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TÓPICOS DE HISTÓRIA SOCIAL

1ª Edição - 2007

TÓPICOS DE HISTÓRIA SOCIAL 1ª Edição - 2007

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Fabio Gonçalves, Francisco França Júnior, Cefas Gomes

Ilustrações

Equipe Angélica de Fatima Silva Jorge, Alexandre Ribeiro, Cefas Gomes, Cláuder Frederico, Delmara Brito, Diego Aragão, Fábio Gonçalves, Francisco França Júnior, Israel Dantas, Lucas do Vale, Marcio Serafim, Mariucha Silveira Ponte, Tatiana Coutinho e Ruberval Fonseca Imagens

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SUMÁRIO INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL 7 UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL

SUMÁRIO

SUMÁRIO INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL 7 UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL 7

INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL7

7

UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL7

7

ADVENTO E AS PRINCIPAIS INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASILO

O

7

EXPLORAÇÃO DE NOVAS FONTESA

A

9

NOVO ENFOQUE DA ESCRAVIDÃOO

O

12

ATIVIDADE COMPLEMENTAR20

20

PRINCIPAIS TEMÁTICAS

PRINCIPAIS TEMÁTICAS

22

RELAÇÕES DE GÊNERO22

22

HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL30

30

HISTÓRIA POLÍTICA E ECONÔMICA32

32

HISTÓRIA DAS MENTALIDADES39

39

ATIVIDADE COMPLEMENTAR42

42

HISTÓRIA SOCIAL: UMA NOVA CONCEPÇÃO HISTORIOGRÁFICA44

44

HISTÓRIA ORAL44

44

ASCENSÃO DA HISTÓRIA ORALA

A

44

HISTÓRIA ORAL NO BRASILA

A

48

DESAFIOS DA HISTÓRIA ORAL: PROBLEMÁTICAS E RECONSTRUÇÕES DA HISTÓRIA53

53

ATIVIDADE COMPLEMENTAR57

57

SUMÁRIO TÓPICOS ESPECIAIS 59 RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA 59 COTIDIANO E VIDA PRIVADA 65 HISTÓRIA

SUMÁRIO

SUMÁRIO TÓPICOS ESPECIAIS 59 RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA 59 COTIDIANO E VIDA PRIVADA 65 HISTÓRIA
TÓPICOS ESPECIAIS 59

TÓPICOS ESPECIAIS

59

RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA59

59

COTIDIANO E VIDA PRIVADA65

65

HISTÓRIA E CINEMA68

68

ATIVIDADE COMPLEMENTAR72

72

GLOSSÁRIO74

74

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS75

75

Apresentação da Disciplina Prezado aluno, O advento da história social, em meados do século XX,
Apresentação da Disciplina
Prezado aluno,
O advento da história social, em meados do século XX, representou um
“divisor de águas” para a historiografia, visto que proporcionou novas abor-
dagens e questionamentos para a disciplina. O curso Tópicos de História
Social busca fomentar discussões a respeito desse novo pensar histórico in-
troduzido pela Escola dos Annales.
O estudo da disciplina é um convite para discussões muito interessantes
a respeito de temas que estão na ordem do dia. Além disso, possibilita a
você, professor, uma visão mais ampla das principais temáticas que estão
em voga no ensino de história atualmente.
A escolha cuidadosa dos conteúdos está direcionada para uma tentativa
de se repensar o ensino de história através dessas temáticas, além de insti-
gá-lo à investigação histórica. Dessa forma, abordaremos, inicialmente, o
advento da história social no Brasil, suas principais influências, as modifica-
ções com a utilização das fontes para pesquisa e os reflexos para o ensino
da disciplina.
O segundo tema será composto por uma bela passagem sobre as princi-
pais temáticas que hoje norteiam a pesquisa histórica: relações de gênero,
história regional e local, além da história política e econômica.
Iniciando o segundo bloco, faremos uma indispensável discussão acerca
da história oral, cujo tema ainda causa fortes dúvidas e questionamentos
entre os historiadores.
Finalmente, teremos alguns “Tópicos Especiais”, nos quais discutiremos
certas abordagens que poderão, de certa forma, fazê-lo repensar não ape-
nas o ensino da história, como também a disciplina como um todo.
O que devemos ter em mente é que “ensinar” história é muito mais que
transmitir conhecimentos; é, acima de tudo, direcionar o educando a uma
visão crítica e transformadora de sua realidade, torná-lo conhecedor de sua
função histórica. E é nessa perspectiva que iremos direcionar esta discipli-
na.
Bons estudos!
Ana Paula Carvalho Trabuco Lacerda
INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL O ADVENTO
INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL O ADVENTO

INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL

INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL O ADVENTO E

UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL

SOCIAL NO BRASIL UM NOVO OLHAR SOBRE HISTÓRIA NO BRASIL O ADVENTO E AS PRINCIPAIS INFLUÊNCIAS

O ADVENTO E AS PRINCIPAIS INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL

E AS PRINCIPAIS INFLUÊNCIAS DA HISTÓRIA SOCIAL NO BRASIL Os Annales e a História Social: Definições

Os Annales e a História Social: Definições e Objetos

Os Annales e a História Social: Definições e Objetos Marc Bloch – um dos fundadores dos

Marc Bloch – um dos fundadores dos Annales

Impossível se referir à história social sem mencionar o movimento dos

Annales, já que foi o marco para a construção de uma nova história, em opo- sição à história positivista, predominante até a primeira metade do século

XX.

Como vocês viram na disciplina Historiografia, o movimento dos Annales, fundado por Bloch e Febvre, na França, em 1929, colocou em prática a manifestação contra a historiografia factualista, de análise unica- mente centrada nas ações de grandes homens, considerados os “heróis” da história. Contra ela, propunham a “história-problema”, através da ligação entre história e outras disciplinas das ciências humanas, viabilizando um constante alargamento de objetos e métodos.

Portanto, esta postura se generalizou entre os historiadores de todo o mundo desde 1970. Hoje em dia, é quase impossível não se questionar se existiria uma história que não a do social.

A expressão “história social” é, atualmente, utilizada como forma de demarcar o espaço desta ou-

tra postura historiográfica frente à historiografia tradicional. Contudo, é a dimensão historiográfica cujo significado é mais sujeito a oscilações. O ideal criado pelos Annales para a história social foi o de uma história das grandes massas ou de uma história dos grupos sociais de várias espécies, em contraste com a chamada “velha história política”, que veremos mais adiante.

O principal questionamento que se faz é se a história social pode ser considerada uma especiali-

dade, com objetos próprios e definidos, ou se o “social” se confunde com a sociedade (o que faria da

história social uma categoria que engloba todas as outras especialidades da história).

Tal questionamento é resultado do ideal proposto pelos Annales de que a história social pode ser vista através de uma perspectiva de síntese, pois todas as abordagens estão inseridas no social e se

interligam.

Segundo Eric Hobsbawm 1 , nas décadas de 1930 e 1940 a designação história social estava vinculada a uma abordagem culturalista que des- tacava a análise dos costumes e tradições nacio- nais, ainda ligada a um pensamento conservador.

Com o avanço das idéias socialistas e o crescimento do movimento operário, houve um aumento em análises de uma história social do trabalho e do movimento socialista. Finalmente, uma história “econômica e social” se desenvolvia, desde a década de 1930, afirmando a prioridade dos fenômenos coletivos sobre os indivíduos.

Movimento Comunista
Movimento Comunista

Se levarmos em consideração a idéia de his- tória social como uma especialidade da história, percebemos que começam a se destacar certos objetos: os modos e mecanismos de organização social, as classes sociais, as relações sociais e os processos de transformação da sociedade.

Notem que a maior parte dos campos de interesse da história social corresponde a “re- cortes humanos”, (como as classes ou grupos sociais) ou “recortes de relações humanas” (a exemplo dos modos de organização da socie- dade, desigualdades, formas de sociabilidade). Dessa forma, estudam-se partes da sociedade ou elementos específicos que perpassam a sociedade como um todo.

É importante ressaltar que a história social também estuda os “processos” (modernização, colonização, dentre outros), vistos não apenas como modos de organização ou estruturas, mas de forma dialética e mutável. Um bom exemplo é o de Thompson (autor que trabalha na intercone-

1 Ver HOBSBAWM, E. J. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

xão entre história social com uma história cultu- ral). Este autor representa uma tendência que gra- dualmente se afirma em direção à complexidade

e ao tratamento das sociedades como realidades

dinâmicas, como processos, e não apenas como descrições de estruturas perfeitas e estáticas.

De certa forma, existe um modo específico como a história social encara os fatos políticos e econômicos. As repercussões sociais desses fatos, nos grupos específicos ou em um conjunto mais amplo, devem ser também objetos privilegiados

para os historiadores sociais, pois não existem fa- tos políticos ou sociais isolados. Além disso, não

é o tipo de fato (político, econômico, cultural,

etc.) o que define uma especialidade da história, mas o enfoque que o historiador dá a cada um desses tipos de fatos.

Se a história social foi se constituindo como

uma especialidade da história, focada em objetos bem específicos e que os diferenciavam dos obje- tos das outras dimensões da história, a noção de história social também foi associada por alguns historiadores a uma “história total”, encarrega- da de realizar uma grande síntese da diversidade de dimensões e enfoques pertinentes ao estudo de uma determinada comunidade ou formação social. Com isso, muitos historiadores passaram

a entender a história social neste sentido mais abrangente.

Portanto, esta noção de história social, vol- tada para a idéia de uma totalidade de aspectos, podia ser aplicada tanto ao estudo de uma socie- dade inteira, como para o estudo de comunidades tomadas como centros de referência. Em ambos os casos, a história social não apresenta mais ob-

jetos específicos dentro da história: seu interesse

é a sociedade como um todo.

Contudo, tal visão da história social sem- pre esteve paralela à designação desta como uma especialidade da história. Após a crise da histó- ria total, esta qualificação mais específica ganhou força, principalmente, a partir da década de 1960. Mesmo assim, a noção de história social continua aberta a muitas possibilidades de sentidos.

Podemos afirmar que toda informação his- toricizada pode ser tratada historicamente. Con- tudo, nem toda história é necessariamente social,

o que nos leva a questionar a idéia da história so- cial associada à “história total”.

História Social no Brasil No Brasil, a historiografia tradicional obteve grandes privilégios nos tempos de
História Social no Brasil No Brasil, a historiografia tradicional obteve grandes privilégios nos tempos de

História Social no Brasil

No Brasil, a historiografia tradicional obteve grandes privilégios nos tempos de auge dos institutos históricos e geográficos. A partir de 1930, alguns estudiosos, que desenvolveram abordagens historiográ- ficas clássicas se opuseram à historiografia tradicional 2 .

As ciências sociais no Brasil se desenvolveram, inicialmente, na Universidade de São Paulo, abrindo para a história e para a profissionalização do historiador as influências das abordagens econômicas e so- ciológicas que predominaram na década de 1960. A influência dos Annales é indiscutível, principalmente nas décadas de 1950 e 1960 3 .

Os meios acadêmicos brasileiros vieram a trazer, a partir da década de 1970, a sua contribuição para os usos amplificados da expressão “história social”. Esta designação tem sido muito utilizada nos meios acadêmicos. Em certo sentido, argumenta-se que toda história que hoje se escreve é de alguma forma uma história social, mesmo que direcionada para as dimensões política, econômica e cultural.

Na verdade, a história social nasceria no Brasil, geralmente escrita por sociólogos, interligada com as discussões a nível internacional. Com Florestan Fernandes, a dita Escola Sociológica Paulista desenvol- veria o primeiro conjunto de trabalhos voltados para uma história social do negro e da escravidão 4 .

O que se deve destacar é que, atualmente, na historiografia brasileira, se apresenta uma tendência cada vez maior para o exame da sociedade e toda a sua complexidade, superando o manejo de catego- rias sociais estereotipadas e de dicotomias generalizadoras. Um exemplo pertinente a essa questão de se estender o estudo do social para uma análise mais complexa é o de Maria Sílvia de Carvalho Franco em Homens Livres na Ordem Escravocrata 5 . A novidade está no fato de a autora não se prender à dicotomia senhor versus escravo, se perguntando pelas camadas intermediárias pobres do período colonial. Tal aná- lise fortaleceu uma abrangência de horizontes que estimulou vários historiadores brasileiros a analisar a sociedade diversificada que não se enquadra nas dicotomias simplificadas. A partir daí começaram a surgir novos estudos que tinham como objeto de estudo os marginais, os grupos étnicos, os excluídos. Além disso, se abria uma associação com a antropologia e os olhares também voltavam-se para os ambientes familiares.

Portanto, no Brasil, a história social veio trazer contribuições acerca da utilização de novas fontes, novos objetos de estudos e novas abordagens, até então marginalizados pelas influências da historiogra- fia positivista. As influências de Braudel, Bloch e Febvre podem ser vistas principalmente na década de 80, quando se multiplicam os novos estudos da escravidão, gênero, cotidiano, dentre outros. Ao estudar esse módulo, vocês poderão perceber e analisar tais influências na escrita da história no Brasil através das principais abordagens da história social aqui escolhidas.

principais abordagens da história social aqui escolhidas. A EXPLORAÇÃO DE NOVAS FONTES Do ponto de vista

A EXPLORAÇÃO DE NOVAS FONTES

Do ponto de vista metodológico, a história social esteve, desde as décadas de 1960 e 1970, forte- mente marcada por uma constante sofisticação de métodos quantitativos para a análise de fontes históri- cas. Com base em fontes demográficas, cartoriais e judiciais, aumentaram os estudos a respeito das estra-

2 São clássicos neste sentido: Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, 1934; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 1936; Caio Prado Júnior, For- mação do Brasil Contemporâneo, 1942.

3 Dentre outros, Canabrava, A.P. O desenvolvimento da cultura do algodão na Província de São Paulo, 1861-75, 1955; Costa, Emília Viotti da. Da senzala à colônia, 1962; Petrone, Maria Tereza S., A lavoura canavieira em São Paulo: sua expansão e declínio, 1968.

4 Dentre outros, Fernandes, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes, 1978; Ianni, Otávio, As metamorfoses do escravo. Apogeu e crise da escravidão no Brasil, 1962; Cardoso, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional, 1962.

5 Esse exemplo foi retirado de BARROS, José D´Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2004. p.

117.

tégias de casamento, alianças sociais e mobilidade social, dentre outros.

Portanto, não há limitações com relação ao que pode ser tomado como fonte para a histó-

ria social. É possível encontrá-las tanto na docu-

mentação privada como na documentação oficial.

O que chamamos de documentos privados são

aqueles produzidos no nível das vidas privadas:

relatos de viagens, correspondências particulares, diários, etc. A documentação oficial é bem mais numerosa e se referem a todas aquelas fontes que oferecem dados massivos sobre uma sociedade, como os inventários, censo, registros fiscais, den-

tre outros. Um exemplo de um material muito rico

é o que se encontra nos arquivos judiciais e poli- ciais. Os historiadores sociais da atualidade vêm dando uma atenção especial a um vasto manan- cial de fontes que por muito tempo foi esqueci- do: os registros de polícia, os processos criminais, ou ainda para os primeiros momentos de Idade Moderna, os processos da Santa Inquisição, que rastreavam obsessivamente a vida dos indivíduos investigados, registrando suas falas nos mínimos detalhes, com o objetivo de perceber qualquer in- dício de mentalidade herética (como o fez Carlo Ginzburg).

dício de mentalidade herética (como o fez Carlo Ginzburg). A Santa Inquisição matou inúmeras pessoas consideradas

A Santa Inquisição matou inúmeras pessoas consideradas hereges

Os indivíduos pertencentes às classes so- ciais privilegiadas dão-se a conhecer através de um número bastante diversificado de fontes dis- poníveis aos historiadores: na documentação po-

lítica e na arte letrada, por exemplo. Ao excluído,

só é dada voz quando ele comete algum tipo de

crime. Os registros repressivos são os espaços documentais mais “democráticos” para a análise dos historiadores, pois poderão encontrar as vo- zes de todas as classes, mas, sobretudo daqueles

indivíduos pertencentes aos grupos sociais me- nos privilegiados.

Portanto, muitas dessas fontes chegam ao historiador através da violência. Além da violên- cia individual que aparece através do crime, tam- bém existe a violência coletiva, no qual a massa anônima deixa suas marcas e conquista suas vo- zes através de explosões de revolta que podem ser registradas em jornais da época. São nestes momentos que as massas tornam-se visíveis, ex- primindo-se através de protestos ou de violência coletiva, podendo emergir lideranças populares.

Temos um ótimo exemplo na historiogra- fia brasileira da utilização dessas fontes: Sidney Chalhoub em Trabalho, lar e botequim: o cotidia- no dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque. Nesta obra, o autor analisa as contradi- ções existentes nas classes trabalhadoras do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, quando emerge no Brasil o ideal burguês do tra- balho. Sua principal fonte de pesquisa são os pro- cessos criminais que envolvem esse grupo social no qual o autor trabalha. Chalhoub aponta que o estudo dessas fontes é bastante enriquecedor, pois o historiador trabalha diretamente com a pa- lavra do sujeito histórico no qual está estudando. Contudo, alguns cuidados devem ser tomados, principalmente para a leitura e interpretação des- sas fontes que podem ser deturpadas por auto- ridades da época. O que Chalhoub aconselha é uma interpretação minuciosa nas entrelinhas.

Em seu cotidiano, as massas populares são informes: executam as tarefas que lhe permitirão assegurar sua sobrevivência diária. A história co- nhece os escravos do Brasil Colonial, por exem- plo, através de registros massivos como registros de nascimento, ocupação ou morte. Nesses mo- mentos, as massas falam ao historiador através de números que registram sua suposta passividade. Contudo, quanto ocorre um motim ou um pro- testo público, os chamados “excluídos da histó- ria” aparecem como uma massa que é, enfim, ou- vida através de seus gestos muitas vezes violentos e ruidosos.

São os grandes momentos de protestos e violência que tornam visíveis as massas e os mo- mentos de crimes individuais dão visibilidade ao homem comum. Por isto, o historiador chega às massas através da violência; e são as fontes que a

expressam aquelas que permitem ao historiador um encontro direto como o seu “objeto” de pes- quisa, além de examinar as relações de classe, suas expectativas, seu cotidiano.

Na verdade, as fontes de natureza repres- siva, se caracterizam como fontes múltiplas por excelência. A própria diversidade social pode es- tar presente em um processo judicial. São fontes que envolvem um foco representando o sistema repressivo e um universo bastante rico possibi- litado pelo vasto número de depoimentos e de testemunhas, até chegar ao criminoso.

É mais raro que o historiador do social vá encontrar fontes ditas privadas que dizem respei- to aos grupos menos favorecidos, pois estes tex- tos, em sua maioria, não são conservados após o falecimento de seus autores. Porém, este tipo de documentação sempre está à disposição do histo- riador que analisa as classes mais favorecidas.

As fontes da história social são de inúmeras

modalidades. Sua escolha dependerá, obviamen- te, do problema histórico escolhido pelo pesqui- sador. Iremos, portanto, trabalhar com alguns exemplos de documentação bastante utilizados entre os historiadores brasileiros.

bastante utilizados entre os historiadores brasileiros. Fontes Serial” Seriais ou “História A utilização das

Fontes

Serial”

Seriais

ou

“História

A utilização das fontes seriais foi vista,

quando surgiu em meados do século XX, como uma revolução nas relações do historiador com suas fontes, e alguns chegaram a pensar que este tipo de metodologia viria a substituir completa- mente o antigo fazer histórico tradicional. Ao in- vés das fontes habituais que eram tomadas sem- pre para uma abordagem qualitativa, a chamada “História serial” introduziu uma perspectiva in- teiramente nova: tratava-se de constituir “séries” de fontes e de abordá-las de acordo com técnicas igualmente inéditas.

Portanto, o campo da “história serial” refere-se a um tipo de fontes e a um modo de tratamento das fontes. Trata-se de abordar fon- tes com algum nível de homogeneidade e que se abram para a possibilidade de quantificar ou de serializar as informações ali perceptíveis no in- tuito de identificar regularidades. Dessa forma, a

no in- tuito de identificar regularidades. Dessa forma, a “história serial” também lida com a serialização

“história serial” também lida com a serialização de dados, propondo-se a avaliar eventos históri- cos de um certo tipo em séries ou unidades re- petitivas por determinados períodos de tempo. Enquadram-se neste conjunto de possibilidades os estudos dos ciclos econômicos, a partir, por exemplo, da análise das curvas de preços e das curvas demográficas.

A “história serial” foi um campo que se

abriu com a história econômica, e que daí se es- tendeu à história demográfica e à história social no sentido restrito, mas que terminou por se di- fundir para muito além destes limites.

Também relacionada a determinados pro- cedimentos metodológicos, a “história serial” articula-se a outros campos históricos, como a história econômica, demográfica ou das menta- lidades, aplicando-se a objetos vários. Por outro lado, com freqüência ela se encontra relacionada com a chamada “história quantitativa”, uma sub- divisão da história que se refere mais ao critério do campo de observação, neste caso associado ao âmbito numérico e às variações quantitativas.

Ao que se refere ao tipo de fontes que po- dem ser serializadas, deve-se notar desde já que uma grande variedade de fontes pode se prestar aos usos seriais, em que pese a primazia que de- sempenharam as fontes escritas na “história se- rial” dos primeiros tempos, a exemplo da fontes cartoriais, administrativas, comerciais, paroquiais, dentre outras, que também se prestam à história quantitativa. Também existem outras possibilida- des, a exemplo de Michel Vovelle 6 que serializou objetos da cultura material e registros iconográfi- cos, além de tópicos presentes em discursos lite- rários. Nesse caso, temos um ótimo exemplo de “história serial” que não é necessariamente coin- cidente com uma história quantitativa.

A diferença entre “história serial” e his-

tória quantitativa deve ficar clara, embora sejam comuns os casos em que as duas abordagens se relacionam. Ainda que ambas as especialidades possa ser definidas como “abordagens”, existem diferenças a serem notadas.

A “história serial” refere-se ao uso de um

determinado tipo de fonte que permite um de- terminado tipo de tratamento – a serialização de

6 Ver VOVELLE, Michel. “Iconografia e história das imagens”. IN:

Ideologias e mentalidades, p. 65-102.

dados, a identificação de um padrão e, na contrapartida, uma atenção às diferenças para se medir varia-

ções. Já a história quantitativa deve ser definida através de um outro critério: o seu campo de observação.

O que a história quantitativa pretende observar da realidade está atravessado pela noção de “número”,

da “quantidade”, de valores a serem medidos. As técnicas a serem utilizadas pela abordagem quantitativa

serão estatísticas, ou baseadas na síntese de dados através de gráficos diversos e de curvas de variação a

serem observadas.

A quantificação pressupõe a serialização e não o contrário. Podemos trabalhar com uma série de

fontes em necessariamente estarmos interessados em números. O segredo para definir uma prática como “história serial” é a busca de padrões recorrentes e variações ao longo de uma série de fontes ou materiais homogêneos. É possível, por exemplo, serializar notícias de jornais durante um determinado período para verificar a repetição ou variação das notícias ao longo do tempo, o que pode trazer indicativos de alguns acontecimentos que produziram transformações. Portanto, a “série” é o que canaliza a atenção do historiador.

Ao empreender uma história quantitativa, o historiador deve tomar cuidado para não realizar uma história meramente descritiva de informações numéricas. Se a análise quantitativa se resumir a uma expo- sição de quantidades, será apenas uma história descritiva, não-problematizada.

Deve-se ressalvar que narrar simplesmente os fatos, de maneira não-problematizada, como se o que importasse na história fosse a mera descrição dos eventos. Nesse caso, teremos uma história quanti- tativa meramente descritiva, que levanta dados e não estabelece problemas, não utiliza esses dados para produzir uma reflexão problematizada sobre a sociedade em determinado momento histórico.

Como o tratamento estatístico foi uma novidade na historiografia na primeira metade do século XX, nesta época prevaleceu uma história quantitativa descritiva que se mostrou como uma grande novi- dade. Entretanto, atualmente a “história problema” rejeitou esse tipo de produção. O historiador de hoje deve lançar mão dos levantamentos quantitativos para formular problemas.

dos levantamentos quantitativos para formular problemas. O NOVO ENFOQUE DA ESCRAVIDÃO Estudos da Escravidão no

O NOVO ENFOQUE DA ESCRAVIDÃO

Estudos da Escravidão no Brasil: de Gilberto Freyre à Escola Paulista

Desde a publicação de Casa-grande e Senzala por Gilberto Freyre, em 1933, afirmando a doçura nas relações escravistas no Brasil, que tivemos grande margem à polêmica historiográfica sobre a carac- terização do sistema escravista, ainda hoje não resolvida por completo, pois condicionada às influências ideológicas e, conseqüentemente, ao enfoque teórico de cada autor. Justamente por isso, também são polêmicos os inúmeros aspectos abrangidos pelo tema e pela bibliografia, que é vasta, em função da im- portância assumida pela escravidão nos países onde foi implantada.

O grande lema do dissenso historiográfico está na caracterização do sistema escravista, tido por

alguns como violento e cruel; por outros, como brando, benevolente.

Inicialmente, numa época ainda sensível ao pensamento racista europeu, que atraiu estudiosos como Oliveira Viana e Nina Rodrigues 7 , por exemplo, convencidos da inferioridade do negro e da sua contribuição negativa para a formação do povo brasileiro.

Preocupado, como os de sua geração, com a questão da raça e atento à intensa miscigenação

7 Ver RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil. 6 ed, São Paulo, Ed. Nacional, 1982 e VIANNA, Oliveira. Populações Meridionais do Brasil. São Paulo, Monteiro Lobato e Cia, 1920.

ocorrida no país, Freyre buscou explicar o significado, concebendo uma sociedade de tipo paternalista, onde

ocorrida no país, Freyre buscou explicar o significado, concebendo uma sociedade de tipo paternalista, onde as relações de caráter pessoal assumiam vital importância. A família patriarcal foi a base do sistema:

resultante da transplantação e adaptação da família portuguesa no ambiente colonial brasileiro, constituía uma vasta e hierárquica rede de parentesco, uma “ordem privada” impermeável a formas públicas de organização e controle.

Na sociedade assim estabelecida, predominavam a empatia entre as “raças” e a amenidade na re- lação senhor-escravo, características que explicariam a miscigenação e seriam peculiares no quadro geral do escravismo americano. Decorriam elas da plasticidade racial do colonizador português, cujos traços psicológicos diferenciavam-no dos anglo-americanos em valores e personalidade. Uma linha de raciocí- nio que o levará a considerar o Brasil uma “democracia racial”, pois a miscigenação largamente praticada corrigia a enorme distância social existente.

Os argumentos de Freyre para ressaltar a benignidade da escravidão foi influenciado pelo pensa- mento conservador do século XIX. Fontes daquela época como os viajantes, os parlamentares que repre- sentavam os interesses dos proprietários ou os historiadores saudosos do Império, difundiram a idéia de brandura na escravidão, devido à “índole” do povo brasileiro, “bondoso e justo” por natureza.

As idéias de Freyre não sofreram contestação imediata. Ao contrário, reforçaram os mitos da bran- dura do senhor, da submissão do escravo, e continuaram influenciando muitos autores. Mas a partir dos anos 50, aproximadamente, uma nova concepção revitalizou os estudos sobre a escravidão negra, origi- nando uma também nova corrente historiográfica, que se opôs frontalmente às afirmações de Gilberto Freyre.

No Brasil, a repercussão de tais oposições somou-se à progressiva conscientização das condições periféricas a que sempre esteve submetido o país no quadro das relações internacionais, à maior visibi- lidade das injustiças e tensões sociais, ao crescimento do nacionalismo. Foi um tempo de efervescên- cia política e intelectual em que o interesse por classes marginalizadas e minorias oprimidas também mudou a historiografia da escravidão.

Nesta, desde logo, podem ser citados os nomes de Florestan Fernandes, Otávio Ianni, Emília Viotti da Costa e Fernando Henrique Cardoso, cujas idéias diver- gem das de Freyre.

Para eles, a escravidão é fundamental no proces- so de acumulação do capital, instituída para sustentar dois grandes ícones do capitalismo comercial: mercado

e lucro. A organização e regularidade da produção para

exportação em larga escala impunham a compulsão ao trabalho. Para obtê-la, coerção e repressão seriam as principais formas de controle social do escravo.

Apontam a violência como forma para a repres- são contra o escravo, sendo também utilizada por ele para, transgredindo as normas, desacatar os senhores, roubando-os, assassinando-os, exprimindo de forma brutal o seu inconformismo diante do cativeiro.

Portanto, tais pesquisadores chegaram a conclusões opostas às de Gilberto Freyre, cuja obra foi, então, objeto de duras críticas. Segundo aqueles estudiosos, o sociólogo pernambucano generalizou para

o Brasil e para toda a massa escrava uma interpretação calcada apenas no nordeste canavieiro e no escravo doméstico.

Trabalho escravo no campo e na cidade.
Trabalho escravo no campo e na cidade.

Ao generalizar sobre o espaço e tempo, Gilberto Freyre deixa de lado a dinâmica do pro- cesso histórico, ignora a historicidade da escra- vidão. Quanto à miscigenação, existiu em todos os sistemas escravistas e nem por isso alterou a situação do escravo ou desestabilizou a institui- ção. Portanto, está longe de desempenhar o papel que lhe foi atribuído por Freyre, cujas afirmações tiveram uma intencionalidade ideológica: a de jus- tificar o passado escravista.

ideológica: a de jus- tificar o passado escravista. Novos Rumos: Após a Coisifica- ção, a Resistência

Novos Rumos: Após a Coisifica- ção, a Resistência e a Negociação

Já a partir de 1980, surge uma nova polê-

mica historiográfica que repensa o conceito de violência do sistema, admitindo a existência de espaço para o escravo negociar um cotidiano mais brando. Nesse cotidiano, ele iria utilizando “estratégias” para sobreviver, ora curvando-se aos ditames do senhor, ora a eles resistindo.

A constatação da violência na escravidão é

um ponto de partida importante, mas a crença de que essa constatação é tudo o que importa sa- ber e comprovar sobre o assunto acabou gerando seus próprios mitos e imobilismos na produção historiográfica. Podemos, por exemplo, fazer uma breve história de um dos mitos mais céle- bres da historiografia: a coisificação do escravo. Perdigão Malheiro, por exemplo, em seu estudo sobre a escravidão, publicado na década de 1860, afirmava que o cativo se encontra “reduzido à condição de coisa, sujeito ao poder e domínio ou propriedade de um outro, é havido por morto, privado de todos os direitos, e não tem represen- tação alguma 8 .

O problema da coisificação dos escravos ganha, então, uma dimensão bem mais abrangen- te. A definição legal do escravo como “coisa” se transforma também numa condição social, haven- do, aqui, a pretensão de apreender ou de descre- ver a experiência histórica desses negros. O que se percebe neste autor é a convicção de que os proprietários pareciam quase acreditar que esta- vam lidando com criaturas que se assemelhavam ao gado, e o tratamento dispensado aos negros

8 MALHEIRO, Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico, social. Petrópolis, Vozes/INL, 1976, 2v. p. 35.

era em vários aspectos idêntico ao dado às bestas. Também é notória a idéia de que o próprio cativo introjeta a noção de que sua inferioridade em re- lação ao homem livre, como sendo algo natural, e de que o escravo age segundo a crença de que “é pouco mais do que um irracional”. A última frase sugere que é só através do “ódio”, da “vingança”, que os negros negam essa consciência passiva que parecem ter em sua condição.

Não deve ser esquecido o já citado Fernan- do Henrique Cardoso em seu tão famoso livro publicado em 1962, no qual escreve: “do ponto de vista jurídico é óbvio que, no Sul como no resto do país, o escravo era uma coisa, sujeita ao poder e à propriedade de outrem. A condição ju- rídica de coisa, entretanto, correspondia à própria condição social de escravo” 9 .

Os argumentos irrelevantes oferecidos pelo autor deixa patente que não é possível imaginar escravos que não produzam valores próprios, ou que pensem e ajam segundo significados que lhes são inteiramente impostos.

Contudo, a teoria do escravo-coisa tem prosseguimento, por exemplo, em Jacob Goren- der, um autor que permanece relativamente em voga no meio acadêmico brasileiro:

O oprimido pode chegar a ver-se qual o vê seu opressor. O escravo podia assumir
O oprimido pode chegar a ver-se
qual o vê seu opressor. O escravo podia
assumir como própria e natural sua con-
dição de animal possuído. Um caso-limi-
te desta ordem se depreende de relato de
Tollenare. Em Pernambuco, matavam-se
escravos de um inimigo por vingança,
como se mataria seu gado. Um senhor
de engenho, que ganhara a inimizade
de moradores despejados das terras que
ocupavam, confiara um negro ao visi-
tante francês a fim de acompanhá-lo
nos seus passeios. O negro não ousava
aproximar-se do povoado dos morado-
res hostis e se justificava: “O que diria o
meu senhor se esta gente me matasse?” 1
1 Ver GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São
Paulo, Ática, 1978, p. 25.

9 Ver CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional: o negro na sociedade escravocrata no Rio Grande do Sul, 2ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977, p. 125.

Esta passagem de Gorender é passível de inúmeros questionamentos. Será que o escravo que acompanhava

Esta passagem de Gorender é passível de inúmeros questionamentos. Será que o escravo que acompanhava o francês, ao mencionar os possíveis sentimentos do senhor a respeito de seu assassinato pelos “moradores hostis”, não estaria apenas recorrendo ao argumento que, naquelas circunstâncias, mais

provavelmente garantiria sua sobrevivência? Nesta hipótese, porém, o “oprimido” estaria agindo de acor- do com sua própria compreensão da situação em que se encontrava, e não simplesmente reproduzindo

a ótica do “opressor”.

A teoria do escravo-coisa tem, freqüentemente, como contrapartida a idéia do escravo rebelde. A violência da escravidão não transformava os negros em seres “incapazes de ação autonômica”, nem em passivos receptores de valores senhoriais, e nem tampouco em rebeldes valorosos e indomáveis.

Portanto, tal abordagem que afirmava a coisificação do escravo e a aceitação passiva de sua condi- ção passa a ser questionada no final da década de 1980. Historiadores como João José Reis, Eduardo Silva

e Sidney Chalhoub 10 , além de questionarem toda a argumentação implícita no ideal de coisificação do es- cravo, procuraram demonstrar que os escravos agiram de acordo com lógicas ou racionalidades próprias,

e que seus movimentos estão firmemente vinculados a experiências e tradições particulares e originais

– no sentido de que não são simples reflexo ou espelho de representações de “outros” sociais.

De acordo com João José Reis, “já não é possível pensar os escravos como meros instru-

mentos sobre os quais operam as assim chamadas forças transformadoras da história” 11 . Além disso,

o autor explicita a existência de diversos tipos de resistência, sendo que suas formas mais conheci- das são as fugas e a formação de quilombos.

Nesse contexto, os historiadores, que ago- ra passaram a enfocar a “negociação e o confli- to” no cotidiano dos cativos, passaram a inovar no que diz respeito à utilização e interpretação das fontes. Além das cartas de alforria e documentos de compra e venda de escravos, passaram a enfa- tizar os processos criminais, onde os depoimen- tos dos escravos são analisados e interpretados cuidadosamente.

Contudo, o historiador deve ter bastante cuidado ao analisar essas fontes, levando em consideração

o contexto em que determinado documento foi escrito. Numa sociedade escravista, a carta de alforria,

por exemplo, que um senhor concede a seu cativo deve ser, também, analisada como o resultado dos esforços bem sucedidos de um negro no sentido de arrancar a liberdade a seu senhor; no Brasil do século

XIX, o fato de que senhores e escravos pautavam sua conduta a partir da noção de que cabia unicamente

a cada senhor particular a decisão sobre a alforria ou não de qualquer um de seus escravos precisa ser entendida em termos de uma “hegemonia de classe”; e os castigos físicos na escravidão precisavam se afigurar como moderados e aplicados por motivo justo, do contrário, os senhores estariam colocando em risco a sua própria segurança.

estariam colocando em risco a sua própria segurança. Exemplo de quilombo 10 Ver CHALHOUB, Sidney. Visões

Exemplo de quilombo

10 Ver CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Cia das letras, 1990 e REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência escrava no Brasil escravista. São Paulo, Cia das letras, 1989.

11 REIS, João José e GOMES, Flávio. Liberdade por um fio: uma história dos quilombos no Brasil. São Paulo, Cia das letras, 1995. p. 35.

Para vermos um exemplo da utilização dos processos criminais como fonte histórica para o estudo

da escravidão, vamos utilizar a análise que Chalhoub faz do cativeiro justo. Através desses processos,

o autor percebe que muitos escravos da corte tinham sua própria concepção do que seria justo ou não como castigo. Observe:

) ( que vindo à presença de seu senhor que o reconhecera e dissera que
) (
que vindo à presença de seu senhor que o reconhecera e dissera que ia
tirar a ordem de soltura e castigá-lo severamente, (
)
e sabendo ele acusado que seu
senhor é muito bárbaro em seus castigos, a ponto de matar escravos como aconte-
ceu com seus parceiros Joaquim Guilherme e Antônio há coisa de uns quatro anos,
por não quererem lhe servir e fugirem (
)
ele acusado deu-lhe uma punhalada (no
seu senhor) e tratou de fugir (
)
que ele acusado não veio com firme intenção de
ofender seu senhor mas, se ele morresse da punhalada (
)
seria melhor porque ele
acusado ficava livre de semelhante senhor a quem não deseja servir por ser como
já disse muito mau 1 .
1 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade
p. 56.

Para quem nunca teve contato com uma fonte histórica, talvez encontre dificuldades em entender a linguagem, afinal este é um depoimento referente ao século XIX. A citação acima se refere ao depoimen- to de um escravo chamado Braz, cujo proprietário, Coelho da Silva, estava tentado vendê-lo. Tal escravo

justifica sua fuga e a punhalada que deu no seu senhor pelo fato deste ser muito severo em seus castigos

e não querer ele encontrar senhor semelhante. É o ideal de cativeiro justo defendido por Chalhoub.

Outra fonte bastante utilizada atualmente é a carta de alforria. Tal documento nos remete a in-

formações importantes sobre os escravos da região estudada pelo historiador. Através dessa fonte, além de facilitar o conhecimento dos perfis dos escravos estudados, possibilita uma análise dos espaços de negociação, cumplicidade e esperteza por parte dos escravos, informando os modos de funcionamento do escravismo e as oportunidades que nele existiam para que os escravos tivessem uma certa autonomia

e pudessem conseguir melhores condições de vida.

Além de informações como sexo, nome, estado civil, cor, ocupação e preço, as cartas de alforria tornam-se fontes riquíssimas para o estudo do sistema escravista. Se os escravos eram obrigados a pagar por sua liberdade um preço de mercado, por exemplo, é possível uma análise que objetive testar o oti- mismo dos senhores, a lucratividade da escravidão e a estrutura relativa de preços segundo idade e sexo dos escravos. Um exemplo é que, na maioria, os escravos do sexo masculino, menores de 40 anos e que tinham uma profissão, como ferreiro ou carpinteiro (as mais comuns entre eles), eram os mais caros.

Tanto João José Reis como Kátia Mattoso 12 evidenciam as limitações existentes nas cartas de al- forria por eles analisadas, já que em sua maioria continham cláusulas restritivas e condicionais, como por exemplo, continuar servindo ao senhor por um determinado tempo. Para Hebe de Castro, a alforria in- condicional (sem restrições) era um dos meios encontrados pelos senhores para manterem os ex-escravos nas fazendas e conter as desordens. 13

12 Ver REIS, João José em obra já citada: Negociação e conflito

13 CASTRO, Hebe Mattos de. “Laços de família e direitos no final da escravidão”. IN: ALENCASTRO, Luís Felipe. História da vida privada no Brasil Império. São Paulo. Cia das letras, 1997.

e MATTOSO, Kátia de Queiroz. Ser escravo no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1988.

Relações Familiares entre Escravos É bastante recente o interesse dos estudiosos pela família escrava como

Relações Familiares entre Escravos

Relações Familiares entre Escravos É bastante recente o interesse dos estudiosos pela família escrava como objeto

É bastante recente o interesse dos estudiosos pela família escrava como objeto de pesquisa. De acordo com Suely Robles, a historiografia sempre atribuiu pequeno significado à mesma, baseando-se, sobretudo, nos seguintes argumentos:

A predominância de escravos do sexo masculino, provocando um desequilíbrio entre os sexos que dificultou
A predominância de escravos do sexo masculino, provocando um
desequilíbrio entre os sexos que dificultou as uniões.
• A baixa taxa de fecundidade das cativas, em função de vários fato-
res, entre os quais aqueles relacionados à própria escravidão: o desalento
em gerar em filho já privado da liberdade ao nascer, o receio de vê-lo
sofrer castigos ou ter de separar-se dele; até mesmo o temor do parto,
que assegurava as sinhazinhas e seria muito mais terrível ante a condição
escravizada.
• O repúdio ao cativeiro, ampliado por práticas senhoriais arbitrá-
rias e prepotentes. Os proprietários exerciam seus direitos sem limitações,
engravidando as escravas, fossem elas casadas ou não, interferindo na
escolha dos cônjuges, não poupando as mães que amamentavam
• A falta de privacidade, materializada nas senzalas coletivas e sepa-
radas por sexo, que constituíam grande obstáculo à organização da vida
familiar 1 .
1 Ver texto de QUEIROS, Suely Robles Reis de. “Escravidão negra em debate”. IN: FREITAS, César Mar-
cos. Historiografia Brasileira em perspectiva. São Paulo, Contexto, 2000. p. 111.

Fundamentando-se nessas realidades e nos testemunhos de época, os estudiosos negaram a família escrava, concluindo que a sociedade senhorial impediu o desenvolvimento da instituição. Ultimamente, diversos historiadores têm se oposto a tais considerações.

No Brasil, foram, sobretudo, os estudiosos da demografia histórica que agitaram a questão, caben- do-lhes o mérito de identificarem numerosas famílias entre escravos, a exemplo de Robert Slenes e José Flávio. Tais estudos, todos baseados em listas populacionais de diversos tipos que relacionam o número de cativos, seu estado civil, a quantidade de filhos, levou os autores a encarecerem o significado da família escrava e a contestarem os estudiosos que a negam.

Contudo, o que é negada por muitos estudiosos é a predominância do tipo de vivência exigido pela família nuclear, conceituada como um grupo constituído de pai, mãe, filhos legítimos ou não, vivendo sob o mesmo teto, em caráter privado e permanente.

Portanto, a existência de uma família escrava do tipo nuclear depende principalmente de estabili- dade, privacidade e facilidade para se constituir, além da qualidade de vida que possa obter. Além disso, os escravos teriam muitas dificuldades a superar. A começar, da predominância numérica do elemento masculino na população cativa.

Embora a desproporção entre os sexos não seja um obstáculo intransponível, certamente contri- buiu para dificultar as uniões em um regime ao qual o escravo nunca se conformou. Aliás, os historiado- res da nova corrente não negam a superioridade numérica masculina, nem a baixa taxa de fecundidade da mulher cativa, o que piorava pela proibição, no Brasil, do casamento entre escravos de propriedades

diferentes. O que se crê é que a baixa taxa de fecundidade constatada em muitos dados quantitativos é, em grande parte, explicável pelo inconformismo do escravo ante o cativeiro.

Kátia Mattoso afirma que os escravos não se casavam e, se o faziam, evitavam ter filhos. Com par- ceiros geralmente escolhidos pelo dono, as uniões eram múltiplas, passageiras e não visavam a procriação. Se esta acontecia, os filhos nasciam de “mãe certa e pai incerto”. Assim, a família da criança passava a ser o conjunto da comunidade e a vida social do grupo era mais importante que a familiar, praticamente inexistente.

Portanto, os estudos sobre a constituição de famílias entre a população escrava tornaram-se funda- mentais para o resgate do escravo enquanto sujeito da história.

Muita polêmica continua acerca dessa questão. Muitos estudiosos, recentemente, vêm afirmando que a família escrava não só existiu como também pôde experimentar uma certa estabilidade no tempo, sendo uma instituição importante não só para os escra vos , como, muitas v ezes, para seus proprietários . A família escrava surge, então, como um elemento estrutural de adaptação ao escravismo.

O descontentamento escravo diante da impossibilidade de cultivar suas relações familiares, de pre-

servar seus relacionamentos afetivos, foi demonstrado em circunstâncias as mais diversas possíveis, a exemplo das fugas em família, dos crimes cometidos contra aqueles que abusavam de familiares de escra- vos, do suicídio de mulheres escravas precedido do infanticídio contra seus filhos, além de um comporta- mento cotidiano rebelde em função da pressão senhorial sobre suas famílias. A luta pela preservação da família e a solidariedade entre parentes, na verdade, constituíram mais uma forma de resistência escrava, de resistência à coisificação, à desumanização.

Já é possível detalhar alguns aspectos da vida familiar dos escravos. No que se refere às discussões

sobre a questão da legitimidade das uniões matrimoniais, percebeu-se que os casamentos foram muito mais freqüentes do que se imaginava. Os estudos desenvolvidos nessas últimas décadas têm dado impor- tantes contribuições nesse sentido, a partir de sofisticadas análises quantitativas que permitem melhor compreender e confrontar realidades diferenciadas 14 . Para além da análise da família nuclear e legítima, os historiadores têm observado, em certa medida, extensas relações de parentesco e de compadrio, sugerin- do a possibilidade de padrões de vida familiar próprios às comunidades negras no contexto escravista.

Portanto, para melhor compreender a família escrava, não podemos ter como referencial único e exclusivo a família nuclear e monogâmica. Assim como não se pode deixar de considerar a condição es- crava, não podemos também negar as influências culturais africanas na constituição familiar.

O certo é que os estudos historiográficos atuais permitem constatar a existência de uniões entre

negros, indicando que estes tentaram estabelecer laços afetivos mais sólidos que os da simples promis-

cuidade sexual.

Para Refletir DA LIBERDADE À EXCLUSÃO 1 Karin Sant’Anna Kossling A abolição da escravatura no
Para Refletir
DA LIBERDADE À EXCLUSÃO 1
Karin Sant’Anna Kossling
A abolição da escravatura no Brasil, sem uma política de inserção social
daqueles trabalhadores, trouxe uma imensa marginalização social dos afrodescen-
1 O texto foi retirado da revista Desvendando a história, Ano 2, nº 10, p. 39.

14 Ver FARIA, Sheila Siqueira de Castro. “Família escrava e legitimidade. Estratégia de preser vação da autonomia.” Estudos Afro-asiátiocos, nº 23, 1992, pp. 113-131.

dentes. Afinal, havia uma nova ordem social na qual a preferência pelos imigrantes gerou a
dentes. Afinal, havia uma nova ordem social na qual a preferência pelos imigrantes gerou a
dentes. Afinal, havia uma nova ordem social na qual a preferência pelos imigrantes
gerou a exclusão do negro do mercado de trabalho, levando à miséria e a um tra-
tamento diferenciado. Essa assimetria social – sustentada e reforçada pelo racismo
científico do século XIX – gerou uma situação lastimável: negros ainda eram opri-
midos pelas idéias escravocratas que pareciam não ter realmente desaparecido do
contexto.
Uma das primeiras manifestações contrárias a essa exclusão social no pós-
abolição deu-se no início do século passado, com a chamada imprensa negra – feita
e lida por afrodescendentes. O Baluarte, por exemplo, pioneiro jornal de 1904,
pretendia ser um “centro literário dos homens de cor”.
A confecção daqueles jornais de forma independente tinha um caráter pre-
cário de produção e foi o resultado de muito esforço dos militantes, que buscavam
melhorias sociais, especialmente por meio da educação. Aquela imprensa articulava
idéias, aspirações e projetos sociais expressos em reivindicações por integração,
participação e ascensão dos negros na sociedade brasileira.
Dessa maneira, constituíram formas de solidariedade étnica, utilizando-se
de um importante veículo de comunicação naquela época, o que também auxiliou
na formação dos movimentos negros de expressão política como, por exemplo, a
Frente Negra Brasileira, em 1931.
Por meio da imprensa negra, os afrodescendentes protestaram, entre outras
coisas, contra a exclusão no mercado de trabalho. Isso ficou claro no artigo “Os
Pretos em São Paulo”, publicado em uma edição da revista Kosmos, datada de
1924: “Vai às fábricas, mas não lhe dão serviço, muitas vezes nem lhe deixam falar
com os gerentes. Procura anúncios nos jornais, acorre pressuroso aonde precisam
de empregados e, embora chegue primeiro do que outro qualquer candidato, por
ser de cor é posto à margem e recusado”.
Esses aspectos, de alguma maneira, ainda estão presentes em nossa sociedade
até os dias de hoje. Basta conferir indicadores sociais divulgados por instituições de
análise de dados e estatísticas, que apontam para o fato de a população afrodescen-
dente enfrentar mais dificuldades para ingressar no mercado de trabalho, recebendo
salários menores e tendo dificuldades de ascender profissionalmente.
Estante do Historiador Visões da Liberdade de Sidney Chalhoub é uma obra espetacular, na qual
Estante do Historiador
Visões da Liberdade de Sidney Chalhoub é uma
obra espetacular, na qual o autor, através de um diálogo
exemplar com o leitor, faz uma análise das diversas per-
cepções que os escravos do Rio de Janeiro, já nos últimos
anos da escravidão, tinham a respeito da liberdade, princi-
palmente através da análise de processos criminais. É uma
leitura indispensável para todo historiador.
Cinema e História Crash – No limite – , lançado em 2004 e dirigido por
Cinema e História
Crash – No limite – , lançado em
2004 e dirigido por Paul Haggis, é um
filme interessante porque mostra a his-
tória de personagens de origens comple-
tamente diferentes, judeus, latinos, afro-
americanos. Demonstra, claramente, os
preconceitos ainda existentes em nossa
sociedade, principalmente com relação
aos negros e judeus.
Atividade Complementar
Atividade Complementar

1. Qual a principal contestação teórica imposta pelos Annales à historiografia dita positivista?

2. Diante das discussões estabelecidas nesse tema, qual a principal diferença que você percebe na

historiografia brasileira após o advento da história social?

3. Com relação às fontes, cite as contribuições da história social para uma nova perspectiva em

suas análises.

4. Através de um novo pensar de abordagens e temáticas propostas pela história social no

4. Através de um novo pensar de abordagens e temáticas propostas pela história social no Brasil, o estudo da escravidão ganhou novos enfoques. Estabeleça as críticas postas pela historiografia brasileira atual quanto à idéia de coisificação do escravo.

5. Vimos, também, o destaque posto pela historiografia brasileira aos estudos da família escrava, sendo sua existência já é comprovada. Para você, o que mudou quanto a essa abordagem?

sua existência já é comprovada. Para você, o que mudou quanto a essa abordagem? Tópicos da
PRINCIPAIS TEMÁTICAS RELAÇÕES DE GÊNERO O Surgimento dos Estudos Acerca das Mulheres Por muito tempo,
PRINCIPAIS TEMÁTICAS RELAÇÕES DE GÊNERO O Surgimento dos Estudos Acerca das Mulheres Por muito tempo,

PRINCIPAIS TEMÁTICAS

RELAÇÕES DE GÊNERO

O Surgimento dos Estudos Acerca das Mulheres

Por muito tempo, a historiografia manteve uma certa exclusividade em seus estudos direcionada para um só sexo. Espaço marcado por paisagens onde os homens exerciam seu poder e seus conflitos, empurrando para fora desses limites os lugares femininos. Assim sendo, espaço comum de homens e mulheres, a família, acabou por tornar-se uma região particular. Sobre este solo de história, as mulheres, de forma precária, tornaram-se herdeiras de um presente sem passado, de um passado decomposto e confuso.

Desde a Antiguidade Clássica, os grandes filósofos pensavam nas diferenças entre os sexos. Atualmente, as mulheres continuam

a ser pensadas, só que agora fora do exclusivo campo filosófico,

invadindo o espaço das ciências sociais e humanas, a exemplo da sociologia, antropologia e história. Agora, a solução seria pensar a historicidade como ponto de partida para uma reflexão a partir do material histórico. Uma historicidade que, concretamente trabalhada, retomasse a noção de fato histórico e de conjuntura, de ruptura e de cronologia, para compreender a partir de que referências podemos entender a diferença e falar de história da mulher. Donde também a importância, nos últimos anos, de fazer história das mulheres, para a compreensão deste problema, que é a diferença dos sexos.

Assegurada na riqueza de representações sobre a diferença se- xual na história, convencida da insuficiência de uma reflexão sobre

as invariantes antropológicas, esta história é, consequentemente, pro- messa de diversidade tanto nos fatos quanto nas representações.

A história das mulheres apareceu como campo definível principalmente a partir de 1970, na cons-

tatação da negação e do esquecimento, atrelada à explosão do feminismo, articulada ao florescimento da antropologia e da história das mentalidades, bem como às novas modificações da história social e às pes- quisas sobre memória popular. Este foi um período fundamental, no qual as feministas fizeram a história da mulher antes mesmo dos historiadores. Apesar das inúmeras diferenças nos recursos utilizados pelos estudiosos da mulher, por sua representação e pela posição a ela concedida nas universidades, não parece haver dúvida de que a história das mulheres é uma prática estabelecida em muitos lugares do mundo.

A prática científica, por meio da pesquisa e da produção intelectual, somada a condições de vida

materialmente difíceis e hostis à implantação do projeto feminista, levaram às primeiras revisões sobre a

historiografia da mulher. Nos anos 80 e, depois, de uma farta produção, os historiadores se perguntavam em que os estudos sobre a mulher teriam modificado a história tradicional ou renovado seus métodos.

A verdade é que a história não tinha conseguido concretizar as necessárias rupturas a fim de realizar

uma redefinição e um alargamento de noções tradicionais na ciência histórica. Não se tinha conseguido

Pandora abrindo a caixa que contém os males do mundo, de acordo com a mitologia
Pandora abrindo a caixa que
contém os males do mundo, de
acordo com a mitologia grega.
revolucionar a ciência histórica de dentro para fora, regis- trando aí uma diferença sexual que

revolucionar a ciência histórica de dentro para fora, regis- trando aí uma diferença sexual que fosse além das funções

e papéis reunidos pelas sociedades masculinas. Constata-

va-se que, mesmo tendo revelado episódios inéditos do passado das mulheres, como as lutas feministas, a história das lésbicas ou o papel das mulheres no trabalho e no lar, estava-se condenando a fazer uma história paralela.

Duas razões eram apontadas para explicar os pro- blemas acumulados pela história das mulheres: a falta de reflexão sobre a especificidade do objeto e a aplicação de categorias de pensamento que não faziam parte da história das mulheres, mas da história dita tradicional. Ao lado de estudos sobre cozinha ou o clima, acumulavam-se biogra- fias de mulheres célebres e romances históricos.

Outra razão para as dificuldades em fazer uma his- tória das mulheres era a constatação do silêncio a que se era confrontado ao fazer uma interpretação das fontes. Não havia pistas. Tal situação teria levado os críticos dos

anos 80 a uma pergunta: “o que é a história quando se é mulher e de que maneira se participa, ou não, enquanto mulher, do processo histórico?” 1

Segundo Mary Del Priore, os historiadores estavam sensíveis ao fato de que a percepção do tempo nas mulheres não era a mesma dos homens; elas estavam eternamente encarregadas de perpetuar e man- ter a vida, enquanto eles tinham a escolha potencial de transmitir uma herança, defender ou estender o seu território familiar ou nacional. Era preciso admitir que a história das mulheres só começava quando

uma delas rompia com o círculo infernal da história masculina e de suas leis, para tornar-se fonte e maté- ria da dinâmica social. Era, também, preciso não esquecer que nos anos 70, o interesse pela história das mulheres manifestou-se como fruto de várias rupturas que as levou a buscar, no passado, uma explicação para a sua opressão e para a sua rebelião. Ao final dessa década, as historiadoras feministas admitiam que

a história das mulheres não podia reduzir-se nem a um combate por um estatuto igualitário nem a uma guerra de sexos, e que era difícil reconstituí-la na sua diversidade e complexidade.

No início dos anos 80, a história das vitórias desconhecidas ou das conhecidas humilhações das mulheres deixa de interessar um grande número de historiadores. Eles reconheciam que fora preciso tirar as mulheres do silêncio e do esquecimento, mostrando os incessantes episódios de suas lutas, as incansáveis formas de resistência com que se inscreviam na rede social e histórica, o seu abandono pela memória coletiva.

Contudo, teria que se mudar a abordagem. Tornava-se urgente abraçar o campo histórico como um todo, sem restringi-lo ao território feminino. Era preciso interrogar as fontes documentais cobre as mulheres de outra maneira. Também era necessário destrinchar a história de outra maneira, buscando nas atitudes e sensibilidades coletivas, nos fatos e práticas cotidianas, os espaços onde se abrigava a relação homem-mulher. Esta visão diferente obrigava, inicialmente, a identificar a mulher em cada lugar obser- vável, e eles não eram poucos. Era preciso nomeá-la, reconhece-la e compreender em que circunstâncias, nem sempre evidentes, ela foi despojada na sua relação oficial com o mundo masculino.

Diversas em sua condição social, etnia, raça, crenças religiosas, enfim, na sua trajetória marcada por inúmeras diferenças, cabe, portanto, abordar-se a história das mulheres. As grandes modificações da

Imagem que ainda hoje perdura: o papel da mu- lher que se limita aos cuidados
Imagem que ainda hoje perdura: o papel da mu-
lher que se limita aos cuidados domiciliares.

1 PRIORE, Mary Del. “História das mulheres: as vozes do silêncio”. IN: FREITAS, Marcos Cezar de. Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo:

Contexto, 1998, p. 224.

história nas últimas décadas, abordando temáticas e grupos sociais até então excluídos de sua análise, con- tribui para o desenvolvimento de estudos sobre as mulheres. Nesse aspecto, é fundamental o avanço as- sumido pela história cultural, preocupada com as identidades coletivas de uma ampla variedade de grupos sociais: os operários, camponeses, escravos, as pessoas comuns. Pluralizam-se os objetos da investigação histórica, e, dessa forma, as mulheres são elevadas à condição de objeto e sujeito da história.

A história positivista, a partir de fins do século XIX, provoca um recuo nessa temática, em função

de seu exclusivo interesse pela história política e pelo domínio público. Privilegiam-se as fontes adminis- trativas, diplomáticas e militares, nas quais as mulheres pouco aparecem.

A Escola dos Annales, por sua vez, busca afastar a historiografia de idealidades abstratas, preferin-

do voltar-se para a história de seres vivos, concretos, e de acordo com seu cotidiano, em vez de se prender

a uma racionalidade universal. Embora as mulheres não fossem logo incorporadas à historiografia pelos

Annales, estes, porém, contribuem para que isto se concretize num futuro próximo. O marxismo consi- dera a problemática que divide homens e mulheres uma contradição secundária, que encontrará resolução com o fim da contradição principal: a instauração da sociedade sem classes com a mudança do modo de produção. Não se justifica, portanto, uma atenção especial do historiador para a questão feminina. A partir da década de 1960, correntes revisionistas marxistas engajadas no movimento da história social, apresentam uma postura diversa ao assumirem como objeto de estudo os grupos ultrapassados pela his- tória, as massas populares sem um nível significativo de organização, e, também, as mulheres do povo.

O desenvolvimento de novos campos como a história das mentalidades e a história cultural reforça

o avanço na abordagem do feminino. Apóiam-se em outras disciplinas, a exemplo da literatura e antropo-

logia, com o objetivo de elucidar as diversas dimensões desse objeto. Assim, a interdisciplinaridade, uma prática enfatizada nos últimos tempos pelos profissionais de história, assume importância crescente nos estudos sobre as mulheres.

A onda do movimento feminista, ocorrida a partir dos anos 60, contribuiu, ainda mais, para o

surgimento da história das mulheres. Nos Estados Unidos, onde se desencadeou o referido movimento, bem como em outras partes do mundo nas quais este se apresentou, as reivindicações das mulheres pro- vocaram uma forte demanda de informações. Ao mesmo tempo, docentes mobilizaram-se, propondo a instauração de cursos nas universidades dedicados ao estudo das mulheres. Multiplicaram-se as pesquisas, tornando-se a história das mulheres em campo relativamente reconhecido em nível institucional.

Estes estudos estenderam-se, ainda nos anos 70, a outras partes da Europa e do mundo, incluindo

o Brasil. Este reconhecimento, no entanto, ainda é frágil, não se podendo afirmar que as relações entre os sexos sejam vistas como uma questão fundamental da história.

sejam vistas como uma questão fundamental da história. Estudos sobre a Mulher: questões teórico-metodológicas O

Estudos sobre a Mulher: questões teórico-metodológicas

O nascimento da história das mulheres como um campo de estudo não só acompanhou as campanhas feministas para a melhoria das condições profissionais, como envolveu a expansão dos limites da história. Os historiadores sociais conceituaram as mulheres como uma categoria homogênea: eram pessoas biologicamente femininas que se moviam em contextos e papéis diferen- tes, mas cuja essência, enquanto mulher, não se modifi- cava. Essa leitura contribuiu para o discurso da identi- dade coletiva que favoreceu o movimento das mulheres

Representação do movimento feminista.
Representação do movimento feminista.

na década de 1970. Confirmou-se o antagonismo entre homem e mulher, que favoreceu uma mobi- lização política importante e difundida.

Contudo, no final da década, percebe-se

a intensificação de tensões no interior da disci-

plina e no movimento político. Tais tensões te- riam se combinado para questionar a viabilidade da categoria das “mulheres” e para introduzir a diferença como um problema a se analisado. A

fragmentação de uma idéia universal de “mulhe- res” por classe, etnia e sexualidade associava-se

a diferenças políticas sérias no interior do movi-

mento feminista. Assim, de uma postura inicial em que se acreditava na possível identidade úni- ca entre as mulheres, passou-se a uma outra em que se firmou a certeza na existência de múltiplas identidades.

Scott afirma que o enfoque na diferen- ça desfez a contradição evidente da história das mulheres com os pressupostos da corrente his- toriográfica direcionada para um sujeito huma- no universal. Assim, as especificidades reveladas pelo estudo histórico desses segmentos demons- travam que o sujeito da história não era uma fi- gura universal. 2 Dessa forma, os estudos sobre as mulheres dão lugar à queda daqueles pressupos- tos que orientavam as ciências humanas no pas- sado. Também deve ser ressaltado o predomínio de imagens que atribuíam às mulheres os papéis de vítima ou de rebelde.

Até a década de 1970, muito se discutiu acerca da passividade da mulher, frente à sua opressão, ou da sua reação apenas como respos- ta às restrições de uma sociedade patriarcal. Em oposição a tal ênfase, centrada numa visão da mu- lher humilhada, violentada e abandonada, emerge

a mulher rebelde. Viva e ativa, sempre traman-

do, imaginando diversas formas para embaçar as

proibições, a fim de atingir seus objetivos.

Surge, dessa forma, a importância de en- foques que permitam superar a dicotomia entre vitimização ou os sucessos femininos, buscando- se visualizar toda a complexidade de sua atuação. Assim, torna-se fundamental uma ampliação das concepções habituais de poder. Hoje, é pratica- mente consensual a recomendação de uma revi- são dos recursos metodológicos e ampliação dos

2 SCOTT, Joan. “História das mulheres”. IN: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992.

da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992. campos de investigação histórica, através do tra-

campos de investigação histórica, através do tra- tamento das esferas em que há maior evidência

da participação feminina, abrangendo as diversas

extensões da sua experiência. Tais recomendações convergem para a necessidade de se focalizar as relações entre os sexos e a categoria de gênero.

Quanto às fontes, a escassez de vestígios acerca do passado das mulheres, produzidos por elas próprias, constitui-se num dos grandes pro- blemas enfrentados pelos historiadores. Muitos documentos encontram-se fragmentados e na maior parte das vezes encontram-se vozes mas-

culinas, vozes estas que no passado raramente se- paravam o mundo do homem daquele da mulher.

A informação documental disponível é pouca,

para os primeiros séculos da colonização (refiro- me à história do Brasil), tornando-se mais nume- rosa a produção de fontes impressas a partir da segunda metade do século XIX até os dias atuais. Em contrapartida, encontram-se mais facilmente representações sobre a mulher que tenham por base discursos masculinos determinando quem são as mulheres e o que devem fazer. Daí a maior

evidência na realização de análise visando a cap-

tar o imaginário sobre as mulheres, as normas que

lhes são prescritas e até a apreensão de cenas do seu cotidiano, embora à luz da visão masculina. Nos arquivos públicos sua presença é reduzida. Destinadas à esfera privada, as mulheres, por um bom tempo, estiveram ausentes das atividades consideradas dignas de serem registradas para o conhecimento das próximas gerações. Fala-se das mulheres, sobretudo, quando perturbam a or- dem pública, destacando-se, nesse caso, os docu- mentos policiais, aliados aos processos criminais. Constituem-se numa fonte privilegiada de acesso

ao universo feminino dos segmentos populares,

inclusive através dos seus próprios depoimentos, além dos jornais.

Contudo, os arquivos privados são mais ge- nerosos. As cartas, os diários íntimos, são exem- plos de outros registros femininos, que, quando encontrados, são da maior importância para o historiador. O alto índice de destruição dessa do- cumentação é desalentador.

Muito comuns são os objetos por elas dei- xados, a exemplo das jóias, caixas e fotografias, fruto do encargo que lhes foi atribuído de trans- mitir a história da família. Atualmente, busca-se

com esse material constituir uma arqueologia fe- minina da vida cotidiana. Deve-se ressaltar tam- bém a história oral (que veremos no tema 3 do bloco 2) como um instrumento dos mais adequa- dos para registrar a memória feminina, na medida em que o acesso feminino à escrita não se deu no mesmo ritmo dos homens.

Outro problema é que faltam historiadores, tanto homens como mulheres, que interpretem com maior freqüência o estabelecimento, a gêne- se e a importância dos fatos históricos que envol- vem as mulheres, como falta um maior número de pesquisas regionais ou sínteses, que permitem resgatá-las de regiões do país onde o tema ainda não despertou vocações.

As dificuldades de penetrar no passado fe-

minino tem levado muitos historiadores a utili- zarem de sua criatividade, na busca de pistas que lhes permitam transpor o silêncio e a invisibili- dade que perdurou por tão longo período nesse terreno. Assim, tomando conhecimento da reno- vação teórica dos estudos históricos, refinaram- se os métodos, as técnicas, desenvolvendo-se a inventividade com relação às fontes, o que tem possibilitado maior intimidade com aqueles seg- mentos e a ampliação dos horizontes da história.

É indispensável perceber que a função da história das mulheres deve ser a de enfocá-las

através da submissão, da negociação, das tensões

e das contradições que se estabeleceram, em dife-

rentes épocas, entre elas e seu tempo; entre elas e

a sociedade nas quais estavam inseridas. Trata-se

de desvendar as intricadas relações entre a mu- lher, a sociedade e o fato, mostrando como o ser social que ela é articula-se com o fato social que

ela mesma fabrica e do qual faz parte integrante. Trata-se, igualmente, de um desafio no sentido de fazer uma história total da mulher, na qual se contemplem as grandes evoluções, profundas e silenciosas, dos comportamentos, aquelas, dos sentimentos religiosos ou das mentalidades, as demográficas e as técnicas. Uma história da qual não estejam ausentes os pequenos gestos, as prá- ticas miúdas e repetitivas do cotidiano, as furti- vas formas de consentimento e interiorização das pressões, simbólicas ou concretas, exercidas con- tra as mulheres.

O fato de ainda haver silêncios e por ser

uma história que ainda está por ser feita, e conta-

da, é que a história da mulher é tão necessária. Se há, ainda, tantas questões e perguntas é porque esta história se abre para novas histórias e para novas maneiras de fazer a história da mulher e das mulheres.

maneiras de fazer a história da mulher e das mulheres. Uma Questão de Gênero Gênero tem

Uma Questão de Gênero

Gênero tem sido, desde a década de 1970,

o termo utilizado para teorizar a questão da di-

ferença sexual. Foi, inicialmente, utilizado pelas feministas americanas que queriam insistir no caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indica uma oposição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como “sexo” ou “diferença social”. O gê- nero se torna, inclusive, uma maneira de indicar

as construções sociais, ou seja, os papéis próprios dos homens e das mulheres. O gênero sublinha também o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, o que quer dizer que, nenhuma com- preensão e qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere totalmen- te em separado. Cabe ressaltar que esse termo foi proposto por aqueles que defendiam que a pesquisa sobre as mulheres transformaria funda-

mentalmente os paradigmas da história: acrescen-

ta não só novos temas, como também iria impor

uma reavaliação crítica das premissas e critérios do trabalho científico existente. Tal metodologia implicaria não apenas uma nova história das mu- lheres, mas uma nova história 3 .

A forma como esta “nova história” iria

incluir e apresentar a experiência das mulheres

dependeria da maneira como o gênero poderia ser desenvolvido como uma categoria de análise.

Tornam-se explícitas as preocupações de articular

o gênero com a classe e a etnia. O interesse por

estas categorias assinala não apenas o compro- misso do historiador com uma história que in- cluía a fala dos oprimidos, mas também que esses pesquisadores considerem que as desigualdades de poder se organizam, no mínimo, conforme es- tes três eixos.

O interesse pelo conceito de “gênero”

cresceu a partir de uma discussão feia por Joan

3 SOIHET, Rachel. “História das mulheres”. IN: CARDOSO, Ciro Flamarion. Domínios da história: Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

Kelly a respeito das “relações sociais entre os sexos” 4 , na qual a autora

Kelly a respeito das “relações sociais entre os sexos” 4 , na qual a autora expressa a necessidade de encarar o sexo como uma categoria indispensável para a análise social das relações entre os sexos referidas às mudanças históricas.

No Brasil, esta questão ainda está sendo discutida entre os historiadores. Não podemos afirmar que aqui já exista uma tendência definida sobre o assunto. Na sua grande maioria, os historiadores continuam preocupados com as mulheres, nas suas relações com os homens, no interior de recortes temáticos. A imprecisão conceitual e o desconhecimento de uma compreensão homogênea sobre o que seja “gênero” conduzem, muitas vezes, a equívocos como a utilização desta variável em tabelas sobre sexo.

De acordo com Gianna Pomata 5 , a história do gênero compreendida como história da construção social, através de discursos e práticas, de categorias do masculino e do feminino é legítima e representa um território útil à pesquisa histórica. Mas não se pode confundi-la com a história das mulheres nem, muito menos, obliterar a necessidade de uma história social das mulheres. A tarefa da história das mulhe- res, segundo Gianna, não é a desconstrução dos discursos masculinos sobre as mulheres, mas sim, a ul- trapassagem da pobreza dos fatos que tornou a vida dessas atoras sociais tão descarnada. É preciso fazer uma história erudita, baseada num máximo de informações, guiada por um fio que conduza, através da realidade concreta, ao fato material e social, história capaz de criar um caminho que ajude a compreender qual o efeito prático desse grande número de discursos sobre a vida da mulher ou quais são as relações entre discursos e práticas.

Um aspecto interessante que se observa nos estudos sobre gênero reside na rejeição ao caráter permanente da oposição entre masculino e feminino que, por muito tempo, esteve presente no discur- so feminino. Dessa forma, o que se propõe é uma desconstrução desses parâmetros, revertendo-se e deslocando-se a construção hierárquica, em lugar de aceitá-la como evidente ou como sendo uma coisa natural.

Dentre os historiadores que chamam a atenção para a necessidade de se ultrapassar os usos descri- tivos do gênero, buscando-se a utilização de formulações teóricas, destaca-se a já citada Joan Scott, que teve uma série de considerações a respeito. Argumenta que, no seu uso descritivo, o gênero é, apenas, um conceito associado ao estudo das coisas relativas às mulheres, mas não tem a força de análise suficiente para interrogar e mudar os paradigmas históricos existentes. Já Maria Odila da Silva Dias discorda da necessidade da construção imediata de uma teoria feminista, pois, a seu ver, mais cabe ao pensamento feminista destruir parâmetros herdados, do que construir marcos teóricos muito nítidos. Assim, para melhor integrar a experiência das mulheres em sociedade sugere partir de conceitos provisórios e assu- mir abordagens teóricas parciais, pois, segundo a autora, o saber teórico implica também um sistema de dominação 6 .

Texto Complementar O texto abaixo foi artigo publicado da revista Histó- ria Viva, edição especial
Texto Complementar
O texto abaixo foi artigo publicado da revista Histó-
ria Viva, edição especial temática nº 3: Temas brasileiros:
presença negra. É uma análise de Sueli Carneiro a respei-
to das diferenças de vivências entre as mulheres brancas
e negras no Brasil escravista, seguido de uma escrita do
cotidiano de Tia Ciata, mulher negra nascida em Salvador,
respeitada por seus conhecimentos religiosos.
Escrava Mina, cerca de 1885.

4 KELLY, Joa n. The social relations of the sexes. N. 4, 1976, p. 809-823.

5 POMATA, Gianna. Historia: empirism and erudition. Mit Press, 2005.

6 SILVA, Maria Odila Dias. “Teoria e método dos estudos feministas. Perspectiva histórica e hermenêutica do cotidiano”. IN: Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos, 1992. p. 51.

ESTRELAS COM LUZ PRÓPRIA Por Sueli Carneiro 1 ) ( O cruzamento de patriarcalismo, escravidão
ESTRELAS COM LUZ PRÓPRIA
Por Sueli Carneiro 1
) (
O cruzamento de patriarcalismo, escravidão e racismo determinou trajetó-
rias diferenciadas para mulheres brancas e negras no Brasil. E o primeiro demarcador
dessa diferença foi a relação das mulheres com o trabalho – livre para umas, escravo
para outras. Mesmo considerando as condições provavelmente adversas das mulheres
brancas das classes subalternizadas, elas eram, em primeiro lugar, mulheres livres em
uma ordem social em que havia mulheres escravas.
Ao contrário das mulheres brancas, “a mulher negra está presente em pratica-
mente todos os tipos de trabalho descritos pelos viajantes: na mineração, na agricultu-
ra, no trabalho doméstico, na manufatura e no comércio. Isso demonstra o seu grau de
importância enquanto trabalhadora, desde o período colonial. Ela foi a primeira e, por
muito tempo, a única trabalhadora”. (Mirian Moreira Leite, A condição feminina no
Rio de Janeiro – século XIX. Hucitec/Instituto Nacional do livro, 1984) ( )
As formas decorrentes do trabalho embrutecedor, da degradação da sexualidade
e da marginalização social repercutem até os dias de hoje no imaginário social, promo-
vendo a desvalorização estética das mulheres negras e supervalorização das brancas.
( )
Os usos e abusos perpretados sobre o corpo das escravas determinaram radical
diferença na construção da identidade feminina negra quando comparada à branca.
As mulheres negras viram-se expostas a toda sorte de exploração e degradação, sem a
proteção do homem negro, imponente devido à sua condição de escravo, ao passo que,
no mesmo período, as mulheres brancas viveram confinadas no espaço doméstico,
submetidas à tutela patriarcal. Em face dessa posição diferenciada, produziu-se uma
mulher que, a todo custo, teve de aprender a contar consigo mesma para cuidar de si e
de sua família. E o abandono social a que foram submetidas as mulheres negras gestou,
além de humilhação social, um tipo de “independência” e de “autonomia” que seria a
base do “matriarcado da miséria”, como sinteticamente temos nomeado a experiência
histórica das mulheres negras na sociedade brasileira. ( )
Tia Ciata
Tia Ciata fez de seu nome um marco na resistência cultural dos negros à cultura
hegemônica. Construiu espaços dos quais emergiram nomes que se tornaram refe-
rências na história da música popular brasileira. “Ciata, Hilária Batista de Almeida
(1854-1924), filha de Oxum, nasceu em Salvador, sendo iniciada no santo na casa de
Bambochê, da nação Ketu. Aos 22 anos, trazendo consigo uma filha, mudou-se para
o Rio de Janeiro, formando nova família. Continuou os preceitos do santo na casa de
João Alabá, tornando-se Mãe-pequena. Respeitada pelos seus conhecimentos na reli-
gião, não deixava de comemorar em sua casa as festas dos orixás, quando, depois da
1 Sueli Carneiro também é autora do capítulo “O papel do movimento feminista na luta anti-racista”, publicado no livro
História do negro no Brasil, organizado por Kabengele Munanga (Fundação Cultural Palmares/MinC, 2004).
cerimônia, armava pagode. As festas duravam três dias. Na sala, no baile, os mais velhos
cerimônia, armava pagode. As festas duravam três dias. Na sala, no baile, os mais velhos
cerimônia, armava pagode. As festas duravam três dias. Na sala, no baile, os mais
velhos tocavam samba do partido alto, e Ciata, partideira, cantava com autoridade.
No terreiro, havia samba raiado e, às vezes, roda de samba para os mais moços.
Doceira de mão cheia – tinha tabuleiro no centro da cidade -, conhecia também a
cozinha dos orixás. Punha barraca de comida na festa da Penha, ao redor da qual
formavam roda-de-samba. Dela participavam Heitor dos Prazeres, Donga, Sinhô e
Pixinguinha, alguns deles ainda ilustres desconhecidos. Ciata também alugava rou-
pas de baianas para teatros e carnaval. Sua casa tornou-se, então, a capital da Peque-
na África. Era um dos pontos principais dos cortejos de carnaval, onde os ranchos
passavam e reverenciavam a velha baiana. Sua família saía no rancho Rosa Branca,
no Recreio das Flores, no qual sua neta Lili foi porta-estandarte. Ciata morreu em
1924. A única foto localizada até agora desapareceu na mão de um jornalista. ( )
até agora desapareceu na mão de um jornalista. ( ) A História da Mulher no Brasil

A História da Mulher no Brasil

Os estudos sobre a mulher têm tido dificuldade em encontrar um lugar nas universidades brasi- leiras, sendo vistos ora como expressão de um problema feminista, ou como simples curiosidade. Os periódicos sobre o assunto são poucos e circulam em ambientes fechados, atendendo a um número de leitores muito restrito. Livros sobre história da mulher são raramente reeditados, o que pode significar que sua recepção, mesmo sendo elogiada pela crítica acadêmica, não é abrangente. As teses defendidas sobre as questões que envolvem a mulher, incidem mais sobre a história da família, do casamento ou da sexualidade do que sobre a mulher. Portanto, houve uma recepção morna e irregular do objeto e dos trabalhos realizados em torno do mesmo, no Brasil.

O interesse que a história da mulher recebeu no Brasil teve um primeiro reflexo ao final dos anos

70. O que se percebe com o desenvolvimento da história das mulheres no Brasil é uma revolução do- cumental, pela redescoberta da pesquisa em arquivos, por temas no seio dos quais, descortinavam-se as mulheres, sobretudo a família ou a demografia. Surgiram em artigos, teses ou livros, as história das con- cubinas, das prostitutas, das escravas rebeldes, das freiras, das lésbicas, das defloradas, das “mal faladas”, das pecadoras, das pobres, das escritoras feministas 7 . Também se procurava compreender a perseguição movida por algumas instituições de poder masculinas, a exemplo da polícia, contra essas que eram apre- sentadas como aptas de uma surpreendente capacidade de criar.

Uma característica interessante no Brasil é que, diferentemente da Europa e Estados Unidos, a história das mulheres é feita por mulheres, mas também, por homens. Homens que estudam as mulheres dentro de suas especialidades mas que, como qualquer historiadora, têm habilidade para revelar os com- portamentos da vida diária, as formas de violência das quais elas são vítimas ou os sutis mecanismos de defesa de que lançam mão 8 .

A exploração de fontes documentais e arquivos, que até então não suscitavam maior interesse, foi

fundamental para o desabrochar de uma história da mulher no Brasil. As mulheres são encontradas “nas margens” junto com os outros grupos como os escravos, os índios, os judeus, homossexuais. Essas vidas cotidianas, absolutamente ordinárias, capturadas nos arquivos de polícia ou eclesiástico permitem, de

7 Dentre algumas obras estão: MOTT, Luis. O lesbianismo no Brasil. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1987; ABREU, Marta. Meninas perdidas: o cotidia- no do amor na Belle Époque. Rio de Janeiro, José Olympio, Brasília, EDUNB, 1993; PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas, mulheres faladas: uma questão de classe. Florianópolis, EDUSFC, 1994; ALMEIDA, Ângela Mendes de. O gosto do pecado. Rio de Janeiro, Rocco, 1992.

8 Um grande exemplo é o já citado Luis Mott.

fato, ouvir as vozes femininas. Contudo, é preciso se ater para o fato de que essas mulheres são ouvidas

luz dos constrangimentos impostos pelas práticas de poder que orientam o interrogatório. A partir de restos de discurso, de fragmentos de vidas é que o histo- riador consegue, então, perceber as formas de racionalidade que modelavam as práticas e as atividades, as relações sociais, as relações entre mulheres e homens.

à

sociais, as relações entre mulheres e homens. à Para além destes documentos, a história da mulher

Para além destes documentos, a história da mulher beneficiou-se enormemente das fontes literárias impressas:

romances, biografias, jornais e revistas abriram um vasto ter- ritório de pesquisas permitindo explorar vários aspectos da vida social e do imaginário através do qual as mulheres inva- diam os sonhos masculinos.

do qual as mulheres inva- diam os sonhos masculinos. HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL O Regional e

HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL

O Regional e Local para o Estudo Historiográfico

Quando um historiador se propõe a trabalhar dentro do âmbito da história regional, ele mostra-se interessado em estudar diretamente uma região específica. O espaço regional, é importante destacar, não estará necessariamente associado a um recorte administrativo ou geográfico, podendo se referir a um recorte antropológico, a um recorte cultural ou a qualquer outro recorte proposto pelo historiador de acordo com o problema histórico que ele irá examinar. Mas, de qualquer modo, o interesse central do his- toriador regional é estudar especificamente este espaço, ou as relações sociais que se estabelecem dentro deste espaço, mesmo que eventualmente pretenda compará-lo com outros espaços similares ou examinar em algum momento de sua pesquisa a inserção do espaço regional em um universo maior.

Devemos ressaltar que a história do Brasil não deve ser o somatório das histórias regionais, entre- tanto, os estudos históricos locais e regionais indicam variáveis mais relevantes para a compreensão do processo de formação e desenvolvimento do Estado Nacional, enquanto sistema global de relações. Este método de pesquisa oferece elementos essenciais para a história comparada que permite a construção e revisão de teorias e aponta para a complexidade de focos de articulação da ação coletiva, não alcançada pelas metodologias fundamentadas em estratificações sociais ou segmentações da economia.

Certamente, a multiplicação de histórias de comunidades – que estudem a inserção do homem no meio físico, articulações sociais, estruturas produtivas, circuitos comerciais, geografia dos poderes, ma- nifestações culturais – possibilitará análises mais abrangentes e aprofundadas do conjunto multifacetário da história nacional.

A história regional e local focaliza os pequenos mundos, alcançando viveres e saberes populares,

em dimensões inatingíveis pelas macro-abordagens, permitindo ao historiador analisar articulações coti- dianas nos níveis social, econômico, político e cultural de determinado grupo social e suas circunstâncias ambientais e temporais, chegando às relações familiares e pessoais.

A pesquisa regional e local prioriza a documentação municipal, eclesiástica, cartorial, particulares

e reconstitui parcelas significativas do cotidiano comunitário a partir de informações particulares (sobre fontes, vimos no tema 1 deste bloco) individuais e das relações de vizinhança e parentesco, chegando às

suas articulações interregionais e inetenacionais. Dessa forma, a história regional e local surge, precisamente, como a possibilidade de oferecer uma iluminação em detalhe de grandes ques- tões econômicas, políticas, sociais e culturais que até então haviam sido examinadas a nível mais generalizado.

Em seu artigo clássico sobre a “história local”, Pierre Goubert 9 chama a atenção para o fato de que a emergência da história local, nos anos 1950, havia sido motivada precisamente por uma combinação entre o interesse em es- tudar uma maior amplitude social e alguns mé- todos que permitiriam este estudo para regiões mais localizadas. Ao trabalhar em suas pequenas

localidades, os historiadores poderiam, dessa ma- neira, fixar sua atenção numa região geográfica particular, cujos registros estivessem bem reuni- dos. A coincidência entre a região examinada e

a unidade administrativa tradicional, como uma

paróquia, arquivo municipal ou Fórum, permitia que o historiador resolvesse todas as suas carên- cias de fontes em um único arquivo, ali mesmo encontrando e constituindo a série a partir da

qual poderia extrair os dados sobre a população e

a comunidade examinada.

Nos estudos de história regional e local, é necessário atentar-se para alguns cuidados. A de- limitação de uma região a ser estudada pelo his- toriador não coincide necessariamente com um recorte administrativo ou estatal: pode ser defi- nida por implicações culturais, antropológicas, econômicas, ou outras. Um grupo humano a ser examinado não estará necessariamente enquadra- do dentro dos parâmetros de um Estado-Nação.

Diante dessas questões, surgem algumas dúvidas: A região corresponde a um espaço ho- mogêneo ou a uma superposição de espaços di- versos? Existe um fator principal que orienta o recorte estabelecido pela pesquisa? Está se to- mando a região como uma área humana que ela- bora determinadas identidades culturais, que pos- sui uma feição demográfica própria, que produz um certo tipo de relações sociais, que organiza a partir de si determinado sistema econômico? São questões a serem pensadas antes de uma análise do regional e local.

9 GOUBERT, Pierre. “História local”. IN: Histórias & perspectivas. Uberlânida. Jan/Jun, 1992. P. 49.

& perspectivas. Uberlânida. Jan/Jun, 1992. P. 49. O historiador também deve dedicar uma atenção especial

O historiador também deve dedicar uma atenção especial aos critérios políticos e sociais. Uma região pode ser delineada como um espaço onde se reproduzem certos padrões de conflitos sociais, ou como um espaço onde se desenrola determinado movimento social. Aqui, a região construída pelo historiador deve deixar de ser um dado externo da sociedade, fazendo parte do pro- cesso político e social como um todo.

Além disso, devemos entender que o exer- cício da história regional e local vincula-se a pro- cessos de identificação, relacionados a um deter- minado sistema cultural que enfatiza as relações de vizinhança, contigüidade territorial, proximi- dade espacial. A história regional e local não deve ser projetada como um valor superior para a va- lorização e admiração da “pequena pátria”, mas como a costura de um “retalho” dos processos de identificação do sujeito.

Enganam-se aqueles que julgam que a

eleição de uma região ou local, sob a perspecti-

va historiográfica, implica uma simplificação do

número de variantes e aspectos da trama social.

O

regional e local alçados em categorias centrais

de

análise, podem vir a constituir uma nova den-

sidade no quadro das interdependências entre agentes e fatores constitutivos de determinadas experiências históricas então eleitas pelo historia- dor. Nessa nova visão, cada aparente detalhe, in- significante para um olhar apressado ou na busca exclusiva dos grandes contornos, adquire valor e novo significado na rede de relações plurais de seus múltiplos elementos constitutivos.

Outro equívoco seria conceituar o regional e local em oposição com o nacional. A história regional e local não se opõe à história nacional, muito pelo contrário. Ao eleger o regional e lo- cal como circunscrição de análise, como esca-

la própria de observação, não abandonamos as

margens, os constrangimentos e as normas que ultrapassam o espaço local. A escrita dessa histó-

ria costura ambientes intelectuais, ações políticas, processos econômicos que envolvem comunida- des regionais, nacionais e globais. Sendo assim o exercício historiográfico incide na descrição dos mecanismos de apropriação – adaptação, respos-

ta e criação – às normas que ultrapassam as co- munidades locais.

Enfim, consideramos a abordagem sob o recorte do regional e local um campo privilegiado de in- vestigação para os diversos níveis em que se trançam e constituem as relações de poder entre indivíduos, grupos e instituições. Campo privilegiado para a análise dos imbricados processos de sedimentação das identidades sociais, em particular dos sentimentos de pertencimento e dos vínculos afetivos que agregam os homens, mulheres e crianças na partilha de valores comuns, no gosto de se sentir ligado a um grupo.

de valores comuns, no gosto de se sentir ligado a um grupo. A Micro-história: Aspectos Fundamentais

A Micro-história: Aspectos Fundamentais

A micro-história não se relaciona, necessariamente, ao estudo de um espaço físico reduzido, em-

bora isto possa até ocorrer. O que a micro-história pretende é uma redução na escala de observação do historiador com o intuito de se perceber aspectos que de outro modo passariam desapercebidos. Quando um micro-historiador estuda uma pequena comunidade, ele não estuda propriamente a pequena comu- nidade, mas estuda através da pequena comunidade. A comunidade examinada pela micro-história pode aparecer, por exemplo, como um meio para atingir a compreensão de aspectos específicos relativos a uma sociedade mais ampla.

O objeto de estudo do micro-historiador não precisa ser o espaço micro-recortado. Pode ser uma

prática social específica, a trajetória de determinados atores sociais, um núcleo de representações, uma ocorrência ou qualquer outro aspecto que o historiador considere revelador em relação aos problemas sociais ou culturais que se dispôs a examinar.

Assim como a micro-história não deve ser confundida com a história regional e local ao examinar, eventualmente, um espaço micro-recortado, também não deve ser confundida com o chamado “estudo de caso” ao estudar uma prática social ou uma ocorrência.

Enfim, o olhar micro-historiográfico faz parte de um conjunto de práticas que se referem ao cam- po das abordagens e que se relaciona tanto ao campo de observação que o historiador escolhe, como às fontes que examina e ao tipo de análise que empreende a partir dessas fontes. Vale lembrar, ainda, que um mesmo historiador poderá usar a prática micro-historigráfica e a reflexão macro-historiográfica em um único trabalho, se a natureza do seu problema permitir. É um trabalho difícil, mas possível, que já se encontra representado por diversas obras historiográficas.

A
A

HISTÓRIA POLÍTICA E ECONÔMICA

História Política “Tradicional”

Uma das dimensões complexas da história é a da História Política, que abre eventualmente cam- pos antagônicos dentro de si. O que nos leva a classificar um trabalho historiográfico dentro da história política é naturalmente o enfoque no “poder”. Pode-se privilegiar desde o estudo do poder estatal até o estudo dos micropoderes que aparecem na vida cotidiana.

Assim, enquanto a história política do século XIX mostrava uma preocupação praticamente ex- clusiva com a política dos grandes Estados (conduzida ou interferida pelos “grandes homens”), a nova história política que começa a se consolidar a partir dos anos 1980 passa a se interessar também pelo “poder” nas suas outras modalidades (que incluem também micropoderes presentes na vida cotidiana, o uso político dos sistemas de representações, e assim por diante).

A promoção do Estado à condição de objeto por excelência da produção histórica significou a

A promoção do Estado à condição de objeto por excelência da produção histórica significou a

hegemonia da história política. Daí porque, no século XIX, poder é sem- pre poder do Estado – instituições, aparelhos, dirigentes; os “acon-

tecimentos” são sempre eventos políticos, pois são estes os temas nobres e dignos da atenção dos historiadores.

Portanto, a historiografia dita positivista instituiu, a partir de seus pressupostos cientistas, um tipo de discurso histórico próprio e destinado a demonstrar, através de marcas específicas, as suas diferenças em face do discurso literário. Tratava-se de distinguir a verdade histórica da ficção literária a partir da separação entre dois tipos de fatos – os verdadeiros, que podem ser comprovados, e os falsos, de comprovação impossível. Logo, a história política é ciên- cia e não arte, consistindo a tarefa do historiador não em evocar ou reviver o passado, como desejavam os românticos, mas sim em narrar e descrever os acontecimentos desse passado tal como eles realmente se passaram.

D. Pedro II
D. Pedro II

A partir de 1929, é possível dizer que começou de fato o declínio da história política. Cada vez

essa história será conhecida como tradicional. Todavia, não exageremos muito as coisas a partir da nossa própria visão retrospectiva. Na verdade, de 1929 aos anos pós-45, a história política, cada vez mais tra- dicional, precisa ser encarada em termos de duas trajetórias paralelas e bem distintas: a trajetória de seu processo e condenação pelos Annales e a outra, da sua sobrevivência e lenta recuperação.

Em 1929, quando da publicação do primeiro número dos Annales, sob a direção de Marc Bloch e Lucien Febvre, existiam dois adversários principais a enfrentar: uma certa concepção acerca da natureza do conhecimento histórico e o primado da história política no campo da historiografia. Quanto ao pri- meiro, os Annales propuseram a ampliação do domínio historiográfico, ou seja, a história como estudo do homem no tempo, ou a totalidade social em última análise, com a conseqüente redefinição de con- ceitos fundamentais como documento, fato histórico e tempo. Com relação à história política tradicio- nal, as críticas foram incisivas e definitivas, afirmando que esta tem má reputação entre os historiadores franceses.

Para além disto, a nova história política passou a abrir um espaço correspondente para uma nova história “vista de baixo”, ora preocupada com as grandes massas anônimas, ora preocupada com o “indi- víduo comum”, e que por isto mesmo pode se mostrar como o portador de indícios que dizem respeito ao social mais amplo. Assim, mesmo quando a nova história política toma para seu objeto um indivíduo, não visa mais a excepcionalidade das grandes figuras que os historiadores positivistas acreditavam ser os grandes e únicos condutores da história. As acusações dos Annales sobre a história política produziu efeitos até, no mínimo, o início da década de 1970.

Porém, a condenação da história política não levou à exclusão do político e, sobretudo, do poder, das preocupações dos historiadores, principalmente Bloch, Lefebvre e Duby.

dos historiadores, principalmente Bloch, Lefebvre e Duby. A “Nova” História Política Podemos localizar no

A “Nova” História Política

Podemos localizar no período de 1945 a 1970 a crise final da história política tradicional e, no pe- ríodo seguinte, a progressiva constituição da “nova” história política.

A partir de 1945, a história política tradicional foi alvo predileto de diversas correntes teórico-

metodológicas: Annales, marxismo, etc. No entanto, é necessário não esquecer duas coisas: as novas perspectivas abertas ao estudo histórico da política e do poder e o caráter relativo do declínio da história política tradicional.

Portanto, a “Nova história”, tal como foi consagrada nos anos 70, relegou a história polí- tica a um lugar absolutamente secundário. Com efeito, se a “primeira geração” dos Annales ha- via estigmatizado a história política como sinô- nimo de história factual, a “segunda geração”, a de Braudel, relegou os fatos políticos ao “tempo curto”.

Já a perspectiva marxista do político em ge- ral e da história política, em particular, foi sempre, desde Marx e Engels, oposta aos pressupostos e características da história política tradicional. As bases teóricas de tal oposição são bem conhe- cidas, bastando mencionar que a visão marxista foi decisiva, ainda no século XIX, ao denunciar os três ídolos principais daquela história política:

uma noção de político/política desvinculada da totalidade do processo histórico e presa fácil da ideologia; o caráter voluntarista de uma história baseada em idéias e ações de alguns poucos agen- tes históricos individuais; um discurso histórico- narrativo, cronológico e linear.

Em face das muitas tendências e das va- riações e ênfases ou preferências observáveis no bojo do movimento de renovação da história po- lítica, é conveniente fazer uma distinção entre as

orientações mais moderadas e as mais radicais. Radicais, do nosso ponto de vista, são as interpre- tações que conduzem os historiadores a subsumir

a política na esfera do poder, de modo que se per-

de de vista quase por completo sua autonomia, ainda que relativa. Por outro lado, como muitas das abordagens do poder remetem ao problema de suas determinações sociais, a tendência passa

a ser substituir a história política por algum tipo

de história das formas de dominação não vindo ao caso se baseada em matriz teórica marxista, por exemplo.

Os fatores históricos mais citados que pos- sibilitam a efetivação de uma nova história po- lítica, obra hoje ainda em curso, compõem uma estrutura explicativa em três etapas: o advento da sociedade pós-industrial, cuja lógica se baseia no domínio tecnológico, consubstanciado na infor- mática, sobre um conjunto de seres humanos ma- nipulados pela mídia; o retorno do acontecimento como notícia e a percepção aguda do caráter polí- tico das decisões governamentais; a universaliza- ção da burocracia. Como conseqüência disso, as

decisões políticas recobram importância, adqui- rem um peso específico muito grande, levando a uma politização inevitável dos acontecimentos, atitudes, comportamentos e idéias.

Portanto, os objetos da história política são todos aqueles que são atravessados pela no- ção de “poder”. Neste sentido, teremos de um lado aqueles antigos enfoques da história política tradicional que, apesar de terem sido rejeitados pela historiografia mais moderna de a partir dos anos 1930, com as últimas décadas do século XX começaram a retornar com um novo sentido. A guerra, a diplomacia, ou até mesmo a trajetória política dos indivíduos eu ocuparam lugares pri- vilegiados na organização do poder – tudo isso começa a retornar a partir do final do século com um novo interesse.

Também ganham destaque as relações po- líticas ente grupos sociais de diversos tipos. A rigor, as ideologias e os movimentos sociais e po- líticos (por exemplo, as revoluções) sempre cons- tituíram pontos de especial interesse por parte da nova historiografia que se inicia com o século XX. Por outro lado, tal como já ressaltamos, hoje despertam um interesse análogo as relações inte- rindividuais (micropoderes, relações de poder no interior da família, relacionamentos intergrupais), bem como o campo das representações políticas, dos símbolos, dos mitos políticos, do teatro do poder, ou do discurso, enfim. Em muitos destes âmbitos, são evidentes as interfaces da histó- ria política com outros campos historiográficos, como a história cultural, a história econômica, ou, sobretudo, a história social.

a história econômica, ou, sobretudo, a história social. A História Política e a Historio- grafia Brasileira

A História Política e a Historio- grafia Brasileira Recente

O caráter recente significa a produção his- toriográfica realizada a partir de 1970. Tal crono- logia indica a passagem das tensões e conflitos dos anos 60 às aparentes harmonias do milagre brasileiro dos anos 70. È nesse momento que, no Brasil, se iniciam as promessas de renovação e mudança, da sociedade e da historiografia, típicas de boa parte da década de 1960, seguindo-se pe- los anos de repressão institucionalizada – repres- são política e ideológica nas instituições de ensino

e pesquisa mas, contraditoriamente, instituciona-

lização do ensino e da pesquisa na universidade a partir da implantação dos programas de pós-gra-

duação, inclusive em história.

Antes de 1970, os temas respeitantes ao poder apenas aparecem na historiografia quando

referidos ao Estado. Trata-se, portanto de uma história política de tipo tradicional – na verdade,

a substância da história oficial que se pesquisava

e ensinava. Após 1964 esta versão da história do Brasil passou a contar também com o apoio ex- tensivo dos aparelhos de Estado.

A partir de 1970, embora mantivesse o

apoio ideológico e repressivo do Estado à ver- são oficial, houve a progressiva contestação a esta

história a partir de diversos lugares intelectuais,

a começar por algumas universidades. Os histo-

riadores foram encontrando ou criando meios e modos de, em diferentes lugares e sob as mais variadas formas, introduzir, ao lado da crítica àquela história política, novos métodos, aborda- gens e, sobretudo, novos objetos. A ampliação do diálogo com os cientistas sociais e a tomada de consciência política e teórica por muitos histo- riadores levou progressivamente ao processo de condenação da história política.

A hegemonia da história política tradicio-

nal com todas as suas temáticas e narrativas e seu

caráter factual materializava-se no ensino de his- tória do Brasil e pelas faculdades de filosofia.

Opondo-se à permanência dessa história, as forças de mudança atuaram de diversas formas. Encontramos aqui o papel das obras da primeira geração de historiadores ainda nos anos 50 e 60. Dentre eles podemos citar os já conhecidos Caio

Prado Jr., Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Ho- landa, Nelson Werneck Sodré, Victor Nunes Leal

e Raymundo Faoro. Seus escritos logo influen-

ciaram gerações seguintes como Luís Henrique Dias Tavares, Edgard Carone, Boris Fausto, entre outros. Começou-se a trabalhar então com novas perspectivas teóricas, resgatando-se ainda objetos ignorados ou pouco freqüentados, e discutindo- se novos métodos.

Já nos anos 80, a produção reflete a pro-

gressiva libertação em face do Estado, principal- mente com o gradual colapso da Ditadura Mili- tar. No interior desse quadro, coube à história do Brasil ampliar ainda mais sua presença no con-

história do Brasil ampliar ainda mais sua presença no con- junto de cursos e pesquisas, embora

junto de cursos e pesquisas, embora as áreas de concentração tenham adotado em geral a deno- minação mais neutra de história social. Um dado interessante vem a ser o da ausência de cursos que se assumam como sendo de história políti- ca, ou que assim designem alguma de suas áreas de concentração. Quando muito, há exemplos de associações de política com sociedade, economia ou cultura 10 .

de política com sociedade, economia ou cultura 1 0 . História Política e Ensino A desqualificação

História Política e Ensino

A desqualificação do passado é hoje um dos grandes problemas para o ensino de história, tendo sido absorvida até por grupos influentes de intelectuais que passaram a vê-lo como um con- junto de discursos dominados por inverdades, versões e memórias.

Temas recentes da história imediata são mais prestigiados e acatados do que o estudo dos acontecimentos passados por significativos seto- res da pesquisa e do ensino, que pensam, assim, reagir contra o racionalismo positivista e mar- xista, ocultador das descontinuidades. Perigosa- mente a memória vem se constituindo na própria história e o passado público tornou-se objeto de trabalhos “fora de moda”.

Mesmo considerando importantes e funda-

mentais os estudos sobre a vida privada no pas- sado e no presente que descobrem no cotidiano

a dimensão do político, é fundamental rever de-

terminada prática da investigação e do ensino de história que, influenciada pela “Nova História”,

e seus novos objetos e abordagens, acabam por

não estabelecer relações com o passado público.

Atualmente, uma das questões que merece destaque quanto aos rumos do ensino da história do Brasil refere-se ao repúdio da história política. Já vimos que muitos avanços foram conseguidos ultimamente no conhecimento da esfera político- social e os historiadores tiveram importante papel neste processo. Entre nós, as décadas de 70 e 80 foram muito importantes, e muitas das idéias ex- postas por intelectuais brasileiros críticos da dita- dura ainda conservam atualidade.

10 Sobre o assunto ver FALCON, Francisco. “História e poder”. IN:

CARDOSO, Ciro Flamarion. Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. p. 87.

É óbvio que nas propostas dos historiado- res estava incluída a concepção de que o ensino vinculava-se a um projeto ético-político que con- duzia o cidadão à conquista da cidadania, o que nem sempre tem atingido seus objetivos.

O repúdio à história política tradicional deveu-se à sua concentração no estudo do Es- tado-nação, dos comportamentos individuais dos

grandes personagens, dos eventos circunstanciais

e das situações passageiras. Estes acontecimentos eram organizados sob um racionalismo redutor

das descontinuidades e das contradições. Dessa forma, a história política passou a ser vista como retrato da ideologia dominante e ocultadora da verdadeira realidade. Contribuiu para isso a força da explicação marxista da história que enfatizava

a importância das estruturas econômico-sociais,

bem como o papel da luta de classes como ins- tâncias das verdades mais profundas.

Diante das acusações da exagerada preocu-

pação da história política ao meramente cronoló- gico, a proposta atual é desenvolver análises com- bináveis entre seus vários ritmos – o instantâneo

e o lento – e seus aspectos contínuos e descon-

tínuos. Na esfera da pequena duração (utilizan- do a noção de tempo de Braudel), por exemplo,

podemos incluir o registro do cotidiano da esfera de decisão política, como os golpes de Estado, as mudanças de governo, as sucessões ministeriais;

a de média duração que engloba acontecimentos

mais estáveis relacionados à longevidade dos re-

gimes políticos, do sistema jurídico, dos partidos;

e da longa duração em que subsistem as ideolo-

gias das formações políticas. Parece ser um pouco

chato e complicado, afinal, sempre nos negamos

a “discutir política”, mas é fundamental para o ensino de história.

Sem renegar a História Nova nem as aspi- rações coletivistas do marxismo, os historiadores acreditam estar realizando uma revolução na anti- ga concepção da história política. A historiografia francesa vem revitalizando a análise do conteúdo político trazendo-o para o estudo global da socie- dade, saindo do foco circunscrito à ação da classe política. As escolhas políticas passam a ser vistas não apenas como reflexos das ações de categorias socioprofissionais, mas também comportam um espaço livre da ação e de interferência do setor público.

Mesmo defendendo que a liberdade de es- colha no processo didático e nele reconhecendo uma área importante de embates políticos, deve- mos admitir que um sentido maior deve orientar nossa prática no rumo da sociedade democrática

e que este dificilmente se realizará se abandonar- mos o estudo do passado público. Compreender

a pluralidade de nossas culturas e toda a abran-

gência da história dos oprimidos passa pela cons- tatação de que o imaginário político brasileiro não é algo sem importância e suas representações estão arraigadas profundamente nas raízes da cul- tura popular e erudita.

Talvez muito da indiferença que se nota atualmente pela vida política de nosso país esteja relacionado ao desprezo do passado de nossa vida pública institucional, obscurecido pela prioridade da atualidade cotidiana. Sem um conhecimento sólido do passado, voltado para a ação e para a participação democrática, somos levados à igno- rância e à omissão que permitem total liberdade aos detentores do poder.

que permitem total liberdade aos detentores do poder. História Econômica: Desafios e Abordagens A história

História Econômica: Desafios e Abordagens

A história econômica é uma divisão da

história que ainda chama a atenção de muitos historiadores. Nesse ramo, estudam-se principal- mente três aspectos desenvolvidos pelas ativida- des econômicas: a produção, a circulação ou o consumo.

O campo da produção está entre os prin-

cipais interesses da historiografia marxista. Des- sa forma, encontra-se sempre presente o estudo

dos “modos de produção”, que tenta dar conta de toda a produção material de uma sociedade a partir da apropriação do trabalho humano e da utilização dos meios de produção.

Deve-se ressaltar que o sistema de produ- ção é inseparável da organização social e política de toda uma sociedade. Diante disso, é impres- cindível para esse foco da história econômica caminhar conjuntamente com a história social e política. Qualquer grupo social ocupa uma posi- ção no sistema de produção de uma sociedade e todos estabelecem entre si relações que, além de sociais, são também relações políticas.

Vocês já sabem que para o materialismo histórico, a história é a história dos modos de produção e também da luta de classes. Não se pode esquecer que uma coisa está associada à ou- tra, pois se os modos de produção vão se desen- volvendo e derivando em outros no decurso de uma duração mais longa, a luta de classes aflora cotidiana e conjunturalmente sobre essas estrutu- ras em mutação. Portanto, percebe-se o quanto a história econômica está em permanente ligação como a história política e social.

O interesse do historiador do econômico também pode se voltar para a esfera da circulação, sendo estudados os ciclos econômicos, os preços

e o sistema financeiro. Esses estudos tornaram-

se marcante a partir da década de 1930, com os historiadores da economia ligados ao movimen- to dos Annales. O estudo dos ciclos foi possível principalmente com a utilização da estatística e com a quantificação – que ficou conhecida como história quantitativa.

Finalmente, temos a esfera do consumo como objeto de interesse de estudos da história econômica. Nesse foco encontramos os aspectos relativos aos salários até os hábitos de consumo dos vários grupos sociais. Estudar o consumo é estudar os modos como a riqueza é apropriada pelos vários grupos e forças sociais que se en- contram em interação no interior de uma deter- minada sociedade. As tensões sociais também se expressam nas relações de consumo, nas ostenta- ções, nas carências, nos contrastes que revelam a riqueza apropriada e que colocam em contraposi- ção à riqueza produzida.

A história econômica é um campo comple-

xo, que exige competências e preparos específi- cos. Em seu estudo, alguns conceitos são indis- pensáveis, como a “conjuntura” e a “estrutura”.

É também objeto de estudo da história eco-

nômica os modos ou estruturas de produção nas suas linhas gerais, no âmbito de temporalidades diversificadas com a Economia Antiga, Medieval

ou Moderna. Neste campo, o interesse do histo- riador está associado à interação entre economia

e sociedade, surgindo célebres e polêmicas ques-

tões concernentes ao tipo de influência mútua de ambas.

Os problemas de ordem mais geral que devem chamar a atenção dos historiadores do

mais geral que devem chamar a atenção dos historiadores do econômico é o chamado “anacronismo”. Este

econômico é o chamado “anacronismo”. Este problema aparece normalmente quando o pes- quisador toma a si a tarefa de levantar e analisar economicamente os fatos relativos a uma socie- dade cujos próprios critérios para constituição de uma massa de dados estão presos a uma espe- cificidade temporal. Este problema não é novo, pois ele tem tocado tanto os historiadores eco- nômicos como os economicistas históricos (que são aqueles que são de formação econômica, mas empreendem uma análise econômica de períodos do passado).

São muitas as posições que o historiador do econômico precisa enfrentar. Abordar os as- pectos econômicos da história não pode signifi- car apenas um trabalho de coleta quantitativista. Este tipo de trabalho, para não recair na coleta anacrônica de fatos econômicos do passado, deve estar vinculado a uma posição que é também filo- sófica, teórica e metodológica.

que é também filo- sófica, teórica e metodológica. O declínio da história econômica e suas influências

O declínio da história econômica e suas influências no Brasil

Atualmente, há um número cada vez menor de trabalhos vinculados às conjunturas econômi- cas, sendo esta uma tendência mundial. No ano de fundação dos Annales (1929), cerca de 60% dos trabalhos publicados foram dedicados à his- tória econômica. De 1946 a 1969, sob a influência de Braudel, tal porcentagem oscilou para 40%. Já em 1976, a produção voltada para o estudo da economia caiu para 25% e continua a declinar.

No Brasil, é a partir de 1980 que se começa

a perceber tal declínio. Na década de 1970, por

exemplo, pouco mais da metade das dissertações

e teses defendidas na Universidade de São Paulo,

a maior do país, eram referentes à história econô-

mica. A partir de 1980, tal proporção baixou para menos de um terço.

Juntamente a este declínio encontra-se a intensificação de críticas acerca da produção da história econômica, principalmente à Escola dos Annales e à historiografia marxista.

A questão que se coloca entre os críticos da história econômica, inclusive aqueles que faziam parte da Escola dos Annales, a exemplo de Jac- ques Le Goff, é o reducionismo econômico no

que diz respeito ao estudo da história social. Segundo Carlo Ginzburg,

“( ) não parece arriscado afirmar que a investigação quantitativa de longo período pode também
“(
)
não parece arriscado afirmar que a investigação quantitativa de longo
período pode também obscurecer e distorcer os fatos. Na perspectiva de longo
período é difícil compreender os problemas quotidianos da sobrevivência. A vida
real é largamente posta à margem e a visão de longo período pode gerar uma
abstrata e homogeneizada história social desprovida de carne e sangue, e não
convincente apesar de seu estatuto científico” 1 .
1 GINZBURG, Carlo. “O nome e o como”. IN: A micro-história e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1991, p. 171.

Apesar da importância das relações de produção entre os homens, estas não determinam as rela- ções culturais, como afirma Thompson 11 . De fato, seria difícil negar que a excessiva ênfase ao econômico criou uma história pouco atraente (conhecida como “economicismo” “quantitativismo”) e distante da complexidade posta pela história dos homens.

No contexto do pós-45, como crescimento dos Estados Unidos, a internacionalização do capital

e ao mesmo tempo a afirmação de uma economia socialista traduziam a polarização da época. Paralela-

mente, o crescimento da pobreza e dos movimentos nacionais de libertação influenciou estudiosos para

o interesse de temas como dependência econômica, desigualdades, industrialização, dentre outros.

Nessa conjuntura, percebe-se a afirmação da teoria econômica e a exacerbação do determinismo “infra-estrutural” por parte do marxismo da guerra fria. Hobsbawm cita o impasse desses historiadores com o declínio da historiografia do econômico após a ascensão da história social:

“Muitos historiadores (entre eles os marxistas), que antes se chamavam a si mesmos de economicistas,
“Muitos historiadores (entre eles os marxistas), que antes se chamavam a si
mesmos de economicistas, se encontraram de imediato excluídos de uma história
econômica que rapidamente se estreitava. Daí terem aceitado de bom grado o ró-
tulo de ´historiadores sociais´, especialmente quando lhes faltavam conhecimentos
profundos de matemática” 1
1 HOBSBAWM, Eric. “De la historia social a la historia de la sociedad”. IN: CARDOSO, Ciro Flamarion & BRIGNOLI,
Héctor P. Tendências actuales de la historia social e demográfica. México: SEP, 1976, pp. 63-67.

Seu declínio se daria, possivelmente, às mudanças do quadro internacional, como afirma Ciro Fla-

marion Cardoso. Para ele, a falência dos sistemas éticos tradicionais (a exemplo do cristão e revolucio- nário) que norteavam as relações sociais perderam credibilidade, não sendo substituídos por referenciais mais sólidos. Como conseqüência, se percebe o aumento do interesse por temáticas ligadas ao quotidiano

e à família, por exemplo.

No Brasil, desde a década de 1930 até 1970, Caio Prado, Simosen, Celso Furtado, Fernando Novais, Ciro Flamarion Cardoso e Gorender 12 buscaram montar quadros explicativos da sociedade e economia colonial, constituindo em clássicos da historiografia econômico-social.

Também cabe ressaltar a publicação de importantes trabalhos feitos por não–historiadores, a exem- plo de Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni. Neles se encontra a história econômica em constan-

11 TH OMPSON, E.P. A formação da classe operária. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987, v. 1.

12 São clássicos PRADO Júnior, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1977; SIMOSEN, Roberto C. História econômica do Brasil (1500-1820). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1978; FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1977; NOVAIS, FERNANDO A. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1979 e GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1978.

te diálogo com uma sociologia de fortes influências Weberianas e Marxistas. Você Sabia? Max Weber,

te diálogo com uma sociologia de fortes influências Weberianas e Marxistas.

Você Sabia? Max Weber, nascido em Erfurt, Alemanha, em 21 de abril de 1824, é
Você Sabia?
Max Weber, nascido em Erfurt, Alemanha, em 21 de abril de 1824, é con-
siderado um dos fundadores da sociologia. Suas idéias ainda influenciam muitos
historiadores. A religião foi um tema muito presente em seus estudos, principal-
mente com a famosa obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, na
qual procurou analisar o papel da ética protestante diante da ascensão do moderno
sistema econômico.

O apogeu dos estudos de história econômica no Brasil ocorreu com o crescimento dos programas de pós-graduação. O que observou João Fragoso (1997) foi a abertura da reflexão sobre as conjunturas e estruturas econômicas através de novas metodologias. Dentre as áreas que ganharam força destacam-se os estudos sobre o mercado interno, de estruturas agrárias da época da escravidão, comércio exterior, demografia, dentre outros.

Apesar do declínio dos estudos de história econômica, inclusive na historiografia brasileira, não se pode negar sua importância. Deve-se ressaltar que os homens continuam trabalhando, produzindo e consumindo. Além disso, todo o percurso feito pela história econômica serviu para sedimentá-la en- quanto um legítimo campo do saber humano. Também vale recordar que a chamada “história serial” (que vimos no tema 1 deste bloco) continua contribuindo para uma melhor elucidação dos processos econômico-sociais.

Tudo indica que a história econômica pode se incorporar nas propostas mais recentes da historio- grafia, contribuindo, decisivamente, para o enriquecimento do saber histórico.

decisivamente, para o enriquecimento do saber histórico. HISTÓRIA DAS MENTALIDADES Bastante polêmica desde seu

HISTÓRIA DAS MENTALIDADES

Bastante polêmica desde seu nascimento, a história das mentalidades enfoca a dimensão da socie- dade relacionada ao mundo mental e dos modos de sentir, ficando sob a rubrica de uma designação que tem dado margem a grandes debates.

Terá certamente contribuído para esta polêmica o fato de que os historiadores das mentalidades foram os primeiros a se interessarem por determinados temas não convencionais, desbravando certos domínios da história que os historiadores ainda não haviam pensado em investigar.

De certo modo, os historiadores das mentalidades constituíram uma vanguarda da tendência da Nova História em se tornar uma espécie de “história em migalhas”, para utilizar aqui a famosa expressão que deu um título ao livro de François Dosse sobre a História Nova. Foram eles que primeiro exploraram certos temas que – a princípio recebidos pelos demais historiadores como estranhos ou exóticos – logo encontrariam um curioso lugar editorial entre uma multidão de outros campos temáticos que posterior- mente marcariam – através de uma miríade de novas especialidades relativas aos domínios históricos – a tendência à fragmentação das antigas ambições braudelianas de realizar uma “história total”.

Devido à sua exploração ousada de certos temas até então incomuns, a história das mentalidades produziu no seu nascimento uma forte estranheza, que logo despertaria acirradas polêmicas. Mas é muito

importante ter em vista que a história das men- talidades não pode ser definida essencialmente com base nestes novos domínios historiográficos que ela passou a privilegiar em um primeiro mo- mento. Mesmo porque estes mesmos domínios também foram retomados por outros campos da história que pouco ou nada têm a ver com a his- tória das mentalidades.

Não foram poucos os historiadores que,

nos últimos 30 anos, tentaram definir ou delimi- tar o campo teórico e metodológico da história das mentalidades. Numa avaliação em conjunto,

é preciso reconhecer que quase todos esbarra-

ram em imprecisões e ambigüidades que, de cer- to modo, marcaram a história das mentalidades

e contribuíram muito para o desgaste da própria

noção, alimentando argumentos de seus críticos

e adversários. Em primeiro lugar, não se pode

negar uma certa tendência empirista em muitas definições do que pertence o domínio das menta- lidades, confundindo-se frequentemente os cam- pos de estudo (religiosidades, sexualidades, com- portamentos, etc.) com a problematização teórica dos objetos. Em segundo lugar, não é rara a de- limitação das mentalidades quer por oposição à história econômica, quer por oposição à história das idéias, disciplina que na verdade nunca teve grande destaque.

Por outro lado, a compensar aquelas ten- dências negativas das mentalidades, buscou-se

afirmá-las como a história a mais aberta possível

à investigação dos fenômenos humanos no tem-

po, sem excluir a dimensão individual e mesmo irracional dos comportamentos sociais, e pro- curando resgatar os padrões menos estudados da vida cotidiana, principalmente o universo de

crenças ligadas ao nascimento, à morte, aos ritos de passagem, ao corpo, aos espaços e ao tem- po. Vem daí a afirmação de que todo e qualquer documento se pode prestar a uma pesquisa das mentalidades. Vem igualmente daquela perspecti- va a convicção de que a história das mentalidades

é a que mais confirma a vocação interdisciplinar

dos Annales, sobretudo quanto ao diálogo com a

antropologia, a psicologia e a lingüística.

Divergências e dilemas à parte, o estudo das mentalidades tem sido extraordinariamente próspero. Cronologicamente, não seria errôneo dizer que predominam os estudos sobre a his-

tória medieval e a moderna, sendo tal tendência favorecida pela formação dos historiadores dedi- cados ao mental, bem como pelo “distanciamen- to” temporal daqueles períodos, mas passíveis de uma investigação histórico-antropológica do que épocas mais contemporâneas.

Quanto às temáticas preferenciais, qualquer esforço mais sério de classificação esbarra na ten- dência dos estudos sobre o mental, na multipli- cidade de objetos e nos recortes microscópicos. Mas é possível verificar pelo menos quatro áreas temáticas permanentemente freqüentadas pelos historiadores: as religiosidades, as sexualidades e suas representações, os sentimentos coletivos e a vida cotidiana em regiões ou cidades.

Numa visão de conjunto, seria errôneo fa- lar em uma história das mentalidades homogênea e unificada, seja quanto a seus pressupostos te- órico-metodológicos, seja quanto aos resultados das investigações. Considerando apenas a his- toriografia sobre as mentalidades produzida na França, talvez se possa falar de, pelo menos, três variantes da história das mentalidades:

• Uma história das mentalidades herdeira da tradição dos Annales, princi- palmente quanto ao reconhecimento
• Uma história das mentalidades
herdeira da tradição dos Annales, princi-
palmente quanto ao reconhecimento de
que o estudo do mental só faz sentido se
articulado a totalidades explicativas.
• Uma história das mentalidades
assumidamente marxista, preocupada
em relacionar os conceitos de mentali-
dade e ideologia.
• Uma história das mentalidades
descompromissada de discutir teorica-
mente os objetos, e unicamente dedicada
a descrever e narrar épocas e episódios
do passado 1 .
1 Ver VAINFAS, Ronaldo. “História das mentalidades
e história cultural”. IN: CARDOSO, Ciro Flamarion.
Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia,
Rio de Janeiro, Elsevier, 1997. p. 144.

Rigorosamente, qualquer tema pode ser trabalhado a partir dos vários enfoques que classi- ficamos como relacionados às dimensões sociais. Assim, uma História da Morte pode ser trabalha- da pela história demográfica, pela história políti- ca, pela história da cultura material, e não apenas pela história das mentalidades. Em contrapartida, temas já tradicionais como o do “nacionalismo” ou o da “religião” podem ser igualmente examina- dos da perspectiva de uma história das mentalida- des. Não são, portanto, os domínios privilegiados pelos historiadores das mentalidades que definem

o tipo de história que fazem, mas sim a dimensão

da vida social para a qual os seus olhares se di- rigem: o universo mental, os modos de sentir, o âmbito mais espontâneo das representações cole-

tivas e, para alguns, o inconsciente coletivo.

A verdadeira polêmica que envolve a his-

tória das mentalidades é teórica e metodológica. Apenas para registrar alguns problemas pertinen-

tes a este campo historiográfico que se consolida

a partir da década de 1960, mencionaremos as

questões fundamentais que devem ser refletidas pelo historiador que ambiciona trilhar estes ca- minhos de investigação. Existe uma mentalidade coletiva? É possível identificar uma base comum presente nos modos de pensar e sentir dos ho- mens em determinada sociedade? 13

Os três principais tratamentos metodoló- gicos utilizados pela maioria dos historiadores das mentalidades com a finalidade de captar os modos coletivos de pensar e de sentir, são a abor- dagem serial, a eleição de um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes coletivas ou uma abordagem extensiva de fontes de naturezas diversas 14 .

Porém, se as pesquisas no campo das men- talidades ganharam espaço definitivo nos cen-

tros de produção historiográfica de vários países,

o mesmo não se pode dizer da disciplina ou do

próprio conceito de mentalidades, vítimas de um desgaste quase irreversível em face das inúmeras críticas que se lhe moveram.

O resultado foi o declínio das mentalidades

e a deserção dos historiadores a elas dedicados

para outros campos. A partir da década de 1980,

13 Ver BARROS, José D´Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2004. p. 40.

14 Id. Ibid.

Rio de Janeiro: Vozes, 2004. p. 40. 14 Id. Ibid. é possível verificar o surgimento de

é possível verificar o surgimento de uma série de “novos” campos, esboços de disciplinas que, em maior ou menor grau, herdaram os temas e pro- blemáticas das mentalidades. A “vida privada”, “história de gênero”, “história da sexualidade”, etc. foram alguns dos refúgios que abrigaram as mentalidades, um tanto acuadas em face das críti- cas já referidas anteriormente.

acuadas em face das críti- cas já referidas anteriormente. A História das Mentalidades na Historiografia Brasileira

A História das Mentalidades na Historiografia Brasileira

Uma nova história cultural vem fortalecen- do cada vez mais uma alternativa para o trata- mento de certos temas que até então foram cam- pos privilegiados pelos historiadores das menta- lidades. Ainda assim, é preciso reconhecer que a história das mentalidades, sobretudo através dos historiadores franceses, proporcionou uma signi- ficativa abertura aos novos modos de fazer a his-

tória, inclusive deixando sua margem de influên- cias na historiografia brasileira na década de 1980, quando as mentalidades já estavam em processo de reformulação na França. É verdade que, para

o caso da maioria dos nossos historiadores, ela

raramente foi influência única e linear, aparecen- do habitualmente combinada a outras influências

e entrelaçada com outras sub-especialidades da história.

Inicialmente, podemos nos referir aos

já citados Freyre e Sérgio Buarque que “faziam

história das mentalidades sem o saber”, fórmula bem-humorada de reconhecer o pioneirismo de ambos em certos temas de nossa história que só a custo, e graças à penetração da Nova História na Universidade brasileira, passaram a ser valoriza- dos pelos pesquisadores.

Como outros exemplos, temos a historia- dora Laura de Melo e Souza, que reconhece em seu trabalho uma influência importante advinda de historiadores das mentalidades, principalmen- te em O diabo e a Terra de Santa Cruz (1986), obra sobre as práticas mágicas e a feitiçaria no Brasil Colônia, apoiada em fontes inquisitoriais, mas acrescenta que suas influências referem-se à etno-história e à história da cultura 15 . Já João José

15 SOUZA, Laura de Melo e. Inferno Atlântico, São Paulo: Cia das letras, 1993 e Desclassificados do ouro, Rio de Janeiro: Graal, 1982.

Reis reconhece a importância para o amadurecimento de seu trabalho da leitura dos historiadores fran- ceses das mentalidades que estudaram as atitudes diante da morte, mas situa sua principal influência em uma história social da cultura inspirada no historiador Thompson 16 . Também não devem ser esquecidos trabalhos associados à condição feminina, como o de Mary Del Priore, Ao sul do corpo.

Numa visão em conjunto, a produção historiográfica brasileira tem cada vez mais esposado temá- ticas e abordagens teóricas, quer das mentalidades, quer da história cultural, adaptando-se, em maior ou menor grau, aos problemas específicos de nossa própria história. Ginzburg e Thompson têm sido refe- rências muito adotadas, e às vezes combinadas, no quadro teórico desta historiografia.

Portanto, é correto afirmar que, apesar das dificuldades, os estudos sobre mentalidades têm contri- buído decisivamente para o apuro da reflexão interdisciplinar numa escala superior a de outros campos da pesquisa histórica.

Atividade Complementar
Atividade Complementar

1. O advento da história das mulheres é recente na historiografia brasileira. Também vimos que

seu surgimento esteve diretamente ligado aos movimentos feministas. O que você acha que a história das mulheres tem a oferecer para as modificações do papel feminino na sociedade brasileira?

2. Diante das diferenças expostas entre a história política “tradicional” e a “nova” história política,

estabeleça a importância dessa vertente histórica para o ensino da disciplina.

3. A história econômica ainda hoje está associada a uma história factual e desinteressante. De que

forma podemos abordar tal temática de forma mais dinâmica e menos “chata”?

16 REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil no século XIX, São Paulo: Cia das letras, 1991.

4. Para você, qual a principal polêmica que ainda está presente nas discussões acerca da

4. Para você, qual a principal polêmica que ainda está presente nas discussões acerca da história das mentalidades?

5. Cite o que para você seria a maior peculiaridade da análise do regional e local em qualquer es- tudo historiográfico.

Estante do Historiador História das mulheres no Brasil, organiza- do por Mary Del Priore e
Estante do Historiador
História das mulheres no Brasil, organiza-
do por Mary Del Priore e lançado em 2004, traça
a trajetória das mulheres brasileiras do período
colonial até os dias atuais, não focalizando apenas
nas derrotas e vitórias dessas personagens, mas
trazendo discussões atualíssimas acerca das ques-
tões femininas.
HISTÓRIA SOCIAL: UMA NOVA CONCEPÇÃO HISTORIOGRÁFICA HISTÓRIA ORAL A ASCENSÃO DA HISTÓRIA ORAL Definições da

HISTÓRIA SOCIAL: UMA NOVA CONCEPÇÃO HISTORIOGRÁFICA

HISTÓRIA ORAL

A ASCENSÃO DA HISTÓRIA ORAL

HISTÓRIA ORAL A ASCENSÃO DA HISTÓRIA ORAL Definições da História Oral O que podemos afirmar com

Definições da História Oral

O que podemos afirmar com as discussões feitas anteriormente é que os historiadores do século

XXI se deparam com fontes abundantes de múltiplas, a partir das quais trabalham. As fontes orais estão

entre essas inovações. Aqui, vale estabelecer uma distinção entre história oral, os arquivos orais, as fontes

orais e os depoimentos orais, a fim de dissolver ambigüidades e esclarecer certos aspectos do debate entre

os partidários de um método elevado à categoria de disciplina e seus adversários adeptos dos postulados

da história clássica.

Para muitos historiadores, a história oral se refere a uma subdivisão historiográfica no qual o pes- quisador trabalha com os testemunhos orais. Portanto, um historiador pode estabelecer como enfoque a história política ou a história cultural e selecionar como abordagem a história oral. Isto significa que ele irá produzir o essencial dos seus materiais de investigação e reflexão a partir da coleta de depoimentos, que depois deverá analisar com os métodos adequados. Nesse caso, suas preocupações estarão relacionadas ao tipo de entrevista que será utilizado na coleta de depoimentos, aos cuidados na decodificação e análise destes depoimentos, ao uso ou não de questionários pré-selecionados, etc. Portanto, a história oral nos remete a um dos caminhos metodológicos oferecidos pela história, e não a um enfoque, a um caminho teórico ou a um caminho temático. Essa discussão é bastante longa e cheia de ambigüidades.

De acordo com Daniele Voldman 1 , a expressão “história oral” se tornou inadequada e só deveria

ser empregada a título histórico, para qualificar o período historiográfico dos anos 50 aos 80. Para a auto- ra, seria necessário melhorar esta definição, que não resolve a questão dessa história mais imediata. Por- tanto, se a história oral é entendida como um método, ela deve incluir-se na história do tempo presente, e se ela serve para designar a parte pelo todo, a expressão deve ser abandonada em prol da história feita

com testemunhas.

Contudo, a historiografia positivista tendeu a valorizar o documento escrito, marginalizando as fontes orais. Para tais historiadores, a expressão por escrito dava ao depoimento um caráter de exteriori- dade, já que opera um distanciamento das afirmações, objetivando-as. Outro fator que levou à valorização do material escrito foi a sua associação com o mérito de transparência, em virtude de uma constante pos- sibilidade de referência, de verificação e de retorno. Com a evolução da disciplina no decorrer do século XX, reavivou-se o interesse pela testemunha ocular, cujas potencialidades descritivas, narrativas, e mesmo explicativas, na escrita da história foram reconhecidas.

1 VOLDMAN, Daniele. “Definições e usos”. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes (org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV. P.

34.

Entretanto, seria necessário que a mensa- gem da testemunha histórica fosse acessível a to- dos e que a comunidade científica pudesse utilizá- la como prova. A invenção do gravador permitiu atender a essas exigências. Daí o recurso à palavra gravada, tornando-se o documento sonoro uma das fontes da história. Ela é essência, mas as ra- zões que levaram certos historiadores a não se- guir essa via têm a ver, por uma preocupação de honestidade, com a intenção de fazer a testemu- nha controlar o documento que eles elaboraram juntos.

A imprecisão do oral não nos deve enga-

nar; também existem espaços dissimulados que se escondem na documentação escrita, contornan- do silêncios e falseamentos, revelando segredos que o próprio autor do texto não pretendia reve- lar, mas que escapam através da linguagem, dos modos de expressão, da súbita iluminação que se espalha pelo texto quando o confrontamos com um outro.

O fato é que ainda hoje o historiador tem,

cada vez mais, oportunidades para trabalhar com as fontes escritas do que com os outros tipos. Se a historiografia do século XX ampliou o seu conceito de fonte histórica para um mundo não- textual de possibilidades, também ampliou extra- ordinariamente os tipos de documentação escrita com as quais irá lidar. Não mais apenas fontes institucionais e diplomáticas – hoje qualquer tex- to pode ser constituído pelo historiador como fonte, como já vimos.

No centro das discussões está a distinção fundamental entre arquivo oral e fonte oral. O arquivo oral seria um documento sonoro, grava- do por um pesquisador, arquivista, historiador, sem dúvida em função de um assunto preciso, mas cuja guarda numa instituição destinada a pre- servar os vestígios dos tempos passados para os historiadores do futuro tenha sido, logo de início, seu destino natural. A fonte oral é o material re- colhido por um historiador para as necessidades de sua pesquisa, em função de suas hipóteses e do tipo de informações que lhe pareça necessário possuir.

Uma das mais antigas discussões acerca da utilização das fontes orais diz respeito à credibi- lidade e à definição de uma fonte provocada por seu usuário imediato, bem como aos efeitos de

provocada por seu usuário imediato, bem como aos efeitos de sua constituição para o objeto de

sua constituição para o objeto de pesquisa. Os críticos desse tipo de informações têm bons mo- tivos para condenar uma documentação inventa- da para atender as necessidades preestabelecidas do pesquisador e submetida ao seu poder. Além disso, as entrevistas nem sempre são conservadas em gravação sonora e raramente podem ser con- sultadas pelos historiadores nos locais públicos destinados a conservá-los.

Dessa forma, a entrevista é um jogo de esconde-esconde entre o historiador e seu in- terlocutor. O primeiro, numa posição de inqui- sidor, se apresenta como aquele que contém as informações. O segundo, intimado a fornecer informações que permitirão essa operação, fre- qüentemente é forçado a ficar na defensiva, de tão evidente que é a suspeita do entrevistador. Assim, enquanto o método referente aos docu-

mentos escritos declarativos consiste em praticar uma dúvida sistemática, da qual somente o cru- zamento com outras informações permite sair,

o historiador que ouve a palavra-fonte expressa

uma dúvida sobre a dúvida, pois duas subjetivida-

des imediatas se conjugam, tanto para esclarecer quanto para confundir as pistas.

Ao mesmo tempo, o historiador tem que caminhar num espaço prestes a desmoronar, principalmente na margem de uma memória re- constituída ou firmemente construída por moti- vos diversos (preservação de uma identidade co- letiva, proteção pessoal da vida passada

Quando realiza entrevistas, certamente o historiador deve trabalhar segundo suas técnicas próprias, mas, também, deve ter em mente dois outros procedimentos, tomados de empréstimo

a disciplinas vizinhas: por um lado, servir-se das

contribuições da sociologia na condução e na formulação das pesquisas; por outro, não negli- genciar elementos de psicologia. Para ele, não se trata de propor interpretações da mensagem que lhe é comunicada, mas de saber que o não-dito, a hesitação, o silêncio, a repetição desnecessária, o lapso, etc. são elementos do discurso ou relato.

Se compete ao historiador estabelecer o que será tomado como está e o que será reexaminado

à luz de outras fontes, posto de lado e criticado,

nada permite retirar da testemunha a posição que ela adquiriu pelo simples fato de ter aceitado res- ponder às perguntas que lhe faziam.

Através dos interlocutores, o historiador pode aceitar ou recusar uma tarefa inédita: cola- borar, por meio da entrevista histórica, na trans- formação do objeto em sujeito. Pois, estabelecen- do o diálogo e deixando um pouco de lado suas curiosidades imediatas, o historiador pode contri- buir para favorecer ou acelerar a evolução do seu interlocutor, que pode passar da afirmação de sua obscuridade e de sua insignificância à construção de seu próprio relato.

É possível que estejamos, assim, saindo do

estrito exercício do ofício de historiador. E sem dúvida é preciso se limitar a colher o depoimento-

fonte para encerrá-lo nos meandros da razão. O trabalho direto com o ser vivo exige simplesmente conhecer melhor e explorar os seus contornos.

simplesmente conhecer melhor e explorar os seus contornos. Os Caminhos Trilhados pela His- tória Oral Desde

Os Caminhos Trilhados pela His- tória Oral

Desde os seus primórdios, a história africa- na se serviu de fontes orais. Contudo, a história, enquanto ciência, se construiu, desde o século XVII, a partir da crítica da tradição oral e o tes- temunho. Assim, a reintrodução da fonte oral na segunda metade do século XX em países de anti- ga tradição escrita não foi bem recebida pelos his- toriadores, salvo nos Estados Unidos, precursor nessa matéria.

A primeira geração de historiadores do oral

surgiu nos Estados Unidos nos anos 50 e seu ob- jetivo era simples: coletar material para historia- dores futuros. Essa geração está diretamente liga- da às ciências políticas e se ocupa dos notáveis. Como exemplos, podemos citar os correspon-

dentes do comitê de história da II Guerra Mun- dial junto aos chefes da resistência e no México, desde 1956, os arquivos sonoros do Instituto Na- cional de Antropologia registram as recordações dos chefes da revolução mexicana. Já na Itália, sociólogos como Ferraotti e antropólogos como De Martino ou Bosio, próximos dos partidos de esquerda, utilizam a pesquisa oral para reconsti- tuir a cultura popular. Eles são os precursores da segunda forma de história oral que surge com a

segunda geração de historiadores orais em fins dos anos 60 2 .

Portanto, essa nova geração desenvolveu uma nova concepção da história oral: não se trata apenas de uma simples fonte complementar do material escrito, e sim de uma “outra história”, afim da antropologia, que dá voz aos “povos sem história”, iletrados, que valoriza os vencidos, os marginais e as diversas minorias, operários, ne-

gros, mulheres. Essa história se pretende militante

e se encontra à margem do mundo acadêmico. É

praticada por não-profissionais, feministas, edu- cadores, sindicalistas. Surgida em meio ao clima dos movimentos de 1968, é uma história alterna- tiva, não apenas em relação à história acadêmica, mas também em relação a todas as construções historiográficas baseadas no escrito. Assim, na Itália, ela se desenvolve nos meios que contes- tam a esquerda comunista, se baseando na idéia de que se chega à “verdade do povo” graças ao testemunho oral. Na Inglaterra, essa história se desenvolve, principalmente, com Paul Thomp- son, mas também na América Latina, que retoma

o espírito da primeira forma de história oral, rea-

lizando entrevistas com sindicalistas e dirigentes políticos. Tanto na França quanto na Espanha, há muito tempo que a pesquisa com fontes orais vem sendo realizada por alguns estudiosos.

Porém, em meados dos anos 70, dois en- contros internacionais marcaram a primeira afirmação de uma corrente. Em 1975, no XIV Congresso Internacional de Ciências Históricas de San Francisco, realizou-se uma mesa-redon- da intitulada A História Oral como uma Nova Metodologia para a Pesquisa Histórica. No ano seguinte, organizou-se, em Bolonha, o que foi considerado o primeiro colóquio internacional de história oral, intitulado Antropologia e História:

Fontes Orais 3 .

Esses dois encontros podem ser conside- rados o ponto de partida para a terceira geração, quando se constituem verdadeiros grupos. Come-

2 Ver JOUTARD, Philippe. “História oral: balanço da metodologia e da produção nos últimos 25 anos”. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes (org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002. p. 45.

3 Id. Ibid.

çou-se a criticar a ingenuidade do espontaneísmo e os excessos do localismo. Na França, criou-se a Associação Francesa de Arquivos Sonoros e, em 1980, realizou-se o primeiro encontro francês de pesquisadores orais com a organização do Insti- tuto de História do Tempo Presente.

Na América Latina observa-se o mesmo desenvolvimento nas duas áreas de história políti- ca e antropologia. Em 1975 criou-se na Fundação Getúlio Vargas o primeiro programa de história oral destinado a colher depoimentos dos líderes políticos desde 1920. Em Costa Rica, lançou-se um projeto de se tentar escrever a história do país desde a época pré-colombiana, fazendo o povo narrar a sua própria história. No Equador, na Bo- lívia e na Nicarágua realizaram-se na mesma épo- ca pesquisas orais sobre o mundo camponês, no quadro da campanha de alfabetização. Na Argen- tina, o restabelecimento da democracia em 1983 levou à multiplicação dos projetos orais.

Até 1985, a história oral espanhola esteve limitada ao grupo de Barcelona, que tentou in- centivar seus colegas espanhóis a utilizarem a fonte oral. Portanto, a Espanha recuperou seu “atraso” com uma série de projetos em Valença, Navarra e Andaluzia.

No Japão, somente em 1986 a Sociedade de Ciência Histórica organizou o primeiro simpósio de história oral; os debates teóricos e historiográ- ficos destacaram as possibilidades da história oral, em particular na última guerra. Merece destaque a série de depoimentos sobre a II Guerra Mundial colhidos por sociedades locais, focalizando a ba- talha de Okinawa ou de Midway 4 .

Já a história oral judaica é caracterizada pela ligação entre memória oral e tradição. Tam- bém é interessante notar que as autobiografias e as pesquisas de história oral são bastante numero- sas desde 1970. O tema abordado mais frequen- temente é a memória do exílio e a lembrança dos lugares antigos ou, mais recentemente, do norte da África.

Os anos 80 se caracterizaram pela multipli- cação dos colóquios internacionais, que permi- tiram a criação de uma verdadeira comunidade de história oral. Podemos citar Colchester em 1978, Amsterdam em 1980, Barcelona em 1985 e

4

Id. Ibid. p. 48.

Amsterdam em 1980, Barcelona em 1985 e 4 Id. Ibid. p. 48. Oxford em 1987. Nesses

Oxford em 1987. Nesses eventos foram apresen- tados vários trabalhos, com a participação de um número de países cada vez maior, sendo a partici- pação latino-americana cada vez maior 5 .

Foi também nesse período que museus e arquivos sentiram a necessidade de associar-se a programas de história oral ou mesmo promovê- los, visto que o material oral é o meio de acres- centar uma dimensão viva à apresentação de ob- jetos. Na França e na Itália, a pesquisa oral tor- nou-se um meio pedagógico eficaz para motivar os alunos de história, levando-os a tomar consci- ência das relações que o passado mantém com o presente.

É, portanto, a década de 80 um período de

reflexões metodológicas, no qual se contestou a idéia de que a entrevista permitia atingir direta- mente a realidade, havendo inclusive uma profis- sionalização maior sobre os projetos de pesquisa oral e à sua utilização.

A década de 90 marca o advento da quar-

ta geração, nascida nos anos 60, influenciada nos Estados Unidos pelos movimentos críticos pós-modernistas, o que se traduz na valorização da subjetividade, que se entende como uma das

principais finalidades da história oral. A queda do Muro de Berlim e o dito restabelecimento da de- mocracia no Leste europeu propiciaram à história oral as condições de liberdade necessárias e no- vos campos de estudo. Não apenas proporcionou

o desenvolvimento da história oral no Leste euro- peu, como também em regiões como o Magreb.

Atualmente, são muitas as discussões a res- peito da história oral e o Brasil abriu suas portas para o desenvolvimento de pesquisas através da oralidade, juntamente com as modificações de abordagens, objetos e metodologias que ganha- ram espaço na historiografia brasileira, principal- mente nos anos 80.

Vale notar que o vínculo entre a história oral

e a atualidade é ainda mais forte do que no caso

da história geral. Não é de surpreender a estreita relação entre o restabelecimento e o desenvolvi- mento da democracia e o progresso da história oral, não só na América Latina, por exemplo, mas também na Espanha. Portanto, devemos afirmar que a história oral deve muito aos acontecimen-

5

Id. Ibid.

tos de maio de 1968, além das contestações do partido comunista na Itália. No Japão, foi o drama da bomba atômica.

O que se nota é que desde o início, a história oral apresentou duas perspectivas. Existe, de acordo

com Philippe Joutard, uma história oral política, que teria aparecido primeiro, na qual a entrevista serve

de complemento a documentos escritos e que pesquisa os atores principais. Mais tarde, desenvolveu-se uma história oral antropológica voltada para temas que se acham presentes nas diversas experiências na- cionais. Apesar das diferenças, os autores retomam os mesmos assuntos: o mundo do trabalho, relações de gênero, a construção das identidades, etc. A julgar pela maioria dos trabalhos, Joutard nota que existe um predomínio da segunda tendência, que conferiu à história oral toda a sua dimensão e sua riqueza metodológica. A história oral antropológica inclusive influenciou de vários modos a primeira tendência, fazendo com que a história política não mais se contentasse em interrogar os atores principais, passando a interessar-se pelos executantes ou mesmo as testemunhas.

Porém, a história oral ainda sofre com a marginalidade no meio acadêmico. A história oral, dita antropológica, que dá voz aos excluídos e trata de temas da vida cotidiana, não surpreende a história acadêmica somente por sua fonte, mas também por seu objeto e suas problemáticas. Mesmo diante da marginalidade, os historiadores orais percebem nela a garantia da criação de uma verdadeira “história alternativa” democrática, uma história que dá voz aos “vencidos”.

democrática, uma história que dá voz aos “vencidos”. O Progressivo Reconhecimento da História Oral O recente

O Progressivo Reconhecimento da História Oral

O recente processo de aceitação da história oral pela história universitária nas últimas décadas está

ligado ao aumento considerável das curiosidades do historiador. Assim, na América Latina, não se pode separar o progresso da história oral da influência da escola dos Annales, que ambicionava uma história total. Um bom exemplo é o da história das mulheres, na qual a história oral teve um papel fundamental, desde os anos 70. Outro tema comum à história oral tornou-se também uma das atuais áreas de pesquisa da historiografia geral: os fenômenos migratórios. Não admira que seja esta uma das principais vertentes da historiografia judaica, por exemplo.

A utilização da fonte oral está largamente difundida no mundo universitário, havendo diferenças

conforme o país. Na Europa, a Espanha, apesar de que tardiamente, a julgar pelo grande número de centros interessados e de projetos desenvolvidos, parece que o problema da marginalização da história oral foi bem resolvido. No sentido inverso, na Itália, a universidade permanece mais indiferente e hostil. A França está numa situação intermediária, sendo que ainda há uma forte resistência. No Leste europeu os projetos se multiplicam, assim como na América Latina, onde as grandes instituições universitárias promovem pesquisas orais. No Japão, as restrições à história oral na verdade escondem uma oposição a uma história mais contemporânea.

O que torna óbvio é perceber que os arquivos orais existem, multiplicam-se em número e qualida-

de, assim como os projetos de história oral, no mundo inteiro. Na atualidade, percebe-se uma expansão corrente desse campo de estudo. Mesmo que limitemos o documento oral a alguns tipos de objetos históricos, o estudo da memória ou da vida cotidiana, por exemplo, tais objetos são tão decisivos para a compreensão de uma sociedade que abrem à pesquisa oral um campo considerável.

sociedade que abrem à pesquisa oral um campo considerável. A HISTÓRIA ORAL NO BRASIL Embora sua

A HISTÓRIA ORAL NO BRASIL

Embora sua introdução no Brasil date dos anos 70, somente no início dos anos 90 a história oral experimentou aqui uma expansão mais significativa. É cabível ressaltar a importância da criação de pro- gramas de história oral na Fundação Getúlio Vargas ainda na década de 70. A multiplicação de seminários

e a incorporação pelos programas de pós-graduação em história de cursos voltados para a discussão

e a incorporação pelos programas de pós-graduação em história de cursos voltados para a discussão da história oral são indicativos importantes da vitalidade e dinamismo da área. Por outro lado, o estabeleci- mento e o aprofundamento de contatos com pesquisadores estrangeiros e com programas de reconhe- cido mérito internacional, propiciados pelos encontros e seminários, criaram canais importantes para o debate e a troca de experiências.

A criação da Associação Brasileira de História Oral, em 1994, e a publicação de seu boletim têm estimulado a discussão entre pesquisadores e praticantes da história oral em todo o país. A divulgação dos programas e grupos de trabalho existentes, a apresentação dos acervos de depoimentos orais já acu- mulados e das linhas de pesquisa em curso permite traçar um quadro preciso da situação atual da história oral no cenário brasileiro.

De acordo com Janaína Amado e Marieta de Moraes Ferreira 6 , o que se nota é uma forte presença da comunidade acadêmica nos projetos de história oral em andamento, sendo pouco expressiva a parti- cipação de grupos sindicais, associações de moradores, empresas ou mesmo arquivistas. Entre os partici- pantes de encontros que apresentaram trabalhos, as autoras percebem que, no que diz respeito à forma- ção, diferentemente do que se observava na década de 90, a maioria absoluta é formada por historiadores. Outro fator é o predomínio de estudos voltados para as camadas populares, além da abertura para temas até então poucos explorados, como movimentos intelectuais, burocratas, militares e instituições.

Para as autoras, a história oral no Brasil está se tornando numa área de pesquisa que se projeta, ganha novos adeptos, multiplica os temas. Contudo, ainda se percebe uma limitação das reflexões e das discussões metodológicas. Vale ressaltar que, como em outros países, a história oral no Brasil sempre percorreu um longo e difícil caminho para sua aceitação no meio acadêmico, como relata Meihy:

Entre nós, a história oral tardou muito a se desenvolver em função de dois fatores
Entre nós, a história oral tardou muito a se desenvolver em função de
dois fatores primordiais: a falta de tradições institucionais não-acadêmicas que
se empenhassem em desenvolver projetos registradores das histórias locais e
a ausência de vínculos universitários com os localismos e a cultura popular.
Além disso, os compromissos internos a cada disciplina universitária, como a
antropologia e a sociologia, ficaram marcados muito fortemente, impossibili-
tando o diálogo entre os campos que tratavam de depoimentos, testemunhos
e entrevistas. Quando a história oral, recentemente, despontou como opção
no Brasil, mostrou-se suscetível de ser filtrada pela universidade e nela apenas
quando as fronteiras interdisciplinares perderam seus exclusivismos, já sob a
luz do debate multidisciplinar, é que se iniciaram discussões sobre o avanço da
história oral 1 .
1 MEIHY, 1996, p. 23.

Trabalhar com história oral no Brasil, em geral, segundo Janaína Amado e Marieta Ferreira, ainda consiste em gravar entrevistas e editar depoimentos, sem explorá-los suficientemente, tendo em vista um aprofundamento metodológico; também é comum a utilização de entrevistas, em associação com fontes escritas, como fornecedoras de informações para a elaboração de teses ou trabalhos de pesquisa, sem que isso envolva qualquer discussão acerca da natureza das fontes ou de seus problemas.

Uma das discussões mais calorosas é quanto ao status da história oral. Uma vertente argumenta ser a história oral uma técnica; uma outra afirma sê-la uma disciplina; e uma terceira vertente defende a idéia da história oral enquanto metodologia. Aos defensores da história oral como técnica interessam as

6 Ver a já citada obra organizada pelas duas autoras, Usos e abusos da história oral, 2002.

experiências com gravações, transcrições e conservação de entrevistas, e o aparato que as cerca: tipos de aparelhagem de som, formas de transcrição de fitas, etc. Alguns defensores dessa posição são pessoas envolvidas diretamente na constituição e conservação de acervos orais. A esses estudiosos, entretanto, somam-se as que efetivamente concebem a história oral como uma técnica, negando-lhe qualquer pre- tensão metodológica ou teórica.

Os que defendem a história oral como disciplina baseiam-se em argumentos complexos, por vezes contraditórios entre si. Todos, entretanto, parecem partir da idéia de que a história oral inaugurou técnicas específicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos. Este conjunto, por sua vez, direciona as duas outras instâncias, conferindo-lhes significado e emprestan- do unidade ao novo campo do conhecimento. Quanto às idéias, conceitos e direções da história oral, esse grupo de estudiosos divergem bastante, partindo de pontos de vista diferentes e opostos.

Entre os defensores da história oral como metodologia estão as autoras já citadas Janaína Amado

e Marieta Ferreira. Para elas, a história oral, como toda metodologia, apenas estabelece e ordena procedi- mentos de trabalho, funcionando como ponte entre teoria e prática. Mas, na área teórica, a história oral

é capaz apenas de suscitar, jamais solucionar questões; formula as perguntas, porém não pode oferecer

as respostas. Contudo, para tentar esclarecer algumas questões, o historiador oral poderá lançar mão de contribuições de outras disciplinas, como a filosofia, a teoria sociológica, a teoria psicanalítica.

Segundo Janaína e Marieta, é a interdependência entre prática, metodologia e teoria que produz o conhecimento histórico, mas é a teoria que oferece os meios para refletir sobre as dúvidas recorrentes, embasando e orientando o trabalho dos historiadores. E é essa afirmação que assegura tais autoras a de- finirem a história oral enquanto metodologia.

a de- finirem a história oral enquanto metodologia. História Oral e Memória “A memória é um

História Oral e Memória

“A memória é um elemento essencial do que se costu- ma chamar identidade, individual ou
“A memória é um elemento essencial do que se costu-
ma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma
das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de
hoje, na febre e na angústia.”
Jacques Le Goff

Desde que a história oral se estabeleceu como prática e movimento nos anos 60 e 70, os historiado- res orais debatem questões referentes à memória e história. A memória é, em sentido estrito, a presença do passado, um passado que nunca é daquele indivíduo somente, mas daquele inserido num ambiente fa- miliar, comunitário, nacional. Portanto, o conceito de memória está quase sempre associado ao coletivo.

Muitos estudiosos da história oral defendem a idéia de que a memória é uma atualização do passado

e um registro do presente que permanece como lembrança. A memória pode ser considerada uma evoca- ção do passado. É a capacidade que o homem possui para reter e guardar o tempo que se foi.

A compreensão de que a memória é resultado de um processo de interação social, não supera o fato de que a memória, como relato do passado, é falha e incompleta. Alguns historiadores lidam com a memória porque conhecem, em parte, suas limitações e acreditam que podem fazer dela uma forma de conhecimento. Contudo, as fronteiras entre memória e história são intercambiáveis. É importante ob- servar que tanto a memória pode ser construída a partir das narrativas do presente, quanto a história é resultado de experiências que se acumulam ao longo do tempo.

Enquanto historiadores procuram, através da memória, pelos diversos componentes que constituíram os contextos culturais do passado, sociólogos e antropólogos elegem a memória co- letiva como um elemento-chave para a compre- ensão da constituição de práticas e comunidades imaginárias do presente. Neste caso, não se trata de investigar o passado através da memória, mas de procurar compreender o presente a partir das reconstruções que são feitas do passado.

O que é preciso compreender é que os in- divíduos não armazenam uma totalidade de ex- periências vivenciadas. Ao lembrar um episódio vivenciado no passado, o indivíduo reconstitui o que aconteceu a partir de uma massa ativa de reações ou experiências do passado organizadas, ou seja, a partir de uma estrutura já existente (a exemplo da linguagem) e de uma disposição que ele tem para lembrar.

Influenciados pelas censuras dos historia- dores documentalistas, os primeiros manuais de história oral estabeleceram uma espécie de guia para avaliar a confiabilidade da memória oral. To- mando por base a psicologia social e a antropo- logia, mostraram como determinar a tendencio- sidade e a fabulação da memória, a importância da retrospecção e a influência do entrevistador sobre as recordações. Da sociologia, adotaram os métodos da amostragem representativa, e na his- tória documental foram buscar regras para che- car a confiabilidade e a coerência interna de suas fontes.

No entanto, a tendência de defender e usar a história oral como apenas mais uma fonte histó- rica para descobrir “o que realmente aconteceu” levou a desconsideração de outros aspectos e va- lores do depoimento oral. Alguns praticantes da história oral, na ansiedade de corrigir preconcei- tos e fabulações, deixaram de considerar as ra- zões que levaram os indivíduos a construir suas memórias de determinada maneira, e não perce- beram como o processo de relembrar poderia ser um meio de explorar os significados subjetivos da experiência vivida e a natureza da memória coletiva e individual. Ao tentarem descobrir uma única história, fixa e recuperável, alguns historia- dores orais foram levados a negligenciar os mui- tos níveis da memória individual e a pluralidade de versões do passado, fornecidos por diferentes

de versões do passado, fornecidos por diferentes interlocutores. Nos últimos anos, alguns historiadores

interlocutores.

Nos últimos anos, alguns historiadores orais criaram métodos de análise e de entrevista que se fundamentam num entendimento mais complexo da memória e da identidade, e que sugerem meios novos e estimulantes para tirar o maior provei- to das memórias para fins de pesquisa histórica e sociológica. Procuram explorar as relações entre lembranças individuais e coletivas, entre memória e identidade, ou entre entrevistador e entrevista- do. De fato, estão tão interessados na natureza e nos processos da rememoração quanto no conte- údo das memórias que registram.

Dessa forma, ao situarem a memória simul- taneamente como fonte de alternativas e resistên- cias vernaculares ao poder estabelecido e como objeto de manipulação ideológica hegemônica por parte das estruturas do poder cultural e polí- tico, os historiadores fizeram muito mais do que simplesmente incorporar a memória à sua coleção de ferramentas, fontes, métodos e abordagens. A própria memória coletiva vem se convertendo cada vez mais em objeto de estudo: ela tem sido entendida, em todas as suas formas e dimensões, como uma dimensão da história com uma histó- ria própria que pode ser estudada e explorada.

uma histó- ria própria que pode ser estudada e explorada. Memória e Ensino de História no

Memória e Ensino de História no Brasil

A preocupação com a preservação da me- mória histórica e, por extensão, do patrimônio cultural é um fenômeno intenso na atualidade e vem chamando a atenção de um grande número de instituições, sejam elas públicas ou privadas, não-governamentais, segmentos sociais os mais diversos e figuras destacadas das elites políticas nacionais.

Todos os dias tomamos conhecimento de iniciativas destinadas à criação de centros de me- mória, projetos de revitalização de sítios históri- cos urbanos, instalação de núcleos de documen- tação e pesquisa, memoriais, museus, programas de história oral, elaboração de vídeos e documen- tários. No Brasil, onde a idéia de ser um país sem memória constitui uma imagem já cristalizada, essas iniciativas devem ser apoiadas e acompa- nhadas de uma reflexão crítica.

A partir de meados dos anos 70 e por toda

a década de 80, assistimos à emergência dos mo-

vimentos sociais populares, protagonizados pela mobilização de trabalhadores, mulheres, negros, índios, homossexuais, etc., que, até hoje, reivin- dicam para si o alcance e o exercício dos direitos de cidadania e a participação política no processo decisório nacional. Esses movimentos colocam na ordem do dia o interesse pelo “resgate” de sua memória, como instrumento de luta e afirmação de sua identidade étnica e cultural.

Por outro lado, a temática da memória e de sua materialização no patrimônio histórico

é recente no âmbito da historiografia brasileira,

bem como na produção acadêmica oriunda dos cursos de pós-graduação em história existentes no país, e praticamente ausente no processo ensi- no-aprendizagem em diferentes níveis escolares.

Isso explica, em grande parte, pelo fato de que os órgãos e agências de preservação histórica foram sistematicamente ocupados por profissionais da arquitetura, o que levou, também, ao privilégio do patrimônio edificado. Até bem pouco tempo,

o patrimônio histórico era exclusividade de estu- dos dos antropólogos e cientistas sociais.

A escola e, principalmente, o ensino de

história tem um papel fundamental no processo de reconstrução do conhecimento voltado para

a memória e o patrimônio histórico. É, portan-

to, a escola o espaço privilegiado para o exercício

e formação da cidadania, que se traduz também

no conhecimento e na valorização dos elementos que compõem o nosso patrimônio cultural. Ao socializar o conhecimento historicamente pro- duzido e preparar atuais e futuras gerações para

a construção de novos conhecimentos, a escola está cumprindo seu papel social.

O próprio conceito de “patrimônio históri-

co” restringia-se aos bens materiais, especialmen-

te aos bens imóveis, dissociados de seu ambiente original. Além do que, os critérios de seleção des- ses bens obedeciam padrões estabelecidos pelos órgãos oficiais que, muitas vezes, não levavam em consideração outros critérios de preservação, bom como a participação da sociedade na seleção

e preservação dos mesmos bens.

Atualmente, vem crescendo o interesse pela ampliação do conceito de patrimônio cultu- ral, assim como a participação da sociedade civil

organizada, através das mais variadas entidades e associações de classe.

A preservação do patrimônio histórico é

vista, hoje, prioritariamente, como uma questão

de cidadania e, como tal, interessa a todos por se constituir em direito fundamental do cidadão

e imprescindível para a construção da identidade cultural.

Portanto, a identidade cultural de um país, cidade ou comunidade se faz com memória indi- vidual e coletiva. Somente a partir do momento em que a sociedade resolve preservar e divulgar os seus bens culturais é que se inicia o processo de construção de sua identificação cultural e de sua cidadania. Nessa perspectiva, o patrimônio his- tórico-cultural se reveste de grande importância para o país por lidar com o substrato da memó- ria, que, por sua vez, constitui elemento essencial para a construção da cidadania cultural.

No contexto da cidadania cultural, ins- creve-se o direito à memória histórica. O direi- to à memória como direito de cidadania indica que todos devem ter acesso aos bens materiais e imateriais que representem o seu passado, a sua história.

É a memória dos habitantes que faz com

que eles percebam, na fisionomia da cidade, sua

própria história de vida, suas experiências sociais

e lutas cotidianas. A memória é, pois, fundamen-

tal na medida em que esclarece sobre o vínculo entre a sucessão de gerações e o tempo histórico que as acompanha. Sem isso, a população urbana não tem condições de compreender a história de sua cidade, como seu espaço urbano foi produzi-

do pelos homens através dos tempos, nem a ori- gem do processo que a caracterizou. Enfim, sem

a memória não se pode situar na própria cidade,

pois se perde o elo afetivo que propicia a relação

habitante-cidade, impossibilitando ao morador de se reconhecer enquanto cidadão de direitos e deveres e sujeito da história.

Considerar a preservação do patrimônio histórico como uma questão de cidadania implica

reconhecer que, como cidadãos, temos o direito à memória, mas também o dever de contribuir para

a manutenção desse rico e valioso acervo cultural de nosso país.

Nesse sentido, por admitirmos o papel

fundamental da instituição escolar no exercício e formação da cidadania de crianças e jovens, é

fundamental da instituição escolar no exercício e formação da cidadania de crianças e jovens, é que de- fendemos a necessidade de que a temática da memória e do patrimônio histórico seja apropriada como objeto de estudo no processo de ensino-aprendizagem.

como objeto de estudo no processo de ensino-aprendizagem. DESAFIOS DA HISTÓRIA ORAL: PROBLEMÁTICAS E RECONSTRUÇÕES

DESAFIOS DA HISTÓRIA ORAL: PROBLEMÁTICAS E RECONSTRUÇÕES DA HISTÓRIA

ORAL: PROBLEMÁTICAS E RECONSTRUÇÕES DA HISTÓRIA História Oral: uma “Outra História”? Há algum tempo,

História Oral: uma “Outra História”?

Há algum tempo, os Annales, através de uma série de artigos sobre arquivos orais, levantaram a questão de saber do que se tratava: uma “outra história”? De fato, em alguns países, muitos sustentam a pretensão da história oral ser uma “outra história” e que vêem nela a possibilidade de construção de uma história diferente, tanto em seus objetos quanto em suas práticas, de uma história alternativa, livre e emancipadora, em ruptura com a história acadêmica institucional.

O que se argumenta é que a história oral seria inovadora, primeiramente por seus objetos, pois dá atenção especial aos “dominados”, aos silenciosos e aos excluídos da história, à história local e enraizada. Em segundo lugar, seria inovadora por suas abordagens, que dão preferência a uma “história vista de baixo”, atenta às maneiras de ver e de sentir, e que às estruturas objetivas e às determinações coletivas prefere as visões subjetivas e os percursos individuais, numa perspectiva decididamente micro-histórica.

Contudo, longe de serem próprias da história oral, a atenção dada a novos objetos e a adoção de novas abordagens são, pelo contrário, observadas muito além dos seus limites (vimos o exemplo da his- tória social) e constituem apenas um aspecto entre outros das redefinições metodológicas e das mutações internas da pesquisa histórica atualmente em curso.

Portanto, nem em seus objetos nem em suas abordagens a história oral merece a qualificação de “história diferente”, e a acreditar-se que ela é pioneira da pesquisa histórica e um dos campos em que se opera a sua renovação, como ignorar os múltiplos impulsos, os incentivos e os exemplos que ela en- controu fora dela, a ponto mesmo de alguns se perguntarem se a história oral não deveria parte do seu sucesso ao fato de ter sabido adaptar à história do tempo presente as problemáticas e os métodos desen- volvidos pelo que ainda há pouco chamávamos de “nova” história?

Segundo Lutz Niethammer, a história oral não seria nada mais do que uma técnica de investigação própria da história do século XX, uma ciência auxiliar que está para a história do tempo presente. Essa afirmativa já não é mais convincente, principalmente porque, diante de anos de discussão, não podemos perceber a história oral apenas como um aperfeiçoamento técnico ou um requinte metodológico.

Não podemos deixar de ressaltar, por exemplo, o contraste entre as limitações das raríssimas entre- vistas ou histórias de vida que encontramos nos arquivos e as possibilidades quase infinitas e a represen- tatividade bem maior das entrevistas e histórias de vida suscitadas pela pesquisa oral.

Além disso, a história oral não somente suscita novos objetos e uma nova documentação, como também estabelece uma relação original entre o historiador e os sujeitos da história. É certo que essa re- lação, diferente daquela que o historiador mantém com uma documentação inanimada, é de certa forma mais perigosa e temível, mas é preciso lembrar que uma testemunha não se deixa manipular tão facilmen- te e que o encontro propiciado pela entrevista gera interações sobre as quais o historiador tem somente um domínio parcial.

Sendo assim, a história oral, na medida em que se constitui um encontro com sujeitos da história, pode contribuir para reformular um

eterno problema da pertinência social da história

e também o do lugar e do papel do historiador na cidade.

Enfim, o que podemos perceber é que a história oral, mais do que qualquer outro setor da pesquisa histórica, esclarece como a pesquisa empírica de campo e a reflexão teórica sobre as problemáticas e os métodos estão indissociavel- mente ligadas, e também demonstra de maneira

mais convincente que o objeto histórico é sempre

o resultado de sua elaboração pelo historiador:

em suma, a história é construção.

pelo historiador: em suma, a história é construção. Oral Os Atuais Desafios da História Abordar o

Oral

Os Atuais Desafios da História

Abordar o fenômeno da oralidade é ver-se defronte e aproximar-se bastante de um aspecto central da vida dos seres humanos: o processo de comunicação, o desenvolvimento da linguagem, a

criação de uma parte muito importante da cultura

e da esfera simbólica humanas.

O estudo da oralidade foi desenvolvido, inicialmente, pela antropologia, no âmbito da pesquisa dos processos de transmissão das tradi- ções orais. A tradição oral foi, então, um objeto de conhecimento constitutivo da antropologia e também um meio de aproximação e interpreta- ção das culturas abordadas. Contudo, a história interessou-se pela oralidade na medida em que ela permite obter e desenvolver conhecimentos novos e fundamentar análises históricas com base na criação de fontes inéditas ou novas.

A história oral é um espaço de contato e

influência interdisciplinares; sociais, em escalas e níveis locais e regionais; com ênfase nos fenôme- nos e eventos que permitam, através da oralidade, oferecer interpretações qualitativas de processos histórico-sociais. Para isso, conta com métodos e técnicas precisas, em que a constituição de fontes

e arquivos orais desempenha um papel importan-

te. Dessa forma, a história oral, ao se interessar pela oralidade, procura destacar e centrar sua aná-

lise na visão e versão que emana na experiência dos atores sociais.

A história oral poderia distinguir-se como

um procedimento destinado à constituição de no- vas fontes para a pesquisa histórica, com base nos

depoimentos orais colhidos sistematicamente em pesquisas específicas, sob métodos, problemas e pressupostos teóricos explícitos. Fazer história oral significa, portanto, produzir conhecimentos históricos, científicos, e não simplesmente fazer um relato ordenado da vida e da experiência dos “outros”.

O historiador oral é algo mais que um gra-

vador que registra os indivíduos “sem voz”, pois procura fazer com que o depoimento não des- loque nem substitua a pesquisa e a conseqüente análise histórica; que seu papel como pesquisador não se limite ao de um entrevistador eficiente, e que seu esforço e sua capacidade de síntese e aná- lise não sejam arquivados e substituídos pelas fi- tas de gravação.

É interessante notar que, hoje, a proposta

metodológica da história oral é mais bem aceita e já faz parte do arsenal técnico-metodológico ge- ral de um número cada vez maior de profissionais

de história e outras disciplinas afins. Já se reco- nhece a existência de uma tradição acadêmica em muitos lugares do mundo, inclusive no Brasil, em áreas onde se difundiram sistematicamente e se empreenderam modernos projetos de pesquisa cujo ponto de partida e cujo eixo principal foram

a história oral.

Além disso, o âmbito de ação da história oral se amplia gradativamente e já não se limita exclusivamente aos domínios dos historiadores e demais cientistas sociais, sendo também empre- gada por alguns grupos sociais interessados em construir suas próprias versões de seu acontecer histórico.

A história oral já não tem que lutar cons-

tantemente para reivindicar um espaço no âmbito

das ciências sociais, pois sua proposta metodoló- gica adquiriu validade e competência; entretanto,

o que ela pretende, atualmente, é mostrar sua po-

tência, sua riqueza, suas dúvidas, seus problemas,

seus desafios e seus resultados.

Contudo, e apesar dos entusiasmos que ainda conserva uma espécie de rótulo historio- gráfico, a história oral conserva uma espécie de rótulo de “segunda classe”, sendo menosprezada pelos seguidores de uma tradição um tanto clás-

sica do historicismo e de algumas versões atuais do quantitativismo e do objetivismo rasteiros que subsistem nas ciências sociais em geral. Isso é em grande parte compreensível não só porque ainda não existe um conjunto abundante e significativo de trabalho historiográfico com base na constru- ção e no emprego de fontes orais, mas também por causa da natureza da matéria-prima utilizada por esse tipo de historiador: a oralidade vertida em depoimentos e tradições, relatos e histórias de vida, narrações, recordações, memória e esqueci- mentos; todos estes rotulados como elementos subjetivos de difícil manejo científico.

É por causa dos fatores mencionados que a

história oral continua parecendo constituir certa novidade, já que sua matéria, a vida e a experi- ência humanas, continua, no espaço e no tempo presente, tão fresca e tão próxima.

A novidade que se percebe consiste prin-

cipalmente em reconhecer que a história oral constitui-se pela confluência multidisciplinar; a história oral é um ponto de contato e intercâmbio entre a história e as demais ciências sociais e do comportamento, especialmente com a antropo- logia, a sociologia e a psicologia. A novidade se manifesta não só na abertura temática e metodo- lógica por parte dos historiadores, mas, também, na paulatina delimitação de uma tarefa histórica, tanto no que diz respeito ao objeto e ao sujeito de estudo, como às perspectivas e aos métodos de pesquisa.

A partir da psicologia, por exemplo, desen-

volveu-se um aspecto fundamental no ofício do historiador oral, que é a precaução metodológica mediante a utilização de certos controles sobre o tratamento da informação oral, assim como re-

flexões sobre a peculiar relação que se estabelece entre o informante e o entrevistador e os fato- res que afetam a produção e o caráter das fontes orais.

É claro que outras disciplinas também de-

ram contribuições específicas, como a lingüística (técnicas para o processo da transcrição), o fol- clore (técnicas de análises de tradições orais) e a semiótica (métodos para análise dos conteúdos do discurso oral), dentre outras.

De acordo com Marieta de Moraes Ferrei- ra em História oral: um inventário das diferen-

Ferrei- ra em História oral: um inventário das diferen- ças 7 afirma que atualmente, no campo

ças 7 afirma que atualmente, no campo da história oral, é possível detectar duas linhas de trabalho.

A primeira delas utiliza a denominação história oral e trabalha, prioritariamente, com os depoimentos orais como instrumentos para pre- encher as lacunas deixadas pelas fontes escritas. Esta abordagem tem-se voltado tanto para os es- tudos das elites, das políticas públicas implemen- tadas pelo Estado, como para a recuperação da trajetória dos grupos excluídos, cujas fontes são especialmente precárias. Nesta última, os depoi- mentos orais podem servir não apenas a objetivos acadêmicos, como constituir-se em instrumentos de construção de identidade e de transformação social.

Uma segunda abordagem no campo da história oral, segundo Marieta Ferreira, é aquela que privilegia o estudo das representações e atri- bui um papel central às relações entre memória e história, buscando realizar uma discussão mais refinada dos usos políticos do passado.

Para a autora, esta última abordagem, assim como a primeira, tem sido adotada para o estudo das elites políticas, quando a intenção principal é compreender o seu imaginário político, e também para o estudo das representações das camadas populares. Neste caso, a preocupação dominante tem sido acadêmica, ficando o objetivo de mobi- lização política bastante secundarizado.

As transformações que têm marcado o campo da história, como já vimos, abrindo espa- ço para o estudo do presente, do político, da cul- tura, e reincorporando o papel do indivíduo no processo social, vem, portanto estimulando o uso das fontes orais e restringindo as desconfianças quanto à utilização da história oral. Entretanto, apesar dessas transformações, o debate a respeito da legitimidade da história oral não é assunto re- solvido. São constantes as avaliações de historia- dores de diferentes países ou que trabalham com diferentes abordagens desqualificando este mé- todo de pesquisa. As resistências vão da rejeição completa, a partir da visão de que o depoimen- to oral apenas relata intrigas, ao questionamento da expressão “história oral” em favor de “fontes orais”.

7 Este trabalho foi apresentado no seminário temático sobre história oral e memória, no XVII encontro anual da Anpocs, realizado em Caxambu (MG) em outubro de 1993.

A principal crítica à expressão “história oral” liga-se ao fato de que nas sociedades modernas não

existe um discurso oral puro, e à perspectiva de que um depoimento oral só ganha sua plena significação em confronto com o documento escrito. Além disso, a “história oral” traria embutida a intenção de se constituir em disciplina capaz de uma interpretação científica, escamoteando-se, assim, sua finalidade de produzir fontes que serão objeto de análises e interpretações. Finalmente, critica-se a noção de que a his- tória oral seria uma outra história, discussão que já vimos, mais comprometida com a militância política do que com o rigor dos métodos acadêmicos.

À parte os problemas de terminologia, outro aspecto negativo do uso das fontes orais apontado

pelos historiadores é a dificuldade de controle da comunidade acadêmica sobre as fontes produzidas a partir de entrevistas, pelo fato de estas permanecerem nas mãos de pesquisadores individuais, não sendo facultada sua conduta aos demais interessados.

Texto Complementar A entrevista como fonte de pesquisa 1 Penso que entrevistas podem e devem
Texto Complementar
A entrevista como fonte de pesquisa 1
Penso que entrevistas podem e devem ser utilizadas por historiadores como
fontes de informação. Tratadas como qualquer documento histórico, subme-
tidas a contraprovas e análises, fornecem pistas e informações preciosas,
muitas inéditas, impossíveis de serem obtidas de outro modo. Pes-
quisas baseadas em fontes orais, publicadas nos últimos anos, têm
demonstrado a importância das fontes orais para a reconstrução
dos acontecimentos do passado recente.
Inerente às entrevistas, existe, entretanto, uma dimensão sim-
bólica que os historiadores têm a obrigação de conhecer e estudar,
pois faz parte da história. Mediadas pela memória, muitas entrevistas
transmitem e reelaboram vivências individuais e coletivas dos informantes
com práticas sociais de outras épocas e grupos. A dimensão simbólica das en-
trevistas não lança luz diretamente sobre os fatos, mas permite aos historiadores
rastrear as trajetórias inconscientes das lembranças e associações de lembranças;
permite, portanto, compreender os diversos significados que indivíduos e grupos
sociais conferem às experiências que têm. Negligenciar essa dimensão é revelar-
se ingênuo ou positivista. Ignorá-la, como querem as concepções tradicionais da
história, relegando a plano secundário as relações entre memória e vivência, entre
tempos, entre indivíduos e grupos sociais e entre culturas, é o mesmo que reduzir
a história e a uma sucessão de eventos dispostos no tempo, seccinando-a em uni-
dades estanques e externas; é o mesmo que imobilizar o passado nas cadeias do
concreto, do real, em que, supostamente, residiria sua “verdadeira natureza”, que
caberia aos historiadores “resgatar” para a posteridade.
1 Texto escrito por Janaína Amado, que pode ser encontrado na revista História da Uni ver sidade Estadual Paulista, v.
14, 1995. p. 135. O título foi elaborado por mim.

Ainda que objeto de poucos estudos metodológicos mais consistentes, a história oral, não como uma disciplina, mas como um método de pesquisa que produz uma fonte especial, tem-se revelado um instrumento importante no sentido de possibilitar uma melhor compreensão da construção das estraté- gias de ação e das representações de grupos ou indivíduos em uma dada sociedade.

Atividade Complementar 1. O que diferencia as fontes orais das escritas? 2. Cite duas dificuldades
Atividade Complementar
Atividade Complementar

1. O que diferencia as fontes orais das escritas?

2. Cite duas dificuldades ainda enfrentadas pela história oral para a sua total consolidação e reco-

nhecimento na historiografia.

3. Aponte as argumentações que defendem que a história oral seria uma “outra história”.

4. Qual a principal “cilada” que o historiador não atento pode cair com a utilização da memória

enquanto fonte?

5. A utilização da memória no ensino da história traria quais benefícios para o processo de ensino-aprendizagem?

Estante do Historiador Ouvir contar – textos em história oral, escrito por Verena Alberti e
Estante do Historiador
Ouvir contar – textos em história oral, escrito por
Verena Alberti e lançado em 2004 pela editora FGV, é
um verdadeiro manual para o historiador da oralidade.
Além de discutir as principais definições e problemas
da história oral, mostra textos de quem trabalha com
essa metodologia historiográfica.
Cinema e História
Narradores de Javé – Lançado em 2003, sob a direção de Eliane
Caffé, é um filme nacional que con-
ta com atores como Nélson Xavier e
Mateus Nachtergaele. Conta o drama
de uma cidade – o povoado Javé – que
está prestes a desaparecer devido a
existência de uma usina hidrelétrica.
Diante disso, seus moradores deci-
dem juntar informações da história
do povoado, principalmente através
da oralidade, para evitar sua destruição.
Conceito de Religião TÓPICOS ESPECIAIS RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA O conceito “religião” origina-se da palavra latina
Conceito de Religião TÓPICOS ESPECIAIS RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA O conceito “religião” origina-se da palavra latina

Conceito de Religião

TÓPICOS ESPECIAIS

RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA

de Religião TÓPICOS ESPECIAIS RELIGIOSIDADE E HISTÓRIA O conceito “religião” origina-se da palavra latina

O conceito “religião” origina-se da palavra latina religio, cujo sentido original indicava, simples-

mente, um conjunto de regras, observâncias e interdições sem fazer referências a divindades, mitos, cele- brações ou qualquer outra manifestação que consideramos hoje como religiosas. O termo “religião” foi

construído histórica e culturalmente dentro do mundo ocidental, adquirindo um sentido estreitamente ligado à tradição cristã.

Como categoria explicativa para os estudiosos dos fenômenos religiosos, religião pode ser definida, para efeitos de organização e análise, como conjunto de crenças dentro de universos teóricos e culturais específicos. Para estudar os fenômenos religiosos, o historiador deve sempre estar atento ao uso e sentido dos termos que em determinada situação geram crenças religiosas, ações, instituições, livros, condutas, mitos, ritos, teologias, etc.

Apesar de sua extrema variedade, os fenômenos religiosos aparecem como um tipo característico de esforço criador em diferentes sociedades e condições que procurando colocar ao alcance da ação e compreensão humanas tudo o que é incontrolável, sem sentido, conferindo valor e significado para a existência das coisas e seres.

As representações de Deus, deuses ou seres sobrenaturais, a organização da fé, doutrinas ou insti-

tuições, mundos do além, salvação, são fenômenos históricos, criações específicas de impulsos e silêncios, numa trama de acontecimentos e fatos singulares que variam grandemente tanto no tempo como no espaço.

Costumamos chamar de religiões, de fenômenos religiosos, sistemas extremamente complexos de idéias, conceitos, e é indispensável marcar as diferenças. Reencarnação é diferente de ressurreição; há sistemas religiosos associados a livros sagrados e outros que não possuem tradição escrita; algumas reli- giões possuem a marca de seus fundadores (por exemplo, Buda, Cristo ou Maomé), enquanto outras são animistas e naturalistas; instituições religiosas com templos, clero, sacramentos, coexistem com associa- ções livres, étnicas e “tribais” variadas. Casa sistema religioso deve ser compreendido e respeitado em sua singularidade.

Apesar da complexidade e diversidade, os sistemas religiosos podem ser agrupados segundo regras

e pressupostos comuns para fins de estudo e pesquisa. Em primeiro lugar, historicamente falando, não há

religião individual e, sim, exclusivamente religiões de grupos sociais, coletivos. O que é individual é a reli- giosidade como forma particular de participar e experimentar a religião pré-construída. Esse movimento

é dinâmico e nem mesmo os fundadores de uma religião escapam: uma nova religião pode partir de uma

relação particular da religiosidade de uma pessoa com uma religião anterior, porém só se constituirá como

religião se for adotada por um grupo social, uma coletividade, dando, assim, nascimento a uma outra instituição, sistema de crenças, ritos, organizações, etc.

Estudar a história das religiões significa identificar conjuntos de idéias, crenças, comportamentos, literatura, arte e instituições que hoje chamamos de religiosos, ao longo de determinado período de tempo.

Estudo e Ensino da História das Religiões O longo processo que envolveu a configu- ração

Estudo e Ensino da História das Religiões

O longo processo que envolveu a configu-

ração de uma história das religiões como disci- plina específica, dotada de objeto e metodologia próprios, pode ser analisado a partir das discus- sões que, ao longo do século XIX e início do XX, aprofundaram as relações entre a defesa do cará- ter racionalista do homem ocidental e a persistên- cia de formas de expressão ainda classificadas de religiosas.

O termo religião não tinha a acepção mo-

derna forjada ao longo da história da civilização ocidental, indicando simplesmente um conjunto

de normas, observações, advertências e interdi-

ções, não necessariamente relacionadas à adora- ção de divindades, tradições míticas ou celebra- ções rituais. Estruturado num contexto de lenta

e definitiva laicização, o conceito de religião co- nheceu vários significados, de Durkheim a Elia- de, passando por Lévi-Strauss, Freud, Gramsci, dentre outros.

Para Durkheim, toda religião é uma cos-

mologia e, como fator essencial de organização

e funcionamento das sociedades primitivas, se-

ria a base de toda a vida social; para Weber uma forma entre outras dos homens se organizarem socialmente; para Gramsci um tipo determinado de visão de mundo que se situa entre a filosofia

e o folclore, não se desligando, portanto, das es-

tratégias de poder que organizam diferentemen- te as sociedades; para Lévi-Strauss, baseando-se no “pensamento selvagem”, a religião pode ser definida como uma “humanização das leis natu- rais”; para Freud uma ilusão coletiva, cujo obje- tivo é dominar o sentimento de impotência que todo homem experimenta frente às forças hostis. Portanto, seja através da sociologia, da psicolo- gia, antropologia ou da psicanálise, segundo seus autores clássicos, a religião se definia a partir de uma dicotomia sagrado/profano, inscrita numa racionalidade em cuja proposta, além de descriti- va e classificatória, pouco se detinha na busca de explicações para o sentido específico das diversas formas de manifestações do que consideravam o “fenômeno religioso”.

A história das religiões também se defronta

com problemas variados que diferem de acordo

com a documentação disponível. Se as religiões pré-históricas, por exemplo, são pouco iluminadas por documentação direta, alguns grupos indíge- nas contemporâneos sem escrita podem ter suas experiências religiosas reconstruídas e estudadas graças aos métodos da comparação etnológica.

Vejamos o clássico exemplo da religião egípcia. Apesar de extremamente conhecida como iconografia, a religião continua extremamente enigmática. Uma tal distância temporal nos sepa- ra desse passado fragmentado que a diversidade se torna contraditória. Os deuses, mitos e ritos se confundem mesmo quando a extrema repetição de deuses e heróis parece não ter mudado ao lon- go de milênios e dinastias, esculturas, túmulos e hieróglifos. Embora a profusão de amuletos, fór- mulas inscritas em sarcófagos, nos templos e nas casas seja uma prova concreta de crenças mágicas, pouco se conhece desse substrato. A documenta- ção principal provém de uma massa documental característica chamada de literatura funerária, tra- tando de períodos e sobre pessoas muito diferen- tes, mas revelando articulação e sistematização.

tes, mas revelando articulação e sistematização. Deusa egípcia Nut Assim, temos uma estrutura muito varia-

Deusa egípcia Nut

Assim, temos uma estrutura muito varia- da e complexa quer normalmenter é apresenta- da nos manuais didáticos e textos de divulgação científica e histórica de forma linear e contínua. Esse exemplo serve para mostrar a complexidade e especialização alcançada pelos estudos de histó- ria das religiões.

Quanto ao ensino, traremos uma propos- ta metodológica que tomará como exemplo o estudo comparado do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. A história milenar do povo judeu é relatada ao longo do Antigo Testamento. O Cris- tianismo surgiu no início da era que recebeu seu nome na Palestina, sob a dominação do Império Romano, e a história do seu messias, Jesus Cristo,

foi narrada nos Evangelhos. O Islamismo apareceu na Península Arábia, por volta de 610 d.c.

foi narrada nos Evangelhos. O Islamismo apareceu na Península Arábia, por volta de 610 d.c. com a fi- gura do profeta Maomé.

Contudo, histórica e culturalmente, esses sistemas religiosos estiveram em contato constante. Pos- suem imaginários religiosos específicos, mas com vários elementos em comum dentro da diversidade de crenças, teologia e culturas. Afinal, o cristianismo surgiu dentro da tradição judaica helenística; havia comunidades de judeus e cristãos na Arábia na época de Maomé. Não devemos também esquecer os sete séculos de presença muçulmana na península ibérica, que marcaram definitivamente a vida de cristãos e judeus, bem como o surgimento do mundo moderno. Assim, ao estudá-las, podemos trabalhar mostran- do diferenças e similaridades, contradições e concordâncias.

É possível também explorar propostas temáticas, comparativas e multidisciplinares. Por exemplo,

em um estudo simultâneo do Islamismo, Judaísmo e Cristianismo pode surgir uma série de propostas

didáticas:

• Os diferentes períodos históricos das três religiões. • História do Judaísmo, Cristianismo e Isla-
• Os diferentes períodos históricos das três
religiões.
• História do Judaísmo, Cristianismo e Isla-
mismo em suas correntes principais e movimentos
místicos.
• Regiões geográficas distintas onde se originaram
e espalharam as três religiões.
• Os livros sagrados, Bíblia e Alcorão, Idiomas, for-
mas, conteúdo, informações.
Crenças,
teologias,
templos,
rituais,
mitos, imaginários.

É muito importante lembrar ao professor que o tema religião desperta paixões variadas em sala.

Deve existir uma sensibilização com a classe para fazer uma distinção entre aula de catequese e um estudo sobre as religiões. O professor deve dizer com clareza que, para o historiador, não existe uma religião mais “correta” do que a outra. As questões devem evitar a apologética e tentar um estudo histórico efetivo. Assim, o estudo comparativo acaba sendo um exercício fundamental de tolerância e de convivência de culturas diversas. Como o professor também possui uma convicção pessoal, ele deve, igualmente, pergun- tar se sua visão das outras religiões não é estereotipada ou preconceituosa.

outras religiões não é estereotipada ou preconceituosa. A Religião na Historiografia Brasileira Transformado em

A Religião na Historiografia Brasileira

Transformado em objeto de análise também em meio a um franco processo de dessacralização da vida política e cultural brasileira, e, portanto, inscrito no período que marcou a passagem da monarquia para a república, as primeiras reflexões sistemáticas, de cunho notadamente científico, sobre a religiosida- de brasileira acompanharam o discurso anticlericalista radical dos positivistas, que acreditaram ser a única e definitiva “religião da humanidade”.

Momento privilegiado na discussão e iden- tificação do que deveria ser o verdadeiro caráter nacional, a intelectualidade brasileira, liderada por Euclides da Cunha, Nina Rodrigues e Silvo Romero, buscou no positivismo de Comte e no darwinismo social e evolucionista de Spencer a base de uma teoria que explicasse o estágio de desenvolvimento do Brasil na linha evolutiva das sociedades européias civilizadas, fornecendo o equacionamento possível entre a superação do atraso e a defesa do que fosse especificamente nacional.

Mas se foi a radicalização da dicotomia re- ligião/ciência que deu a roupagem intelectual ao embate político entre monarquia e república, ou ainda entre barbárie e civilização, coube às práti- cas culturais consideradas populares, percebidas como frutos nefastos de uma miscigenação peri- gosa e cientificamente condenável, o papel verda- deiramente deletério no esforço de construção de uma sociedade moderna 1 .

Desde o início do século XX, o estudo do papel e da influência do elemento africano na cultura brasileira tem sido alvo de elaborações variadas e significativas para o desenvolvimento das ciências sociais, em geral, e para o estudo das religiões populares, em particular. O trabalho já citado de Nina Rodrigues, por exemplo, não só confirma as teses evolucionistas como termina por fundar uma verdadeira “escola”, precursora da antropologia física.

Roger Bastide também contribuiu para a compreensão de nossa realidade cultural e religio- sa múltipla, através do conceito de sincretismo, que para ele aparece como uma das características dos países que conheceram a escravidão, e que, portanto, misturavam “raças” e povos, impunham

a

coabitação de diversas etnias num mesmo lugar,

e

levavam à “criação”, acima das nações centra-

das nelas mesmas, de uma nova forma de solida- riedade de cor 2 . Contudo, a questão do conceito de sincretismo religioso ainda é muito discutido atualmente e não se chegou a um consenso entre os estudiosos.

O que se percebe é que negativa ou positi-

1 Sobre o assunto ver SCHWARCZ, Lília Moritz. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e a questão racial no Brasil. São Paulo:

Cia. das Letras, 1993.

2 Ver BASTIDE, Roger. As religiões afro-brasileiras. São Paulo: Pionei- ra, 1971.

vamente, os estudos sobre o caráter nacional ou sobre a especificidade de nossa formação socio- cultural, revelaram, desde cedo, uma história, no mínimi, ambígua e dicotômica, mas caminhando francamente para uma abordagem mais rica e complexa.

Também cabe citar os estudos acerca das

religiões populares. Dentre eles, o já citado traba- lho de Laura de Mello e Souza, O diabo e a Terra de Santa Cruz, sendo pioneiro no enfrentamento dessa temática através de um viés historiográfico claramente influenciado pelas contribuições mais recentes no campo das religiosidades populares. Outra contribuição importante é o trabalho de Ronaldo Vainfas, A heresia dos índios, em que

o autor faz um estudo de uma seita amerínida

surpreendentemente acolhida por um poderoso senhor de escravos na Bahia quinhentista 3 .

Atualmente, os estudos sobre religião e re-

ligiosidade valorizam os fenômenos religiosos de forma diversificada. Há o reconhecimento de que

as questões religiosas permeiam a vida cotidiana

como religiosidade popular, em formas de espi- ritualidade que fornecem elementos para a cons- trução de identidades, de memórias coletivas, de experiências místicas e correntes culturais e de in- telectuais que não se restringem ao domínio das igrejas organizadas e institucionais.

Muitos movimentos religiosos procuram repensar os papéis de gênero, opções sexuais, a participação política engajada, os conflitos em nome da fé, novas práticas espirituais, liturgias alternativas e revisões teológicas de acordo com as necessidades da modernidade, com destaque para o papel das mulheres e das minorias dentro da sociedade e cultura.

Trata-se, portanto, de privilegiar, como objetivo central de pesquisas, correntes de pen- samento, movimentos, tendências até então con- sideradas marginais à cultura religiosa “oficial”:

movimentos religiosos dos povos indígenas lati- no-americanos e africanos, religiões orientais, as centenas de igrejas evangélicas, pentecostais, neo- pentecostais, o espiritualismo, as religiões afro- brasileiras, como a umbanda e o candomblé.

Dessa forma, é necessário ampliar os li- mites, desmontando preconceitos, revendo cro-

3 VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios. São Paulo, Cia. Das Letras,

1995.

nologias e desenvolvendo análises comparativas numa área de estudos nova e emergente. Repen- sar a religião e a religiosidade numa perspectiva da história cultural é, acima de tudo, integrar no- vos códigos em que gênero, etnia, classe façam parte das formas de expressão espiritual, dos conflitos institucionais e dos novos movimentos religiosos.

Religiõesconflitos institucionais e dos novos movimentos religiosos. domblé e Umbanda Afro-brasileiras: Can- Discutir as

domblé e Umbanda

Afro-brasileiras:

Can-

Discutir as religiões afro-brasileiras é algo muito complexo. São muitas as discordâncias e as informações. Como nosso tempo é bastante cur- to, seguem apenas alguns dados acerca do can- domblé e da umbanda. Não foram incluídas aqui outras religiões também muito populares como o batuque, a quimbanda e o tambor de mina, den- tre outras. Cabe ressaltar que o preconceito devi- do ao não conhecimento dessas religiões ainda é muito grande. Portanto, cabe a você, historiador, pesquisar sempre para não cometer erros injus- tos. Portanto, mãos à obra!

Candomblé:para não cometer erros injus- tos. Portanto, mãos à obra! Síntese uma Pequena Desenvolveu-se, basicamente, na

Síntese

uma

Pequena

Desenvolveu-se, basicamente, na Bahia, onde é mais forte, embora tenha representantes nas outras regiões do país. Sua estrutura foi deter- minada, principalmente, pela religião do povo io- ruba, mas também recebeu influências de povos do Daomé e do Congo; entretanto, estas foram incorporadas à base da religião ioruba, cuja orga- nização e culto foram reconstituídos inicialmente quase sem a interferência de elementos cristãos e indígenas. Assim, predominaram na Bahia os candomblés chamados de nação Ketu, oió, ijexá, todos de origem ioruba, com pequenas diferen- ças em alguns aspectos do ritual.

Das centenas de divindades locais e re- gionais africanas, restou um pequeno grupo que resume os elementos essenciais da natureza e da vida humana. Segundo os mitos mais divulgados, Olórum criou Ifá (o destino), Obatalá (o céu) e Odudua (a terra). Obatalá e Odudua tiveram dois

(o céu) e Odudua (a terra). Obatalá e Odudua tiveram dois filhos: Iemanjá (o mar) e

filhos: Iemanjá (o mar) e Oxalá (a luz do céu). Es- tes dois, a Grande Mãe e o Grande Pai, geraram quase todos os orixás que governam o mundo:

Exu, Ogum, Xangô, Oxossi, Ossaim, Oxum, Ian- sã e Obá. Da união de Xangô com Iansã nasceu Ibeji; de Oxum com Oxossi nasceu Logunedê. Oxalá também se casou com Nana, que gerou Omolu, Eua, Iroco e Omunarê; este é um grupo de vodus (deuses do Daomé), incorporados à re- ligião ioruba ainda na África 4 .

Os pais e mães-de-santo (babalorixás e ia- lorixás) são os mais altos sacerdotes na hierarquia do candomblé. Na religião mais tradicional existe uma nítida separação entre as atribuições de ho- mens e mulheres – embora hoje em dia esta nor- ma seja bem mais flexível. Já as filhas-de-santo são responsáveis diretas pelo cuidado cotidiano dos orixás.

Também são encontrados, embora sejam menos divulgados, candomblés de origem bantu (chamados candomblés de nação angola e con- go). Seu culto tem uma estrutura parecida com a do candomblé de origem ioruba, com alguns tra- ços distintos característicos das religiões bantos originais; usa os nomes bantos dos inquices, em- bora deixando clara a correspondência que existe entre estes e os orixás iorubas.

que existe entre estes e os orixás iorubas. Algumas Curiosidades: a Semana do Candomblé 5

Algumas Curiosidades: a Semana do Candomblé 5

Segunda-feira: Exu e Omolu - os donos das encruzilhadas e dos eguns, que abrem os
Segunda-feira: Exu e Omolu - os
donos das encruzilhadas e dos eguns,
que abrem os caminhos e dão a prote-
ção necessária para que a sema-
na corra bem.
Terça-feira: Nana e Iroco -
os velhos orixás do Daomé liga-
dos à terra, que protegem contra
feitiços e malefícios.
Quarta-feira:
Xangô,
Iansã e Oba - o orixá do fogo

4 Ver GASPAR, Eneida Duarte. Guia de religiões populares do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.

5 Devo ressaltar que nem todo terreiro de candomblé segue à risca essa organização.

celeste e suas esposas também ligadas ao clima. Quinta-feira: Ogum, Oxossi, Os- saim, Logunedê -
celeste e suas esposas também ligadas ao
clima.
Quinta-feira: Ogum, Oxossi, Os-
saim, Logunedê - os orixás ligados à
terra, às matas, aos alimentos vege-
tais e animais.
Sexta-feira: Oxalá - o ori-
xá do elemento ar, do céu.
Sábado:
Iemanjá,
Oxum, Eua - as iabás (ori-
xás das águas).
Domingo:
Ibe-
vji - as crianças, a família
humana 1 .
1 Id. Ibid. p. 55.
- as crianças, a família humana 1 . 1 Id. Ibid. p. 55. Umbanda Na região

Umbanda

Na região sudeste do Brasil, a contribuição dos povos bantos foi muito importante para a formação das religiões afro-brasileiras. Pelo modo como eles foram incorporados à população, sua religião foi mais permeável às influências euro- péias e indígenas que a de outros povos africa- nos, reduzindo-se o uso de certas características do culto original e assumindo importância novas práticas, que combinam magia e espiritismo de origem européia.

Dois fatos se destacam como precursores da umbanda. Um deles foi o costume dos escra- vos de se reunirem após o horário de trabalho para dançarem e cantarem suas músicas tradicio- nais; essa prática, ao se difundir como forma de culto religiosos em terreiros e em outras áreas, ficou conhecida pelas autoridades pelo nome de “macumba”, termo que, de simples designa- ção do local das danças, passou a ter o sentido pejorativo de magia negra e orgia. O medo das macumbas era forte entre os senhores e as autori-

dades, pois as religiões africanas, em suas mentes, estavam diretamente ligadas a feitiços destinados

a vingar os escravos e destruir seus opressores.

Por isso, durante muito tempo, essa religião foi

violentamente reprimida pela polícia, assim como

o candomblé, começando a libertar-se somente

a partir do final do século XIX quando, ao ser

lentamente absorvida pelas classes médias ur- banas, foi depurada dos aspectos ameaçadores e adaptada à concepção de mundo do espiritismo racionalista recém-posto em moda na Europa. É a partir dessa épo- ca que a religião passou a adotar o nome de umbanda, derivado do termo banto “mbanda”, que designava o sacerdote de sua religião.

Outro fator importante para a formação da umbanda foi a criação, desde o século XVII, de irmandades religiosas católicas destinadas a dar as- sistência aos escravos. O próprio clero católico estimulou a superposição en- tre os deuses africanos e os santos católi- cos, já que seria importante, para a aceitação da nova crença, que os africanos reconhecessem as semelhanças entre os dois grupos de divindades. Desta forma, São Jorge era o guerreiro necessário para apoiá-los em suas lutas e São Lázaro inter- cedia por suas doenças, assim como São Pedro exercia sua justiça, e Cosme e Damião protegiam as crianças.

Os Orixás e os “sincretismos” Oxalá: Jesus Cristo; Senhor do Bonfim. Iemanjá: Nossa Senhora das
Os Orixás e os “sincretismos”
Oxalá: Jesus Cristo; Senhor do
Bonfim.
Iemanjá: Nossa Senhora das Can-
deias; Nossa Senhora da Glória.
Oxum:
Nossa
Senhora
da
Conceição.
Ogum: no sudeste e sul, São Jor-
ge; no nordeste, São Sebastião ou Santo
Antônio.
Xangô: São Jerônimo, São José,
São João e São Pedro.
Iansã: Santa Bárbara
Oxossi: no sudeste e sul, São
Sebastião; no nordeste, São Jorge.
Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E
Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E
Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E
Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E
Iansã
Iansã

Oxalá

Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E VIDA

Iemanjá

Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E VIDA

Ogum

Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E VIDA

Xangô

Iansã Oxalá Iemanjá O g u m Xangô Oxóssi O x u m COTIDIANO E VIDA

Oxóssi

Oxum

COTIDIANO E VIDA PRIVADA

O termo “vida cotidiana” remete à vida privada e familiar, às atividades ligadas à manutenção dos laços sociais, ao trabalho doméstico e às práticas de consumo. Dessa forma, são excluídos os campos do econômico, do político e do cultural na sua dimensão ativa e inovadora. Como afirma Mary Del Priore:

“A evidência mesma de uma “vida cotidiana” constitui em mecanismo ma- gistral de dicotomização da
“A evidência mesma de uma “vida cotidiana” constitui em mecanismo ma-
gistral de dicotomização da realidade social. De um lado, temos uma esfera onde
se produzem bens e uma atividade produtiva, um lugar de acumulação e, por isso
mesmo, de transformação. Aí localizado, encontramos o campo onde se articula
o futuro de uma formação social, onde se concentra tudo o que faz a história. De
outro lado, temos uma esfera de reprodução, ou seja, de repetição do existente, um
espaço de práticas que regeneram formas, sem, contudo, modificá-las nem indivi-
dualizá-las. Um lugar de conservação, de permanências culturais e de rituais: um
lugar privado da história” 1
1 PRIORE, Mary Del. “História do cotidiano e da vida privada”. IN: CARDOSO, Ciro Flamarion. Domínios da história:
ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro, Elsevier, 1997. p. 260.

Dessa forma, o indivíduo que atua na esfera da acumulação e do poder está constituído como sujeito histórico; e todo indivíduo inserido na esfera da reprodução acha-se à margem do movimento da história. Nesta perspectiva, existe a oposição entre os “detentores” e os “excluídos” da história.

Contudo, a oposição entre vida pública e vida privada não existe desde sempre. Tal idéia está ligada à instauração das relações de produção capitalista, onde o meio burguês era o detentor, levando à sepa- ração dos espaços de produção das condições materiais de vida, daqueles de reprodução da existência. Dessa forma, o espaço privado identificou-se com o ambiente familiar e doméstico.

Nesse contexto, o que se percebe é uma re- organização no ambiente domiciliar, que se tor- nou exclusivamente lugar de moradia: o que se percebe é separação entre os locais de recepção, como a sala, daqueles utilizados cotidianamente, quartos de dormir, além dos quartos dos empre- gados são distanciados das peças usadas por seus senhores.

Segundo Le Goff, a história do cotidiano se situa no “cruzamento de alguns novos interes- ses da história” 6 . Para ele