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IPH UFRGS Maio 2008
IPH UFRGS
Maio 2008

Introduzindo hidrologia

Versão

5

WALTER COLLISCHONN – IPH UFRGS RUTINÉIA TASSI – IPH UFRGS

Capa: Andreas Collischonn Ilustrações: Fernando Dornelles

HIDROLOGIA

Introdução

Capítulo

1

O estudo da Hidrologia e conceitos fundamentais do ciclo hidrológico.

H idrologia é a ciência que trata da água na Terra, sua ocorrênca, circulação, distribuição espacial, suas propriedades físicas e químicas e sua relação com o ambiente, inclusive com os seres vivos. A Hidrologia é o estudo da

água na superfície terrestre, no solo e no sub-solo. De uma forma simplificada pode-se dizer que hidrologia tenta responder à pergunta: O que acontece com a água?

A Hidrologia pode ser tanto uma ciência como um ramo da engenharia e tem

muitos aspectos em comum com a meteorologia, geologia, geografia, agronomia,

engenharia ambiental e a ecologia. A Hidrologia utiliza como base os conhecimentos

de hidráulica, física e estatística.

Existem outras ciências que também estudam o comportamento da água em diferentes fases, como a meteorologia, a climatologia, a oceanografia, e a glaciologia.

A diferença fundamental é que a Hidrologia estuda os processos do ciclo da água em

contato com os continentes.

Hidrologia nas Engenharias

A humanidade tem se ocupado com a água como uma necessidade vital e como uma

ameaça potencial pelo menos desde o tempo em que as primeiras civilizações se desenvolveram às margens dos rios. Primitivos engenheiros construíram canais, diques, barragens, condutos subterrâneos e poços ao longo do rio Indus, no Paquistão, dos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, do Hwang Ho na China e do Nilo no Egito, há pelo menos 5000 anos.

HIDROLOGIA

Hidrologia nas Ciências do Meio Ambiente

O interesse em Ecologia e ciências do meio ambiente pela hidrologia é devido ao

papel que esta ciência exerce no estudo dos aspectos físicos que condicionam o meio ambiente.

A limnologia pode ser definida como o estudo ecológico de todas as massas de água continentais, incluindo lagos, lagunas estuários, represas, águas subterrâneas, águas temporárias, banhados e rios (Esteves, 1988). Apesar disso, a maior parte dos estudos de limnologia está focalizada em lagos. A hidrologia, por outro lado, tradicionalmente está mais ligada ao estudo dos rios. Entretanto, os conceitos abordados neste texto aplicam-se tanto a rios como a lagos, e, no caso das análises estatísticas, podem ser aplicadas à vazão como a outras variáveis, como o nível de lagos ou banhados, por exemplo.

Grande parte do estudo da hidrologia foi desenvolvida para avaliar a variabilidade temporal de variáveis importantes do ciclo hidrológico e para projetar obras de engenharia adequadas para minimizar os impactos de manifestações extremas desta variabilidade, como enchentes e longas estiagens. Para a limnologia, por outro lado, a variabilidade temporal das variáveis hidrológicas constitui o pano de fundo em frente ao qual se desenvolvem os ecossistemas, e por isso deve ser mais bem compreendida. Portanto, também para a limnologia esta variabilidade temporal, caracterizada pelo regime hidrológico, é fundamental.

Hidrologia na Engenharia Elétrica

O interesse em Hidrologia na Engenharia Elétrica é devido à utilização da água para

a geração de energia. A potência de uma usina hidrelétrica é proporcional ao produto

da descarga (ou vazão) pela queda. A queda é definida pela diferença de altitude do

nível da água a montante (acima) e a jusante (abaixo) da turbina. A descarga em um rio depende das características da bacia hidrográfica, como o clima, a geologia, os solos, a vegetação.

Em projetos de centrais hidrelétricas os estudos hidrológicos são necessários para:

das

Escolha

turbinas

adequadas

e

determinação

da

potência

instalada.

Análise da variação temporal da disponibilidade de energia.

Determinação da energia garantida ou firme.

Estimativa de vazões máximas em eventos extremos para dimensionamento das estruturas extravasoras.

HIDROLOGIA

Otimização da operação de sistemas interligados de geração elétrica que incluem hidrelétricas e termoelétricas.

Análise das relações entre o uso da água para geração de energia e outros usos, como irrigação, abastecimento urbano, navegação, preservação do meio ambiente e recreação.

No Brasil a geração de energia elétrica está fortemente ligada à hidrologia porque a quase totalidade da energia gerada e consumida é oriunda de usinas hidrelétricas. Considerando os dados da década de 1990, o Brasil é o terceiro maior produtor de energia hidrelétrica do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e do Canadá e a frente da China, da Rússia e da França. Entretanto, a energia hidrelétrica no Brasil corresponde a mais de 97% do total da energia elétrica gerada, enquanto que, na maior parte dos outros países, a energia hidrelétrica corresponde a percentuais muito menores do total, conforme a Tabela 1. 1. Destes países apenas a Noruega apresenta uma dependência semelhante da água no setor de energia, com 99% da energia de origem hidrelétrica. A dependência mundial da energia hidrelétrica é de apenas 20%, conforme pode ser observado na última linha da tabela.

Tabela 1. 1: Os dez países maiores produtores de energia hidrelétrica do mundo e a importância relativa da hidreletricidade na energia total produzida (Gleick, 2000).

País

Capacidade

Energia

Hidrelétrica

Percentual da energia total produzida (%)

Instalada(MW)

produzida (GW.hora/ano)

Estados Unidos

74.860

296.380

10

Canadá

64.770

330.690

62

China

52.180

166.800

18

Brasil

51.100

250.000

97

Rússia

39.990

162.800

27

Noruega

26.000

112.680

99

França

23.100

65.500

15

Japão

21.170

91.300

9

Índia

20.580

72.280

25

Suécia

16.540

63.500

52

Total dos 10 países

390.290

1.611.030

22

Mundo

633.730

2.445.390

20

Mesmo em usinas termelétricas a água tem um papel fundamental e é consumida em quantidades significativas. Neste caso a água é utilizada nos ciclos internos de resfriamento e geração de vapor. Nos Estados Unidos as usinas termelétricas utilizam cerca de 260 bilhões de metros cúbicos por ano, o que corresponde a 47% da utilização total de água neste país. Deve se ressaltar, entretanto, que nem toda esta

HIDROLOGIA

água é consumida, e grande parte retorna aos rios. Por este motivo, também as usinas termelétricas são construídas junto à fontes abundantes e confiáveis de água, e são necessários estudos hidrológicos para avaliar a sua disponibilidade.

A água

A água é uma substância com características incomuns. É a substância mais presente

na superfície do planeta Terra, cobrindo mais de 70% do globo. O corpo humano é

composto por água mais ou menos na mesma proporção. Já um tomate é composto por mais de 90 % de água, assim como muitos outros alimentos. Todas as formas de vida necessitam da água para sobreviver. A água é a única substância na Terra naturalmente presente nas formas líquida, sólida e gasosa. A mesma quantidade de água está presente na Terra atualmente como no tempo em que os dinossauros habitavam o planeta, há milhões de anos atrás. A busca de vida em outros planetas está fortemente relacionada a busca de indícios da presença de água.

A estrutura molecular da água (H 2 O) é responsável por uma característica

fundamental da água que é a sua grande inércia térmica, isto é, a temperatura da água varia de forma lenta. O sol aquece as superfícies de terra e de água do planeta com a mesma energia, entretanto as variações de temperatura são muito menores na água. Em função deste aquecimento diferenciado e do papel regularizador dos oceanos, o clima da Terra tem as características que conhecemos.

Comparada com outros líquidos a água também apresenta uma tensão superficial relativamente alta. Esta tensão superficial é responsável pela organização da chuva na forma de gotas e pela ascensão capilar da água nos solos.

Os recursos de água têm determinado o destino de muitas civilizações ao longo da

história. Povos entraram em conflito e guerras foram iniciadas em torno de problemas relacionados ao acesso à água. O crescimento da população mundial ao longo do último século tornou criticamente necessária a racionalização do uso da água.

No Brasil a geração de energia elétrica é apenas um dos usos da água, mas sua importância é muito grande, chegando a influenciar fortemente as estimativas do valor associado á água.

A

hidrosfera

O

termo hidrosfera refere-se a toda a água do mundo, que é estimada em

aproximadamente 1,4 quilômetros cúbicos. Cerca de 97 % da água do mundo está

nos oceanos. Dos 3% restantes, a metade (1,5% do total) está armazenada na forma

de geleiras ou bancadas de gelo nas calotas polares. A água doce de rios, lagos e

aqüíferos (reservatórios de água no subsolo) corresponde a menos de 1% do total.

HIDROLOGIA

Em valores totais a água doce existente na Terra e a água que atinge a superfície dos continentes na forma de chuva é suficiente para atender todas as necessidades humanas. Entretanto, grandes problemas surgem com a grande variabilidade temporal e espacial da disponibilidade de água. A América do Sul é, de longe, o continente com a maior disponibilidade de água, porém a precipitação que atinge nosso continente é altamente variável, apresentando na Amazônia altíssimas taxas de precipitação enquanto o deserto de Atacama é conhecido como o lugar mais seco do mundo.

No Brasil a disponibilidade de água é grande, porém existem regiões em que há crescentes conflitos em função da quantidade de água, como na região semi-árida do Nordeste. Mesmo no Rio Grande do Sul, onde a disponibilidade de água pode ser considerada alta, ocorrem anos secos em que a vazão de alguns rios não é suficiente para atender as demandas para abastecimento da população e para irrigação.

Tabela 1. 2: A água na Terra (Gleick, 2000).

 

Percentual água do planeta (%)

Percentual da água doce (%)

Oceanos/água salgada

97

 

Gelo permanente

1,7

69

Água subterrânea

0,76

30

Os processos do ciclo hidrológico são:

precipitação; infiltração; escoamento; evapotranspiração e condensação.

 

Lagos

0,007

0,26

Umidade do solo

0,001

0,05

Água atmosférica

0,001

0,04

Banhados

0,0008

0,03

Rios

0,0002

0,006

Biota

0,0001

0,003

O ciclo hidrológico

O ciclo hidrológico é o conceito central da hidrologia. O ciclo hidrológico está ilustrado na Figura 1. 1. A energia do sol resulta no aquecimento do ar, do solo e da água superficial e resulta na evaporação da água e no movimento das massas de ar. O vapor de ar é transportado pelo ar e pode condensar no ar formando nuvens. Em circunstâncias específicas o vapor do ar condensado nas nuvens pode voltar à superfície da Terra na forma de precipitação. A evaporação dos oceanos é a maior fonte de vapor para a atmosfera e para a posterior precipitação, mas a evaporação de

HIDROLOGIA

água dos solos, dos rios e lagos e a transpiração da vegetação também contribuem. A precipitação que atinge a superfície pode infiltrar no solo ou escoar por sobre o solo até atingir um curso d’água. A água que infiltra umedece o solo, alimenta os aqüíferos e cria o fluxo de água subterrânea.

O ciclo hidrológico é fechado se considerado em escala global. Em escala regional

podem existir alguns sub-ciclos. Por exemplo, a água precipitada que está escoando em um rio pode evaporar, condensar e novamente precipitar antes de retornar ao

oceano.

A água também sofre alterações de qualidade ao longo das diferentes fases do ciclo

hidrológico. A água salgada do mar é transformada em água doce pelo processo de evaporação. A água doce que infiltra no solo dissolve os sais aí encontrados e a água que escoa pelos rios carrega estes sais para os oceanos, bem como um grande número

de outras substâncias dissolvidas e em suspensão.

A energia que movimenta o ciclo hidrológico é fornecida pelo sol.

e em suspensão. A energia que movimenta o ciclo hidrológico é fornecida pelo sol. Figura 1.

Figura 1. 1: O ciclo hidrológico.

DESIGN

CUSTOMIZATION

Capítulo

2

Bacia hidrográfica e balanço hídrico

O ciclo hidrológico é normalmente estudado com maior interesse na fase terrestre, onde o elemento fundamental da análise é a bacia hidrográfica. A bacia hidrográfica é a área de captação natural dos fluxos de água

originados a partir da precipitação, que faz convergir os escoamentos para um único ponto de saída, seu exutório. A definição de uma bacia hidrográfica requer

a definição de um curso d’água, de um ponto ou seção de referência ao longo deste curso d’água e de informações sobre o relevo da região.

Uma bacia hidrográfica pode ser dividida em sub-bacias e cada uma das sub-bacias pode ser considerada uma bacia hidrográfica.

A bacia hidrográfica pode ser considerada como um sistema físico sujeito a entradas

de água (eventos de precipitação) que gera saídas de água (escoamento e evapotranspiração). A bacia hidrográfica transforma uma entrada concentrada no tempo (precipitação) em uma saída relativamente distribuída na tempo (escoamento).

As características fundamentais de uma bacia que dependem do relevo são:

Área

Comprimento da drenagem principal

Declividade

A área é um dado fundamental para definir a potencialidade hídrica de uma bacia,

uma vez que a bacia é a região de captação da água da chuva. Assim, a área da bacia

multiplicada pela lâmina precipitada ao longo de um intervalo de tempo define o volume de água recebido ao longo deste intervalo de tempo. A área de uma bacia hidrográfica pode ser estimada a partir da delimitação dos divisores da bacia em um mapa topográfico.

HIDROLOGIA

Um exemplo de bacia delimitada é apresentado na Figura 2. 1. A bacia delimitada corresponde à bacia do Arroio Quilombo, próximo a Lomba Grande e Novo Hamburgo, até a seção que corresponde a ponte da estrada vicinal indicada no mapa. O divisor de águas apresentado como uma linha pontilhada separa as regiões do mapa em que a água da chuva vai escoar até a seção da ponte das regiões em que a água da chuva não vai escoar até esta seção. O divisor de águas passa, em geral, pelas regiões mais elevadas do entorno do Arroio Quilombo e de seus afluentes, mas não necessariamente inclui os pontos mais elevados do terreno. O divisor de águas intercepta a rede de drenagem em apenas um ponto, que corresponde ao exutório da bacia (no exemplo é a seção da ponte).

ao exutório da bacia (no exemplo é a seção da ponte). Figura 2. 1: Exemplo de

Figura 2. 1: Exemplo de uma bacia hidrográfica delimitada sobre um mapa topográfico.

A área da bacia pode ser medida através de um instrumento denominado planímetro ou utilizando representações digitais da bacia em CAD ou em Sistemas de Informação Geográfica.

HIDROLOGIA

O comprimento da drenagem principal é uma característica fundamental da bacia

hidrográfica porque está relacionado ao tempo de viagem da água ao longo de todo o sistema. O tempo de viagem da gota de água da chuva que atinge a região mais

remota da bacia até o momento em que atinge o exutório é chamado de tempo de concentração da bacia.

Tempo de concentração é o tempo que uma gota de chuva que atinge a região mais remota da bacia leva para atingir o exutório.

principal também são características que afetam

diretamente o tempo de viagem da água ao longo

do sistema. O tempo de concentração de uma bacia

A declividade média da bacia e do curso d’água

diminui com o aumento da declividade.

A equação de Kirpich, apresentada abaixo, pode ser utilizada para estimativa do

tempo de concentração de pequenas bacias:

t

c

=

57

⎛ ⎜ L

3

h

0,385

onde t c é o tempo de concentração em minutos; L é o comprimento do curso d’água principal em km; e h é a diferença de altitude em metros ao longo do curso d’água principal.

Outras características importantes da bacia

Os tipos de solos, a geologia, a vegetação e o uso do solo são outras características importantes da bacia hidrográfica que não estão diretamente relacionadas ao relevo. Os tipos de solos e a geologia vão determinar em grande parte a quantidade de água precipitada que vai infiltrar no solo e a quantidade que vai escoar superficialmente. A vegetação tem um efeito muito grande sobre a formação do escoamento superficial e sobre a evapotranspiração. O uso do solo pode alterar as características naturais, modificando as quantidades de água que infiltram, que escoam e que evaporam, alterando o comportamento hidrológico de uma bacia.

Balanço hídrico numa bacia

O balanço entre entradas e saídas de água em uma bacia hidrográfica é denominado

balanço hídrico. A principal entrada de água de uma bacia é a precipitação. A saída

de água da bacia pode ocorrer por evapotranspiração e por escoamento. Estas variáveis podem ser medidas com diferentes graus de precisão. O balanço hídrico de uma bacia exige que seja satisfeita a equação:

HIDROLOGIA

dV =

dt

P

E Q

ou, num intervalo de tempo finito:

V =

t

P

E

Q

onde V é a variação do volume de água armazenado na bacia (m 3 ); t é o intervalo

de

tempo considerado (s); P é a precipitação (m 3 .s -1 ); E é a evapotranspiração (m 3 .s -1 ); e

Q

é o escoamento (m 3 .s -1 ).

1 ); e Q é o escoamento (m 3 .s - 1 ). Figura 2. 2:

Figura 2. 2: Relevo de uma bacia hidrográfica e as entradas e saídas de água: P é a precipitação; ET é a evapotranspiração e Rs é o escoamento (adaptado de Hornberger et al., 1998).

Em intervalos de tempo longos, como um ano ou mais, a variação de armazenamento pode ser desprezada na maior parte das bacias, e a equação pode ser reescrita em unidades de mm.ano -1 , o que é feito dividindo os volumes pela área da bacia.

P = E + Q

onde P é a precipitação em mm.ano -1 ; E é a evapotranspiração em mm.ano -1 e Q é o escoamento em mm.ano -1 .

HIDROLOGIA

As unidades de mm são mais usuais para a precipitação e para a evapotranspiração. Uma lâmina de 1 mm de chuva corresponde a um litro de água distribuído sobre uma área de 1 m 2 .

O percentual da chuva que se transforma em escoamento é chamado coeficiente de

escoamento de longo prazo e é dado por:

C =

Q

P

O coeficiente de escoamento tem, teoricamente, valores entre 0 e 1. Na prática os

valores vão de 0,05 a 0,5 para a maioria das bacias.

A Tabela 2. 1 apresenta dados de balanço hídrico para as grandes bacias brasileiras, de acordo com dados da Agência Nacional da Água (ANA). A região do Rio Grande do Sul está contida nas bacias do rio Uruguai e na bacia do Atlântico Sul, onde a precipitação média é de 1699 e 1481 mm por ano, respectivamente. Na bacia do rio Uruguai o escoamento é de 716 mm por ano, o que corresponde a 4040 m 3 .s -1 de vazão média nesta bacia, que tem área de 178.000 km 2 . Na bacia do Atlântico Sul, em que está inserida a bacia do rio Guaíba, o escoamento é de 643 mm por ano, enquanto a evapotranspiração, que completa o balanço, é de 838 mm por ano. O coeficiente de escoamento nas duas bacias é um pouco superior a 40%, o que significa que cerca de 40% da chuva é transformada em vazão, enquanto 60% retorna à atmosfera pelo processo de evapotranspiração.

Tabela 2. 1: Características de balanço hídrico das grandes regiões hidrográficas do Brasil (valores em mm correspondem às laminas médias precipitadas, escoadas e evaporadas ao longo de um ano).

do Brasil (valores em mm correspondem às laminas médias precipitadas, escoadas e evaporadas ao longo de

HIDROLOGIA

A tabela mostra que a evapotranspiração tende a ser maior nas bacias mais próximas

do Equador. Observa-se também que a disponibilidade de água (vazão em mm por ano) é menor na bacia do rio São Francisco e na bacia Atlântico Leste (1) que inclui

as regiões mais secas da região Nordeste do Brasil.

Exemplos

1)

Qual seria a vazão de saída de uma bacia completamente impermeável, com área de 60km 2 , sob uma chuva constante à taxa de 10 mm.hora -1 ?

Cada mm de chuva sobre a bacia de 60km 2 corresponde a um volume total de 60.000 m 3 lançados sobre a bacia, o que significa que em uma hora são lançados 600.000 m 3 de água sobre esta bacia. Como a bacia é impermeável toda a água deve sair pelo exutório a uma vazão constante de 167 m 3 .s -1 .

2) A região da bacia hidrográfica do rio Taquari recebe precipitações médias anuais de 1600 mm. Em Muçum (RS) há um local em que são medidas as vazões deste rio e uma análise de uma série de dados diários ao longo de 30 anos revela que a vazão média do rio é de 340 m 3 .s -1 . Considerando que a área da bacia neste local é de 15.000 Km 2 , qual é a evapotranspiração média anual nesta bacia? Qual é o coeficiente de escoamento de longo prazo?

O balanço hídrico de longo prazo de uma bacia é dado por

P = E + Q onde P é a chuva média anual; E é a evapotranspiração média anual e Q é o

escoamento médio anual.

A vazão média de 340 m 3 .s -1 em uma bacia de 15.000 km 2 corresponde ao escoamento anual

de uma lâmina dada por:

Q( mm / ano ) =

Q( m .s ) 3600 24 365( s .ano )

3

1

1

2

A( m )

ou

Q( mm / ano ) Q( m .s )

=

3

1

3 ,6 24 365

2

A( km )

Q( mm / ano ) = 340

3 ,6 24 365

15000

715 mm .ano

1

1

1000( mm .m )

HIDROLOGIA

e a evapotranspiração é dada por E = P – Q =1600 – 715 = 885 mm.ano -1 .

O coeficiente de escoamento de longo prazo é dado por C = Q/P = 715/1600 = 0,447.

Exercícios

1)

Uma bacia de 100 km 2 recebe 1300 mm de chuva anualmente. Qual é o volume de chuva (em m 3 ) que atinge a bacia por ano?

2)

Uma bacia de 1100 km 2 recebe anualmente 1750 mm de chuva, e a vazão média corresponde a 18 m 3 /s. Calcule a evapotranspiração total desta bacia (em mm/ano).

3) A região da bacia hidrográfica do rio Uruguai recebe precipitações médias anuais de 1700 mm. Estudos anteriores mostram que o coeficiente de escoamento de longo prazo é de 0,42 nesta região. Qual é a vazão média esperada em um pequeno afluente do rio Uruguai numa seção em que a área da bacia é de 230 km 2 .

4) Considera-se para o dimensionamento de estruturas de abastecimento de água que um habitante de uma cidade consome cerca de 200 litros de água por dia. Qual é a área de captação de água da chuva necessária para abastecer uma casa de 4 pessoas em uma cidade com precipitações anuais de 1400 mm, como Porto Alegre? Considere que a área de captação seja completamente impermeável.

HIDROLOGIA

Precipitação

Capítulo

3

A água da atmosfera que atinge a superfície na forma de chuva, granizo, neve, orvalho, neblina ou geada é denominada precipitação. Na realidade brasileira a chuva é a forma mais importante de precipitação, embora grandes prejuízos possam advir da ocorrência de precipitação na forma de

granizo e em alguns locais possa eventualmente ocorrer a neve.

A chuva é a causa mais importante dos processos hidrológicos de interesse da

engenharia e é caracterizada por uma grande aleatoriedade espacial e temporal.

A água existente na atmosfera está, em sua maior parte, na forma de vapor. A

quantidade de vapor que o ar pode conter é limitada. Ar a 20º C pode conter uma quantidade máxima de vapor de, aproximadamente, 20 gramas por metro cúbico.

Quantidades de vapor superiores a este limite acabam condensando.

A quantidade máxima de vapor que pode ser contida no ar sem condensar é a

concentração de saturação. Uma característica muito importante da concentração de saturação é que ela aumenta com o aumento da temperatura do ar. Assim, ar mais quente pode conter mais vapor do que ar frio. A Figura 3. 1 apresenta a variação da

concentração de saturação de vapor no ar com a temperatura. Observa-se que o ar a 10º C pode conter duas vezes mais vapor do que o ar a 0º C.

O ar atmosférico apresenta um forte gradiente de temperatura, com temperatura

relativamente alta junto à superfície e temperatura baixa em grandes altitudes. O

processo de formação das nuvens de chuva está associado ao movimento ascendente

de uma massa de ar úmido. Neste processo a temperatura do ar vai diminuindo até

que o vapor do ar começa a condensar. Isto ocorre porque a quantidade de água que

o

ar pode conter sem que ocorra condensação é maior para o ar quente do que para

o

ar frio. Quando este vapor se condensa, pequenas gotas começam a se formar,

permanecendo suspensas no ar por fortes correntes ascendentes e pela turbulência. Porém, em certas condições, as gotas das nuvens crescem, atingindo tamanho e peso

HIDROLOGIA

suficiente para vencer as correntes de ar que as sustentam. Nestas condições, a água das nuvens se precipita para a superfície da Terra, na forma de chuva.

se precipita para a superfície da Terra, na forma de chuva. Figura 3. 1: Relação entre

Figura 3. 1: Relação entre a temperatura e o conteúdo de vapor de água no ar na condição de saturação.

A formação das nuvens de chuva está, em geral, associada ao movimento ascendente

de massas de ar úmido. A causa da ascensão do ar úmido é considerada para diferenciar os principais tipos de chuva: frontais, convectivas ou orográficas.

Chuvas frontais

As chuvas frontais ocorrem quando se encontram duas grandes massas de ar, de diferente temperatura e umidade. Na frente de contato entre as duas massas o ar mais quente (mais leve e, normalmente, mais úmido) é empurrado para cima, onde atinge temperaturas mais baixas, resultando na condensação do vapor. As massas de ar que formam as chuvas frontais têm centenas de quilômetros de extensão e movimentam

se de forma relativamente lenta, conseqüentemente as chuvas frontais caracterizam-se

pela longa duração e por atingirem grandes extensões. No Brasil as chuvas frontais são muito freqüentes na região Sul, atingindo também as regiões Sudeste, Centro

Oeste e, por vezes, o Nordeste.

Chuvas frontais têm uma intensidade relativamente baixa e uma duração relativamente longa. Am alguns casos as frentes podem ficar estacionárias, e a chuva pode atingir o mesmo local por vários dias seguidos.

HIDROLOGIA

HIDROLOGIA Figura 3. 2: Tipos de chuvas Chuvas orográficas As chuvas orográficas ocorrem em regiões em

Figura 3. 2: Tipos de chuvas

Chuvas orográficas

As chuvas orográficas ocorrem em regiões em que um grande obstáculo do relevo, como uma cordilheira ou serra muito alta, impede a passagem de ventos quentes e úmidos, que sopram do mar, obrigando o ar a subir. Em maiores altitudes a umidade do ar se condensa, formando nuvens junto aos picos da serra, onde chove com muita freqüência. As chuvas orográficas ocorrem em muitas regiões do Mundo, e no Brasil são especialmente importantes ao longo da Serra do Mar.

Chuvas convectivas

As chuvas convectivas ocorrem pelo aquecimento de massas de ar, relativamente pequenas, que estão em contato direto com a superfície quente dos continentes e oceanos. O aquecimento do ar pode resultar na sua subida para níveis mais altos da atmosfera onde as baixas temperaturas condensam o vapor, formando nuvens. Este

HIDROLOGIA

processo pode ou não resultar em chuva, e as chuvas convectivas são caracterizadas pela alta intensidade e pela curta duração. Normalmente, porém, as chuvas convectivas ocorrem de forma concentrada sobre áreas relativamente pequenas. No Brasil há uma predominância de chuvas convectivas, especialmente nas regiões tropicais.

Os processos convectivos produzem chuvas de grande intensidade e de duração relativamente curta. Problemas de inundação em áreas urbanas estão, muitas vezes, relacionados às chuvas convectivas.

Medição da chuva

A chuva é medida utilizando instrumentos chamados pluviômetros que nada mais

são do que recipientes para coletar a água precipitada com algumas dimensões padronizadas. O pluviômetro mais utilizado no Brasil tem uma forma cilíndrica

com uma área superior de captação da chuva de 400 cm 2 , de modo que um volume

de 40 ml de água acumulado no pluviômetro corresponda a 1 mm de chuva. O

pluviômetro é instalado a uma altura padrão de 1,50 m do solo (figura XXXX) e a uma certa distância de casas, árvores e outros obstáculos que podem interferir na quantidade de chuva captada.

Nos pluviômetros da rede de observação mantida pela Agência Nacional da Água (ANA) a medição da chuva é realizada uma vez por dia, sempre às 7:00 da manhã, por um observador que anota o valor lido em uma caderneta. A ANA tem uma rede

de 2473 estações pluviométricas distribuídos em todo o Brasil. Além da ANA existem

outras instituições e empresas que mantém pluviômetros, como o Instituto Nacional

de Meteorologia (INMET), empresas de geração de energia hidrelétrica e empresas de

pesquisa agropecuária. No banco de dados da ANA (www.hidroweb.ana.gov.br) estão cadastradas 14189 estações pluviométricas de diversas entidades, mas apenas 8760 estão em atividade atualmente.

Existem pluviômetros adaptados para realizar medições de forma automática, registrando os dados medidos em intervalos de tempo inferiores a um dia. São os pluviógrafos, que originalmente eram mecânicos, utilizavam uma balança para pesar o peso da água e um papel para registrar o total precipitado. Os pluviógrafos antigos com registro em papel foram substituídos, nos últimos anos, por pluviógrafos eletrônicos com memória (data-logger).

O pluviógrafo mais comum atualmente é o de cubas basculantes, em que a água

recolhida é dirigida para um conjunto de duas cubas articuladas por um eixo central.

A água é dirigida inicialmente para uma das cubas e quando esta cuba recebe uma

quantidade de água equivalente a 20 g, aproximadamente, o conjunto báscula em

HIDROLOGIA

torno do eixo, a cuba cheia esvazia e a cuba vazia começa a receber água. Cada movimento das cubas basculantes equivale a uma lâmina precipitada (por exemplo 0,25 mm), e o aparelho registra o número de movimentos e o tempo em que ocorre cada movimento.

A principal vantagem do pluviógrafo sobre o pluviômetro é que permite analisar detalhadamente os eventos de chuva e sua variação ao longo do dia. Além disso, o pluviógrafo eletrônico pode ser acoplado a um sistema de transmissão de dados via rádio ou telefone celular.

de transmissão de dados via rádio ou telefone celular. Figura 3. 3: Características de um pluviômetro.

Figura 3. 3: Características de um pluviômetro.

A chuva também pode ser estimada utilizando radares meteorológicos. A medição de chuva por radar está baseada na emissão de pulsos de radiação eletromagnética que são refletidos pelas partículas de chuva na atmosfera, e na medição do da intensidade do sinal refletido. A relação entre a intensidade do sinal enviado e recebido, denominada refletividade, é correlacionada à intensidade de chuva que está caindo em uma região. A principal vantagem do radar é a possibilidade de fazer estimativas de taxas de precipitação em uma grande região no entorno da antena emissora e receptora, embora existam erros consideráveis quando as estimativas são comparadas com dados de pluviógrafos.

No Brasil são poucos os radares para uso meteorológico, com a exceção do Estado de São Paulo em que existem alguns em operação. Em alguns países, como os EUA, a Inglaterra e a Alemanha, já existe uma cobertura completa com sensores de radar para estimativa de chuva.

HIDROLOGIA

Também é possível fazer estimativas da precipitação a partir de imagens obtidas por sensores instalados em satélites. A temperatura do topo das nuvens, que pode ser estimada a partir de satélites, tem uma boa correlação com a precipitação. Além disso, existem experimentos de radares a bordo de satélites que permitem aprimorar a estimativa baseada em dados de temperatura de topo de nuvem.

Análise de dados de chuva

As variáveis que caracterizam a chuva são a sua altura (lâmina precipitada), a intensidade, a duração e a freqüência.

Duração é o período de tempo durante o qual a chuva cai. Normalmente é medida em minutos ou horas.

A altura é a espessura média da lâmina de água que cobriria a região atingida se esta

região fosse plana e impermeável. A unidade de medição da altura de chuva é o

milímetro de chuva. Um milímetro de chuva corresponde a 1 litro de água distribuído em um metro quadrado.

Intensidade é a altura precipitada dividida pela duração da chuva, e é expressa, normalmente, em mm.hora -1 .

Freqüência é a quantidade de ocorrências de eventos iguais ou superiores ao evento de chuva considerado. Chuvas muito intensas tem freqüência baixa, isto é, ocorrem raramente. Chuvas pouco intensas são mais comuns. A Tabela 3. 1 apresenta a análise de freqüência de ocorrência de chuvas diárias de diferentes intensidades ao longo de um período de 23 anos em uma estação pluviométrica no interior do Paraná. Observa-se que ocorreram 5597 dias sem chuva (P = zero) no período total de 8279 dias, isto é, em 67% dos dias do período não ocorreu chuva. Em pouco mais de 17% dos dias do período ocorreram chuvas com intensidade baixa (menos do que 10 mm). A medida em que aumenta a intensidade da chuva diminui a freqüência de ocorrência.

A variável utilizada na hidrologia para avaliar eventos extremos como chuvas muito

intensas é o tempo de retorno (TR), dado em anos. O tempo de retorno é uma estimativa do tempo em que um evento é igualado ou superado, em média. Por exemplo, uma chuva com intensidade equivalente ao tempo de retorno de 10 anos é igualada ou superada somente uma vez a cada dez anos, em média. Esta última ressalva “em média” implica que podem, eventualmente, ocorrer duas chuvas de TR 10 anos em dois anos subseqüentes.

HIDROLOGIA

Tabela 3. 1: Freqüência de ocorrência de chuvas diárias de diferentes alturas em um posto pluviométrico no interior do Paraná ao longo de um período de, aproximadamente, 23 anos.

 

Bloco

Freqüência

P

= zero

5597

P

< 10 mm

1464

10

< P < 20 mm

459

20

< P < 30 mm

289

30

< P < 40 mm

177

40

< P < 50 mm

111

50

< P < 60 mm

66

60

< P < 70 mm

38

70

< P < 80 mm

28

80

< P < 90 mm

20

90

< P < 100 mm

8

100

< P < 110 mm

7

110

< P < 120 mm

2

120

< P < 130 mm

5

130

< P < 140 mm

2

140

< P < 150 mm

1

150

< P < 160 mm

1

160

< P < 170 mm

1

170

< P < 180 mm

2

180

< P < 190 mm

1

190

< P < 200 mm

0

P

> 200 mm

0

Total

8279

O

tempo de retorno pode, também, ser definido como

o

inverso da probabilidade de ocorrência de um

O Tempo de Retorno é igual ao inverso da probabilidade.

determinado evento em um ano qualquer. Por

exemplo, se a chuva de 130 mm em um dia é igualada ou superada apenas 1 vez a cada 10 anos diz-se que seu Tempo de Retorno é de 10 anos, e que a probabilidade de acontecer um dia com chuva igual ou superior a 130 mm em um ano qualquer é de 10%, ou seja:

TR =

1

Pr obabilidad e

Variabilidade espacial da chuva

Os dados de chuva dos pluviômetros e pluviógrafos referem-se a medições executadas em áreas muito restritas (400 cm 2 ), quase pontuais. Porém a chuva caracteriza-se por

HIDROLOGIA

uma grande variabilidade espacial. Assim, durante um evento de chuva um pluviômetro pode ter registrado 60 mm de chuva enquanto um outro pluviômetro, a 30 km de distância registrou apenas 40 mm para o mesmo evento. Isto ocorre porque a chuva apresenta uma grande variabilidade espacial, principalmente se é originada por um processo convectivo.

A forma de representar a variabilidade espacial da chuva para um evento, para um

ano inteiro de dados ou para representar a precipitação média anual ao longo de um período de 30 anos são as linhas de mesma precipitação (isoietas) desenhadas sobre um mapa. As isoietas são obtidas por interpolação dos dados de pluviômetros ou pluviógrafos e podem ser traçadas de forma manual ou automática. A Figura 3. 4 apresenta um mapa de isoietas de chuva média anual do Estado de São Paulo, com base em dados de 1943 a 1988. Observa-se que a chuva média anual sobre a maior parte do Estado é da ordem de 1300 a 1500 mm por ano, mas há uma região próxima ao litoral com chuvas anuais de mais de 3000 mm por ano. As regiões onde as isoietas ficam muito próximas entre si é caracterizada por uma grande variabilidade espacial.

Variabilidade sazonal da chuva

Um dos aspectos mais importantes do clima e da hidrologia de uma região é a época

de ocorrência das chuvas. Existem regiões com grande variabilidade sazonal da chuva,

com estações do ano muito secas ou muito úmidas. Na maior parte do Brasil o verão

é o período das maiores chuvas. No Rio Grande do Sul, entretanto, a chuva é

relativamente bem distribuída ao longo de todo o ano (em média). Isto não impede,

entretanto, que em alguns anos ocorram invernos ou verões extremamente secos ou extremamente úmidos.

A variabilidade sazonal da chuva é representada por gráficos com a chuva média

mensal, como o apresentado na Figura 3. 5 para Porto Alegre. Observa-se que no Sul

do Brasil existe uma distribuição mais homogênea das chuvas ao longo do ano, enquanto no Centro-Oeste ocorrem verões muito úmidos e invernos muito secos.

HIDROLOGIA

HIDROLOGIA Figura 3. 4: Exemplo de representação da variabilidade especial da chuva com um mapa de

Figura 3. 4: Exemplo de representação da variabilidade especial da chuva com um mapa de isoietas.

da variabilidade especial da chuva com um mapa de isoietas. Figura 3. 5: Variabilidade sazonal da

Figura 3. 5: Variabilidade sazonal da chuva em Porto Alegre e Cuiabá, representada pelas chuvas médias mensais no período de 1961 a 1990.

22

HIDROLOGIA

Chuvas médias numa área

Os dados de chuva dos pluviômetros e pluviógrafos referem-se a uma área de coleta de 400 cm 2 , ou seja, quase pontual. Porém, o maior interesse na hidrologia é por chuvas médias que atingem uma região, como a bacia hidrográfica.

O cálculo da chuva média em uma bacia pode ser realizado utilizando o método da

média aritmética; das Isoietas; dos polígonos de Thiessen ou através de interpolação em Sistemas de Informação Geográfica (SIGs).

O método mais simples é o da média aritmética, em que se calcula a média das

chuvas ocorridas em todos os pluviômetros localizados no interior de uma bacia.

1)

EXEMPLO

Qual é a precipitação média na bacia da Figura 3. 6?

Utilizando o método da média aritmética considera-se os pluviômetros que estão no interior da bacia. A média da chuva é Pm = (66+50+44+40)/4 = 50 mm.

bacia. A média da chuva é Pm = (66+50+44+40)/4 = 50 mm. Figura 3. 6: Mapa

Figura 3. 6: Mapa de uma bacia com as chuvas observadas em cinco pluviômetros.

O método das isoietas parte de um mapa de isoietas, como o da Figura 3. 4, e calcula

a área da bacia que corresponde ao intervalo entre as isoietas. Assim, considera-se que

a área entre as isoietas de 1200 e 1300 mm receba 1250 mm de chuva.

Um dos métodos mais utilizados, entretanto, é o método de Thiessen, ou do vizinho mais próximo. Neste método é definida a área de influência de cada posto e é calculada uma média ponderada da precipitação com base nestas áreas de influência.

HIDROLOGIA

HIDROLOGIA Figura 3. 7: Mapa da bacia com chuvas no s postos pluviométricos para o exemplo

Figura 3. 7: Mapa da bacia com chuvas nos postos pluviométricos para o exemplo 2.

2)

EXEMPLO

Qual é a precipitação média na bacia da Figura 3. 7?

Utilizando o método dos polígonos de Thiessen o primeiro passo é traçar linhas que unem os postos pluviométricos mais próximos. A seguir é determinado o ponto médio em cada uma destas linhas e traçada uma linha perpendicular. A interceptação das linhas médias entre si e com os limites da bacia vão definir a área de influência de cada um dos postos. A seqüência é apresentada na próxima página.

Área total = 100 km 2

Área sob influência do posto com 120 mm = 15 km 2

Área sob influência do posto com 70 mm = 40 km 2

Área sob influência do posto com 50 mm = 30 km 2

Área sob influência do posto com 75 mm = 5 km 2

Área sob influência do posto com 82 mm = 10 km 2

Precipitação média na bacia:

Pm = 120x0,15+70x0,40+50x0,30+75x0,05+82x0,10 = 73 mm.

Se fosse utilizado o método da média aritmética haveria apenas dois postos no interior da bacia, com uma média de 60 mm. Se fosse calculada uma média incluindo os postos que estão fora da bacia chegaríamos a 79,5 mm.

HIDROLOGIA

Traçar linhas que unem os postos pluviométricos mais próximos entre si.

que unem os postos pluviométricos mais próximos entre si. Traçar linhas médias perpendiculares às linhas que

Traçar linhas médias perpendiculares às linhas que unem os postos pluviométricos.

Definir a região de influência de cada posto pluviométrico e medir a sua área.

de cada posto pluviométrico e medir a sua área. Figura 3. 8: Exemplo de definição dos
de cada posto pluviométrico e medir a sua área. Figura 3. 8: Exemplo de definição dos

Figura 3. 8: Exemplo de definição dos polígonos de Thiessen.

HIDROLOGIA

Chuvas anuais

A chuva média anual é uma das variáveis mais importantes na definição do clima de uma região, bem como sua variabilidade sazonal. O total de chuva precipitado ao longo de um ano influencia fortemente a vegetação existente numa bacia e as atividades humanas que podem ser exercidas na região.

Na região de Porto Alegre, por exemplo, chove aproximadamente 1300 mm por ano, em média. Em muitas regiões da Amazônia chove mais do que 2000 mm por ano, enquanto na região do Semi-Árido do Nordeste há áreas com menos de 600 mm de chuva por ano.

O clima, entretanto, não é constante, e ocorrem variações importantes em torno da

média da precipitação anual. A Figura 3. 9 apresenta um histograma de freqüências

de chuvas anuais de um posto localizado no interior de Minas Gerais, no período de

1942 a 2001. A chuva média neste período é de 1433 mm, mas observa-se que ocorreu um ano com chuva inferior a 700 mm, e um ano com chuva superior a 2300 mm. A distribuição de freqüência da Figura 3. 9 é aproximadamente gaussiana (parecida com a distribuição Normal).

Conhecendo o desvio padrão das chuvas e considerando que a distribuição é Normal, podemos estimar que 68% dos anos

apresentam chuvas entre a média menos um desvio padrão e a média mais um desvio padrão. Da mesma forma podemos considerar que 95% dos anos

apresentam chuvas entre a média menos duas vezes o desvio padrão e a média mais duas vezes o desvio padrão.

Chuvas anuais têm uma distribuição de freqüências semelhante a Normal.

O desvio padrão da chuva anual no posto pluviométrico da Figura 3. 9 é de 298,8

mm.

semelhante a Normal. O desvio padrão da chuva anual no posto pluviométrico da Figura 3. 9

HIDROLOGIA

Figura 3. 9: Histograma de frequencia de chuvas anuais no posto 02045005, no município de Lamounier (MG).

3)

EXEMPLO

O desvio padrão da chuva anual no posto pluviométrico da Figura 3. 9 é de 298,8 mm e a média de 1433 mm. Estime qual o valor de precipitação anual que é igualado ou superado apenas 5 vezes a cada 200 anos, em média.

A faixa de chuva entre a média menos duas vezes o desvio padrão e a média mais duas vezes o desvio padrão inclui 95% dos anos em média, e 2,5 % dos anos tem precipitação inferior à média menos duas vezes o desvio padrão, enquanto 2,5% tem precipitação superior à média mais duas vezes o desvio padrão, o que corresponde a 5 anos a cada 200, em média. Assim, a chuva anual que é superada ou igualada apenas 5 vezes a cada 200 anos é:

P 2,5% = 1433+2x298,8 = 2030 mm

Chuvas máximas

As chuvas intensas são as causas das cheias e as cheias são causas de grandes prejuízos

quando os rios transbordam e inundam casas, ruas, estradas, escolas, podendo destruir plantações, edifícios, pontes etc. e interrompendo o tráfego. As cheias também podem trazer sérios prejuízos à saúde pública ao disseminar doenças de veiculação hídrica.

Por estes motivos existe o interesse pelo conhecimento detalhado de chuvas máximas no projeto de estruturas hidráulicas como bueiros, pontes, canais e vertedores.

O problema da análise de freqüência de chuvas máximas é calcular a precipitação P

que atinge uma área A em uma duração D com uma dada probabilidade de ocorrência em um ano qualquer. A forma de relacionar quase todas estas variáveis é a curva de Intensidade – Duração – Freqüência (curva IDF).

A curva IDF é obtida a partir da análise estatística de séries longas de dados de um

pluviógrafo (mais de 15 anos, pelo menos). A metodologia de desenvolvimento da curva IDF baseia-se na seleção das maiores chuvas de uma duração escolhida (por exemplo 15 minutos) em cada ano da série de dados. Com base nesta série de tamanho N (número de anos) é ajustada uma distribuição de freqüências que melhor represente a distribuição dos valores observados. O procedimento é repetido para diferentes durações de chuva (5 minutos; 10 minutos; 1 hora; 12 horas; 24 horas; 2 dias; 5 dias) e os resultados são resumidos na forma de um gráfico, ou equação, com a relação das três variáveis: Intensidade, Duração e Freqüência (ou tempo de retorno).

HIDROLOGIA

A Figura 3. 10 apresenta uma curva IDF obtida a partir da análise dos dados de um pluviógrafo que esteve localizado no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Cada uma das linhas representa um Tempo de Retorno; no eixo horizontal estão as durações e no eixo vertical estão as intensidades. Observa-se que quanto menor a duração maior a intensidade da chuva. Da mesma forma, quanto maior o Tempo de Retorno, maior a intensidade da chuva. Por exemplo, a chuva de 1 hora de duração com tempo de retorno de 20 anos tem uma intensidade de 60 mm.hora -1 .

exemplo, a chuva de 1 hora de duração com tempo de retorno de 20 anos tem

HIDROLOGIA

Figura 3. 10: Curva IDF para a cidade de Porto Alegre, com base nos dados coletados pelo pluviógrafo do DMAE localizado no Parque da Redenção, publicada pelo DMAE em 1972 (adaptado de Tucci, 1993).

Evidentemente as curvas IDF são diferentes em diferentes locais. Assim, a curva IDF de Porto Alegre vale para a região próxima a esta cidade. Infelizmente não existem séries de dados de pluviógrafos longas em todas as cidades, assim, muitas vezes, é necessário considerar que a curva IDF de um local é válida para uma grande região do entorno. No Brasil existem estudos de chuvas intensas com curvas IDF para a maioria das capitais dos Estados e para algumas cidades do interior, apenas.

É interessante comparar as intensidade de chuva da curva IDF da Figura 3. 10 com as chuvas da Tabela 3. 2, que apresenta as chuvas mais intensas já registradas no mundo, para diferentes durações. Observa-se que existem regiões da China em que já ocorreu em 10 horas a chuva de 1400 mm, que é equivalente ao total anual médio de precipitação em Porto Alegre.

Tabela 3. 2: Chuvas mais intensas já registradas no Mundo (adaptado de Ward e Trimble, 2003).

Duração

Precipitação

Local e Data

(mm)

1 minuto

38

Barot, Guadeloupe 26/11/1970

15

minutos

198

Plumb Point, Jamaica 12/05/1916

30

minutos

280

Sikeshugou, Hebei, China 03/07/1974

60

minutos

401

Shangdi, Mongólia, China 03/07/1975

10

horas

1400

Muduocaidang, Mongólia, China 01/08/1977

24

horas

1825

Foc Foc, Ilhas Reunião 07 e 08/01/1966

12

meses

26461

Cherrapunji, Índia Ago. de 1860 a Jul. de 1861

Exercícios

1)

Qual é a diferença entre um pluviômetro e um pluviógrafo?

2)

Além do pluviômetro e do pluviógrafo, quais são as outras opções para medir ou estimar a precipitação?

HIDROLOGIA

3)

Uma análise de 40 anos de dados revelou que a chuva média anual em um local na bacia do rio Uruguai é de 1800 mm e o desvio padrão é de 350 mm. Considerando que a chuva anual neste local tem uma distribuição normal, qual é o valor de chuva anual de um ano muito seco, com tempo de recorrência de 40 anos?

4)

Considerando a curva IDF do DMAE para o posto pluviográfico do Parque da Redenção, qual é a intensidade da chuva com duração de 40 minutos que tem 1% de probabilidade de ser igualada ou superada em um ano qualquer em Porto Alegre?

5) No dia 03 de janeiro de 2007 uma chuva intensa atingiu Porto Alegre. Na Zona Sul a medição em um pluviômetro indicou 111 mm em 2 horas, e no centro outro pluviômetro indicou 80 mm em 2 horas. Qual foi o tempo de retorno da chuva em cada um destes locais? Considere intensidade constante e utilize a curva IDF do Parque da Redenção.

6)

Qual é a diferença entre a chuva de 10 anos de tempo de retorno e 15 minutos de duração em Porto Alegre e a maior chuva já registrada no mundo com esta duração?

7)

Qual é a chuva média na bacia da figura abaixo considerando que a chuva observada em A é de 1300 mm, a chuva observada em B é de 900 mm e a chuva observada em C é de 1100 mm?

que a chuva observada em A é de 1300 mm, a chuva observada em B é

DESIGN

CUSTOMIZATION

HIDROLOGIA

Capítulo

4

Infiltração e água no solo

I nfiltração é definida como a passagem da água através da superfície do solo, passando pelos poros e atingindo o interior, ou perfil, do solo. A infiltração de água no solo é importante para o crescimento da vegetação, para o

abastecimento dos aquíferos (reservatórios de água subterrânea), para armazenar a água que mantém o fluxo nos rios durante as estiagens, para reduzir o escoamento superficial, reduzir as cheias e diminuir a erosão.

Composição do solo

A água infiltrada no solo preenche os poros originalmente ocupados pelo ar. Assim, o solo é uma mistura de materiais sólidos, líquidos e gasosos. Na mistura também encontram-se muitos organismos vivos (bactérias, fungos, raízes, insetos, vermes) e matéria orgânica, especialmente nas camadas superiores, mais próximas da superfície. A Figura 4. 1 apresenta a proporção das partes mineral, água, ar

e matéria orgância tipicamente

encontradas na camada superficial do solo (horizonte A). Aproximadamente 50% do solo é composto de material sólido, enquanto o restante são poros

que podem ser ocupados por água ou

pelo ar. O conteúdo de ar e de água é

por água ou pelo ar. O conteúdo de ar e de água é Figura 4. 1:

Figura 4. 1: Composição típica do solo (Lepsch, 2004).

variável.

HIDROLOGIA

A parte sólida mineral do solo normalmente é analisada do ponto de vista do diâmetro das partículas. De acordo com o diâmetro as partículas são classificadas como argila, silte, areia fina, areia grossa, e cascalhos ou seixos. A Tabela 4. 1 apresenta a classificação das partículas adotada pela Sociedade Internacional de Ciência do Solo, de acordo com seu diâmetro.

Geralmente, os solos são formados por misturas de materiais das diferentes classes. As características do solo e a forma com que a água se movimenta e é armazenada no solo dependem do tipo de partículas encontradas na sua composição. Cinco tipos de textura de solo são definidas com base na proporção de materiais de diferentes diâmetros, conforme a Figura 4. 2.

Tabela 4. 1: Classificação das partículas que compõe o solo de acordo com o diâmetro.

diâmetro

Classe

(mm)

0,0002 a 0,002

Argila

0,002 a 0,02

Silte

0,02 a 0,2

Areia fina

0,2 a 2,0

Areia grossa

HIDROLOGIA

HIDROLOGIA Figura 4. 2: Os cinco tipos de textura do solo, de acordo com a proporção

Figura 4. 2: Os cinco tipos de textura do solo, de acordo com a proporção de argila, areia e silte (Lepsch, 2004).

A porosidade do solo é definida como a fração volumétrica de vazios, ou seja, o volume de vazios dividido pelo volume total do solo. A porosidade de solos arenosos varia entre 37 a 50 %, enquanto a porosidade de solos argilosos varia entre, aproximadamente, 43 a 52%. É claro que estes valores de porosidade podem variar bastante, dependendo do tipo de vegetação, do grau de compactação, da estrutura do solo (resultante da combinação das partículas finas em agregados maiores) e da quantidade de material orgânico e vivo.

Água no solo

Quando um solo tem seus poros completamente ocupados por água, diz se que está saturado. Ao contrário, quando está completamente seco, seus poros estão completamente ocupados por ar. É desta forma que normalmente é medido o grau de umidade do solo. Uma amostra de solo é coletada e pesada na condição de umidade encontrada no campo. A seguir esta amostra é seca em um forno a 105 o C por 24 horas para que toda a umidade seja retirada e a amostra é pesada novamente. A umidade do solo é calculada a partir da diferença de peso encontrada.

Além deste método, denominado gravimétrico, existem outras formas de medir a umidade do solo. Um método bastante utilizado é o chamado TDR (Time Domain

HIDROLOGIA

Reflectometry). Este método está baseado na relação entre a umidade do solo e a sua constante dielétrica. Duas placas metálicas são inseridas no solo e é medido o tempo de transmissão de um pulso eletromagnético através do solo, entre o par de placas. A vantagem deste método é que não é necessário destruir a amostra de solo para medir a sua umidade, e o monitoramento pode

Saturação: condição em que todos os poros estão ocupados por água

ser contínuo.

Capacidade de campo: Conteúdo de umidade no solo sujeito à força da gravidade

Ponto de murcha permanente: umidade do solo para a qual as plantas não conseguem mais retirar água e morrem

do solo.

Uma importante forma de analisar o comportamento da água no solo é a curva de retenção de umidade, ou curva de retenção de água no solo (Figura 4. 3). Esta curva relaciona o conteúdo de umidade do solo e o esforço (em termos de pressão) necessário para retirar a água

Como uma esponja mergulhada em um balde, o solo que é completamente imerso em água fica completamente saturado. Ao ser suspensa no ar, a esponja perde parte da água que escoa devido à força da gravidade. Da mesma forma o solo tem parte da sua umidade retirada pela ação da gravidade, atingindo uma situação denominada capacidade de campo. A partir daí, a retirada de água do solo é mais difícil e exige a ação de uma pressão negativa (sucção). As plantas conseguem retirar água do solo até um limite de sucção, denominado ponto de murcha permanente, a partir do qual não se recuperarão mais mesmo se regadas.

A curva de retenção de água no solo é diferente para diferentes texturas de solo. Solos argilosos tendem a ter maior conteúdo de umidade na condição de saturação e de capacidade de campo, o

que

plantas. Mas, da mesma

forma, apresentam maior umidade no ponto de murcha.

Observa-se na curva

a

umidade do solo argiloso no ponto de murcha permanente é de quase 20%, o que significa que nesta

condição ainda há

relativa à argila

positivo para as

condição ainda há relativa à argila positivo para as Figura 4. 3: Curva de retenção de

Figura 4. 3: Curva de retenção de água no solo (Ward e Trimble, 2004)

é

que

muita água no solo, entretanto esta água está tão fortemente ligada às partículas de argila que as plantas

não conseguem retirá-la do solo, e morrem.

HIDROLOGIA

Balanço de água no solo

Em condições naturais a umidade do solo varia ao longo do tempo, sob o efeito das chuvas e das variações sazonais de temperatura, precipitação e evapotranspiração. Uma equação de balanço hídrico de uma camada de solo pode ser expressa pela

equação

V = P Q G ET

onde V é a variação de volume de água armazenada no solo; P é a precipitação; Q é

o escoamento superficial; G é a percolação e ET é a evapotranspiração.

A percolação (G) é a passagem da água da camada superficial do solo para camadas

mais profundas. A evapotranspiração é a retirada de água por evaporação direta do

solo e por transpiração das plantas. A infiltração é a diferença entre a precipitação (P)

e o escoamento superficial (Q).

Movimento de água no solo e infiltração

O solo é um meio poroso, e o movimento da água em meio poroso é descrito pela

equação de Darcy. Em 1856, Henry Darcy desenvolveu esta relação básica realizando

experimentos com areia, concluindo que o fluxo de água através de um meio poroso

é proporcional ao gradiente hidráulico.

de um meio poroso é proporcional ao gradiente hidráulico. q Q = = K ⋅ ∂

q

Q

=

=

K

h

x

K A

h

x

e

onde Q é o fluxo de água (m 3 .s -1 );

A é a área (m 2 ) q é o fluxo de

água por unidade de área (m.s -1 );

K é a condutividade hidráulica

(m.s -1 ); h é a carga hidráulica e x

a distância.

HIDROLOGIA

A condutividade hidráulica K é fortemente dependente do tipo de material poroso. Assim, o valor de K para solos arenosos é próximo de 20 cm.hora -1 . Para solos siltosos este valor cai para 1,3 cm.hora -1 e em solos argilosos este valor cai ainda mais para 0,06 cm.hora -1 . Portanto os solos arenosos conduzem mais facilmente a água do que os solos argilosos, e a infiltração e a percolação da água no solo são mais intensas e rápidas nos solos arenosos do que nos solos argilosos.

Uma chuva que atinge um solo inicialmente seco será inicialmente absorvida quase totalmente pelo solo, enquanto o solo apresenta muitos poros vazios (com ar). À medida que os poros vão sendo preenchidos, a infiltração tende a diminuir, estando limitada pela capacidade do solo de transferir a água para as camadas mais profundas (percolação). Esta capacidade é dada pela condutividade hidráulica. A partir deste limite, quando o solo está próximo da saturação, a capacidade de infiltração permanece constante e aproximadamente igual à condutividade hidráulica.

Uma equação empírica que descreve este comportamento é a equação de Horton, dada abaixo:

f

=

fc

+

(

fo

fc

)

e β

t

onde f é a capacidade de infiltração num instante qualquer (mm.hora -1 ); fc é a capacidade de infiltração em condição de saturação (mm.hora -1 ); fo é a capacidade de infiltração quando o solo está seco (mm.hora -1 ); t é o tempo (horas); e β é um parâmetro que deve ser determinado a partir de medições no campo (hora -1 ).

Esta equação é uma função exponencial assintótica ao valor fc, conforme apresentado na Figura 4. 4.

ao valor fc, conforme apresentado na Figura 4. 4. Figura 4. 4: Curvas de infiltração de

Figura 4. 4: Curvas de infiltração de acordo com a equação de Horton, para solos argilosos e arenosos.

HIDROLOGIA

Os parâmetros de uma equação de infiltração, como a de Horton, podem ser estimados a partir de experimentos no campo, sendo o mais comum o de medição

de

capacidade de infiltração com o método dos anéis concêntricos.

O

infiltrômetro de anéis concêntricos é constituído de dois anéis concêntricos de

chapa metálica (Figura 4. 5), com diâmetros variando entre 16 e 40 cm, que são cravados verticalmente no solo de modo a restar uma pequena altura livre sobre este. Aplica-se água em ambos os cilindros, mantendo uma lâmina líquida de 1 a 5 cm, sendo que no cilindro interno mede-se o volume aplicado a intervalos fixos de tempo bem como o nível da água ao longo do tempo. A finalidade do cilindro externo é manter verticalmente o fluxo de água do cilindro interno, onde é feita a medição da capacidade de campo.

interno, onde é feita a medição da capacidade de campo. Figura 4. 5: Medição de infiltração

Figura 4. 5: Medição de infiltração utilizando o infiltrômetro de anéis concêntricos, e esquema do fluxo de água no solo.

Exercícios

1)

Qual é o efeito esperado do pisoteamento do solo pelo gado sobre a capacidade de infiltração?

2) Considere uma camada de solo de 1 m de profundidade cujo conteúdo de umidade é 35% na capacidade de campo e de 12% na condição de ponto de murcha permanente. Quantos dias a umidade do solo poderia sustentar a evapotranspiração constante de 7 mm por dia de uma determinada cultura?

3)

Uma camada de solo argiloso, cuja capacidade de infiltração na condição de saturação é de 4 mm.hora -1 , está saturado e recebendo chuva com intensidade de 27 mm.hora -1 . Qual é o escoamento (litros por segundo) que está sendo gerado em uma área de 10m 2 deste solo?

HIDROLOGIA

4) Uma medição de infiltração utilizando o método dos anéis concêntricos apresentou o seguinte resultado. Utilize estes dados para estimar os parâmetros fc, fo e β da equação de Horton.

Tempo

Total infiltrado

(minutos

(mm)

0

0.0

1

41.5

2

60.4

3

70.4

4

76.0

5

82.6

6

90.8

7

97.1

8

104.0

9

111.7

10

115.1

15

138.1

20

163.3

24

180.8

HIDROLOGIA

Evapotranspiração

Capítulo

5

O retorno da água precipitada para a atmosfera, fechando o ciclo hidrológico, ocorre através do processo da evapotranspiração. A importância do processo de evapotranspiração permaneceu mal-

compreendido até o início do século 18, quando Edmond Halley provou que a água que evaporava da terra era suficiente para abastecer os rios, posteriormente, como precipitação.

A evapotranspiração é o conjunto de dois processos: evaporação e transpiração.

Evaporação é o processo de transferência de água líquida para vapor do ar

diretamente de superfícies líquidas, como lagos, rios, reservatórios, poças, e gotas de orvalho. A água que umedece o solo, que está em estado líquido, também pode ser transferida para a atmosfera diretamente por evaporação. Mais comum neste caso, entretanto, é a transferência de água através do processo de transpiração. A transpiração envolve a retirada da água do solo pelas raízes das plantas, o transporte

da água através da planta até as folhas e a passagem da água para a atmosfera através

dos estômatos da folha.

Do ponto de vista do profissional envolvido com a geração de energia hidrelétrica a evapotranspiração tem um interesse muito específico nas perdas de água que ocorrem nos reservatórios que regularizam a vazão para as usinas por evaporação direta da superfície líquida. Além disso, a evapotranspiração é um processo que influencia fortemente a quantidade de água precipitada que é transformada em vazão em uma bacia hidrográfica. Do ponto de vista da geração de energia, portanto, a evapotranspiração pode ser encarada como uma perda de água.

Evaporação ocorre quando o estado líquido da água é transformado de líquido para gasoso. As moléculas de água estão em constante movimento, tanto no estado

líquido como gasoso. Algumas moléculas da água líquida tem energia suficiente para romper a barreira da superfície, entrando na atmosfera, enquanto algumas moléculas

de água na forma de vapor do ar retornam ao líquido, fazendo o caminho inverso.

HIDROLOGIA

Quando a quantidade de moléculas que deixam a superfície é maior do que a que retorna está ocorrendo a evaporação.

As moléculas de água no estado líquido estão relativamente unidas por forças de atração intermolecular. No vapor, as moléculas estão muito mais afastadas do que na água líquida, e a força intermolecular é muito inferior. Durante o processo de evaporação a separação média entre as moléculas aumenta muito, o que significa que é realizado trabalho em sentido contrário ao da força intermolecular, exigindo grande quantidade de energia. A quantidade de energia que uma molécula de água líquida precisa para romper a superfície e evaporar é chamada calor latente de evaporação. O calor latente de evaporação pode ser dado por unidade de massa de água, como na equação 5.1:

λ = 2,501 0,002361Ts

em MJ.kg -1

(5.1)

onde Ts é a temperatura da superfície da água em o C.

Portanto o processo de evaporação exige um fornecimento de energia, que, na natureza, é provido pela radiação solar.

A concentração máxima de vapor de água no ar a 20 o C é

O ar atmosférico é uma mistura de gases entre os quais está o vapor de água. A quantidade de

vapor de água que o ar pode conter é limitada, e é denominada concentração de saturação (ou pressão de saturação). A concentração de saturação de vapor de água no ar varia de acordo com a temperatura do ar, como mostra a Figura 5. 1. Quando o ar acima de um corpo d’água está saturado de vapor o fluxo de evaporação se encerra, mesmo que a radiação solar esteja fornecendo a energia do calor latente de evaporação.

de, aproximadamente, 20 g.m -3 .

Assim, para ocorrer a evaporação são necessárias duas condições:

1. que a água líquida esteja recebendo energia para prover o calor latente de evaporação – esta energia (calor) pode ser recebida por radiação ou por convecção (transferência de calor do ar para a água)

2. que o ar acima da superfície líquida não esteja saturado de vapor de água.

Além disso, quanto maior a energia recebida pela água líquida, tanto maior é a taxa de evaporação. Da mesma forma, quanto mais baixa a concentração de vapor no ar acima da superfície, maior a taxa de evaporação.

HIDROLOGIA

HIDROLOGIA Figura 5. 1: Relação entre o conteúdo de água no ar no ponto de saturação

Figura 5. 1: Relação entre o conteúdo de água no ar no ponto de saturação e a temperatura do ar.

A umidade relativa é a medida do conteúdo de vapor de água do ar em relação ao

conteúdo de vapor que o ar teria se estivesse saturado (equação 5.2). Assim, ar com umidade relativa de 100% está saturado de vapor, e ar com umidade relativa de 0% está completamente isento de vapor.

UR = 100

w

w

s

em %

(5.2)

onde UR é a umidade relativa; w é a massa de vapor pela massa de ar e w s é a massa

de vapor por massa de ar no ponto de saturação.

A umidade relativa também pode ser expressa em termos de pressão parcial de vapor.

De acordo com lei de Dalton cada gás que compõe uma mistura exerce uma pressão parcial, independente da pressão dos outros gases, igual à pressão que exerceria se fosse o único gás a ocupar o volume. No ponto de saturação a pressão parcial do vapor corresponde à pressão de saturação do vapor no ar, e a equação 5.2 pode ser

reescrita como:

UR = 100

e

e

s

em %

(5.3)

onde UR é a umidade relativa; e é a pressão parcial de vapor no ar e e s é pressão de saturação.

HIDROLOGIA

Fatores que afetam a evaporação

Os principais fatores que afetam a evaporação são a temperatura, a umidade do ar, a velocidade do vento e a radiação solar.

Radiação solar

A quantidade de energia solar que atinge a Terra no topo da atmosfera está na faixa

das ondas curtas. Na atmosfera e na superfície terrestre a radiação solar é refletida e sofre transformações, de acordo com a Figura 5. 2.

Parte da energia incidente é refletida pelo ar e pelas nuvens (26%) e parte é absorvida pela poeira, pelo ar e pelas nuvens (19%). Parte da energia que chega a superfície é refletida de volta para o espaço ainda sob a forma de ondas curtas (4% do total de enegia incidente no topo da atmosfera).

A energia absorvida pela terra e pelos oceanos contribui para o aquecimento destas

superfícies que emitem radiação de ondas longas. Além disso, o aquecimento das

superfícies contribuem para o aquecimento do ar que está em contato, gerando o fluxo de calor sensível (ar quente), e o fluxo de calor latente (evaporação).

Finalmente, a energia absorvida pelo ar, pelas nuvens e a energia dos fluxos de calor latente e sensível retorna ao espaço na forma de radiação de onda longa, fechando o balanço de energia.

O processo de fluxo de calor sensível é onde ocorre a evaporação. A intensidade desta

evaporação depende da disponibilidade de energia. Os valores apresentados na figura 5.2. referem-se às médias globais, o que significa que a energia utilizada para evaporação pode ser maior ou menor, dependendo principalmente da latitude e da

época do ano. Regiões mais próximas ao Equador recebem maior radiação solar, e apresentam maiores taxas de evapotranspiração.

HIDROLOGIA

ondas ondas curtas longas Espaço 6 20 4 6 38 26 Atmosfera Emitida pelas nuvens
ondas
ondas
curtas
longas
Espaço
6
20
4
6
38
26
Atmosfera
Emitida pelas
nuvens
Absorvida pelo
ar e poeira
16
Emitida pelo
vapor de H 2 O
e CO 2
Absorvida pelas
nuvens
Absorvida pelo
vapor de H 2 O
e CO 2
Fluxo de calor
latente
3
15
Fluxo de calor
sensível
Absorvida na
Emitida pela
superfície
superfície
refletida
pelo ar
pelas nuvens
refletida
refletida pela superfície
Radiação Solar
incidente
100

51

Superfície (Terra + Oceanos)

21

7

23

Figura 5. 2: Média global de fluxos de energia na atmosfera da Terra.

Temperatura

A quantidade de vapor de água que o ar pode conter varia com a temperatura. Ar

mais quente pode conter mais vapor, portanto o ar mais quente favorece a evaporação.

Umidade do ar

Quanto menor a umidade do ar, mais fácil é o fluxo de vapor da superfície que está evaporando. O efeito é semelhante ao da temperatura. Se o ar da atmosfera próxima

à superfície estiver com umidade relativa próxima a 100% a evaporação diminui porque o ar já está praticamente saturado de vapor.

Velocidade do vento

O vento é uma variável importante no processo de evaporação porque remove o ar

úmido diretamente do contato da superfície que está evaporando ou transpirando. O processo de fluxo de vapor na atmosfera próxima à superfície ocorre por difusão, isto

HIDROLOGIA

é, de uma região de alta concentração (umidade relativa) próxima à superfície para

uma

região de baixa concentração afastada da superfície. Este processo pode ocorrer

pela

própria ascensão do ar quente como pela turbulência causada pelo vento.

Medição de evaporação

A evaporação é medida de forma semelhante à precipitação, utilizando unidades de

mm para caracterizar a lâmina evaporada ao longo de um determinado intervalo de tempo. As formas mais comuns de medir a evaporação são o Tanque Classe A e o Evaporímetro de Piche.

O tanque Classe A é um recipiente metálico que tem forma circular com um diâmetro de 121 cm e profundidade de 25,5 cm. Construído em aço ou ferro galvanizado, deve ser pintado na cor alumínio e instalado numa plataforma de madeira a 15 cm da superfície do solo. Deve permanecer com água variando entre 5,0 e 7,5 cm da borda superior.

A medição de evaporação no Tanque Classe A é realizada diariamente diretamente

numa régua, ou ponta linimétrica, instalada dentro do tanque, sendo que são compensados os valores da precipitação do dia. Por esta razão o Tanque Classe A é instalado em estações meteorológicas em conjunto com um pluviômetro.

estações meteorológicas em conjunto com um pluviômetro. Figura 5. 3: Tanque Classe A para medição de

Figura 5. 3: Tanque Classe A para medição de evaporação.

HIDROLOGIA

O evaporímetro de Piche é constituído por um tubo cilíndrico, de vidro, de aproximadamente 30 cm de comprimento e um centímetro de diâmetro, fechado na parte superior e aberto na inferior. A extremidade inferior é tapada, depois do tubo estar cheio com água destilada, com um disco de papel de feltro, de 3 cm de diâmetro, que deve ser previamente molhado com água. Este disco é fixo depois com uma mola. A seguir, o tubo é preso por intermédio de uma argola a um gancho situado no interior de um abrigo meteorológico padrão.

Em geral, as medições de evaporação do Tanque Classe A são consideradas mais confiáveis do que as do evaporímetro de Piche.

Transpiração

A transpiração é a retirada da água do solo pelas raízes das plantas, o transporte da

água através das plantas até as folhas e a passagem da água para a atmosfera através dos estômatos da folha.

A transpiração é influenciada também pela radiação solar, pela temperatura, pela

umidade relativa do ar e pela velocidade do vento. Além disso intervém outras variáveis, como o tipo de vegetação e o tipo de solo.

Como o processo de transpiração é a transferência da água do solo, uma das variáveis mais importantes é a umidade do solo. Quando o solo está úmido as plantas transpiram livremente, e a taxa de transpiração é controlada pelas variáveis atmosféricas. Porém, quando o solo começa a secar o fluxo de transpiração começa a diminuir. As próprias plantas têm um certo controle ativo sobre a transpiração ao fechar ou abrir os estômatos, que são as aberturas na superfície das folhas por onde ocorre a passagem do vapor para a atmosfera.

Para um determinado tipo de cobertura vegetal a taxa de evapotranspiração que ocorre em condições ideais de umidade do solo é chamada a Evapotranspiração Potencial, enquanto a taxa que ocorre para condições reais de umidade do solo é a Evapotranspiração Real. A evapotranspiração real é sempre igual ou inferior à evapotranspiração potencial.

HIDROLOGIA

Medição da evapotranspiração

A

medição da evapotranspiração é relativamente mais complicada do que a medição

da

evaporação. Existem dois métodos principais de medição de evapotranspiração: os

lisímetros e as medições micrometeorológicas.

Os lisímetros são depósitos ou tanques enterrados, abertos na parte superior, os quais

são preenchidos com o solo e a vegetação característicos dos quais se deseja medir a

evapotranspiração (Figura 5. 4). O solo recebe a precipitação, e é drenado para o fundo do aparelho onde a água é coletada e medida. O depósito é pesado diariamente, assim como a chuva e os volumes escoados de forma superficial e que saem por orifícios no fundo do lisímetro. A evapotranspiração é calculada por

balanço hídrico entre dois dias subseqüentes de acordo com a equação 5.4, onde V é

a variação de volume de água (medida pelo peso); P é a chuva (medida num

pluviômetro); E é a evapotranspiração; Qs é o escoamento superficial (medido) e Qb é o escoamento subterrâneo (medido no fundo do tanque).

E = P - Qs – Qb - V

(medido no fundo do tanque). E = P - Qs – Qb - ∆ V Figura

Figura 5. 4: Lisímetros para medição de evapotranspiração.

(5.4)

4: Lisímetros para medição de evapotranspiração. (5.4) A medição de evapotranspiração por métodos

A medição de evapotranspiração por métodos micrometeorológicos envolve a

medição das variáveis velocidade do vento e umidade relativa do ar em alta freqüência. Próximo à superfície a velocidade do vento é paralela à superfície, o que

significa que o movimento médio na vertical é zero. Entretanto, a turbulência do ar em movimento causa flutuações na velocidade vertical, que na média permanece zero, mas apresenta momentos de fluxo ascendente e descendente alternados. Na média estes fluxos são iguais a zero, entretanto num instante qualquer a velocidade ascendente pode ser dada por w’.

HIDROLOGIA

A umidade do ar também tem um valor médio (q) e uma flutuação em torno deste

valor médio (q’). O valor de q’ positivo significa ar com umidade ligeiramente superior à média q, enquanto o valor q’ negativo significa umidade ligeiramente inferior à média. Se num instante qualquer tanto w’ como q’ são positivos então ar mais úmido do que a média está sendo afastado da superfície, e se w’ e q’ são, ao mesmo tempo, negativos, então ar mais seco do que o normal está sendo trazido para próximo da superfície.

De fato, esta correlação entre as variáveis umidade e velocidade vertical ocorre e pode ser medida para estimar a evapotranspiração. São necessários para isto sensores de resposta muito rápida para medir a velocidade do ar e sua umidade, e um processador capaz de integrar os fluxos w’.q’ ao longo do tempo.

Estimativa da evapotranspiração por balanço hídrico

A evapotranspiração pode ser estimada, também, pela medição das outras variáveis

que intervém no balanço hídrico de uma bacia hidrográfica. De forma semelhante ao apresentado na equação 5.4, para um lisímetro, pode ser realizado o balanço hídrico de uma bacia para estimar a evapotranspiração. Neste caso, entretanto, as estimativas não podem ser feitas considerando o intervalo de tempo diário, mas apenas o anual, ou maior. Isto ocorre porque, dependendo do tamanho da bacia, a água da chuva pode permanecer vários dias ou meses no interior da bacia antes de sair escoando pelo exutório.

Para estimar a evapotranspiração por balanço hídrico de uma bacia é necessário considerar valores médios de escoamento e precipitação de um período relativamente longo, idealmente superior a um ano. A partir daí é possível considerar que a variação de armazenamento na bacia pode ser desprezada, e a equação de balanço hídrico se reduz à equação 5.5.

1)

E = P – Q

EXEMPLO

(5.5)

Uma bacia de 800 km 2 recebe anualmente 1600 mm de chuva, e a vazão média corresponde a 700 mm. Qual é a evapotranspiração anual?

HIDROLOGIA

A

evapotranspiração pode ser calculada por balanço hídrico da bacia desprezando a variação

do

armazenamento na bacia E = 1600 – 700 = 900 mm.

Equação de Thornthwaite

Uma equação muito utilizada para a estimativa da evapotranspiração potencial quando se dispõe de poucos dados é a equação de Thornthwaite. Esta equação serve para calcular a evapotranspiração em intervalo de tempo mensal, a partir de dados de temperatura.

E =

16

10

T

I

a

onde E é a evapotranspiração potencial (mm.mês -1 ); T é a temperatura média do mês ( o C); e a e I são coeficientes calculados segundo as equações que seguem:

I =

a

=

12

j = 1

6,75 10

T


5

j

1,514

7

I

3

7,71 10

5

I

2

+

1,792 10

2

I

+

0,49239

onde j é cada um dos 12 meses do ano; e T j é a temperatura média de cada um dos 12 meses.

EXEMPLO

2) Calcule a evapotranspiração potencial mensal do mês de Agosto de 2006 em Porto Alegre, onde as temperaturas médias mensais são dadas na figura abaixo. Suponha que a temperatura média de agosto de 2006 tenha sido de 16,5 o C.

Mês

Temperatur

a

Janeiro

24,6

Fevereiro

24,8

Março

23,0

Abril

20,0

Maio

16,8

Junho

14,4

Julho

14,6

HIDROLOGIA

Agosto

15,3

Setembro

16,5

Outubro

17,5

Novembro

21,4

Dezembro

25,5

O primeiro passo é o cálculo do coeficiente I a partir das temperaturas médias mensais obtidas da tabela. O valor de I é 96. A partir de I é possível obter a = 2,1. Com estes coeficientes, a evapotranspiração potencial é:

E

= 16

10 16,5

96

2,1

=53,1 mm/mês

Portanto, a evapotranspiração potencial estimada para o mês de agosto de 2006 é de 53,1 mm/mês.

Equação de Penman-Monteith

As equações para cálculo da evapotranspiração são do tipo empírico ou de base física. A principal equação de evapotranspiração de base física é a equação de Penman- Monteith (equação 5.6).

E =

⎛ ( e − e ) ⎞ ⎜ ∆ ⋅ ( ) s d ⎟
(
e
e
)
∆ ⋅
(
)
s
d
R
G
+ ρ
c
L
A
p
r
a
r
s
⎜ ⎜ ∆ + γ ⋅
1
+
r
a

1

λ ⋅ρ

W

(5.6)

onde E [m.s -1 ] é a taxa de evaporação da água; [MJ.kg -1 ] é o calor latente de vaporização; [kPa.ºC -1 ] é a taxa de variação da pressão de saturação do vapor com a temperatura do ar; R L [MJ.m -2 .s -1 ] é a radiação líquida que incide na superfície; G [MJ.m -2 .s -1 ] é o fluxo de energia para o solo; ρ A [kg.m -3 ] é a massa específica do ar; ρ W [kg.m -3 ] é a massa específica da água; c p [MJ.kg -1 .ºC -1 ] é o calor específico do ar úmido (c p = 1,013.10 -3 MJ.kg -1 .ºC -1 );e s [kPa] é a pressão de saturação do vapor ; e d [kPa] é a pressão real de vapor de água no ar; [kPa.ºC -1 ] é a constante psicrométrica (γ = 0,66); r s [s.m -1 ] é a resistência superficial da vegetação; e r a [s.m -1 ] é a resistência aerodinâmica.

Os valores das variáveis podem ser obtidos pelas seguintes equações:

λ = (2,501 0,002361T)

(5.7)

HIDROLOGIA

ρ

A

∆ =

e s

=

=

3,486

P

A

275

+

T

4098 e

s

(

237,3

+

T

) 2

0,6108 exp

17,27 T

237,3

+

T

e

d

=

e

s

U

R

100

γ =

0,0016286

P

A

λ

(5.8)

(5.9)

(5.10)

(5.11)

(5.12)

onde U R [%] é a umidade relativa do ar; P A [kPa] é a pressão atmosférica; e T [ºC] é a temperatura do ar a 2 m da superfície.

Há uma analogia de parte da equação 5.6 com um circuito elétrico, em que o fluxo evaporativo é a corrente, a diferença de potencial é o déficit de pressão de vapor no ar (pressão de saturação do vapor menos pressão parcial real: e s -e d ) e a resistência é uma combinação de resistência superficial e resistência aerodinâmica. A resistência superficial é a combinação, para o conjunto da vegetação, da resistência estomática das folhas. Mudanças na temperatura do ar e velocidade do vento vão afetar a resistência aerodinâmica. Mudanças na umidade do solo são enfrentadas pelas plantas com mudanças na transpiração, que afetam a resistência estomática ou superficial.

O valor de E, calculado pela B.1, é convertido para as unidades de lâmina diária pela

equação a seguir.

E

a

=

E

fc

(5.13)

onde E a [mm.dia -1 ] é a lâmina de evapotranspiração; E [m.s -1 ] é a taxa de evaporação

da água e fc [mm.s.dia -1 .m -1 ] é um fator de conversão de unidades (fc = 8,64.10 7 ).

A energia disponível para a evapotranspiração depende da energia irradiada pelo sol,

da energia que é refletida ou bloqueada pela atmosfera, da energia que é refletida pela superfície terrestre, da energia que é irradiada pela superfície terrestre e da energia que é transmitida ao solo.

Normalmente, as estações climatológicas dispõe de dados de radiação que atinge a superfície terrestre (S SUP ), medida com radiômetros, ou do número de horas de

HIDROLOGIA

insolação (n), medidas com o heliógrafo, ou mesmo da fração de cobertura de nuvens (n/N), estimada por um observador. A estimativa da radiação líquida disponível para evapotranspiração depende do tipo de dados disponível.

A situação de estimativa mais simples ocorre quando existem dados de radiação

medidos, dados normalmente em MJ.m -2 .dia -1 , ou cal.cm -2 .dia -1 . Neste caso, o termo

R L da equação de Penman-Monteith pode ser obtido da equação a seguir, que desconta a parte da radiação refletida.

R

L

= S

SUP

(1− α)

(5.14)

onde R L [MJ.m -2 .s -1 ] é a radiação líquida na superfície; S SUP [MJ.m -2 .s -1 ] é a radiação que atinge a superfície (valor medido); e [-] é o albedo, que é a parcela da radiação incidente que é refletida (parâmetro que depende da cobertura vegetal e uso do solo).

Quando existem apenas dados de horas de insolação, ou da fração de cobertura de nuvens, a radiação que atinge a superfície terrestre pode ser obtida considerando-a como uma fração da máxima energia, de acordo com a época do ano, a latitude da região, e o tipo de cobertura vegetal ou uso do solo.

A insolação máxima em um determinado ponto do planeta, considerando que o céu

está sem nuvens, é dada pela equação abaixo.

N

=

24

π

⋅ω

s

(5.15)

onde N [horas] é a insolação máxima; s [radianos] é o ângulo do sol ao nascer (depende da latitude e da época do ano), e é dado por:

ω

s

= arccos(tan ϕ ⋅ tan δ)

(5.16)

onde [graus] é a latitude (positiva no hemisfério norte e negativa no hemisfério sul); s [radianos] é o ângulo do sol ao nascer; e [radianos] é a declinação solar, dada por:

δ =

0,4093 sin

2

⋅ π

365

J

1,405

(5.17)

onde [radianos] é a declinação solar; J [-] é o dia no calendário Juliano (contado a partir de 1 de janeiro).

A

radiação que atinge o topo da atmosfera também depende da latitude e da época

do

ano:

HIDROLOGIA

S

TOP

=

15,392

ρ

W ⋅λ

1000

d r

(

ω

s

sen

ϕ ⋅

sen

δ +

cos

ϕ ⋅

cos

δ ⋅

sen

ω

s

)

(5.18)

onde [MJ.kg -1 ] é o calor latente de vaporização; S TOP [MJ.m -2 .dia -1 ] é a radiação no topo da atmosfera; ρ W [kg.m -3 ] é a massa específica da água; [radianos] é a declinação solar; [graus] é a latitude; s [radianos] é o ângulo do sol ao nascer; e d r [-] é a distância relativa da terra ao sol, dada por:

d

r

=

1

+

0,033 cos


2 ⋅ π

365

J

onde J é o dia do calendário Juliano.

(5.19)

A radiação que atinge o topo da atmosfera é parcialmente refletida pela própria

atmosfera, não atingindo a superfície terrestre. As nuvens são as principais responsáveis pela reflexão, e a estimativa da radiação que atinge a superfície terrestre depende da fração de cobertura de nuvens, conforme a abaixo:

S

SUP

=

a

s

+

b

s

n ⎟⋅ ⎞ S

N

TOP

(5.20)

onde N [horas] é a insolação máxima possível numa latitude em certa época do ano; n [horas] é a insolação medida; S TOP [MJ.m -2 .dia -1 ] é a radiação no topo da atmosfera; S SUP [MJ.m -2 .dia -1 ] é a radiação na superfície terrestre; a s [-] é a fração da radiação que atinge a superfície em dias encobertos (quando n=0); e a s + b s [-] é a fração da radiação que atinge a superfície em dias sem nuvens (n=N).

Quando não existem dados locais medidos que permitam estimativas mais precisas, são recomendados os valores de 0,25 e 0,50, respectivamente, para os parâmetros a s e b s (Shuttleworth, 1993).

Quando a estação meteorológica dispõe de dados de insolação, a equação acima é utilizada com n medido e N estimado pela equação 5.15. Quando a estação dispõe de dados de fração de cobertura, utiliza-se o valor de n/N diretamente.

Uma parte da radiação que atinge a superfície terrestre (S SUP ) é refletida, conforme já descrito. A maior parte da energia irradiada pelo sol está na faixa de ondas curtas, de 0,3 a 3 µm. O balanço de energia, porém, também inclui uma pequena parcela de radiação de ondas longas, de 3 a 100 µm.

O

balanço de radiação de ondas longas na superfície terrestre depende, basicamente,

de

quanta energia é emitida pela superfície terrestre e pela atmosfera. Normalmente, a

superfície terrestre é mais quente do que a atmosfera, resultando em um balanço

HIDROLOGIA

negativo, isto é, há perda de energia na faixa de ondas longas. A equação a seguir descreve a radiação líquida de ondas longas que deixa a superfície terrestre.

L

n

= f ⋅ ε ⋅ σ ⋅

(

T + 273,2

)

4

(5.21)

onde L n [MJ.m -2 .dia -1 ] é a radiação líquida de ondas longas que deixa a superfície; f [-]

é um fator de correção devido à cobertura de nuvens; T [ºC] é a temperatura média

do ar a 2 m do solo; [-] é a emissividade da superfície; [MJ.m -2 .ºK -4 .dia -1 ] é uma

constante (σ=4,903.10 -9 MJ.m -2 .ºK -4 .dia -1 ).

A emissividade da superfície pode ser estimada pela equação abaixo.

ε = 0,34 0,14

(

e

d

)

(5.22)

onde e d é a pressão parcial de vapor de água no ar [kPa].

O fator de correção da radiação de ondas longas devido à cobertura de nuvens (f)

pode ser estimado com base na equação a seguir:

f

= 0,1 + 0,9

n

N

(5.23)

Por simplicidade, o fluxo de calor para o solo - termo G na equação de Penman- Monteith – pode ser considerado nulo, principalmente quando o intervalo de tempo

é relativamente grande (1 dia).

Na analogia da evapotranspiração com um circuito elétrico, existem duas resistências que a “corrente” (fluxo evaporativo) tem de enfrentar: resistência superficial e resistência aerodinâmica. A resistência aerodinâmica representa a dificuldade com que a umidade, que deixa a superfície das folhas e do solo, é dispersada pelo meio. Na proximidade da vegetação o ar tende a ficar mais úmido, dificultando o fluxo de evaporação. A velocidade do vento e a turbulência contribuem para reduzir a resistência aerodinâmica, trocando o ar úmido próximo à superfície que está

fornecendo vapor, como as folhas das plantas ou as superfícies líquidas, pelo ar seco

de níveis mais elevados da atmosfera.

A resistência aerodinâmica é inversamente proporcional à altura dos obstáculos

enfrentados pelo vento, porque são estes que geram a turbulência.

r

a

=

6,25

10 ⎞ ⎞

⎠ ⎠

ln

u

m,10

z

0

2

para h < 10 metros

HIDROLOGIA

r

a

=

94

u m,10

para h > 10 metros

onde r a [s.m -1 ] é a resistência aerodinâmica; u m,10 [m.s -1 ] é a velocidade do vento a 10 m de altura; z 0 [m] é a rugosidade da superfície; h [m] é altura média da cobertura vegetal.

A rugosidade da superfície é considerada igual a um décimo da altura média da

vegetação.

As estações climatológicas normalmente dispõe de dados de velocidade do vento

medidas a 2 m de altura. Para converter estes dados a uma altura de referência de 10

m é utilizada a equação a seguir (Bremicker, 1998).

u

m,10

=

u

m,2

⎛ ln ⎜ ⎛ 10 ⎞ ⎞ ⎜ ⎟ ⎟ ⎟ ⎜ ⎟ ⎜ ⎜
ln ⎜
⎛ 10 ⎞ ⎞
z
0
2 ⎞
ln ⎜
z
⎝ ⎜
0
⎠ ⎠

onde u m,10 [m.s -1 ] é a velocidade do vento a 10 m de altura; u m,2 [m.s -1 ] é a velocidade

do vento a 2 m de altura; z 0 [m] é a rugosidade da superfície.

A resistência superficial é a combinação, para o conjunto da vegetação, da resistência

estomática das folhas. A resistência superficial representa a resistência ao fluxo de umidade do solo, através das plantas, até a atmosfera. Esta resistência é diferente para

os diversos tipos de plantas e depende de variáveis ambientais como a umidade do

solo, a temperatura do ar e a radiação recebida pela planta. A maior parte das plantas exerce um certo controle sobre a resistência dos estômatos e, portanto, pode controlar a resistência superficial.

A resistência estomática das folhas depende da disponibilidade de água no solo. Em

condições favoráveis, os valores de resistência estomática e, em conseqüência, os de

resistência superficial são mínimos.

A resistência superficial em boas condições de umidade é um parâmetro que pode ser

estimado com base em experimentos cuidadosos em lisímetros. A grama utilizada para cálculos de evapotranspiração de referência tem uma resistência superficial de 69

s.m -1 quando o solo apresenta boas condições de umidade. Florestas tem resistências superficiais da ordem de 100 s.m -1 em boas condições de umidade do solo.

HIDROLOGIA

Durante períodos de estiagem mais longos, a umidade do solo vai sendo retirada por evapotranspiração e, à medida que o solo vai perdendo umidade, a evapotranspiração diminui. A redução da evapotranspiração não ocorre imediatamente. Para valores de umidade do solo entre a capacidade de campo e um limite, que vai de 50 a 80 % da capacidade de campo, a evapotranspiração não é afetada pela umidade do solo. A partir deste limite a evapotranspiração é diminuída, atingindo o mínimo – normalmente zero – no ponto de murcha permanente. Neste ponto a resistência superficial atinge valores altíssimos (teoricamente deve tender ao infinito).

Evaporação em reservatórios

A evaporação da água de reservatórios é de especial interesse para a engenharia,

porque afeta o rendimento de reservatórios para abastecimento, irrigação e geração de energia. Reservatórios são criados para regularizar a vazão dos rios, aumentando a disponibilidade de água e de energia nos períodos de escassez. A criação de um reservatório, entretanto, cria uma vasta superfície líquida que disponibiliza água para evaporação, o que pode ser considerado uma perda de água e de energia.

A evaporação da água em reservatórios pode ser estimada a partir de medições de

Tanques Classe A, entretanto é necessário aplicar um coeficiente de redução em relação às medições de tanque. Isto ocorre porque a água do reservatório normalmente está mais fria do que a água do tanque, que tem um volume pequeno e

está completamente exposta à radiação solar.

Assim, para estimar a evaporação em reservatórios e lagos costuma-se considerar que esta tem um valor de aproximadamente 60 a 80% da evaporação medida em Tanque Classe A na mesma região, isto é:

E lago = E tanque . F t

Onde F t tem valores entre 0,6 e 0,8.

O reservatório de Sobradinho, um dos mais importantes do rio São Francisco, tem

uma área superficial de 4.214 km 2 , constituindo-se no maior lago artificial do mundo, está numa das regiões mais secas do Brasil. Em conseqüência disso, a evaporação direta deste reservatório é estimada em 200 m 3 .s -1 , o que corresponde a 10% da vazão regularizada do rio São Francisco. Esta perda de água por evaporação é superior à vazão prevista para o projeto de transposição do rio São Francisco, idealizado pelo governo federal.

HIDROLOGIA

Exercícios

1)

Um rio cuja vazão média é de 34 m 3 .s -1 foi represado por uma barragem para geração de energia elétrica. A área superficial do lago criado é de 5000 hectares. Considerando que a evaporação direta do lago corresponde a 970 mm por ano, qual é a nova vazão média a jusante da barragem?

2) Uma bacia de 2300 km 2 recebe anualmente 1600 mm de chuva, e a vazão média corresponde a 14 m 3 .s -1 . Calcule a evapotranspiração total desta bacia. Calcule o coeficiente de escoamento anual desta bacia.

HIDROLOGIA

Escoamento

Capítulo

6

V azão é o volume de água que passa por uma determinada seção de um rio dividido por um intervalo de tempo. Assim, se o volume é dado em litros, e o tempo é medido em segundos, a vazão pode ser expressa em unidades de

litros por segundo (l.s -1 ). No caso de vazão de rios, entretanto, é mais usual expressar a vazão em metros cúbicos por segundo (m 3 .s -1 ), sendo que 1 m 3 .s -1 corresponde a 1000 l.s -1 (litros por segundo).

A vazão de um rio é o resultado da interação entre a precipitação e a bacia, e depende das características da bacia que influenciam a infiltração, armazenamento e evapotranspiração.

O escoamento em uma bacia é, normalmente, estudado em duas partes: geração de

escoamento e propagação de escoamento. O escoamento tem origens diferentes dependendo se está ocorrendo um evento de chuva ou não.

Durante as chuvas intensas, a maior parte da vazão que passa por um rio é a água da própria chuva que não consegue penetrar no solo e escoa imediatamente, atingindo

os cursos d’água e aumentando a vazão. É desta forma que são formados os picos de

vazão e as cheias ou enchentes. O escoamento rápido que ocorre em conseqüência direta das chuvas é chamado de escoamento superficial (figura 6.1).

Nos períodos secos entre a ocorrência de eventos de chuva a vazão de um rio é mantida pelo esvaziamento lento da água armazenada na bacia, especialmente da água subterrânea. Assim, o escoamento lento que

ocorre durante as estiagens pode ser chamado de escoamento subterrâneo, porque a maior parte da água está chegando ao rio via fluxo de água através do subsolo.

Escoamento superficial ocorre durante e imediatamente após a chuva. Escoamento subterrâneo é o que mantém a vazão dos rios durante as estiagens.

HIDROLOGIA

pico Escoamento Superficial recessão Escoamento subterrâneo ascenção
pico
Escoamento
Superficial
recessão
Escoamento subterrâneo
ascenção

Figura 6. 1: Hidrograma de um rio como resposta a um evento de chuva: durante e imediatamente após a chuva predomina o escoamento superficial, enquanto durante a estiagem predomina o escoamento subterrâneo.

Geração de escoamento durante a chuva

No capítulo 3 é analisado o processo de infiltração de água da chuva no solo. Dependendo da intensidade da chuva, parte da água não consegue infiltrar no solo e começa a se acumular na superfície. Em determinadas condições a água começa a escoar sobre a superfície, formando pequenos córregos temporários ou escoando na forma de uma lâmina em superfícies mais lisas. O escoamento gerado desta forma é denominado escoamento superficial, e é importante porque gera os picos de vazão nos rios, como resposta aos eventos de chuva.

A geração do escoamento é um dos temas mais complexos da hidrologia, não porque a física envolvida seja complexa, mas sim porque a variabilidade das características da bacia é muito grande, e porque a água pode tomar vários caminhos desde o momento em que atinge a superfície, na forma de chuva, até o momento em que chega ao curso d’água.

Existem dois principais processos reconhecidos na formação do escoamento superficial: precipitação de intensidade superior à capacidade de infiltração; e precipitação sobre solos saturados.

Se uma chuva com intensidade de 30 mm.h -1 atinge um solo cuja capacidade de infiltração é de 20 mm.h -1 , uma parte da chuva (10 mm.h -1 ) se transforma em escoamento superficial. Este é o processo de geração de escoamento por excesso de chuva em relação à capacidade de infiltração, também conhecido como processo Hortoniano, porque foi primeiramente reconhecido por Horton (1934).

HIDROLOGIA

O processo Hortoniano é importante em bacias urbanas, em áreas com solo

modificado pela ação do homem, ou em chuvas muito intensas, mas é raramente visto em bacias naturais durante chuvas menos intensas, onde o escoamento superficial é quase que totalmente originado pela parcela da precipitação que atinge zonas de solo saturado.

Solos saturados são normalmente encontrados próximos à rede de drenagem, onde o nível do lençol freático está mais próximo da superfície.

Volume de escoamento: método SCS

Um dos métodos mais simples e mais utilizados para estimar o volume de escoamento superficial resultante de um evento de chuva é o método desenvolvido pelo National Resources Conservatoin Center dos EUA (antigo Soil Conservation Service – SCS).

De acordo com este método, a lâmina escoada durante uma chuva é dada por:

Q =

S

=

(

P Ia

)

2

(P

Ia S )

+

25400

CN

254

quando P > Ia

e Q = 0

quando P Ia

onde Q é a lâmina escoada ou volume de escoamento dividido pela área da bacia (mm); P é a precipitação durante o evento (mm); S é um parâmetro que depende da capacidade de infiltração e armazenamento do solo (parâmetro adimensional CN – veja tabela 6.1); e Ia é uma estimativa das perdas iniciais de água, dado por Ia=S/5.

HIDROLOGIA

Tabela 6.1: Valores aproximados do parâmetro CN para diferentes condições de cobertura vegetal, uso do solo e tipos de solos (A: solos arenosos e de alta capacidade de infiltração; B: solos de média capacidade de infiltração; C solos com baixa capacidade de infiltração; D solos com capacidade muito baixa de infiltração).

Condição

A

B

C

D

Florestas

41

63

74

80

Campos

65

75

83

85

Plantações

62

74

82

87

Zonas comerciais

89

92

94

95

Zonas industriais

81

88

91

93

Zonas

77

85

90

92

residenciais

(adaptado de Tucci et al., 1993)

EXEMPLO

1) Qual é a lâmina escoada superficialmente durante um evento de chuva de precipitação total P = 70 mm numa bacia com solos do tipo B e com cobertura de florestas?

A bacia tem solos do tipo B e está coberta por florestas. Conforme a tabela anterior o valor do

parâmetro CN é 63 para esta combinação. A partir deste valor de CN obtém-se o valor de S:

S

=

25400

CN

254

= 149,2 mm

A partir do valor de S obtém-se o valor de Ia = 29,8. Como P > Ia, o escoamento superficial é

dado por:

Q =

(

P Ia

)

2

(P

Ia S )

+

=

8,5 mm.

Portanto, a chuva de 70 mm provoca um escoamento de 8,5 mm.

Escoamento durante a estiagem

A água subterrânea tem sua origem principal na água da chuva que infiltra no solo e percola para camadas mais profundas. Ao longo de um período longo de chuvas é

HIDROLOGIA

grande a quantidade de água que atinge os aqüíferos, especialmente o aqüífero superficial. Durante estes períodos o nível da água subterrânea se eleva. Por outro lado, ao longo de períodos secos, a água armazenada no subsolo vai sendo descarregada para as nascentes dos rios e o nível da água subterrânea diminui. Entretanto, ao contrário do escoamento superficial, o fluxo de água subterrânea é, normalmente, muito lento.

A parte decrescente de um hidrograma após um evento de chuva, conhecida como recessão do hidrograma, reflete a diminuição do nível da água no ou nos aqüíferos de uma bacia ao longo do tempo. O momento a partir do qual pode se dizer que toda a vazão de um rio tem origem subterrânea corresponde ao momento final da chuva mais o período de tempo correspondente ao tempo de concentração da bacia, aproximadamente.

Curvas de recessão de hidrogramas freqüentemente tem a forma de exponenciais decrescentes. Em regiões com chuvas marcadamente sasonais isto pode ser facilmente verificado. Como exemplo, a próxima figura apresenta um hidrograma de vazões observadas no rio dos Bois, no Estado de Goiás, ao longo de quatro anos entre 1990 e 1993. Nesta região as chuvas se concentram no período de dezembro a março e os meses de junho a setembro são extremamente secos. O hidrograma reflete esta característica climática apresentando vários picos de vazão nos meses de verão e uma longa recessão, raramente interrompida por pequenos aumentos da vazão, ao longo dos meses de inverno.

verão e uma longa recessão, raramente interrompida por pequenos aumentos da vazão, ao longo dos meses

HIDROLOGIA

Figura 6. 2: Hidrograma do rio dos Bois, em Goiás, de 1990 a 1993, com respostas às chuvas de verão e recessões durante os meses de inverno.

Destacando o período de estiagem de junho a setembro de 1991, é possível verificar o comportamento típico da recessão do hidrograma deste rio, como mostra a próxima figura.

Quando representado em escala logarítmica, o hidrograma durante a estiagem mostra um comportamento semelhante a uma linha reta. Isto sugere que o comportamento da vazão do rio dos Bois ao longo deste período pode ser representado por uma equação do tipo:

Q

( )

t

=

Q

0

e

t

k

onde t é o tempo; Q 0 é a vazão num instante t 0 ; Q (t) é a vazão num instante t (por exemplo: t dias após t 0 ); e é a base dos logaritmos naturais; e k é uma constante (em unidades de t).

(a) (b)

(a)

(b)

Figura 6. 3: a) Hidrograma do rio dos Bois (GO) durante os meses de estiagem de 1991; b) o mesmo hidrograma representado em escala logarítmica e aproximado por uma linha reta

Esta aproximação da curva de recessão de vazão utilizando uma equação exponencial decrescente é válida para um grande número de casos e pode ser utilizada para prever qual será a vazão de um rio após alguns dias, conhecendo a vazão no tempo atual, considerando que não ocorra nenhuma chuva. A maior dificuldade para resolver este tipo de problema é estimar o valor da constante k, mas isto pode ser feito utilizando dois valores conhecidos de vazão espaçados por um intervalo de tempo t., e rearranjando a equação exponencial, como mostra a equação a seguir:

HIDROLOGIA

k =

− ∆ t

ln

Q

(

)

+∆

t

t

Q

( )

t

⎟ ⎞

O valor de k depende das características físicas da bacia, em especial as suas características geológicas. Bacias localizadas em regiões onde predominam as rochas sedimentares normalmente tem maior capacidade de armazenamento de água subterrânea e os rios que drenam estas áreas apresentam valores de k relativamente altos. Bacias localizadas em regiões de rochas pouco porosas, como o basalto, tendem a apresentar valores de k mais baixos.

EXEMPLO

2) Durante uma longa estiagem de um rio foram feitas duas medições de vazão, com quatro dias de intervalo entre si, conforme a tabela abaixo. Qual seria a vazão esperada para o dia 31 de agosto do mesmo ano, considerando que não ocorre nenhum evento de chuva neste período?

Data

Vazão

14/agosto

60.1

15/agosto

-

16/agosto

-

17/agosto

-

18/agosto

57.6

Espera-se que o comportamento do hidrograma na recessão seja bem representado por uma

curva exponencial decrescente. A constante k pode ser estimada considerando os dois valores de vazão conhecidos (60,1 e 57,6), separados por 4 dias.

Durante as estiagens a vazão de um rio diminui ao longo do tempo de acordo com uma função exponencial decrescente.

k =

4

ln ⎛ ⎜ 57,6

60,1

94

Portanto, a constante k tem valor de 94 dias. A vazão no dia 31 de agosto pode ser estimada a partir da vazão do dia 18, considerando a diminuição que ocorre ao longo dos 13 dias que separam estas duas datas:

Q

( )

t

=

57,6

13

e

94

50,2

HIDROLOGIA

Portanto, a vazão esperada no dia 31 de agosto seria de 50,2 m 3 .s -1 .

A idéia do reservatório linear simples

O balanço hídrico geral de água subterrânea em uma bacia hidrográfica pode ser

representado pelas mesmas equações apresentadas nos capítulos 1, 2 e 4: