O DIRIGISMO CONTRATUAL

O Estado Liberal do século XVIII se fundava na igualdade e na liberdade de contratar, e o que predominava era o individualismo, a vontade e a razão humana como centro de todo o universo social; consequentemente, havia a prevalência da autonomia da vontade e a força obrigatória dos contratantes, e como regra quase absoluta, modificações no que foi acordado, nem mesmo poderia existir a interferência. No inicio do século XX, quando o capitalismo se mostra cada vez mais crescente, as grandes transformações sociais, causadas pela industrialização e pelas guerras, ocasionam grandes desiqualdades sociais, com isso, surge a necessidade da interferência estatal na economia do contrato, ou seja, do dirigismo contratual para instituir a igualdade real entre os contratantes, tanto pela imposição de normas, quanto pela atuação estatal na possibilidade de modificar relações contratuais estipuladas, não tutelados, até então, pelo liberalismo, para que dessa forma prevalecesse a manutenção da ordem pública. A partir dessa época, as relações contratuais começam a sofrer a interferência do Estado; com isso, a autonomia da vontade e o pacta sunt servanda, que traduz a relatividade subjetiva do contrato (ou seja, firmado o contrato entre as partes, não poderá mais ser revogado ou modificado, senão pelo consentimento mútuo), começam a ceder lugar ao dirigismo contratual, o que fez com que o Estado passasse a tutelar as relações contratuais, na busca da manutenção da ordem pública e da prevalência do interesse coletivo. Com o dirigismo contratual, o Estado Liberal de Direito dá lugar ao Estado Social de Direito, intervindo nas relações contratuais, na busca da prevalência do interesse coletivo, da proteção ao economicamente mais fraco, e da manutenção da ordem pública, para que dessa forma a justiça social sempre prevalecesse. Hodiernamente, o contraro se apresenta em quase todos os atos de natureza pratrimonial praticado pelo homem. Como bem preleciona Caio Mário Pereira da Silva: " O mundo moderno é o mundo do contrato". Todo mundo celebra contratos, desde os mais complexos até os mais simples, desde compexos contratos de financiamento até a simples compra e venda da caixa de fósforos na venda da esquina. Com o culto ao neoliberalismo e à globalização, a sociedade se volta cada vez mais para o consumo de massa, resultando na celebração de um grande número de contratos idênticos entre um grande número de pessoas que adquirem produtos semelhantes. Mas ao consumidor, na relação contratual, só resta a adesão ao contrato. Por isso, se faz imprescindível a atuação do Estado como interventor nas relações contratuais para que se possa resguardar a

de 11 de junho de 1994. Legislações estas que flexibilizaram os princípios adotados pelo Código Civil Brasileiro de 1916. em superação à anterior concepção de contrato prevalecente no Estado liberal do século XIX. por exemplo. diretamente a quem se disponha adquirilos mediante pronto pagamento. Em seu artigo. como forma de resguardar a ordem social. mesmo com contrariedade à dantes assentada concepção da absoluta autonomia da vontade. subsitem o direito e a liberdade de contratar com base na relativa autonomia da vontade. Seu artigo. Necessário se fez. para que um dos contratantes ou ambos não suportem o ônus excessivo no adimplemento de suas obrigações. então. A mesma restrição encontra-se na Lei n° 8. diz-se constituir em prática abusiva o fornecedor "recusar a venda de bens ou a prestação de serviços. quando estabelece direitos e deveres no contrato. dando maior ênfase à sua intervenção. a Lei nº 6. de 19 de dezembro de 1973.521. o chamado dirigismo contratual. que. com a proteção daqueles que por causas supervenientes e imprevisíveis se encontram em situação desfavorável na relação contratual. ao objetivo de valer a prevalência do interesse coletivo. mas apenas nas relações jurídicas consideradas como merecedoras de controle estatal para que seja mantido o desejado equilíbrio entre as partes contratantes. de 26 de dezembro de 1951. que versa acerca da cláusula de recisão pleno iure nos casos de venda a prestação de terrenos. o consagrado Código de Defesa do Consumidor . protegendo o economicamente mais fraco do jugo do poderoso. Nelson Nery Júnior bem esclarece o caráter relativo da intervenção do Estado quando afirma: "O dirigismo contratual não se dá em qualquer situação. haja visto que a nova regulamentação objetiva a inibição dos abusos decorrentes da desigualdade econômica.078. a fim de garantir a supremacia dos interesses coletivos.Lei nº 8. a fim de garantir também a resolução do contrato por onerosidade excessiva ou em caso de perigo. contudo. alcançando inclusive atividades empresariais e meios de produção.igualdade real entre os pactuantes. que cuida da sinegação de mercadoria ou recusa de vender. minimizando as desigualdades entre as partes. que a revisão judicial nos contratos se torna uma realidade. e a Constituição Federal no seu artigo. desta feita nas relações jurídicas estabelecidas ainda que entre profissionais. Observe-se o Código de Defesa do Consumidor (CDC). são a Lei nº 1.884." Exemplos marcantes dessa incursão na esfera privada pelo Estado.766. a intervenção do Estado através de legislação específica. inobstante as restrições impostas pelo Estado social. ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais" (inciso IX). De ver. a própria Consolidação das Leis trabaho. 7°. e dessa maneira. de 11 de setembro de 1990. mais recentemente. E é a partir do momento em que o dirigismo contratual se apresenta. 39. os bons costumes e o equilíbrio contratual. que também trata dos contratos de trabalho e. 21 dispõe caracterizar- . possibilitando intervenção estatal nas relações contratuais.

e § 1°.AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL . mesmo quando o consumidor queda-se inerte na defesa de seus direitos. divulga-se que a defesa dos interesses dos consumidores são indisponíveis. desde que mediante pronto pagamento (CDC). são de ordem pública e interesse social. ou pagamento dos produtos e serviços em conformidade com os usos e costumes conerciais (Lei n° 8. consequente do predomínio das teses do "dirigismo contratual" oposto ao liberalismo que antes prevalecera. observe-se que a força estatal. Frise-se que as normas constantes do Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº 8. no teor do disposto no seu primeiro artigo.dentre outras condutas . que um dos sujeitos da relação jurídica obrigacional não poderá escolher o outro parceiro. passíveis de serem defendidos. examinamos ."recusar a venda de bens ou a prestação de serviços. Jurisprudência Processo AGRESP 200600025530 AGRESP . quando impõe a adoção de certas cláusulas. em decorrência da modificação dos valores sociais. a cláusula geral de boa-fé e da equidade (artigo. conferindo ao Poder Judiciário instrumentos capazes de restabelecer o almejado equilíbrio contratual. 51. quanto na supervisão da execução. e a fortiori o dirigismo judicial. dentro das condições de pagamento normais aos usos e costumes comerciais" (inciso XIII). haja visto a previsão expressa no Código de Proteção e Defesa do Consumidor de valiosos instrumentos hermenêuticos. assim. o dirigismo contratual legislativo em relação aos contraros de consumo. Assim. mesmo afrontando a vontade das partes. resultando num alargamento de seus poderes de revisão dos contratos de consumo.se infração à ordem econõmica . Dessa maneira. esses são tutelados pelo Estado e. Vislumbra-se. posta intencionalmente à disposição do juiz.078/90). Por derradeiro. então.807052 Relator (a) .884/94). Por isso. estando obrigado a celebrar contrato com quem lhos requeira. manifesta-se atualmente tanto no ato de formação do contrato.o agudo tema da intervenção judicial em face das cláusulas dos contratos. quando determinados fatos acarretarem mácula à ordem pública e ao interesse da comunidade. Constata-se.neste tópico . claramente. do CDC). IV.

em consequência.É admitida a incidência da comissão de permanência desde que não cumulada com juros remuneratórios. Data da Decisão 20/04/2006 Data da Publicação . juros moratórios. Agravo no recurso especial improvido. . Repetição do Indébito.O regime jurídico dos contratos mercantis que embasam relação de consumo mitiga o princípio da autonomia da vontade em favor de um prevalecente dirigismo contratual. Os Srs. HUmberto Gomes de Barros.Aplica-se o CDC às relações jurídicas firmadas entre as instituições financeiras e os usuários de seus serviços. Ministra Relatora. Indexação VEJA A EMENTA E DEMAIS INFORMAÇÕES. Ari Pargendler e Carlos Alberto Menezes Direito votaram com a Sra. correção monetária e/ ou multa contratual. Ministra Relatora. independentemente da prova de que o pagamento tenha sido realizado por erro. admite-se. Aplicação do CDC. Comissão de permanência. . relatados e discutidos estes autos. Ministros Castro Filho. Possibilidade de revisão contratual. Precedentes.NANCY ANDRIGHI Sigla do órgão STJ Órgão julgador TERCEIRA TURMA Fonte DJ DATA: 15/05/2006 PG:00213 Decisão Vistos. a revisão judicial das cláusulas contratuais que colidam com as normas jurídicas em vigor. . Ementa Agravo no recurso especial. provimento ao agravo regimental. nos termos do voto da Sra. na conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes dos autos. Revisão de contrato de financiamento. Precendentes. . com o objetivo de vedar o enriquecimento ilícito do banco em cetrimento do devedor. acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça.Admite-se a repetição do indébito. por unanimidade.

15/05/2006 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful