CONTEÚDO DO 1º BIMESTRE (PROVA NP-1) Módulo 1 DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO - item 1 1.

A ORIGEM HUMANA Neste conteúdo são abordados temas e idéias como: - a teoria evolucionista e a explicação da biologia para a origem e evolução do ser humano; - a colaboração da teoria antropológica sobre a visão da biologia e do evolucionismo; a antropologia defende que a explicação puramente biológica é apenas uma parte de nossa complexa evolução – o papel do comportamento cultural também foi determinante para surgimento de nossa espécie como é hoje. - a antropologia afirma que é falsa a afirmação que o ser humano é determinado pelo clima ou pela herança genética; sim, as populações se adaptam a diferentes meio ambientes para sobreviver, mas não é o meio ambiente que determina nosso comportamento; sim, cada indivíduo é resultado de uma herança genética, o que não significa que é “escravo” dessa herança.

Voltar às origens da cultura é também voltar à origem da humanidade. Ter costumes e hábitos aprendidos é um comportamento relacionado com a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. O tema possibilita uma abordagem que ressalta a importância da compreensão do ser humano como um ser bio-psico-social, ou seja, somos seres cujo comportamento é determinado ao mesmo tempo: BIO - por nossas características orgânicas (o tipo de aparelho físico que temos e como podemos utilizá-lo); PSICO - por nossas experiências pessoais racionais e afetivas de mundo e; SOCIAL - pelo meio social onde vivemos. Parece a você que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento) certos comportamentos como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos, e ainda se comunicar através desta ou daquela língua?

Pois a Antropologia, junto com outras ciências como a Arqueologia, a Paleontologia e a História, tem explorado profundamente essa questão sobre a diferença do Homem em relação ao resto do mundo animal que nos cerca. Até o momento puderam concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual BIOLOGIA e CULTURA modelaram nossos ancestrais. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico e a cultura foram responsáveis por tamanhas mudanças em nossa espécie, que hoje achamos um fato “natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”, na “lei da selva”. Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas, ou saber que alimentos são comestíveis e como devemos preparálos? Quem inventou o primeiro tipo de calçado, ou descobriu como fabricar o vidro? Enfim, como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para nossa compreensão de ser humano? Essas questões devem ser respondidas ao longo desse tema. No séc. XIX Charles Darwin (biólogo), afirmou que todas as espécies vivas resultam de uma EVOLUÇÃO ao longo do tempo. Isso significa, que se retornássemos em nosso planeta há milhões de anos atrás não encontraríamos as espécies conforme as vemos hoje. Cada ser vivo, para chegar até hoje, passou por sucessivas e pequenas transformações que possibilitaram sua sobrevivência; esse processo de mudanças orgânicas ocorre por necessidade de ADAPTAÇÃO AO MEIO. Consideremos que as condições do meio como clima, quantidade na oferta de alimentos e todas as questões relacionadas às condições ambientais, estão em constante mudança. Pois bem, as formas de vida existentes precisam acompanhar essas mudanças, estando sujeitas – segundo Darwin – a dois destinos: a) podem se adaptar e ao longo de muitas gerações apresentarem mudanças visíveis; b) não conseguem se adaptar, entrando em extinção. Quais são as espécies que conseguem se adaptar? São as que possuem alguns indivíduos do grupo dotados de características tais que o permitem sobreviver e gerar uma prole (conjunto de filhos/as) que dá continuidade a essas características. Os outros indivíduos de sua mesma espécie que não possuam tais características, não conseguindo “lutar” pela sobrevivência, têm mais chances de morrer sem deixarem descendentes. Assim, após muitas gerações, temos uma espécie que já não se parece com seu primeiro exemplar. A possibilidade da geração de uma prole com características que permitam a adaptação ao meio é, para os evolucionistas, chamada de “seleção natural” – sobrevivem apenas aqueles indivíduos com traços que os permitam a sobrevivência. Ao lado da seleção natural, as mutações aleatórias também são responsáveis pelas modificações de um organismo ao longo do tempo.

Uma das dificuldades do senso-comum em aceitar as idéias evolucionistas, está no fato que não podemos “ver” a evolução acontecendo – apesar de ela estar sempre acontecendo -, isto é, não testemunhamos alterações expressivas, pois as mudanças são muito sutis e ao longo de períodos de tempo muito longos do ponto de vista do ser humano. As alterações podem ser consideradas em intervalos de tempo não inferiores a cem ou duzentos mil anos. Portanto, muito além de qualquer evento que possamos acompanhar. Mas podemos acompanhar sim a luta pela sobrevivência e a mudança de hábitos em muitas espécies, como os pombos que povoam as cidades, mas não estão tão concentrados demograficamente nos campos. Essa espécie encontrou um ambiente ótimo nas cidades construídas pelos seres humanos, aprendendo rapidamente como obter abrigo e alimento, com a vantagem de estar livre de predadores como nas florestas e campos. Faz parte de sua evolução esse novo ambiente. Assim entendemos que a evolução biológica de todas as espécies vivas não acontece sem influencia de muitos fatores, não acontece de forma “mágica” e independente do tipo de meio e hábitos que podemos observar. Hoje em dia o darwinismo está com uma nova roupagem e temos teorias como o pós-darwinismo ou neo-darwinismo, que são conseqüência do desenvolvimento de nossa tecnologia de pesquisa, e do próprio conhecimento cujas portas foram abertas por Charles Darwin para seus sucessores.

"O APARECIMENTO DO HOMO SAPIENS- uma espécie que trabalha" O homem descende do macaco. Essa foi a afirmação polêmica de Darwin na segunda metade do séc. XIX e que dividiu opiniões na sociedade moderna. Essa polêmica permanece até hoje, pois encontrou como opositor o ponto de vista de uma prática humana muito mais antiga que a teoria da evolução: a religião. Não conhecemos nenhuma crença, em nenhuma cultura que coincida e concorde totalmente com a afirmação de Darwin. Da perspectiva das crenças, a criação da vida é atribuída a um “ser criador”, a algo externo e superior a toda a vida existente. Ao conjunto de teorias e explicações que partem desse tipo de raciocínio, denominamos “criacionismo”. Pois bem, para pensar como Darwin e a maior parte dos cientistas até hoje, esqueça suas crenças. A ciência não reconhece como possível a existência de seres superiores que tenham dado origem à vida, e muito menos entende que o ser humano é uma espécie “privilegiada” ou “superior”, seja pela capacidade de raciocínio, seja pela capacidade de criar crenças.

Para os evolucionistas, todas as espécies vivas foram surgindo das transformações de outras já existentes, dando origem a novas espécies, enquanto outras se extinguiram. Os primeiros humanos, chamados cientificamente de hominídeos, surgiram das transformações de algumas famílias de símios que fazem parte dos chimpanzés. Nossa espécie surgiu devido a mudanças biológicas e ao surgimento da cultura. Que mudanças biológicas são essas que nos diferenciam dos símios? O aumento da caixa craniana que nos dotou de um volume cerebral muitas vezes maior que o de um macaco. A postura ereta, que possibilita utilizarmos apenas os membros inferiores para nos locomover. E o surgimento do polegar opositor, que possibilita a nossa espécie da capacidade do chamado “movimento de pinça”. É a partir dessas três características básicas que desenvolvemos inúmeras outras características fascinantes como a capacidade da fala ou ainda a de fabricar instrumentos para nossa sobrevivência. Mas essas características como inteligência, fala e indústria não teriam surgido em nossos ancestrais se não fosse a presença de um tipo de comportamento que ajudou a modelar o corpo de nossos ancestrais, que é o comportamento baseado na CULTURA. Ou seja, a necessidade de comunicação, cooperação e divisão de tarefas facilitou o desenvolvimento dessas características BIOLÓGICAS. · Características biológicas: forma, funcionamento e estrutura do corpo. É a nossa anatomia, características herdadas biologicamente e que não são resultado da nossa escolha pessoal. · Características culturais: todo comportamento que não é baseado nos instintos, mas nas regras de comportamento em grupo que nos permite transformar a natureza para a sobrevivência (trabalho), e nos permite atribuir significados e sentidos ao mundo através dos símbolos (a cor branco simboliza a paz, ou o tipo de vestimenta simboliza status). Durante muito tempo pensou-se que o ser humano já teria surgido plenamente dotado dessas características em conjunto. Hoje sabemos que nossa cultura foi determinante para modelar nossas características biológicas ao longo do tempo, e vice-versa. Nossos ancestrais foram lentamente se transformando em humanos, e essa espécie que somos agora, foi aos poucos sofrendo pequenas transformações que ao longo de milhões de anos nos diferenciaram totalmente de qualquer ancestral símio. No início da história humana, nossos ancestrais eram muito semelhantes a um macaco. Tinham mais pelos pelo corpo, o cérebro era menor e a mandíbula maior. A postura não era totalmente ereta, e as mãos não tinham muita habilidade, pois o polegar ficava mais próximo dos outros dedos. O tamanho do cérebro foi aumentando muito devagar, como também a postura ereta surgiu gradualmente, e igualmente o polegar opositor não surgiu repentinamente. A cada geração, mudanças muito sutis

independente do sucesso na caça e coleta. Durante quase quatro milhões de anos sobreviveram dessa forma. Dormiam em cavernas. A introdução do trabalho como estratégia de sobrevivência. Ao fabricar os chamados instrumentos de “pedra lascada”. Nessa época não havia escrita. determinou COMO somos hoje. e não eram tão inteligentes. e mais que isso. e os únicos vestígios de comunicação encontrados são as pinturas em cavernas (arte rupestre) e pequenas estatuetas representando figuras femininas. É nesse momento que o ser humano começa a TRABALHAR. que é a mesma que nos permite falar. são fruto de uma dura luta por parte de nossos ancestrais para sobreviver em condições pouco favoráveis e convivendo com espécies mais fortes e predadores mais bem preparados fisicamente para tal. por isso dependiam de deslocamentos constantes em busca de alimento. houve uma revolução. que significa mudanças ao longo do tempo. portanto não comiam muitos alimentos cozidos. nosso ancestral permitiu operações mais complexas e passou a utilizar uma área do cérebro. É importante compreender que nossa espécie não é fruto de coisas inexplicáveis. Isso permitiu à nossa espécie se fixar por períodos prolongados em determinados lugares. mas resulta de um longo e lento processo de evolução. Um exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos. Durante muito tempo o domínio do fogo era um mistério. e o pouco que puderam fazer então determinou sua sobrevivência. e não mais viver da caça/coleta que o tornava dependente dos recursos nos territórios habitados. pois possibilitou ou exigiu que nosso ancestral desenvolvesse comportamentos capazes de mudar nossa estrutura biológica. durante o qual o ser humano desenvolveu técnicas determinantes para a história de nossa espécie: a agricultura e a domesticação de animais. A “revolução neolítica” foi um período marcante em nossa evolução. A agricultura e a domesticação de animais significaram a garantia de alimentação dos grupos humanos. formando aldeias e também colaborou para o crescimento demográfico. não tinham a postura totalmente ereta. e nesse período de tempo nossa forma física foi se alterando. e não viviam em cidades. que permitiram o sedentarismo (começamos a construir abrigos e povoados ao invés de habitar em abrigos naturais). segue um padrão estabelecido em nossa evolução para obter resultados: . até que no chamado período “neolítico”. Eram mais uma espécie entre tantas outras. e nesse processo a cultura teve um papel fundamental. Essas mudanças por sua vez. Eram organizados em bandos que praticavam caça e coleta. Nossos ancestrais não tinham a mesma caixa craniana que temos hoje. ao invés de fabricar abrigos. Sobreviveram lascando uma pedra na outra para conseguir objetos pontiagudos e cortantes que serviam como arma de caça.transformaram a espécie. como raspador de alimentos ou qualquer utilidade para a vida humana.

Entretanto. ü e a especialização. nossos ancestrais não teriam tido sucesso em sua evolução. maior permanência do grupo. Até hoje utilizamos essas habilidades de trabalho em grupo para viabilizar nossa existência social. isso tudo levou a uma maior reprodução da espécie. e para os quais foram determinantes: a postura ereta. Fixando-se em um lugar. Não é possível produzir sozinho tudo que necessitamos em nossa vida. Foram nossas capacidades de ORGANIZAÇÃO e COMUNICAÇÃO que definiram tal resultado. mais segurança com as casas fabricadas. o ser humano passa a viver em uma sociedade organizada. Mas para chegar até esse ponto. . Ele é o resultado de um processo muito longo no tempo. cooperar e se especializar permite atingir objetivos com resultados mais efetivos e também possibilita um conjunto social com melhor qualidade de vida. inaugurando o sedentarismo. A partir da escrita e do surgimento das grandes civilizações da Antiguidade como Egito. ü a cooperação com o grupo. Mais alimentos disponíveis. baseado nos princípios acima. Essas características são importantes uma vez que possibilita que cada um de nós realize apenas um tipo de tarefa. nossos ancestrais percorreram um longo caminho.ü a divisão de tarefas. o polegar opositor e a aquisição da fala. provavelmente. compartilhando a condição se HUMANOS. Se não tivessem desenvolvido a capacidade de trabalho. Tais condições permitiram aos nossos ancestrais uma organização social mais complexa baseada na SOCIEDADE. Grécia e China. afastando nossa espécie do comportamento instintivo e determinando essa longa e rica viagem chamada HUMANIDADE. divisão do trabalho e uma mente dotada de raciocínio lógico e abstrato ligado à criatividade e imaginação. nenhuma dessas características nos valeria muita coisa se não tivéssemos desenvolvido um tipo de comportamento baseado em regras de convivência social. A comunicação também sofre uma revolução que foi o surgimento da ESCRITA. O trabalho humano se fundamenta em características básicas como comunicação e cooperação. A capacidade de dividir tarefas. divisão de grupos em parentesco. e nenhum de nós estaria aqui hoje. O conjunto de tudo que o grupo social produz torna viável uma existência cultural. nos libertando da “lei da selva”. e não mais em bandos. a capacidade craniana. conhecemos exatamente como a humanidade se desenvolveu.

: 1) A respeito do evolucionismo e dos resultados obtidos por suas pesquisas.Exercício resolvido para o item 1.1 O debate das determinações biológicas e geográficas no comportamento humano. e é importante para resolução dos exercícios que você perceba que esses conceitos podem ser observados em nossa vida cotidiana. Reconhecer as inconsistências das teses deterministas é um importante aprendizado para valorizar a vida cultural dos povos da humanidade. que denominamos de teorias deterministas. por pretenderem que um povo é determinado por variáveis sobre as quais não há controle humano. Título : 1. são totalmente provenientes das características biológicas de um povo (sua carga genética) ou ainda totalmente provenientes do meio ambiente (ecossistema.  “Como a Antropologia evidencia a importância da cultura na evolução da espécie humana – a visão do antropólogo Clifford GEERTZ. A antropologia discorda dessas idéias. inacabado e sem um objetivo ou plano pré-definido. Devemos então compreender que o processo da vida é evolutivo.1 1. 24 do texto “A origem do antropos”. Além disso. Já é antiga e muito conhecida a idéia segundo a qual as diferenças de comportamento humano de uma cultura para outra.” Silas GUERRIERO afirma na pg.O debate das determinações biológicas e geográficas no comportamento humano. Neste item serão apresentadas todas as idéias acima. podemos afirmar que: c) A busca de restos humanos pré-históricos nos obrigou a considerar a evolução da espécie humana como outro animal qualquer. clima) onde ele se desenvolve.1 .item 1. 1º bimestre Conteúdo : Conteúdo de 1º bimestre (prova NP-1) DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO . indicado na bilbiografia: . essas teses deterministas descartam a possibilidade do comportamento e valores de um povo ser proveniente de sua historia e das características humanas que giram em torno da experiência de mundo. Ou seja. não apenas o ser humano. segundo essa teoria todas as espécies vivas são fruto de uma longa e lenta evolução.

mas o humano é também produto da cultura. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. compreendida como uma das características da espécie. . de Barros LARAIA discute se somos DETERMINADOS ou não pelo meio ambiente e pela herança genética : Da perspectiva biológica. se o tivéssemos conseguido. não estaríamos aqui contando essa história. o ser humano é uma única espécie. Assim.R. podemos afirmar que a cultura é produto do humano. cada indivíduo vai resultar de uma combinação genética de seus antepassados. pois. na pg. mas também é portador de informações genéticas outras. essa evolução BIOLÓGICA não foi independente de sua “parceira”. Esse movimento de populações resultou em aparências distintas para cada grupo populacional. Cada indivíduo possui um fenótipo. não teríamos diferenças anatômicas tão marcantes frente a nossos parentes mais próximos. que corresponde à aparência física.” E Roque de Barros LARAIA. Um indivíduo com o fenótipo “pele clara e olhos azuis” carrega genes com essa informação. Entretanto somos portadores de genótipos. Somos todos partes de uma mesma família que foi dividida ao longo do tempo por sucessivas migrações. provavelmente não teríamos sobrevivido e. formando um fenótipo próprio. por isso mesmo. Em outras palavras. a CULTURA humana. Vamos esclarecer alguns aspectos importantes.” A leitura desses textos desenvolve a compreensão predominante atualmente na Antropologia. que o ser humano não teve uma evolução puramente biológica para nos capacitar de inteligência e postura ereta. que são os genes que carregamos e podem ser determinantes nos resultados de nossa reprodução.“Como Geertz. mas antes. 58 do texto “Idéia sobre a origem da cultura” no livro “CULTURA – UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO”: “A cultura desenvolveu-se. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. popularmente conhecida como “raças humanas”. . Não fosse essa extraordinária capacidade de articulação e fabricação de símbolos.

populações de lugares com clima muito quente. um dinamarquês. Mesmo tendo sido totalmente desacreditadas pela ciência. É fácil encontrarmos pessoas que atribuem ao clima. apesar de terem fenótipos diferentes. explicariam costumes. Trata-se do determinismo geográfico. seja ele um esquimó. Portanto.Durante muito tempo a sociedade em geral. pois nem sempre a totalidade dos herdeiros de genes “brancos” ou “negros” apresentavam comportamentos semelhantes entre si. cujo material arqueológico foi mais recentemente reforçado pelo conhecimento genético. aos animais circundantes. e a ciência. Multiplicavam-se os exemplos de comportamentos diferentes para pessoas da mesma “raça”. um japonês e assim por diante são descendentes de grupos oriundos da África. todos os indivíduos carregam genes desses primeiros agrupamentos humanos. valores e tradições. . Você mesmo deve estar se lembrando de muitos exemplos que condizem com esse esquema explicativo. somou-se a esse equívoco científico um outro. Acreditava-se que a cada raça correspondia uma cultura. Essa é uma afirmação resultante de um século e meio de pesquisas. ou muito frio teriam sofrido influências que. Não há como refutar que qualquer indivíduo humano. e ao fenótipo de cada população a explicação sobre “porque essas pessoas desse lugar agem de tal forma”. um indiano. O determinismo biológico defendia que a herança genética seria a responsável pelo comportamento diferenciado do ser humano dentro de cada cultura. Dessa perspectiva ultrapassada. mentalidade. também seria um fator DETERMINANTE para a cultura ali desenvolvida. somadas ao fator biológico. surgiram as teorias deterministas. que defendia que a ecologia (o meio ambiente) no qual essa ou aquela população se desenvolveu. Entretanto. debateram sobre essa questão. que pretendia ser complementar ao anterior e preencher as lacunas explicativas. esses determinismos ainda hoje permeiam a visão de mundo do senso comum. é importante ressaltar que esse tipo de afirmação logo encontrou “furos”. é fundamental que você conheça os pressupostos com os quais a ciência humana contemporânea trabalha. à vegetação. um escocês. Assim. Bem. ? TODOS OS SERES HUMANOS EXISTENTES HOJE DESCENDEM DE UM ÚNICO GRUPO HUMANO ORIGINÁRIO DO CONTINENTE AFRICANO. Sim.

Mas. mas vou formular a seguinte questão sem qualquer preocupação científica ou política. seja para sobreviver. Desculpe. Portanto. e nem biologia. A quantidade de melanina na pele e a dimensão do aparelho nasal foram sendo modelados para permitir nossa sobrevivência. Mas vamos refletir melhor sobre o comportamento humano. somos uma mesma família. De fato. que foi desenvolvendo aparências distintas como resposta adaptativa ao meio. como o basquete ou atletismo e que é popularmente divulgado. os grupos que migravam para esse ou aquele lugar. que viveram praticamente isoladas umas das outras durante tempo suficiente para que fosse surgindo um tipo de “padrão” que chamamos etnia. mudanças importantes ocorreram para permitir a sobrevivência de nossa espécie em diferentes meios. O que se aceita hoje é que esses são fatores importantes na relação do ser humano com o meio. NÃO EXISTE UMA DETERMINAÇÃO BIOLÓGICA / GEOGRÁFICA que sustente a explicação sobre a diversidade cultural. Vamos a exemplos? Tomemos o caso da “facilidade” de indivíduos afrodescendentes para o desempenho em alguns esportes. há um LIMITE para tal influência. Isso foi criando fenótipos próprios a cada população humana.Portanto. até que ponto a essa herança biológica e essa influência do meio têm relação com a diversidade cultural? Leia novamente a questão. e não apenas sobre seu legado biológico. seja para se relacionarem uns com os outros. para a qual há inúmeros exemplos é: Sim! . nem ecologia são isolados ou em conjunto a única explicação para o comportamento diferenciado do ser humano dentro de cada cultura. carregavam um conjunto genético que foi se estabilizando ao longo de séculos e séculos. O que o senso comum diria a esse respeito: “Um indivíduo descendente de brancos pode se desempenhar tão bem quanto um descendente de negros nesses esportes?” A resposta óbvia. Não há dúvidas sobre a base biológica que fundamenta essa associação. Mas não são determinantes. A geografia desempenhou um importante papel para a diversidade de tipos humanos? Sem dúvida! Ao longo do processo evolutivo. Como a grande família humana foi seguindo rumos diferentes.

Qualquer coletividade está sujeita a um destino próprio. quanto mais o tempo passa. as respostas às necessidades e a qualidade dos vínculos sociais resultam de uma história que é única àquele grupo. . O que ocorre é que um indivíduo com facilidades genéticas chega ao mesmo resultado com mais facilidades. Vamos supor que você tome uma parcela da população norte-americana de hoje e os coloque para viver durante um longo período de tempo em um outro local. os desejos e o investimento social que cada indivíduo pode dispor para desenvolver certas características de seu comportamento. E assim se dá. das experiências coletivamente vividas. O ser humano depende de desejos. Ele não necessita dos genes para ser isso ou aquilo. estímulos e condições para chegar a objetivos. poderá ver que existem características que os diferenciam. Os genes podem ser facilitadores para certas coisas. dessa experiência de vida que não se repete exatamente com os mesmos eventos. precisa se dedicar mais para atingir igual resultado. o resultado será sempre o mesmo: uma cultura própria. com características ambientais muitos semelhantes às quais estão acostumados. Basta que se dedique a aperfeiçoar o que deseja ser. se não há determinismos? O ser humano é uma espécie moldável e criativa. mas acima de tudo está a determinação. O que explica a diversidade cultural. Portadores das marcas da história. e não fatores determinantes. cada grupo vai construindo um conjunto absolutamente único que é sua cultura. Daqui a algumas gerações. Em cada grupo social. se você for analisar esse grupo e o grupo de origem. vamos considerar o que se segue. E a cultura é o resultado. A genética e a geografia são elementos na relação do homem com o meio. Concorda? Um indivíduo descendente de brancos que se determine a ser “exemplar” no basquete ou no atletismo pode atingir esse objetivo perfeitamente. das soluções criadas. Onde quer que se forme um grupo social.Entretanto. da mesma forma em todos os lugares. Aquele que tem a genética “contra si”. a cada momento. Isso para qualquer coisa que você possa pensar. A diversidade cultural é inerente ao ser humano.

in LARAIA. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. “O desenvolvimento do conceito de cultura” (item 2.. in LAPLANTINE.O surgimento da cultura na humanidade. 37-62. Roque de Barros. Rossano Carvalho. Antropologia. CULTURA . SP: Brasiliense.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid=63 NUNES. Bibliografia Textos básicos: “Idéia sobre a origem da cultura” (item 2). 1º bimestre Conteúdo : CONTEÚDO DO 1º BIMESTRE (PROVA NP-1) Módulo 2 2. CULTURA . APRENDER ANTROPOLOGIA. F.1 .Um Conceito Antropológico.gpveritas. “O século XVIII: a invenção do conceito de homem”. Rossano Carvalho. .org/portal/index. “Antecedentes históricos do conceito de cultura”. Sugestão de texto eletrônico disponível na Web: NUNES.Exercício resolvido para o tema 1.Um Conceito Antropológico.” Esse tipo de afirmação está corretamente associado com que se segue: A ) Determinismo biológico Título : 2. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR.O surgimento da cultura na humanidade. 17ª ed. 2005.1: 1) “Um menino e uma menina agem diferentemente em função apenas de seus hormônios.O conceito de cultura através da História. 2.. 2005. pgs. Textos complementares: “A pré-história da Antropologia”.php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=64 . in LARAIA.gpveritas. Roque de Barros. 19ª ed. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www.org/portal/index. pp 30-52. Cultura.1). Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. e não em decorrência de uma educação diferenciada. 2007.

é dado pela nossa cultura. são criados de acordo com uma mentalidade coletiva comum.Objetivos: O termo “cultura” não é utilizado apenas para descrever o conjunto de conhecimentos e tradições de um povo. modifica nossa ética de relação com o meio ambiente. chorar ou sonhar varia imensamente. incluindo planos pessoais e organização de regras de convivência. e esse termo pode servir para diferenciar pessoas de acordo com seu status ou ainda para afirmar a superioridade de alguns povos sobre outros. e passou a depender da cultura? Ou ainda. E em cada uma das culturas humanas. Esse “modelo” para nos comunicar e dar sentido ao que pensamos. Poderá também identificar a importância da cultura como mediadora das relações humanas e nossa capacidade de comunicação através dos símbolos.item 2 A antropologia propõe que a cultura é a base de nossa forma de encarar o mundo à nossa volta e dar formas e significados a ele. nossa carga genética) e meio social. . sonhos e mensagens. aquilo que nos faz rir. com a visão científica que universaliza a condição cultural humana. Há inúmeras formas em seu uso. como podemos relacionar a evolução de nossa espécie e a influencia da cultura no desenvolvimento geral da Humanidade? Somos seres culturais. e não simplesmente somos “jogados” nele. Compreender como isso se deu. Desde a língua que falamos para nos comunicar. é resultado de um modelo coletivo de pensar como devemos ser? Isto significa que aprendemos a estar no mundo. Ao final deste tema. Identificar a pesquisa antropológica como instrumento de aproximação entre diferentes universos culturais. modelou a evolução até mesmo biológica de nossa espécie. Portanto há questões éticas envolvidas com esse conceito. que chamamos de cultura. Nosso comportamento baseado em valores e tradições. em que momento de nossa evolução o ser humano passou a viver distante da natureza e dos instintos. portanto todo o nosso comportamento depende de uma combinação complexa entre característica inatas (que fazem parte de nossa natureza. até os símbolos que associamos a crenças. Vamos considerar que grande parte das coisas que realizamos em nosso dia-a-dia. DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO . Mas afinal. você poderá confrontar as noções de cultura do senso-comum que remetem a hierarquias sociais de educação e formação de valores.

o ser humano nunca foi uma espécie apenas por suas habilidades orgânicas. junto com outras ciências como a Arqueologia.. . entre eles. Assim. pois somos biologicamente dotados de inteligência. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico e a cultura foram responsáveis por tamanhas mudanças em nossa espécie. a Paleontologia e a História.desenvolvimento de linguagens para a comunicação. de forma surpreendente.tradições e hábitos comuns.ideias e crenças. por que nosso cérebro se desenvolveu de forma a permitir esse tipo de inteligência que os humanos se gabam por ter exclusividade? Essa questão foi investigada largamente por especialistas tanto das áreas de conhecimento das ciências biológicas como das ciências humanas. Pelo contrario. pois nossos ancestrais se comportavam de forma cultural. como fala e fabricação de instrumentos. mais necessário à sobrevivência seria ter essas capacidades. Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas. que hoje achamos um fato “natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”. o comportamento de nossos ancestrais. ou saber quais alimentos são comestíveis e como devemos prepará-los? Quem inventou o primeiro tipo de calçado. nos dotado dessa inteligência. Mas. nossa evolução biológica teve influencia de muitos fatores. explorou profundamente essa questão sobre a diferença do Homem em relação ao resto do mundo animal que nos cerca. etc.regras de comportamento em grupo. essas características foram acentuadas. e ainda se comunicar através desta ou daquela língua? Pois a Antropologia. . é aquela que afirma que somos capazes de desenvolver cultura. os indivíduos cujo cérebro não era .. como capacidade de raciocínio e postura ereta. . Pelo contrário.desenvolvimento de tecnologia e de saberes. . Conforme o aumento gradativo do cérebro[1] permitia o desenvolvimento de habilidades mais complexas. e que se encontra repetida muito comumente. ou descobriu como fabricar o vidro? Enfim. como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para nossa compreensão de ser humano? Uma resposta bastante simplista. Parece a você que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento) certos comportamentos como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos. Nesse comportamento podemos citar: . Eles acabaram por definir que não houve na evolução humana apenas um fator isolado que tenha. na “lei da selva”. e puderam concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual BIOLOGIA e CULTURA modelaram nossos ancestrais. quando o ser humano passou a se comportar de forma cultural? Segundo a antropologia.Mas.

94). pode-se pensar que a cultura. também aumenta a sua dependência da cultura para sobreviver. Vera S. criatura e criador da cultura. pois tinham menores chances de sobrevivência.br/puc/vera%20bussab. que somos “biologicamente culturais”. Então. que podem ser encontrados no texto que está indicado na bibliografia complementar: “O modo de vida estritamente cultural impõe uma série de exigências para seu funcionamento.” (BUSSAB.) A própria cultura é uma característica biológica Há.pdf ) Um exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos. R. submete. Nas palavras de Morin (1973. Desse modo.. ao aumentar as chances de sobrevivência do grupo. e vice-versa. p. por outro.vet. Portanto. (. mesmo várias décadas depois.92). ou “culturalmente biológicos”. assim que nossos ancestrais desenvolveram uma dependência da cultura para sobreviver. Dentro de um jogo complicado. de que a chave para a compreensão da natureza humana está na cultura e a chave para a da cultura está na natureza humana. aumenta muito a importância da proximidade e das relações sociais por um lado. se diz atualmente entre muitos cientistas. isso é a “seleção natural” na teoria da evolução de Darwin. Entretanto. Um fator (biologia) ajudou a modelar o outro (cultura). RIBEIRO. apesar da força do argumento. Fernando L. ainda não se foi muito adiante. Ao fabricar os chamados instrumentos de . "desaba o antigo paradigma que opunha natureza e cultura" (p. Leia aos trechos abaixo. a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural. texto disponível em: http://pet. O homem é a um só tempo. mais do que isso: o ser cultural do homem deve ser entendido como biológico. Há mais do que um jogo de palavras na afirmação de que o homem é naturalmente cultural. porém. e da inteligência. Ao mesmo tempo em que liberta. “Biologicamente Cultural”. Nenhuma espécie envereda por um caminho destes impunemente. não deixavam descendentes. Para começar. um cérebro mais complexo e seu uso para desenvolver habilidades sociais. ou ainda. "o que ocorreu no processo de hominização foi uma aptidão natural para a cultura e a aptidão cultural para desenvolver a natureza humana". eram fundamentais aos nossos ancestrais humanos. entrando em outra. Ao que tudo indica.. Escapa-se de uma armadilha.desenvolvido o suficiente para adquirir fala ou fabricar instrumentos. Compreender o impacto da cultura na evolução humana tem sido um desafio constante.. Assim. a cada geração..

as famílias humanas foram adquirindo características físicas diferentes em função tanto da necessidade de adaptação a novos meios. Explicando. olfato. . um corpo cilíndrico. que é a cultura. Nesse longo caminho. Existe toda uma corrente de pensadores na Antropologia. Em alguns milhões de anos . a origem dos primeiros humanos ocorreu no continente africano entre 200 e 100 mil anos atrás. Foram-lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição atual. suas garras para segurar e dilacerar. Segundo uma grande quantidade de pesquisas arqueológicas. ao utilizar os recursos da inteligência de forma cultural. mas é reconhecida como o descendente remoto de animais terrestres carnívoros. nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda. que a cultura é uma característica que torna a humanidade completamente diferente em seu curso evolutivo.Um Conceito Antropológico. ao passo que a baleia original teve de transformar-se ela mesma em barco. por alteração gradual de pai a filho. mais. L certo que algumas de suas partes degeneraram. em conjunto do que ganhou. talvez. Roque de Barros.. Não transformamos. que compensa a falta de expressividade de nosso organismo. que é a mesma que nos permite falar.. Entretanto. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. e adquiriu nadadeiras e cauda. que consiste na teoria científica mais aceita. pgs 40-41) Kroeber chama a cultura de “superorgânico”. que defendem inclusive. Cultura . inaugurado pelo americano Alfred KROEBER. visão ou mesmo força física. nenhuma utilidade teriam na água. como pela combinação da carga genética de cada grupo. Nem precisamos absolutamente entrar na água para navegar. inalterados com relação aos de nossos pais e dos mais remotos ancestrais. Leia o trecho que se encontra no livro de nossa bibliográfica básica para esclarecer melhor essa questão: A baleia não é só um mamífero de sangue quente. no mínimo. Mas houve um novo poder que ela adquiriu: o de percorrer indefinidamente o oceano. Muita coisa perdeu a espécie. uma camada de banha e a faculdade de reter a respiração. (LARAIA. 2007. esse animal perdeu suas pernas para correr. nosso ancestral permitiu operações mais complexas e passou a utilizar uma área do cérebro. Os nossos meios de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento natural. Frente a outros animais. E isto quer dizer que preservamos intactos nossos corpos e faculdades de nascimento. povoando os outros continentes. Encontramos o paralelo e também o contraste na aquisição humana da mesma faculdade.“pedra lascada”. seu pêlo original e as orelhas externas que. pois enquanto as outras espécies passam por modificações anatômicas ao longo do tempo para se adaptar a novas condições. Construímos um barco. Nós os fazemos e utilizamos. o Homem utiliza um “equipamento extra-orgânico”. 21ª Ed. pois dota a humanidade de uma flexibilidade adaptativa a tantos ambientes. superamos limites de nosso organismo. Esse grupo teria começado sua imigração para fora da África entre 65 e 50 mil anos atrás. o ser humano não possui capacidades anatômicas muito destacadas como velocidade.

e faz parte de nossa forma de sobrevivência. relações sexuais entre indivíduos relacionados por vínculos familiares muito diretos. A partir do momento em que nossos ancestrais formularam essa regra. que entre todas as atitudes humanas que nos caracteriza como uma espécie cultural. Segundo Lévi-Strauss. como pais e filhos. a origem da cultura humana coincide com a origem de toda nossa espécie. não há sustentação na afirmação simplista de que tenha sido apenas pela observação de problemas genéticos resultantes dessas relações que o ser humano tenha instituído essa regra. para ele. para Lévi-Strauss. por marcar em nossa evolução. uma ética de mundo que nos dá consciência. inaugura-se a cultura. está no fato de ter retirado definitivamente o ser humano da esfera da natureza.Portanto. o momento em que o ancestral humano deixou de agir como animal e passou a agir como Homem. compreendem que esse debate sobre a evolução de nossa espécie. trata-se de uma das únicas regras que tem validade universal em nossa espécie. Então. que proíbe as relações incestuosas. É um marco simbólico. Mas uma forma muito importante de explicar nossa espécie. É uma regra de ordem moral. não é mais importante que o debate sobre nossa condição de existência. como agimos o tempo todo pautados em uma moral. Ele afirma inclusive. entenda. Já outros antropólogos. Ela sempre existiu. ou memória. Ou seja. Para um grupo iniciado pelo francês Claude Lévi-Strauss. Ou seja. não depende de época ou cultura. ou tios e sobrinhos. que é universal ao ser humano. Esse momento teria sido a instituição da regra. Todo se humano. podemos pensar que de fato. que é a de ter nos distanciado dos instintos. Sua importância. Ou seja. muito mais do que de efeito prático. Outros animais podem fabricar coisas. supera em qualquer condição o horror a uma prole com problemas genéticos. e ter atitudes inteligentes. e sim. O horror moral que provoca em qualquer ser humano. em qualquer sociedade evita e pune essa prática. dos instintos. muito mais do que as considerações sobre nosso equipamento biológico. é importante perceber como a cultura nos moldou como seres que agem não apenas preocupados com realizações praticas de sobrevivência. a notícia de que algum individuo tenha burlado essa regra. dota a espécie humana de uma característica fenomenal. Lévi-Strauss afirma que o fato de possuir cultura. ela tem uma importância especial. . Concorda? Pois bem. o foco dessa questão sobre a origem da cultura está em conseguir perceber a importância do impacto do comportamento orientado por valores e regras. uma tem importância especial. Assim.

SAIBA MAIS “Origem da cultura – a ética da relação ser humano / natureza” Apesar de você não encontrar referência a isso na bibliografia indicada. e pode ser interpretada como segue. Os animais domesticados quase sempre o conseguem. SP: Olho d´Água. vale dizer. tem sido um meio ambiente que ameaça os destinos de nossa própria espécie. não apenas o produtor de cultura. Exercício 1) O antropólogo americano Clifford GEERTZ. . a consequência disso tem sido uma prepotência humana em relação à natureza circundante. seu comportamento passa a ser orientado por outras regras que não o instinto. o produto da cultura” (LARAIA. mesmo assim. que sofre de uma ausência de ética no relacionamento com as outras espécies vivas. manipular a natureza. O resultado. por ter um cérebro que permite controlar o ambiente e os recursos de nossa sobrevivência. Cultura. bem conhecido de todos. controlarem um instinto. “Antropos e Psique – o Outro e sua subjetividade”. destruir. 2005. Infelizmente. 57). Procure o capítulo intitulado “As origens do antropos”. e todos os indivíduos de sua mesma espécie. E. não se pode garantir que seu instinto não venha a aflorar em certas situações. assim. e subjuga à extinção uma grande quantidade de outras espécies. Mas já não fazem parte da natureza. afirma que o crescimento cortical humano (o córtex cerebral) foi posterior e não anterior ao surgimento da cultura. o ser humano que se sente superior. como a exposição a alimentos. esgotar. se sente também no direito de se apoderar. Essa afirmação faz parte do debate sobre a evolução biológica humana e o surgimento da cultura. O desequilíbrio provocado pelo Homem em seu meio não é consequência apenas da necessidade de avanço industrial e urbano. Ele afirma que “isso é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. Como o nome diz.B. Assinale a alternativa correta: e) Propõe pensarmos a evolução biológica humana como um processo simultâneo ao desenvolvimento das habilidades culturais. num sentido especificamente biológico. Você pode ler mais sobre isso no livro: GUERRIERO Silas (org). são “domesticados”. é importante ressaltar qual a importância dessa temática sobre a evolução humana e o desenvolvimento de nossa inteligência que nos permite viver em cultura. conseguindo agir de forma a negá-lo.Mas é muito mais difícil um animal. Mas também. É também do modelo para realizar esse “progresso”. O ser humano tem uma tendência a compreender que sua própria espécie é superior a todas as outras. 2005 pg. situações de agressividade contra os próprios donos e assim por diante. É isso mesmo. aos mesmo tempo. R. RJ: Jorge Zahar.

o córtex forma sulcos para aumentar a área de processamento neuronal. por outro lado. percepção e pensamento. consciência. Nesses exemplos já é possível percebermos a complexidade e a multiplicidade do uso que fazemos desse conceito. percebemos que existe uma concepção segundo qual cultura é uma questão de status e está muito relacionada com a aquisição de conhecimento letrado[1]. Normalmente as pessoas utilizam essa palavra em frases como: ”O brasileiro precisa valorizar mais sua própria cultura”. O termo cultura existia muito antes da Antropologia e outras ciências humanas passarem a utilizá-lo para fazer referencia ao conjunto de hábitos que torna uma sociedade algo totalmente única e particular. Mas não é essa a origem da palavra. percepção. De acordo com o uso popular. “A cultura oriental é muito antiga”. É formado por massa cinzenta e é responsável pela realização dos movimentos no corpo humano.22m2 (se fosse disposto num plano) e desempenha um papel central em funções complexas do cérebro como na memória. Então ele é um conceito científico certo? É isso mesmo. sendo rico em neurônios e o local do processamento neuronal mais sofisticado e distinto. Conteúdo do 1º bimestre – PROVA NP-1 2. minimizando a necessidade de aumento de volume. se não houvesse córtex não haveria: linguagem. com uma área de 0. da razão.org/wiki/C%C3%B3rtex_cerebral ): O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados. Veja a definição da Wikipedia (http://pt.[1] O aumento do cérebro permitiu o desenvolvimento do CÓRTEX CEREBRAL. Em animais com capacidade cerebral mais desenvolvida. “Fulano é uma pessoa que tem muita cultura”. o desenvolvimento do córtex permitiu o desenvolver da cultura que. o que ele recebe é processado e integrado. Precisamos começar a diferenciar quais são utilizações do chamado senso-comum e. É a sede do entendimento. linguagem. memória. o sentido atribuído a esse conceito é que se trata de uma coisa possível de ser acumulada e que distingue um indivíduo dos demais. foi servindo de estimulo ao desenvolvimento cortical. Para refletir sobre a complexidade desse conceito. . vamos começar tomando exemplos de como podemos encontrar o uso da palavra cultura em situações cotidianas. Na frase “fulano é uma pessoa que tem muita cultura”. que parecem organizados em agrupamentos chamados microcolunas. atenção. emoção. por sua vez. “A cultura desse lugar é muito atrasada”. O córtex humano tem 2-4mm de espessura.wikipedia. O córtex é o local de representações simbólicas. respondendo com uma ação. É constituído por cerca de 20 bilhões de neurônios. como a ciência antropológica compreende e define cultura. cognição.1 . No Homem.“O conceito de cultura através da história” A antropologia social tem como conceito central o conceito de CULTURA.

podem compreender também culturas próprias. mas que se acumula no conhecimento transmitido por livros. Já numa outra situação como na frase ”o brasileiro precisa valorizar mais sua própria cultura”. há a preocupação em situar o conjunto da produção cultural e da história de nosso país. religião. a palavra cultura existia APENAS com o registro de “agricultura”.A sociedade em geral pensa cultura como relacionada ao acesso a estudos clássicos e letrados. Assim podemos ver que os limites políticos e geográficos que são as nações. mas é importante. que nesse caso. folclore. há a preocupação em pensar cultura como um conjunto de coisas (denominados “elementos da cultura”) que podem se transformar tradições. arte. surge a noção que cultura é algo que se acumula e se mantém (ou se perde) ao longo do tempo. que vão das mais “atrasadas” às mais “avançadas”. Nesse caso. dando a idéia de passagem do tempo. Já o uso do conceito de cultura pela Antropologia. Comparam-se assim as chamadas “culturas nacionais”. já outros elementos se transformam. Para compreender essa multiplicidade de usos do conceito de cultura. sem a lógica do julgamento. XVIII. tem como idéia central fazer referencia a hábitos. É importante ressaltar que não há maneira mais correta ou incorreta de pensar cultura nos exemplos apontados. autores. ETIMOLOGIA DA PALAVRA CULTURA[2] * Até o séc. cultura se torna um conceito que permite fazer discriminações. Normalmente as pessoas se referem ao comportamento coletivo. existe uma nítida noção popular segundo a qual deve existir uma hierarquia entre as diferentes culturas. culinária e assim por diante. na frase “a cultura oriental é muito antiga”. e somos capazes de perceber que de uma sociedade para outra mudam regras. Nesse caso. técnicas e todo o conjunto de valores de um povo. autoridades em cada assunto. valores. O conhecimento letrado é aquele que não faz parte da “escola da vida”. à qualidade da vida social. saberes. . Vamos a outro de nossos exemplos. pois são mantidas ao longo do tempo. consiga perceber que o uso popular tem formas de julgar pessoas e povos através de sua cultura. seja em seu desenvolvimento tecnológico. nada mais significa que o acesso a informações e à cultura letrada. É o que você poderá perceber com o texto que segue e utilizando a bibliografia indicada. é importante resgatar o processo histórico que transformou seu uso. que você como estudante dessa disciplina. Na frase “a cultura desse lugar é muito atrasada”. ou até mesmo usar preconceitos contra outros. Finalmente. ou pela chamada “educação do povo”. costumes. Elas querem expressar a existência de culturas que desenvolvem meios para que as necessidades sociais sejam mais bem solucionadas.

* LEMBRE-SE: até o momento das Grandes Navegações. utilizar. costumes e tradições. o “mundo conhecido” pelos povos da Europa se resumia ao Norte da África. e que habitam a África. com um modo de vida totalmente desconhecido para eles. * Nesse contexto. “aborígenes”. “primitivos”. * Os diversos comportamentos culturais humanos. preocupados em diferenciar pessoas/povos que cultivam a educação refinada (burguesa) * Nos sécs. Isso tudo aplicado ao UNIVERSO humano das coisas e idéias que nos cercam. as Américas e a Austrália traz inquietação aos europeus. idéia de que um povo cultiva suas tradições * FRANÇA – (cultura = “civilization”). quando o conceito de cultura começa a ser associado a comportamento coletivo de um povo. XVI e XVII: * RENASCIMENTO * GRANDES NAVEGAÇÕES E A ENTRADA DO “NOVO MUNDO” NO MAPA MUNDI. o conceito de cultura demonstra já uma relação entre HABILIDADES HUMANAS e o domínio da natureza circundante. Após isso. aperfeiçoar. Como se deu essa mudança? * Revoluções anteriores – séculos XV. consumir.* Em sua origem. educação. . * A mentalidade européia passa por um impacto de profundas alterações econômicas e sociais (os lucros com as Colônias. causou espanto e dividiu as reações da população européia [3]. chamados de “índios”. Veja abaixo. China e Índia. O contato com os povos nativos de outros continentes. XVIII e XIX estavam em processo de criação os Estados nacionais. pois a classe dominante precisava algum apoio ideológico para convencer diferentes povos que a partir de então eles fariam parte de uma mesma “nação”. Além de agricultura. COMO A PARTIR DO SÉC. XVIII A DEFINIÇÃO DA PALAVRA CULTURA SOFRE UMA GRANDE TRANSFORMAÇÃO A partir desse momento histórico. Oriente Médio. Agricultura é uma habilidade em observar o desenvolvimento das espécies vegetais e aperfeiçoar as condições para o bom desenvolvimento e o cultivo em larga escala. Era necessária a discussão sobre cultura. os países como conhecemos hoje. o contato com outros povos). na FRANÇA E ALEMANHA surgem duas diferentes definições de cultura (séculos XVIII e XIX) * ALEMANHA – (cultura = “kultur”). o contato com outros povos prepara o momento seguinte. a palavra cultura adquire uma MULTIPLICIDADE de sentidos. * O contato com povos de outros continentes fora da Europa. hoje ela é associada a conhecimento. nesse registro demonstrariam nossa capacidade de manipular.

representavam estágios mais atrasados e pouco importantes em relação aos povos europeus. 4 do livro Cultura – um conceito antropológico). Atenção a um detalhe importante: repetindo. Esse tipo de pensamento se encontra em quase todos os pensadores de então. O autor é Edward TYLOR que definiu cultura como "um conjunto complexo que inclui os conhecimentos. ou ainda “darwinismo social”. . historiadores e até filósofos daquele século. têm em comum a tentativa de explicar a diversidade de povos e culturas. No que diz respeito ao conceito de cultura. em oposição ao tipo de pensamento que surge no sec. você pode perceber isso? Continuando. com a idéia de evolução multilinear (localize essas idéias no cap. no singular mesmo! Pois havia na época a convicção de que haveria uma única forma de cultura humana. que passa a ser utilizada para além de seu campo original. Pois o evolucionismo se transformou em paradigma. XX. a moral. O séc. Trata-se de uma teoria que defende existirem ESTÁGIOS EVOLUTIVOS para a cultura humana. Todas as definições que antecedem e foram trabalhadas por filósofos dos séculos XVII e XVIII. * Também é nesse momento que a palavra cultura passa a ser associada com DISTINÇÃO SOCIAL. Quanto aos outros povos. cujo exemplo máximo de evolução seria aquela praticada pelos povos europeus. foi criado o chamado EVOLUCIONISMO SOCIAL. da mesma forma que existem os estágios evolutivos para cada espécie. ela foi tão importante e revolucionaria que acabou criando o que chamamos nas ciências de PARADIGMA. Como observamos. Os primeiros registros do uso científico do conceito de cultura surgem na segunda metade do séc. Um paradigma é uma teoria que adquire tamanha força explicativa. Apesar de sua teoria ser relativa única e exclusivamente à biologia. as crenças. está bem próximo da forma como na França se desenvolveu esse conceito. e influenciou profundamente cientistas sociais. “estágios evolutivos para a cultura humana”. e as que surgem após Tylor.* Perceba como é nesse momento que a palavra cultura amplia seu significado. a arte. É o que chamamos de evolução unilinear. Vale lembrar que o registro que o senso-comum tem hoje da palavra cultura. XIX (1871). Perceba então que na época não se pensava no plural: “culturas humanas”. a lei. os costumes e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade". Então muitos pensadores utilizam aquela idéia como fonte explicativa para suas próprias questões. pessoas “civilizadas” e “cultas” e pessoas “atrasadas” e “incultas” (registro francês da palavra). dominamos e orientamos a conduta e o cultivo das relações sociais (registro alemão da palavra). sendo associada TAMBÉM à idéia de COMO UM POVO CULTIVA SEU COMPORTAMENTO COLETIVO. XIX sofre um profundo impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin. assim.

tecnologia. como os ingleses. metalurgia. Quanto menor a semelhança com esse tipo de aparato cultural. Eles eram chamados de bárbaros. árabes e hindus. que ficou bastante conhecida como Escola Cultural Americana. franceses ou alemães entre outros. pois os genes acabaram se tornando mitos no mundo moderno. não produziam além do necessário para a subsistência. bárbaros e civilizados. maior a evolução de uma cultura. que não possuíam escrita. instituições políticas complexas.. ciência. inclusive. suas ex-colônias. dentro dessa concepção de uma linha única e imaginaria de desenvolvimento dos povos? Os critérios eram basicamente a presença ou ausência de quesitos como: escrita. Isso gera a idéia de múltiplas linhas de culturas (veja que agora aparece o plural). Ele funda uma corrente de pensamento denominada PARTICULARISMO HISTÓRICO. A principal reação ao evolucionismo tem início com o pensamento de Franz BOAS. Neles parecem residir “chaves” e segredos incríveis. Então seguiriam os povos como os chineses. algumas sociedades européias.. Entretanto. Como era organizada a “lógica evolutiva” da cultura. não apenas utilizam esse pensamento evolucionista para tratar de forma pejorativa outros povos. pois foi divulgado de forma bastante eficiente pelas elites européias que então dominavam todos os povos dos outros continentes. Surgiram termos para marcar pontos nessa linha evolutiva como: selvagens. e acabam adquirindo status de verdade. que uma suposta “superioridade” cultural seja consequência de uma superioridade genética de alguns povos. e eram chamados de selvagens. . menor a sua evolução cultural. e todos os dados de pesquisas feitas por antropólogos reforçavam cada vez mais os erros do evolucionismo social.Evolução unilinear seria exatamente essa idéia de estágios evolutivos para a cultura humana. Ao associar cultura e genética. inferiorizando-os. como a conhecemos em sua herança européia[4]. Entendia-se que quanto maior o acúmulo de semelhanças com todos esses quesitos. não fabricavam metais. que possuíam sofisticada tecnologia (lembra-se que Marco Polo trouxe a pólvora da China?). soluções de toda ordem. um pensador americano de origem alemã. erros de pensamento são criados. Muitas pessoas até hoje. Durante todo o século XX o evolucionismo continuou sendo combatido. eram os chamados povos civilizados. Os povos indígenas brasileiros. aquele pensamento tão antigo e equivocado permanece incrivelmente presente no pensamento do senso-comum até hoje. seriam colocados nas etapas mais primitivas dessa linha imaginaria. Por fim. Ele defende que cada grupo humano cria um caminho próprio de desenvolvimento. que curiosamente estavam presentes apenas em algumas sociedades européias e que são as criadoras dessa teoria.. Acredita-se. mercado e assim por diante. mas tinham uma “grave” falha: não desenvolveram a ciência. Estado. mercado. que enxergava como uma única linha dentro da qual poderiam ser encaixados em diferentes estágios evolutivos a cultura de cada povo. por exemplo.

(Voltaremos a este ponto mais adiante. O homem age de acordo com os seus padrões culturais. Adquirindo cultura. resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje. Nesse ponto. Em decorrência da afirmação anterior. o arco e a flecha etc.) 3. Entretanto. atividade sexual. Como já era do conhecimento da humanidade. é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação. 48-49) Sabemos que o ser humano apesar de viver em cultura e ter se afastado de seu comportamento geneticamente determinado (= instintos). 2005. Cultura. não perdeu seus instintos. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções. o homem modifica o seu equipamento superorgânico. não teriam ocorrido as demais. o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat. 2. desde o Iluminismo. a contribuição de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguintes pontos: 1. tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca. 8. ou qualquer outro item que faça parte da sobrevivência de nossa espécie possui regras culturais para serem satisfeitos. (LARAIA. E pior do que isto. ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular. horários de sono. 5. pgs. 6. A cultura. vamos destacar alguns trechos de LARAIA (indicado na bibliografia do item) para finalizar: Resumindo. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou. 7. R. RJ: Jorge Zahar. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. e criar um novo objeto ou uma nova técnica. hoje consideradas modestas. um conceito antropológico. determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações. o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. mais do que a herança genética. construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural. 4. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor. que colaboram para desmistificar o poder de influencia dos genes em nosso comportamento cultural. Alimentação. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo. A cultura é um processo acumulativo.Por isso é muito importante ressaltar o pensamento de antropólogos como Geertz e Kroeber. B. Em vez de modificar para isto o seu aparato biológico. a maneira de satisfazer às necessidades vitais é feita de acordo com a cultura. não importa o termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional. proteção. . Sem as suas primeiras invenções ou descobertas.

é uma forma de erudição. 37-53. 3. pois possibilita a adaptação a qualquer ambiente sem necessidade da lenta adaptação genética. ele cita o fato que os ursos polares desenvolveram ao longo de muitas gerações grossas camadas de pelos para sobreviver ao clima de seu meio ambiente. um conhecimento que deriva de estudos. [4] O pensamento “científico” oriental até hoje é considerado pelo mundo ocidental como carente de valores para legitimar sua racionalidade. adquirindo novos sentidos.1: 1) Alfred KROEBER afirma que existe uma diferença muito grande entre a evolução biológica dos animais e do ser humano. SP. enquanto o ser humano ao invés de desenvolver pelos. F. o autor está: D ) demonstrando que a evolução biológica do ser humano é diferente. pgs. Aprender Antropologia.Exercício resolvido para o item 2. A cultura se mostrou como uma forma de adaptação ainda melhor e superior. Etnocentrismo e relativismo cultural. A ANTROPOLOGIA E O ESTUDO DA CULTURA. utiliza roupas e cobertas. portanto não são validados como afirmações aceitáveis dentro da metodologia cientifica. Lembre-se que as palavras são “coisas vivas” e seu uso pode mudar através do tempo. [1] “Conhecimento letrado” é todo estudo que utiliza o estudo e aprofundamento de um assunto através de livros. pois encontrase permeado de filosofias que por muitos ainda são consideradas “crenças”.A diversidade cultural. Brasiliense. [3] Para saber mais sobre o assunto. Para fundamentar sua idéia. Bibliografia Textos básicos . pois nossa espécie não necessitou de uma adaptação biológica aos diferentes meios. Ao realizar essa comparação. [2] Etimologia – estudo da origem e da evolução das palavras.1 . leia LAPLANTINE. Conteúdo do 1º bimestre – PROVA NP-1 MÓDULO 3 3. ou ganhando novas formas de emprego no vocabulário cotidiano. “A pré historia da Antropologia”. 1995.

a Antropologia acabou se concentrando no conceito de cultura.. E recentemente. Para explicar a grande diferença de comportamento entre esses povos e os povos europeus. intensificou-se num ritmo frenético. o contato entre pessoas e organizações com diferentes referenciais de mundo.org/portal/index. Surge no séc. Por isso compreender o conceito científico de cultura é tão importante. SP: Brasiliense. mas qualquer ambiente social.B. a cultura é tudo que for criado pelo ser humano para adaptar suas comunidades às suas bases biológicas (ecossistemas e território). Hoje. mas está em toda parte onde haja contato entre dois povos que cultivam costumes e valores diferentes. in SANTOS.org/portal/index. em nossa história. Rossano Carvalho. R. José Luiz dos.“Teorias modernas sobre a cultura”. a economia e a organização de um grupo social servem totalmente aos propósitos de promover essa adaptação. 2005. Austrália e África.gpveritas. XIX empenhada em aprofundar o conhecimento científico sobre as chamadas “sociedades primitivas”. Isso ocorreu.Um Conceito Antropológico. com o início da chamada “globalização”. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. como eram chamadas as tribos e povos não-europeus. Rossano Carvalho. No capítulo de LARAIA. CULTURA .php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=64 DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO – item 3 3 – A antropologia e o estudo da cultura Antropologia é uma ciência dedicada ao estudo do Homem. A tecnologia. 2) teorias que definem cultura como um SISTEMA COGNITIVO (teorias idealistas) . in LARAIA. ou seja diferentes culturas. 59-64. e “logia” é o estudo. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. O radical latino “anthropos” significa Homem (Ser Humano). Pgs. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. Textos complementares NUNES.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid=63 NUNES. Para esses autores. e as mudanças culturais são consequência direta de mudanças no meio. 2006. Vamos dividi-las abaixo: 1) teorias que definem cultura como um SISTEMA ADAPTATIVO. 17ª ed. essa ciência não estuda apenas as tribos ou pequenas comunidades distantes dos centros desenvolvidos. intitulado “Teorias Modernas sobre a cultura” há uma apresentação de duas correntes diferentes da antropologia quanto à definição do que é cultura. O QUE É CULTURA.gpveritas. Cultura. pp 07-20. pois ficou comprovado que a diversidade cultural não gira apenas em torno de “povos primitivos” e “povos civilizados”. “Cultura e Diversidade”. Antropologia. os nativos das Américas.

“Cultura é um sistema simbólico. todas as nossas atitudes.Para esses autores.” Perceba como. O mundo é um grande código. está a importância desse debate em torno de diferentes concepções sobre cultura? . Desenvolvendo ainda mais a mesma idéia do autor acima (Goodenough). característica fundamental e comum da humanidade de atribuir. uma organização de tudo isso. (1973) . condutas ou emoções. Geertz indica que a cultura é um conjunto de planos e receitas que GOVERNAM A NOSSA CONDUTA. Mais uma frase do mesmo autor acima. na visão desse autor. estamos pensando simbolicamente. Goodenough (1957) . Para pensar no cão. e ao pensar através de palavras. Por exemplo. conjuntos de hábitos – mas sim como planos. regras. um conjunto de símbolos “embaralhados” e a nossa cultura proporciona um entendimento desse mundo. Isso é o que explica a cultura humana. racional e estruturada. Interessa perceber a capacidade humana em desenvolver nos domínios intelectuais o mundo que nos rodeia. o que o ser humano produz em termos materiais não é o mais importante. Tudo que a inteligência traduz em linguagem e símbolos. e organizamos o mundo em nossas mentes. A cultura não é um fenômeno material: não consiste em coisas. que nos chama atenção para o fato que o pensamento simbólico é EXCLUSIVAMENTE HUMANO. crenças e formas de pensar o mundo fazem parte de nossa cultura. uma certa forma de interpretar o mundo. Para ele. criamos um símbolo que é o som da palavra cão. um conjunto de símbolos. regras. Clifford Geertz (1966) . Assim.“Se compreende melhor a cultura não como complexos de esquemas concretos de conduta – costumes. É melhor. tradições. Associamos símbolos a coisas. a cultura não CONSISTE EM COISAS (bens materiais). Em que aspecto exatamente. que para conseguirmos interpretar precisamos ter o “segredo”. o animal “cão”. cultura é um SISTEMA DE CONHECIMENTO do mundo. de relacioná-las ou de interpretá-las. mas a cultura é um MODELO MENTAL.H. fórmulas. receitas. Clifford Geertz. a cultura é como um código. É a forma das coisas que as pessoas têm em sua mente. sejam elas de ordem prática ou de ordem afetiva seriam organizadas em nossa mente através da receita proporcionada pela nossa cultura. usos. a “chave” para a interpretação. de forma sistemática. Traduzindo. não existe nada no mundo que o ser humano deixe de atribuir um significado. Para Geertz. A capacidade de interpretar símbolos é a base de nosso pensamento. Para citar algumas idéias dessa última definição que parece ser mais complicada para compreender: W. instruções (o que os engenheiros de computação chamam de „programas‟) e que governam a conduta”. Geertz. seus modelos de percebê-las. significados e sentidos às coisas do mundo”. pessoas.“A cultura de uma sociedade consiste em tudo aquilo que se conhece ou acredita para influenciar de uma maneira aceitável os seus membros.

Para qualquer área do conhecimento, é importante compreender que trata-se de definir a condição do ser humano em relação ao restante das espécies. Os teóricos da cultura como sistema adaptativo, concebem que a cultura é uma ferramenta como qualquer outra, e que permite soluções de sobrevivência e reprodução aos membros de nossa espécie, homo sapiens sapiens. Isso a torna interessante, uma vez que “desmistifica” as capacidades humanas, e nos faz olhar para nós mesmos como seres que “batalham” pela sobrevivência como qualquer outro. Já os teóricos mais idealistas, entendem que somos seres cujo cérebro não permite outra forma de uso, a não ser para criar cultura. Nosso órgão pensante se tornou, ao longo da evolução, preparado para entender o mundo através de uma lógica simbólica. Ele nos impele a formar vínculos familiares e afetivos, pensar soluções práticas dentro de concepções culturais, nos pensar como indivíduos que compõem grupos organizados. Isso a torna interessante, pois mostra que essa característica é universal. Não há culturas que produzam indivíduos mais inteligentes ou capazes. Ambas são válidas e seus autores produziram uma grande quantidade de conhecimento através de pesquisas e teorias que aprofundaram nosso saber sobre a nossa própria espécie. Em comum o que se pode perceber nessas teorias é a tentativa de abarcar todas as realizações humanas, representadas em dois níveis complementares que são as realizações materiais e as imateriais. Entre as realizações materiais, podemos citar todo o universo de coisas fabricadas pelo ser humano, de arados até ônibus espaciais. Entre as imateriais estão nossas crenças, conhecimento, arte, idéias e todos os sentimentos. Os autores que enfatizam os aspectos materiais argumentam que eles são importantes uma vez que somos a única espécie a transformar a natureza de forma sistemática, mesmo quando não há necessidades que afetem a sobrevivência. Outros autores, entretanto, entendem que nossas maiores realizações estão contidas nos aspectos imateriais, uma vez que somos a única espécie dotada da capacidade de abstração (pensar em coisas que não estão presentes, criar, imaginar). Mas não usamos essas capacidades realizadoras de qualquer forma, e sim de acordo com regras, normas e hábitos estabelecidos coletivamente. O ponto sobre o qual parece haver muita polêmica é a visão que cada autor tem de ser humano. Aqueles que dão maior importância às nossas realizações materiais procuram ressaltar a nossa capacidade adaptativa, mostrando a cultura como sendo uma forma de solução da sobrevivência, onde grupo social, recursos e meio ambiente se combinam para determinar os hábitos de um povo. Para eles, as técnicas desenvolvidas para solucionar todos os tipos de empresa humana, que vão de uma simples pescaria às necessidades comunicativas, passando por todo tipo de engenhos que nos cercam é que definem propriamente a cultura. Aqui, podemos dizer que cultura equivale a soluções práticas para a existência humana.

Outros autores entendem que a solução prática para a vida humana é uma conseqüência de outras capacidades, que muito mais do que nos fazer capazes de fabricar instrumentos, nos faz diferentes de todas as outras espécies existentes. São as capacidades de criar, planejar, prever, avaliar, imaginar, atribuir significado e modificar a natureza não apenas por necessidade de sobrevivência, mas por necessidade de se sentir bem. Podemos denominar isto de capacidade de simbolização. Não construímos o mesmo tipo de prédio para servir a qualquer uso, para cada fim encontramos uma arquitetura. Não é apenas pelos aspectos práticos que o fazemos, mas porque cada espaço deve carregar significados que orientem os indivíduos e os faça compreender como devem se comportar. Os templos são diferentes dos teatros, as casas diferentes dos escritórios (ou pelo menos deveriam ser!). A funcionalidade de cada um desses espaços é tão importante quanto o que nos faz sentir através de suas formas e cores. As formas de nossa casa nos transmitem sensações de pensamentos diferentes de um escritório ou de um templo, através dos símbolos que criamos para cada um deles. Para os autores que defendem a preponderância desse aspecto, cultura equivale à nossa incansável capacidade intelectiva de carregar o mundo de símbolos. Resposta a necessidades práticas, ou respostas a necessidades intelectivas, a cultura é uma forma de estarmos no mundo. Ela nos orienta em cada situação da vida social, como um modelo que recebemos e sobre o qual passamos a vida operando pequenas modificações. Vamos ver mais adiante, que algumas regras presentes nas culturas podem ser modificadas, suprimidas, desgastadas; enquanto outras são mais difíceis de negociar. “É assim, e pronto”. Ou seja, há aspectos mais dinâmicos e outros mais permanentes em cada cultura. Independente da teoria sobre cultura que se utiliza, existem duas reações diferentes na forma de compararmos as culturas. A primeira, que usa a HIERARQUIA para afirmar que existem culturas mais avançadas ou evoluídas. Assim, haveria culturas que, desse ponto de vista, obtêm mais domínio técnico sobre a natureza, ou formulam mais conhecimento letrado. Faz parte do evolucionismo social, já trabalhado em nosso conteúdo anteriormente. A hierarquia entre as culturas também faz parte de uma realidade mundial que se encontra nas relações internacionais. Existem centros de poder econômico que influenciam no julgamento de culturas que se diferenciam delas. Assim, são inferiorizadas as culturas de povos dominados ou dependentes economicamente. Sim, a cultura é uma realização humana na qual as relações de poder também se faz presente. A outra, que é mais presente entre os estudiosos mais contemporâneos das culturas, que não vê sentido em hierarquizar as culturas, pois para fazer isso temos que privilegiar uma delas e tomá-la como referência. Isso faz com que todas as outras sejam subjugadas. Nessa compreensão mais contemporânea, se uma cultura não desenvolveu motores, mas garante a todos os seus membros os recursos de sobrevivência, ela é adaptada ao seu meio. Como faz para resolver isso, passa a ser irrelevante. Exercício resolvido para o item 3

1) A respeito das teorias que definem o conceito de cultura, leia as afirmativas abaixo e assinale a alternativa correta: Existe uma grande diversidade cultural na espécie humana. PORQUE Algumas sociedades possuem padrões de conduta e tecnologia atrasadas em relação às outras. c) Ambas as afirmações fazem parte dos estudos da cultura, mas atualmente a segunda não justiça a primeira. MÓDULO 3 3.1 - A diversidade cultural. Etnocentrismo e relativismo cultural. Relativismo cultural e etnocentrismo são conceitos básicos da Antropologia para a compreensão de fenômenos que envolvem CONTATO CULTURAL, ou seja, o contato entre universos culturais DIFERENTES. Esses conceitos se referem a “julgamentos” que podemos ter quando em contato com o “outro” (alguém com padrões culturais diferentes do nosso). Esses julgamentos são responsáveis pela qualidade de nosso contato com a diversidade. Quando o outro tem padrões de comportamento, hábitos e valores muito diferentes dos nossos próprios é possível reagirmos de forma positiva ou negativa a isso. Julgar positivamente ou negativamente o comportamento alheio, tem relação com as atitudes de etnocentrismo ou com o exercício de relativismo que podemos utilizar. RELATIVISMO CULTURAL É considerar o mundo DO PONTO DE VISTA DO OUTRO, entendendo seu sistema simbólico, seus próprios valores de mundo como beleza, justiça, honra, medo, e assim por diante. É deixar de tomar a NOSSA própria cultura (visão de mundo) como medida para julgar os outros. ETNOCENTRISMO O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural (isso é denominado etnocentrismo). Ao pensar de forma etnocêntrica as pessoas depreciam o comportamento daqueles que agem fora dos padrões de sua comunidade. Comportamentos etnocêntricos resultam em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas e idéias ou valores de outros sistemas culturais são vistas como absurdas. O etnocentrismo é um comportamento universal. É comum a crença de que a sua própria sociedade é o centro da humanidade. A antropologia trabalha com alguns conceitos centrais que vamos passar a aprofundar neste tópico.

Cultura, diversidade cultural, relativização e etnocentrismo serão fundamentais para compreender o debate científico e da sociedade em geral em torno do comportamento coletivo humano. O encontro com o diferente suscita reações e atitudes que se vêm vinculadas à posição de poder ou submissão das pessoas na sociedade, bem como de preconceitos e verdades pré-estabelecidas que o senso comum reproduz. A cultura não é uma RECEITA de mundo, no sentido de ser algo inquestionável, sempre inconsciente que controla rigorosamente a todos os indivíduos. Podemos recorrer a uma metáfora para facilitar a compreensão sobre a relação entre os padrões culturais que herdamos/repetimos, e nossa atuação individual: “A mente humana corresponde a um “disco rígido” (hardware), que apesar de capaz de muitas tarefas, não consegue realizar nada sem um programa (software). Esse programa é a cultura.” Vamos lembrar que um software é um programa determinado e fechado, mas que aqui em nossa metáfora, “operando” a cultura há sempre um ser humano. Somos dotados de criatividade, subjetividade, carregamos histórias pessoais e coletivas. Assim, interferimos o tempo todo no “programa” que recebemos. A cultura não é apenas um modelo, um quadro de referência, ela é uma forma de acesso às possibilidades humanas. Há uma dinâmica na relação entre cultura e sujeito, entre sujeito e história, entre indivíduo e grupo. Se pensarmos que a cada cultura corresponde uma diferente “visão de mundo”, percebemos que os indivíduos se organizam mentalmente para estar no mundo de acordo com os valores introjetados de sua cultura. Tornamos “nosso” aquilo que é cultural. Exercitando. Vamos pensar sobre os sentimentos humanos. Obviamente, nossas emoções são universais. Amor, ódio, paixão, rivalidade, raiva, afeto, ironia, alegria, euforia e tudo quanto possamos lembrar agora, fazem parte da humanidade. Entretanto, as EXPERIÊNCIAS QUE SUSCITAM este ou aquele sentimento, e a forma como expressamos o que sentimos isso é cultural. Muitas situações que fazem um brasileiro rir podem não ter o mesmo efeito em pessoas de outros povos. Ou ainda, situações como o funeral que exigem circunspecção e tristeza em algumas culturas podem exigir expressões de alegria em outras. O exercício de relativizar é se colocar na condição do outro. Pois bem, muitas vezes fazemos julgamento equivocados do comportamento alheio, simplesmente pelo fato de desconhecer as motivações que levaram a tal ou qual atitude. Quando não temos a “chave simbólica” que permite a relativização dos costumes, tendemos a nos fechar em nosso etnocentrismo. Tudo bem, precisamos relativizar, não é mesmo?

Quando reagimos com aversão ao fato da alimentação em algumas culturas incluir pratos com animais como insetos. não é uma atitude ruim.Sim. se tornam destrutivos das relações humanas. assinale aquela que tem relação com o conceito de RELATIVISMO CULTURAL: Resposta do exercício 1): C) julgar uma cultura a partir de seus próprios valores e hábitos. Percebe que deve existir um limite para a prática do relativismo? Relativizar deve ser algo estimulado socialmente. tornar aceito como normal as mutilações dos órgãos genitais femininos praticados em algumas sociedades de cultura mulçumana. Exercício resolvido para o item 3. mas dentro de padrões de respeito à integridade física. isso significaria. aceitando qualquer atitude alheia como normal. é correto que tenhamos reações mais respeitosas e éticas com os “outros”. e não a partir de valores dominantes de uma cultura alheia que se impõe sobre outras por se considerar superior. . na medida em que pode servir para reforçar nossa identidade cultural e nos trazer bem estar dentro de nosso próprio padrão cultural. natural e aceita. Mas quando a aversão ao outro é tão grande que precisamos excluí-lo. Quer dizer que relativizar demais pode ser perigoso? Sim! Quando apenas relativizamos tudo. O oposto também é verdadeiro. Isso é necessariamente ruim? Bem. O etnocentrismo extremo pode levar ao genocídio e às práticas racistas / preconceituosas. e quando praticados de forma radical. psíquica e moral do outro. estamos atingindo um grau de etnocentrismo inaceitável. todas as culturas praticam etnocentrismo de alguma forma. cães ou lesmas (o famoso “escargot” francês). podemos correr o risco de não ter mais referencial ético de mundo. por exemplo.1 1) Das situações abaixo. Mas tanto o relativismo cultural como o etnocentrismo podem ser encontrados em diferentes graus. estamos sendo um pouco etnocêntricos. preferindo um bom arroz com feijão. destruir seus costumes forçosamente ou mesmo agredi-lo física e moralmente. Em termos práticos. Etnocentrismo é sempre ruim? Não! Na verdade. principalmente em comunidades africanas. O relativismo extremo pode levar à ausência de noções éticas.

O foco deste item é a compreensão de cultura em seus aspectos simbólicos.As principais características da cultura como visão de mundo: herança cultural e formas de compreender o mundo. bem como da relação do ser humano com sua corporalidade e das noções de saúde e doença. SP: Brasiliense. você será capaz de identificar informações e conceitos sobre a cultura que já desenvolvemos anteriormente.item 4 Nos textos indicados. Horace.com/antropologia/nacirema. Antropologia – ciência do homem. Poderá perceber que apesar de vivermos em uma cultura que determina padrões de comportamento. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. 2006. pp 21-50. Silas (org). filosofia da cultura. Textos complementares sugeridos: “Cultura e seus significados”. Ritos Corporais entre os Nacirema. José Luiz dos. “Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura”. Bibliografia Textos básicos “O que se entende por cultura” in SANTOS.aguaforte. Roque de Barros. “A cultura interfere no plano biológico”. “O olhar”. Mércio Pereira. há um espaço para nossa individualidade. ANTROPOS E PSIQUE – o outro e sua subjetividade. in GOMES.. São Paulo: Contexto. É importante ao final deste item que se perceba a profunda influência da cultura em todas as dimensões de nossa experiência física. 2005. Sem comunicação nossa sociedade seria mais semelhante a uma sociedade de outros animais que vivem em coletividade como abelhas.1 .MÓDULO 4 4. . “A cultura tem uma lógica própria”. RIBAS. in GUERRIERO.Um Conceito Antropológico. A cultura. 65-101. “A cultura condiciona a visão de mundo do homem”. 4. João C. a simbolização da vida social. 2009. “A cultura é dinâmica”. emocional e intelectual no mundo. Pgs. Pp 87-96. SP: Olho d´Água. DESENVOLVIMENTO DE CONTEÚDO . formigas e leões. MINER. CULTURA .htm Objetivos: ao final deste tema você deve ser capaz de identificar a importância da cultura como mediadora no processo de construção de nossa visão de mundo. texto disponível em: http://www. a participação dos indivíduos na cultura. 33-51. e a importância disso para a cultura? A cultura depende de nossa capacidade de comunicação. 2003. Vamos desenvolver um pouco mais a compreensão sobre o que é símbolo. O QUE É CULTURA. 19ª ed. simbolizar. Pp. in LARAIA.

Para o a antropologia atual.) 2 aquilo que. o ser humano cria muitos símbolos. o que torna necessária a compreensão do contexto cultural onde os símbolos são criados e utilizados para que nossa comunicação seja eficaz e consiga atingir seus objetivos. e até aqui já deu para entender que sem símbolos. a representação da flor através dos desenhos. de forma generalizadas sobre gatos.A cultura humana tem características que diferenciam nossa forma de vida coletiva. Quando pensamos em um gato e queremos comunicar essa idéia básica. representa ou substitui outra coisa. Ao entrar em contato com esse fenômeno que se chama comunicação através da Antropologia. Para cada coisa existente. segundo Geertz. não pensamos em gatos de tipos muito específicos ou em suas qualidades. “cultura é um sistema simbólico (Geertz. não conseguiríamos sequer compartilhar o que se passa em nossas mentes. Esse é um primeiro passo para entendermos o processo de simbolização. tudo que faz parte da cultura humana é baseado em símbolos que precisam de uma convenção social para que os indivíduos associem a um mesmo significado. o que é símbolo mesmo? Segundo o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” (edição de 2001): 1 aquilo que. valores. que é também um símbolo.1 aquilo que. de forma sistemática. Entretanto. faça com que todos os presentes entendam no que o comunicador estava pensando.. é possível ampliarmos nossa capacidade de compreensão do outro. A palavra GATO é um dos símbolos para a coisa em si. dependemos da utilização dos símbolos. por pura convenção. Apesar de existir uma imensa diversidade de tipos de gatos. e faz com que seja possível a INTERPRETAÇÃO dos conteúdos comunicados. num contexto cultural. temos que recorrer a um som. Vamos fazer um pequeno exercício para tentar aplicar todas essas definições de símbolo à nossa realidade? A palavra gato. uma palavra que ao ser pronunciada. mas antes um som que representa essa realidade. A simbolização pode mesmo ser tomada como sinônimo do conceito de cultura.. quando pensamos em um gato para comunicar uma situação corriqueira envolvendo gatos. racional e estruturada. Para expressar a cultura. A cultura depende dos símbolos. Mas. Língua. Nós convencionamos que a palavra “gato” simboliza aquela espécie de felinos que encontramos na natureza e que se tornou um de nossos animais domésticos. o próprio gato. a comunicação humana é baseada na simbolização. possui valor evocativo. conceitos. crenças. idéias. mágico ou místico (. Assim: . por um principio de analogia formal ou de outra natureza. característica fundamental e comum da humanidade de atribuir. Pois bem. significados e sentidos „às coisas do mundo‟ “. 1973). Temos por exemplo. de uma cultura para a outra esses significados variam imensamente. Então a palavra GATO não é a “coisa real” que existe na natureza. vamos avançando. substitui ou sugere algo 1.

mas deixou de ser ela mesma. pois já deixou de ser o próprio gato. Kênia Kemp.Essa imagem fotográfica. ou uma delas. criando assim algo que a representa. É uma representação “do gato em si”. não é. e sim bidimensional. É um símbolo. e é simbolizado nessa imagem que não é tridimensional. 2010 . apesar de parecer o próprio gato.

Gato amarelo e flor. de Aldemir Martins. Essas duas imagens são desenhos. 2001. . representações artísticas do gato e. portanto. ou seja.

de significados coletivamente construídos. sentido ou experimentado antes. “as cores dessa bandeira simbolizam a paz e a riqueza”. conceituar. justiça e beleza. Essa é uma outra associação possível com os símbolos. cores e emblemas. e podemos pensar nelas. Um céu escuro e carregado de nuvens pode simbolizar preocupações e problemas. Ao fazer isso. que não pode ser reproduzido em toda a sua riqueza e complexidade. transmite idéias complexas e sentimentos. racional e estruturada. O correto é observarmos que na natureza não existem qualidades que são criadas pelo Homem. como bondade/maldade. Não existe “cheiro de infância”. Ao utilizar um crucifixo. descrever. e não da natureza. “esse cheiro me lembra a infância”. o artista procura através da forma obtida (a forma plástica. Tudo na comunicação é símbolo? Sim! Os símbolos são frutos: da persistência humana de olhar para o mundo e ver significados. ou ainda aromas de um lugar que marcaram a infância de UMA pessoa. mas o ser humano atribui a umas e outras certas qualidades. bem como todos os conceitos de mundo que dispomos são resultados da criação das culturas humanas. “o crucifixo identifica os cristãos”. a sonoridade ou o movimento) criar um símbolo para algo visto. e tudo isso é possível porque como diz Geertz. placas de “proibido fumar”. Não está na “flor em si” ser alegre ou triste. mesmo quando não estamos em sua presença.também não são o gato em si. Assim é que nós SIMBOLIZAMOS as experiências vividas. não é ruim senão do ponto de vista dos prejuízos que possa causar aos seres humanos. simbólica. Portanto. e através dessa comunicação simbólica podemos atribuir qualidades ao mundo. pois a cruz simboliza um evento da figura fundadora dessa fé. significados e sentidos às coisas do mundo. Para a terra. lembrar. Cada profissão elege seu símbolo. O artista procura sempre “representar algo”. retiramos todas as coisas de seus contextos originais. “Essa flor é alegre”. que se expressam através de símbolos. não existe esse tipo de julgamento. “proibido cães” e outras regras de uso do espaço são símbolos. placas de trânsito são símbolos. Na pintura. onde ele se originou. mas aromas que são convencionalmente usados em bebês. são formas de simbolizar experiências e sensações. O símbolo facilita e agiliza a comunicação. que é Cristo. belo/feio. da rotinização de soluções racionalmente pensadas. Os símbolos representam coisas. e sim formas simbólicas para elas. idéias e pessoas que não estão presentes. e assim por diante. na música. ou um terremoto pode ser utilizado para simbolizar alguém inquieto. e escolhemos alguns de seus aspectos a serem ressaltados. são valores. uma pessoa é identificada pelos outros como “cristão”. A cada cultura corresponde um processo coletivo único . A maior parte de nossa comunicação diária tem como finalidade narrar. agitado. coisas que não estão presentes. Então. podemos compreender que as “coisas em si” são transportadas para a nossa mente. percebido. de forma sistemática. A arte é em essência. na dança. justo/injusto. a humanidade atribui. Bondade. Uma catástrofe da natureza como um terremoto. os times utilizam brasões.

Assim ocorreu com a logo marca da “Coca-Cola”.de criar símbolos. Portanto. Então. a linguagem escrita é simbólica. conseguem ter significado para praticamente a humanidade toda. A linguagem falada é simbólica. emotividade e assim por diante. Mas alguns símbolos. e assim por diante. o que fazemos. Por isso utilizamos os símbolos para comunicar quem somos. portanto? Primeiramente. presente em todo o mundo como um ícone de prazer e do mercado. criatividade. nossa condição. incorporação e rotinização de símbolos. Vamos ler juntos um trecho do texto indicado na bibliografia desse item para concluir sobre a importância da capacidade de simbolização humana no estudo da cultura? Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. incorretas. filmada. entender. para utilizá-los da forma mais “adequada”. A maior parte de nossa comunicação é composta de conteúdos que se tornaram convenção social. Não interessa muito para o senso comum ter entendimento e investigar a origem de certos símbolos. descreva um sentimento ou uma paisagem. falada. ou “mal entendidos”. Como os símbolos cotidianos dependem desse consenso em torno da interpretação. ou com o símbolo da juventude dos anos 1960 para “paz e amor”. idéias abstratas e conceitos. o que acontece é que as pessoas tendem a dar o sentido mais apropriado ao seu próprio contexto. Em segundo lugar. julgar. os chamados “erros de comunicação”. que é o mundo que nos rodeia. os símbolos comunicam não apenas o mundo exterior à nossa mente. é muito comum que quando usados em um contexto diferente do original. que uma idéia expresse um acontecimento. seja pela linguagem escrita. materializamos aquilo que é interior à nossa mente. que a comunicação humana é baseada na criação. ou pelas artes. divulgação. O que aprendemos sobre os símbolos. Interpretar é dar sentido. Isso porque ao saírem de sua cultura original. Ser membros da mesma cultura é uma garantia de que todos estejam interpretando de forma muito semelhante os conteúdos comunicados. Sem tal comunicação. precisamos dominar e compartilhar os mesmos símbolos. Mas garante que não tenhamos que explicar minuciosamente o tempo todo nosso uso dos conteúdos comunicativos. Para que nossa comunicação seja eficaz. por exemplo. sem os símbolos não haveria cultura humana. podem ir parar em lugares onde não há essa convenção sobre como ele deve ser interpretado. não realizaríamos nenhuma de nossas capacidades como raciocínio. nossas preferências. Através dos símbolos. portanto a maioria dos símbolos cotidianos tem um significado apenas local. eles sejam interpretados de formas inusitadas ou até mesmo. Quando nos comunicamos. também a linguagem gestual. ou ainda a comunicação áudio-visual. ou seja. por efeito da sistemática e rotina de circulação em outros meios. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. mas comunicam também coisas imateriais como sentimentos. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma . Hoje em dia esse fenômeno é muito comum no mundo da moda e das tendências de comportamento. Claro que isso não garante eventuais desentendimentos. que permitem. o conteúdo do que é comunicado é sempre algo que precisa ser interpretado.

1 . De fato. Esses estudos ampliaram a nossa compreensão sobre diversidade cultural sim. (SANTOS. preferências e reações como se fossem “naturais”. A natureza sozinha não constrói um ser humano como o conhecemos. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. mas sem a ação da cultura. mas muito além disso. 2006. de Roque LARAIA 1) A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM . Muitas vezes julgamos nossas atitudes. José Luiz dos. COMO OPERA A CULTURA baseado no livro “Cultura .conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. pode ser imensamente responsável por muitos atributos individuais. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. Assim.As principais características da cultura como visão de mundo: herança cultural e formas de compreender o mundo. e comunicar nossa experiência aos próximos.41-42) Exercício resolvido do item 4: 1) A capacidade de simbolização e criação cultural pode ser associada às seguintes afirmações: c) A simbolização e a criação da cultura nos possibilitam pensar no que não está presente. Entretanto. não teríamos a complexidade da humanidade. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. Sem dúvidas a nossa “natureza” (diga-se herança genética).Um Conceito Antropológico”. aborda exemplos de como a cultura afeta nossas vidas em sentidos muito mais profundos do que imaginamos. a participação dos indivíduos na cultura. CONTEÚDO DE 1º BIMESTRE (Prova NP-1) 4. Pgs. SP: Brasiliense. trouxeram uma nova visão sobre o ser humano. ao simbolizar atribuímos significados ao mundo. que as informações sejam processadas. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. O tema da segunda parte do livro de LARAIA. O QUE É CULTURA. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. como se assim tivéssemos nascido. XX o quanto somos também moldados pelo meio social que nos circunda desde o nascimento. os estudos antropológicos elucidaram ao longo de todo o séc.

modos de agir e pensar. uma pessoa do campo vê na cidade uma coleção confusa de ruas e edifícios. ou seja.nossa alimentação. .ex.a língua que cada um deles fala. de vestir. a floresta é um conjunto desordenado de árvores. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e.Para uma pessoa da cidade. de comer. a realidade não é apenas UMA? ** Não! O Homem é condicionado pela sua cultura. portanto. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as POSTURAS CORPORAIS são assim produtos de uma HERANÇA CULTURAL. ao passo que para os índios que nela vivem.” . Em cada cultura VARIA IMENSAMENTE o que somos capazes de perceber à nossa volta. . ou mesmo pela mais simples delas . .Modo de agir. têm visões desencontradas das coisas. a nossa sociedade nos deixa uma HERANÇA de valores. e como explicamos o que nos cerca e o que sentimos.as necessidades e o uso da tecnologia. É parte da nosso PATRIMÔNIO CULTURAL. conhecimentos. ela tem um SIGNIFICADO QUALITATIVO e uma REFERÊNCIA ESPACIAL. e o movimento possui um sentido lógico. . desde que fase de nossas vidas essa influência acontece? . . e assim por diante. Mas. podemos identificar facilmente indivíduos de diferentes culturas por características como: . temos que a CULTURA influencia nossas vidas em diversos níveis: .O modo de ver o mundo. .as noções de higiene pessoal. a ver o mundo. além de um movimento desordenado de pessoas e automóveis. . entre tantos outros. Então. de caminhar. . a cidade possui uma ORDEM física e espacial.a moral. Ao passo que para os que nela vivem.O oposto também é verdadeiro.o que entendemos como SAÚDE e também a DOENÇA.uHomens de culturas diferentes enxergam o mundo de forma diferente.. p.os sentimentos. ?Ruth BENEDICT escreveu: “A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. seja material ou imaterial. Mas. Assim. .os critérios de beleza. Da mesma forma como cada família pode deixar aos seus descendentes uma herança material (patrimônio familiar).nosso gestual e a forma como utilizamos o corpo. as apreciações de ordem moral e valorativa.

-Desde o parto. . somos condicionados pela nossa cultura Vamos analisar algumas imagens dessa influência da cultura em diferentes aspectos da vida humana e como os percebemos visualmente.

Índia e Inglaterra. Na segunda columa: Nova Zelândia e Brasil. .Na primeira coluna: África.

fisiculturismo ou treinos especiais (militares. esportivos. rituais ou de espetáculos). que desde os cinco anos começam a utilizar argolas no pescoço com o objetivo de esticá-los.formas de tratamento de doenças que pode incluir uma imensa lista como a ingestão de fitoterápicos.uso de vestuário e adornos corporais. rituais que envolvem ou não a participação e presença física do doente que pode ser submetido a todo tipo de intervenção passiva ou ativa – as vezes o doente precisa ingerir. quando “pertencemos” a um lugar social). frutas e flores. Pense em quantas situações ao longo de nossas vidas nosso corpo é atingido em função de experiências culturais. . Para manter tradições. ingestão de bebidas alcoólicas ou qualquer outra que altere igualmente a percepção e reações. pálpebras. Neste item você pode ter considerado algumas coisas muito normais e outras repugnantes. folhas. sugar outras vezes ele é sugado. alimentos processados industrialmente. .perfuração ou alargamento de lóbulos. com ou sem anestesias. suas escolhas poderiam ter sido completamente invertidas. Neste item você pode se perguntar como nossa indumentária pode interferir no plano biológico. grãos e castanhas. perfurações. para nos sentirmos INCLUÍDOS (o que dá aquela sensação de confiança e autoestima. sementes. saúde e aparência corporal. cirurgias e implantes.a dieta cotidiana que pode incluir desde insetos. . o processo de treinamento das modelos ocidentais que para serem vistas com roupas e acessórios à venda pela indústria da moda se submetem a dietas incriveis de emagrecimento e treino para o controle do corpo. Pense que se você tivesse sido socializado em outra cultura. Portanto. Para lembrar alguns exemplos: . As famosas “mulheres girafas” da Tailândia (Ásia). mas é possível sim. .o tipo de parto que cada cultura oferece e considera melhor. escarificações e implantes subdermais. raízes. movimento e expressões faciais na passarela. quando nos sentimos parte de um todo.as mulheres chinesas que durante séculos enfaixavam os pés para evitar seu livre crescimento.2) A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Ao longo de nossas vidas o nosso corpo físico é intensamente afetado pelas nossas experiências culturais. . carnes dos mais variados tipos e partes de animais (cruas ou cozidas). inalar. preparados químicos conhecidos como remédios.técnicas de desenhos ou formação de saliências na pele como tatuagens. . lábios. . o que o autor chama de “PLANO BIOLÓGICO” é exatamente nossa forma física. vegetais. e muitos outros tipos. nosso corpo físico é submetido frequentemente a exigências. obedecer a regras e principalmente. incisões. cortes.modelagem do corpo com muitas técnicas diferentes como dietas.

Entretanto é muito comum a reação de espanto. exigem também a submissão (em alguns casos) de horas em jejum e em seguida horas de ingestão de uma quantidade incrível de alimentos e bebidas. Não resta dúvidas do quanto submetemos nossos corpos em função das experiências culturais.. indignação ou repúdio ao que os “outros” fazem com seus corpos. Vamos ver isso em mais algumas imagens.o desenvolvimento de doenças psicossomáticas.a participação em festas e ocasiões especiais. que além de exigir o controle da postura e gestual em função da utilização de vestimentas especiais. mas pode ser considerado incompreensível aos outros. . Você pode fazer o exercício de encontrar outros e tantos inúmeros exemplos. Ter a vida de uma modelo da moda pode parecer normal entre nós. tanto quanto perfurar lábios para o uso de botoques nos parece. a reação do organismo na forma de doença a experiências negativas. .a submissão a rotinas que podem gerar lesões físicas e/ou desconfortos psicológicos dos mais variados graus. . Interpretamos isso como algo “natural”.

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Segunda coluna: Sumotori (luta tradicional do Japão) . Desenho de modelo da moda. Tailandesa .Primeira coluna: Kayapó (Xingú. DUTILEUX. Brasil) foto de Jean P.

3) OS INDIVÍDUOS PARTICIPAM DIFERENTEMENTE DE SUA CULTURA É impossível todos os indivíduos de um grupo terem exatamente o mesmo comportamento. ?as diferenciações baseadas na idade dos indivíduos: Uma criança não está apta a exercer as funções dos adultos. mas provavelmente um desastre ao piano. Somos socializados e aprendemos ao longo da vida aquilo que é mais importante para sermos aceitos e participarmos de uma cultura.. apesar de compartilharem a mesma “visão mundo”.nas quais as mulheres desempenham papéis importantes na vida ritual e econômica -. . Mas nossa participação é sempre diferente de um indivíduo para o outro. ou 20? ?as diferenciações baseadas na impossibilidade de TODOS os indivíduos serem socializados da MESMA forma: Alguns aspectos se sobrepõem a outros. Porém. por que podemos ter licença para dirigir e votar aos 18 anos. há impedimentos etários totalmente arbitrários e criados pela nossa cultura: p. a maior parte das sociedades humanas permite uma mais ampla participação na vida cultural aos elementos do sexo masculino. alguns traços são reforçados e outros não: Einstein era um gênio na física. que impedem que aqueles que estão mais abaixo na pirâmide social. A individualidade está garantida em primeiro lugar pelo fato de que nem uma pessoa pode sozinha conhecer e dominar todos os conhecimentos.ex. e não aos 16. tenham acesso a grande parte da cultura produzida pelo seu grupo. portanto existe um espaço na cultura. ?as diferenciações baseadas nas diferenciações de classe social: Nas sociedades que diferenciam os indivíduos de acordo com o pertencimento a determinadas classes sociais. a história e o conjunto de valores de seu próprio povo. portanto os motivos biológicos ficam explícitos nesses casos. onde o grupo não determina totalmente sua vida. existem tendências e limites para a socialização. Em que critérios se baseiam essas diferenças individuais? ?as diferenciações baseadas no sexo dos indivíduos: Com exceção de algumas sociedades africanas . É impossível que todos nós recebamos as MESMAS informações durante nosso crescimento. e incapaz de pintar um quadro.

? Para dar um bom exemplo baseado na cultura brasileira.4) A CULTURA TEM UMA LÓGICA PRÓPRIA Neste capítulo o autor trabalha com a seguinte idéia: temos explicações para o mundo. sejam sociais ou naturais. Muitos podem concluir que ele não sabia explicar. entretanto. ou “olho gordo”. que são resultantes da cultura na qual somos socializados. Fosse ele um gaúcho. . 5) A CULTURA É DINÂMICA Todo ser humano tem capacidade de questionar seus próprios hábitos e mudá-los. ele não domina a explicação científica. Toda cultura muda com o tempo. mas que servem para explicar toda uma infinidade de eventos. São conceitos que. a princípio parecem simples. ? A lógica de uma cultura muitas vezes forma o que os antropólogos denominam “sistema de classificação” ou ainda “sistema de categorias”. Entretanto. que as explicações dos “outros”. as “nossas explicações” sempre nos parecem mais lógicas. podemos tomar o conceito de “inveja”. Dificilmente as pessoas se contentam com explicações racionais que tornam a “vítima” única e completamente responsável pelo que lhe aconteceu. mas sua “invenção” teve que necessariamente utilizar A LÓGICA DA CULTURA CAIPIRA. pelo qual somos profundamente influenciados. E a resposta obtida foi: “Ele volta apagado durante a noite”. Mesmo ao “inventar” explicações. Vamos a alguns exemplos do livro. Mediante situações que exigem uma lógica. De fato. ocorrem as mudanças. que parecem “congelar” no tempo? O ritmo de mudanças de uma cultura obedece à lógica da satisfação de seus indivíduos com relação às suas soluções. Isto é um conceito que forma um sistema de ordenação de mundo. muito provavelmente sua “explicação” fosse outra. a categoria da “inveja”. Esse conceito forma todo um sistema de classificação e ordenação de mundo para muitos brasileiros. Laraia cita o exemplo (pg. Assim. mais apropriadas. nosso esforço intelectual de obter resposta sempre será coerente com o sistema cultural no qual estamos inseridos. casamentos desfeitos. e “inventou” uma resposta tão simples quanto seu nível de informação sobre o sistema solar. deixa todos satisfeitos com a explicação. Quando um acontecimento pessoal ou alheio parece “sem explicação”. muito eventos com impacto negativo na vida das pessoas são explicadas através da “inveja”. Quando as soluções deixam de ser suficientes. 88) de uma conhecida sua que perguntou a um caipira paulista “como é que o sol morre todos os dias no Oeste e nasce no Leste”. por que a impressão que algumas culturas mudam mais do que outras. ela sempre será a “nossa lógica” e não a lógica alheia. mais corretas. de ordem prática ou simbólica. perda de patrimônio. ou por “ignorância” que um grupo social pode parecer “SEM RAZÃO”. a categoria do “olho gordo” entra em ação. Mas. temos que considerar que muitas vezes não é apenas por “falta de conhecimento”. Desemprego. doença.

html . Segundo LARAIA (pg. No mês de maio de 2008. chamado de “etnias isoladas”. 96). Essas fontes podem determinar o ritmo mais lento ou rápido das mudanças. sendo o fenômeno de dinâmica cultural mais estudado. Já a mudança decorrente dos contatos entre muitas culturas determina um ritmo mais rápido ao longo de um pequeno espaço de tempo.OI2903379-EI6581. quando se trata da dinâmica do próprio sistema cultural. comandou um sobrevôo que resultou nas primeiras fotografias dos índios de uma das quatro etnias isoladas que vivem na fronteira do Acre com o Peru. o mundo se surpreendeu com fotos que estão disponíveis no jornal eletrônico “Terra Magazine”. de Rio Branco (Acre): “Após quase 20 horas num avião monomotor. em especial na Amazônia brasileira.br/interna/0. de onde eventualmente temos notícias desse tipo de fenômeno.com. as mudanças decorrentes da dinâmica interna podem ser quase imperceptíveis a um observador externo. Atualmente é quase inexistente alguma cultura que não tenha contato com outras. enquanto os guerreiros da tribo se posicionaram e reagiram atirando flechas no avião.. A menos que tenham sido decorrentes de invenções tecnológicas exemplares ou de eventos históricos de grande impacto como revoluções e guerras internas. coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai.terra.” http://terramagazine. o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior. Ainda existem alguns poucos grupos isolados no mundo. e que traz na abertura da matéria assinada por Altino Machado.Essas podem ter duas fontes: uInterna. quando as mudanças ocorrem em função do contato com outro sistema cultural.00. As mulheres e suas crianças fugiram para a floresta em busca de proteção. uExterna.

Isso significa que para a Antropologia pode ser questionável afirmar por exemplo que os índios (ou os brasileiros. ou qualquer grupo cultural) não têm nenhuma escolha quando são influenciados por outras culturas. APENAS EM CASOS DE DOMÍNIO ECONÔMICO E/OU POLÍTICO É QUE UM GRUPO SE VÊ OBRIGADO A ABRIR MÃO DE SEUS PRÓPRIOS COSTUMES E ADOTAR OS DOS DOMINANTES. Exercício resolvido para o item 4.FOTO DE GLEISON MIRANDA. ALGUMAS IMPORTANTES CARACTERÍSTICAS DAS CULTURAS! CADA CULTURA (seu povo) ESCOLHE DENTRE OS ELEMENTOS DE UM OUTRO GRUPO.1: . publicada no mesmo endereço eletrônico disponível acima da imagem. Adotar comportamentos típicos de outras culturas pode ser resultado de imposições pela violência. AQUELES QUE ACHA POSITIVO ADOTAR OU NÃO. pela conquista ou pela exposição excessiva (podemos pensar na mídia).

com/antropologia/nacirema. in CASTRO. Horace.socioambiental. Cad. Franz. Jorge Zahar.antropologia. mas não para todas.Sobre a educação no contexto das relações étnico-culturais: PINTO. 2004. “Raça e Progresso”. Objetivos: neste item o aluno deve ser capaz de considerar a identidade como um processo de construção cultural e o contato com a diferença como características da condição contemporânea. . n.. Jorge Zahar.) Franz BOAS . Pesqui.aguaforte. A explicação da Antropologia para este fato é: Resposta do exercício 1): D) os indivíduos participam diferentemente de sua cultura.htm Textos complementares: BOAS. Diferenças étnico-raciais e formação do professor.scielo. especialmente o link para a Revista “Sexta-Feira”.br/scielo. Refletir sobre o papel das tradições e das mudanças culturais em diversas situações e contextos.espacoacademico. (org.br/040/40pc_diretriz.com. http://www. MINER. 67-86. http://www.htm . disponível na Web. * Sugestão de endereços da Internet sobre os temas deste conteúdo: .org/.com. C. São Paulo.br . 108. Regina Pahim.A diversidade cultural: relações étnico-raciais.Comunidade virtual de Antropologia.br/040/40pc_diretriz. assim cada um recebe muitas informações e treinamento para algumas funções. 2004. PP. http://www. Nov. Bibliografia básica: Relações étnico-culturais. especialmente o link “Povos indígenas do Brasil”. MEC.htm “Os métodos da etnologia”. Ritos Corporais entre os Nacirema. in CASTRO.ANTROPOLOGIA CULTURAL. Celso (org.o texto "Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana" está disponível eletronicamente no seguinte endereço: http://www. MÓDULO 5 Conteúdo do 2º bimestre – PROVA NP-2 5 .) FRANZ BOAS – Antropologia Cultural.espacoacademico.” Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.Para conhecer sobre a diversidade de etnias indígenas no Brasil: Instituto Sócio Ambiental. Disponível em <http://www. mas pode falhar quando colocado em uma situação que exige apenas foco de atenção baseada no raciocínio intelectual durante muitas horas.1) Um bombeiro pode ser excelente no exercício de sua profissão. Brasília: 2004. 1999 .php?script=sci_arttext&pid=S0100-15741999000300009&lng=en&nrm=iso> .com. http://www. Texto disponível eletronicamente no endereço. “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.

não precisa ser alguém de uma cultura distante fisicamente. Esse “outro” que aparece nas frases acima. e supõe que dois ou mais povos que representam suas etnias mantenham por tempo indeterminado alguma forma de convivência. Os motivos podem ser variados. onde encontra-se outro grupo étnico.Definição de relações étnicas: As relações étnico-culturais são todas as situações nas quais diferentes culturas/etnias são colocadas em contato por qualquer razão. procura de condições de vida diferentes e oportunidades. religiosa ou étnica) ou mesmo de guerras. pode estar ao nosso lado. de relação de troca. Esse contato normalmente é motivado por deslocamento de grupos de pessoas de uma etnia para outro(s) lugar(es). Essas questões / situações seriam: . Relativismo cultural e etnocentrismo são formas das pessoas ou sociedades inteiras reagirem ao contato com um grupo culturalmente diferente. como a intenção de ocupação de território. do estabelecimento de vínculos de parceria ou amizade. exploratórias. além de boas doses de ética. justiça e novos parâmetros para as relações humanas. diáspora (que é a dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política. Atualmente o mundo todo reflete de uma forma mais intensa sobre o convívio entre as diferentes culturas/etnias.Desenvolvimento do item 5 – . A presença de um “outro” em relação ao que se reconhecemos como “nós”. Assim dizemos que para haver relativismo ou etnocentrismo deve-se supor a presença da DIFERENÇA. atividades comerciais. Que tal pontuar algumas questões e situações do mundo atual nas quais as relações étnico-culturais estão no centro dos debates e suscitam a reflexão? São questões que trazem à tona o relativismo cultural e o etnocentrismo.

Qual é a importância da eleição de Barack Hussein Obama como Presidente dos Estados Unidos da América? ..Qual é a realidade dos povos indígenas que convivem com a nossa sociedade nacional aqui no Brasil? E quais são suas reivindicações? .

Quais são os principais argumentos a favor e contra a política de cotas para afro-descendentes ingressarem nas universidades públicas brasileiras? .Como resolver os conflitos entre Israel e a Palestina? ..

Dependendo da perspectiva a partir da qual se avalia essas questões. Ocorre que durante muitos séculos. Vamos desenvolver o conceito de ETNIA. Elas dependem em grande parte da posição e da capacidade de imparcialidade de quem as responde. O que nos leva de volta ao conceito de CULTURA. Segundo o dicionário HOUAISS: . um relativo isolamento entre os povos teve como resultado o surgimento de muitas etnias diferentes ao redor do mundo. pode-se caracterizar certas respostas como resultado de atitudes etnocêntricas ou relativistas. Cada cultura desenvolve um sistema simbólico que permite aos indivíduos se relacionarem dentro de uma mesma linguagem de mundo. A garantia dos direitos humanos e as lutas pelo tratamento igualitário entre os povos têm trazido à tona importantes discussões sobre as relações étnico-culturais. De qualquer forma.. preconceito.Como e por que é exercido o preconceito contra nordestinos nas regiões sul e sudeste do Brasil? As respostas a essas questões não possuem um consenso. exclusão ou práticas moralmente/fisicamente agressivas. onde o contato entre as diferentes culturas e povos é cada vez mais intenso e necessário. podemos obter respostas muito desencontradas. Em um mundo globalizado. existe uma preocupação geral e a tendência a considerar reprováveis as atitudes que resultem em discriminação. são polêmicas sociais.

ou os hábitos de vestuário / alimentação / higiene desse mesmo outro. simplesmente pelo fato dela abranger apenas um aspecto da cultura alheia. uma cultura ou ambas. religião e maneiras de agir. ou por ter se tornado tão profunda que apenas se resolve com o extermínio desse outro. que relacionavam a base biológica das populações humanas com a cultura. ou ainda através de repúdio total ao outro. Entretanto não existe intolerância mais aceitável ou menos aceitável. que a cultura não é determinada pelo padrão de herança genética de uma população. refletida principalmente na língua. Ao recusar essas teorias. a etnia pressupõe uma base biológica. É necessário perceber que a intolerância em qualquer dos casos é desnecessária. Sempre que o assunto envolve questões de conflito de interesses entre populações. Esses conflitos podem se revelar com diferentes graus de expressão e intolerância. Raça é uma construção social. a antropologia substituiu o conceito de RAÇA (de base extremamente biologizante) pelo de ETNIA. grupo étnico [Para alguns autores. Um povo pode expressar seu preconceito. podendo ser definida pó uma raça. discriminar ou repudiar os que são diferentes. Esse pensamento partia do pressuposto que a cultura é determinada pela herança genética de uma população. tanto por questões bastante específicas como a religião do outro. . Um povo pode e deve saber valorizar suas próprias características sem que seja necessário diminuir. poderíamos encontrar povos/culturas “mais evoluídos” e outros “menos evoluídos”. ANTROPOL coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural. O conceito de “raça” mostra-se impreciso uma vez que tenta determinar divisões em uma espécie que é única: o ser humano. extermínios e a prática da discriminação e do racismo. Na história da Antropologia. O conceito de etnia. contrariamente ao de raça. dá ênfase aos aspectos da herança cultural de um povo como forma de caracterizar a diferença de comportamento entre as várias populações humanas. e não uma realidade biológica. Atualmente é consenso na antropologia. O resultado óbvio foi o sentimento de superioridade de algumas culturas sobre outras. desde final do século XIX teve início um movimento de recusa às teorias evolucionistas. o termo é evitado por parte da antropologia atual. condenável e pouco efetiva no sentido de resolver conflitos de interesses entre dois ou mais povos. De acordo com esse pensamento. racismo ou ódio. trata-se de questões étnico-raciais.Etnia. que justificou decisões políticas como invasões. por não haver recebido conceituação precisa]. e este conflito revela questões culturais de qualquer abrangência. Quais eram os pressupostos do EVOLUCIONISMO SOCIAL? Parte da ideia de que haveria uma “escala evolutiva” entre os povos.

br/040/40pc_diretriz. Texto disponível eletronicamente no endereço. onde quer que os membros de diferentes raças formem um único grupo social com laços fortes. François. e que serve como justificativa para ações que atinjam moral.Notas sobre uma identidade mestiça e malandra. o individuo não é julgado como um indivíduo. Bibliografia básica: Relações étnico-culturais. vamos ler um trecho do texto de FRANZ BOAS. nas páginas 37-94. Aprender Antropologia. nós compreendemos seu apelo social em nossa sociedade. mas como membro de sua classe. muito mais que científico.Sobre a formação étnico-racial e a cultura nacional: SCHWARCZ. Brasília: 2004. Complexo de Zé Carioca .com. Tal como em todos os outros agrupamentos humanos bem marcados. Sabemos historicamente a dimensão destrutiva dos discursos sobre uma pretensa “pureza racial” e sabemos das imensas possibilidades de construir relações étnico-raciais mais democráticas e igualitárias. física e socialmente muitos povos para que não consigam reagir a situações de submissão. É um conceito social.htm Textos complementares: LAPLANTINE. Disponível em . “Marcos para uma história do pensamento antropológico”. “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.1 Conteúdo para a NP-2 (2º bimestre) Item 5. Enquanto insistirmos numa estratificação segundo camadas raciais. preconceito e direitos. Lilia K. há uma questão de poder que envolve as disputas em torno do conceito de raça. a estratificação da sociedade em grupos sociais de caráter racial ira sempre levar à discriminação de raça. os preconceitos e antagonismos raciais irão perder sua importância. 1995. . Especialmente os capítulos de 1 a 5 da Primeira Parte.” Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. nas páginas 85 e 86: “Não importa quão fraco o argumento em favor da pureza racial possa ser. SP: Brasiliense. Concluindo esse conteúdo. ou devemos tentar reconhecer as condições que levam aos antagonismos fundamentais que nos atormentam?” MÓDULO 5 – item 5. Moritz. MEC.Relações étnico-culturais: questões sociais.Percebemos que há um uso político dessas intolerâncias.1 . devemos pagar um preço alto na forma de luta inter-racial será melhor para nos continuar como estamos. Eles podem mesmo vir a desaparecer inteiramente. Portanto. Podemos ter uma razoável certeza de que. Embora as razoes biológicas aduzidas possam não ser relevantes.espacoacademico. indicado na bibliografia complementar desse tópico. http://www.

Entretanto. As guerras e conquistas. Evolucionismo social e poder: No século XIX. que viviam em democracias recémcriadas. a partir de 1492 quando a Europa passou a navegar por todo o globo. o extermínio de inimigos que oferecessem “resistência” para ser conquistado. devido a condições históricas. até o século XIX os europeus consideravam muito natural dominar e submeter outros povos. tudo era praticado sem que qualquer instituição. Ou seja. não sendo pensadas como algo sobre o qual fosse preciso refletir e explicar.http://www. pois antes disso as explicações religiosas sobre as diferentes sociedades. como acontecem atualmente. os interesses relacionados à conquista de territórios coloniais. O objetivo é analisar o preconceito como uma forma de desrespeito aos direitos dos povos e suas culturas. os povos de países onde o capitalismo não produzira a mesma riqueza permaneciam à margem desse processo. ou “darwinismo social” dominava as explicações científicas sobre a diversidade cultural. O “evolucionismo social”. antes do evento colonialista. A diversidade étnica e o contato cultural O contato entre diferentes culturas sempre existiu. Portanto. foram elementos responsáveis pela crescente aproximação de culturas. esse contato não promoveu qualquer tipo de preocupação política ou intelectual até o momento conhecido como “Grandes Navegações”. Sempre havia sido assim na história até então. Do ponto de vista das práticas dos navegantes e governos europeus. o ser humano se torna objeto de investigação científica como um dos resultados da empreitada colonialista da Europa. A escravidão. com a publicação dos primeiros trabalhos científicos no século XIX. Por isso. apesar da conquista de direitos pelos cidadãos europeus e norte-americanos. questionasse os métodos e consequências desumanas desse sistema. os Estados nacionais.anpocs. Não existe um único motivo.org. a imposição de leis que colocam um povo vencido em condições desfavoráveis perante o conquistador. ou ainda estabelecimento de comércio com povos extra-europeus. considerando a história da humanidade. as diferenças culturais eram tomadas como algo “natural”. mas uma série de razões relacionadas a isto. Da perspectiva científica. mesmo a Igreja. as Navegações fizeram parte do ambiente intelectual que deu surgimento às ciências da sociedade dois séculos mais tarde – as Grandes Navegações ocorrem no século XVI e o surgimento de uma filosofia social no século XVIII. que colocavam o vencedor como aquele que estabelece as regras do “jogo” e por ser “mais forte” podia utilizar qualquer recurso para manter o poder.br/portal/publicacoes/rbcs_00_29/rbcs29_03. .htm Este item aprofunda os temas relacionados à diversidade cultural e as relações entre grupos com culturas diferentes. bastavam a todos. ou fruto da vontade divina.

por exemplo. ou ainda por povos . a teoria do evolucionismo social foi criada e reproduzida pelo mesmo povo que detinha o poder dominador sobre os outros. que afirmava sua superioridade cultural e histórica. Agora são os norte-americanos. e não existe superioridade racial/étnica que possa ser defendida sob nenhuma base científica. Franz BOAS nos Estados Unidos. por isso dominava grande parte do mundo. A cultura não deve ser encarada apenas como uma questão de avanço técnico. chamados de “povos bárbaros”. Assim. exército. Em suas obras. sistema de leis. eles demonstram que não existe base científica para aceitar que exista um único modelo de “avanço” cultural e que todos os povos devam segui-lo. pois naquela época o poder influenciou a produção de conhecimento. escolas.Para os europeus. A busca de “progresso” é algo típico das sociedades do capitalismo-industrial. e sim como um sistema que permite aos indivíduos de um grupo se relacionar com o mundo. Índia. estariam as civilizações do Oriente Médio. sendo muito “cômodo” criar uma teoria onde seu próprio povo era considerado centro do mundo. era o fundamento que sustentava todo esse esquema que colocava a diversidade cultural dentro de uma escala classificatória que identificava cada povo como representante de um “momento evolutivo” diferente. Esse pensamento deu margem para que a sociedade européia primeiro. China e povos orientais em geral. Na antropologia cresce a produção de conhecimento que demonstrava os erros do evolucionismo social e de qualquer pensamento que classificasse os povos como “atrasados” ou “evoluídos”. e esse domínio econômico e militar passou a contar com uma justificativa científica. e do tipo de suas instituições organizadoras da vida social (o tipo de Estado. A mudança histórica – relativismo cultural e direito dos povos É a partir das primeiras décadas do século XX que esse cenário de submissão cultural começa a se modificar. houveram grandes impérios mantidos por povos do Mediterrâneo (romanos. e em uma escala intermediária. família e parentesco. As populações nativas da América (povos pré-colombianos). A antropologia começa a defender que cada cultura segue seus próprios caminhos de transformação. de qualquer perspectiva que se abordasse a questão. e uma das ex-colônias (Estados Unidos da América) terem desenvolvido o pensamento científico. Os europeus foram dominantes desde as Grandes Navegações até a II Guerra Mundial. etc.) mais primitivos eram considerados. A esse tipo de prática chamamos “eurocentrismo”. Antes disso tudo. O fato de apenas os povos europeus até aquele momento. e depois sua extensão americana se sentisse a vontade para julgar. considerando os eventos históricos que marcam seu povo. Quanto mais afastado do modo de vida europeu. e LÉVI-STRAUSS na França são importantes autores que representam essa mudança. macedônios. África e Austrália eram os “povos primitivos”. os povos indígenas do Brasil como “preguiçosos”. egípcios). ou outros povos como “atrasados” em sua mentalidade geral. a população européia era “mais evoluída” culturalmente.

Artigo V. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração.br/documentos_direitoshumanos. Já vimos isso anteriormente nos itens que abordaram o “determinismo biológico” e o “determinismo geográfico”. Leia a um trecho da Declaração abaixo: A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações. seja por suas características genéticas ou de comportamento. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política. Aqueles povos submetidos a um poder de fora. se esforce. cor. desumano ou degradante. riqueza. são resultantes de SITUAÇÕES DE PODER. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.onubrasil. mas na sociedade como um todo. quer se trate de um território independente. ou qualquer outra condição. opinião política ou de outra natureza. Portanto não há nada na genética ou na geografia de qualquer povo que possa ser apontado como fator explicativo da cultura. 16:00) .org. Artigo IV. sem governo próprio. Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel. nascimento. Todo ser humano tem direito à vida. otomanos. sexo. idioma. acabam sofrendo discriminações e violências de todo tipo. sob tutela. 2. por promover o respeito a esses direitos e liberdades. é que o preconceito contra um povo. (Documento publicado pelas Nações Unidas no Brasil. seja de raça. tendo sempre em mente esta Declaração. lembra? O que as ciências da sociedade demonstram.php. É a partir do final da II Grande Guerra. por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva. Artigo I. trecho extraído em original completo disponível em: http://www. sem distinção de qualquer espécie. origem nacional ou social. a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. 1. acessado em 04/3/2011. jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa. com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade. religião. Artigo II. pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional. à liberdade e à segurança pessoal. tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros. árabes) e também por orientais (chineses e japoneses). com a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) e a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS em 1948. quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição. quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. Grandes civilizações se desenvolveram na Índia e no norte da África muito antes dos europeus. Ninguém será mantido em escravidão ou servidão. e. que tem início uma mudança não apenas dentro das ciências. Artigo III.do Oriente Próximo (turcos. através do ensino e da educação.

Portanto.htm Esse trecho traz importantes conceitos e revela uma importante questão das relações étnico-raciais no Brasil atualmente. Nesta perspectiva. de minorias políticas e assim por diante. entre outras. alguns setores da sociedade que sofriam muito com o preconceito étnico ou outras formas de discriminação.Entre 1954 e 1980. de gênero (como por exemplo. Essas manifestações ocorreram em muitos países. religiosos. cultura. Questões introdutórias O parecer procura oferecer uma resposta. e de reconhecimento e valorização de sua história. O mais conhecido desses movimentos foi o movimento negro anti-segregacionista norte-americano. pois juntamente com as questões de discriminação étnica. Ou seja. sucesso. na área da educação. e foram incentivadas por diferentes questões étnicas como na Irlanda. e busca combater o racismo e as discriminações que atingem particularmente os negros. essas manifestações ficaram conhecidas como o movimento internacional pelos direitos civis. de políticas de reparações. posturas e valores que . identidade.br/040/40pc_diretriz. preconceito. no sentido de políticas de ações afirmativas. que ainda aparece também com sinônimos como “discriminação positiva” ou “ação positiva”. valor moral. ele. sociais. publicado pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. vieram outras como os direitos femininos. Eles trouxeram à tona um grande debate social em torno de racismo. Abaixo. isto é. cujo líder Martin Luther KING marca a história do século XX. heroísmo. as ações afirmativas têm como objetivo modificar a mentalidade geral através de atitudes que invertam as representações negativas que predominam sobre uma etnia ou grupo social específico por sua cultura ou comportamento. Em conjunto. discriminação e direitos. um trecho do documento “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana”. contra o regime de apartheid. e são responsáveis por criar o termo “ação afirmativa”. MEC. entre a população católica e os protestantes.com. As pessoas atingidas negativamente se vêem excluídas de conceitos positivos como de beleza. como referências de sucesso em grandes empresas e assim por diante. a formação de atitudes. fundada em dimensões históricas. São ações políticas que pretendem retirar os registros negativos que a sociedade cria em torno de uma etnia ou grupo social. eram progressistas e estavam unidos pelo reconhecimento dos direitos. antropológicas oriundas da realidade brasileira. que apesar de brancos. apesar de nem todos apoiarem. como modelos de publicidade. como heróis em livros didáticos ou de literatura popular. Esses registros são as formas preconceituosas que são reproduzidas e “ensinam” as pessoas como tratar discriminatoriamente alguns grupos. Esse movimento rapidamente contou com o apoio de parcelas da população. à demanda da população afrodescendente. Brasília: 2004 e que pode ser encontrado na íntegra no endereço eletrônico: http://www. de política curricular. entre outros.espacoacademico. começam a se manifestar publicamente para denunciar as injustiças sofridas contra as quais o restante da sociedade se omitia. eles são excluídos como modelos de personagens bons e belos na televisão ou cinema. Trata. propõe à divulgação e produção de conhecimentos. ou na África do Sul. dos homossexuais).

expressarem visões de mundo próprias. raciocínios. cidadão ou profissional. Políticas de Reparações. sociais. dificilmente. além de desempenharem com qualificação uma profissão. lógicas. descendentes de europeus. por meio da educação. de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática. no que cumpre ao disposto na Constituição Federal. Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais. materiais. culturais e econômicos.eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial . É necessário sublinhar que tais políticas têm. Art. bem como em virtude das políticas explícitas ou tácitas de branqueamento da população. assim como o é o reconhecimento e valorização da história. permanência e sucesso na educação escolar. romperão o sistema meritocrático que agrava desigualdades e gera injustiça. A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento. de Reconhecimento e Valorização. tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada. em que todos. entre descendentes de africanos. entre eles os afro-brasileiros. . como meta o direito dos negros. cultura e identidade dos descendentes de africanos. E isto requer mudança nos discursos. seus pensamentos. de condições para alcançar todos os requisitos tendo em vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. de manutenção de privilégios exclusivos para grupos com poder de governar e de influir na formulação de políticas. Políticas de reparações voltadas para a educação dos negros devem oferecer garantias a essa população de ingresso. fundados em preconceitos e manutenção de privilégios para os sempre privilegiados. estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas. cursarem cada um dos níveis de ensino. valorização e afirmação de direitos. de aquisição das competências e dos conhecimentos tidos como indispensáveis para continuidade nos estudos. de europeus.descendentes de africanos. explicadas. Estas condições materiais das escolas e de formação de professores são indispensáveis para uma educação de qualidade. e as estatísticas o mostram sem deixar dúvidas. Visa também a que tais medidas se concretizem em iniciativas de combate ao racismo e a toda sorte de discriminações. posturas. sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais. nos diferentes níveis de ensino. enquanto pessoa. Reconhecimento requer a adoção de políticas educacionais e de estratégias pedagógicas de valorização da diversidade. gestos. de asiáticos. mito este que difunde a crença de que. os postos à margem. que alterou a Lei 9394/1996. no que diz respeito à educação. Requer também que se conheça a sua história e cultura apresentadas. que assinala o dever do Estado de garantir indistintamente. políticos e educacionais sofridos sob o regime escravista. Cabe ao Estado promover e incentivar políticas de reparações. ou seja. de Ações Afirmativas A demanda por reparações visa a que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os descendentes de africanos negros. ao reger-se por critérios de exclusão. povos indígenas. modo de tratar as pessoas negras. assim como de todos cidadãos brasileiros. é por falta de competência ou de interesse. civis. 205. bem como para atuar como cidadãos responsáveis e participantes. no pós-abolição. a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira. dos danos psicológicos. e povos indígenas. bem como valorização da diversidade daquilo que distingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasileira. É importante salientar que tais políticas têm como meta o direito dos negros se reconhecerem na cultura nacional. igualmente. em escolas devidamente instaladas e equipadas. orientados por professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimentos. passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10639/2003. de valorização do patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro. iguais direitos para o pleno desenvolvimento de todos e de cada um. para todos. com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações. Sem a intervenção do Estado. buscando-se especificamente desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira. também. individual e coletiva. desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para os negros. se os negros não atingem os mesmos patamares que os não negros. manifestarem com autonomia.

ser sensível ao sofrimento causado por tantas formas de desqualificação: apelidos depreciativos. Discriminação Racial. Significa buscar. leia abaixo uma das questões dissertativas do ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) realizado pelo MEC anualmente. orientadas para oferta de tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvantagens e marginalização criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. Xenofobia e Discriminações Correlatas de 2001. velada ou explicitamente violentas. piadas de mau gosto sugerindo incapacidade. Nos trechos em itálico e sublinhado estão destacados alguns importantes princípios das políticas de ações afirmativas traçadas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. Reconhecer exige a valorização e respeito às pessoas negras. conjuntos de ações políticas dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais. atitudes e palavras que impliquem desrespeito e discriminação. sendo capazes de corrigir posturas.Reconhecer exige que se questionem relações étnico-raciais baseadas em preconceitos que desqualificam os negros e salientam estereótipos depreciativos. com professores competentes no domínio dos conteúdos de ensino. à sua descendência africana. não sejam desencorajados de prosseguir estudos. comprometidos com a educação de negros e brancos. Para compreender a importância das discussões que envolvem as relações étnico-culturais atualmente. próprios de uma sociedade hierárquica e desigual. menosprezados em virtude de seus antepassados terem sido explorados como escravos. desde as formas individuais até as coletivas. brincadeiras. Políticas de reparações e de reconhecimento formarão programas de ações afirmativas. expressam sentimentos de superioridade em relação aos negros. com o objetivo de combate ao racismo e a discriminações. isto é. compreender seus valores e lutas. Ações afirmativas atendem ao determinado pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. de estudar questões que dizem respeito à comunidade negra. tais como: a Convenção da UNESCO de 1960. palavras e atitudes que. a textura de seus cabelos. atualizados. contem com instalações e equipamentos sólidos. fazendo pouco das religiões de raiz africana. no sentido de que venham a relacionar-se com respeito. Abaixo estão algumas questões importantes para que você responda e que estão esclarecidas nos trechos em destaque no texto acima reproduzido: 1) Quais populações são alvos da preocupação sobre a condição de exclusão ou tratamento preconceituoso? 2) Qual o argumento do documento sobre a ênfase nas políticas de reparação voltadas à comunidade de afrodescendentes pelo Estado brasileiro? 3) Em que âmbitos da vida social o tratamento desigual ao negros requer mudanças para obtermos justiça e direitos iguais? 4) Como o documento define “ações afirmativas”? Essas perguntas acima devem servir como forma de auxiliar na interpretação do texto em destaque. bem como a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. divulgar e respeitar os processos históricos de resistência negra desencadeados pelos africanos escravizados no Brasil e por seus descendentes na contemporaneidade. freqüentados em sua maioria por população negra. Reconhecer é também valorizar. Reconhecer exige que os estabelecimentos de ensino. e servem apenas como fixação de aprendizado. direcionada ao combate ao racismo em todas as formas de ensino. bem como a Conferência Mundial de Combate ao Racismo. . Implica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele. ridicularizando seus traços físicos. sua cultura e história.

Paulo – Cotidiano.) Entre os integrantes do movimento estava a professora titular de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.) Texto II “Desde a última quinta-feira. 2006. com adaptação.. .0 pontos) b) um argumento coerente utilizado por aqueles que o defendem. (valor: 5..” (Folha de S.) O diretor executivo da Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes (Educafro). vamos analisar o quadro de correção elaborado para a prova. As duas propostas estão prontas para serem votadas na Câmara. no atual debate social. (. leia os dois textos a seguir. (valor: 5.” (Agência Estado-Brasil. 2006. Por isso ter vindo aqui já foi um avanço‟.) Ampliando ainda mais o debate sobre todas essas políticas afirmativas. Yvonne Maggie. 30 jun. frei David Raimundo dos Santos. identifique. a) um argumento coerente utilizado por aqueles que o criticam. 03 jul.. mas o movimento quer que os projetos sejam retirados da pauta. „É preciso fazer o debate. mas que considere também a condição social dos candidatos ao ingresso.0 pontos) Agora. a essência de um dos argumentos a seguir contra o sistema de cotas. a polêmica foi reacesa.. que nada mais é do que uma grade de correção para as questões dissertativas em que constam os pontos como deveriam ter sido abordados pelos estudantes para obter o valor considerado. disse. Texto I “Representantes do Movimento Negro Socialista entregaram ontem no Congresso um manifesto contra a votação dos projetos que propõem o estabelecimento de cotas para negros em Universidades Federais e a criação do Estatuto de Igualdade Racial. PADRÃO DE RESPOSTA – ENADE 2006 QUESTÃO 9 Tema – Políticas Públicas / Políticas Afirmativas / Sistema de Cotas “raciais” a) O aluno deverá apresentar. chamado de “Padrão resposta”. acredita que hoje o quadro do país é injusto com os negros e defende a adoção do sistema de cotas. Analisando a polêmica sobre o sistema de cotas “raciais”. (.ENADE 2006 – Prova de FORMAÇÃO GERAL para todos os cursos (QUESTÃO 9 – DISCURSIVA): Sobre a implantação de “políticas afirmativas” relacionadas à adoção de “sistemas de cotas” por meio de Projetos de Lei em tramitação no Congresso Nacional. quando um grupo de intelectuais entregou ao Congresso Nacional um manifesto contrário à adoção de cotas raciais no Brasil. num texto coerente e coeso. há também os que adotam a posição de que o critério para cotas nas Universidades Públicas não deva ser restritivo.

O acesso à Universidade Pública que não esteja unicamente vinculado ao mérito acadêmico pode provocar a falência do ensino público e gratuito. . a essência de um dos argumentos a seguir a favor do sistema de cotas. Ao longo da História.Diversos dispositivos dos projetos (Lei de cotas e Estatuto da Igualdade Racial) ferem o princípio constitucional da igualdade política e jurídica.Não se pode ocultar a diversidade e as especificidades sociopolíticas e culturais do povo brasileiro.0 pontos) b) O aluno deverá apresentar. e o que existe. num texto coerente e coeso. perante a lei e em suas dimensões formais e materiais. Para se tratar desigualmente os desiguais. . . favorecendo as faculdades da rede privada de ensino superior. visto que todos são iguais perante a lei.Implantar uma classificação racial oficial dos cidadãos brasileiros. somente. perpetuando-se o mando sobre uma enorme massa de população. Não sendo assim. É preciso. no sentido proposto. Sendo aprovado tal estatuto.A adoção de identidades étnicas e culturais não deve ser imposta pelo Estado. a principal luta é a de reivindicar propostas que incluam maiores investimentos na educação básica. é possível o acirramento da intolerância. então. A autorização da inclusão de dados referentes ao quesito raça/cor em instrumentos de coleta de dados em fichas de instituições de ensino e nas de atendimento em hospitais. é preciso um fundamento razoável e um fim legítimo e não um fundamento que envolve a diferença baseada. . Nesse sentido.É preciso avaliar sobre que “igualdade” se está tratando quando se diz que ela está ameaçada com os projetos em questão. . A cota não tira direitos. pode gerar ainda mais preconceito. a qualidade acadêmica pode ficar ameaçada por alunos despreparados. é a raça humana. por exemplo. Além disso.O sistema de cotas valorizaria excessivamente a raça. dando-se respaldo legal ao conceito de “raça”. (valor: 5. na cor da pele. Há necessidade de diferenciar a igualdade formal ( do ordenamento jurídico e da estrutura estatal) da igualdade material (igualdade de fato na vida econômica). mas rediscute a distribuição dos bens escassos da nação até que a distribuição igualitária dos serviços públicos seja alcançada. O princípio da igualdade assume hoje um significado complexo que deve envolver o princípio da igualdade na lei. há dificuldade para definir quem é negro porque no País domina a miscigenação. . fazer uma reparação. o País passará a definir os direitos das pessoas com base na tonalidade da pele e a História já condenou veementemente essas tentativas. . .. estabelecer cotas raciais no serviço público e criar privilégios nas relações comerciais entre poder público e empresas privadas que utilizem cotas raciais na contratação de funcionários é um equívoco. . na verdade.Políticas dirigidas a grupos “raciais” estanques em nome da justiça social não eliminam o racismo e podem produzir efeito contrário. manteve-se a centralização política e a exclusão de grande parte da população brasileira na maioria dos direitos.O acesso à Universidade deve basear-se em um único critério: o de mérito.

inclusive.. A acusação de que a defesa do sistema de cotas promove a criação de grupos sociais estanques não procede.Sobre a cultura nacional: BOSI.Na luta por ações afirmativas e pelo Estatuto da Igualdade Racial se defende muito mais do que o aumento de vagas para o trabalho e o ensino. J. pois: C ) não existe base científica que comprove a validade do uso do conceito de raça. O QUE É CULTURA. defende-se um projeto político contra a opressão e a favor do respeito às diferenças. não há diferenças de rendimento entre alunos cotistas e não-cotistas. um construto em que grupos sociais se identificam e são identificados. L.Dizer que é difícil definir quem é negro é uma hipocrisia. para as Universidades que já adotaram o sistema de cotas. uma pessoa pertencente a um determinado grupo social. cultura popular e erudita.As Universidades Públicas no Brasil sempre operaram num velado sistema de cotas para brancos afortunados. Admitir as diferenças não significa utilizá-las para inferiorizar um povo. pois não faltam agentes sociais versados em identificar negros e discriminá-los. e os abusos ideológicos de povos dominantes que o utilizaram como justificativa histórica para subjugar e exterminar povos. (valor: 5. cultura popular e erudita. MÓDULO 6 6 – A cultura na sociedade atual: nacionalidade.br/cdrom/bosi/bosi.A cultura na sociedade atual: nacionalidade. trataram de bani-lo. trata-se de um conceito político aplicado ao processo social construído sobre diferenças humanas. portanto. Cultura brasileira e culturas brasileiras http://www. .Não se pode negar a dimensão racial como uma categoria de análise das relações sociais brasileiras. in. pp. SP: Brasiliense.ufrgs. . os números revelam. 51-79. meios de comunicação – 2º bimestre 6 . . 2006 “A cultura em nossa sociedade”. que no quesito freqüência os cotistas estão em vantagem (são mais assíduos). BIBLIOGRAFIA BÁSICA: SANTOS. Alfredo.pdf .A utilização das expressões “raça” e “racismo” pelos que defendem o sistema de cotas está relacionada ao entendimento informal.Pesquisas revelam que. visto que a metodologia dos vestibulares acaba por beneficiar os alunos egressos das escolas particulares e dos cursinhos caros. Bibliografia complementar: . 1) O conceito de etnia veio a substituir o de raça. é injusta e equivocada. meios de comunicação. . e nunca como purismo biológico.0 pontos) Exercício com resposta para fixação de conteúdo. .

é um elemento agregador que promove a intermediação das relações entre os indivíduos. as pessoas tendem a naturalizar mais essa dimensão humana. Como resultado das interferências pessoais em um dado conjunto de instituições.DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO É muito comum que as pessoas em seu dia-a-dia não se deem conta que nossos hábitos. Assim. como estratégias locais de sobrevivência e reprodução. é o resultado das relações entre os indivíduos e seu grupo social. em âmbitos que envolvem nossa evolução e nossa relação com o meio ambiente. sendo impossível separarmos a cultura de um povo de sua história. As diferentes histórias de cada povo podem ser interpretadas antropologicamente. dando como certo que se trata de algo que não procede de escolhas e muito menos de formas coletivas de vivência. Assim como ocorre com os regionalismos. Entretanto. estamos falando de um aspecto imaterial. simbólico. a cultura nesse caso. percebemos que não é possível encontrar os mesmos resultados. Em geral. ou cultura nacional. na visão de mundo desse povo. Portanto. facilmente consegue-se relacionar a nossa vida material como a tecnologia. . mas não se encontram desvinculadas da história da espécie humana como um todo. Esta é a base do que denominamos CULTURA REGIONAL. da cultura humana. Entretanto. Mas quando observamos a passagem do tempo (= história) em dois grupos diferentes que utilizam o mesmo referencial cultural. cada povo em seu local específico. leis e tecnologia que formam uma totalidade social é que podemos perceber a CARACTERÍSTICA. É possível observar um grupo social a partir de sua perspectiva histórica. no primeiro exemplo. No Brasil. valores morais ou formas de julgamento são o resultado de um processo histórico de nosso grupo social. temos a existência de regiões geográficas que definem regiões culturais diferentes. regras. Portanto as culturas regionais e nacionais se referem sempre a experiências compartilhadas por uma população durante um período de tempo suficiente para deixar marcas nas relações sociais. ocorre também com relação à sociedade nacional. por exemplo. mesmo quando passa por eventos semelhantes e utiliza as mesmas convenções sociais. podemos afirmar que estamos em um mesmo momento da história de nossa espécie. O fato é que a história de qualquer grupo social interfere o tempo todo em seu presente. como resultante de um processo complexo de desenvolvimento que envolve conhecimento e condições técnicas-econômicas de implantação. e como resultado percebemos que cada grupo é único. costumes. a ESPECIFICIDADE de uma cultura. A experiência histórica em cada uma delas determinou características particulares dentro da grande totalidade que chamamos de “cultura brasileira”. Isso porque.

existe a questão do pertencimento a classes sociais. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. procurando entender a sua lógica interna. Somos ao mesmo tempo resultados de uma HERANÇA cultural e produtores dessa herança para as próximas gerações. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. atrasado. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. sua dinâmica e principalmente. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. e vice-versa. Para facilitar a compreensão desse fenômeno. esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população.) De fato. Nossas condições materiais de existência afetam nossas condições psíquicas e culturais. um conhecimento que supunha inferior. Vamos ao texto indicado para leitura na bibliografia deste módulo para esclarecer essa classificação da cultura. advogados. Se partirmos dessa compreensão de cultura como resultado da vida sócio-histórica dos indivíduos que atuam em um grupo. notamos certos padrões de comportamento que se associam a padrões de consumo. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. José Luiz dos SANTOS explica: Comecemos por esta última indagação. ou estéticos. cultura erudita e cultura de massa. ou recusando-os e enfraquecendo sua importância. podemos então detalhar alguns aspectos importantes da vida cultural em nossa sociedade atualmente. com a possibilidade de reforçar certos comportamentos. a cultura popular. buscando o que há de específico nelas. ou em outras palavras. superado.Neste âmbito é que reside a questão da relação indivíduo-sociedade. também marcamos essa história. capazes de criar grupos de pessoas que se identificam e mantêm características e hábitos próprios. tais com a universidade. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média.. Em nossa sociedade. da renda como determinante das posições na hierarquia social. É que. Entende-se por cultura popular as manifestações . ou de gosto. as implicações políticas que possam ter. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. as academias. engenheiros e outras). e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. e que por sua vez se associam a um conjunto de valores morais. Ao mesmo tempo em que cada um de nós é marcado pela história de nosso grupo social. (. repetindo-os e mantendo-os atuantes. utilizamos os conceitos de cultura popular. e a única forma de consciência disso se expressa através da necessidade pessoal em defender e preservar certos traços de comportamento e recusar outros. expresso pela filosofia. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. as ordens profissionais (de médicos.. Assim. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. Não nos damos conta disso em nosso cotidiano.

Quer ter personalidade.L. e psicológico. São artistas. Repete as opiniões alheias. o cinema. porque está na moda.culturais dessas classes. O treinamento normalmente é proporcionado com baixos investimentos. que existem independentemente delas. e tem uma relação mais emocional que crítica em relação ao gosto. pois não é capaz de ter opinião própria. gravadoras. o indivíduo gosta de ser diferente. J. A massa é ao mesmo tempo um fenômeno quantitativo. mas não quer chamar a atenção. artesãos. Já a cultura popular é uma produção resultante de conhecimentos da tradição oral. que dependem de treinamento constante e dedicação – de tempo e de investimentos financeiros. e assim o inclui em um movimento. Portanto podemos falar em uma cultura popular de massas. ou mesmo como estratégia de sobrevivência. atrelados a uma empresa (editoras. A cultura de massa resulta do trabalho empresarial sobre produtos e artistas tanto da cultura erudita quanto da cultura popular. normalmente são um exemplo da cultura erudita de massas. pp. a Internet e assim por diante. Não há criadores espontâneos da cultura de massa. Gosta porque todos gostam. (Santos. um palco e uma audiência que espera ser entretida por um apresentador que lhes proporciona carisma. Já a maior parte dos programas televisivos de auditório. os livros que se tornam campeões de vendas. pois são muitas pessoas. admiração e que lhes mostra a vida como um espetáculo. grupos de comunicação) que visa lucro com os produtos culturais. mas igual. manifestações diferentes da cultura dominante.54-55) A conclusão é que denominamos cultura erudita toda a produção material e imaterial resultante de conhecimento intelectual e técnicos especializados. Na massa. Há empresários e técnicos. produtoras. que estão fora de suas instituições. . gosta porque esse consumo lhe dá status e uma boa visibilidade social. E quanto à cultura de massa? Bem. do convívio e da informalidade. é um fenômeno que depende da existência dos meios de comunicação de massa como o rádio. ou trabalhadores que dominam sua técnica de forma autodidata e reproduzem aprendizados que passam de geração a geração. Eles se apropriam dessa cultura através de contratos e divulgam todo tipo de produção cultural através do mercado para que as pessoas adquiram esse material. O indivíduo que faz parte da massa responde de forma imatura ao que recebe. porque o mesmo conteúdo atinge um imenso número de pessoas ao mesmo tempo. e uma cultura erudita de massas? Sim! Para exemplificar. letrados. exemplifica a cultura popular de massa. a imprensa. Esse tipo de programa se baseia na antiga receita do circo. São classificados como “de massa”. 2006. mesmo sendo suas contemporâneas. a televisão.

da homogeneização.A cultura de massa é um importante fenômeno econômico. a partir da seguinte proposta: . O espaço que a mídia dá ao padrão é infinitamente maior que o espaço dado ao diferente. incentivando e valorizando o comportamento padronizado. o gosto sempre vai reproduzir a adesão aos mesmos tipos de produtos culturais. Além de estar presente em todos os aspectos da nossa vida. E assim. sensibilidade ou percepção aguçada. Esses tipos de cultura não pretendem se tornar produtos de sucesso. sem considerarmos a influência e os propósitos da cultura de massa. Agora idolatramos pessoas da mídia. defendem que a cultura de massa é o “espírito” de nosso tempo. O objetivo é fazer um exercício de sensibilização da percepção sobre os fenômenos da cultura contemporânea. A massa prefere o entretenimento. Eles circulam em meios onde o interesse está para além da atenção da mídia e da carreira bem sucedida empresarialmente. cultural e psicológico de nossa sociedade atualmente. E isso não é propriamente uma alienação. cuja fama ou merecimento são passageiros e questionáveis. É uma referência de estilo de vida. e sim uma característica da cultura de nossa época. ao participar do consumo cultural de massa. É um círculo vicioso: a indústria cultural é que modela o gosto da massa. o exótico. o de difícil aceitação pela massa. Os indivíduos se sentem seguros ao reproduzir o gosto da indústria cultural de massa. Já outros teóricos. a diversão descomprometida ao envolvimento com produtos e gostos que exigem reflexão. ou a massa é quem exige esse tipo de cultura? Uma pequena parcela de nossa sociedade tem acesso à cultura erudita. a cultura de massa substitui necessidades até mesmo de devoção religiosa. Essa indústria se beneficia da padronização de gosto. Segundo essa escola. sem receber nada de realmente original ou que não seja meramente divertido. todos somos alienados. pois perdemos a capacidade racional de crítica. que extrapolam os objetivos de mercado. Portanto você pode utilizar tanto os conceitos trabalhados neste módulo. de informação. E também a cultura popular depende do envolvimento e interesse populares. Algumas escolas de estudo dos fenômenos sociais relacionadas aos meios de comunicação de massa conceituam diferentemente essa reação da população ao funcionamento da cultura de massa. Este é um exercício de redação temática e reflexiva. Assim. não é possível compreendermos nossa relação com a cultura em nossa sociedade. Há os que se referem a esse comportamento como “alienado”. e para isso os estimula. que se dá através de escolas e universidades muito seletivas. de diversão. Quem é que não tem nostalgia de programas e até mesmo de propagandas de sua infância? Até mesmo nossa biografia e memória afetiva dependem da exposição aos produtos dessa indústria cultural. Para isso você deve fazer uma redação de no mínimo dez linhas e no máximo 30 linhas. como dos textos indicados ou de pesquisa pessoal sobre esse conteúdo.

poder e cultura.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132004000200004&lng=en&nrm=iso> .Observe a reação das pessoas em situação de exposição a produtos da indústria cultural. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico.Sobre cultura e relações de poder no Brasil: . n. Oct. está sendo repetitivo ou não. Guillermo. A ampliação de seus domínios como.A cultura na sociedade atual. Bibliografia complementar e endereços para pesquisas eletrônicas: . assistir a filmes de sucesso ou ler publicações como revistas de grande tiragem e circulação. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes.scielo. Rio de Janeiro.o ritmo de seu texto: introdução ao tema.o foco na questão abordada: está colocado de forma adequada. pp. Mana. Faça uma reflexão onde você é capaz de expor ao leitor a influência da mídia e dos espetáculos de massa no comportamento dos indivíduos.L. poder e meio ambiente: FOLADORI. Disponível em <http://www. 2. TAKS. você está sendo objetivo. 2006. SP: Brasiliense. pois uma minoria tem acesso ao conhecimento erudito. como ver vitrines da moda. Exercício com resposta 1) Leia o trecho a seguir e escolha entre as alternativas aquela que corresponde ao pensamento expresso pelo autor: “Da mesma forma.” (SANTOS. 80-86. O QUE É CULTURA. consegue abordar os aspectos mais relevantes? . Bibliografia básica: “Cultura e relações de poder” in SANTOS. por exemplo. 56) A) para o autor. Pense em eventos para grandes multidões como espetáculos musicais ou esportivos. 10. J. Peça a um colega ou um professor que leia seu texto e faça uma auto-avaliação onde você considere algumas habilidades que puderam ser trabalhadas. O QUE É CULTURA. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. pode ser entendida como uma forma de controle social. 2004 .br/scielo. Javier. a divisão entre cultura erudita e popular mostra uma relação de poder. Como sugestão: . que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. Um olhar antropológico sobre a questão ambiental. MÓDULO 7 Conteúdo para a prova NP-2 – 2º bimestre 7 . v. pg. desenvolvimento e conclusões. mas não toda a população. José Luiz dos.Sobre o tema cultura.

Por isso dizemos que saber é poder. diversão e saberes.arq.pdf> Desenvolvimento do conteúdo Até aqui foi ressaltado o conceito de cultura como algo que identifica um povo. Os poderes econômico e político têm um efeito direto sobre a cultura. a cultura popular deve ter incentivo para não depender apenas dos interesses empresariais que querem vender mais e acabam deixando de lado verdadeiros talentos. podemos falar que independente de classes sociais e posições de poder. Chamamos a isso de “democratização da cultura”. Você tem cultura. Quando um Estado coloca em prática uma política de democratização cultural. Toda essa relação de poder foi colocada até agora. No processo histórico de formação da sociedade capitalista. Dessa perspectiva. dentro de uma sociedade leva diferentes grupos a ocuparem posições em uma hierarquia que os torna menos poderosos ou. é necessário lembrar que a cultura está sujeita às disputas e conflitos que. o comércio e a oferta de serviços se tornaram especialidades que dependem do domínio também da tecnologia. através de produtoras. e também em assunto institucional. todos fazem parte de uma mesma totalidade. como seus hábitos. na outra escala.dentro de uma única sociedade que possui a mesma influência cultural.ufsc.daMATTA. da arte ao saber. sejam de acesso a uma maioria. A cultura se transformou em assunto de mercado. aos bens culturais como um todo. Entretanto. em uma sociedade de classes. é possível afirmar que as relações de poder interferem? Sim! . artigo publicado no Jornal da Embratel. os recursos não são divididos de forma igualitária. existe uma intensa movimentação de interesses na forma como a cultura “circula” em nossa sociedade. empresas ou editoras que comercializam arte. A indústria. como as escolas e órgãos públicos dedicados a ela. 1981. Assim. sua missão deve ser a de dar apoio às várias formas de manifestação cultural: a cultura erudita deve chegar ao público que não tem dinheiro para pagar por ela. costumes e saberes. educação formal. Alguns grupos pressionam o Estado para que os bens culturais. Roberto. e não uma minoria.br/urbanismo5/artigos/artigos_mr. os meios de comunicação de massa devem diversificar sua programação. alguns grupos possuem mais riqueza e por isso têm acesso a mais informação. E entre diferentes culturas. e interessa a todos. com bastante poder. Disponível em <http://www. Os indivíduos mais qualificados conseguem ocupar posições mais privilegiadas economicamente. dando igual espaço a todas as manifestações culturais. Ocorre que. Rio de Janeiro. ou seja. de todas as classes sociais. da diversão ao saber. Portanto. a erradicação do analfabetismo é muito importante para toda a sociedade. o domínio dos saberes técnicos especializados foi importante para criar noções como progresso e desenvolvimento.

e também à arte e diversão. apropriação. A diversidade cultural é acompanhada de diferenças de poder. Há aí controle. como também a história das relações entre as diferentes nações em cada época. A cultura seria um poder? Na verdade. Eu faço uma análise da cultura a partir das dinâmicas socioculturais com esse filtro das relações de poder. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. quem faz cultura tem poder. E como conseqüência disso. que está relacionada aos modos de vida. Os preconceitos culturais podem marcar uma sociedade que possui diferentes etnias e grupos com culturas muito próprias em seu interior. SP: Brasiliense. Portanto podemos afirmar que há desigualdade cultural entre os povos atualmente. colocar suas pautas e desenvolver a sua ação política. É um livro sobre a função política da cultura. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. abaixo está reproduzido um trecho da entrevista com o autor Leonardo Brant. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. aos valores. tento buscar mais do conceito. por isso têm acesso a uma parte “privilegiada” da cultura. E como vamos dar poder para isso que a gente mal sabe o que é? Mas. Veja a seguir: Como o livro aborda o poder da cultura? O que eu tento apresentar no livro é que a idéia de cultura nasce a partir de relações de poder.Da mesma forma como alguns grupos conseguem o domínio econômico dentro de uma sociedade. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. Sem querer contrapor essa definição. Eu parto da definição de cultura da Unesco. 2006: pgs. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. pela Editora Peirópolis. da cultura como o que você pode extrair desse modo de vida e dos valores para transformar. é uma produção coletiva. São lutas pela transformação da cultura. Esse processo acompanha a história de uma nação. na época do lançamento de seu livro “O Poder da Cultura”. aos saberes de forma geral. sem dúvida. temos que compreendê-la como um processo. da capacidade de se manifestar. Vamos ler um trecho do autor indicado na bibliografia para concluir esse módulo: A cultura. seja um poder no sentido do cidadão. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. Para aprofundar um pouco mais esse assunto. Cultura eu defino como um plasma invisível que a gente não consegue identificar. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. Não existe cultura sem relação de poder. O QUE É CULTURA. está em constante mudança. 84-86) Como a cultura é dinâmica. Quero dar uma perspectiva nova. O assunto do livro está bastante relacionado com a nossa discussão. Elas também influenciam mais as outras do que são por elas influenciadas. José Luiz. (SANTOS. eu falo do poder de quem faz cultura. entre diferentes sociedades essa mesma disputa ocorre. mas também pode marcar as relações entre povos que ocupam mais ou menos poder. Para transformar o quê? . desigualdades no plano cultural. Esse "para transformar" não está contemplado no conceito da Unesco. Algumas nações mais poderosas economicamente no cenário mundial garantem mais acesso a educação. às crenças. como temos visto.

globo. da arte contemporânea. seja da cultura popular. mesmo que você não queira olhar para eles. saberes. Para isso o Estado precisa fornecer esses tais serviços culturais. Se eu me transformar. mas outra coisa é a dimensão cultural da economia. Vai te transformar e auxiliar no embate cotidiano que o ser humano tem.de um país capitalista. é correto afirmar que a cultura está influenciada pelas relações de poder econômico e político? . Como é esse acesso à cultura pela população? Existe o direito de conhecer as outras culturas. É um assunto polêmico. Não devemos abrir mão dele por uma coisa que não sabemos o que é. Eles têm uma dimensão política que é intrínseca ao fazer cultural. na data de 25/04/2010. eles estão ali. sim. Assim como existe uma dimensão social e econômica no fazer cultural. de tentar se reconhecer. Então como se dá a transformação da cultura em produto? Eu considero essa dimensão econômica da cultura. Nesse processo. o que você acha das leis de incentivo? Com certeza não é a melhor maneira de se realizar atividade cultural no país. para o jornal Gazeta online. do espetáculo. do grupo social e da sociedade como um todo. Exercício com resposta para o módulo 71) A cultura é o conjunto de idéias. embora muitas pessoas não queiram admitir . A sociedade precisa incorporar esses processos. Mas o mais importante é se transformar. nos dias de hoje a circulação da cultura está muito associada ao capital. como se dão e como a nossa relação com esses sistemas de construção do imaginário acontece.html>) Concluindo. mas é a que temos. E aí eu falo de qualquer dinâmica cultural. mesmo que não se faça com uma intenção específica. Isso acontece porque fomos alijados desse direito na formação do nosso Estado. existem os efeitos políticos. Aí a gente começa a compreender o sistema financeiro e que tem uma relação de equilíbrio entre o lado cultural e o econômico. está muito subordinada a ditames de comportamento que foram dados e construídos por sistemas culturais preestabelecidos que muitas vezes a gente não se dá conta que existem.com/_conteudo/2010/04/629540-entrevista+++leonardo+brant+++especialista+na+area+de+politicas+culturais. tradições e costumes de um povo. eu transformo meu entorno e eu transformo a sociedade. e não seja algo atrelado a questões políticas e eleitorais. A nação brasileira sequer sabe o que é serviço cultural. autônomos. qualquer tipo de expressão e processo que passe pela questão cultural. texto disponível em <http://gazetaonline. Quando a gente construir dez anos de investimentos diretos e consolidados que sejam isentos.A gente desde o começo apresenta a cultura do ponto de vista do indivíduo. os artistas devem ter função social ou política? Mesmo sem se dar conta.importante. saber a que veio. A nossa sociedade do consumo. Faz parte da estratégia dos sistemas de poder de informação não falar sobre os meandros de seu próprio sistema. Faz parte do processo cultural tentar explicitar um pouco mais as relações de poder. O grande desafio com política pública no Brasil é como universalizar esses serviços. (entrevista de Tatiana WUO. Não temos direito ao conhecimento existente em espaços como uma biblioteca. dentro do ambiente em que vivemos . Por isso “ter cultura” é algo que exige investimentos pessoais e sociais. de educação. Apesar disso. mas acho que não devemos abrir mão da lei de incentivo em troca de um discurso de retomada do papel do Estado na cultura. Essas dimensões são convergentes. Nesse sentido de transformações. porque por enquanto é só um discurso. que tem diversas nuances. se identificar. Sabe o que é serviço de saúde. aí teremos um sistema um pouco mais desenvolvido.

KEMP. 7ª ed. IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE. filosofia da cultura.com/2006/moda-e-tribos-urbanas/. “Moda e Tribos Urbanas” – blog editado por Queila Ferraz Monteiro. 2009. 21:00.). São Paulo: Contexto. Pp. O outro e sua subjetividade. Ed. Então preste atenção: multicultural se refere a uma sociedade que é formada por muitas etnias (=culturas) diferentes. DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO Segundo Stuart HALL MULTICULTURAL: características sociais e problemas de governabilidade apresentados por sociedades com diferentes comunidades culturais. pois na sociedade capitalista a cultura se transformou em bens comercializados. Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção em diversos cursos superiores e de pós-graduação: http://www.. acessado em 10/03/2009. MULTICULTURALISMO: estratégias e políticas usadas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade em sociedades multiculturais. S (Org. MÓDULO 8 8. Sugestão de sítios da Internet: “Tribos de Brasília” – blog editado por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília: http://bsbtribos.c)Sim. 5ª. 2004. ANTROPOS E PSIQUE.fashionbubbles.com/. “Identidade cultural”. . Identidade cultural na atualidade: multiculturalismo e tribalismo urbano – 2º bim BIBLIOGRAFIA BÁSICA: “O futuro da antropologia”. in GUERRIERO. Olho D‟água. e portanto uma minoria privilegiada economicamente tem acesso a mais bens culturais. Mércio Pereira.blogspot. Antropologia – ciência do homem. Rio de Janeiro: DP&A. in GOMES. acessado em 10/03/2009. e que de alguma forma fazem questão de manter hábitos próprios e suas tradições. Stuart. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR: HALL. 2003. K. 21:12. 205-214. São Paulo: Ed.

Atualmente. Faziam parte da história de territórios colonizados. no período colonial. que eram ocupados por uma sociedade etnicamente homogênea.Apesar de comporem uma mesma sociedade nacional. e consequentemente de DIFERENÇA CULTURAL. não apenas com direitos iguais. com a ajuda de novas tecnologias.org. disponível em: ttp://www. e enfrentam muitos problemas políticos para que todos se sintam INCLUÍDOS. programas de apoio aos grupos marginalizados. mas que sejam igualmente valorizados como parte de uma sociedade múltipla. quem quer ser diferente e mesmo assim tratado igualmente? O Brasil e os Estados Unidos são países que desde sua criação.itaucultural. quase todos os países europeus. . Mulheres. a partir das garantias igualitárias. o direito à diferença. culturais e étnicas. ações anti-racistas e antidiscriminatórias são experimentadas em toda a parte. educação bilingüe. negros (ou afro-americanos). começam a conhecer a convivência com a participação em sua população. longe de uniformizar o planeta (como propalado por certas interpretações fatalistas). ou mesmo demanda de mercado.as "políticas compensatórias" ou as "ações afirmativas" . formam sociedades MULTICULTURAIS. Enciclopédia Eletrônica. quem quer ser igual a quem. Portanto o debate do multiculturalismo nos leva aos conceitos de IDENTIDADE CULTURAL. assim como a formação de sujeitos políticos que reivindicam. (FONTE: Itaú Cultural. Quem é igual a quem em uma sociedade multicultural? Ou mais. Isso os torna multiculturais também.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3186) Identidade versus Diferença – São conceitos inseparáveis e mutuamente determinados: não temos como perceber ou definir uma identidade cultural sem relacionar com alguma outra que é DIFERENTE dela. Cotas paras minorias. O multiculturalismo como expressão cultural da atualidade. homossexuais.que tomam os mais diversos setores da vida social. um país multicultural convive com setores que se diferenciam muito em sua forma de convivência. trazem consigo a afirmação de identidades locais e regionais. Muitos países no mundo de hoje são sociedades multiculturais. demandas de serviços e políticas. As sociedades multiculturais não eram comuns até a década de 80.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index. A cultura torna-se instrumento de definição de políticas de inclusão social . de um numero cada vez maior de etnias. populações latino-americanas ("hispanos" ou chicanos) e migrantes em geral se fazem presentes como atores políticos a partir da marcação de diferenças de gênero. é uma forma de atitude política que se baseia no reforço das IDENTIDADES CULTURAIS: A globalização do capital e a circulação intensificada de informações. e haver uma CULTURA NACIONAL que agrega a todos indistintamente.

Perguntas como: “Fazer isso. cada indivíduo entra em um processo de identificação. têm também direito a serem diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades. através de práticas coletivas próprias. práticas sociais e agendas políticas. A cada uma delas o sujeito avalia qual seu grau de envolvimento e como delas se aproxima. contudo. por exemplo. técnicas. . recebem a visão de mundo de sua cultura. como intersubjetivamente. Boaventura de Souza Santos. onde os elementos de sua subjetividade vão se reorganizando em função de novas experiências. “Eu me sinto bem ao pensar sobre esse assunto DESTA maneira?”. de qualquer cultura que seja. A diferença está no seguinte ponto. quando cada indivíduo entende como próprio de si mesmo um conjunto de hábitos e formas de sensibilidade que foram coletivamente constituídas. pode conhecer. introjetam os valores. Para constituir uma identidade. “Eu percebo beleza NESTA forma de aparência social?” Tais questionamentos fazem parte da capacidade de REFLEXÃO que cada um de nós possui. e que nas sociedades contemporâneas faz parte de uma exigência para nossos posicionamentos e atitudes. rituais.Diferença. Ao entrar em contato com diferentes setores e ordens da sociedade. Somos cobrados a “ter identidade” (também uma outra noção do senso comum bastante confusa. um iminente sociólogo da atualidade tem uma frase que colabora de forma excepcional para a compreensão do debate sobre a identidade e o direito à diferença.” O conceito de identidade cultural permite compreender os processos através dos quais os indivíduos passam a tomar como “gosto” ou “preferência pessoal” um conjunto que expressa sua subjetividade e o coloca nas relações interpessoais de forma a sentir que pertence a um coletivo. A cada cultura corresponde um imenso e vasto repertório de hábitos. capazes de informar o modo como indivíduos marginalizados são posicionados e construídos em teorias sociais dominantes. a “ter personalidade” (que no senso comum é um conceito difuso e polissêmico). DESTA forma. saberes. valores. endoculturação. Todos os conceitos trabalhados anteriormente nos outros módulos fazem parte dos processos de identificação. A identidade cultural de um grupo se manifesta tanto externamente. Qual seja: “As pessoas têm direito a serem iguais sempre que a diferença as tornar inferiores. entrar em contato e experimentar a totalidade desse conjunto. me dá prazer?”. Nenhum indivíduo. Somos o tempo todo “cobrados” a uma “opinião pessoal”. vestuário e adornos corporais. a uma “atitude pessoal”. a um “estilo pessoal”. pois entende que podemos “perder” nossa identidade). ou o direito à diferença: conjunto de princípios que organizam elementos culturais e princípios de valores de inclusão e exclusão. os indivíduos passam pelos processos de socialização. “Eu considero justo que as pessoas tomem ESTA tal atitude em tal situação?”.

o preconceito. Nesse contato. que são impostos a todos os indivíduos dessa dada sociedade. É como . diminuir a importância desse tipo de comportamento. em nossa trajetória pessoal e os contatos sociais que vão se sucedendo ao longo da vida. Entretanto. ou menos com cada tipo de comportamento. o estigma. dominantes em relação a muitas outras. Para cada grupo social existem identidades que são hegemônicas. a identidade cultural de um ou outro grupo que crie uma identidade será aceita pela maioria que segue o modelo imposto. A referência da diferença é o que faz a identidade. Estamos falando sobre a forma como certos grupos exercem PODER sobre outros. a sociedade tenta reprimir o processo de desenvolvimento dessas identidades. O estereótipo se realiza quando a sociedade cria uma imagem mental (um imaginário) falso com idéias que reduzem a identidade cultural de um certo grupo a conteúdos que pretendem denegrir. . como através da punição moral e da vigilância através de normas e leis. a subjetividade. podemos nos identificar mais. cada grupo precisa se fazer contrastar dos demais. existem processos de constituição de grupos com identidades que de alguma forma negam ou entram em conflito com esse padrão hegemônico. As identidades hegemônicas correspondem a modelos do padrão moral. o que faz com que pareça que identidade é sempre uma questão de escolha.relacional: é “em relação” ao outro que afirmamos nossa identidade. podemos encontrar um amplo espectro de grupos que se identificam de forma bem distinta. Mas não é exatamente assim que acontece no cotidiano das pessoas. seus participantes passam a receber um tratamento social desigual cuja mensagem bastante clara é: “não aceitamos sua identidade”. Quando há uma severa desaprovação relacionada a certa identidade social. tratando os indivíduos participantes através de estratégias que geram exclusão social – o estereótipo. e desde que as atitudes dos indivíduos se enquadrem dentro desse padrão aceito. uma opção. Desta forma. Ser estigmatizado em função de características de comportamento ou crenças é algo que podemos encontrar em referência a diversas identidades sociais ao longo da história. Nesse caso. as relações entre os vários grupos com diferentes identidades e assim por diante). nos fazendo mais próximos ou distantes de uma ou outra forma de identidade coletiva.contrastiva: para que se destaque de forma única. . há como um “padrão” de comportamento social. e contínuo ao longo da vida de cada indivíduo. tanto através de mecanismos de socialização.Bem. Essa identidade pode ser compreendida dentro dos seguintes processos: . temos a oportunidade de obter informações ou participar de diferentes grupos que relacionam os elementos culturais de forma original e passam a construir uma “identidade própria”. Nas sociedades modernizadas atualmente. ou seja.processual: faz parte de um sistema complexo (pois inclui a referência dada pelo grupo.

O termo “minorias sociais” surge a partir da década de 70 do séc. psicológico ou moral dos “outros”. Setores da sociedade que possuem características marcantes o suficiente para que lhes seja atribuída uma identidade. Não existe mais a noção de maioria ou minoria estatística. e inferiores também em termos de poder ou alcance para fazer valer a legitimidade de sua identidade coletiva. Um pré-conceito de fato. Os critérios que possibilitam criar essas idéias não possuem comprovação e não são demonstráveis. É uma nova forma de atuação política. pois se organiza em torno de associações lógicas questionáveis e sem contato com a realidade sobre a qual pretende afirmar qualquer coisa. Ele procurava designar a existência de grupos dentro da sociedade contemporânea. É um conceito sobre pessoas que é pré-estabelecido. esclarecimento e receptividade da sociedade. “rotular alguém”. mesmo porque essa questão é muito relativa ao universo social ao qual esse ou aquele grupo pode estar relacionado. XX. ou de uma forma de orientação da sexualidade. quando as pessoas tomam contato com a realidade do outro há uma possibilidade de se abandonar preconceitos. “os pobres são ladrões” são afirmações carregadas de preconceito. exigindo um tratamento que não gere exclusão social ou desigualdade de direitos aos cidadãos. estigma ou estereótipos. Atualmente o conceito de minoria se refere a essa dimensão da posse do poder de controle sobre a moral da sociedade ou da ausência desse mesmo poder. Também correspondia ao termo maioria. a maioria das pessoas correspondia às expectativas dos padrões morais que regem a conduta dentro de nossa sociedade. Afinal. cujos traços característicos ou comportamento expresso não correspondiam ao modelo hegemônico. Um dos traços marcantes da sociedade contemporânea tem sido exatamente esse. que foge dos padrões tradicionais e se organiza em torno de propostas de ação que gere impacto positivo. ou de uma crença. Um determinado grupo social passa a ser reconhecido como “minoria social” quando vem de alguma forma se expressar. “Os negros são inferiores”. “as louras são burras”. À posse do discurso sobre os direitos ou da ausência do reconhecimento social de direitos iguais. mas em outro contexto essa minoria pode representar até mesmo uma maioria estatística. Essas associações fazem a ligação entre características físicas e conteúdo mental. e que se organizam em torno de reivindicações de direitos sociais. por conseguir impor através da hegemonia um modelo padrão de identificação. cuja mobilização procura gerar um debate na sociedade em termos de direitos de igualdade e reverter situações de preconceito. . À minoria corresponderia então grupos estatisticamente inferiores. São as chamadas “ações afirmativas”. Uma minoria pode ser constituída por traços básicos de uma etnia. Por que essa referência de dimensões? Minoria e maioria? Exatamente a o que elas se referem? Apenas ao número de pessoas? Entendia-se que estatisticamente. Num certo contexto a minoria é realmente menor estatisticamente em relação a certo universo de pessoas. O preconceito é um julgamento estabelecido previamente a qualquer conhecimento aceitável.comumente se diz. mas possuem força moral sobre a maioria dos indivíduos do grupo.

escarificação entre outros). se reúnem em locais que acabam sendo reconhecidos como “seu território”. as pessoas que participam dessas tribos. as vezes colaborando para aumentar seu repertório. podemos encontrar grupos que se organizam em torno de propostas de lazer. “góticos”. surgiu uma forma de expressão de identidades que com ele dialoga. Normalmente. principalmente grupos étnicos que em muitos lugares são oprimidos por sua condição de origem. “moto bikers”. transgêneros. “emos”. “skatistas”. Através da convivência nesses grupos. O que esse fenômeno social nos mostra. o senso comum considera “exagero” e reprime ou procura desmoralizar através do estigma. construindo uma estética própria. Em grandes cidades do mundo todo. São as chamadas “tribos urbanas”. consumo. as vezes rejeitando os mecanismos que seduzem os indivíduos a participar dele. a atuação política se faz também presente. quem é “de fora”. e não “disfarçar” para não serem notados. Sem a pretensão de se tornarem dominadores. travestis. e fazem questão de serem reconhecidos por ela. valores e rituais que os diferenciam da sociedade em geral. atividades lúdicas. para além do que o senso comum consegue compreender. Os grupos que se organizam em torno de estilos de vida. e compartilham diferentes modos de vida. formando essas “tribos” são a expressão de novas formas de sensibilidade social. podemos testemunhar o fenômeno da formação desse tipo de constituição de uma coletividade. eles provocam na sociedade uma reflexão sobre nossos padrões de conduta. Exercício com resposta para o item 81) Quando muitas culturas convivem dentro de uma mesma nação. atividades de sociabilidade.São chamadas minorias hoje. Eles querem exatamente mostrar essa diferença. é que atualmente os indivíduos procuram refletir sobre sua subjetividade e expressá-la de formas criativas e originais. “modernos primitivos” (que praticam muitos estilos de modificação corporal como tatuagens. Com o crescimento do mercado capitalista de consumo. arte e que em alguns casos. . Esses grupos se constituem em torno de estilos de vida. desde o final da II Guerra Mundial. implantes. é correto associar ao conceito de: c) Multiculturalismo. Os indivíduos que fazem parte de uma “tribo urbana” não ocultam essa forma de gosto ou identidade. Vamos citar alguns: “rappers”. Por isso utilizam um vestuário característico. Ao lado das chamadas minorias sociais. grupos de orientação religiosa não católica ou protestante. “metaleiros”. não consegue compreender. experimentam novas formas de convívio social e colocam em jogo novos valores. e utilizam um linguajar com gírias e termos que. bissexuais). piercings. grupos de orientação sexual não heterossexual (homossexuais. “jipeiros”.

1 CONTEÚDO PARA A PROVA NP-2 – 2º bimestre 8.1 E sobre a pesquisa antropológica? Qual sua importância para essa temática das identidades contemporâneas? A pesquisa de campo reescreveu a história da antropologia. pp 29-49. procurando se colocar sempre que possível no lugar do outro. Ele também não se limita a ser um observador. Mércio Pereira. Bibliografia básica: “Metodologia”. filosofia da cultura. é tentar encontrar uma perspectiva de abordagem desse outro. A partir do contato direto entre pesquisador e cultura pesquisada.1 . mas não tão distante como o do observador de laboratório. Desenvolvimento do conteúdo – item 8. in ANTROPOS E PSIQUE – o outro e sua subjetividade. Antropologia – ciência do homem. portanto. PASSADOR. Ela veio a ser uma alternativa às chamadas “pesquisas de gabinete”. “Os pais fundadores da etnografia – Boas e Malinowski”. O principal.Identidade cultural na atualidade: pesquisa antropológica. 2009. Ou seja. SP: Olho d´Água.br/ucg/institutos/igpa/site/home/secao. São Paulo: Contexto. os pressupostos sobre cultura e comportamento humano sofreram mudanças importantes. 53-67.MÓDULO 8 – item 8. texto disponível em: http://www. Luiz Henrique. os contatos e debatem com o pesquisador sobre suas dúvidas a respeito do que está sendo observado. Nesse tipo de pesquisa. que são pessoas que lhe facilitam o trânsito. in Aprender Antropologia. Pp. Brasiliense. mas passa a participar de algumas atividades com seus anfitriões. 2003. ele não chega com questionários prontos e não se preocupa com a quantidade de respostas obtidas para a mesma questão.75-92. Bibliografia complementar: Instituto Goiano de História e Antropologia. Ele se torna o que chamamos de “observador participante”.asp?id_secao=1731&id_unidade=1 LAPLANTINE.ucg. Pesquisa de Campo. in GOMES. o cientista passa um longo período de tempo convivendo na cultura que quer conhecer. Sua principal preocupação é obter “informantes”. F. que seja imparcial. O campo da antropologia: constituição de uma ciência do homem. PP. que se caracteriza por manter o pesquisador distante da vida real dos indivíduos que pretende conhecer. .

administração. no qual o pesquisador consiga falar sobre o outro sem ser etnocêntrico. Nos campos da pedagogia. física e subjetivamente. Muitas vezes. O antropólogo. é necessária uma imparcialidade em seu discurso. que passaram a produzir pesquisas semelhantes. depois de preparado metodologicamente. não faz para os outros. Mas consegue interpretar esse outro modo de vida dentro de sua própria razão e lógica. Assim. o conjunto de valores. muitas vezes. o pesquisador promove uma mudança interna de valores e permite que o outro seja interpretado dentro de seu próprio conjunto de conceitos. e vice-versa. As técnicas de observação de campo da antropologia influenciaram muitos campos de estudo. e há a procura de um meio termo. teorias. que para cada tipo de profissional podem se transformar em dados importantes. Após a permanência em campo. Podemos com isso refletir melhor sobre as relações com a diversidade. Ao mudar sua própria subjetividade. O que acontece é que. educação física. quando ele pode garantir que não estará sendo etnocêntrico. mas também participar. técnicas ou simplesmente mantêm hábitos. sem distorcê-los. Como cientista. enfim todo o universo de grupos que podem estar dentro de nossa própria sociedade. Muitos campos de atuação profissional têm se beneficiado com pesquisas que exploram os saberes. ou qualquer outro pesquisador que utilize essa técnica de pesquisa. como em sociedades alheias. O resultado é que temos hoje uma grande produção de textos. mas com objetivos específicos de suas próprias áreas de atuação e saber. o que faz sentido para nós. Não está “em defesa” de ninguém. marketing. o pesquisador tem a oportunidade de utilizar o “olhar antropológico”. entre outros já existe uma grande produção de pesquisas que recorrem ao método da antropologia para obter resultados qualitativos muito interessantes. nutrição. mas também procura evitar o risco de se transformar no outro.Ao observar. nem da do outro. teses e artigos que abordam ENCONTROS COM O OUTRO. que literalmente significa o registro escrito da experiência étnica. Não é mesmo? por isso esse tipo de pesquisa tem como objetivo “traduzir” diferentes comportamentos. Esse distanciamento posterior é o período de reflexão sobre os dados obtidos. ele deve procurar a elaboração de uma interpretação que possa garantir a imparcialidade. o pesquisador se retira. É o mesmo que “se colocar no lugar do outro”. dominam saberes. alguns grupos ou culturas inteiras. dentro de sua própria visão de mundo. e dentro da ética exigida. . nem de sua própria cultura. consegue obter uma riqueza de detalhes sobre o modo de vida dos “outros” que é muito superior a outros métodos. Os relatos produzidos pelos antropólogos em campo são chamados de “etnografias”. farmácia. publicidade.

.Exercício resolvido para o item 8.11) A pesquisa antropológica propõe que o observador-pesquisador participe de atividades rotineiras do grupo estudado. mas interpretando esse outro de forma a respeitar sua própria lógica. e é denominada etnografia ou pesquisa de campo. Esse contato com a cultura estudada tem como objetivo: d) Compreender uma cultura alheia sem a necessidade de julgá-la.

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