGÜIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL - LIMINAR - ATUAÇÃO INDIVIDUAL -

ARTIGOS 21, INCISOS IV E V, DO REGIMENTO INTERNO E 5º, § 1º, DA LEI Nº 9.882/99. LIBERDADE - AUTONOMIA DA VONTADE DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA - SAÚDE - GRAVIDEZ INTERRUPÇÃO - FETO ANENCEFÁLICO. 1. Com a inicial de folha 2 a 25, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde - CNTS formalizou esta argüição de descumprimento de preceito fundamental considerada a anencefalia, a inviabilidade do feto e a antecipação terapêutica do parto. Em nota prévia, afirma serem distintas as figuras da antecipação referida e o aborto, no que este pressupõe a potencialidade de vida extra-uterina do feto. Consigna, mais, a própria legitimidade ativa a partir da norma do artigo 2º, inciso I, da Lei nº 9.882/99, segundo a qual são partes legítimas para a argüição aqueles que estão no rol do artigo 103 da Carta Política da República, alusivo à ação direta de inconstitucionalidade. No tocante à pertinência temática, mais uma vez à luz da Constituição Federal e da jurisprudência desta Corte, assevera que a si compete a defesa judicial e administrativa dos interesses individuais e coletivos dos que integram a categoria profissional dos trabalhadores na saúde, juntando à inicial o estatuto revelador dessa representatividade. Argumenta que, interpretado o arcabouço normativo com base em visão positivista pura, tem-se a possibilidade de os profissionais da saúde virem a sofrer as agruras decorrentes do enquadramento no Código Penal. Articula com o envolvimento, no caso, de preceitos fundamentais, concernentes aos princípios da dignidade da pessoa humana, da legalidade, em seu conceito maior, da liberdade e autonomia da vontade bem como os relacionados com a saúde. Citando a literatura médica aponta que a má-formação por defeito do fechamento do tubo neural durante a gestação, não apresentando o feto os hemisférios cerebrais e o córtex, leva-o ou à morte intra-uterina, alcançando 65% dos casos, ou à sobrevida de, no máximo, algumas horas após o parto. A permanência de feto anômalo no útero da mãe mostrar-se-ia potencialmente perigosa, podendo gerar danos à saúde e à vida da gestante. Consoante o sustentado, impor à mulher o dever de carregar por nove meses um feto que sabe, com plenitude de certeza, não sobreviverá, causa à gestante dor, angústia e frustração, resultando em violência às vertentes da dignidade humana - a física, a moral e a psicológica - e em cerceio à liberdade e autonomia da vontade, além de colocar em risco a saúde, tal como proclamada pela Organização Mundial da Saúde - o completo bemestar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Já os profissionais da medicina ficam sujeitos às normas do Código Penal artigos 124, 126, cabeça, e 128, incisos I e II -, notando-se que, principalmente quanto às famílias de baixa renda, atua a rede pública. Sobre a inexistência de outro meio eficaz para viabilizar a antecipação terapêutica do parto, sem incompreensões, evoca a Confederação recente

acontecimento retratado no Habeas Corpus nº 84.025-6/RJ, declarado prejudicado pelo Plenário, ante o parto e a morte do feto anencefálico sete minutos após. Diz da admissibilidade da ANIS - Instituto de Biotécnica, Direitos Humanos e Gênero como amicus curiae, por aplicação analógica do artigo 7º, § 2º, da Lei nº 9.868/99. Então, requer, sob o ângulo acautelador, a suspensão do andamento de processos ou dos efeitos de decisões judiciais que tenham como alvo a aplicação dos dispositivos do Código Penal, nas hipóteses de antecipação terapêutica do parto de fetos anencefálicos, assentando-se o direito constitucional da gestante de se submeter a procedimento que leve à interrupção da gravidez e do profissional de saúde de realizá-lo, desde que atestada, por médico habilitado, a ocorrência da anomalia. O pedido final visa à declaração da inconstitucionalidade, com eficácia abrangente e efeito vinculante, da interpretação dos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal Decreto-Lei nº 2.848/40 - como impeditiva da antecipação terapêutica do parto em casos de gravidez de feto anencefálico, diagnosticados por médico habilitado, reconhecendo-se o direito subjetivo da gestante de assim agir sem a necessidade de apresentação prévia de autorização judicial ou qualquer outra forma de permissão específica do Estado. Sucessivamente, pleiteia a argüente, uma vez rechaçada a pertinência desta medida, seja a petição inicial recebida como reveladora de ação direta de inconstitucionalidade. Esclarece que, sob esse prisma, busca a interpretação conforme a Constituição Federal dos citados artigos do Código Penal, sem redução de texto, aduzindo não serem adequados à espécie precedentes segundo os quais não cabe o controle concentrado de constitucionalidade de norma anterior à Carta vigente. Classe / Origem ADPF 54 / DF ARGÜIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL Relator(a) Min. MARCO AURÉLIO DJ DATA-05/10/2004 P – 00004 Julgamento 28/09/2004 Despacho DECISÃO AUDIÊNCIA PÚBLICA - INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ ANENCEFALIA. 1. Em 17 de junho do corrente ano, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde - CNTS formalizou argüição de descumprimento de preceito fundamental, indicando como vulnerados os artigos 1º, inciso IV (dignidade da pessoa humana), 5º, inciso II (princípio da legalidade, liberdade e autonomia da vontade), 6º, cabeça, e 196 (direito à saúde), todos da Constituição Federal, e, como a causar lesão a esses princípios, o conjunto normativo representado pelos artigos 124, 126 e 128,

incisos I e II, do Código Penal - Decreto-Lei nº 2.848/40. Presente a antecipação terapêutica do parto no caso de feto anencéfalo e a possível glosa penal, requereu pronunciamento a conferir interpretação conforme a Carta da República das normas do Código Penal, afastando-as no caso de se constatar a existência de feto anencéfalo, de modo a viabilizar, com isso, a atuação médica interruptiva da gravidez. Ressaltou a ausência de instrumental próprio para lograr tal finalidade, citando o ocorrido com a apreciação do Habeas Corpus nº 84.025-6/RJ, relatado pelo ministro Joaquim Barbosa, quando o Plenário, ante o termo da gestação e a morte do feto anencéfalo, declarou o prejuízo da medida. Pleiteou a concessão de medida acauteladora, tendo em conta a dinâmica da vida. A inicial fez-se acompanhada dos documentos de folha 26 a 148. Em 21 de junho de 2004, consignei, à folha 151, a confecção de relatório e voto em fita magnética, declarando-me habilitado a submeter o pedido acautelador ao Plenário. Em peça protocolizada em 23 de junho de 2004, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, reportando-se ao § 1º do artigo 6º da Lei nº 9.882/99, solicitou fosse admitida no processo como amicus curiae, o que foi indeferido por meio da decisão de folha 156. O encerramento do semestre judiciário sem o referido exame pelo Colegiado levou-me ao exercício monocrático do crivo, vindo a implementar a tutela de urgência, remetendo-a à análise do Plenário (folha 158 a 164). De acordo com a certidão de julgamento de folha 167, em 2 de agosto de 2004, ou seja, na abertura do segundo semestre judiciário do ano em curso, o Plenário deliberou, sem voto discrepante, em apreciar o tema em definitivo, abrindose vista do processo ao Procurador-Geral da República. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ainda durante as férias coletivas de julho, requereu a reconsideração do ato mediante o qual não foi admitida como amicus curiae, havendo despachado o Presidente no sentido de se submeter tal requerimento ao relator (folha 169). Com a decisão de folhas 171 e 172, foi mantido o indeferimento. A CNBB solicitou a juntada de cópia do respectivo estatuto civil (folha 174). Católicas pelo Direito de Decidir pleiteou também a integração ao processo (folha 177 a 182). Seguiu-se a decisão de folha 202, a resultar no indeferimento do pedido. Teve idêntico desfecho pretensão semelhante externada pela Associação Nacional Próvida e Pró-família (folha 204) e pela Associação do Desenvolvimento da Família (folha 231). O parecer do Procurador-Geral da República, de folha 207 a 218, está assim sintetizado: 1. O pleito, como apresentado, não autoriza o recurso à interpretação conforme a Constituição: considerações. 2. Anencefalia. Primazia jurídica do direito à vida: considerações. 3. Indeferimento do pleito. Em peça datada de 27 deste mês, o ProcuradorGeral da República requereu a submissão do processo ao Plenário, em questão de ordem, para definir-se, preliminarmente, a adequação da

Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental. 2. A matéria em análise deságua em questionamentos múltiplos. A repercussão do que decidido sob o ângulo precário e efêmero da medida liminar redundou na emissão de entendimentos diversos, atuando a própria sociedade. Daí a conveniência de acionar-se o disposto no artigo 6º, § 1º, da Lei nº 9.882, de 3 de dezembro de 1999: Art. 6o (...) § 1o Se entender necessário, poderá o relator ouvir as partes nos processos que ensejaram a argüição, requisitar informações adicionais, designar perito ou comissão de peritos para que emita parecer sobre a questão, ou ainda, fixar data para declarações, em audiência pública, de pessoas com experiência e autoridade na matéria. Então, tenho como oportuno ouvir, em audiência pública, não só as entidades que requereram a admissão no processo como amicus curiae, a saber: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Católicas pelo Direito de Decidir, Associação Nacional Pró-vida e Pró-família e Associação de Desenvolvimento da Família, como também as seguintes entidades: Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Sociedade Brasileira de Genética Clínica, Sociedade Brasileira de Medicina Fetal, Conselho Federal de Medicina, Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sociais e Direitos Representativos, Escola de Gente, Igreja Universal, Instituto de Biotécnica, Direitos Humanos e Gênero bem como o hoje deputado federal José Aristodemo Pinotti, este último em razão da especialização em pediatria, ginecologia, cirurgia e obstetrícia e na qualidade de ex-Reitor da Unicamp, onde fundou e presidiu o Centro de Pesquisas Materno-Infantis de Campinas - CEMICAMP. Cumpre, antes dessa providência, elucidar a pertinência da medida intentada, em face da provocação do ProcuradorGeral da República. O princípio da economia e celeridade processuais direciona ao máximo de eficácia da lei com o mínimo de atuação judicante. 3. Ao Plenário, para designação de data, visando à apreciação da questão de ordem relativa à admissibilidade da argüição de descumprimento de preceito fundamental. 4. Publique-se. Brasília, 28 de setembro de 2004. Ministro MARCO AURÉLIO Relator HC 84025 / RJ - RIO DE JANEIRO HABEAS CORPUS Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA Rel. Acórdão Min. Revisor Min. Julgamento: 04/03/2000 Órgão Julgador: Tribunal Pleno Publicação: DJ DATA-25-06-2004 PP-00004 EMENT VOL 02157-02 PP-00329 Ementa EMENTA: HABEAS CORPUS PREVENTIVO. REALIZAÇÃO DE ABORTO EUGÊNICO. SUPERVENIÊNCIA DO PARTO.

IMPETRAÇÃO PREJUDICADA. 1. Em se tratando de habeas corpus preventivo, que vise a autorizar a paciente a realizar aborto, a ocorrência do parto durante o julgamento do writ implica a perda do objeto. 2. Impetração prejudicada. Observação Votação: unânime. Resultado: prejudicado. Acórdãos citados: HC-83941, HC-83942, MS-22486; STJ: HC-26107,
HC-27504, HC-27659, HC-30299, HC-32159.

Vejamos qual a nova tendência que tem sido alvo de celeumas, para minorar a polêmica que envolve o tema em discussão, “aborto permitido?”, e que foram veiculadas na mídia escrita e televisiva no mês de março de 2005:
Aborto sem polícia – Governo dispensa BO para interrupção da gravidez em casos de estupro e causa polêmica Ao dispensar o boletim de ocorrência (BO) para a interrupção da gestação em casos de estupro, o Ministério da Saúde atendeu a uma antiga reivindicação de movimentos sociais: dar autoridade à vítima, e não a polícia. A nova norma técnica ainda está sendo impressa, mas provocou incêndio por envolver a cruzada do aborto, que promete ser o debate mais feroz de 2005 na área dos direitos civis. O judiciário se divide, os médicos temem, as feministas aplaudem, a cúpula católica ameaça com excomunhão. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, já contestou a validade da norma, antecipando o conflito entre poderes que se formou. “Só lei ou decisão judicial podem dar esse tipo de garantia”, afirmou Jobim. Os adversários do aborto legal sofreram ainda outra derrota. O conselho Nacional de Saúde declarou-se favorável à interrupção da gestação nos casos de anencefalia (fetos sem cérebro). Caberá ao STF decidir se as gestantes de um feto condenado à morte têm o direito de escolher interromper o sofrimento. (Revista Época, O Novo Jeito de Tratar a Dor. Editora Globo, março de 2005.)

Ao tratarmos deste assunto não poderíamos deixar de falar sobre os princípios gerais de direito e sua aplicabilidade na vacância da lei

portanto a partir de agora analisaremos alguns posicionamentos doutrinários e legais aplicados as jurisprudências e comentários supra: É de sabença geral que o legislador não tem o dom da onisciência, onipresença e onipotência o que lhe garantiria a possibilidade de prever todas as situações possíveis e imagináveis de acontecerem no plano factual da vida dos indivíduos, isto porque, as sociedades modernas, e principalmente nas pós-modernas em razão de sua complexidade, tendem a inviabilizar o controle do futuro dos acontecimentos em razão da evolução científica e tecnológica, crescente em proporção jamais assistidas. Prevendo isto, a LICC estabeleceu no seu art 4° que:
"Quando a lei for omissa, o juiz decidirá de acordo com a analogia, princípios gerais do Direito." e no o artigo subseqüente: "Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum."

Nosso ordenamento jurídico positivou esses dois princípios não só na LICC como também no próprio CPC e, neste caso, serve a heterointegração da norma para aplicá-la também ao processo criminal. Estipula o art 126 do CPC:
"O juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade na lei. No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costumes e aos princípios gerais de direito."

Então, na qualidade de fonte subsidiária do direito, os princípios serviriam como elemento integrador ou forma de complementação de lacunas do ordenamento jurídico, na hipótese de ausência da lei aplicável à espécie típica. Portanto, caso o juiz não encontre disposições legais capazes de suprir a plena eficácia da norma definidora de direito, deve buscar outros

meios de fazer com que a norma atinja sua máxima efetividade, através da analogia, dos costumes e, por fim, dos princípios gerais de direito. A base da analogia, aponta Maria Helena Diniz:
"Encontra-se na igualdade jurídica já que o processo analógico constitui um raciocínio baseado em razões relevantes de similitude, fundando-se na identidade de razão que é o elemento justificador da aplicabilidade da norma a casos não previstos, mas substancialmente semelhantes, sem contudo ter por objetivo perscrutar o exato significado da norma, partindo, tão-só, do pressuposto de que a questão sub judice, apesar de não se enquadrar no dispositivo legal, deve cair sob sua égide por semelhança da razão". (Maria Helena Diniz. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 411/412)

No Direito Penal somente se admite a analogia in bonam partem. Segundo Clóvis Beviláqua, com os princípios gerais do Direito
"o jurista penetra em um campo mais dilatado, procura apanhar as correntes diretoras do pensamento jurídico e canalizá-la para onde a necessidade social mostra a insuficiência do Direito positivo". (Clóvis Beviláquia. Teoria Geral do Direito. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1980. p.44.)

Observação

interessante

faz

Maria

Berenice

Dias,

Desembargadora do TJRS:
" como a plenitude do sistema estatal, não convive com vazios, para a concreção do direito, o juiz precisa ter olhos voltados para a realidade social." (Revista Consulex, ano VIII, n° 168).

Em outras palavras, o juiz deve integrar a norma jurídica, diante das evidentes lacunas existentes no direito e que surgem a cada dia, com a evolução dos tempos. Não pode fechar os olhos para a realidade, sob pena de tornar-se burocrático e, conseqüentemente, enfraquecido diante de seus

jurisdicionados, sendo salutar a invocação do pensamento da eloqüente voz de Tereza Arruda Alvim:
"É relevante observar-se que a necessidade de o juiz se valer de outros elementos do sistema, além da letra do texto positivo, nasce justamente dos casos não corriqueiros, a que alguns jusfilosofos chamam de hard cases e que aqui se esta justamente diante de um deles. Este caso ainda pede de forma mais gritante solução que não leve em conta só o texto da lei por se tratar de uma lei antiga. ", concluindo ; " certamente a interpretação que levasse em conta os modernos avanços da ciência médica e da psicologia autorizaria a inclusão deste dispositivo da perspectiva inexorável da "morte psicológica" da mãe, literalmente forçada, pelas injunções do sistema, a conviver com a gravidez que carrega em si mesma a idéia do aborto." (Revista Consulex, ano VIII, n° 174)

No epílogo de nossa dissertação apresentada ao Curso de Mestrado da UFPE, chamávamos atenção ao sempre lúcido pensamento do José Francisco Oliosi da Silveira4:
"O Direito Penal, com suas premissas, é, naturalmente, mutável; cresce, evolui, rompe cadeias que o agrilhoam aos conceitos pretéritos. Se estagnar, se não estiver continuamente revisando seus princípios, nunca há de alcançar a meta a que se propõe. Se a lei demonstra-se insuficiente para solucionar todas as situações e conflitos emergentes da vida real, cumpre ao jurista encontrar fórmulas que visem a preencher essa lacuna."

Vejamos o que nos diz a constituição do Estado do Rio de Janeiro:
Art. 294 - O Estado garantirá assistência integral à saúde da mulher em todas as fases de sua vida através da implantação de política adequada, assegurando: I – (...) II – (...) III – (...); IV - assistência à mulher, em caso de aborto, provocado ou não,

4

Palestra transmitida por vídeo conferencia no PRETORIUM de Goiânia/GO em 10 de março de 2005

como também em caso de violência sexual, asseguradas dependências especiais nos serviços garantidos direta ou indiretamente pelo Poder Público; V – (...)

CONCLUSÃO Ao final deste agradável trabalho, depois de vermos a posição de todos os grupos sociais, ainda temos a nossa pergunta O Aborto deve ser legalizado? O aborto é uma decisão individual. E, com certeza, o fato de ser proibido agrava ainda mais o peso dessa decisão. Os ativistas religiosos e médicos discutem do mesmo modo que o Brasil um dia discutiu e aceitou o divórcio; sem que isso tivesse provocado nenhum terremoto no campo familiar. Da mesma forma, a legislação do aborto vai acabar se libertando da estreita malha do Código Penal de 1940. O maior problema é que enquanto os pensadores estão discutindo se o Aborto deve ou não ser legalizado, milhares de mulheres morrem vítimas de abortos ilegais, em clínicas clandestinas onde não há nenhuma infra-estrutura para fazê-lo. Nos dias atuais houve vários casos de Abortos que foram autorizados pela justiça, é claro que depois de sofrer muitas pressões por parte da Igreja e Grupos Anti-Aborto. Nestes casos figurou-se o ato sexual como estupro em crianças de 10 anos de idade. Como há pessoas que defendem a tese de não praticar o Aborto nestes casos se a pessoa que está esperando um filho ainda gosta de brincar de bonecas? Isto é mais um absurdo que acontece no nosso Brasil. Há quem diga que apenas a ampliação da legislação do Aborto no Brasil irá resolver o problema. Sob diversos aspectos já abordamos o tema, restando agora uma análise da hipótese da tomada de decisão clandestina, ou do pedido não haver sido feito à justiça, aliás, fato ocorrente na maioria das vezes, sobretudo, quando os envolvidos detêm alguma condição financeira e já pré-sentem os entraves da justiça.

Aborto é crime de pobres, posto que, todos sabemos onde, quando e como são feitos os abortos (denominados pelos médicos aborteiros como: retorno antecipado do fluxo menstrual), sendo um problema apenas inerente às pessoas de baixa renda. Desafio: Quantos ricos estão cumprindo pena por aborto? Quantos foram processados por infração as normas proibitivas subjacentes aros arts. 124 a 127 do Código Penal? Existem processos criminais intentados contra eles? Foram submetidos ao crivo do Tribunal Júri? As respostas a estes questionamentos são quase sempre negativas ou em percentuais inexpressivos, porquanto, não existe vontade política para responsabilizar tais indivíduos. Não pensem que estou me contradizendo, uma vez que já manifestei minha opinião sobre o tema, mas, sobretudo, sustento a existência do princípio da igualdade do Direito Penal. Ou se pune a todos ou não se pune ninguém. Nesses casos, não há dúvida, de que a previsão legal deveria ser favorável ao abortamento, pois que não seria justo submeter a gestante ao intenso sofrimento de carregar consigo o feto sem a menor perspectiva de vida futura. Assim, uma vez constatada a hipótese de que a vida seria inviável por grave anomalia acometida ao feto, poderia a lei autorizar o abortamento, ou seja, a interrupção daquele processo de gravidez, já que a nada conduziria prosseguir com ela. Depois de muito trabalhar, não espero ter esgotado o assunto, mas sim ter dado uma visão de como é difícil para a mulher e para os diversos órgãos judiciais e sociais tratar sobre o tema Aborto, o que deveria ser adotado é que a mulher embasada no principio da dignidade da pessoa humana art. 1º, III da CF/88 e no princípio da livre disposição do corpo deve decidir o que é melhor para ela.

Para tanto propomos a liberação do aborto para ser feito em clínica especializadas por médicos especialistas, efetuando então, primeiramente uma conscientização da mulher em todas as camadas sociais, a cerca dos riscos, benefícios e conseqüências que envolvem o ato em si, dando a mulher a escolha de realiza-lo ou não, escudada no seu livre arbítrio.

BIBLIOGRAFIA

ACÓRDÃO - QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça CLÓVIS Beviláquia, Teoria Geral do Direito. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1980 CÓDIGO CÍVIL CÓDIGO DE PROCESSO CÍVIL CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ESPÍNOLA, Eduardo. Código de Processo penal brasileiro anotado. Rio de Janeiro: Rio, 1980, v. 2. ÉPOCA, Revista, Editora Globo, março de 2005. FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Comentários à Constituição brasileira de 1988. São Paulo: Saraiva, 1995. v. 4. DINIZ Maria Helena. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. São Paulo: Saraiva, 1995 MARCÃO, Renato Flávio. O aborto no anteprojeto de Código Penal. Jus Navigandi, Teresina, a. 6, n. 57, jul. 2002. Disponível em: Acesso em: 14 jun. 2004. MARIE CLAIRE, Revista, Editora Globo, agosto/95 NOVA Revista, junho/94 O CORPO DA MULHER, de Lauersen, Niels e Whitney, Steven; 3ª Edição/96; Editora Abril PRADO, Danda; o que é aborto; 4ª ed. São Paulo: brasiliense, 1991 Revista Consulex, ano VIII, n° 168 e 174

SUPLICY, marta; conversando sobre sexo; 17ª ed. Rio de Janeiro: vozes, 1991 STF, Supremo Tribunal Federal. CNTS pede ao STF que antecipação do parto de feto sem cérebro não seja caracterizada como aborto. Brasília, jun. 2004. Disponível em: Acesso em 22 jun. 2004.

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