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Peter L. Berge e Thomas Luckmann - A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE

Peter L. Berge e Thomas Luckmann - A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE

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Os autores a b o r d a m , n u m a perspectiva h u m a nística e com grande poder de síntese, o t e m a q u e — a p a r t i r de M a x Scheler e Karl M a n n h e i m — se designa por sociologia do c o n h e c i m e n t o .

É u m a s u b d i s c i p l i n a sociológica q u e t e m v i n d o a assumir i m p o r t â n c i a c a d a v e z m a i o r no campo das ciências sociais. Após u m a I n t r o d u ç ã o d e c a r á c t e r g e r a l , o s a u t o r e s desenvolvem em 3 capítulos os alicerces do conhecimento da v i d a quotidiana (A realidade — A interacção — A linguagem e conhec i m e n t o na vida q u o t i d i a n a ) , A sociedade c o m o r e a l i d a d e o b j e c t i v a (Institucionalização — Legitimação) e A sociedade c o m o r e a l i d a d e s u b j e c t i v a (A i n t e r i o r i z a ç ã o da r e a l i d a d e — A i n t e r i o r i z a ç ã o e a e s t r u t u r a social - Teorias sobre a identidade — Organismo e i d e n t i d a d e ) . Na Conclusão os a u t o r e s p õ e m em confronto as i m p l i c a ç õ e s geradas e n t r e a sociologia do c o n h e c i m e n t o e a t e o r i a sociológica.

P e t e r L. Berge Thomas Luckmann
A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE

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Peter L. Berger é professor e director do Instituto para o Estudo da Cultura Económica, da Universidade de Boston. É autor, entre outros livros, de Invitation to Sociology, The Sacred Canopy e The Capitalist Revolution. Thomas Luckmann é professor de sociologia na Universidade de Constância (República Federal da Alemanha), e autor de diversas obras, entre as quais. The Invisible Religion e (com Alfred Schutz) Structures of the Life-World.

Peter L. Berger Thomas Luckmann

A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE
Um livro sobre sociologia do conhecimento

malivro

ÍNDICE

Prefacio I ntrodueão: o problema da sociologia do conhecimento

9 13 31 31 40 45 59 5» 59 6*1 78 82 89 101 101 113 124 137 137 137 145 154 169

I. Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 1. A realidade da vida quotidiana 2. A interacção social na vida quotidiana 3. A linguagem e o conhecimento na vida quotidiana I I . A sociedade como realidade objectiva
Título original: Tiie Social Conslnction ofRealtiy Autores: Peter L Berger e Thomas Luckman» Copyright O 1966 by Peter L. Berger e Thomas Luckmann. Publicado por acordo com Dcubleday, Divisão de Rondom Home, Inc Copyright © ¡999 desta tradução por DtnaÜvro Tradução: Ernesto dc Cangalho Revisão: André Cardoso Faginaçilo e fotolitos: Mário Félix - Artes Gráficas Impressão c acabamento: SILVAS - Coap. Trab. Gráficos. C R. L - Lisboa Capa: Fernanda Felgueiras ISBX: 972-576-354-8 Depósito legal: 217767/04 2.' edição: Novembro dc 2004 Reservados todos os direitos para os países de Kngua portuguesa excepto Brasil DINA LIVRO Rua João Onigâo Ramos. Í7-A - 1500-362 LISBOA Teí. 217 122 210 - Ku 217 153 774 E-mail: infu@dinalivro.pl
SOCIOLOtiiA-1

1. Institucionalização a) Organismo e actividade b) As origens da institucionalização c) Sedimentação e tradição d) Papéis e) Extensão c modos de institucionalização 2. Legitimação a) As origens dos universos simbólicos b) Os mecanismos conceptuais da manutenção do universo c) A organização social para a manutenção do universo III. A sociedade como realidade subjectiva 1. A interiorização da realidade a) A socialização primária b) A socialização secundária c) A manutenção e transformação da realidade subjectiva 2. A interiorização e a estrutura social

nem de se ocupar da exegese de várias figuras deste ou de outros desenvolviriientos da teoria sociológica.3. Na parte final fazemos algumas observações. tem sido em geral entendido como constituindo essa. em termos de análise fenomenológica da realidade da vida quotidiana ("Os Fundamentos do Conhecimento na Vida Quotidiana"). O núcleo do argumento encontra-se nas Secções 11 c III ("A Sociedade como Realidade Objectiva" e "A Sociedade como Realidade Subjectiva"). ou mesmo mostrar como seria possível chegar-se a uma síntese de várias dessas figuras e desenvolvimentos. portanto. . Embora o nosso interesse não seja histórico. A Secção I contém aquilo que poderia ser mais bem descrito como prolegómcnos filosóficos ao núcleo do raciocínio. mas nas Notas) onde possam servir para esclarecer a presente argumentação. O leitor interessado apenas na argumentação sociológica poderia ser tentado a saltar esta parte. até aqui. Tratamos dessa tarefa na Introdução. mas deve ser avisado de que certos conceitos-chave empregues ao longo de todo o raciocínio são definidos na Secção 1. com carácter de conclusão. Não tem. Teorias sobre a identidade 4. Organismo e identidade Conclusão Notas 179 185 189 194 PREFÁCIO O presente volume deve ser entendido como uma obra teórica. a primeira contém o nosso entendimento básico dos problemas da sociologia do conhecimento e a segunda aplica esta compreensão ao nível da consciência subjectiva. disciplina. construindo desta maneira uma ponte teórica para os problemas da psicologia social. 'íao-pouco se apresenta com qualquer intuito polémico. como propósito proporcionar um levantamento histórico do desenvolvimento desta disciplina. Os comentários críticos sobre outras posições teóricas foram introduzidos apenas (não no texto. da sociologia do conhecimento. sentimo-nos na obrigação de explicar porquê e em que sentido a nossa concepção da sociologia do conhecimento se diferencia do que. sistemática.

exclama num dos seus poemas: "Livrai-nos. esta exclamação. sem a constante inclusão de observações do género "'Dürkheim diz isto". Peter L. mas preferimos manter-nos fiéis às exigências da gratidão histórica O projecto que este livro concretiza. queremos agradecer a Brigitte Berger (Hunter Collcge) e Benita Luckmann (Universidade de Frciburg). Só para contrariar este costume estivemos tentados a dedicar este livro a um certo Jodier de Brand/Vorarlberg. como a que Durkheim e a sua escola têm das interpretações de Albert Salomon (também da Graduate Faculty). nas nossas conferências sobre teoria sociológica. Gostaríamos. porém. no decurso de conversas descontraídas. dos ensinamentos e das obras de Schutz. e uma vez mais retomados na Secção III ao nível da consciência subjectiva. O quanto devemos ao falecido Alfred Schulz ir-se-á tornando claro ao longo das várias partes do livro. Assim. "Weber diz aquilo". do m a r d í nomes!" Temos repetido. "Parece-nos que Dürkheim foi mal compreendido neste ponto" e assim por diante. de reconhecer aqui a influência no nosso pensamento. a cada página. É habitual. mas sem desrespeitar a sua lógica interna. "Concordamos aqui com Dürkheim mas não com Weber". Contudo. começou a ser congeminado no Verão dc 1962. agradecer as várias contribuições intangíveis de esposas. em projectos deste tipo. e esperamos que o leitor compreenda as razões das repetições que não puderam ser evitadas. não por quaisquer desempenhos sem relevância científica. ao pé (e às vezes no alto) dos Alpes da Áustria ocidental. Os outros participantes. É evidente. Tal não significa render homenagem aos rituais da iYissenschajVichteit. Ibn ul-"Arabi. Isso obrigou a um conjunto de notas. colocámos todas as referências nas Notas. filhos c diversos colaboradores particulares de posição legal mais duvidosa. De começo tinha-se em vista um empreendimento que incluía mais outro sociólogo e dois filósofos. Assim. por várias razões biográficas. Tentámos tornar este livro lào legível quanto possível. Berger gostaria dc agradecer a Kurt Wolff (Universidade de Brandeis) e a Anton Zijdcrveld (Universidade de Leiden) pelo seu constante interesse crítico no progresso das ideias incorporadas nesta obra. com frequência. retomados na Secção II sem essas aspas e com um interesse pela sua génese empírica. Berger Graduate Faculty New School for Social Research Thomm Luckmann Universidade de Frankfurt . mas desejamos que seja julgada pelos seus próprios méritos e não em função dos seus aspectos exegéticos ou sinópticos. New School for Social Research). bem como (embora sempre como um resumo) qualquer discordância que tenhamos com as fontes de que somos devedores. mas pelas suas obscn'ações críticas enquanto cientistas sociais e pela sua persistente recusa em se deixarem impressionar com facilidade. foram obrigados a retirarem-sc da participação activa no projecto. deseja exprimir a sua admiração pelo pensamento de Friedrich Tenbruck (Universidade de Frankfurt).IO A construção social da féatíâade Prefácio 11 para indicar o que consideramos serem os "contributos" do presente trabalho para a teoria sociológica em geral e para certas áreas da pesquisa empírica. o grande místico do Islão. Este pode ser lido agora como uma apresentação contínua da nossa posição pessoal. Luckmann. A lógica do nosso argumento torna inevitável um certo número de repetições. Alá. decidimos eliminar todos os nomes do nosso actual argumento. O primeiro plano para o livro foi traçado nos princípios de 1963. A nossa compreensão de Weber deve muito aos ensinamentos de Carl Mayer (Graduate Faculty. alguns problemas sào examinados entre a s p a s fenômeno lógicas na Secção I. mas desejamos agradecer com muito apreço os contínuos comentários críticos de Hansfried Kellner (Universidade de Frankfurt) e Stanley Pullberg (École Pratique des I lautes Études). Por conseguinte. que a nossa posição não surgiu ex mhih. recordando muitas conversas proveitosas durante um período de leccionamento conjunto no Hobart Collcge e em outras ocasiões. de funções privadas. bastante alargado.

E neste sentido que se reconhece simplista. importante que esclareçamos desde o início em que sentido usamos estes termos. apontando que a realidade é construída em termos sociais e que a sociologia do conhecimento deve analisar os processos em que tal ocorre. que esses termos têm relevância. para os nossos propósitos. que este mundo possui tais e tais características. e que neguemos desde já qualquer pretensão de que a sociologia tem resposta para estas antigas preocupações filosóficas. O que é real? como é que se tem conhecimento? Estas são algumas das mais antigas perguntas. talvez mais ainda. enfurecer o filósofo. definir "realidade" como uma qualidade pertencente a fenómenos que reconhecemos terem um ser independente da nossa própria volição (não podemos "fazer que não existam. não apenas da pesquisa filosófica de per si mas do pensamento humano enquanto tal. tanto desta "realidade" quanto deste "conhecimento". . no contexto da sociologia. O homem comum habita um mundo que é "real" para ele. com a nossa vontade") e definir "conhecimento" como a certeza de que os fenómenos são reais e possuem características específicas. é provável que a intromissão do sociólogo neste venerável território intelectual vá chocar o homem comum e. tanto para o homem comum quanto para o filósofo.INTRODUÇÃO: O PROBLEMA DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO As propostas básicas do argumento deste livro estão implícitas no título e no subtítulo. termos esses não apenas correntes na linguagem actual mas que têm atrás de si uma longa história de investigação filosófica. por conseguinte. e "sabe". Os termos-chave dessas afirmações são "realidade" e "conhecimento". embora em diferentes graus. É. Claro que o filósofo levantará questões relativas ao estatuto último. Não precisamos de entrar aqui numa discussão de minúcias semânticas nem do uso quotidiano ou do uso filosófico desses termos. com graus variáveis de certeza. Será bastante. Por esta razão.

em diferentes sociedades. Estes três factos são muito importantes para a compreensão da génese e ulterior desenvolvimento da nova disciplina. O filósofo. se cristaliza para o homem da rua. isto é. mas também dos processos pelos quais qualquer corpo de "conhecimento" se estabelece como "realidade" social. O problema da sociologia do conhecimento 15 Se quiséssemos ser meticulosos na argumentação a seguir apresentada. por conseguinte. tem de indagar sobre o estatuto ontológico e epistemológico destas concepções. transmite c sc conserva em situações sociais. Por outras palavras. O "conhecimento" do criminoso é diferente do "conhecimento" do criminalista. seja por que métodos for. mas isto não seria elegante em termos de estilística. Por outras palavras. de certa maneira. "responsável" pelas suas acções. se entende por esta disciplina. E na medida em que todo o "conhecimento" humano se desenvolve. uma disciplina que assim se designa terá de se ocupar dos modos gerais pelos quais as "realidades" são tidas como "conhecidas" nas sociedades humanas. o filósofo é levado a decidir onde é que as aspas são adequadas e onde podem ser omitidas com segurança. O homem é livre? Que é responsabilidade? Onde estão os limites da responsabilidade? Como pode uma pessoa conhecer estas coisas? E assim por diante.14 A construção social da realidude. pela sua posição profissional. como a sua "realidade" é mantida naquela sociedade e como. num mcio-termo entre a do homem comum e a do Filósofo. contudo. quanto mais não seja pela própria lógica da sua disciplina. Para além disso. de que a sociologia do conhecimento se deve ocupar de tudo aquilo que passa por "conhecimento" numa sociedade. A nossa convicção é. e Scheler era filósofo. está preso às aspas. de maneira geral. do facto de que o homem vulgar toma como certas "realidades" muito diversas. Podcr-sc-ia dizer que a compreensão sociológica da "realidade" e do "conhecimento" se situa. sentimos a necessidade de nos afastarmos do mesmo. a questionar se a diferença entre as duas "realidades" não pode ser compreendida em termos das diferenças entre as duas sociedades. sempre que os empregássemos. Já o sociólogo. admitida como certa. Desnecessá- O interesse sociológico pelas questões da "realidade" e do "conhecimento" justifica-se assim. desde que pela primeira vez foi chamada por este nome há uns 40 anos. ao mesmo tempo que nega esta "liberdade" e esta "responsabilização" às crianças e aos dementes. nas sociedades humanas. se não por estilística. pelo facto da sua relatividade social. O homem comum. A necessidade da "sociologia do conhecimento" é assim suscitada pelas diferenças observáveis entre as sociedades. sem ter em conta a validade ou não validade última desse "conhecimento". mais interessante ainda. é perguntar por que é que a noção de "liberdade" é tida como um dado adquirido numa sociedade e não noutra. não se preocupa com aquilo que é "real" para ele e com o que "conhece". Esta compreensão do verdadeiro campo da sociologia do* conheci mento difere daquilo que. O que é "real" para tim monge tibetano pode não ser "real" para um homem de negócios americano. O que pode e deve fazer. Por conseguinte. em termos daquilo que nelas é considerado como "conhecimento". O sociólogo já nao pode fazer o mesmo. rio se torna dizer que o sociólogo não tem condições para dar respostas a estas perguntas. e por que motivo. a não ser que tropece num problema qualquer. dar um indício quanto â maneira peculiar como estes termos aparecem num contexto sociológico. Falar de aspas pode. Tem como certa a sua "realidade" c o seu "conhecimento". sistemática. por conseguinte. na Alemanha. será útil examinarem resumo o desenvolvimento anterior da disciplina e explicar de que maneira. por outro lado. quanto mais não seja por ter consciência. defendemos o ponto de vista de que a sociologia do conhecimento se preocupa com a análise da construção social da realidade. a não considerar coisa alguma como dado adquirido e a atingir a máxima clareza quanto ao estatuto último daquilo que o homem comum acredita ser"rcalidade" e "conhecimento". esta "realidade" pode vir a ser perdida por um indivíduo ou por toda uma colectividade. quaisquer que sejam os critérios. Por lógica. uma "sociologia do conhecimento" terá de tratar não apenas da variedade empírica do "conhecimento". a estabelecer a distinção entre as afirmações válidas e as inválidas em relação ao mundo. Por outras palavras. deveríamos colocar entre aspas os dois vocábulos mencionados. O sociólogo é forcado. por norma. O termo "sociologia do conhecimento" (Wissenssoziologie) foi introduzido por Max Scheler '•. contudo. Por exemplo. antes de iniciarmos a nossa argumentação. o homem comum pode acreditar que possui "liberdade volitiva" sendo. Segue-se que aglomerações específicas de "realidade" e de "conhecimento" se referem a contextos sociais específicos c que estas relações terão de ser incluídas numa análise sociológica correcta desses contextos. não tem possibilidade de c fazer. O filósofo é obrigado. a sociologia do conhecimento deve procurar compreender o processo pelo qual isto se realiza de modo a que uma "realidade". na década de 20. logo à partida. porém. A sociologia do conhecimento .

Embora. Uma consciência das bases sociais dos valores e das concepções do mundo podiam ser já detectadas na Antiguidade. na famosa expressão de Pascal. conduziu à preocupação de se investigarem. sem dúvida. os psicológicos ou os biológicos) foram propostos com o valor de determinantes do pensamento humano. interessada nas mesmas questões. o passado. consideravam aquela disciplina como uma especialidade periférica. "Aquilo que é verdade dc um lado dos Pircnéus é falso do outro. Embora a nova disciplina fosse mais tarde introduzida no adequado contexto sociológico.16 A construção social da realidade O problema da sociologia do conhecimento 17 teve origem numa situação particular da história intelectual alemã e em determinado contexto filosófico. ih tutee. Pelo menos desde o Iluminismo que esta consciência se cristalizou num dos principais temas do pensamento ocidental moderno. Mais importante. a atenção se concentre sobre o factor social. o da determinação existencial (Seimgebundenheit) do pensamento. J É em Marx que a sociologia do conhecimento encontra a raiz da sua proposta. afirmar-se que muito da grande "luta com Marx". E provável que o destaque do verdadeiro problema. Durkheim e Pareto). mesmo onde se verificou um interesse pela disciplina. por isso. que espécie de determinação teria Marx em mente. contudo. contudo. em especial. o pensamento nietzschiano e o historicismo. assim. ' Pode mesmo dizer-se que o problema está contido. que foi um dos maiores produtos intelectuais da Alemanha do século XIX. que declara ser a consciência do homem determinada pelo seu ser social . de um modo geral. De um modo sem paralelo em qualquer outro período da história intelectual. Pode dizer-se. em especial no mundo de língua inglesa. Isto foi real. enquanto tal. surpreender-nos que o problema teórico emanante do referido empreendimento tenha sido sentido com maior acutilância na Alemanha. foi "tomado presente" para o espirito contemporâneo. é que a permanente ligação da sociologia do conhecimento com a sua constelação original de problemas tem constituído uma fraqueza teórica. pelo público sociológico mais ou menos indiferente. que não participavam dos problemas próprios que preocupavam os pensadores alemães na década dc 20. Seja como . Pode. as relações concretas entre o pensamento e as suas situações históricas. em geral. de característico sabor europeu. que a sociologia do conhecimento constitui o foco sociológico de um problema muito mais geral. Como resultado. e que só após a Segunda Guerra Mundial é que todas as implicações dessa redescoberta puderam ser integradas na pesquisa sobre Marx. É difícil negar o direito da cultura alemã ao primeiro lugar neste empreendimento. Muito se tem debatido. 2 Nem o problema em geral nem o seu enquadramento mais limitado são novidades. uma concordância geral em que a sociologia do conhecimento trata das relações entre o pensamento humano e o contexto social do qual emerge. contudo. como uma espécie de glosa sociológica sobre a história das ideias. tal como manifestada nas obras de Weber. as dificuldades teóricas são semelhantes às que surgiram quando outros factores (como os históricos. Pode-se descrever esse problema como a vertigem da relatividade. com todo o detalhe possível." Contudo. com a sua impressionante variedade de formas de pensamento. Em todos esses casos o verdadeiro problema tem sido o de estabelecer até que ponto o pensamento reflecte os factores determinantes propostos ou é autónomo em relação a eles. tenha as suas raízes na vasta acumulação de erudição histórica. Se esta interpretação é correcta. continuou a ser marcada pelos problemas da situação intelectual em que brotara. O resultado foi uma considerável miopia em relação ao potencial significado teórico da sociologia do conhecimento. na moderna filosofia alemã. que caracterizou não apenas os começos da sociologia do conhecimento mas também a "idade clássica" da sociologia em geral (e. Ao nível empírico. sem dúvida mima perspectiva mais estreita mas em essência. Há. através dos esforços da erudição histórico-cientifica. em especial no que diz respeito aos sociólogos americanos que. Não deverá. é possível dizer-se que a história desta subdisciplina tem sido até agora a história das suas várias definições. neste caso. foi de facto uma batalha contra a defeituosa interpretação de Marx pelos marxistas modernos. Istoé. os antecedentes intelectuais imediatos da sociologia do conhecimento sào três criações do pensamento alemão do século XIX: o pensamento marxista. Esta proposição ganha plausibilidade quando reflectimos no facto dc que foi apenas em 1932 que os importantíssimos s Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 foram redescobertos. a sociologia do conhecimento tomou a si um problema levantado de início pela erudição histórica. a sociologia do conhecimento foi considerada pelos os seus protagonistas e. Seria assim possível defender uma quantidade de "genealogias" do problema central da sociologia do conhecimento. em geral. Tem havido diferentes definições da natureza e âmbito da sociologia do conhecimento. A dimensão epistemológica do problema c óbvia. Na verdade. a sociologia do conhecimento permaneceu no estado de objecto marginal de estudo entre os sociólogos.

o que. s O historicismo. desta espécie de determinismo económico. foi retomado em linha directa por Scheler. A sociologia do conhecimento de Scheler é. Em termos mais gerais. As ideias de Nietzsche tiveram uma continuidade menos explícita na sociologia do conhecimento. 5 O interesse de Scheler pela sociologia do conhecimento e pelas questões sociológicas em geral foi de facto um episódio passageiro na sua carreira filosófica. uma filosofia muito específica. por exemplo. e de que diferentes posições têm sido assumidas dentro deste. termos muito reminescentes do esquema marxista "infra/superstrutura". Lenine). O anti-idealismo de Nietzsche. ao de Marx.* De qualquer modo. apesar das diferenças no conteúdo não dissemelhante. expresso em especial na obra de Wilhelm Di 1 they. com muita propriedade. os "factores reais" regulam as condições nas quais certos "factores ideais" podem aparecer na história. isto é. cm particular. a sociedade determina a presença (Dasein) mas não a natureza (Sosein) das ideias. O tema dominante aqui era um esmagador sentido da relatividade de todas as perspectivas sobre os acontecimentos humanos. tendo por principal finalidade esclarecer c afastar as dificuldades levantadas pelo relativismo. Nietzsche desenvolveu a sua própria teoria da "falsa consciência" nas suas análises do significado social do engano e do auto-engano. como factor gerador de certos tipos de pensamento humano. a despeito do facto de grande parte da sociologia do conhecimento ter tido uma formulação explícita em oposição ao marxismo. a sociologia do conhecimento de Scheler é.18 A construção social da realidade O problema da sociologia do conhecimento 19 for. dc modo que a verdadeira tarefa filosófica pudesse prosseguir. entre os quais deverão ser mencionados os conceitos de "ideologia" (ideias que servem de armas para interesses sociais) e "falsa consciência'* (pensamento alienado do verdadeiro ser social do pensador). tais como a "determinação situacional" (Srandortsgelnmdenheit) e "lugar na vida" (Sitz im Leben). Isto é. a herança historicista da sociologia do conhecimento predispô-la para um forte interesse pela história e a empregar um método. anciüa philosophise. da inevitável historicidade do pensamento humano. A sociologia do conhecimento deveria servir de instrumento para alcançar este propósito. O melhor modo de compreender as expressões "infra-estrutura " e "superstrutura" é considerá-las a primeira como actividade humana. diga-se de passagem. mas fazem parte integral da sua base intelectual gera! e do "ambiente" em que surgiu. podia com facilidade ser traduzida numa ênfase da situação social do pensamento. que a controvérsia se tomou violenta a propósito da correcta interpretação do pensamento do próprio Marx. a "arte da desconfiança" . excepto nos seus próprios termos. de "infra-estrutura/superstrutura" (Utiierbau/Ueberbauj. distinta do pensamento. era apenas uma relação reguladora. a começar por Scheler. O seu objectivo final era o estabelecimento de uma antropologia filosófica que transcendesse a relatividade dos pontos de vista com localização específica. pcis o carácter em essência mecanicista. O marxismo posterior teve a tendência de identificar a "infra-estrutura" com a estrutura económica íoul court da qual a "superstrutura" era considerada um "reflexo" directo (como. no essencial. pode-se dizer que a sociologia do conhecimento representa uma aplicação especifica daquilo que Nietzsche chamava. estabelecidos por Marx.e. precedeu dc imediato a sociologia do conhecimento. O que interessava a Marx era que o pensamento humano se alicerçava na actividade humana ("trabalho'' no sentido mais amplo da palavra) e nas relações sociais produzidas por esta actividade. no que respeita à natureza da correlação entre os dois componentes do esquema. e da ilusão como condição necessária 7 da vida. O fascínio desse esquema prevaleceu. E agora muito claro que isto c uma representação incorrecta do pensamento dc Marx. A sociologia do . De um modo geral. mais ainda. A sociologia do conhecimento tem-se deixado fascinar muito pelos dois conceitos gémeos. poderiam ser traduzidos como referindo-se à "localização social" do pensamento. o esquema fundamental "infra/superstrutura" foi admitido sob várias formas pela sociologia do conhecimento. e a segunda como o mundo produzido por essa actividade. contribuiu também para a sua marginalização no âmbito da sociologia americana. histórico em essência. Dentro desta orientação. Scheler argumentava que a relação entre "factores ideais" (Idealfaktoren) e "factores reais" (Realfakioren). Certos conceitos historie i stas. cm sentido muito 10 real. torna-o suspeito. sempre subentendendo que existe algum tipo de relação entre o pensamento e a realidade "subjacente". acrescentou novas perspectivas sobre o pensamento humano como instrumento na luta pela sobrevivência e pelo poder. tanto na história como no social. um método negativo. mas não lhes podem afectar o conteúdo. a sociologia do conhecimento herdou de Marx não apenas a mais exacta formulação do seu problema certral mas também alguns dos seus eonceitos-chave. O conceito nietzschiano dc "ressentimento". Ou seja. Foi sobre este ponto. A insistência historicista de que nenhuma situação histórica poderia ser entendida. em vez dc dialéctico. na forma.

e pode ser verificado se compararmos a tradução inglesa da sua obra principal. inacessíveis à análise sociológica. não uma capitulação do pensamento diante das relatividades sócio-históricas. da totalidade da obra dc Mannheim (de facto. que quando os sociólogos de hoje pensam cm sociologia do conhecimento. permaneceu até hoje sem tradução. de total e de geral em ideologia: a ideologia constituindo apenas um segmento do pensamento do adversário. com excepção da matemática e de. Neste quadro. também ele se sentia pouco à vontade com o pan-ideologismo a que o seu pensamento parecia conduzi-lo. 11 Mannheim tornou-se assim a figura mais "congenial" para os sociólogos. com segurança./<ro ou contra. podiam ser mitigadas pela análise sistemática do maior número Na sociologia americana este facto é fácil dc compreender se reflectirmos na acessibilidade. pane das ciências naturais. conforme pensou Mannheim. . a obra de Mannheim está menos carregada de "bagagem" filosófica do que a de Scheler. em geral fazem-no nos termos da sua formulação por Mannheim. ou foi publicada em traduções inglesas revistas). Scheler analisou com considerável detalhe a maneira como o conhecimento humano é ordenado pela sociedade. mas o sobrio reconhecimento dc que o conhecimento tem sempre de ser conhecimento a partir de urna certa posição. e (aqui. houve na Alemanha um amplo debate a respeito da validade. Ideoiogy and Utopia (Ideologia e Utopia). Deste debate emergiu uma formulação que marcou a transposição da sociologia do conhecimento para um mais estrito contexto sociológico. Na sequência da "invenção" por Scheler da sociologia do conhecimento. o procedimento com o qual deve ser estudada a selecção socio-histórica dos conteúdos ideativos. durante o período cm que Mannheim esteve a leccionarem Inglaterra. âmbito e aplicabilidade da nova disciplina. a compreensão de que não há pensamento humano (além das excepções referidas) que seja imune às influências ideologizantes do seu contexto social. ficando compreendido que estes conteúdos. conceito que pode ainda ser considerado central na sociologia do conhecimento. com o original alemão. poderia dizer-se que consiste em lançar ao dragão da relatividade um bom engodo. Se quiséssemos fazer uma representação gráfica do método de Scheler. Distingue os conceitos de particular. por conseguinte. ao nível da sociologia do conhecimento. A sociologia do conhecimento tomou-se então um método positivo para o estudo de quase todas as facetas do pensamento humano. embora nao pudessem ser erradicadas por completo. em inglês. A sociedade seria vista como determinando não apenas a aparência mas também o conteúdo da ideação humana. em particular no que se refere aos últimos escritos de Mannheim. mesmo para aqueles que criticavam o seu modo dc ver ou não se interessavam pelo mesmo. E provável que a influencia de Dilthey tenha grande importancia neste ponto do pensamento de Mannheim: o problema do marxismo é resolvido com os instrumentos do historicismo. Mannheim acreditava que as influências doutrinantes. em si. Pode-se afirmar. indo além de Marx) a ideologia caracterizando não só o pensamento dc um adversário mas também o do próprio pensador. Esta ordem. uma parte desta obra foi escrita em inglês. A compreensão que Mannheim tinha da sociologia do conhecimento era muito mais extensa do que a de Scheler. enquanto a obra de Scheler. Scheler chamou a isto a "visão relativa e natural" (relativnaturliche Weltanschauung) de uma sociedade. Trata-se da formulação de Karl Mannheim. pelo menos. Foi sob formulação que a sociologia do conhecimento chegou ao mundo de língua inglesa. Mediante esta expansão da teoria da ideologia. aparece ao indivíduo como o modo natural de olhar o mundo.20 A construção social ilu retí!¡dada O problema da sociologia do conhecimento 21 conhecimento é. E muito significativo o facto de Mannheim se preocuparem particular com o fenómeno da ideologia. Mannheim procura separar o seu problema central do contexto de uso politico. sobre a sociologia do conhecimento. o que se deve talvez por o confronto com o marxismo ser mais importante no seu trabalho. Acentuou que o conhecimento humano é considerado na sociedade como um a priori da experiência individual. Com o conceito geral de ideologia alcança-se. e tratá-lo como um problema geral de epistemologia e dc sociologia histórica. depois do advento do nazismo na Alemanha. são independentes da causalidade sóeio-hístórica e. modesto por intenção e por inevitabilidade. portanto. Embora Mannheim não partilhasse das ambições ontológicas de Scheler. embora relativa a uma situação sócio-hislórica particular. Isto é verdade. mas apenas o suficiente para melhor poder penetrar no castelo da certeza ontológica. fomecendo-lhe a sua ordem de significação. Seja como for. Introduziu o termo "relaeionismo" (oposto a ''relativismo") para assinalar a perspectiva epistemológica da sua sociologia do conhecimento. Descontando este factor de "difusão". a ideologia constituindo a totalidade do pensamento de um adversário (semelhante à "falsa consciência" de Marx).

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A construção social da realidade

O problema da sociologia do conhecimento

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possível das diversas posições alicerçadas no social, Por outras palavras- o objecto do pensamento torna-se cada vez mais claro com esta acumulação de diferentes perspectivas relativas ao mesmo. Nisso deve consistir a tarefa da sociologia do conhecimento, que se torna assim uma importante ajuda na busca de qualquer compreensão correcta dos acontecimentos humanos. Mannheim acreditava que os diferentes grupos sociais variam, assim, imenso na sua capacidade de transcender a sua estreita posição. Depositava a maior esperança nos "intelectuais sem comprometimento social'" (Freischwebettde ¡nteüigenz, um termo derivado de Alfred Weber), como uma espécie dc estrato intersticial que ele acreditava estar, de certo modo, isento de interesses de classe. Mannheim acentuou também o poder do pensamento "utópico" que, lai como a ideologia, produz uma imagem distorcida da realidade social mas que, ao contrário da ideologia, tem o dinamismo necessário para transformar essa realidade na imagem que dela apresenta. Desnecessário se toma dizer que as observações anteriores de modo algum fazem justiça à concepção de Scheler. ou à de Mannheim, da sociologia do conhecimento. Essa nãoé a nossa intenção aqui. Limitámo-nos a indicar alguns aspectos-chave das duas concepções que foram, com propriedade, apelidadas de concepção "moderada" e concepção "radical" da sociologia do conhecimento." O notável é que o subsequente desenvolvimento da sociologia do conhecimento consistiu, em grande parte, em críticas e modificações desses dois conceitos. Como já assinalámos, a formulação feita por Mannheim da sociologia do conhecimento continuou a estabelecer os termos de referência para essa disciplina, de maneira definitiva, em particular na sociologia de língua inglesa. O mais importante sociólogo americano que prestou séria atenção à sociologia do conhecimento foi Robert Merton. A sua análise da disciplina, que abrange dois capítulos da sua obra principal, serviu de introdução, útil, a este campo, para aqueles sociólogos americanos que por ele se têm interessado. Merton construiu um paradigma para a sociologia do conhecimento, redefinindo os temas mais importantes desta disciplina de forma condensada e coerente. Esta construção é interessante, porquanto procura integrar a abordagem da sociologia do conhecimento com a da teoria funcional-estrutural. Merton aplica os seus próprios conceitos de funções "manifestas" c "latentes" à esfera da ideação, fazendo distinção entre funções conscientes, intencionais das ideias, e funções inconscientes.
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não intencionais. Embora Merton se concentrasse na obra de Mannheim. que para ele é o sociólogo do conhecimento por excelência, acentuou a importância da escola de Durkheim e dos trabalhos de Pitirim Sorokin. É interessante notar que Merton, ao que parece, não se apercebeu da importância, para a sociologia do conhecimento, de certos desenvolvimentos importantes da psicologia social americana, como a teoria dos grupos de referência, que ele discute noutro ponto da mesma obra. Talcott Parsons também comentou a sociologia do conhecimento. Neste comentário predomina, porém, a critica a Mannheim e não procura uma integração da disciplina no próprio sistema teórico de Parsons. Neste último, dc facto, o "problema do papel das ideias" é analisado cm pormenor mas num quadro de referência muito diferente do da sociologia do conhecimento dc Scheler ou de Mannheim. '^Podemos arriscar, portanto, afirmar que nem Merton nem Parsons deram qualquer passo decisivo para além da sociologia do conhecimento, tal como formulada por Mannheim. O mesmo se pode dizer de outros críticos. Mencionando apenas o mais eloquente, C. Wright Mills abordou a sociologia do conhecimento nos seus primeiros trabalhos, mas dc uma maneira expositiva c sem qualquer contributo para o seu desenvolvimento teórico.
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Um interessante esforço para integrar a sociologia do conhecimento na óptica neopositivista da sociologia em geral, é o de Theodor Geiger, que teve grande influência na sociologia escandinava, após ter emigrado da AIemanha. Geiger voltou a um conceito mais estreito de ideologia, como um pensamento distorcido em termos sociais, e sustentou a possibilidade de superar a ideologia pela cuidadosa observação de cânones científicos de procedimento. A perspectiva neopositivista da análise ideológica foi, cm tempos mais recentes, continuada na sociologia de língua alemã pela obra de Ernst Topitsch, que acentuou as raízes ideológicas de várias posições filosóficas. Na medida em que a análise sociológica das ideologias constitui uma parte importante da sociologia do conhecimento, conforme definida por Mannheim, tem havido muito interesse por cia na sociologia europeia, tanto quanto na americana, desde a Segunda Guerra Mundial.
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A mais arrojada tentativa de ir além de Mannheim, na construção de uma ampla sociologia do conhecimento, é provável que seja a de Werner Stark, outro erudito continental emigrado, que leccionou na Inglaterra c nos Estados Unidos. Stark vai mais longe, deixando para trás a óptica de Mannheim sobre o problema da ideologia. A tarefa da sociologia do
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conhecimento não consiste em desenterrar ou desmascarar as distorções produzidas ao nível social, mas no estudo sistemático das condições sociais do conhecimento enquanto tal. Dito de maneira simplista, o problema central c o da sociologia da verdade, não o da sociologia do erro. Apesar da sua singular abordagem, é provável que Stark esteja mais perto de Scheler do que de Mannheim na compreensão da relação entre as ideias e o seu contexto social. Uma vez mais c evidente que não tentámos dar uma adequada visão global histórica da sociologia do conhecimento. Além disso, ignorámos até agora certos desenvolvimentos que poderiam, em teoria, ter importância para a sociologia do conhecimento, mas que não foram considerados como tal, pelos os seus próprios protagonistas. Por outras palavras, límitámo-nos aos desenvolvimentos que, por assim dizer, navegaram sob a bandeira da "sociologia do conhecimento"' (considerando a teoria da ideologia como parte desta última). Isto tomou muito claro um facto: à parte o interesse epistemológico de alguns sociólogos do conhecimento, o foco empírico da atenção tem-se situado quase em exclusivo na esfera das ideias, ou seja, do pensamento teórico. Isto é também verdade com Stark, que deu como subtítulo à sua obra principal sobre «sociologia do conhecimento, a expressão
An Essay in Aido/a Deeper para ajudar a Understanding ofthe Hislory ofIdeas (Ensaio ideias). uma compreensão mais profunda da história das

desempenha aí um papel semelhante ao da história, da psicologia c da biologia, para mencionar apenas três das mais importantes disciplinas empíricas que causaram problemas à epistemologia. A estrutura lógica desses problemas é, no essencial, a mesma em todos os casos, a saber: como posso estar certo, digamos, da minha análise sociológica dos costumes da classe média americana, considerando que as categorias que uso para esta análise são condicionadas por formas de pensamento de um relativismo histórico e que eu próprio, e tudo quanto penso, somos determinados pelos meus genes e pela minha inata hostilidade para com os meus semelhantes e que, além do mais, eu próprio sou membro da classe média americana? Longe de nós o desejo de menosprezar estas questões. Tudo quanto desejaríamos afirmar aqui. é que estas questões não são, em si mesmas, parte da disciplina empírica da sociologia. Pertencem mais à metodologia das ciências sociais, uma área que pertence à filosofia e, por definição, não se confunde com a sociologia que é, na realidade, o objecto das suas indagações. A sociologia do conhecimento, mais outros agitadores epistemológicos entre as ciências empíricas, "alimentará'* com problemas esta investigação metodológica. Ela não pode resolver tais problemas dentro do seu próprio quadro de referência. Por conseguinte, excluímos da sociologia do conhecimento os problemas epistemológicos e metodológicos que perturbaram os seus dois principais criadores. Em virtude desta exclusão, afastamo-nos da concepção da disciplina, tanto da de Scheler como da de Mannheim, e dos últimos sociólogos do conhecimento, cm especial os de orientação neopositivista, que partilharam de tal concepção. Ao longo dc todo o livro colocámos entre aspas, com d e t e r m i n a ç ã o , todas as questões e p i s t e m o l ó g i c a s ou metodológicas acerca da validade da análise sociológica na sociologia do próprio conhecimento ou em qualquer outro campo. Consideramos a sociologia do conhecimento como parte da disciplina empírica da sociologia. O nosso propósito aqui é, claro, de carácter teórico. Mas a nossa teorização refere-se à disciplina empírica nos seus problemas concretos, e não à pesquisa filosófica dos alicerces da disciplina empírica. Em resumo, o nosso empreendimento é de teoria sociológica, não de metodologia da sociologia. Apenas numa secção do nosso livro (a que se segue a esta Introdução) iremos além da teoria sociológica, mas por motivos que pouco têm a ver com a epistemologia, conforme será explicado na devida altura.

Por outras palavras, o interesse da sociologia do conhecimento tem incidido nas questões epistemológicas ao nível teórico, e nas questões da história intelectual ao nível empírico. Queremos sublinhar que não temos quaisquer reservas quanto à validade e importância desses dois conjuntos de questões. Consideramos, porém, infeliz que esta particular constelação tenha até agora dominado a sociologia do conhecimento. Opinaríamos que, como consequência, a plena significação teórica da sociologia do conhecimento tem sido obscurecida. Incluir questões epistemológicas, respeitantes à validade do conhecimento sociológico, na sociologia do conhecimento é. de certo modo, como tentar empurrar um autocarro ao mesmo tempo que viajamos nele. Sem dúvida que a sociologia do conhecimento, como todas as disciplinas empíricas que acumulam evidência pertinente à relatividade e determinação do pensamento humano, conduz a questões epistemológicas a respeito da própria sociologia, assim c o n o de qualquer outro corpo científico do conhecimento. Conforme observámos antes, a sociologia do conhecimento

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Devemos, contudo, redefinir também a tarefa da sociologia do conhecimento ao nível empírico, isto é, enquanto teoria orientada paia a disciplina empírica da sociologia. Conforme vimos, neste nível a sociologia do conhecimento tem-se ocupado da história intelectual, no sentido de história das ideias. Sublinharíamos ainda que este é, na verdade, um foco muito importante da pesquisa sociológica. Além disso, contrastando com a nossa exclusão do problema epistemológico/metodológico, aceitamos que este foco pertença à sociologia do conhecimento. Defenderemos, porém, que o problema das "ideias", incluindo o problema especial da ideologia, constitui apenas parte do problema mais amplo da sociologia do conhecimento, não sendo sequer um aspecto central.
A sociologia do conhecimento deve ocupar-se de tudo aquilo que é con-

É este "conhecimento" que constitui o tecido de significados sem o qual nenhuma sociedade poderia existir. A sociologia do conhecimento deve, portanto, empenhar-se na construção social da realidade. A análise da articulação teórica desta realidade, por certo que continuará a ser uma parte, mas não a parle mais importante, deste empenho. Ficará claro que, apesar da exclusão dos problemas epistemológicos/metodológicos, o que aqui estamos a sugerir é uma redefinição, de longo alcance, do ámbito da sociologia do conhecimento, muito mais ampla do que tudo quanto até agora tem sido entendido como constituindo esta disciplina. Coloca-se a questão de quais são os ingredientes teóricos que devem ser acrescentados à sociologia do conhecimento, que permitam que ela seja redefinida no sentido atrás indicado. Devemos a Alfred Schutz a compreensão fundamental da necessidade desta redefinição. Em toda a sua obra, como filósofo e como sociólogo, Schutz concentrou-se sobre a estrutura do mundo do senso comum da vida quotidiana. Embora ele próprio não tenha elaborado uma sociologia do conhecimento, tinha a clara percepção daquilo em que esta disciplina se deveria concentrar: Todas as tipificações do pensamento do senso comum são elementos integrais do Lebensweit concreto, histórico e sociocultural em que prevalecem, sendo dadas como asseguradas e aprovadas pela sociedade. A sua estrutura determina, entre outras coisas, a distribuição social do conhecimento e a sua relatividade e importância para o ambiente social concreto, de um grupo concreto, numa situação histórica concreta.
Encontram-se aqui os cismo e da legítimos problemas do relativismo,
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siderado "conhecimento " na sociedade. Mal se acaba de afirmar isto e logo se compreende que a focagem na história intelectual é uma má escolha, ou antes, é mal escolh ida quando se torna o foco central da sociologia do conhecimento. O pensamento teórico, as"ideías", Weltanschautmgen, não são assim tão importantes na sociedade. Embora todas as sociedades contenham estes fenómenos, eles são apenas uma parte da soma total daquilo que é considerado ''conhecimento". Em qualquer sociedade, apenas um grupo muito limitado de pessoas se dedica a teorizar, a ocupar-se dc "ideias" e a construir Weltattschauungen. Mas todos na sociedade participam, de uma maneira ou de outra, do seu "conhecimento". Dito de outra maneira, só muito poucas pessoas se preocupam com a interpretação teórica do mundo, mas todas vivem em algum tipo de mundo. Não só a concentração no pensamento teórico é, sem justificação, restritiva da sociologia do conhecimento, ela é também insatisfatória porquanto nem esta parte do "conhecimento", disponível em termos sociais, poderá ser compreendida na sua plenitude se não for enquadrada numa análise mais geral do "conhecimento". Exagerar a importância do pensamento teórico, na sociedade e na história, é uma falta típica dos tcorizadores. E isso torna ainda mais necessário corrigir esta incompreensão intelectual. As formulações teóricas da realidade, quer científicas, filosóficas ou até mitológicas, não esgotam o que é "real" para os membros de uma sociedade. Sendo assim, a sociologia do conhecimento deve antes dc mais ocupar-se com o que os homens "conhecem" como "realidade", na sua vida quotidiana, vida não teórica ou pré-teórica. Por outras palavras, o "conhecimento" com bom senso, mais do que as "ideias", deve ser o foco central da sociologia do conhecimento.

do

histori-

chamada sociologia do

conhecimento.

E ainda; O conhecimento encontra-se distribuído na sociedade c o mecanismo da distribuição pode tornar-se objecto de uma disciplina sociológica. É cerlo que temos uma, assim chamada, sociologia do conhec i m e n t o . No entanto, com muito poucas excepções, essa mal denominada disciplina abordou o problema da distribuição social do conhecimento apenas pelo ângulo dos alicerces ideológicos da verdade na sua dependência das condições sociais e, em particular, econó-

nào de teorias. Arnold Gehlen e outros. O seu interesse não está nas proposições separadas c independentes que se encontram nas obras desses homens mas num único corpo de raciocínio teórico sistemático. mais fundamental regra c: Durkheim diz-nos: "A primeira e Considerem os factos sociais como coisas. conforme já dissemos. Nas considerações que se seguem dependemos. Compreendemos bem que. cm termos de factualidade objectiva e significado subjectivo. Nào foram os sociólogos. se aquilo que dizem pode ser sustentado à luz do actual conhecimento sociológico e conhecimentos afins. Poderemos citar aqui algumas observações de Talcott Parsons (sobre cuja teoria temos sérias reservas. que gratidão histórca nào é. o nosso propósito aqui não é exegético. mas. Uma foi-nos dada por Durkheim nas Ru/es of Sociological Melhod (Regras do Método Sociológico): a outra por Weber em Wirtschafi und 27 Geseilschqft (Economia e Sociedade). mas cuja intenção integradora partilhamos por inteiro): 1 1 O objectivo principal do estudo não consiste em determinar e enunciar. Nào é tüo-pouco o de indagar. que estudaram alguns dos muitos aspectos teóricos do p r o b l e m a . uma factualidade objectiva. por conseguinte.. Já se terá tornado evidente que a nossa redefinição da sua natureza e alcance. ou a do papel social do homem Cüllo.. Os nossos postulados antropológicos são muito influenciados por Marx. de facto. Poderíamos dizer. concordamos com a sua critica de "essa mal denominada disciplina'* e derivámos dele a nossa noção básica da maneira pela qual a tarefa da sociologia do conhecimento deve ser redefinida. * Indicaremos nas Notas até que ponto estes diversos ingredientes foram usados na nossa formação teórica. embora tenhamos modificado a teoria durkheimiana da sociedade. como para a história. claro. para usar outro termo-chave de Durkheim. que seguimos. 26 A nossa finalidade. A questão central da teoria sociológica pode. ou do ângulo das implicações sociais da educação. o objecto cognitivo é o subjectivo complexo-de-significados da a c ç ã o . A nossa concepção da natureza da realidade social deve muito a Durkheim c à sua escola de sociologia francesa. cm si mesma. uma virtude científica. o que esses escritores disseram ou acreditavam em relação aos assuntos sobre os quais escreviam. " ' Estas duas afirmações não são contraditórias. de facto. que neste uso não somos. nem podíamos ser. no sentido actual. consiste em empenharmo-nos num "raciocínio teórico sistemático"*. será fazer referência a duas das mais famosas e influentes "guias de marcha" da sociologia.*" E Weber observa: "Tanto para a sociologia. em larga medida. assim como Weber conhecia o primeiro. com a introdução de uma perspectiva dialéctica derivada dc Marx e uma ênfase na constituição da realidade social mediante significados subjectivos derivados de Weber.As nossas pressuposições sociopsicológicas. são muito influenciadas por George Herbert Mead e alguns desenvolvimentos da sua obra. e pelas implicações antropológicas retiradas da biologia humana por Helmuth Plessner. nem o de fazer uma síntese só pelo valor da síntese. em especial pelos os seus primeiros escritos. Foi antes a nossa compreensão da teoria sociológica que nos levou até ã sociologia do conhecimento c orientou a maneira pela qual iríamos redefinir os seus problemas e tarefas. Compreendemos muito bem. A sociedade possui. dc forma resumida. ser enunciada desta maneira: como é possível que significados subjectivos se tornem factualidades objectivas? Ou. deslocaria a sociologia do conhecimento da periferia da teoria sociológica para o seu próprio centro. que torna a sua "realidade sui generis". É então esse duplo carácter da sociedade.28 A construção social da realidade O problema da sociologia do conhecimento 29 micas. fiéis às intenções originais destas várias correntes da teoria social. E um estudo da teoria social. Podemos assegurar ao leitor que não temos qualquer interesse pessoal no rótulo "sociologia do conhecimento*'. em relação a cada proposição das suas "teorias". aliás. em vários pontos. mas os economistas c os filósofos. Durkheim. na verdade. O melhor modo de descrever o caminho. de especial importância para a análise da interiorização da realidade social. a título de justificação. também constituída por actividades que exprimem um significado subjectivo. 25 Embora não atribuamos à distribuição social do conhecimento o pape! central que Schutz aqui implica. realizados pela chamada escola simbólico-intcraccionista da sociologia americana. cm palavras ajustadas às posições teóricas 3 . E a sociedade é. de Schutz nos prolegómenos referentes aos fundamentos do conhecimento na vida diária. violentamos certos pensadores ao integrar o seu pensamento numa formação teórica que alguns deles teriam considerado de todo estranha. tinha conhecimento deste último enunciado. c ficamos em grande divida para com a sua obra em vários pontos importantes do nosso principal argumento consequente.

e estando nós. é outra questão. o mundo da vida quotidiana. dc modo subjectivo. a análise sociológica da realidade da vida quotidiana. por conseguinte. embora de carácter teórico. enquanto ciência empírica. apenas de modo tangencial. tal como é acessível ao senso comum dos membros vulgares da sociedade. OS ALICERCES DO CONHECIMENTO NA VIDA QUOTIDIANA 1. No quadro de referência da sociologia. O nosso empreendimento. I. está orientado para a compreensão de uma realidade que constitui a matéria-prima da ciência empírica da sociologia. é possível tomar esta realidade como dado adquirido. Esta investigação. interessados em saber como esta realidade se pode apresentar aos intelectuais das várias perspectivas teóricas. constitui a tarefa da sociologia do conhecimento. Deveria. . a saber. aceitar como dados fenómenos particulares que nela surgem. uma tarefa já de ordem filosófica.30 A construção social da realidade achna mencionadas: como é possível que a actividade humana (Uandein) produza um mundo de coisas? Por outras palavras. dotada de sentido para eles. sem indagações mais aprofundadas sobre os fundamentos dessa realidade. na medida em que forma um mundo coerente. devemos começar pelo esclarecimento dessa realidade. do conhecimento que orienta a conduta na vida diária. Como sociólogos. A vida quotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens c. acentuamos. A REALIDADE DA VIDA QUOTIDIANA Sendo o nosso propósito neste livro. Mesmo assim. não podemos evitar por completo o problema filosófico. De que maneira esta realidade do senso comum pode ser influenciada pelas construções teóricas dos intelectuais e outros mercadores de ideias. ou seja. Contudo. uma adequada compreensão da "realidade sai generis" da sociedade exige investigação sobre a maneira pela qual tal realidade é construída. tomamos esta realidade como objecto das nossas análises. dado o propósito particular do presente tratado. se quisermos entender a realidade da vida quotidiana é preciso ter em conta o seu carácter intrínseco antes de podermos prosseguir com a própria análise sociológica. portanto. ser evidente que não é nosso propósito fazer filosofia.

com quem tenho de lidar no decurso da vida diária. urgente c intensa. do existir na realidade da vida quotidiana e de a apreender. capaz de se deslocar através de diferentes esferas dc realidade. constituída por uma ordem de objectos que já tinham sido designados como objectos antes da minha A análise fenomenológica da vida quotidiana. mas fazêmo-lo entre aspas fenomenológicas. deste deslocamento. Uma ilustração muito simples. isto é. esta é uma tarefa preliminar. abstém-se de qualquer hipótese causal ou genética. assim como temos de levar em conta o seu carácter de convicta infalibilidade. é por mim considerado normal e evidente. no facto de ser mordido por um cão. A minha consciência é. Nunca podemos apreender um substrato putativo da consciência enquanto tal. força-me a dar-lhe a mais completa atenção. digamos. e assim por diante. Apreendo a realidade da vida diária como uma realidade ordenada. Isto é assim. ou melhor. pelos membros vulgares da sociedade na conduta significativa de modo subjectivo. E importante lembrar este ponto. Vivo a vida quotidiana no estado de total vigília. pré e quase científicas. por conseguinte. apenas no sentido dc poder servir como ponto de partida para a análise sociológica. Quer eu (a primeira pessoa do singular. Os seus fenómenos já se encontram dispostos em padrões que parecem ser independentes da apreensão que deles faço e à qual se impõem. sobre os quais é construído o mundo mtersubjeclivo do senso comum. tenho consciência do mundo como consistindo de múltiplas realidades. Este choque deve ser entendido como causado pelo deslocamento da atenção acarretado pela transição. os processos de . de empreendermos a nossa tarefa principal. Se quisermos descrever a realidade do senso comum temos de nos referir a estas interpretações. Não é preciso debater a questão de que a consciência do Empire States Building é diferente da consciência da ansiedade. isto é. esta última impõe-se â consciência da maneira mais sólida. A realidade da vida quotidiana aparece já objectivada. devemos tentar esclarecer os fundamentos do conhecimento na vida quotidiana. O que nos interessa aqui é o carácter intencional comum a toda consciência. Objectos diferentes apresentam-se à consciência como constituintes de diferentes esferas da realidade. O senso comum contém inúmeras interpretações. mas só a consciência desta ou daquela coisa. constitui a minha atitude natural. A sua posição privilegiada confere-lhe o direito à designação de realidade predominante. experimento a transição como uma espécie de choque. Uma análise fenomenológica detalhada descobriria as várias camadas da experiência e as diferentes estruturas de significação implicadas. ter fobia de todos os cães. portanto. O método que julgamos mais adequado para esclarecer os fundamentos do conhecimento na vida quotidiana co da análise fenomenológica. pouco importando sc o objecto da consciência é vivenciado como pertencendo a um mundo físico externo ou apreendido como elemento dc uma realidade subjectiva interiorizada. das suas vidas. como tal. é o acto de acordar de um sonho. sobre a realidade quotidiana. A consciência é sempre intencional: tende sempre para. a natureza de prolegómenos filosóficos c. que lhe mantém a realidade. da experiência subjectiva da vida quotidiana. que admite serem dados adquiridos. Antes. E impossível ignorar. lembrar-se de ter sido mordido por um cão.32 A construção social cia realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 33 O mundo da vida quotidiana não é tido apenas como uma realidade garantida. e mais não podemos fazer do que esboçar os principais aspectos daquilo que acreditamos ser uma solução adequada para o problema filosófico. adequada. aqui como nas ilustrações seguintes. ou é dirigida a. pré-sociológicos. portanto. a saber: as objectivações dos processos e significados subjectivos. Por consequência. acrescente-se. A medida que me desloco de uma realidade para outra. Reconheço os meus semelhantes. Para o fim em vista. e até difícil diminuir a sua imperiosa presença. e a minha atenção em relação a eles é de natureza muito diversa. É também um mundo com origem nos seus pensamentos e acções. como pertencendo a uma realidade de facto muito diferente da que têm as figuras desencarnadas que aparecem nos meus sonhos. Os dois conjuntos de objectos introduzem tensões muito diferentes na minha consciência. assim como de asserções relativas ao estado ontológico dos fenómenos analisados. A tensão da consciência chega ao máximo na vida quotidiana. "empírico" mas não "científico". cm si mesmas. representando a autoconsciência normal na vida quotidiana) esteja a contemplar o panorama da cidade de Nova Iorque ou me torne consciente de uma ansiedade interior. Dito de outro modo. Este estado dc vigília total. Entre as múltiplas realidades há uma que se apresenta como sendo a realidade por excelência: é a da vida quotidiana. objectos. desde já. As considerações que se seguem tem. tal como entendemos a natureza das ciencias empíricas. isto é. 1 consciência implicados são intencionais em ambos os casos. um puro método descritivo c.

Mas. A linguagem usada na vida quotidiana fomece-me. um mundo que partilho junto com outros. E da maior importância também é eu saber que há uma contínua correspondência entre os meus significados c os seus significados neste mundo. Mantenho interesse. que eles também organizam este mundo cm torno do "aqui e agora" do seu estar nele e no qual têm projectos de trabalho. das quais lenho consciência. que os outros têm uma perspectiva deste mundo comum que não é idêntica à minha. o mundo em que actuo a fim de modificar a sua realidade. Mas nem todos os aspectos desta realidade são assim não problemáticos. auto-evidentes na vida quotidiana. talvez. do meu clube de xadrez até aos Estados Unidos da América. que a realidade da vida quotidiana contém zonas que não me são acessíveis desta maneira. A realidade da vida quotidiana apresenta-se-me. o meu interesse pelas zonas distantes é menos intenso e. mas este interesse é uma questão de escolha privada. que partilhamos um sentimento comum no que respeita à sua realidade. A vida quotidiana divide-se em sectores que . de forma continua. isto é. menos urgente. ou o mundo em que trabalho. não posso existir na vida quotidiana sem estar sempre em interacção e comunicação com os outros. por exemplo. o mundo da oficina se for mecânico. sou obrigado a suspender estas dúvidas enquanto existo numa rotina de vida quotidiana. vir a afectar minha vida do dia a dia. Embora possa embrenhar-me em dúvidas a respeito da sua realidade. mais do que uma necessidade imperiosa da minha vida diária. mas abarca fenómenos que não estão presentes "aqui e agora". O conhecimento do senso comum é aquele que partilho com os outros nas rotinas normais. Aquilo que me é "aqui e agora" apresentado na vida quotidiana é o realissimum da minha consciência. Sei que a minha atitude natural em relação a este mundo corresponde à atitude natural dos outros. A atitude natural é a atitude da consciência do senso comum. e enche essa vida de objectos dotados de significação. tenho de realizar um esforço deliberado e nada fácil. com os quais podem mesmo entrarem conflito. por exemplo. não se esgota nessas presenças imediatas. além disso. Dc facto. no que se passa nos laboratórios de provas da indústria automobilística de Detroit. porquanto se refere a um mundo que é comum a muitas pessoas. a linguagem delimita as coordenadas da minha vida na sociedade. ilustra este ponto. ou do cientista. ou não tenho interesse pragmático nessas zonas ou o meu interesse nelas é indirecto. Estou muito interessado no aglomerado de objectos implicados na minha ocupação diária. Vivo num lugar com uma designação geográfica. Deste modo é o meu mundo por excelência. A transição da atitude natural para a atitude teórica do filósofo. é claro. como poderia desejar fazer. como factualidade evidente e compulsiva. Esta zona contém o mundo ao meu alcance. sei que vivo com eles num mundo comum. embora menos directo. Isto significa que experimento a vida quotidiana em diferentes graus de proximidade c de distância. Esta suspensão da dúvida é tão firme que para a abandonar. em potência. fiz ou planeio fazer nele. as necessárias objectivações e determina a ordern em que estas adquirem sentido e na qual a vida quotidiana ganha significado para mim. de certo. O meu "agora" não se sobrepõe por completo ao deles. Deste modo. na medida em que podem ser. Está ai. Os meus projectos diferem dos deles. para além da sua simples presença. O mundo da vida quotidiana proclama-se a si mesmo e. de "tempo de lazer". se quero contestar esta proclamação. pois c improvável que algum dia venha a estar em algum destes laboratórios. uso instrumentos. zonas manipuláveis por mim. que são também ordenadas por meio do vocabulário. porém. a minha atenção a esse mundo é sobretudo determinada por aquilo que estou a fazer. Sei. que têm a sua designação no vocabulário técnico da minha sociedade: vivo dentro de uma teia de relações humanas. Estou sozinho no mundo dos meus sonhos. Não exige qualquer outra verificação. desde o abre-latas aos automóveis de desporto. mas o trabalho aí efectuado poderá. Neste mundo do trabalho a minha consciência é dom ¡nada pelo motivo pragmático. Este "aqui c agora" é o foco da minha atenção à realidade da vida quotidiana. Sei também. como um mundo intersubjectivo. Posso também estar interessado no que se passa em cabo Kennedy ou no espaço cósmico. mas sei que o mundo da vida quotidiana é Ião real para os outros quanto o é para mim. é evidente. Sei que c real. na contemplação teórica ou religiosa. O meu "aqui" é o "lá" deles. tenho de realizar uma transição extrema. espacigl e temporal.34 A construção socio/ da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 35 entrada em cena. A mais próxima de mim é a zona da vida quotidiana a que a minha manipulação corporal tem acesso directo. que também eles compreendem as objectivações graças às quais este mundo é ordenado. A realidade da vida quotidiana está organizada em torno do "aqui" do meu corpo c do "agora" do mcu presente. Esta intersubjectividade diferencia com nitidez a vida quotidiana de outras realidades. A realidade da vida quotidiana é admitida como sendo a realidade. De qualquer modo. A realidade da vida diária. Em geral.

é claro. tanto o das brincadeiras das crianças como. desde que aquilo que aparece como problema não pertença a uma realidade muito diferente (por exemplo. O conhecimento do senso comum contém uma multiplicidade de instruções sebre a maneira de o fazer. sublinhar que a realidade da vida quotidiana conserva a sua situação dominante mesmo quando esses "transes" ocorrem. dactilografar em secretárias próximas da minha no escritório. pode lidar. de que disponho para a objectivaçâo das minhas experiências. Se. A experiência estética e religiosa é rica cm produzir transições desta espécie. não abandono a realidade da vida quotidiana. cm qualquer caso. ou seja. marcados por significados e modos de experiência circunscritos. Quando isto acontece. Por outro lado. porém. por mais vivida que tenha sido a representação momentos antes. alicerça-se na vida . com mais acutilância ainda. ou não. não problemático. muito conhecedor de todos os carros de fabricação americana. E importante. Encontro-me agora em face de um problema que ultrapassa os limites da realidade da vida quotidiana e indica uma realidade por completo diferente. que entraram num mundo que já não é o mundo comum da vida quotidiana. De facto. Comparadas à realidade da vida quotidiana. Enquanto as rotinas da vida quotidiana continuaiem sem solução de continuidade são apreendidas como não problemáticas. há um certo número de possibilidades que o meu conhecimento cm senso comum é capaz de reintegrar nas rotinas não problemáticas da vida quotidiana: podem estar a discutir a maneira de consertar uma máquina de escrever avariada ou alguém pode ter instruções urgentes dadas pelo patrão. A realidade da vida quotidiana abrange os dois tipos de sectores. Por exemplo. por exemplo. O teatro fornece uma excelente ilustração desta actividade lúdica de adultos. Tornam-se problemáticos se interrompem estas rotinas. o problema que se apresenta é ainda de outra espécie. chamado "transe". à realidade predominante da vida quotidiana. posso pensar que estão a discutir uma directriz do sindicato para entrarem cm greve. estou agora confrontado com problemas que não tinha ainda tomado rotina. a linguagem assegurá-lo-ia. isto é. Todos as áreas finitas de significação se caracterizam por um desviar de atenção da realidade da vida contemporânea. da minha vida diária. Isto é evidente nos casos já referidos. por assim dizer. Embora haja. juntando-se num canto a cochichar. com os seus significados próprios e uma ordem que pode ter. Quando o pano desce. aparece alguém na oficina e pede-me para consertar o seu Volkswagen. Ao questionar o que significa esta actividade invulgar. Mas. muito a ver com a ordem da vida quotidiana. coisa que ainda está fora da minha experiência. e a consciência volta sempre para a realidade dominante como se regressasse de uma excursão. chegar à conclusão de que os meus colegas foram atacados de loucura colectiva. por exemplo. A transição entre as realidades é marcada pelo levantar e pelo cair do pano. com propriedade. Sc nada mais houvesse. cm comparação com a qual a realidade apresentada no palco aparece agora ténue e efémera. as outras realidades aparecem como regiões delimitadas de significação. "Comutações" semelhantes ocorrem entre o mundo da vida quotidiana e o mundo lúdico. claro. etc. De facto. o espectador é "transportado para um outro mundo"'. Tudo quanto se refere a estes é um aspecto rotineiro. e não procurando apenas reintegrá-la no sector não problemático da vida quotidiana. Produz-se uma transformação de base na tensão da consciência. Sou agora obrigado a entrar no mundo problemático dos carros de construção estrangeira. certo dia.36 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 37 são apreendidos por rotina e outros que se me apresentam com problemas de um ou outro tipo. a realidade da vida quotidiana procura integrar o sector problemático dentro daquilo que já não é problemático. Mas mesmo o seetor não problemático da realidade quotidiana só o é assim até nova situação. A realidade dom inante envolvc-os por todos os lados. Ao mesmo tempo. No contexto da experiência religiosa isto já foi. mas dentro do circulo dos problemas com os quais a minha consciência. o espectador "regressa à realidade". a passagem para uma área dc significação delimitada é de natureza muito mais radical. A medida que o pano se levanta. a conclusão de que os meus colegas enlouqueceram implica. como um problema. como na realidade dos sonhos c na do pensamento teórico. porém. esta enriquece-se quando começo a incorporar-lhe o conhecimento e as capacidades necessários para consertar carros de fabricação estrangeira. ipsofacto. na medida cm que arte e religião são produtores endémicos de áreas delineadas de significação. a realidade da física teórica e a dos pesadelos). Suponhamos que eu sou um mecânico de automóveis. enclaves dentro da realidade dominante. com senso comum. A linguagem comum. deslocações de atenção dentro da vida do dia a dia. Posso faze-lo com relutância ou com curiosidade profissional mas. os outros com quem trabalho não são problemáticos para mim enquanto executam as suas rotinas familiares tidas como certas. o dos adultos. Tratará da questão. entretanto. até que a sua continuidade seja interrompida pelo aparecimento de um problema.

Excederia em muito o âmbito destes prolegómenos entrar na análise detalhada desses níveis de temporalidade intra-subjectiva. De facto. Já aí estava antes de eu nascer e aí continuará depois de eu morrer. não posso fazer determinado exame antes de ter cumprido certos programas educativos. este conhecimento introduz nos meus projectos uma ansiedade subjacente. E fácil dc ver que a estrutura temporal da vida quotidiana é muitíssimo complexa. Ou. "traduzo" as experiências não quotidianas em realidades dominantes da vida diária. Conforme indicámos. Tanto o meu organismo quanto a minha sociedade me impõem. comecei a trabalhar pouco . todos eles. à minha vontade. Não posso inverter. Mais importante para o nosso propósito presente é a estrutura temporal da vida quotidiana. como já foi indicado. o físico. contudo. Assim. O tempo-padrão pode ser compreendido como a intersecção entre o tempo cósmico e o seu calendário estabelecido pela sociedade. Entretanto. Sei que vou ficando mais velho.38 A construção social da realidade Os aliceixes do conhecimento na vida quotidiana 39 quotidiana e continua a apontar para cia mesmo quando a utilizo para interpretar experiências em áreas delimitadas de significação. é coerciva. Assim. Pode mesmo acontecer que esta seja a última ocasião em que tenho a oportunidade de participar. entrei para a escola noutra data. mas tenho de esperar que se cure o meu joelho magoado. Isto pode ser.s criações e o místico a respeito dos seus encontros com o divino. O conhecimento da minha morte inevitável toma este tempo finito para mim. como não desejo morrer. Toda a minha existência neste mundo está sempre a ser ordenada pelo seu tempo. baseado nas sequencias temporais da natureza e no tempo interior. com as suas diferenciações atrás mencionadas. E possível estabelecer diferenças entre níveis distintos desta temporalidade. conforme nos indica com clareza a experiência do esperar. e assim por diante. A mesma estrutura temporal. A temporalidade é uma propriedade intrínseca da consciência. Todo o indivíduo tem consciência de um fluxo interior do tempo. O fisicoteórico diz-nos que o seu conceito de espaço não pode ser transmitido por meios linguísticos. será '"típico" que eu distorça a realidade destas últimas logo que começara usar uma linguagem comum para as interpretar. certas sequências de acontecimentos que envolvem espera. e esta "localização" configura dc modo decisivo a minha situação. porque os diferentes níveis da temporalidade presente ao nível empírico têm de ser correlacionados de modo contínuo. ainda. o artista e o místico. comecei a trabalhar como profissional noutra ainda. estéticos ou religiosos. A minha espera tornar-se-á ansiosa na proporção em que a finitude do tempo se impõe ao meu projecto. O mundo da vida quotidiana é estruturado tanto em lermos espaciais como temporais. e ao meu tempo interior. visto em termos de sonhos. um dos seus importantes problemas é interpretar a coexistência desta realidade com os enclaves da realidade em que se aventuram. que por sua vez assenta nos ritmos fisiológicos do organismo. que fica acessível em termos intersubjectivos. Apercebo-me do tempo que encontro na realidade diária como contínuo e finito. com a qual tenho de sincronizar os meus próprios projectos. Bastará referir que tem também uma dimensão social em virtude do facto da minha zona de manipulação entrar em contacto com a dos outros. devo esperar até que certos papéis sejam despachados. A estrutura temporal da vida quotidiana apresenta-se-me como uma factualidade com que tenho de contar. entrei para a escola pouco antes da revolução. A estrutura espacial tem pouca importância nas nossas presentes considerações. as sequências por ela impostas: "Tratar primeiro das primeiras coisas" é um elemento essencial do meu conhecimento da vida quotidiana. e esse conhecimento afecta a minha atitude em relação a esses projectos. estão todas "situadas" numa história muito mais ampla. vivem também na realidade do quotidiano. está dc facto envolta nele. para que a m inha inscrição no acontecimento se torne oficial. tal como o artista diz em relação ao significado das su?. A minha própria vida é um episódio numa corrente artificial externa do tempo. não posso exercer a minha profissão antes de prestar essa prova. Também. Estas datas. uma vez que nos está acessível de modo intra-subjectivo. istoé. Posso desejar tomar parte num acontecimento desportivo. Assim. o sonhador. porém. a intersubjectividade tem também uma dimensão temporal na vida quotidiana. isto é. A corrente de consciência é sempre ordenada no tempo. etc. 0 mundo da vida do dia a dia tem o seu próprio padrão de tempo. Só disponho de certa quantidade de tempo para a realização dos meus projectos. Nasci em certa data. Também a mesma estrutura temporal fornece a historicidade que determina a minha situação no mundo da vida quotidiana. Por conseguinte. com facilidade. nasci no ano do grande colapso bancário no qual o meu pai perdeu a fortuna. mas é também típico das pessoas que procuram relatar mundos de significação teóricos. não posso repetir por tempo indeterminado a minha participação em acontecimentos desportivos. embora não se identifique com estes. Nunca poderá haver completa simultaneidade entre estes diversos níveis de temporalidade.

O meu e o seu "daqui e agora" estão sempre a impor-se um ao outro. E uma típica resposta "de espelho" às atitudes do outro. Isto significa que. eles serão modificados de maneira contínua devido ao variadíssimo e subtil intercâmbio de significados subjectivos que têm lugar. um "homem do meu tempo". quando de facto está a escarnecer. De facto. etc. Por conseguinte. a sua tónica de realidade. Posso pensar que o outro sorri. O outro. na situação de frente a frente. Na situação de frente a frente o outro é. nenhuma outra forma de relacionamento social pode reproduzir a plenitude de sintomas da subjectividade presente na . Todas as outras formas de relacionamento com outrem são. Sei que no mesmo vívido presente lhe sou apresentado. um acidente de automóvel em que fiquei incorseiente). na situação de frente a frente. em casos em que posso sentir-me "desorientado". A minha subjectividade é-me acessível de um modo como a dele nunca poderá ser. no seu conjunto. O meu passado é-me acessível de memória. "aquilo que sou" nao é assim acessível. chegando talvez a um ponto em que me veja obrigado a abandonar esse padrão por ser inaplicável e passar a ver o outro como amigável. Na situação de frente a frente. esta reflexão sobre mim mesmo é essencialmente desencadeada pela atitude para comigo que o outro exibe. etc. Mais ainda. "aquilo que ele é" fica-me acessível dc modo presente. posso ver o outro como alguém com inerente hostilidade em relação a mim e agir para com clc de acordo com um padrão de "relações hostis". detenha a contínua espontaneidade da minha experiência e. Acontece que as relações com os outros. Contudo. Olho para o relógio e procuro lembrar-me que dia é. e esta contínua reciprocidade de actos expressivos está acessível a ambos. ao mesmo tempo. Sejam quais forem os padrões introduzidos. Mas este "melhor conhecimento" de mim próprio exige reflexão. Só aqui é que a subjectividade do outro fica. sinto uma necessidade quase instintiva de me "reorientar" dentro da estrutura temporal da vida quotidiana. Como consequência. enquanto durar a situação de frente a frente. "remotas". Esta acessibilidade é ininterrupta e antecede a reflexão. na situação de frente a frerte. partilhado por nós dois. de facto. há um intercâmbio contínuo da minha expressividade com a dele. no pleno sentido da palavra. pode-se dizer que o outro. Por outro lado. Todas as minhas expressões se orientam na sua direcção e vice-versa. Dentro das coordenadas estabelecidas por esta estrutura temporal. A mais importante vivência de outros ocorre na situação de frente a frente. Não me é apresentado de imediato. por completo. Entretanto. Esta realidade é parte da realidade global da vida quotidiana e. A estrutura temporal da vida quotidiana não só impõe sequências preestabelecidas ã minha "agenda" de qualquer dia mas impõe-se também à minha biografia. Na situação frente a frente o outro c apreendido por mim num vívido presente. o padrão não pode resistirá tangível demonstração da subjectiviv 2. por qualquer motivo (sofri. faça incidir a minha atenção sobre mim próprio. com uma plenitude com que nunca poderei reconstruir o passado dele. para mim. porém. tal como o entendo. por exemplo. parando de sorrir. é bastante difícil impor padrões rígidos numa interacção frente a frente. Vejo-o sorrir e a seguir reagir à minha expressão sisuda. Assim. apreendo tanto a "agenda" diária quanto a minha biografia completa. como tal. sem que eu o tenha encontrado frente a frente. a subjectividade do outro me fica acessível através dc um máximo de sintomas. Todos os restantes casos derivam deste. quando o encontro cara a cara. Bastam esses actos para retornar à realidade da vida quotidiana. Por exemplo. Por outras palavras. são muitíssimo flexíveis. Só nesta estrutura temporal é que a vida diária conserva. "próxima". A INTERACÇÃO SOCIALNA VIDA QUOTIDIANA A realidade da vida quotidiana é partilhada com outros. É certo que posso interpretar mal alguns desses sintomas. Dito de maneira negativa. depois sorrindo de novo quando eu também sorrio. O relógio e calendário confirmam que eu sou.40 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana A1 depois de irromper a Segunda Guerra Mundial. situação de frente a frente. Mas de que modo serão esses outros vivenciados na vida quotidiana? Também aqui é possível estabelecer diferenças entre vários modos dessa experiência. tangível e premente. só se torna real para mim. Para tomá-lo acessível é preciso que cu pare. o outro pode enfrentar-me com atitudes e actos que contradizem esse padrão. é mais real para mim que eu próprio. real. é-me assim apresentado. É evidente que "me conheço melhor" do que jamais poderei conhecê-lo. por mais que mo descreva. porém. em graus variáveis. o protótipo da interacção social. por exemplo por reputação ou por me corresponder com ele. na situação de frente a frente. E certo que o outro pode ser real para mim. de modo deliberado. de facto. por mais "íntima" que seja a nossa relação.

ate mesmo esta está. Sem dúvida que c possível interpretar mal as intenções do outro. para posterior apreciação. o inglês. Por outras palavras. Ou seja. pelo menos certos aspectos da sua conduta como resultantes dessa tipificação: os seus gostos em matéria de comida são típicos dos ingleses. As tipificações do outro são tão susceptíveis a interferências da minha parte como as minhas o são por parte dele. num comboio). O oulro também me apreende de uma maneira tipificada. os meus encontros com outros. como a mantida por correspondencia. como "inglês"). assim como é possível que ele. Entretanto. esconda as suas intenções. (Podemos deixar de lado. enquanto não me encontrar com o outro. claro. recíprocos. isto é. à partida. cia própria. um "indivíduo insinuante". Um aspecto importante da experiência dos outros na vida quotidiana é. por exemplo. contudo. bem como as suas maneiras. ou nunca aconteceu (os meus concorrentes comerciais cm Inglaterra). Ma vida diária esta "negociação"" é provável que esteja predeterminada dc uma maneira característica. mesmo na situação de frente a frente. Nas situações cara a cara tenho evidência directa do A realidade da vida quotidiana contem esquemas tipificadores cm termos dos quais apreendemos os outros e "lidamos" com eles nos encontros frente a frente. a maior parte das vezes. que não têm uma base comum de vida quotidiana. por pouco tempo. A nossa interacção cara a cara será modelada por estas tipificações. Em contraste. Por outro lado. que conheci quando eu era estudante num curso superior). enquanto o meu amigo Henry se mantiver acessível a mim na plenitude de expressividade da situação frente a frente. é de facto uma expressão de desprezo pelos americanos em geral e pelos vendedores americanos em particular. dc acordo com essa alteração. substantiva c realista.) 1 Üs esquemas tipificadores que entram nas situações frente a frente são. Mesmo numa relação de certo modo "próxima'". que tais características e acções do meu amigo Henry sejam atributos de qualquer pessoa da categoria dos ingleses.42 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 43 dade do outro que se me apresenta. como o meu amigo Henry. como "homem". "vendedor". uma anonimidade incipiente. apesar de ser "homem". pelo menos enquanto não se tomarem problemáticas por interferência da parte do outro. apenas porque na correspondência não disponho da presença imediata. "europeu" e "comprador". os casos dc interacção entre completos estranhos. Sc tipificaro meu amigo Henry como membro da categoria X (por exemplo. é-me muito mais fácil ignorar essa evidencia. mesmo na situação de frente a frente. apreendo outrem como "homem". Em qualquer momento é possível distinguir entre companheiros com os quais interajo em situações frente a frente e outros que são meros contemporâneos. dos quais tenho uma recordação mais ou menos detalhada. sujeita a um padrão se tiver lugar dentro das rotinas da vida quotidiana. frente a frente. Todas estas tipificações afectam de maneira contínua a minha interacção com o outro quando. é também um farisaico moralista. como é natural. então. "comprador". da sua expressividade. Neste ponto. como no típico processo de regateio entre compradores e vendedores. consigo com mais facilidade rejeitar os protestos dc amizade do outro como não representando dc facto a sua atitude subjectiva para comigo. embora esses esquemas sejam mais "vulneráveis" â interferência dele do que em formas "mais remotas" de interacção. decido levá-lo a divertir-se na cidade antes dc tentar vender-lhe o meu produto. tanto a interpretação errada como a "hipocrisia" são mais difíceis de manter na interacção frente a frente do que em fornias menos "próximas" de relações sociais. é evidente que o meu esquema lipificador terá de ser modificado e a noitada planeada de maneira diferente. As tipificações da interacção social tornam-se cada vez mais anónimas à medida que se afastam da situação de frente a frente. Mas. etc. Assim. na situação de frente a frente. apreendo o outro por meio de esquemas típiílcadores. são típicos em duplo sentido: apreendo o outro conto um tipo. típica. conquanto seja difícil impor padrões rígidos na interacção frente a frente. "europeu". etc. O anonimato dc tipo é evidente que será menos susceptível a esta espécie de individualização quando a interacção frente a frente é um assunto do passado (o meu amigo Henry. apreendo estes aspectos do seu ser em termos anónimos. logo atípico. e que aquilo que a princípio parecia jovialidade. etc. manifestando-se como indivíduo único. ipso facto. os dois esquemas tipificadores entram em contínua "negociação". num frente a frente. com "hipocrisia". e interajo com ele numa situação. Isto implica. ele continuará a interferir com o meu tipo de inglês anónimo. no dia a dia. o carácter directo ou indirecto dessa experiência. ou que conheço apenas de ouvir falar. "americano". Assim ele pode vir a revelar que. algumas das suas reacções emocionais. Assim. De qualquer modo. "do tipo jovial". . interpreto. ou é de carácter superficial e transitório (o inglês com quem conversei. Toda a tipificação acarreta. contínua. as tipificações serão mantidas até nova ordem e determinarão as minhas acções na situação. a menos que haja uma alteração.

o anonimato pode tornar-se quase total com certas tipificações jamais destinadas a tornarem-se individualizadas. podem fundir-se naquele "grupo dos coitrfs" enquanto o último se destaca como indivíduo único. a rainha de Inglaterra). outros recordo como seres humanos concretos que encontrei no passado (a loura com quem me cruzei na rua). anónimas por completo. com frequência e intensidade. permitindo que se prolonguem para . "os meus antepassados emigrantes" e ainda mais os "egrégios avós". Tais objectivações servem dc índices mais ou menos persistentes dos processos subjectivos dos seus produtores. Há evidentes diferenças nas minhas experiências relativas a simples contemporâneos. em intenção das gerações futuras. Um ponto mais deve ainda ser referido. a estrutura social é um elemento essencial da realidade da vida quotidiana. E. depende contudo dc outro factor ainda. A realidade social da vida quotidiana é portanto apreendida num contínuo de tipificações que. com regularidade {o meu amigo Henry). No outro pólo estão abstracções. O anonimato aumenta à medida que passo dos primeiros para os últimos. Ele pode manter-se. Alguns deles são pessoas com quem tenho repetidas vivências em situações frente a frente e que espero encontrar mais vezes. O grau de interesse c o grau de intimidade podem combinar-se para aumentar ou diminuir o anonimato da experiência. ao passo que as tipificações dos predecessores têm ao menos algum conteúdo. O grau de anonimato que caracteriza a vivência dc outros. O anonimato destes dois conjuntos de tipificações não impede. isto é. não é tudo. sou obrigado a terem conta os meus semelhantes nas situações frente a frente. enquanto para simples contemporâneos posso dirigir os meus pensamentos. que entrem como elementos na realidade da vida quotidiana. Posso ler relações sociais bastante inlimas com vários membros do meu clube de tenis e relações muito formais com o meu patrão. Entre estes últimos è possível ainda distinguir entre prováveis parceiros em situações frente a frente (os meus concorrentes comerciais ingleses) e parceiros potenciais mas improváveis (a rainha de Inglaterra). embora não possamos desenvolvê-lo aqui. quase de todo destituídas de conteúdo individualizado. mas não sou obrigado a isso. porém. A LINGUAGEM E O CONHECIMENTO NA VIDA QUOTIDIANA A expressividade humana é capaz de objectivação. embora dc modo algum anónimos. conquanto dc natureza muitíssimo mitica. Enfim. Num pólo do contínuo eslão aqueles com os quais. Contudo. Isto. posso sacrificar a minha vida por lealdade aos "egrégios avós" ou. na vida quotidiana. das suas acções. Também me relaciono com antecessores c sucessores. a "amplitude" da tipificação. Já o mesmo não acontece no caso dos contemporâneos: deles tenho um conhecimento mais ou menos fiável. se vão tornando anónimas à medida que se distanciam do "aqui e agora" da situação frente a freme. entro em acção recíproca. Vejo o ardina da esquina com tanta regularidade como vejo a minha mulher. 3. ele. como elementos de um mundo comum. Mas ele é menos importante para mim c não tenho intimidade com ele. manifesta-se em produtos da actividade humana que estão ao dispor tanto dos produtores quanto dos outros indivíduos. atribuios. de modo progressivo. como o "leitor típico do Times. por fim. Além disso. anónimo para mim. os primeiros. Outros ainda sei que são seres humanos concretos. e portanto o seu anonimato. porque o anonimato das tipificações por meio das quais apreendo os semelhantes em situações de frontalidade está sempre a ser '"preenchido" pela multiplicidade de vívidos sintomas referentes a um ser humano concreto. em situações frente a frente: o meu "círculo interior". por assim dizer. Estas tipificações são projecções vazias dc substância. pode ser ainda mais alargada se falarmos da "opinião pública inglesa". que pela sua própria natureza nunca se poderão encontrar numa interacção frente a frente. de Londres". mais ou menos anónimas (os meus concorrentes comerciais ingleses. A estrutura social é o somatório dessas tipificações c dos recorrentes padrões de interacção estabelecidos pelo seu intermédio.44 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento nu vida quotidiana 45 meu companheiro. são tipificados de maneira ainda mais anónima: os "filhos dos meus filhos" ou "as gerações futuras". As minhas relações com os outros não se limitam aos conhecidos e contemporâneos. de certo modo. porém. Também podem influenciá-la de modo independente. Os meus sucessores. relaciono-me com os meus antecessores mediante tipificações quase anónimas. com o mesmo sentido. aqueles oulros que me precederam e me seguiram na história global da minha sociedade. mas o encontro foi rápido e é muito provável que não se repita. por motivos compreensíveis. Enquanto tal. mas só posso apreendê-los por meio dc tipificações cruzadas. Afinal. por vezes de maneira muito decisiva. Excepto aqueles que são relações pretéritas (o meu falecido amigo Henry).

de origem. uma arma pode ter sido produzida com o fim de caçar animais. as intenções subjectivas de homens cuja sociedade pode estar extinta há milénios. A realidade da vida quotidiana não é apenas preenchida por objectivações. a partir de um artefacto. a arma é ao mesmo tempo um produto humano e objeclivação de uma subjectividade humana. num uso cerimonial) tomar-se sinal de agressividade e violência em geral. se deixar o objecto onde está posso vê-lo de novo na manhã seguinte e de novo me exprime a cólera do homem que a lançou. Os sinais e os sistemas de sinais são objectivavões. porque me . Estou sempre rodeado por objectos que "proclamam" as intenções subjectivas dos meus semelhantes. Por exemplo. outras pessoas podem vir ver a faca e chegar à mesma conclusão. acessível de modo objectivo. uma atitude subjectiva de cólera lem uma expressão directa na situação presencial através de um certo número de índices corporais: fisionomia. Os mesmos índices são incapazes de sobreviver para além do presente vivido. a servir como sinais. O caso especial da magia. Pelo exposto. Reconheço o seu significado. ou seja. porém. pode ser objectivada por meio de uma arma. Um tal sinal. um sinal. na objectivação é o significado. Por conseguinte. em vez de lançai* a faca contra mim (acto que se suporia ter por inienção matar-me. no sentido de serem de modo objectivo acessíveis para além da expressão de intenções subjectivas "aqui e agora". sem dúvida. Por outras palavras. Qualquer etnólogo ou arqueólogo pode com presteza dar testemunho destas dificuldades. Por exemplo. embora possa às vezes ter dificuldade em saber ao certo o que um objecto particular está a " proclamar". de vários conjuntos de artefactos materiais. Permite-me aceder à sua subjectividade. mas que também é concebível que tivesse a intenção de apenas significar essa possibilidade). cm que há uma fusão muito interessante desses dois usos. supúnhamos. tal como acontece com os outros. executar uma dança que significa inienção agressiva é algo muito diferente de gritar ou cerrar os punhos num acesso de cólera. mas de importância crucial. há sistemas de sinais gestieulatórios. Por exemplo. que partilho com o meu adversário c com outros indivíduos. cia só é possível graças a elas. em esDecial se fo i produzido por pessoas que não conheço bem. e também permanece acessível ao seu produtor como "recordação" objectiva da sua intenção original ao fazê-lo. A arma. postura geral do corpo. Suponhamos que tive uma altercação com outro indivíduo. a faca na minha parede tornou-se um constituinte da realidade. exprime a ira do meu adversário. é uma prova eloquente do duradouro poder das objectivações humanas. conlinua a exprimir uma intenção geral de cometer violência. movimentos específicos dos braços e dos pés. mas pode depois (por exemplo. de modo objectivo. quer moiivada pela cólera quer por considerações utilitárias. objecto qua. de estarmos agora em estado oficial de inimizade. Este "desligamento" das expressões imediatas da subjectividade também se aplica aos sinais que requerem a presença intermedianle do corpo. Estes últimos actos exprimem a minha subjectividade "aqui c agora". E de supor que esta faca não foi produzida com o propósito exclusivo de ser lançada contra mim. o meu adversário poderia ter pintado um X negro na minha porta.46 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 47 além da situação frente a frente em que podem ser apreendidas em directo. visível na realidade comum que essa pessoa e cu partilhamos junto com outros indivíduos. Nessa noite acordo com uma faca espetada na parede por cima da minha cabeceira. Assim. de movimentos corporais padronizados. Assim. Os sinais agrupam-se num ceno número de sistemas. ou até nunca conheci em situação de frente a frente. Um sinal pode distinguir-se de outras objectivações pelo seu intento explícito de servir de índice a significados subjectivos. a produção humana de sinais. mesmo quando não produzidas com essa intenção inicial. reccnhecívcl por qualquer pessoa conhecedora do que é uma arma. Sem dúvida. como seja matar para comer. da situação frente a frente. Estes índices permanecem disponíveis na situação frente a frente. Com efeito. A cólera. Um caso especial. etc. etc. que deu amplas provas expressivas da sua raiva contra mim. enquanto o primeiro pode estar muito afastado dessa subjectividade: posso nem estar zangado ou agressivo nesse momento. Mas há certas objectivações. mas apenas a tomar parle na dança. mas o próprio facto de poder superá-las e reconstruir. embora eu estivesse a dormir quando ele a lançou e nunca chegasse a vê-lo porque fugiu depois de quase me ler atingido. iodas as objectivações são susceptíveis de serem utilizadas como sinais. destinadas. Mais ainda. não será aqui objeclo do nosso interesse. objecto qua do mundo real. Mas exprime uma intenção subjectiva de violência. cuja finalidade não vai além de indicar uma inienção subjectiva de quem o fez. é lambem. sendo essa a razão pela qual me proporcionam a situação ideal para ter acesso à subjectividade do outro. A faca. fica evidente que há uma grande fluidez cnlre o uso instrumental e o uso significativo de certas objectivações.

Esta capacidade da linguagem de cristalizar e estabilizar. que se podem preservar no tempo e transmitir às gerações seguintes. não só para o meu interlocutor mas também para mira próprio. do que qualquer outro (um sistema de mímica. o aglomerado de significados referentes. embora estas expressões vocais sejam capazes de se tomarem linguísticas. a minha própria subjectividade é conservada (embora com modificações) mesmo quando a linguagem está desligada da situação frente a frente. Outra maneira de dizer o mesmo é recordar o que antes foi dito sobre o eu ter "melhor conhecimento" do outro. Os sinais e sistemas de sinais são todos caracterizados pelo •'desprendimento''. e encontra a sua referência primária. A linguagem. Na situação frente a frente a linguagem possui uma inerente qualidade de reciprocidade que a distingue de qualquer outro sistema de sinais. uma proximidade íntersubjectiva na situação frente a frente. é óbvio que uma dança é menos desligada do que um artefacto material com o mesmo significado subjectivo. de maneira objectiva e contínua e. em comparação com o conhecimento que tenho de mim mesmo. a linguagem é capaz de se tomar o repositório objectivo de vastas acumulações de significados e experiências. A linguagem tem origem. nem terei. ipsofacto. por exemplo). Assim. Mais ainda. Esta característica muito importante da linguagem é bem captada no ditado que diz que as pessoas devem falar delas próprias até se conhecerem a si próprias. este torna-sc-mc acessível de maneira tangível e contínua. referindo-se sobretudo à realidade que experimento com a consciência em pleno estado de vigília. A independentização da linguagem consiste muito mais na sua capacidade de comunicar significados que não são expressão directa de subjectividades "aqui e agora". mas a sua imensa variedade e complexidade tomam-na muno mais fácil de destacar de uma situação frente a frente. sem dúvida. ao longe. na situação frente a frente. que pode ser aqui definida como um sistema de sinais vocais. por assim dizer. ao objectivar o meu próprio ser. por meio da linguagem. experiência directa. que é dominada por motivos pragmáticos (isto é. com espontaneidade. Tanto a dança como os gritos são manifestações de expressão corporal. ao passo que os gritos do indivíduo não podem. A vida do dia a dia é sobretudo vida com a linguagem e por meio da linguagem que partilho com os meus semelhantes. um sistema de sinais de segundo grau). Ambos ouvimos o que cada um diz no mesmo instante. Não apenas porque posso gritar no escuro ou. mas podem ser diferenciados em termos do grau em que se podem desligar das situações frente a frente. Deste modo. sincronizado c recíproco acesso às nossas duas subjectividades. comparada com a exigência de reflexão para alcançar o meu próprio ser. mas pode ser autonomizada desta com facilidade. A linguagem tem origem na situação frente a frente. na vida quotidiana. falar peio telefone. A compreensão da linguagem é. por conseguinte. é o mais importante sistsma de sinais da sociedade humana. pela rádio ou transmitir um significado linguístico por meio da escrita (esta constitui. Falo como penso e o mesmo faz o meu interlocutor. Ela assenta. Ainda não é linguagem quando rosno. grunho. que parece paradoxal. inclusive assuntos dos quais nunca tive. mas só a primeira tem o carácter de sinal disponível de modo objectivo. Os meus próprios significados subjectivos tornam-se atingíveis por mim. que nenhum outro sistema de sinais consegue duplicar. passam a ser "mais reais" para mim. Este facto. a dança pode ser separada da subjectividade do dançarino.48 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 49 pagam para o fazer por conta de alguém que eslá encolerizado. na capacidade intrínseca do organismo humano para a expressividade vocal. foi antes explicado pela acessibilidade tangível. Ora. na situação frente a frente. Por outras palavras. essencial para a compreensão da realidade quotidiana. respondera esse outro sem a "interrupção" da reflexão deliberada. para mim. Posso falar de inúmeros assuntos que não estão de modo algum presentes na situação frente a frente. de maneira directa. ouço-mc enquanto falo. mas só podemos começar a falar de linguagem quando as expressões vocais começam a ser capazes de destacar-se do imediato "aqui e agora" dos estados subjectivos. na medida cm que se integrem num sistema de sinais praticável às maneira objectiva. o que torna possível um contínuo. uivo ou siivo. Pode-se dizer. a acções presentes ou futuras) e que partilho com outros de uma maneira que se assume como evidente. Embora a linguagem possa também ser empregue . ao mesmo tempo que assim se toma também acessível ao outro e posso. por isso. A contínua produção dc sinais vocais em conversa pode ser sincronizada de modo sensível com as intenções subjectivas correntes dos participantes da conversa. Partilha esta capacidade com outros sistemas de sinais. As objectivações comuns da vida quotidiana são mantidas de modo predominante pela significação linguística. contínua e pré-reflexiva do ser do outro. que a linguagem toma "mais real" a minha subjectividade.

cm interacção frontal. A sua simples menção já representa . mas indivíduos do passado relembrado ou reconstituído. a linguagem tem a qualidade da objectividade. a arte e a ciência são os sistemas de símbolos deste género mais importantes em termos históricos. Não posso usar as regras da sintaxe alemã quando falo inglês. Por outras palavras. em termos subjectivos. A religião. de momento. mais do que da sua própria realidade particular. ainda que prefira os meus "impróprios" padrões privados. tenho uma discussão com a minha sogra. Tenho de ter em consideração os padrões dominantes da fala correcta nas várias ocasiões. reais de maneira não só objectiva mas também subjectiva. neste momento. Estão "localizados" numa realidade mas "referem-se" a outra. e o modo linguístico pela qual se realiza esta transcendência pode ser chamado de linguagem simbólica. e posso conversar com ele a respeito de indivíduos e colectividades com os quais não estamos. estão ausentes cm termos físicos. mas qualquer um (ou antes. mesmo quando estou "a falar comigo" em pensamento solitário. a totalidade de um mundo pode ser actualizada. assim como outros projectados no futuro. Por exemplo. o que será abordado dentro em breve. Esta integração transpõe a realidade distinta do sonho para a realidade da vida quotidiana. Dentro desta tipificação ela faz sentido para mim. As transcendencias têm dimensões espaciais. uma vasta acumulação de experiências e significados pode ser objectivada no "aqui e agora". como figuras imaginárias. Ao nível do simbolismo. as suas raizes na realidade do senso comum da vida diária. porém. Ipso facto. temporais e sociais. presume-se. para mim. a significação linguística alcança aí a máxima independência do "aqui e agora" da vida quotidiana. em princípio. na ordem da vida quotidiana. Encontro a linguagem como uma factualidade externa a mim próprio. mas também. Como resultado destas transcendencias. por meio da linguagem. Pode referir-se a experiências pertencentes a áreas limitadas de significação e abarcar esferas diferenciadas da realidade. mesmo assim. posso interpretar "o significado" de um sonho integrando-o. para a minha sogra. Por exemplo. A mesma tipificação. A linguagem também tipifica as experiências. O sonho fica agora dotado de sentido em termos da realidade da-vida quotidiana. o que me permite objectivar um grande número de experiências que vêm ao meu encontro no decurso da vida. Desta maneira. não apenas os meus semelhantes que. tipifica-se em linguística sob a categoria de "problemas com a sogra". a linguagem tem um flexibilidade expansiva. Por meio da linguagem posso transcender o hiato entre a minha área de manipulação ca de outrem. Devido ã sua capacidade dc transcender o "aqui e agora". e a linguagem eleva-se a regiões inacessíveis de fado. em qualquer momento. Esta experiência concreta e única. permitindo-me agrupá-las em categorias amplas. um mundo inteiro pode ser-me apresentado a qualquer momento. A linguagem força-me aos seus padrões. a linguagem é capaz de "tornar presente" uma grande variedade de objectos que estão ausentes do "aqui e agora" em termos espaciais. capaz de transcender por completo a realidade da v ida quotidiana. a ambas as esferas da realidade. em termos linguísticos. Qualquer tema significativo que assim abranja esferas da realidade. Os enclaves produzidos por tais transposições pertencem. Dito de maneira simples. temporais e sociais. a linguagem faz a ponte entre diferentes zonas da realidade da vida quotidiana e integra-as num todo significativo. Conserva. Mediante a objectivação linguística. pode ser definido como um símbolo. além disso. em termos das quais fazem sentido não apenas para mim mas também para os meus semelhantes. A linguagem é. A linguagem proporciona-me a imediata possibilidade de uma contínua objectivação da minha experiência em evolução.50 A construção sócia/ da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana í1 para referir outras realidades. Não posso usar palavras inventadas pelo meu filho de três anos se quiser comunicar com pessoas fora da família. Como sistema de sinais. tornando-a um enclave dentro desta última. as minhas experiências biográficas estão sempre a ser subclassificadas cm ordens gerais de significados. acarreta o anonimato. a filosofia. posso sincronizar a minha sequência temporal biográfica com a dele. qualquer um da categoria dos genros) pode ter "problemas com a sogra". Este poder que a linguagem possui de transcenderé integrar mantém-se mesmo quando não estou de facto a conversar com outra pessoa. ser repetidas por qualquer pessoa incluída da categoria em questão. E evidente que todas estas "presenças" podem ser muitíssimo significativas na contínua realidade da vida quotidiana. A linguagem constrói agora imensos edifícios de representação simbólica que parecem elevar-se sobre a realidade da vida quotidiana como gigantescas presenças de um outro mundo. em certo sentido. pois as experiências tipificadas podem. Não apenas cu. No que respeita às relações sociais a linguagem "toma presente". para os outros e. com efeitos coercivos sobre mim. a priori à experiência quotidiana. Conforme tipifica também torna anónimas as experiências.

52 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 53 dizer que. conservada c acumulada. pode ser objectivada. de maneira alguma. ocupa lugar destacado no património social do conhecimento. Este conhecimento é partilhado tanto pelos outros que também são pobres como por aqueles que se acham em situação mais privilegiada. Sei também o que fazer se o telefone não funcionar. A participação no património social do conhecimento permite assim o "posicionamento" dos indivíduos na sociedade e o seu adequado '"tratamento". por exemplo. reconheccr-mc como pobre. todos os acontecimentos de rotina que encontro no meu trabalho diário. Por exemplo. A acumulação. sei que outros partilham. Situa-se aqui o mundo do tutoiement ou de Bruderschuft. todos os dias. Desta maneira. Por exemplo. apesar da máxima independência da experiência quotidiana que a construção desses sistemas requer. constitui outro campo semântico que erdena. Não me interessa saber por que é que o telefone funciona assim. do tratar por tu. Tão-pouco me interessam os usos do telefone que estão fora dos meus propósitos. .a. para dar outro exemplo. formas para fazer enunciados de acção por oposição a enunciados de ser: modos para indicar graus de intimidade social. no enorme corpo de conhecimento científico e de engenharia que toma possível a construção dos telefones. é selectiva. Todo este conhecimento telefónico é uma informação receita. Tudo o que me interessa c obter O passaporte depois de aguardar um certo período. O vocabulário. Vivo. Ou. Por exemplo. Isso não é possível para quem não participa deste conhecimento. simbolismo e linguagem simbólica tornam-se componentes essenciais da realidade da vida quotidiana c da captação. a linguagem constrói esquemas de classificação para diferenciar os objectos por "género" (que nada tem a ve: com o sexo) ou em número. e eles sabem que eu sei disso. nas línguas que distinguem o discurso íntimo do formal por meio de pronomes (como /// e vós em português. Mais ainda. Tenho também um conhecimento receita quanto ao funcionamento das relações humanas. sei que sou pobre. talvez porque os critérios dc pobreza na sua sociedade sejam demasiado diferentes: como posso ser pobre se uso sapatos c não pareço passar fome? 0 Sendo a vida quotidiana dominada por motivos pragmáticos. Em virtude desta acumulação constitui-se um património social de conhecimentos que é transmitido dc geração em geração e utilizável pelo indivíduo no seu dia a d. Vivo no mundo do senso comum da vida quotidiana equipado com corpos específicos de conhecimento. O meu conhecimento do telefone inclui também uma informação mais ampla sobre o sistema de comunicação telefónica. sei que algumas pessoas têm números que não constam da lista. Nos campos semânticos assim construídos a experiência. Um tal campo semântico também existe para o falante de inglês. a combinação com ondas curtas dc radio para comunicação marítima. o que não significa que saiba consertá-lo. num mundo de sinais e símbolos. deste conhecimento. que por conseguinte não posso esperar viver num zona elegante. mas apenas que sei a quem devo recorrer para assistência. como um estrangeiro que não possa. ou du e sie em alemão) esta distinção marca as coordenadas de um campo semântico que poderia chamar-se zona de intimidade. A linguagem constrói campos semânticos ou zonas circunscritas dc significação linguística. dc maneira significativa. o conhecimento prescrito. A linguagem é capaz não apena* de construir símbolos muito abstraídos da experiência diária mas também dc '"recuperar" esses símbolos e apresentá-los como elementos com realidade objectiva na vida do dia a dia. nem me interessa. a gramática e a sintaxe estão articuladas para a organização desses campos semânticos. a minha interacção com s outros na vida quotidiana está sempre a ser afectada peia nossa participação comum no património social disponível de conhecimento. o conjunto das objectivações linguísticas relativas à minha ocupação. o conhecimento limitado à competência pragmática em desempenhos rotineiros. Por exemplo. O património social de conhecimentos inclui o conhecimento da minha situação e dos seus limites. Assim. podem de facto ter grande importância para a realidade daquela. pois se refere a nada mais do que aquilo que preciso saber para os meus propósitos pragmáticos actuais e possíveis no futuro. claro. tu c vaus em francês. tanto biográfica como histórica. desta realidade. com os campos semânticos determinando aquilo que será retido c o que será "esquecido" da experiência total do indivíduo e da sociedade. pelo senso comum. pelo menos cm parte. embora mais circunscrito em temos linguisticos. etc. por exemplo. Não sei. Por conseguinte. que devo contar com a diferença dc horas se quero falar com alguém cm Hong Kong. como é que o meu requerimento é processado nas repartições do governo. que em certas condições posso obter uma ligação simultânea com duas pessoas na rede interurbana. com uma rica colecção de significados sempre à minha disposição para a organização da minha experiência social. uso o telefone todos os dias para os meus propósitos pragmáticos específicos. sei o que o devo fazer para requerer um passaporte. c assim por diante. Sei como fazer isso. isto é.

e o reconheço. O meu mundo é estruturado em termos de rotina aplicável faça bom ou mau lempo. Por outras palavras. do mesmo modo que chamo o técnico de telefones quando o mcu telefone avaria. diga-se de passagem. Por exemplo. isto é. Não posso conhecer tudo que há para conhecer a respeito desta real idade.54 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 55 por quem e depois de que trâmites é dada a aprovação ou quem carimba o documento. ou de ter sido comovido e de ter filosofado. Aí. por mim e pelos oulros. O património social do conhecimento fornece-me. a realidade da vida quotidiana aparece sempre como uma zona transparente. Sei que as minhas ordens são sempre obedecidas. mas também tipificações de toda a espécie de acontecimentos e experiências. Posso rir com uma anedota na qual esta máxima leva à falência. além disso. Embora o conjunto social de conhecimentos apresente o mundo quotidiano de maneira integrada. Assim. Assim. baste para resolver os problemas. tenho pouco interesse em ir além deste conhecimento necessário por razões pragmáticas. mantém opaca a totalidade desse inundo. digamos um advogado. volto ao mundo "sério" dos negócios. diferenciado por zonas de familiaridade e afastamento. A validade do meu conhecimento da vida quotidiana é um dado adquirido. Há sempre coisas que se passam "nas minhas costas". Enquanto o meu conhecimento funciona. desde que. de facto. que todas as relações sociais deveriam ser orientadas pela Regra de Ouro. Em certas atitudes desligadas da realidade quotidiana. sejs época da febre dos fenos ou quando um cisco me entra num dos olhos. ou talvez qualquer organização de apoio de defesa dos direitos do cidadão. o capital social do conhecimento fomece-me também os meios de integrar elementos descontínuos do meu próprio conhecimento. Só quando as minhas máximas não " produzem resultados" no mundo a que sc aplicam. "o que toda a gente sabe" tem a sua própria lógica e a mesma lógica pode ser aplicada para ordenar várias coisas que eu sei. já discutidas antes. "Ss\ o que fazer" em relação a todas aquelas pessoas e a todos esses acontecinentos da minha vida quotidiana. uma grande parte do patrimônio cultural do conhecimento. tenho reuniões familiares. Apresentando-se-me como um todo integrado. por que razão os tiranos . consisiecm receitas para atender a problemas de rotina. num estado de espírito filosófico. Neste mundo. A reserva social de conhecimentos diferencia a realidade por graus de familiaridade. para além da qual há um fundo de obscuridade. em geral. não só as tipificações dos outros. por conseguinte. Conforme há zonas da realidade que estão iluminadas. colegas de trabalho e funcionários públicos identificáveis. Mas estas dúvidas "não são para ser levadas a sério". Como "toda a gente sabe" que a pontualidade é uma característica inglesa. enquanto tenho apenas um conhecimento muito incompleto dos mundos de trabalho dos outros. é que é provável que se tomem num problema "sério" para mim. contacto um perito em obtenção de passaportes. não chego a conhecer todos os factores que contribuem para o continuo sucesso do meu despotismo. dc maneira satisfatória. estou disposto a afastar qualquer dúvida a seu respeito. Nao estou a proceder a um esludo da burocracia governamental: apenas desejo passar um periodo de ferias no estrangeiro. Sobre sectores mais remotos fornece informação muilo mais geral e imprecisa. até surgir um problema que não pode ser resolvido nos termos por ela oferecidos. como por exemplo contar uma anedota no teatro ou na igreja ou envolver-me em especulação filosófica. como homem de negócios sei que compensa não ter em consideração os interesses dos outros. o meu conhecimento da minha própria ocupação e do seu mundo é muito rico c específico. encontros profissionais e relações com a polícia de trânsito. mas não tenho a certeza dc todas os passos e de todos os molivos que medeiam entre a emissão das minhas ordens e a sua execução. reconheço uma vez mais a lógica das máximas que lhe dizem respeito e actuo de acordo com elas. Por exemplo. vivo num mundo de parentes. até nova ordem. posso talvez pôr em dúvida alguns dos seus elementos. Isto é verdade a fortiori quando se traia de relações sociais mais complexas que as da família e explica. os esquemas tipiflcadores exigidos para as principais rotinas da vida quotidiana. Mutalis mttíandis. posso agora integrar esles dois elementos do meu conhecimento de Henry numa tipificação dotada de sentido cm lermos do conteúdo social de conhecimento. Em geral. Por outras palavras. sei que o meu amigo Henry é inglês e que é sempre muito pontual nos seus encontros. tanto sociais como naturais. Mesmo quando pareço ser um déspota omnipotente com a minha família. outras permanecem sombrias. O "pano de fundo" natural desses acontecimentos é também tipificado no patrimônio de conhecimentos. Depois de rir. posso ser comovido por um actor ou um pregador exaltando as virtudes da consideração c posso reconhecer. Forncce-mc informação complexa c detalhada referente àqueles sectores da vida diária com que tenho de tratar com frequência. O meu interesse nos trabalhos ocultos do processo de obtenção do passaporte só será despertado se no fim não o conseguir.

As estruturas com relevância básica para a vida quotidiana são-me apresentadas já prontas pela própria reserva de conhecimento social. em muitos pontos e. seja com quem for. temos coisas "interessantes" a dizer uns aos outros. Assim. Em tais casos não só procuro o conselho de especialistas como também o conselho prévio de especialistas em especialistas. enquanto outras são determinadas pela m inha situação geral na sociedade. de entre a estonteante variedade de especialidades médicas. . mas tem importância estudar o que um indivíduo "deixa escapar cm conversa" para descobrir coisas sobre a sua vida sexual. Contudo. pelo menos nas suas linhas gerais. E irrelevante para mim que as acções de uma companhia estejam a cair se não tenho papéis desses. Há que assinalar aqui uma questão final quanto à distribuição social do conhecimento. possuídos de modo diferente por diversos indivíduos e tipos dc indivíduos. é irrelevante estudar o movimento das estrelas para prever o movimento da bolsa de valores. Encontro conhecimentos na vida quotidiana. noutras sociedades a astrologia pode ter considerável importância para a economia. ou que seja agora possível voar sem escala até África se não quero lá ir. em geral. Os meus interesses pragmáticos imediatos determinam algumas destas. enquanto a análise da linguagem será irrelevante para satisfazer a curiosidade erótica. e não posso partilhar. enquanto este for feito da maneira que me agrada. na sociedade americana. ou ao meu contabilista a respeito da minha busca da verdade religiosa. culminando em sistemas de especialização muitíssimo complexos c esotéricos. no conjunto. Sei que a "conversa dc mulheres" não tem importância para mim como homem. pelo menos grosso modo. A distribuição social do conhecimento começa assim com o simples facto dc não conhecer tudo o que é conhecido pelos meus semelhantes e vice-versa. enquanto aos lados do caminho continua a haver escuridão. o que posso ocultar dc quem. a maneira de fazer batota ao jogo. O meu conhecimento da vida quotidiana tem a qualidade de um instrumento que abre um trilho através de uma floresta e ao mesmo tempo projecta um estreito cone de luz sobre o que está situado logo à frente e ao redor. quais as classes de indivíduos que deverão ter certos tipos de conhecimentos. o património social de conhecimentos. Assim. a quem posso recorrer para informações sobre o quê e. Partilho a minha capacidade profissional com os colegas. Esta imagem é ainda mais aplicável às múltiplas realidades em que a vida quotidiana é. por sistema. mas não com a família. Na vida quotidiana sei.56 A construção social da realidade Os alicerces do conhecimento na vida quotidiana 57 sofrem de nervosismo endémico. ou que os católicos estejam a modernizar a sua doutrina se sou ateu. Um elemento importante do meu conhecimento da vida quotidiana é o reconhecimento das estruturas com relevância para os outros. Não partilho o meu conhecimento dc maneira igual com todos os meus semelhantes e pode haver certo conhecimento que não partilho com ninguém. é um importante elemento desse próprio património. como resultado. distribuídos cm termos sociais. etc. a que pretende ter competência no que me aflige. A distribuição social do conhecimento de certos elementos da realidade quotidiana pode tomar-se muitíssimo complexa c mesmo confusa para os estranhos. tem a sua própria estrutura de imporutneia. que "especulação ociosa" é irrelevante para mim como pessoa de acção. e por aí fora. Para mim é coisa que não tem importância saber como a minha mulher se arranja para cozinhar o meu ensopado preferido. Por fim. O meu conhecimento da vida quotidiana estrutura-se em termos de conveniências. as minhas estruturas de conveniências cruzam-se com as estruturas dc conveniências dos outros. cm termos de existências de conhecimento objectivado. O conhecimento do modo como c distribuído o património disponível de conhecimentos. de modo poético se não exaustivo. c assim por diante. dizendo que a realidade da vida quotidiana c ensombrada pela penumbra dos nossos sonhos. isto c. Esta última afirmação pode ser parafraseada. Não só não possuo o conhecimento em princípio exigido para me curar de uma enfermidade física como posso mesmo não ter conhecimento dc qual seja. "sei muito bem" que não devo falar ao meu médico sobre os meus problemas de investimentos. Por outro lado. ao meu advogado sobre as minhas dores causadas por uma úlcera. transcendida.

pela sua constituição biológica própria. Refere-se ao carácter. como indivíduos. de modo muito imperfeito. a relação do homem com o seu ambiente caracteriza-se por uma superfície da Terra. INSTITUCIONALIZAÇÃO a) Organismo e Actividade O Homem ocupa uma posição peculiar no reino animal. do quai participam com todos os outros membros da respectiva espécie. o cão ou o cavalo. Uma consequência óbvia deste facto é que os cães e os cavalos. têm. muito mais do que uma delimitação geográfica. todos os animais não humanos. vivem em mundos fechados. estào muito mais circunscritos a uma distribuição geográfica específica. Esta última permite. uma relação fixa com o seu ambiente. enquanto espécies c enquanto indivíduos. porém. Apesar de uma área de aprendizagem e acumulação individual. fixado pela biologia. em geral. da sua relação com o ambiente. Neste sentido.IL A SOCTEDADH COMO RE ALIDADE OBJECTIVA I. sem dúvida. A especificidade do ambiente desses animais é. Mas o facto de ter continuado a viver . Nào existe um mundo do homem no sentido em que se pode falar de um mundo do cão ou de um mundo do cavalo.' Ao contrário dos outros mamíferos superiores não possui um ambiente específico da espécie. mas a sua relação com o ambiente circunstante é em toda a parte estruturada. um ambiente estruturado com firmeza pela sua própria organização instintiva. mesmo se for introduzida variação geográfica. que o homem se envolva em diferentes actividades. cm comparação com o homem. 2 Em contraste. cujas estruturas são predeterminadas pelo equipamento biológico das diversas espécies animais.

porém. claro. o desenvolvimento orgânico do homem e. As provas etnológicas mostram que cm questões sexuais o homem é capaz de quase tudo. Ao mesmo tempo a sexualidade humana é dirigida. que é mediada para ele por outros seres significativos que o têm a seu cargo. estão submetidos a uma contínua interferência determinada pela sociedade. abertura para o mundo c plasticidade da estrutura dos instintos). cm cada cultura particular. O homem tem impulsos. claro está. quando se encontra já em interacção com o seu ambiente. Podc-sc estimular a imaginação sexual até ao ponto da sensualidade febril. no sentido de constantes antropológicas (por exemplo. 4 ias às forças ambientais que actuam sobre ele. Se o termo "normalidade" se refere ao que é fundamental em termos antropológicos ou ao que c universal em cultura.sta peculiaridade do organismo humano alicerça-se no seu desenvolvimento ontogenico. Não apenas a sobrevivência da criança humana depende de certos dispositivos sociais como a direcção do seu desenvolvimento orgânico é determinada pela sociedade. ao mesmo tempo. Embora seja possível dizer que o homem tem uma natureza. às formas variáveis da sexualidade humana. Mas estes são muito desprovidos de especialização e direcção. A relatividade empírica dessas configurações. Isto não significa. sendo relativa às suas numerosas variações. Com efeito. é norma estabelecida ou pelo menos uma ocorrência passageira. Esta afirmação adquire significado se reflectirmos no facto de que esse ambiente é. mas é improvável que se possa evocar qualquer imagem que não corresponda ao que. por conseguinte. O seu equipamento sensorial o motor. por constituição. especifico da espécie. se examinarmos a questão em termos de desenvolvimento orgânico é possível dizer que o período fetal no ser humano se prolonga pelo primeiro ano após o nascimento. ' A plasticidade do organismo humano e a sua susceptibilidade ás influências determinadas pelo social são mais bem ilustradas pelos dados etnológicos referentes à sexualidade. é mais significativo dizer que o homem constrói a sua própria natureza ou. além disso. a uma gama muito ampla de actividades e. a criança humana nào só está no mundo exterior como interagindo com este dc várias maneiras complexas. na verdade.60 A construção social da realidcdc A sociedade corno realidade objectiva 61 uma existência nómada num lugar c voltar-se para a agricultura noutro. mais simples ainda. Desde o momento do nascimento. uma grande parte do seu ser biológico. Há apenas a natureza humana. nào pode ser explicado em termo* de processos biológicos. a sexualidade humana caracteriza-se por um grau muito elevado de ductilidadc. com os seus próprios padrões especializados dc conduta sexual e os seus princípios antropológicos'* na área sexual. o processo de tornar-se homem efectua-se na relação com o ambiente. Por outras palavras. Não só é bastante independente dos ritmos temporais como c dúctil tanto no que respeita aos objectos para que se dirige quanto nas suas modalidades dc expressão. A organização instintiva do homem pode ser descrita como subdesenvolvida. É lugar-comum etnológico q u e as maneiras de tornar-se e ser humano são tão numerosas quanto as culturas humanas. não existe natureza humana no sentido de um substrato fixo ao nível biológico. que o homem se produz a si m e s m o . que no animal se completam no corpo da mãe. Isto é. um ambiente natural c um ambiente humano. o ser humano em desenvolvimento não só se relaciona com um ambiente natural próprio como também com uma ordem cultural e social específica. 6 Apesar dos evidentes limites fisiológicos à gama de possíveis c diferentes maneiras de se tornar homem nesta dupla relação com o ambiente. a sua imensa variedade e exuberante criatividade indicam que 3 O organismo humano. A humanização é variável no sentido sociocultural. Embora o homem possua impulsos sexuais comparáveis aos dos outros mamíferos superiores. com sentido. está ainda a desenvolver-sc ao nível biológico. que nào haja limitações determinadas pela biologia para as relações do homem com o seu ambiente. impõe limitações óbvias à sua gama dc possibilidades. enquanto tal. Mas a forma específica cm que esta h u m a n i z a ç ã o se m o l d a é d e t e r m i n a d a por essas formações socioculturais. * Importantes desenvolvimentos orgânicos. efectuam-sc na criança humana após a sua separação do útero. Por outras palavras. Nessa altura. numa determinada cultura. Isto significa que o organismo humano c capaz de aplicar o equipamento que possui. A peculiaridade da constituição biológica do homem assenta antes na sua componente instintiva. Isto torna-se muito claro quando se observa a flexibilidade da constituição biológica do homem quando submetida a uma multiplicidade de determinações socioculturais. então nem esse termo nem o seu antónimo podem ser aplicados. o organismo humano manifesta uma imensa plasticidade nas suas respos- . Cada cultura tem uma configuração sexual distinta. comparada com a de outros mamíferos superiores. que determine a variabilidade das formações socioculturais. e por vezes estruturada de maneira rígida. que delimita e permite as formações socioculturais do Homem. F. cm constante mutação.

na maioria das vezes. transformada pela ordem social num relativo fechamento ao mundo.62 A construção social Ja realidade A sociedade como realidade objectiva 63 são produtos das próprias formações socioeulturais do Homem mais do que de uma natureza humana fixa em termos biológicos. Logo que observamos fenómenos humanos específicos. na relação com o ambiente. homo socius. emoções "viris". O ser humano solitário é ser ao nível animal (que o homem partilha com outros animais). Esta é uma relação excêntrica. A existência humana. Por outras palavras. não o é. como "um homem". é também o período durante o qual o cu humano se forma. A humanidade específica do homem e a sua sociabilidade estão entrelaçadas de maneira inextricável. de assegurar direcção e estabilidade para a maior parte da conduta humana. a questão: de que deriva a estabilidade da ordem humana existente ao nível empírico? A resposta pode ser dada em dois níveis. Uma compreensão adequada de qualquer fenómeno humano terá de levar em consideração estes dois aspectos. seria a existência numa espécie de caos. uma progressiva produção humana. a experiência que o homem tem de si mesmo oscila sempre à procura de um equilíbrio entre ser e ter um corpo. embora intrínseca ã constituição biológica do homem. no mesmo sentido em que se pode dizer o mesmo de qualquer outro organismo animal. ou melhor. Desnecessário será referir que o organismo e. na maneira particular em que esta identidade é definida e formada na cultura em questão. Tal caos não está. Surge. direcção e estabilidade. e na mesma medida. e na verdade assim deve ser. c por necessidade. O periodo durante o qual o organismo humano se desenvolve ate se completar. um equilíbrio que tem de ser reposto com frequência. na sua forma particular c relativa em termos culturais. o eu não podem ser bem compreendidos fora do contexto social especifico em que se formaram. entramos no reino do social. A abertura para o mundo. embora se possa concebê-lo ao nível da teoria." Por um lado. Mas o cu. 13 . A formação do eu deve. Nenhuma dessas formações pode ser entendida como produto da constituição biológica do homem a qual. mais ainda. intrínseca ao nível biológico. ser também compreendida em relação com o contínuo desenvolvimento orgânico e com o processo social. o homem tem um corpo. mas incluí o amplo equipamento psicológico que serve de complemento a essa particular configuração (por exemplo. Por outro lado. então. São os mesmos processos sociais que determinam a constituição do organismo que produzem o eu. ser transferida para outro nível. no qual o ambiente mitural e o ambiente humano são mediados pelos outros significantes. O carácter do eu como produto social não se limita à configuração particular que o indivíduo identifica como sendo ele próprio. fornece apenas os limites externos da actividade produtiva humana. Poderá perguntar-se como surge a própria ordem social. A ordem social não é dada pela biologia nem derivada de quaisquer dados biológi- . O s princípios genéticos do eu são. de modo algum implica qualquer espécie de visão O organismo humano não possui os meios biológicos necessários para proporcionar estabilidade à conduta humana. Os homens em conjunto produzem um ambiente humano. então. da existência humana é sempre. Pode-se indicar primeiro o facto evidente de que uma dada ordem social precede qualquer desenvolvimento individual orgânico. pelo contrário. O homo sapiens é sempre. A questão pode. é sempre apropriada primeiro pela ordem social. Pode-se dizer que a abertura para o mundo. Deve ter ficado claro do que foi dito. Isto é. com a totalidade das suas formações socioculturais e psicológicas. quando mais não seja pelo seu carácter de origem humano e portanto "artificial". Esta excentricidade da experiência que o homem tem do seu próprio corpo traz consequências para a análise da actividade humana como conduta no a m b i e n t e material e c o m o exteriorização de significados subjectivos. tem esse corpo ao seu dispor.: O desenvolvimento comum do organismo humano e do eu humano num determinado ambiente social refere-se â peculiar relação humana entre o organismo e o eu. conforme indicámos. tal como é mais tarde percepcionado como identidade reconhecível em termos subjectivos e objectivos. A auioprodueào do homem é sempre. que a afirmação de que o homem se produz a si mesmo. o homem tem a vivência de si próprio como uma entidade que não é idêntica ao seu corpo mas que. Assim como é impossível que o homem se desenvolva como homem em isolamento. l u prometianado individuo solitário. é contudo capaz. disponível ao nível empírico. como é natural. Embora este clausuramento nunca consiga aproximar-se do hermetismo da existência animal. um empreendimento social. é do mesmo modo impossível que o homem isolado produza um ambiente humano. A resposta mais geral a esta pergunta é a que diz ser a ordem social um produto humano. atitudes c mesmo reacções somáticas). o homem é um corpo. então. E produzida pelo homem no decurso da sua permanente exteriorização. por razões que assentam em factos antropológicos essenciais. estabelecidos no nascimento. por exemplo. Ao nível empírico a existência humana acontece num contexto de ordem. se voltasse a depender dos seus recursos orgânicos por si próprios. contudo.

O ser humano tem de estar sempre a exteriorizar-se em actividade. A ordem social não faz parte da "natureza das coisas" c não pode ser derivada das "leis da natureza". do homem. Isto é verdade quanto a actividades não sociais bem como quanto a actividades sociais. Uma grande multiplicidade de situações se podem reunir sob as suas predefinições. ipso facto. acaba por se moldar num padrão que pode depois ser reproduzido com economia de esforço e que. Então. por oposição ao seu contexto orgânico e ambiental. Habituação implica. Não é possível atribuir-lhe qualquer outro estatuto ontológico sem ofuscar. habitualiza a sua actividade. é uma necessidade antropológica. E. o pano de fundo da actividade tomada hábito dá origem a um primeiro plano de deliberação c inovação. A habituação fornece a direcção e a especialização da actividade que faltam no equipamento biológico do ser humano. N ã o será preciso acrescentar que a ordem social também não é dada pelo ambiente natural do homem. que a acção em questão possa ser de novo executada no futuro. Ela é um produto humano. O próprio homem deve especializar e orientar os seus impulsos. Estes factos biológicos servem como premissas necessárias para a produção de ordem social. A ordem social existe apenas como produto da actividade humana. As acções tomadas hábitos conservam. a actividade a ser empreendida nessas situações pode ser antecipada. 14 ^•executante corno esse padrão. não dirigida. além das estabelecidas pelas constantes biológicas. da emergência. 17 Embora os produtos sociais da exteriorização humana tenham um carácter sui generis. A inerente instabilidade do organismo humano torna imperativo que o homem proporcione a si mesmo um ambiente estável para a sua conduta. no mínimo. 20 Toda actividade humana está sujeita a habituação. Isso liberta o indivíduo do peso de "todas aquelas decisões". ao começar mais uma etapa de um procedimento operativo que consiste. Por outras palavras. ao oferecer um fundamento estável em que a actividade humana pode prosseguir com o mínimo de tomada de decisões.64 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 65 cos nas suas manifestações empíricas. Por outras palavras. é importante sublinhar que a exteriorização. Mesmo o indivíduo solitário. sem dúvida. tanto na sua génese (ordem social resultante da actividade humana passada) quanto na sua existência em qualquer instante do tempo (a ordem social só existe na medida em que a actividade humana continua a produzi-la). Embora. a sua estrutura económica ou tecnológica). 15 10 Para entender as causas. A habituação traz consigo o importante ganho psicológico de se limitarem as opções. com os significados em questão a integrarem-se como rotinas no seu património geral dc conhecimentos. dando-lhe um alívio psicológico que assenta na estrutura instintiva. as suas manifestações empíricas.s 1 b) As origens da Institucionalização Quanto aos significados atribuídos pelo homem à sua actividade. liberta energia para as decisões que possam ser necessárias em determinados momentos. de modo irremissível. tem de se empreender uma análise que venha a resultar numa teoria da institucionalização. Quando acorda de manhã e retoma as suas tentativas de construir uma canoa com pauzinhos. a maior parte do tempo. Não nos interessa por agora o facto de até esse . além disso. na proverbial ilha deserta. O ser humano é impossível numa esfera fechada dc interioridade quiescente. etapa por e t a p a . * . da mesma maneira e com a mesma economia de esforço. a habituação vai reduzidas a uma única. a habituação torna desnecessário que cada situação seja definida de novo. desligado de qualquer interacção social. a necessidade de ordem social enquanto tal provém do equipamento biológico do homem. a companhia dos seus procedimentos operativos. manutenção c transmissão de uma ordem social. enquanto tal. embora certos aspectos particulares deste ambiente possam ser factores na determinação de certos aspectos de uma ordem social (por exemplo. haja uma centena de maneiras de realizar o projecto de construir uma canoa com pauzinhos. em dez etapas. em teoria. Esta necessidade antropológica resulta do equipamento biológico do Homem. até o homem solitário tem. aliviando assim o acúmulo de tensões resultantes dc impulsos não dirigidos. Mesmo às alternativas da conduta é possível atribuir pesos-padrão. digamos. é apreendido Üs processos de habituação precedem qualquer institucionalização: na verdade são aplicáveis a um hipotético indivíduo solitário. Qualquer acção repetida com frequência. constituem-se como certas e sempre disponíveis para os seus projectos de futuro. Por outras palavras. embora nenhuma ordem social existente possa ser derivada de dados biológicos. pode murmurar para consigo "lá vou cu outra vez". o seu pleno carácter significativo para o indivíduo e.

o controlo social primário é dado pela existência de uma instituição enquanto tal. Em lermos empíricos. ou independente de. é evidente que existem em muitas instituições e cm todas os aglomerados dc instituições que chamamos sociedades. Suponhamos que duas pessoas provenientes dc mundos sociais diferentes comecem a interagir. Neste caso é contudo provável que o americano tenha lido. As tipificações reciprocas das acções são construídas no decurso dc uma história partilhada. também controlam a conduta humana estabelecendo padrões de conduta predefinidos. As instituições. da história de Robinson Crusoé. ou pelo menos ouvido falar. ao nível social. A questão passa a ser então de saber como surgem as instituições. É possível imaginar um Scxta-Feira a juntar-se ao nosso construtor da canoa na sua ilha deserta c imaginar que o primeiro é um papua c o segundo um americano. historicidade e controlo. foram produzidos independentes um do outro c que. Dizer que um segmento da actividade humana foi institucionalizado já é dizer que ele foi submetido ao controlo social. a parte mais importante da habituação da actividade humana coexiste com a institucionalização desta última. O que deve ser sublinhado é a reciprocidade das tipificações institucionais e o carácter típico não apenas das acções mas também dos actores nas instituições. Elas ficam disponíveis para todos os membros do grupo social em questão. são sempre partilhadas. Não faz sentido.66 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 67 individuo solitário. por tipos de actores. porém. em termos históricos. qualquer uma dessas tipificações é uma instituição. e que terão de fazer a decapitação determinados tipos de indivíduos (carrascos ou membros de uma casta impura ou virgens até certa idade ou os que foram designados por um oráculo). o tabu do incesto. A institucionalização ocorre sempre que há uma tipificação recíproca. ó processo de institucionalização da tipificação recíproca ocorreria mesmo se dois indivíduos começassem a interagir de novo. Na experiência real as instituições. a instituição da lei postula que as cabeças serão decepadas de maneira específica. a lei pode determinar que todo aquele que violar o tabu do incesto terá a cabeça decepada. da qual são produtos. Mecanismos adicionais de controlo só sc tomarão necessários sc os processos de institucionalização não forem por completo bem sucedidos. Assim. em circunstâncias específicas. mais não c do que o lado negativo de um conjunto de tipificações que definem em primeiro lugar qual a conduta sexual julgada incestuosa c a que não é. Não podem ser criadas de repente. A institucionalização é incipiente em toda a situação social que se prolonga no tempo. portanto. manifestam-se em colectividades que compreendem um número considerável de pessoas. quaisquer mecanismos de sanções estabelecidas para apoio específico dc uma instituição. como é evidente. Excluímos assim. sem dúvida. presumimos dois indivíduos que tenham identidades formadas. os casos de Adão c Eva. a sexualidade humana é controlada. que a canalizam numa direcção por antítese às muitas outras direcções possíveis em teoria. oriundos dc mundos sociais que. e por agora. ter de converter em hábitos a sua actividade de acordo com a experiência biográfica de um mundo de instituições sociais que precedeu o seu estado de solidão. é de tipo secundário ou . é importante sublinhar que. As tipificações das acções tomadas hábito. 21 suplementar. Contudo. em si. Mas não é provável que esta sanção esteja sempre a ser aplicada (a menos que a instituição delineada pelo tabu do incesto esteja em processo de desintegração. É impossível uma compreensão adequada de uma instituição sem entender o processo histórico cm que foi produzida. caso especial que não precisamos desenvolver aqui). além disso. ou de duas crianças "fera" encontradas numa clareira de uma floresta primeva. o As instituições implicam. dizer que a sexualidade humana é controlada. Dito de maneira diferente. cujo somatório constitui o que em geral se chama sistema de controlo social. em teoria. em geral. Pelo contrário. pelo simples facto de existirem. É importante sublinhar que este carácter controladoré inerente à institucionalização enquanto tal c anterior a. de acções tornadas hábito. ou outros. As instituições têm sempre uma história. pela sua institucionalização no decurso da história particular em questão. A sua eficácia controladora. coitando a cabeça a certos indivíduos. Mas estamos a supor que os dois indivíduos chegam ao local de encontro. Esta cláusula pode ser necessária porque houve casos de indivíduos que infringiram o tabu. coisa que só poderia ter ocorrido num processo social. por conseguinte. em sociedade. que constituem as instituições. a interacção se realiza numa situação que não foi definida em termos institucionais. A instituição pressupõe que acções do tipo X serão executadas por actores do tipo X. por exemplo. Por exemplo. para qualquer dos participantes. Pode-se acrescentar que. admitindo que tenha sido formado como um eu (o que teríamos de admitir no caso do nosso construtor da canoa de pauzinhos). e a própria instituição tipifica os actores individuais assim como as acções individuais. Tais mecanismos. Quando sc diz "pessoas". Conforme veremos mais tarde.

tal como todas as acções observadas por outro têm dc envolver alguma tipificação da sua parte. a construção dessa base de rotina toma possível uma divisão de trabalho entre cies. A divisão do trabalho c as inovações conduzirão a novas habituações alargando ainda mais a base comum a ambos. è óbvio que a institucionalização já está presente in núcleo. Que acções tem probabilidade de serem assim tipificadas em recíproco? A resposta geral é: são aquelas acções relevantes tanto para A como para B. Neste processo a institucionalização apcrfciçoa-sc. Neste ponto a situação muda em termos qualitativos. A possibilidade de tomar o papel do outro aparecerá em relação às acções executadas por ambos. como é evidente. Chamemos. para que ocorra a espécie de tipificação reciproca que acabamos dc descrever c preciso que haja uma situação social continuada. Poupam tempo e esforço. ao ver que as acções se repetem. dos reiterados papéis de B. Isto liberta os indivíduos de uma apreciável quantidade de tensão. À medida que B continua a operar. As habituações e tipificações empreendidas na vida comum de A e B. pelo menos para ele." Ao mesmo tempo. lã vai ele de novo. formações que até este momento ainda tinham a qualidade de concepções adhoc de dois indivíduos. Logo que A e B entram em interacção. e alterará ainda mais se novos indivíduos continuarem a ser acrescentados. Por outras palavras. Ao mesmo tempo. em todos os casos. pré-sociais. mas em termos das respectivas economias psicológicas. as nossas duas pessoas apenas de A e B. Algumas serão as que A e B enfrentam em termos das suas biografias prévias. O mundo institucional que existia in status nascendi na situação original de A e B comunica-se agora a outros. atribui motivos ãs acções dc B e. As áreas que têm probabilidade dc serem importantes neste sentido irão variar com as diversas situações. até certo ponto. na qual as acções habituais de dois ou mais indivíduos sc entrelacem. A pode supor que B faz o mesmo cm relação a ele. A c B começarão a desempenhar papéis vis-à-vis um do outro. terá dc sc tomar habitual é o processo de comunicação entre A e B. não existe a possibilidade de uma tipologia de actores). ou mais. Por sua vez. Embora este tipificação recíproca não esteja ainda institucionalizada (havendo apenas dois indivíduos. outras resultarão das circunstâncias naturais. que servirá para estabilizar tanto as suas acções separadas como a sua interacção. estará em processo de construção um mundo social contendo em si as raízes dc uma ordem institucional cm expansão. estas formações adquirem também outra qualidade decisiva. No decurso da sua interacção estas tipificações serão expressas em padrões específicos de conduta. a interacção de ambos toma-se previsível. Isto é. a sexualidade e a territorialidade serão outros tantos tocos prováveis de tipificações e habituação. A depressa dirá para consigo: "Ah. tomam-se agora instituições históricas. aperfeiçoam uma qualidade que se tomou incipiente logo que A c 23 Nesta fase pode-se perguntar que benefícios traz esse desenvolvimento aos dois indivíduos. as acções repetidas uma vez. no seu íntimo. 32 truindo um fundo. O aparecimento dc um terceiro participante altera o carácter da interacção social em curso entre A e B. A sua vida conjunta define-se agora por uma esfera ampliada de rotinas esperadas. tipifica os motivos como recorrentes. tendem a tornarem-se habituais. fazendo deles modelos para o seu próprio desempenho. Isto acontecerá mesmo que cada um continue a realizar acções diferentes das do vizinho. Por exemplo. seja de que maneira for. não apenas na eventual tarefa externa cm que estejam empenhados. Em vez disso. Nessas diversas áreas. A apropriar-se-á. habituais para cada um cm papéis que serão realizados em separado alguns. separados ou cm conjunto. O "Lá vai ele outra vez" toma-se num "Lá vamos nós outra vez ". Isto significa que os dois indivíduos estão cons- . Em geral. ou antes. Levemos o nosso paradigma um pouco mais longe c imaginemos que A e B têm filhos. grande parte do que vai acontecendo reveste-se da trivialidade do que constituirá a vida quotidiana para ambos. emerge uma colecção de acções tipificadas cm reciprocidade. C) que. no sentido acima exposto. dentro da sua situação comum. Assim. Cada acção de cada um já não é uma fonte de espanto e perigo potencial para o outro. outros em conjunto. Desde o início que tanto A como B admitem esta reciprocidade da tipificação. abrindo caminho a inovações que exigem um nível mais elevada de atenção. O ganho mais importante é que cada um será capaz de prever as acções do outro. as tipificações produzir-se-ão com rapidez: o indivíduo A observa B a executar. Isto é. a situação de A e B é paradigmática da institucionalização que ocorre cm sociedades maiores. da situação. O trabalho. Contudo. Com a aquisição de historicidade. o papel de B na actividade de preparar alimentos não é apenas tipificado como tal por A mas entra também como elemento constitutivo no próprio papel de A na preparação de alimentos. Muitas acções são possíveis com um nível baixo de atenção. portanto.68 A construção social c/a roa/Idade A sociedade como realidade objectiva 69 que irá introduzir uma certa predcfinicão da situação.

tanto em si mesmas. o mundo assim formado apresenta-se-lhes transparente. em principio. ele toma-se o mundo. Dito de maneira diferente. Isto é verdade. esta aparece à criança como inerente à natureza das coisas. na verdade. pela pura força de serem factos. As instituições. Elés compreendem o mundo que fizeram. tal como tem de aprender o que diz respeito à natureza. Esta história. com facilidade alterável. tal como a tradição das instituições existentes. v . da actividade de A e de B continua bastante acessível a intervenções deliberadas de A ou de B. -'' Enquanto as instituições incipientes forem construídas c mantidas s6 com a interacção de A e B. As instituições estão lá. é. Já existia antes de ele ter nascido e continuará a existir depois de ele morrer.Considerando o aspecto mais importante da socialização a linguagem. em consciência. por conseguinte. a possibilidade de as mudar ou mesmo dc as abolir permanece viável. Uma coisa é aquilo que se lhe chama. persistentes na sua realidade. enquanto realidade produzida pelos homens. com frequência o próprio indivíduo acredita nisso. Tem uma história que antecede o nascimento do indivíduo e não é acessível à sua lembrança biográfica. a criança é de todo incapaz de distinguir entre a objectividade dos fenómenos naturais e a objectividade das formações sociais. Pode achar incompreensíveis grandes sectores do mundo social. a objectividade desse mundo seria para eles aumentada pela socialização dos seus filhos. a base. vivenciado como uma realidade objectiva. como pelos mecanismos de controlo em geral ligados às mais importantes delas. Todas as instituições aparecem da mesma maneira como dadas. A realidade objectiva das instituições nào fica diminuída se o indivíduo não compreender a sua finalidade ou o seu modo de funcionar. não podendo ela apreender a noção do seu convencionalismo. ao dizer "é assim que isto se faz". Para os filhos. tem ela própria um carácter de objectividade. também para os pais. exteriores a ele. talvez opressivos na sua opacidade. Só desta maneira. como mundo objectivo. no sentido de uma realidade dada e abrangente.70 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 71 B iniciaram a tipificação recíproca da sua conduta. quase lúdica mesmo quando alcançam certo grau de objectividade pelo simples facto da sua constituição. Resistem às suas tentativas de as alterar ou de lhes escapar. a instituição da paternidade tal como é encontrada pelos filhos) são vivenciadas como existindo por cima c para além dos indivíduos que ''acontecem" corporalizá-las nesse momento. em especial na fase inicial da sua socialização neste mundo. tornada rotineira. Mesmo no nosso exemplo. podem as formações sociais ser transmitidas a uma nova geração. Por outras palavras. que confronta o indivíduo de maneira análoga à realidade do mundo natural. a Um mundo institucional é. Ao nível empírico. compreensível de um modo impossível no caso do mundo natural. O processo de transmissão apenas reforça o sentido que os pais têm da realidade quanto mais não seja porque. improvável ao nível empírico. Existindo as instituições como realidade exterior. Para os pais. tal como a natureza. Embora as rotinas. de que se podem lembrar. Não pode fazê-las desaparecer com a vontade. e não poderia ser chamada coisa diferente. A objectividade do mundo institucional "adensa-se" e "endurece". porque a objectivação sentida pelos filhos se reflectiria na sua própria experiência desse mundo. é claro. o indivíduo não as pode entender por introspecção. Só agora é possível falar. por um efeito de espelho. como factos históricos e objectivos. mesmo quando o mundo social. O "Lá vamos nós outra vez" toma-se agora em "É assim que isto se faz'*. de facto. dos pais terem construído um mundo institucional de novo. . Tem de "sair de si" e aprender o que elas são. A e B mantêm-se capazes de o modificar ou abolir. a sua objectividade conserva-se ténue. Nas fases iniciais da socialização. Têm um poder coercivo sobre ele. A biografia do indivíduo é apreendida como um episódio localizado na história social objectiva. ele perde a sua qualidade lúdica e passa a "sério". o mundo transmitido pelos pais não é muito transparente: como não participaram na sua formação. das (por exemplo. Esta qualidade é a objectividade. de um mundo social. mas reais apesar dc tudo. é opaca pelo menos em certos lugares. não apenas para os filhes mas. uma vez estabelecidas. realidade essa que enfrenta o indivíduo como se ele fora um facto exterior e coercivo. confrontam o individuo com dados inegáveis. Isto significa que as instituições que agora já estão cristaliza. Um mundo olhado assim alcança firmeza na consciência: torna-se real dc maneira ainda mais tangível e já não pode ser mudado com tanta facilidade. surge-lhes como uma realidade oferecida que. inalteráveis e aulo-evidentes. o mundo institucional transmitido pela maioria dos pais já tem o carácter de realidade histórica e objectiva. tenham tendência a persistir. queira ele ou não. Mais ainda: como foram eles que configuraram esse mundo no decurso de uma biografia partilhada. Mas para os filhos. as instituições são agora vivenciadas como se possuíssem realidade própria. Tudo isto muda no processo de transmissão ã nova geração. Só A e B são responsáveis por terem construído esse mundo.

por assim dizer. logo que as instituições se tomem realidades divorciadas da sua relevância original nos processos sociais concretos de que emanaram. Como vimos. O terceiro momento neste processo. em expansão. e chega à nova geração como uma tradição. autoridade sobre o indivíduo. e de facto exigem. por mais tangível que apareça ao indivíduo. ver já a relação fundamental desses três momentos dialécticos na realidade social. Pode-se ainda acrescentar que só com a transmissão do mundo social a uma nova geração (isto é. podem sempre reconstruir as circunstâncias em que o seu mundo. irá ocupar-nos mais tarde com bastante pormenor. e qualquer parte dele. aparecerá na sua totalidade a dialéctica social fundamental. ocupar-nos-á mais tarde. tanto mais reduzidas ficarão as possíveis alternativas aos "programas" institucionais. Iremos adiante ocupar-nos deste assunto com mais detalhes. A prioridade das definições institucionais das situações deve ser protegida. Po25 derá também ser já evidente que uma análise do mundo social que deixe de fora qualquer um destes três mementos será uma análise enganadora. interagem um com o outro. E provável que haja desvios dos cursos de acção institucional "programados". O produto age sobre o produtor. mais do que uma memória biográfica. devem ser "mantidas na linha".72 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade objectiva 73 E importante ter em menle que a objectividade do mundo institucional. a fim dc transmitirem convicção à nova geração. Esta realidade. No nosso exemplo paradigmático. Repetindo. o produtor. com a interiorização tal como efectuada na socialização). O Homem é um produto social. é importante sublinhar que a relação entre o homem. o homem (claro que não isolado mas cm colectividade) c o seu mundo social. Por outras palavras. com persistência. e mais previsível e controlada será a conduta. A e B. ele não adquire por isso um estatuto ontológico desligado da actividade humana que o produziu. de um mundo social. Estas legitimações são aprendidas pelas novas gerações durante o mesmo processo que as socializa na ordem institucional. sociedade è uma realidade objectiva. é uma objectividade produzida e construída pelo homem. o seu produto. Ao mesmo tempo. a realidade do mundo social torna-se mais tangível no decurso da sua transmissão. "com espontaneidade" dentro dos canais institucionais estabelecidos. Quanto mais a conduta é lida como garantida ao nível dos significados. e também oé cada uma das instítu ições. A nova geração levanta o problema de obediência c a sua socialização dentro da ordem institucional exige o estabelecimento de sanções. é histórica. Isto é. por conseguinte. é mais provável que o indivíduo se desvie de programas que lhe são estabelecidos por outros do que de programas que ele próprio ajudou a estabelecer. N ã o porque pareça menos real. interpretar-lhes esse significado por meio de várias fórmulas legitimadoras. das tentações individuais dc redefinição. O mesmo se dá com os adultos. O paradoxo. uma vez ensinadas. que consiste no facto do homem ser capaz dc produzir um mundo que depois vivência como algo não humano. A exteriorização e a objectivação são momentos de um processo dialéctico contínuo. com propriedade. é e permanece uma relação dialéctica. As instituições devem ter. que é a interiorização (pela • qual o mundo social objectivado é reintroduzido na consciência no decurso da socialização). A sociedade é um produto humano. É possível. porém. A conduta processar-sc-á. Torna-sc necessário. O mundo institucional c uma actividade humana objectivada. As crianças devem "aprender a comportar-se" c. Quanto mais a conduta é institucionalizada tanto mais se toma previsível e controlada. os criadores originais do mundo social. e o mundo social. Dito de maneira mais simples. O seu conhecimento da história institucional foi recebido de "ouvido". tem de ser contada a todas as crianças. Estas terão de ser consistentes e abrangentes no que se refere à ordem institucional. quase sempre. não importa que significados subjectivos este possa atribuir a qualquer situação particular. é possível aplicar medidas coercivas com economia e selectividade. modos pelos quais pode ser "explicado" e justificado. só com o aparecimento ce uma nova geração se poderá falar. De momento. A :: significado de uma instituição exercendo a sua capacidade de recordar. Os filhos de A e de B estão em situação muito diferente. O processo pelo qual os produtos exteriorizados da actividade humana adquirem carácter dc objectividade é a objectivação. A mesma história. Segue-se que a ordem institucional. O desenvolvimento de mecanismos específicos de controlo social torna-sc também necessário com a historiação e objectivação das instituições. em termos dc memória. isto é. contudo. Sc a socialização nas instituições foi eficiente. cria uma correspondente armação de legitimações. podem chegar ao . foi estabelecido. o mundo institucional exige legitimação. apesar da objectividade que marca o mundo social na experiência humana. ou seja. O significado original das instituições é-lhes inacessível. Cada um deles corresponde a uma caracterização essencial do mundo social. sobre a qual estende cobertura protectora dc interpretações cognitivas e normativas.

É possível que esta tendência para integrar significados se baseie numa necessidade psicológica. supostos no nosso exemplo. ou só os velhos possam executar o cerimonial da chuva c apenas os fabricantes de armas possam dormir com as suas primas maternas. A relevância A-B não é partilhada por C. nem de modo funcional nem lógico. uma vez mais. Em termos da sua funcionalidade social externa. não possam ocorrer lado a lado. muitas áreas de conduta só terão relevância para alguns tipos. Como consequência. Como será possível fazê-lo? Em primeiro lugar é possível argumemar que algumas relevâncias serão comuns a todos os membros de uma colectividade. por exemplo. Esta tendência aumenta à medida que o indivíduo partilha com outros os seus significados e a sua integração biográfica. uma fêmea bissexual B e uma lésbica C. Sc não quisermos considerar este fenómeno como um dado adquirido. três processos dc formação de hábitos ou de institucionalização incipiente podem ocorrer sem que sejam integrados. porém. O mesmo raciocínio é válido se supusermos que A. !| De facto. Uma vez que o indivíduo bem socializado "sabe" que o seu mundo social é uma totalidade consistente. Dito de outra maneira. é muito fácil para o observador de qualquer sociedade admitir que as suas instituições funcionam de facto e se integram tal como é "suposto". num interesse comum no cultivo de flores (ou qualquer outro empreendimento que possa ser em simultâneo relevante para um macho heterossexual activo e uma lésbica activa). a priori. Os hábitos engendrados como resultado da relevância de A c B não têm de comportar qualquer relação com os engendrados pela relevância de B-C e C-A. Afinal. A nossa argumentação. Segue-sc que é preciso grande cuidado nas afirmações que se façam sobre a "lógica" das instituições. pelo menos no modo como se atribua a esses tipos um significado mais ou menos estável. talvez só mulheres se interessem pelos ritos mágicos da fertilidade e só os caçadores se interessem pela pintura nas cavernas. 311 A linguagem proporciona a sobreposição fundamental da lógica ao mundo social objectivado. como as que são engendradas pela divisão do trabalho. procura ajustar os seus significados numa estrutura biográfica coerente. Esta atribuição pode basear-se em diferenças pré-sociais. mas na maneira como são tratadas na reflexão sobre cias. não uma incipiente família de pais e filhos mas um picante triângulo com um macho A. e muito menos como sistema com consistência lógica. tida como certa. Mas. mantém-se o facto empírico de que as instituições tendem a "ficar juntas". estas diversas áreas de conduta não têm de ser integradas num tmico sistema coerente. Por outro lado. antes é . Isto implica uma incipiente diferenciação. baseada. não há razão para que dois processamentos de hábitos eró:icos. então terá de ser explicado. Podem continuar a coexistir com funcionamentos separados. os significados tendem para um mínimo dc consistência. ao nosso exemplo paradigmático c variando um tanto a situação imaginária. Por outras palavras. a consciência reflexiva sobrepõe a qualidade da lógica à ordem institucional. as instituições são então integradas. a priori quando os processos dc formação de hábitos ou de institucionalização estão limitados aos mesmos indivíduos ou colectividades em vez dos elementos discretos. Voltando. a institucionalização pode ocorrer cm qualquer área da conduta relevante para o colectivo. ou nas suas funções externas. que pelo seu turno pode assentar numa base fisiológica (isto é. A lógica não reside nas instituições. Tão-pouco a integração funcional ou lógica pode ser dada como certa. suponhamos desta vez. Mas a sua integração não é um imperativo funcional do processo social que as produz. ou em diferenças produzidas no decurso da interacção social. B e C são colectividades e não indivíduos. para admitir que esses processos tenham dc "permanecer unidos" em termos funcionais.74 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 75 Em princípio. não assenta em tais premissas antropológicas mas antes na análise da reciprocidade significativa nos processos de institucionalização. enquanto esses funcionamentos podem ser díspares. sem que se integrem de modo funcional um com o outro ou com uma terceira formação de hábitos. Não será necessário insistir no aspecto de que as relações sexuais destes três indivíduos não coincidirão. Não há razão. tais como o sexo. Quando o indivíduo reflecte sobre os sucessivos momentos da sua experiência. pode haver uma "necessidade" de coesão inerente à constituição psicofisiológica do indivíduo). conjuntos de processos de institucionalização são produzidos em convergénc ia. um heterossexual c outro lésbico. A "lógica" assim atribuída ã ordem institucional faz parte do património social do conhecimento disponível e. Por exemplo. O edifício das legitimações é construído sobre a linguagem e usa esta como o seu instrumento principal. Na prática. quaisquer que sejam os conteúdos dos seus interesses. como tal. como fenómenos sociais. Contudo. será forçado a explicar o seu funcionamento e disfunções cm termos desse "conhecimento".

princípios morais. "Programa" os canais pelos quais a exteriorização produz um mundo objectivo. * 3 ç3o moral. assim. Haverá. com sistemas teóricos complexos que sirvam para legitimação da ordem institucional. em seguida. isto c. O conhecimento relativo à sociedade é. conhecimento que fornece as regras correctas dc conduta institucional. das estruturas objectivadas do mundo social. Desnecessário se toma dizer que "verificação empírica" e "ciência" não são aqui entendidas no sentido dos modernos cânones científicos. As legitimações. mas no sentido de conhecimento que pode ser confirmado pela experiência prática e que pode. correspondente à realidade objectiva da economia de caça. E importante sublinhar que isto não implica qualquer preocupação exclusiva. Só mediante este desvio pelos universos com partilha social dc significado é que chegamos à necessidade de integração institucional. em teoria sofisticadas. Se a integração de uma ordem institucional só pode ser entendida em termos do "conhecimento" que os seus membros têm dela. üs indivíduos realizam acções institucionalizadas discretas. os animais que servem como presas. do que uma sociedade considera conhecimento. o mesmo corpo dc conhecimentos serve como sua descrição objectiva (e. cuja integração teórica exige considerável força intelectual. £ certo que as teorias também têm de ser levadas em conta. diga-se de passagem. um ingrediente indispensável da institucionalização dessa área de conduta. em geral válidas. ordena-o em objectos que serão apreendidos como realidade. n Tal conhecimento constitui a dinâmica motivadora da conduta institucionalizada. Deste modo. as armas a serem utilizadas. Define e constrói os papéis a serem desempenhados no contexto das instituições cm questão. além disso. Objectiva este mundo por meio da linguagem e do aparelho cognitivo baseado na linguagem. todas partilham um estatuto cognitivo inferior nesse particular mundo social. dc qualquer modo. Haverá uma "ciência" objectiva da caça. É o somatório dc "tudo que todos sabem" a respeito de um mundo social. no decurso da divisão do trabalho desenvolve-se um corpo de conhecimentos que se refere às actividades cm questão. no sentido dc continuada produção desta realidade.76 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva Tl efectivada de modo indirecto. porém. valores e crenças. Neste sentido. proverbiais fragmentos de sabedoria. e t c . Conquanto estas subtis diferenciações tenham consequências óbvias no tratamento do indivíduo que se desviou. digamos. Ipso facto. o mundo social específico toma-se o mundo tout court. conforme testemunha a longa linha de heróicos integradores desde Homero aos mais recentes sistematizadores sociológicos. como corpo dc conhecimento. Este conhecimento funciona como força canalizadora. aparecem cm momentos particulares de uma história institucional. Define as áreas institucionais de conduta e designa todas as situações que recaem nelas. É dc novo interiorizado como verdade com validade objectiva no decurso da socialização. Todo um segmento do mundo social é objectivado por esse conhecimento. um conjunto de provas. ou predominante. controla c prevê todas essas condutas. Haverá. controladora em si mesma. qualquer desvio radical da ordem institucional aparece como um afastamento da realidade. isto é. e nem sequer a mais importante. fornece a estrutura dentro da qual tudo o que ainda não é conhecido virá a ser conhecido no futuro. no contexto da sua biografia. Este desvio pode ser designado como deprava- Por exemplo. não consideradas como eventos isolados mas como partes relacionadas de um universo dotado dc sentido subjectivo. uma colecção de receitas que têm de ser aprendidas para caçar de maneira correcta. um vocabulário que designa os vários modos dc caçar. cujos significados não são especifleos ao indivíduo. No nível pré-teórico. mitos. Este é o conhecimento aprendido no decurso da socialização e que medeia a interiorização pela consciência individual. doença mental ou apenas simples ignorância. isto é. Na sua base linguística este conhecimento é já indispensável para a "programação" institucional dessas actividades económicas. O que a sociedade considera como conhecimento vem a sercoextensivo com o cognoscível ou. etc. mas articulados e partilhados em termos sociais. cada instituição tem um corpo transmitido de conhceimentos-reccita. ser organizado de modo sistemático. O conhecimento primário acerca da ordem institucional é conhecimento situado ao nível pré-teórico. Isto tem implicações de longo alcance para qualquer análise dos fenómenos sociais. Sendo este conhecimento objectivado como conhecimento social. Uma vez que a instituição da caça se consolida e persiste ao longo do tempo. uma percepção no sentido de apreensão da realidade social objectivada e uma realização. o conhecimento situa-se no coração da dialéctica fundamental da sociedade. segue-se que a análise dc tal "conhecimento'" será essencial para a análise da ordem institucional em questão. Esta biografia é um todo sobre o qual se reflectem as acções separadas. como um corpo de verdades acerca da realidade. Mas o conhecimento teórico é apenas uma pequena parte. passível de verificação empírica). .

De qualquer modo. digamos. já existentes. Em teoria. dc facto. nenhuma parte da instituição da caça pode existir sem o conhecimento especial que foi produzido na sociedade e objectivado em referencia a esta actividade.'dcstacando-as do seu contexto original de biografias individuais concretas e tornando-as acessíveis em geral. é claro. Por norma. e assim se interiorizando como realidade subjectiva. então. permitindo a sua incorporação nas reservas de conhecimentos. Caçar e ser caçador implicam existir num mundo social definido e controlado por este corpo de conhecimentos. a todos quantos participam. de rinoceronte macho*'. As experiências que ficam assim retidas são sedimentadas. A linguagem fornece. ser ensinados a cada nova geração ou até difundidos a uma I . de rinoceronte fêmea''. quaisquer que sejam as lições de bravura. por exemplo.) abstrai a experiência das suas ocorrências individuais biográficas. os caçadores iniciados). A objectivação da experiência na linguagem (isto é. o sistema de sinais decisivo é linguistico. podendo até formar um laço profundo entre esses indivíduos. ou podem participar no futuro. tornando-se assim tanto a base como o instrumento do património colectivo de conhecimentos.de facto. pelo menos. por sua vez. qualquer sistema de sinais serviria. Esta assustadora experiência. "sozinho. faz parte do património comum de conhecimentos. isto é. numa sociedade dc caçadores. numa sociedade dc caçadores) ou em parte (na nossa própria sociedade. isto é. disponível em termos objectivos. Por exemplo. isto é. a sua transformação num objecto de conhecimento disponível para todos) permite a sua incorporação num conjunto mais amplo de tradições por vía da formação moral. e é o meio mais importante pelo qual as sedimentações objectivadas são transmitidas na tradição da colectividade em causa. além disso. Mutafis mtdondis. está sedimentada com firmeza na consciência dos indivíduos que a viveram. A sedimentação intersubjectiva só podeser. A linguagem objectiva as experiências partilhadas e torna-as acessíveis a todos dentro da comunidade linguística. etc. poder para moldar o indivíduo. Ao nível empírico. Mesmo para aqueles que não prevêem uma tal experiência na sua própria biografia futura (por exemplo. na qual os caçadores se reúnem num subuniverso próprio). em princípio toma-se anónima. É aprendido como verdade objectiva no decurso da socialização. esta ficará sedimentada de modo intersubjectivo. grande matança. sendo obrigados a combater um animal selvagem apenas com as mãos nuas. consolidam-sc na memória como entidades reconhecíveis e capazes de serem recordadas. ainda que associada aos feitos de indivíduos específicos. Tanto a experiência em sentido restrito quanto os seus suplementos de significações mais amplas podem. cuja identidade e biografia como caçador só têm significado num universo constituído pelo mencionado corpo dc conhecimentos na sua totalidade (por exemplo. a saber o caçador. astúcia e habilidade que produza. cujas experiências se incorporam num património comum de conhecimento. da alegoria religiosa c outras mais. com duas mãos. os meios para a objectivação dc novas experiências. is:o é improvável. 1 A sociedade como realidade objectiva 79 c) Sedimentação e tradição Apenas uma pequena parte do :otal da experiência humana é retida na consciência. Se vários indivíduos partilham da experiência. Um sistema de sinais. com uma mão. Torna-se uma possibilidade objectiva para toda a gente ou.78 A construção social da realidade Uma vez mais. no sistema de sinais em questão. para todos os indivíduos de certo lipo {digamos. As experiências lomam-sc assim transmissíveis. Esta realidade tem. muito precisa e recortada como. Só então será provável que estas experiências sejam transmitidas de uma geração à seguinte e dc uma colectividade a outra. o mesmo se aplica a qualquer área de condula institucionalizada. A sedimentação intersubjectiva também ocorre quando vários indivíduos partilham uma biografia£omum. Produzirá um tipo especifico de pessoa. só alguns membros de uma sociedade de caçadores têm a experiência de terem perdido as suas armas. Esta experiência ao ser designada c transmitida por via linguística. grande matança. em termos dc um desejável futuro marido). da poesia inspiradora. uma actividade comum sem sistema de sinais poderia ser uma base para transmissão. esse facto pode ter uma importância derivada (digamos. confere uma condição de incipiente anonimato às experiências scdimentadas. o mesmo corpo dc conhecimentos é transmitido à geração seguinte."' Se esta sedimentação não acontecesse o indivíduo não poderia compreender a sua bicgrafia. Em princípio. A designação linguística (que. as mulheres proibidas dc caçar). toma-se acessível «talvez muito significativa para indivíduos que nunca passaram por ela. quando surge a possibilidade de se repetir a objectívação das experiências partilhadas. podemos imaginar que seja. apelidada de social quando for objectivada num sistema de sinais dc qualquer espécie. Por outras palavras. "sozinho.

Estes estão ligados às próprias instituições e são aplicados pelo pessoal transmissor. A história passada da sociedade pode ser reinterpretada sem ter que subverter a ordem das instituições. os significados institucionais tendem a ser simplificados no processo da transmissão dc modo que uma determinada colecção de "fórmulas" institucionais possa ser aprendida e guardada com facilidade na memória. Tanto o "saber" como o "não saber" referem-se ao que é definido. assim como o "conhecimento" que deve passar de uns aos outros. Pode referir-se. novos significados às experiências sedimentadas da colectividade em questão. A forma estilizada sob a qual os feitos heróicos entram na tradição é uma ilustração útil. A transmissão de significado de uma instituição baseia-se no reconhecimento social dessa instituição como solução "permanente" para um problema "permanente" de uma determinada colectividade. como totalidades coesas c sem reconstruir os seus processos originais de formação. deixa de ser um tio materno no pleno sentido da palavra c o reconhecimento institucional desse estatuto pode. por quaisquer razões. os outros são tipificados com "altos" ou "baixos". Por exemplo. isto é. Qualquer transmissão de significados institucionais é óbvio que implica procedimentos de controlo e legitimação. Se um tio materno p o r designação institucional se revela incapaz. são definidos como sabedores) porque são tios maternos. outra só para certos tipos. para instituições específicas. sem que quaisquer implicações institucionais especiais sejam associadas a essas tipificações. dc facto. mediante determinados procedimentos iniciáticos. Alem disso. A tipologia dos conhecedores c não conhecedores. Os significados institucionais devem ser impressos dc forma poderosa e inesquecível na consciência do indivíduo. Por exemplo. Dado que os seres humanos são muitas vezes preguiçosos c esquecidos. as legitimações podem suceder-se outorgando. de maneira directa. no exemplo acima. Isto exige alguma forma dc processo "educacional". o saber técnico. como realidade e não a critérios extra-sociais de validade cognitiva. à transmissão de significados sedimentados que satisfaçam a especificação preestabelecida pelas instituições. Uma parte deste "cohecimento" é considerado relevante para todos. e muito menos tuncio- Este processo acha-se subjacente a todas as sedimentações objectivadas c não apenas às acções institucionalizadas. de vez em quando. Por conseguinte. Os significados objectivados da actividade institucional são concebidos como "conhecimento" e transmitidos como tal. os mesmos processos de tornar rotina e trivializar q u e já havíamos notado ao discutir a institucionalização. ao nível dos significados sedimentados. 15 de "fórmula" dos significados institucionais asseguraa sua memorabilidade. mágico e moral da caça pode ser transmitido pelos tios matemos aos sobrinhos de certa idade. em sociedade. de modo sistemático. a priori. Por outras palavras. "brilhantes" ou "obtusos". "gordos" ou "magros". Isto c. que não se pode presumir. o "conhecimento" pode ter de ser reafirmado mediante objectos simbólicos (como fetiches ou emblemas militares) c acções simbólicas (como o ritual religioso ou o militar). a tradição pode inventar uma origem muito diferente. a "grande matança" pode chegar a ser legitimada como uma façanha de entidades divinas. os tios matemos não transmitem este património particular de conhecimento porque o sabem. os objectos e as acções físicas podem ser invocados como auxiliares mnemónicos. ser-Ihe retirado. Deve-se sublinhar. qualquer coerência. Dependendo do alcance social da relevância de certo tipo de "conhecimento" e da sua complexidade e importância numa determinada colectividade. O carácter . Assim. Este processo também se aplica. A linguagem torna-se o repositório de um grande agregado de sedimentações colectivas. digamos. como os seres humanos são muitas vezes estúpidos. Temos aqui. mas sabem-no (isto é. por sucessivas gerações. se necessário por meios coercivos em geral desagradáveis. Dito de maneira mais directa. por exemplo. c qualquer repetição humana da mesma como imitação do protótipo mitológico. outros como receptores do "conhecimento" tradicional. à transmissão de tipificações de outros nào relevantes. é uma questão de definição social. os actores potenciais de acções institucionalizadas devem manter-se. Haverá também procedimentos tipificados para a passagem da tradição dos conhecedores aos não conhecedores. de transmitir o conhecimento em questão. sem com isso ameaçar o que foi objectivado. Por outras palavras. Tendo a verdadeira origem das sedimentações perdido importância. Toda a transmissão exige algum género de equipamento social. deve também haver procedimentos mediante os quais estes sign ificados possam ser reimpressos e rememorados. O carácter particular deste equipamento vai variar de sociedade para sociedade. que pode associar significados muito diferentes ao assunto). que podem ser adquiridas dc modo monotético. claro. uma vez mais.80 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 81 colectividade muito diferente (uma sociedade agrícola. alns tipos são designados como transmissores. familiarizados com esses significados.

e dc facto um padrão praticável em geral numa sociedade matrilocal. mas da acção do tipo X como sendo executável por qualquer actor a quem possa ser imputada. mais ainda. Por exemplo. a autopercepção do actor e fá-lo no sentido objectivo que foi atribuído à acção pela sociedade. pela qual significados institucionais.). Não é difícil ver que. que se originaram numa sociedade de caçadores. "virtuoso da dança da chuva". um segmento da própria personalidade é objectivado em termos de tipificações sociais válidas. não possam ser disseminados numa sociedade agrícola. todo um sector da autoconsciência se estrutura em termos destas objectivações. um indivíduo pode reconhecer o acto de um cunhado a surrar um filho seu. ao nível da socialização (onde pode haverdifículdadcs práticas na interiorização de significados institucionais. com a acção objectivada no social ("cu estou agora a bater no meu sobrinho". que são recorrentes e duplicáveis por qualquer actor do tipo adequado. toma-se possível conceber o eu como estando só em parte implicado na acção (afinal o homem. com os seus vários direitos e obrigações). com o acumular destas objecttvações ("espancador do sobrinho". para um observador externo. sucessivos ou concorrentes). Üs teóricos têm de ser convencidos de que uma deusa da caça é um ocupante plausível de um panteão agrícola e os pedagogos têm como problema explicar as actividades mitológicas dessa deusa a crianças que nunca viram uma caçada. Voltando a uni exemplo anterior. estes significados podem. no momento da difusão. Só prevalecendo . uma vez mais com o eu total um tanto ou quanto não identificado com a acção executada. Isto é. Isto tem consequências muito importantes paraaauto-experiência.No decurso da acção há uma identificação do próprio com o sentido objectivo das acções. não é um problema de lógica abstracta ou de funcionalidade técnica. mas de criatividade de um lado e credulidade do outro. parecer ter duvidosa "funcionalidade" na primeira sociedade. esta última tipificação é que este incidente seguirá o curso aceite pela sociedade. "suporte da irmã". em geral conhecidas. Isto é. Embora continue a haver uma consciência marginal do corpo e de outros aspectos do eu sem implicação directa na acção. Este segmento c o verdadeiro "eu social" que é vivenciado de modo subjectivo como distinto do eu na sua totalidade."diálogo" interno entre os diferentes seg34 d) Papéis Conforme vimos. apreende-sc a si mesmo como identificado. para esse momento. portanto. Isto. em essência. A tipificação das fornias de acção exige que estas tenham um sentido objectivo. as origens de qualquer ordem institucional assentam na tipificação dos desempenhos do próprio e dos outros. quando o actor reflecte sobre a sua acção. não há razão. Agora uma parle do eu é objectivada como o executante desta acção. etc. A acção em execução determina. Em princípio.82 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 83 nalidade. com plausibilidade. "guerreiro iniciado". Isto implica que o primeiro partilha com os outros objectivos específicos e fases entrelaçadas de desempenho em que. o que por sua vez requer uma objectivação linguistica. a estrutura de relevância em questão. O problema d£ coerência lógica surge primeiro ao nível da legitimação (onde pode haver competição ou conflito entre diferentes legitimações e o seu pessoal administrativo) e. Por outras palavras. são tipificadas não apenas acções específicas mas também formas de acção. que permite um. retirando-se o pai de cena. Este importante fenômeno. das diferentes instituições e respectivas formas de transmissão do conhecimento. porém. e nenhuma "funcionalidad e " na segunda. uma acção e o seu sentido podem ser apreendidos à parte dos seus desempenhos individuais e dos variáveis processos subjectivos que lhes estão associados. episódio natural na rotina quotidiana). a priori. nesse momento. Isto é. a fim de não perturbar o legítimo exercício da autoridade avuncular. haverá o reconhecimento não apenas de que um determinado actor executa uma acção do tipo X.Além do mais. haverá um vocabulário que se refere a estas formas de acção (tal como "surrar sobrinho" que pertencerá a uma muito mais ampla estrutura linguística das relações de parentesco. As dificuldades que aqui podem surgir relacionam-se com as actividades teóricas dos legitimadores e com as dificuldades práticas dos "educadores" na nova sociedade. Depois de ocorrer a acção há ainda uma outra consequência importante. no nosso exemplo. é outras coisas além de ser o espancador do sobrinho). e compreender que este é apenas um caso de uma maneira dc proceder própria de octros pares de tios e sobrinhos. o actor. insolente. em segundo lugar. com discrição. Os teóricos legitimadores tendem a mostrar aspirações lógicas e as crianças tendem a ser recalcitrantes. Tanto o próprio como o outro podem ser apercebidos como executantes de acções objectivas. uma questão bastante diferente. chegando mesmo a confrontar-se com este.

As instituições meorportm-sc na experiência do indivíduo através dos papéis. são um ingrediente essencial do mundo objectivo disponível em qualquer sociedade. susceptível dc ser imposta. Ao desempenhar papeis. mais tarde. o indivíduo participa de um mundo social. isto c. Logo que os actores são tipificados como executantes dc papeis. pelos códigos da lei. será abordado dc novo quando examinarmos o processe pelo qual o mundo construído em sociedade se interioriza na consciência individual. naturais ou artificiais. texto de um património objectivado de conhecimentos. Os papéis representam a ordem institucional. o mesmo mundo torna-se real para ele. J? Institucionalizam é idêntica à questão de quais as áreas de conduta que são afectadas pela institucionalização. um processo que. conforme vimos. comum a uma conectividade dc actores. A instituição. teorias de jurisprudência e. e por meio destes. ípSOfacto. destituídas de realidade subjectiva). é endémico na interacção social e precede a própria institucionalização. Por definição estes tipos são intermutáveis. Todas estas representações tornam-se porém "mortas" (isto é. pois não só os padrões do papel X são.84 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 85 mcnlos do eu. Os actores corporalizam papéis e concretizam o drama ao representá-lo num determinado palco. A representação de uma instituição em papéis. As suas objectivações linguisticas. a menos que estejam sempre a ser "ressuscitadas" na conduta humana real. Por exemplo. começar a julgar é representar o papel de juiz. não como indivíduos singulares mas como tipos. é evidente que a severidade das sanções possa variar caso a caso. embora. que os papéis representam as instituições é dizer que os papéis tornam possível a existência das instituições de modo perene. O papel de juiz relaciona-sc com outros papéis. e pode ser respondida da mesma maneira. O indivíduo julgador não está a actuar "por conta própria "\ mas como juiz. servir como controlos. Toda a conduta institucionalizada envolve papéis. tanto o eu actor quanto os outros actores são apreendidos. por fim. conhecidos como também se sabe que são conhecidos. em geral. É fácil ver-se que a construção de tipologias dos papéis é um correlativo necessário da institucionalização da conduta. Esta acessibilidade geral é parte do mesmo património dc conhecimentos. a instituição da lei é também representada pela linguagem legal. Os papéis são tipos de actores num tal c o n t e x t o . Desta maneira. assim. das simples designações verbais até à incorporação em simbolismos muitíssimo complexos da realidade. que podem ser transmitidos como parte da tradição institucional e usados para verificar as credenciais de todos os actores e. Em segundo lugar. é assim a representação por excelência de que dependem todas as outras representações. sobre a sua conduta. deixa de ser opcional. O juiz actua como representante desta instituição. a sua conduta é. Esta representação realiza-se a dois níveis. Assim. A questão de quais os papéis que se . Só mediante uma tal representação cm papéis desempenhados é que a instituição se pode manifestar na experiência real. Por conseguinte. os papéis participam do carácter controlador da institucionalização. Por exemplo. com a sua montagem de acções "programadas". As origens dos papéis encontram-se no mesmo processo fundamental de formação de hábitos e objectivação que as origens das jnstituições. Podemos começar com propriedade a falar de papéis logo que esta espécie de tipificação ocorre no cor. inicia o processo de formação. Primeiro a execução do papel representa-sc a si mesma. o que tem importância é a relação do fenômeno com as tipificações da conduta praticáveis de modo objectivo. também as representam. Esta distância entre o actor e a sua acção pode ser conservada na consciência e projectada em futuras repetições das acções. todo o actor putativo do papel X pode ser responsável pela confoimidadc com os padrões. Dizer. Estes. é como o guião não escrito de um drama. cuja totalidade compreende a instituição da lei. de modo subjectivo. Ao interiorizar esses papéis. o papel representa um completo nexus institucional dc conduta. Os papéis aparecem logo que um património comum dc conhecimentos. tomam-nas presentes na experiência. A realização do drama depende do repetido desempenho dos papéis distribuídos. E podem ser de modo simbólico representadas também por objectos físicos. Por ora. Nem o drama nem a instituição existem de modo empírico fora desta realização repetitiva. o actor identifica-sc com as tipificações da conduta in actu objectivadas no social. Em suma. pelas legitimações últimas da instituiM Nas reservas comuns dc conhecimentos há padrões de desempenho de papéis que são acessíveis a todos os membros de uma sociedade ou pelo menos àqueles que são potenciais executantes dos papéis em questão. mas restabelece a distância em relação a elas ao reflectir. A concordância e a não concordância com os papéis-padrões tal como definidos pelo social. por parte dos actores vivos. objectivados em termos linguísticos. As instituições também são representadas de outras maneiras. por conseguinte. contendo tipificações recíprocas de conduta. como presença real na experiência de indivíduos vivos.

em complemento às funções menos enaltecidas que exercem por rotina. A multiplicação de tarefas específicas. mais reforçam ainda a representação da instituição. se consideram próprios da esposa de um juiz. em instituições políticas e religiosas. Ipso facto. Qualquer execução concreta de um papel refere-se ao sentido objectivo da instituição e assim aos outros desempenhos complementares e ao sentido da instituição como um todo. o conhecimento dos procedimentos necessários para manter a flutuar a economia desta companhia). pois representam não apenas esta ou aquela instituição mas a integração de todas as instituições num mundo dotado dc sentido. e estendendo-se alé aos que. ao nível da legitimação. O juiz. mais do que outros. Neste caso. na maioria das vezes. Por outras palavras. é tratado também cm termos de certos papéis. podemos partir do princípio que. alguns dos conhecimentos são relevantes para os três indivíduos (por exemplo. são adequados a este papel. para mencionar apenas um requisito psicológico importante deste papel. Todos os papéis representam a ordem institucional no sentido referido. a distribuição social dos conhecimentos implica uma dicotomia no que se refere à relevância geral c à relevância específica dos papéis a desempenhar. pode em certas ocasiões e em casos muito importantes. Todas estas representações. implica também o "conhecimento" dos valores e atitudes considerados correctos para um juiz. Alguns papéis.86 A construção sócia! da realidade A sociedade como realidade objectiva 87 cão e as suas normas em sistemas éticos. em geral. Tais papéis têm grande importância estratégica numa sociedade. quando tem dc refrear o seu sentimento de compaixão. Através da história. outros assumem esta função de vez em quando. Contudo. Isto é verdade mesmo cm situações sociais muito simples. que podem ser tomados como o veredicto divino num julgamento com ordálio e mesmo tornar-se símbolo da justiça última. Fenómenos produzidos pelo homem. mais importante é o carácter dos papéis como mediadores de sectores específicos do património comum do conhecimento. valores e mesmo emoções. Alguns papéis não têm outras funções além desta representação simbólica da ordem institucional como uma totalidade integrada. relevante e do que só é relevante para papéis específicos. por tradição. acompanha a administração da lei e fenômenos naturais como o estrondo do trovão. produzida pela divisão do trabalho. O juiz deve também ter um "conhecimento" adequado no domínio das emoções: deverá saber. Estas. não apenas no estrito sentido cognitivo. religiosos c mitológicos dc pensamento. Conquanto o problema de integrar as várias representações em questão seja resolvido. Quando os indivíduos começam a reflectir sobre estes assuntos enfrentam o problema dc reunir as várias representações num todo coerente que faça sentido. Isto implica uma distribuição social do conhecimento-* ' O património do conhecimento social acha-se estruturado em termos do que é. contudo. como o nosso exemplo anterior de uma situação social produzida pela contínua interacção de um homem. isto é. conhecimento da lei e também um provável conhecimento de uma gama muito mais vasta de assuntos humanos com relevância jurídica. no outro caso. 0 monarca fá-lo durante todo o tempo e. devido à divisão do trabalho. enquanto outros conhecimentos só têm importância para dois dos indivíduos (o savoirfaire da sedução lésbica ou. Em virtude dos papéis que desempenha. e até afectivas. cada papel cria uma entrada para um sector específico do patrimón io social total de conhecimentos. 3V 10 zido a áreas específicas do conhecimento social objectivado. em princípio. de facto. mas também no sentido do "conhecimento" das normas. como a impressionante parafernália que. estes papéis ajudam a manter essa integração na consciência e na conduta dos membros da sociedade. sem dúvida. cm termos das quais as situações são definidas em 1 Para nossas imediatas considerações. porém. derivam a sua permanente significação e mesmo a sua inteligibilidade da sua utilização na conduta humana. do corpo de conhecimentos que. têm uma relação especial com o aparelho legitimador da sociedade. requerem conhecimento especializado de certas situações e das relações entre meios e fins. é evidente. o conhecimento de papéis específicos crescerá cm proporção mais rápida do que o relevante conhecimento geral acessível. representam de modo simbólico esta ordem na sua totalidade. requer soluções padronizadas que possam ser aprendidas e transmitidas com facilidade. numa monarquia constitucional pode não ter outra função senão a de "símbolo vivo" para todos os níveis da sociedade até ao homem da rua. neste caso. o indivíduo é indu- . uma mulher bissexual e uma lésbica. por sua vez. Dada a acumulação histórica do conhecimento numa sociedade. por exemplo. heterossexual). a conduta tipificada nos papéis institucionais da lei. por exemplo. Para aprender um papel não basta adquirir as rotinas imediatas necessárias ao seu desempenho "exterior". E preciso também ser iniciado nas várias camadas cognitivas. Deste modo. representar assim a integração total da sociedade. Ser juiz implica. de modo directo e indirecto. com frequência. os papéis que representam dc maneira simbólica a ordem institucional total têm estado localizados.

cm termos subjectivos para os indivíduos. As dificuldades práticas que podem surgir em certas sociedades (por exemplo. surgirão especialistas. O conhecimento especializado de tipo mais impalpável. a partir de dois pontos de vista. que incumbem a todos os outros adultos masculinos. é a que feiticeiros recorrer se tiver necessidade de algum desses serviços. uma sociedade deve ser organizada de tal maneira que certos indivíduos possam concentrar-se nas suas especialidades. se relacionam com a colectividade cm questão. Continuaremos. É evidente que não podemos. portanto. ser discutidas de forma resumida. requer uma organização social semelhante. que é a dialéctica essencial da sociedade. por necessidade. neste tratado. Esta pesquisa será. A primeira pode ser resumida na proposição pela qual a sociedade só existe quando os indivíduos têm consciência dela. A análise dos papéis tem particular importância para a sociologia do conhecimento porque revela as mediações entre os universos macroscópicos de significação. tal como o conhecimento dos mistagogos e outros intelectuais. No carácter das instituições há. uma importante parte do conhecimento com relevância geral é a tipologia dos especialistas.i respectiva tarefa. a segunda perspectiva resumida na proposição de que a consciência individual é determinada pela sociedade. pelo menos. por outro. qual o tamanho do sector da actividade institucionalizada comparado . E possível. os papéis aparecem como representações institucionais e mediações de conjuntos de conhecimentos com objectivação institucional. Enquanto os especialistas são definidos como indivíduos que conhecem as suas especialidades. c e) Âmbito e modos de institucionalização Até aqui temos discutido a institucionalização em termos das características essenciais que podem ser consideradas constantes sociológicas. O que tem de saber. dar uma visão de conjunto das incontáveis variações de manifestações c combinações históricas destas constantes. a concentrarmo-nos na relação entre as instituições e o conhecimento. um exercício de análise dos p a p é i s . por um lado. analisar as raízes sociais macroscópicas de uma concepção religiosa do mundo em certas colectividades (porexemplo classes ou grupos étnicos ou círculos intelectuais) e analisar também a maneira como esta concepção do mundo se manifesta na consciência de um indivíduo. os papéis são representativos de uma ordem institucional que define o seu carácter (incluindo os respectivos adicionais de conhecimentos) e da qual derivam o seu sentido objectivo. Assim. Se numa sociedade de caçadores certos indivíduos se devem especializar como fabricantes de espadas. Por outras palavras. cada um dos quais lerá de conhecer o que for considerado necessário para a realização d. na sua actividade social total. ao passo que o conhecimento que constitui especialidade não o é. Vista na perspectiva dos vários papéis. no caso dc precisar das suas especialidades. a ordem institucional é real apenas na medida em que c realizada em papéis desempenhados c que. c os modos pelos quais estes universos são reais. Circunscrevendo isto à questão dos papéis. Em todos esses casos os especialistas tornam-se administradores dos sectores do património dc conhecimentos que lhes foi atribuído pela sociedade. Considerada na perspectiva da ordem institucional. poder-se-á colocar a seguinte pergunta: qual é a amplitude da institucionalização dentro da totalidade das acções sociais numa dada colectividade? Por outras palavras. Uma tipologia dos peritos (aquilo que os cientistas sociais contemporâneos chamam Um guia de referência) faz assim parte do património de conhecimentos gerais importantes e acessíveis. terá de haver provisões que os liberem das actividades dc caça. analisar a relação entre os papéis c o conhecimento. As duas análises só podem ser efectuadas juntas se indagarmos quanto os modos como o indivíduo. qualquer pessoa deve poder saber quem são os especialistas. cada um destes traz consigo um adicional de conhecimentos definido pela sociedade. O homem comum não tem de saber as complexidades da magia indutora de fertilidade ou das bruxarias lançadas contra alguém. objectivados numa sociedade. quando existem grupos concorrentes de especialistas ou quando a especialização se tomou tão complicada que o leigo fica desorientado) não devem preocupar-nos de momento. contudo. assim. As duas perspectivas. é possível. Para acumular o conhecimento específico a cada papel.88 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 89 sociedade. apontam para o mesmo fenómeno global. Entretanto. Ao investigar qualquer ordem institucional concreta. por exemplo. tarefa que só poderia ser realizada escrevendo uma história universal do ponto de vista da teoria sociológica. claro está. uma quantidade de variações históricas que são tão importantes para a análise sociológica concreta que devem. pode-se dizer que. porem.

Numa tal sociedade quase não haveria património comum de conhecimentos. Neste último caso. todos os problemas são comuns. Deixando de lado as estimulantes fantasias sociológicas. * Toda a sociedade na qual existe crescente divisão do trabalho está-se a afastar do primeiro tipo extremo acima descrito. com a sua luxuriante proliferação dc corpos especializados do conhecimento. com as diversas sociedades permitindo maior ou menor espaço às acções não institucionalizadas. As sociedades reais porém podem ser avaliadas em termos da sua aproximação a este tipo extremo. com efeito. Embora o estilo de vida que uma tal sociedade imporia aos seus membros também fosse rígido. Este modelo heurístico de uma sociedade institucionalizada na sua totalidade (um bom tema para pesadelos. E tomam possível conhecimentos que. Pode ser útil de um ponto de vista heurístico pensar aqui em termos dc extremos ideal-típicos. Será desnecessário referirque nem o modelo da totalidade institucional nem a sua forma modificada são encontrados na história. Se são poucas as estruturas de relevância partilhadas a esfera da institucionalização será limitada. diga-se de passagem) pode ser um pouco modificado. várias liturgias seriam executadas ao mesmo tempo. como vimos. visto que todos os papéis são executados em situações de igual relevância para todos os actores. Por uma quantidade de razões históricas. Pode mesmo afirmar-se que no desenvolvimento das civilizações arcaicas há um progressivo movimento centrípeto àquele tipo. são "teoria p u r a " . ministrados por especialistas cujo prestígio social pode. a extensão da institucionalização depende da generalidade das estruturas relevantes. por exemplo em colónias libertárias. Numa tal sociedade. a esfera privada que surgiu na moderna sociedade industriai é bastante desinstitucionalizada se comparada com a esfera pública. com a concomitante diferenciação das instituições. A condição mais geral é o grau de divisão do trabalho. Temos assim a "vida teórica". ou quase.s O extremo oposto seria uma sociedade na qual houvesse apenas um único problema comum e só ocorresse a institucionalização relativa a acções inerentes a este problema. Se muitas. A ordem institucional abarca a totalidade da vida social. Outra condição geral. nem mesmo aproximações deste tipo têm exemplos na história. E possível conceber uma sociedade na qual a institucionalização seja total. mas não pela totalidade da sociedade. distribuição de conhecimento por papéis específicos. o âmbito da institucionalização será amplo. 47 J5 A institucionalização não é contudo um processo irreversível. conduzem à especialização e à segmentação do património comum de conhecimentos. Estas actividades diferenciadas. que se assemelha a uma execução continua de uma liturgia complexa e muito estilizada. é a disponibilidade de um excedente económico que torna possível a certos indivíduos ou grupos empenharem-se em actividades especializadas sem relação directa com a subsistência. Por assim dizer. em termos subjectivos. . Uma consideração geral importante é a definição dos factores que determinam uma maior ou menor amplitude de institucionalização. são independentes de qualquer relevância social. Por exemplo. relacionada de muito perto com a anterior. o que conduz a vários problemas analíticos a que voltaremos mais tarde. Mas certas aproximações podem ser encontradas cm formações sociais menores. 19 H 51 . tais ficções heurísticas são úteis só na medida ern que ajudam a esclarecer as condições que favorecem as aproximações às mesmas. ou seja. o âmbito das acções institucionalizadas pode serdiminuído: em certas áreas da vida social pode dar-se uma desinstitucionalização. a despeito do facto de as instituições. há ainda a possibilidade da ordem institucional ser muitíssimo fragmentada. todas as soluções para esses problemas são objectivadas cm termos sociais e todas as acções sociais são institucionalizadas. terem tendência a perdurar. ou a maioria. das estruturas relevantes dc uma sociedade são partilhadas. Quase todo o conhecimento seria específico à função. onde os interesses comuns se limitam a disposições económicas. É então possível dizer que as sociedades primitivas se aproximam desse tipo em grau muito mais elevado do que as civilizadas. concebendo-se que todas as acções sociais são institucionalizadas mas apenas em tomo de problemas comuns. ou cm expedições militares constituídas por um certo número de unidades tribais ou étnicas cujo único problema comum é fazer a guerra. haveria um grau maior de distribuição do conhecimento por papéis específicos.90 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade objectiva Ji 91 com o do sector não institucionalizado? Sem dúvida que há variabilidade histórica neste assunto. uma vez formadas. depender da sua incapacidade de fazer outra coisa a nào ser teorizar. Isto significa que certos indivíduos (voltando a um exemplo anterior) são dispensados da caça não apenas para forjar armas mas também paia fabricar mitos. Em termos de sociedades macroscópicas. Não há. porquanto certas estruturas relevantes são partilhadas por grupos no interior da sociedade. De modo muito formal.

Ao contrário. A-B-C. A diferença é tão grande quanto a diferença entre produzir propaganda para convencer os outros e produzir memórias que nos convencerão a nós próprios. A) se toma insatisfeito com a falta de simetria da situação. 0 problema da integração dos significados (isto é. ou. A estrutura relevante partilhada pelo homem e a mulher (A-B) não tem de ser integrada com aquela dc que participam a mulher c a lésbica (B-C) ou a de que participam a lésbica e o homem (C-A). o lesbianismo c o cultivo das flores não passa de uma imitação humana das acções arquetípicas dos deuses. O sentido objectivo da ordem institucional apresenta-se a cada indivíduo como universal e em geral como dado adquirido na sociedade. Com estes desenvolvimentos aparece. a despeito de impossibilidade de o admitir a priori. Afirmámos então que o facto empírico dc as instituições sc conservarem unidas. Processos institucionais distintos podem continuar a coexistir sem integração global. C. Um dia apresenta às duas mulheres uma nova mitologia. Como pode conseguir isto? Imaginemos que seja um génio religioso. com menos probabilidade. uma nova configuração ao nível da significação. a seguir a esta. pode ser levada a programar o seu tempo de maneira mais equitativa entre as suas duas principais actividades. todo ele. um problema subjectivo. Sc admitirmos no entanto que B c C também tiveram dificuldades práticas em manterem em andamento os seus vários projectos. Se há qualquer problema. e o mar. da relação significativa entre as diversas instituições) é. e desta maneira surgiram a flora e a fauna sobre a face da terra árida. Em qualquer caso. admitindo que um dos três indivíduos (suponhamos que seja o homem. o deus criador juntou-se à deusa gémea na grande dança das flores. Nada mal? O leitor que possua alguma cultura em mitologia comparada não terá dificuldade em encontrar paralelos históricos para esta vinheta cosmogónica. Se esta extensão do nosso exemplo parecer forçada. é devido a dificuldades subjectivas que o indivíduo possa ter na interiorização de significados convencionados no social. E quando o mundo foi assim feito. No nosso exemplo do triângulo homem-mulher-lcsbica esforçámo-nos para mostrar ser impossível. aos níveis dc desempenho e significação? No primeiro tipo extremo acima discutido há uma unidade de desempenhos c significados institucionais em cada biografia subjectiva. significativa. que são inspirados pela concepção do universo de A. de heterossexualidade. . porém. contar que diferentes processos de institucionalização "andem juntos". Este é um problema muito diferente do puro problema subjectivo de harmonizar o sentido que se dá à nossa biografia com o sentido que lhe é atribuído pela sociedade. umas com as outras. este "conhecimento"' influenciará o que continuar a acontecer na situação. O mundo foi criado em duas etapas: a terra árida pelo deus criador por acasalamento com a sua irmã. num acto de masturbação mútua dela com uma deusa gémea. deseja unir as três relevâncias distintas e os seus concomitantes processos de formação de hábitos numa totalidade coerente. As duas primeiras já foram indicadas: uma segmentação da ordem institucional.92 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 93 Umaoulra questão a respeito da qual as ordens institucionalizadas variam ao longo da história. Mas o nosso homem pode ter mais dificuldade em conseguir que os outros aceitem a sua teoria. Toda a gente faz tudo c sabe tudo. a priori. com apenas certas classes de indivíduos a executarem certas acções e. O triângulo existente. Isto não implica que as relevâncias dc que participa (A-B e C-A) tenham mudado para cie. embora não em grau semelhante) haverá importantes alterações quanto ao serem dadas como garantidas as significações institucionais. Ele terá um problema de propaganda. por exemplo. Agora haverá um problema objectivo referente à integração envolvente das significações dentro da sociedade inteira. ou pode ser que tenha ambições teóricas. uma distribuição social do conhecimento. Podemos agora levar esta afirmação um passo mais à frente. Isto pode acontecer porque interfere com os seus próprios interesses (C perde muito tempo a fazer amor com B e negligencia as suas actividades de arranjo de flores com cie). Uma vez que seja bem sucedido e todos os três indivíduos "saibam" que as suas diversas acções trabalham em conjunto a favor da grande sociedade (que é A-B-C). podemos torná-la mais aceitável imaginando um processo dc secularização na consciência Com o crescente desvio em relação a este modelo heurístico (cm todas as sociedades reais. c a seguinte: qual a relação das diversas instituições. 52 só pode ser explicado em referência à consciência reflexiva de indivíduos que aplicam uma certa lógica à sua experiência das diversas instituições. com conhecimento especifico a certos papéis a ser reservado para certos tipos de indivíduos. Todo o património do conhecimento social está presente cm cada biografia individual. há muitas probabilidades do nosso homem ser capaz de ter êxito no seu esquema. é a relevância de que antes não participava (B-C) que agora o incomoda.

Pode ainda ser capaz de suportar a esotérica existência de uns poucos sacerdotes e feiticeiros. o corpo de conhecimentos concorrente. Ao nível mais simples pode haver conflito em relação à alocação dos recursos excedentários pelos especialistas em questão.le "sabe" que frustrar estas necessidades levará a tensões de "disfunção". não só o conteúdo Com o estabelecimento de subuniversos de significação emerge uma multiplicidade de perspectivas sobre a totalidade da sociedade. Pode haver conflito ou competição entre tais grupos. tendência religiosa. Isto. ocupação. claro. Mais ainda. Na sociedade contemporânea. A mitologia já nào parece plausível. homeopatia ou Ciência Cristã. Mesmo dentro do universo comum de significação. por exemplo. A segmentação da ordem institucional c a concomitante distribuição de conhecimentos conduzirão ao problema de fornecer significados integradores que abranjam a sociedade e proporcionem um contexto global de sentido objectivo para a experiência e conhecimento social fragmentado do indivíduo. se A tiver sucesso na propaganda desta teoria às duas moças. agricultores. por exemplo. Os subuniversos dc significação podem ser estruturados. E evidente (isto é para o nosso génio religioso transformado em cientista social) que os dois tipos dc actividade sexual que se verificam na situação exprimem profundas necessidades psicológicas dos participante. os exorcistas podem ter problemas em "explicar" algumas das suas actividades aos guerreiros. continuamos a ter estes conflitos (tanto socioeconómicos quanto cognitivos) entre a medicina ortodoxa e as suas rivais do tipo da quiroprútica. o "conhecimento" delas relativo aos imperativos funcionais implicados na sua situação terá certas consequências para a sua conduta. Claro que a probabilidade de surgirem subuniversos cresce firme com a progressiva divisão do trabalho e dos excedentes económicos. 55 Outra consequência da segmentação institucional é a possibilidade de subuniversos sociais dc significação separados. a burocracia literária chinesa ou os círculos sacerdotais do antigo Egipto. idade. comerciantes e exorcistas. Numa sociedade cm economia de subsistência pode haver segregação cognitiva entre homens c mulheres ou entre velhos guerreiros e jovens. Estes subuniversos de significação podem estar ou não ocultos aos olhos do público. gosto estético. F. etc. é muito fácil. Caso arrumado. como os que caracterizavam. exigem soluções avançadas do problema económico. Em certos casos. com o seu imenso excedente económico. a competição pluralista entre subuniversos dc significação de todas as espécies concebíveis torna-se a situação normal. quando não liquidar. Isto nào quer dizer que não haja conflito dc interesses entre esses tipos de actores. cada qual . A situação tem de ser explicada pela ciência social. Os métodos dessa legitimação também variam ao longo da história.94 A construção social ih realidade A sociedade como realidade objectiva 95 do nosso génio religioso. Uma vez mais. Subuniversos de significação muitíssimo desenvolvidos. os subuniversos têm de ser "transportados" por uma colectividade especifica. cada qual procurando estabclecer-se e desacreditar. pelo sirupo que produz sem cessar os significados em questão e dentro do qual estes significados têm realidade objectiva. Nas sociedades industriais avançadas que. Quem deverá ficar isento por lei: todos os feiticeiros ou apenas aqueles que prestam serviço em casa do chefe? Ou quem deve receber das autoridades um quantia fixa: aqueles que curam o doente por meio de ervas ou os que o fazem entrando em transe? 'lais conflitos sociais traduzem-se com facilidade em conflitos entre escolas rivais de pensamento. Por outro lado. o mesmo argumento manter-se-á válido se o transpusermos do idílio frente a frente do nosso exemplo para o nível macrossocial. comparado com o património comum de conhecimentos. 53 cognitivo do subuniverso esotérico mas até a sua existência e a da colectividade que o suporta podem ser segredo. as castas hindus. A-B-C nada mais é do que o desfecho racional da integração funcional ao nível intersistémico. permitem que grande número dc indivíduos se dediquem cm regime de tempo integral até aos objectivos mais obscuros. Estes resultam de acentuações da especialização dos papéis. enquanto C-A é funcional em termos do sector económico do "sistema social".** isto é. Os padrões de comportamento A-B e B-C são funcionais em termos do "sistema de personalidades". Podemos partir do princípio que existe um universo dc significado que outorga sentido objectivo às actividades de guerreiros. c um facto que o nosso trio troca as suas flores por cocos no outro extremo da ilha. ao ponto do conhecimento específico de um papel se tornar de todo esotérico. não só haverá o problema da integração total dotada dc sentido mas também um problema de legitimação das actividades institucionais de um tipo de actor vis-à-vis outros tipos. como acontece nas "sociedades secretas" comuns em África e entre os índios americanos. Como todos os edifícios sociais de significação. em termos sociais. quanto à isenção do trabalho produtivo. Mutatis imttandis. de acordo com vários critérios: sexo. e assim por diante.

o poeta vê a sociedade dc maneira diferente do homem de negócios. já foi 56 explicado: é muito importante tê-lo presente em qualquer análise dos subuniversos concretos de significação. o universo científico de significação é capaz de atingir um elevado grau de autonomia em oposição à sua própria base social. mais em pormenor. Por outras palavras. este duplo problema de legitimação. a manipulação dos símbolos de prestígio. têm problemas especiais na sociedade. de qualquer desvío. estará relacionada com os interesses sociais concretos do grupo que a sustenta. Mas uma vez iniciados no universo do discurso científico-social. Isto exige o desenvolvimento de métodos práticos c teóricos com os quais seja possível reprimir a tentação de escapar do subuniverso. O crescente número e complexidade dos subuniversos tornam-nos cada vez mais inacessíveis aos estranhos. A crescente autonomia dos subuniversos contribui para criar problemas especiais de legitimação tanto para os estranhos quanto para os íntimos. é muito possível que o conhecimento chegue a ficar bastante dissociado dos interesses biográficos e sociais do conhecedor. Entretanto. o grau de requinte teórico do conhecimento em questão. Cada perspectiva. "herméticos" (no sentido ligado por tradição ao corpo hermético do conhecimento secreto) para todos. mantidos até na ignorância da existência do subuniverso. uma vez elevado ao nível de subuniverso de significação um tanto autónomo. etc. muito menos as teorias ou Weltanschauungen. Por exemplo. O principio importante para as nossas considerações gerais é o da relação entre o conhecimento e a sua base social é dialéctica. E persuadida a não o fazer pelos benefícios práticos da obediência e pelo seu próprio horror à doença c à morte.). isto é. mistificação e. Mais ainda. nada mais sejam que reflexos mecânicos dos interesses sociais. de pisarem fora do subuniverso médico. tudo isso legitimado. Para sublinhar a sua autoridade. um corpo dc conhecimentos. tem a capacidade de agir com retroactividade sobre a colectividade que o produziu. a profissão médica reveste-se dos velhos símbolos do poder e mistério. excepto para aqueles que foram iniciados nos seus mistérios. e embora na prática haja grande variação. por vezes. propaganda racional e irracional (apelando aos interesses dos estranhos e às suas emoções). está em acção uma completa máquina de legitimação. a importância ou falta de importância social deste último. claro. Em teoria. O grau de afastamento do conhecimento em relação às suas origens existenciais depende de um considerável número de variáveis históricas (tais como a premência dos interesses sociais em jogo. Assim. Por outras palavras. têm de ser mantidos dentro. De momento. existe o problema de manter de fora os estranhos e ao mesmo tempo fazer com que reconheçam a legitimidade desse procedimento. isto é válido para qualquer corpo de conhecimentos mesmo com perspectivas cognitivas sobre a sociedade. em pensamento ou por actos) não só pelos poderosos controlos externos de que a profissão dispõe. que é o seu produto. contentar-nos-emos com uma ilustração. conhecimento é um produto social e conhecimento é um factor na transformação social. seja qual for o suplemento de teorias ou mesmo Weltanschauttngen dc que venha acompanhada. Os estranhos têm de ser impedidos de entrar e. não o desconhecem e se o subuniverso requer diversos privilégios e reconhecimentos especiais da sociedade mais ampla. o judeu do gentio. Isto é efectuado por meio de várias técnicas dc intimidação. como judeus. os habitantes com as devidas credenciais do mundo médico. em termos práticos. Em especial ao nível teórico. Não é suficiente instituir um subuniverso esotérico da medicina. podem olhar a sociedade de um ângulo que já não é de judeu típico. mas também por todo um corpo de conhecimento profissional que lhes oferece a "prova científica" da loucura. E preciso convencer o público leigo de que isto é correcto e benéfico e a fraternidade médica deverá respeitares padrões deste subuniverso. Este princípio da dialéctica entre a produção social e o munde objectivado. com o fim de manter leigos r . e até as suas actividades sociais como judeus podem modificar-se como consequência das perspectivas científicas sociológicas recém adquiridas. e até maldade. Se. mas é impossível prever que posições científicas são detidas por judeus e não judeus. Examinaremos depois. porém. O quiroprático tem uma óptica da sociedade diferente da do professor de uma faculdade dc medicina. os judeus podem tornar-se cientistas sociais porque. etc. pode haver razões sociais tangíveis para os judeus se preocuparem com certos empreendimentos científicos.96 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade objectiva 97 considerando-a do ponto de vista de um desses subuniversos. E desnecessário dizer que esta multiplicação dc perspectivas muito aumenta o problema de estabelecer uma cúpula simbólica estável para toda a sociedade. por outro lado. Os íntimos. perante o público e perante ela própria. Assim a população geral é intimidada pelas imagens de perigo físico consequente de se opor às '"recomendações do médico". Passam a ser enclaves esotéricos. desde vestimentas exóticas à linguagem incompreensível. em geral. são protegidos do "charlatanismo" (isto é. Isto não significa porém que as várias perspectivas.

A questão decisiva consiste em saber se o homem ainda se apercebe de que. produtos da "natureza das coisas". em termos não humanos ou até sobre-humanos. Isto é. portanto. A "receita" básica para a reificação das instituições é a de lhes outorgar um estatuto ontológico independente da actividade e significação humanas. Assim. Deve ter ficado claro. seria um erro limitar o conceito de reificação às construções mentais dos intelectuais.98 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 99 os leigos e médicos os médicos. Surgem problemas especiais esmo resultado das diferentes velocidades de alteração das instituições e dos universos. como paradoxo. As reificações especí63 . o trabalho dos vários legitimadores se torna muito árduo. que a dialéctica entre o homem produtor e os seus produtos se perde para a consciência. ou seja. Os significados humanos já não são entendidos como produzindo o mundo mas como sendo. embora seja de presumir que tenham as suas raízes em reificações pré-teóricas. que a apreensão original do mundo social é bastante reificada. não humanizável. pode ser refeito por ele. é apreendido como produto deste e a actividade humana como um epifenómeno de processos não humanos. Isto implica que uma apreensão da reificação como modalidade de consciência esteja dependente de uma í&sreificação. esta última presença é a mais significativa na pratica. do mundo social. podem ser apreendidos em termos reificados. uma modalidade da objectivação do mundo humano pelo homem. ou qualquer parte da mesma. Deve-se sublinhar que a reificação é uma modalidade da consciência. o homem é. a documentação etnológica e psicológica disponível parece indicar o oposto. 53 como um passo extremo no processo de objectivação. O Homem. pelo qual o mundo objectivado perde inteligibilidade como empreendimento humano e estabelece-se como uma factualidade não humana. Certas instituições podem ser apreendidas de modo semelhante. uma espécie de queda cognitiva do estado de graça. capaz de produzir uma realidade que o n e g a . tem a ver com o modo pelo qual a ordem institucional é objectivada. isto é. uma opus aiienum sobre a qual não tem controlo. Uma sociedade feudal com um exército moderno. que resulta da variabilidade histórica da institucionalização. como se fossem factos da natureza ou resultados de leis cósmicas ou manifestações da vontade divina. a A ordem institucional como um todo. Os sistemas teóricos complexos podem ser descritos como reificações. produtor de um mundo. a reificação pode ser descrita 55 A reificação é possível tanto no nível pré-teórico como no nível teórico da consciência. Basta dizer que. Por exemplo. inerte. da nossa anterior discussão da objectivação. em vez de ser sentido como opusproprium da sua actividade produtora. uma aristocracia agrária tendo de sobreviver sob as condições do capitalismo industrial. Outra maneira de o exprimir é que reificação é a percepção dos produtos da actividade humana como se fossem algo diferente de produtos humanos. estabelecidas numa ou noutra situação social. a saber. a coexistência na mesma sociedade da teoria de relatividade e da astrologia a nossa experiência contemporânea está tão cheia de exemplos desta espécie que não é necessário elaborar mais este ponto. até que ponto uma ordem institucional. Seria também um erro considerar a reificação como uma perversão da apreensão. A reificação implica que o homem é capaz de esquecer a sua própria autoria do mundo humano. Mesmo enquanto apreende o mundo em termos reificados. A reificação existe na consciência do homem vulgar e. por muito objectivado que esteja. Por outras palavras. e mais. Pelo contrário. Uma questão final dc grande interesse teórico. cm tais condições. É sentido pelo homem como uma factualidade estranha. Tudo quanto acontece "aqui em baixo" é apenas um pálido reflexo do que ocorre "lá em c i m a " . *' Isso toma mais difícil tanto a legitimação global da ordem institucional como as legitimações especificas de determinadas instituições e subuniversos. e (se possível) que ambos se siniam satisfeitos. e os seus segmentos. de inicio não reificada. 60 61 A reificação é a apreensão dos fenómenos humanos como se fossem coisas. tanto em lermos filogénicos como ontogénicos. por sua vez. o homem continua a produzi-lo. o mundo sccial foi feito pelo Homem e. que logo que se estabelece um mundo social objectivo a possibilidade de reificação nunca estará longe. o que é um desenvolvimento de certo modo tardio na história c em qualquer biografia individual. na verdade. feito pelos deuses. Em geral. pelo menos relativa. O mundo reificado é por definição ura mundo desumanizado. da consciência. a relação real entre o homem e o seu mundo é invertida pela consciência. toda a ordem da sociedade pode ser concebida como um microcosmo reflectindo o macrocosmo do universo total. A cbjectividade do mundo social significa que este enfrenta o homem como algo situado fora dele. uma religião tradicional forçada a enfrentar a popularização de uma visão científica do mundo. é apreendida como uma factualidade não humana? Esta é a questão da rcificaçiio da realidade social.

sem levar em conta os motivos específicos que inspiram qualquer processo legitimador específico. pai. a distância implícita em qualquer objectivação. porque a impede de cair numa concepção não dialéctica da relação entre aquilo que as pessoas fazem c o que pensam. pode ser reificado como uma imitação de actos divinos de criatividade. Assim. como realidade objectiva 101 ficas são variações deste tema geral. as objectivações de "primeira ordem" que foram institucionalizadas. O que todas estas reificações têm em comum c a sua ofuscação do casamento como uma permanente produção humana. mesmo interiorizada. com felicidade ou sem felicidade. sob uma ou outra forma. A questão da plausibilidade refere-se aqui ao reconhecimento subjectivo de um sentido global "por detrás" dos motivos do indivíduo e dos seus semelhantes. como acontece na relação consigo próprio. Os papeis podem ser reificados da mesma maneira que as instituições. É apreendido como nada mais sendo do que esse tipo. mas um casal camponês analfabeto ao casar-se^pode apreender o acontecimento com um arrepio reificador de terror metafísico. predominantes no que se refere à situação. A aplicação histórica e empírica da sociologia do conhecimento deve ter sempre cm conta as circunstâncias sociais que favorecem a desreificação. ou o que for. Conforme se pode ver por este exemplo. essas reificações podem ir desde o nível pré-teórico do "aquilo que toda a gente sabe a resM peito dos judeus" até às teorias mais complexas do judaísmo como manifestação biológica ("o sangue judeu"). como marido. e plausível de modo subjectivo. a questão da plausibilidade subjectiva referem-se a dois níveis. general. bandido ou carrasco. É importante. é também o propósito típico que motiva os legitimadores. a totalidade da ordem institucional deveria ter sentido em simultâneo para os participantes de diferentes processos institucionais. Significa isto que a reificação dos papéis estreita a distância subjectiva que o indivíduo pode estabelecer entre si e o papel que desempenha. excepto que o último acentuará a identificação corno positiva. mas a distância acarretada pela d es identificação vai-se reduzindo até desaparecer. a reificação pode ser tanto teórica quanto pré-teórica. tanto a do próprio como a dos outros. enquanto processo. o mundo das instituições parece fundir-se com o mundo da natureza. Esta identificação pode ser acentuada como positiva ou negativa. como consequência necessária de forças biológicas ou psicológicas ou. no . como imperativo funcional do sistema social. dever-se-ia acrescentar que a "integração". O casamento. Há então uma identificação total do indivíduo com as tipificações que lhe são atribuídas pela sociedade. em especial paia a sociologia do conhecimento. A identificação de "judeu" pode ser reificante tanto para um anti-semita como p a r a o próprio judeu. A fórmula paradigmática desta espécie de reificação é a afirmação "nào tenho opção neste assunto: tenho de agir assim devido à minha posição". Mantém-se. 65 2. se preferirmos) pode ser reificada. Uma vez mais. do chefe e do sacerdote. por exemplo. Embora se defina a legitimação por esta função. M A integração e. c do pensamento sociológico cm particular. em termos de valores ou emoções. pela qual o indivíduo pode negar qualquer responsabilidade. Primeiro. mas apenas em parte institucionalizados.100 A construção social da realidade A sociedade. Ambas as reificações conferem um estatuto ontológico c total a uma tipificação que é produzida pelo homem c que. indo do acontecimento humano concrctc aos recantos mais longínquos do cosmo divino. o mistagogo pode maquinar uma teoria muito complicada. A função da legitimação consiste em tornar acessível dc maneira objectiva. o conflito entre sociedades antes segregadas e o importante fenómeno da marginalização social. é mais bem definida como uma objectivação de significado dc "segunda ordem". presidente do conselho de administração. A legitimação produz novos significados que servem para integrar os significados já ligados a processos institucionais díspares. enfim. Torna-se necessidade e destino e é vivido como tal. LEGITIMAÇÃO a) As origens dos universos simbólicos A legitimação. do pai e do comandante militar ou até. A análise da reificação é importante pois serve de permanente corrector às propensões reificadoras do pensamento teórico cm geral. conforme o caso. objectifica apenas um segmento do eu. enquanto o primeiro a acentua de modo negativo. é evidente. Por fim a própria identidade (o eu total. Através da reificação. arcebispo. tais como o colapso global das ordens institucionais. cm correlação. da psicologia ("o espírito judeu") ou da metafísica ("o mistério de Israel"). como mandamento universal da lei natural. Estes problemas porém excedem o quadro das nossas considerações actuais. O sector da autoconsciência que foi objectivado no papel é então apreendido também como uma fatalidade inevitável.

Tais "explicações" (que é típico constituírem uma "história" c uma "sociologia" da colectividade em questão e que. é preciso haver " e x p l i c a ç õ e s " e justificações dos elementos salientes da tradição institucional. relacionando a ordem institucional total com vários indivíduos que dela participam em diferentes papéis. Por exemplo. como vimos. Por outras palavras. Para a restaurar. A legitimação é este processo de "explicação" c justificação/' 7 como membro desse clã. portanto. com frequência transmitidas sob forma poética. predefínidas pelas instituições. A legitimação incipiente acha-se presente logo que é transmitido um sistema de objectivações linguísticas da experiência humana. a biografia individual nas as suas várias e sucessivas fases. Rompeu-se a unidade da história e biografia. Por outras palavras. de um pai que é lambem comandante militar do filho. Os provérbios. por assim dizer. Por outras palavras. Este nível. E importante compreender que a legitimação tem um elemento cognitivo bem como um elemento normativo. deve ser dotada com um significado que torne a total idade plausível em termos subjectivos. a criança aprende ditados do género "Quem rouba ao primo fica com verrugas nas mãos" ou "Vai quando a tua mulher chora. o carácter auto-cvjdente das instituições já não pode ser mantido apenas pela memória e hábitos do indivíduo. Nesse momento. quando a instituição é apenas um facto que não exige qualquer novo suporte. tomando assim inteligíveis ambos os aspectos dessa unidade. mas corre quando o teu primo chamar". Estes esquemas sào muito pragmáticos. a legitimação não é necessária na primeira fase da institucionalização. sobre o qual se devem apoiar todas as teorias subsequentes e que estas. a totalidade da vida do indivíduo. o "conhecimento" precede os "valores" na legitimação das instituições. uma criança aprende que outra criança ê um "primo". deve ser tornada significativa ao nível subjectivo. eficazes respostas ao "Porquê?" das crianças. A legitimação "explica "a ordem institucional atribuindo validade cognitiva aos seus significados objectivados. ao nível analítico. O segundo nível dc legitimação contém proposições teóricas em fornia rudimentar. Mas é o alicerce do "conhecimento" auto-evidente. É preciso primeiro haver "conhecimento" dos papéis que definem tanto as acções "certas" como as "erradas" dentro da estrutura. Em segundo lugar. Este "conhecimento" chega-lhe através dc uma tradição que "explica" o que os clãs são em geral e o que o seu clã é em particular. A legitimação justifica a ordem institucional dando dignidade normativa aos seus imperativos práticos. Implica também "conhecimento". uma estrutura de parentesco não é legitimada apenas pela ética dos seus particulares tabus do incesto. é provável que contenham também uma "antropologia") são tanto instrumentos legitimadores quanto elementos éticos da tradição. A legitimação não apenas diz ao indivíduo por que deve real izar uma acção e não outra. por sua vez. Pertencem a este primeiro nível de legitimação incipiente todas as afirmações tradicionais simples do género C assim que as coisas se fazem" como primeiras c. Assim. as máximas morais e os adágios judiciosos são comuns neste nível. claro. referindo-se dc modo directo a acções concretas. diz-lhe também porque é que as coisas são o que são. que é aprendida junto com a designação. no caso dos tabus do incesto. Um nível "vertical" dentro do período de vida dos indivíduos singulares deve. ou com vários processos institucionais parciais cm que um único indivíduo pode participar num dado momento. O individuo não deve. a legitimação não é apenas uma questão de "valores". Istoé. As "explicações" legitimadoras fundamentais. ser acrescentado ao nível "horizontal" de integração e plausibilidade subjectiva da ordem institucional. E possível distinguir. estão integradas no vocabulário. nem de maneira intersubjectiva nem biográfica: ela é evidente para todas as pessoas a quem diz respeito. Ou pode ficar inspirada pela Canção dos Primos Leais que Foram Caçar Juntos. devem atingir para poderem ser incorporadas na tradição. Por exemplo. um nivel "horizontal" de integração c plausibilidade. Aqui podem ser encontrados vários esquemas explicativos que relacionam conjuntos de significações objectivas. e ficar morta de medo com a Ode Fúnebre por Dois Primos que Fornicaram.102 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 103 caso de um mesmo individuo. então. é pré-teórico. Conforme argumentámos antes. a sucessiva passagem pelas várias ordens da ordem institucional. em geral. Nele cabem também as lendas e histórias populares. Mas primeiro é preciso "reconhecer-se" . entre diferentes níveis de legitimação que no empírico se sobrepõem em parte. casar-se no interior do seu clã. a transmissão de um vocabulário de parentesco ipso jacio legitima a estrutura de parentesco. informação que de modo imediato legitima a inerente conduta em relação aos "primos". Assim. O problema da legitimação surge como inevitável quando as objectivações da ordem institucional (agora histórica) têm dc ser transmitidas a uma nova geração. digamos.

a esfera das legitimações começa a atingir um certo grau de autonomia v. mesmo nas suas mais solitárias experiências. O que tem particular importância é que as situações marginais da vida do indivíduo (marginais no sentido de não estarem incluídas na realidade da existência quotidiana da sociedade) são também abrangidas pelo universo simbóIico. que os "explica" e talvez também os justifique (por exemplo. a legitimação começa a ir além da aplicação pragmática e a tornar-se "teoria pura". Por outras palavras. que constitui um universo no sentido literal da palavra. a sua capacidade de atribuição de significações excede em muito o domínio da vida social. em absoluto. Assim. sendo-Ihes talvez outorgada depois da sua própria utilidade económica ter chegado ao fim. de modo que o indivíduo pode "situar-se" nele. por função legitimar. e qualquer das teorias será alicerçada num universo muito mais amplo. como c evidente. Um mundo inteiro c criado. são muitas vezes confiadas a pessoal especializado que as transmite por meio de procedimentos formalizados de iniciação. obrigações e procedimentos operacionais padrão. No entanto. os seus direitos. Estas legitimações proporcionam quadros de referência bastante detalhados para os respectivos sectores de conduta institucionalizada. Devido à sua complexidade e diferenciação. Se admitirmos que os velhos não têm outras tarefas atribuídas. A legitimação realiza-se agora por meio de totalidades simbólicas que não podem. independente das actividades dos simples primos "leigos". São corpos de tradição teórica que integram diferentes áreas dc significação e abrangem a ordem institucional numa totalidade simbólica.ç à vis as instituições legitimadas e a seu tempo podem vir a gerar os seus próprios procedimentos institucionais. pode haver uma complicada teoria económica da "relação entre primos". Neste nível dc legitimação a integração reflexiva de processos institucionais distintos alcança a sua plena realização. é provável que eles elaborem entre si as teorias em questão. digamos um universo "científico" enquanto oposto a um 1u Os universos simbólicos constituem o quarto nível de legitimação. Relembrando: os processos simbólicos são processos de significação que se referem a realidades diferentes das que pertencem à experiência da vida quotidiana. mais grave ainda. Com este passo. ser vivenciadas na vida quotidiana excepto. Os papéis . No nosso exemplo. 68 o mais completo nível de legitimação. O universo simbólico é concebido como a matriz de lodos os significados com objectivação social. com o desenvolvimento de teorias legitimadoras especializadas e a sua transmissão por legitimadores profissionais. e reais ao nível subjectivo. inventem estes problemas no decurso da sua teorização.. No interior do universo simbólico estes domínios separadas da realidade integram-se numa totalidade dotada de sentido. A esfera da aplicação pragmática é suplantada de uma vez por todas. c o corpo de "cientistas" pode estabelecer os seus próprios processos institucionais em oposição às instituições que a "ciência" tinha. Pode ver-se com facilidade a maneira como a esfera simbólica se relaciona com 69 "metafísico"). a "ciência da relação entre primos" pode começar a adquirir vida por conta própria. mesmo quando não há problemas de aplicação ou. de início. porém. Toda a sociedade histórica e toda a biografia do indivíduo são vistas como acontecimentos que se passam dentro deste universo. Esta tradição é ministrada pelos velhos do clã. na medida em que é possível falar de "experiência teórica" (em rigor. vai sendo construído através dc objectivações sociais. Podemos imaginar um culminar irónico desse desenvolvimento quando a palavra "primo" não mais se aplica a um papel de parentesco mas ao detentor de um grau na hierarquia dos especialistas em "relações entre primos".104 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade objectiva 105 O terceiro nível de legitimação contém teorias explícitas pelas quais um sector institucional é legitimado em termos de corpo diferenciado de conhecimentos. Os anciãos iniciam os adolescentes nesta economia superior no decurso dos ritos da puberdade e apresentam-se como peritos sempre que há problemas de aplicação. claro. uma designação errónea que só deverá ser usada como expressão heurística). usando o termo "simbólico" com o sentido que já antes definimos. Este nível de legitimação distingue-se ainda do precedente pelo âmbito da integração significativa. Tais situações são vividas nos sonhos e nas fantasias como áreas de significação destacadas da vida diária e dotadas de uma peculiar realidade própria. e ao mesmo tempo "explicados" ¿'justificados por uma teoria da metempsicose. Agora. todos os sectores da ordem institucional se acham integrados num quadro de referência englobante. Todas as teorias legitimadoras menores são vistas como perspectivas especiais sobre fenómenos que são aspectos desse mundo. os sonhos podem ser"explicados"poruma teoria psicológica. porque toda a experiência humana pode então ser concebida como acontecendo dentro dele. Já no nível precedente era possível encontrar um alto grau de integração de áreas part i c u l a r e s de significado e dc p r o c e s s o s s e p a r a d o s de c o n d u t a institucionalizada. O universo simbólico.

É de carácter nómico ou ordenador. o seu carácter "mais real" se assim preferirmos. Tais pensamentos dc loucura e terror são contidos pela ordenação de todas as realidades concebíveis dentro do mesmo universo simbólico que abrange a realidade da vida diária. ordenando-as de tal maneira que essa última realidade conserva a sua qualidade dominante e definitiva. definidores credenciados da realidade oficial. Esta função nómica do universo simbólico. por exemplo. que pode ser tragada a qualquer momento pelos uivantes pesadelos do outro lado. que sc mantém em postura agoirenta. a "ciência do parentesco entre primos" é apenas uma parte de um corpo de teoria muito mais extenso que. Na prática haverá. coextensivos com os limites da ambição teórica c da criatividade dos legitimadores. Pode realizar-se sem recor- O universo simbólico proporciona a ordem para a apreensão subjectiva da experiência biográfica. sempre que alguém sc afasta da consciência desta ordem (isto é. o universo simbólico fornece o nível mais alto de integração para os significados discrepantes. em cada caso.106 A construção sociül da realidade A sociedade como realidade objectiva 10" institucionais tomam-se modos de participação num universo que transc e n d e i inclui a ordem institucional. inteligíveis e menos aterrorizantes. para a experiência individual. expontânea da vida em sociedade. O pensamento continua a sugerir a si mesmo (pensamento "insano". Podemos agora investigar mais a fundo a maneira pela qual os universos simbólicos operam para legitimar a biografia individual e a ordem institucional. à realidade da vida quotidiana. Experiências pertencentes a diferentes esferas da realidade são integradas através da sua incorporação no mesmo abrangente universo de significação. ou seja. conterá uma teoria geral do cosmo c uma teoria geral do homem. Vimos como a integração significativa dos sectores distintos da conduta institucionalizada se realiza por meio da reflexão. por excelência) que talvez a realidade brilhante da vida quotidiana não seja mais do que uma ilusão. O incesto. Os limites dessa legitimação última são. fiável. A operação é. ou podem resultar de desenvolvimentos autónomos da fantasia teorizante dos peritos cosmológicos. Além desta integração de importância crucial das realidades marginais. ipso facto. porque estas situações constituem a mais'grave ameaça à existência tida como garantida e rotina na sociedade. E estas variações podem ainda ser devidas a problemas práticos específicos a respeito dos quais os legitimadores sejam consultados. se apresentam como totalidades inevitáveis e com pleno desenvolvimento. outorgando-lhe a primazia na hierarquia da experiência humana. Se concebermos esta como o "lado diurno" da vida humana. Mais ainda. estabelecida de modo divino. sedimentação e acumulação de conhecimentos: os universos simbólicos são produlos sociais com história. Esta integração das realidades de situações marginais na realidade predominante da vida quotidiana tem grande importância. sem dúvida. então as situações marginais constituem um "lado nocturno". a situação dominante desta última e mitigando o choque que acompanha a passagem de uma realidade a o u t r a . o lado nocturno da realidade. sem dúvida. A cristalização dos universos simbólicos acompanha os processos já descritos de objectivação. alcançará a extrema sanção negativa como ofensa contra a ordem divina do cosmo e contra a natureza do homem. 71 de significação que dc outro modo permaneceriam como enclaves ininteligíveis dentro da realidade do dia a dia são assim ordenadas em termos dc uma hierarquia dc realidades tornando-se. em princípio. concretizados dentro da vida quotidiana em sociedade. Porque o "lado nocturno" tem a sua própria realidade. emboscada na periferia da consciência quotidiana. A legitimação final das acções "correctas" na estrutura do parentesco será então a sua "localização" dentro dc um quadro de referência cosmoslógico e antropológico. pode ser definida dizendo apenas que "põe cada coisa no seu lugar". Se quisermos entender o seu significado temos de entender a história da sua produção. é uma ameaça constante à realidade "sã". quase de certeza. Areas 7: . muitas vezes de natureza sinistra. tanto pré-teórica como teórica. quando se encontra nas situações marginais da experiência) o universo simbólico permite-lhe "voltar à realidade". pela sua própria natureza. a mesma para os dois casos. a esfera a que pertencem todas as formas dc conduta e papéis institucionais. o universo simbólico determina a significação dos sonhos na realidade da vida quotidiana restabelecendo. na essência. No nosso exemplo anterior. Isto é tanto mais importante quanto estes produtos da consciência humana. o universo simbólico fornece a legitimação final da ordem institucional. Por exemplo. Sendo esta. O mesmo pode acontecer com um mau comportamento económico ou qualquer outro desvio das normas institucionais. Uma tão significativa integração não pressupõe o estabelecimento de um universo simbólico ah initio. variações no grau de precisão com que segmentos particulares da ordem institucional são posicionados num contexto cósmico.

Pela própria natureza da socialização. pode certificar-se de que o seu "verdadeiro eu" é uma entidade. e ainda que ele próprio possa esquecer-sc dc quem é nas angústias dos pesadelos. os sectores discrepantes da vida quot diana podem ser integrados mediante referência directa ao universo simbólico. estável c reconhecida em termos sociais. colocando-os sub speeie universi. de facto. um erro pensar aqui só cm sociedades primitivas. pelo indivíduo. Nas sociedades primitivas os ritos de passagem representam esta função nómica sob forma primitiva A periodização da biografia é simbolizada em cada estádio pela referência à totalidade dos significados humanos. o que considera ser. está sempre ameaçada pelas metamorfoses "surrealistas" dos sonhos c das fantasias. N ã o será preciso insistir no aspecto evidente de que esta simbolizaçào conduz a sentimentos de segurança e participação. ser adulto. Desta maneira. que seja conhecivet. A mesma função legitimadora refere-se à "exactidão" da identidade subjectiva do indivíduo. Seria. sem transcender as realidades da experiência diária. em qualquer altura. 7 Isto significa que o indivíduo pode viverem sociedade com certa segurança de que é. pela psiquiatria ou pelo partido é. cada uma dessas fases biográficas c legitimada como um modode ser no universo simbólico (muitas vezes. A experiência da morte . a identidade subjectiva é uma entidade precária. o universo simbólico estabelece uma hierarquia da "mais real" até à mais fugidia auto-aprecnsão da identidade. Falando em termos mitológicos. A "sã" percepção de si mesmo como possuidor dc uma identidade definida. ancorando a sua identidade numa realidade cósmica protegida ao mesmo tempo das contingências da socialização e das malévolas autoiransformações da experiência marginal. Por exemplo. Expulsar um primo dc um lerreno pode então ser não só medida económica má ou uma má moral (sanções negativas que não precisam atingir dimensões cósmicas). o nome "real" do indivíduo é o que lhe c dado pelo seu deus. a sua biografia torna-sc-lhe inteligível nesses termos. No mesmo contexto até as transações mais triviais da vida do dia a dia podem ficar imbuídas de profundo significado. enquanto desempenha os seus papéis sociais rotineiros em plena luz do dia e sob o olhar dos outros indivíduos significativos. Uma teoria psicológica modema do desenvolvimento da personalidade pode desempenhar a mesma função. basta. a legitimação também integra todas as transformações concebíveis da identidade na identidade. Quando se projecta no 1 futuro.108 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade objectiva 109 rer a processos simbólicos. Uma vez mais. A "correcção" do seu programa dc vida é assim legitimada ao nível mais alto de generalidade. real num universo bem real. OJ pela sua própria "natureza ". Por outras palavras. Ser criança. O indivíduo pode assim "saber quem é". que podem mudar ou desaparecer. as prioridades e os procedimentos operacionais. cuja realidade sc alicerça na vida social quotidiana. Mesmo que os seus vizinhos não saibam quem ele é. Mas se uma WeUcmschatamg mitológica geral estiver operante. ou a ciência psiquiátrica. à discrepância na vida quotidiana. Uma vez que a identidade conhecida ou conhecível pelos deuses. O universo simbólico permite também ordenar as diferentes fases da biografia. isto é. Uma função legitimadora estratégica dos universos simbólicos para a biografia individual é a "localização" da morte. mas pode ser entendido como violação da ordem do universo de instituição divina. A precariedade é mais aumentada ainda por auto-experiências nas situações marginais atrás mencionadas. em última análise. pode julgar estar repetindo uma sequência que é dada pela "natureza das coisas"'. pode estar a assegura-se de que está a viver "de modo correcto". ser adolescente. Contudo. legitimada pela sua colocação no contexto de um universo simbólico. pode conceber a sua biografia a desenvolver-se num universo cujas coordenadas últimas são conhecidas. de modo directo. E fácil ver como este procedimento fornece uma poderosa legitimação para a ordem institucional na sua totalidade. ao mesmo tempo. Os deuses sabem. etc. "' Está dependente das relações individuais com os outros significativos. A identidade é. as discrepâncias entre o significado de desempenhar o papel de primo e desempenhar o papel de proprietário rural podem ser integradas sem referência a uma mitologia geral. o universo simbólico ordena e por isso mesmo legitima os papéis quotidianos.. A medida que o indivíduo contempla a sua vida passada. o realissimum da identidade não carece de ser legitimado pelo facto dc ser conhecido. a identidade à qual é atribuída a condição de realidade dominante. ou o partido. isto é. para fins de legitimação. isto c. em essência. mesmo se permanece bastante coerente na interacção quotidiana. como um modo particular de se relacionar com o mundo dos deuses). no contexto do mais geral quadro de referência concebível. uma vez estabelecido o universo simbólico. ao passar de uma fase biográfica a outra. pode ser aplicada. Em ambos o> casos o indivíduo. assim como para sectores particulares da mesma. porem.

Aqui. No nível da significação. São cúpulas protectoras sobre a ordem institucional. conferindo uma legitimação fundamental às estruturas protectoras da ordem institucional. estabelece um quadro de referência comum para a projecção das acções individuais. o universo simbólico da Índia tradicional atribuía um estatuto aos sem casta que os tomava mais próximos dos animais do que da condição humana das castas superiores (operação em última análise legitimada na teoria do karma-samsara. Ser anómico. a não ser integrando o fenómeno da morte num universo simbólico. • Sem necessidade de entrar em pormenores. para o indivíduo. Este facto não é assim tão raro. a ordem institucional representa um escudo contra o terror. Localiza todos os acontecimentos colectivos numa unidade coerente que inclui passado. estes puderam conceber os índios como pertencentes a uma espécie diferente (sendo esta operação legitimada. No caso ideal. a questão essencial não é saber sc isto é feito recorrendo ou não a interpretações mitológicas. esta receita manterá a plausibilidade quando a morte do indivíduo estiver iminente e permitir-lhe-á "'morrer de modo correcto". Com relação ao passado. sozinho. por excelência. Todas as legitimações da morte devem realizar a mesma tarefa essencial: elas devera capacitar o indivíduo para continuar a viver em sociedade depois da m o r e de outros significativos c antecipar a sua própria morte com o terror mitigado pelo menos o suficiente. a morte estabelece também a mais aterrorizadora ameaça às realidades tidas como asseguradas da vida quotidiana. e acontece com frequência que amplas categorias destes tipos (às vezes todos os fora da referida colectividade) são definidas como não humanas ou menos do que humanas. Assim. 75 Quase o mesmo pode ser dito da significação social (por oposição à individual. ao nível das significações.110 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 111 dos outros c. estabelecem os limites do que tem importância em termos de interacção social. atenuador do terror. mesmo em sociedades civilizadas. ele manifesta-se. por uma teoria que "provava" não poderem os índios descender de Adào e Eva). às vezes aproximada nas sociedades primitivas. que abrangia todos os seres. e mais comum. a antecipação da própria morte estabelece a situação limite. Fornecem ainda a delimitação da realidade social. O moderno ateu. significa privar-sc deste escudo e expor-se. que existia antes de terem nascido e continuará a existir depois de morrerem. estas categorias são também atribuídas a diferentes tipos de indivíduos. O primado das objectivações sociais da vida diária só pode conservar a sua plausibilidade subjectiva se estiver sempre protegido contra o terror. Esta legitimação da morte é. o universo simbólico liga os homens aos seus antecessores e sucessores numa totalidade dotada de sentido. O universo simbólico atribui categorias a vários fenómenos numa hierarquia do ser. que outorga um significado à morte em termos de uma Weltanschauung da evolução progressiva ou da história revolucionária. também o faz integrando a morte num universo simbólico abrangente da realidade. servindo para transcender a finitude da existência individual c conferindo um significado ã morte individuai. é a definição de tudo como realidade social. isto é. portanto. Uma possibilidade extrema disto. O universo simbólico protege o indivíduo do terror supremo. Esta legitimação vai fornecer ao indivíduo uma receita para uma "morte correcta''. É comum isto ser expresso em termos linguísticos (no caso extremo. A comunidade empírica é 77 78 . das supremas legitimações da realidade dominante da vida quotidiana. Todos os membros de uma sociedade podem agora conceber-se como perterteendo a um un iverso que possui um sentido. de maneira menos completa. que acabamos de examinar) dos universos simbólicos. o nome da colectividade é equivalente ao termo "humano"). Apesar de ser perfeitamente possível que o horror à solidão resida logo na sociabilidade constitucional do homem. religiosas ou metafísicas da realidade. um dos frutos mais importantes dos universos simbólicos. E em época tão recente como a da conquista da América pelos espanhóis. presente e futuro. Uma delimitação mais estreita. E na legitimação da morte que a potência transcendentalizadora dos universos simbólicos se manifesta da maneira mais clara c sc revela o carácter fundamental. por conseguinte. bem como sobre a biografia individual. na incapacidade que o homem tem de conservar uma existência dotada de sentido isolado das construções nómicas da sociedade. de modo a não paralisar o desempenho contínuo das rotinas da vida quotidiana. estabelece uma "memória" partilhada por todos os indivíduos socializados na colectividade. Vè-se logo que esta legitimação é difícil de realizar. como consequência. aos ataques de pesadelos. 16 O universo simbólico também ordena a história. A integração da morte na realidade dominante da existência social tem a maior importância para qualquer ordem institucional. humanos ou não). até mesmo a matéria inorgânica sendo tratada em termos sociais. Em relação ao futuro. Por exemplo. Desnecessário será dizè-lo. por exemplo. definindo o âmbito do social dentro desta hierarquia. inclui apenas o mundo orgânico ou o mundo animal.

Tem origem em processos de reflexão subjectiva. Pode-se compreender com facilidade por que é que estes acontecimentos tem dc ser logo seguidos pelas mais solenes reafirmações da continuação da realidade dos símbolos protectores. Só depois de um universo simbólico ser objectivado como "primeiro" produto do pensamento teórico é que surge a possibilidade da reflexão sistemática sobre a natureza desse universo. das mais simples legitimações pre-teóricas de distintos significados institucionalizados até ao estabelecimento cósmico de universos simbólicos. é para ela que a teorização se orienta. voltando à anterior ilustração da legitimação do parentesco. A instituição do parentesco divino nas civilizações arcaicas é uma excelente ilustração da maneira como funciona este tipo de legitimação suprema. Por exemplo. o universo simbólico é teórico. Mas. constituem as extensões mais alargadas desta projecção. pode-se viver. a teorização relativa ao universo simbólico pode ser considerada. No processo de exteriorização projecta na realidade os seus próprios significados. isso deve-se à sua abertura constitucional para o mundo. o universo simbólico fornece uma integração unificadora de todos os processos institucionais separados. sendo iguais as demais circunstâncias. uma exteriorização continua. como um todo dotado de sentido. com ingenuidade. uma vez que a instituição da relação entre primos está "situada" num cosmo de primos mitológicos. tal como a ordem biográfica individual. independente das vicissitudes da existência individual. exigem desde o início uma grande complicação conceptual. constrói o mundo no qual sc exterioriza. Os universos simbólicos. é As origens de um universo simbólico enraizam-sc na constituição do Homem. por sua vez. A legitimação da ordem institucional é confrontada também com a contínua necessidade de manter o caos sob controlo. toda a gente pode "habitar" esse universo num estado de espirito confiante. Todas as legitimações. Todas as sociedades são construções em face do caos. a ordem institucional assume um aspecto problemático). consideradas como mecanismos de manutenção do universo. este universo depersi não exige nova legitimação. O temor que acompanha a morte dc um rei. a própria mitologia pode. Acima e para além das emoções de simpatia ou dc pragmáticas preocupações políticas. E evidente que. podem ser. os quais. 75 b) Os mecanismos conceptuais da manutenção do universo Considerado como construção cognitiva. há dificuldade cm traçar uma divisão clara entre "ingénuo" e "sofisticado". Conforme já observámos. a morte de um rei em tais circunstâncias traz o medo do caos a uma proximidade consciente. por assim dizer. com objectivação social. ver-se-á em breve. Entretanto. já não é uma simples questão de facto social sem significado "adicional". ao exteriorizar-se. em especial se ocorre com súbita violência. de maneira ingénua num universo simbólico. A distinção analítica. Por exemplo. Paia que a ordem institucional seja aceite como certa na sua totalidade. Se o Homem em sociedade é um construtor do mundo. Instituições específicas e papéis particulares são legitimados pela sua localização num mundo dotado de significação abareante.112 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 113 transposta para um plano cósmico e tomada. 80 . Toda a sociedade ganha agora sentido. de modo majestático. em casos concretos. por mais que um tal universo possa parecer assistemático ou ilógico a um estranho "'não sintonizado". Enquanto a efectivação de um universo simbólico pressupõe reflexão teórica por parte de alguém (para quem o mundo ou. que proclamam ser toda a realidade dotada de significado humano e que apelam para o cosmo inteiro para dar significado à validade da existência humana. Estes. carece de ser legitimada através da "colocação" num universo simbólico. exprime esse terror. e é natural que se viva. Enquanto o universo simbólico legitima a ordem institucional ao mais alto nível dc generalidade. A experiência humana é. £ importante porem compreender que a ordem institucional. antes. a ordem política é legitimada pela referência a uma ordem cósmica de poder e justiça e os papéis políticos são legitimados como representações desses princípios cósmicos. A constante possibilidade do terror anómico loma-se real sempre que as legitimações que obscurecem a precariedade são ameaçadas ou entram em colapso. foi a ordem institucional e não o universo simbólico que se apresentou como problemático e. o que implica já um conflito entre ordem e caos. uma legitimação de segundo grau. Para começar. A reacção popular ao assassínio do presidente Kennedy é um forte exemplo. o carácter teórico dos universos simbólicos é indubitável. ab iniüo. conduzem ao estabelecimento de ligações explícitas entre os temas significativos que tem as suas raízes nas várias instituições. Toda a realidade social é precária. está sob ameaça permanente devido à presença de realidades destituídas de significado em termos dessa ordem. ser admitida como válida sem reflexões teóricas a seu respeito. O homem. porém. Neste sentido. por conseguinte. Entretanto.

As perguntas das crianças a respeito do universo simbólico têm de ser respondidas de maneira mais complicada do que as suas perguntas sobre as realidades institucionais da vida quotidiana. cm novas coneeptualizações. e assim. E u m a vez mais a resposta é semelhante à que foi dada no caso das instituições. Devido às inevitáveis tensões dos processos de institucionalização e peio próprio facto de todos os fenómenos sociais serem construções produzidas através da história pela actividade humana. Mutatis mut and is. como de costume. Na realidade. Qualquer universo simbólico tem tendência a ser problemático. Não é possível "ensinar" a sua significação pela maneira directa como sc podem ensinar os significados da vida quotidiana. em resultado de uma série de desafios heréticos à tradição "oficial". não existe uma sociedade assim. Nesse caso. por sua própria conta. com um funcionamento perfeito. A sociedade como realidade objectiva 115 útil mesmo nesses casos. auto legitima-se pelo simples facto da sua existência objectiva na sociedade em questão. Enquanto isso não acontece o universo simbólico mantém-se a si mesmo. Os primos divinos. as formulações cristológicas precisas dos primeiros concílios da Igreja foram exigidas não pela própria tradição mas . o que. desempenhando papéis de primos nas rotinas vividas na vida quotidiana. o mesmo se dá com o universo simbólico. assim como há da legitimaçãc das instituições. um fenómeno teórico e conserva-se como tal mesmo quando aceite com ingenuidade. semelhante ao que discutimos em relação à tradição em geral. mas transcende esta pela sua própria natureza. não precisamos de nos ocupar deles neste contexto. no decurso desse processo aparecem novas implicações teóricas dentro da própria tradição. Porque o universo simbólico não pode ser vivido como tal na vida quotidiana. o mesmo é verdade quanto à transmissão de outros universos simbólicos. O desenvolvimento do pensamento teológico cristão. pela razão óbvia de que um universo simbólico é. Esta sociedade seria um "sistema" harmonioso. Por exemplo. desafia a condição de realidade do universo simbólico tal como foi constituído na origem. a qual. O grupo que objectivou esta realidade divergente toma-se portador de uma definição alternativa da realidade. Este problema intrínseco acentua-se quando versões divergentes do universo simbólico vierem a ser partilhadas por grupos de "habitantes". a fortiori. Mesmo entre os "habitantes" mais ou menos reconhecidos haverá sempre variações idiossincráticas na maneira como concebem o universo. Os primos humanos estão acessíveis de modo empírico. por motivos evidentes pela natureza da objectivaçào. por completo. claro que o problema anal itico é semelhante ao que já encontrámos na nossa discussão da legitimação. Sl Em termos históricos o problema da heresia foi muitas vezes o primeiro impulso para a sistemática conceptualização teórica dos universos simbólicos. surge a questão das circunstâncias em que sc toma necessário legitimar universos simbólicos por meio de mecanismos conceptuais específicos de manutenção de universos. A este respeito. Como em toda a teorização. contra tais grupos pelos guardiães das definições "oficiais" da realidade. Isto constitui um problema intrínseco para os pedagogos do parentesco divino entre primos. Quase não é preciso sublinhar que estes grupos heréticos constituem não só uma ameaça teórica para o universo simbólico. bem sucedida. Quanto aos procedimentos repressivos usados. As perguntas de adultos idiossincráticos exigem uma maior elaboração conceptual. Tal como no caso das instituições. a versão divergente consolida-se numa realidade. A socialização nunca é.1 !4 A construção social da realidade. implica pôr em acção vários mecanismos conceptuais destinados a manter o universo "oficial" contra o desafio herético. excepto que os primeiros não se pode dizer que desçam ao nível pré-teórico. mas uma ameaça prática para a ordem institucional legitimada pelo universo simbólico em questão. Alguns indivíduos "habitam" o universo transmitido de maneira mais definida do que outros. oferece excelentes exemplos históricos deste processo. porque chama a atenção para a questão do grau em que um universo simbólico é tido como certo. No exemplo anterior. como é natural. sendo esta levada além da sua forma original. não o estão. pela sua existência no interior da sociedade. em si mesmo. isto é. Tomam-se necessários procedimentos específicos de manutenção do universo quando o universo simbólico sc toma um problema. nenhuma sociedade é tida como certa na totalidade. o significado da relação de parentesco entre primos é sempre representada por primos de carne e osso. autocontido. contudo. saber em que grau se tomou problemático. É possível conceber uma sociedade em que isto seja possível. portanto. Há vários níveis de legitimação dos universos simbólicos. A questão é. Um problema intrínseco. apresenta-se com o processo de transmissão do universo simbólico de uma geração a outra. O que importa para as nossas considerações é a necessidade dessa repressão ser legitimada.

É importante sublinhar que os mecanismos conceptuais da conservação do universo são eles próprios produtos da actividade social. como o advento dos gregos patriarcais deve ter perturbado o universo das sociedades matriarcais então existentes ao lonso do Mediterrâneo oriental. que não podem ou não querem conformar-se com as regras institucionais da relação de parentesco entre primos. ** O confronto com universos simbólicos alternativos implica um problema de poder. mesmo que se reúnam formando um grupo minoritário. Qual das duas ganhara dependerá. mecanismos conceptuais destinados a manter os respectivos universos. do que enfrentar uma outra sociedade que considera as nossas próprias definições da realidade como ignorantes. contudo. se reúnam em consultas ecuménicas. o universo simbólico não é só legitimado mas também modificado pelos mecanismos conceptuais construídos para repelir o ataque dos grupos heréticos numa sociedade. que não só era desnecessária como de facto inexistente na primitiva comunidade cristã. é igual à do nosso próprio universo. talvez nem mesmo tenha uma palavra para designar '"primo" e no entanto parece estar a correr muito bem e em plena actividade. Emergiu assim. cuja oposição é ipso facto definida como loucura ou maldade. Ê fácil imaginar. O desfecho histórico de qualquer choque entre deuses foi determinado por aqueles que empunhavam as melhores armas c não por aqueles que possuíam os melhores argumentos. c M perigo ainda mais sério. Duas sociedades que se defrontam com universos em conflito desenvolverão. como é evidente. possível imaginar que mistagogos olímpicos e ctónicos.embora haja sempre a possibilidade de que teóricos. Esta é uma suposição que sc pode fazer a respeito de qualquer grande colectividade. por exemplo. Uma das principais oportunidades para o desenvolvimento de uma conceptualização conservadora do universo é a que se apresenta quando uma sociedade se defronta com outra que tem uma história muito diferente. Esta necessidade exige um mecanismo conceptual bastante sofisticado. tida como certa. Ou seja. outra. As máquinas conceptuais que mantêm os universos simbólicos acarretam sempre a sistematização de legitimações cognitivas e normativas. E muito menos chocante para a condição de realidade do nosso próprio universo ter de tratar com grupos minoritários de desviacionistas. mas é mais provável que a questão seja decidida ao nível menos rarefeito do poder militar. se convençam uns aos outros sem recorrerem a meios mais rudes de persuasão. pelo menos em teoria. Por outras palavras. Do ponto de vista da plausibilidade intrínseca as duas formas de conceptualização podem parecer ao observador externo oferecer pouca escolha. Ao serem elaboradas estas formulações a tradição mantinha-se e expandia-se ao mesmo tempo. sine ira et studia. é possível viver no mundo sem a instituição de parentesco dos primos. entre outras inovações. o êxito de mecanismos conceptuais específicos relaciona-se com o poder possuído por aqueles que operam com eles. muito diferente. mais do poder do que da criatividade teórica dos respectivos legitimadores. . E é possível negar os deuses da relação entre primos ou mesmo zombar deles sem fazer o céu vir logo abaixo. com igual sofisticação. F. transformar a velha ordem à imagem da nova. Uma coisa é ter uns quantos indivíduos. Quem tem o maior cacete tem maior probabilidade de impor as suas definições da realidade. qual das definições da realidade em conflito "sobreviverá" na sociedade. Como todos podem ver. porque neste caso há um universo simbólico alternativo com uma tradição "oficial" cuja objectividade. discutindo os méritos dos respectivos universos. O universo alternativo apresentado pela outra sociedade tem de ser enfrentado com as melhores razões possíveis. Indivíduos ou grupos da nossa própria sociedade podem ser tentados a 'emigrar" do universo tradicional ou. O universo grego deve ter exercido considerável atracção sobre os machos dessas sociedades dominadas pelas mulheres. que já estavam presentes na sociedade dc modo mais ingénuo e que cristaliza- O aparecimento de um universo simbólico alternativo representa uma ameaça. O problema criado por esta confrontação é mais agudo do que o gerado por heresias intra-societais. E sabemos que a Cirande Mãe causou uma profunda impressão sobre os próprios gregos. para afirmar a superioridade do nosso próprio. ambas. Este facto chocante tem de ser explicado. E evidente que também pode acontecer que o outro universo tenha um apelo missionário. A mitologia grega está cheia de elaborações conceptuais que sc mostraram necessárias para lidar com esse problema. loucas ou de todo m a l é v o l a s . a saber. sem interesses políticos. uma concepção teórica da Trindade. se pode dizer dos conflitos intra-societais deste tipo. O mesmo. é encontrar uma sociedade inteira que nunca ouviu falar dessas regras.116 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 117 pelos desafios heréticos à mesma. como o são todas as formas de legitimação c só raras vezes podem ser compreendidos em separado das outras actividades da colectividade. porque a sua simples existência demonstra de maneira empírica que o nosso próprio universo não é inevitável.

as mais antigas conceptualizaçôes de conservação de universo. há importantes diferenças sociológicas entre as sociedades nas quais todas as conceptualizações de conservação do universo são mitológicas e as sociedades em que o não são. 'lais mitologias. que são também os mais comuns integradores dos temas tradicionais discretos. A iniciação na tradição ministrada por estes especialistas pode ser difícil nos seus modos extrínsecos. o principal material de que são feitas as legitimações de conservação do universo é uma elaboração posterior. Isto é. das legitimações das várias instituições. "canónicas" por assim dizer. pode-se dizer com segurança que a mitologia representa a forma mais arcaica de manutenção do universo. a ocasiões ou épocas especiais e pode implicar árdua preparação ritual. Com a transição da mitologia para a teologia. A realidade inteira aparece como sendo constituída por uma única trama. Tal concepção implica. é definido em termos esotéricos ao nível institucional. A "descoberta" desta incon- . Para a nossa finalidade actual. O corpo de conhecimento A mitologia. A mitologia aproxima-se também do nível ingénuo pelo facto de que. se preferirmos. a vida quotidiana parece menos penetrada por forças sagradas. Assim. Em qualquer caso. de inconsistentes tradições mitológicas continuarem a existir lado a lado com uma integração teórica. Sem propor um esquema evolucionista para estes tipos. porquanto representa a forma mais arcaica de legitimação em g e r a l . a sua admissão exposifacto) è em geral feita pelos especialistas em tradição. O pensamento teológico serve de mediação entre esses dois mundos apenas porque a sua continuidade original parece agora quebrada. 85 30 37 m tó sistência (ou. Apesar dc tudo. pois as conceptualizações normativas implicam sempre certos pressupostos cognitivos. está mais próxima do nível ingénuo do universo simbólico. que seja difícil em termos das qualidades intrínsecas do próprio corpo de conhecimento. são sob a forma mitológica. Um breve olhar às "relações públicas" dos círculos contemporâneas de teóricos revelará que esta antiga prestidigitação está longe de estar extinta hoje em dia. Mas justifícam-sc umas quantas observações sobre certos tipos notórios de mecanismos conceptuais: mitologia. E raro. dos quais temos conhecimento pela história. embora haja especialistas em tradição mitológica. A relação entre conceptualização cognitiva e normativa. Isto explica o fenómeno recorrente em história. evoluem para uma verdadeira conceptualização teológica. as consequentes reconstruções mitológicas podem alcançar considerável grau de complicação teórica. de que temos conhecimento. que não é difícil dc adquirir. um elevado grau de continuidade entre a ordem social e a ordem cósmica.118 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 119 ram no universo simbólico em questão. como cm todos os outros. O cosmo pode continuar a ser concebido em termos das forças sagradas ou dos seres da velha mitologia. É muito possível que a mitologia seja uma fase necessária no desenvolvimento do pensamento humano enquanto t a l . é fluida em termos empíricos. cria-se um "segredo" e um corpo de conhecimento. como é natural. Os sistemas mitológicos mais elaborados esforçam-sc por eliminar as inconsistências e conservar o universo mitológico integrado em termos teóricos. porém. teologia. filosofia e ciência. o pensamento teológico pode distinguir-se do seu predecessor mitológico apenas em termos do seu maior grau de sistematização teórica. A inconsistência é típico ser sentida só depois das tradições se tornarem problemáticas c já ter sido realizada alguma integração. a inacessibilidade ao seu conhecimento. enquanto mecanismo conceptual. que servem de legitimação ao nível teórico mais baixo. num nível mais alto de integração teórica. e as imponentes construções intelectuais que explicam o cosmo. Para os nossos propósitos é suficiente definira mitologia como uma concepção da realidade que postula a contínua penetração do mundo da experiência quotidiana por forças sagradas. Uma vez sentida a necessidade de integração. Seria um evidente absurdo tentar aqui um exame detalhado dos diferentes mecanismos conceptuais de conservação dos universos. costuma existir uma continuidade entre os esquemas explicativos e exortativos. O pensamento mitológico opera dentro da continuidade entre o mundo humano e o mundo dos deuses. o seu conhecimento não se diferencia muito do que é cm geral conhecido. Para salvaguardar as pretensões monopolistas dos especialistas é preciso estabelecer. exotérico por natureza. O exemplo dc Homero bastará para demonstrar este ponto. Os conceitos teológicos estão mais distantes do nível ingénuo. Pode limitar-se a candidatos seleccionados. cm especial porque chama a atenção para os graus variáveis de diferenciação entre estas duas esferas conceptuais. mas essas entidades foram tomadas mais remotas. ao nível institucional. e entre todas as suas respectivas legitimações. A distinção analítica c no entanto útil. nível no qual há a menor necessidade dc conservação teórica do universo para além do seu posicionamento prático do universo cm questão como realidade objectiva. neste caso. Por outras palavras.

assim como os seus devotos o fazem na terra. amam-se uns aos outros") e os procedimentos normativos ("os homens viris devem amar-se uns aos outros"). Este desvio radical requer uma prática terapêutica com sólida base numa teoria terapêutica. o indivíduo que se obstina como heterossexual é candidato certo à terapêutica. permanece '"secreto" em virtude de ser ininteligível para a populaça em geral.120 A construção social cia realidade A sociedade como realidade objectiva 121 teológico está. de uma ou outra forma. A ciência não só completa a remoção da forma sagrada do mundo da vida quotidiana. e que os tipos que examinámos não esgotarão o assunto. Concretiza isso aplicando o aparelho legitimador aos "casos" individuais. está mais próxima das mais recentes conceptualizações secularizadas na sua localização social. Mesmo quando não é intenção institucionslizá-lo como esotérico. Embora a teologia possa estar mais próxima da mitologia no conteúdo religioso das suas definições da realidade. é um fenómeno social global. E preciso haver uma teoria do desvio (ou seja. chamar "budistas" as sociedades tradicionais do Extremo Oriente ou mesmo chamar "cristã" a sociedade medieval. pertencem. embora ainda saiba quem são aqueles que sc presume sejam os especialistas da conservação do universo. A coexistência dc mitologia ingénua entre as massas e de uma complexa teologia entre as elites dc teóricos. a conduta do dissidente desafia a realidade social como tal. por conscguinle. Dito dc maneira mais simples. na história. do exorcismo à psicanálise. o membro "leigo" da sociedade já não sabe como deve ser mantido o seu universo. mas também porque o seu desvio é subversivo. Dc facto. Os interessantes problemas colocados por esta situação pertencem a uma sociologia empírica do conhecimento da sociedade contemporánea e não podem continuar a ser examinados neste contexto. Por exemplo. impedir que os ""habitantes" de um dado universo "emigrem". as outras três formas de mecanismos conceptuais dominantes na história. cm termos psicológicos. A vida quotidiana fica privada tanto da legitimação sagrada cómodo tipo dc inteligibilidade teórica que a ligaria com o universo simbólico na sua pretendida totalidade. A ciência moderna é um passo extremo nesse desenvolvimento e na secularização e sofisticação da conservação do universo. pondo em causa os seus procedimentos cognitivos dados como adquiridos ("os homens viris. é provável que o dissidente represente um insulto vivo aos deuses. como sc viu. que se amam uns aos outros no céu. por exemplo. podem talvez ser tentados a seguir o seu exemplo. por exemplo. a possessão demoníaca). como é natural. por natureza. A teologia é paradigmática para a posterior conceptualização filosófica e científica do cosmo. é um fenómeno histórico frequente. uma sintomatologia. em inúmeras modificações e combinações. o aspecto conceptual da terapêutica. no contexto da teoria geral: a terapia e a aniquilação. deve criar um mecanismo conceptual para explicar esses desvios c conservar as realidades assim ameaçadas. numa colectividade que institucionalizou a homossexualidade militar. não só porque os seus interesses sexuais constituem evidente ameaça à eficiência de combate da sua unidade de guerreiros-amantes. da assistência pastoral aos programas de aconselhamento pessoal. Dado que. à categoria do controlo social. A um nível mais fundamental. podemos admitir que a terapêutica. de certo modo. porém. toda a sociedade enfrenta o perigo de desviacionismo individual. Só lendo presente este fenómeno é que será possível. para a virilidade espontânea dos outros. em ideal. A terapêutica implica a aplicação do mecanismo conceptual a fim de assegurar que os discordantes actuais ou potenciais se conservem dentro das definições institucionalizadas da realidade ou. por outras palavras. Afinal. mas também retira desse mundo o conhecimento conservador do universo enquanto tal. Desnecessário será dizer que os tipos de mecanismos conceptuais aparecem. em termos conceptuais. não só permita a precisa especificação da condição aguda mas também descubra a "heterossexualidade latente" e a rápida tomada de medidas pre- . não afectado pelas sofisticadas teorias de conservação do universo geradas pelos especialistas em teologia. cujos corpos de conhecimento foram sendo afastados do conhecimento comum da sociedade eti geral. Aqui interessa-nos. Tendo a terapêutica de ocupar-se com os desvios das definições "oficiais" da realidade. mais afastado do património gora! do conhecimento da sociedade e toma-se assim mais difícil dc adquirir. Isto tem ainda como consequência o facto do povo poder permanecer. alguns destes ao nível "subconsciente". Ao contrário da mitología. servindo ambas para conservar o mesmo universo simbólico. Mas falta ainda discutir duas aplicações do mecanismo conceptual de conservação do universo. Os seus dispositivos institucionais específicos. com práticas apropriadas para a aplicar em julgamentos por ordálio) que. uma "patologia") que expl ica esta condição chocante (postulando. um aparelho dc diagnóstico e um sistema conceptual para a "cura das almas". E preciso haver um corpo de conceitos diagnósticos (digamos. passam a ser propriedade de elites de especialistas. Isto requer um corpo de conhecimentos que inclui uma teoria do desviacionismo.

O objectivo final deste procedimento é incorporar as concepções dissidentes ao nosso próprio universo. No nosso exemplo. A aniquilação. reintroduzindo-o na realidade objectiva do universo simbólico da sociedade. a aniquilação nega a realidade de qualquer fenómeno ou interpretação de fenómenos que não se ajustem a esse universo. a todas as definições existentes fora do universo simbólico.. pode ser dado um estatuto ontológico negativo aos fenómenos de desvio. Num quadro de referência teológica.122 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 123 vcntivas. em virtude de estarem possuídos por demónios ou apenas por serem bárbaros. a conceptualização da sua condição com que o confrontam os terapeutas profissionais. Ressocializa o transviado. considerando esses vizinhos como seres inferiores aos homens. real para ele. É evidente que existe uma grande satisfação subjectiva por motivo deste retorno à "normalidade". O silogismo fundamental é o seguinte: os vizinhos são uma tribo dc bárbaros. as liquidar. que não deve ser levado a sério por homens razoáveis. e uma teoria de "contratransferência". na afirmação do mesmo. só por si. As suas afirmações só adquirem sentido quando são traduzidas em termos mais "correctos". sentidas quer pelo terapeuta quer pelo "paciente". cm última análise. Basta. Bem no fundo de si mesmos. de modo subjectivo. Por exemplo. O poder material do grupo liquidado a nível conceptual não será. vivendo numa obscuridade cognitiva sem solução. As circunstâncias forçam-nos a manter relações cordiais com bárbaros. Em segundo lugar. Por conseguinte. e de uma vez mais estar bem aos olhos dos deuses. pode haver uma teoria da "resistência". um "pânico heterossexual"). A aplicação aniquiladora do mecanismo conceptual é em geral mais usada com indivíduos ou grupos estranhos à sociedade em questão e por isso inelegíveis para a terapêutica. Por exemplo. A ameaça às definições sociais da realidade é neutralizada atribuindo-se um estatuto ontológico inferior. Desta maneira. homossexuais. usa um mecanismo semelhante para liquidar em termos conceptuais tudo que estiver situado fora deste mesmo universo. um catálogo de técnicas de exorcismos. Às vezes. de maneira subtil. Assim. de facto. é uma questão de política prática. na maioria dos casos. cada qual com a adequada fundamentação teórica). para explicar as dúvidas do primeiro. que fazer?. Isto pode ser realizado de duas maneiras. A terapêutica eficaz estabelece uma simetria entre o mecanismo conceptual e a sua apropriação subjectiva pela consciência do indivíduo. Primeiro. Parte-se sempre do principio de que o negador não sabe. com a feliz consciência de se ter "encontrado". com uma confusão congénita a respeito da ordem correcta das coisas. e o diagnóstico torna-se. um factor insignificante. portanto. isto é. os nossos teóricos homossexuais podem argumentar que todos os homens são.. e com isso um estatuto cognitivo que não deve ser levado a sério. a aniquilação implica a tentativa mais ambiciosa de explicar todas as definições dissidentes da realidade em termos de conceitos pertencentes ao nosso próprio universo. por sua vez. A interiorização. As concepções des vi acionistas não é apenas atribuído um estatuto negativo: elas são atacadas ao nível do pormenor-teoria. a sua anti-homossexualidade é um absurdo bárbaro. . o mecanismo conceptual pode ser concebido de lai maneira que desperte culpa no indivíduo (digamos. Desenvolve uma "sensibilidade"'. Sob a pressão desta culpa. terá eficácia terapêutica. Os vizinhos são anti-homossexuais. a ameaça da vizinhança de grupos anti-homossexuais pode ser liquidada em termos conceptuais pela nossa sociedade homossexual. isto acarreta a transição da heresiologia para a apologética. do que está a falar. A legitimação conserva a realidade do universo construído pela sociedade. O mecanismo conceptual pode ser ainda mais desenvolvido a fim de permitir a conceptual ização (e assim a liquidação conceptual) de quaisquer dúvidas a respeito da tcrapêu:ica. A terapêutica usa o mecanismo conceptual para manter todos dentro do universo em questão. As concepções dissidentes devem portanto ser traduzidas em conceitos derivados do nosso próprio universo. sabem que assim é. O indivíduo pode agora voltar ao abraço amoroso do seu comandante de pelotão. deve haver uma conceptúa lizaçào do processo curativo (digamos. Este procedimento pode também ser considerado uma espécie de legitimação negativa. estão negando a sua própria natureza. A operação conceptual nesse caso é bastante simples. em termos subjectivos. Quer se passe da aniquilação à terapia. quer se proceda à liquidação física do que já se liquidou ao nível conceptual. para explicar as dúvidas deste último. a negação do nosso universo iransmuta-se. o indivíduo acabará por aceitar. E por fim. em termos derivados do universo por ele negado. Os que negam isto. um feito não muito difícil se a sua socialização primária teve um mínimo de êxito. e assim. O mesmo procedimento conceptual pode sem dúvida ser também aplicado aos transviados dentro da sociedade. com ou sem objectivo terapêutico. Um tal mecanismo conceptual pcrm itc a sua aplicação terapéutica pelos especialistas adequados e pode também ser interiorizado pelo individuo que sofre da condição desviacionista. por natureza.

mas apenas que pretendem saber o significado último do que toda a gente sabe e faz. inerente da institucionalização. do abstracto "O quê?" ao concreto sociológico "Quem d i z ? " 50 Como vimos. In nuce aparecem logo que se cristaliza um universo simbólico.1 c) A organização social para a manutenção do universo Sendo produtos históricos da actividade humana. Se nos deixarmos absorver pela complexidade dos mecanismos conceptuais pelos quais se mantém qualquer universo especifico. Os mecanismos conceptuais com que se tenta esta totalização variam em grau de complexidade. a menos que se tomem "problemáticas". limitam por si só a flexibilidade das acções humanas. Para entender o estado do universo construído pela sociedade. já per1. Como os peritos universais operam num nível de considerável abstracção das vicissitudes da vida quotidiana. isto c. Quanto mais abstractas são as legitimações menos probabilidade têm de se modificarem de acordo com exigências pragmáticas evolutivas. O perito em caça não pretende ser perito em pesca e assim não terá motivo para entrar em competição com quem o é. a especialização do conhecimento e a concomitante organização do pessoal para ministrar DS corpos especializados de conhecimento desenvolvem-se como consequência da divisão do trabalho. Se existe a tendência a deixar tudo continuar como antes. Seja o que for que digam sobre o assunto. Não são apenas peritos neste ou naquele sector do património social do conhecimento mas pretendem ter a suprema jurisdição sobre este património do conhecimento. as suas definições da realidade devem compreender a totalidade do ser. com o desenvolvimento dos mecanismos conceptuais. indivíduos concretos c grupos dc indivíduos servem como definidores da realidade. na sua totalidade. aos olhos de um observador externo. ou a sua variação com o tempo. é preciso entendera organização social que permite aos definidores fazer a sua definição. não se pode permitir que coisa alguma fique fora do seu âmbito conceptual. São. c essencial insistir nas questões sobre as conceptualizações históricas da realidade. Os peritos nestes corpos rarefeitos de conhecimentos pretendem um novo estatuto. mas pode ter grande força sócio-histórica. Num quadro de referência teológico o mesmo procedimento demonstra que o Demónio. Mas as definições são sempre corporal"nadas. em que não há competição entre os diferentes peritos. que toda a descrença é apenas desonestidade inconsciente e que o próprio ateu é. mas aqueles pretendem ser especialistas nas definições supremas da realidade enquanto tal. A medida que vão surgindo formas mais complexas do conhecimento e se constitui um excedente económico. em virtude da relação entre os processos de definição da realidade e os dc produção da realidade. os peritos devotam-se em regime de tempo integral aos assuntos da sua competência que. Outros homens podem continuara ocupar-se dc sectores particulares da realidade. de qualquer modo. isto c. esta tendência c fortalecida sc houver excelentes razões para isso. o reforço da tendência para inércia.124 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 125 investigar com cuidado os seus enunciados. As instituições tendem a perdurar. todos os universos construídos pela sociedade se transformam e a transformação é provocada pelas acções concretas dos seres humanos. É possível conceber um estádio primitivo deste desenvolvimento. para descobrir o carácter defensivo c a má-fé da sua posição. Cada área de especialização está . E evidente que isto é uma ilusão. um crente. Em princípio. O que significa que as instituições podem perdurar mesmo quando. Uma segunda consequência é o fortalecimento do tradicionalismo nas acções institucionalizadas assim legitimadas. contra a sua vontade. podemos ser levados a esquecer este facto sociológico fundamental. mas existem numa espécie de céu platónico de ideação não histórica e associai. Dito com simplicidade. glorifica Deus. é a emergência da teoria pura. Isto não significa que pretendem saber tudo. A primeira. que já mencionámos. especialistas universais. em qualquer momento. se podem tornar cada vez mais distantes das necessidades pragmáticas da vida quotidiana. sem discussão. As aplicações terapêuticas e aniquiladoras dos mecanismos conceptuais são inerentes ao universo simbólico enquanto tal. tanto os outros como eles próprios podem concluir que as suas teorias não têm qualquer relação com a vida corrente da sociedade. pode então ser traduzido numa afirmação do universo homossexual que eles negam de maneira tão ostensiva. Se o universo simbólico quer abranger a realidade. As legitimações finais é inevitável que reforcem esta tendência. de jacto. A realidade é definida no social. A formação de hábitos e a institucionalização. Este estádio no desenvolvimento do conhecimento tem várias consequências. definida pelos factos pragmáticos da divisão do trabalho.

a casta militar e principesca. Esta possibilidade não existe para decidir. muito mundanas. surgissem conflitos entre os teóricos e os que exerciam o poder. não significa que estas definições sejam menos convincentes que as que tenham aceitação "voluntária". qualquer rivalidade que possa existir é harmonizável com facilidade por meio dc lestes práticos. tiveram a sua localização social na casta dos xátrias. Por outras palavras. isto é. 92 O aparecimento de pessoal em regime de tempo integral para legitimar a manutenção do universo traz também consigo condições para conflito social. isto é. Enquanto as teorias continuam a ter aplicações práticas imediatas. conseguir que as autoridades empreguem a força armada para impor um argumento contra os seus concorrentes. Na realidade. pois o poder na sociedade inclui o poder dc determinar os processos decisivos de socialização e porlanto o poder de produzir realidade. diga-se de passagem. por exemplo. Pela sua própria natureza esta argumentação não tem a convicção inerente ao sucesso pragmático. por motivos que não precisam de ser esmiuçados. As pessoas fazem cenas coisas não porque resultem mas porque são as coisas certas. E muito possível que formulações teóricas abstrusas sejam trabalhadas quase isoladas dos amplos movimentos que se processam na estrutura social. Em qualquer caso. Os últimos eram representados peles xálrias. foi sobre uma construção dos brâmanes que o sistema dc castas se expandiu ao longo de um período de séculos até cobrir a maior parte do subconiincntc indiano. nesta situação. Pode haver teorias concorrentes relativas à caça ao javali. as teorias muito afastadas da experiência concreta da vida quotidiana) são validadas pelo suporte social mais do que pelo empírico. quando não determinado de maneira directa. É possível dizer ainda que as teorias são convincentes porque resultam. Não foi por acaso que as duas grandes rebeliões teóricas contra o universo dos brâmanes. E possível dizer que desta maneira se reintroduz um pseudopragmatismo. Algum deste conflito trava-se entre especialistas e profissionais. entre uma teoria politeísta e outra henoteista do universo. e nesses casos a competição entre especialistas rivais ocorre numa espécie de vazio social. da realidade. no senlido de se tornarem conhecimento-padrão c um dado adquirido na sociedade em questão. Aquilo que é convincente para um homem pode não ser para o próximo. definições da realidade podem ser impostas pela polícia. pelo desenvolvimento daquela base. dão eloquente testemunho deste conflito. Os respectivos teóricos são forçados a substituir as provas práticas pela argumentação abstracta.126 A construção social c/a realidade A sociedade como realidade objectiva 127 deram a sua funcionalidade original ou praticabilidade. E desnecessário será dizer que as redefinições de Jain c de Buda. Qualquer cue tenha sido a sua origem. A índia antiga oferece-nos algumas das melhores ilustrações históricas deste facto. Estas rebeliões por parte dos "leigos" podem conduzir ao aparecimento de definições rivais da realidade e por fim ao surgimento de novos peritos. conforme também é provável que tenha acon- incido com os poetas épicos que desafiaram o universo dos brâmanes de maneira menos global e menos sofisticada. os brâmanes eram convidados por um príncipe governante. produziram os seus próprios especialistas. A questão pode ser decidida com relativa facilidade. Os brâmanes. em parte também. depois por outro. dois partidos de dervixes ermitas podem continuar a discutir sobre a natureza . o jainismo c o budismo. certas em termos das supremas definições da realidade promulgadas pelos especialistas universais. porque os príncipes sem dúvida compreenderam a sua imensa capacidade de controlo social). Isto. Isto leva-nos a outra não menos importante possibilidade de conflito. Era inevitável contudo que. nas quais facções rivais de especialistas em caça têm os seus interesses. tiveram um êxito espantoso na imposição à sociedade das suas definições da realidade. o Mahabharata e o Ramaiana. lendo a seu cargo as novas definições. as simbolizações de elevada abstracção (isto é. qua peritos na realidade última. Não podemos de facto censurar estes teóricos se recorrem a vários suportes resistentes para o frágil poder do simples argumento como. Por exemplo. O Código dc Manu dá-nos uma excelente ideia tanto do plano dos brâmanes para a sociedade quanto das vantagens. para servirem como "engenheiros sociais" para a implantação do sistema em novos territórios (em parte porque o sistema era visto como idêntico a civilização superior e. Aquilo que poderá ser muito irritante é a pretensão dos peritos em conhecerem o significado supremo da actividade dos profissionais melhor do que estes mesmos. que os brâmanes conquistaram em consequência de serem aceites como os planeadores por escolha cósm ica. verificando-se qual das teorias permite matar maior quantidade de javalis. a que ocorre entre grupos rivais de peritos. por exemplo. podem começar a ressentir-se com as grandiosas pretensões dos peritos e os privilégios sociais concretos que as acompanham. 93 w Estas considerações implicam haver sempre uma base sociocstrulura! para a competição entre definições da realidade rivais e que o desfecho da rivalidade pode ser afectado. A literatura épica da índia antiga. Estes últimos.

Estar na sociedade implica. sendo a guardiã monopolista da tradição cristã. o mesmo acontece com a maioria das civilizações arcaicas. assim. a tradição fica enriquecida e diferenciada. enquanto a teoria B dos dervixes terá apelo para o estrato médio. quer por destruição física ("Quem não presta culto os deuses deve morrer') quer integrando-as na própria tradição (os peritos universais argumentarão que o panteão Y concorrente não é "de facto" outra coisa senão um aspecto ou uma nomenclatura do panteão tradicional X). concorrentes potenciais. N ã o tinha importância sc os camponeses tomassem um dos seus antigos deuses. por motivos muitodistantes das paixões que animaram os inventores originais dessas teorias. Diferentes grupos sociais terão afinidades diferentes com as teorias cm competição e.* Isto não implica que tais sociedades não tenham cépticos. Definições rivais da sociedade são decididas. Um tal monopólio significa que uma única tradição simbólica mantém o universo em questão. rivalidade essa por sua vez " traduzida" em termos teóricos. de imediato. porém. A heresia declarada tinha de ser destruída. . mas que se algum cepticismo existe não foi organizado em termos sociais dc modo a representar um desafio para os apoiantes da tradição "oficial". Há considerável variabilidade histórica na organização social dos peritos teóricos. Se os peritos rivais e os seus respectivos partidários são ou não "sinceros'* na sua relação subjectiva com as teorias em questão. e continuassem a contar as velhas histórias e a celebrar as antigas festas que lhe associavam. sem excepção. que todos tenham. As conceptualizações do universo. são liquidadas logo que aparecem. por consequência. que um ou outro desses pontos de vista chega aos ouvidos da sociedade circunstante serão. se os peritos têm êxito nas suas argumentações e a concorrência for liquidada por "incorporação". Esta situação pode ser considerada paradigmática. oferece excelentes exemplos dos três procedimentos de liquidação. em termos físicos.128 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 129 última do universo no meio do deserto. na esfera de interesses sociais rivais.Assim. em primeiro lugar e talvez como paradigma. Aqueles que ocupam as posições decisoras do poder estão prontos para usar este a fim de impor as definições tradicionais da realidade à população sob à sua autoridade. E pelo menos certas definições da realidade concorrentes podiam estar segregadas dentro . sem haver ninguém de fora que tenha o menor interesse na disputa. Embora seja impossível apresentar aqui uma tipologia exaustiva. interesses na sua maioria extrateóricos que decidirão o desfecho da rivalidade. Os círculos rivais de peritos Ügar-se-ão então aos grupos "portadores" e o seu destino subsequente dependerá do resultado de um qualquer conflito que levou esses grupos a adoptarem as respectivas teorias. então. isto é. tomando-se assim inócua no que respeita ao monopólio tradicional: por exemplo. porque há razões pa~a pensar que é típica das fases primitivas da história humana. 5 tivas abertas à nossa inspecção empírica parecem recair neste tipo e. Todas as sociedades primi- Nesta situação a tradição monopolistae os seus ministradores especialistas são sustentados por uma estrutura unificada de poder. a aceitação desta tradição. Os especialistas na tradição são reconhecidos como tal por parte de quase lodos os membros da sociedade e não têm concorrentes reais com quem se defrontar. Há. desde que estas não se consolidassem cm desafios heréticos organizados. interiorizado por completo a tradição. a despragmatização da teoria é invertida c o poder pragmático das teorias em questão toma-se extrínseco. mas as camadas submetidas ou inferiores podem. quer se corporificasse num individuo (por exemplo. n A cristandade medieval. Logo. com certas modificações. tomar-se-ão "portadores" destas últimas. A competição pode também ser segregada no interior da sociedade. em resultado desta situação. a Igreja. será útil examinar alguns dos tipos mais gerais. "demonstra-se" que uma teoria é superior na prática não em virtude das suas qualidades intrínsecas mas pela sua aplicabilidade aos interesses sociais do grupo que se tornou seu "portador". Ao mesmo tempo. 97 Quando não só surge uma competição teórica mas também uma competição prática entre grupos de especialistas dedicados a diferentes definições supremas da realidade. Neste último caso. a teoria A dos dervixes pode atrair o estrato superior da sociedade em questão. mas ainda assim uma sociedade com um eficiente monopólio simbólico. nenhum membro do grupo conquistador ou dominante pode prestar culto a deuses do tipo Y. A mesma segregação protectora pode ser aplicada aos estrangeiros ou "povos h ó s p e d e s " . o "baptizassem" como santo cristão. mostrava-se muito flexível em incorporar à tradição um grande número de crenças e práticas populares. uma feiticeira) quer numa colectividade (a comunidade Albígense). a possibilidade dos peritos universais deterem o monopólio efectivo de todas as definições supremas da real idade numa sociedade. é de mero interesse secundário para uma compreensão sociológica destes processos. que ameaçassem o universo cristão enquanto tal. q u e d e certo não deve ser chamada de primitiva ou arcaica.

que o cristianismo (ao princípio. é claro. por exemplo. mas pode resultar de um encontro casual. Seria errôneo contudo imaginar que a relação entre um grupo de interesses e a sua ideologia é sempre tão lógica. condene como imoral a economia monetária e o seu sistema de crédito. as forças políticas conservadoras têm tendência a apoiar as pretensões monopolistas dos peritos no universal. antes. ipso facto. lw 101 As situações rnonopol istas podem falhar ao estabelecerem-se ou a manterem-se. O caso mais importante é. por inerência. Está longe dc ser claro. quando um grupo camponês empobrecido luta contra um grupo comercial urbano que o escravizou em termos financeiros. Na história. e de modo geral vitupere o luxo da vida urbana. uma ideologia da classe média baixa) veio a ser aproveitado por poderosos interesses para fins políticos. A "vantagem" ideológica desta doutrina para os camponeses é evidente. No período que se seguiu à Revolução Industrial há certa justificação. E possível então que uma luta entre tradições concorrentes. por exemplo. Encontram-se na história antiga de Israel bons exemplos deste facto. Por exemplo. embora tivesse evidente uso político para os grupos dominantes. se duas definições diferentes da realidade se defrontam num contacto intcrsocial. clericais na sua orientação religiosa e. para chamar o cristianismo de ideologia burguesa. quando muito. Todo o grupo empenhado num condito social necessita de solidariedade. por sua vez. conservadoras logo que conseguem estabelecer o seu monopólio numa dada sociedade. que tinham pouca relação com os conteúdos . por exemplo. em tempos de paz. consideradas como combinações monopolistas dc peritos a tempo inteiro na definição religiosa da realidade são. se fogo e espada não forem viáveis. pela simples razão de que o universo cristão era "habitado" por toda a gente na sociedade medieval. o dos judeus. o desmoronamento da aceitação assumida do monopólio. os grupos dominantes que têm interesse na manutenção CO status quo político são. Desde que as definições da realidade concorrentes possam ser segregadas. dependendo dos interesses concretos adquiridos dentro da sociedade em questão. sem dúvida. "interessante" para certos grupos na época dc Constantino. do ponto de vista político. que tenham sido elementos intrínsecos do cristianismo que o tomaram. Faz também pouco sentido usar o termo.] 30 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 131 do cristianismo sem serem consideradas como ameaças para o mesmo. embora situações semelhantes também surgissem onde cristãos c muçulmanos eram forçados a viverem juntos. Neste ponto. Pelo contrário. a ser conservadoras em política. E então possível dizer que as igrejas. A escolha de uma ideologia específica não tem de ser baseada nos seus elementos teóricos intrínsecos. como irrelevantes para nós. é possível manter relações cordiais com esses estrangeiros. por um número de razões históricas. porém. que na maioria dos países europeus não se podia considerar já como "habitando" o universo cristão. As situações monopolistas desie tipo pressupõem um alto grau de estabilidade estrutural da sociedade. O carácter distintivo da ideologia refere-se mais ao facto do mesmo universo global ser interpretado de diferentes maneiras. acelera a mudança social. pode ser chamada uma ideologia. "internacionais" e "domésticas". em termos conceptuais e sociais. Tem pouco sentido. falar do cristianismo como uma ideologia na Idade Média. Deveria sublinhar-se que este termo tem pouca utilidade se for aplicado ao tipo de situação monopolista acima discutido. s e n d o situações por si mesmas estabilizadoras das estruturas. Parece. é provável que os especialistas na tradição apelem para o fogo e espada ou. ao mesmo tempo. e o seu pessoal administrativo. As definições tradicionais da realidade inibem a mudança social. Este tipo de segregação. como sendo apropriadas para estrangeiros e. se falarmos da "ideologia cristã" dos cruzados e da "ideologia muçulmana" dos sarracenos. Por outro lado. Por outras palavras. 90 da realidade em especial se consegue ligar a um interesse concreto de poder. cujas organizações monopolistas tendem. a maioria destes monopólios foi religiosa. pelos servos tanto como pelos senhores. e o universo dissidente aparece como um possível habitat para o nosso próprio povo. Não nos deveria portanto surpreender que exista uma profunda afinidade entre os indivíduos que têm interesse em conservar as posições de poder estabelecidas e o pessoal incumbido dc ministrar as tradições monopolistas de manutenção do universo. continue por longo tempo. pode reunir-se em torno de uma doutrina religiosa que exalte as virtudes da vida agrária. entrarem em negociações ecuménicas com os concorrentes. porquanto a burguesia usou a tradição cristã c o seu pessoal na luta contra a nova classe operária industrial. desconfiados de quaisquer inovações na tradição religiosa. Quando uma definição E frequente uma ideologia ser aceite por um grupo devido aos elementos teóricos específicos que são proveitosos aos seus interesses. diga-se de passagem. também protegíaos universosjudaico e muçulmano da "contaminação'' cristã. como alternativa. em essência. As ideologias geram solidariedade. A dificuldade começa quando o "estrangeirismo" é desrespeitado.

Mas. existiram pelo menos em certos sectores das antigas sociedades. porque na subsociedade há outros que as consideram como realidade. Por vezes optam por continuar a exprimir as velhas pretensões totalitárias. Pode retirar-se para uma subsociedade intelectual. enquanto o projecto do primeiro está dc acordo com os programas institucionais c serve para lhes dar legitimação teórica. uma vez que a ideologia seja adoptada pelo grupo em questão (ou seja. prevalecem na sociedade industrial moderna. sendo assim subversivo em especial da realidade tida como certa áo status gtto tradicional. como é óbvio. O envolvimento de Constantino nas controvérsias cristológicas do seu tempo c um bom exemplo do caso. sendo de O intelectual tem várias opções interessantes do ponto de vista histórico que se lhe abrem na sua situação. Seja o que for que os peritos fizerem. ** A sua marginalidade social exprime. de configurações estruturais na sociedade mais ampla. pois ajuda a minar a eficácia da resistência à mudança das definições tradicionais da realidade. As cidades do período greco-romano final podem aqui servir de exemplo. que podemos definir como um perito cuja capacidade especializada não é desejada pela sociedade cm geral. é o intelectual. e tem diferentes universos parciais coexistindo num estado dc mútua acomodação E provável que estes tenham algumas funções ideológicas. com nostalgia. ele tem um projecto para a sociedade em geral. isto pode levar os detentores do poder a apoiar os seus especialistas ideológicos em tricas teóricas de todo irrelevantes para os seus interesses. mas o conflito directo entre as ideologias foi substituído por graus variáveis dc tolerância ou mesmo de cooperação. Isto envolve um processo de selecção e aumento do primitivo corpo de proposições teóricas. então. o intelectual pode sentir-se "em casa" na subsociedade. E fácil simpatizar com os especialistas das definições tradicionais da realidade quando relembram. e ao mesmo tempo ser capaz de manter. e não na sociedade maior. O intelectual é assim. Criará. Isto implica a redefinição do conhecimento vis a vis o conhecimento '"oficial". Tal como o perito "'oficiar'. Qualquer outra coisa também teria servido bem. Ele apresenta-sc-nos como um contra-especialista no trabalho de definir a realidade. ou se a sua marginalidade resultou dc aberrações intelectuais (caso dos heréticos votados ao ostracismo). A situação pluralista acompanha as condições dc rápida mudança social. os tempos em que essas definições tinham o monopólio. tendo apenas acontecido que o cristianismo estava presente num momento crucial de decisão. . vários procedimentos para protegera realidade precária da subsociedade contra as aniquiladoras ameaças exte- .o: facto o pluralismo um factor acelerador. é evidente. Até que ponto esta subsociedade é capaz de sobreviver depende. O pluralismo encoraja o cepticismo c a inovação. ela modifica-se de acordo com os interesses que deve agora legitimar. têm de descobrir meios de legitimar com base teórica a desmonopolização que ocorreu. como se nada tivesse acontecido. de muitos intelectuais judeus no Ocidente moderno). um tipo marginal. uma concomitante de alta diferenciação na estrutura social c um elevado excedente económico. Saberse começou porsermarginal e c m seguida se tomou intelectual (como é ocaso. Claro que.132 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 133 religiosos. E importante ter em mente que a maioria das sociedades modernas é pluralista. graves problemas teóricos. a situação pluralista transforma não só a posição social das definições tradicionais da realidade mas também o modo como elas são sustentadas pela consciência dos indivíduos. Por outras palavras. m A situação pluralista pressupõe uma sociedade urbana. possível cm princípio em qualquer das situações que acabamos de discutir. Isto significa que partilha de um universo que é o seu núcleo. com uma divisão do trabalho muito desenvolvida. Pode haver vastos elementos numa ideologia que não têm qualquer relação com os interesses legitimados. na melhor das hipóteses objectivado numa subsociedade dc inlclectuais da mesma espécie. Estas condições que. as suas concepções desviacionistas que a sociedade mais ampla aniquila. logo que uma determinada doutrina se torna a ideologia do grupo em questão). ao nível subjectivo. por definição. não nos interessa aqui. em qualquer dos casos. implica mais do que uma simples interpretação algo dissidente deste último. aceite como indubitável. mas que são afirmados com vigor pelo grupo "portador' apenas porque se comprometeu com a ideologia em causa. isto é. a sua falta de integração teórica no universo da sociedade a que pertencem. aos peritos tradicionais. mas poucas pessoas levarão a sério essas pretensões. Um tipo de especialista importante em termos históricos. Na prática. Administrando uma tradição com pretensões monopolistas seculares. criada por uma constelação de factores não teóricos apresenta. Pode-se dizer com segurança que certo grau de pluralismo c uma condição necessária. o do intelectual existe num vazio institucional. por exemplo. Uma tal situação. que servirá então de refugio emocional e (mais importante) de base social para a objectivação das suas dissidentes definições da realidade. Mas não há razões para supor que estas modificações devam afectar a totalidade da doutrina adoptada.

O que permanece essencial em termos sociológicos é o reconhecimento de que todos os universos simbólicos e todas as legitimações são produtos humanos. Ao nível teórico. . A seita religiosa pode ser considerada como o protótipo das subsociedades desta espécie. O estranho é evitado porque corporifica sempre a ameaça de aniquilação. O intelectual revolucionário precisa de outros que mantenham paia ele a realidade (isto é. Esta necessidade é muito mais fundamental do que o facto. evidente. Mas também acontece que as instituições sociais sejam modificadas parase conformarem com teorias já existentes. As interpretações. mesmo as mais desvairadas concepções dissidentes adquirem o carácter de realidade objectiva. os subuniversos exigem subsociedades como base objcclivadora e as contradefiniçòes da realidade requerem contra-sociedades. tornou-se o exemplo proverbial desta possibilidade histórica. Isto sugere não só que há considerável variabilidade histórica na carreira social dos intelectuais revolucionários. A mesma dialéctica predomina nas transformações globais dos universos simbólicos que tivemos ocasião de examinar. As definições da realidade têm poder auto-realizador. Não será necessário acrescentar que todo sucesso prático da ideologia revolucionária fortificará a realidade que possui dentro da subsociedade c na consciência dos membros da subsociedade. As instituições e os universos simbólicos são legitimados por indivíduos vivos. mesmo teorias muitíssimo abstrusas quando foram concebidas pelos seus inventores. Os detalhes destes processos pertencem à sociologia histórica da religião. a transformação social deve sempre ser entendida como estando numa relação dialéctica com a "história das ideias". tornam-se desobjectivadas na sociedade mais ampla. A história dos modernos movimentos revolucionários oferece muitos exemplos da transformação de intelectuais revolucionários em legitimadores "oficiais" após a vitória desses movimentos. Uma opção histórica muito importante é a revolução. isto é. uma vez mais. A história das teorias legitimadoras é sempre parte da história da sociedade como totalidade. estes procedimentos incluirão as defesas terapêuticas que discutimos antes. Mas devemos. Já a retirada sectária é típica das situações em que as definições da realidade antes objectivada. Karl Marx. Nenhuma genuína análise sociológica poderia proceder de outra maneira. Assim como o intelectual que se afasta necessita de outros que o ajudem a manter as suas definições desviantes da realidade como realidade. tanto "idealista" quanto "materialista" desta relação. sc desintegram. mas podem apresentar-se também como ideólogos revolucionários. É impossível examinar aqui as várias formas que esta opção tomou ao longo da história *% mas é preciso estabelecer um importante ponto teórico. : |0T Na apreciação precedente acentuámos os aspectos estruturais na existência social do pessoal que sustenta o universo. que têm localizações sociais concretas e interesses sociais concretos. isto é. a plausibilidade subjectiva na sua própria consciência) da ideologia revolucionária. um procedimento mais importante será a limitação de todas as relações significativas aos seus companheiros. membros da subsociedade. Aqui o intelectual dispõe-se a realizar o seu projecto para a sociedade na sociedade. embora se deva acrescentar que várias formas secularizadas de sectarismo são uma característica decisiva dos intelectuais na moderna sociedade pluralista. Por conseguinte. Todas as definições da realidade dotadas dc sentido social têm de ser objectivadas por processos sociais. para as tomar mais "legítimas". mas que podem também ocorrer diferentes opções e combinações ra biografia dos indivíduos.134 A construção social da realidade A sociedade como realidade objectiva 135 riores. Na prática. sublinhar que isto não significa serem estas teorias algo mais do que reflexos de processos institucionais "subjacentes": a relação entre as "ideias" e os processos sociais que as sustentam é sempre uma relação dialéctica. As teorias podem ser concretizadas na história. Não há "história das ideias" isolada do sangue e suor da história geral. Os peritos em legitimação podem actuar como justificadores teóricos do status guo. Por conseguinte. dc que nenhuma conspiração pode £r sucesso sem organização. meditando na biblioteca do Museu Britânico. Dentro da comunidade protectora da seita. A sua realidade assume proporções tangíveis quando camadas sociais inteiras sc tomam "portadoras" dela. cuja existência tem a base na vida de individuos concretóse não possui qualquer estatuto empírico separado dessas vidas. E correcto dizer que as teorias são fabricadas com o fim de legitimar instituições sociais já existentes. assim também o intelectual revolucionário necessita de outros para confirmar as suas concepções dissidentes. esquecem esta dialéctica e assim deformam a história.

estes momentos não devem ser considerados como ocorrendo numa sequência temporal. de tal modo que qualquer análise que considere apenas um ou dois deles é insuficiente. Posso de facto compreende- . em termos subjectivos. Nasce com predisposição para a sociabilidade c torna-se membro da sociedade. o qual exterioriza. o indivíduo não nasce membro da sociedade. Pelo contrário. como manifestação de processos subjectivos de outrem que assim se torna. Conforme já referimos. qualquer adequada compreensão teórica da mesma deve abarcar ambos os aspectos. A SOCIEDADE COMO REALIDADE SUBJECTIVA 1. significativo para mim. Isto não significa que compreenda o outro de maneira adequada. Por conseguinte. a sociedade e cada uma das suas partes são caracterizadas por estes três momentos em simultâneo. estar em sociedade significa participar da dialéctica da sociedade. O ponto inicial deste processo é a interiorização: a apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento objectivo como exprimindo sentido. Por outras palavras. na vida de cada indivíduo existe uma sequência temporal no decurso da qual é induzido a tomar parte na dialéctica da sociedade. objectivação e interiorização. o seu próprio ser no mundo social e interioriza este como realidade objectiva. Contudo. composto dos três momentos de exteriorização. isto é. A INTERIORIZAÇÃO DA REALIDADE a) A socialização primária Sendo a sociedade uma realidade ao mesmo tempo objectiva e subjectiva. O mesmo se aplica em relação a um membro individual da sociedade. No que diz respeito ao fenómeno social. estes aspectos recebem um reconhecimento correcto se a sociedade for entendida em termos de um processo dialéctico em curso. ao mesmo tempo.III.

está subjacente tanto à significação quanto às suas formas mais complexas. Estabelece-se entre nós um nexo dc motivações que se prolonga para o futuro. a interiorização. o processo de aprendizagem seria difícil. Os outros significativos que estabelecem a mediação deste mundo com ele modificam o mundo no decurso da mediação. não só "compreendo" os momentâneos processos subjectivos do outro mas "compreendo" o mundo em que ele vive c esse torna-se o meu próprio mundo. Por meio desta y . Mas a sua subjectividade c-mc entretanto acessível de modo objectivo e torna-se significativa para mim. que mora ao lado. primeiro da compreensão dos nossos semelhantes e. isto é. tornando-os seus. pelo menos na aparência. A completa congruência entre os dois significados subjectivos e o conhecimento recíproco desta congruência pressupõe a significação. interioriza-os. As definições destes quanto à situação dele são-Ihe propostas como realidade objectiva. A socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo. Mais importante ainda. e bem assim o processo de interiorizar um tal mundo como realidade. cenas semelhanças com a socialização primária e a secundária. De facto. Assim ele nasce não apenas numa estrutura social objectiva mas também num mundo social objectivo. Isto pressupõe que ele e eu partilhamos tempo de um modo não apenas efémero mas numa ampla perspectiva. já socializado. idêntico a qualquer delas. Ocorre em circunstâncias carregadas de alto grau de emoção. processo que apresenta. Em qualquer caso. dentro da qual encontra os outros significativos que se encarregam da sua socialização. neste sentido geral. A criança identifica-se com os outros significativos através de uma multiplicidade de. Só depois de ter alcançado esse grau de interiorização é que o indivíduo se torna membro da sociedade. Seleccionam aspectos do mundo dc acordo com a sua própria localização na estrutura social e também em virtude das suas idiossincrasias individuais. nào sendo contudo. conforme já analisada. Dito de maneira mais precisa.. quer haja ou nào congruência entre os seus processos subjectivos e os meus. em certo sentido. com raiz na biografia de cada um. É já evidente que a socialização primária. Não só vivemos no mesmo mundo mas participamos também do ser do outro. na forma complexa da interiorização. Podemos aqui deixar dc lado a questão particular da aquisição de conhecimento relativo ao mundo objec- tivo de sociedades diferentes daquela de que cada homem primeiro se tornou membro. há boas razões para se acreditar que sem esta ligação emocional com os outros significativos. O mundo social é "filtrado" para o indivíduo através desta dupla selectividade. pode ser modificado de maneira criadora ou (menos provável) recriado até. da apreensão do mundo como realidade significativa e social.' Esta apreensão não resulta de criações autónomas de significado por indivíduos isolados. Cada indivíduo nasce numa estrutura social objectiva.138 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 139 -lo mal: por exemplo. segundo. um processo original para cada organismo humano e o mundo. A socialização primária é a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância e em virtude da qual se toma membro da sociedade. de classe baixa. cada um de nós não só compreende as definições das situações partilhadas mas somos capazes de as definir de maneira reciproca. Estes outros significativos são-lhe impostos. mas começa com o indivíduo a "assumir" o mundo no qual os outrosjá vivem. 3 1 Nào será necessário acrescentar que a socialização primária implica mais do que a pura aprendizagem cognitiva. que liga sequências de situações de maneira intersubjectiva. Sem dúvida que este "assumir" é em si mesmo. a interiorização neste sentido geral constitui a base. se não mesmo impossível. O processo ontogénico pelo qual se realiza é a socialização. amargo ressentimento ou fervente rebeldia Por consequência uma criança da classe inferior não só irá habitar um mundo muito diferente do dc uma criança de uma classe superior como pode também fazê-lo de modo por completo diferente do da criança. resignação. que pode assim ser definida como a completa e consistente introdução de um indivíduo no mundo obiectivo de uma sociedade ou de um sector da mesma. A criança assume os papéis e atitudes dos outros significativos. Assim. A mesma perspectiva de classe inferior pode introduzir um estado de espírito dc contentamento. Sejam eles quais forem. Agora. cm geral. em estrutura. modos emocionais. a interiorização só se realiza na medida da identificação. a criança das classes inferiores não só absorve uma perspectiva de classe baixa a respeito do mundo social mas absorve esta percepção com a coloração idiossincrática dada pelos os seus pais (ou quaisquer outros indivíduos encarregados da sua socialização primária). uma vez "assumido". está a rir com um acesso de histeria e posso entender o riso como normal hilaridade. existe agora uma contínua identificação mútua entre nós. é a mais importante para o indivíduo e que a estrutura básica de toda a socialização secundária se deve assemelhar à da socialização primária. No entanto. em novos sectores do mundo objectivo da sua sociedade.

do outro generalizado. De facto. como é natural. assim é o mundo para que aponta esta identidade.) apoiam a atitude negativa da mãe cm relação ao derramar da sopa. sejam encontrados. pela simples razão de que o conteúdo da socialização é determinado pela distribuição A socialização primária cria na consciência da criança uma abstracção progressiva dos papéis e atitudes de outros específicos para com os papéis e atitudes em geral. no mesmo processo. a particularização na vida individual da dialéctica geral da sociedade que já tivemos ocasião de discutir. irmã mais velha. ao mesmo tempo. grande importância para a psicologia social. De facto. avó. retratando as primeiras atitudes dos outros significativos em relação ao individuo. Ibdo os nomes implicam uma nomenclatura. Quando o outro generalizado cristalizou na consciência. com facilidade. 7 s é alargada de modo subjectivo. na medida cm que essa for significativa para a criança. com nova coerência. em termos objectivos. O ser-lhe atribuída uma identidade implica a atribuição de um lugar específico no mundo. O individuo tem agora não só uma identidade vis à vis este ou aquele outro significativo. a identidade é definida. e a norma gencraliza-se na expressão ''Uma pessoa não deve entornar a sopa". sendo "Umapessoa" a própria criança como parte dc uma generalidade que inclui. todas as identificações se realizam dentro de horizontes que implicam um mundo social específico. e entre muitas outras coisas. como localização num certo mundo. c só pode ser apropriada ao nível subjectivo juntamente com este mundo. As duas realidades correspondem uma à outra mas não têm extensão igual. não importando que outros. de adquirir uma identidade coerente e plausível ao nível subjectivo. "traduzida" em realidade subjectiva. À medida que outras pessoas significativas (pai. Implica uma dialéctica entre a identificação pelos outros e a auto-identificação. a personalidade é uma entidade reflectida. isto é. assumiro mundo deles. A linguagem. Dito dc outra maneira. que por sua vez implica uma determinada localização social. inclusive. Ü passo decisivo ocorre quando a criança reconhece que todos são contra o entornar a sopa. Por outras palavras. por assim dizer. constitui o principal veículo deste progressivo processo de tradução cm ambas os sentidos. sublinhar que a simetria entre a realidade objectiva e a subjectiva não pode ser completa. A sua formação na consciência significa que o indivíduo se identifica agora não só com os outros concretos mas com uma generalidade dos outros. por motivos evidentes das observações precedentes sobre a linguagem. a generalidade da norma . Aquilo que é real "fora" corresponde ao que é real "dentro". entre a identidade atribuída de modo objectivo e a identidade apropriada de modo subjectivo.140 A construção social da realidade A sociedade como realidade j ubjectrva \ 41 identificação com os outros significativos a criança torna-se capaz dc se identificar a si mesma. significativos ou não. a auto-identificação como alguém que não entorna a sopa. Este não é um processo unilateral ou mecânico. na interiorização das normas há uma progressão que vai de "a mãe está zangada comigo agora" para "a mãe fica zangada comigo dc cada vez que cu entorno a sopa". este toma-se o que é pela maneira como os outros significativos se lhe dirigem. contudo. Sociedade. Por exemplo. etc. mas uma identidade em geral. Esta abstracção dos papéis e atitudes dos outros sign ificativos concretos é chamada o outro generalizado. estabelece-se uma relação simétrica entre a realidade objectiva e a subjectiva. com uma sociedade. que está presente em cada momento em que o indivíduo se identifica com os outros significativos para cie é. Esta identidade. 9 A formação na consciência. esta constitui o mais importante conteúdo e o mais importante instrumento de socialização. como é evidente. o estabelecimento subjectivo de uma identidade coerente c contínua. A medida que esta identidade é apreendida dc modo subjectivo pela criança ("eu sou John Smith"). marca uma fase decisiva na socialização. identidade e realidade cristalizam de modo subjectivo no mesmo processo de interiorização. A realidade objectiva pode ser. incorpora em si todos os vários papéis c atitudes interiorizados. A apropriação subjectiva da identidade c a apropriação subjectiva do mundo social são apenas aspectos diferentes do mesmo processo de interiorização. ü mais importante para nossas considerações aqui é o facto do individuo não só absorver os papéis e atitudes dos outros mas. excederia a nossa finalidade actual se fôssemos prosseguir nas suas implicações para a teoria sociopsicológica. A dialéctica. Implica a interiorização da sociedade enquanto tal e da realidade objectiva nela estabelecida e. em princípio. apreendida ao nível subjectivo como constante. Só em virtude desta identificação generalizada é que a sua identificação consigo mesmo alcança estabilidade e continuidade. A criança aprende que ê aquilo que lhe chamam. 6 Embora os detalhes desta dialéctica tenham. Há sempre mais realidade objectiva "disponível" do que a de facto interiorizada em qualquer consciência individual. toda a sociedade. Deve-se. c vice-versa. Esta cristalização ocorre cm simultâneo com a interiorização da linguagem. mediado pelos mesmos outros significativos.

F. A socialização primária realiza assim o que (numa visão retrospectiva) pode ser considerado o mais importante embuste a que a sociedade submete o indivíduo. Por mais que o sentimento original de inevitabilidade venha a ser enfraquecido por desencantos subsequentes. as mesmas que examinámos ao tratar da peculiar posição do homem no reino animal. como por exemplo raparigas. assim como a valentia que lhe será exigida mais tarde quando. Deve-se executar os ritos. A biografia subjectiva não é. Estes esquemas proporcionam à criança programas institucionalizados para a vida quotidiana. Os conteúdos específicos que são interiorizados na socialização primária variam. E a linguagem que lem. a interiorização da realidade específica deles é quase inevitável. fazer parecer necessidade o que de facto é um amontoado de contingências.sta injusta desvantagem. por conseguinte. e através dela. Isto implica que a simetria entre a realidade objectiva c a subjectiva nunca é uma situação estática. criada uma vez por todas. o único mundo existente c concebível. em valentes c covardes. Como a criança não tem escolha na selecção dos seus outros significativos. a lembrança de uma certeza que nunca se poderá repetir. mesmo que a sociedade e o seu mundo sejam bastante simples. O mundo da infância é. são os adultos que estabelecem as regras do jogo. porque só assim se poderá contar com os deuses em momentos de perigo. A sua peculiar qualidade de solidez tem de ser explicada. social. for iniciada como guerreira ou quando for chamada pelo deus. Não há escolha dc outros significativos. O individuo apreende-sc a si próprio como sendo. ou seja. Devc-sc ser leal ao chefe. leva a ter confiança não só nas pessoas dos outros significativos mas nas suas definições da situação. Pela mesma razão. Isto tem um importante corolário. enfim. nesta etapa do desenvolvimento da consciência. Dcvc-sc ser valente. F. Por outro lado. Temos de nos arranjar com os pais que o destino nos deu. outros antecipando condutas definidas pela sociedade para estádios biográficos ulteriores. interior e exterior à sociedade. Tem de estar sempre a ser produzida e reproduzida m aclu. como é natural. O mundo da infancia. pleno de realidade. tanto os de aplicação imediata como os antecipatórios. Alguns encontram-se em toda parte. porque senão os deuses enfurecem-se. A criança pode participar do jogo com entusiasmo ou com mal-humorada resistência. etc. ao menos em parte. tem como consequência evidente que. /tic salta. acima de tudo. por inteiro. A criança aprende "'porque é que" os programas são como são. tornando assim significativo o acidente que c o seu nascimento. v á r i o s e s q u e m a s motivacionais e interpretativos são interiorizados com valor institucional definido: por exemplo. a relação entre o indivíduo c o mundo social objectivo assemelha-se a um acto contínuo de equilíbrio. a sua identificação com eles é quase automática. sem dúvida. Por fim. Só mais tarde o indivíduo pode dar-se ao luxo dc ter um mínimo de dúvidas. é evidente. construído o primeiro mundo do indivíduo. a certeza da primeira aurora da realidade. A criança não interioriza omundo dos oufros significativos como um dos muitos mundos possíveis. Hic Rhodus. tais como a consciência da existência do próprio corpo do individuo antes e independente dc qualquer apreensão sua por aprendizagem social. há interiorização pelo menos dos rudimentos do aparelho legitimador. ao mesmo tempo. alguns sendo-lhe de imediato aplicáveis. de ser interiorizada. por exemplo.142 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 143 social do conhecimento. há sempre elementos da realidade subjectiva que nào sc originaram na socialização. o mundo toul court. que ele tem de aceitarcomo tais sem possibilidade de optar por outro arranjo. rapazes escravos ou rapazes de outro clã. embora a criança não seja apenas passiva no processo da sua socialização. Nenhum indivíduo interioriza a loialidadc daquilo que é objectivado como realidade na sua sociedade. a bravura que lhe permitirá atravessar um dia cheio de provas de força dc vontade proveniente dos seus iguais e de toda a especie de outros. diferenciam a identidade do indivíduo da dos outros. Por outras palavras. Interioriza-o como o mundo. A sociedade apresenta ao candidato à socialização um conjunto predefinido ce outros significantes. ao querer agir como um rapaz valente admite que os rapazes se dividem. Com a linguagem. por esta razão que o mundo interiorizado na socialização primária fica muito mais gravado na consciência do que os mundos interiorizados nas socializações secundárias. Estes programas. não há outro jogo à vista. As raízes anU*opológicas deste facto são. inerente à situação de ser criança. Na socialização primária é. o mundo da infancia é constituído dc modo a instilar no indivíduo uma estrutura nómíca |: . E é provável que esta necessidade de um proto-realismo na apreensão do mundo se refira à fílogéncse tanto quanto à ontogénese. porque quer tornar-se um verdadeiro homem. continua aderente ao primeiro mundo da infância. de maneira natural. dc sociedade para sociedade. Mas. Em qualquer caso. na soa luminosa realidade. " E provável que não pudesse ser de outra maneira. Na socialização primária não há o problema de identificação. pela inevitabilidade da relação do indivíduo com os primeiros outros significativos para ele.

E as implicações sociais da infância podem variar muito de uma sociedade para outra. A socialização primária termina quando o conceito do outro generalizado (e tudo quanto o acompanha) ficou estabelecido na consciência do indivíduo. indo para regiões onde não se sente. noutra sociedade.144 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 145 na qual possa ter confiança em que "está tudo bem*'. As exigências da ordem institucional global afectarão também a socialização primária. 13 preender o argumento de que a masturbação irá interferir com o seu futuro ajustamento sexual. por exemplo. Tal sociedade. ou socializações secundárias. Assim. dependendo das circunstâncias biográficas. Cenas legitimações. do que para com- E possível conceber uma sociedade na qual não haja outra socialização depois da primária. Podemos imaginar. qualquer programa. podem sxigir um grau mais elevado de complexidade linguística do que outras. pecam inosas e impuras". Na idade A a criança deve aprender X. em termos das qualidades emocionais. Para além disso. é de esperar que tenha matado o seu primeiro inimigo. em retrospecção. porém. como ocorrem as novas interiorizações. por exemplo. "por natureza. a socialização secundária toma-se necessária. etc. há uma grande variabilidade sócio-histórica na definição das etapas na sequência da aprendizagem. Mas esta interiorização da sociedade. em casa. com é evidente. na biografia posterior do indivíduo? Examinaremos estes problemas em ordem inversa. A socialização nunca é total nem nunca está completa. A extensão c carácter destes são ponanto . teria de possuir um conteúdo de conhecimentos muito simples. Continua sendo o "mundo domestico". responsabilidade criminal. o progiama de aprendizagem. pode ser mais ou menos chocante. Tem havido variações semelhantes em termos da capacidade infantil de actividade sexual. Ou uma criança de classe superior pode sentir as suas primeiras vibrações de emoção patriótica mais ou menos na época em que a sua co-etária de uma classe inferior sente ódio pela polícia e por tudo quando esta representa. Esta concepção é útil porque estabelece um caso limite. c assim por diante. só a força e compreensão as distinguindo dos adultos. terá de reconhecer que uma criança de um ano de idade não pode aprender o mesmo que uma de três anos. mas em todo o caso o mundo da infância é provável que conserve. na idade B deve aprender Y. mas nenhuma sociedade por nós conhecida deixa de ter alguma divisão do trabalho e ao mesmo tempo alguma distribuição social dos conhecimentos. repetindo o que talvez seja a frase mais frequente das mães aos filhos quando estes choram. Todo o conhecimento seria importante. O que é ainda definido como infância numa sociedade pode bem ser definido como estado adulto noutra. por muito que o indivíduo se afaste dele mais tarde na vida. imputabilidade moral ou capacidades intelectuais. A ulterior descoberta. Também é provável que a maioria dos programas defina a questão de maneira diferente para rapazes e raparigas. Isto apresenta-nos dois outros problemas: primeiro. Este reconhecimento mínimo é na realidade imposto à sociedade pelos factos biológicos. inspiração divina. Uma criança da classe superior pode aprender os "factos da vida" numa idade em que uma criança de classe inferior já domina os rudimentos da técnica do aborto. diferindo os diversos indivíduos apenas nas suas perspectivas sobre o mesmo. é evidente. nas diversas idades. b) A socialização secundária O carácter da socialização primária é também afectado pelas exigências do património dc conhecimentos a ser transmitido. Cada um destes programas envolve um certo reconhecimento social do crescimento e diferenciação biológicos. segundo. A civilização ocidental contemporânea (pelo menos antes do movimento freudiano) tendia a considerar as crianças como "inocentes"e "meigas"' por natureza Outras sociedades consideravam-nas. em qualquer sociedade. é um membro efectivo da sociedade e na posse subjectiva de uma personalidade e de um mundo. de maneira alguma. a sua realidade peculiar. que uma criança necessitará menos palavras para compreender que não se deve masturbar porque faz o seu anjo-da-guarda ficar zangado. da identidade e da realidade não se faz de uma vez por todas. cm comparação com outra sociedade ou até em diferentes sectores da mesma sociedade. de que haverá coisas muito longe de "estarem bem". como é que é mantida na consciência a realidade interiorizada na socialização primária? E. A socialização secundária é a interiorização de "submundos" institucionais ou baseados em instituições. A socialização primária implica sequências de aprendizagem definidas ao nível social. Logo que tal ocorre. Numa sociedade serão diferentes as capacidades exigidas. paia serem compreendidas. Neste momento. Estas variações na definição social da infância c dos seus estádios afectarão. A idade em que numa sociedade será julgado próprio uma criança saber dirigir um automóvel pode ser a idade em que.

caracterizadas por componentes normativos e afectivos assim como cognitivos. como por exemplo a celebração anual da festa do deus-cavalo. de sobrepor-se a essa realidade já presente. O problema pode ser de solução mais ou menos difícil. Por outras palavras. Ignorando. As legitimações que existirem é natural que sejam de natureza compensatória. Na maior parte das sociedades. O carácter desta socialização secundária depende do estatuto do corpo de conhecimentos em questão. de modo algum. o corpo de significados será sustentado por legitimações que vão de simples máximas. " Cavaleiro rápido na guerra. O cavaleiro. a interiorização de campos semânticos que estruturam interpretações e condutas de rotina numa área institucional. Um soldado de infantaria pragueja fazendo referência às dores nos pés. I lá.146 A construção social c/a realidade A sociedade como realidade subjectiva 147 determinados pela complexidade da divisão do trabalho e a concomitante distribuição social do conhecimento. tendo aprendido que a limpeza é uma . Há ceita justificação para uma tão estreita definição. Estes últimas deverão ter um exercício especial. um problema de coerência entre as interiorizações primitivas e as novas. Mas uma sociedade que limita o uso dos cavalos a puxar carroças de estrume é pouco provável que embeleze esta actividade mediante rituais elaborados ou fetichismos e é pouco provável também que o pessoal. na qual todos as refeições são ingeridas a cavalo e os cavaleiros recém-iniciados recebem os fetiches de crina de cauda de cavalo. O treino é necessário tanto para aprender a fazer um cavalo puxar uma carroça de estrume como para combater numa batalha. realidades parciais em contraste com o "mundo-base" adquirido na socialização primária. que é provável que implique mais doque a aprendizagem das puras habilidades físicas necessárias para lidar com cavalos militares. por agora. Esta linguagem especificada função é interiorizada in loto pelo indivíduo. alguns rituais acompanham a transição da socialização primária para a secundária. que daí em diante levarão pendurados ao pescoço. por exemplo. até complexas construções mitológicas. Pode então comunicar com os seus companheiros de cavalaria com alusões ricas de sentido para eles mas de todo opacas para os homens da infantaria. a quem é atribuída essa tarefa. A cavalaria usará também uma linguagem diferente num sentido mais do que apenas instrumental. conhecimento resultante da divisão do trabalho e cujos "portadores* são definidos por via institucional. podemos dizer que a socialização secundária é a aquisição do conhecimento de funções específicas. são também adquiridas "compreensões tácitas". muitas vezes acompanhado de símbolos rituais ou materiais. conforme o caso. a história completa. Ao mesmo tempo. "Um cavaleiro nunca deixa o inimigo ver a cauda da sua montada". mas isto não é. Quaisquer novos conteúdos que devam agora ser interiorizados terão. portanto. pode haver uma quantidade dc cerimónias e objectos físicos representativos. Por exemplo. etc. de "versões"" de base classista. mas por ser Os processos formais da socialização secundária são determinados pelo seu problema fundamental: pressupõe sempre um processo prévio de socialização primária. que serão destituídas de qualquer importância para o soldado a pé. existe grande variabilidade sócio-htstórica nas representações envolvidas na socialização secundária. "'Nunca deixes uma mulher esquecer a sensação das esporas". é construído um corpo dc imagens e alegorias tendo por base instrumental a linguagem da cavalaria. cavaleiro rápido ao jogo". Conforme for sendo necessário. como as precedentes. eles também são realidades mais ou menos coerentes. também eles exigem pelo menos os rudimentos de um aparelho legitimador. A linguagem da cavalaria tomar-se-á muito diferente da usada pela infantaria. Torna-se um cavaleiro não só por adquirir as habilidades exigidas. avaliações e tonalidades afectivas desses campos semânticos. Por fim. Os "submundos" interiorizados na socialização secundária são. o conhecimento com relevância universal também pode ser distribuído na sociedade sob a forma. Não pode construir a realidade subjectiva ex nihílo. contudo. Contudo. 1 capaz de compreender e usar essa linguagem. porque a realidade já interiorizada tem tendência a persistir. de alguma maneira. isto é. à medida que se vai exercitando para o combate montado. 1 1 Além disso. em geral. A socialização secundária exige a aquisição dc vocabulários específicos das funções. Sem dúvida. se identifique de maneira profunda com tal função. Isto representa um problema. na totalidade do universo simbólico. funções com raiz directa ou indirecta na divisão do trabalho. antes de mais. Nascerá uma terminologia referente a cavalos. Assim. enquanto o cavaleiro poderá referir o dorso do seu cavalo. mas o que se pretende aqui é a distribuição social do "conhecimento especial'". as suas outras dimensões. deve tratar com uma personalidade já formada e um mundo já interiorizado. pode surgir uma diferenciação entre soldados de infantaria e de cavalaria. Desnecessário será dizer que este processo de interiorização acarreta uma identificação subjectiva com a função e com as suas normas adequadas: "Sou de cavalaria". às suas qualidades e usos e às situações resultantes da vida da cavalaria. o que significa.

e t c ) . embalsamador ou funcionário público irlandês.148 . enquanto criança pedestre. Os mestres não precisam ser outros significativos em qualquer sentido do termo. Enquanto a socialização primária não pode ser realizada sem a identificação emotiva da criança com os seus outros significativos. Sem dúvida que os funcionários individuais podem ser. de classe inferior. de cidade por oposição à quinta. na prática. numa fase posterior da vida. melhores ou piores professores de aritmética. Na socialização primária a criança não apreende os seus outros significativos como funcionários institucionais mas como mediadores da realidade touí court. a criança deve amar a mãe mas não o professor. Estas estipulações são extrínsecas ao conhecimento pragmático necessário à execução das funções de adivinho. funcionais. de modo subjectivo. para aprender certas técnicas de caça é preciso aprender primeiro a escalar montanhas. a maior parte da socialização secundária pode dispensar este tipo de identificação e prosseguir com eficiência só com a quantidade de identificação mútua incluída em qualquer comunicação entre seres humanos. Por exemplo. Qualquer funcionário deste tipo poderia ensinar esta forma dc conhecimento. Na socialização secundária. Dito sem rodeios. mas em princípio são substituíveis. para nos mantermos dentro do mesmo exemplo. ou para aprender cálculo é preciso aprender primeira álgebra. . As sequências de aprendizagem podem também ser manipuladas em função dos direitos envolvidos do pessoal que m inistra o corpo de conhecimentos. Claro que isto não implica uma sofisticada compreensão de todas as implicações do contexto institucional. Para estabelecer e conservar a coerência. a realidade subjectiva do indivíduo. Mes tendo aprendido. São funcionários institucionais. Este facto cria problemas especiais que analisaremos um pouco mais adiante. Uma educação primária pode ser bastante para apreender o currículo da escola de embalsamamento e os funcionários públicos irlandeses executam a sua actividade normal em língua inglesa. Algumas das crises que acontecem depois da socialização primária são de facto causadas pelo reconhecimento dc que o mundo dos pais não é o único mundo existente. em termos da estrutura fundamental desse conhecimento. será necessário um certo número de explicações para lhe mostrar que são agora de rigueur como membro da cavalaria. Pode mesmo acontecer que as sequências de aprendizagem manipuladas desta maneira não sejam. pode ser estabelecido que o indivíduo deve aprender a adivinhação pelas entranhas dos animais antes de poder aprender a adivinhação pelo voo dos pássaros ou que é preciso ter um diploma de escola secundária antes da matrícula numa escola de embalsamamento ou que é preciso ser aprovado no exame de gaélico antes dc poder ser eleito para um cargo no funcionalismo público irlandês. e entende a função da professora como representando significados específicos em termos institucionais. Contudo. sem educação. talvez mesmo uma com conotação pejorativa. não terá dificuldade em transferir a mesma virtude para o seu cavalo. Por conseguinte. As funções da socialização secundária têm um alto grau de anonimato. apercebe-se de que a sua professora é uma funcionária institucional. embora as suas actividades reais pudessem dc facto ser executadas com mais eficiência se libertados da carga de uma "cultura" deste tipo. diferenciados dc várias maneiras (como mais ou menos agradáveis. a criança do Sul. mas tem uma localização social muito particular. tais como os de nação por oposição aos de região. sendo portanto fáceis de dissociar dos executantes individuais. dc maneira radical. as limitações biológicas tornam-se cada vez menos importantes nas sequências de aprendizagem do que agora se estabelecem em termos de propriedades intrínsecas do conhecimento a ser adquirido. São estabelecidas dc modo institucional para reforçar o prestígio das funções em questão ou satisfazer outros interesses ideológicos. que certas obscenidades são reprováveis. Por exemplo. a interacção social entre mestres c alunos pode ser formalizada. ou seja. o mesmo mundo que antes de ceito considerava como realidade inevitável. com a atribuição formal de transmitir conhecimentos específicos. Na socialização secundária o contexto institucional é em geral percebido. e não como o mundo pertencente a um contexto institucional específico.-í construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 149 virtude em relação à sua própria pessoa. a socialização secundária pressupõe procedimentos conceptuais para integrar diferentes corpos de conhecimento. O mesmo conhecimento ensinado por um professor também poderia ser ensinado por outro. A socialização. é típico que comece a revestir-se de uma afectividade que lembra a infância quando procura transformar. A criança interioriza o mundo dos pais como sendo o mundo. a criança mais velha apercebe-se de que o mundo representado pelos pais. do mundo nacional da classe média por oposição ao ambiente de classe inferior que encontra em casa. de um modo diferente daquele pelo qual se apercebe dos pais. é de facto um mundo dc gente rural do Sul. Por exemplo. Por exemplo. pode ser estipulado que uma educação universitária de "cultura geral" deva preceder à formação profissional dos sociólogos pesquisadores.

E inevitável que se imponha como tal e. A educação musical. A medida que esta realidade começa a cstabclcccr-sc por si mesma. a qualidade afectiva da "língua materna". é raro que uma língua aprendida tarde na vida alcance a inevitável c evidente realidade da primeira língua aprendida na infancia. comparada com as interiorizações da socialização primária. importantes (isto é. neutros ao nível emocional. na socialização secundária. uma vez mais. Esta diferença deriva das diferenças intrínsecas entre o conhecimento de engenharia c o da mú- O toque dc realidade do conhecimento interiorizado na socialização primária é quase automático. sem dúvida. A realidade original da infância é a "casa". mediante processos formais. passando para outros mais "artificiais"). Estas manobras são necessárias porque já existe uma realidade interiorizada. "levado a casa". Em comparação. Durante longo tempo a pessoa continua a traduzir na língua original quaisquer elementos da nova língua que for adquirindo. A educação para a engenharia pode efectuar-se com eficiência. Isto torna possível destacar uma parte do eu e da sua concomitante realidade. uma inevitabilidade muito menos subjectiva do que a do conteúdo da socialização primária. muito racionais. A necessidade destas técnicas pode ser intrínseca em relação à aprendizagem c aplicação dos conteúdos da interiorização ou pode ser estabelecida a favor dos interesses investidos pelo pessoal que ministra o processo de socialização em questão. porém. ligados ao carácter afectivo das relações sociais na socialização secundária. Na socialização secundária tem de ser reforçado por técnicas pedagógicas específicas. o sentimento subjectivo de que estas interiorizações são reais é mais fugidio). com tanta mais facilidade adquirem o toque de realidade. sempre a "estorvar" novas interiorizações. O indivíduo estabelece então uma distância entre o seu cu total e a sua realidade por um lado. quer queira quer não. é possível dizer que o desenvolvimento desta capacidade de "cscondcr-sc" é um aspecto importante do processo de crescimento e passagem ao estado adulto. Mas como o conteúdo deste tipo de interiorização tem uma realidade subjectiva frágil e pouco digna de confiança. porque permite sequências de aprendizagem que são racionais e controladas ao nível emocional. A criança vive. Além disso. consiste em conferir ao conteúdo daquilo que é ensinado. vai-se tornando possível dispensar a tradução. . Ao mesmo tempo. com clareza. Por exemplo. Esta importante realização só é possível depois de ter havido a socialização primária. São necessários graves choques biográficos para desintegrar a sólida realidade interiorizada na primeira infância. Entretanto. contado. O facto de os processos de socialização secundária não pressuporem um alto grau dc identificação e do seu conteúdo não possuir a qualidade da inevitabilidade pode serútil na prática. a lenta ruptura desta ligação. eo eu parcial específico de uma função e respectiva realidade por outro. ao nível subjectivo. Quanto mais estas técnicas tomam plausível. levando a atenção da criança a desviar-se do seus objectos "naturais". fazendo-os parecer tão vivos quanto o "mundo caseiro" da criança). Dai deriva. o toque de realidade do conhecimento interiorizado na socialização secundária é mais fácil de ser posto entre aspas (isto é. 15 O grau e o carácter exacto dessas técnicas pedagógicas variarão com as motivações que o indivíduo tem para a aquisição do novo conhecimento. todas as posteriores realidades são "artificiais". A sua consequência mais importante. um indivíduo que deseja tomar-se um músico perfeito deve mergulhar no assunto num grau desnecessário a um indivíduo que se prepara para ser engenheiro. deixar para trás o mundo da aritmética logo que sai da aula. Mas muito menos para destruíras realidades interiorizadas mais tarde.150 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 151 Este formalismo c anonimato estão. sem preocupações. pertencem a outras sequências de aprendizagem na socialização secundária. com "naturalidade". Por isso a professora procura "levar a casa" os assuntos que está a transmitir tornando-os vividos (isto é. com ligação à mesma e. é bastante fácil marginalizara realidade das interiorizações secundárias. Dito. Mutatis mtttandis. Esta expressão é sugestiva. como sendo relevante apenas para a situação funcional específica em questão. é típico que implique uma identificação muito mais intensa com um maestro e uma imersão muito mais profunda na realidade musical. é mais fácil para a criança "esconder-se" da professora do que da mãe. Por conseguinte. à medida que a aprendizagem prossegue. como é evidente. as mesmas características dc construção a partir da realidade "caseira". Só desta maneira a nova língua poderá começar a ter alguma realidade. A pessoa mostra-se capaz de "pensar" na nova língua. ligando-os às estruturas relevantes já presentes no "mundo de casa") c interessantes (isto é. no mundo tal como c definido pelos pais. Aprende-se uma segunda língua construindo sobre a realidade indiscutível da nossa "língua materna". uma continuidade entre os elementos originais do conhecimento e os novos. nalguns casos é preciso criar técnicas especiais para produzir a identificação e a inevitabilidade consideradas necessárias. mas pode. até ao indivíduo. por assim di7er.

contra as definições dos legitimadores "oficiais" da sociedade. "Entrega-se" à música. . É também "natural" que alguém se torne padre católico em Roma de-modo diferente que nos Estados Unidos. cm termos subjectivos. pode haver uma série dc órgãos socializadores que combinam essa tarefa com outras. o mesmo órgão institucional pode conduzir da socialização primária à secundária e executar esta última até uma fase bastante avançada. 1'or vezes. Mas terá também de haver intensificação na socialização do músico numa sociedade que oferece aguda competição aos valores estéticos da comunidade musical. a um psicanalista e a um assistente social psiquiátrico. Do mesmo modo. Assim. entre a socialização primária c a secundária. A facilidade com que se sacrifica é. E impõe-se ao psicanalista a "análise didáctica". As técnicas aplicadas nesses casos destinam-se a intensificar a carga afectiva do processo de socialização. que pode ser muito simples e disperso no seu conteúdo. claro. com a nova realidade. sistemas muito diferenciados de socialização secundária cm instituições complexas. Não é de admirar que tenham descoberto o expediente óbvio de mandar para Roma. a consequência final deste tipo de socialização. e entre os modos de vida em que estes dois conjuntos de conhecimentos são aplicados na prática. Quando o processo exige uma verdadeira transformação da realidade "caseira" do indivíduo. O individuo compromete-se então. de modo institucional.m geral. o pessoal socializador reveste-se do carácter de outros significantes vis à vis o indivíduo que está sendo socializado. 16 A distribuição institucionalizada das tarefas. Nesse caso. à revolução. facto que se reflecte de maneira óbvia nos respectivos processos de treino. a totalidade da sua vida. isto é. Um director deve ser "correcto" em termos políticos de um modo como não acontece com um vulgar encarregado de secção. pela precisa razão de que na situação americana existe uma poderosa competição derivada daquilo que. etc. não apenas com uma parte de si mesmo mas com o que é. Na falta deste grau de especialização. carregado de "significância". por algum tempo. Uma importante circunstância que pode criar a necessidade de tal intensificação é a competição entre o pessoal das várias instituições encarregado da definição da realidade. os estudantes mais promissores. por exemplo. Em consequência. Um exemplo é a socialização do pessoal religioso. à fé. com pessoa! a tempo inteiro. na mesma proporção. do carácter da socialização primária. isto é. a educação religiosa numa situação pluralista coloca a necessidade de técnicas "artificiais" de acentuação da realidade. procura-se que o processo seja uma réplica. que apenas se sugere ao assistente social. Por exemplo. o grau de compromisso com as forças armadas exigido aos oficiais de carreira é muito diferente do exigido dos recrutados. Um revolucionário profissional necessita. como necessários. No :aso do treinamento revolucionário o problema intrínseco é a socialização do indivíduo numa contradefinição da realidade. um noviciado. pode-se admitir que um músico em formação nos Estados Unidos actuais tem que se dedicar à música com uma intensidade emocional desnecessária na Viena do século XIX. por conseguinte. e sim na dedicação pessoal exigida ao indivíduo em relação aos interesses empenhados no movimento revolucionário. Nos casos dc complexidade muito elevada é preciso criar órgãos especializados em socialização secundária. a socialização secundária adquire uma carga de afectividade até ao grau em que a imersão na nova realidade e o comprometimento com a mesma sejam definidos. ao nível subjectivo. Mas neste caso a necessidade não tem origem nas propriedades intrínsecas do próprio conhecimento. também.152 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 153 sica. varia com a complexidade da distribuição social do conhecimento. por completo. os seminários teológicos americanos têm de lidar com o problema de "desvio da realidade" e organizar técnicas para "fazer aderir" a essa realidade. no decurso do qual o indivíduo se entrega por inteiro à realidade que está a interiorizar. da "cultura dc massa" c da "luta dc cães". etc. a necessidade de técnicas intensificadoras pode provir dc factores tanto intrínsecos quanto extrínsecos. diferentes compromissos com a realidade institucional são exigíveis a um director e ao pessoal de escritório de nível inferior. F. por vezes orientados dc modo muito preciso para as diferentes exigências das várias categorias do pessoal institucional. desnecessárias numa situação dominada por um monopólio religioso. O relacionamento do indivíduo com o pessoal socializador torna-se. um grau muitíssimo mais alto dc identificação e inevitabilidade do que um engenheiro. conforme veremos dentro em pouco. Há. dependendo das tarefas atribuídas a diferentes categorias do pessoal. aparece como sendo o mundo "materialista". Variações semelhantes podem existir no mesmo contexto institucional. em especial para as tarefas educacionais em questão. implicam a institucionalização de um complicado processo de iniciação. tão exacta quanto possível. Dc maneira semelhante. Mas mesmo sem essa transformação. Enquanto esta for pouco complicada.

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A construção social da realidade

.•I saciedade como realidade subjectiva

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pode estabelecer-se que a certa idade o rapaz seja transferido da cabana materna para o quartel dos guerreiros, onde será treinado para se tomar cavaleiro. Isto mio exige pessoal educacional a tempo inteiro. Os cavaleiros mais antigos podem ensinar aos mais novos. O desenvolvimento da educação moderna é. claro, o melhor exemplo da socialização secundária realizada sob os auspícios dc organizações especializadas. O resultante declínio da posição da família em relação à socialização secundária, é por demais conhecido para que exija ser tratado aqui com mais detalhe.

vis à vh a realidade da vida quotidiana. A execução real impõe-se à consciência de modo muito mais clamoroso. De facto, pode ter de ser destruída antes que tenha de ser enfrentada pelo espirito. Em qualquer caso, não pode ser negada do mesmo modo que se pode negar, ou pelo menos tentar, as metamorfoses das situações marginais. O carácter mais "artificial" da socialização secundária toma a sua realidade subjectiva da interiorização ainda mais vulnerável a definições contestatarias da realidade, não porque não sejam julgadas certas ou sejam apreendidas como menos do que reais na vida quotidiana, mas porque a sua realidade está menos arraigada na consciência, sendo assim mais susceptível de ser deslocada. Por exemplo, tanto a proibição da nudez, que se relaciona com o sentimento individual dc vergonha, interiorizado na socialização primária, quanto os cânones do vestuário adequado às diferentes ocasiões sociais, exigidos pela interiorização secundária, são aceites como normais na vida quotidiana. Enquanto não forem desafiados, em termos sociais, nenhum deles constitui problema para o individuo. Contudo, o desafio teria de ser muito mais forte no primeiro caso. do que no segundo, para constituir uma ameaça à realidade, tida como cena. das rotinas cm questão. Uma modificação mesmo pequena na definição subjectiva da realidade bastaria para o individuo considerar correcto poder ir para o escritório sem gravata. Seria necessário uma modificação muito mais drástica para levá-lo a ir, com ar natural, sem qualquer espécie dc roupa. A primeira modificação poderia ser mediada no social apenas por uma mudança de emprego, digamos de um campus universitário metropolitano para um rural. A última implicaria uma revolução social no ambiente do indivíduo. Seria apreendida ao nivel subjectivo como uma profunda conversão, depois de uma provável resistência inicial intensa. A realidade das interiorizações secundárias é menos ameaçada por situações marginais porque, em geral, é irrelevante para as mesmas. Pode acontecer é que esta realidade seja apreendida como trivial pela precisa razão de mostrar falta de importância para a situação marginal. Assim, pode dizer-se que a iminência da morte constitui uma profunda ameaça à realidade da nossa anterior a uto-identificação como homem, ser moral ou cristão. A nossa a uto-identificação como director assistente do departamento dc meias de senhora fica mais banalizada do que ameaçada na mesma situação. Por outro lado, pode considerar-se que a manutenção das interiorizações primárias em face das situações marginais é uma razoável

c) A

manutenção

e

transformação da realidade subjectiva

Não ficando a socialização jamais completa c estando os conteúdos que interioriza sempre ameaçados na sua realidade subjectiva, qualquer sociedade viável deve criar procedimentos de conservação da realidade para salvaguardar um certo grau de simetria entre a realidade objectiva e a subjectiva. Já examinámos este problema a propósito da legitimação. Cone entram o-n os aqui na defesa da realidade subjectiva, mais do que na da realidade objectiva, isto é, a realidade lai como é apreendida na consciência individual e não como definida pelas instituições. A socialização primária interioriza uma realidade apreendida como inevitável. Esta interiorização pode ser julgada bem sucedida se o sentimento dc inevitabilidade estiver presente a maior parte do tempo, pelo menos enquanto o indivíduo está activo no mundo da vida quotidiana. Mas. até mesmo enquanto o mundo da vida quotidiana conserva a sua ponderosa e indiscutível realidade in actu, ele está ameaçado pelas situações marginais da experiência humana que não podem ser incluídas por completo na actividade diária. Existe sempre a ameaçadora presença de metamorfoses, as recordadas de facto e as que sãc apenas pressentidas como sinistras possibilidades. Há também as definições da realidade concorrentes, ameaçadoras de maneira mais directa, que podem ser encontradas na sociedade. Para um homem de família bem comportado uma coisa é sonhar, na solidão nocturna, com indescritíveis orgias, e outra, muito diferente, é ver esses sonhos postos em prática por uma colónia de libertinos na casa ao lado. Os sonhos são mais fáceis de pôr de quarentena no interior da consciência, como "coisa sem sentido", que se despreza, ou como aberrações mentais motivo de silencioso arrependimento. Conservam o carácter de fantasmas

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medida da sua realidade subjectiva. A mesma prova seria bastante irrelevante se aplicada à maioria das socializações secundárias. Faz sentido morrer como um homem, mas muito pouco morrer como director assistente do departamento de meias de senhora. Além disso, quando se espera que as interiorizações secundárias tenham esse grau de persistência na realidade cm face de situações marginais, os concomitantes procedimentos de socialização terão de ser intensificados e reforçados da maneira já discutida. Podiam uma vez mais ser citados, como exemplos, os processos religioso e militar dc socialização secundária. E conveniente distinguir entre dois tipos gerais de conservação da realidade, a conservação de rotina e a conservação crítica. A primeira destina-se a manter a realidade interiorizada no dia a dia, a outra em situações de crise. Ambas envolvem, em princípio, os mesmos processos sociais, embora devam apontar-sc algumas diferenças. Conforme vimos, a realidade da vida quotidiana mantém-se por estar corporificada em rotinas, essência da institucionalização. Além disso, porém, a real idade da vida quotidiana esta sempre a ser reafirmada na interacção do individuo com os outros. Tal como a realidade foi. no in icio, interiorizada por um processo social, assim é também mantida na consciência por processos sociais. Estes últimos não são muito diferentes dos da primeira interiorização. Reflectem também o facto básico de que a realidade subjectiva deve ter com a realidade objectiva uma relação definida ao nível social. No processo social de conservação da realidade é possível fazer a distinção entre os outros significantes e os outros menos importantes. Todos os outros, ou pelo menos a maior oarte dos que o indivíduo encontra na vida quotidiana servem, de modo considerável, para reafirmar a sua realidade subjectiva. Isto acontece mesmo numa situação tão "pouco significativa*" como viajar no comboio diário para o emprego. O indivíduo pode não conhecer ninguém no comboio nem falar com qualquer pessoa. Apesar disso, a multidão dos companheiros de viagem reafirma a estrutura básica da vida quotidiana. Pela sua conduta global os viajantes arrancam o indivíduo à ténue realidade da sonolência matinal e demonstram, em termos indubitáveis, que o mundo é constituído de homens sérios, que vão ao emprego, de responsabilidade e horários, do comboio do New I laven e do Times*, de Nova Iorque.
,s

Este último, é evidente, reafirma as mais amplas coordenadas da realidade individual. Do boletim meteorológico até aos anúncios de "precisa-se", tudo lhe assegura de que está, de facto, no mundo mais real possível. Ao mesmo tempo, afirma o estatuto menos que real dos sinistros êxtases experimentados antes do café matinal, a fornia estranha de objectos familiares ao acordar de um sonho perturbador, o choque por não reconhecer a própria cara no espelho da casa de banho, a indizível suspeita, um pouco mais tarde, de que a mulher e os filhos são estranhos misteriosos. A maioria dos indivíduos susceptíveis a estes terrores metafísicos conseguem exorcizá-los, até certo ponto, no decurso dos seus rituais diários, executados com rigidez, de modo que a realidade diária fica. pelo menos, reposta no momento em que saem de casa. Mas a realidade só começa a ser de facto garantida na comunidade anónima do comboio. E chega a tornar-se opressiva quando o comboio entra na Grand Central Station. Ergo sum, pode então o indivíduo murmurar para si mesmo, c caminhar para o escritório bem acordado e seguro de si. Seria, por conseguinte, um erro admitir que só os outros significantes servem para manter a realidade subjectiva. Mas eles ocupam uma posição central na economia da conservação da realidade. São importantes, em particular, para a progressiva confirmação daquele elemento crucial da realidade que chamamos identidade. Para conservar a confiança de que é na verdade a pessoa que pensa que é, o indivíduo necessita não só da confirmação implícita dessa identidade, que mesmo os contactos diários casuais fornecem, mas a confirmação explícita e carregada de emoção que lhe é outorgada pelos outros significantes para ele. No exemplo anterior, o nosso habitante do subúrbio é provável que procure na s u a família e noutras relações pessoais dentro do ambiente familiar (vizinhança, igreja, clube, etc.) essa confirmação, embora os companheiros de trabalhe possam também desempenhar a função. Se. além disso, ele dorme com a secretária, a sua identidade é confirmada e ampliada. Isto supõe que o indivíduo aprecia que a sua identidade seja confirmada. O mesmo processo diz respeito à confirmação de identidades de que o indivíduo pode não gostar. Mesmo conhecimentos casuais podem confirmar a sua auto-identifícação como um irremediável fracasso, mas a mulher, os filhos e a secretária ratificam, de maneira inegável, c facto como final. O processo que vai desde a definição da realidade objectiva até à conservação da realidade subjectiva é o mesmo em ambos os casos.

* Um dos jornais diários de Nova Iorque (S. T.)

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.-I construção social cia realidade

A sociedade como realidade subjectiva

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Os outros significantes na vida do indivíduo são os agentes principais da conservação da sua realidade subjectiva. Os restantes menos significativos funcionam como uma espécie de coro. A mulher, os filhos e a secretária reafirmam com solenidade, todos os dias, que o indivíduo é um homem importante ou um fracasso sem esperança. As tias solteironas, as criadas e os ascensoristas fornecem graus variados de apoio a essa afirmação. E possível, sem dúvida, existir um certo desacordo entre essas pessoas. O indivíduo enfrenta então um problema de coerência, que pode resolver modificando a sua realidade ou as relações que mantêm a sua realidade. Pode ter a alternativa de. por um lado, aceitar a sua identidade como um fiasco ou, por outro, despedir a secretária ou ainda divorciar-se da mulher. Poderá ter a alternativa dc desc lassificar algumas dessas pessoas da condição dc outros significativos e, no seu lugar, voltar-se para outras, em busca de confirmações da sua realidade significativa, por exemplo, o seu psicanalista ou os seus habituais companheiros dc clube. Há muitas complexidades possíveis nesta organização de relações conservadoras da realidade, cm especial numa sociedade onde existe grande mobilidade e diferenciação de funções.''' A relação, entre os outros significativos e o "coro" na conservação da realidade é dialéctica, isto é, eles interagem entre si e também com a realidade subjectiva que se destinam a confirmar. Uma identificação bem negativa por parte do ambiente m a s amplo poderá afectar a identificação fornecida pelos outros significativos, quando até o ascensorista deixa de dizer "senhor**, e a mulher deixar de identificar o marido como um homem importante. Por outro lado, os outros significativos poderão ter um efeito sobre o meio mais amplo, uma esposa "leal" pode ser uma vantagem em vários aspectos, quando o indivíduo procura transmitir uma certa identidade aos colegas. A conservação da realidade e a confirmação da realidade implicam então a totalidade da situação social do indivíduo, embora os outros significativos ocupem uma posição privilegiada nestes processos. A importância relativa dos outros significativos e do "coro"' pode ser melhor captada se olharmos os casos de í/e.Tconfirmação da realidade subjectiva. Uni acto desconfirmador da realidade praticado pela esposa tem. só por si, um poder muito maior do que um acto semelhante de um conhecido ocasional. Os actos deste ultime precisam adquirir uma certa densidade para-se igualarem ao poder do primeiro. A reiterada opinião do melhor

amigo de um indivíduo, segundo o qual os jornais não estão a relatar acontecimentos consideráveis que se passam abaixo do aparente, pode ter mais peso do que a mesma opinião emitida pelo barbeiro. Entretanto, a mesma opinião expressa, dc enfiada, por dez conhecidos ocasionais pode começar a contrabalançar a opinião contrária do melhor amigo. A cristalização subjectiva que ocorre como resultado destas várias definições da realidade determinará, por conseguinte, o modo pelo qual podemos reagir ao aparecimento dc uma sólida falange de sisudos chineses silenciosos sobraçando uma pasta de documentos, no comboio matinal, isto é. determinará o peso que damos aos fenómenos dentro da nossa definição da realidade. Usando ainda outro exemplo, se alguém é um católico convicto, a realidade da sua fé não está ameaçada pelos companheiros de trabalho não crentes, mas é provável que fique muito ameaçada por uma esposa incrédula. Numa sociedade pluralista, portanto é lógico que a igreja católica tolere uma ampla variedade de associações entre pessoas de crenças diferentes na vida económica e politica, mas continue a ver com desagrado o casamento misto. Em termos gerais, nas situações em que existe competição entre diferentes instituições definidoras da realidade, podem ser toleradas todos os tipos de relações de grupo secundário com os concorrentes, desde que existam, estabelecidas com firmeza, relações de grupo primário dentro das quais uma determinada realidade esteja sempre a ser reafirmada contra os concorrentes. A maneira pela qual a igreja católica se adaptou à situação pluralista nos Estados Unidos, é um excelente exemplo. O veículo mais importante para a conservação da realidade é a conversação. Pode-se considerar a vida quotidiana do indivíduo cm termos do funcionamento de um aparelho de conversação que. sem interrupção, mantém, modifica e reconstrói a sua realidade subjectiva. A conversa significa, sem dúvida, que as pessoas falam umas com as outras. Isto não exclui 0 rico halo dc comunicação não verbal que envolve a fala. Entretanto, a fala conserva uma posição privilegiada no aparelho total da conversa. E importante sublinhar contudo que a maior parte da conservação da realidade na conversa é implícita, não explícita. A maior parte da conversa não define com palavras a natureza do mundo. Pelo contrário, ela ocorre tendo por pano de fundo um mundo que, por acordo tácito, é tido como verdadeiro. Assim, uma troca de palavras como, por exemplo, "Bem, está na hora de ir para a estação!** e "Meu querido, passa um bom dia no escritório'', implica um mundo inteiro dentro do qual estas proposições dc aparência simples
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Pode-se ver a pessoa amada só uma vez por mês. Entendido isto.160 A construção social da realidade A sociedade como reididade subjectiva 161 adquirem sentido. Certas conversas podem também ser definidas de modo explicito c legitimadas como tendo uma condição privilegiada. uma ameaça paia a realidade adquirida. muito diferente. pouco clara. se não a totalidade da conversa quotidiana. uma pessoa só pode manterá sua fé católica se conservar uma relação significativa com a comunidade católica. mas a falta de frequência pode por vezes ser compensada pela intensidade da conversa quando esta se realiza. Em virtude desta implicação a troca dc palavras confirma a realidade subjectiva desse munco. o aparelho de conversa mantêm a realidade "falando" de vários elementos da experiência e colocando-os num lugar definido no mundo real. A realidade subjectiva depende assim. o seu peso ê concretizado pela acumulação e coerência da conserva casual. Vimos cemo a linguagem objectiva o mundo. Podem ter-sc dúvidas a respeito da religião. nos Estados Unidos. pelo menos em potência. enfraquecendo alguns sectores naquilo que ainda é tido como garantido e reforçando outros. Existem também várias técnicas para enfrentar a ameaça da descontinuidade. Assim. no superior estatuto cognitivo e normativo atribuído a estas conversas. o facto fundamental conservador da realidade c o uso contínuo da mesma língua para objectivar a experiência biográfica que se vai processando. e em ordem inversa. antes ou depois. Existem correspondentes "retornos à realidade" para o indivíduo que se vai apoiar nos poucos indivíduos que entendem as suas alusões grupais. Na conversa as objectivações da linguagem tornam-se objectos da consciência individual. no sector a que pertence a sua pronúncia. A conversação é a actualização desta eficiência concretizadora da linguagem nas situações cara-a-cara da existência individual. "Muito bem. A perda da casualidade assinala uma quebra nas rotinas e. No estabelecimento desta ordem a linguagem concretiza um mundo. Uma coisa é comprometer-se num acto sexual embaraçoso c outra. . Só é possível o individuo manter a sua aulo-identificação como pessoa de importância num meio que confirme esta identidade. não te esqueças dc levar a tua arma". a conversa dá contornos firmes a questões já apreendidas de maneira vaga. o aparelho da conversação deve ser contínuo e coerente. mas a conversa então realizada tem suficiente intensidade para compensara relativa falta de frequência. ou na colectividade global que se identificou com uma tradição linguística própria. de estruturas específicas de plausibilidade. é possível imaginar o efeito sobre a causalidade de uma conversa como a seguinte: "Bem. conversa que pode dar-se ao luxo de ser casual porque se refere a rotinas de um mundo tido como dado adquirido. da base social específica e dos processos sociais exigidos para a sua conservação. e assim por diante. Pode servir de exemplo o uso da correspondência para dar continuidade a uma conversa significativa. a realidade subjectiva dc uma coisa da qual nunca se fala torna-se vacilante. Então. sempre. em Brooklyn. As rupturas dc continuidade ou de consistência constituem ipso facto uma ameaça para a real idade subjectiva cm questão. da linguagem idiossincrática dos grupos primários aos dialectos regionais ou de classe. De facto. com o psicanalista ou com uma "autoridade" equivalente. querido. que a conversa possui. "convcnccmo-nos falando" dessas dúvidas: elas são objectivadas como realidade na própria consciência. e à comunidade nacional que se define a si própria em termos de língua. Certos pontos são abandonados e outros acrescentados. Já examinámos os expedientes que um indivíduo pode adoptar para fazer frente à ameaça da incoerência. está na hora de eu ir para a estação". Ao mesmo tempo que o aparelho de conversação faz a contínua manutenção da realidade. Como mostra o exemplo da correspondência. Por outro lado. Esta força geradora de realidade. como as conversas com o confessor. Assim. ou nas pessoas que frequentaram a mesma escola pública. no sentido de o apreender e de o produzir. c falar dele. De um modo geral. neste caso. também está sempre a modificá-la.Diferentes conversas podem ser comparadas em termos de densidade da realidade que produzem ou conservam. A interrupção do diálogo significativo com os mediadores das respectivas estruturas de plausibilidade ameaça as realidades subjectivas em questão. todos os que empregam a mesma língua são outros tantos conservadores da realidade. No total. Em sentido mais lato. A significação disto pode tomar-se ainda mais diferenciada em termos do que se entende por uma "língua comum". por exemplo. está inclusa já na objectívaçâo linguística. transformando opanta rhei da experiência numa ordem coerente. Assim. a frequência da conversa reforça o seu poder gerador da realidade. Estas dúvidas tornam-se reais de uma maneira muito diferente quando são discutidas. a despeito da separação física. ver-se-á que a maior parte. o indivíduo pode recorrer a . A fim de manter com eficácia a realidade subjectiva. A "autoridade" consiste. isto é. t â z a manutenção da realidade subjectiva.

Nestas situações predefinidas acham-se . sem a qual a definição de realidade em questão não se pode manter na consciência. sorrir de si mesmo. como católico. Sc forem esclarecidos os processos implicados no caso extremo. A estrutura de plausibilidade é também a base social para a particular suspensão da dúvida. não pode ser por completo alterada por processos sociais. O sorriso tomar-se-á forçado c por fim será com muita probabilidade substituído por uma expressão sisuda. o indivíduo transformado mantém o mesmo corpo e vive no mesmo universo físico. é uma compreensão algo errónea. O ridículo é uma delas. por conseguinte. existem casos dc transformação que parecem totais quando comparados com modificações menores. estas técnicas podem suportar a Sua continuada auto-identificação como católico. mesmo na ausência da conversa real. -• . Falar de transformação implica. de exercícios religiosos e de técnicas semelhantes. São. a sua velha realidade católica pode continuar a ser relevante para ele. no essencial. tornar-se-ão. Estar em sociedade já acarreta um contínuo processo de modificação da realidade subjectiva. Por exemplo. as crises na realidade podem acontecer cm número muitíssimo maior dc casos do que os estabelecidos por situações limite. separado da comunidade dos que partilham da sua própria fé. A violência desses procedimentos defensivos será proporcional à seriedade com que é considerada a ameaça. das quais a morte é de longe a mais importante. menos provável será que retenham o tom de realidade. A ablução é interiorizada como anulação subjectiva da realidade representada pelo estrangeiro. por exemplo. com frequência. apreendida como total. isto é. a própria sociedade institui procedimentos específicos para situações reconhecidas como implicando o risco de colapso da realidade. e rituais individuais para épocas de infortúnio pessoal. como é evidente. cm termos subjectivos. cm que o indivíduo "muda dc mundo". outro exemplo ainda. foram interiorizadas e estão sempre a ser reafirmadas sanções sociais específicas contra essas d ú v i d a s desintegradoras da realidade. excepto que as confirmações da realidade devem ser explícitas e intensas. Vamos concentrar-nos aqui no caso extremo. Sabe que outros iriam sorrir de troça. 21 Em situações de crise os procedimentos são. claro. O indivíduo pode ter de atravessar uma elaborada purificação ritual depois de um contacto com um estrangeiro. ao nível subjectivo. Por exemplo. exorcismos e maldições contra estrangeiros. executadas técnicas rituais. rituais colectivos dc conservação da realidade podem ser institucionalizados para ocasiões de catástrofe natural. os casos menos extremos serão compreendidos com mais facilidade. Sem dúvida que o individuo. A essas transformações chamaremos alternâncias. os procedimentos defensivos podem. No mínimo. em geral. de cada vez que se encontra um estrangeiro tem de se cuspir três vezes. Pode. Isto. f f incluídas certas situações marginais. ao nível subjectivo. sem dar mais importância ao assunto. Dado que a realidade subjectiva nunca é socializada por completo. Por meio da oração. vazias de realidade "viva". o indivíduo sente-se ridículo quando surgem dúvidas subjectivas a respeito da realidade em questão.162 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade subjectiva 163 várias técnicas de conservação da realidade. No entanto. os mesmos que na conservação rotineira. O indivíduo que vive durante muitos anos entre pessoas de religião diferente. podem ser estabelecidos procedimentos conservadores da realidade para enfrentar estrangeiros e a sua ameaça potencial à realidade "oficial". Quanto mais tempo estas técnicas estiverem isoladas da confirmação cara-a-cara. Tabus. sacudir os ombros. perder o carácter de crise e tornarem-se rotineiros. Ou. Se os contactos com a realidade alternativa e os seus representantes se tornam frequentes. heréticos ou loucos servem de igual maneira a finalidade de "higiene mental'' individual. No mínimo. mas a maneira de "refrescar" estas lembranças é conversar com aqueles que participam da sua importância. Aí. a menos que sejam "revitalizadas" pelo contacto social com outros católicos. cm silêncio. a discussão dos diferentes graus de modificação. cm imaginação. dependendo do carácter do desafio à realidade definida pela sociedade. mas o poder gerador da realidade destas técnicas c muitíssimo inferior às conversas frente a frente que essas técnicas se destinam a substituir. se lembra das realidades do passado. Enquanto se conserva dentro da estrutura de plausibilidade. Embora o indivíduo possa improvisar procedimentos de manutenção da realidade em face da crise. Tudo quanto até agora se disse a respeito da socialização implica a possibilidade da realidade subjectiva ser transformada. aquele no qual há uma transformação quase total. Desnecessário será dizer que este processo de autoterapia será muito mais difícil se a estrutura de plausibilidade já não estiver disponível como sua matriz social. Entretanto. se as verbalizasse. Contudo. Podem ser colectivos ou individuais. pode continuar a identificar-se. Em geral a transformação é. e continuar a existir dentro do mundo assim sancionado.

" As estruturas de plausibilidade da conversão religiosa têm sido imitadas por organizações seculares de alternância. As considerações acima podem aplicar-se-lhe dizendo extra ecclesiam nullasahts. Esta segregação é importante. Esta relação entre conversão e comunidade não é um fenómeno peculiar do cristianismo (apesar dos peculiares aspectos históricos da ecclesia cristã). Saul de Tarso procurou a comunidade cristã depois da sua "experiência de Damasco". uma intensa concentração de toda a interacção significativa dentro do grupo que corporiza a estrutura de plausibilidade e. Saul" e haverá ocasiões em que a velha realidade por eles invocada assume forma de tentação. a segregação é estabelecida por definição. A religião exige uma comunidade religiosa e ávida num mundo religioso exige filiação nessa comunidade. No caso ideal. Como pode isso ser feito? Uma "receita" para uma altcmârcia bem sucedida deve incluir condições sociais e conceptuais. São os únicos que dirão "Deixa-tc disso.164 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 165 A alternância exige processos de rcssocialização. desintegrando a anterior estrutura nómica da realidade subjectiva. Mantém-se mediante a permanente conversação com eles ou dentro da . característica da infância. Os melhores exemplos encontram-se na área da doutrinação politica e da psicoterapia. Os participantes da conversa significativa mudam. embora os estranhos que costumavam ser significativos cm termos biográficos. E com a conversa com os outros novos significantes a realidade subjectiva é transformada. 21 O protótipo histórico da alternância é a conversão religiosa. em termos sociais. que a conversão pode ser de facto mantida como plausível. E só dentro da comunidade religiosa. O novo mundo do indivíduo encontra o seu foco cognitivo c afectivo na estrutura dc plausibilidade em questão. que é inevitável que reproduza as experiências infantis de dependência emocional cm relação aos outros significativos. devem enfrentar um problema de desmantelamento. Não é possível um indivíduo manter-se muçulmano fora da 'utnma do Islão. A alternância implica assim a reorganização do aparelho dc conversação. Não é possível qualquer transformação radical da realidade subjectiva. isto é. mas só teria podido permanecer Paulo no contexto da comunidade cristã que o reconheceu como tal e confirmou o "novo ser" em que ele agora sedeou a sua identidade. Logo que a nova realidade se consolidou c possível estabelecer de novo relações circunspectas com estranhos. O importante é ser capaz dc continuar a A estrutura de plausibilidade deve tornar-se o mundo do indivíduo. Esta estrutura de plausibilidade será proposta ao indivíduo pelos outros significantes com os quais deve estabelecer forte identificação afectiva. Mas essa não é a questão. Representam a estrutura de plausibilidade nos papéis que desempenham vis à vis o individuo (papéis em geral definidos dc maneira explícita cm termos da sua função ressocializante). uma segregação física. ficando assim protegido da sua potencial influência destruidora da realidade. a ecclesia. O indivíduo que executa a alternância cessa a filiação no seu mundo anterior e na estrutura dc plausibilidade que o sustentava em termos corpóreos se possível. que teriam outra coisa em vista quando escreveram a frase) a realização da conversão com sucesso empírico. Isto não pretende negar que a conversão pode antecipar a filiação numa comunidade. São diferentes da socialização primária porque não começam ex nihílo c. ainda sejam perigosos. senão em termos mentais. de maneira radical. claro. A condição social mais importante ca possibilidade de dispor de uma estrutura efectiva dc plausibilidade. Ter uma experiência dc conversão não é nada dc especial. tomando o lugar de todos os outros mundos. por consequência. de atribuir tónicas à realidade e por conseguinte devem reproduzir em grande medida a fone identificação afectiva com o pessoal socializante. Por outras palavras. 23 Icvá-la a sério. Estes são os guias para a nova realidade. budista fora da sanghet e é muito provável não sc poder permanecer hindu em qualquer lugar fora da índia. de matrizes para as conceptuais. cm especial nas etapas iniciais da alternância (fase do "noviciado"). Tanto num caso como no outro não está mais "emparelhado com os descrentes". Se por qualquer razão isto não for possível. em particular dos "coabitantes" do mundo que deixou para trás. Isto significa. incluindo a identidade. Ê aqui que entra a comunidade religiosa. Saul pode ler-se tornado Paulo na solidão do êxtase religioso. ou seja. no pessoal a quem é atribuída a tarefa de ressocialização. Por salus queremos dizer aqui (com as devidas desculpas aos teólogos. por uma definição dos outros que os aniquila. em especial o mundo que o individuo "habitava" antes da sua alternância Isto exige a separação do indivíduo dos habitantes dos outros mundos. as condições sociais servindo. Esta fornece a indispensável estrutura de plausibilidade à nova realidade. conservando o sentido da sua plausibilidade. em particular. sem esta identificação. e medeiam o novo mundo para o individuo. fcstes processos assemelham-se ã socialização primária porque têm. de uma base social que sirva dc "laboratório" da transformação.

o indivíduo pode fabricar acontecimentos e inseri-los nos lugares adequados. A biografia anterior à alternância é.] 66 A construção sócia/ da realidade A sociedade como realidade subjectiva 167 comunidade que representam. a reiroacção para o passado dos esquemas interpretativos presentes (sendo a fórmula para isso: "Antes eujá sabia.. assim como as colectividades e os outros significantes. Por essa mesma razão ninguém é profeta na sua terra e é neste contexto que se podem entender as palavras de Jesus segundo as quais os seus seguidores devem abandonar pai c mãe. ou uma praeparatio evange/ii). Tudo o que precede a alternância é agora apreendido como conduzindo a ela (por assim dizer. Além desta reinterpretação in toto deverá haver reinterpretações especificas de acontecimentos e pessoas com significação passada. O que tem de ser legitimado não é só a nova realidade. Não é de admirar que. sempre que forem necessários para harmonizar o passado lembrado com o passado reinterpretado. A elaboração de um corpo de conhecimentos ictiosofistas com suficiente sofisticação para explicar o porque é que o nexo evidente entre o peixe cm e a telepatia galáctica não linha sido descoberto antes. C. de modo subjectivo. que agora lhe aparece como dominante plausível. que abrangerá tanto o presente quanto o passado. rejeitem tal incumbência. o que se torna necessário é uma reinterpretação radical do significado dessas pessoas e acontecimentos passados na biografia do indivíduo. com frequência. mas a fazê-lo harmonizar-se com a verdade. Sendo bastante mais fácil inventar coisas que nunca aconteceram do que esquecer aquelas que aconteceram. C ' \ "prc-Damasco". : A mais importante exigência conceptual para a alteração é a existência de um aparelho legitimador para a sequência completa da transformação. e não a antiga. os motivos que se encontram por detrás das falsificações e invenções de documentos religiosos. Esta reinterpretação produz uma ruptura na biografia subjectiva do indivíduo em termos de "a. recorrentes na história. "Quando ainda tinha uma consciência burguesa.. cujo significado lhes é opaco. por mais implausível que seja do ponto de vista dos que estão de fora. O lado aniquilador do mecanismo conceptual c muito importante em vista do problema de desmantelamento que tem de ser resolvido. "Quando era ainda motivado por essas necessidades neuróticas inconscientes"."). por completo. tudo a seguir como se fluísse da sua nova realidade. Simplificando.. Mas esquecer na totalidade é coisa que se reconhece difícil. é muito importante se quisermos compreender. a respeito do passado. Como c a nova realidade. Não está a mentir. ao nível subjectivo. Deixemos à imaginação do leitor. Então. pode ser de todo "sincero" nesse procedimento. embora de maneira pouco clara. convencer os indivíduos de que devem pôr-se em contacto com seres provenientes do espaço exterior. isto significa que o indivíduo tem agora de ser muito cauteloso com as pessoas a quem fala." e "d. do mundo exterior e equipada com o necessário pessoal socializador e terapeuta. * Uma vez que é raro ser possível fazer isso com total sucesso. de modo correcto. São evitadas. em especial os outros significantes. como de costume. por hábito.. alguns desses. por sistema. O indi- víduo alternante ficaria sem dúvida melhor se pudesse esquecer. de acordo com a fórmula "Antes eu pensava que. Não é difícil propor agora uma "receita" específica para a alternância em qualquer realidade concebível. A ruptura biográfica identifica-se assim com a separação cognitiva dc luz c trevas. como um Antigo Testamento. por exemplo. sendo integrada numa categoria negativa que ocupa uma posição estratégica no novo aparelho legitimador: "Quando eu ainda vivia uma vida de pecado". como convém. devem ser reinterpretadas no contexto do aparelho legitimador da nova realidade. Também as pessoas.. presentes no passado mas que são agora necessários para a reinterpretação do que ocorreu então (sendo a fórmula: "Defacto fiz isso porque. a nova estrutura de plausibil idade fornecerá vários procedimentos terapêuticos para tratar das tendências para a "recaída". mas as etapas pelas quais ela é apropriada e mantida. se liver gosto para tal. Se estes procedimentos fo- .") e de motivos que não estavam. são reinterpretadas dessa maneira. Estes procedimentos seguem o modelo geral de terapia atrás examinada. Esta questão. que antes a mediavam para o individuo. A "receita" implicaria a construção de uma estrutura de plausibilidade ictiosofista separada. elaborar em pormenor o que seri3 uma tal seita de ictiosofistas. e se mantenham em. E possível receitar procedimentos específicos para. pessoas e ideias discrepantes das novas definições da realidade. desde que se submetam a. aniquilada in toto. A velha realidade. e "pós-Damasco". diga-se de passagem. dieta permanente de peixe cru. Isto implica uma nova interpretação da biografia passada ih toto.. quanto mais não seja por causa da lembrança da realidade passada. agora eu sef\ isto inclui. Estes últimos tornam-sc actores involuntários de um drama. e o abandono ou repúdio de todas as outras realidades alternativas. e também as necessárias legitimações e aniquilações para dar sentido ao percurso do indivíduo em direcção a essa grande verdade.

com tendência a retroprojectar no passado vários elementos que de modo subjectivo não eram acessíveis naquela época. ?: . é provável que protestem contra reinterpretações demasiado fantasistas e têm de ser convencidos de que as transformações ocorridas são plausíveis. A ressocialização é um coite do nó górdio do problema da coerência. Tais transformações parciais são comuns na sociedade contemporânea. em devido tempo. associadas à mobilidade social do indivíduo e à formação profissional. Por exemplo. Não apenas o conteúdo mas também a medida do "sucesso" têm condições sociais estruturais c consequências sociais estruturais. por exemplo. enfrentam o problema de conservar a coerência entre os elementos iniciais c os últimos da realidade subjectiva. em geral. na prática. Na socialização secundária o presente é interpretado de modo a manter-se numa relação contínua com o passado. sob esta forma. mas de maneira menos radical: uma abordagem ditada pelo facto de que em tais casos existe. é possível dizerque os procedimentos em questão são de carácter oposto. Mas estas transformações não chegam. e já interiorizados pelo indivíduo antes de ele próprio se ter tornado móvel. Por outras palavras. agora que se tornou um médico importante numa zona "bem": "é natural" que se vista c fale de modo diferente. com tendência a minimizar as transformações ocorridas. Na ressocialização o passado é reinterpretado para que se harmonize com a realidade presente. Falando de modo geral. não está presente na ressocialização. evitam abruptas descontinuidades na biografia subjectiva do indivíduo. sempre prontos numa sociedade onde há considerável mobilidade ascendente. com a renúncia à busca de coerência e reconstrução da realidade de novo. a base de realidade para a ressocialização é o presente. -"' Aqui é fácil ver a diferença em relação ã plena ressocialização. o indivíduo voltará àquelas condições. desde que o individuo seja atraído para.168 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 169 rem seguidos com cuidado.que expl icam o acontecido a todos os interessados sem criarem a ideia de uma metamorfose total do indivíduo afectado. de um modo geral. uma associação contínua com pessoas c grupos que antes foram significativos. a análise microssociológica ou sociopsicológica dos fenómenos de interiorização deverá ter sempre como pano de fundo uma compreensão macrossociológica dos seus aspectos estruturais . à ressocialização. Nestas há transformações parciais da realidade subjectiva ou de sectores particulares da mesma. Como consequência. o serviço militar de curta duração ou casos de hospitalização não prolongada. 29 cordarão que Irving teve de atenuar a sua imagem de judeu. E claro que existem. haverá uma alta probabilidade de sucesso. asseguram a continuidade biográfica e suavizam as incoerências à medida que vão surgindo. 50 Procedimentos semelhantes ocorrem nas situações em que as transformações são muito mais radicais. A INTERIORIZAÇÃO E A ESTRUTURA SOCIAL A socialização realiza-se sempre no contexto de uma estrutura social específica. comparando com o que acontece com a formação para a carreira militar ou com a socialização de pacientes crónicos. e a socialização secundária que continua a ser construída sobre as interiorizações primárias. ou sequestrado num instituto de lavagem cerebral ictiosofista. tal como acaba de ser examinada. para a socialização secundária é o passado. no caso de transformações ocorrendo em ligação com a mobilidade social existem esquemas interpretativos prefabricados. mas definidas como temporárias. Neste caso a transformação da realidade subjectiva pode ser considerável quando o individuo se torna um tipo aceitável da classe media superior ou num médico aceitável e interioriza os convenientes suplementos de realidade. cria uma ruptura na biografia subjectiva c reinterpreta o passado mais do que correlaciona o presente com ele e torna-se tanto mais agudo quanto mais a socialização secundária tende para a ressocialização. muitos tipos intermédios entre a ressocialização. São construídas com base nas interiorizações primárias e. da sua nova posição na vida. sem contudo coincidir com ela. Assim. como é natural. Este problema que. ou até mesmo desejável. Por outra palavras. "E óbvio"' que con- 2. Mantêm-se na proximidade. os pais de um indivíduo com esta mobilidade ascendente aceitarão certas mudanças no seu comportamento c atitudes como um corolário necessário. Tais esquemas interpretativos. "é natural" que agora vote a favor dos republicanos: "é natural" que se tenha casado com uma jovem formada por Vassar e talvez seja também um facto "natural" que só visite os pais raras vezes. Os procedimentos de manutenção da coerência implicam também mexer com o passado. No primeiro caso a coerência com a realidade e a identidade anterior (existência civil ou de pessoa sadia) está já estabelecida pela suposição de que.

elc pode reagir a esse destino com ressentimento ou raiva. Mas não trazia qualquer problema de Identidade. Por exemplo. em sentido psicológico. Em ambos os casos o outro papel fica "abaixo da superfície". isto é. o camponês apreende-se a si mesmo num papel quando está a bater na mulher e noutro quando se curva. nessa sociedade o indivíduo não só é o que é suposto ser mas é-o de maneira unificada. Ser camponês acarretava problemas dc toda a espécie. tanto para os outros como para si próprios. Entendemos por "socialização bem sucedida" o estabelecimento de um elevado grau dc simetria entre a realidade objectiva e a subjectiva (e também com a identidade). reais. Uma vez que todos os indivíduos se defrontam com o mesmo programa institucional para a sua vida na sociedade. Tal análise é útil porque permite alguns enunciados gerais sobre as condições e consequências da socialização bem sucedida. por definição. urgentes e longe de produzi- rem felicidade. é impossível em termos antropológicos. A nossa análise deve por conseguinte referir-sc a graduações dc um contínuo cujos extremos são inacessíveis na realidade empírica. Não existe. ao nível tanio objectivo como subjectivo. um problema de identidade. tem uma realidade subjectiva de peso c com uma confirmada com coerência em todas as interacções sociais significativas. A identidade é então muito recortada no sentido de representar por comp!e:o a realidade objectiva em que se situa. como no caso de extrema debilidade mental.170 A construção social da realidade /[ sociedade como realidade subjectiva 171 Ao nível da análise teórica aqui ensaiada não podemos entrar no exame detalhado das diferentes relações empíricas entre o conteúdo da socialização e as configurações sueioeslrulurais. c com um elevado nível de recorte. Numa sociedade desse tipo o indivíduo aleijado ou bastardo não tem qualquer defesa subjectiva contra a identidade estigmática que lhe é atribuída. Pelo contrário. ~ } Em tais condições a socialização mal sucedida só acontece como resultado de acidentes biográficos. Podia ser um camponês miserável. fazer algumas observações gerais sobre os aspectos socioestruturais do "sucesso" da socialização. visto que os que são melhores do que ele. para os outros seus significativos e para a comunidade em geral. haverá uma elevada assimetria entre a realidade social em que defacto se encontra como se num mundo estranho. Numa tal sociedade as identidades reconhecem-se com facilidade. Todos estes casos têm o carácter dc infortúnio individual. Pode também dar-se o caso de um impedimento intrínseco à socialização por deficiências biológicas. Dc facto. estranha e truncada. talvez até revoltado. produzindo uma ponderosa realidade objectiva a ser interiorizada. isto é. quer biológicos quer sociais. Um complelo insucesso da socialização é também. a força total da ordem institucional incidirá dc modo mais ou menos igual sobre cada indivíduo. mas é (jua ser inferior que ele se ressente ou se enraivece. estigmatizada pela sociedade ou ainda devido a um estigma baseado em definições sociais. E improvável que as pessoas formadas em tais condições se concebam em (ermos de "profundidades ocultas". Por exemplo. É provável que o êxito máximo na socialização se verifique em sociedades com uma divisão muito simples do trabalho c mínima distribuição do saber. não estratificada. urna vez que a resposta predefinida em termos sociais. E possível. servil. De facto. Como vimos. Está prisioneiro da realidade objectiva da sua sociedade. Ele é o que é suposto ser para si mesmo. Por exemplo. Em tais condições a socialização produz identidades predefinidas. ou "mais real™ Por outras palavras. embora esta realidade lhe seja apresentada de maneira subjectiva. porém. Não fornecem bases para a institucionalização de contra-identidades c de contra-realidadc. e no mínimo. limitado a casos de indivíduos com os quais nem a socialização mínima é conseguida devido a patologia orgânica extrema. Um tal indivíduo terá uma socialização mal sucedida. é possível que nunca fosse muito agradável ser camponês. E improvável que surja na consciência a pergunta "Quem sou eu?". O eu à "superficie" e o eu "abaixo da superfície" só se diferenciam em função do âmbito da realidade subjectiva presente na consciência a qualquer momento. O deficiente e o bastardo são protótipos destes dois casos. esta condição dá a medida do infortúnio existente nessas biografias. por conseguinte. a socialização primária de uma criança pode ser prejudicada devido a uma deformação física. mas era um camponês. não em termos de uma diferenciação permanente de "camadas" do eu. cada pessoa é bastante aquilo que parece. a socialização com sucesso total. ao nível social. Mas nenhum dos dois papéis é estabelecido como um eu "mais profundo". Todos sabemos quem são os outros e quem nós somos. não é levado em conta pela consciência do camponês. 35 . a "socialização mal sucedida" deve ser compreendida em lermos dc assimetria entre a realidade objectiva c a subjectiva. Simplificando. muitíssimo raro. C) ressentimento e a raiva podem inclusive servir como ratificações da sua identidade definida pela sociedade como ser inferior. estão acima destas emoções cruas. Um cavaleiro êum cavaleiro c um camponês é um camponês. diante do senhor. Isto de modo algum implica que o indivíduo seja feliz com a sua identidade.

Enquanto estes indivíduos. o idiota. torna-se possível apenas porque estão disponíveis na sociedade duas respostas em conflito: a da velha louca ("És um leproso!") e a do pessoal socializante da própria colónia ("Es um filho de deus!"). Por conseguinte. talvez até nós próprios. dá-se a ruptura entre a sua conduta '"visível" perante a comunidade maior e a sua auto-identificação "invisível" como alguém muito diferente. não terá consequências estruturais cumulativas porque não possui base social na qual se possa cristalizar num conlramundo. As contredefinições incipientes da realidade c da identidade tornam-sc presentes logo que estes indivíduos se cengregam em grupos com durabilidade social. entretanto. dada por Gandhi aos párias do hinduísmo. quaisquer uuto-identificações contrárias. começar a ser objectivada uma contra-realidade no grupo marginal dos indivíduos socializados dc maneira incompleta. Neste momento um indivíduo a quem c atribuída a categoria de leproso pode descobrir dentro dc si "profundidades ocultas". Neste ponto. todo o outro significativo tem uma perspectiva diferente sobre a realidade . em termos físicos. qualquer pessoa nascida durante um terramoto. a sua identidade objectiva e subjectiva estará predefinida de acordo com o programa institucional que a comunidade estabeleceu para eles. que ainda predefine e continua identificando esses individuos como leprosos e nada mais. aparece a clivagem entre "aparência" e "realidade" na autopcrecpçào do individuo. No mínimo. Serão leprosos c nada mais. A pergunta "Quem sou eu?".172 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 173 e a sua própria realidade subjectiva que só de modo tibio reflecte aquele mundo. c evidente que o grupo iniciará os seus próprios processos dc socielizaçào. já não será uma questão fácil reconhecer a identidade de alguém.O indivíduo socializado sem êxito é predefinido ao nível social como um tipo marcado: o aleijado. com o seu próprio aglomerado institucionalizado dc contra-idcntidadcs. é evidente. Logo que numa sociedade existe uma distribuição do conhecimento mais complexa. A situação começa a mudar quando existe uma colónia dc leprosos que c duradoura e com dimensão suficiente para servir como estrutura dc plausibilidade para contradefinição da realidade e do destino de quem c leproso. mas é um filho do deus. Como o individuo. mesmo sendo mais dc uma mão cheia. que possam às vezes surgir na sua própria consciência. a socialização imperfeita num mundo social pode ser acompanhada pela socialização bem sucedida em outro mundo. este processo parece fantasista. No máximo. Pode.Age como um leproso. "filhos de Deus". por desígnio quer biológico quer social. Ser leproso. e esta definição afectará dc maneira grave a sua socialização primária sob os auspícios. Dito de o u t r o m o d o . de uma velha louca que os mantém vivos no aspecto físico. por exemplo. Por outras palavras. não é difícil ver que a realidade da comunidade também será afectada por esta mudança. Sc levarmos o exemplo um pouco mais longe. pode então ser considerado como um sinal especial de eleição divina. ou incluir outros por via da definição social. não formarem uma contracomunidade própria. Isto pode acontecer de várias maneiras. isto é. os indivíduos podem ser definidos como leprosos desde o nascimento. até ao ponto em que esta clivagem se torna conhecida pela comunidade dos não leprosos. outros indivíduos também o podem fazer. ele é no entanto muitíssimo bem ilustrado pela designação dc harijas. a socialização imperfeita pode resultar de diferentes outros significantes mediando diferentes realidades objectivas para o indivíduo. ' a socialização imperfeita pode resultar da heterogeneidade do pessoal socializador. Pode haver situações nas quais todos os outros significantes da socialização primária servem de mediadores para uma realidade comum. pois se os leprosos podem recusar ser o que é suposto serem. Por exemplo. Numa etapa inicial deste processo de mudança a cristalização da contra-realidade c da contra-identidade podem permanecer ocultas da comunidade maior. não haverá mais certeza se o indivíduo assim definido se identifica a st próprio dessa maneira ou não. os leprosos e os filhos dc leprosos podem ser estigmatizados numa sociedade. Não sabe que "na realidade" são os filhos predilectos dos deuses. Até certo ponto. Já não é então aquilo que é suposto scv. mas com perspectivas bastante diversas. o bastardo. Isto desencadeia um processo de mudança que introduzirá uma distribuição dc conhecimentos mais complexa. atribui condição privilegiada às definições da realidade e de si mesmo dadas pela colónia. por exemplo. A assimetria. fora dos limites da comunidade c lhes transmite o mínimo de tradições institucionais da comunidade. Assim. não possuem qualquer estrutura de plausibilidade que as transforme em mais do que efémeras fantasias. Se. isto é. etc. na sua consciência. Os indivíduos impedidos dc interiorizar na íntegra a realidade da comunidade podem então ser socializados na contra-realidade de uma colónia de leprosos. então. já não será tão fácil reconhecer a identidade dos indivíduos ditos leprosos. à primeira vista. Tal estigmatização pode limitar-se aos indivíduos afectados pela doença.

Desnecessário é dizer que. um casal) com suficiente coerência como grupo. pelo simples facto de ser um indivíduo específico com uma biografia específica. Apesar disso a predefinição das respectivas jurisdições das duas realidades pode ser transtornada por vários acidentes biográficos. A escolha cm princípio disponível para a criança é então mais "recortada". Assim. A criança será reconhecida por todos os interessados. Contudo. mas não se identifica com essa versão. Isto acontece. Em ambos os casos haverá assimetria entre a sua identidade atribuída pela sociedade e a sua real identidade subjectiva. Mas as consequências que aqui temos cm vista acontecem só quando as diferenças entre os outros significantes se referem aos seus tipos sociais e não às suas idiossincrasias individuais. Por exemplo. a "anormalidade" toma-se uma possibilidade biográfica sc houver qualquer concorrência entre as definições de realidade. e por ela própria. O resultante carácter "efeminado" pode ser "visível" ou "invisível". como pertencente ao grupo dos pais e não ao da ama. existe a predominância predefinida da versão masculina para a criança do sexo masculino e da versão feminina para a do sexo feminino. servem de mediadores dessas discrepantes realidades para a criança. Por exemplo. digamos. existe uma boa possibilidade de sucesso terapêutico. de modo que este sabe que não deve viver no mundo das mulheres. que se identifica de maneira correcta com a realidade que lhe foi atribuída. mas apenas diferenças entre versões da mesma realidade comum. Isto acontece com menos frequência do que a situação que acabámos dc examinar. Enquanto não houver conflito fundamenta! entre as definições mediadas da realidade. para assumir a tarefa da socialização primária é provável que tenham desenvolvido um qualquer tipo de mundo comum. 30 imperfeita cm termos estruturais. Elas medeiam as definições jurisdicionais "correctas" para o rapaz. A criança conhecerá a versão pertencente ao outro sexo na medida cm que lhe foi transmitida pelos outros significantes desse sexo. Contudo. como não tendo jurisdição sobre a criança do sexo masculino. Isto. excepto que agora a socialização imperfeita levanta a possibilidade da alternância interiorizada constitua um aspecto permanente da auto-apreensão subjectiva do indivíduo. Não precisamos repetir aqui o que foi dito a respeito da terapêutica. uma criança pode ser educada não só pelos pais mas também por uma ama recrutada numa subsociedade étnica ou dc classes. assim como pode acontecer na primeira situação examinada. homens e mulheres podem "habitar" mundos sociais muito diferentes numa sociedade. enquanto a ama transmite o mundo do campesinato subjugado de outra raça. um rapaz pode interiorizar elementos "impróprios" do mundo feminino porque o pai está ausente durante o período decisivo da socialização primária.174 A construção saciai da realidade A sociedade como realidade subjectiva 175 comum. No exemplo que acabamos dc discutir. na prática. No caso acima a versão feminina define-sc no social. e tem considerável interesse teórico. de facto. na qual as versões do mesmo mundo comum se distribuem entre o pessoal social izador. haverá muitas graduações entre a primeira e a segunda situação. que a criança aprende ao mesmo tempo. Mesmo uma distribuição mínima do conhecimento estabelece jurisdições particulares para as diferentes versões da realidade comum. cada uma das quais não é inteligível ao mesmo tempo para os pais e para a ama. porque os indivíduos (por exemplo. só por si. Os pais transmitem ã criança. não cria a ameaça de socialização malograda. Por exemplo. as crianças socializadas com êxito. o mundo de uma aristocracia conquistadora pertencente a uma raça. Em geral. e tais elementos são ministrados apenas pela mãe e as três irnãs mais velhas. envolvendo mundos diferentes c não versões diferentes do mesmo mundo. E possível até que as duas mediações empreguem línguas muito diferentes. As versões masculina e feminina da realidade são reconhecidas na sociedade e este reconhecimento também é transmitido na socialização primária. que podem ser mediados por diferentes outros significativos na socialização primária. Quando mundos muito discordantes são mediados na socialização primária o indivíduo defronta-se com a escolha dc identidades tipificadas E claro que a sociedade fornecerá mecanismos terapêuticos para tratar desses casos "anormais". criando a possibilidade de escolher entre elas. aparecem mundos discordantes. ele pode identificarse com esse mundo. claro que o mundo dos pais será dominante por predefinição. Por várias razões biográficas a criança pode fazer a "escolha errada". esta definição do "lugar cedo" da realidade do outro sexo é interiorizada pela criança. entre ambos. A socialização imperfeita pode também resultar da mediação dc mundos em aguda discordância por outros significantes durante a socialização primária. Neste caso. Logo que a distribuição do conhecimento sc toma mais complexa. Se tanto os homens como as mulheres funcionam como outros significantes na socialização primária. excepto para sublinhar que a necessidade de mecanismos terapêuticos cresce proporcional à possibilidade de socialização . no mínimo farão pressão sobre as "erradas".

ao princípio de acordo com a fórmula "Graças a Deus. que por fim se generalizam quer o percurso biográfico do indivíduo tenha sido determinado pela escolha "cert a " quer pela "errada". porém. o jovem está pronto para o curso complementar no fim do secundário. deliberada e consciente. No que diz respeito aos pais. escondida do social. pode haver uma assimetria. mas apoiada na estrutura de plausibilidade fornecida pela subsociedade da ama. Vista pslo grupo dos seus pares. ao mesmo tempo. são potenciais "traidores de si mesmos". as opções são limitadas pelo contexto socioestrutural do indivíduo. e no fim talvez pela fórmula "Porquê só eles. Mais cedo ou mais tarde encontrará os que têm um "eu oculto". enquanto "de verdade*' se prepara para a iniciação nos mistérios religiosos superiores do grupo subjugado. Sem que o saibam. A unidade da socialização primária é mantida. difícil de reconhecer de acordo com as tipificações acessíveis dc modo objectivo. uma vez socializados. Umaterceira situação importante que conduz à socialização imperfeita surge quando existem discordâncias entre a socialização primária c a secundária. que não sou assim". na medida cm que se identificou com dois mundos discordantes. na socialização primária. embora seja óbvio que estas opções têm diferentes realidades subjectivas quando já foram interiorizadas na socialização primária. mas na socialização secundária aparecem realidades e identidades opostas. dá-se um interessante desenvolvimento. Pode tornar-se um homem ta! como é entendido pela raça A ou pela raça B. à possibilidade de socialização incompleta. a estrutura social não permite a realização da identidade subjectiva escolhida. ele pode desejar vir a ser um cavaleiro. objectivada dentro da consciência do indivíduo como o seu "eu real". nesse processo. Afirmámos que o insucesso na socialização levantava a questão de "Quem sou eu?" No contexto socioeslmtural. Desnecessário será dizer que estas situações estão prenhes dc possibilidades de conflito interno e de culpa. ao nível da imaginação. havendo em todos os casos uma concomitante "traição a si mesmo". muito mais complicado se acarreta alem disso o problema de saber qual o "eu" que está sendo traído num determinado momento. Discrepâncias semelhantes ocorrem na sociedade contemporânea. e não cu?". Quando a socialização secundária se diferenciou até ao ponto em que se torna possível a desidentificação subjectiva do "lugar" do individuo na sociedade e quando. e coisas assim. O problema interno dessa "traição"" toma-se. os "traidores". que tem pelo menos a possibilidade de migrar entre diversos mundos exequíveis c que construiu com intenção. Por exemplo. a mesma questão põe-se ao indivíduo socializado com sucesso. O "individualista" emerge como um tipo social especial. Por outras palavras. A possibilidade do "individualismo" (isto é. Como é natural. A peculiaridade desta fantasia reside na objectivação. Aparece então a possibilidade de uma identidade verdadeira oculta. É evidente que a ampla distribuição deste fenómeno vai introduzir tensões e inquietação na estrutura social. a questão pode vir a aplicar-se a ele próprio. como resultado de quaisquer opções. entre a biografia "pública" e a "privada"'. a criança apenas está de "fachada".176 A construção social <la realidade A sociedade como realidade subjectiva \ 11 apreendidas por ele como autênticas possibilidades biográficas. em virtude da reflexão que ele faz sobre os outros mal socializados. A identidade escolhida torna-se uma identidade fantasiada. a criança está agora pronta para a fase preparatória de ser feito cavaleiro. . dc uma identidade diferente da atribuída de maneira objectiva e já interiorizada. da escolha individual entre realidades e identidades discrepantes) está ligada. mas a sua posição social torna esta ideia uma louca ambição. examinámos as várias opções que se abrem à criança. Na nossa anterior análise da alternância. como opções subjectivas. ameaçando os programas institucionais e a sua realidade tida como certa. problema criado logo que a identificação com diferentes outros significativos inclui diferentes outros generalizados. assim como trai o seu grupo de pares enquanto estudante "aplicado" e os pais quando rouba um automóvel. um eu com o "material"" fornecido por um grande número de identidades que estavam ao seu alcance. os que alternaram ou estão a alternar entre mundos discordantes. de maneira linear. £ de presumir que todos os homens. em que a socialização mal sucedida é reconhecida como tal. Pode-se admitir que as pessoas sempre sonharam com desejos impossíveis de serem realizados. entre os processos de socialização da familia e do grupo dos seus pares. ameaça essa criada uma vez para sempre ao introduzir-se a possibilidade de alternância na própria socialização primária. A criança está traindo os pais quando se prepara para os mistérios. Isto abre uma caixa de Pandora de escolhas "individualistas". Por uma espécie de efeito de espelho. Pode-se admitir com segurança que a alternância permanece como ameaça durante toda a vida para qualquer realidade subjectiva que brote dc tal conflito. e traindo a ama quando se exercita na cavalaria. Visto pela familia. está pronto para a sua primeira prova seria de coragem ao roubar um automóvel.

35 39 3. Podcr-sc-ia falar aqui de alternância com "frieza". as identidades produzidas pela interacção do organismo. diferentes. mas representa ser um aristocrata. é uma realidade para ser usada por ele com finalidades especiais. Sc estivemios atentos a esta dialéctica podemos evitar a enganadora noção de "identidades colectivas". do qual se pode desligar na sua própria consciência e que "desempenha" com controlo manipulativo. TEORIAS SOBRE A IDENTIDADE A identidade é um elemento-chave evidente da realidade subjectiva e. O indivíduo pode interiorizar diferentes realidades sem se identificar com elas. Haverá uma consciência geral cada vez maior da relatividade de todos os mundos. Os processos sociais implicados na formação e conservação da identidade são determinados pela estrutura social. o indivíduo conserva o distanciamento subjectivo vis à vis estes. etc. mas em vez de fazer dela a sua realidade. Por conseguinte. Devemos porém sublinhar que esta situação não pode ser entendida a menos que sc mantenha cm relação com o seu contexto socioestruiural que decorre. Na situação contemporânea isto implica a análise do pluralismo da realidade tanto quanto do pluralismo da identidade. da consciência individual e da estrutura social reagem sobre a estrutura social dada. Uma vez cristalizada. ou Uma sociedade na qual os mundos discrepantes são. modi. A apresentação de mundos discordantes na socialização secundária produz uma configuração muito diferente. se um mundo diferente aparece na socialização secundária o indivíduo pode preferi-lo de forma manipulativa. processo que a ocorrer na socialização primária adquire com que uma elevada carga afectiva. por conseguinte. carregada de afectividade. como "um mundo" e não como õ mundo". 37 muito além do âmbito das nossas actuais considerações entrar em análises da sociologia do conhecimento e da psicologia social desta constelação. é mantida.ficando-a ou mesmo remod cl ando-a. mas é óbvio que iria u . Na medida em que isto implica o desempenho de certos papéis. acessíveis numa base de mercado. com outros significantes. Se este fenómeno se tornar muito divulgado a ordem institucional na sua totalidade começa a adquirir o carácter de uma rede dc manipulações recíprocas. das relações nas situações antes discutidas. de um modo geral. que são reconhecíveis em casos individuais. em termos qualitativos. da necessária relação entre a divisão social do trabalho (com as suas consequências para a estrutura social) e a distribuição social do conhecimento (com as suas consequências para a objectivação social da realidade). um gestor é diferente de um vagabundo e assim por diante. Se na socialização primária aparecem mundos discordantes o indivíduo tem a opção de se identificar com um deies c não com os outros. sem excepção. £• a possibilidade do indivíduo ter relações com mundos discordantes. A situação. sub speçie aelernitatis. Segue-se que a cenduta institucionalizada do individuo será entendida como "um papel". A identidade é formada por processos sociais. Também podem representar ser aquilo que é suposto serem. porém. tem uma consequência de muito maior alcance do que a hipótese dos indivíduos representarem ser aquilo que não é suposto serem. mantendo-a. sem precisar de recorrer à singularidade. Como vimos. Estas histórias. a orientação c comportamento no dia a dia dependem destas tipificações.178 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 179 Outra consequência muito importante. A identificação. e "veste-os" com deliberada intenção. modificada ou mesmo remodelada pelas relações sociais. por lógica. são feitas por homens também com identidades especificas. o aristocrata já não é apenas um aristocrata. Significa isto que os tipos de identidade podem ser observados na vida quotidiana e que as afirmações como as que foram feitas acima podem ser verificadas. O indivíduo interioriza a nova realidade. As sociedades têm histórias no decurso das quais emergem identidades específicas. inclusive o do próprio indivíduo que é então apreendido. Por exemplo. As estruturas sociais históricas específicas engendram tipos de identidade. Esta situação é cada vez mais típica da sociedade industrial contemporânea. ao nível subjectivo. Na socialização secundária não é obrigatório que a interiorização seja acompanhada pela identificação. referidos ã dinâmica estrutural do industrialismo. em particular ã dinâmica dos padrões de estratificação social por ele produzidos. tal como toda realidade subjectiva. encontra-se em relação dialéctica com a sociedade. quando há discordância entre a socialização primária e a secundária. o que é algo muito diferente. a desidentificaçào e a alternância serão todas elas acompanhadas de crises afectivas pois dependerão. um habitante de Nova Iorque é diferente do habitante do Midwest americano. da mediação de outros significativos. Por outro lado. implica constelações próprias de realidade e de identidade subjectivas. Neste sentido pode-se afirmar que um americano tem uma identidade diferente da dc um francês. da existência individual.

isto é. porém. As teorias sobre a identidade estão sempre integradas numa interpretação mais geral da realidade. a condição dessas tipificações não é comparável à das construções cm ciências sociais. por homens comuns dotados dc bom senso. como é natural. humana e não humana. Deveríamos sublinhar. Dito de maneira 41 diferente.180 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 181 refutadas. Se as teorias sobre a identidade estão sempre incluídas em teorias mais abrangentes arespeito da realidade. A emergência das psicologias introduz uma nova relação dialéctica entre identidade e sociedade. por sua vez e como é evidente. sendo ele próprio definido pelo s o c i a l . tem uma outra pergunta a pôr: "Que realidade?" Diga-se de passagem que este adicional tem importância para a psiquiatria. Assim sendo. de fazer-se no quadro das interpretações teóricas em que estão localizados. Do mesmo modo. Dito dc maneira simples. o estado psicológico é relativo às definições sociais de realidade em geral. Este assunto poderá ser bem ilustrado com uma referência ao termo muito usado em psiquiatria "orientação no real". Do ponto de vista psiquiátrico haverá. e deriva a sua consistência da lógica por detrás dessa teoria. O americano que duvide que os franceses são diferentes pode ir a França e verificar por si mesmo. algo problemático com o indivíduo que não sabe qual é o dia da semana ou que de facto admite sem reservas que falou com espíritos dc defuntos. o cientista social. uma psicologia que interpreta os mesmos fenómenos como perturbações eléctricas do cérebro tem por fundamento uma teoria científica global da realidade. De facto. conforme acontece . se acaba de chegar de outro continente por avião a jacto. quer essa explicação seja ou não "válida" para a disciplina científica contemporânea com aquele nome. O sociólogo. variar muito. reconhecido como tal pelos anglicanos. uma psicologia que interpreta certos fenómenos empíricos como possessão por seres demoníacos. que deseja verificar a tese de Max Weber sobre a ética puritana deve adoptar procedimentos um tanto diferentes e mais complexos. O psiquiatra que procura diagnosticar um individuo cujo estado psicológico suscita dúvidas. tem por matriz uma teoria mitológica do cosmo. Pode não saber o dia da semana apenas porque ainda está "noutro tempo". O psiquiatra lerá de certo em consideração que um indivíduo não saiba o dia da semana. nem a verificação ou a refutação seguem os cânones do método científico. de certo. porem. Dito de maneira mais precisa. j. Se o psiquiatra for de todo sensível ao contexto sociocultural das condições psicológicas chegará também a diagnósticos diferentes sobre o indivíduo que fala com os mortos. no mesmo sentido social objectivo em que o indivíduo anterior estava "noutro tempo". portanto. A identidade permanece ininteligível a não ser quando situada num mundo. em vez da hora-padrão do Leste. variando com o carácter destas. dependendo desse indivíduo vir. A identidade é um fenómeno que emerge da dialéctica entre indivíduo e sociedade. por exemplo. Isto é de todo lógico. sendo inadequada para interpretá-los num quadro não mitológico. faz-lhe perguntas para determinar o grau da sua capacidade de "orientação na realidade". uma vez mais. O nível dessa teorização pode. por outro lado. Os tipos de identidade. por exemplo. O ponto importante no presente contexto é que os tipos de identidade são "observáveis" e "verificáveis" na experiência pré-teórica. Devemos pôr de parte o problema metodológico de saber qual é a relação exacta entre as tipificações da vida quotidiana e as abstracções científicas (um puritano sabia que era um puritano sendo. a relação entre a teoria psicológica e os elementos da realidade subjectiva que pretende definir e explicar. na hora de Calcutá. psicologia pressupõe sempre cosmologia. elementos de certo modo estáveis da realidade social objectiva (sendo o grau de estabilidade. por exemplo. o próprio termo "orientado na realidade" pode ser útil neste contexto. que estamos a referir-nos aqui às teorias sobre a identidade enquanto fenómeno social. mesmo quando são estáveis e a formação das identidades individuais é bastante desprovida de problemas. são produtos sociais tout court. isto deve ser entendido em termos da lógica subjacente a estas últimas. sem preconceito quanto à sua aceitabilidade pela ciência moderna. Voltaremos em breve a este ponto. afim dc "reconhecer'os referenciais empíricos do tipo weberiano ideal). constituem o tema dc certa forma de teorização em qualquer sociedade. as questões do foro psicológico não podem ser decididas sem reconhecimento das definições de realidade tidas como verdadeiras na situação social do indivíduo. da cidade de Nova Iorque ou de uma zona rural do Haiti. sem qualquer dúvida. e incluiremos nelas qualquer teoria sobre a identidade que pretenda explicar o fenómeno empírico de maneira ampla. O indivíduo pode estar numa "outra realidade". De facto. determinado pela sociedade). chamaremos essas teorias "psicologias". Como é evidente. logo pré-eientífica. São "embutidas" no universo simbólico e nas suas legitimações teóricas. Por exemplo. Qualquerteorização sobre a identidade e sobre os tipos específicos de identidade tem.

mas com isso nenhuma delas demonstra o estatuto ontológico das suas categorias. mas com uma diferença que não deixa de ler importância. Mas se isto fosse tudo. e não nos referimos à sua adequação em termos dos cânones de procedimento da ciência empírica. Qualquer que seja a organização social desses especialistas. podem ser classificados de acordo com categorias teóricas. Nem os deuses vudu. Os haitianos rurais são possessos e os intelectuais nova-iorquinos são neuróticos. parece que os evitam. As respectivas teorias psicológicas são adequadas em termos empíricos no mesmo preciso sentido. e são interiorizadas como realidades no decurso da socialização. As teorias psicológicas podem ser. Çíuando as teorias psicológicas alcançam um alto grau de complexidade intelectual torna-se provável que sejam ministradas por pessoal com formação especial neste corpo de conhecimento. Por exemplo. em termos empíricos. em virtude da definição social. assim como um etnólogo americano pode. ao passo que um certo tipo de psicologia vudu poderia fornecer esquemas interpretativos com alto grau dc exactidão empírica. com efeito. torna-se reconhecida como uma interpretação adequada da realidade objectiva). a existirem. dialéctica. Esta realidade está acessível. Os problemas que surgem da dialéctica entre a identidade subjectiva e as atribuições sociais da identidade. ou que é provável que sejam neuróticos os indivíduos com mães autoritárias. é improvável que a psicanálise seja adequada à interpretação de problemas de identidade no Haiti rural. O pressuposto dessas descobertas consiste apenas em que o observador externo esteja disposto a empregar os mecanismos conceptuais da psicologia indígena á pesquisa em curso. por conseguinte. Outra maneira dc dizer que as teorias psicológicas são adequadas. adequadas ou inadequadas. na medida em que pertencem a teorias adequadas. Na medida em que as teorias psicológicas são adequadas nesse sentido. podem existir fora do mundo definido nos respectivos contextos sociais. As duas psicologias demonstram adequação empírica pela sua aplicabilidade à terapêutica. O que antes foi dito a respeito das origens c fases das teorias legitimadoras aplica-se aqui com igual validade. Há uma dialéctica genuína envolvida por causa do poder realizador das teorias psicológicas. consiste em dizer que reflectem a realidade psicológica que pretendem explicar. na vida quotidiana. Por exemplo. Se uma psicologia sc estabelece na sociedade (isto c. A verificação pode ser empreendida pelos participantes ou por observadores alheios às situações sociais em questão. no sentido referido. também numa perspectiva empírica. são passíveis de verificação empírica. tal como são ambos definidos pela sociedade e apreendidos de modo subjectivo. Por conseguinte. descobrir a possessão vudu. nem a energia da libido. Por outro lado. que é o pressuposto de qualquer terapêutica. o seu poder realizador é muito grande porquanto é efectivado por processos de formação dc identidade carregados de emotividade. Mais ainda. então. estabelecidos na sociedade. A possessão c a neurose são assim constituintes tanto da realidade objectiva como da subjectiva nesses contextos. O problema de saber se ou como poderiam ser criadas teorias psicológicas para superar esta relatividade sócio-histórica não é preocupação nossa. Estas proposições são verificáveis ao nível empírico. As teorias psicológicas servem.! 82 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 183 com todas as legitimações teóricas. ou entre a identidade e seu substrato biológico (a que voltaremos). Um etnólogo haitiano pode. fornecendo a ligação teórica entre a identidade e o mundo. é improvável que uma teoria psicológica que admite a possessão demoníaca seja adequada para interpretar os problemas de identidade dos intelectuais judeus da classe média da cidade de Nova Iorque. a fenómenos empíricos da vida quotidiana. a dialéctica entre a teoria e a realidade afecta o indivíduo demaneira palpável. Os demónios. peio perito ou pelo leigo. uma identidade capaz de produzir fenómenos susceptíveis de uma tal interpretação. é possível propor que é provável que fiquem possessos os indivíduos nascidos em certos dias do mês. o que está em jogo não é a verificação no sentido científico mas a prova na experiência da vida social quotidiana. directa c intensa. descobrir neuroses em Nova Iorque. Na medida em que as teorias psicológicas são elementos da definição social da realidade. as teorias psicológicas voltam a entrar na vida quotidiana fornecendo os esquemas interpretativos para tratar dc casos problemáticos. . para legitimar os procedimentos de conservação da identidade e de reparação da identidade. ao nivel empírico. Mas nesses contextos existem. a sua capacidade de gerar realidade é uma característica que têm em comum com outras teorias legitimadoras: contudo. a relação entre teoria e realidade não seria. Essas pessoas não têm. de modo empírico. neste momento. mas antes como esquemas interpretativos aplicáveis. Saber se ele estaiá também disposto a atribuir a essa psicologia uma validade epistemológica mais geral é irrelevante para a pesquisa empírica imediata. As psicologias pertencem a uma dimensão da realidade que tem a maior e mais contínua relevância para todos os indivíduos.

Do mesmo modo. conforme mostrámos antes. Isto não c o mesmo que dizer que as psicologias são capazes dc se verificarem a si mesmas. C) haitiano rural que interioriza a psicologia vudu tornar-sc-á possesso logo que descobre certos sinais bem definidos. ORGANISMO E IDENTIDADE Examinámos. A sua interiorização é acelerada pelo fac:o de se referir à realidade iniema de modo que o indivíduo toma dela consciência no próprio acto de a interiorizar. de se efectivar na socialização primária ou na secundária. é provável que a sua interiorização seja acompanhada pela identificação. de maneira adequada. Por outras palavras. transformada no processo. mais abundantes serão os fenômenos que serve para interpretar. que por sua vez serve dc base à sua verificação. É possível falar de uma dialéctica entre a natureza e a sociedade. os fenómenos empíricos imediatos. O estabelecimento social de uma psicologia. Dito de maneira mais simples. O haitiano nesse caso produzirá não sinais de neurose mas sinais de possessão. a verificação dá-se pelo confronto das teorias psicológicas e da realidade psicológica acessível ao nível empíriec. por definição. afectado por esta actividade. c assim. " Esta dialéctica é dada na condição humana e manifesta-se de novo em cada Se aceitamos a possibilidade de que certas psicologias se tornam adequadas no decurso dc um processo dc efectivação. o estômago continua a protestar mesmo quando o homem está activo na construção do mundo. As psicologias produzem uma realidade. é possível que. lá muito para trás os pressupostos orgânicos e as limitações da construção social da realidade. J! iniciais deste processo) emergem em primeiro lugar. por exemplo. porque é que uma psicologia deve substituir outra. Como assinalámos. as teorias psicológicas diferem de maneira considerável. pode ser concretizado através de qualquer número dc afinidades entre o pessoal teorizador e os vários interesses sociais. 4. Por outro lado. Dado os problemas da socialização incompleta serem os que mais conduzem a este tipo de teorização. o intelectual de Nova Iorque que interioriza a psicologia freudiana ficará neurótico logo que detecta certos sintomas bem conhecidos. Dito de maneira directa. menos ou dc maneira diferente. dependendo. na história? A resposta geral é que tal mudança ocorre quando a identidade aparece como um problema. não de tautologia. Neste caso. de outros tipos de teoria. Neste estreito nexo entre interiorização e identificação. ela própria. E importante sublinhar agora que o organismo continua a afectar cada fase da actividade humana de construção da realidade e que o organismo é. As transformações radicais da estrutura social (por exemplo. dependerá. e concomitante poder gerador de realidade. isto é. O seu estabelecimento social subsequente. os acontecimentos desse mundo. Além do mais. Por outro lado. que também impõe a atribuição de certos papéis sociais ao pessoal que aplica a teoria e sua utilização terapêutica. a identidade pode tornar-se problemática ao nível da própria teoria. e será. implicamos a questão dc saber porque é que as teorias ainda inadequadas (como seriam nas fases . como é natural. com senso comum. por qualquer motivo. mas refere-se a registo de tipos de identidade social sobre a realidade subjectiva individual de pessoas comuns. O grau de identificação variará com as condições da interiorização. não é de surpreender cue as teorias psicológicas tendam a produzir efeitos socializantes. como uma psicologia.184 A construção social da realidade A sociedade como realidade subjectiva 185 por força tenderá a concretizar-se nos fenómenos que pretende interpretar. dentro de um certo contexto biográfico. as transformações produzidas pela Revolução Industrial) podem resultar em concomitantes alterações da realidade psicológica. como resultado de desenvolvimentos teóricos intrínsecos. O problema pode resultar da dialéctica da realidade psicológica com a estrutura social. por assim dizer. surgirão novas teorias psicológicas. se refere à identidade. A teorização sobre a identidade procurará então tomar conhecimento das transformações de identidade que de facto aconteceram. mas não fica abolida. os sinais ou os sintomas sejam produzidos pelo próprio indivíduo. Assim. é provável que seja formadora de identidade. Dc facto. ipsofacto. A coexistência permanente da animalidade do homem e da sua sociabilidade pode ser observada em qualquer conversa ao jantar. por sua vez. podem fazer-Ihc roncar o estômago mais. Mas quanto mais bem estabelecida ao nível social. produto do homem. O homem é até capaz de comer e construir teorias ao mesmo tempo. trata-se aqui de dialéctica. dc várias circunstâncias sócio-históricas. enquanto o nova-iorquino construirá a sua neurose em conformidade cem a sintomatologia reconhecida. Isto nada tem a ver com "histeria de massas" e menos ainda com hipocondríase. a animalidade do homem transforma-se com a socialização. Nesse caso as teorias psicológicas serão gizadas "antes do facto". A deliberada manipulação ideológica por grupos com interesses políticos é uma possibilidade histórica. porque as antigas já não explicam.

entre cada animal humano c a sua situação sócio-histórica. P A questão é que a sociedade estabelece limites ao organismo. É inevitável que a socialização implique este tipo dc frustração biológica. Abandonado a si mesmo. Os factores biológicos limitam a gama das possibilidades sociais abertas a qualquer indivíduo. Ao nível extemo é uma dialéctica entre o animal individual e o mundo social. Além disso. e explicações ainda mais fortes paia a razão pela . a criança resiste à imposição da estrutura temporal da sociedade à temporalidade natural do seu organismo. Para o indivíduo. Assim. Como vimos. o modo de andar e os gestos são estruturados pela sociedade. Mesmo na sociedade americana contemporânea existe considerável discrepância entre a expectativa de vida dos indivíduos de classe inferior e a dos indivíduos de clssse superior. A sociedade penerra também o organismo. A sexualidade e a nutrição são canalizadas em direcções especificas mais em termos sociais do que biológicos. doenças diferentes. tanto como o organismo estabelece limites à sociedade. Esta resistência é a pouco e pouco quebrada. tanto a incidência como o carácter das patologias variam com a posição social. a dialéctica manifesta-se como a resistência do substrato biológico à modelagem pela sociedade. funções biológicas tão intrínsecas quanto o orgasmo e a digestão são estruturadas pelo social. O facto dc estar destinado a perder a batalha não elimina a resistência da sua animalidade à influência cada vez mais penetrante do mundo social. a canalização social da actividade é a essência da institucionalização. impõe por sua vez limites ao que é possível ao organismo em termos biológicos. alicerçada no biológico do individuo. Como afirmaram advogados constitucionais ingleses. no decurso 46 17 da socialização. As dificuldades da socialização inicial da criança não podem ser explicadas apenas em função dos problemas intrínsecos da aprendizagem. Os indivíduos de classe inferior adoecem com mais frequência do que os de classe superior.186 A construção social da realidade . por assim dizer. é no poder sobre a vida e a morte que ela manifesta o seu supremo controlo sobre o indivíduo. A expectativa de vida varia com a posição social. No aspecto interno. o projecto fracassaria com base nos rígidos factos da biologia humana. Pode dizer-se então que a realidade social determina não só a actividade c a consciência mas. o que implica legitimação bem como institucionalização. em vez de atender às exigências impostas pela biologia do organismo. O homem é levado pela constituição biológica a procurar satisfação sexual e alimento. mas perpetua-se como frustração cm todas as ocasiões em que a sociedade proíbe o indivíduo esfomeado de comer e o individuo ensoñado de ir para a cama. a sociedade dá ao indivíduo várias explicações porque deverá comer três vezes por dia c não sempre que tem fome. Assim. o Parlamento pode fazer tudo excepto os homens parirem filhos. como na instituição da lei. A sociedade pode aleijar e matar.4 sociedade como realidade subjectiva 187 ser humano. que preexiste a esda indivíduo. de maneira directa. A sociedade também determina a maneira pela qual o organismo é usado nas actividades. mas o mundo social. Ao nível interno. de modo directo. Assim. a sociedade determina por quanto tempo e de que maneira o organismo individual viverá. Mas a sua constituição biológica não lhe diz onde poderá procurar a satisfação sexual e o que deverá comer. o individuo socializado com sucesso é incapaz de função sexual com o objecto sexual "errado'" c pode vomitar se depara com o alimento "errado"'. que estas noções suscitam. também o funcionamento orgânico. em grau considerável. canalização essa que não só impõe limites a essas actividades mas afecta. o homem pode ligar-se de modo sexual a quase qualquer objecto c é muito capa/. De facto. estes impulsos são muitíssimo plásticos no animal humano. claro. Uma oportuna ilustração da limitação pela sociedade das possibilidades biológicas do organismo é a longevidade. A existencia social depende da subjugação contínua da resistência. Se o Parlamento o tentasse. A dialéctica manifesta-se na limitação mú/ua do organismo c da sociedade. Isto é mais evidente no processo de socialização primária. além disso.de comer coisas que o matam. Por exemplo. No aspecto externo é ainda possível dizer que o organismo estabelece limites para aquilo que é possível em termos sociais. E tem. Por outras palavras. eia desenrola-se numa situação sócio-hislórica já estruturada. no que diz respeito ao funcionamento deste. Embora ambas sejam baseadas em impulsos biológicos. é uma dialéctica entre o substrato biológico do individuo e a sua identidade produzida em sociedade. Resiste a comer e dormir de acordo com o relógio. Não temos de nos ocupar aqui com a possibilidade de uma sociologia do corpo. as funções orgânicas. O pequeno animal resiste. Má uma continua dialéctica que surge com as primeiríssimas fases da socialização e continua a desenvolver-se ao longo de toda a existência do indivíduo em sociedade. em especial quanto à sexualidade e à nutrição. Esta determinação pode ser programada a nível institucional através da operação de controlos sociais. fundamento da construção social da realidade. As expressões.

ao nível biológico. No individuo totalmente socializado há uma dialéctica interna continua entre a identidade e o seu substrato biológico. Os seus limites são estabelecidos pela natureza mas.188 A construção social da realidade qual não deve dormir com a irmã. assim como de facto há também derrotas menores e maiores. Existem problemas semelhantes de acomodação do organismo ao mundo construído pela sociedade. a fim de manter a sua identidade como expoente de virilidade. A& CONCLUSÃO: A SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO E A TEORIA SOCIOLÓGICA Procurámos apresentar nas páginas precedentes uma exposição geral e sistemática do papel do conhecimento na sociedade. Esperamos ter tomado claro que a sociologia do conhecimento pressupõe uma sociologia da linguagem. e que uma sociologia do conhecimento sem uma sociologia da religião é impossível {e vice-versa). é flagelado até à submissão pelo "superior". Na dialéctica entre a natureza e o mundo social construído. realizadas por rotina no decurso da vida quotidiana. contra a resistência inerte da saciedade fisiológica. O eu '"superior" tem de afirmar-se repetidas vezes sobre o "inferior". Uma vez mais. por vezes em provas críticas <lc força. As análises da objectivação. embora o grau de frustração biológica talvez. da teoria da acção social c instituições sociais. que não perca a lógica interna de qualquer das O homem está predestinado. De uma coisa estamos certos: a redefinição dos problemas c tarefas da sociologia do conhecimento já há muito que se impunham. Nessa mesma dialéctica o homem produz realidade e assim se produz a si mesmo. e é derrotado. à pane as objectivações de si mesmo de origem social. talvez até anti-social. uma vez construído. a nossa concepção da sociologia do conhecimento tam bém contém algumas implicações gerais para a teoria sociológica e para o empreendimento sociológico em geral. um homem tem de ultrapassar o seu medo instintivo da morte através da coragem em combate. o que é natural. mas perdeu-se por uma série de razões sem relevância teórica. De modo semelhante. . No entanto. que seja menos agudo. O indivíduo continua a sentir-sc como um organismo. Durkheim e a sua escola já a adoptavam. A nossa compreensão da sociologia do conhecimento leva à conclusão de que as sociologías da linguagem e da religião não devem ser consideradas especialidades periféricas. A vitória sobre o medo e a vitória sobre o cansaço sexual ilustram a maneira como o substrato biológico resiste. a construir c habitar um mundo com outros. Mas temos a esperança de que a nossa tentativa de desenvolver uma teoria sistemática da sociologia do conhecimento irá estimular as discussões críticas e a pesquisa empírica. e da sociologia da religião. fornecendo uma perspectiva diferente sobre diversas áreas específicas de interesse sociológico. neste caso. E evidente que as nossas análises não são exaustivas. o primeiro equiparado à identidade social e o segundo à animalidade pré-social. Este mundo tomíi-se para ele a realidade dominante e definitiva. Além disso. Esta dialéctica é com frequência apreendida como luta entre um eu "superior" e um eu "inferior". acreditamos ter mostrado como é possível combinar as posições teóricas de Weber e Durkheim numa teoria geral da acção social. antes lhe podem trazer contribuições essenciais. e por vezes contra elas. o eu "inferior" é levado a servir em benefício do " s u p e r i o r . afirmação de dominação sobre a substrato biológico que se toma necessário para manter a identidade social do guerreiro. de pouco interesse para a teoria sociológica enquanto tal. na socialização secundária. pelo eu social dentro do homem. da institucionalização e da legitimação aplicam-se de maneira directa aos problemas da sociologia da linguagem. O eu "inferior". este mundo reage sobre a natureza. Esta óptica não é nova. Esperamos que as nossas análises indiquem o caminho ao longo do qual o trabalho possa continuar com proveito. Desnecessário será dizer que há muitas vitórias menores. Por exemplo. no plano objectivo e no subjectivo. um homem pode forçar-se à execução do acto sexual. o próprio organismo humano é transformado.

Desnecessário será dizer que não temos como intenção uma introdução doutrinária às ideias de Marx na teoria sociológica. ser introduzida em todas estas análises. a pesquisa empírica da relação das instituições com os universos simbólicos legitimadores. Contudo. em teoria. Foi sem dúvida introduzida. como a que costuma empenhar os marxistas doutrinários. mediante a nossa análise das relações entre os processos institucionais e os universos simbólicos legitimadores. esperamos ter apresentado fundamentos para a nossa convicção de que uma sociologia apenas estrutural corre o perigo endém ico de reificar os fenómenos sociais. como a economia ou a política. dc dupla maneira. Mesmo se começa. as ideias que tentámos desenvolver não postulam nem um "sistema social" não histórico nem uma "natureza humana" não histórica. For um lado procuramos mostrar. entre a realidade social e a existência individual na história. é fazer aplicar uma perspectiva dialéctica à orientação teórica das ciências sociais. Tal integração exige a consideração sistemática da relação dialéctica entre as realidades estruturais e a realização humana de construir realidade. que desejamos ver compreendido o nosso tratado. Existe uma vasta área de problemas empíricos aberta à sociologia do conhecimento. Não podemos concordar com a noção dc que a sociologia tenha por objecto a suposta "dinâmica" dos "sistemas" sociais e psicológicos.] yo /) construção social da realidade A sociologia do conhecimento e a teoria sociológica 191 duas. contudo. afirmamos que a análise do papel do conhecimento na dialéctica do indivíduo e da sociedade. num quadro conceptual congruente com as grandes tradições do pensamento sociológico. a dialéctica atrás mencionada existe. Dc maneira mais geral. ao escrever este livro. não é de modo algum nova. sugere uma interessante possibilidade para o que poderia chamar-se psicologia sociológica. contido. negar que as puras análises estruturais dos fenómenos sociais sejam por completo adequadas para grandes áreas da pesquisa sociológica. Não tivemos qualquer pretensão polémica. Deve ser congruente com eles e deve estar orientada para alargar a pesquisa empírica. estamos convencidos de que só a compreensão daquilo que Mareei Mauss chamou "facto social total" protegerá o sociólogo contra as reificaeões distorcedoras do sociologismo e do psicologismo. de facto e cm geral. em nossa opinião. como uma prestidigitação teórica. É preciso que se passe dessa asserção a uma especificação dos processos dialécticos. emrc a sociologia do conhecimento e o núcleo teórico do pensamento de Mead e sua escola. Por outro. a teoria. A abordagem aqui utilizada é ao mesmo tempo não sociológica e não psicológica. O discernimento da dialéctica. Mera retórica a respeito da dialéctica. numa relação dúbia (a propósito é de referir que o itinerário intelectual desses dois termos é digno de um estudo de caso na sociologia empírica do conhecimento). em qualquer disciplina empírica. Demos algumas indicações do que temos cm mente nalguns exemplos da nossa argumentação teórica. por nós aqui estabelecida. Os problemas aqui . seria desassisado negar que o nosso entusiasmo quanto ao estado actual da teoria sociológica é. colocados post hoc. por atribuir às suas construções uma condição apenas heurística. fomece uma perspectiva complementar essencial a todas as áreas da sociologia. Isto não signiíica. uma psicologia que deriva as suas perspectivas fundamentais da compreensão sociológica da condição humana. e menos ainda para propor hipóteses específicas. E. por Marx no pensamento social moderno. Nem há qualquer interesse na mera afirmação deque. Em muitos casos isso seria desnecessário para a finalidade cognitiva visada por estes estudos. O que é necessário. Por fim afirmaríamos que a ligação. indo do estudo dos pequenos grupos até ao dos vastos complexos institucionais. deve parecer ao sociólogo apenas como mais uma forma de obscurantismo. de algum modo. muito intensificará a compreensão sociológica da sociedade contemporânea. isto é. O nosso empreendimento tem sido teórico. com muita frequência acaba por confundir as suas próprias conceptual izações com leis do universo. Contudo estamos a sugerir que a integração dos resultados dessas anal ises no corpo da teoria social requer mais do que uma eventual homenagem a prestar ao "factor humano" por detrás dos dados estruturais patentes. na história. tendo como pano de fundo a situação intelectual em que este duplo perigo c muito real. para os "dados" definidos como pertinentes a essa disciplina. promissor. porque é que devemos considerar as versões padronizadas das explicações funcionais. da identidade pessoal c da estrutura social. Nada estaria mais longe das nossas intenções do que sugerir que a "óptica" da sociologia do conhecimento deve. deve ser relevante. contudo. Apenas acrescentaríamos aqui que. Porém. com modéstia. de certo. de maneira muito poderosa. Em contraste com algumas modas dominantes de teorização na sociologia contemporânea. As observações aqui feitas apontam para um programa que parece. Não é aqui o lugar para fornecer um catálogo do que consideramos serem os mais interessantes desses problemas. É. de facto. nas ciências sociais.

o actual interesse por parte dos cientistas sociais em teorias derivadas da psicanálise tomaria uma coloração muito diferente se essas teorias nào fossem consideradas. uma disciplina h u m a n i s t a . fazendo os homens. por oposição à especulação mais ou menos inteligente.192 . por tradição. habitado pelos homens e. ou perderá o seu objecto próprio de pesquisa. "sociedade dc massas" ou. de "idade científica". Apenas um exemplo. muito peculiar e c provável que muito significativa. vive num mundo muito diferente de qualquer outro precedente. por nós aqui tentada. Implica que a sociologia encontra o seu lugar na companhia das ciências que tratam do homem enquanto homem. herdeiro de questões filosóficas que os filósofos profissionais já não estão interessados em examinar. está longe de ser claro o que significa isto em termos da realidade. do "individuo autónomo". Desejaríamos que o esclarecimento da perspectiva teórica da sociologia do conhecimento. na sociedade moderna. Em várias secções deste tratado. objectiva e subjectiva. com surpresa.-I construção social da realidade A sociologia do conhecimento e a teoria sociológica 193 são numerosos. de seguir as implicações metodológicas da nossa concepção da sociologia do conhecimento. No entanto. Tal análise. sc o positivismo for entendido como uma posição filosófica que define o objecto das ciências sociais legislando de modo a iludir os seus mais importantes problemas. Este objecto é a sociedade como parte de um mundo humano. A sociologia do conhecimento compreende a realidade humana como uma realidade construída na sociedade. com todas as questões que envolve. e apenas as consideraria como dados para a compreensão da realidade subjectiva e objectiva de que resultam e que. que o homem ocidental contemporâneo. não subestimamos os méritos do "positivismo". Não será o menor dos frutos de uma sociologia humanista que ela volte a despertar o nosso encantamento com este espantoso fenómeno. esta compreensão tem certas implicações filosóficas. de um modo geral. por sua vez. contudo. na redefinição dos cânones da pesquisa empírica para as ciências sociais. aponte problemas a serem pesquisados. que os seus métodos não devam ser empíricos ou que não possa ser "objectiva". mal começou ainda. que a nossa perspectiva c não positivista. pela positiva ou pela negativa. em que esses homens vivem a vida quotidiana e na qual ocorrem as suas crises. mas analisadas como legitimações de uma construção da realidade. Não implica que a sociologia não seja uma ciência. a nossa concepção da sociologia do conhecimento implica uma particular concepção da sociologia em geral. Abstivcmo-nos. influenciam. num contínuo processo histórico. Estes lermos indicam só a imensidade dos problemas que carecem de esclarecimento científico. o sociólogo pode talvez encontrar-se. dc propósito. Pode admitir-se. em especial na análise dos fundamentos do conhecimento na vida quotidiana e na discussão da objectivação e institucionalização em relação com os pressupostos biológicos da existência humana. Na medida em que lem havido uma forte tendência a tomar trivial este problema na filosofia contemporânea. da "descoberta do inconsciente" e assim por dianle. sem dúvida que colocaria entre aspas a questão da "validade cienlífica" dessas leorias. entendido em sentido amplo. q u e é. . que são ignorados noutras perspectivas teóricas. um problema central da filosofia. Picam mais obscurecidos do que esclarecidos quando se fala da sociedade contemporânea em lermos de "secuiarizaçào". Apesar disso. pelo contrário. A pesquisa empírica desles problemas. Deveria ficar claro. sem dificuldade. Como a constituição da realidade tem sido. demos algumas indicações das contribuições que o pensamento com uma orientação sociológica pode trazer à antropologia filosófica. neste sentido específico. Em suma. como proposições da "ciência". feito pelos homens. por sua vez. Uma consequência importante desta concepção é a dc que a sociologia deve ser continuada num diálogo contínuo com a história e a filosofia.

Presses Uni vers itaíres de Prance. pp.mst Grünwald. Um compêndio dos mais importantes escritos de Mannheim sobre a sociologia do conhceimenio. Lehrbuch der Geschichte der Philosophie (Tübingen. Luchterhand. 1961). 1962). A compreensão dc Lukács do conceito de dialéctica de Marx é ainda mais notável porquanto foi quase uma década anterior à redescobena dos Manuscritos Económicas e Filosóficos de 1844. Kaufmann. F. pp. )955). A reformulação mais importante do séculoxx do problema é a dc Gyõrgy Lukács. cf Jacques J. 55 ff. Talcott Parsons. 1929). Oxford University Press. cii. Kurl Lenk (ed. pp.). 1958). pp. Ideologie (Ncuwicd/Rhein. pp.. Blackwcll. 16. 15. 1953): Essays on the Sociology of Culture (Nova Iorque. Free Press of Glencoe. 20. 963 ff.. em Praise of En/ighienment (Nova Iorque. Cf. Cf Theodor Geiger. Conciousness and Society (Nova Iorque. M. Pensêes v. 1930). La soch/ogie allemande contemporaine (Paris. 18. 1952). The Socioipgy of Knowledge (Chicago. cm Iring Fetscher (ed. Essays on the Sociology of Knowledge (Nova Iorque. Vom Ursprung und Ende der Metaphysik (Viena. Vol. numa composição intitulada "Probleme einer Soziologie des Wissens" que fora publicada um ano antes. Para contribuições importantes deste período relativas à sociologia do conhecimento. Uma influência importante em Topitsch é a escola de Kelsen do positivismo legal. KailKautsky. Este volume de composições.. 1964). Mohr.94. Jean Yves Calve*. 605 ff. UníerbauíUekerbqu. O Irabaihomais importante de Wilhelm Dilthcy para as nossas considerações presentes é Der Aufbau der geschichtlichen Welt in den Geisteswissenschaften (Estugarda. Aufsätze zur Ideologiekritik (Ncuwiccflttiein. "Culture and lhe Social System ". 1945). 9. Cf. Wissenssoziologie (Ncuwicd/Rhein Luchierhand. Cf F. Meridian Books. Wissen und Gesellschaft (Tübingen. Max Webers Wissenschaftslehre (Tübingen. The Sociological Study of Ideology (Oxford. Soziologie als Wirklichkeilswissenshafi (Leipzig. cit. Os trabalhos mais importantes de Nietzsche para a sociologia do conhecimento são The Genealogy of Morais c The Will to Power. 1957). Humboldt. International Sociological Association. pp. pp. Rinchan e Winston. Werner Stark. Nietzsche (Nova Iorque. 1964). fftitôire et conscience de classe (Paris. 1949). Para análises complementares. 1963). no seu Geschichte und Klassen bcwussisein (Berlim. Luchtcrhand. 1950). Die Wissensformen und die Gesellschaft (Berna.. i960). 1956). 453 ff. Walter A.). 1934). Ideologie und Wahrheit (Estugarda. pp. compilado e com uma introdução por Kurt Wolff. Knopf. Cohen. 21. 8. Oxford University Press. Cf Merton. Roben K. C/ Max Scheler. Alexander von Schelting. pp. 275 ff. cf. 1936). Der Marxismus (Munique. Kxöner. op. Cy' Stark. Maquet.rnst Topitsch. op.. 19. Kritik der Soziologie (Munique. Niemeyer. cf.194 A construção social da realidade Notas 195 NOTAS INTRODUÇÃO: O PROBLEMA DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO 1. cit. op. 1962). deve ser entendido contra o fundo do debate sobre a sociologia do conhecimento c deve então ser centrado tanto sobre as formulações de Schcler como nas dc Mannheim. 17. 3. Stark. 1960). Cf C. Ballantine Books. O último irabalho referido. Wahrheit und Ideologie (Zurique. 1958). pp. 412 ff. cf Raymond Aron. op. Lieber. Sociologia de la connaissance (Louvain. eil 13. Daniel Bell. Ideologie. Para discussões secundárias da concepção de Mannheim da sociologia do conhceimenio. 183 ff. Antonio Labriola. . cfH. 11. Nauwelaerts.). 1934). 1950). IV. Oxford University Press. 4S9 IT. 1959). Piper. . Free Press. Nova Iorque. 1958). 1956). Sozialphüosophie zwischen Ideologie und Wissenchaft (Ncawicd/Rhein. Stuart Huiíhcs. Hans-Joachim Lieber. Aron. in Parsons ei al. Também. cf Siegfried Landshut. hoje mais acessível na iradução francesa. (eds. op.. Franckc. 13 ff. Das Pmtjlem der Soziologie des Wissens (Viena. 1953). 2. Albert Salomon. 1951). Taleott Parsons. Vol.25 ff. Free Press of Glencoe. cit.Cf. pp. The Social System (Glencoe. 1927). Politics and People (Nova Iorque. 7. Karl Lõwith. 12. Sobre o esquema de Mara. Wright Mills. 424 ff. Social Tlteory and Social Structure (Chicago. 46 ff. pp. Uma das discussões mais sugestivas da relação entre historicismo e sociologia é a de Carlo Antoni cm Dallo sioricismo alta Sociologia (Florença. 1923). Para uma discussão excelente da concepção de Schcler da sociologia do conhecimenlo. 1958). Tcubncr. nie Fruhschriften (f-stugarda. Meridian Books.passim.). Fdilions dc Minuit. 1961). pp. 160 ff. Hans Barth. Free Press. 14.. 1956). Luchtcrhand. 6. Ess^s on Sociology and Social Psychology (Nova Iorque. Ideology and Utopia (Londres.. Power. Karl Marx. Holt. Cf. Springer. cf. Os Manuscritos Económicos e Filosóficos de IH44 serão encontrados nas pp.. 1962). U pensèe de Karl Marx {Paris. pp. ainda a discussão mais importante da metodologia de Weber. "Die Vermittlung zwischen Basis und Ueberbau" ibid. 5. cit. Karl Mannheim. Uma das primeiras e mais interessantes aplicações do pensamento de Nietzsche para uma sociologia do conhecimento é a dc Alfred Seidel cm Bewusstsein ab Verhängnis (Bona. The End ofIdeology'(Nova Iorque. "An Approach lo the Sociology of Knowledge " Transactions of the Fourth World Congress of Sociology (Louvam. 1963). Routledge & Kegan Paul. 16? ff. contem a formulação básica da sociologia do conhecimento. "Verhältnis von Unterbau und Ueberbau ". Cf. Manesse. 3 1964). pp. com primeira publicação em 1925. é Karl Mannheim. 1952). 4. Para as suas implicações na sociologia do conhecimento cf Hans Kelsen. cit. From Hegel to Nietzsche (tradução inglesa. op. 326 IT. 1961). Wilhelm Windclband e Heina Hcimsoeth. Mertor.). Esta caracterização das duas formulações originais da disciplina foi feita por Lieber. 439 ff. Luchtcrhand. op. Hans Freyer. Cf.. Edition« du Scuil. Norman Birnbaum (ed. Free Press of Glencoe. 10. 11. 2. Veja também Stark. 1960): Kurt Lenk (ed. Theories of Sociology (Nova Iorque. 194Ü). Seidel que tinha sido um estudante de Weber temou combinar Nietzsche e Freud numa critica sociológica radical da consciência. Arbeiten zur Soziologie (Neuwied/Rhein. Para o desenvolvimento geral da sociologia alemã durante este período.

Pode ser observado aqui que. cm fazer a ligação enire a psicologm social de Mcad e a sociologia do conhecimento. The RulesofSociotogical Method(Chicago. Mcrton. 2 . Tenhruck discute a origem social da realidade e as bases socioestrulunris de manutenção da realidade. do mesmo modo que a indiferença pela sociologia do conhceimenio por pane dos psicólogos sociais americanos os impediu de relacionar as suas perspectivas com uma teoria macrossociológica. na América. 54 ff. assim a ignorância total de Mcad é um defeito teórico grave do pensamento social neomarxista na Europa de hoje. Collecied Papers. Référence Croups and Saciai Contro/. Em trabalho biológico recente relativo ã posição peculiar do homem no reino animal. Gerard L. 1934). 1960). de Mead. i960). da interacção simbólica aos problemas da sociologia do conhecimento pode ser encontrada cm Tamolsu Shibutani. "Arnold Gehlen and lhe Theory of Insiituüons" Social Research 32:1. 1949). op. Foi Gehlen que prosseguiu com o desenvolvimento destas perspectivas em lermos dc uma teoria sociológica das instituições (cm especial no seu Urmensch und Spätkullur. 1928 c 1965) c Arnold Gehlen (Der Mensch. I e II. Public Affairs Press. seine Natur und seine Stellung in der Well. 101. As implicações antropológicas da expressão " abenura universal" foram desenvolvidas por Plessner e Gehlen. The Social Dynamics of George H. cit. 1962). Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt (Vicna. Free Press. Mensch und Tier (Hamburgo. por outro. J. Vol. cf Jakob von Uexkfill. ê que a integração meadiana c durkheimiana é tão importante para esta abordagem. As avaliações mais importantes destas perspectivas biológicas em termos de uma aniropologia filosófica são as dc Helmuth Plcssncr (Die Stufen des Organischen und der Mensch. 103 ff. os teóricos neomarxistas têm procurado uma ligação com a psicologia de Freud (qie * dc base incompatível com as premissas antropológicas do Marxismo). Rowohlt. 1943). em especial. Editions de Minuit. 1963). Universíty of Chicago Press. Rowohlt. F. pág. vols. pensamos nós. Adolf Poranann. Strukturen der Lebenswnlt. 23. Berger e Haasfried Kellner. 1956). não desenvolveram um conceito adequado de estrutura social. A sugestão que o periodo fetal no homem sc prolonga pelo primeiro ano dc vida foi feita por Portmann que chamou este ano o "extra-uterina Frühjahr" (o primeiro ano extra-uierino). 1958). The Structure of Social Action (Chicago. de todo alheios à existência da teoria de Mead sobre a dialéctica entre a sociedade c o individuo. Universily of Chicago Press. foi mostrada.). a cada página. L'entrée dans la vie (Paris. Universily of Freiburg). Em relação à teoria da ontogénese do eu. Weber. Ha uma dicotomia fundamental enire a concepção do homem como um ser autoprodutor c uma concepção da "natureza humana". páe. Ibid. p. 1947). Talcoti Parsons. George Herbert Mead on Social Psychology (Chicago. Philosoph). Nijhoff. Vol. 1963). em tempos mais recenses. Zoologie und das neue Bild vom Menschen (Hamburgo. 0 lhos publicados dc Schulz.110 ÍT. A mesma ironia. I. DcGré. que seria muito mais compatível com a sua própria abordagem.196 A construção social da realidade Notas 197 22. pp. Um compêndio útil dos escritos dc Mead é Anselm Strauss (ed. cm termos da sua proximidade dos pólos "sociológico" e "psicológico". cf. Mead (Washington. OS ALICERCES DO CONHECIMENTO NA VIDA QUOTIDIANA Toda esta secção do nosso livro está basctdo em Alfred Scbutz e Thomas Luckmann. mas de maneira bastante sintonizada com a nossa própria abordagem da problemática meadiana. Random House. Free Press. Maurice Natanson. Human Behavior and Social Processes (Boston. 1956). "Problèmes de lu sociologie de la connaissance". e Maurice Natanson (ed>. 28. 1958). cf. 128 ff. está relacionada com a difusão "limitada" da sociologia do conhecimento. 0 termo "ambiente especifico das espécies" é tirado de Von Ucxküll. mas a sua baie teórica mais importante deve ser procurada no facto de que unto o próprio Mcad como os seus mais recentes seguidores. Num contexto sistemático diferenie do nosso. George* Gurvitch. 27. Buyiendijk. Traiu de Sociologie (Paris Presses Universitaires de France. 6. 25. 14. cf Peter L. The Theory of Social and Economic Organization (Nova Iorque. (1965). in loto. págs. Vo\. que cjnhcccmos. 24. Denlro da teoria sociológica c possível distinguir entre posições. 5. A abordagem mais próxima.. Um sociólogo europeu que utilizou Mead e a tradição meadiana de maneira intensa c bem sucedida na construção da teoria sociológica. pag. c Friedrich Tenbrock cf. v L I (The Hague. como entidade de base ontogénica. 121. o seu Geschichte und Gesellschaft (Hábiliiationsschrift. 183 ff. Por isio. 11 (1964).). Para discussões das implicações da sociologia durkheimiaiia na do conhceimenio.ofthe Social Science* (Nova Iorque. Para uma introdução a este último. Bedeutungslehre (Hamburgo. IL SOCIEDADE COMO REALIDADE OBJECTIVA 1. cf Mind. 1950) Pág. A peculiaridade do organismo humano. Como exemplo recente deste fenómeno irónico. embora num contexto diferente de segregação intelectual. O nosso argumento aqui esiá baseado em Schutz. 1. Abstivemo-ncs de fazer referencias individuais aos traba- . 1956). Houghton Miffin. Columbia Universily Bookstorc. Para uma sugestiva discussão secundária. 149. J. pág. clama por Mcad. O leitor interessado na adaptação dc Schutz do método fcnomenológico à análise do mundo social pode consultar os Collectcd Papen. 1940 e 1950). A propósito. por pane dos simbólico-inlcractivístas. Emille Dürkheim. 11. Alfred Schulz. cf Georges Lnpassade. Há ironia considerável no facto de que. 99 ff. pertence aos recentes esforços americanos para uma abordagem entre marxismo e freudianismo. em Arnold Rose (ed. pp. pp. A expressão "outros significantes" foi retirada dc Mcad. conforme desenvolvido por Luckmann no trabalho acima mencionado. nas investigações de Pnrtniann. Oxford Universily Press. Society and Ideology (Mova Iorque. onde os mesmos problemas sSo discutidos. Rowohlt. um livro muitíssimo sugestivo que. É possível que Vilfredo Párelo exprima a mais elaborada abordagem ao pólo "psicológico" dentro da própria sociologia. Isto constitui uma diferença antropológica decisiva entre Marx c qualquer perspectiva sociológica correcta por um lado (em especial uma que assenic na psicologia social meadiana) e Freud e a maioria das perspectivas psicológicas não freudianas.. 7. CollectedPapers. A falta de sucesso. Self and Society (Chicago. a aceitação ou rejeição da 26. 3. Springer. 4. 2964). cm especial a secção intitulada "Realität". 1962). O leitor que desejar familiarizar-se com os trabalhos de Schutz publicados ale à data pode consultar Schutz. Uma clarificação desta diferença c muito importante quando se pretende um diálogo significativo entre os campos da sociologia e da psicologia actuais. v.

cf. Diógenes 46 (1964). 8. um que inclui uma teoria de instituições. Berger c llansfríed Kellner. 25. O argumento seguinte combina as coreepções de Simmel e de Durkheim da objectividade da realidade social. mas de âmbito mais amplo. 29. quer dizer.0 carácter social da autoprodução do homem foi formulado com clareza por Marx na sua critica dc Slimer. German tdwtogy.Pode ser comparado aqui ao conceito de Jean Piaget de realismo "infantil". A sua perspectiva sobre a sociedade tende a ser o que o Marx chamou uma rcificaçâo (VerdiiigUchuiig). com uma consideração da psicologia social meadiana. O termo "património de conhecimentos" é de Schutz. Ciehlen refere-se a este ponto nos seus conceitos de Triehüherschuss e Enttasiung.198 A construção sociül da realidade Notas 199 premissa da "natureza humana" também tem implicações interessantes em termos dc ideologias politicas. cf. Pode ser citado em relação com isto. 21. Para uma análise deste processo na família contemporânea. Foi Durkheim que muito insistiu no carácter sai generís da ordem social. O próprio interesse dc Sartre nas "mediações" entre os processos socio-hisióricos macroscópicos e a biografia individual teriam tido grande aproveitamento. Este ponto é explicado na teoria di génese social do cu. A necessidade antropológica da exteriorização foi desenvolvida por Hegel e Marx. uma distorção não dialéciica da realidade social que obscurece o carácter da última como uma produção humana contínua c. Thomas e desenvolvido ao longo do seu trabalho sociológico. Tristes tmpiques (Nova Iorque. Mas pensamos que um tal conceito mais amplo é útil para uma análise completa dos processos sociais básicos. 23. As representações simbólicas dc integração são o que Durkheim chamou "religião". 183 ff.Embora o nosso argumento use termos alheios a Mcad. Athcncum. op. Também era muito usado por Schutz. 30. 40. Nos termos de Durkheim significa isto que. A conexão inextricável entre a humanidade do homem c a sua sociabilidade foi formulada com nitidez por Durkheim. Friedrich Tenbruck. 3 2 . Isto. Fie também insiste que a "tensão para a consistência" esteja arraigada no carácter significante da acção humana. . A análise de Simmcl da expansão ca diadepara a tríade c importante a este propósito. 35. Isto não contradiz a concepção weberiana do carácter significante da sociedade. 15. a nossa concepção do papel é muito perto da dele c pretende ser uma expansão da teoria do desempenho meadiana num quadro mais largo de referência. de /. 16. O termo serve bem para indicar o nexo geral enire a teoria do papel c a sociologia do conhecimento. Margare! Mcad. O termo " mediação " foi usada por Sartre. Como a realidade social se origina sempre em acções humanas significantes. 1947). 39. 24. mas sem o significado concreto que a teoria do papel a desempenhar é capaz de lhe dar. continua a ter significado mesmo se for opaca para um individuo num determinado momento. 1964) págs. A nossa declaração é limitada aos factos da natureza que estiverem disponíveis ao nível empírico. quer dizer. Die Stetlung des Menschen im Kosmos (Munique. "Sozialc Normen". cf. Staaistexikon der Goerres-Geseíhchaft (1962) e Heinrich Popitz. A descrição precedente segue de perto a análise de Durkheim da realidade social. cm especial na secção final das Formes élementaires de la vie reUgieuse. 33. 2 0 . O termo "objcctivaçâo" é derivado do Versachlichung hegeliano/marxista. uma vez mais. 19. 27. "Marriage and the Construction of Rcality ". Foi usado por Schutz num contexto sociológico. 1S. 10. O termo "representação" está aqui relacionada dc perto com o uso durkheímíaiio. Sobre o "cu social" em confronto com o eu na sua totalidade. com a expansão da diade para uma tríade e mais além. Para uma crítica excelente disto. 9. 38. isto é. as formações originais tornam-se "factos sociais" genuínos. A sociologia americana contemporânea tende a omitir o primeiro momento. Aqui tomamos o paradigma da socialização de Mead e aplicamo-lo ao problema mais vasto da institucionalização. 36. 34.0 fundamento biológico da exteriorização e a sua relação com o aparecimento das instituições foi desenvolvido por Gchlcn. 12. vê-a como categorias dc coisas só apropriadas para o mundo da natureza. 42.0 termo "assumindo o papel do outro™ é tirado dc Mcad. ao invés. 31. Europeait Journal of Socio hg}: 22. 41. atingem a ckosêitê. 0 termo "conhecimento receita" é tirado de Schutz. 14. Sobre controlo social. 11. O lermo " sedimentação " è derivado dc Edmund Husscrl. Um ponto semeIhanie ao nosso é expresso por Friedrich Tenbruck. cit. I. c a fraqueza fundamental de qualquer sociologia com orientação funcional. Perspectivas semelhantes podem ser encontradas no mais recente trabalho dc Schcler sobre antropologia filosófica. 1 ff. o conceito de Mead do "mim" com o conceito dc Durkheim dc homo duplex. Nymphenburgcr Vcrlagshandlung. 26. 17. Peter L. Estamos conscientes do facto dc que este conceito dc instituição é mais amplo do que o prevalecente na sociologia contemporânea. claro. O desenvolvimento de Jean-Paul Sartre do seu existencialismo inicial ale ã sua ma:s recente modificação marxista. 'ètre et le nèant até à Critique de ia raison dialectique. "Soziale Kontrolle".0 termo "excentricidade" é retirado de Plessner. Cf Max Schcler. a discussão da sociedade de Bororó em Claude Lcvi-Slrauss. em The. Insistindo que ordem social não está baseado em qualquer " lei da natureza". 28. mas este ponto não pode ser aqui desenvolvido. quer dizer. Ruth Bcnedict. A visão aqui apresentada sobre a plasticidade sexual do homem tem afinidade com a concepção dc Freud do carácter da libide sem formação original. Que a desumanização nela implícita é mitigada por valores que derivam da tradição mais ampla da sociedade será moral. O argumento combina características-chave de ambas as abordagens de Mead e Gchlcn. dc Mcad.u conceito dc HintergrundserfuUung. O original pode ser reconstruído por meio do que Weber chamou Versrehen. A análise dc Parcto da "lógica" das instituições é pertinente aqui. O conceito da distribuição social rio conhecimento ê derivado de Schutz. 37. c o exemplo mais impressionante na antropologia filosófica contemporânea da realização desta perspicácia sociológica crucial. O termo "objecti fie ação" c derivado do Vergegeiistãndlichung hegeliano. em especial nas suas Regles de ia mèthode sociologique. não estamos ipso facto tomando posição numa concepção metafísica dc "lei natural". cf. Clyde Kluckhohn e George Murdock. Esle processo de "reunir num todo ** é uma das preocupações centrais da sociologia de Durkheim: a integração da sociedade pelo fomento da solidariedade. Isto è expresso pelo termo "aquisição monolética" de Husserl. 0 conceito da definição da situação foi formado por W. mas irrelevante na teoria. Gchlcn refcrc-sc a este ponto no s. o trabalho dc Bronislaw Malinowski.

Comparc-sc aqui o conceito dc Sarlrc do "prático-inerle ". de maneira adequada. I (Baton Rouge. cf Gyõrgy Lukács.200 A construção social da realidade Notas 201 43. claro. 1956). 1964). no contexto da metodologia das ciências sociais. op. Por outro lado. 1962). o conceito de reiricaçâu está relacionado de peno com o de alienação (Entfremdung). Esta pergunta poderia ser designada como relativa à "densidade * da ordem institucional. (1965). 1948). Por isto Marx chamou consciência rcificante a uma falsa consciência. Pcicr L. Isto é o que Durkheim chamou "solidariedade orgânica". Isto implica. na sociologia americana desde Ogbum. 45. cm especial na sua sociologia comparativa da religião. Evitámos este termo por causa da sua implícita conotação evolucionista e valorativa. Se estivéssemos dispostos a suportar mais neologismos. uma reificação. quase para além do ponto dc recuperação da terminologia. Ferdinand Tõnnics e Talcott Parsons. este último termo pressupõe que a "integração" dc uma sociedade pode ser determinada por um observador exterior que investiga o funcionando externo das instituições da sociedade. llistoire et conscience de classe. Veja a sua Order and Histnry. 44. Lucien Goldmann. Cf.. sentimos que este não ê o lugar para tentar uma tal recuperação c. Joseph Gabei. "Reification and the Sociological Critique of Consciousncss ". poderíamos chamar a esta. 60. A relação enire a divisão de trabalho e diferenciação institucional foi analisada por Marx. 50. Claude Lcvy-Strauss. 47. Iogl09 ff. Um ponto semelhante é estabelecido por \toegelin. Weber refere-se diversas vezes a vários eolectí vidades como "portadoras" (Träger) do que nós chamamos aqui subuniversos de significado. possível afirmar que "os factos sociais são coisas" c com isso não pretender mais que a objcctivnçào dos factos sociais como produtos humanos. de la raison dialectique. Por outras palavras. ipso facto. cf. La pensèe sauvage (Paris. 1959). a pergunta acerca do grau dc "fusão" ou "segmentação" da ordem institucional. Este conceito dc dcsinstitucionali/açâo ó derivado de Gehlen. A análise deste fenómeno. 1962).. 57. Weber. Berger c Slanlcy Pullberg. O pomo importante para uma sociologia teórica do conhecimento é a dialéctica entre conhecimento c a sua base social. Reificação (Verdinglichung) é um importante conceito marxista. Em todo caso. Na aparência. significa a integração da ordem institucional através de vários processos legitimadores. 59. and Formen der Entfremdung (Frankfurt. 46. 56. 54. Para uma discussão alargada da aplicabilidade do conceito dentro dc uma sociologia nào doutrinária do conhecimento. Excluímos esta área na nossa definição do âmbito da sociologia do conhecimento. pp. Este conceito pode ser relacionado com a "má-fé" de Sartre (mauvaisc foi). Isto é chamado cm geral Ue "desfasamento cultural". Nós tratamos deste problema noutro ponto do nosso trabalho sobre sociologia da religião. Proposições sobre estes terão <ie ser feitas num nível dc generalidade muito menos teórica do que o que nos interessa aqui. Harper. Os conceitos de Eric Voegelin dc "compacidade" c "diferenciação" podem aqui ser comparados. Porém. como ura "sistema". 58. tanto filogenética como ontogenctica.. Seja o que for que se possa dizer sobre isto. deveriam ser negociadas perguntas relativas à autonomia do conhecimento soeiociemifico. quando fala de "participação " mistica nas sociedades primitivas. Editions dc Minuít. 49. Por conseguinte. Esta proposição pode ser posta em ermos. 55. 1959). La. Perguntas como as dc Mannhcim relativas aos "intelectuais independentes" são aplicações da sociologia do conhecimento a fenómenos históricos c empíricos concretos. 63. ern Critique. evitou-sc o uso do conceito. Recentes críticos franceses da sociologia de Durkheim. Por outras palavras eles argumentam que o choséitê de Durkheim é. Pelo contrário. nós temos lutado para evitar introduzir termos novos c decidimos não usar este. esta pergunta pareceria ser idêntica à preocupação estruiural-funcional sobre a "integração" funcional das sociedades. Para mais recentes desenvolvimentos do conccilo na teoria marxista. 19$ IT. há um elevado grau de consenso neste ponto ao longo da lislória dc teoria sociológica. Tambcm. contra os estrutural-funcionalistas. A competição pluralista entre subuniversos de significado é um dos problemas mais importantes para uma sociologia empírica do conhecimento da sociedade contemporânea. Este conceito tem sido confundido. 6 2 . Porem. Lucien I. cf. pp. History and Tiieory IV. A chave teórica para a pergunta é a distinção enire objectivação e reificação. a sua Soziologie (Berlim. Este problema está relacionado cora o da "ideologia" que nós discutiremos á frente num contexto mais circunscrito. pp. se quisermos usar este termo. Lafausse conscience (Paris. 1946) c Armand Cuvillier "Durkheim Marx Cahiers internaiionaux de sociologie. Durkheim. 53. Mircca Eliade Cosmo and History (Non Iorque. A tendencia a persistir das instituições. integração "funcional". 438 ff. foi analisada por Georg Simmel em termos do seu conceito de "fidelidade". Nós não lhe esiamos a dar um lugar tão central por razões inerentes â nossa abordagem teórica geral. A relação entre "teoria pura" c economia excedentária foi primeiro apontada por Marx. Luisiana State Universily Press. está relacionada ao esquema de Marx Vnterbau/üeberbau. . 64 ff. cm especial nas considerações antropológicas do Frühschhften então desenvolvidas em termos do "fetichismo dos produtos" em Das Kapital. na sua discussão dc "civilizações cosmológicas". que umi ordem institucional não pode ser entendida. a integração não reside nas instituições mas na sua legitimação. Talcott Parsons falou dc diferenciação institucional em várias parles do seu trabalho. 1957) 52. embora sugestivo. nós pretendemos que "funções" e "disfimções " só podem ser analisadas por via do nível de significado.. Pode ser dito que. 0 trabalho dc Lucien Lcvy-Bruhl c Jcan Piaget pode ser considerado como fundamental para uma compreensão da proto-reificação. Fischer. dizendo que há uma relação dialéctica enire subestmtura (Unterbau/ e superstrutura tUeberbau). com fenómenos que vão desde a anomia à neurose. marxistas. cm termos dc exegese de Durkheim é. como Jules Monncrot (Lesfaits sociaux ne sont pas des choses. Cf Die Seele im technischen Zeitalter (Hamburgo. é claro. Rowohlt. mas não nos parece que se justifique desenvolver qualquer análise disto no presente tratado. Rccherches dialectiques (Paris. No quadro dc referencia marxista. A análise da des institucionalização na esfera privada c um problema central da psicologia social de Gehlen da sociedade nodernii. um assunto central da sociologia do conhecimento como definido por Schcler c Mannhcim. 51.évy-Bníhl aumenta o conteúdo psicológico deste conccilo dc Durkheim. em principio. apesar das diferentes interpretações cm detalhe. 61. Vol. Gallnnard. nos recentes escritos sociológicos. pelas razões teóricas declaradas na introdução. No paralelismo entre "aqui cm baixo" c "aí em cima ". O problema da possibilidade de conhecimento desligado da sociedade tem sido. cf. cit. acusaram-no dc uma visão reificada da realidade social. 1958). assim. uma perspectiva marxista que esteve perdida para a corrente principal do marxismo. Plon. Duncker und Humblot. 48. 2.

79. Pareto fica mais perto dc escrever uma história de pensamento em termos sociológicos. nos processos nómicos mais do que anomicos. Cf. 373). Sobre as legitimações últimas que fortalecem a inércia "institucional" (a "fidelidade" dc Simmcl). 1952). 1964). cit. Brigitte Berger. . A concepção de " projecção" foi desenvolvida primeiro por Feuerbach e depois. 1955). de Sartre foram. 80. Aufgaben und Stellung der Intelligenz in der Gesellschaß (Estugarda. 1959). 75. entretanto.202 A construção social da realidade Notas 203 der herrschenden Klasse sind in jeder Epoche die herrschenden Gedanken" (Friilischriften. Col/ecled Papers. Doubleday-Anchor. 76. 69. The Social Role of the Man of Knowledge (Nova Iorque. Florian Znaniecki. O termo "povos hóspedes" (Gastvõlker) é derivado dc Weber. 73.uchterhand. compare-se Dürkheim c Voegelin. Mircea EHacc c Rudolf Bui tmann. 95. 11. 1963). Vol. 90. compare-se uma vez mais o trabalho de Eliade e Voegelin. 71. l. Sobre definições monopolistas da realidade nas sociedades primitivas e arcaicas. Les cadres sociaitx de ia memoire (Paris. C'omparc-sc de novo o conceito de "portador" dc Weber (Träger). muito pertinentes para o nosso argumento. Tanto Lcvy-Bruhl como Piaget sugerem que mitologia constitui uma fase necessária no desenvolvimento do pensamento. 1940). O nosso conceito de "universo" simbólico está muito perto da "religião" de Dürkheim. 79 ff. embora não possam ser concebidos á maneira de Comte. Ficará claro das nossas premissas teóricas que nós não podemos aqui entrar em pormenores na questão da "sociologia dos intelectuais". 81. Columbia University Press. 84. cit. 100. Na validação social de proposições que são difíceis dc validar ao nível empírico. Free Press of Glcncoe. Sobre a continuidade entre ordem social c cósmica na consciência mitológica. 83. Nietzsche c Freud. Nós estamos mais interessados. de Augusie Couue. porque c 64. A nossa própria interpretação está mais peno da abordagem hegcliano/rnarxista da historicidade do pensamento humano. Peterson and Co. Sobre afinidade entre forças políticas conservadoras e monopólios religiosos ("igrejas") compare-se a análise dc Hierocracia de Weber. por Marx. Maurice Halbwachs. Free Press of Glencoc. cf. Halbwachs lambem desenvolveu a sua teoria sociológica da memória cm La memoire colfective (1950) e em La topographie lègendairc des Evangiles en Terre Sainte (1943). 68. 74. Studien zur Anthropologie und Soziologie (Neuwied'Rhein. comparar Dürkheim c Pardo. Nós decidimos mantê-lo num sentido estrito. Cf. o que torna Pareto importante para a sociologia do conhecimento a despeito de reservas que se possam ter sobre o seu quadro teórico de referência. neste ponto. págs. Row. toma possível colocar a análise de Dürkheim da anomia num quadro antropológico de referencia mais largo. embora cm direcções muito diferentes. 99. A análise de Schutz das "regiõe. A concepção do caràclcr transcendenml da sociedade foi desenvolvida em especial por Dürkheim. 1949). N. 70. 78. pp. 1960). Cf. mas ainda pode ser útil por sugerir que a consciência sc desenvolve cm fases históricas reconhecíveis. cf Arnold Gehlen. Sobre legitimações como " explicações ". Vilfredo Pareto and the Sociology of Knowledge (dissertação doutoral inédita. É neste ponto preciso que qualquer interpretação funcionaüsta das instituições c mais fraca e tende a procurar praticalidades que não existem de facto. onde é desenvolvido em especial no contexto da sua sociologia política. eomparc-sc a análise de Sartre do anti-semitismo. Erving Goffman. 86. 1. compare-se a análise de I'areto das "derivações". "derivações" cm Pareto). Nós estamos usando o termo dc maneira bastante diferente da de Jaspers. 66. 67. The Intellectuals (Nova Iorque. L'opium des intellectuels (Paris. A juntar ao importante trabalho de Mannheim nesta área (a encontrar em especial na Ideology and Utopia and Essays on the Sociology of Culture). Para desenvolvimentos desta análise. O uso de certas perspectivas sobre a "ansiedade" (Angst). 65. No conflito de Brahman'Kshairiya. 72. cf. 88.uJlural" cm antropologia cultural americana contemporânea. Berger e PtiUbcrg. Para uma sugestiva discussão das raízes biológicas do pensamento mitológico/mágico. 97. Kroner edition. Nós demos-lhc aqui um uso muito mais amplo. Tanto Marx como Pareto estavam conscientes da possível autonomia do que nós chamámos legitimações ("ideologia" cm Marx. São derivados de Schutz os conceitos de "antecessores" c "sucessores ". 1957). As análises do "contacto cultural" da antropologia cultural americana contemporânea é aqui pertinente. claro. compare o trabalho dc Weber na sociologia de religião na India. 91. 82. O termo "legitimação" c derivado de Weber. Y. Sobre s rcificação da identidade. 96. Theodor Geiger.eon Festingcr. 1959). 87. Mirrors and Masks (Nova Iorque. O termo "afinidade" {Wahlverwandschaft) é derivado de Schclcr e Weber.). Marx desenvolveu com considerável detalhe a relação entre poder material e "sucesso conceituai". A nossa concepção dc mitologia aqui está aqui influenciada pelo trabalho de Gerardus van der Leeuw. III. Isto pode ser reininescente da "lei das três fases". A precariedade da identidade subjectiva já está implícita na análise dc Mead da génese do cu. Sobre memória colectiva. Heidegger apresenta a análise mais elaborada na recente filosofia da morte como a situação marginal por excelência. O termo "ideologia" tem sido usado em tantos sentidos diferentes que se poderia desesperar de o usar com precisão. op. Cf Levy-Strauss. 92. da sociedade. 89. dc Huszar (ed. Onosso argumento aqui ê influenciado pela análise de Dürkheim da anomia. The Präsentation ofSelf i/t Everyday Life (Garden City. Presses Universitaires de Erance. O termo "situação marginal" (Grenzsituation) foi cunhado por Karl Jaspers. Compare-se o conceito dc "choque . George B. A análise de Malinowski da função social dc ccrcmonial funerário também c pertinente neste ponto. de significado finitas" c a sua relação mútua e o conceito de "totalização ". Sobre as condições para a desreificação. 94. loc. O estado supremo da realidade quotidiana foi analisado por Schutz. cf. a famosa formulação disto cm The German fdeology: "Die Gedanken . Raymond Aron. O conceito de Schutz da "ansiedade fundamental" rcfcrc-sc ao mesmo fenómeno. em especial o anígo "On Multiple Rcalities". O trabalho de Paul Radin sugere que o cepticismo c possível mesmo cm tais situações de monopólio. I. 98. 93. New School for Social Research. cf Anselm Strauss. 207 IT. desenvolvidas pela filosofia existencial. 85. Nós não podemos aceitá-la. pp. cf. A Theory of Cognitive Dissonance (Evanston.

Apenas adaptamos a terminologia para se ajustar ao nosso quadro teórico global. nós estamos no dominio do que a psiquiatria americana chama "psicopatia". Sobre a marginalidade dos intelectuais. O conceito de "mediação" c derivado de Sartre a quem falta. Berger. Essays in Sociológica! Theory. porém. N. Comparar a análise de Mannheiír dos intelectuais nrvolucionários. A dimensão afectiva da aprendizagem inicial foi sublinhada cm especial na psicologia infantil de Freud. Nossa descrição aqui apoia-se muito na teoria meadiana da socialização. Nossa concepção do carácter reflectido do cu é derivada dc Coolcy c Mead.. Nós não nos posicionamos no nosso argumento aqui. 54 ff. 12. pensamos nós. Invitation to Sociology (Gardcn City. 6. A nossa concepção de "compreender o outro" é derivada de Weber c Schutz. Rombach. Friedrich Tcnbruck (op cit) discute com ceno detalhe a função das redes dc comunicação na manutenção de realidades comuns. 4. sugere o icrmo "outros íntimos" para outros significantes ocupados na manutenção da realidade. 24. Inverno de 1954. 1962). Numa definição do intelectual que seja útil do ponto de vista sociológico. 1963). como desenvolvidos em particular por Evcrctt Hughes. 101. cf. Os conceitos de "grupo" primário c "grupo" secundário são derivados de Coolcy. 5. 1953). Foreign Languages Publishing House. 22. Para uma critica penetrante deste processo de um pento de vista marxista. Sobre O conceito de "equipamento dc conversação ' cf Peter L Berger e 1 lansfricd Kellncr. Compare-se a respectiva análise de Merton. Um ponto adicional muito interessante sugerido pela nossa análise diz respeito aos limites estruturais dentro dos quais um "modelo goffmaniano " de interacção social pode ser viável. pode ser estudada numa forma "pura" no desenvolvimento do comunismo russo. A nossa concepção do imeleciial como o "perito não desejado" não c muito diferente da insistência de Mannheim na marginalidade do intelectual. Sobre a relação do crisiiimismocom ideologia burguesa. 287 ff. 3. Comparar aqui as análises cultural-antropológicas dos " rito da passagem '* associados á puberdade. deslacar esie tipo com clareza. neste ponto. Ela seria também importante tanlo para a antropologia filosófica como para sociologia. Harcourt. Doublcday-Anchor. Doublcday. ou seja. Brace and Co. Das Problem der Religion in der modemen Cesellschaft (Freiburg. Cf Peter L. na sua Social Theory and Social Structure. 15. Não há razão para analisar aqui ES transformaçôcs do termo na história do marxismo e da sociologia do conhecimento. é importante. Tem havido outros dramas. Y. Embora isto não pudesse ser desenvolvido aqui. Nós estamos a seguir aqui o seu uso actual na sociologia americana. 233 ff. 107. O conceito de Plessncr dc "excentricidade"' c aqui de novo relevante. 1949). Hans H. I960). e bem assim David Riesman. ver tanto Marx como Vcblcn. 1957) 102. cf Lcszck Kolakowski. pode ser obtida na antologia Marx and Eiigels on Religion {Moscovo. Lampert. Cf Philippc Aries. que implica uma formação deficiente de identidade. isto do "homem de saber" cm geral. Comparar Georg Simmel sobre a auto-aprecnsão do homem como eslando tanto denlro como fora da sociedade. Comparar Goffman de novo. Gcrth and C. 103. E. deveria fazer-nos ter o cuidado dc não comparar o "modelo dc Goffman" (que é muito útil. acrescente-se. além daquele do homem dc organização contemporânea apostado numa "ndministração de impressão".. 18. Cf Peter L. Cf. cf. Sobre nomenclatura. O conceito dc "grupo dc referência" é pertinente nesta relação. Preferimos não usar este termo por causa da sua semelhança com Intimsphãre que foi muito usudo na sociologia recente dc lingua alemã e que tem uma conotação bastante diferente. oferecem material interessante neste ponto. Der Mensch ohneAlternative (Munique. 105. terá sido dito o bastante para indicar a possibilidade de uma psicologia social de facto dialéctica. Para o protótipo russo destes. 'The Soeiokgical Study of Sectarianism ". La pensêe sauvage. 16. cf Georg Simmel. Berger. 13. Esta consideração. Centunes of Childkood'(Sova Iorque. As nossas definições de socialização c os seus dois suhiipos seguem dc perto o uso actual nas ciências sociais. 1961). afinal de contas. págs. O conceito psicanalítico de "transferencia" refere-se a este fenómeno. 19. Comparar Piaget sobre a ponderosa realidade do mundo da criança. uma teoria adequada da socialização. Sozio/ogie.). "Marriage and lhe Construction of Realiiy". Pracgcr. Purc and Applied (Chicago. 253 ff. 104. No que lhe diz respeito. numa fase posterior da vida. 10. Cf Thomas Luckmann. a propósito. I ff. Wright Mills. cm particular em Asyiums (Gardcn City. uma tal psicologia social (com uma orientação fundamental meadiana. Para uma útil visão global. Ideologie. Os estudos de sociologia das ocupações. compare-se a análise da "objectividade" do insólito. Comparar Lévy-Bruhl sobre o análogo filogenético ao realismo "infantil" dc Piaget. 21. Studies ia Rebellion (Nova Iorque. 25. 9. 1963). Knopf. sociedades estruturadas dc tal modo que elementos decisivos da realidade objectivada são interiorizados em processos secundários dc socialização. Uma avaliação úlil do Iratamcntc da religião pelo primeiro. 14. A nossa análise sugere que tal distanciamento só será possível em relação a realidades interiorizadas na socialização secundária. pp. Claude Lévi-Straus*. O conceito do "outro generalizado" é usudo aqui com pleno sentido meadiano. cf Kun Lcnk (ed. cm Character and Social Structure (Nova Iorque. As suas raizes podem ser encontradas na análise dc "eu social " dc William James (Principles of Psychology) 7. 106. para a análise de características importantes da moderna sociedade industrial) com um "modelo dramático" tout court. O que os psicanalistas que o usam não entendem é que o fenómeno pode ser encontrado em qual1 IIL SOCIEDADE COMO REALIDADE SUBJECTIVA 1. Frec Press. N. 8. mas com a adição dc elementos importantes de outros fluxos de pensamento social •cientifico) tornaria desnecessário procurar alianças insustentáveis ao nível teóriec com as psicologias freudiana ou behaviorista. 23. Sobre correspondência. 1957). como aceitando qualquer das premissas teóricas de qualquer escola psicológica. Anchor. . 20.204 A construção social da realidade Notas 205 mais usual e preferível a um neologismo.0 conceito de "distancia da função" é desemolvido por Erving GolTman. Diógenes 46 (1964).467 ff. Se for alargado às realidades interiorizadas na socialização primária.Y. 11. pp. 17. Social research. A transformação de intelectuais revolucionários em legitimadores do status quo. 2. embora há vários descobertas da teoria do comportamento da aprendizagem que tenderiam a confirmá-la. Talcon Parsons. de Simmel e a análise de Veblen do papel intelectual dos judeus.

Os estudos dc técnicas "comunistas" chinesas de lavagem ao cérebro são muito reveladoras dos padrões básicos de alternação. ao mesmo tempo. Sobre esta possibilidade dc uma disciplina "sociossomática ". por exemplo. de forma que nenhuma conclusão pode ser retirada disto relativa à validade cognitiva da visão que se obtém na situação psicanalítica. as condições sociocstruiurais para a aplicabilidade dc um "modelo goffmaniano" dc análise. não usaríamos a sua palavra "igreja" para designar a "comunidade moral" da religião. O que está implícito aqui. Gerth e Mills. Primavera dc 1965. projecta fenómenos humanos na natureza não humana e procede então a uma desumanização teórica do homem olhaiirio-o como nada mais que o objecto de forças naturais ou leis de natureza. Vanguard Press. cit. Isto era muito bem compreendido na concepção freudiana da socialização.). Donald W. Georg Simmel. A última. tem limitada aplicabilidade sócio-históríca. 33. Litton c Julius A. The Homosexual in America (Nova Iorque. 1950). Mareei Mauss. Edward Hunter. 195!). 28. 40. 483 ff. 365 ff. 1959). Alfred Schutz e Jean Piaget. Eumpean Journal of Sociology V. Y. 1963). Cf. 35. Helmut Schelsky cunhou o sugestivo termo "reflcctividade permanente'* (Dauerrcfiektion) para a designação psicológica do "mercado de mundos" contemporâneo ("Isidie Dauerrcfiektion insiitution-alisierbar?". Cf. "Social Mobiliry and Personal Identity". Edward T. C/Thomas Luckmann and Peter L.. porem. 47. aqui discutida.orñbile dc tal hipostasia é a sociologia "hegeliana alemã dos anos 20 (como o trabalho dcOlhmar Spann). cf A. pelo contrário. Grecnbcrg. 31. 44. É desaconselhável falar dc " identidade colectiva" por causa do perigo de falsa (e reificante) hipóstasc. 37. Presses Univcrsitaircs de Krance. Comparar de novo Fcstinger quanto ao evitar definições discrepantes da realidade 29. 45. Kardincr c L. Cf Peter L. Cory. Nós acentuaríamos aqui. 46. Tcnbruck. (1964). Human Behavior and Saciai Processes 3 2 . The Silent Language (Gardcn City. Norton. quer dizer. cit. Cf. A psicologia social americana está hoje muito debilitada pelo facto dc um tal fundo estar muito ausente. Berger. 1957). cit. Ovesey. nos seus Asy/itms. Cf. aproxima-se dc mostrar o paralelo processual da grupoterapia na América.206 A construção social da realidade Notas 207 quer processo dc ressoei al i zação. 30.26 IT. * op. 39. O perigo está presente em maior ou menor grau cm vários trabalhos da escola de Durkhcim c da escola da "cultura c personalidade" na antropologia cultural americana. (o ensaio sobre "sociologia dos sentidos"). Comparc-sc Henri Bergson (cm especial a sua leoría da durêé). Goffman. 27. Cf. a partir de Malinowski. N. com a sua resultante identificação com os outros significantes que a tem a seu cargo. 38. tradicionais c modernas. dc uma compreensão do social em que cia acontece.bém cf. O primeiro sublinha que a relação desse homem com o seu próprio corpo (tal como a natureza em geral) c em si uma relação humana específica. ihid. Isto tem a importante implicação de que a maioria dos modelos psicológicos. 43. Zeitschriftjãr evangetischeEthik. uma psicologia histórica. Foi muito subestimado nas adaptações funcionais dc Freud. ErvingGoffman»Sügmd (Englewood Cliffs. Roth em Arnold Rose (ed. op. ensaios sobre sociologia médica de Kliot Frcidson. Foi desenvolvido em termos da sociologia de religião contemporânea por Luckmann. 1951). 41. pp. é uma critica sociológica do "principio da realidade". porque só é apropriada a um caso histórico especifico da institucionalização da religião. como desenvolvido por Hngels C mais tarde pelo marxismo. 331 IT. assim como Freud. O exemplam b.. de Freud. claro. The Mark of Oppression ¿Nova Iorque. Hall. Doublcday. N. "Towards a Socioiogical Understanding of Psychoanalysis ". Mauríce Merleau-Ponty. L. 48. Sociologie et anthmpologie (Paris. Luckmann c Berger. Prcntice-llall. Foi a isto que Durkhcim se referiu na sua análise do inevitável carácter social da religião. A análise sociológica da sexualidade c provável que fornecesse material o mais rico e empírico para uma disciplina como essa. O fundo teórico do argumento dc Schelsky é a teoria geral de Gchlcn da "subjecti vação" na sociedade moderna. que atribui um lugar proeminente às bases estruturais da personalidade na sua tipologia das sociedades primitivas. cii. (o ensaio sobre "técnicas do corpo"). 26. Theodor J. Também. Cf. de maneira alguma será comparável com o "dialéctico da natureza". pp. Nós. op. Cf. Berger. incluindo os da psicologia cientifica contemporânea. Os conceitos dc Riesrnan da "outra-direcção " e de Morton da " socialização anticipa!ória" são neste momento pertinentes. A dialéctica entre natureza c sociedade. cit.. Implica ainda que uma psicologia sociológica terá que ser. Social Researt:h. 42. Comparar Durkhcim c Plessner. 36. 34. loc. 1951). uma vez mais. .. Brainwashing ia Red China (Nova Iorque. 0 nosso argumento implica a necessidade dc um fundo macrossociológico para as análises dc interiorização. Tarr. cf. op.

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