CONTEÚDO DO 1º BIMESTRE (PROVA NP-1) Módulo 1 DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO - item 1 1.

A ORIGEM HUMANA Neste conteúdo são abordados temas e idéias como: - a teoria evolucionista e a explicação da biologia para a origem e evolução do ser humano; - a colaboração da teoria antropológica sobre a visão da biologia e do evolucionismo; a antropologia defende que a explicação puramente biológica é apenas uma parte de nossa complexa evolução – o papel do comportamento cultural também foi determinante para surgimento de nossa espécie como é hoje. - a antropologia afirma que é falsa a afirmação que o ser humano é determinado pelo clima ou pela herança genética; sim, as populações se adaptam a diferentes meio ambientes para sobreviver, mas não é o meio ambiente que determina nosso comportamento; sim, cada indivíduo é resultado de uma herança genética, o que não significa que é “escravo” dessa herança.

Voltar às origens da cultura é também voltar à origem da humanidade. Ter costumes e hábitos aprendidos é um comportamento relacionado com a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. O tema possibilita uma abordagem que ressalta a importância da compreensão do ser humano como um ser bio-psico-social, ou seja, somos seres cujo comportamento é determinado ao mesmo tempo: BIO - por nossas características orgânicas (o tipo de aparelho físico que temos e como podemos utilizá-lo); PSICO - por nossas experiências pessoais racionais e afetivas de mundo e; SOCIAL - pelo meio social onde vivemos. Parece a você que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento) certos comportamentos como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos, e ainda se comunicar através desta ou daquela língua?

Pois a Antropologia, junto com outras ciências como a Arqueologia, a Paleontologia e a História, tem explorado profundamente essa questão sobre a diferença do Homem em relação ao resto do mundo animal que nos cerca. Até o momento puderam concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual BIOLOGIA e CULTURA modelaram nossos ancestrais. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico e a cultura foram responsáveis por tamanhas mudanças em nossa espécie, que hoje achamos um fato “natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”, na “lei da selva”. Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas, ou saber que alimentos são comestíveis e como devemos preparálos? Quem inventou o primeiro tipo de calçado, ou descobriu como fabricar o vidro? Enfim, como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para nossa compreensão de ser humano? Essas questões devem ser respondidas ao longo desse tema. No séc. XIX Charles Darwin (biólogo), afirmou que todas as espécies vivas resultam de uma EVOLUÇÃO ao longo do tempo. Isso significa, que se retornássemos em nosso planeta há milhões de anos atrás não encontraríamos as espécies conforme as vemos hoje. Cada ser vivo, para chegar até hoje, passou por sucessivas e pequenas transformações que possibilitaram sua sobrevivência; esse processo de mudanças orgânicas ocorre por necessidade de ADAPTAÇÃO AO MEIO. Consideremos que as condições do meio como clima, quantidade na oferta de alimentos e todas as questões relacionadas às condições ambientais, estão em constante mudança. Pois bem, as formas de vida existentes precisam acompanhar essas mudanças, estando sujeitas – segundo Darwin – a dois destinos: a) podem se adaptar e ao longo de muitas gerações apresentarem mudanças visíveis; b) não conseguem se adaptar, entrando em extinção. Quais são as espécies que conseguem se adaptar? São as que possuem alguns indivíduos do grupo dotados de características tais que o permitem sobreviver e gerar uma prole (conjunto de filhos/as) que dá continuidade a essas características. Os outros indivíduos de sua mesma espécie que não possuam tais características, não conseguindo “lutar” pela sobrevivência, têm mais chances de morrer sem deixarem descendentes. Assim, após muitas gerações, temos uma espécie que já não se parece com seu primeiro exemplar. A possibilidade da geração de uma prole com características que permitam a adaptação ao meio é, para os evolucionistas, chamada de “seleção natural” – sobrevivem apenas aqueles indivíduos com traços que os permitam a sobrevivência. Ao lado da seleção natural, as mutações aleatórias também são responsáveis pelas modificações de um organismo ao longo do tempo.

Uma das dificuldades do senso-comum em aceitar as idéias evolucionistas, está no fato que não podemos “ver” a evolução acontecendo – apesar de ela estar sempre acontecendo -, isto é, não testemunhamos alterações expressivas, pois as mudanças são muito sutis e ao longo de períodos de tempo muito longos do ponto de vista do ser humano. As alterações podem ser consideradas em intervalos de tempo não inferiores a cem ou duzentos mil anos. Portanto, muito além de qualquer evento que possamos acompanhar. Mas podemos acompanhar sim a luta pela sobrevivência e a mudança de hábitos em muitas espécies, como os pombos que povoam as cidades, mas não estão tão concentrados demograficamente nos campos. Essa espécie encontrou um ambiente ótimo nas cidades construídas pelos seres humanos, aprendendo rapidamente como obter abrigo e alimento, com a vantagem de estar livre de predadores como nas florestas e campos. Faz parte de sua evolução esse novo ambiente. Assim entendemos que a evolução biológica de todas as espécies vivas não acontece sem influencia de muitos fatores, não acontece de forma “mágica” e independente do tipo de meio e hábitos que podemos observar. Hoje em dia o darwinismo está com uma nova roupagem e temos teorias como o pós-darwinismo ou neo-darwinismo, que são conseqüência do desenvolvimento de nossa tecnologia de pesquisa, e do próprio conhecimento cujas portas foram abertas por Charles Darwin para seus sucessores.

"O APARECIMENTO DO HOMO SAPIENS- uma espécie que trabalha" O homem descende do macaco. Essa foi a afirmação polêmica de Darwin na segunda metade do séc. XIX e que dividiu opiniões na sociedade moderna. Essa polêmica permanece até hoje, pois encontrou como opositor o ponto de vista de uma prática humana muito mais antiga que a teoria da evolução: a religião. Não conhecemos nenhuma crença, em nenhuma cultura que coincida e concorde totalmente com a afirmação de Darwin. Da perspectiva das crenças, a criação da vida é atribuída a um “ser criador”, a algo externo e superior a toda a vida existente. Ao conjunto de teorias e explicações que partem desse tipo de raciocínio, denominamos “criacionismo”. Pois bem, para pensar como Darwin e a maior parte dos cientistas até hoje, esqueça suas crenças. A ciência não reconhece como possível a existência de seres superiores que tenham dado origem à vida, e muito menos entende que o ser humano é uma espécie “privilegiada” ou “superior”, seja pela capacidade de raciocínio, seja pela capacidade de criar crenças.

Para os evolucionistas, todas as espécies vivas foram surgindo das transformações de outras já existentes, dando origem a novas espécies, enquanto outras se extinguiram. Os primeiros humanos, chamados cientificamente de hominídeos, surgiram das transformações de algumas famílias de símios que fazem parte dos chimpanzés. Nossa espécie surgiu devido a mudanças biológicas e ao surgimento da cultura. Que mudanças biológicas são essas que nos diferenciam dos símios? O aumento da caixa craniana que nos dotou de um volume cerebral muitas vezes maior que o de um macaco. A postura ereta, que possibilita utilizarmos apenas os membros inferiores para nos locomover. E o surgimento do polegar opositor, que possibilita a nossa espécie da capacidade do chamado “movimento de pinça”. É a partir dessas três características básicas que desenvolvemos inúmeras outras características fascinantes como a capacidade da fala ou ainda a de fabricar instrumentos para nossa sobrevivência. Mas essas características como inteligência, fala e indústria não teriam surgido em nossos ancestrais se não fosse a presença de um tipo de comportamento que ajudou a modelar o corpo de nossos ancestrais, que é o comportamento baseado na CULTURA. Ou seja, a necessidade de comunicação, cooperação e divisão de tarefas facilitou o desenvolvimento dessas características BIOLÓGICAS. · Características biológicas: forma, funcionamento e estrutura do corpo. É a nossa anatomia, características herdadas biologicamente e que não são resultado da nossa escolha pessoal. · Características culturais: todo comportamento que não é baseado nos instintos, mas nas regras de comportamento em grupo que nos permite transformar a natureza para a sobrevivência (trabalho), e nos permite atribuir significados e sentidos ao mundo através dos símbolos (a cor branco simboliza a paz, ou o tipo de vestimenta simboliza status). Durante muito tempo pensou-se que o ser humano já teria surgido plenamente dotado dessas características em conjunto. Hoje sabemos que nossa cultura foi determinante para modelar nossas características biológicas ao longo do tempo, e vice-versa. Nossos ancestrais foram lentamente se transformando em humanos, e essa espécie que somos agora, foi aos poucos sofrendo pequenas transformações que ao longo de milhões de anos nos diferenciaram totalmente de qualquer ancestral símio. No início da história humana, nossos ancestrais eram muito semelhantes a um macaco. Tinham mais pelos pelo corpo, o cérebro era menor e a mandíbula maior. A postura não era totalmente ereta, e as mãos não tinham muita habilidade, pois o polegar ficava mais próximo dos outros dedos. O tamanho do cérebro foi aumentando muito devagar, como também a postura ereta surgiu gradualmente, e igualmente o polegar opositor não surgiu repentinamente. A cada geração, mudanças muito sutis

e não eram tão inteligentes. e os únicos vestígios de comunicação encontrados são as pinturas em cavernas (arte rupestre) e pequenas estatuetas representando figuras femininas. Essas mudanças por sua vez. que permitiram o sedentarismo (começamos a construir abrigos e povoados ao invés de habitar em abrigos naturais). A “revolução neolítica” foi um período marcante em nossa evolução. Eram organizados em bandos que praticavam caça e coleta. determinou COMO somos hoje. Sobreviveram lascando uma pedra na outra para conseguir objetos pontiagudos e cortantes que serviam como arma de caça. portanto não comiam muitos alimentos cozidos. Nessa época não havia escrita. A introdução do trabalho como estratégia de sobrevivência. durante o qual o ser humano desenvolveu técnicas determinantes para a história de nossa espécie: a agricultura e a domesticação de animais. pois possibilitou ou exigiu que nosso ancestral desenvolvesse comportamentos capazes de mudar nossa estrutura biológica. não tinham a postura totalmente ereta. mas resulta de um longo e lento processo de evolução. Durante quase quatro milhões de anos sobreviveram dessa forma. como raspador de alimentos ou qualquer utilidade para a vida humana. Ao fabricar os chamados instrumentos de “pedra lascada”. Durante muito tempo o domínio do fogo era um mistério. e não mais viver da caça/coleta que o tornava dependente dos recursos nos territórios habitados. A agricultura e a domesticação de animais significaram a garantia de alimentação dos grupos humanos. Um exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos. e nesse processo a cultura teve um papel fundamental. houve uma revolução. independente do sucesso na caça e coleta. e nesse período de tempo nossa forma física foi se alterando. segue um padrão estabelecido em nossa evolução para obter resultados: . que significa mudanças ao longo do tempo. que é a mesma que nos permite falar. formando aldeias e também colaborou para o crescimento demográfico. até que no chamado período “neolítico”. e não viviam em cidades. ao invés de fabricar abrigos. e o pouco que puderam fazer então determinou sua sobrevivência. nosso ancestral permitiu operações mais complexas e passou a utilizar uma área do cérebro. por isso dependiam de deslocamentos constantes em busca de alimento. Nossos ancestrais não tinham a mesma caixa craniana que temos hoje. e mais que isso. Eram mais uma espécie entre tantas outras. Dormiam em cavernas.transformaram a espécie. É nesse momento que o ser humano começa a TRABALHAR. Isso permitiu à nossa espécie se fixar por períodos prolongados em determinados lugares. É importante compreender que nossa espécie não é fruto de coisas inexplicáveis. são fruto de uma dura luta por parte de nossos ancestrais para sobreviver em condições pouco favoráveis e convivendo com espécies mais fortes e predadores mais bem preparados fisicamente para tal.

. Se não tivessem desenvolvido a capacidade de trabalho. afastando nossa espécie do comportamento instintivo e determinando essa longa e rica viagem chamada HUMANIDADE. O trabalho humano se fundamenta em características básicas como comunicação e cooperação. e não mais em bandos. baseado nos princípios acima. o polegar opositor e a aquisição da fala. A capacidade de dividir tarefas. Ele é o resultado de um processo muito longo no tempo. maior permanência do grupo.ü a divisão de tarefas. Mas para chegar até esse ponto. cooperar e se especializar permite atingir objetivos com resultados mais efetivos e também possibilita um conjunto social com melhor qualidade de vida. e para os quais foram determinantes: a postura ereta. provavelmente. divisão do trabalho e uma mente dotada de raciocínio lógico e abstrato ligado à criatividade e imaginação. Fixando-se em um lugar. o ser humano passa a viver em uma sociedade organizada. ü e a especialização. Grécia e China. conhecemos exatamente como a humanidade se desenvolveu. divisão de grupos em parentesco. Mais alimentos disponíveis. inaugurando o sedentarismo. e nenhum de nós estaria aqui hoje. Foram nossas capacidades de ORGANIZAÇÃO e COMUNICAÇÃO que definiram tal resultado. A partir da escrita e do surgimento das grandes civilizações da Antiguidade como Egito. isso tudo levou a uma maior reprodução da espécie. a capacidade craniana. ü a cooperação com o grupo. nossos ancestrais percorreram um longo caminho. Tais condições permitiram aos nossos ancestrais uma organização social mais complexa baseada na SOCIEDADE. mais segurança com as casas fabricadas. A comunicação também sofre uma revolução que foi o surgimento da ESCRITA. Essas características são importantes uma vez que possibilita que cada um de nós realize apenas um tipo de tarefa. nossos ancestrais não teriam tido sucesso em sua evolução. O conjunto de tudo que o grupo social produz torna viável uma existência cultural. Não é possível produzir sozinho tudo que necessitamos em nossa vida. nenhuma dessas características nos valeria muita coisa se não tivéssemos desenvolvido um tipo de comportamento baseado em regras de convivência social. Entretanto. Até hoje utilizamos essas habilidades de trabalho em grupo para viabilizar nossa existência social. nos libertando da “lei da selva”. compartilhando a condição se HUMANOS.

A antropologia discorda dessas idéias. Reconhecer as inconsistências das teses deterministas é um importante aprendizado para valorizar a vida cultural dos povos da humanidade. inacabado e sem um objetivo ou plano pré-definido. Título : 1. indicado na bilbiografia: .item 1. segundo essa teoria todas as espécies vivas são fruto de uma longa e lenta evolução.1 O debate das determinações biológicas e geográficas no comportamento humano. clima) onde ele se desenvolve. que denominamos de teorias deterministas. podemos afirmar que: c) A busca de restos humanos pré-históricos nos obrigou a considerar a evolução da espécie humana como outro animal qualquer. são totalmente provenientes das características biológicas de um povo (sua carga genética) ou ainda totalmente provenientes do meio ambiente (ecossistema.1 .1 1.” Silas GUERRIERO afirma na pg. 1º bimestre Conteúdo : Conteúdo de 1º bimestre (prova NP-1) DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO . 24 do texto “A origem do antropos”. Já é antiga e muito conhecida a idéia segundo a qual as diferenças de comportamento humano de uma cultura para outra. essas teses deterministas descartam a possibilidade do comportamento e valores de um povo ser proveniente de sua historia e das características humanas que giram em torno da experiência de mundo.O debate das determinações biológicas e geográficas no comportamento humano.: 1) A respeito do evolucionismo e dos resultados obtidos por suas pesquisas. não apenas o ser humano. por pretenderem que um povo é determinado por variáveis sobre as quais não há controle humano.  “Como a Antropologia evidencia a importância da cultura na evolução da espécie humana – a visão do antropólogo Clifford GEERTZ.Exercício resolvido para o item 1. Devemos então compreender que o processo da vida é evolutivo. Ou seja. e é importante para resolução dos exercícios que você perceba que esses conceitos podem ser observados em nossa vida cotidiana. Neste item serão apresentadas todas as idéias acima. Além disso.

Entretanto somos portadores de genótipos. não teríamos diferenças anatômicas tão marcantes frente a nossos parentes mais próximos. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. Esse movimento de populações resultou em aparências distintas para cada grupo populacional. se o tivéssemos conseguido. . compreendida como uma das características da espécie.” A leitura desses textos desenvolve a compreensão predominante atualmente na Antropologia. popularmente conhecida como “raças humanas”. o ser humano é uma única espécie. formando um fenótipo próprio. a CULTURA humana. podemos afirmar que a cultura é produto do humano.“Como Geertz.R. Cada indivíduo possui um fenótipo. na pg. que corresponde à aparência física. de Barros LARAIA discute se somos DETERMINADOS ou não pelo meio ambiente e pela herança genética : Da perspectiva biológica.” E Roque de Barros LARAIA. que o ser humano não teve uma evolução puramente biológica para nos capacitar de inteligência e postura ereta. mas também é portador de informações genéticas outras. mas o humano é também produto da cultura. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. Somos todos partes de uma mesma família que foi dividida ao longo do tempo por sucessivas migrações. provavelmente não teríamos sobrevivido e. por isso mesmo. Vamos esclarecer alguns aspectos importantes. não estaríamos aqui contando essa história. pois. cada indivíduo vai resultar de uma combinação genética de seus antepassados. que são os genes que carregamos e podem ser determinantes nos resultados de nossa reprodução. Um indivíduo com o fenótipo “pele clara e olhos azuis” carrega genes com essa informação. mas antes. Não fosse essa extraordinária capacidade de articulação e fabricação de símbolos. Assim. . Em outras palavras. 58 do texto “Idéia sobre a origem da cultura” no livro “CULTURA – UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO”: “A cultura desenvolveu-se. essa evolução BIOLÓGICA não foi independente de sua “parceira”.

Portanto. pois nem sempre a totalidade dos herdeiros de genes “brancos” ou “negros” apresentavam comportamentos semelhantes entre si. explicariam costumes. Dessa perspectiva ultrapassada. Acreditava-se que a cada raça correspondia uma cultura. que pretendia ser complementar ao anterior e preencher as lacunas explicativas. apesar de terem fenótipos diferentes. e a ciência. . É fácil encontrarmos pessoas que atribuem ao clima. à vegetação. mentalidade. ? TODOS OS SERES HUMANOS EXISTENTES HOJE DESCENDEM DE UM ÚNICO GRUPO HUMANO ORIGINÁRIO DO CONTINENTE AFRICANO. aos animais circundantes. Essa é uma afirmação resultante de um século e meio de pesquisas. Você mesmo deve estar se lembrando de muitos exemplos que condizem com esse esquema explicativo. surgiram as teorias deterministas. esses determinismos ainda hoje permeiam a visão de mundo do senso comum. e ao fenótipo de cada população a explicação sobre “porque essas pessoas desse lugar agem de tal forma”. é fundamental que você conheça os pressupostos com os quais a ciência humana contemporânea trabalha. somadas ao fator biológico. também seria um fator DETERMINANTE para a cultura ali desenvolvida. Não há como refutar que qualquer indivíduo humano. um escocês. Entretanto. seja ele um esquimó. todos os indivíduos carregam genes desses primeiros agrupamentos humanos. Assim. Sim. Bem. Trata-se do determinismo geográfico. que defendia que a ecologia (o meio ambiente) no qual essa ou aquela população se desenvolveu. Multiplicavam-se os exemplos de comportamentos diferentes para pessoas da mesma “raça”. Mesmo tendo sido totalmente desacreditadas pela ciência. um japonês e assim por diante são descendentes de grupos oriundos da África. um dinamarquês. populações de lugares com clima muito quente. cujo material arqueológico foi mais recentemente reforçado pelo conhecimento genético. valores e tradições. O determinismo biológico defendia que a herança genética seria a responsável pelo comportamento diferenciado do ser humano dentro de cada cultura. somou-se a esse equívoco científico um outro. é importante ressaltar que esse tipo de afirmação logo encontrou “furos”. debateram sobre essa questão.Durante muito tempo a sociedade em geral. um indiano. ou muito frio teriam sofrido influências que.

carregavam um conjunto genético que foi se estabilizando ao longo de séculos e séculos. A quantidade de melanina na pele e a dimensão do aparelho nasal foram sendo modelados para permitir nossa sobrevivência.Portanto. Mas não são determinantes. nem ecologia são isolados ou em conjunto a única explicação para o comportamento diferenciado do ser humano dentro de cada cultura. os grupos que migravam para esse ou aquele lugar. Desculpe. O que se aceita hoje é que esses são fatores importantes na relação do ser humano com o meio. Como a grande família humana foi seguindo rumos diferentes. mudanças importantes ocorreram para permitir a sobrevivência de nossa espécie em diferentes meios. há um LIMITE para tal influência. Não há dúvidas sobre a base biológica que fundamenta essa associação. que viveram praticamente isoladas umas das outras durante tempo suficiente para que fosse surgindo um tipo de “padrão” que chamamos etnia. seja para sobreviver. como o basquete ou atletismo e que é popularmente divulgado. somos uma mesma família. Vamos a exemplos? Tomemos o caso da “facilidade” de indivíduos afrodescendentes para o desempenho em alguns esportes. seja para se relacionarem uns com os outros. Mas. Isso foi criando fenótipos próprios a cada população humana. até que ponto a essa herança biológica e essa influência do meio têm relação com a diversidade cultural? Leia novamente a questão. Mas vamos refletir melhor sobre o comportamento humano. mas vou formular a seguinte questão sem qualquer preocupação científica ou política. para a qual há inúmeros exemplos é: Sim! . e nem biologia. Portanto. A geografia desempenhou um importante papel para a diversidade de tipos humanos? Sem dúvida! Ao longo do processo evolutivo. De fato. e não apenas sobre seu legado biológico. O que o senso comum diria a esse respeito: “Um indivíduo descendente de brancos pode se desempenhar tão bem quanto um descendente de negros nesses esportes?” A resposta óbvia. que foi desenvolvendo aparências distintas como resposta adaptativa ao meio. NÃO EXISTE UMA DETERMINAÇÃO BIOLÓGICA / GEOGRÁFICA que sustente a explicação sobre a diversidade cultural.

Basta que se dedique a aperfeiçoar o que deseja ser. Os genes podem ser facilitadores para certas coisas. poderá ver que existem características que os diferenciam. dessa experiência de vida que não se repete exatamente com os mesmos eventos. precisa se dedicar mais para atingir igual resultado. estímulos e condições para chegar a objetivos. Em cada grupo social. O que explica a diversidade cultural. A diversidade cultural é inerente ao ser humano. E a cultura é o resultado. O ser humano depende de desejos. cada grupo vai construindo um conjunto absolutamente único que é sua cultura. se não há determinismos? O ser humano é uma espécie moldável e criativa. as respostas às necessidades e a qualidade dos vínculos sociais resultam de uma história que é única àquele grupo. Vamos supor que você tome uma parcela da população norte-americana de hoje e os coloque para viver durante um longo período de tempo em um outro local. o resultado será sempre o mesmo: uma cultura própria. das soluções criadas. a cada momento. O que ocorre é que um indivíduo com facilidades genéticas chega ao mesmo resultado com mais facilidades. e não fatores determinantes. E assim se dá. Concorda? Um indivíduo descendente de brancos que se determine a ser “exemplar” no basquete ou no atletismo pode atingir esse objetivo perfeitamente. Isso para qualquer coisa que você possa pensar. das experiências coletivamente vividas. A genética e a geografia são elementos na relação do homem com o meio. Onde quer que se forme um grupo social. Daqui a algumas gerações. Aquele que tem a genética “contra si”. vamos considerar o que se segue. quanto mais o tempo passa. os desejos e o investimento social que cada indivíduo pode dispor para desenvolver certas características de seu comportamento. Ele não necessita dos genes para ser isso ou aquilo.Entretanto. . com características ambientais muitos semelhantes às quais estão acostumados. Portadores das marcas da história. mas acima de tudo está a determinação. da mesma forma em todos os lugares. se você for analisar esse grupo e o grupo de origem. Qualquer coletividade está sujeita a um destino próprio.

Rossano Carvalho. CULTURA . 17ª ed. pp 30-52.Um Conceito Antropológico.gpveritas. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR.1 . Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. . “Antecedentes históricos do conceito de cultura”. “O desenvolvimento do conceito de cultura” (item 2..php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=64 . 2007.Exercício resolvido para o tema 1. 2.O surgimento da cultura na humanidade. SP: Brasiliense. in LARAIA. 19ª ed.gpveritas. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. 1º bimestre Conteúdo : CONTEÚDO DO 1º BIMESTRE (PROVA NP-1) Módulo 2 2. Rossano Carvalho.Um Conceito Antropológico. 37-62.” Esse tipo de afirmação está corretamente associado com que se segue: A ) Determinismo biológico Título : 2. Cultura. Textos complementares: “A pré-história da Antropologia”.org/portal/index. Bibliografia Textos básicos: “Idéia sobre a origem da cultura” (item 2). Roque de Barros.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid=63 NUNES. Sugestão de texto eletrônico disponível na Web: NUNES. pgs.1). e não em decorrência de uma educação diferenciada. Antropologia.O conceito de cultura através da História. 2005.1: 1) “Um menino e uma menina agem diferentemente em função apenas de seus hormônios. “O século XVIII: a invenção do conceito de homem”. Roque de Barros.org/portal/index. in LAPLANTINE. in LARAIA. APRENDER ANTROPOLOGIA. CULTURA .. F. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. 2005.O surgimento da cultura na humanidade.

aquilo que nos faz rir. portanto todo o nosso comportamento depende de uma combinação complexa entre característica inatas (que fazem parte de nossa natureza. e passou a depender da cultura? Ou ainda. você poderá confrontar as noções de cultura do senso-comum que remetem a hierarquias sociais de educação e formação de valores. Nosso comportamento baseado em valores e tradições. . e não simplesmente somos “jogados” nele. que chamamos de cultura. incluindo planos pessoais e organização de regras de convivência. Identificar a pesquisa antropológica como instrumento de aproximação entre diferentes universos culturais. com a visão científica que universaliza a condição cultural humana. Portanto há questões éticas envolvidas com esse conceito. modifica nossa ética de relação com o meio ambiente. Ao final deste tema.item 2 A antropologia propõe que a cultura é a base de nossa forma de encarar o mundo à nossa volta e dar formas e significados a ele. até os símbolos que associamos a crenças. nossa carga genética) e meio social. Compreender como isso se deu. em que momento de nossa evolução o ser humano passou a viver distante da natureza e dos instintos. são criados de acordo com uma mentalidade coletiva comum. chorar ou sonhar varia imensamente. Há inúmeras formas em seu uso. como podemos relacionar a evolução de nossa espécie e a influencia da cultura no desenvolvimento geral da Humanidade? Somos seres culturais. Vamos considerar que grande parte das coisas que realizamos em nosso dia-a-dia. DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO . sonhos e mensagens. Desde a língua que falamos para nos comunicar. e esse termo pode servir para diferenciar pessoas de acordo com seu status ou ainda para afirmar a superioridade de alguns povos sobre outros. Poderá também identificar a importância da cultura como mediadora das relações humanas e nossa capacidade de comunicação através dos símbolos. modelou a evolução até mesmo biológica de nossa espécie. Esse “modelo” para nos comunicar e dar sentido ao que pensamos.Objetivos: O termo “cultura” não é utilizado apenas para descrever o conjunto de conhecimentos e tradições de um povo. Mas afinal. é resultado de um modelo coletivo de pensar como devemos ser? Isto significa que aprendemos a estar no mundo. E em cada uma das culturas humanas. é dado pela nossa cultura.

de forma surpreendente. Parece a você que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento) certos comportamentos como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos. os indivíduos cujo cérebro não era . Mas. por que nosso cérebro se desenvolveu de forma a permitir esse tipo de inteligência que os humanos se gabam por ter exclusividade? Essa questão foi investigada largamente por especialistas tanto das áreas de conhecimento das ciências biológicas como das ciências humanas. ou descobriu como fabricar o vidro? Enfim. e puderam concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual BIOLOGIA e CULTURA modelaram nossos ancestrais. pois nossos ancestrais se comportavam de forma cultural. e ainda se comunicar através desta ou daquela língua? Pois a Antropologia. como capacidade de raciocínio e postura ereta. e que se encontra repetida muito comumente. como fala e fabricação de instrumentos. o comportamento de nossos ancestrais. . Pelo contrário.desenvolvimento de linguagens para a comunicação. . pois somos biologicamente dotados de inteligência. . Pelo contrario. . que hoje achamos um fato “natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”. essas características foram acentuadas. Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico e a cultura foram responsáveis por tamanhas mudanças em nossa espécie. na “lei da selva”. é aquela que afirma que somos capazes de desenvolver cultura. mais necessário à sobrevivência seria ter essas capacidades. como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para nossa compreensão de ser humano? Uma resposta bastante simplista. o ser humano nunca foi uma espécie apenas por suas habilidades orgânicas. ou saber quais alimentos são comestíveis e como devemos prepará-los? Quem inventou o primeiro tipo de calçado. explorou profundamente essa questão sobre a diferença do Homem em relação ao resto do mundo animal que nos cerca. nossa evolução biológica teve influencia de muitos fatores. Conforme o aumento gradativo do cérebro[1] permitia o desenvolvimento de habilidades mais complexas. nos dotado dessa inteligência.desenvolvimento de tecnologia e de saberes. junto com outras ciências como a Arqueologia.regras de comportamento em grupo..ideias e crenças. etc. quando o ser humano passou a se comportar de forma cultural? Segundo a antropologia. Assim. a Paleontologia e a História.. Nesse comportamento podemos citar: .Mas. Eles acabaram por definir que não houve na evolução humana apenas um fator isolado que tenha.tradições e hábitos comuns. entre eles.

pdf ) Um exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos. a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural.br/puc/vera%20bussab. aumenta muito a importância da proximidade e das relações sociais por um lado. Há mais do que um jogo de palavras na afirmação de que o homem é naturalmente cultural. que somos “biologicamente culturais”. O homem é a um só tempo. "o que ocorreu no processo de hominização foi uma aptidão natural para a cultura e a aptidão cultural para desenvolver a natureza humana". Leia aos trechos abaixo.vet. ou ainda. Portanto. Dentro de um jogo complicado. mesmo várias décadas depois. Ao que tudo indica. de que a chave para a compreensão da natureza humana está na cultura e a chave para a da cultura está na natureza humana. ainda não se foi muito adiante. p. e da inteligência. mais do que isso: o ser cultural do homem deve ser entendido como biológico. pois tinham menores chances de sobrevivência. pode-se pensar que a cultura... Compreender o impacto da cultura na evolução humana tem sido um desafio constante. Nenhuma espécie envereda por um caminho destes impunemente.94). eram fundamentais aos nossos ancestrais humanos. (. “Biologicamente Cultural”. criatura e criador da cultura.92). submete. Fernando L. ou “culturalmente biológicos”. Então.. ao aumentar as chances de sobrevivência do grupo. RIBEIRO. Um fator (biologia) ajudou a modelar o outro (cultura). Para começar. Ao mesmo tempo em que liberta. se diz atualmente entre muitos cientistas.) A própria cultura é uma característica biológica Há. e vice-versa. Nas palavras de Morin (1973. "desaba o antigo paradigma que opunha natureza e cultura" (p. texto disponível em: http://pet. por outro. que podem ser encontrados no texto que está indicado na bibliografia complementar: “O modo de vida estritamente cultural impõe uma série de exigências para seu funcionamento. não deixavam descendentes. apesar da força do argumento. assim que nossos ancestrais desenvolveram uma dependência da cultura para sobreviver. isso é a “seleção natural” na teoria da evolução de Darwin. porém. Entretanto. um cérebro mais complexo e seu uso para desenvolver habilidades sociais. também aumenta a sua dependência da cultura para sobreviver. entrando em outra. a cada geração. Escapa-se de uma armadilha.” (BUSSAB. Ao fabricar os chamados instrumentos de ..desenvolvido o suficiente para adquirir fala ou fabricar instrumentos. Assim. Desse modo. R. Vera S.

talvez. (LARAIA. que é a mesma que nos permite falar. mais.“pedra lascada”. Entretanto. superamos limites de nosso organismo. ao passo que a baleia original teve de transformar-se ela mesma em barco. que a cultura é uma característica que torna a humanidade completamente diferente em seu curso evolutivo. Cultura . que é a cultura. nosso ancestral permitiu operações mais complexas e passou a utilizar uma área do cérebro. Roque de Barros. Mas houve um novo poder que ela adquiriu: o de percorrer indefinidamente o oceano. olfato. L certo que algumas de suas partes degeneraram. Muita coisa perdeu a espécie. inaugurado pelo americano Alfred KROEBER.. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR.Um Conceito Antropológico. . seu pêlo original e as orelhas externas que. Existe toda uma corrente de pensadores na Antropologia. as famílias humanas foram adquirindo características físicas diferentes em função tanto da necessidade de adaptação a novos meios. Nesse longo caminho. o ser humano não possui capacidades anatômicas muito destacadas como velocidade. 21ª Ed. pois enquanto as outras espécies passam por modificações anatômicas ao longo do tempo para se adaptar a novas condições. visão ou mesmo força física. por alteração gradual de pai a filho. Frente a outros animais. que consiste na teoria científica mais aceita. que defendem inclusive. 2007. Nós os fazemos e utilizamos. E isto quer dizer que preservamos intactos nossos corpos e faculdades de nascimento. Não transformamos. suas garras para segurar e dilacerar. pois dota a humanidade de uma flexibilidade adaptativa a tantos ambientes. a origem dos primeiros humanos ocorreu no continente africano entre 200 e 100 mil anos atrás. o Homem utiliza um “equipamento extra-orgânico”.. Segundo uma grande quantidade de pesquisas arqueológicas. inalterados com relação aos de nossos pais e dos mais remotos ancestrais. Explicando. em conjunto do que ganhou. Nem precisamos absolutamente entrar na água para navegar. Construímos um barco. pgs 40-41) Kroeber chama a cultura de “superorgânico”. Leia o trecho que se encontra no livro de nossa bibliográfica básica para esclarecer melhor essa questão: A baleia não é só um mamífero de sangue quente. Os nossos meios de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento natural. nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda. povoando os outros continentes. esse animal perdeu suas pernas para correr. nenhuma utilidade teriam na água. que compensa a falta de expressividade de nosso organismo. como pela combinação da carga genética de cada grupo. no mínimo. Foram-lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição atual. Encontramos o paralelo e também o contraste na aquisição humana da mesma faculdade. ao utilizar os recursos da inteligência de forma cultural. Em alguns milhões de anos . um corpo cilíndrico. uma camada de banha e a faculdade de reter a respiração. e adquiriu nadadeiras e cauda. Esse grupo teria começado sua imigração para fora da África entre 65 e 50 mil anos atrás. mas é reconhecida como o descendente remoto de animais terrestres carnívoros.

como pais e filhos. para ele. Ou seja. uma ética de mundo que nos dá consciência. Para um grupo iniciado pelo francês Claude Lévi-Strauss. trata-se de uma das únicas regras que tem validade universal em nossa espécie. Outros animais podem fabricar coisas. Ele afirma inclusive. Segundo Lévi-Strauss.Portanto. por marcar em nossa evolução. uma tem importância especial. que é universal ao ser humano. É uma regra de ordem moral. ou memória. Sua importância. entenda. e ter atitudes inteligentes. e sim. não há sustentação na afirmação simplista de que tenha sido apenas pela observação de problemas genéticos resultantes dessas relações que o ser humano tenha instituído essa regra. o momento em que o ancestral humano deixou de agir como animal e passou a agir como Homem. está no fato de ter retirado definitivamente o ser humano da esfera da natureza. não é mais importante que o debate sobre nossa condição de existência. A partir do momento em que nossos ancestrais formularam essa regra. ou tios e sobrinhos. o foco dessa questão sobre a origem da cultura está em conseguir perceber a importância do impacto do comportamento orientado por valores e regras. podemos pensar que de fato. inaugura-se a cultura. a notícia de que algum individuo tenha burlado essa regra. Já outros antropólogos. a origem da cultura humana coincide com a origem de toda nossa espécie. dos instintos. Assim. que é a de ter nos distanciado dos instintos. Ela sempre existiu. supera em qualquer condição o horror a uma prole com problemas genéticos. é importante perceber como a cultura nos moldou como seres que agem não apenas preocupados com realizações praticas de sobrevivência. Mas uma forma muito importante de explicar nossa espécie. Todo se humano. Lévi-Strauss afirma que o fato de possuir cultura. Ou seja. relações sexuais entre indivíduos relacionados por vínculos familiares muito diretos. O horror moral que provoca em qualquer ser humano. dota a espécie humana de uma característica fenomenal. Ou seja. que entre todas as atitudes humanas que nos caracteriza como uma espécie cultural. para Lévi-Strauss. Então. não depende de época ou cultura. ela tem uma importância especial. muito mais do que as considerações sobre nosso equipamento biológico. compreendem que esse debate sobre a evolução de nossa espécie. Esse momento teria sido a instituição da regra. e faz parte de nossa forma de sobrevivência. como agimos o tempo todo pautados em uma moral. É um marco simbólico. Concorda? Pois bem. que proíbe as relações incestuosas. . em qualquer sociedade evita e pune essa prática. muito mais do que de efeito prático.

Mas já não fazem parte da natureza. Exercício 1) O antropólogo americano Clifford GEERTZ. a consequência disso tem sido uma prepotência humana em relação à natureza circundante. esgotar. mesmo assim. o ser humano que se sente superior. não se pode garantir que seu instinto não venha a aflorar em certas situações. É também do modelo para realizar esse “progresso”. R. e todos os indivíduos de sua mesma espécie. manipular a natureza. RJ: Jorge Zahar. afirma que o crescimento cortical humano (o córtex cerebral) foi posterior e não anterior ao surgimento da cultura. vale dizer. conseguindo agir de forma a negá-lo. situações de agressividade contra os próprios donos e assim por diante. Infelizmente. bem conhecido de todos. O desequilíbrio provocado pelo Homem em seu meio não é consequência apenas da necessidade de avanço industrial e urbano. 57). destruir.Mas é muito mais difícil um animal. são “domesticados”. O resultado. controlarem um instinto. aos mesmo tempo. “Antropos e Psique – o Outro e sua subjetividade”. se sente também no direito de se apoderar. Ele afirma que “isso é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. como a exposição a alimentos. e pode ser interpretada como segue. SAIBA MAIS “Origem da cultura – a ética da relação ser humano / natureza” Apesar de você não encontrar referência a isso na bibliografia indicada. é importante ressaltar qual a importância dessa temática sobre a evolução humana e o desenvolvimento de nossa inteligência que nos permite viver em cultura. O ser humano tem uma tendência a compreender que sua própria espécie é superior a todas as outras. seu comportamento passa a ser orientado por outras regras que não o instinto. num sentido especificamente biológico. Como o nome diz. E. Os animais domesticados quase sempre o conseguem. . SP: Olho d´Água. o produto da cultura” (LARAIA. que sofre de uma ausência de ética no relacionamento com as outras espécies vivas. Você pode ler mais sobre isso no livro: GUERRIERO Silas (org). não apenas o produtor de cultura. e subjuga à extinção uma grande quantidade de outras espécies. É isso mesmo. por ter um cérebro que permite controlar o ambiente e os recursos de nossa sobrevivência. Cultura. assim. Procure o capítulo intitulado “As origens do antropos”. 2005 pg.B. tem sido um meio ambiente que ameaça os destinos de nossa própria espécie. Essa afirmação faz parte do debate sobre a evolução biológica humana e o surgimento da cultura. Mas também. Assinale a alternativa correta: e) Propõe pensarmos a evolução biológica humana como um processo simultâneo ao desenvolvimento das habilidades culturais. 2005.

Mas não é essa a origem da palavra. vamos começar tomando exemplos de como podemos encontrar o uso da palavra cultura em situações cotidianas. o que ele recebe é processado e integrado. linguagem. foi servindo de estimulo ao desenvolvimento cortical. Então ele é um conceito científico certo? É isso mesmo.1 . Precisamos começar a diferenciar quais são utilizações do chamado senso-comum e.22m2 (se fosse disposto num plano) e desempenha um papel central em funções complexas do cérebro como na memória. da razão. Veja a definição da Wikipedia (http://pt. consciência. De acordo com o uso popular. percebemos que existe uma concepção segundo qual cultura é uma questão de status e está muito relacionada com a aquisição de conhecimento letrado[1].“O conceito de cultura através da história” A antropologia social tem como conceito central o conceito de CULTURA. “Fulano é uma pessoa que tem muita cultura”. Para refletir sobre a complexidade desse conceito. respondendo com uma ação.org/wiki/C%C3%B3rtex_cerebral ): O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados. atenção. Em animais com capacidade cerebral mais desenvolvida. É a sede do entendimento. . O termo cultura existia muito antes da Antropologia e outras ciências humanas passarem a utilizá-lo para fazer referencia ao conjunto de hábitos que torna uma sociedade algo totalmente única e particular. o córtex forma sulcos para aumentar a área de processamento neuronal. o sentido atribuído a esse conceito é que se trata de uma coisa possível de ser acumulada e que distingue um indivíduo dos demais. Na frase “fulano é uma pessoa que tem muita cultura”. que parecem organizados em agrupamentos chamados microcolunas.[1] O aumento do cérebro permitiu o desenvolvimento do CÓRTEX CEREBRAL. o desenvolvimento do córtex permitiu o desenvolver da cultura que. memória. O córtex humano tem 2-4mm de espessura. sendo rico em neurônios e o local do processamento neuronal mais sofisticado e distinto. por outro lado. “A cultura desse lugar é muito atrasada”. cognição. percepção e pensamento. Conteúdo do 1º bimestre – PROVA NP-1 2. por sua vez. Nesses exemplos já é possível percebermos a complexidade e a multiplicidade do uso que fazemos desse conceito. “A cultura oriental é muito antiga”. É formado por massa cinzenta e é responsável pela realização dos movimentos no corpo humano. percepção. O córtex é o local de representações simbólicas. com uma área de 0. emoção. No Homem.wikipedia. se não houvesse córtex não haveria: linguagem. como a ciência antropológica compreende e define cultura. minimizando a necessidade de aumento de volume. Normalmente as pessoas utilizam essa palavra em frases como: ”O brasileiro precisa valorizar mais sua própria cultura”. É constituído por cerca de 20 bilhões de neurônios.

autoridades em cada assunto. culinária e assim por diante. religião. sem a lógica do julgamento. Para compreender essa multiplicidade de usos do conceito de cultura. mas é importante. técnicas e todo o conjunto de valores de um povo. a palavra cultura existia APENAS com o registro de “agricultura”. Normalmente as pessoas se referem ao comportamento coletivo. que você como estudante dessa disciplina. existe uma nítida noção popular segundo a qual deve existir uma hierarquia entre as diferentes culturas. mas que se acumula no conhecimento transmitido por livros. Nesse caso. Nesse caso. XVIII. à qualidade da vida social. dando a idéia de passagem do tempo. que nesse caso. e somos capazes de perceber que de uma sociedade para outra mudam regras. Já o uso do conceito de cultura pela Antropologia. podem compreender também culturas próprias. consiga perceber que o uso popular tem formas de julgar pessoas e povos através de sua cultura. Já numa outra situação como na frase ”o brasileiro precisa valorizar mais sua própria cultura”. É o que você poderá perceber com o texto que segue e utilizando a bibliografia indicada. costumes. cultura se torna um conceito que permite fazer discriminações. ou até mesmo usar preconceitos contra outros. Assim podemos ver que os limites políticos e geográficos que são as nações. há a preocupação em pensar cultura como um conjunto de coisas (denominados “elementos da cultura”) que podem se transformar tradições. surge a noção que cultura é algo que se acumula e se mantém (ou se perde) ao longo do tempo. ETIMOLOGIA DA PALAVRA CULTURA[2] * Até o séc. Comparam-se assim as chamadas “culturas nacionais”. há a preocupação em situar o conjunto da produção cultural e da história de nosso país. Na frase “a cultura desse lugar é muito atrasada”. Elas querem expressar a existência de culturas que desenvolvem meios para que as necessidades sociais sejam mais bem solucionadas. pois são mantidas ao longo do tempo. ou pela chamada “educação do povo”. arte. é importante resgatar o processo histórico que transformou seu uso.A sociedade em geral pensa cultura como relacionada ao acesso a estudos clássicos e letrados. nada mais significa que o acesso a informações e à cultura letrada. folclore. valores. já outros elementos se transformam. que vão das mais “atrasadas” às mais “avançadas”. seja em seu desenvolvimento tecnológico. saberes. na frase “a cultura oriental é muito antiga”. Vamos a outro de nossos exemplos. . Finalmente. É importante ressaltar que não há maneira mais correta ou incorreta de pensar cultura nos exemplos apontados. O conhecimento letrado é aquele que não faz parte da “escola da vida”. tem como idéia central fazer referencia a hábitos. autores.

causou espanto e dividiu as reações da população européia [3]. a palavra cultura adquire uma MULTIPLICIDADE de sentidos. Agricultura é uma habilidade em observar o desenvolvimento das espécies vegetais e aperfeiçoar as condições para o bom desenvolvimento e o cultivo em larga escala. aperfeiçoar. * O contato com povos de outros continentes fora da Europa. Era necessária a discussão sobre cultura. Após isso. XVI e XVII: * RENASCIMENTO * GRANDES NAVEGAÇÕES E A ENTRADA DO “NOVO MUNDO” NO MAPA MUNDI. COMO A PARTIR DO SÉC. XVIII e XIX estavam em processo de criação os Estados nacionais. * A mentalidade européia passa por um impacto de profundas alterações econômicas e sociais (os lucros com as Colônias. idéia de que um povo cultiva suas tradições * FRANÇA – (cultura = “civilization”). utilizar. XVIII A DEFINIÇÃO DA PALAVRA CULTURA SOFRE UMA GRANDE TRANSFORMAÇÃO A partir desse momento histórico. . chamados de “índios”. educação. * LEMBRE-SE: até o momento das Grandes Navegações. na FRANÇA E ALEMANHA surgem duas diferentes definições de cultura (séculos XVIII e XIX) * ALEMANHA – (cultura = “kultur”).* Em sua origem. quando o conceito de cultura começa a ser associado a comportamento coletivo de um povo. hoje ela é associada a conhecimento. e que habitam a África. Veja abaixo. Além de agricultura. o “mundo conhecido” pelos povos da Europa se resumia ao Norte da África. Isso tudo aplicado ao UNIVERSO humano das coisas e idéias que nos cercam. “aborígenes”. “primitivos”. o contato com outros povos prepara o momento seguinte. os países como conhecemos hoje. costumes e tradições. com um modo de vida totalmente desconhecido para eles. O contato com os povos nativos de outros continentes. preocupados em diferenciar pessoas/povos que cultivam a educação refinada (burguesa) * Nos sécs. pois a classe dominante precisava algum apoio ideológico para convencer diferentes povos que a partir de então eles fariam parte de uma mesma “nação”. as Américas e a Austrália traz inquietação aos europeus. * Nesse contexto. nesse registro demonstrariam nossa capacidade de manipular. o conceito de cultura demonstra já uma relação entre HABILIDADES HUMANAS e o domínio da natureza circundante. Como se deu essa mudança? * Revoluções anteriores – séculos XV. Oriente Médio. o contato com outros povos). consumir. * Os diversos comportamentos culturais humanos. China e Índia.

dominamos e orientamos a conduta e o cultivo das relações sociais (registro alemão da palavra). Trata-se de uma teoria que defende existirem ESTÁGIOS EVOLUTIVOS para a cultura humana. historiadores e até filósofos daquele século. pessoas “civilizadas” e “cultas” e pessoas “atrasadas” e “incultas” (registro francês da palavra). sendo associada TAMBÉM à idéia de COMO UM POVO CULTIVA SEU COMPORTAMENTO COLETIVO. e influenciou profundamente cientistas sociais. Atenção a um detalhe importante: repetindo. Quanto aos outros povos. Os primeiros registros do uso científico do conceito de cultura surgem na segunda metade do séc. 4 do livro Cultura – um conceito antropológico). No que diz respeito ao conceito de cultura. * Também é nesse momento que a palavra cultura passa a ser associada com DISTINÇÃO SOCIAL. Como observamos. Pois o evolucionismo se transformou em paradigma. os costumes e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade". ou ainda “darwinismo social”. “estágios evolutivos para a cultura humana”. representavam estágios mais atrasados e pouco importantes em relação aos povos europeus. assim. a lei. foi criado o chamado EVOLUCIONISMO SOCIAL. a moral. têm em comum a tentativa de explicar a diversidade de povos e culturas. com a idéia de evolução multilinear (localize essas idéias no cap. Apesar de sua teoria ser relativa única e exclusivamente à biologia. XX. da mesma forma que existem os estágios evolutivos para cada espécie. está bem próximo da forma como na França se desenvolveu esse conceito. em oposição ao tipo de pensamento que surge no sec. no singular mesmo! Pois havia na época a convicção de que haveria uma única forma de cultura humana. Um paradigma é uma teoria que adquire tamanha força explicativa. Todas as definições que antecedem e foram trabalhadas por filósofos dos séculos XVII e XVIII. você pode perceber isso? Continuando.* Perceba como é nesse momento que a palavra cultura amplia seu significado. . a arte. É o que chamamos de evolução unilinear. XIX (1871). Perceba então que na época não se pensava no plural: “culturas humanas”. e as que surgem após Tylor. Esse tipo de pensamento se encontra em quase todos os pensadores de então. O séc. Vale lembrar que o registro que o senso-comum tem hoje da palavra cultura. O autor é Edward TYLOR que definiu cultura como "um conjunto complexo que inclui os conhecimentos. cujo exemplo máximo de evolução seria aquela praticada pelos povos europeus. ela foi tão importante e revolucionaria que acabou criando o que chamamos nas ciências de PARADIGMA. que passa a ser utilizada para além de seu campo original. XIX sofre um profundo impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin. Então muitos pensadores utilizam aquela idéia como fonte explicativa para suas próprias questões. as crenças.

Neles parecem residir “chaves” e segredos incríveis. que possuíam sofisticada tecnologia (lembra-se que Marco Polo trouxe a pólvora da China?). Entretanto. Por fim. A principal reação ao evolucionismo tem início com o pensamento de Franz BOAS. Como era organizada a “lógica evolutiva” da cultura. inferiorizando-os. aquele pensamento tão antigo e equivocado permanece incrivelmente presente no pensamento do senso-comum até hoje.Evolução unilinear seria exatamente essa idéia de estágios evolutivos para a cultura humana. que não possuíam escrita. Surgiram termos para marcar pontos nessa linha evolutiva como: selvagens. Ele funda uma corrente de pensamento denominada PARTICULARISMO HISTÓRICO. Então seguiriam os povos como os chineses. metalurgia. não produziam além do necessário para a subsistência. inclusive.. bárbaros e civilizados. seriam colocados nas etapas mais primitivas dessa linha imaginaria. que ficou bastante conhecida como Escola Cultural Americana. Eles eram chamados de bárbaros.. que enxergava como uma única linha dentro da qual poderiam ser encaixados em diferentes estágios evolutivos a cultura de cada povo. dentro dessa concepção de uma linha única e imaginaria de desenvolvimento dos povos? Os critérios eram basicamente a presença ou ausência de quesitos como: escrita. um pensador americano de origem alemã. Quanto menor a semelhança com esse tipo de aparato cultural. e eram chamados de selvagens. soluções de toda ordem. maior a evolução de uma cultura. pois os genes acabaram se tornando mitos no mundo moderno. que uma suposta “superioridade” cultural seja consequência de uma superioridade genética de alguns povos. e acabam adquirindo status de verdade. tecnologia. por exemplo. como os ingleses.. Ao associar cultura e genética. algumas sociedades européias. Acredita-se. erros de pensamento são criados. franceses ou alemães entre outros. instituições políticas complexas. Os povos indígenas brasileiros. mercado e assim por diante. Isso gera a idéia de múltiplas linhas de culturas (veja que agora aparece o plural). Entendia-se que quanto maior o acúmulo de semelhanças com todos esses quesitos. não fabricavam metais. ciência. e todos os dados de pesquisas feitas por antropólogos reforçavam cada vez mais os erros do evolucionismo social. Ele defende que cada grupo humano cria um caminho próprio de desenvolvimento. Muitas pessoas até hoje. árabes e hindus. pois foi divulgado de forma bastante eficiente pelas elites européias que então dominavam todos os povos dos outros continentes. eram os chamados povos civilizados. Durante todo o século XX o evolucionismo continuou sendo combatido. Estado. suas ex-colônias. como a conhecemos em sua herança européia[4]. mercado. que curiosamente estavam presentes apenas em algumas sociedades européias e que são as criadoras dessa teoria. não apenas utilizam esse pensamento evolucionista para tratar de forma pejorativa outros povos. menor a sua evolução cultural. . mas tinham uma “grave” falha: não desenvolveram a ciência.

A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Entretanto. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou. Em decorrência da afirmação anterior. Em vez de modificar para isto o seu aparato biológico. que colaboram para desmistificar o poder de influencia dos genes em nosso comportamento cultural. Nesse ponto. não importa o termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional. é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação. tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca. a maneira de satisfazer às necessidades vitais é feita de acordo com a cultura. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas. não perdeu seus instintos. e criar um novo objeto ou uma nova técnica. talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. E pior do que isto. Adquirindo cultura. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor. ou qualquer outro item que faça parte da sobrevivência de nossa espécie possui regras culturais para serem satisfeitos. Alimentação. A cultura é um processo acumulativo. resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções. o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat. o arco e a flecha etc. 7. não teriam ocorrido as demais. proteção. mais do que a herança genética. o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. o homem modifica o seu equipamento superorgânico. 8. Cultura. 2. desde o Iluminismo. vamos destacar alguns trechos de LARAIA (indicado na bibliografia do item) para finalizar: Resumindo. construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural. horários de sono. O homem age de acordo com os seus padrões culturais. RJ: Jorge Zahar. 2005. determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações. pgs. 6. 4. (LARAIA. a contribuição de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguintes pontos: 1. hoje consideradas modestas. 5. . Como já era do conhecimento da humanidade. B. atividade sexual.) 3. um conceito antropológico. R. (Voltaremos a este ponto mais adiante. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo. 48-49) Sabemos que o ser humano apesar de viver em cultura e ter se afastado de seu comportamento geneticamente determinado (= instintos).Por isso é muito importante ressaltar o pensamento de antropólogos como Geertz e Kroeber. A cultura.

3. um conhecimento que deriva de estudos. [2] Etimologia – estudo da origem e da evolução das palavras. F. Conteúdo do 1º bimestre – PROVA NP-1 MÓDULO 3 3. o autor está: D ) demonstrando que a evolução biológica do ser humano é diferente. A ANTROPOLOGIA E O ESTUDO DA CULTURA. utiliza roupas e cobertas. enquanto o ser humano ao invés de desenvolver pelos. [4] O pensamento “científico” oriental até hoje é considerado pelo mundo ocidental como carente de valores para legitimar sua racionalidade. pois possibilita a adaptação a qualquer ambiente sem necessidade da lenta adaptação genética.1 . 37-53. Para fundamentar sua idéia. leia LAPLANTINE. Lembre-se que as palavras são “coisas vivas” e seu uso pode mudar através do tempo. A cultura se mostrou como uma forma de adaptação ainda melhor e superior. ou ganhando novas formas de emprego no vocabulário cotidiano. [1] “Conhecimento letrado” é todo estudo que utiliza o estudo e aprofundamento de um assunto através de livros. pois encontrase permeado de filosofias que por muitos ainda são consideradas “crenças”. SP. “A pré historia da Antropologia”. Aprender Antropologia. [3] Para saber mais sobre o assunto. pois nossa espécie não necessitou de uma adaptação biológica aos diferentes meios. 1995.A diversidade cultural. pgs. Ao realizar essa comparação. é uma forma de erudição. Brasiliense. portanto não são validados como afirmações aceitáveis dentro da metodologia cientifica. adquirindo novos sentidos. Etnocentrismo e relativismo cultural.1: 1) Alfred KROEBER afirma que existe uma diferença muito grande entre a evolução biológica dos animais e do ser humano.Exercício resolvido para o item 2. Bibliografia Textos básicos . ele cita o fato que os ursos polares desenvolveram ao longo de muitas gerações grossas camadas de pelos para sobreviver ao clima de seu meio ambiente.

Cultura. 2) teorias que definem cultura como um SISTEMA COGNITIVO (teorias idealistas) . Por isso compreender o conceito científico de cultura é tão importante. ou seja diferentes culturas. Antropologia. Rossano Carvalho. A tecnologia. Hoje. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. 17ª ed.gpveritas. em nossa história. Austrália e África.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid=63 NUNES. E recentemente. pp 07-20.php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=64 DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO – item 3 3 – A antropologia e o estudo da cultura Antropologia é uma ciência dedicada ao estudo do Homem. o contato entre pessoas e organizações com diferentes referenciais de mundo. intensificou-se num ritmo frenético. O QUE É CULTURA.gpveritas. Vamos dividi-las abaixo: 1) teorias que definem cultura como um SISTEMA ADAPTATIVO. No capítulo de LARAIA.org/portal/index. intitulado “Teorias Modernas sobre a cultura” há uma apresentação de duas correntes diferentes da antropologia quanto à definição do que é cultura. CULTURA . Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. Pgs. a cultura é tudo que for criado pelo ser humano para adaptar suas comunidades às suas bases biológicas (ecossistemas e território). pois ficou comprovado que a diversidade cultural não gira apenas em torno de “povos primitivos” e “povos civilizados”.Um Conceito Antropológico. Para explicar a grande diferença de comportamento entre esses povos e os povos europeus. “Cultura e Diversidade”. a economia e a organização de um grupo social servem totalmente aos propósitos de promover essa adaptação. mas está em toda parte onde haja contato entre dois povos que cultivam costumes e valores diferentes. 2006. Rossano Carvalho. Para esses autores. 59-64. e as mudanças culturais são consequência direta de mudanças no meio. os nativos das Américas. como eram chamadas as tribos e povos não-europeus. com o início da chamada “globalização”.B. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. Surge no séc. essa ciência não estuda apenas as tribos ou pequenas comunidades distantes dos centros desenvolvidos. XIX empenhada em aprofundar o conhecimento científico sobre as chamadas “sociedades primitivas”. R. mas qualquer ambiente social. in LARAIA.“Teorias modernas sobre a cultura”. a Antropologia acabou se concentrando no conceito de cultura. SP: Brasiliense. 2005.. Textos complementares NUNES.org/portal/index. O radical latino “anthropos” significa Homem (Ser Humano). in SANTOS. José Luiz dos. e “logia” é o estudo. Isso ocorreu.

Em que aspecto exatamente. Por exemplo.H. Clifford Geertz (1966) . A cultura não é um fenômeno material: não consiste em coisas. regras. O mundo é um grande código. estamos pensando simbolicamente.Para esses autores. que para conseguirmos interpretar precisamos ter o “segredo”. o animal “cão”.“A cultura de uma sociedade consiste em tudo aquilo que se conhece ou acredita para influenciar de uma maneira aceitável os seus membros. de forma sistemática. Goodenough (1957) . receitas. (1973) . Associamos símbolos a coisas. de relacioná-las ou de interpretá-las. todas as nossas atitudes. Geertz. a cultura é como um código. regras. Tudo que a inteligência traduz em linguagem e símbolos. um conjunto de símbolos. cultura é um SISTEMA DE CONHECIMENTO do mundo. Para pensar no cão. Geertz indica que a cultura é um conjunto de planos e receitas que GOVERNAM A NOSSA CONDUTA. A capacidade de interpretar símbolos é a base de nosso pensamento. significados e sentidos às coisas do mundo”. um conjunto de símbolos “embaralhados” e a nossa cultura proporciona um entendimento desse mundo.“Se compreende melhor a cultura não como complexos de esquemas concretos de conduta – costumes. Para Geertz. característica fundamental e comum da humanidade de atribuir. conjuntos de hábitos – mas sim como planos. a cultura não CONSISTE EM COISAS (bens materiais). uma certa forma de interpretar o mundo. criamos um símbolo que é o som da palavra cão. e organizamos o mundo em nossas mentes. que nos chama atenção para o fato que o pensamento simbólico é EXCLUSIVAMENTE HUMANO. Interessa perceber a capacidade humana em desenvolver nos domínios intelectuais o mundo que nos rodeia. usos. e ao pensar através de palavras. Mais uma frase do mesmo autor acima. Traduzindo. Para ele. seus modelos de percebê-las. mas a cultura é um MODELO MENTAL. É melhor. sejam elas de ordem prática ou de ordem afetiva seriam organizadas em nossa mente através da receita proporcionada pela nossa cultura. uma organização de tudo isso. fórmulas. crenças e formas de pensar o mundo fazem parte de nossa cultura. Para citar algumas idéias dessa última definição que parece ser mais complicada para compreender: W. Isso é o que explica a cultura humana.” Perceba como. condutas ou emoções. É a forma das coisas que as pessoas têm em sua mente. Clifford Geertz. racional e estruturada. tradições. pessoas. a “chave” para a interpretação. Assim. não existe nada no mundo que o ser humano deixe de atribuir um significado.“Cultura é um sistema simbólico. instruções (o que os engenheiros de computação chamam de „programas‟) e que governam a conduta”. na visão desse autor. o que o ser humano produz em termos materiais não é o mais importante. está a importância desse debate em torno de diferentes concepções sobre cultura? . Desenvolvendo ainda mais a mesma idéia do autor acima (Goodenough).

Para qualquer área do conhecimento, é importante compreender que trata-se de definir a condição do ser humano em relação ao restante das espécies. Os teóricos da cultura como sistema adaptativo, concebem que a cultura é uma ferramenta como qualquer outra, e que permite soluções de sobrevivência e reprodução aos membros de nossa espécie, homo sapiens sapiens. Isso a torna interessante, uma vez que “desmistifica” as capacidades humanas, e nos faz olhar para nós mesmos como seres que “batalham” pela sobrevivência como qualquer outro. Já os teóricos mais idealistas, entendem que somos seres cujo cérebro não permite outra forma de uso, a não ser para criar cultura. Nosso órgão pensante se tornou, ao longo da evolução, preparado para entender o mundo através de uma lógica simbólica. Ele nos impele a formar vínculos familiares e afetivos, pensar soluções práticas dentro de concepções culturais, nos pensar como indivíduos que compõem grupos organizados. Isso a torna interessante, pois mostra que essa característica é universal. Não há culturas que produzam indivíduos mais inteligentes ou capazes. Ambas são válidas e seus autores produziram uma grande quantidade de conhecimento através de pesquisas e teorias que aprofundaram nosso saber sobre a nossa própria espécie. Em comum o que se pode perceber nessas teorias é a tentativa de abarcar todas as realizações humanas, representadas em dois níveis complementares que são as realizações materiais e as imateriais. Entre as realizações materiais, podemos citar todo o universo de coisas fabricadas pelo ser humano, de arados até ônibus espaciais. Entre as imateriais estão nossas crenças, conhecimento, arte, idéias e todos os sentimentos. Os autores que enfatizam os aspectos materiais argumentam que eles são importantes uma vez que somos a única espécie a transformar a natureza de forma sistemática, mesmo quando não há necessidades que afetem a sobrevivência. Outros autores, entretanto, entendem que nossas maiores realizações estão contidas nos aspectos imateriais, uma vez que somos a única espécie dotada da capacidade de abstração (pensar em coisas que não estão presentes, criar, imaginar). Mas não usamos essas capacidades realizadoras de qualquer forma, e sim de acordo com regras, normas e hábitos estabelecidos coletivamente. O ponto sobre o qual parece haver muita polêmica é a visão que cada autor tem de ser humano. Aqueles que dão maior importância às nossas realizações materiais procuram ressaltar a nossa capacidade adaptativa, mostrando a cultura como sendo uma forma de solução da sobrevivência, onde grupo social, recursos e meio ambiente se combinam para determinar os hábitos de um povo. Para eles, as técnicas desenvolvidas para solucionar todos os tipos de empresa humana, que vão de uma simples pescaria às necessidades comunicativas, passando por todo tipo de engenhos que nos cercam é que definem propriamente a cultura. Aqui, podemos dizer que cultura equivale a soluções práticas para a existência humana.

Outros autores entendem que a solução prática para a vida humana é uma conseqüência de outras capacidades, que muito mais do que nos fazer capazes de fabricar instrumentos, nos faz diferentes de todas as outras espécies existentes. São as capacidades de criar, planejar, prever, avaliar, imaginar, atribuir significado e modificar a natureza não apenas por necessidade de sobrevivência, mas por necessidade de se sentir bem. Podemos denominar isto de capacidade de simbolização. Não construímos o mesmo tipo de prédio para servir a qualquer uso, para cada fim encontramos uma arquitetura. Não é apenas pelos aspectos práticos que o fazemos, mas porque cada espaço deve carregar significados que orientem os indivíduos e os faça compreender como devem se comportar. Os templos são diferentes dos teatros, as casas diferentes dos escritórios (ou pelo menos deveriam ser!). A funcionalidade de cada um desses espaços é tão importante quanto o que nos faz sentir através de suas formas e cores. As formas de nossa casa nos transmitem sensações de pensamentos diferentes de um escritório ou de um templo, através dos símbolos que criamos para cada um deles. Para os autores que defendem a preponderância desse aspecto, cultura equivale à nossa incansável capacidade intelectiva de carregar o mundo de símbolos. Resposta a necessidades práticas, ou respostas a necessidades intelectivas, a cultura é uma forma de estarmos no mundo. Ela nos orienta em cada situação da vida social, como um modelo que recebemos e sobre o qual passamos a vida operando pequenas modificações. Vamos ver mais adiante, que algumas regras presentes nas culturas podem ser modificadas, suprimidas, desgastadas; enquanto outras são mais difíceis de negociar. “É assim, e pronto”. Ou seja, há aspectos mais dinâmicos e outros mais permanentes em cada cultura. Independente da teoria sobre cultura que se utiliza, existem duas reações diferentes na forma de compararmos as culturas. A primeira, que usa a HIERARQUIA para afirmar que existem culturas mais avançadas ou evoluídas. Assim, haveria culturas que, desse ponto de vista, obtêm mais domínio técnico sobre a natureza, ou formulam mais conhecimento letrado. Faz parte do evolucionismo social, já trabalhado em nosso conteúdo anteriormente. A hierarquia entre as culturas também faz parte de uma realidade mundial que se encontra nas relações internacionais. Existem centros de poder econômico que influenciam no julgamento de culturas que se diferenciam delas. Assim, são inferiorizadas as culturas de povos dominados ou dependentes economicamente. Sim, a cultura é uma realização humana na qual as relações de poder também se faz presente. A outra, que é mais presente entre os estudiosos mais contemporâneos das culturas, que não vê sentido em hierarquizar as culturas, pois para fazer isso temos que privilegiar uma delas e tomá-la como referência. Isso faz com que todas as outras sejam subjugadas. Nessa compreensão mais contemporânea, se uma cultura não desenvolveu motores, mas garante a todos os seus membros os recursos de sobrevivência, ela é adaptada ao seu meio. Como faz para resolver isso, passa a ser irrelevante. Exercício resolvido para o item 3

1) A respeito das teorias que definem o conceito de cultura, leia as afirmativas abaixo e assinale a alternativa correta: Existe uma grande diversidade cultural na espécie humana. PORQUE Algumas sociedades possuem padrões de conduta e tecnologia atrasadas em relação às outras. c) Ambas as afirmações fazem parte dos estudos da cultura, mas atualmente a segunda não justiça a primeira. MÓDULO 3 3.1 - A diversidade cultural. Etnocentrismo e relativismo cultural. Relativismo cultural e etnocentrismo são conceitos básicos da Antropologia para a compreensão de fenômenos que envolvem CONTATO CULTURAL, ou seja, o contato entre universos culturais DIFERENTES. Esses conceitos se referem a “julgamentos” que podemos ter quando em contato com o “outro” (alguém com padrões culturais diferentes do nosso). Esses julgamentos são responsáveis pela qualidade de nosso contato com a diversidade. Quando o outro tem padrões de comportamento, hábitos e valores muito diferentes dos nossos próprios é possível reagirmos de forma positiva ou negativa a isso. Julgar positivamente ou negativamente o comportamento alheio, tem relação com as atitudes de etnocentrismo ou com o exercício de relativismo que podemos utilizar. RELATIVISMO CULTURAL É considerar o mundo DO PONTO DE VISTA DO OUTRO, entendendo seu sistema simbólico, seus próprios valores de mundo como beleza, justiça, honra, medo, e assim por diante. É deixar de tomar a NOSSA própria cultura (visão de mundo) como medida para julgar os outros. ETNOCENTRISMO O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural (isso é denominado etnocentrismo). Ao pensar de forma etnocêntrica as pessoas depreciam o comportamento daqueles que agem fora dos padrões de sua comunidade. Comportamentos etnocêntricos resultam em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas e idéias ou valores de outros sistemas culturais são vistas como absurdas. O etnocentrismo é um comportamento universal. É comum a crença de que a sua própria sociedade é o centro da humanidade. A antropologia trabalha com alguns conceitos centrais que vamos passar a aprofundar neste tópico.

Cultura, diversidade cultural, relativização e etnocentrismo serão fundamentais para compreender o debate científico e da sociedade em geral em torno do comportamento coletivo humano. O encontro com o diferente suscita reações e atitudes que se vêm vinculadas à posição de poder ou submissão das pessoas na sociedade, bem como de preconceitos e verdades pré-estabelecidas que o senso comum reproduz. A cultura não é uma RECEITA de mundo, no sentido de ser algo inquestionável, sempre inconsciente que controla rigorosamente a todos os indivíduos. Podemos recorrer a uma metáfora para facilitar a compreensão sobre a relação entre os padrões culturais que herdamos/repetimos, e nossa atuação individual: “A mente humana corresponde a um “disco rígido” (hardware), que apesar de capaz de muitas tarefas, não consegue realizar nada sem um programa (software). Esse programa é a cultura.” Vamos lembrar que um software é um programa determinado e fechado, mas que aqui em nossa metáfora, “operando” a cultura há sempre um ser humano. Somos dotados de criatividade, subjetividade, carregamos histórias pessoais e coletivas. Assim, interferimos o tempo todo no “programa” que recebemos. A cultura não é apenas um modelo, um quadro de referência, ela é uma forma de acesso às possibilidades humanas. Há uma dinâmica na relação entre cultura e sujeito, entre sujeito e história, entre indivíduo e grupo. Se pensarmos que a cada cultura corresponde uma diferente “visão de mundo”, percebemos que os indivíduos se organizam mentalmente para estar no mundo de acordo com os valores introjetados de sua cultura. Tornamos “nosso” aquilo que é cultural. Exercitando. Vamos pensar sobre os sentimentos humanos. Obviamente, nossas emoções são universais. Amor, ódio, paixão, rivalidade, raiva, afeto, ironia, alegria, euforia e tudo quanto possamos lembrar agora, fazem parte da humanidade. Entretanto, as EXPERIÊNCIAS QUE SUSCITAM este ou aquele sentimento, e a forma como expressamos o que sentimos isso é cultural. Muitas situações que fazem um brasileiro rir podem não ter o mesmo efeito em pessoas de outros povos. Ou ainda, situações como o funeral que exigem circunspecção e tristeza em algumas culturas podem exigir expressões de alegria em outras. O exercício de relativizar é se colocar na condição do outro. Pois bem, muitas vezes fazemos julgamento equivocados do comportamento alheio, simplesmente pelo fato de desconhecer as motivações que levaram a tal ou qual atitude. Quando não temos a “chave simbólica” que permite a relativização dos costumes, tendemos a nos fechar em nosso etnocentrismo. Tudo bem, precisamos relativizar, não é mesmo?

se tornam destrutivos das relações humanas. isso significaria. Percebe que deve existir um limite para a prática do relativismo? Relativizar deve ser algo estimulado socialmente. estamos atingindo um grau de etnocentrismo inaceitável. O relativismo extremo pode levar à ausência de noções éticas. na medida em que pode servir para reforçar nossa identidade cultural e nos trazer bem estar dentro de nosso próprio padrão cultural. podemos correr o risco de não ter mais referencial ético de mundo. natural e aceita. O oposto também é verdadeiro.Sim. assinale aquela que tem relação com o conceito de RELATIVISMO CULTURAL: Resposta do exercício 1): C) julgar uma cultura a partir de seus próprios valores e hábitos. mas dentro de padrões de respeito à integridade física. Quando reagimos com aversão ao fato da alimentação em algumas culturas incluir pratos com animais como insetos. não é uma atitude ruim. Exercício resolvido para o item 3. destruir seus costumes forçosamente ou mesmo agredi-lo física e moralmente. todas as culturas praticam etnocentrismo de alguma forma. principalmente em comunidades africanas. estamos sendo um pouco etnocêntricos. preferindo um bom arroz com feijão. Mas tanto o relativismo cultural como o etnocentrismo podem ser encontrados em diferentes graus. aceitando qualquer atitude alheia como normal. e não a partir de valores dominantes de uma cultura alheia que se impõe sobre outras por se considerar superior. Mas quando a aversão ao outro é tão grande que precisamos excluí-lo. psíquica e moral do outro. . tornar aceito como normal as mutilações dos órgãos genitais femininos praticados em algumas sociedades de cultura mulçumana.1 1) Das situações abaixo. Etnocentrismo é sempre ruim? Não! Na verdade. por exemplo. Em termos práticos. O etnocentrismo extremo pode levar ao genocídio e às práticas racistas / preconceituosas. e quando praticados de forma radical. Quer dizer que relativizar demais pode ser perigoso? Sim! Quando apenas relativizamos tudo. cães ou lesmas (o famoso “escargot” francês). é correto que tenhamos reações mais respeitosas e éticas com os “outros”. Isso é necessariamente ruim? Bem.

Textos complementares sugeridos: “Cultura e seus significados”. “A cultura tem uma lógica própria”. a simbolização da vida social.aguaforte. João C. 19ª ed. “O olhar”.Um Conceito Antropológico. SP: Olho d´Água. MINER. Ritos Corporais entre os Nacirema.com/antropologia/nacirema. simbolizar. in GUERRIERO. RIBAS.item 4 Nos textos indicados. O QUE É CULTURA. ANTROPOS E PSIQUE – o outro e sua subjetividade. 2003.1 . Roque de Barros.. 33-51. DESENVOLVIMENTO DE CONTEÚDO . Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. in GOMES. “A cultura interfere no plano biológico”. SP: Brasiliense. Pp 87-96. e a importância disso para a cultura? A cultura depende de nossa capacidade de comunicação. a participação dos indivíduos na cultura. texto disponível em: http://www. Mércio Pereira. José Luiz dos. in LARAIA. Horace. “A cultura condiciona a visão de mundo do homem”. emocional e intelectual no mundo.As principais características da cultura como visão de mundo: herança cultural e formas de compreender o mundo. Vamos desenvolver um pouco mais a compreensão sobre o que é símbolo. É importante ao final deste item que se perceba a profunda influência da cultura em todas as dimensões de nossa experiência física. Antropologia – ciência do homem. . “A cultura é dinâmica”. Pp. formigas e leões. Poderá perceber que apesar de vivermos em uma cultura que determina padrões de comportamento. São Paulo: Contexto. há um espaço para nossa individualidade. O foco deste item é a compreensão de cultura em seus aspectos simbólicos. 4. A cultura.MÓDULO 4 4. “Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura”. Pgs. filosofia da cultura. Sem comunicação nossa sociedade seria mais semelhante a uma sociedade de outros animais que vivem em coletividade como abelhas. Bibliografia Textos básicos “O que se entende por cultura” in SANTOS. CULTURA . você será capaz de identificar informações e conceitos sobre a cultura que já desenvolvemos anteriormente. 2009. 65-101. Silas (org).htm Objetivos: ao final deste tema você deve ser capaz de identificar a importância da cultura como mediadora no processo de construção de nossa visão de mundo. bem como da relação do ser humano com sua corporalidade e das noções de saúde e doença. 2006. 2005. pp 21-50.

A cultura depende dos símbolos. Nós convencionamos que a palavra “gato” simboliza aquela espécie de felinos que encontramos na natureza e que se tornou um de nossos animais domésticos. Quando pensamos em um gato e queremos comunicar essa idéia básica. o ser humano cria muitos símbolos. num contexto cultural. não conseguiríamos sequer compartilhar o que se passa em nossas mentes. de forma generalizadas sobre gatos. segundo Geertz. de forma sistemática. vamos avançando.. racional e estruturada. temos que recorrer a um som. valores. não pensamos em gatos de tipos muito específicos ou em suas qualidades. idéias. faça com que todos os presentes entendam no que o comunicador estava pensando. Esse é um primeiro passo para entendermos o processo de simbolização. 1973). A simbolização pode mesmo ser tomada como sinônimo do conceito de cultura. possui valor evocativo. Assim: . Língua. crenças. Para cada coisa existente. por pura convenção. uma palavra que ao ser pronunciada.) 2 aquilo que. Apesar de existir uma imensa diversidade de tipos de gatos. “cultura é um sistema simbólico (Geertz.1 aquilo que.A cultura humana tem características que diferenciam nossa forma de vida coletiva. o que torna necessária a compreensão do contexto cultural onde os símbolos são criados e utilizados para que nossa comunicação seja eficaz e consiga atingir seus objetivos. e faz com que seja possível a INTERPRETAÇÃO dos conteúdos comunicados. e até aqui já deu para entender que sem símbolos. A palavra GATO é um dos símbolos para a coisa em si. mas antes um som que representa essa realidade. tudo que faz parte da cultura humana é baseado em símbolos que precisam de uma convenção social para que os indivíduos associem a um mesmo significado. o que é símbolo mesmo? Segundo o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” (edição de 2001): 1 aquilo que. de uma cultura para a outra esses significados variam imensamente. a representação da flor através dos desenhos. Então a palavra GATO não é a “coisa real” que existe na natureza.. significados e sentidos „às coisas do mundo‟ “. Temos por exemplo. mágico ou místico (. substitui ou sugere algo 1. o próprio gato. Pois bem. característica fundamental e comum da humanidade de atribuir. Entretanto. por um principio de analogia formal ou de outra natureza. que é também um símbolo. a comunicação humana é baseada na simbolização. Para o a antropologia atual. Vamos fazer um pequeno exercício para tentar aplicar todas essas definições de símbolo à nossa realidade? A palavra gato. conceitos. Mas. Para expressar a cultura. representa ou substitui outra coisa. é possível ampliarmos nossa capacidade de compreensão do outro. dependemos da utilização dos símbolos. quando pensamos em um gato para comunicar uma situação corriqueira envolvendo gatos. Ao entrar em contato com esse fenômeno que se chama comunicação através da Antropologia.

pois já deixou de ser o próprio gato. Kênia Kemp. É um símbolo. não é. e sim bidimensional. 2010 . ou uma delas. criando assim algo que a representa. mas deixou de ser ela mesma. e é simbolizado nessa imagem que não é tridimensional. apesar de parecer o próprio gato.Essa imagem fotográfica. É uma representação “do gato em si”.

2001. representações artísticas do gato e. . Essas duas imagens são desenhos. portanto.Gato amarelo e flor. ou seja. de Aldemir Martins.

Então. racional e estruturada. ou um terremoto pode ser utilizado para simbolizar alguém inquieto. Cada profissão elege seu símbolo. pois a cruz simboliza um evento da figura fundadora dessa fé. “as cores dessa bandeira simbolizam a paz e a riqueza”. e assim por diante. Ao utilizar um crucifixo. os times utilizam brasões. onde ele se originou. simbólica. ou ainda aromas de um lugar que marcaram a infância de UMA pessoa. e através dessa comunicação simbólica podemos atribuir qualidades ao mundo. sentido ou experimentado antes. O símbolo facilita e agiliza a comunicação. e tudo isso é possível porque como diz Geertz. justo/injusto. Bondade. Portanto. lembrar. podemos compreender que as “coisas em si” são transportadas para a nossa mente. retiramos todas as coisas de seus contextos originais. de forma sistemática. conceituar. Uma catástrofe da natureza como um terremoto. agitado. de significados coletivamente construídos. A maior parte de nossa comunicação diária tem como finalidade narrar. A cada cultura corresponde um processo coletivo único . “proibido cães” e outras regras de uso do espaço são símbolos. são formas de simbolizar experiências e sensações. uma pessoa é identificada pelos outros como “cristão”. não existe esse tipo de julgamento. transmite idéias complexas e sentimentos. mas o ser humano atribui a umas e outras certas qualidades. significados e sentidos às coisas do mundo. idéias e pessoas que não estão presentes. e sim formas simbólicas para elas. que é Cristo. mas aromas que são convencionalmente usados em bebês. bem como todos os conceitos de mundo que dispomos são resultados da criação das culturas humanas. “o crucifixo identifica os cristãos”. Ao fazer isso. e não da natureza. e podemos pensar nelas. e escolhemos alguns de seus aspectos a serem ressaltados. coisas que não estão presentes. como bondade/maldade. A arte é em essência. Os símbolos representam coisas. o artista procura através da forma obtida (a forma plástica. que não pode ser reproduzido em toda a sua riqueza e complexidade. placas de trânsito são símbolos. Um céu escuro e carregado de nuvens pode simbolizar preocupações e problemas. descrever. Para a terra. na dança. percebido. na música. a humanidade atribui. “esse cheiro me lembra a infância”. Tudo na comunicação é símbolo? Sim! Os símbolos são frutos: da persistência humana de olhar para o mundo e ver significados. são valores. justiça e beleza. belo/feio. Na pintura. O correto é observarmos que na natureza não existem qualidades que são criadas pelo Homem. Não existe “cheiro de infância”. “Essa flor é alegre”. placas de “proibido fumar”. da rotinização de soluções racionalmente pensadas. não é ruim senão do ponto de vista dos prejuízos que possa causar aos seres humanos. Não está na “flor em si” ser alegre ou triste. mesmo quando não estamos em sua presença. O artista procura sempre “representar algo”. a sonoridade ou o movimento) criar um símbolo para algo visto.também não são o gato em si. Assim é que nós SIMBOLIZAMOS as experiências vividas. que se expressam através de símbolos. cores e emblemas. Essa é uma outra associação possível com os símbolos.

de criar símbolos. Em segundo lugar. Mas garante que não tenhamos que explicar minuciosamente o tempo todo nosso uso dos conteúdos comunicativos. podem ir parar em lugares onde não há essa convenção sobre como ele deve ser interpretado. precisamos dominar e compartilhar os mesmos símbolos. ou “mal entendidos”. que a comunicação humana é baseada na criação. ou pelas artes. que uma idéia expresse um acontecimento. Assim ocorreu com a logo marca da “Coca-Cola”. Quando nos comunicamos. o que acontece é que as pessoas tendem a dar o sentido mais apropriado ao seu próprio contexto. portanto? Primeiramente. presente em todo o mundo como um ícone de prazer e do mercado. Por isso utilizamos os símbolos para comunicar quem somos. Vamos ler juntos um trecho do texto indicado na bibliografia desse item para concluir sobre a importância da capacidade de simbolização humana no estudo da cultura? Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. não realizaríamos nenhuma de nossas capacidades como raciocínio. divulgação. sem os símbolos não haveria cultura humana. eles sejam interpretados de formas inusitadas ou até mesmo. Sem tal comunicação. Através dos símbolos. incorporação e rotinização de símbolos. o que fazemos. incorretas. o conteúdo do que é comunicado é sempre algo que precisa ser interpretado. a linguagem escrita é simbólica. nossa condição. é muito comum que quando usados em um contexto diferente do original. ou seja. descreva um sentimento ou uma paisagem. Portanto. os chamados “erros de comunicação”. e assim por diante. Para que nossa comunicação seja eficaz. entender. Mas alguns símbolos. seja pela linguagem escrita. também a linguagem gestual. Isso porque ao saírem de sua cultura original. ou ainda a comunicação áudio-visual. julgar. por exemplo. Ser membros da mesma cultura é uma garantia de que todos estejam interpretando de forma muito semelhante os conteúdos comunicados. que é o mundo que nos rodeia. ou com o símbolo da juventude dos anos 1960 para “paz e amor”. Então. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. conseguem ter significado para praticamente a humanidade toda. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma . A maior parte de nossa comunicação é composta de conteúdos que se tornaram convenção social. O que aprendemos sobre os símbolos. por efeito da sistemática e rotina de circulação em outros meios. nossas preferências. mas comunicam também coisas imateriais como sentimentos. os símbolos comunicam não apenas o mundo exterior à nossa mente. Hoje em dia esse fenômeno é muito comum no mundo da moda e das tendências de comportamento. para utilizá-los da forma mais “adequada”. Como os símbolos cotidianos dependem desse consenso em torno da interpretação. filmada. Claro que isso não garante eventuais desentendimentos. que permitem. criatividade. A linguagem falada é simbólica. Interpretar é dar sentido. emotividade e assim por diante. materializamos aquilo que é interior à nossa mente. idéias abstratas e conceitos. Não interessa muito para o senso comum ter entendimento e investigar a origem de certos símbolos. portanto a maioria dos símbolos cotidianos tem um significado apenas local. falada.

Entretanto.41-42) Exercício resolvido do item 4: 1) A capacidade de simbolização e criação cultural pode ser associada às seguintes afirmações: c) A simbolização e a criação da cultura nos possibilitam pensar no que não está presente. XX o quanto somos também moldados pelo meio social que nos circunda desde o nascimento.As principais características da cultura como visão de mundo: herança cultural e formas de compreender o mundo. mas sem a ação da cultura. a participação dos indivíduos na cultura. Muitas vezes julgamos nossas atitudes. mas muito além disso. aborda exemplos de como a cultura afeta nossas vidas em sentidos muito mais profundos do que imaginamos. O QUE É CULTURA. de Roque LARAIA 1) A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM . COMO OPERA A CULTURA baseado no livro “Cultura . não teríamos a complexidade da humanidade. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. José Luiz dos. Sem dúvidas a nossa “natureza” (diga-se herança genética). De fato.conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. trouxeram uma nova visão sobre o ser humano. A natureza sozinha não constrói um ser humano como o conhecemos. Esses estudos ampliaram a nossa compreensão sobre diversidade cultural sim. SP: Brasiliense. 2006. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. (SANTOS. como se assim tivéssemos nascido. O tema da segunda parte do livro de LARAIA. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. preferências e reações como se fossem “naturais”. que as informações sejam processadas. CONTEÚDO DE 1º BIMESTRE (Prova NP-1) 4. e comunicar nossa experiência aos próximos.Um Conceito Antropológico”. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. ao simbolizar atribuímos significados ao mundo. Pgs. pode ser imensamente responsável por muitos atributos individuais. Assim. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. os estudos antropológicos elucidaram ao longo de todo o séc.1 .

Ao passo que para os que nela vivem.nosso gestual e a forma como utilizamos o corpo.O oposto também é verdadeiro. modos de agir e pensar. . É parte da nosso PATRIMÔNIO CULTURAL.Para uma pessoa da cidade. Da mesma forma como cada família pode deixar aos seus descendentes uma herança material (patrimônio familiar). . e assim por diante. ou mesmo pela mais simples delas . Mas. Então.a língua que cada um deles fala.os sentimentos. ela tem um SIGNIFICADO QUALITATIVO e uma REFERÊNCIA ESPACIAL. . p. ?Ruth BENEDICT escreveu: “A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. temos que a CULTURA influencia nossas vidas em diversos níveis: . . de comer. ao passo que para os índios que nela vivem. a floresta é um conjunto desordenado de árvores. de vestir. podemos identificar facilmente indivíduos de diferentes culturas por características como: .” . portanto.as necessidades e o uso da tecnologia. . Assim. a realidade não é apenas UMA? ** Não! O Homem é condicionado pela sua cultura. . entre tantos outros. a cidade possui uma ORDEM física e espacial.os critérios de beleza.. conhecimentos.O modo de ver o mundo.a moral. e o movimento possui um sentido lógico. e como explicamos o que nos cerca e o que sentimos.o que entendemos como SAÚDE e também a DOENÇA. seja material ou imaterial. . a ver o mundo. além de um movimento desordenado de pessoas e automóveis. as apreciações de ordem moral e valorativa. Em cada cultura VARIA IMENSAMENTE o que somos capazes de perceber à nossa volta. a nossa sociedade nos deixa uma HERANÇA de valores.Modo de agir. desde que fase de nossas vidas essa influência acontece? .ex.nossa alimentação. . . Mas. ou seja. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as POSTURAS CORPORAIS são assim produtos de uma HERANÇA CULTURAL. uma pessoa do campo vê na cidade uma coleção confusa de ruas e edifícios.as noções de higiene pessoal. de caminhar. têm visões desencontradas das coisas.uHomens de culturas diferentes enxergam o mundo de forma diferente.

-Desde o parto. . somos condicionados pela nossa cultura Vamos analisar algumas imagens dessa influência da cultura em diferentes aspectos da vida humana e como os percebemos visualmente.

Na segunda columa: Nova Zelândia e Brasil. Índia e Inglaterra. .Na primeira coluna: África.

modelagem do corpo com muitas técnicas diferentes como dietas. lábios. suas escolhas poderiam ter sido completamente invertidas. esportivos. ingestão de bebidas alcoólicas ou qualquer outra que altere igualmente a percepção e reações.as mulheres chinesas que durante séculos enfaixavam os pés para evitar seu livre crescimento. para nos sentirmos INCLUÍDOS (o que dá aquela sensação de confiança e autoestima. vegetais. quando “pertencemos” a um lugar social). rituais que envolvem ou não a participação e presença física do doente que pode ser submetido a todo tipo de intervenção passiva ou ativa – as vezes o doente precisa ingerir. As famosas “mulheres girafas” da Tailândia (Ásia). rituais ou de espetáculos). alimentos processados industrialmente. saúde e aparência corporal. e muitos outros tipos. Para manter tradições. mas é possível sim. . que desde os cinco anos começam a utilizar argolas no pescoço com o objetivo de esticá-los. Pense que se você tivesse sido socializado em outra cultura. sugar outras vezes ele é sugado. Para lembrar alguns exemplos: . cirurgias e implantes. . sementes. .perfuração ou alargamento de lóbulos. pálpebras. movimento e expressões faciais na passarela.formas de tratamento de doenças que pode incluir uma imensa lista como a ingestão de fitoterápicos.técnicas de desenhos ou formação de saliências na pele como tatuagens. inalar. . incisões. folhas. escarificações e implantes subdermais. quando nos sentimos parte de um todo. Pense em quantas situações ao longo de nossas vidas nosso corpo é atingido em função de experiências culturais.uso de vestuário e adornos corporais. carnes dos mais variados tipos e partes de animais (cruas ou cozidas). grãos e castanhas. frutas e flores. . o que o autor chama de “PLANO BIOLÓGICO” é exatamente nossa forma física. o processo de treinamento das modelos ocidentais que para serem vistas com roupas e acessórios à venda pela indústria da moda se submetem a dietas incriveis de emagrecimento e treino para o controle do corpo. perfurações. Neste item você pode se perguntar como nossa indumentária pode interferir no plano biológico. fisiculturismo ou treinos especiais (militares. Portanto. obedecer a regras e principalmente. raízes. preparados químicos conhecidos como remédios. . .o tipo de parto que cada cultura oferece e considera melhor. nosso corpo físico é submetido frequentemente a exigências. com ou sem anestesias. Neste item você pode ter considerado algumas coisas muito normais e outras repugnantes.2) A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Ao longo de nossas vidas o nosso corpo físico é intensamente afetado pelas nossas experiências culturais.a dieta cotidiana que pode incluir desde insetos. cortes.

.a participação em festas e ocasiões especiais. que além de exigir o controle da postura e gestual em função da utilização de vestimentas especiais.a submissão a rotinas que podem gerar lesões físicas e/ou desconfortos psicológicos dos mais variados graus. Não resta dúvidas do quanto submetemos nossos corpos em função das experiências culturais. Vamos ver isso em mais algumas imagens. Entretanto é muito comum a reação de espanto. . tanto quanto perfurar lábios para o uso de botoques nos parece. a reação do organismo na forma de doença a experiências negativas. mas pode ser considerado incompreensível aos outros. indignação ou repúdio ao que os “outros” fazem com seus corpos. Você pode fazer o exercício de encontrar outros e tantos inúmeros exemplos. Ter a vida de uma modelo da moda pode parecer normal entre nós. . exigem também a submissão (em alguns casos) de horas em jejum e em seguida horas de ingestão de uma quantidade incrível de alimentos e bebidas. Interpretamos isso como algo “natural”. .o desenvolvimento de doenças psicossomáticas.

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Tailandesa . DUTILEUX. Desenho de modelo da moda. Brasil) foto de Jean P.Primeira coluna: Kayapó (Xingú. Segunda coluna: Sumotori (luta tradicional do Japão) .

há impedimentos etários totalmente arbitrários e criados pela nossa cultura: p. . portanto existe um espaço na cultura. a história e o conjunto de valores de seu próprio povo. existem tendências e limites para a socialização. a maior parte das sociedades humanas permite uma mais ampla participação na vida cultural aos elementos do sexo masculino. onde o grupo não determina totalmente sua vida. Porém. e incapaz de pintar um quadro. ou 20? ?as diferenciações baseadas na impossibilidade de TODOS os indivíduos serem socializados da MESMA forma: Alguns aspectos se sobrepõem a outros. e não aos 16. que impedem que aqueles que estão mais abaixo na pirâmide social.. portanto os motivos biológicos ficam explícitos nesses casos.3) OS INDIVÍDUOS PARTICIPAM DIFERENTEMENTE DE SUA CULTURA É impossível todos os indivíduos de um grupo terem exatamente o mesmo comportamento.ex. por que podemos ter licença para dirigir e votar aos 18 anos. Mas nossa participação é sempre diferente de um indivíduo para o outro. É impossível que todos nós recebamos as MESMAS informações durante nosso crescimento.nas quais as mulheres desempenham papéis importantes na vida ritual e econômica -. ?as diferenciações baseadas nas diferenciações de classe social: Nas sociedades que diferenciam os indivíduos de acordo com o pertencimento a determinadas classes sociais. ?as diferenciações baseadas na idade dos indivíduos: Uma criança não está apta a exercer as funções dos adultos. alguns traços são reforçados e outros não: Einstein era um gênio na física. mas provavelmente um desastre ao piano. Somos socializados e aprendemos ao longo da vida aquilo que é mais importante para sermos aceitos e participarmos de uma cultura. Em que critérios se baseiam essas diferenças individuais? ?as diferenciações baseadas no sexo dos indivíduos: Com exceção de algumas sociedades africanas . apesar de compartilharem a mesma “visão mundo”. A individualidade está garantida em primeiro lugar pelo fato de que nem uma pessoa pode sozinha conhecer e dominar todos os conhecimentos. tenham acesso a grande parte da cultura produzida pelo seu grupo.

Mesmo ao “inventar” explicações. a categoria da “inveja”. mas que servem para explicar toda uma infinidade de eventos. casamentos desfeitos. ou por “ignorância” que um grupo social pode parecer “SEM RAZÃO”. Assim. que as explicações dos “outros”. E a resposta obtida foi: “Ele volta apagado durante a noite”. as “nossas explicações” sempre nos parecem mais lógicas. Entretanto. Laraia cita o exemplo (pg. perda de patrimônio. Esse conceito forma todo um sistema de classificação e ordenação de mundo para muitos brasileiros. Vamos a alguns exemplos do livro. ele não domina a explicação científica. Dificilmente as pessoas se contentam com explicações racionais que tornam a “vítima” única e completamente responsável pelo que lhe aconteceu. muito eventos com impacto negativo na vida das pessoas são explicadas através da “inveja”. pelo qual somos profundamente influenciados. De fato. Mas. entretanto. . 88) de uma conhecida sua que perguntou a um caipira paulista “como é que o sol morre todos os dias no Oeste e nasce no Leste”. a princípio parecem simples. ela sempre será a “nossa lógica” e não a lógica alheia. Fosse ele um gaúcho. 5) A CULTURA É DINÂMICA Todo ser humano tem capacidade de questionar seus próprios hábitos e mudá-los. mais corretas. mas sua “invenção” teve que necessariamente utilizar A LÓGICA DA CULTURA CAIPIRA. Mediante situações que exigem uma lógica. mais apropriadas. Quando um acontecimento pessoal ou alheio parece “sem explicação”. Toda cultura muda com o tempo. Desemprego. ? Para dar um bom exemplo baseado na cultura brasileira. muito provavelmente sua “explicação” fosse outra. que parecem “congelar” no tempo? O ritmo de mudanças de uma cultura obedece à lógica da satisfação de seus indivíduos com relação às suas soluções. Quando as soluções deixam de ser suficientes. a categoria do “olho gordo” entra em ação. nosso esforço intelectual de obter resposta sempre será coerente com o sistema cultural no qual estamos inseridos. e “inventou” uma resposta tão simples quanto seu nível de informação sobre o sistema solar. Isto é um conceito que forma um sistema de ordenação de mundo. que são resultantes da cultura na qual somos socializados. doença. ocorrem as mudanças.4) A CULTURA TEM UMA LÓGICA PRÓPRIA Neste capítulo o autor trabalha com a seguinte idéia: temos explicações para o mundo. temos que considerar que muitas vezes não é apenas por “falta de conhecimento”. sejam sociais ou naturais. podemos tomar o conceito de “inveja”. São conceitos que. de ordem prática ou simbólica. deixa todos satisfeitos com a explicação. por que a impressão que algumas culturas mudam mais do que outras. ? A lógica de uma cultura muitas vezes forma o que os antropólogos denominam “sistema de classificação” ou ainda “sistema de categorias”. Muitos podem concluir que ele não sabia explicar. ou “olho gordo”.

coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai..OI2903379-EI6581. quando as mudanças ocorrem em função do contato com outro sistema cultural.terra. A menos que tenham sido decorrentes de invenções tecnológicas exemplares ou de eventos históricos de grande impacto como revoluções e guerras internas.br/interna/0.html .” http://terramagazine. enquanto os guerreiros da tribo se posicionaram e reagiram atirando flechas no avião. Atualmente é quase inexistente alguma cultura que não tenha contato com outras. Já a mudança decorrente dos contatos entre muitas culturas determina um ritmo mais rápido ao longo de um pequeno espaço de tempo. em especial na Amazônia brasileira. e que traz na abertura da matéria assinada por Altino Machado. de Rio Branco (Acre): “Após quase 20 horas num avião monomotor. comandou um sobrevôo que resultou nas primeiras fotografias dos índios de uma das quatro etnias isoladas que vivem na fronteira do Acre com o Peru. Ainda existem alguns poucos grupos isolados no mundo. chamado de “etnias isoladas”. o mundo se surpreendeu com fotos que estão disponíveis no jornal eletrônico “Terra Magazine”.Essas podem ter duas fontes: uInterna. Essas fontes podem determinar o ritmo mais lento ou rápido das mudanças. quando se trata da dinâmica do próprio sistema cultural. 96). sendo o fenômeno de dinâmica cultural mais estudado. as mudanças decorrentes da dinâmica interna podem ser quase imperceptíveis a um observador externo. o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior.com. uExterna. As mulheres e suas crianças fugiram para a floresta em busca de proteção. de onde eventualmente temos notícias desse tipo de fenômeno.00. Segundo LARAIA (pg. No mês de maio de 2008.

Adotar comportamentos típicos de outras culturas pode ser resultado de imposições pela violência. ALGUMAS IMPORTANTES CARACTERÍSTICAS DAS CULTURAS! CADA CULTURA (seu povo) ESCOLHE DENTRE OS ELEMENTOS DE UM OUTRO GRUPO. AQUELES QUE ACHA POSITIVO ADOTAR OU NÃO.FOTO DE GLEISON MIRANDA. publicada no mesmo endereço eletrônico disponível acima da imagem. Exercício resolvido para o item 4. pela conquista ou pela exposição excessiva (podemos pensar na mídia). APENAS EM CASOS DE DOMÍNIO ECONÔMICO E/OU POLÍTICO É QUE UM GRUPO SE VÊ OBRIGADO A ABRIR MÃO DE SEUS PRÓPRIOS COSTUMES E ADOTAR OS DOS DOMINANTES. ou qualquer grupo cultural) não têm nenhuma escolha quando são influenciados por outras culturas.1: . Isso significa que para a Antropologia pode ser questionável afirmar por exemplo que os índios (ou os brasileiros.

. 108. “Raça e Progresso”.1) Um bombeiro pode ser excelente no exercício de sua profissão.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15741999000300009&lng=en&nrm=iso> .socioambiental. mas pode falhar quando colocado em uma situação que exige apenas foco de atenção baseada no raciocínio intelectual durante muitas horas.aguaforte.org/. Brasília: 2004.scielo.o texto "Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana" está disponível eletronicamente no seguinte endereço: http://www. Regina Pahim. http://www. Bibliografia básica: Relações étnico-culturais.com. Jorge Zahar. Jorge Zahar. especialmente o link para a Revista “Sexta-Feira”. http://www. 2004.htm Textos complementares: BOAS. (org. in CASTRO. Nov. São Paulo. http://www. mas não para todas. http://www. C. MÓDULO 5 Conteúdo do 2º bimestre – PROVA NP-2 5 . PP. MINER. Horace. MEC.espacoacademico. especialmente o link “Povos indígenas do Brasil”. Celso (org. disponível na Web.Comunidade virtual de Antropologia.ANTROPOLOGIA CULTURAL. Diferenças étnico-raciais e formação do professor.Para conhecer sobre a diversidade de etnias indígenas no Brasil: Instituto Sócio Ambiental.) Franz BOAS . Pesqui.br/040/40pc_diretriz. Refletir sobre o papel das tradições e das mudanças culturais em diversas situações e contextos. Texto disponível eletronicamente no endereço.” Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.br/scielo.com. 1999 .htm . 2004. Franz.br/040/40pc_diretriz.antropologia.htm “Os métodos da etnologia”.com/antropologia/nacirema. A explicação da Antropologia para este fato é: Resposta do exercício 1): D) os indivíduos participam diferentemente de sua cultura. Cad.com.Sobre a educação no contexto das relações étnico-culturais: PINTO. n. assim cada um recebe muitas informações e treinamento para algumas funções. 67-86. “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.br . Disponível em <http://www.A diversidade cultural: relações étnico-raciais. in CASTRO.) FRANZ BOAS – Antropologia Cultural. . Ritos Corporais entre os Nacirema.espacoacademico. * Sugestão de endereços da Internet sobre os temas deste conteúdo: . Objetivos: neste item o aluno deve ser capaz de considerar a identidade como um processo de construção cultural e o contato com a diferença como características da condição contemporânea.

de relação de troca. Que tal pontuar algumas questões e situações do mundo atual nas quais as relações étnico-culturais estão no centro dos debates e suscitam a reflexão? São questões que trazem à tona o relativismo cultural e o etnocentrismo. pode estar ao nosso lado. como a intenção de ocupação de território.Definição de relações étnicas: As relações étnico-culturais são todas as situações nas quais diferentes culturas/etnias são colocadas em contato por qualquer razão. do estabelecimento de vínculos de parceria ou amizade. justiça e novos parâmetros para as relações humanas. exploratórias. Esse contato normalmente é motivado por deslocamento de grupos de pessoas de uma etnia para outro(s) lugar(es). procura de condições de vida diferentes e oportunidades. Assim dizemos que para haver relativismo ou etnocentrismo deve-se supor a presença da DIFERENÇA. A presença de um “outro” em relação ao que se reconhecemos como “nós”. Essas questões / situações seriam: . religiosa ou étnica) ou mesmo de guerras. Atualmente o mundo todo reflete de uma forma mais intensa sobre o convívio entre as diferentes culturas/etnias. além de boas doses de ética. Relativismo cultural e etnocentrismo são formas das pessoas ou sociedades inteiras reagirem ao contato com um grupo culturalmente diferente. Os motivos podem ser variados. e supõe que dois ou mais povos que representam suas etnias mantenham por tempo indeterminado alguma forma de convivência. diáspora (que é a dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política. não precisa ser alguém de uma cultura distante fisicamente. atividades comerciais.Desenvolvimento do item 5 – . onde encontra-se outro grupo étnico. Esse “outro” que aparece nas frases acima.

Qual é a importância da eleição de Barack Hussein Obama como Presidente dos Estados Unidos da América? .Qual é a realidade dos povos indígenas que convivem com a nossa sociedade nacional aqui no Brasil? E quais são suas reivindicações? ..

Como resolver os conflitos entre Israel e a Palestina? ..Quais são os principais argumentos a favor e contra a política de cotas para afro-descendentes ingressarem nas universidades públicas brasileiras? .

Como e por que é exercido o preconceito contra nordestinos nas regiões sul e sudeste do Brasil? As respostas a essas questões não possuem um consenso. Em um mundo globalizado. Cada cultura desenvolve um sistema simbólico que permite aos indivíduos se relacionarem dentro de uma mesma linguagem de mundo. Elas dependem em grande parte da posição e da capacidade de imparcialidade de quem as responde. Dependendo da perspectiva a partir da qual se avalia essas questões. são polêmicas sociais. De qualquer forma. O que nos leva de volta ao conceito de CULTURA. existe uma preocupação geral e a tendência a considerar reprováveis as atitudes que resultem em discriminação. A garantia dos direitos humanos e as lutas pelo tratamento igualitário entre os povos têm trazido à tona importantes discussões sobre as relações étnico-culturais. pode-se caracterizar certas respostas como resultado de atitudes etnocêntricas ou relativistas. Ocorre que durante muitos séculos. Vamos desenvolver o conceito de ETNIA. exclusão ou práticas moralmente/fisicamente agressivas.. preconceito. Segundo o dicionário HOUAISS: . um relativo isolamento entre os povos teve como resultado o surgimento de muitas etnias diferentes ao redor do mundo. onde o contato entre as diferentes culturas e povos é cada vez mais intenso e necessário. podemos obter respostas muito desencontradas.

trata-se de questões étnico-raciais. contrariamente ao de raça. Na história da Antropologia. ou os hábitos de vestuário / alimentação / higiene desse mesmo outro. condenável e pouco efetiva no sentido de resolver conflitos de interesses entre dois ou mais povos. e este conflito revela questões culturais de qualquer abrangência. É necessário perceber que a intolerância em qualquer dos casos é desnecessária. Esse pensamento partia do pressuposto que a cultura é determinada pela herança genética de uma população. simplesmente pelo fato dela abranger apenas um aspecto da cultura alheia. Entretanto não existe intolerância mais aceitável ou menos aceitável. Sempre que o assunto envolve questões de conflito de interesses entre populações. Raça é uma construção social. O conceito de etnia. Um povo pode e deve saber valorizar suas próprias características sem que seja necessário diminuir. que relacionavam a base biológica das populações humanas com a cultura. O resultado óbvio foi o sentimento de superioridade de algumas culturas sobre outras. tanto por questões bastante específicas como a religião do outro. Ao recusar essas teorias. ANTROPOL coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural. . dá ênfase aos aspectos da herança cultural de um povo como forma de caracterizar a diferença de comportamento entre as várias populações humanas. Um povo pode expressar seu preconceito. discriminar ou repudiar os que são diferentes. desde final do século XIX teve início um movimento de recusa às teorias evolucionistas. que a cultura não é determinada pelo padrão de herança genética de uma população. racismo ou ódio. grupo étnico [Para alguns autores. De acordo com esse pensamento. uma cultura ou ambas. Esses conflitos podem se revelar com diferentes graus de expressão e intolerância. Atualmente é consenso na antropologia. extermínios e a prática da discriminação e do racismo. religião e maneiras de agir. a antropologia substituiu o conceito de RAÇA (de base extremamente biologizante) pelo de ETNIA. ou ainda através de repúdio total ao outro. refletida principalmente na língua. por não haver recebido conceituação precisa]. Quais eram os pressupostos do EVOLUCIONISMO SOCIAL? Parte da ideia de que haveria uma “escala evolutiva” entre os povos.Etnia. a etnia pressupõe uma base biológica. O conceito de “raça” mostra-se impreciso uma vez que tenta determinar divisões em uma espécie que é única: o ser humano. e não uma realidade biológica. que justificou decisões políticas como invasões. poderíamos encontrar povos/culturas “mais evoluídos” e outros “menos evoluídos”. o termo é evitado por parte da antropologia atual. ou por ter se tornado tão profunda que apenas se resolve com o extermínio desse outro. podendo ser definida pó uma raça.

muito mais que científico. Lilia K. ou devemos tentar reconhecer as condições que levam aos antagonismos fundamentais que nos atormentam?” MÓDULO 5 – item 5. a estratificação da sociedade em grupos sociais de caráter racial ira sempre levar à discriminação de raça. . física e socialmente muitos povos para que não consigam reagir a situações de submissão.htm Textos complementares: LAPLANTINE. “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. indicado na bibliografia complementar desse tópico. Aprender Antropologia. e que serve como justificativa para ações que atinjam moral.Sobre a formação étnico-racial e a cultura nacional: SCHWARCZ. onde quer que os membros de diferentes raças formem um único grupo social com laços fortes.espacoacademico. mas como membro de sua classe. É um conceito social. Sabemos historicamente a dimensão destrutiva dos discursos sobre uma pretensa “pureza racial” e sabemos das imensas possibilidades de construir relações étnico-raciais mais democráticas e igualitárias. vamos ler um trecho do texto de FRANZ BOAS. nas páginas 85 e 86: “Não importa quão fraco o argumento em favor da pureza racial possa ser. Disponível em . há uma questão de poder que envolve as disputas em torno do conceito de raça.1 . Moritz. devemos pagar um preço alto na forma de luta inter-racial será melhor para nos continuar como estamos. Especialmente os capítulos de 1 a 5 da Primeira Parte. Tal como em todos os outros agrupamentos humanos bem marcados. os preconceitos e antagonismos raciais irão perder sua importância. Enquanto insistirmos numa estratificação segundo camadas raciais. Eles podem mesmo vir a desaparecer inteiramente. “Marcos para uma história do pensamento antropológico”. 1995.Relações étnico-culturais: questões sociais. preconceito e direitos.Notas sobre uma identidade mestiça e malandra.com.Percebemos que há um uso político dessas intolerâncias. o individuo não é julgado como um indivíduo. http://www.br/040/40pc_diretriz. Podemos ter uma razoável certeza de que. Concluindo esse conteúdo. MEC. Portanto. Embora as razoes biológicas aduzidas possam não ser relevantes.” Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Brasília: 2004. Complexo de Zé Carioca . nas páginas 37-94. nós compreendemos seu apelo social em nossa sociedade.1 Conteúdo para a NP-2 (2º bimestre) Item 5. Texto disponível eletronicamente no endereço. SP: Brasiliense. François. Bibliografia básica: Relações étnico-culturais.

br/portal/publicacoes/rbcs_00_29/rbcs29_03. o ser humano se torna objeto de investigação científica como um dos resultados da empreitada colonialista da Europa. pois antes disso as explicações religiosas sobre as diferentes sociedades. considerando a história da humanidade. . Portanto. a imposição de leis que colocam um povo vencido em condições desfavoráveis perante o conquistador. O objetivo é analisar o preconceito como uma forma de desrespeito aos direitos dos povos e suas culturas. a partir de 1492 quando a Europa passou a navegar por todo o globo. bastavam a todos. o extermínio de inimigos que oferecessem “resistência” para ser conquistado. como acontecem atualmente. ou fruto da vontade divina. foram elementos responsáveis pela crescente aproximação de culturas. que colocavam o vencedor como aquele que estabelece as regras do “jogo” e por ser “mais forte” podia utilizar qualquer recurso para manter o poder. Sempre havia sido assim na história até então. tudo era praticado sem que qualquer instituição.htm Este item aprofunda os temas relacionados à diversidade cultural e as relações entre grupos com culturas diferentes. não sendo pensadas como algo sobre o qual fosse preciso refletir e explicar. As guerras e conquistas. mesmo a Igreja. O “evolucionismo social”. apesar da conquista de direitos pelos cidadãos europeus e norte-americanos. que viviam em democracias recémcriadas. os interesses relacionados à conquista de territórios coloniais. questionasse os métodos e consequências desumanas desse sistema.anpocs. Não existe um único motivo. mas uma série de razões relacionadas a isto. devido a condições históricas. antes do evento colonialista. Do ponto de vista das práticas dos navegantes e governos europeus. as diferenças culturais eram tomadas como algo “natural”. os Estados nacionais. até o século XIX os europeus consideravam muito natural dominar e submeter outros povos. Entretanto. as Navegações fizeram parte do ambiente intelectual que deu surgimento às ciências da sociedade dois séculos mais tarde – as Grandes Navegações ocorrem no século XVI e o surgimento de uma filosofia social no século XVIII.org. com a publicação dos primeiros trabalhos científicos no século XIX. A escravidão. A diversidade étnica e o contato cultural O contato entre diferentes culturas sempre existiu. ou ainda estabelecimento de comércio com povos extra-europeus. Da perspectiva científica. esse contato não promoveu qualquer tipo de preocupação política ou intelectual até o momento conhecido como “Grandes Navegações”. Evolucionismo social e poder: No século XIX. Por isso.http://www. ou “darwinismo social” dominava as explicações científicas sobre a diversidade cultural. Ou seja. os povos de países onde o capitalismo não produzira a mesma riqueza permaneciam à margem desse processo.

egípcios). A busca de “progresso” é algo típico das sociedades do capitalismo-industrial. China e povos orientais em geral. e não existe superioridade racial/étnica que possa ser defendida sob nenhuma base científica. de qualquer perspectiva que se abordasse a questão. ou ainda por povos . Na antropologia cresce a produção de conhecimento que demonstrava os erros do evolucionismo social e de qualquer pensamento que classificasse os povos como “atrasados” ou “evoluídos”. A esse tipo de prática chamamos “eurocentrismo”. etc. Franz BOAS nos Estados Unidos. sendo muito “cômodo” criar uma teoria onde seu próprio povo era considerado centro do mundo. escolas. por isso dominava grande parte do mundo. Antes disso tudo. houveram grandes impérios mantidos por povos do Mediterrâneo (romanos. família e parentesco. chamados de “povos bárbaros”. a teoria do evolucionismo social foi criada e reproduzida pelo mesmo povo que detinha o poder dominador sobre os outros. Agora são os norte-americanos. e LÉVI-STRAUSS na França são importantes autores que representam essa mudança. Quanto mais afastado do modo de vida europeu. e do tipo de suas instituições organizadoras da vida social (o tipo de Estado. por exemplo. sistema de leis.Para os europeus.) mais primitivos eram considerados. e sim como um sistema que permite aos indivíduos de um grupo se relacionar com o mundo. Em suas obras. os povos indígenas do Brasil como “preguiçosos”. A antropologia começa a defender que cada cultura segue seus próprios caminhos de transformação. A cultura não deve ser encarada apenas como uma questão de avanço técnico. era o fundamento que sustentava todo esse esquema que colocava a diversidade cultural dentro de uma escala classificatória que identificava cada povo como representante de um “momento evolutivo” diferente. e em uma escala intermediária. e uma das ex-colônias (Estados Unidos da América) terem desenvolvido o pensamento científico. eles demonstram que não existe base científica para aceitar que exista um único modelo de “avanço” cultural e que todos os povos devam segui-lo. e depois sua extensão americana se sentisse a vontade para julgar. pois naquela época o poder influenciou a produção de conhecimento. que afirmava sua superioridade cultural e histórica. e esse domínio econômico e militar passou a contar com uma justificativa científica. Índia. exército. estariam as civilizações do Oriente Médio. ou outros povos como “atrasados” em sua mentalidade geral. Esse pensamento deu margem para que a sociedade européia primeiro. a população européia era “mais evoluída” culturalmente. macedônios. A mudança histórica – relativismo cultural e direito dos povos É a partir das primeiras décadas do século XX que esse cenário de submissão cultural começa a se modificar. Assim. África e Austrália eram os “povos primitivos”. As populações nativas da América (povos pré-colombianos). Os europeus foram dominantes desde as Grandes Navegações até a II Guerra Mundial. O fato de apenas os povos europeus até aquele momento. considerando os eventos históricos que marcam seu povo.

Portanto não há nada na genética ou na geografia de qualquer povo que possa ser apontado como fator explicativo da cultura. riqueza. origem nacional ou social. através do ensino e da educação. a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros. por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva. Artigo III. à liberdade e à segurança pessoal. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. 2. Aqueles povos submetidos a um poder de fora. cor. jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa. sexo. Todo ser humano tem direito à vida. é que o preconceito contra um povo. quer se trate de um território independente. Artigo IV. idioma. pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional. É a partir do final da II Grande Guerra. se esforce. Artigo I. mas na sociedade como um todo. Ninguém será mantido em escravidão ou servidão. sem governo próprio. seja de raça. nascimento. acessado em 04/3/2011. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política. tendo sempre em mente esta Declaração. que tem início uma mudança não apenas dentro das ciências. sob tutela. ou qualquer outra condição. trecho extraído em original completo disponível em: http://www. (Documento publicado pelas Nações Unidas no Brasil. Grandes civilizações se desenvolveram na Índia e no norte da África muito antes dos europeus.onubrasil.br/documentos_direitoshumanos. são resultantes de SITUAÇÕES DE PODER. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração.php. seja por suas características genéticas ou de comportamento.org. otomanos. e.do Oriente Próximo (turcos. lembra? O que as ciências da sociedade demonstram. Artigo II. religião. desumano ou degradante. opinião política ou de outra natureza. Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel. Artigo V. com a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) e a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS em 1948. Já vimos isso anteriormente nos itens que abordaram o “determinismo biológico” e o “determinismo geográfico”. 16:00) . quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição. com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. 1. Leia a um trecho da Declaração abaixo: A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações. acabam sofrendo discriminações e violências de todo tipo. sem distinção de qualquer espécie. quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. por promover o respeito a esses direitos e liberdades. árabes) e também por orientais (chineses e japoneses).

sucesso. preconceito. Trata. antropológicas oriundas da realidade brasileira. como modelos de publicidade. começam a se manifestar publicamente para denunciar as injustiças sofridas contra as quais o restante da sociedade se omitia. heroísmo. pois juntamente com as questões de discriminação étnica. posturas e valores que . que ainda aparece também com sinônimos como “discriminação positiva” ou “ação positiva”.espacoacademico. Esse movimento rapidamente contou com o apoio de parcelas da população. Essas manifestações ocorreram em muitos países. Portanto. Ou seja. e de reconhecimento e valorização de sua história. no sentido de políticas de ações afirmativas.Entre 1954 e 1980. essas manifestações ficaram conhecidas como o movimento internacional pelos direitos civis. de políticas de reparações. Em conjunto. eles são excluídos como modelos de personagens bons e belos na televisão ou cinema. propõe à divulgação e produção de conhecimentos. de minorias políticas e assim por diante. ele. as ações afirmativas têm como objetivo modificar a mentalidade geral através de atitudes que invertam as representações negativas que predominam sobre uma etnia ou grupo social específico por sua cultura ou comportamento. discriminação e direitos. MEC. fundada em dimensões históricas. como referências de sucesso em grandes empresas e assim por diante. identidade. que apesar de brancos. alguns setores da sociedade que sofriam muito com o preconceito étnico ou outras formas de discriminação.br/040/40pc_diretriz. Esses registros são as formas preconceituosas que são reproduzidas e “ensinam” as pessoas como tratar discriminatoriamente alguns grupos. e são responsáveis por criar o termo “ação afirmativa”. Brasília: 2004 e que pode ser encontrado na íntegra no endereço eletrônico: http://www. vieram outras como os direitos femininos. isto é. cultura. publicado pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. cujo líder Martin Luther KING marca a história do século XX. religiosos. e busca combater o racismo e as discriminações que atingem particularmente os negros. entre a população católica e os protestantes. O mais conhecido desses movimentos foi o movimento negro anti-segregacionista norte-americano.htm Esse trecho traz importantes conceitos e revela uma importante questão das relações étnico-raciais no Brasil atualmente. entre outras. um trecho do documento “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana”.com. ou na África do Sul. Eles trouxeram à tona um grande debate social em torno de racismo. As pessoas atingidas negativamente se vêem excluídas de conceitos positivos como de beleza. dos homossexuais). contra o regime de apartheid. a formação de atitudes. como heróis em livros didáticos ou de literatura popular. apesar de nem todos apoiarem. entre outros. Nesta perspectiva. Abaixo. de gênero (como por exemplo. à demanda da população afrodescendente. eram progressistas e estavam unidos pelo reconhecimento dos direitos. Questões introdutórias O parecer procura oferecer uma resposta. sociais. valor moral. São ações políticas que pretendem retirar os registros negativos que a sociedade cria em torno de uma etnia ou grupo social. na área da educação. de política curricular. e foram incentivadas por diferentes questões étnicas como na Irlanda.

tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada. romperão o sistema meritocrático que agrava desigualdades e gera injustiça. culturais e econômicos. cultura e identidade dos descendentes de africanos. no pós-abolição. em escolas devidamente instaladas e equipadas. bem como para atuar como cidadãos responsáveis e participantes. além de desempenharem com qualificação uma profissão. Reconhecimento requer a adoção de políticas educacionais e de estratégias pedagógicas de valorização da diversidade. desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para os negros. é por falta de competência ou de interesse. nos diferentes níveis de ensino. descendentes de europeus. mito este que difunde a crença de que. Visa também a que tais medidas se concretizem em iniciativas de combate ao racismo e a toda sorte de discriminações. Estas condições materiais das escolas e de formação de professores são indispensáveis para uma educação de qualidade. manifestarem com autonomia. e povos indígenas. Cabe ao Estado promover e incentivar políticas de reparações. buscando-se especificamente desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira. . se os negros não atingem os mesmos patamares que os não negros. Sem a intervenção do Estado. passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10639/2003. modo de tratar as pessoas negras. assim como de todos cidadãos brasileiros. 205. a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira. materiais. políticos e educacionais sofridos sob o regime escravista. que alterou a Lei 9394/1996. no que cumpre ao disposto na Constituição Federal. gestos. dificilmente. cidadão ou profissional. povos indígenas. com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações. ou seja. de aquisição das competências e dos conhecimentos tidos como indispensáveis para continuidade nos estudos. orientados por professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimentos. É importante salientar que tais políticas têm como meta o direito dos negros se reconhecerem na cultura nacional. estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas. bem como valorização da diversidade daquilo que distingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasileira. Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais. em que todos. seus pensamentos. assim como o é o reconhecimento e valorização da história. sociais. para todos. iguais direitos para o pleno desenvolvimento de todos e de cada um. individual e coletiva. Art. dos danos psicológicos. fundados em preconceitos e manutenção de privilégios para os sempre privilegiados. sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais. Políticas de reparações voltadas para a educação dos negros devem oferecer garantias a essa população de ingresso. A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento. de manutenção de privilégios exclusivos para grupos com poder de governar e de influir na formulação de políticas. lógicas. permanência e sucesso na educação escolar. civis. que assinala o dever do Estado de garantir indistintamente. por meio da educação. de Ações Afirmativas A demanda por reparações visa a que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os descendentes de africanos negros. de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática. de Reconhecimento e Valorização. no que diz respeito à educação. Requer também que se conheça a sua história e cultura apresentadas.descendentes de africanos. entre eles os afro-brasileiros. também. de valorização do patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro. raciocínios. explicadas. bem como em virtude das políticas explícitas ou tácitas de branqueamento da população. E isto requer mudança nos discursos. de condições para alcançar todos os requisitos tendo em vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. expressarem visões de mundo próprias. como meta o direito dos negros. enquanto pessoa. valorização e afirmação de direitos. e as estatísticas o mostram sem deixar dúvidas. de asiáticos. cursarem cada um dos níveis de ensino. ao reger-se por critérios de exclusão.eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial . os postos à margem. Políticas de Reparações. entre descendentes de africanos. É necessário sublinhar que tais políticas têm. posturas. de europeus. igualmente.

brincadeiras. Políticas de reparações e de reconhecimento formarão programas de ações afirmativas. Abaixo estão algumas questões importantes para que você responda e que estão esclarecidas nos trechos em destaque no texto acima reproduzido: 1) Quais populações são alvos da preocupação sobre a condição de exclusão ou tratamento preconceituoso? 2) Qual o argumento do documento sobre a ênfase nas políticas de reparação voltadas à comunidade de afrodescendentes pelo Estado brasileiro? 3) Em que âmbitos da vida social o tratamento desigual ao negros requer mudanças para obtermos justiça e direitos iguais? 4) Como o documento define “ações afirmativas”? Essas perguntas acima devem servir como forma de auxiliar na interpretação do texto em destaque. menosprezados em virtude de seus antepassados terem sido explorados como escravos. não sejam desencorajados de prosseguir estudos. conjuntos de ações políticas dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais. piadas de mau gosto sugerindo incapacidade. Significa buscar. bem como a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. à sua descendência africana. Reconhecer exige que os estabelecimentos de ensino. leia abaixo uma das questões dissertativas do ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) realizado pelo MEC anualmente. atualizados. Discriminação Racial. palavras e atitudes que. sua cultura e história. Implica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele. tais como: a Convenção da UNESCO de 1960. direcionada ao combate ao racismo em todas as formas de ensino. de estudar questões que dizem respeito à comunidade negra. desde as formas individuais até as coletivas. Ações afirmativas atendem ao determinado pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. a textura de seus cabelos. Para compreender a importância das discussões que envolvem as relações étnico-culturais atualmente. Xenofobia e Discriminações Correlatas de 2001. isto é. expressam sentimentos de superioridade em relação aos negros. ser sensível ao sofrimento causado por tantas formas de desqualificação: apelidos depreciativos. com o objetivo de combate ao racismo e a discriminações. divulgar e respeitar os processos históricos de resistência negra desencadeados pelos africanos escravizados no Brasil e por seus descendentes na contemporaneidade. Reconhecer é também valorizar. freqüentados em sua maioria por população negra. Nos trechos em itálico e sublinhado estão destacados alguns importantes princípios das políticas de ações afirmativas traçadas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. contem com instalações e equipamentos sólidos. fazendo pouco das religiões de raiz africana. próprios de uma sociedade hierárquica e desigual. e servem apenas como fixação de aprendizado. orientadas para oferta de tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvantagens e marginalização criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. bem como a Conferência Mundial de Combate ao Racismo.Reconhecer exige que se questionem relações étnico-raciais baseadas em preconceitos que desqualificam os negros e salientam estereótipos depreciativos. Reconhecer exige a valorização e respeito às pessoas negras. atitudes e palavras que impliquem desrespeito e discriminação. . sendo capazes de corrigir posturas. no sentido de que venham a relacionar-se com respeito. velada ou explicitamente violentas. comprometidos com a educação de negros e brancos. com professores competentes no domínio dos conteúdos de ensino. compreender seus valores e lutas. ridicularizando seus traços físicos.

(valor: 5. a essência de um dos argumentos a seguir contra o sistema de cotas.ENADE 2006 – Prova de FORMAÇÃO GERAL para todos os cursos (QUESTÃO 9 – DISCURSIVA): Sobre a implantação de “políticas afirmativas” relacionadas à adoção de “sistemas de cotas” por meio de Projetos de Lei em tramitação no Congresso Nacional. no atual debate social. disse. mas que considere também a condição social dos candidatos ao ingresso. (valor: 5.0 pontos) Agora. Yvonne Maggie.Paulo – Cotidiano. identifique. 30 jun.) Ampliando ainda mais o debate sobre todas essas políticas afirmativas. PADRÃO DE RESPOSTA – ENADE 2006 QUESTÃO 9 Tema – Políticas Públicas / Políticas Afirmativas / Sistema de Cotas “raciais” a) O aluno deverá apresentar.. chamado de “Padrão resposta”.0 pontos) b) um argumento coerente utilizado por aqueles que o defendem.) Texto II “Desde a última quinta-feira. que nada mais é do que uma grade de correção para as questões dissertativas em que constam os pontos como deveriam ter sido abordados pelos estudantes para obter o valor considerado.” (Folha de S.” (Agência Estado-Brasil. 2006. 03 jul. quando um grupo de intelectuais entregou ao Congresso Nacional um manifesto contrário à adoção de cotas raciais no Brasil. 2006.. Analisando a polêmica sobre o sistema de cotas “raciais”. As duas propostas estão prontas para serem votadas na Câmara. a polêmica foi reacesa... (. mas o movimento quer que os projetos sejam retirados da pauta. leia os dois textos a seguir. a) um argumento coerente utilizado por aqueles que o criticam.) Entre os integrantes do movimento estava a professora titular de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. . vamos analisar o quadro de correção elaborado para a prova. „É preciso fazer o debate. Por isso ter vindo aqui já foi um avanço‟. (. frei David Raimundo dos Santos. num texto coerente e coeso. com adaptação.) O diretor executivo da Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes (Educafro). Texto I “Representantes do Movimento Negro Socialista entregaram ontem no Congresso um manifesto contra a votação dos projetos que propõem o estabelecimento de cotas para negros em Universidades Federais e a criação do Estatuto de Igualdade Racial. há também os que adotam a posição de que o critério para cotas nas Universidades Públicas não deva ser restritivo. acredita que hoje o quadro do país é injusto com os negros e defende a adoção do sistema de cotas.

A cota não tira direitos. é possível o acirramento da intolerância. perante a lei e em suas dimensões formais e materiais.Políticas dirigidas a grupos “raciais” estanques em nome da justiça social não eliminam o racismo e podem produzir efeito contrário. Sendo aprovado tal estatuto. Ao longo da História. dando-se respaldo legal ao conceito de “raça”. . . por exemplo. mas rediscute a distribuição dos bens escassos da nação até que a distribuição igualitária dos serviços públicos seja alcançada. somente. manteve-se a centralização política e a exclusão de grande parte da população brasileira na maioria dos direitos.O acesso à Universidade deve basear-se em um único critério: o de mérito. a essência de um dos argumentos a seguir a favor do sistema de cotas. O princípio da igualdade assume hoje um significado complexo que deve envolver o princípio da igualdade na lei.Implantar uma classificação racial oficial dos cidadãos brasileiros.Não se pode ocultar a diversidade e as especificidades sociopolíticas e culturais do povo brasileiro. . na verdade. . Além disso. . fazer uma reparação. perpetuando-se o mando sobre uma enorme massa de população. pode gerar ainda mais preconceito. .É preciso avaliar sobre que “igualdade” se está tratando quando se diz que ela está ameaçada com os projetos em questão. a principal luta é a de reivindicar propostas que incluam maiores investimentos na educação básica. favorecendo as faculdades da rede privada de ensino superior.O sistema de cotas valorizaria excessivamente a raça. o País passará a definir os direitos das pessoas com base na tonalidade da pele e a História já condenou veementemente essas tentativas.A adoção de identidades étnicas e culturais não deve ser imposta pelo Estado. . na cor da pele. Há necessidade de diferenciar a igualdade formal ( do ordenamento jurídico e da estrutura estatal) da igualdade material (igualdade de fato na vida econômica). Nesse sentido. (valor: 5. Não sendo assim. no sentido proposto. é a raça humana.Diversos dispositivos dos projetos (Lei de cotas e Estatuto da Igualdade Racial) ferem o princípio constitucional da igualdade política e jurídica. e o que existe. é preciso um fundamento razoável e um fim legítimo e não um fundamento que envolve a diferença baseada. num texto coerente e coeso. . a qualidade acadêmica pode ficar ameaçada por alunos despreparados. A autorização da inclusão de dados referentes ao quesito raça/cor em instrumentos de coleta de dados em fichas de instituições de ensino e nas de atendimento em hospitais.0 pontos) b) O aluno deverá apresentar. . há dificuldade para definir quem é negro porque no País domina a miscigenação.O acesso à Universidade Pública que não esteja unicamente vinculado ao mérito acadêmico pode provocar a falência do ensino público e gratuito. visto que todos são iguais perante a lei. É preciso.. estabelecer cotas raciais no serviço público e criar privilégios nas relações comerciais entre poder público e empresas privadas que utilizem cotas raciais na contratação de funcionários é um equívoco. então. Para se tratar desigualmente os desiguais.

Bibliografia complementar: . e os abusos ideológicos de povos dominantes que o utilizaram como justificativa histórica para subjugar e exterminar povos.Na luta por ações afirmativas e pelo Estatuto da Igualdade Racial se defende muito mais do que o aumento de vagas para o trabalho e o ensino. uma pessoa pertencente a um determinado grupo social. .0 pontos) Exercício com resposta para fixação de conteúdo. um construto em que grupos sociais se identificam e são identificados. não há diferenças de rendimento entre alunos cotistas e não-cotistas. . O QUE É CULTURA. os números revelam. 1) O conceito de etnia veio a substituir o de raça. e nunca como purismo biológico.A utilização das expressões “raça” e “racismo” pelos que defendem o sistema de cotas está relacionada ao entendimento informal. visto que a metodologia dos vestibulares acaba por beneficiar os alunos egressos das escolas particulares e dos cursinhos caros. portanto. meios de comunicação. . pp. trataram de bani-lo.pdf . defende-se um projeto político contra a opressão e a favor do respeito às diferenças. Alfredo. 2006 “A cultura em nossa sociedade”. . MÓDULO 6 6 – A cultura na sociedade atual: nacionalidade. in. BIBLIOGRAFIA BÁSICA: SANTOS. cultura popular e erudita.As Universidades Públicas no Brasil sempre operaram num velado sistema de cotas para brancos afortunados. 51-79. inclusive. meios de comunicação – 2º bimestre 6 . pois não faltam agentes sociais versados em identificar negros e discriminá-los. pois: C ) não existe base científica que comprove a validade do uso do conceito de raça. Cultura brasileira e culturas brasileiras http://www. L.ufrgs.Pesquisas revelam que. é injusta e equivocada. trata-se de um conceito político aplicado ao processo social construído sobre diferenças humanas.. J. . para as Universidades que já adotaram o sistema de cotas. SP: Brasiliense. (valor: 5.Não se pode negar a dimensão racial como uma categoria de análise das relações sociais brasileiras. A acusação de que a defesa do sistema de cotas promove a criação de grupos sociais estanques não procede. Admitir as diferenças não significa utilizá-las para inferiorizar um povo. que no quesito freqüência os cotistas estão em vantagem (são mais assíduos).A cultura na sociedade atual: nacionalidade. cultura popular e erudita.Dizer que é difícil definir quem é negro é uma hipocrisia.Sobre a cultura nacional: BOSI.br/cdrom/bosi/bosi.

As diferentes histórias de cada povo podem ser interpretadas antropologicamente. as pessoas tendem a naturalizar mais essa dimensão humana. A experiência histórica em cada uma delas determinou características particulares dentro da grande totalidade que chamamos de “cultura brasileira”. leis e tecnologia que formam uma totalidade social é que podemos perceber a CARACTERÍSTICA. na visão de mundo desse povo. O fato é que a história de qualquer grupo social interfere o tempo todo em seu presente. Entretanto. percebemos que não é possível encontrar os mesmos resultados. No Brasil. Como resultado das interferências pessoais em um dado conjunto de instituições. Portanto. é um elemento agregador que promove a intermediação das relações entre os indivíduos. estamos falando de um aspecto imaterial. . mesmo quando passa por eventos semelhantes e utiliza as mesmas convenções sociais. como resultante de um processo complexo de desenvolvimento que envolve conhecimento e condições técnicas-econômicas de implantação. Em geral. a cultura nesse caso. Portanto as culturas regionais e nacionais se referem sempre a experiências compartilhadas por uma população durante um período de tempo suficiente para deixar marcas nas relações sociais. valores morais ou formas de julgamento são o resultado de um processo histórico de nosso grupo social. no primeiro exemplo. simbólico. podemos afirmar que estamos em um mesmo momento da história de nossa espécie. cada povo em seu local específico. ou cultura nacional. como estratégias locais de sobrevivência e reprodução. e como resultado percebemos que cada grupo é único. temos a existência de regiões geográficas que definem regiões culturais diferentes. Assim. Entretanto. por exemplo. em âmbitos que envolvem nossa evolução e nossa relação com o meio ambiente. ocorre também com relação à sociedade nacional. mas não se encontram desvinculadas da história da espécie humana como um todo.DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO É muito comum que as pessoas em seu dia-a-dia não se deem conta que nossos hábitos. Mas quando observamos a passagem do tempo (= história) em dois grupos diferentes que utilizam o mesmo referencial cultural. facilmente consegue-se relacionar a nossa vida material como a tecnologia. É possível observar um grupo social a partir de sua perspectiva histórica. sendo impossível separarmos a cultura de um povo de sua história. Esta é a base do que denominamos CULTURA REGIONAL. Assim como ocorre com os regionalismos. da cultura humana. a ESPECIFICIDADE de uma cultura. regras. é o resultado das relações entre os indivíduos e seu grupo social. Isso porque. dando como certo que se trata de algo que não procede de escolhas e muito menos de formas coletivas de vivência. costumes.

a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. e a única forma de consciência disso se expressa através da necessidade pessoal em defender e preservar certos traços de comportamento e recusar outros. ou estéticos. Assim.. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. Vamos ao texto indicado para leitura na bibliografia deste módulo para esclarecer essa classificação da cultura. atrasado. as implicações políticas que possam ter. É que. Não nos damos conta disso em nosso cotidiano. utilizamos os conceitos de cultura popular. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. as academias. podemos então detalhar alguns aspectos importantes da vida cultural em nossa sociedade atualmente. esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. Nossas condições materiais de existência afetam nossas condições psíquicas e culturais. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. também marcamos essa história. advogados. Ao mesmo tempo em que cada um de nós é marcado pela história de nosso grupo social. buscando o que há de específico nelas. (. Se partirmos dessa compreensão de cultura como resultado da vida sócio-histórica dos indivíduos que atuam em um grupo. sua dinâmica e principalmente. expresso pela filosofia. e que por sua vez se associam a um conjunto de valores morais.) De fato. procurando entender a sua lógica interna. tais com a universidade. e vice-versa. com a possibilidade de reforçar certos comportamentos. notamos certos padrões de comportamento que se associam a padrões de consumo. repetindo-os e mantendo-os atuantes. Somos ao mesmo tempo resultados de uma HERANÇA cultural e produtores dessa herança para as próximas gerações. engenheiros e outras). existe a questão do pertencimento a classes sociais. Em nossa sociedade. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas.Neste âmbito é que reside a questão da relação indivíduo-sociedade.. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. ou em outras palavras. Entende-se por cultura popular as manifestações . cultura erudita e cultura de massa. a cultura popular. as ordens profissionais (de médicos. da renda como determinante das posições na hierarquia social. capazes de criar grupos de pessoas que se identificam e mantêm características e hábitos próprios. Para facilitar a compreensão desse fenômeno. ou recusando-os e enfraquecendo sua importância. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. superado. um conhecimento que supunha inferior. ou de gosto. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. José Luiz dos SANTOS explica: Comecemos por esta última indagação.

Esse tipo de programa se baseia na antiga receita do circo. mesmo sendo suas contemporâneas. e assim o inclui em um movimento. . Há empresários e técnicos. Na massa. mas não quer chamar a atenção. a televisão. J. Gosta porque todos gostam. Já a cultura popular é uma produção resultante de conhecimentos da tradição oral.L. um palco e uma audiência que espera ser entretida por um apresentador que lhes proporciona carisma. O indivíduo que faz parte da massa responde de forma imatura ao que recebe. é um fenômeno que depende da existência dos meios de comunicação de massa como o rádio. e tem uma relação mais emocional que crítica em relação ao gosto. que estão fora de suas instituições. (Santos. admiração e que lhes mostra a vida como um espetáculo. atrelados a uma empresa (editoras. que existem independentemente delas. Eles se apropriam dessa cultura através de contratos e divulgam todo tipo de produção cultural através do mercado para que as pessoas adquiram esse material. ou trabalhadores que dominam sua técnica de forma autodidata e reproduzem aprendizados que passam de geração a geração.culturais dessas classes. Quer ter personalidade. Portanto podemos falar em uma cultura popular de massas. do convívio e da informalidade. a Internet e assim por diante. Repete as opiniões alheias. grupos de comunicação) que visa lucro com os produtos culturais. pp. O treinamento normalmente é proporcionado com baixos investimentos. manifestações diferentes da cultura dominante. Não há criadores espontâneos da cultura de massa. gravadoras. Já a maior parte dos programas televisivos de auditório. artesãos. ou mesmo como estratégia de sobrevivência. E quanto à cultura de massa? Bem. mas igual. e psicológico.54-55) A conclusão é que denominamos cultura erudita toda a produção material e imaterial resultante de conhecimento intelectual e técnicos especializados. o cinema. A massa é ao mesmo tempo um fenômeno quantitativo. porque está na moda. São classificados como “de massa”. gosta porque esse consumo lhe dá status e uma boa visibilidade social. que dependem de treinamento constante e dedicação – de tempo e de investimentos financeiros. a imprensa. e uma cultura erudita de massas? Sim! Para exemplificar. pois são muitas pessoas. pois não é capaz de ter opinião própria. A cultura de massa resulta do trabalho empresarial sobre produtos e artistas tanto da cultura erudita quanto da cultura popular. normalmente são um exemplo da cultura erudita de massas. exemplifica a cultura popular de massa. produtoras. o indivíduo gosta de ser diferente. porque o mesmo conteúdo atinge um imenso número de pessoas ao mesmo tempo. São artistas. letrados. os livros que se tornam campeões de vendas. 2006.

a cultura de massa substitui necessidades até mesmo de devoção religiosa. pois perdemos a capacidade racional de crítica. sem considerarmos a influência e os propósitos da cultura de massa. o gosto sempre vai reproduzir a adesão aos mesmos tipos de produtos culturais. Agora idolatramos pessoas da mídia. cuja fama ou merecimento são passageiros e questionáveis. defendem que a cultura de massa é o “espírito” de nosso tempo. Eles circulam em meios onde o interesse está para além da atenção da mídia e da carreira bem sucedida empresarialmente. a diversão descomprometida ao envolvimento com produtos e gostos que exigem reflexão. incentivando e valorizando o comportamento padronizado. E também a cultura popular depende do envolvimento e interesse populares. o de difícil aceitação pela massa. E assim. sem receber nada de realmente original ou que não seja meramente divertido. a partir da seguinte proposta: . como dos textos indicados ou de pesquisa pessoal sobre esse conteúdo. Portanto você pode utilizar tanto os conceitos trabalhados neste módulo. O espaço que a mídia dá ao padrão é infinitamente maior que o espaço dado ao diferente. de diversão. O objetivo é fazer um exercício de sensibilização da percepção sobre os fenômenos da cultura contemporânea. Algumas escolas de estudo dos fenômenos sociais relacionadas aos meios de comunicação de massa conceituam diferentemente essa reação da população ao funcionamento da cultura de massa. Para isso você deve fazer uma redação de no mínimo dez linhas e no máximo 30 linhas. Já outros teóricos. o exótico. É um círculo vicioso: a indústria cultural é que modela o gosto da massa. que se dá através de escolas e universidades muito seletivas. de informação. Quem é que não tem nostalgia de programas e até mesmo de propagandas de sua infância? Até mesmo nossa biografia e memória afetiva dependem da exposição aos produtos dessa indústria cultural. sensibilidade ou percepção aguçada. Há os que se referem a esse comportamento como “alienado”. da homogeneização. Segundo essa escola. todos somos alienados.A cultura de massa é um importante fenômeno econômico. ou a massa é quem exige esse tipo de cultura? Uma pequena parcela de nossa sociedade tem acesso à cultura erudita. cultural e psicológico de nossa sociedade atualmente. que extrapolam os objetivos de mercado. e para isso os estimula. Assim. e sim uma característica da cultura de nossa época. A massa prefere o entretenimento. Esses tipos de cultura não pretendem se tornar produtos de sucesso. não é possível compreendermos nossa relação com a cultura em nossa sociedade. É uma referência de estilo de vida. Além de estar presente em todos os aspectos da nossa vida. E isso não é propriamente uma alienação. Essa indústria se beneficia da padronização de gosto. Os indivíduos se sentem seguros ao reproduzir o gosto da indústria cultural de massa. Este é um exercício de redação temática e reflexiva. ao participar do consumo cultural de massa.

Bibliografia básica: “Cultura e relações de poder” in SANTOS. poder e meio ambiente: FOLADORI. como ver vitrines da moda.A cultura na sociedade atual. Peça a um colega ou um professor que leia seu texto e faça uma auto-avaliação onde você considere algumas habilidades que puderam ser trabalhadas. 2006.Sobre cultura e relações de poder no Brasil: . 2. desenvolvimento e conclusões. pode ser entendida como uma forma de controle social. Pense em eventos para grandes multidões como espetáculos musicais ou esportivos. por exemplo. SP: Brasiliense. pp. pois uma minoria tem acesso ao conhecimento erudito.L.o foco na questão abordada: está colocado de forma adequada. Rio de Janeiro. n. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. mas não toda a população. 2004 . Faça uma reflexão onde você é capaz de expor ao leitor a influência da mídia e dos espetáculos de massa no comportamento dos indivíduos.br/scielo.scielo. assistir a filmes de sucesso ou ler publicações como revistas de grande tiragem e circulação. Exercício com resposta 1) Leia o trecho a seguir e escolha entre as alternativas aquela que corresponde ao pensamento expresso pelo autor: “Da mesma forma. 80-86. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. Um olhar antropológico sobre a questão ambiental. a divisão entre cultura erudita e popular mostra uma relação de poder. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. José Luiz dos. Oct. TAKS. Bibliografia complementar e endereços para pesquisas eletrônicas: . pg. está sendo repetitivo ou não. MÓDULO 7 Conteúdo para a prova NP-2 – 2º bimestre 7 . você está sendo objetivo. J. O QUE É CULTURA. Como sugestão: . v.Observe a reação das pessoas em situação de exposição a produtos da indústria cultural.poder e cultura. A ampliação de seus domínios como. Guillermo.o ritmo de seu texto: introdução ao tema. O QUE É CULTURA.” (SANTOS. 10. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. consegue abordar os aspectos mais relevantes? . Javier. 56) A) para o autor. Mana. Disponível em <http://www.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132004000200004&lng=en&nrm=iso> .Sobre o tema cultura.

alguns grupos possuem mais riqueza e por isso têm acesso a mais informação. dentro de uma sociedade leva diferentes grupos a ocuparem posições em uma hierarquia que os torna menos poderosos ou. da arte ao saber. sejam de acesso a uma maioria. Quando um Estado coloca em prática uma política de democratização cultural. Roberto. a cultura popular deve ter incentivo para não depender apenas dos interesses empresariais que querem vender mais e acabam deixando de lado verdadeiros talentos. 1981. Você tem cultura. No processo histórico de formação da sociedade capitalista. o comércio e a oferta de serviços se tornaram especialidades que dependem do domínio também da tecnologia. A indústria. ou seja. os recursos não são divididos de forma igualitária. diversão e saberes. empresas ou editoras que comercializam arte. existe uma intensa movimentação de interesses na forma como a cultura “circula” em nossa sociedade. da diversão ao saber. dando igual espaço a todas as manifestações culturais. através de produtoras. é possível afirmar que as relações de poder interferem? Sim! . Ocorre que. de todas as classes sociais. educação formal.arq. e interessa a todos. em uma sociedade de classes. Toda essa relação de poder foi colocada até agora. é necessário lembrar que a cultura está sujeita às disputas e conflitos que. podemos falar que independente de classes sociais e posições de poder. como as escolas e órgãos públicos dedicados a ela.daMATTA.pdf> Desenvolvimento do conteúdo Até aqui foi ressaltado o conceito de cultura como algo que identifica um povo. os meios de comunicação de massa devem diversificar sua programação.br/urbanismo5/artigos/artigos_mr. com bastante poder. Os indivíduos mais qualificados conseguem ocupar posições mais privilegiadas economicamente. Entretanto. Alguns grupos pressionam o Estado para que os bens culturais. na outra escala. A cultura se transformou em assunto de mercado. Rio de Janeiro. E entre diferentes culturas. Dessa perspectiva. e não uma minoria. Por isso dizemos que saber é poder.dentro de uma única sociedade que possui a mesma influência cultural. a erradicação do analfabetismo é muito importante para toda a sociedade. Disponível em <http://www. Chamamos a isso de “democratização da cultura”. como seus hábitos. Assim. aos bens culturais como um todo. Os poderes econômico e político têm um efeito direto sobre a cultura. todos fazem parte de uma mesma totalidade. sua missão deve ser a de dar apoio às várias formas de manifestação cultural: a cultura erudita deve chegar ao público que não tem dinheiro para pagar por ela. costumes e saberes. o domínio dos saberes técnicos especializados foi importante para criar noções como progresso e desenvolvimento. artigo publicado no Jornal da Embratel. Portanto.ufsc. e também em assunto institucional.

E como conseqüência disso. São lutas pela transformação da cultura. sem dúvida. Esse "para transformar" não está contemplado no conceito da Unesco. aos saberes de forma geral. colocar suas pautas e desenvolver a sua ação política. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. O assunto do livro está bastante relacionado com a nossa discussão. 84-86) Como a cultura é dinâmica. E como vamos dar poder para isso que a gente mal sabe o que é? Mas. Algumas nações mais poderosas economicamente no cenário mundial garantem mais acesso a educação. apropriação. Vamos ler um trecho do autor indicado na bibliografia para concluir esse módulo: A cultura. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. (SANTOS. Os preconceitos culturais podem marcar uma sociedade que possui diferentes etnias e grupos com culturas muito próprias em seu interior. desigualdades no plano cultural. Eu parto da definição de cultura da Unesco. Elas também influenciam mais as outras do que são por elas influenciadas. A diversidade cultural é acompanhada de diferenças de poder. mas também pode marcar as relações entre povos que ocupam mais ou menos poder. quem faz cultura tem poder. Veja a seguir: Como o livro aborda o poder da cultura? O que eu tento apresentar no livro é que a idéia de cultura nasce a partir de relações de poder. seja um poder no sentido do cidadão. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. está em constante mudança. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. é uma produção coletiva. Para aprofundar um pouco mais esse assunto. temos que compreendê-la como um processo. tento buscar mais do conceito. SP: Brasiliense. como também a história das relações entre as diferentes nações em cada época. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. entre diferentes sociedades essa mesma disputa ocorre. às crenças. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. José Luiz. Há aí controle. 2006: pgs. da cultura como o que você pode extrair desse modo de vida e dos valores para transformar. É um livro sobre a função política da cultura. eu falo do poder de quem faz cultura. Portanto podemos afirmar que há desigualdade cultural entre os povos atualmente. Cultura eu defino como um plasma invisível que a gente não consegue identificar. Não existe cultura sem relação de poder. na época do lançamento de seu livro “O Poder da Cultura”. Para transformar o quê? . É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. Eu faço uma análise da cultura a partir das dinâmicas socioculturais com esse filtro das relações de poder. por isso têm acesso a uma parte “privilegiada” da cultura. abaixo está reproduzido um trecho da entrevista com o autor Leonardo Brant. e também à arte e diversão. O QUE É CULTURA. aos valores. Sem querer contrapor essa definição. pela Editora Peirópolis. Quero dar uma perspectiva nova. como temos visto.Da mesma forma como alguns grupos conseguem o domínio econômico dentro de uma sociedade. que está relacionada aos modos de vida. da capacidade de se manifestar. A cultura seria um poder? Na verdade. Esse processo acompanha a história de uma nação.

os artistas devem ter função social ou política? Mesmo sem se dar conta. Vai te transformar e auxiliar no embate cotidiano que o ser humano tem.importante. Então como se dá a transformação da cultura em produto? Eu considero essa dimensão econômica da cultura. porque por enquanto é só um discurso. e não seja algo atrelado a questões políticas e eleitorais. Apesar disso. tradições e costumes de um povo. Não temos direito ao conhecimento existente em espaços como uma biblioteca. do espetáculo. eles estão ali. Aí a gente começa a compreender o sistema financeiro e que tem uma relação de equilíbrio entre o lado cultural e o econômico. A nação brasileira sequer sabe o que é serviço cultural. A sociedade precisa incorporar esses processos. do grupo social e da sociedade como um todo. eu transformo meu entorno e eu transformo a sociedade. se identificar. Como é esse acesso à cultura pela população? Existe o direito de conhecer as outras culturas. seja da cultura popular. (entrevista de Tatiana WUO. dentro do ambiente em que vivemos . aí teremos um sistema um pouco mais desenvolvido. para o jornal Gazeta online. Mas o mais importante é se transformar. de educação. O grande desafio com política pública no Brasil é como universalizar esses serviços. Sabe o que é serviço de saúde. Eles têm uma dimensão política que é intrínseca ao fazer cultural.html>) Concluindo. mesmo que não se faça com uma intenção específica. Nesse processo. qualquer tipo de expressão e processo que passe pela questão cultural.com/_conteudo/2010/04/629540-entrevista+++leonardo+brant+++especialista+na+area+de+politicas+culturais. mas acho que não devemos abrir mão da lei de incentivo em troca de um discurso de retomada do papel do Estado na cultura. é correto afirmar que a cultura está influenciada pelas relações de poder econômico e político? . Nesse sentido de transformações. o que você acha das leis de incentivo? Com certeza não é a melhor maneira de se realizar atividade cultural no país. na data de 25/04/2010. que tem diversas nuances.A gente desde o começo apresenta a cultura do ponto de vista do indivíduo. Para isso o Estado precisa fornecer esses tais serviços culturais. Exercício com resposta para o módulo 71) A cultura é o conjunto de idéias. nos dias de hoje a circulação da cultura está muito associada ao capital. Faz parte da estratégia dos sistemas de poder de informação não falar sobre os meandros de seu próprio sistema. existem os efeitos políticos. E aí eu falo de qualquer dinâmica cultural. sim.globo. autônomos.de um país capitalista. mesmo que você não queira olhar para eles. da arte contemporânea. saber a que veio. de tentar se reconhecer. É um assunto polêmico. mas outra coisa é a dimensão cultural da economia. Essas dimensões são convergentes. Quando a gente construir dez anos de investimentos diretos e consolidados que sejam isentos. Não devemos abrir mão dele por uma coisa que não sabemos o que é. Por isso “ter cultura” é algo que exige investimentos pessoais e sociais. Se eu me transformar. Isso acontece porque fomos alijados desse direito na formação do nosso Estado. como se dão e como a nossa relação com esses sistemas de construção do imaginário acontece. está muito subordinada a ditames de comportamento que foram dados e construídos por sistemas culturais preestabelecidos que muitas vezes a gente não se dá conta que existem. mas é a que temos. Assim como existe uma dimensão social e econômica no fazer cultural. Faz parte do processo cultural tentar explicitar um pouco mais as relações de poder. A nossa sociedade do consumo. saberes. embora muitas pessoas não queiram admitir . texto disponível em <http://gazetaonline.

“Moda e Tribos Urbanas” – blog editado por Queila Ferraz Monteiro. e que de alguma forma fazem questão de manter hábitos próprios e suas tradições. in GUERRIERO. KEMP. Sugestão de sítios da Internet: “Tribos de Brasília” – blog editado por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília: http://bsbtribos.c)Sim.). 2004. 21:12.. DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO Segundo Stuart HALL MULTICULTURAL: características sociais e problemas de governabilidade apresentados por sociedades com diferentes comunidades culturais. São Paulo: Ed. . 7ª ed.com/2006/moda-e-tribos-urbanas/.blogspot. MULTICULTURALISMO: estratégias e políticas usadas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade em sociedades multiculturais. in GOMES. pois na sociedade capitalista a cultura se transformou em bens comercializados. “Identidade cultural”. filosofia da cultura.fashionbubbles. e portanto uma minoria privilegiada economicamente tem acesso a mais bens culturais. Mércio Pereira. 205-214. acessado em 10/03/2009. Stuart. Ed.com/. 21:00. K. Olho D‟água. MÓDULO 8 8. Então preste atenção: multicultural se refere a uma sociedade que é formada por muitas etnias (=culturas) diferentes. 2003. O outro e sua subjetividade. Pp. S (Org. Rio de Janeiro: DP&A. Antropologia – ciência do homem. 2009. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR: HALL. acessado em 10/03/2009. ANTROPOS E PSIQUE. IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE. Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção em diversos cursos superiores e de pós-graduação: http://www. Identidade cultural na atualidade: multiculturalismo e tribalismo urbano – 2º bim BIBLIOGRAFIA BÁSICA: “O futuro da antropologia”. 5ª. São Paulo: Contexto.

Isso os torna multiculturais também. homossexuais. o direito à diferença. não apenas com direitos iguais. negros (ou afro-americanos).itaucultural. quem quer ser igual a quem. As sociedades multiculturais não eram comuns até a década de 80. com a ajuda de novas tecnologias. e haver uma CULTURA NACIONAL que agrega a todos indistintamente. populações latino-americanas ("hispanos" ou chicanos) e migrantes em geral se fazem presentes como atores políticos a partir da marcação de diferenças de gênero. mas que sejam igualmente valorizados como parte de uma sociedade múltipla. Mulheres. Quem é igual a quem em uma sociedade multicultural? Ou mais. Faziam parte da história de territórios colonizados. (FONTE: Itaú Cultural. a partir das garantias igualitárias. e enfrentam muitos problemas políticos para que todos se sintam INCLUÍDOS.Apesar de comporem uma mesma sociedade nacional. Portanto o debate do multiculturalismo nos leva aos conceitos de IDENTIDADE CULTURAL.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index. formam sociedades MULTICULTURAIS. programas de apoio aos grupos marginalizados. A cultura torna-se instrumento de definição de políticas de inclusão social . demandas de serviços e políticas. quem quer ser diferente e mesmo assim tratado igualmente? O Brasil e os Estados Unidos são países que desde sua criação. Enciclopédia Eletrônica. e consequentemente de DIFERENÇA CULTURAL.org. O multiculturalismo como expressão cultural da atualidade. começam a conhecer a convivência com a participação em sua população.as "políticas compensatórias" ou as "ações afirmativas" . .cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3186) Identidade versus Diferença – São conceitos inseparáveis e mutuamente determinados: não temos como perceber ou definir uma identidade cultural sem relacionar com alguma outra que é DIFERENTE dela. assim como a formação de sujeitos políticos que reivindicam. longe de uniformizar o planeta (como propalado por certas interpretações fatalistas). que eram ocupados por uma sociedade etnicamente homogênea. é uma forma de atitude política que se baseia no reforço das IDENTIDADES CULTURAIS: A globalização do capital e a circulação intensificada de informações. Atualmente. um país multicultural convive com setores que se diferenciam muito em sua forma de convivência. trazem consigo a afirmação de identidades locais e regionais. disponível em: ttp://www. ou mesmo demanda de mercado. no período colonial. Cotas paras minorias. ações anti-racistas e antidiscriminatórias são experimentadas em toda a parte. de um numero cada vez maior de etnias. culturais e étnicas. educação bilingüe. quase todos os países europeus.que tomam os mais diversos setores da vida social. Muitos países no mundo de hoje são sociedades multiculturais.

e que nas sociedades contemporâneas faz parte de uma exigência para nossos posicionamentos e atitudes. por exemplo. DESTA forma. os indivíduos passam pelos processos de socialização. Perguntas como: “Fazer isso. vestuário e adornos corporais. contudo. introjetam os valores. têm também direito a serem diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades. saberes. capazes de informar o modo como indivíduos marginalizados são posicionados e construídos em teorias sociais dominantes. A cada uma delas o sujeito avalia qual seu grau de envolvimento e como delas se aproxima. a uma “atitude pessoal”. .” O conceito de identidade cultural permite compreender os processos através dos quais os indivíduos passam a tomar como “gosto” ou “preferência pessoal” um conjunto que expressa sua subjetividade e o coloca nas relações interpessoais de forma a sentir que pertence a um coletivo. Somos o tempo todo “cobrados” a uma “opinião pessoal”. Qual seja: “As pessoas têm direito a serem iguais sempre que a diferença as tornar inferiores. entrar em contato e experimentar a totalidade desse conjunto. como intersubjetivamente. práticas sociais e agendas políticas. rituais. endoculturação. a “ter personalidade” (que no senso comum é um conceito difuso e polissêmico). Somos cobrados a “ter identidade” (também uma outra noção do senso comum bastante confusa. de qualquer cultura que seja. “Eu percebo beleza NESTA forma de aparência social?” Tais questionamentos fazem parte da capacidade de REFLEXÃO que cada um de nós possui. Para constituir uma identidade. Todos os conceitos trabalhados anteriormente nos outros módulos fazem parte dos processos de identificação. Ao entrar em contato com diferentes setores e ordens da sociedade. Boaventura de Souza Santos. Nenhum indivíduo. “Eu considero justo que as pessoas tomem ESTA tal atitude em tal situação?”. A diferença está no seguinte ponto. A cada cultura corresponde um imenso e vasto repertório de hábitos. quando cada indivíduo entende como próprio de si mesmo um conjunto de hábitos e formas de sensibilidade que foram coletivamente constituídas. técnicas. pois entende que podemos “perder” nossa identidade). “Eu me sinto bem ao pensar sobre esse assunto DESTA maneira?”. valores. um iminente sociólogo da atualidade tem uma frase que colabora de forma excepcional para a compreensão do debate sobre a identidade e o direito à diferença.Diferença. onde os elementos de sua subjetividade vão se reorganizando em função de novas experiências. cada indivíduo entra em um processo de identificação. A identidade cultural de um grupo se manifesta tanto externamente. me dá prazer?”. através de práticas coletivas próprias. ou o direito à diferença: conjunto de princípios que organizam elementos culturais e princípios de valores de inclusão e exclusão. recebem a visão de mundo de sua cultura. pode conhecer. a um “estilo pessoal”.

Mas não é exatamente assim que acontece no cotidiano das pessoas. Nesse contato. tratando os indivíduos participantes através de estratégias que geram exclusão social – o estereótipo.Bem. a sociedade tenta reprimir o processo de desenvolvimento dessas identidades. Quando há uma severa desaprovação relacionada a certa identidade social. Entretanto. existem processos de constituição de grupos com identidades que de alguma forma negam ou entram em conflito com esse padrão hegemônico. . e desde que as atitudes dos indivíduos se enquadrem dentro desse padrão aceito. e contínuo ao longo da vida de cada indivíduo. Desta forma. como através da punição moral e da vigilância através de normas e leis. a subjetividade. Para cada grupo social existem identidades que são hegemônicas. Nesse caso. o preconceito. uma opção. há como um “padrão” de comportamento social. podemos encontrar um amplo espectro de grupos que se identificam de forma bem distinta. Ser estigmatizado em função de características de comportamento ou crenças é algo que podemos encontrar em referência a diversas identidades sociais ao longo da história. cada grupo precisa se fazer contrastar dos demais. nos fazendo mais próximos ou distantes de uma ou outra forma de identidade coletiva. O estereótipo se realiza quando a sociedade cria uma imagem mental (um imaginário) falso com idéias que reduzem a identidade cultural de um certo grupo a conteúdos que pretendem denegrir. em nossa trajetória pessoal e os contatos sociais que vão se sucedendo ao longo da vida. as relações entre os vários grupos com diferentes identidades e assim por diante). que são impostos a todos os indivíduos dessa dada sociedade. diminuir a importância desse tipo de comportamento. Nas sociedades modernizadas atualmente. As identidades hegemônicas correspondem a modelos do padrão moral. seus participantes passam a receber um tratamento social desigual cuja mensagem bastante clara é: “não aceitamos sua identidade”. ou menos com cada tipo de comportamento. . A referência da diferença é o que faz a identidade. Essa identidade pode ser compreendida dentro dos seguintes processos: . ou seja. podemos nos identificar mais.processual: faz parte de um sistema complexo (pois inclui a referência dada pelo grupo. dominantes em relação a muitas outras. a identidade cultural de um ou outro grupo que crie uma identidade será aceita pela maioria que segue o modelo imposto. o estigma. É como .relacional: é “em relação” ao outro que afirmamos nossa identidade.contrastiva: para que se destaque de forma única. temos a oportunidade de obter informações ou participar de diferentes grupos que relacionam os elementos culturais de forma original e passam a construir uma “identidade própria”. Estamos falando sobre a forma como certos grupos exercem PODER sobre outros. tanto através de mecanismos de socialização. o que faz com que pareça que identidade é sempre uma questão de escolha.

mas possuem força moral sobre a maioria dos indivíduos do grupo. É uma nova forma de atuação política. São as chamadas “ações afirmativas”. pois se organiza em torno de associações lógicas questionáveis e sem contato com a realidade sobre a qual pretende afirmar qualquer coisa. Uma minoria pode ser constituída por traços básicos de uma etnia. À minoria corresponderia então grupos estatisticamente inferiores. por conseguir impor através da hegemonia um modelo padrão de identificação. Afinal. e inferiores também em termos de poder ou alcance para fazer valer a legitimidade de sua identidade coletiva. cujos traços característicos ou comportamento expresso não correspondiam ao modelo hegemônico. Num certo contexto a minoria é realmente menor estatisticamente em relação a certo universo de pessoas. psicológico ou moral dos “outros”. “rotular alguém”. Atualmente o conceito de minoria se refere a essa dimensão da posse do poder de controle sobre a moral da sociedade ou da ausência desse mesmo poder. Por que essa referência de dimensões? Minoria e maioria? Exatamente a o que elas se referem? Apenas ao número de pessoas? Entendia-se que estatisticamente. À posse do discurso sobre os direitos ou da ausência do reconhecimento social de direitos iguais. Setores da sociedade que possuem características marcantes o suficiente para que lhes seja atribuída uma identidade. ou de uma forma de orientação da sexualidade. . a maioria das pessoas correspondia às expectativas dos padrões morais que regem a conduta dentro de nossa sociedade. Ele procurava designar a existência de grupos dentro da sociedade contemporânea. Um dos traços marcantes da sociedade contemporânea tem sido exatamente esse. que foge dos padrões tradicionais e se organiza em torno de propostas de ação que gere impacto positivo. Um determinado grupo social passa a ser reconhecido como “minoria social” quando vem de alguma forma se expressar. XX. mas em outro contexto essa minoria pode representar até mesmo uma maioria estatística. Essas associações fazem a ligação entre características físicas e conteúdo mental. Um pré-conceito de fato. Os critérios que possibilitam criar essas idéias não possuem comprovação e não são demonstráveis. “Os negros são inferiores”. esclarecimento e receptividade da sociedade. ou de uma crença.comumente se diz. cuja mobilização procura gerar um debate na sociedade em termos de direitos de igualdade e reverter situações de preconceito. O termo “minorias sociais” surge a partir da década de 70 do séc. “as louras são burras”. estigma ou estereótipos. Não existe mais a noção de maioria ou minoria estatística. É um conceito sobre pessoas que é pré-estabelecido. “os pobres são ladrões” são afirmações carregadas de preconceito. Também correspondia ao termo maioria. e que se organizam em torno de reivindicações de direitos sociais. O preconceito é um julgamento estabelecido previamente a qualquer conhecimento aceitável. mesmo porque essa questão é muito relativa ao universo social ao qual esse ou aquele grupo pode estar relacionado. quando as pessoas tomam contato com a realidade do outro há uma possibilidade de se abandonar preconceitos. exigindo um tratamento que não gere exclusão social ou desigualdade de direitos aos cidadãos.

piercings. surgiu uma forma de expressão de identidades que com ele dialoga. as vezes colaborando para aumentar seu repertório. construindo uma estética própria. as pessoas que participam dessas tribos. e compartilham diferentes modos de vida. grupos de orientação sexual não heterossexual (homossexuais. Por isso utilizam um vestuário característico. O que esse fenômeno social nos mostra. eles provocam na sociedade uma reflexão sobre nossos padrões de conduta. transgêneros. Em grandes cidades do mundo todo. Eles querem exatamente mostrar essa diferença. podemos encontrar grupos que se organizam em torno de propostas de lazer. e utilizam um linguajar com gírias e termos que. é que atualmente os indivíduos procuram refletir sobre sua subjetividade e expressá-la de formas criativas e originais. formando essas “tribos” são a expressão de novas formas de sensibilidade social. Normalmente. São as chamadas “tribos urbanas”. bissexuais). principalmente grupos étnicos que em muitos lugares são oprimidos por sua condição de origem. consumo. desde o final da II Guerra Mundial. atividades de sociabilidade. “emos”. arte e que em alguns casos. experimentam novas formas de convívio social e colocam em jogo novos valores. Sem a pretensão de se tornarem dominadores. é correto associar ao conceito de: c) Multiculturalismo. Os grupos que se organizam em torno de estilos de vida. as vezes rejeitando os mecanismos que seduzem os indivíduos a participar dele. Esses grupos se constituem em torno de estilos de vida. podemos testemunhar o fenômeno da formação desse tipo de constituição de uma coletividade. “skatistas”.São chamadas minorias hoje. a atuação política se faz também presente. não consegue compreender. “moto bikers”. quem é “de fora”. Os indivíduos que fazem parte de uma “tribo urbana” não ocultam essa forma de gosto ou identidade. “metaleiros”. atividades lúdicas. “góticos”. para além do que o senso comum consegue compreender. valores e rituais que os diferenciam da sociedade em geral. implantes. travestis. se reúnem em locais que acabam sendo reconhecidos como “seu território”. . Com o crescimento do mercado capitalista de consumo. escarificação entre outros). Exercício com resposta para o item 81) Quando muitas culturas convivem dentro de uma mesma nação. Vamos citar alguns: “rappers”. Através da convivência nesses grupos. “modernos primitivos” (que praticam muitos estilos de modificação corporal como tatuagens. o senso comum considera “exagero” e reprime ou procura desmoralizar através do estigma. “jipeiros”. grupos de orientação religiosa não católica ou protestante. Ao lado das chamadas minorias sociais. e não “disfarçar” para não serem notados. e fazem questão de serem reconhecidos por ela.

PP. Nesse tipo de pesquisa.ucg. in Aprender Antropologia. Pesquisa de Campo. in GOMES. Pp. Luiz Henrique. F. 53-67. O principal. que são pessoas que lhe facilitam o trânsito. Ela veio a ser uma alternativa às chamadas “pesquisas de gabinete”. 2003. Brasiliense.1 . Ele se torna o que chamamos de “observador participante”. portanto. A partir do contato direto entre pesquisador e cultura pesquisada. pp 29-49. os contatos e debatem com o pesquisador sobre suas dúvidas a respeito do que está sendo observado. Mércio Pereira. . 2009. o cientista passa um longo período de tempo convivendo na cultura que quer conhecer. ele não chega com questionários prontos e não se preocupa com a quantidade de respostas obtidas para a mesma questão. Ele também não se limita a ser um observador.1 CONTEÚDO PARA A PROVA NP-2 – 2º bimestre 8. texto disponível em: http://www. mas passa a participar de algumas atividades com seus anfitriões. “Os pais fundadores da etnografia – Boas e Malinowski”. Desenvolvimento do conteúdo – item 8. os pressupostos sobre cultura e comportamento humano sofreram mudanças importantes. Antropologia – ciência do homem. é tentar encontrar uma perspectiva de abordagem desse outro. mas não tão distante como o do observador de laboratório. SP: Olho d´Água.1 E sobre a pesquisa antropológica? Qual sua importância para essa temática das identidades contemporâneas? A pesquisa de campo reescreveu a história da antropologia. procurando se colocar sempre que possível no lugar do outro. in ANTROPOS E PSIQUE – o outro e sua subjetividade.asp?id_secao=1731&id_unidade=1 LAPLANTINE.MÓDULO 8 – item 8. filosofia da cultura. São Paulo: Contexto.Identidade cultural na atualidade: pesquisa antropológica. que se caracteriza por manter o pesquisador distante da vida real dos indivíduos que pretende conhecer. Sua principal preocupação é obter “informantes”. PASSADOR.br/ucg/institutos/igpa/site/home/secao. Bibliografia complementar: Instituto Goiano de História e Antropologia. Ou seja. que seja imparcial. O campo da antropologia: constituição de uma ciência do homem.75-92. Bibliografia básica: “Metodologia”.

enfim todo o universo de grupos que podem estar dentro de nossa própria sociedade. administração. teses e artigos que abordam ENCONTROS COM O OUTRO. Não está “em defesa” de ninguém. o conjunto de valores. As técnicas de observação de campo da antropologia influenciaram muitos campos de estudo. e há a procura de um meio termo. marketing. quando ele pode garantir que não estará sendo etnocêntrico. O resultado é que temos hoje uma grande produção de textos. dentro de sua própria visão de mundo. Não é mesmo? por isso esse tipo de pesquisa tem como objetivo “traduzir” diferentes comportamentos. não faz para os outros. O que acontece é que. que para cada tipo de profissional podem se transformar em dados importantes. mas também procura evitar o risco de se transformar no outro. Ao mudar sua própria subjetividade. Nos campos da pedagogia. o que faz sentido para nós. o pesquisador promove uma mudança interna de valores e permite que o outro seja interpretado dentro de seu próprio conjunto de conceitos. Os relatos produzidos pelos antropólogos em campo são chamados de “etnografias”. Após a permanência em campo. nem da do outro. Muitas vezes. sem distorcê-los. muitas vezes. dominam saberes. o pesquisador se retira.Ao observar. e dentro da ética exigida. e vice-versa. depois de preparado metodologicamente. alguns grupos ou culturas inteiras. mas com objetivos específicos de suas próprias áreas de atuação e saber. farmácia. teorias. Muitos campos de atuação profissional têm se beneficiado com pesquisas que exploram os saberes. física e subjetivamente. nem de sua própria cultura. publicidade. ou qualquer outro pesquisador que utilize essa técnica de pesquisa. o pesquisador tem a oportunidade de utilizar o “olhar antropológico”. Esse distanciamento posterior é o período de reflexão sobre os dados obtidos. nutrição. Mas consegue interpretar esse outro modo de vida dentro de sua própria razão e lógica. . no qual o pesquisador consiga falar sobre o outro sem ser etnocêntrico. é necessária uma imparcialidade em seu discurso. que literalmente significa o registro escrito da experiência étnica. que passaram a produzir pesquisas semelhantes. educação física. consegue obter uma riqueza de detalhes sobre o modo de vida dos “outros” que é muito superior a outros métodos. O antropólogo. ele deve procurar a elaboração de uma interpretação que possa garantir a imparcialidade. entre outros já existe uma grande produção de pesquisas que recorrem ao método da antropologia para obter resultados qualitativos muito interessantes. como em sociedades alheias. mas também participar. Podemos com isso refletir melhor sobre as relações com a diversidade. É o mesmo que “se colocar no lugar do outro”. Assim. técnicas ou simplesmente mantêm hábitos. Como cientista.

11) A pesquisa antropológica propõe que o observador-pesquisador participe de atividades rotineiras do grupo estudado. e é denominada etnografia ou pesquisa de campo. .Exercício resolvido para o item 8. mas interpretando esse outro de forma a respeitar sua própria lógica. Esse contato com a cultura estudada tem como objetivo: d) Compreender uma cultura alheia sem a necessidade de julgá-la.