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A Carteira - Machado de Assis

A Carteira - Machado de Assis

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A Carteira, de Machado de Assis Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.

br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Virtual Bookstore <http://www.elogica.com.br/virtualstore/> - a livraria virtual da Internet Brasileira. Texto scanneado e passado por processo de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) por Renato Lima <rlima@elogica.com.br>, graças a doação a partir da Cognitive Software do seu excelente Cuneiform <http://www.orcr.com>. Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>. Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é possível.

A Carteira Machado de Assis

...DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo: -- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez. -- É verdade, concordou Honório envergonhado. Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um

a gastar. Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. e que o Gustavo escutava com indizível prazer. Podia lançar mão do dinheiro. a esperar.. D. No Largo parou alguns instantes. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. para pagar mal. mas antes com uma expressão irônica e de censura. cm que fundara grandes esperanças. com um gesto mau. dizia uma ou duas pilhérias. Amélia tocava muito bem ao piano.Nada. Tinha medo de abrir a carteira. ou simplesmente falavam de política. de pequena monta. uma voragem. ou jogavam cartas. Quando o Gustavo. até o Largo da Carioca. foi andando. e depois ia ouvir os trechos de música alemã. Mas as esperanças voltavam com facilidade. entrou em um Café. não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C. mas disse-lhe hoje uma palavra azeda. mentiu o Honório. que D. e viu-lhe os olhos molhados. em todo caso. andavam mofinas nos jornais. bons ou maus negócios. Amélia não sabia nada. olhando para fora. como agora. apanhou-a. por desgraça perdera ultimamente um processo. Estava com. -. e a más horas. advogado e familiar da casa. mas voltou logo. Chegavam mesmo a . o credor não lhe punha a faca aos peitos. -. sem saber como. achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula.turbilhão perpétuo. ele não contava nada à mulher. a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha. Durante os primeiros minutos. trinta e quatro anos. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe. da Assembléia é que viu a carteira no chão. meteu no bolso. criança de quatro anos. A consciência acabou por lhe dizer que não podia.enfiou depois pela Rua da Carioca. Honório não pensou nada. Sem saber como. pedir fiado ou: emprestado. apenas papéis e sem valor para ele. era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. ou anunciá-la. e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Um dia. nada. e esta era a causa principal das reflexões. Ao enfiar pela Rua. e ainda. Não contava nada a ninguém. Poucas causas. e. ele respondia com três e quatro. mas tão depressa acabava de lhe dizer isto. -. E toca a trabalhar. A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. podia não achar nada. e puxavam por ele. que ia todas as noites à casa dele.Tu agora vais bem. Eram cinco horas da tarde. e convidavam-no a ir pagar a cocheira. a rigor. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede. mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica. e constituintes remissos. vinham os apuros da ocasião.. e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Ao mesmo tempo. ficou espantada. A verdade é que ia mal. andando. -. e entrou na Rua Uruguaiana. nem ela cresceu tanto. e perguntou-lhe o que era.. andando. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. que devia levar a carteira à polícia. Não só recebeu pouco. mas voltou sem ousar pedir nada.Agora vou. Tinha-se lembrado de ir a um agiota. e foi andando. Nunca demorou tanto a conta.

e com medo de a perder. a sua boa sorte. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Amélia o parecia também. sem praticar um ato ilícito. Tinha dinheiro. verei amanhã o que posso fazer. Esquadrinhou os bolsos da carteira. -. Gustavo pegou dela precipitadamente. Tirou-a do bolso. com vontade de contar o dinheiro.Nada? -. insinuação que lhe deu ânimo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas.. Achou cartas.Mete a mão no bolso. -. Honório teve pena de não crer nos anjos. resolvia o contrário. quando menos. depois de paga a dívida. e olhou desconfiado para o amigo. doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. disse ele consigo. e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa. que não abriu. correr à cocheira. passava-o pelas mãos. muito dinheiro.Nada. era do Gustavo. Não havia duvidar. reconciliar-se-ia consigo. Mas então. mais três. Bebeu a última gota de café. um anjo. Saiu. e. "Paciência. Voltou ao interior. eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos.Achei-a eu. algumas de cinqüenta e vinte. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões. depois. uma indicação qualquer.. Tudo isso antes de abrir a carteira. pagar. tornou a guardá-la. restituí-lo. e. e por fim um cartão de visita. Entrou rindo.. a carteira?. Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro.me do dinheiro. calculou uns setecentos milréis ou mais. Sabes se alguém a achou? -. não te falta nada? -. era dele. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete. Caminhou para casa. olhava. A descoberta entristeceu-o. não usar do acha. ninguém iria entregar-lha. e só então reparou que era quase noite. não contou. era um . leu o nome. mas ele resistiu. Honório teve um calafrio. ninguém soube.do.dizer-lhe que. um pouco preocupado e a própria D. e ficou trêmulo.. e pareceu-lhe efetivamente do amigo. sem reparar que estava frio.. depois de tanta luta com a necessidade." pensou ele. disse o Gustavo sem meter a mão no bolso. adeus. naquele caso. Não podia ficar com o dinheiro." Chegando a casa. e abriu-a. já ali achou o Gustavo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal. seiscentos. Ninguém viu. se fosse ele que a tivesse perdido.Falta-me a carteira. Examinou-a por fora. "Se houver um nome. finalmente.. Era a dívida paga. mas viu duas notas de duzentos mil-réis. podia ser um lance da fortuna. Fechou a carteira. que não leu. Mas daí a pouco tirou-a outra vez. mais cinco. achou mais dous cartões.Por quê? -. bilhetinhos dobrados. disse Honório entregando-lha. mas com medo. não posso utilizar. abriu-a. quase às escondidas.

tirou um dos bilhetinhos. -.triste prêmio. e. Então Gustavo sacou novamente a carteira. deu-lhe as explicações precisas. Amélia. Honório deu duas voltas.Mas conheceste-a? -. que o outro não quis abrir nem ler. e estendeu-o a D. e foi mudar de toilette para o jantar. foi a um dos bolsos. achei os teus bilhetes de visita. Sorriu amargamente. ansiosa e trêmula. que. . abriu-a. como o outro lhe perguntasse onde a achara. rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.Não.

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