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Apostila de Filosofia - 2ª série - Ensino Médio - 3º Bimestre

Apostila de Filosofia - 2ª série - Ensino Médio - 3º Bimestre

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Apostila Bimestral de Filosofia - Prof. Jossivaldo A. de Morais

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08/27/2015

APOSTILA DE FILOSOFIA – 2ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO – PROF. JOSSIVALDO A.

DE MORAIS
PROFo: MORAIS
TEMÁTICA:

2 SÉRIE – ENSINO MÉDIO

a

3o BIMESTRE

1 – O QUE É IDEOLOGIA: VISÃO GERAL
“Uma vida não questionada não merece ser vivida.”
PLATÃO

Sentido amplo 1) Conjunto de ideias, concepções, opiniões ou crenças sobre determinado assunto sujeito a discussão e que visa um determinado objetivo; 2) Sistema de crenças de uma classe ou grupo social que inclui em sua concepção valores, ideias e projetos de grupos ou classes sociais específicas.

Sentido restrito Gramsci e a visão positiva sobre ideologia Antonio Gramsci acredita que as ideologias são historicamente necessárias porque organizam as massas humanas, formam o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam etc. Portanto, para Gramsci, a ideologia, em um ponto de vista positivo, tem a função de atuar como cimento (aquilo que une e dá solidez) da estrutura social. Quando a ideologia for incorporada ao senso comum, ela ajudará a estabelecer o consenso, conferindo hegemonia a determinada classe, a qual passará a ser dominante. Karl Marx e a visão negativa sobre ideologia Segundo a concepção marxista, a ideologia adquire um sentido negativo quando passa a ser usada como instrumento de dominação. Isso quer dizer que a ideologia tem papel importantíssimo nos jogos de poder e na manutenção dos privilégios que moldam o modo de pensar e agir dos indivíduos da sociedade. Ideologia é um conjunto de ideias e representações articuladas coerentemente sobre as coisas, capaz de provocar ação. Tem origem nas relações históricas de produção material (relações de trabalho) e seu objetivo é justificar a ordem social estabelecida.

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2 – A LÓGICA DA IDEOLOGIA
"Os homens nascem ignorantes mas são necessários anos de escolaridade para torná-los estúpidos."
GEORGE BERNARD SHAW

Frases incorporadas à cultura do povo, como por exemplo: “O trabalho é necessário”, “O trabalhador é preguiçoso”; “Todos ganham com trabalho”; “Quem não trabalha não come”; “O trabalho engrandece o homem” – afetam a prática e a ideia de trabalho em nossa sociedade. Esse conteúdo ideológico resulta em controle do processo de trabalho através de operações de vigilância sobre o trabalhador, sobre sua produtividade, seu ritmo de trabalho e até sobre suas necessidades primárias básicas (comer, dormir, ir ao banheiro etc.). Quando o trabalho não proporciona uma vida digna ao trabalhador, vale perguntar: qual trabalho engrandece o homem mesmo? O que induz os homens a aceitarem essa realidade e submeter-se à sua dinâmica, fazendo-os parecerem mais objetos que sujeitos das atividades? O que leva o cidadão brasileiro a não demonstrar sua revolta, quando o equivalente a milhões e milhões de dólares é subtraído dos cofres públicos e utilizado para atender a interesses e caprichos particulares? Há uma resposta que dá fundamento a essa indagação e indignação: a ideologia – um não saber, fruto da falta de informações completas e verdadeiras, que nos leva a identificar o social com uma realidade pasteurizada (modificada e empobrecida), livre da dominação, dos conflitos e das contradições. Essa é a lógica da ideologia: se, por um lado, ela esconde e disfarça a realidade dos fatos, por outro, pode, também, revelar as armadilhas da dominação social. A ideologia não se impõe de modo absoluto, pois em seu modo de agir ela procura provocar a nossa capacidade crítica. Porém o que ocorre é que inúmeras vezes preferimos permanecer alheios a certas verdades e problemas sociais. É preciso aprender a linguagem da ideologia e aprender a sua lógica, pois a ideologia reúne ideia e prática em uma lógica dissimuladora (que disfarça e oculta certas verdades e informações), e, para enfrentá-la, é preciso desenvolver o espírito crítico.
FONTE: ARANHA, Maria Lúcia de A.; MARTINS, Maria Helena P. Filosofando – introdução à filosofia. 3. ed. revista. São Paulo: Moderna, 2007. p. 61-63. CORDI, Cassiano et all. Para filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2002. p. 161-163. MARCONDES FILHO, Ciro. Ideologia. 8. ed., São Paulo: Global, 1994. (Coleção Para Entender: 01) TOMAZI, Nelson Dácio (coord.). Iniciação à sociologia. 2. ed. rev. ampl. São Paulo: Atual, 2005. p. 180-183.
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APOSTILA DE FILOSOFIA – 2ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO – PROF. JOSSIVALDO A. DE MORAIS

ATIVIDADE 1
1) Usando unicamente suas palavras, procure definir o que é ideologia. 2) Para que serve a ideologia? 3) A ideologia serve aos interesses de qual grupo social? 4) O que está por trás de um discurso ideológico? 5) É possível fugirmos da ideologia? Há algum lugar em que possamos ficar sem que sejamos abordados por um discurso ideológico? 6) O que precisamos desenvolver para entendermos a ideologia e não sermos manipulados ingenuamente?

LENDO E REFLETINDO A REALIDADE
Nada como a instrução!
Moacyr Scliar

O senhor não me arranja um trocado? Perguntou o esfarrapado garoto com um olhar súplice. Outro daria o dinheiro ou seguiria adiante. Não ele. Não perderia aquela oportunidade de ensinar a um indigente uma lição preciosa: Não, jovem – respondeu -, não vou lhe dar dinheiro. Vou lhe transmitir um ensinamento. Olhe para você, olhe para mim. Você é pobre, você anda descalço, você decerto não tem o que comer. Eu estou bem vestido, moro bem, como bem. Você deve estar achando que isso é obra do destino. Pois não é. Sabe qual é a diferença entre nós, filho? O estudo. As estatísticas estão aí: Pobre estuda cinco anos menos do que o rico. O menino o olhava assombrado. Ele continuou: Pessoas como eu estudaram mais do que as pessoas de sua gente. Em média, cinco anos mais. Ou seja: passamos cinco anos a mais em cima dos livros. Cinco anos sem nos divertir, cinco anos queimando pestanas, cinco anos sofrendo na véspera dos exames. E sabe por que, filho? Porque queríamos aprender. Aprender coisas como o teorema de Pitágoras. Você sabe o que é o teorema de Pitágoras? Não, seguramente você não sabe o que é o teorema de Pitágoras, Se você soubesse, eu não só lhe daria um trocado, eu lhe daria muito dinheiro, como homenagem a seu conhecimento. Mas você não sabe o que é o teorema de Pitágoras, sabe? Não. - disse o menino. E virando as costas foi embora. Com o que ele ficou muito ofendido. O rapaz simplesmente não queria saber nada acerca do teorema de Pitágoras. Aliás- como era mesmo, o tal teorema? Era algo como o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Ou: o quadrado do cateto é igual à soma dos quadrados da hipotenusa. Ou ainda, a hipotenusa dos quadrados é a soma dos catetos quadrados. Enfim, algo que só aqueles que têm cinco anos a mais de estudo conhecem.
In: CORDI, Cassiano. Para filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2002. p. 167. BLOG FILOSOFIA DIÁRIA : http://PROFEMORAIS.BLOGSPOT.COM e-mail: PROFEMORAIS@GMAIL.COM

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3 – O DISCURSO IDEOLÓGICO
“Acho que para encontrar as verdades, você deve primeiro descobrir as mentiras.”
TUPAC AMARU SHAKUR

A ideologia surge das instituições em geral – escola, família, Estado, religião, empresas, associações etc. –, as quais estabelecem normas para as relações sociais. Por meio de agentes definidos – políticos, professores, patrões, pais, padres e pastores etc. -, a ideologia manifesta seu discurso a funcionários, alunos, empresários, filhos e leigos (fiéis). A ideologia fala sobre as coisas e as situações, sempre fazendo interpretações. Cada vez mais nos acostumamos a receber de pessoas, grupos e meios de comunicação informações prontas (interpretadas), maneiras de agir já elaboradas. Isso nos poupa tempo, mas, nos leva a seguir ideias e praticar ações que não foram planejadas por nós! Vivemos envolvidos por ideologias e quase nunca nos damos conta disso. Ora aceitamos, ora resistimos em colocá-la em prática, mas não as identificamos como tais. A ideologia está presente no nosso diaa-dia justificando as nossas ações e as exigências dos grupos ou classes. Por isso é muito comum ouvirmos expressões do tipo: “Você sabe com quem está falando?” ou “É assim mesmo, esse país não tem jeito!” ou ainda: É...a vida é assim mesmo, uns nascem pra perder, outros pra ganhar...” A ideologia é isso: um processo muitas vezes contraditório de manipulação da realidade. Ela nunca explica tudo, pretende tão-somente que nos contentemos com meias-verdades. E se fala a verdade, nós nem percebemos ou questionamos. O discurso ideológico é muito envolvente, lindo e cheio de vazios, as suas justificativas são explicações dadas pelas classes dominantes.

3 – COMO SE CONSTRÕEM AS IDEOLOGIAS
"Viver é a coisa mais rara que há no mundo. A grande maioria existe, nada mais."
OSCAR WILDE

Numa certa tribo primitiva da Austrália, o ritual de passagem da infância para a vida adulta era cercado de crueldades, para provar a força, resistência e coragem dos jovens. Entre outras coisas, o jovem era fechado numa cabana, junto a um enxame de furiosas abelhas. O jovem deveria suportar todas as ferroadas sem soltar um ai. Depois ele deveria enfrentar feras no mato com instrumentos precários de autodefesa (paus, pedras, cipós etc.)... Enfim, somente após um ritual de atrocidades é que ele
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poderia ser considerado membro adulto da tribo, com todos os privilégios reservados apenas aos guerreiros. Só os filhos dos chefes religiosos da tribo, que presidiam tais rituais, é que estavam isentos dessas práticas, porque só pelo fato de serem de descendência sagrada, eles já partilhavam da força dos deuses, o que os habilitava para posições privilegiadas. Foram os próprios deuses que, no princípio, assim estabeleceram as coisas! Nem é preciso dizer, que num passado muito distante, foram os religiosos que criaram e regulamentaram os rituais de passagem. A ideologia é um conhecimento elaborado a partir de valores que beneficiam mais a um grupo que outro. Quem tem mais poder na sociedade, tem mais possibilidade de impor sua ideologia. Isso porque eles têm um pensamento mais elaborado e têm à sua disposição melhores meios para difundi-la. Os membros sagrados da tribo, devido sua posição privilegiada tinham maiores condições de impor sua cosmovisão a todo o grupo. Afinal, seu papel é altamente legitimado pela crença generalizada no seu poder sobrenatural. Precisam, portanto, justificar a necessidade da permanência da realidade como ela é, mantendo um quadro de ideias para convencer os outros disso. A ideologia, nesse sentido, é a justificação das posições sociais. A realidade é transformada em mito e o dominado crê no mito. No século XVII, os “cientistas” da Igreja tinham que acreditar e ensinar que a Terra era o Centro do Universo (teoria geocêntrica), pois assim faziam impor as Sagradas Escrituras, interpretadas pelos Santos Padres e pela Hierarquia da Igreja (cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores). Mesmo tendo apontado o telescópio para os céus e comprovado que o Sol era o centro do nosso sistema, Galileu foi obrigado a abjurar, em 1633, para não ser queimado vivo, como acontecera com Giordano Bruno, em 1600. Galileu ficou em prisão domiciliar até o final da vida. Só em 1992 a Igreja reconheceu publicamente que Galileu estava certo. Principalmente em Estados Totalitários, a ciência é muito usada para fins de justificação do regime. Por isso há controle e censura à produção científica. Hitler, por exemplo, queria provar, cientificamente, a superioridade da raça ariana sobre todas as outras raças. Uma ditadura pode usar “explicações científicas” para reforçar a necessidade de sua forma de governar. Recorrer à ciência, às estatísticas, dá uma maior importância, uma aparência de certeza da verdade. Até os dominados "defendem" a ideologia dominante! Veja a situação a seguir: - Foi Deus quem quis assim. Quando ele quiser, ele manda chuva para nós. Não podemos reclamar, não. Uma pobre mulher nordestina dizia isso em junho de 2001. - Minha senhora, não foi Deus, não! O dinheiro que já foi enviado para a SUDENE daria para ter inundado o Sertão. O Sertão poderia ter virado mar... Grande parte da culpa é dos corruptos que ficam com nosso suado dinheirinho... que, juntado, dá um dinheirão!
FONTE: CORDI, Cassiano et all. Para Filosofar. 4. ed., São Paulo: Scipione, 2002. p. 152-154. CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 13. ed., São Paulo: Brasiliense, 1983.
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5 – A GENERALIZAÇÃO DO PARTICULAR
"O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo"
NIETZSCHE

Generalizar ou universalizar o que é particular é uma das artimanhas da ideologia. A ideologia orienta e legitima a ação dos seres humanos na história, por intermédio de realidades genéricas chamadas de universais, tais como: Pátria, Família, Nação, Ciência, Igreja, Estado, Escola etc. Essas ideias nascem de situações reais e passam o ordenar toda a vida em sociedade. É como base nessas ideias que os seres humanos constroem o imaginário social (aquelas ideias que guiam a vida de grande parte das pessoas). A ideologia ao empregar frequentemente o termo “Família Brasileira”, está escondendo e justificando especificidades da realidade social brasileira. Esconde, por exemplo, a diversidade de relacionamentos familiares na sociedade atual, que vão desde laços extensivos de sangue até a situação de pessoas agregadas vivendo sob o mesmo teto. E isso ela faz, também, com relação à Pátria, ao Estado, à Escola etc. Os universais ou realidades genéricas são formas de vivência social que já não se identificam com a realidade social atual. O Estado, por exemplo, constitui uma “comunidade ilusória”, na afirmação da filósofa Marilena Chauí, porque organiza interesses específicos de grupos e frações das classes dominantes como se fossem os interesses de todos. Assim, na função de presidente, senador, deputado, juiz, governador, prefeito, vereador, diretor, indivíduos se servem dessas entidades, agem como “representantes” da Nação, do Partido, do Congresso, do Tribunal, do Estado, do Município, da Empresa, da Escola etc. As leis elaboradas, as nomeações efetuadas, os impostos cobrados, os salários fixados expressam, algumas vezes, a ação de lobbies (grupos com interesses próprios).

LENDO E REFLETINDO A REALIDADE
Quem gosta de estudar não é admirado no Brasil, afirma chinês
Ricardo Mioto

Guo Qiang Hai, 48, físico chinês que mora em São Carlos (SP) desde 1993, veio para o Brasil sem conhecer ninguém, atrás de uma bolsa na Universidade Federal de São Carlos. Desde 2003 é professor da USP.

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Adora o país, mas está preocupado. Tem uma filha de um ano com uma brasileira e acha que as escolas que ela vai frequentar não são tão boas quanto as chinesas. "Na China a escola é em tempo integral, o aluno sempre volta com tarefa. Se precisar, ele estuda no sábado." Para Hai, a escola chinesa não é melhor apenas que a brasileira. Ele tem outra filha, que estudava na China até o ano passado. Com dificuldades em matemática, tinha um professor particular. Quando a menina se mudou com a mãe (também chinesa) para a Austrália, se tornou a melhor da turma na matéria. "Todos falam para ela ‘nossa, como você é inteligente'", conta Hai, rindo. "Além de o professor chinês ganhar bem, os alunos respeitam. Existe uma cultura que valoriza o conhecimento. Aqui não é bem assim. Na TV, parece que só se admira quem participou do Big Brother, tem dinheiro, é modelo. A sociedade não põe na cabeça das crianças que elas têm de estudar." Isso se reflete na qualidade da pesquisa brasileira, diz Hai. Ainda assim, ele diz que a valorização da ciência tem melhorado: "Em São Paulo, não falta financiamento". Folga Para o pesquisador é estranho sofrer pouca cobrança. "O docente aqui é funcionário público, não tem tanta pressão como nos EUA ou na China. Aqui existem muitos que se dedicam dia e noite, mas quem não faz nada continua na universidade." Existem problemas, mas é preciso ressaltar as qualidades do país, diz. "As pessoas são legais, é fácil fazer amizade. Eu gosto muito, gosto do clima. Só português eu achei meio complicado", brinca. Hai acompanha com otimismo as notícias de seu país. "Quando saí da China para a Europa, em 1988, ela era bem fechada. Hoje mudou muito. Ainda não existem jornais particulares, a TV é estatal. Mas você pode falar com os seus amigos o que quiser. Não é que nem a gente vê na televisão aqui." Diz se impressionar com o crescimento econômico chinês. "Todo mundo está querendo ficar rico. Deus é grana", brinca. "Se você tem dinheiro, faz o que quiser."
FONTE:
Folha.com. São Paulo, 19 out 2010. Caderno Ciência. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/769028-quemgosta-de-estudar-nao-e-admirado-no-brasil-afirma-chines.shtml> Acesso em 16 ago 2011.

ATIVIDADE 2
1) Baseada em que as ideologias são criadas? E para atender a que interesses? 2) Na sua opinião, todos os discursos que ouvimos diariamente são discursos ideológicos? Justifique seu pensamento através de exemplos de discursos ideológicos. 3) Por que se diz que o discurso ideológico é lacunar?

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6 – INVERSÃO DA REALIDADE
"A ideologia do grupo alienante é fazer o individuo alienado sentir-se vencedor mesmo sem conhecer a vitória"
GERALDO DOS REIS M. FONTES

Em sua leitura da realidade, a ideologia omite a maneira de os seres humanos se associarem para sobreviver. Aí está a origem da ideologia: nas relações sociais básicas para obter a subsistência. Analisemos a “ideologia do trabalhador livre”: o trabalhador é considerado livre para vender sua força de trabalho a quem o pague. Entretanto, embora essa condição seja diferente do trabalho escravo, o trabalhador, hoje, está submetido às normas capitalistas de organização do trabalho e à lógica da acumulação de riqueza material. Portanto, não é tão livre assim! As condições para que o trabalho se realize, as suas razões e seu valor não dependem de quem produz (o trabalhador), mas, sim, dos proprietários das máquinas, equipamentos, edificações, insumos, recursos financeiros (os patrões). Pagam salários ao trabalhador e veem-no com parte de uma engrenagem de produção. Ouvimos e reproduzimos sempre: “Os pobres não enriquecem porque não se esforçam” ou “Fulano não aprende porque não é inteligente”. Na verdade, a causa real de os pobres e os miseráveis não enriquecerem são as suas condições sociais, que lhes impedem de ascender socialmente. De modo semelhante, a causa de as crianças não aprenderem não é, propriamente, a falta de inteligência e, sim, a desnutrição e o próprio sistema escolar, inadequado às crianças das classes desprivilegiadas. Graças ao poder de inverter a realidade, a ideologia troca de posição o produto e o produtor, a causa e o efeito. As relações de trabalho que estão embutidas nas mercadorias, por exemplo, aparecem aos homens como relações entre coisas. O salário esconde as horas e horas de trabalho necessárias para comprar o produto pretendido. Parece uma relação entre mercadorias e, não, entre trabalhadores que se desgastam no processo produtivo e o produto de seu esforço. Ao circularem no mercado de compra e venda, as mercadorias adquirem vida própria (fetichismo da mercadoria), tornam-se independentes de seus produtores e parecem dominá-los. Os indivíduos parecem viver em função das coisas, se não as tiverem são capazes até de ficarem doentes ou morrerem. Ao lado da fetichização da mercadoria há a reificação (coisificação), na qual o valor da mercadoria aparece aos homens como um atributo natural, algo que ele traz desde sempre consigo. Através da ideologia, a classe dominante impõe a sua visão de mundo, ao universalizar a particularidade de sua posição social, a classe dominante aceita como “natural” a sua dominação, a tal ponto que a ordem estabelecida não lhe parece ser ideologia. Prevalecem os interesses dos que
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dominam, seja na aplicação das leis, seja no uso e investimento dos recursos públicos. A indústria publicitária, por exemplo, usa métodos persuasivos para anunciar roupas, aparelhos eletrônicos, ou mesmo alimentos. Cria um ambiente propício para o consumidor identificar-se e, assim, desejar possuir algo que satisfaça sua necessidade de vestir-se, informar-se ou alimentar-se, ao mesmo tempo em que, supostamente, suprirá, também, alguma carência íntima, afetiva ou social. As ideias da classe dominante tendem a ser as ideias dominantes de uma determinada sociedade e podem estar concentradas, por exemplo, na Constituição dos países. É o caso do artigo 5o de nossa Constituição: “Todos são iguais perante a lei”. Ele faz apenas um reconhecimento teórico da igualdade social. Na prática, sabemos que alguns são “mais iguais” que outros. Como o artigo não faz essa distinção fica-nos a impressão de que não existem relações sociais desiguais. A ideologia se serve dessa lacuna para mascarar as injustiças do dia-a-dia. A ideologia não deixa a realidade das classes sociais aparecer na crueza de seus interesses antagônicos: uma classe busca o lucro; a outra, o salário para a sobrevivência. A inter-relação das classes tem a aparência de integração, que nos induz a crer na existência de uma sociedade justa, sem conflitos: “Sempre foi assim, é natural que existam pobres e ricos...”. À medida que a ideologia nos apresenta a realidade sem contradições, passamos a ver como “natural” a complementaridade dos opostos, como se fora da própria natureza dos processos sociais desenvolverem-se desse modo e não de outro.

ATIVIDADE 3
1) Identifique a ideologia presente nas afirmações:
a) “Os pobres não enriquecem porque não trabalham o suficiente”. b) “As crianças pobres não aprendem porque não são inteligentes”.

2) O que é “mercadoria fetichizada”? 3) Como a ideologia torna “natural” as desigualdades sociais?

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LEITURA COMPLEMENTAR
Se os tubarões fossem homens
Bertold Brechet

Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos? Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adaptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói. Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-seiam nas goelas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões. Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc. Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.
FONTE: CORDI, Cassiano et all. Para filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2002. p. 168-169.
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INDICAÇÕES PARA INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR
LIVROS:
EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. Trad.: Luís Carlos B. S. Vieira. São Paulo: UNESP, 1997.p. 15-40. RICOEUR, Paul. Critérios do fenômeno ideológico. In: Hermenêutica e ideologias. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

MÚSICA:
NÃO PENSO, NÃO EXISTO, SÓ ASSISTO. Leonardo Moreno. Texto Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=BJ8lfaGxh_0

FILME:
A NEGAÇÃO DO BRASIL – Joel Zito Araújo – Brasil, 2000.

VÍDEOS:
SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS. Bertold Brechet. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=PJnM03vBM_E

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