CONTEÚDO DO 1º BIMESTRE (PROVA NP-1) Módulo 1 DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO - item 1 1.

A ORIGEM HUMANA Neste conteúdo são abordados temas e idéias como: - a teoria evolucionista e a explicação da biologia para a origem e evolução do ser humano; - a colaboração da teoria antropológica sobre a visão da biologia e do evolucionismo; a antropologia defende que a explicação puramente biológica é apenas uma parte de nossa complexa evolução – o papel do comportamento cultural também foi determinante para surgimento de nossa espécie como é hoje. - a antropologia afirma que é falsa a afirmação que o ser humano é determinado pelo clima ou pela herança genética; sim, as populações se adaptam a diferentes meio ambientes para sobreviver, mas não é o meio ambiente que determina nosso comportamento; sim, cada indivíduo é resultado de uma herança genética, o que não significa que é “escravo” dessa herança.

Voltar às origens da cultura é também voltar à origem da humanidade. Ter costumes e hábitos aprendidos é um comportamento relacionado com a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. O tema possibilita uma abordagem que ressalta a importância da compreensão do ser humano como um ser bio-psico-social, ou seja, somos seres cujo comportamento é determinado ao mesmo tempo: BIO - por nossas características orgânicas (o tipo de aparelho físico que temos e como podemos utilizá-lo); PSICO - por nossas experiências pessoais racionais e afetivas de mundo e; SOCIAL - pelo meio social onde vivemos. Parece a você que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento) certos comportamentos como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos, e ainda se comunicar através desta ou daquela língua?

Pois a Antropologia, junto com outras ciências como a Arqueologia, a Paleontologia e a História, tem explorado profundamente essa questão sobre a diferença do Homem em relação ao resto do mundo animal que nos cerca. Até o momento puderam concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual BIOLOGIA e CULTURA modelaram nossos ancestrais. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico e a cultura foram responsáveis por tamanhas mudanças em nossa espécie, que hoje achamos um fato “natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”, na “lei da selva”. Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas, ou saber que alimentos são comestíveis e como devemos preparálos? Quem inventou o primeiro tipo de calçado, ou descobriu como fabricar o vidro? Enfim, como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para nossa compreensão de ser humano? Essas questões devem ser respondidas ao longo desse tema. No séc. XIX Charles Darwin (biólogo), afirmou que todas as espécies vivas resultam de uma EVOLUÇÃO ao longo do tempo. Isso significa, que se retornássemos em nosso planeta há milhões de anos atrás não encontraríamos as espécies conforme as vemos hoje. Cada ser vivo, para chegar até hoje, passou por sucessivas e pequenas transformações que possibilitaram sua sobrevivência; esse processo de mudanças orgânicas ocorre por necessidade de ADAPTAÇÃO AO MEIO. Consideremos que as condições do meio como clima, quantidade na oferta de alimentos e todas as questões relacionadas às condições ambientais, estão em constante mudança. Pois bem, as formas de vida existentes precisam acompanhar essas mudanças, estando sujeitas – segundo Darwin – a dois destinos: a) podem se adaptar e ao longo de muitas gerações apresentarem mudanças visíveis; b) não conseguem se adaptar, entrando em extinção. Quais são as espécies que conseguem se adaptar? São as que possuem alguns indivíduos do grupo dotados de características tais que o permitem sobreviver e gerar uma prole (conjunto de filhos/as) que dá continuidade a essas características. Os outros indivíduos de sua mesma espécie que não possuam tais características, não conseguindo “lutar” pela sobrevivência, têm mais chances de morrer sem deixarem descendentes. Assim, após muitas gerações, temos uma espécie que já não se parece com seu primeiro exemplar. A possibilidade da geração de uma prole com características que permitam a adaptação ao meio é, para os evolucionistas, chamada de “seleção natural” – sobrevivem apenas aqueles indivíduos com traços que os permitam a sobrevivência. Ao lado da seleção natural, as mutações aleatórias também são responsáveis pelas modificações de um organismo ao longo do tempo.

Uma das dificuldades do senso-comum em aceitar as idéias evolucionistas, está no fato que não podemos “ver” a evolução acontecendo – apesar de ela estar sempre acontecendo -, isto é, não testemunhamos alterações expressivas, pois as mudanças são muito sutis e ao longo de períodos de tempo muito longos do ponto de vista do ser humano. As alterações podem ser consideradas em intervalos de tempo não inferiores a cem ou duzentos mil anos. Portanto, muito além de qualquer evento que possamos acompanhar. Mas podemos acompanhar sim a luta pela sobrevivência e a mudança de hábitos em muitas espécies, como os pombos que povoam as cidades, mas não estão tão concentrados demograficamente nos campos. Essa espécie encontrou um ambiente ótimo nas cidades construídas pelos seres humanos, aprendendo rapidamente como obter abrigo e alimento, com a vantagem de estar livre de predadores como nas florestas e campos. Faz parte de sua evolução esse novo ambiente. Assim entendemos que a evolução biológica de todas as espécies vivas não acontece sem influencia de muitos fatores, não acontece de forma “mágica” e independente do tipo de meio e hábitos que podemos observar. Hoje em dia o darwinismo está com uma nova roupagem e temos teorias como o pós-darwinismo ou neo-darwinismo, que são conseqüência do desenvolvimento de nossa tecnologia de pesquisa, e do próprio conhecimento cujas portas foram abertas por Charles Darwin para seus sucessores.

"O APARECIMENTO DO HOMO SAPIENS- uma espécie que trabalha" O homem descende do macaco. Essa foi a afirmação polêmica de Darwin na segunda metade do séc. XIX e que dividiu opiniões na sociedade moderna. Essa polêmica permanece até hoje, pois encontrou como opositor o ponto de vista de uma prática humana muito mais antiga que a teoria da evolução: a religião. Não conhecemos nenhuma crença, em nenhuma cultura que coincida e concorde totalmente com a afirmação de Darwin. Da perspectiva das crenças, a criação da vida é atribuída a um “ser criador”, a algo externo e superior a toda a vida existente. Ao conjunto de teorias e explicações que partem desse tipo de raciocínio, denominamos “criacionismo”. Pois bem, para pensar como Darwin e a maior parte dos cientistas até hoje, esqueça suas crenças. A ciência não reconhece como possível a existência de seres superiores que tenham dado origem à vida, e muito menos entende que o ser humano é uma espécie “privilegiada” ou “superior”, seja pela capacidade de raciocínio, seja pela capacidade de criar crenças.

Para os evolucionistas, todas as espécies vivas foram surgindo das transformações de outras já existentes, dando origem a novas espécies, enquanto outras se extinguiram. Os primeiros humanos, chamados cientificamente de hominídeos, surgiram das transformações de algumas famílias de símios que fazem parte dos chimpanzés. Nossa espécie surgiu devido a mudanças biológicas e ao surgimento da cultura. Que mudanças biológicas são essas que nos diferenciam dos símios? O aumento da caixa craniana que nos dotou de um volume cerebral muitas vezes maior que o de um macaco. A postura ereta, que possibilita utilizarmos apenas os membros inferiores para nos locomover. E o surgimento do polegar opositor, que possibilita a nossa espécie da capacidade do chamado “movimento de pinça”. É a partir dessas três características básicas que desenvolvemos inúmeras outras características fascinantes como a capacidade da fala ou ainda a de fabricar instrumentos para nossa sobrevivência. Mas essas características como inteligência, fala e indústria não teriam surgido em nossos ancestrais se não fosse a presença de um tipo de comportamento que ajudou a modelar o corpo de nossos ancestrais, que é o comportamento baseado na CULTURA. Ou seja, a necessidade de comunicação, cooperação e divisão de tarefas facilitou o desenvolvimento dessas características BIOLÓGICAS. · Características biológicas: forma, funcionamento e estrutura do corpo. É a nossa anatomia, características herdadas biologicamente e que não são resultado da nossa escolha pessoal. · Características culturais: todo comportamento que não é baseado nos instintos, mas nas regras de comportamento em grupo que nos permite transformar a natureza para a sobrevivência (trabalho), e nos permite atribuir significados e sentidos ao mundo através dos símbolos (a cor branco simboliza a paz, ou o tipo de vestimenta simboliza status). Durante muito tempo pensou-se que o ser humano já teria surgido plenamente dotado dessas características em conjunto. Hoje sabemos que nossa cultura foi determinante para modelar nossas características biológicas ao longo do tempo, e vice-versa. Nossos ancestrais foram lentamente se transformando em humanos, e essa espécie que somos agora, foi aos poucos sofrendo pequenas transformações que ao longo de milhões de anos nos diferenciaram totalmente de qualquer ancestral símio. No início da história humana, nossos ancestrais eram muito semelhantes a um macaco. Tinham mais pelos pelo corpo, o cérebro era menor e a mandíbula maior. A postura não era totalmente ereta, e as mãos não tinham muita habilidade, pois o polegar ficava mais próximo dos outros dedos. O tamanho do cérebro foi aumentando muito devagar, como também a postura ereta surgiu gradualmente, e igualmente o polegar opositor não surgiu repentinamente. A cada geração, mudanças muito sutis

Essas mudanças por sua vez. Eram organizados em bandos que praticavam caça e coleta. como raspador de alimentos ou qualquer utilidade para a vida humana. que é a mesma que nos permite falar. segue um padrão estabelecido em nossa evolução para obter resultados: . e não viviam em cidades. ao invés de fabricar abrigos. por isso dependiam de deslocamentos constantes em busca de alimento. que significa mudanças ao longo do tempo. Sobreviveram lascando uma pedra na outra para conseguir objetos pontiagudos e cortantes que serviam como arma de caça. Dormiam em cavernas. determinou COMO somos hoje. mas resulta de um longo e lento processo de evolução. Nossos ancestrais não tinham a mesma caixa craniana que temos hoje. durante o qual o ser humano desenvolveu técnicas determinantes para a história de nossa espécie: a agricultura e a domesticação de animais. É importante compreender que nossa espécie não é fruto de coisas inexplicáveis. Eram mais uma espécie entre tantas outras. Durante muito tempo o domínio do fogo era um mistério. e mais que isso. A “revolução neolítica” foi um período marcante em nossa evolução. A agricultura e a domesticação de animais significaram a garantia de alimentação dos grupos humanos. e nesse período de tempo nossa forma física foi se alterando. pois possibilitou ou exigiu que nosso ancestral desenvolvesse comportamentos capazes de mudar nossa estrutura biológica. e o pouco que puderam fazer então determinou sua sobrevivência.transformaram a espécie. e não eram tão inteligentes. É nesse momento que o ser humano começa a TRABALHAR. e os únicos vestígios de comunicação encontrados são as pinturas em cavernas (arte rupestre) e pequenas estatuetas representando figuras femininas. nosso ancestral permitiu operações mais complexas e passou a utilizar uma área do cérebro. que permitiram o sedentarismo (começamos a construir abrigos e povoados ao invés de habitar em abrigos naturais). não tinham a postura totalmente ereta. são fruto de uma dura luta por parte de nossos ancestrais para sobreviver em condições pouco favoráveis e convivendo com espécies mais fortes e predadores mais bem preparados fisicamente para tal. e não mais viver da caça/coleta que o tornava dependente dos recursos nos territórios habitados. Nessa época não havia escrita. Durante quase quatro milhões de anos sobreviveram dessa forma. e nesse processo a cultura teve um papel fundamental. houve uma revolução. A introdução do trabalho como estratégia de sobrevivência. independente do sucesso na caça e coleta. portanto não comiam muitos alimentos cozidos. Um exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos. formando aldeias e também colaborou para o crescimento demográfico. Isso permitiu à nossa espécie se fixar por períodos prolongados em determinados lugares. até que no chamado período “neolítico”. Ao fabricar os chamados instrumentos de “pedra lascada”.

Grécia e China. inaugurando o sedentarismo. nossos ancestrais percorreram um longo caminho. Fixando-se em um lugar. afastando nossa espécie do comportamento instintivo e determinando essa longa e rica viagem chamada HUMANIDADE. Até hoje utilizamos essas habilidades de trabalho em grupo para viabilizar nossa existência social. divisão do trabalho e uma mente dotada de raciocínio lógico e abstrato ligado à criatividade e imaginação. divisão de grupos em parentesco. baseado nos princípios acima. maior permanência do grupo. A capacidade de dividir tarefas. e não mais em bandos. O trabalho humano se fundamenta em características básicas como comunicação e cooperação. ü e a especialização. a capacidade craniana. Tais condições permitiram aos nossos ancestrais uma organização social mais complexa baseada na SOCIEDADE. nos libertando da “lei da selva”. Mas para chegar até esse ponto. Não é possível produzir sozinho tudo que necessitamos em nossa vida. A comunicação também sofre uma revolução que foi o surgimento da ESCRITA. . conhecemos exatamente como a humanidade se desenvolveu. provavelmente. Se não tivessem desenvolvido a capacidade de trabalho. isso tudo levou a uma maior reprodução da espécie. mais segurança com as casas fabricadas. o polegar opositor e a aquisição da fala. e nenhum de nós estaria aqui hoje. Essas características são importantes uma vez que possibilita que cada um de nós realize apenas um tipo de tarefa. nenhuma dessas características nos valeria muita coisa se não tivéssemos desenvolvido um tipo de comportamento baseado em regras de convivência social. A partir da escrita e do surgimento das grandes civilizações da Antiguidade como Egito.ü a divisão de tarefas. O conjunto de tudo que o grupo social produz torna viável uma existência cultural. cooperar e se especializar permite atingir objetivos com resultados mais efetivos e também possibilita um conjunto social com melhor qualidade de vida. ü a cooperação com o grupo. Foram nossas capacidades de ORGANIZAÇÃO e COMUNICAÇÃO que definiram tal resultado. e para os quais foram determinantes: a postura ereta. nossos ancestrais não teriam tido sucesso em sua evolução. Mais alimentos disponíveis. o ser humano passa a viver em uma sociedade organizada. Ele é o resultado de um processo muito longo no tempo. Entretanto. compartilhando a condição se HUMANOS.

inacabado e sem um objetivo ou plano pré-definido.O debate das determinações biológicas e geográficas no comportamento humano.: 1) A respeito do evolucionismo e dos resultados obtidos por suas pesquisas. Reconhecer as inconsistências das teses deterministas é um importante aprendizado para valorizar a vida cultural dos povos da humanidade. podemos afirmar que: c) A busca de restos humanos pré-históricos nos obrigou a considerar a evolução da espécie humana como outro animal qualquer.1 1. Já é antiga e muito conhecida a idéia segundo a qual as diferenças de comportamento humano de uma cultura para outra. 1º bimestre Conteúdo : Conteúdo de 1º bimestre (prova NP-1) DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO . clima) onde ele se desenvolve.” Silas GUERRIERO afirma na pg. segundo essa teoria todas as espécies vivas são fruto de uma longa e lenta evolução. Ou seja. essas teses deterministas descartam a possibilidade do comportamento e valores de um povo ser proveniente de sua historia e das características humanas que giram em torno da experiência de mundo. Título : 1.item 1. indicado na bilbiografia: . Além disso.1 O debate das determinações biológicas e geográficas no comportamento humano.1 . Devemos então compreender que o processo da vida é evolutivo. Neste item serão apresentadas todas as idéias acima. por pretenderem que um povo é determinado por variáveis sobre as quais não há controle humano. e é importante para resolução dos exercícios que você perceba que esses conceitos podem ser observados em nossa vida cotidiana.Exercício resolvido para o item 1. A antropologia discorda dessas idéias.  “Como a Antropologia evidencia a importância da cultura na evolução da espécie humana – a visão do antropólogo Clifford GEERTZ. são totalmente provenientes das características biológicas de um povo (sua carga genética) ou ainda totalmente provenientes do meio ambiente (ecossistema. que denominamos de teorias deterministas. não apenas o ser humano. 24 do texto “A origem do antropos”.

Em outras palavras. que são os genes que carregamos e podem ser determinantes nos resultados de nossa reprodução. essa evolução BIOLÓGICA não foi independente de sua “parceira”. Assim. Entretanto somos portadores de genótipos. não teríamos diferenças anatômicas tão marcantes frente a nossos parentes mais próximos. mas também é portador de informações genéticas outras. que o ser humano não teve uma evolução puramente biológica para nos capacitar de inteligência e postura ereta. o ser humano é uma única espécie. que corresponde à aparência física. mas antes. na pg. cada indivíduo vai resultar de uma combinação genética de seus antepassados.R.” E Roque de Barros LARAIA. não estaríamos aqui contando essa história. a CULTURA humana. se o tivéssemos conseguido. 58 do texto “Idéia sobre a origem da cultura” no livro “CULTURA – UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO”: “A cultura desenvolveu-se. popularmente conhecida como “raças humanas”. compreendida como uma das características da espécie. por isso mesmo. Cada indivíduo possui um fenótipo. . provavelmente não teríamos sobrevivido e. Esse movimento de populações resultou em aparências distintas para cada grupo populacional. de Barros LARAIA discute se somos DETERMINADOS ou não pelo meio ambiente e pela herança genética : Da perspectiva biológica. . Vamos esclarecer alguns aspectos importantes. Somos todos partes de uma mesma família que foi dividida ao longo do tempo por sucessivas migrações. pois. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral.“Como Geertz. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. podemos afirmar que a cultura é produto do humano. formando um fenótipo próprio. Não fosse essa extraordinária capacidade de articulação e fabricação de símbolos. Um indivíduo com o fenótipo “pele clara e olhos azuis” carrega genes com essa informação. mas o humano é também produto da cultura.” A leitura desses textos desenvolve a compreensão predominante atualmente na Antropologia.

Sim. e a ciência. O determinismo biológico defendia que a herança genética seria a responsável pelo comportamento diferenciado do ser humano dentro de cada cultura. que pretendia ser complementar ao anterior e preencher as lacunas explicativas. também seria um fator DETERMINANTE para a cultura ali desenvolvida. um indiano. somadas ao fator biológico. Trata-se do determinismo geográfico. um dinamarquês. debateram sobre essa questão. Mesmo tendo sido totalmente desacreditadas pela ciência. Portanto. que defendia que a ecologia (o meio ambiente) no qual essa ou aquela população se desenvolveu. Bem. seja ele um esquimó. . à vegetação. pois nem sempre a totalidade dos herdeiros de genes “brancos” ou “negros” apresentavam comportamentos semelhantes entre si. Essa é uma afirmação resultante de um século e meio de pesquisas. ou muito frio teriam sofrido influências que. somou-se a esse equívoco científico um outro. Assim. todos os indivíduos carregam genes desses primeiros agrupamentos humanos. Acreditava-se que a cada raça correspondia uma cultura. populações de lugares com clima muito quente. é importante ressaltar que esse tipo de afirmação logo encontrou “furos”.Durante muito tempo a sociedade em geral. um japonês e assim por diante são descendentes de grupos oriundos da África. esses determinismos ainda hoje permeiam a visão de mundo do senso comum. explicariam costumes. surgiram as teorias deterministas. Multiplicavam-se os exemplos de comportamentos diferentes para pessoas da mesma “raça”. apesar de terem fenótipos diferentes. Dessa perspectiva ultrapassada. é fundamental que você conheça os pressupostos com os quais a ciência humana contemporânea trabalha. aos animais circundantes. Você mesmo deve estar se lembrando de muitos exemplos que condizem com esse esquema explicativo. Entretanto. um escocês. mentalidade. É fácil encontrarmos pessoas que atribuem ao clima. ? TODOS OS SERES HUMANOS EXISTENTES HOJE DESCENDEM DE UM ÚNICO GRUPO HUMANO ORIGINÁRIO DO CONTINENTE AFRICANO. cujo material arqueológico foi mais recentemente reforçado pelo conhecimento genético. valores e tradições. e ao fenótipo de cada população a explicação sobre “porque essas pessoas desse lugar agem de tal forma”. Não há como refutar que qualquer indivíduo humano.

que viveram praticamente isoladas umas das outras durante tempo suficiente para que fosse surgindo um tipo de “padrão” que chamamos etnia. A quantidade de melanina na pele e a dimensão do aparelho nasal foram sendo modelados para permitir nossa sobrevivência. Mas não são determinantes. NÃO EXISTE UMA DETERMINAÇÃO BIOLÓGICA / GEOGRÁFICA que sustente a explicação sobre a diversidade cultural. seja para se relacionarem uns com os outros. O que se aceita hoje é que esses são fatores importantes na relação do ser humano com o meio. Isso foi criando fenótipos próprios a cada população humana. e não apenas sobre seu legado biológico. até que ponto a essa herança biológica e essa influência do meio têm relação com a diversidade cultural? Leia novamente a questão. que foi desenvolvendo aparências distintas como resposta adaptativa ao meio. seja para sobreviver. Vamos a exemplos? Tomemos o caso da “facilidade” de indivíduos afrodescendentes para o desempenho em alguns esportes. Mas vamos refletir melhor sobre o comportamento humano. Não há dúvidas sobre a base biológica que fundamenta essa associação. Desculpe. mas vou formular a seguinte questão sem qualquer preocupação científica ou política. Mas. os grupos que migravam para esse ou aquele lugar. Portanto. há um LIMITE para tal influência. A geografia desempenhou um importante papel para a diversidade de tipos humanos? Sem dúvida! Ao longo do processo evolutivo. Como a grande família humana foi seguindo rumos diferentes.Portanto. De fato. para a qual há inúmeros exemplos é: Sim! . como o basquete ou atletismo e que é popularmente divulgado. somos uma mesma família. e nem biologia. carregavam um conjunto genético que foi se estabilizando ao longo de séculos e séculos. O que o senso comum diria a esse respeito: “Um indivíduo descendente de brancos pode se desempenhar tão bem quanto um descendente de negros nesses esportes?” A resposta óbvia. mudanças importantes ocorreram para permitir a sobrevivência de nossa espécie em diferentes meios. nem ecologia são isolados ou em conjunto a única explicação para o comportamento diferenciado do ser humano dentro de cada cultura.

Concorda? Um indivíduo descendente de brancos que se determine a ser “exemplar” no basquete ou no atletismo pode atingir esse objetivo perfeitamente. vamos considerar o que se segue. se você for analisar esse grupo e o grupo de origem. O ser humano depende de desejos. da mesma forma em todos os lugares. Basta que se dedique a aperfeiçoar o que deseja ser. Ele não necessita dos genes para ser isso ou aquilo. se não há determinismos? O ser humano é uma espécie moldável e criativa. poderá ver que existem características que os diferenciam. E a cultura é o resultado. Em cada grupo social. A diversidade cultural é inerente ao ser humano. cada grupo vai construindo um conjunto absolutamente único que é sua cultura. Daqui a algumas gerações. o resultado será sempre o mesmo: uma cultura própria. precisa se dedicar mais para atingir igual resultado. mas acima de tudo está a determinação. a cada momento. quanto mais o tempo passa. Isso para qualquer coisa que você possa pensar. Portadores das marcas da história. Os genes podem ser facilitadores para certas coisas. . O que ocorre é que um indivíduo com facilidades genéticas chega ao mesmo resultado com mais facilidades. Onde quer que se forme um grupo social. Aquele que tem a genética “contra si”. os desejos e o investimento social que cada indivíduo pode dispor para desenvolver certas características de seu comportamento. das experiências coletivamente vividas. as respostas às necessidades e a qualidade dos vínculos sociais resultam de uma história que é única àquele grupo. das soluções criadas. estímulos e condições para chegar a objetivos. Qualquer coletividade está sujeita a um destino próprio. O que explica a diversidade cultural. e não fatores determinantes. com características ambientais muitos semelhantes às quais estão acostumados. Vamos supor que você tome uma parcela da população norte-americana de hoje e os coloque para viver durante um longo período de tempo em um outro local. E assim se dá. A genética e a geografia são elementos na relação do homem com o meio. dessa experiência de vida que não se repete exatamente com os mesmos eventos.Entretanto.

Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. in LARAIA.Exercício resolvido para o tema 1.org/portal/index.Um Conceito Antropológico. “Antecedentes históricos do conceito de cultura”. SP: Brasiliense.O surgimento da cultura na humanidade. CULTURA . F.O surgimento da cultura na humanidade. pgs. Cultura. 2007. APRENDER ANTROPOLOGIA.1 . Roque de Barros. . 19ª ed. 2005. Antropologia. e não em decorrência de uma educação diferenciada. 37-62. 2. CULTURA . 17ª ed. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. 2005. “O século XVIII: a invenção do conceito de homem”. in LARAIA. Rossano Carvalho.. in LAPLANTINE. 1º bimestre Conteúdo : CONTEÚDO DO 1º BIMESTRE (PROVA NP-1) Módulo 2 2.org/portal/index.1). Bibliografia Textos básicos: “Idéia sobre a origem da cultura” (item 2).php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=64 .” Esse tipo de afirmação está corretamente associado com que se segue: A ) Determinismo biológico Título : 2.Um Conceito Antropológico.gpveritas.gpveritas.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid=63 NUNES. Rossano Carvalho.1: 1) “Um menino e uma menina agem diferentemente em função apenas de seus hormônios. Textos complementares: “A pré-história da Antropologia”. pp 30-52. Roque de Barros..O conceito de cultura através da História. “O desenvolvimento do conceito de cultura” (item 2. Sugestão de texto eletrônico disponível na Web: NUNES.

DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO . em que momento de nossa evolução o ser humano passou a viver distante da natureza e dos instintos.Objetivos: O termo “cultura” não é utilizado apenas para descrever o conjunto de conhecimentos e tradições de um povo. Mas afinal. Portanto há questões éticas envolvidas com esse conceito. e passou a depender da cultura? Ou ainda. E em cada uma das culturas humanas. que chamamos de cultura. você poderá confrontar as noções de cultura do senso-comum que remetem a hierarquias sociais de educação e formação de valores. nossa carga genética) e meio social. aquilo que nos faz rir. é dado pela nossa cultura. Compreender como isso se deu. até os símbolos que associamos a crenças. portanto todo o nosso comportamento depende de uma combinação complexa entre característica inatas (que fazem parte de nossa natureza. e esse termo pode servir para diferenciar pessoas de acordo com seu status ou ainda para afirmar a superioridade de alguns povos sobre outros. chorar ou sonhar varia imensamente. é resultado de um modelo coletivo de pensar como devemos ser? Isto significa que aprendemos a estar no mundo. incluindo planos pessoais e organização de regras de convivência. Esse “modelo” para nos comunicar e dar sentido ao que pensamos. com a visão científica que universaliza a condição cultural humana. modelou a evolução até mesmo biológica de nossa espécie. Vamos considerar que grande parte das coisas que realizamos em nosso dia-a-dia. Identificar a pesquisa antropológica como instrumento de aproximação entre diferentes universos culturais. modifica nossa ética de relação com o meio ambiente. Ao final deste tema. Poderá também identificar a importância da cultura como mediadora das relações humanas e nossa capacidade de comunicação através dos símbolos. como podemos relacionar a evolução de nossa espécie e a influencia da cultura no desenvolvimento geral da Humanidade? Somos seres culturais. . são criados de acordo com uma mentalidade coletiva comum. Nosso comportamento baseado em valores e tradições. sonhos e mensagens. Há inúmeras formas em seu uso. Desde a língua que falamos para nos comunicar.item 2 A antropologia propõe que a cultura é a base de nossa forma de encarar o mundo à nossa volta e dar formas e significados a ele. e não simplesmente somos “jogados” nele.

pois nossos ancestrais se comportavam de forma cultural.. Esse trabalho conjunto entre nosso desenvolvimento biológico e a cultura foram responsáveis por tamanhas mudanças em nossa espécie. e puderam concluir que nosso comportamento é fruto de um processo histórico no qual BIOLOGIA e CULTURA modelaram nossos ancestrais. Assim. Pelo contrario. . como surgiu a cultura? Que importância decifrar esse fato pode ter para nossa compreensão de ser humano? Uma resposta bastante simplista. explorou profundamente essa questão sobre a diferença do Homem em relação ao resto do mundo animal que nos cerca. os indivíduos cujo cérebro não era . essas características foram acentuadas. como fala e fabricação de instrumentos. por que nosso cérebro se desenvolveu de forma a permitir esse tipo de inteligência que os humanos se gabam por ter exclusividade? Essa questão foi investigada largamente por especialistas tanto das áreas de conhecimento das ciências biológicas como das ciências humanas. nossa evolução biológica teve influencia de muitos fatores. etc. . . junto com outras ciências como a Arqueologia. o ser humano nunca foi uma espécie apenas por suas habilidades orgânicas.regras de comportamento em grupo.tradições e hábitos comuns. mais necessário à sobrevivência seria ter essas capacidades. pois somos biologicamente dotados de inteligência. como capacidade de raciocínio e postura ereta. o comportamento de nossos ancestrais.ideias e crenças. e que se encontra repetida muito comumente. entre eles. que hoje achamos um fato “natural” não necessitarmos entrar na “luta pela sobrevivência”. é aquela que afirma que somos capazes de desenvolver cultura. Parece a você que todo ser humano tem como qualidade inata (que nos pertence desde o nascimento) certos comportamentos como preferir alguns tipos de roupas ou alimentos.. e ainda se comunicar através desta ou daquela língua? Pois a Antropologia. Mas.desenvolvimento de linguagens para a comunicação. de forma surpreendente. nos dotado dessa inteligência. ou saber quais alimentos são comestíveis e como devemos prepará-los? Quem inventou o primeiro tipo de calçado.desenvolvimento de tecnologia e de saberes. Conforme o aumento gradativo do cérebro[1] permitia o desenvolvimento de habilidades mais complexas. a Paleontologia e a História. Quem começou a inventar palavras para dar nomes às coisas.Mas. Nesse comportamento podemos citar: . na “lei da selva”. Pelo contrário. . Eles acabaram por definir que não houve na evolução humana apenas um fator isolado que tenha. quando o ser humano passou a se comportar de forma cultural? Segundo a antropologia. ou descobriu como fabricar o vidro? Enfim.

também aumenta a sua dependência da cultura para sobreviver. Dentro de um jogo complicado. pois tinham menores chances de sobrevivência. não deixavam descendentes. ou “culturalmente biológicos”. Escapa-se de uma armadilha. porém. Um fator (biologia) ajudou a modelar o outro (cultura). Leia aos trechos abaixo. apesar da força do argumento. Ao fabricar os chamados instrumentos de . Entretanto. entrando em outra. Fernando L. Compreender o impacto da cultura na evolução humana tem sido um desafio constante. submete.94). que somos “biologicamente culturais”. ao aumentar as chances de sobrevivência do grupo.br/puc/vera%20bussab. e vice-versa. Nas palavras de Morin (1973. R. p.vet. Há mais do que um jogo de palavras na afirmação de que o homem é naturalmente cultural. "o que ocorreu no processo de hominização foi uma aptidão natural para a cultura e a aptidão cultural para desenvolver a natureza humana". Portanto..92). Ao que tudo indica. Vera S. e da inteligência. texto disponível em: http://pet. Desse modo. de que a chave para a compreensão da natureza humana está na cultura e a chave para a da cultura está na natureza humana. a cada geração. “Biologicamente Cultural”.pdf ) Um exemplo: sabemos que o surgimento da fala tem relação com duas características que são a posição da laringe resultante da postura ereta e a utilização das mãos para trabalhos de fabricação de instrumentos.) A própria cultura é uma característica biológica Há. criatura e criador da cultura. eram fundamentais aos nossos ancestrais humanos. Nenhuma espécie envereda por um caminho destes impunemente. a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural.. um cérebro mais complexo e seu uso para desenvolver habilidades sociais. mesmo várias décadas depois. "desaba o antigo paradigma que opunha natureza e cultura" (p. O homem é a um só tempo. mais do que isso: o ser cultural do homem deve ser entendido como biológico.. ou ainda.” (BUSSAB. RIBEIRO. ainda não se foi muito adiante. Assim. aumenta muito a importância da proximidade e das relações sociais por um lado.. por outro. isso é a “seleção natural” na teoria da evolução de Darwin.desenvolvido o suficiente para adquirir fala ou fabricar instrumentos. pode-se pensar que a cultura. Ao mesmo tempo em que liberta. se diz atualmente entre muitos cientistas. que podem ser encontrados no texto que está indicado na bibliografia complementar: “O modo de vida estritamente cultural impõe uma série de exigências para seu funcionamento. (. assim que nossos ancestrais desenvolveram uma dependência da cultura para sobreviver. Então. Para começar.

Não transformamos. e adquiriu nadadeiras e cauda. pgs 40-41) Kroeber chama a cultura de “superorgânico”. em conjunto do que ganhou. a origem dos primeiros humanos ocorreu no continente africano entre 200 e 100 mil anos atrás. Existe toda uma corrente de pensadores na Antropologia. suas garras para segurar e dilacerar. Os nossos meios de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento natural. um corpo cilíndrico. Em alguns milhões de anos . ao passo que a baleia original teve de transformar-se ela mesma em barco. 2007. mais. Leia o trecho que se encontra no livro de nossa bibliográfica básica para esclarecer melhor essa questão: A baleia não é só um mamífero de sangue quente. L certo que algumas de suas partes degeneraram. Encontramos o paralelo e também o contraste na aquisição humana da mesma faculdade. uma camada de banha e a faculdade de reter a respiração. E isto quer dizer que preservamos intactos nossos corpos e faculdades de nascimento. Construímos um barco. Entretanto. ao utilizar os recursos da inteligência de forma cultural. que é a cultura. Nem precisamos absolutamente entrar na água para navegar. Mas houve um novo poder que ela adquiriu: o de percorrer indefinidamente o oceano. . esse animal perdeu suas pernas para correr. pois enquanto as outras espécies passam por modificações anatômicas ao longo do tempo para se adaptar a novas condições. por alteração gradual de pai a filho. Nós os fazemos e utilizamos. no mínimo. Cultura . inalterados com relação aos de nossos pais e dos mais remotos ancestrais. o Homem utiliza um “equipamento extra-orgânico”. pois dota a humanidade de uma flexibilidade adaptativa a tantos ambientes. as famílias humanas foram adquirindo características físicas diferentes em função tanto da necessidade de adaptação a novos meios. 21ª Ed. seu pêlo original e as orelhas externas que. que é a mesma que nos permite falar. Muita coisa perdeu a espécie. como pela combinação da carga genética de cada grupo. mas é reconhecida como o descendente remoto de animais terrestres carnívoros. Roque de Barros. olfato. Esse grupo teria começado sua imigração para fora da África entre 65 e 50 mil anos atrás.. superamos limites de nosso organismo. Frente a outros animais. Segundo uma grande quantidade de pesquisas arqueológicas. que defendem inclusive. nosso ancestral permitiu operações mais complexas e passou a utilizar uma área do cérebro. que a cultura é uma característica que torna a humanidade completamente diferente em seu curso evolutivo. que compensa a falta de expressividade de nosso organismo. que consiste na teoria científica mais aceita. o ser humano não possui capacidades anatômicas muito destacadas como velocidade. inaugurado pelo americano Alfred KROEBER. talvez. Nesse longo caminho. nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda. Explicando.Um Conceito Antropológico.“pedra lascada”. nenhuma utilidade teriam na água. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. (LARAIA. povoando os outros continentes. visão ou mesmo força física.. Foram-lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição atual.

Todo se humano. muito mais do que de efeito prático. inaugura-se a cultura. que proíbe as relações incestuosas. para ele. para Lévi-Strauss. Ele afirma inclusive. não é mais importante que o debate sobre nossa condição de existência. o momento em que o ancestral humano deixou de agir como animal e passou a agir como Homem. em qualquer sociedade evita e pune essa prática. . e sim. É uma regra de ordem moral. Para um grupo iniciado pelo francês Claude Lévi-Strauss. compreendem que esse debate sobre a evolução de nossa espécie. a notícia de que algum individuo tenha burlado essa regra. a origem da cultura humana coincide com a origem de toda nossa espécie. não há sustentação na afirmação simplista de que tenha sido apenas pela observação de problemas genéticos resultantes dessas relações que o ser humano tenha instituído essa regra. Mas uma forma muito importante de explicar nossa espécie. Sua importância. Ou seja. Esse momento teria sido a instituição da regra. É um marco simbólico. por marcar em nossa evolução. como pais e filhos. Assim. e ter atitudes inteligentes. e faz parte de nossa forma de sobrevivência. A partir do momento em que nossos ancestrais formularam essa regra. Ou seja. Segundo Lévi-Strauss. muito mais do que as considerações sobre nosso equipamento biológico. ela tem uma importância especial. dota a espécie humana de uma característica fenomenal. relações sexuais entre indivíduos relacionados por vínculos familiares muito diretos. dos instintos. Concorda? Pois bem. trata-se de uma das únicas regras que tem validade universal em nossa espécie. Então. ou memória. Lévi-Strauss afirma que o fato de possuir cultura. está no fato de ter retirado definitivamente o ser humano da esfera da natureza. que é universal ao ser humano. é importante perceber como a cultura nos moldou como seres que agem não apenas preocupados com realizações praticas de sobrevivência. entenda. que é a de ter nos distanciado dos instintos. Já outros antropólogos. não depende de época ou cultura. como agimos o tempo todo pautados em uma moral. podemos pensar que de fato. que entre todas as atitudes humanas que nos caracteriza como uma espécie cultural. Ou seja. ou tios e sobrinhos. Outros animais podem fabricar coisas. supera em qualquer condição o horror a uma prole com problemas genéticos. Ela sempre existiu.Portanto. uma tem importância especial. uma ética de mundo que nos dá consciência. O horror moral que provoca em qualquer ser humano. o foco dessa questão sobre a origem da cultura está em conseguir perceber a importância do impacto do comportamento orientado por valores e regras.

Você pode ler mais sobre isso no livro: GUERRIERO Silas (org). SP: Olho d´Água. é importante ressaltar qual a importância dessa temática sobre a evolução humana e o desenvolvimento de nossa inteligência que nos permite viver em cultura. controlarem um instinto.B. . o ser humano que se sente superior. o produto da cultura” (LARAIA. tem sido um meio ambiente que ameaça os destinos de nossa própria espécie. se sente também no direito de se apoderar. a consequência disso tem sido uma prepotência humana em relação à natureza circundante. Exercício 1) O antropólogo americano Clifford GEERTZ. O resultado. não apenas o produtor de cultura. 2005. “Antropos e Psique – o Outro e sua subjetividade”. E. vale dizer. Os animais domesticados quase sempre o conseguem. Essa afirmação faz parte do debate sobre a evolução biológica humana e o surgimento da cultura. Mas já não fazem parte da natureza. num sentido especificamente biológico. É também do modelo para realizar esse “progresso”. por ter um cérebro que permite controlar o ambiente e os recursos de nossa sobrevivência. que sofre de uma ausência de ética no relacionamento com as outras espécies vivas. são “domesticados”. destruir. Ele afirma que “isso é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. Assinale a alternativa correta: e) Propõe pensarmos a evolução biológica humana como um processo simultâneo ao desenvolvimento das habilidades culturais. situações de agressividade contra os próprios donos e assim por diante. e todos os indivíduos de sua mesma espécie.Mas é muito mais difícil um animal. 57). É isso mesmo. RJ: Jorge Zahar. seu comportamento passa a ser orientado por outras regras que não o instinto. mesmo assim. como a exposição a alimentos. Cultura. SAIBA MAIS “Origem da cultura – a ética da relação ser humano / natureza” Apesar de você não encontrar referência a isso na bibliografia indicada. aos mesmo tempo. Procure o capítulo intitulado “As origens do antropos”. Como o nome diz. afirma que o crescimento cortical humano (o córtex cerebral) foi posterior e não anterior ao surgimento da cultura. bem conhecido de todos. esgotar. manipular a natureza. e pode ser interpretada como segue. e subjuga à extinção uma grande quantidade de outras espécies. O ser humano tem uma tendência a compreender que sua própria espécie é superior a todas as outras. não se pode garantir que seu instinto não venha a aflorar em certas situações. R. O desequilíbrio provocado pelo Homem em seu meio não é consequência apenas da necessidade de avanço industrial e urbano. 2005 pg. Infelizmente. assim. Mas também. conseguindo agir de forma a negá-lo.

Em animais com capacidade cerebral mais desenvolvida. É formado por massa cinzenta e é responsável pela realização dos movimentos no corpo humano. Na frase “fulano é uma pessoa que tem muita cultura”. memória. o sentido atribuído a esse conceito é que se trata de uma coisa possível de ser acumulada e que distingue um indivíduo dos demais. com uma área de 0. “A cultura oriental é muito antiga”. o que ele recebe é processado e integrado. consciência. O córtex humano tem 2-4mm de espessura. atenção. Veja a definição da Wikipedia (http://pt. por sua vez. No Homem. Para refletir sobre a complexidade desse conceito. cognição. É a sede do entendimento. minimizando a necessidade de aumento de volume. Nesses exemplos já é possível percebermos a complexidade e a multiplicidade do uso que fazemos desse conceito. percepção. percebemos que existe uma concepção segundo qual cultura é uma questão de status e está muito relacionada com a aquisição de conhecimento letrado[1]. Então ele é um conceito científico certo? É isso mesmo. “A cultura desse lugar é muito atrasada”. da razão. emoção.1 . o córtex forma sulcos para aumentar a área de processamento neuronal. De acordo com o uso popular. . percepção e pensamento.org/wiki/C%C3%B3rtex_cerebral ): O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados. respondendo com uma ação. o desenvolvimento do córtex permitiu o desenvolver da cultura que. É constituído por cerca de 20 bilhões de neurônios. Normalmente as pessoas utilizam essa palavra em frases como: ”O brasileiro precisa valorizar mais sua própria cultura”. linguagem. foi servindo de estimulo ao desenvolvimento cortical. Conteúdo do 1º bimestre – PROVA NP-1 2. vamos começar tomando exemplos de como podemos encontrar o uso da palavra cultura em situações cotidianas. Precisamos começar a diferenciar quais são utilizações do chamado senso-comum e. O termo cultura existia muito antes da Antropologia e outras ciências humanas passarem a utilizá-lo para fazer referencia ao conjunto de hábitos que torna uma sociedade algo totalmente única e particular. como a ciência antropológica compreende e define cultura. Mas não é essa a origem da palavra.“O conceito de cultura através da história” A antropologia social tem como conceito central o conceito de CULTURA.[1] O aumento do cérebro permitiu o desenvolvimento do CÓRTEX CEREBRAL.wikipedia. se não houvesse córtex não haveria: linguagem. O córtex é o local de representações simbólicas. sendo rico em neurônios e o local do processamento neuronal mais sofisticado e distinto.22m2 (se fosse disposto num plano) e desempenha um papel central em funções complexas do cérebro como na memória. por outro lado. que parecem organizados em agrupamentos chamados microcolunas. “Fulano é uma pessoa que tem muita cultura”.

valores. há a preocupação em situar o conjunto da produção cultural e da história de nosso país. saberes. autores. ou pela chamada “educação do povo”. dando a idéia de passagem do tempo. Para compreender essa multiplicidade de usos do conceito de cultura. seja em seu desenvolvimento tecnológico. pois são mantidas ao longo do tempo. nada mais significa que o acesso a informações e à cultura letrada. autoridades em cada assunto. Normalmente as pessoas se referem ao comportamento coletivo. é importante resgatar o processo histórico que transformou seu uso. arte. tem como idéia central fazer referencia a hábitos. Nesse caso. sem a lógica do julgamento. que vão das mais “atrasadas” às mais “avançadas”. XVIII. Na frase “a cultura desse lugar é muito atrasada”. podem compreender também culturas próprias. consiga perceber que o uso popular tem formas de julgar pessoas e povos através de sua cultura. É importante ressaltar que não há maneira mais correta ou incorreta de pensar cultura nos exemplos apontados. Finalmente. É o que você poderá perceber com o texto que segue e utilizando a bibliografia indicada. na frase “a cultura oriental é muito antiga”. surge a noção que cultura é algo que se acumula e se mantém (ou se perde) ao longo do tempo. religião. existe uma nítida noção popular segundo a qual deve existir uma hierarquia entre as diferentes culturas. e somos capazes de perceber que de uma sociedade para outra mudam regras. mas é importante. Nesse caso. técnicas e todo o conjunto de valores de um povo. ou até mesmo usar preconceitos contra outros.A sociedade em geral pensa cultura como relacionada ao acesso a estudos clássicos e letrados. já outros elementos se transformam. a palavra cultura existia APENAS com o registro de “agricultura”. Elas querem expressar a existência de culturas que desenvolvem meios para que as necessidades sociais sejam mais bem solucionadas. ETIMOLOGIA DA PALAVRA CULTURA[2] * Até o séc. costumes. cultura se torna um conceito que permite fazer discriminações. mas que se acumula no conhecimento transmitido por livros. há a preocupação em pensar cultura como um conjunto de coisas (denominados “elementos da cultura”) que podem se transformar tradições. Já numa outra situação como na frase ”o brasileiro precisa valorizar mais sua própria cultura”. que você como estudante dessa disciplina. culinária e assim por diante. à qualidade da vida social. que nesse caso. Assim podemos ver que os limites políticos e geográficos que são as nações. Comparam-se assim as chamadas “culturas nacionais”. folclore. Já o uso do conceito de cultura pela Antropologia. Vamos a outro de nossos exemplos. O conhecimento letrado é aquele que não faz parte da “escola da vida”. .

“aborígenes”. Oriente Médio. hoje ela é associada a conhecimento. idéia de que um povo cultiva suas tradições * FRANÇA – (cultura = “civilization”). COMO A PARTIR DO SÉC. costumes e tradições. o contato com outros povos prepara o momento seguinte. o “mundo conhecido” pelos povos da Europa se resumia ao Norte da África. . China e Índia. com um modo de vida totalmente desconhecido para eles. Agricultura é uma habilidade em observar o desenvolvimento das espécies vegetais e aperfeiçoar as condições para o bom desenvolvimento e o cultivo em larga escala. as Américas e a Austrália traz inquietação aos europeus. quando o conceito de cultura começa a ser associado a comportamento coletivo de um povo. a palavra cultura adquire uma MULTIPLICIDADE de sentidos. o contato com outros povos). O contato com os povos nativos de outros continentes. * Os diversos comportamentos culturais humanos. * Nesse contexto. “primitivos”. utilizar. XVIII A DEFINIÇÃO DA PALAVRA CULTURA SOFRE UMA GRANDE TRANSFORMAÇÃO A partir desse momento histórico. * O contato com povos de outros continentes fora da Europa. Após isso. nesse registro demonstrariam nossa capacidade de manipular. * LEMBRE-SE: até o momento das Grandes Navegações. Como se deu essa mudança? * Revoluções anteriores – séculos XV. os países como conhecemos hoje. * A mentalidade européia passa por um impacto de profundas alterações econômicas e sociais (os lucros com as Colônias. preocupados em diferenciar pessoas/povos que cultivam a educação refinada (burguesa) * Nos sécs.* Em sua origem. Isso tudo aplicado ao UNIVERSO humano das coisas e idéias que nos cercam. e que habitam a África. pois a classe dominante precisava algum apoio ideológico para convencer diferentes povos que a partir de então eles fariam parte de uma mesma “nação”. consumir. causou espanto e dividiu as reações da população européia [3]. Veja abaixo. educação. chamados de “índios”. aperfeiçoar. na FRANÇA E ALEMANHA surgem duas diferentes definições de cultura (séculos XVIII e XIX) * ALEMANHA – (cultura = “kultur”). XVI e XVII: * RENASCIMENTO * GRANDES NAVEGAÇÕES E A ENTRADA DO “NOVO MUNDO” NO MAPA MUNDI. Além de agricultura. XVIII e XIX estavam em processo de criação os Estados nacionais. Era necessária a discussão sobre cultura. o conceito de cultura demonstra já uma relação entre HABILIDADES HUMANAS e o domínio da natureza circundante.

está bem próximo da forma como na França se desenvolveu esse conceito. a lei. É o que chamamos de evolução unilinear. a moral. no singular mesmo! Pois havia na época a convicção de que haveria uma única forma de cultura humana. cujo exemplo máximo de evolução seria aquela praticada pelos povos europeus. 4 do livro Cultura – um conceito antropológico). Como observamos. XIX sofre um profundo impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin. com a idéia de evolução multilinear (localize essas idéias no cap. em oposição ao tipo de pensamento que surge no sec. Atenção a um detalhe importante: repetindo. a arte. XIX (1871). sendo associada TAMBÉM à idéia de COMO UM POVO CULTIVA SEU COMPORTAMENTO COLETIVO. Todas as definições que antecedem e foram trabalhadas por filósofos dos séculos XVII e XVIII. Quanto aos outros povos.* Perceba como é nesse momento que a palavra cultura amplia seu significado. ou ainda “darwinismo social”. XX. Vale lembrar que o registro que o senso-comum tem hoje da palavra cultura. e as que surgem após Tylor. Perceba então que na época não se pensava no plural: “culturas humanas”. No que diz respeito ao conceito de cultura. Um paradigma é uma teoria que adquire tamanha força explicativa. O autor é Edward TYLOR que definiu cultura como "um conjunto complexo que inclui os conhecimentos. os costumes e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade". . que passa a ser utilizada para além de seu campo original. da mesma forma que existem os estágios evolutivos para cada espécie. Os primeiros registros do uso científico do conceito de cultura surgem na segunda metade do séc. Então muitos pensadores utilizam aquela idéia como fonte explicativa para suas próprias questões. Trata-se de uma teoria que defende existirem ESTÁGIOS EVOLUTIVOS para a cultura humana. assim. as crenças. representavam estágios mais atrasados e pouco importantes em relação aos povos europeus. historiadores e até filósofos daquele século. Esse tipo de pensamento se encontra em quase todos os pensadores de então. “estágios evolutivos para a cultura humana”. * Também é nesse momento que a palavra cultura passa a ser associada com DISTINÇÃO SOCIAL. dominamos e orientamos a conduta e o cultivo das relações sociais (registro alemão da palavra). você pode perceber isso? Continuando. e influenciou profundamente cientistas sociais. Pois o evolucionismo se transformou em paradigma. Apesar de sua teoria ser relativa única e exclusivamente à biologia. O séc. foi criado o chamado EVOLUCIONISMO SOCIAL. ela foi tão importante e revolucionaria que acabou criando o que chamamos nas ciências de PARADIGMA. têm em comum a tentativa de explicar a diversidade de povos e culturas. pessoas “civilizadas” e “cultas” e pessoas “atrasadas” e “incultas” (registro francês da palavra).

não apenas utilizam esse pensamento evolucionista para tratar de forma pejorativa outros povos. Como era organizada a “lógica evolutiva” da cultura.Evolução unilinear seria exatamente essa idéia de estágios evolutivos para a cultura humana. metalurgia. por exemplo. e acabam adquirindo status de verdade. um pensador americano de origem alemã. eram os chamados povos civilizados. dentro dessa concepção de uma linha única e imaginaria de desenvolvimento dos povos? Os critérios eram basicamente a presença ou ausência de quesitos como: escrita. que curiosamente estavam presentes apenas em algumas sociedades européias e que são as criadoras dessa teoria. inclusive.. que possuíam sofisticada tecnologia (lembra-se que Marco Polo trouxe a pólvora da China?). mas tinham uma “grave” falha: não desenvolveram a ciência. erros de pensamento são criados. seriam colocados nas etapas mais primitivas dessa linha imaginaria. que uma suposta “superioridade” cultural seja consequência de uma superioridade genética de alguns povos. que enxergava como uma única linha dentro da qual poderiam ser encaixados em diferentes estágios evolutivos a cultura de cada povo. não fabricavam metais. Neles parecem residir “chaves” e segredos incríveis. suas ex-colônias. Os povos indígenas brasileiros. que não possuíam escrita. Muitas pessoas até hoje. como a conhecemos em sua herança européia[4]. Surgiram termos para marcar pontos nessa linha evolutiva como: selvagens. Estado. mercado e assim por diante. menor a sua evolução cultural. Entretanto. Acredita-se. não produziam além do necessário para a subsistência. maior a evolução de uma cultura. aquele pensamento tão antigo e equivocado permanece incrivelmente presente no pensamento do senso-comum até hoje. árabes e hindus. franceses ou alemães entre outros.. A principal reação ao evolucionismo tem início com o pensamento de Franz BOAS. instituições políticas complexas. soluções de toda ordem. Isso gera a idéia de múltiplas linhas de culturas (veja que agora aparece o plural). pois os genes acabaram se tornando mitos no mundo moderno. . algumas sociedades européias. Então seguiriam os povos como os chineses. que ficou bastante conhecida como Escola Cultural Americana. Entendia-se que quanto maior o acúmulo de semelhanças com todos esses quesitos. Ele funda uma corrente de pensamento denominada PARTICULARISMO HISTÓRICO. mercado. e todos os dados de pesquisas feitas por antropólogos reforçavam cada vez mais os erros do evolucionismo social. Quanto menor a semelhança com esse tipo de aparato cultural. inferiorizando-os. tecnologia.. como os ingleses. ciência. bárbaros e civilizados. Eles eram chamados de bárbaros. pois foi divulgado de forma bastante eficiente pelas elites européias que então dominavam todos os povos dos outros continentes. Durante todo o século XX o evolucionismo continuou sendo combatido. Ele defende que cada grupo humano cria um caminho próprio de desenvolvimento. Ao associar cultura e genética. Por fim. e eram chamados de selvagens.

B. não teriam ocorrido as demais. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo. Adquirindo cultura. 2005. ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular. não perdeu seus instintos. . atividade sexual. Em decorrência da afirmação anterior. e criar um novo objeto ou uma nova técnica. um conceito antropológico. Cultura. desde o Iluminismo. Entretanto. proteção. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas. 4. Em vez de modificar para isto o seu aparato biológico. A cultura. a maneira de satisfazer às necessidades vitais é feita de acordo com a cultura. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. 2. 6. o homem modifica o seu equipamento superorgânico. determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações. Como já era do conhecimento da humanidade. o arco e a flecha etc. que colaboram para desmistificar o poder de influencia dos genes em nosso comportamento cultural. o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. (Voltaremos a este ponto mais adiante. a contribuição de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguintes pontos: 1. ou qualquer outro item que faça parte da sobrevivência de nossa espécie possui regras culturais para serem satisfeitos.Por isso é muito importante ressaltar o pensamento de antropólogos como Geertz e Kroeber. Nesse ponto. hoje consideradas modestas. Alimentação. vamos destacar alguns trechos de LARAIA (indicado na bibliografia do item) para finalizar: Resumindo. A cultura é um processo acumulativo. construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural. o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat. é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação. tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou. 48-49) Sabemos que o ser humano apesar de viver em cultura e ter se afastado de seu comportamento geneticamente determinado (= instintos). E pior do que isto. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções. 5. RJ: Jorge Zahar. mais do que a herança genética. não importa o termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional. resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. (LARAIA. pgs. R. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor. talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje. 8.) 3. horários de sono. 7. O homem age de acordo com os seus padrões culturais.

adquirindo novos sentidos. Conteúdo do 1º bimestre – PROVA NP-1 MÓDULO 3 3.A diversidade cultural. Lembre-se que as palavras são “coisas vivas” e seu uso pode mudar através do tempo. [2] Etimologia – estudo da origem e da evolução das palavras. A ANTROPOLOGIA E O ESTUDO DA CULTURA. enquanto o ser humano ao invés de desenvolver pelos. leia LAPLANTINE. Para fundamentar sua idéia. [3] Para saber mais sobre o assunto. utiliza roupas e cobertas.Exercício resolvido para o item 2. Aprender Antropologia.1 . SP. ou ganhando novas formas de emprego no vocabulário cotidiano. um conhecimento que deriva de estudos. Brasiliense. pois nossa espécie não necessitou de uma adaptação biológica aos diferentes meios. A cultura se mostrou como uma forma de adaptação ainda melhor e superior. F. [1] “Conhecimento letrado” é todo estudo que utiliza o estudo e aprofundamento de um assunto através de livros. [4] O pensamento “científico” oriental até hoje é considerado pelo mundo ocidental como carente de valores para legitimar sua racionalidade. portanto não são validados como afirmações aceitáveis dentro da metodologia cientifica. 1995. 37-53. Bibliografia Textos básicos . 3. pois possibilita a adaptação a qualquer ambiente sem necessidade da lenta adaptação genética. o autor está: D ) demonstrando que a evolução biológica do ser humano é diferente. ele cita o fato que os ursos polares desenvolveram ao longo de muitas gerações grossas camadas de pelos para sobreviver ao clima de seu meio ambiente. Ao realizar essa comparação. pgs. é uma forma de erudição. pois encontrase permeado de filosofias que por muitos ainda são consideradas “crenças”.1: 1) Alfred KROEBER afirma que existe uma diferença muito grande entre a evolução biológica dos animais e do ser humano. Etnocentrismo e relativismo cultural. “A pré historia da Antropologia”.

pois ficou comprovado que a diversidade cultural não gira apenas em torno de “povos primitivos” e “povos civilizados”.B. Hoje. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. Para explicar a grande diferença de comportamento entre esses povos e os povos europeus. Textos complementares NUNES. mas está em toda parte onde haja contato entre dois povos que cultivam costumes e valores diferentes. Por isso compreender o conceito científico de cultura é tão importante. “Cultura e Diversidade”. E recentemente. e “logia” é o estudo.gpveritas. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. O radical latino “anthropos” significa Homem (Ser Humano). 2) teorias que definem cultura como um SISTEMA COGNITIVO (teorias idealistas) . Isso ocorreu. Surge no séc.org/portal/index. mas qualquer ambiente social. ou seja diferentes culturas. a economia e a organização de um grupo social servem totalmente aos propósitos de promover essa adaptação. Rossano Carvalho. José Luiz dos. com o início da chamada “globalização”. intensificou-se num ritmo frenético. Para esses autores.org/portal/index. 2005. Pgs. 59-64. essa ciência não estuda apenas as tribos ou pequenas comunidades distantes dos centros desenvolvidos. 17ª ed.gpveritas. os nativos das Américas. O QUE É CULTURA. pp 07-20. SP: Brasiliense.php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=64 DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO – item 3 3 – A antropologia e o estudo da cultura Antropologia é uma ciência dedicada ao estudo do Homem.“Teorias modernas sobre a cultura”. Cultura. No capítulo de LARAIA. a cultura é tudo que for criado pelo ser humano para adaptar suas comunidades às suas bases biológicas (ecossistemas e território). como eram chamadas as tribos e povos não-europeus.Um Conceito Antropológico. em nossa história. Rossano Carvalho. o contato entre pessoas e organizações com diferentes referenciais de mundo. Vamos dividi-las abaixo: 1) teorias que definem cultura como um SISTEMA ADAPTATIVO. Texto disponível eletronicamente no endereço: http://www. in SANTOS. A tecnologia. XIX empenhada em aprofundar o conhecimento científico sobre as chamadas “sociedades primitivas”. a Antropologia acabou se concentrando no conceito de cultura. intitulado “Teorias Modernas sobre a cultura” há uma apresentação de duas correntes diferentes da antropologia quanto à definição do que é cultura. 2006. in LARAIA. e as mudanças culturais são consequência direta de mudanças no meio.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid=63 NUNES. Antropologia. CULTURA . R. Austrália e África..

está a importância desse debate em torno de diferentes concepções sobre cultura? . A capacidade de interpretar símbolos é a base de nosso pensamento. É a forma das coisas que as pessoas têm em sua mente. Clifford Geertz. seus modelos de percebê-las. significados e sentidos às coisas do mundo”. Por exemplo. o que o ser humano produz em termos materiais não é o mais importante. A cultura não é um fenômeno material: não consiste em coisas. e ao pensar através de palavras. criamos um símbolo que é o som da palavra cão. conjuntos de hábitos – mas sim como planos. mas a cultura é um MODELO MENTAL. O mundo é um grande código. pessoas.H. cultura é um SISTEMA DE CONHECIMENTO do mundo. uma organização de tudo isso. e organizamos o mundo em nossas mentes.“Se compreende melhor a cultura não como complexos de esquemas concretos de conduta – costumes. (1973) . regras. instruções (o que os engenheiros de computação chamam de „programas‟) e que governam a conduta”. fórmulas. É melhor. Para pensar no cão. característica fundamental e comum da humanidade de atribuir. Interessa perceber a capacidade humana em desenvolver nos domínios intelectuais o mundo que nos rodeia. Em que aspecto exatamente.” Perceba como. Para ele. usos. Assim. receitas. de forma sistemática. um conjunto de símbolos. estamos pensando simbolicamente. Mais uma frase do mesmo autor acima. todas as nossas atitudes. sejam elas de ordem prática ou de ordem afetiva seriam organizadas em nossa mente através da receita proporcionada pela nossa cultura. Para Geertz. que nos chama atenção para o fato que o pensamento simbólico é EXCLUSIVAMENTE HUMANO. crenças e formas de pensar o mundo fazem parte de nossa cultura.“Cultura é um sistema simbólico. condutas ou emoções. de relacioná-las ou de interpretá-las. o animal “cão”. Isso é o que explica a cultura humana. Tudo que a inteligência traduz em linguagem e símbolos. a “chave” para a interpretação. Geertz indica que a cultura é um conjunto de planos e receitas que GOVERNAM A NOSSA CONDUTA. Para citar algumas idéias dessa última definição que parece ser mais complicada para compreender: W. tradições. Traduzindo. Geertz. que para conseguirmos interpretar precisamos ter o “segredo”. Desenvolvendo ainda mais a mesma idéia do autor acima (Goodenough). regras. a cultura não CONSISTE EM COISAS (bens materiais). Clifford Geertz (1966) . a cultura é como um código. não existe nada no mundo que o ser humano deixe de atribuir um significado. Associamos símbolos a coisas.“A cultura de uma sociedade consiste em tudo aquilo que se conhece ou acredita para influenciar de uma maneira aceitável os seus membros. uma certa forma de interpretar o mundo. na visão desse autor.Para esses autores. racional e estruturada. um conjunto de símbolos “embaralhados” e a nossa cultura proporciona um entendimento desse mundo. Goodenough (1957) .

Para qualquer área do conhecimento, é importante compreender que trata-se de definir a condição do ser humano em relação ao restante das espécies. Os teóricos da cultura como sistema adaptativo, concebem que a cultura é uma ferramenta como qualquer outra, e que permite soluções de sobrevivência e reprodução aos membros de nossa espécie, homo sapiens sapiens. Isso a torna interessante, uma vez que “desmistifica” as capacidades humanas, e nos faz olhar para nós mesmos como seres que “batalham” pela sobrevivência como qualquer outro. Já os teóricos mais idealistas, entendem que somos seres cujo cérebro não permite outra forma de uso, a não ser para criar cultura. Nosso órgão pensante se tornou, ao longo da evolução, preparado para entender o mundo através de uma lógica simbólica. Ele nos impele a formar vínculos familiares e afetivos, pensar soluções práticas dentro de concepções culturais, nos pensar como indivíduos que compõem grupos organizados. Isso a torna interessante, pois mostra que essa característica é universal. Não há culturas que produzam indivíduos mais inteligentes ou capazes. Ambas são válidas e seus autores produziram uma grande quantidade de conhecimento através de pesquisas e teorias que aprofundaram nosso saber sobre a nossa própria espécie. Em comum o que se pode perceber nessas teorias é a tentativa de abarcar todas as realizações humanas, representadas em dois níveis complementares que são as realizações materiais e as imateriais. Entre as realizações materiais, podemos citar todo o universo de coisas fabricadas pelo ser humano, de arados até ônibus espaciais. Entre as imateriais estão nossas crenças, conhecimento, arte, idéias e todos os sentimentos. Os autores que enfatizam os aspectos materiais argumentam que eles são importantes uma vez que somos a única espécie a transformar a natureza de forma sistemática, mesmo quando não há necessidades que afetem a sobrevivência. Outros autores, entretanto, entendem que nossas maiores realizações estão contidas nos aspectos imateriais, uma vez que somos a única espécie dotada da capacidade de abstração (pensar em coisas que não estão presentes, criar, imaginar). Mas não usamos essas capacidades realizadoras de qualquer forma, e sim de acordo com regras, normas e hábitos estabelecidos coletivamente. O ponto sobre o qual parece haver muita polêmica é a visão que cada autor tem de ser humano. Aqueles que dão maior importância às nossas realizações materiais procuram ressaltar a nossa capacidade adaptativa, mostrando a cultura como sendo uma forma de solução da sobrevivência, onde grupo social, recursos e meio ambiente se combinam para determinar os hábitos de um povo. Para eles, as técnicas desenvolvidas para solucionar todos os tipos de empresa humana, que vão de uma simples pescaria às necessidades comunicativas, passando por todo tipo de engenhos que nos cercam é que definem propriamente a cultura. Aqui, podemos dizer que cultura equivale a soluções práticas para a existência humana.

Outros autores entendem que a solução prática para a vida humana é uma conseqüência de outras capacidades, que muito mais do que nos fazer capazes de fabricar instrumentos, nos faz diferentes de todas as outras espécies existentes. São as capacidades de criar, planejar, prever, avaliar, imaginar, atribuir significado e modificar a natureza não apenas por necessidade de sobrevivência, mas por necessidade de se sentir bem. Podemos denominar isto de capacidade de simbolização. Não construímos o mesmo tipo de prédio para servir a qualquer uso, para cada fim encontramos uma arquitetura. Não é apenas pelos aspectos práticos que o fazemos, mas porque cada espaço deve carregar significados que orientem os indivíduos e os faça compreender como devem se comportar. Os templos são diferentes dos teatros, as casas diferentes dos escritórios (ou pelo menos deveriam ser!). A funcionalidade de cada um desses espaços é tão importante quanto o que nos faz sentir através de suas formas e cores. As formas de nossa casa nos transmitem sensações de pensamentos diferentes de um escritório ou de um templo, através dos símbolos que criamos para cada um deles. Para os autores que defendem a preponderância desse aspecto, cultura equivale à nossa incansável capacidade intelectiva de carregar o mundo de símbolos. Resposta a necessidades práticas, ou respostas a necessidades intelectivas, a cultura é uma forma de estarmos no mundo. Ela nos orienta em cada situação da vida social, como um modelo que recebemos e sobre o qual passamos a vida operando pequenas modificações. Vamos ver mais adiante, que algumas regras presentes nas culturas podem ser modificadas, suprimidas, desgastadas; enquanto outras são mais difíceis de negociar. “É assim, e pronto”. Ou seja, há aspectos mais dinâmicos e outros mais permanentes em cada cultura. Independente da teoria sobre cultura que se utiliza, existem duas reações diferentes na forma de compararmos as culturas. A primeira, que usa a HIERARQUIA para afirmar que existem culturas mais avançadas ou evoluídas. Assim, haveria culturas que, desse ponto de vista, obtêm mais domínio técnico sobre a natureza, ou formulam mais conhecimento letrado. Faz parte do evolucionismo social, já trabalhado em nosso conteúdo anteriormente. A hierarquia entre as culturas também faz parte de uma realidade mundial que se encontra nas relações internacionais. Existem centros de poder econômico que influenciam no julgamento de culturas que se diferenciam delas. Assim, são inferiorizadas as culturas de povos dominados ou dependentes economicamente. Sim, a cultura é uma realização humana na qual as relações de poder também se faz presente. A outra, que é mais presente entre os estudiosos mais contemporâneos das culturas, que não vê sentido em hierarquizar as culturas, pois para fazer isso temos que privilegiar uma delas e tomá-la como referência. Isso faz com que todas as outras sejam subjugadas. Nessa compreensão mais contemporânea, se uma cultura não desenvolveu motores, mas garante a todos os seus membros os recursos de sobrevivência, ela é adaptada ao seu meio. Como faz para resolver isso, passa a ser irrelevante. Exercício resolvido para o item 3

1) A respeito das teorias que definem o conceito de cultura, leia as afirmativas abaixo e assinale a alternativa correta: Existe uma grande diversidade cultural na espécie humana. PORQUE Algumas sociedades possuem padrões de conduta e tecnologia atrasadas em relação às outras. c) Ambas as afirmações fazem parte dos estudos da cultura, mas atualmente a segunda não justiça a primeira. MÓDULO 3 3.1 - A diversidade cultural. Etnocentrismo e relativismo cultural. Relativismo cultural e etnocentrismo são conceitos básicos da Antropologia para a compreensão de fenômenos que envolvem CONTATO CULTURAL, ou seja, o contato entre universos culturais DIFERENTES. Esses conceitos se referem a “julgamentos” que podemos ter quando em contato com o “outro” (alguém com padrões culturais diferentes do nosso). Esses julgamentos são responsáveis pela qualidade de nosso contato com a diversidade. Quando o outro tem padrões de comportamento, hábitos e valores muito diferentes dos nossos próprios é possível reagirmos de forma positiva ou negativa a isso. Julgar positivamente ou negativamente o comportamento alheio, tem relação com as atitudes de etnocentrismo ou com o exercício de relativismo que podemos utilizar. RELATIVISMO CULTURAL É considerar o mundo DO PONTO DE VISTA DO OUTRO, entendendo seu sistema simbólico, seus próprios valores de mundo como beleza, justiça, honra, medo, e assim por diante. É deixar de tomar a NOSSA própria cultura (visão de mundo) como medida para julgar os outros. ETNOCENTRISMO O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural (isso é denominado etnocentrismo). Ao pensar de forma etnocêntrica as pessoas depreciam o comportamento daqueles que agem fora dos padrões de sua comunidade. Comportamentos etnocêntricos resultam em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas e idéias ou valores de outros sistemas culturais são vistas como absurdas. O etnocentrismo é um comportamento universal. É comum a crença de que a sua própria sociedade é o centro da humanidade. A antropologia trabalha com alguns conceitos centrais que vamos passar a aprofundar neste tópico.

Cultura, diversidade cultural, relativização e etnocentrismo serão fundamentais para compreender o debate científico e da sociedade em geral em torno do comportamento coletivo humano. O encontro com o diferente suscita reações e atitudes que se vêm vinculadas à posição de poder ou submissão das pessoas na sociedade, bem como de preconceitos e verdades pré-estabelecidas que o senso comum reproduz. A cultura não é uma RECEITA de mundo, no sentido de ser algo inquestionável, sempre inconsciente que controla rigorosamente a todos os indivíduos. Podemos recorrer a uma metáfora para facilitar a compreensão sobre a relação entre os padrões culturais que herdamos/repetimos, e nossa atuação individual: “A mente humana corresponde a um “disco rígido” (hardware), que apesar de capaz de muitas tarefas, não consegue realizar nada sem um programa (software). Esse programa é a cultura.” Vamos lembrar que um software é um programa determinado e fechado, mas que aqui em nossa metáfora, “operando” a cultura há sempre um ser humano. Somos dotados de criatividade, subjetividade, carregamos histórias pessoais e coletivas. Assim, interferimos o tempo todo no “programa” que recebemos. A cultura não é apenas um modelo, um quadro de referência, ela é uma forma de acesso às possibilidades humanas. Há uma dinâmica na relação entre cultura e sujeito, entre sujeito e história, entre indivíduo e grupo. Se pensarmos que a cada cultura corresponde uma diferente “visão de mundo”, percebemos que os indivíduos se organizam mentalmente para estar no mundo de acordo com os valores introjetados de sua cultura. Tornamos “nosso” aquilo que é cultural. Exercitando. Vamos pensar sobre os sentimentos humanos. Obviamente, nossas emoções são universais. Amor, ódio, paixão, rivalidade, raiva, afeto, ironia, alegria, euforia e tudo quanto possamos lembrar agora, fazem parte da humanidade. Entretanto, as EXPERIÊNCIAS QUE SUSCITAM este ou aquele sentimento, e a forma como expressamos o que sentimos isso é cultural. Muitas situações que fazem um brasileiro rir podem não ter o mesmo efeito em pessoas de outros povos. Ou ainda, situações como o funeral que exigem circunspecção e tristeza em algumas culturas podem exigir expressões de alegria em outras. O exercício de relativizar é se colocar na condição do outro. Pois bem, muitas vezes fazemos julgamento equivocados do comportamento alheio, simplesmente pelo fato de desconhecer as motivações que levaram a tal ou qual atitude. Quando não temos a “chave simbólica” que permite a relativização dos costumes, tendemos a nos fechar em nosso etnocentrismo. Tudo bem, precisamos relativizar, não é mesmo?

principalmente em comunidades africanas. e não a partir de valores dominantes de uma cultura alheia que se impõe sobre outras por se considerar superior. psíquica e moral do outro. Exercício resolvido para o item 3. Etnocentrismo é sempre ruim? Não! Na verdade. O etnocentrismo extremo pode levar ao genocídio e às práticas racistas / preconceituosas. não é uma atitude ruim. Mas quando a aversão ao outro é tão grande que precisamos excluí-lo. O oposto também é verdadeiro. se tornam destrutivos das relações humanas. Quando reagimos com aversão ao fato da alimentação em algumas culturas incluir pratos com animais como insetos. isso significaria. na medida em que pode servir para reforçar nossa identidade cultural e nos trazer bem estar dentro de nosso próprio padrão cultural. por exemplo. estamos atingindo um grau de etnocentrismo inaceitável. cães ou lesmas (o famoso “escargot” francês). é correto que tenhamos reações mais respeitosas e éticas com os “outros”.Sim. . preferindo um bom arroz com feijão. Em termos práticos. Percebe que deve existir um limite para a prática do relativismo? Relativizar deve ser algo estimulado socialmente. O relativismo extremo pode levar à ausência de noções éticas. mas dentro de padrões de respeito à integridade física. Quer dizer que relativizar demais pode ser perigoso? Sim! Quando apenas relativizamos tudo. assinale aquela que tem relação com o conceito de RELATIVISMO CULTURAL: Resposta do exercício 1): C) julgar uma cultura a partir de seus próprios valores e hábitos. tornar aceito como normal as mutilações dos órgãos genitais femininos praticados em algumas sociedades de cultura mulçumana. e quando praticados de forma radical. podemos correr o risco de não ter mais referencial ético de mundo. destruir seus costumes forçosamente ou mesmo agredi-lo física e moralmente. Mas tanto o relativismo cultural como o etnocentrismo podem ser encontrados em diferentes graus.1 1) Das situações abaixo. natural e aceita. estamos sendo um pouco etnocêntricos. aceitando qualquer atitude alheia como normal. todas as culturas praticam etnocentrismo de alguma forma. Isso é necessariamente ruim? Bem.

. in LARAIA. SP: Brasiliense. há um espaço para nossa individualidade.1 .. SP: Olho d´Água. José Luiz dos. a simbolização da vida social. DESENVOLVIMENTO DE CONTEÚDO . você será capaz de identificar informações e conceitos sobre a cultura que já desenvolvemos anteriormente. filosofia da cultura. “A cultura condiciona a visão de mundo do homem”. Antropologia – ciência do homem. O foco deste item é a compreensão de cultura em seus aspectos simbólicos. “A cultura interfere no plano biológico”. João C.MÓDULO 4 4. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR. São Paulo: Contexto. O QUE É CULTURA. 2009. Mércio Pereira. É importante ao final deste item que se perceba a profunda influência da cultura em todas as dimensões de nossa experiência física. 2003. 2006. texto disponível em: http://www. a participação dos indivíduos na cultura. Bibliografia Textos básicos “O que se entende por cultura” in SANTOS.htm Objetivos: ao final deste tema você deve ser capaz de identificar a importância da cultura como mediadora no processo de construção de nossa visão de mundo. “A cultura é dinâmica”. 33-51.aguaforte. “A cultura tem uma lógica própria”. Ritos Corporais entre os Nacirema. in GUERRIERO. in GOMES. Sem comunicação nossa sociedade seria mais semelhante a uma sociedade de outros animais que vivem em coletividade como abelhas. “O olhar”. CULTURA . Roque de Barros. MINER. 2005. Vamos desenvolver um pouco mais a compreensão sobre o que é símbolo. Textos complementares sugeridos: “Cultura e seus significados”. “Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura”. bem como da relação do ser humano com sua corporalidade e das noções de saúde e doença. A cultura. RIBAS. pp 21-50. Pp 87-96.item 4 Nos textos indicados.com/antropologia/nacirema. 19ª ed. 4. ANTROPOS E PSIQUE – o outro e sua subjetividade. Horace. Poderá perceber que apesar de vivermos em uma cultura que determina padrões de comportamento. simbolizar.Um Conceito Antropológico. Pp. formigas e leões. e a importância disso para a cultura? A cultura depende de nossa capacidade de comunicação. Silas (org). Pgs. emocional e intelectual no mundo.As principais características da cultura como visão de mundo: herança cultural e formas de compreender o mundo. 65-101.

não pensamos em gatos de tipos muito específicos ou em suas qualidades. quando pensamos em um gato para comunicar uma situação corriqueira envolvendo gatos. a comunicação humana é baseada na simbolização. faça com que todos os presentes entendam no que o comunicador estava pensando. “cultura é um sistema simbólico (Geertz. Temos por exemplo. valores. crenças. mágico ou místico (. Mas. vamos avançando. e faz com que seja possível a INTERPRETAÇÃO dos conteúdos comunicados. Pois bem. substitui ou sugere algo 1. mas antes um som que representa essa realidade. Apesar de existir uma imensa diversidade de tipos de gatos. Para cada coisa existente.) 2 aquilo que. Para o a antropologia atual. possui valor evocativo. racional e estruturada. Esse é um primeiro passo para entendermos o processo de simbolização. temos que recorrer a um som. uma palavra que ao ser pronunciada. característica fundamental e comum da humanidade de atribuir. Entretanto.A cultura humana tem características que diferenciam nossa forma de vida coletiva. idéias. de uma cultura para a outra esses significados variam imensamente. dependemos da utilização dos símbolos. por pura convenção. conceitos. o que é símbolo mesmo? Segundo o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” (edição de 2001): 1 aquilo que. 1973). o próprio gato.. Para expressar a cultura. o que torna necessária a compreensão do contexto cultural onde os símbolos são criados e utilizados para que nossa comunicação seja eficaz e consiga atingir seus objetivos. de forma generalizadas sobre gatos. e até aqui já deu para entender que sem símbolos. Ao entrar em contato com esse fenômeno que se chama comunicação através da Antropologia. A palavra GATO é um dos símbolos para a coisa em si.. Língua. tudo que faz parte da cultura humana é baseado em símbolos que precisam de uma convenção social para que os indivíduos associem a um mesmo significado. A simbolização pode mesmo ser tomada como sinônimo do conceito de cultura. que é também um símbolo. o ser humano cria muitos símbolos. representa ou substitui outra coisa. não conseguiríamos sequer compartilhar o que se passa em nossas mentes. significados e sentidos „às coisas do mundo‟ “. Vamos fazer um pequeno exercício para tentar aplicar todas essas definições de símbolo à nossa realidade? A palavra gato. é possível ampliarmos nossa capacidade de compreensão do outro. num contexto cultural. A cultura depende dos símbolos. Assim: . Quando pensamos em um gato e queremos comunicar essa idéia básica. de forma sistemática. Nós convencionamos que a palavra “gato” simboliza aquela espécie de felinos que encontramos na natureza e que se tornou um de nossos animais domésticos. por um principio de analogia formal ou de outra natureza.1 aquilo que. a representação da flor através dos desenhos. Então a palavra GATO não é a “coisa real” que existe na natureza. segundo Geertz.

É um símbolo. mas deixou de ser ela mesma. É uma representação “do gato em si”. 2010 . ou uma delas. Kênia Kemp. não é. pois já deixou de ser o próprio gato. e é simbolizado nessa imagem que não é tridimensional.Essa imagem fotográfica. criando assim algo que a representa. e sim bidimensional. apesar de parecer o próprio gato.

Essas duas imagens são desenhos. de Aldemir Martins. . representações artísticas do gato e.Gato amarelo e flor. 2001. portanto. ou seja.

simbólica. descrever. de significados coletivamente construídos. são valores. racional e estruturada. retiramos todas as coisas de seus contextos originais. Bondade. mesmo quando não estamos em sua presença. placas de “proibido fumar”. O artista procura sempre “representar algo”. pois a cruz simboliza um evento da figura fundadora dessa fé. mas aromas que são convencionalmente usados em bebês. Assim é que nós SIMBOLIZAMOS as experiências vividas. e tudo isso é possível porque como diz Geertz. Cada profissão elege seu símbolo. o artista procura através da forma obtida (a forma plástica. O símbolo facilita e agiliza a comunicação. e podemos pensar nelas. bem como todos os conceitos de mundo que dispomos são resultados da criação das culturas humanas. “as cores dessa bandeira simbolizam a paz e a riqueza”. ou ainda aromas de um lugar que marcaram a infância de UMA pessoa. justo/injusto. Essa é uma outra associação possível com os símbolos. A cada cultura corresponde um processo coletivo único . não existe esse tipo de julgamento. mas o ser humano atribui a umas e outras certas qualidades. na dança. Tudo na comunicação é símbolo? Sim! Os símbolos são frutos: da persistência humana de olhar para o mundo e ver significados. belo/feio. lembrar. onde ele se originou. conceituar. não é ruim senão do ponto de vista dos prejuízos que possa causar aos seres humanos. como bondade/maldade. que se expressam através de símbolos. agitado. Um céu escuro e carregado de nuvens pode simbolizar preocupações e problemas. e não da natureza. Uma catástrofe da natureza como um terremoto. Na pintura. cores e emblemas. “esse cheiro me lembra a infância”. percebido. placas de trânsito são símbolos. transmite idéias complexas e sentimentos. que não pode ser reproduzido em toda a sua riqueza e complexidade. significados e sentidos às coisas do mundo. Não está na “flor em si” ser alegre ou triste. “proibido cães” e outras regras de uso do espaço são símbolos. Os símbolos representam coisas. “o crucifixo identifica os cristãos”. idéias e pessoas que não estão presentes.também não são o gato em si. Ao utilizar um crucifixo. podemos compreender que as “coisas em si” são transportadas para a nossa mente. os times utilizam brasões. que é Cristo. coisas que não estão presentes. da rotinização de soluções racionalmente pensadas. A arte é em essência. Não existe “cheiro de infância”. “Essa flor é alegre”. e sim formas simbólicas para elas. sentido ou experimentado antes. de forma sistemática. justiça e beleza. A maior parte de nossa comunicação diária tem como finalidade narrar. Para a terra. Portanto. O correto é observarmos que na natureza não existem qualidades que são criadas pelo Homem. são formas de simbolizar experiências e sensações. a humanidade atribui. uma pessoa é identificada pelos outros como “cristão”. e através dessa comunicação simbólica podemos atribuir qualidades ao mundo. Ao fazer isso. e escolhemos alguns de seus aspectos a serem ressaltados. a sonoridade ou o movimento) criar um símbolo para algo visto. e assim por diante. na música. ou um terremoto pode ser utilizado para simbolizar alguém inquieto. Então.

por efeito da sistemática e rotina de circulação em outros meios. Portanto. o conteúdo do que é comunicado é sempre algo que precisa ser interpretado. Como os símbolos cotidianos dependem desse consenso em torno da interpretação. Não interessa muito para o senso comum ter entendimento e investigar a origem de certos símbolos. filmada. A linguagem falada é simbólica. o que acontece é que as pessoas tendem a dar o sentido mais apropriado ao seu próprio contexto. que permitem. a linguagem escrita é simbólica. incorporação e rotinização de símbolos. os símbolos comunicam não apenas o mundo exterior à nossa mente. que uma idéia expresse um acontecimento. que é o mundo que nos rodeia. sem os símbolos não haveria cultura humana. eles sejam interpretados de formas inusitadas ou até mesmo. Interpretar é dar sentido. também a linguagem gestual. ou seja. falada. nossa condição. Mas alguns símbolos. Mas garante que não tenhamos que explicar minuciosamente o tempo todo nosso uso dos conteúdos comunicativos. Claro que isso não garante eventuais desentendimentos. Isso porque ao saírem de sua cultura original. entender. descreva um sentimento ou uma paisagem. O que aprendemos sobre os símbolos. podem ir parar em lugares onde não há essa convenção sobre como ele deve ser interpretado. ou ainda a comunicação áudio-visual. mas comunicam também coisas imateriais como sentimentos. Em segundo lugar. e assim por diante. divulgação. precisamos dominar e compartilhar os mesmos símbolos. Através dos símbolos. criatividade. o que fazemos. ou com o símbolo da juventude dos anos 1960 para “paz e amor”. julgar. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. ou pelas artes. para utilizá-los da forma mais “adequada”. Para que nossa comunicação seja eficaz. Assim ocorreu com a logo marca da “Coca-Cola”. por exemplo. os chamados “erros de comunicação”. Sem tal comunicação. Hoje em dia esse fenômeno é muito comum no mundo da moda e das tendências de comportamento. nossas preferências. Ser membros da mesma cultura é uma garantia de que todos estejam interpretando de forma muito semelhante os conteúdos comunicados. conseguem ter significado para praticamente a humanidade toda. portanto a maioria dos símbolos cotidianos tem um significado apenas local. Vamos ler juntos um trecho do texto indicado na bibliografia desse item para concluir sobre a importância da capacidade de simbolização humana no estudo da cultura? Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. não realizaríamos nenhuma de nossas capacidades como raciocínio. idéias abstratas e conceitos. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma . materializamos aquilo que é interior à nossa mente.de criar símbolos. Então. Quando nos comunicamos. ou “mal entendidos”. emotividade e assim por diante. Por isso utilizamos os símbolos para comunicar quem somos. que a comunicação humana é baseada na criação. A maior parte de nossa comunicação é composta de conteúdos que se tornaram convenção social. incorretas. seja pela linguagem escrita. presente em todo o mundo como um ícone de prazer e do mercado. portanto? Primeiramente. é muito comum que quando usados em um contexto diferente do original.

Pgs. a participação dos indivíduos na cultura. preferências e reações como se fossem “naturais”. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. (SANTOS. e comunicar nossa experiência aos próximos. SP: Brasiliense. XX o quanto somos também moldados pelo meio social que nos circunda desde o nascimento.41-42) Exercício resolvido do item 4: 1) A capacidade de simbolização e criação cultural pode ser associada às seguintes afirmações: c) A simbolização e a criação da cultura nos possibilitam pensar no que não está presente. De fato. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. ao simbolizar atribuímos significados ao mundo. José Luiz dos. Entretanto. O tema da segunda parte do livro de LARAIA. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. COMO OPERA A CULTURA baseado no livro “Cultura . O QUE É CULTURA. CONTEÚDO DE 1º BIMESTRE (Prova NP-1) 4. pode ser imensamente responsável por muitos atributos individuais. Sem dúvidas a nossa “natureza” (diga-se herança genética). a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. os estudos antropológicos elucidaram ao longo de todo o séc. de Roque LARAIA 1) A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM . Muitas vezes julgamos nossas atitudes. como se assim tivéssemos nascido.1 .As principais características da cultura como visão de mundo: herança cultural e formas de compreender o mundo. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. Esses estudos ampliaram a nossa compreensão sobre diversidade cultural sim. mas sem a ação da cultura. aborda exemplos de como a cultura afeta nossas vidas em sentidos muito mais profundos do que imaginamos. não teríamos a complexidade da humanidade. A natureza sozinha não constrói um ser humano como o conhecemos. que as informações sejam processadas. mas muito além disso. Assim. trouxeram uma nova visão sobre o ser humano. 2006.Um Conceito Antropológico”.conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas.

o que entendemos como SAÚDE e também a DOENÇA. É parte da nosso PATRIMÔNIO CULTURAL. desde que fase de nossas vidas essa influência acontece? .nosso gestual e a forma como utilizamos o corpo.Modo de agir. seja material ou imaterial. ?Ruth BENEDICT escreveu: “A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. .as noções de higiene pessoal.a língua que cada um deles fala.os critérios de beleza. Mas. . .ex. Da mesma forma como cada família pode deixar aos seus descendentes uma herança material (patrimônio familiar).nossa alimentação. entre tantos outros. . e o movimento possui um sentido lógico. Então. . ao passo que para os índios que nela vivem. portanto. conhecimentos. . de caminhar. de vestir. a nossa sociedade nos deixa uma HERANÇA de valores. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e.O oposto também é verdadeiro.os sentimentos. Assim. e assim por diante.” .a moral.uHomens de culturas diferentes enxergam o mundo de forma diferente. ou seja.. além de um movimento desordenado de pessoas e automóveis. a realidade não é apenas UMA? ** Não! O Homem é condicionado pela sua cultura. e como explicamos o que nos cerca e o que sentimos. . os diferentes comportamentos sociais e mesmo as POSTURAS CORPORAIS são assim produtos de uma HERANÇA CULTURAL. modos de agir e pensar. têm visões desencontradas das coisas. Em cada cultura VARIA IMENSAMENTE o que somos capazes de perceber à nossa volta. a floresta é um conjunto desordenado de árvores.as necessidades e o uso da tecnologia. ela tem um SIGNIFICADO QUALITATIVO e uma REFERÊNCIA ESPACIAL. Ao passo que para os que nela vivem. . a ver o mundo. Mas.O modo de ver o mundo. a cidade possui uma ORDEM física e espacial.Para uma pessoa da cidade. podemos identificar facilmente indivíduos de diferentes culturas por características como: . as apreciações de ordem moral e valorativa. temos que a CULTURA influencia nossas vidas em diversos níveis: . de comer. uma pessoa do campo vê na cidade uma coleção confusa de ruas e edifícios. . p. ou mesmo pela mais simples delas .

-Desde o parto. somos condicionados pela nossa cultura Vamos analisar algumas imagens dessa influência da cultura em diferentes aspectos da vida humana e como os percebemos visualmente. .

Na segunda columa: Nova Zelândia e Brasil. Índia e Inglaterra. .Na primeira coluna: África.

perfuração ou alargamento de lóbulos. . lábios. saúde e aparência corporal. alimentos processados industrialmente. preparados químicos conhecidos como remédios. fisiculturismo ou treinos especiais (militares. cortes. escarificações e implantes subdermais. obedecer a regras e principalmente. . rituais ou de espetáculos). esportivos. incisões. o processo de treinamento das modelos ocidentais que para serem vistas com roupas e acessórios à venda pela indústria da moda se submetem a dietas incriveis de emagrecimento e treino para o controle do corpo.as mulheres chinesas que durante séculos enfaixavam os pés para evitar seu livre crescimento.2) A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Ao longo de nossas vidas o nosso corpo físico é intensamente afetado pelas nossas experiências culturais. movimento e expressões faciais na passarela. sugar outras vezes ele é sugado. suas escolhas poderiam ter sido completamente invertidas. . cirurgias e implantes. quando “pertencemos” a um lugar social). . Neste item você pode ter considerado algumas coisas muito normais e outras repugnantes. Pense que se você tivesse sido socializado em outra cultura.formas de tratamento de doenças que pode incluir uma imensa lista como a ingestão de fitoterápicos. . . Pense em quantas situações ao longo de nossas vidas nosso corpo é atingido em função de experiências culturais.modelagem do corpo com muitas técnicas diferentes como dietas. mas é possível sim. raízes. sementes. folhas.o tipo de parto que cada cultura oferece e considera melhor. As famosas “mulheres girafas” da Tailândia (Ásia). perfurações. para nos sentirmos INCLUÍDOS (o que dá aquela sensação de confiança e autoestima. que desde os cinco anos começam a utilizar argolas no pescoço com o objetivo de esticá-los. Para manter tradições. quando nos sentimos parte de um todo.técnicas de desenhos ou formação de saliências na pele como tatuagens. com ou sem anestesias.uso de vestuário e adornos corporais. vegetais. nosso corpo físico é submetido frequentemente a exigências. Neste item você pode se perguntar como nossa indumentária pode interferir no plano biológico. o que o autor chama de “PLANO BIOLÓGICO” é exatamente nossa forma física. pálpebras. . frutas e flores. inalar. carnes dos mais variados tipos e partes de animais (cruas ou cozidas). grãos e castanhas. ingestão de bebidas alcoólicas ou qualquer outra que altere igualmente a percepção e reações. Portanto. Para lembrar alguns exemplos: . e muitos outros tipos. rituais que envolvem ou não a participação e presença física do doente que pode ser submetido a todo tipo de intervenção passiva ou ativa – as vezes o doente precisa ingerir.a dieta cotidiana que pode incluir desde insetos.

que além de exigir o controle da postura e gestual em função da utilização de vestimentas especiais.a submissão a rotinas que podem gerar lesões físicas e/ou desconfortos psicológicos dos mais variados graus. Ter a vida de uma modelo da moda pode parecer normal entre nós. exigem também a submissão (em alguns casos) de horas em jejum e em seguida horas de ingestão de uma quantidade incrível de alimentos e bebidas. tanto quanto perfurar lábios para o uso de botoques nos parece..a participação em festas e ocasiões especiais. Você pode fazer o exercício de encontrar outros e tantos inúmeros exemplos. . mas pode ser considerado incompreensível aos outros. indignação ou repúdio ao que os “outros” fazem com seus corpos.o desenvolvimento de doenças psicossomáticas. . a reação do organismo na forma de doença a experiências negativas. Não resta dúvidas do quanto submetemos nossos corpos em função das experiências culturais. Vamos ver isso em mais algumas imagens. Interpretamos isso como algo “natural”. Entretanto é muito comum a reação de espanto. .

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Tailandesa . Desenho de modelo da moda.Primeira coluna: Kayapó (Xingú. Segunda coluna: Sumotori (luta tradicional do Japão) . DUTILEUX. Brasil) foto de Jean P.

alguns traços são reforçados e outros não: Einstein era um gênio na física. Mas nossa participação é sempre diferente de um indivíduo para o outro.nas quais as mulheres desempenham papéis importantes na vida ritual e econômica -. a maior parte das sociedades humanas permite uma mais ampla participação na vida cultural aos elementos do sexo masculino. portanto existe um espaço na cultura. A individualidade está garantida em primeiro lugar pelo fato de que nem uma pessoa pode sozinha conhecer e dominar todos os conhecimentos.ex. . tenham acesso a grande parte da cultura produzida pelo seu grupo. Somos socializados e aprendemos ao longo da vida aquilo que é mais importante para sermos aceitos e participarmos de uma cultura. ?as diferenciações baseadas na idade dos indivíduos: Uma criança não está apta a exercer as funções dos adultos. por que podemos ter licença para dirigir e votar aos 18 anos. É impossível que todos nós recebamos as MESMAS informações durante nosso crescimento. apesar de compartilharem a mesma “visão mundo”. ou 20? ?as diferenciações baseadas na impossibilidade de TODOS os indivíduos serem socializados da MESMA forma: Alguns aspectos se sobrepõem a outros. há impedimentos etários totalmente arbitrários e criados pela nossa cultura: p. Em que critérios se baseiam essas diferenças individuais? ?as diferenciações baseadas no sexo dos indivíduos: Com exceção de algumas sociedades africanas . e incapaz de pintar um quadro. Porém. que impedem que aqueles que estão mais abaixo na pirâmide social. onde o grupo não determina totalmente sua vida. e não aos 16.. a história e o conjunto de valores de seu próprio povo. portanto os motivos biológicos ficam explícitos nesses casos. mas provavelmente um desastre ao piano. existem tendências e limites para a socialização.3) OS INDIVÍDUOS PARTICIPAM DIFERENTEMENTE DE SUA CULTURA É impossível todos os indivíduos de um grupo terem exatamente o mesmo comportamento. ?as diferenciações baseadas nas diferenciações de classe social: Nas sociedades que diferenciam os indivíduos de acordo com o pertencimento a determinadas classes sociais.

nosso esforço intelectual de obter resposta sempre será coerente com o sistema cultural no qual estamos inseridos. temos que considerar que muitas vezes não é apenas por “falta de conhecimento”. ? A lógica de uma cultura muitas vezes forma o que os antropólogos denominam “sistema de classificação” ou ainda “sistema de categorias”. Desemprego. mas que servem para explicar toda uma infinidade de eventos. ela sempre será a “nossa lógica” e não a lógica alheia. e “inventou” uma resposta tão simples quanto seu nível de informação sobre o sistema solar. Quando um acontecimento pessoal ou alheio parece “sem explicação”. Vamos a alguns exemplos do livro. a categoria da “inveja”. Mediante situações que exigem uma lógica. a categoria do “olho gordo” entra em ação. Dificilmente as pessoas se contentam com explicações racionais que tornam a “vítima” única e completamente responsável pelo que lhe aconteceu. Fosse ele um gaúcho. de ordem prática ou simbólica. Assim. Quando as soluções deixam de ser suficientes. ocorrem as mudanças. casamentos desfeitos. ? Para dar um bom exemplo baseado na cultura brasileira. que são resultantes da cultura na qual somos socializados. entretanto. mas sua “invenção” teve que necessariamente utilizar A LÓGICA DA CULTURA CAIPIRA. E a resposta obtida foi: “Ele volta apagado durante a noite”. pelo qual somos profundamente influenciados. ou por “ignorância” que um grupo social pode parecer “SEM RAZÃO”. . 5) A CULTURA É DINÂMICA Todo ser humano tem capacidade de questionar seus próprios hábitos e mudá-los. por que a impressão que algumas culturas mudam mais do que outras. perda de patrimônio. 88) de uma conhecida sua que perguntou a um caipira paulista “como é que o sol morre todos os dias no Oeste e nasce no Leste”. Toda cultura muda com o tempo. ele não domina a explicação científica. ou “olho gordo”. sejam sociais ou naturais. doença. podemos tomar o conceito de “inveja”. mais corretas. Mesmo ao “inventar” explicações. que as explicações dos “outros”. a princípio parecem simples. De fato. muito eventos com impacto negativo na vida das pessoas são explicadas através da “inveja”. que parecem “congelar” no tempo? O ritmo de mudanças de uma cultura obedece à lógica da satisfação de seus indivíduos com relação às suas soluções. Esse conceito forma todo um sistema de classificação e ordenação de mundo para muitos brasileiros.4) A CULTURA TEM UMA LÓGICA PRÓPRIA Neste capítulo o autor trabalha com a seguinte idéia: temos explicações para o mundo. Isto é um conceito que forma um sistema de ordenação de mundo. mais apropriadas. Mas. Laraia cita o exemplo (pg. as “nossas explicações” sempre nos parecem mais lógicas. São conceitos que. Entretanto. muito provavelmente sua “explicação” fosse outra. deixa todos satisfeitos com a explicação. Muitos podem concluir que ele não sabia explicar.

00. Ainda existem alguns poucos grupos isolados no mundo. o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior. e que traz na abertura da matéria assinada por Altino Machado.terra. o mundo se surpreendeu com fotos que estão disponíveis no jornal eletrônico “Terra Magazine”. chamado de “etnias isoladas”. 96). coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai. As mulheres e suas crianças fugiram para a floresta em busca de proteção. quando as mudanças ocorrem em função do contato com outro sistema cultural.Essas podem ter duas fontes: uInterna.br/interna/0. A menos que tenham sido decorrentes de invenções tecnológicas exemplares ou de eventos históricos de grande impacto como revoluções e guerras internas.com. as mudanças decorrentes da dinâmica interna podem ser quase imperceptíveis a um observador externo. Já a mudança decorrente dos contatos entre muitas culturas determina um ritmo mais rápido ao longo de um pequeno espaço de tempo. No mês de maio de 2008.html . Essas fontes podem determinar o ritmo mais lento ou rápido das mudanças. de onde eventualmente temos notícias desse tipo de fenômeno.. uExterna.OI2903379-EI6581. Segundo LARAIA (pg. Atualmente é quase inexistente alguma cultura que não tenha contato com outras. comandou um sobrevôo que resultou nas primeiras fotografias dos índios de uma das quatro etnias isoladas que vivem na fronteira do Acre com o Peru. enquanto os guerreiros da tribo se posicionaram e reagiram atirando flechas no avião.” http://terramagazine. em especial na Amazônia brasileira. quando se trata da dinâmica do próprio sistema cultural. sendo o fenômeno de dinâmica cultural mais estudado. de Rio Branco (Acre): “Após quase 20 horas num avião monomotor.

FOTO DE GLEISON MIRANDA. pela conquista ou pela exposição excessiva (podemos pensar na mídia). ou qualquer grupo cultural) não têm nenhuma escolha quando são influenciados por outras culturas. ALGUMAS IMPORTANTES CARACTERÍSTICAS DAS CULTURAS! CADA CULTURA (seu povo) ESCOLHE DENTRE OS ELEMENTOS DE UM OUTRO GRUPO. publicada no mesmo endereço eletrônico disponível acima da imagem. AQUELES QUE ACHA POSITIVO ADOTAR OU NÃO.1: . APENAS EM CASOS DE DOMÍNIO ECONÔMICO E/OU POLÍTICO É QUE UM GRUPO SE VÊ OBRIGADO A ABRIR MÃO DE SEUS PRÓPRIOS COSTUMES E ADOTAR OS DOS DOMINANTES. Isso significa que para a Antropologia pode ser questionável afirmar por exemplo que os índios (ou os brasileiros. Exercício resolvido para o item 4. Adotar comportamentos típicos de outras culturas pode ser resultado de imposições pela violência.

“Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.) FRANZ BOAS – Antropologia Cultural. http://www.Comunidade virtual de Antropologia.com/antropologia/nacirema. 1999 . MEC.antropologia.espacoacademico. Jorge Zahar.br/040/40pc_diretriz. http://www. Horace. 108. mas pode falhar quando colocado em uma situação que exige apenas foco de atenção baseada no raciocínio intelectual durante muitas horas. MINER. Brasília: 2004.com.1) Um bombeiro pode ser excelente no exercício de sua profissão.espacoacademico. assim cada um recebe muitas informações e treinamento para algumas funções.ANTROPOLOGIA CULTURAL. A explicação da Antropologia para este fato é: Resposta do exercício 1): D) os indivíduos participam diferentemente de sua cultura. disponível na Web. Texto disponível eletronicamente no endereço.Para conhecer sobre a diversidade de etnias indígenas no Brasil: Instituto Sócio Ambiental. Objetivos: neste item o aluno deve ser capaz de considerar a identidade como um processo de construção cultural e o contato com a diferença como características da condição contemporânea.htm .scielo.br/scielo. 2004. PP. Bibliografia básica: Relações étnico-culturais. 2004. Nov.Sobre a educação no contexto das relações étnico-culturais: PINTO. n. Ritos Corporais entre os Nacirema. Franz.o texto "Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana" está disponível eletronicamente no seguinte endereço: http://www.br . http://www. (org. Disponível em <http://www.com.htm Textos complementares: BOAS. 67-86. mas não para todas.socioambiental. “Raça e Progresso”. in CASTRO. http://www.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15741999000300009&lng=en&nrm=iso> .com. Pesqui. Cad.A diversidade cultural: relações étnico-raciais. . * Sugestão de endereços da Internet sobre os temas deste conteúdo: . Diferenças étnico-raciais e formação do professor. C. especialmente o link “Povos indígenas do Brasil”. in CASTRO.. MÓDULO 5 Conteúdo do 2º bimestre – PROVA NP-2 5 .aguaforte. Regina Pahim.) Franz BOAS . São Paulo. Celso (org.htm “Os métodos da etnologia”. Jorge Zahar. Refletir sobre o papel das tradições e das mudanças culturais em diversas situações e contextos.org/.br/040/40pc_diretriz.” Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. especialmente o link para a Revista “Sexta-Feira”.

justiça e novos parâmetros para as relações humanas. diáspora (que é a dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política. Assim dizemos que para haver relativismo ou etnocentrismo deve-se supor a presença da DIFERENÇA. pode estar ao nosso lado. Atualmente o mundo todo reflete de uma forma mais intensa sobre o convívio entre as diferentes culturas/etnias.Desenvolvimento do item 5 – .Definição de relações étnicas: As relações étnico-culturais são todas as situações nas quais diferentes culturas/etnias são colocadas em contato por qualquer razão. não precisa ser alguém de uma cultura distante fisicamente. Os motivos podem ser variados. como a intenção de ocupação de território. e supõe que dois ou mais povos que representam suas etnias mantenham por tempo indeterminado alguma forma de convivência. Essas questões / situações seriam: . religiosa ou étnica) ou mesmo de guerras. do estabelecimento de vínculos de parceria ou amizade. A presença de um “outro” em relação ao que se reconhecemos como “nós”. onde encontra-se outro grupo étnico. atividades comerciais. Esse contato normalmente é motivado por deslocamento de grupos de pessoas de uma etnia para outro(s) lugar(es). exploratórias. Que tal pontuar algumas questões e situações do mundo atual nas quais as relações étnico-culturais estão no centro dos debates e suscitam a reflexão? São questões que trazem à tona o relativismo cultural e o etnocentrismo. Relativismo cultural e etnocentrismo são formas das pessoas ou sociedades inteiras reagirem ao contato com um grupo culturalmente diferente. procura de condições de vida diferentes e oportunidades. além de boas doses de ética. de relação de troca. Esse “outro” que aparece nas frases acima.

Qual é a realidade dos povos indígenas que convivem com a nossa sociedade nacional aqui no Brasil? E quais são suas reivindicações? .Qual é a importância da eleição de Barack Hussein Obama como Presidente dos Estados Unidos da América? ..

.Como resolver os conflitos entre Israel e a Palestina? .Quais são os principais argumentos a favor e contra a política de cotas para afro-descendentes ingressarem nas universidades públicas brasileiras? .

Dependendo da perspectiva a partir da qual se avalia essas questões. Elas dependem em grande parte da posição e da capacidade de imparcialidade de quem as responde. pode-se caracterizar certas respostas como resultado de atitudes etnocêntricas ou relativistas. podemos obter respostas muito desencontradas. A garantia dos direitos humanos e as lutas pelo tratamento igualitário entre os povos têm trazido à tona importantes discussões sobre as relações étnico-culturais.Como e por que é exercido o preconceito contra nordestinos nas regiões sul e sudeste do Brasil? As respostas a essas questões não possuem um consenso. De qualquer forma. um relativo isolamento entre os povos teve como resultado o surgimento de muitas etnias diferentes ao redor do mundo. Ocorre que durante muitos séculos. onde o contato entre as diferentes culturas e povos é cada vez mais intenso e necessário. Cada cultura desenvolve um sistema simbólico que permite aos indivíduos se relacionarem dentro de uma mesma linguagem de mundo. exclusão ou práticas moralmente/fisicamente agressivas.. Em um mundo globalizado. preconceito. existe uma preocupação geral e a tendência a considerar reprováveis as atitudes que resultem em discriminação. O que nos leva de volta ao conceito de CULTURA. Vamos desenvolver o conceito de ETNIA. Segundo o dicionário HOUAISS: . são polêmicas sociais.

a antropologia substituiu o conceito de RAÇA (de base extremamente biologizante) pelo de ETNIA. Entretanto não existe intolerância mais aceitável ou menos aceitável. Sempre que o assunto envolve questões de conflito de interesses entre populações. racismo ou ódio. que relacionavam a base biológica das populações humanas com a cultura. Na história da Antropologia. Atualmente é consenso na antropologia. o termo é evitado por parte da antropologia atual. O conceito de “raça” mostra-se impreciso uma vez que tenta determinar divisões em uma espécie que é única: o ser humano. uma cultura ou ambas. ou os hábitos de vestuário / alimentação / higiene desse mesmo outro. Um povo pode expressar seu preconceito. e este conflito revela questões culturais de qualquer abrangência. dá ênfase aos aspectos da herança cultural de um povo como forma de caracterizar a diferença de comportamento entre as várias populações humanas. simplesmente pelo fato dela abranger apenas um aspecto da cultura alheia. É necessário perceber que a intolerância em qualquer dos casos é desnecessária. religião e maneiras de agir. Raça é uma construção social. desde final do século XIX teve início um movimento de recusa às teorias evolucionistas. ou ainda através de repúdio total ao outro. por não haver recebido conceituação precisa]. condenável e pouco efetiva no sentido de resolver conflitos de interesses entre dois ou mais povos. ou por ter se tornado tão profunda que apenas se resolve com o extermínio desse outro. grupo étnico [Para alguns autores. Esses conflitos podem se revelar com diferentes graus de expressão e intolerância. De acordo com esse pensamento. poderíamos encontrar povos/culturas “mais evoluídos” e outros “menos evoluídos”. que justificou decisões políticas como invasões. . Quais eram os pressupostos do EVOLUCIONISMO SOCIAL? Parte da ideia de que haveria uma “escala evolutiva” entre os povos. contrariamente ao de raça. O conceito de etnia. Esse pensamento partia do pressuposto que a cultura é determinada pela herança genética de uma população. extermínios e a prática da discriminação e do racismo.Etnia. Um povo pode e deve saber valorizar suas próprias características sem que seja necessário diminuir. que a cultura não é determinada pelo padrão de herança genética de uma população. ANTROPOL coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural. e não uma realidade biológica. tanto por questões bastante específicas como a religião do outro. podendo ser definida pó uma raça. discriminar ou repudiar os que são diferentes. trata-se de questões étnico-raciais. refletida principalmente na língua. a etnia pressupõe uma base biológica. O resultado óbvio foi o sentimento de superioridade de algumas culturas sobre outras. Ao recusar essas teorias.

Sabemos historicamente a dimensão destrutiva dos discursos sobre uma pretensa “pureza racial” e sabemos das imensas possibilidades de construir relações étnico-raciais mais democráticas e igualitárias. Especialmente os capítulos de 1 a 5 da Primeira Parte.br/040/40pc_diretriz.espacoacademico. Concluindo esse conteúdo. há uma questão de poder que envolve as disputas em torno do conceito de raça. nós compreendemos seu apelo social em nossa sociedade.1 Conteúdo para a NP-2 (2º bimestre) Item 5. física e socialmente muitos povos para que não consigam reagir a situações de submissão. François.Percebemos que há um uso político dessas intolerâncias.Sobre a formação étnico-racial e a cultura nacional: SCHWARCZ. muito mais que científico. . http://www. nas páginas 37-94. Portanto. Moritz.Notas sobre uma identidade mestiça e malandra.Relações étnico-culturais: questões sociais. os preconceitos e antagonismos raciais irão perder sua importância. MEC. Complexo de Zé Carioca . nas páginas 85 e 86: “Não importa quão fraco o argumento em favor da pureza racial possa ser. preconceito e direitos. mas como membro de sua classe. e que serve como justificativa para ações que atinjam moral. ou devemos tentar reconhecer as condições que levam aos antagonismos fundamentais que nos atormentam?” MÓDULO 5 – item 5.1 .” Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Enquanto insistirmos numa estratificação segundo camadas raciais. indicado na bibliografia complementar desse tópico. onde quer que os membros de diferentes raças formem um único grupo social com laços fortes. “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. 1995. Bibliografia básica: Relações étnico-culturais. É um conceito social. Disponível em . Embora as razoes biológicas aduzidas possam não ser relevantes. Aprender Antropologia.com. “Marcos para uma história do pensamento antropológico”.htm Textos complementares: LAPLANTINE. o individuo não é julgado como um indivíduo. a estratificação da sociedade em grupos sociais de caráter racial ira sempre levar à discriminação de raça. Podemos ter uma razoável certeza de que. Eles podem mesmo vir a desaparecer inteiramente. Brasília: 2004. Texto disponível eletronicamente no endereço. Lilia K. Tal como em todos os outros agrupamentos humanos bem marcados. vamos ler um trecho do texto de FRANZ BOAS. SP: Brasiliense. devemos pagar um preço alto na forma de luta inter-racial será melhor para nos continuar como estamos.

pois antes disso as explicações religiosas sobre as diferentes sociedades. Sempre havia sido assim na história até então. considerando a história da humanidade. bastavam a todos. esse contato não promoveu qualquer tipo de preocupação política ou intelectual até o momento conhecido como “Grandes Navegações”. Entretanto. . apesar da conquista de direitos pelos cidadãos europeus e norte-americanos.org. com a publicação dos primeiros trabalhos científicos no século XIX. a imposição de leis que colocam um povo vencido em condições desfavoráveis perante o conquistador. que colocavam o vencedor como aquele que estabelece as regras do “jogo” e por ser “mais forte” podia utilizar qualquer recurso para manter o poder.htm Este item aprofunda os temas relacionados à diversidade cultural e as relações entre grupos com culturas diferentes. antes do evento colonialista.http://www. até o século XIX os europeus consideravam muito natural dominar e submeter outros povos. mas uma série de razões relacionadas a isto. os interesses relacionados à conquista de territórios coloniais. O “evolucionismo social”. a partir de 1492 quando a Europa passou a navegar por todo o globo. A escravidão. não sendo pensadas como algo sobre o qual fosse preciso refletir e explicar. Ou seja. tudo era praticado sem que qualquer instituição.br/portal/publicacoes/rbcs_00_29/rbcs29_03. Por isso. A diversidade étnica e o contato cultural O contato entre diferentes culturas sempre existiu. o extermínio de inimigos que oferecessem “resistência” para ser conquistado. o ser humano se torna objeto de investigação científica como um dos resultados da empreitada colonialista da Europa. ou ainda estabelecimento de comércio com povos extra-europeus. Evolucionismo social e poder: No século XIX. mesmo a Igreja. As guerras e conquistas. como acontecem atualmente. ou “darwinismo social” dominava as explicações científicas sobre a diversidade cultural. foram elementos responsáveis pela crescente aproximação de culturas. os povos de países onde o capitalismo não produzira a mesma riqueza permaneciam à margem desse processo. ou fruto da vontade divina.anpocs. as diferenças culturais eram tomadas como algo “natural”. Do ponto de vista das práticas dos navegantes e governos europeus. O objetivo é analisar o preconceito como uma forma de desrespeito aos direitos dos povos e suas culturas. os Estados nacionais. devido a condições históricas. as Navegações fizeram parte do ambiente intelectual que deu surgimento às ciências da sociedade dois séculos mais tarde – as Grandes Navegações ocorrem no século XVI e o surgimento de uma filosofia social no século XVIII. questionasse os métodos e consequências desumanas desse sistema. que viviam em democracias recémcriadas. Da perspectiva científica. Não existe um único motivo. Portanto.

e esse domínio econômico e militar passou a contar com uma justificativa científica.) mais primitivos eram considerados. era o fundamento que sustentava todo esse esquema que colocava a diversidade cultural dentro de uma escala classificatória que identificava cada povo como representante de um “momento evolutivo” diferente. sistema de leis. e do tipo de suas instituições organizadoras da vida social (o tipo de Estado. por isso dominava grande parte do mundo. estariam as civilizações do Oriente Médio. Na antropologia cresce a produção de conhecimento que demonstrava os erros do evolucionismo social e de qualquer pensamento que classificasse os povos como “atrasados” ou “evoluídos”. África e Austrália eram os “povos primitivos”. chamados de “povos bárbaros”. Esse pensamento deu margem para que a sociedade européia primeiro. escolas. a população européia era “mais evoluída” culturalmente. houveram grandes impérios mantidos por povos do Mediterrâneo (romanos. sendo muito “cômodo” criar uma teoria onde seu próprio povo era considerado centro do mundo. pois naquela época o poder influenciou a produção de conhecimento. e depois sua extensão americana se sentisse a vontade para julgar. Quanto mais afastado do modo de vida europeu. de qualquer perspectiva que se abordasse a questão. a teoria do evolucionismo social foi criada e reproduzida pelo mesmo povo que detinha o poder dominador sobre os outros. os povos indígenas do Brasil como “preguiçosos”. China e povos orientais em geral. Em suas obras. eles demonstram que não existe base científica para aceitar que exista um único modelo de “avanço” cultural e que todos os povos devam segui-lo. A cultura não deve ser encarada apenas como uma questão de avanço técnico. ou outros povos como “atrasados” em sua mentalidade geral. por exemplo. e sim como um sistema que permite aos indivíduos de um grupo se relacionar com o mundo. família e parentesco. A busca de “progresso” é algo típico das sociedades do capitalismo-industrial. que afirmava sua superioridade cultural e histórica. As populações nativas da América (povos pré-colombianos). e em uma escala intermediária. etc. e LÉVI-STRAUSS na França são importantes autores que representam essa mudança. e uma das ex-colônias (Estados Unidos da América) terem desenvolvido o pensamento científico. Os europeus foram dominantes desde as Grandes Navegações até a II Guerra Mundial. Agora são os norte-americanos. A esse tipo de prática chamamos “eurocentrismo”.Para os europeus. Assim. Franz BOAS nos Estados Unidos. egípcios). A mudança histórica – relativismo cultural e direito dos povos É a partir das primeiras décadas do século XX que esse cenário de submissão cultural começa a se modificar. e não existe superioridade racial/étnica que possa ser defendida sob nenhuma base científica. O fato de apenas os povos europeus até aquele momento. exército. ou ainda por povos . macedônios. Antes disso tudo. Índia. considerando os eventos históricos que marcam seu povo. A antropologia começa a defender que cada cultura segue seus próprios caminhos de transformação.

quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. otomanos. e. sem distinção de qualquer espécie. sob tutela. tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração.do Oriente Próximo (turcos. Aqueles povos submetidos a um poder de fora. seja de raça. sem governo próprio. se esforce. com a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) e a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS em 1948. à liberdade e à segurança pessoal. acabam sofrendo discriminações e violências de todo tipo. 16:00) . por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva. Portanto não há nada na genética ou na geografia de qualquer povo que possa ser apontado como fator explicativo da cultura. É a partir do final da II Grande Guerra. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política. (Documento publicado pelas Nações Unidas no Brasil. Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel. Já vimos isso anteriormente nos itens que abordaram o “determinismo biológico” e o “determinismo geográfico”. a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. Artigo I.br/documentos_direitoshumanos. jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. tendo sempre em mente esta Declaração. trecho extraído em original completo disponível em: http://www. quer se trate de um território independente. lembra? O que as ciências da sociedade demonstram.org. 1. Todo ser humano tem direito à vida. cor. árabes) e também por orientais (chineses e japoneses). Leia a um trecho da Declaração abaixo: A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações. opinião política ou de outra natureza. pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional. seja por suas características genéticas ou de comportamento. riqueza. por promover o respeito a esses direitos e liberdades. Artigo IV. através do ensino e da educação. sexo. é que o preconceito contra um povo.php. são resultantes de SITUAÇÕES DE PODER. origem nacional ou social. ou qualquer outra condição. idioma. desumano ou degradante. acessado em 04/3/2011. Ninguém será mantido em escravidão ou servidão. quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição. religião. com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade. mas na sociedade como um todo. que tem início uma mudança não apenas dentro das ciências. nascimento. Artigo II. Grandes civilizações se desenvolveram na Índia e no norte da África muito antes dos europeus. Artigo V.onubrasil. Artigo III. 2. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

religiosos. heroísmo. que ainda aparece também com sinônimos como “discriminação positiva” ou “ação positiva”. fundada em dimensões históricas. de políticas de reparações. discriminação e direitos. posturas e valores que . essas manifestações ficaram conhecidas como o movimento internacional pelos direitos civis. um trecho do documento “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana”. e busca combater o racismo e as discriminações que atingem particularmente os negros. Em conjunto. entre a população católica e os protestantes. eles são excluídos como modelos de personagens bons e belos na televisão ou cinema. ou na África do Sul. São ações políticas que pretendem retirar os registros negativos que a sociedade cria em torno de uma etnia ou grupo social. contra o regime de apartheid. pois juntamente com as questões de discriminação étnica. e foram incentivadas por diferentes questões étnicas como na Irlanda.htm Esse trecho traz importantes conceitos e revela uma importante questão das relações étnico-raciais no Brasil atualmente. que apesar de brancos. de política curricular. valor moral. de minorias políticas e assim por diante. como modelos de publicidade. alguns setores da sociedade que sofriam muito com o preconceito étnico ou outras formas de discriminação. MEC.Entre 1954 e 1980. vieram outras como os direitos femininos. Abaixo. isto é. propõe à divulgação e produção de conhecimentos. eram progressistas e estavam unidos pelo reconhecimento dos direitos. Esse movimento rapidamente contou com o apoio de parcelas da população. Esses registros são as formas preconceituosas que são reproduzidas e “ensinam” as pessoas como tratar discriminatoriamente alguns grupos. na área da educação. identidade. ele. começam a se manifestar publicamente para denunciar as injustiças sofridas contra as quais o restante da sociedade se omitia. Trata. entre outros. sucesso. Essas manifestações ocorreram em muitos países.br/040/40pc_diretriz. antropológicas oriundas da realidade brasileira. entre outras. cujo líder Martin Luther KING marca a história do século XX. Nesta perspectiva. como heróis em livros didáticos ou de literatura popular. e são responsáveis por criar o termo “ação afirmativa”.com. cultura. As pessoas atingidas negativamente se vêem excluídas de conceitos positivos como de beleza. Brasília: 2004 e que pode ser encontrado na íntegra no endereço eletrônico: http://www. sociais. a formação de atitudes. Ou seja. Eles trouxeram à tona um grande debate social em torno de racismo. apesar de nem todos apoiarem. preconceito. dos homossexuais). as ações afirmativas têm como objetivo modificar a mentalidade geral através de atitudes que invertam as representações negativas que predominam sobre uma etnia ou grupo social específico por sua cultura ou comportamento. à demanda da população afrodescendente. e de reconhecimento e valorização de sua história. de gênero (como por exemplo. no sentido de políticas de ações afirmativas.espacoacademico. O mais conhecido desses movimentos foi o movimento negro anti-segregacionista norte-americano. Portanto. Questões introdutórias O parecer procura oferecer uma resposta. como referências de sucesso em grandes empresas e assim por diante. publicado pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Políticas de reparações voltadas para a educação dos negros devem oferecer garantias a essa população de ingresso. cultura e identidade dos descendentes de africanos. materiais. A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento. Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais. Requer também que se conheça a sua história e cultura apresentadas. bem como para atuar como cidadãos responsáveis e participantes. modo de tratar as pessoas negras. igualmente. passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10639/2003. e povos indígenas. no que diz respeito à educação. é por falta de competência ou de interesse. se os negros não atingem os mesmos patamares que os não negros. Políticas de Reparações. sociais. de Reconhecimento e Valorização. Art. os postos à margem. Sem a intervenção do Estado. também. como meta o direito dos negros. tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada. seus pensamentos. entre descendentes de africanos. culturais e econômicos. ao reger-se por critérios de exclusão. assim como o é o reconhecimento e valorização da história. Estas condições materiais das escolas e de formação de professores são indispensáveis para uma educação de qualidade. dos danos psicológicos. enquanto pessoa. por meio da educação. . bem como em virtude das políticas explícitas ou tácitas de branqueamento da população. assim como de todos cidadãos brasileiros. iguais direitos para o pleno desenvolvimento de todos e de cada um. e as estatísticas o mostram sem deixar dúvidas. de valorização do patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro. com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações. de condições para alcançar todos os requisitos tendo em vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino. de Ações Afirmativas A demanda por reparações visa a que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os descendentes de africanos negros. nos diferentes níveis de ensino. de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática. permanência e sucesso na educação escolar. povos indígenas. buscando-se especificamente desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira. em que todos. Cabe ao Estado promover e incentivar políticas de reparações. ou seja. fundados em preconceitos e manutenção de privilégios para os sempre privilegiados. É necessário sublinhar que tais políticas têm. romperão o sistema meritocrático que agrava desigualdades e gera injustiça. políticos e educacionais sofridos sob o regime escravista. além de desempenharem com qualificação uma profissão. desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para os negros. Visa também a que tais medidas se concretizem em iniciativas de combate ao racismo e a toda sorte de discriminações. E isto requer mudança nos discursos. expressarem visões de mundo próprias. cidadão ou profissional.descendentes de africanos. de asiáticos. para todos. posturas. orientados por professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimentos. em escolas devidamente instaladas e equipadas. Reconhecimento requer a adoção de políticas educacionais e de estratégias pedagógicas de valorização da diversidade. 205. É importante salientar que tais políticas têm como meta o direito dos negros se reconhecerem na cultura nacional. lógicas. que alterou a Lei 9394/1996. no pós-abolição. descendentes de europeus. explicadas. de europeus. estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas. no que cumpre ao disposto na Constituição Federal. a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira. sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais. individual e coletiva. gestos. de aquisição das competências e dos conhecimentos tidos como indispensáveis para continuidade nos estudos. entre eles os afro-brasileiros.eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial . bem como valorização da diversidade daquilo que distingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasileira. civis. manifestarem com autonomia. que assinala o dever do Estado de garantir indistintamente. mito este que difunde a crença de que. raciocínios. de manutenção de privilégios exclusivos para grupos com poder de governar e de influir na formulação de políticas. valorização e afirmação de direitos. dificilmente. cursarem cada um dos níveis de ensino.

bem como a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Reconhecer exige a valorização e respeito às pessoas negras. brincadeiras. divulgar e respeitar os processos históricos de resistência negra desencadeados pelos africanos escravizados no Brasil e por seus descendentes na contemporaneidade. não sejam desencorajados de prosseguir estudos. desde as formas individuais até as coletivas. conjuntos de ações políticas dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais. compreender seus valores e lutas. Reconhecer é também valorizar. tais como: a Convenção da UNESCO de 1960. piadas de mau gosto sugerindo incapacidade. velada ou explicitamente violentas. isto é. orientadas para oferta de tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvantagens e marginalização criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. no sentido de que venham a relacionar-se com respeito. ser sensível ao sofrimento causado por tantas formas de desqualificação: apelidos depreciativos. fazendo pouco das religiões de raiz africana. Discriminação Racial. Significa buscar. bem como a Conferência Mundial de Combate ao Racismo. com o objetivo de combate ao racismo e a discriminações. freqüentados em sua maioria por população negra. sua cultura e história. palavras e atitudes que. Abaixo estão algumas questões importantes para que você responda e que estão esclarecidas nos trechos em destaque no texto acima reproduzido: 1) Quais populações são alvos da preocupação sobre a condição de exclusão ou tratamento preconceituoso? 2) Qual o argumento do documento sobre a ênfase nas políticas de reparação voltadas à comunidade de afrodescendentes pelo Estado brasileiro? 3) Em que âmbitos da vida social o tratamento desigual ao negros requer mudanças para obtermos justiça e direitos iguais? 4) Como o documento define “ações afirmativas”? Essas perguntas acima devem servir como forma de auxiliar na interpretação do texto em destaque. leia abaixo uma das questões dissertativas do ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) realizado pelo MEC anualmente. com professores competentes no domínio dos conteúdos de ensino. ridicularizando seus traços físicos. a textura de seus cabelos. direcionada ao combate ao racismo em todas as formas de ensino.Reconhecer exige que se questionem relações étnico-raciais baseadas em preconceitos que desqualificam os negros e salientam estereótipos depreciativos. comprometidos com a educação de negros e brancos. e servem apenas como fixação de aprendizado. próprios de uma sociedade hierárquica e desigual. Políticas de reparações e de reconhecimento formarão programas de ações afirmativas. Implica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele. de estudar questões que dizem respeito à comunidade negra. atitudes e palavras que impliquem desrespeito e discriminação. . contem com instalações e equipamentos sólidos. expressam sentimentos de superioridade em relação aos negros. Ações afirmativas atendem ao determinado pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. sendo capazes de corrigir posturas. atualizados. Reconhecer exige que os estabelecimentos de ensino. menosprezados em virtude de seus antepassados terem sido explorados como escravos. à sua descendência africana. Para compreender a importância das discussões que envolvem as relações étnico-culturais atualmente. Nos trechos em itálico e sublinhado estão destacados alguns importantes princípios das políticas de ações afirmativas traçadas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. Xenofobia e Discriminações Correlatas de 2001.

0 pontos) b) um argumento coerente utilizado por aqueles que o defendem. num texto coerente e coeso. (valor: 5...) O diretor executivo da Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes (Educafro).ENADE 2006 – Prova de FORMAÇÃO GERAL para todos os cursos (QUESTÃO 9 – DISCURSIVA): Sobre a implantação de “políticas afirmativas” relacionadas à adoção de “sistemas de cotas” por meio de Projetos de Lei em tramitação no Congresso Nacional.) Entre os integrantes do movimento estava a professora titular de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2006. 30 jun. a) um argumento coerente utilizado por aqueles que o criticam. . chamado de “Padrão resposta”. (valor: 5.) Ampliando ainda mais o debate sobre todas essas políticas afirmativas. PADRÃO DE RESPOSTA – ENADE 2006 QUESTÃO 9 Tema – Políticas Públicas / Políticas Afirmativas / Sistema de Cotas “raciais” a) O aluno deverá apresentar. acredita que hoje o quadro do país é injusto com os negros e defende a adoção do sistema de cotas. mas que considere também a condição social dos candidatos ao ingresso.) Texto II “Desde a última quinta-feira. há também os que adotam a posição de que o critério para cotas nas Universidades Públicas não deva ser restritivo.” (Folha de S. 2006.Paulo – Cotidiano.” (Agência Estado-Brasil. mas o movimento quer que os projetos sejam retirados da pauta. (. „É preciso fazer o debate. disse. Por isso ter vindo aqui já foi um avanço‟. frei David Raimundo dos Santos. identifique.0 pontos) Agora. vamos analisar o quadro de correção elaborado para a prova. Yvonne Maggie.. (. Analisando a polêmica sobre o sistema de cotas “raciais”. leia os dois textos a seguir. no atual debate social. a polêmica foi reacesa. quando um grupo de intelectuais entregou ao Congresso Nacional um manifesto contrário à adoção de cotas raciais no Brasil. com adaptação. que nada mais é do que uma grade de correção para as questões dissertativas em que constam os pontos como deveriam ter sido abordados pelos estudantes para obter o valor considerado. a essência de um dos argumentos a seguir contra o sistema de cotas. Texto I “Representantes do Movimento Negro Socialista entregaram ontem no Congresso um manifesto contra a votação dos projetos que propõem o estabelecimento de cotas para negros em Universidades Federais e a criação do Estatuto de Igualdade Racial.. 03 jul. As duas propostas estão prontas para serem votadas na Câmara.

a essência de um dos argumentos a seguir a favor do sistema de cotas.O sistema de cotas valorizaria excessivamente a raça. É preciso. manteve-se a centralização política e a exclusão de grande parte da população brasileira na maioria dos direitos. . é preciso um fundamento razoável e um fim legítimo e não um fundamento que envolve a diferença baseada.Implantar uma classificação racial oficial dos cidadãos brasileiros. é a raça humana. dando-se respaldo legal ao conceito de “raça”. fazer uma reparação. (valor: 5. . num texto coerente e coeso.Não se pode ocultar a diversidade e as especificidades sociopolíticas e culturais do povo brasileiro. Sendo aprovado tal estatuto. mas rediscute a distribuição dos bens escassos da nação até que a distribuição igualitária dos serviços públicos seja alcançada. . o País passará a definir os direitos das pessoas com base na tonalidade da pele e a História já condenou veementemente essas tentativas. favorecendo as faculdades da rede privada de ensino superior. então. . na verdade.. Para se tratar desigualmente os desiguais. .0 pontos) b) O aluno deverá apresentar. A cota não tira direitos.A adoção de identidades étnicas e culturais não deve ser imposta pelo Estado. Há necessidade de diferenciar a igualdade formal ( do ordenamento jurídico e da estrutura estatal) da igualdade material (igualdade de fato na vida econômica). a principal luta é a de reivindicar propostas que incluam maiores investimentos na educação básica. Nesse sentido. por exemplo. pode gerar ainda mais preconceito. . estabelecer cotas raciais no serviço público e criar privilégios nas relações comerciais entre poder público e empresas privadas que utilizem cotas raciais na contratação de funcionários é um equívoco.Políticas dirigidas a grupos “raciais” estanques em nome da justiça social não eliminam o racismo e podem produzir efeito contrário. somente. perpetuando-se o mando sobre uma enorme massa de população. e o que existe. Ao longo da História. O princípio da igualdade assume hoje um significado complexo que deve envolver o princípio da igualdade na lei. perante a lei e em suas dimensões formais e materiais. no sentido proposto.Diversos dispositivos dos projetos (Lei de cotas e Estatuto da Igualdade Racial) ferem o princípio constitucional da igualdade política e jurídica. A autorização da inclusão de dados referentes ao quesito raça/cor em instrumentos de coleta de dados em fichas de instituições de ensino e nas de atendimento em hospitais. na cor da pele. há dificuldade para definir quem é negro porque no País domina a miscigenação. .É preciso avaliar sobre que “igualdade” se está tratando quando se diz que ela está ameaçada com os projetos em questão. a qualidade acadêmica pode ficar ameaçada por alunos despreparados. Além disso. visto que todos são iguais perante a lei. Não sendo assim. .O acesso à Universidade deve basear-se em um único critério: o de mérito.O acesso à Universidade Pública que não esteja unicamente vinculado ao mérito acadêmico pode provocar a falência do ensino público e gratuito. é possível o acirramento da intolerância. .

visto que a metodologia dos vestibulares acaba por beneficiar os alunos egressos das escolas particulares e dos cursinhos caros. A acusação de que a defesa do sistema de cotas promove a criação de grupos sociais estanques não procede. pois: C ) não existe base científica que comprove a validade do uso do conceito de raça. cultura popular e erudita.Na luta por ações afirmativas e pelo Estatuto da Igualdade Racial se defende muito mais do que o aumento de vagas para o trabalho e o ensino. pp. e os abusos ideológicos de povos dominantes que o utilizaram como justificativa histórica para subjugar e exterminar povos. Admitir as diferenças não significa utilizá-las para inferiorizar um povo. portanto. os números revelam. BIBLIOGRAFIA BÁSICA: SANTOS. uma pessoa pertencente a um determinado grupo social. Cultura brasileira e culturas brasileiras http://www. para as Universidades que já adotaram o sistema de cotas. não há diferenças de rendimento entre alunos cotistas e não-cotistas.0 pontos) Exercício com resposta para fixação de conteúdo. . cultura popular e erudita. trata-se de um conceito político aplicado ao processo social construído sobre diferenças humanas. (valor: 5. meios de comunicação.Sobre a cultura nacional: BOSI.. MÓDULO 6 6 – A cultura na sociedade atual: nacionalidade. Alfredo.ufrgs. SP: Brasiliense. J.A utilização das expressões “raça” e “racismo” pelos que defendem o sistema de cotas está relacionada ao entendimento informal. .Não se pode negar a dimensão racial como uma categoria de análise das relações sociais brasileiras. L. 1) O conceito de etnia veio a substituir o de raça.pdf . in.br/cdrom/bosi/bosi. . .Dizer que é difícil definir quem é negro é uma hipocrisia.Pesquisas revelam que. O QUE É CULTURA. trataram de bani-lo. que no quesito freqüência os cotistas estão em vantagem (são mais assíduos). . pois não faltam agentes sociais versados em identificar negros e discriminá-los.As Universidades Públicas no Brasil sempre operaram num velado sistema de cotas para brancos afortunados. Bibliografia complementar: . 51-79. é injusta e equivocada. defende-se um projeto político contra a opressão e a favor do respeito às diferenças. um construto em que grupos sociais se identificam e são identificados. meios de comunicação – 2º bimestre 6 . 2006 “A cultura em nossa sociedade”. inclusive. e nunca como purismo biológico.A cultura na sociedade atual: nacionalidade.

podemos afirmar que estamos em um mesmo momento da história de nossa espécie. É possível observar um grupo social a partir de sua perspectiva histórica. mesmo quando passa por eventos semelhantes e utiliza as mesmas convenções sociais. e como resultado percebemos que cada grupo é único. Como resultado das interferências pessoais em um dado conjunto de instituições. na visão de mundo desse povo. estamos falando de um aspecto imaterial. ocorre também com relação à sociedade nacional. Mas quando observamos a passagem do tempo (= história) em dois grupos diferentes que utilizam o mesmo referencial cultural. No Brasil. leis e tecnologia que formam uma totalidade social é que podemos perceber a CARACTERÍSTICA. O fato é que a história de qualquer grupo social interfere o tempo todo em seu presente. Entretanto. Entretanto. como estratégias locais de sobrevivência e reprodução. é um elemento agregador que promove a intermediação das relações entre os indivíduos. Portanto. em âmbitos que envolvem nossa evolução e nossa relação com o meio ambiente. é o resultado das relações entre os indivíduos e seu grupo social. Assim como ocorre com os regionalismos. . percebemos que não é possível encontrar os mesmos resultados. costumes. cada povo em seu local específico. A experiência histórica em cada uma delas determinou características particulares dentro da grande totalidade que chamamos de “cultura brasileira”. ou cultura nacional. as pessoas tendem a naturalizar mais essa dimensão humana. a cultura nesse caso. por exemplo. Isso porque. valores morais ou formas de julgamento são o resultado de um processo histórico de nosso grupo social. Esta é a base do que denominamos CULTURA REGIONAL. As diferentes histórias de cada povo podem ser interpretadas antropologicamente. Assim. simbólico. temos a existência de regiões geográficas que definem regiões culturais diferentes. no primeiro exemplo. dando como certo que se trata de algo que não procede de escolhas e muito menos de formas coletivas de vivência. como resultante de um processo complexo de desenvolvimento que envolve conhecimento e condições técnicas-econômicas de implantação. regras. mas não se encontram desvinculadas da história da espécie humana como um todo. facilmente consegue-se relacionar a nossa vida material como a tecnologia. da cultura humana. a ESPECIFICIDADE de uma cultura. Portanto as culturas regionais e nacionais se referem sempre a experiências compartilhadas por uma população durante um período de tempo suficiente para deixar marcas nas relações sociais. Em geral. sendo impossível separarmos a cultura de um povo de sua história.DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO É muito comum que as pessoas em seu dia-a-dia não se deem conta que nossos hábitos.

engenheiros e outras). da renda como determinante das posições na hierarquia social.. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. utilizamos os conceitos de cultura popular. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. podemos então detalhar alguns aspectos importantes da vida cultural em nossa sociedade atualmente. Em nossa sociedade. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. as implicações políticas que possam ter. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. superado. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. Entende-se por cultura popular as manifestações . Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. e que por sua vez se associam a um conjunto de valores morais. procurando entender a sua lógica interna. as ordens profissionais (de médicos. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura.. também marcamos essa história. repetindo-os e mantendo-os atuantes. notamos certos padrões de comportamento que se associam a padrões de consumo. É que. Assim. Vamos ao texto indicado para leitura na bibliografia deste módulo para esclarecer essa classificação da cultura. Somos ao mesmo tempo resultados de uma HERANÇA cultural e produtores dessa herança para as próximas gerações. advogados. um conhecimento que supunha inferior. capazes de criar grupos de pessoas que se identificam e mantêm características e hábitos próprios. ou em outras palavras. Para facilitar a compreensão desse fenômeno.) De fato. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. e vice-versa. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. Ao mesmo tempo em que cada um de nós é marcado pela história de nosso grupo social. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. Se partirmos dessa compreensão de cultura como resultado da vida sócio-histórica dos indivíduos que atuam em um grupo. ou estéticos. existe a questão do pertencimento a classes sociais. Nossas condições materiais de existência afetam nossas condições psíquicas e culturais. com a possibilidade de reforçar certos comportamentos. e a única forma de consciência disso se expressa através da necessidade pessoal em defender e preservar certos traços de comportamento e recusar outros.Neste âmbito é que reside a questão da relação indivíduo-sociedade. sua dinâmica e principalmente. as academias. ou de gosto. buscando o que há de específico nelas. expresso pela filosofia. (. Não nos damos conta disso em nosso cotidiano. cultura erudita e cultura de massa. atrasado. esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. José Luiz dos SANTOS explica: Comecemos por esta última indagação. a cultura popular. tais com a universidade. ou recusando-os e enfraquecendo sua importância.

e tem uma relação mais emocional que crítica em relação ao gosto. Eles se apropriam dessa cultura através de contratos e divulgam todo tipo de produção cultural através do mercado para que as pessoas adquiram esse material. normalmente são um exemplo da cultura erudita de massas. Portanto podemos falar em uma cultura popular de massas.54-55) A conclusão é que denominamos cultura erudita toda a produção material e imaterial resultante de conhecimento intelectual e técnicos especializados. porque está na moda. ou trabalhadores que dominam sua técnica de forma autodidata e reproduzem aprendizados que passam de geração a geração. um palco e uma audiência que espera ser entretida por um apresentador que lhes proporciona carisma. São classificados como “de massa”. o cinema. artesãos. que existem independentemente delas. Repete as opiniões alheias. Quer ter personalidade. que dependem de treinamento constante e dedicação – de tempo e de investimentos financeiros. pois não é capaz de ter opinião própria. a televisão. e assim o inclui em um movimento. letrados. a imprensa.L. mesmo sendo suas contemporâneas. São artistas. grupos de comunicação) que visa lucro com os produtos culturais. manifestações diferentes da cultura dominante. A cultura de massa resulta do trabalho empresarial sobre produtos e artistas tanto da cultura erudita quanto da cultura popular. do convívio e da informalidade. os livros que se tornam campeões de vendas. gravadoras. atrelados a uma empresa (editoras. pois são muitas pessoas. exemplifica a cultura popular de massa. admiração e que lhes mostra a vida como um espetáculo.culturais dessas classes. J. O indivíduo que faz parte da massa responde de forma imatura ao que recebe. Gosta porque todos gostam. e uma cultura erudita de massas? Sim! Para exemplificar. (Santos. ou mesmo como estratégia de sobrevivência. 2006. gosta porque esse consumo lhe dá status e uma boa visibilidade social. é um fenômeno que depende da existência dos meios de comunicação de massa como o rádio. Já a cultura popular é uma produção resultante de conhecimentos da tradição oral. Já a maior parte dos programas televisivos de auditório. Não há criadores espontâneos da cultura de massa. porque o mesmo conteúdo atinge um imenso número de pessoas ao mesmo tempo. e psicológico. Na massa. a Internet e assim por diante. A massa é ao mesmo tempo um fenômeno quantitativo. o indivíduo gosta de ser diferente. pp. mas igual. mas não quer chamar a atenção. Esse tipo de programa se baseia na antiga receita do circo. produtoras. . O treinamento normalmente é proporcionado com baixos investimentos. que estão fora de suas instituições. E quanto à cultura de massa? Bem. Há empresários e técnicos.

Essa indústria se beneficia da padronização de gosto. ou a massa é quem exige esse tipo de cultura? Uma pequena parcela de nossa sociedade tem acesso à cultura erudita. o gosto sempre vai reproduzir a adesão aos mesmos tipos de produtos culturais. Os indivíduos se sentem seguros ao reproduzir o gosto da indústria cultural de massa. Algumas escolas de estudo dos fenômenos sociais relacionadas aos meios de comunicação de massa conceituam diferentemente essa reação da população ao funcionamento da cultura de massa. É uma referência de estilo de vida. pois perdemos a capacidade racional de crítica. incentivando e valorizando o comportamento padronizado. a partir da seguinte proposta: . Quem é que não tem nostalgia de programas e até mesmo de propagandas de sua infância? Até mesmo nossa biografia e memória afetiva dependem da exposição aos produtos dessa indústria cultural. de diversão. e sim uma característica da cultura de nossa época. Para isso você deve fazer uma redação de no mínimo dez linhas e no máximo 30 linhas. que se dá através de escolas e universidades muito seletivas. Há os que se referem a esse comportamento como “alienado”. e para isso os estimula. o exótico. Agora idolatramos pessoas da mídia. Segundo essa escola. defendem que a cultura de massa é o “espírito” de nosso tempo. O objetivo é fazer um exercício de sensibilização da percepção sobre os fenômenos da cultura contemporânea. Este é um exercício de redação temática e reflexiva. de informação. todos somos alienados. Eles circulam em meios onde o interesse está para além da atenção da mídia e da carreira bem sucedida empresarialmente. sem receber nada de realmente original ou que não seja meramente divertido. sensibilidade ou percepção aguçada. Assim. a cultura de massa substitui necessidades até mesmo de devoção religiosa. Já outros teóricos. cultural e psicológico de nossa sociedade atualmente. cuja fama ou merecimento são passageiros e questionáveis. Esses tipos de cultura não pretendem se tornar produtos de sucesso. da homogeneização. o de difícil aceitação pela massa. E isso não é propriamente uma alienação. sem considerarmos a influência e os propósitos da cultura de massa. A massa prefere o entretenimento. como dos textos indicados ou de pesquisa pessoal sobre esse conteúdo.A cultura de massa é um importante fenômeno econômico. É um círculo vicioso: a indústria cultural é que modela o gosto da massa. que extrapolam os objetivos de mercado. O espaço que a mídia dá ao padrão é infinitamente maior que o espaço dado ao diferente. Além de estar presente em todos os aspectos da nossa vida. E assim. a diversão descomprometida ao envolvimento com produtos e gostos que exigem reflexão. E também a cultura popular depende do envolvimento e interesse populares. ao participar do consumo cultural de massa. Portanto você pode utilizar tanto os conceitos trabalhados neste módulo. não é possível compreendermos nossa relação com a cultura em nossa sociedade.

v.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132004000200004&lng=en&nrm=iso> . 80-86. Bibliografia complementar e endereços para pesquisas eletrônicas: .o ritmo de seu texto: introdução ao tema. 56) A) para o autor. pois uma minoria tem acesso ao conhecimento erudito. Bibliografia básica: “Cultura e relações de poder” in SANTOS. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. Um olhar antropológico sobre a questão ambiental. J.o foco na questão abordada: está colocado de forma adequada. desenvolvimento e conclusões. 10. está sendo repetitivo ou não. Disponível em <http://www. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. Mana. MÓDULO 7 Conteúdo para a prova NP-2 – 2º bimestre 7 .scielo.Observe a reação das pessoas em situação de exposição a produtos da indústria cultural. por exemplo.Sobre cultura e relações de poder no Brasil: . Pense em eventos para grandes multidões como espetáculos musicais ou esportivos. Javier.br/scielo. Rio de Janeiro. você está sendo objetivo. SP: Brasiliense.” (SANTOS. 2004 . José Luiz dos. TAKS. pg. pp.poder e cultura. Oct. pode ser entendida como uma forma de controle social. poder e meio ambiente: FOLADORI. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. 2. O QUE É CULTURA. mas não toda a população. Peça a um colega ou um professor que leia seu texto e faça uma auto-avaliação onde você considere algumas habilidades que puderam ser trabalhadas. Exercício com resposta 1) Leia o trecho a seguir e escolha entre as alternativas aquela que corresponde ao pensamento expresso pelo autor: “Da mesma forma. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. O QUE É CULTURA.L. Como sugestão: . A ampliação de seus domínios como. a divisão entre cultura erudita e popular mostra uma relação de poder. Faça uma reflexão onde você é capaz de expor ao leitor a influência da mídia e dos espetáculos de massa no comportamento dos indivíduos.Sobre o tema cultura.A cultura na sociedade atual. assistir a filmes de sucesso ou ler publicações como revistas de grande tiragem e circulação. como ver vitrines da moda. 2006. n. Guillermo. consegue abordar os aspectos mais relevantes? .

Por isso dizemos que saber é poder. dando igual espaço a todas as manifestações culturais. Chamamos a isso de “democratização da cultura”. Portanto. podemos falar que independente de classes sociais e posições de poder. de todas as classes sociais.daMATTA. existe uma intensa movimentação de interesses na forma como a cultura “circula” em nossa sociedade. diversão e saberes. A indústria. Dessa perspectiva. através de produtoras.ufsc. o comércio e a oferta de serviços se tornaram especialidades que dependem do domínio também da tecnologia. A cultura se transformou em assunto de mercado. dentro de uma sociedade leva diferentes grupos a ocuparem posições em uma hierarquia que os torna menos poderosos ou. da arte ao saber. e não uma minoria. Roberto.dentro de uma única sociedade que possui a mesma influência cultural.br/urbanismo5/artigos/artigos_mr. E entre diferentes culturas. em uma sociedade de classes. educação formal. empresas ou editoras que comercializam arte. na outra escala. a cultura popular deve ter incentivo para não depender apenas dos interesses empresariais que querem vender mais e acabam deixando de lado verdadeiros talentos. Entretanto. No processo histórico de formação da sociedade capitalista. o domínio dos saberes técnicos especializados foi importante para criar noções como progresso e desenvolvimento. é possível afirmar que as relações de poder interferem? Sim! . com bastante poder. como as escolas e órgãos públicos dedicados a ela.arq. Ocorre que. e interessa a todos. Toda essa relação de poder foi colocada até agora. Alguns grupos pressionam o Estado para que os bens culturais. ou seja. é necessário lembrar que a cultura está sujeita às disputas e conflitos que. os meios de comunicação de massa devem diversificar sua programação. Assim. como seus hábitos. Os poderes econômico e político têm um efeito direto sobre a cultura.pdf> Desenvolvimento do conteúdo Até aqui foi ressaltado o conceito de cultura como algo que identifica um povo. sua missão deve ser a de dar apoio às várias formas de manifestação cultural: a cultura erudita deve chegar ao público que não tem dinheiro para pagar por ela. alguns grupos possuem mais riqueza e por isso têm acesso a mais informação. Os indivíduos mais qualificados conseguem ocupar posições mais privilegiadas economicamente. costumes e saberes. Quando um Estado coloca em prática uma política de democratização cultural. aos bens culturais como um todo. sejam de acesso a uma maioria. Disponível em <http://www. a erradicação do analfabetismo é muito importante para toda a sociedade. artigo publicado no Jornal da Embratel. da diversão ao saber. Você tem cultura. 1981. e também em assunto institucional. todos fazem parte de uma mesma totalidade. os recursos não são divididos de forma igualitária. Rio de Janeiro.

da capacidade de se manifestar. Esse processo acompanha a história de uma nação. 2006: pgs. Esse "para transformar" não está contemplado no conceito da Unesco. tento buscar mais do conceito. Cultura eu defino como um plasma invisível que a gente não consegue identificar. Sem querer contrapor essa definição. que está relacionada aos modos de vida. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. Os preconceitos culturais podem marcar uma sociedade que possui diferentes etnias e grupos com culturas muito próprias em seu interior. Eu faço uma análise da cultura a partir das dinâmicas socioculturais com esse filtro das relações de poder. pela Editora Peirópolis. Veja a seguir: Como o livro aborda o poder da cultura? O que eu tento apresentar no livro é que a idéia de cultura nasce a partir de relações de poder. aos saberes de forma geral. Não existe cultura sem relação de poder. Para aprofundar um pouco mais esse assunto. Para transformar o quê? . mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. quem faz cultura tem poder. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. colocar suas pautas e desenvolver a sua ação política. às crenças. está em constante mudança. como também a história das relações entre as diferentes nações em cada época. entre diferentes sociedades essa mesma disputa ocorre. sem dúvida. temos que compreendê-la como um processo. É um livro sobre a função política da cultura. A diversidade cultural é acompanhada de diferenças de poder. da cultura como o que você pode extrair desse modo de vida e dos valores para transformar. aos valores. por isso têm acesso a uma parte “privilegiada” da cultura. como temos visto. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. Algumas nações mais poderosas economicamente no cenário mundial garantem mais acesso a educação. Portanto podemos afirmar que há desigualdade cultural entre os povos atualmente. na época do lançamento de seu livro “O Poder da Cultura”. Há aí controle. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. Vamos ler um trecho do autor indicado na bibliografia para concluir esse módulo: A cultura. (SANTOS. O assunto do livro está bastante relacionado com a nossa discussão.Da mesma forma como alguns grupos conseguem o domínio econômico dentro de uma sociedade. abaixo está reproduzido um trecho da entrevista com o autor Leonardo Brant. apropriação. E como conseqüência disso. seja um poder no sentido do cidadão. desigualdades no plano cultural. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. 84-86) Como a cultura é dinâmica. SP: Brasiliense. José Luiz. Elas também influenciam mais as outras do que são por elas influenciadas. O QUE É CULTURA. Eu parto da definição de cultura da Unesco. e também à arte e diversão. Quero dar uma perspectiva nova. A cultura seria um poder? Na verdade. São lutas pela transformação da cultura. é uma produção coletiva. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. E como vamos dar poder para isso que a gente mal sabe o que é? Mas. eu falo do poder de quem faz cultura. mas também pode marcar as relações entre povos que ocupam mais ou menos poder.

Aí a gente começa a compreender o sistema financeiro e que tem uma relação de equilíbrio entre o lado cultural e o econômico. A nação brasileira sequer sabe o que é serviço cultural. autônomos. Exercício com resposta para o módulo 71) A cultura é o conjunto de idéias. de educação.A gente desde o começo apresenta a cultura do ponto de vista do indivíduo. Faz parte da estratégia dos sistemas de poder de informação não falar sobre os meandros de seu próprio sistema. Então como se dá a transformação da cultura em produto? Eu considero essa dimensão econômica da cultura.importante. A nossa sociedade do consumo. eles estão ali. na data de 25/04/2010. O grande desafio com política pública no Brasil é como universalizar esses serviços. que tem diversas nuances. mas é a que temos. os artistas devem ter função social ou política? Mesmo sem se dar conta. Por isso “ter cultura” é algo que exige investimentos pessoais e sociais. Assim como existe uma dimensão social e econômica no fazer cultural. Mas o mais importante é se transformar. (entrevista de Tatiana WUO. seja da cultura popular.globo. está muito subordinada a ditames de comportamento que foram dados e construídos por sistemas culturais preestabelecidos que muitas vezes a gente não se dá conta que existem. Essas dimensões são convergentes. porque por enquanto é só um discurso. do espetáculo. é correto afirmar que a cultura está influenciada pelas relações de poder econômico e político? . dentro do ambiente em que vivemos . existem os efeitos políticos. mesmo que não se faça com uma intenção específica. Não devemos abrir mão dele por uma coisa que não sabemos o que é. da arte contemporânea. texto disponível em <http://gazetaonline. E aí eu falo de qualquer dinâmica cultural. Quando a gente construir dez anos de investimentos diretos e consolidados que sejam isentos. como se dão e como a nossa relação com esses sistemas de construção do imaginário acontece.html>) Concluindo. saberes. É um assunto polêmico. Não temos direito ao conhecimento existente em espaços como uma biblioteca. qualquer tipo de expressão e processo que passe pela questão cultural. Eles têm uma dimensão política que é intrínseca ao fazer cultural. eu transformo meu entorno e eu transformo a sociedade. Para isso o Estado precisa fornecer esses tais serviços culturais. Isso acontece porque fomos alijados desse direito na formação do nosso Estado. sim. do grupo social e da sociedade como um todo. aí teremos um sistema um pouco mais desenvolvido. se identificar. tradições e costumes de um povo. embora muitas pessoas não queiram admitir . o que você acha das leis de incentivo? Com certeza não é a melhor maneira de se realizar atividade cultural no país. Apesar disso. de tentar se reconhecer. e não seja algo atrelado a questões políticas e eleitorais.de um país capitalista. saber a que veio. para o jornal Gazeta online. Se eu me transformar. mesmo que você não queira olhar para eles. A sociedade precisa incorporar esses processos. mas acho que não devemos abrir mão da lei de incentivo em troca de um discurso de retomada do papel do Estado na cultura. Nesse processo. Como é esse acesso à cultura pela população? Existe o direito de conhecer as outras culturas. nos dias de hoje a circulação da cultura está muito associada ao capital. mas outra coisa é a dimensão cultural da economia. Nesse sentido de transformações. Sabe o que é serviço de saúde. Vai te transformar e auxiliar no embate cotidiano que o ser humano tem. Faz parte do processo cultural tentar explicitar um pouco mais as relações de poder.com/_conteudo/2010/04/629540-entrevista+++leonardo+brant+++especialista+na+area+de+politicas+culturais.

7ª ed. e portanto uma minoria privilegiada economicamente tem acesso a mais bens culturais. pois na sociedade capitalista a cultura se transformou em bens comercializados. São Paulo: Ed. Mércio Pereira. acessado em 10/03/2009. in GUERRIERO. ANTROPOS E PSIQUE. in GOMES.).. Antropologia – ciência do homem. O outro e sua subjetividade. Pp. São Paulo: Contexto. e que de alguma forma fazem questão de manter hábitos próprios e suas tradições. 21:00. 2004. S (Org. Sugestão de sítios da Internet: “Tribos de Brasília” – blog editado por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília: http://bsbtribos. 205-214. KEMP.com/. MÓDULO 8 8. Olho D‟água. 2003. 5ª. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR: HALL.com/2006/moda-e-tribos-urbanas/. K. 21:12. Stuart. MULTICULTURALISMO: estratégias e políticas usadas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade em sociedades multiculturais. “Moda e Tribos Urbanas” – blog editado por Queila Ferraz Monteiro. filosofia da cultura. “Identidade cultural”. Rio de Janeiro: DP&A. DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO Segundo Stuart HALL MULTICULTURAL: características sociais e problemas de governabilidade apresentados por sociedades com diferentes comunidades culturais.c)Sim.blogspot. Então preste atenção: multicultural se refere a uma sociedade que é formada por muitas etnias (=culturas) diferentes. 2009. IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE.fashionbubbles. . acessado em 10/03/2009. Identidade cultural na atualidade: multiculturalismo e tribalismo urbano – 2º bim BIBLIOGRAFIA BÁSICA: “O futuro da antropologia”. Ed. Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção em diversos cursos superiores e de pós-graduação: http://www.

. é uma forma de atitude política que se baseia no reforço das IDENTIDADES CULTURAIS: A globalização do capital e a circulação intensificada de informações. trazem consigo a afirmação de identidades locais e regionais. disponível em: ttp://www.itaucultural. negros (ou afro-americanos).que tomam os mais diversos setores da vida social. Enciclopédia Eletrônica. com a ajuda de novas tecnologias. assim como a formação de sujeitos políticos que reivindicam. Mulheres.as "políticas compensatórias" ou as "ações afirmativas" . e consequentemente de DIFERENÇA CULTURAL. Quem é igual a quem em uma sociedade multicultural? Ou mais. Atualmente. o direito à diferença. começam a conhecer a convivência com a participação em sua população. a partir das garantias igualitárias. não apenas com direitos iguais. mas que sejam igualmente valorizados como parte de uma sociedade múltipla.Apesar de comporem uma mesma sociedade nacional.org. programas de apoio aos grupos marginalizados. ações anti-racistas e antidiscriminatórias são experimentadas em toda a parte. O multiculturalismo como expressão cultural da atualidade. e enfrentam muitos problemas políticos para que todos se sintam INCLUÍDOS. educação bilingüe. e haver uma CULTURA NACIONAL que agrega a todos indistintamente. no período colonial. formam sociedades MULTICULTURAIS.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3186) Identidade versus Diferença – São conceitos inseparáveis e mutuamente determinados: não temos como perceber ou definir uma identidade cultural sem relacionar com alguma outra que é DIFERENTE dela. Muitos países no mundo de hoje são sociedades multiculturais. culturais e étnicas. quase todos os países europeus. longe de uniformizar o planeta (como propalado por certas interpretações fatalistas). ou mesmo demanda de mercado. Faziam parte da história de territórios colonizados.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index. que eram ocupados por uma sociedade etnicamente homogênea. populações latino-americanas ("hispanos" ou chicanos) e migrantes em geral se fazem presentes como atores políticos a partir da marcação de diferenças de gênero. Cotas paras minorias. (FONTE: Itaú Cultural. de um numero cada vez maior de etnias. um país multicultural convive com setores que se diferenciam muito em sua forma de convivência. A cultura torna-se instrumento de definição de políticas de inclusão social . As sociedades multiculturais não eram comuns até a década de 80. Isso os torna multiculturais também. Portanto o debate do multiculturalismo nos leva aos conceitos de IDENTIDADE CULTURAL. quem quer ser diferente e mesmo assim tratado igualmente? O Brasil e os Estados Unidos são países que desde sua criação. homossexuais. quem quer ser igual a quem. demandas de serviços e políticas.

” O conceito de identidade cultural permite compreender os processos através dos quais os indivíduos passam a tomar como “gosto” ou “preferência pessoal” um conjunto que expressa sua subjetividade e o coloca nas relações interpessoais de forma a sentir que pertence a um coletivo. recebem a visão de mundo de sua cultura. a uma “atitude pessoal”. Somos cobrados a “ter identidade” (também uma outra noção do senso comum bastante confusa. cada indivíduo entra em um processo de identificação. pode conhecer. introjetam os valores. Nenhum indivíduo. “Eu considero justo que as pessoas tomem ESTA tal atitude em tal situação?”. A cada uma delas o sujeito avalia qual seu grau de envolvimento e como delas se aproxima. Ao entrar em contato com diferentes setores e ordens da sociedade. por exemplo. contudo. “Eu percebo beleza NESTA forma de aparência social?” Tais questionamentos fazem parte da capacidade de REFLEXÃO que cada um de nós possui. vestuário e adornos corporais. quando cada indivíduo entende como próprio de si mesmo um conjunto de hábitos e formas de sensibilidade que foram coletivamente constituídas. valores. saberes.Diferença. um iminente sociólogo da atualidade tem uma frase que colabora de forma excepcional para a compreensão do debate sobre a identidade e o direito à diferença. Boaventura de Souza Santos. me dá prazer?”. entrar em contato e experimentar a totalidade desse conjunto. endoculturação. têm também direito a serem diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades. de qualquer cultura que seja. capazes de informar o modo como indivíduos marginalizados são posicionados e construídos em teorias sociais dominantes. e que nas sociedades contemporâneas faz parte de uma exigência para nossos posicionamentos e atitudes. Qual seja: “As pessoas têm direito a serem iguais sempre que a diferença as tornar inferiores. ou o direito à diferença: conjunto de princípios que organizam elementos culturais e princípios de valores de inclusão e exclusão. A cada cultura corresponde um imenso e vasto repertório de hábitos. através de práticas coletivas próprias. . A diferença está no seguinte ponto. técnicas. Perguntas como: “Fazer isso. Para constituir uma identidade. a “ter personalidade” (que no senso comum é um conceito difuso e polissêmico). A identidade cultural de um grupo se manifesta tanto externamente. rituais. DESTA forma. “Eu me sinto bem ao pensar sobre esse assunto DESTA maneira?”. pois entende que podemos “perder” nossa identidade). Somos o tempo todo “cobrados” a uma “opinião pessoal”. onde os elementos de sua subjetividade vão se reorganizando em função de novas experiências. a um “estilo pessoal”. como intersubjetivamente. Todos os conceitos trabalhados anteriormente nos outros módulos fazem parte dos processos de identificação. os indivíduos passam pelos processos de socialização. práticas sociais e agendas políticas.

relacional: é “em relação” ao outro que afirmamos nossa identidade. e desde que as atitudes dos indivíduos se enquadrem dentro desse padrão aceito. Nas sociedades modernizadas atualmente. Essa identidade pode ser compreendida dentro dos seguintes processos: . seus participantes passam a receber um tratamento social desigual cuja mensagem bastante clara é: “não aceitamos sua identidade”. cada grupo precisa se fazer contrastar dos demais. Ser estigmatizado em função de características de comportamento ou crenças é algo que podemos encontrar em referência a diversas identidades sociais ao longo da história. Quando há uma severa desaprovação relacionada a certa identidade social. Entretanto. temos a oportunidade de obter informações ou participar de diferentes grupos que relacionam os elementos culturais de forma original e passam a construir uma “identidade própria”. tanto através de mecanismos de socialização. podemos nos identificar mais. nos fazendo mais próximos ou distantes de uma ou outra forma de identidade coletiva.contrastiva: para que se destaque de forma única.processual: faz parte de um sistema complexo (pois inclui a referência dada pelo grupo. e contínuo ao longo da vida de cada indivíduo.Bem. podemos encontrar um amplo espectro de grupos que se identificam de forma bem distinta. Nesse contato. Mas não é exatamente assim que acontece no cotidiano das pessoas. há como um “padrão” de comportamento social. . Desta forma. Estamos falando sobre a forma como certos grupos exercem PODER sobre outros. . diminuir a importância desse tipo de comportamento. as relações entre os vários grupos com diferentes identidades e assim por diante). As identidades hegemônicas correspondem a modelos do padrão moral. É como . uma opção. existem processos de constituição de grupos com identidades que de alguma forma negam ou entram em conflito com esse padrão hegemônico. ou seja. como através da punição moral e da vigilância através de normas e leis. o preconceito. ou menos com cada tipo de comportamento. a sociedade tenta reprimir o processo de desenvolvimento dessas identidades. dominantes em relação a muitas outras. Para cada grupo social existem identidades que são hegemônicas. Nesse caso. a identidade cultural de um ou outro grupo que crie uma identidade será aceita pela maioria que segue o modelo imposto. que são impostos a todos os indivíduos dessa dada sociedade. A referência da diferença é o que faz a identidade. tratando os indivíduos participantes através de estratégias que geram exclusão social – o estereótipo. o estigma. a subjetividade. o que faz com que pareça que identidade é sempre uma questão de escolha. em nossa trajetória pessoal e os contatos sociais que vão se sucedendo ao longo da vida. O estereótipo se realiza quando a sociedade cria uma imagem mental (um imaginário) falso com idéias que reduzem a identidade cultural de um certo grupo a conteúdos que pretendem denegrir.

“rotular alguém”. Afinal. ou de uma crença. À minoria corresponderia então grupos estatisticamente inferiores. É um conceito sobre pessoas que é pré-estabelecido. É uma nova forma de atuação política. que foge dos padrões tradicionais e se organiza em torno de propostas de ação que gere impacto positivo.comumente se diz. Um dos traços marcantes da sociedade contemporânea tem sido exatamente esse. cuja mobilização procura gerar um debate na sociedade em termos de direitos de igualdade e reverter situações de preconceito. O preconceito é um julgamento estabelecido previamente a qualquer conhecimento aceitável. cujos traços característicos ou comportamento expresso não correspondiam ao modelo hegemônico. ou de uma forma de orientação da sexualidade. e que se organizam em torno de reivindicações de direitos sociais. e inferiores também em termos de poder ou alcance para fazer valer a legitimidade de sua identidade coletiva. À posse do discurso sobre os direitos ou da ausência do reconhecimento social de direitos iguais. Setores da sociedade que possuem características marcantes o suficiente para que lhes seja atribuída uma identidade. Atualmente o conceito de minoria se refere a essa dimensão da posse do poder de controle sobre a moral da sociedade ou da ausência desse mesmo poder. Ele procurava designar a existência de grupos dentro da sociedade contemporânea. São as chamadas “ações afirmativas”. pois se organiza em torno de associações lógicas questionáveis e sem contato com a realidade sobre a qual pretende afirmar qualquer coisa. esclarecimento e receptividade da sociedade. “Os negros são inferiores”. “os pobres são ladrões” são afirmações carregadas de preconceito. Também correspondia ao termo maioria. por conseguir impor através da hegemonia um modelo padrão de identificação. “as louras são burras”. Um determinado grupo social passa a ser reconhecido como “minoria social” quando vem de alguma forma se expressar. quando as pessoas tomam contato com a realidade do outro há uma possibilidade de se abandonar preconceitos. Num certo contexto a minoria é realmente menor estatisticamente em relação a certo universo de pessoas. O termo “minorias sociais” surge a partir da década de 70 do séc. Um pré-conceito de fato. mas em outro contexto essa minoria pode representar até mesmo uma maioria estatística. mas possuem força moral sobre a maioria dos indivíduos do grupo. Os critérios que possibilitam criar essas idéias não possuem comprovação e não são demonstráveis. . Uma minoria pode ser constituída por traços básicos de uma etnia. Não existe mais a noção de maioria ou minoria estatística. XX. mesmo porque essa questão é muito relativa ao universo social ao qual esse ou aquele grupo pode estar relacionado. Por que essa referência de dimensões? Minoria e maioria? Exatamente a o que elas se referem? Apenas ao número de pessoas? Entendia-se que estatisticamente. estigma ou estereótipos. a maioria das pessoas correspondia às expectativas dos padrões morais que regem a conduta dentro de nossa sociedade. Essas associações fazem a ligação entre características físicas e conteúdo mental. psicológico ou moral dos “outros”. exigindo um tratamento que não gere exclusão social ou desigualdade de direitos aos cidadãos.

. construindo uma estética própria. e não “disfarçar” para não serem notados. eles provocam na sociedade uma reflexão sobre nossos padrões de conduta. Sem a pretensão de se tornarem dominadores. grupos de orientação religiosa não católica ou protestante. Normalmente. “góticos”. travestis. Exercício com resposta para o item 81) Quando muitas culturas convivem dentro de uma mesma nação. piercings. podemos encontrar grupos que se organizam em torno de propostas de lazer. Esses grupos se constituem em torno de estilos de vida. podemos testemunhar o fenômeno da formação desse tipo de constituição de uma coletividade. as vezes colaborando para aumentar seu repertório. implantes. Ao lado das chamadas minorias sociais. arte e que em alguns casos. se reúnem em locais que acabam sendo reconhecidos como “seu território”. e compartilham diferentes modos de vida. as pessoas que participam dessas tribos. transgêneros. “modernos primitivos” (que praticam muitos estilos de modificação corporal como tatuagens. para além do que o senso comum consegue compreender. consumo. a atuação política se faz também presente. “emos”. e fazem questão de serem reconhecidos por ela. atividades de sociabilidade. o senso comum considera “exagero” e reprime ou procura desmoralizar através do estigma. desde o final da II Guerra Mundial. Eles querem exatamente mostrar essa diferença. formando essas “tribos” são a expressão de novas formas de sensibilidade social.São chamadas minorias hoje. São as chamadas “tribos urbanas”. não consegue compreender. Vamos citar alguns: “rappers”. “skatistas”. Por isso utilizam um vestuário característico. Os grupos que se organizam em torno de estilos de vida. “moto bikers”. grupos de orientação sexual não heterossexual (homossexuais. Os indivíduos que fazem parte de uma “tribo urbana” não ocultam essa forma de gosto ou identidade. escarificação entre outros). Com o crescimento do mercado capitalista de consumo. surgiu uma forma de expressão de identidades que com ele dialoga. valores e rituais que os diferenciam da sociedade em geral. Em grandes cidades do mundo todo. as vezes rejeitando os mecanismos que seduzem os indivíduos a participar dele. é que atualmente os indivíduos procuram refletir sobre sua subjetividade e expressá-la de formas criativas e originais. Através da convivência nesses grupos. principalmente grupos étnicos que em muitos lugares são oprimidos por sua condição de origem. experimentam novas formas de convívio social e colocam em jogo novos valores. é correto associar ao conceito de: c) Multiculturalismo. atividades lúdicas. bissexuais). O que esse fenômeno social nos mostra. “metaleiros”. “jipeiros”. e utilizam um linguajar com gírias e termos que. quem é “de fora”.

portanto. Bibliografia complementar: Instituto Goiano de História e Antropologia. Mércio Pereira. Brasiliense. procurando se colocar sempre que possível no lugar do outro. pp 29-49. F.Identidade cultural na atualidade: pesquisa antropológica.1 E sobre a pesquisa antropológica? Qual sua importância para essa temática das identidades contemporâneas? A pesquisa de campo reescreveu a história da antropologia.1 CONTEÚDO PARA A PROVA NP-2 – 2º bimestre 8. Nesse tipo de pesquisa. PASSADOR. in GOMES. Ele se torna o que chamamos de “observador participante”. 53-67. São Paulo: Contexto. Bibliografia básica: “Metodologia”. o cientista passa um longo período de tempo convivendo na cultura que quer conhecer. que seja imparcial. Sua principal preocupação é obter “informantes”. que se caracteriza por manter o pesquisador distante da vida real dos indivíduos que pretende conhecer. Antropologia – ciência do homem.MÓDULO 8 – item 8.br/ucg/institutos/igpa/site/home/secao. que são pessoas que lhe facilitam o trânsito. “Os pais fundadores da etnografia – Boas e Malinowski”. PP. filosofia da cultura. A partir do contato direto entre pesquisador e cultura pesquisada. Pp.ucg. Luiz Henrique. SP: Olho d´Água. Ela veio a ser uma alternativa às chamadas “pesquisas de gabinete”. mas não tão distante como o do observador de laboratório. in ANTROPOS E PSIQUE – o outro e sua subjetividade. ele não chega com questionários prontos e não se preocupa com a quantidade de respostas obtidas para a mesma questão. é tentar encontrar uma perspectiva de abordagem desse outro. texto disponível em: http://www. Ele também não se limita a ser um observador. 2009. . in Aprender Antropologia. Pesquisa de Campo.asp?id_secao=1731&id_unidade=1 LAPLANTINE.75-92. os pressupostos sobre cultura e comportamento humano sofreram mudanças importantes. O principal. 2003. Ou seja.1 . mas passa a participar de algumas atividades com seus anfitriões. O campo da antropologia: constituição de uma ciência do homem. os contatos e debatem com o pesquisador sobre suas dúvidas a respeito do que está sendo observado. Desenvolvimento do conteúdo – item 8.

depois de preparado metodologicamente. física e subjetivamente. o que faz sentido para nós. nutrição. entre outros já existe uma grande produção de pesquisas que recorrem ao método da antropologia para obter resultados qualitativos muito interessantes. teorias. Muitas vezes. Os relatos produzidos pelos antropólogos em campo são chamados de “etnografias”. o pesquisador tem a oportunidade de utilizar o “olhar antropológico”. Após a permanência em campo. no qual o pesquisador consiga falar sobre o outro sem ser etnocêntrico. consegue obter uma riqueza de detalhes sobre o modo de vida dos “outros” que é muito superior a outros métodos. que passaram a produzir pesquisas semelhantes. mas também participar. Podemos com isso refletir melhor sobre as relações com a diversidade. quando ele pode garantir que não estará sendo etnocêntrico. mas com objetivos específicos de suas próprias áreas de atuação e saber. Esse distanciamento posterior é o período de reflexão sobre os dados obtidos. O que acontece é que. Nos campos da pedagogia. que para cada tipo de profissional podem se transformar em dados importantes. educação física. ou qualquer outro pesquisador que utilize essa técnica de pesquisa. o pesquisador promove uma mudança interna de valores e permite que o outro seja interpretado dentro de seu próprio conjunto de conceitos. como em sociedades alheias. O resultado é que temos hoje uma grande produção de textos. é necessária uma imparcialidade em seu discurso. Assim. marketing. É o mesmo que “se colocar no lugar do outro”. muitas vezes. não faz para os outros. . enfim todo o universo de grupos que podem estar dentro de nossa própria sociedade. Não está “em defesa” de ninguém. Não é mesmo? por isso esse tipo de pesquisa tem como objetivo “traduzir” diferentes comportamentos. Mas consegue interpretar esse outro modo de vida dentro de sua própria razão e lógica. administração. nem da do outro.Ao observar. dentro de sua própria visão de mundo. Muitos campos de atuação profissional têm se beneficiado com pesquisas que exploram os saberes. e há a procura de um meio termo. nem de sua própria cultura. e dentro da ética exigida. técnicas ou simplesmente mantêm hábitos. O antropólogo. mas também procura evitar o risco de se transformar no outro. Como cientista. Ao mudar sua própria subjetividade. e vice-versa. ele deve procurar a elaboração de uma interpretação que possa garantir a imparcialidade. dominam saberes. As técnicas de observação de campo da antropologia influenciaram muitos campos de estudo. publicidade. o pesquisador se retira. farmácia. alguns grupos ou culturas inteiras. o conjunto de valores. que literalmente significa o registro escrito da experiência étnica. sem distorcê-los. teses e artigos que abordam ENCONTROS COM O OUTRO.

e é denominada etnografia ou pesquisa de campo. Esse contato com a cultura estudada tem como objetivo: d) Compreender uma cultura alheia sem a necessidade de julgá-la. mas interpretando esse outro de forma a respeitar sua própria lógica. .11) A pesquisa antropológica propõe que o observador-pesquisador participe de atividades rotineiras do grupo estudado.Exercício resolvido para o item 8.