P. 1
Luiz Zanin - Cinema Brasileiro Contemporâneo (1990-2007)

Luiz Zanin - Cinema Brasileiro Contemporâneo (1990-2007)

|Views: 441|Likes:
Publicado porCinthya Bretas

More info:

Published by: Cinthya Bretas on Jun 09, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/01/2015

pdf

text

original

Mauro Baptista Fernando Mascarello (orgs.

)

6
CINEMA BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO (1990-2007)
Luiz Zanin Oricchio

CINEMA MUNDIAL CONTEMPORÂNEO
Como estabelecer um marco para o início do cinema brasileiro contemporâneo? A opção mais adotada tem sido datá-lo a partir de uma espécie de grau zero, que encerra um ciclo e não vai a parte alguma, pelo menos no início: o desmanche cinematográfico Operado no início do governo de Fernando Collor (1990-1992) que, alinhado às idéias neoliberais então dominantes, desativou as principais peças da máquina estatal de apoio à produção cinematográfica brasileira, extinguindo de uma penada órgãos como Embrafilme, Fundação do Cinema Brasileiro e Concine. A idéia geral de Collor era aplicar o que considerava um "choque de capitalismo" ao cinema, deixando-o entregue, do dia para a noite, às "leis do mercado". Na prática, o que se assistiu foi a uma virtual paralisia da produção. Naqueles primeiros anos da década, poucos filmes nacionais foram produzidos e ainda menos conseguiram ser lançados no circuito comercial. Entre essas exceções, devemos lembrar de alguns como Perfume de gardênia (Guilherme de Almeida Prado, 1992), Capitalismo selvagem (André Klotzel, 1993), Alma coisária (Carlos Reichenbach, 1993), entre poucos outros. Nunca a produção caiu a zero, como se costuma afirmar, mesmo porque alguns filmes já vinham sendo produzidos anteriormente ao ato de Collor, e vieram a público depois dele. Os anos mais penosos foram 1992, com nove longas-metragens, e 1993, com 11. Menor número ainda chegava ao circuito comercial, isto é, ao público comum.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cinema mundial contemporâneo/Mauro Baptista e Fernando Mascarello (orgs.) . - Campinas, SP: Papirus, 2008. - (Coleção Campo Imagético) Bibliografia. ISBN 978-85-308-0866-2 1. Cinema - História 2. Filmes cimenatográficos I. Baptista, Mauro. 11. Mascarello, Fernando. 111. Série. 08-04072 índice para catálogo sistemático: 1. Cinema mundial contemporâneo: História 791.4309 CDD-791.4309

Cinema mundial contemporâneo

139

...\

que fazia sua estréia na direção de longas-rnetragens. na era pósCollor. E é ele que subsiste até o momento. dinheiro público. para usar adjetivo moderado. caso invistam em filmes brasileiros. Ambas constituem o principal instrumento de captação de recursos para a produção de filmes no Brasil na forma da chamada renúncia fiscal. ameaçado de impeachment. de Quer dizer. por exemplo. resolveu perseverar. do imaginário da O cinema brasileiro. para reconstruir uma empresa nos mesmos moldes. Cada ganhou R$ 100 mil no concurso de roteiros "Resgate do Cinema Brasileiro". mas com 98% do capital detido pelo Estado e apenas 2% pelos sócios minoritários). o modelo adotado após o "desmanche" de Collor foi o da renúncia fiscal. jamais abdicando da presença de filmes de outros países. Alguns números: 30. 39% por não lembrarem do título e .37% por nunca terem entrado numa sala para ver uma produção brasileira". Sua extinção não provocou qualquer resistência significativa. originário do governo militar. um filme de 1976! A pesquisa do Estadão aparece citada em Adeus. o de Gramado e o de Brasília. que renunciou em dezembro de 1992. assumiu o vice-presidente Itamar Franco. como outros setores da economia.pior . basicamente. Funcionando tanto como produtora Embrafilme levou o cinema brasileiro a ocupar uma das telas por ano. uma biografia do ator e cineasta Anselmo Duarte. que se tornou o filme-símbolo da retomada. Cinema mundial contemporâneo 141 ~40 Papirus Editora . Carlota foi rodado com poucos recursos e distribuído pela própria diretora. a partir de 1992. durante o governo Itamar Franco. que é o cinema comercial por excelência. captado de impostos não pagos e investidos na atividade cinematográfica. Produção artesanal. O de Brasília. já com experiência em curtas. em seguida. As leis. aquele que chega às salas de exibição quando encontra espaço para isso. A constatação era que o cinema nacional se mostrava incapaz de auto-sustentação. prevêem desconto do IR para empresas interessadas em investir em produções nacionais. Para viabilizar-se. os dois mais tradicionais festivais de cinema do país. muitas vezes teve de aceitar concorrentes qualidade sofrível. como Dona Flor e seus dois maridos (recorde de bilheteria. fazendo água. Os outros R$ 400 mil foram arrecadados em empresas patrocinadoras (Nagib 2002. A Lei do Audiovisual tinha vigência prevista até 2007 e foi prorrogada até 2010. com essa forma de subvenção indireta. havia conseguido resultados expressivos na década de 1970. Poucos se recordavam de haver assistido a algum filme brasileiro nos anos anteriores. em especial durante os anos 1980. Gramado. havia desaparecido população. à imagem da Ernbrafilme (empresa em tese de economia mista. Lei Rouanet e Lei do Audiovisual. Princesa do Brasil (1995). Outros lembravam-se de sucessos do passado. Com a saída de Collor. não havia clima. seria evitado o modelo de gestão estatal. Esse conjunto de medidas atendia a uma constatação e a uma solução de compromisso encontrada na época. nem mesmo no meio cinematográfico. é preciso lembrar que o modelo da Embrafilme. com seus pontos positivos e negativos. Essa virtual ausência de obras produziu efeitos diversos. 1984 e. Paulo em 1992 dá idéia da situação. o mais antigo do país. o grau zero da retomada Foi uma produção atípica . tiveram muita dificuldade para encontrar participantes. p. Já não tinha a mesma eficácia nem dispunha de respaldo social. O compromisso era que. a atriz Cada Camurati. Após intensa campanha movida por parte influente da imprensa contra a Embrafilme. O artigo terceiro da Lei do Audiovisual também prevê incentivos às empresas estrangeiras. declinando. O modelo chegara como distribuidora. atingiu uma situação praticamente falimentar. A bem da verdade. mas. na prática. a fatia da ordem de 30% crescendo até 34% em ao final dos anos 1980 Uma pesquisa encomendada pelo jornal O Estado de S. com a carência de títulos disponíveis. que é como essa nova etapa do cinema brasileiro passou a ser conhecida. que podem descontar o imposto de renda sobre a remessa de lucros. com mais de 10 milhões de ingressos vendidos). precisando se valer de incentivos fiscais. Os dados revelam que "61 % dos entrevistados não foram capazes de responder qual filme nacionallhes havia agradado. tornou-se iberoamericano e tem mudado de formato desde então. 146). Dessa forma. para tentar revitalizar o setor. cinema (Singh Ir. com a falta de fIlmes.Carlota [caquina.Naquele princípio de década. 1993). Medidas emergenciais (como os concursos chamados de "resgate do cinema brasileiro") se somaram às leis de incentivo fiscal. condena~a pela ineficiência e desmoralizada por casos de corrupção. o cinema de ficção.8% em 1980.

14. onde se passam coisas fabulosas das quais se pode rir. com 2. p.Carandiru. 60 novos diretores haviam surgido.35 em 1999. depois de quase desaparecido do imaginário coletivo. apesar do aumento de titulos produzidos. o filme foi se firmando no circuito e fechou sua carreira com mais de um milhão de ingressos vendidos. O fato é que. esses números absolutos melhoraram ainda mais. como se verá adiante. Já em 2002. teria. a soma de seus ingressos não ultrapassa 11% do total vendido em território nacional. a vinda da família real para o país em 1808. contra menos de 30 nos primeiros anos da década anterior (Oricchio 2003.4% em 2003. Moisés trazia outros dados interessantes.3% em 2004 e 12% em 2005.957 milhões. com 2. Os normais. O cinema brasileiro. Lisbela e o prisioneiro. 45 em 2005. no período dito da retomada. uma façanha e tanto para o cinema brasileiro da época. ao fim de sua experiência brasileira.48 em 2004. a ocupação do seu mercado interno não acompanha o número absoluto de lançamentos. Ajudava também. com seus recursos criativos para driblar a precariedade do orçamento (planos fechados no que seriam cenas de multidões. uma personagem como Carlota Ioaquina. constatava que. ainda Cinema mundial contemporâneo 143 3 . publicado na Folha de S. no entanto. ganhou manchetes nos cadernos de cultura e entretenimento. Assim. voltava. Nos anos seguintes. antes dele. Aos poucos. batido os sapatos um contra o outro e dito: "Desta terra não quero levar nem o pó". 8% em 2002. O "fenômeno" 2003 pode ser explicado pela ocorrência de filmes de grande público no mesmo período . alguém relatando anedotas de um país distante e exótico. também contribuíram. e de Marco Nanini. como o glutão e serni-idiota D. com um filme. finge-se que o ponto de vista da narrativa é externo. mãe de Deus. a tornar-se notícia e tema de conversa entre as pessoas. O desejo nacional de debochar dos poderosos. até o recorde de 73 em 2006 (Caetano 2005). com 4. 40 em 2001. l'B em 1996. Maria. As médias anuais.E por que Carlota [oaquina se torna o filme-símbolo da retornadase outros. João VI.. Carlota . José Álvaro Moisés. a divisão do bolo de bilheteria não acompanhou a mesma progressão: 9% em 2001. O gosto nacional pela caricatura talvez não possa ser excluído das explicações para o sucesso. talvez tenha parte de responsabilidade no êxito imprevisto. por exemplo). O público de filmes brasileiros saltara de menos de 400 mil espectadores.) e a sátira a um episódio da história do Brasil. Poucos filmes fazem sucesso e a maioria vai muito mal na bilheteria. entre 1990 e 1994. O filme começa com uma pessoa contando a uma criança. o então secretário do audiovisual. em 1995. que. 27).301 milhões. 35 em 2002. Tentou-se interpretar de várias maneiras esse sucesso inesperado. para 25 milhões entre 1995 e 2009. No mesmo artigo.305 milhões e Xuxa e os duendes 2. 45 em 2003. Dos 17 longas em 1995. Não era pouca coisa.25 em 1998. caso se considere a estréia em alguma sala comercial ou simplesmente a exibição pública (num festival ou mostra. a história de Carlota. caiu no gosto do público. Pode haver alguma disparidade entre os números.o país havia produzido nada menos que 167 longas-rnetragens. porte. nada menos de 73 longas-metragens. estrearam comercialmente no país. como assinalam os dados do Portal Filme B. Crescimento e estabilização Diálogo com o público e seus problemas Desde o sucesso de Carlota joaquina. Paulo de 24 de maio de 2002. já no cais do porto.. numa época em que era grande o desprezo pelo país no seio da classe média (que é a que vai ao cinema). contra todas as expectativas da crítica e dos jornalistas especializados. Até então. Apesar do excepcional número de 73 longas (entre ficção e documentários) lançados em 2006.152 milhões. com 3. Essa porcentagem expressiva do market share de 2003 não se repetiria. Há quem veja em um recurso de narrativa um poderoso auxiliar. em inglês. em 2006. entre L995e 200 L. entre documentários e ficções. Para se ter idéia. com 2. num tempo em que (como ainda hoje) a política gozava de baixo conceito. como a desbocada e luxuriosa Carlota [oaquina. A criatividade inegável da diretora e as interpretações engraçadas de Marieta Severo. uso de materiais baratos para compor um vestuário de luxo etc.24 em 1997.693 milhões de espectadores. haviam resistido à aridez da era Collor? Porque. excepcionais 21. segundo a fonte. Turbinado pelo sucesso. a produção brasileira de longas-metragens não deixa de crescer até se estabilizar em patamar considerado ainda insuficiente para uma cinematografia que se deseja de 142 Papirus Editora Se esses números dizem alguma coisa é que o diálogo entre o cinema brasileiro e seu público é ainda questão muito mal resolvida.34 em 2000.

29). de 400 mil a 600 mil pessoas aos cinemas. O primo Basílio. tornou-se a principal financiadora do cinema brasileiro. Com o peso de sua máquina publicitária. uma proporção que praticamente se repetiu em 2004" (Butcher 2005. tal e qual se busca em uma televisão de sinal aberto e grande alcance público. 75). pela Globo e por grandes empresas do setor cinematográfico de "dirigismo cultural". envolveram atores da emissora ou se beneficiaram de seu merchandising respondem por quase 70% da ocupação das salas (Oricchio 2003. 144 Papirus Editora Cinema mundial contemporâneo 145 . p. que assina alguns dos maiores sucessos do cinema brasileiro contemporâneo como A partilha (2001). O "fenômeno Globo" se intensificou de imediato: "A soma de público que assistiu aos títulos coproduzidos pela Globo Filmes em 2003 representou nada menos que 92% do público total das produções nacionais nesse ano. Tendo em vista essas distorções e fragilidades.ue razoáveis.. vários filmes recentes parecem se enquadrar com perfeição no famoso "padrão Globo de qualidade". em particular. Na visão desses setores poderosos da vida econômica e cultural. Segundo dados do boletim Filme B (n. têm a vantagem de uma transparência maior.) e entrando como parceira na produção de terceiros. 18/2/ 2002). Mas careceu de sustentação até para discutir a fundo um conjunto de medidas. p. Xuxa. Existe carência ~rônica de "filmes médios". Um dado importante na equação lançamento versus público do cinema da retomada foi a entrada em cena da todo-poderosa Rede Globo de Televisão na produção de cinema por intermédio da G lobo Filmes. contadas sem qualquer ousadia que possa oferecer dificuldade a um público de cultura audiovisual formada pela televisão. acabou por se tornar instrumento de "intermediários" que lucravam com a alocação de recursos junto a empresas. 223. por atores conhecidos do elenco global e boas histórias. A maior parte dos filmes entra e sai rapidamente de cartaz. "O importante é que a Globo dá a certeza de uma estrutura nacional de divulgação que pode se dar nos formatos tradicionais (anúncios e spots de 1V) ou na chamada cross media (citação e promoção nos programas da casa)" (ibid. aqueles projetos que mais se adequassem à boa imagem das empresas. a Ancinav. Estas. sendo incapaz de marcar culturalmente a sua presença junto ao público e à opinião pública. pelo menos. adaptada a um padrão de gosto médio. digamos. logo tachado pela mídia. motivadas tanto pelo desconto no imposto quanto pelo retorno de imagem. de um lado. Mas está claro que uma estatal de petróleo. As leis e seus problemas A aplicação da Lei do Audiovisual não deixou de gerar problemas ao longo dos anos. marca registrada da empresa e da qual ela muito se orgulha. a Globo Filmes garante amplo espaço em mídia televisiva na ocasião do lançamento. Depois de tirar o cinema brasileiro da UTI. A fórmula de sucesso passa pela excelência da qualidade técnica. Criou-se assim uma seletividade baseada mais em noções de marketing/retorno de imagem do que de hipotéticos méritos estéticos ou importância social. Renato Aragão etc. visando a políticas mais consistentes e de longo prazo. havia o "atraso jurássico" centralizado r e estatizante de um governo de centro-esquerda. A presença da Globo Filmes viria. a saudável liberdade ~ I h Como lembra Butcher. p. em tese. Não por acaso. suprir o filme nacional daquilo que ele tem de mais frágil em relação ao poderoso concorrente norteamericano: os altos investimentos em matketing. Se eu fosse você (2006) e Muito gelo e dois dedos d'água (2006). tem sido responsável pelos maiores sucessos de público do atual cinema brasileiro. de outro. aqueles que levam. filmes que tiveram sua origem de produção na 1V Globo. A Globo Filmes tem como diretor artístico o homem de televisão e cineasta Daniel Filho. não pode assumir sozinha a responsabilidade pela cinematografia de um país. As estatais também entraram no jogo e a Petrobras. Em 2007 lancou uma versão atualizada para a São Paulo dos anos 1950 da obra de' Eça· de Queirós. já que os projetos são submetidos a júris compostos por membros de diversos segmentos sociais. mas efetiva apenas a partir de 2000. A dona da história (2004). entre os pretendentes. Ou temos sucessos retumbantes (raros) ou fracassos expressivos (a maioria). 76). Criada em 1997. Mesmo porque políticas mudam? como mudam os governos e suas prioridades. quando passaram a aplicar no cinema. por poderosa que seja. encarregaram seus departamentos de marketing de gercnciar as aplicações. são conseguidas à custa de êxitos isolados. promovendo disputadíssimos concursos públicos que. a Globo Filmes marca presença no mercado reciclando produtos televisivos em filmes (Os normais. o governo federal tentou propor em 2004 uma série de medidas e um marco regulatório para o audiovisual. O preço a pagar é certa domesticação da linguagem audiovisual. E os diretores de marketing não tiveram dúvidas em escolher.

O fato é que a comunicação com o público é mesmo um dado que não pode ser negligenciado. assumem-se.3 milhões. quase em sua totalidade.130. Outro grupo seria o dos "irreverentes críticos". e procur~m fazer "filmes inteligentes" que também tenham apelo popular. Pelo contrário. Auto da compadecida é um caso especial. Mas a maioria dos cineastas se insere 110 imperativo entretenimento de conquista de fatia maior de mercado (Xavier 2000). o confinamento experimental. Lírio Ferreira. mas sangrenta. Alguns exemplares. que procuram estabelecer um dialogo fértil entre as linguagens da televisa-oe do cinema e .). Mas não havia diálogo capaz de prosperar nesse clima de Fla-Flu ideológico. como é o caso de Jorge Furtado e o pes~~al da ~~sa de ClDe. Esse desafio problemático ainda está em aberto. em entrevista à revista Praga.. buscam faixas. Paulo (25/9/2004). como Oaniel Filho (Se eufosse você.ma de Porto Alegre. Baseado na peça muito popular de Ariano Suassuna. Central do Brasil. por outro grande sucesso da retomada.5 milhões). prêmio máximo do Festival de Berlim. foi originalmente uma microssérie de sucesso da Rede Globo em 1999. de "A luta de classes do cinema brasileiro". " Ao mes~o gr:upo de .1 milhões) e poucos mais. E há outros filmes. como sao os casos de O homem que copiava e Saneamento básico. fazendo um público de nada menos que 2. assim classifica essas diferentes atitudes no interior do cinema brasileiro. com 5.4 milhões de espectadores).intermediárias. aliás. O crítico Ismail Xavier. que permitem maior pluralidade de títulos. Outros. de ousadia formal e/ou empenho social (Cláudio Assis. asérie foi remontada para o formato de longa-metragem e lança da no cinema comercial. E neste ponto estamos. batalha de idéias travada na rnídia. que atingem faixasmuito grandes de público e agradam a várias camadas sociais e de escolaridades diferentes. que possa se dar ao luxo de ignorar a recepção social. Há os que desejam fazer um cinema crítico. Há um grupo que assume o pequeno público. que podemos chamar de populares e de boa qualidade.'5 . e Dois filhos de Francisco (Breno Silveira). 2006) ou Iayme Monjardim (Olga. publicado no estado de S. raros. Após curta. ainda. Alguns dialogam com a constelação modernista do cinema novo. basicamente. como é o caso exemplar de Sérgio Bianchi e seus Cronicamente inviável (2000) e Quanto vale ou éfor quilo? (2004). f. Um ano depois. é o limitado enraizamento As divisões internas Há hoje uma clara partição entre o cinema de mercado brasileiro e o cinema de empenho cultural brasileiro. Paulo Caldas etc. público. como as de Julio Bressane. . como Cazuza. Auto da compadecida (2. preservou-se o status quo. Como lembra Eduardo Escorel em Adivinhadores de água (2005).000 espectadores. com 3 milhões de espectadores. abertamente. os chamados BOs (baixos orçamentos). em artigo de jornal.6 milhão de espectadores no mercado interno e deu ao país seu primeiro Urso de Ouro. feito com dinheiro de renúncia fiscal. o caso já citado de Cidade de Deus (3. supostamente cionismo de tipo getulista. 2004). Não é pelo fato de o cinema brasileiro ser. gerando o que chamei. Guel Arraes também dirige filmes. Carandtru (4. acesso mais democrático aos poucos recursos disponíveis e obras com maior liberdade para experimentar. conseguem trafegar nas duas faixas. São casos raros. que deve ser levado em conta pelo estudioso do período. ~e que fez 1.afinidades pertence o diretor Guel Arraes. Temia-se que o público não se interessasse em ver um produto que já conhecera na televisão.do mercado e de expressão. a postura dos cineastas já se divide de antemão. Além de prestar serviços à TV. Ruy Guerra e Rogério Sganzerla e têm consciência de que atingirão apenas uma parcela limitada do público. entre poucos outros. entre setores da classe cinematográfica que defendem o financiamento de filmes caros. responsável. isto é. Guerra travada. 146 Papirus Editora Cinema mundial contemporâneo 147 . que não deveria ser desnacionalizado por força de fatores econômicos.semelhante a certa iconoclastia corrosiva dos anos 1970 e que se dedica a levantar um inventário de iniqüidades. como seria o caso d~ nomes como Julio Bressane e Andréa Tonacci. e os que acreditam mais no cinema de baixo custo. que divide com Daniel Filho a leitura de roteiros que possam interessar à Globo Filmes. pois estes seriam interessantes para o mercado. mas numa versão dramatúrgica mais ajustada ao mercado. Outros. tempo não pára (Sandra Werneck e Walter Carvalho). ou obras radicalmente autorais. como diretores de mercado. ° De maneira geral. Mas qual não foi a surpresa quando repetiu o sucesso da televisão nas salas comerciais. sem por isso perderem a integridade. ameaçada por um interven- O que estava em questão era a consideração da cultura como setor estratégico. alguns de sucesso como Auto da compadecida (2000) e Lisbela e o prisioneiro (2003). como seria o caso de Walter Salles.

na vida da pequena classe média paulistana. um de seus melhores filmes. Daí o evidente prazer com que os cineastas se entregam ao exercício das variações cinematográficas. Enquanto não se criar essa sensação de pertencimento. Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Estorvo (2000). a intenção clara de se mostrar como um filme que não . A terceira margem do rio (1994). e de cinebiografias de Gilberto Freyre (Casa grande e senzala. é não apenas falar desse personagem fascinante.cultural do cinema brasileiro junto ao público que permite seu desmanche de tempos em tempos. Resultados estéticos O cinema da retomada não foi feito apenas por jovens. mas torna a própria linguagem cinematográfica parte desse enredo. O mais interessante deles. como se aquele cinema que estava sendo liquidado não fosse seu. o trágico e poético O viajante (1998). De toda forma. sem que nenhum movimento a seu favor se esboçasse por parte da sociedade civil. 2000) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil. Carlos Reichenbach lançou Alma corsária (1993). Beto Brant e a dupla Lírio Ferreira e Paulo Caldas. A idéia. Nelson. também na época das vacas magras. Talvez não se possam queimar etapas e a criação de órgãos e políticas condizentes tenha de esperar por momento político mais propício. o cinema brasileiro praticamente desapareceu. aqui. Baile perfumado e Os matadores deve ser valorizado. Saraceni é responsável por um dos mais belos filmes do período. Orfeu (1999). leva novamente para a tela um romance de Gabriel García Márquez. todos preocupados com a renovação da dramaturgia e da própria linguagem dominante no cenário cinematográfico. Começou com o pequeno filme-musical de episódios Esta é a canção e prosseguiu com títulos comercialmente mais ambiciosos como Tieta (1996). também deram seguimento a suas carreiras. Deus é brasileiro (2003) e O maior amor do mundo (2006). Garotas do ABC (2004) e Bens confiscados (2005). como fazê-lo com um sentido cinematográfico muito acurado. como Tata Amaral. como já vimos. as angulações inusitadas. Cacá Diegues é um dos veteranos mais prolíficos da retomada. começaram a aparecer no cenário novos nomes. Tem trabalhado incessantemente e lançado filmes como Dois córregos (1999). Brasilia 18% (2006). donde o encanto produzido pela justaposição das velhas imagens em preto-ebranco captadas pelo Abrahão verdadeiro e aquelas. Esse é um processo histórico. no Brasil é coisa para um futuro consistentes puderem ser desenvolvidas e quando se estabelecer uma demanda social por ele. uma expectativa de fato enraizada na sociedade e que não possa ser desfeita por um decreto. O surgimento simultâneo de obras de estreantes da qualidade de Um céu de estrelas. talvez. o cinema' nacional continuará ameaçado pelo sobe-e-desce dos ciclos. Já durante os primeiros anos da retomada. não parece haver clima para um desmanche radical como o que ocorreu no início dos anos 1990. Um céu de estrelas. adaptação radicalizada do romance de Chico Buarque. nem tanto pelos aspectos temáticos dessas obras mas pelo sentido de inovação na maneira de narrar. tenha a ver com a capacidade de renovação do seu quadro de criadores. o cinema brasileiro tem produzido alguns resultados expressivos. a casa. lançando depois um thriller político. com a câmera rente a personagens. 2004). em seus medos e suas aspirações. nomes do cinema novo. baseado mergulha em romance de Fernando Bonassi. Ainda à espera dessa estabilidade que talvez não venha a se confirmar tão cedo. Cinema mundial contemporâneo 149 Paulo César Saraceni. vertiginosas. conseguiu colocar na tela uma adaptação de contos de Guimarães Rosa. Adota um sistema de filmagem em locação fechada. de quem já havia adaptado Cândida Etêndita. com ritmo próprio. A sociedade agiu como se aquilo não fosse com ela. responsável pelas únicas imagens em movimento de Lampião e seu bando. Com O veneno da madrugada (2004). Vê-se neles não apenas o desejo de tratar adequadamente de temas sentidos pelos realizadores como urgentes. tirado da obra de Lúcio :\ 148 Papirus Editora . antes das leis de incentivo e do sucesso de Carlota Joaquina. Reichenbach sentimentos tem evoluído para uma linha aparentada ao cinema de do italiano Vale rio Zurlini (1926-1982).se limita a contar uma história interessante. produzidas pela dupla de cineastas de Recife. interpretados com grande intensidade por Leona Cavalli e Paulo Vespúcio Garcia. mas por cineastas veteranos que prosseguiram suas carreiras ao longo dos anos 1990 e 2000. Cardoso. mas prestar uma homenagem ao próprio cinema. Baile perfumado focaliza a trajetória de um personagem real. Cacá Diegues. no auge da paradetra. No começo dos anos 1990. Ruy Guerra assina um dos títulos formalmente mais inventivas da retomada. construído numa linha tênue (e tensa) entre política e poética. mais estável políticas mais quando Mas o estabelecimento de um "sistema" cinematográfico talvez distante. o mascatefotógrafo libanês Benjamin Abrahão (vivido por Duda Mamberti). alguns de forma marcante.

em doses semelhantes. O invasor (2001). Os filmes de Furtado se destacam por roteiros muito bem amarrados e pródigos em subtextos. um tipo de crítica social baseado na desconstrução da pretensa lógica do capital. Assim. cooperação que se estenderia por vários outros filmes. vendedor de remédios. de Carlos Gerbase. Em linha mais suave. emerge uma força particular. o grupo passou a manter um trabalho misto.Outro nome de destaque no grupo pernambucano é Cláudio Assis. que. dirige um belíssimo Cinema. De fato. Um.Os matadores e O invasor (de Marçal Aquino). televisão. respiros e elisões. O filme segue a trajetória de um simples tomate. seus impasses políticos. sendo recusado como alimento de animais. com abertura para o público internacional . Laís Bodansky. pode-se pensar que grupos mais coesos. No controverso e sem concessões. O cearense Karin Ainouz. mas a intenção crítica do que mostra é mais que evidente. produzindo especiais para a TV Globo (como "Comédias da vida privada" e outros) e dedicando-se a longas-metragens como Tolerância (2000) e Sal de prata (2005). histórias de jovens que podem ser apreciadas por espectadores em busca de diversão. nem visão de mundo. faz o seu percurso implacável. Os matadores (1997) inicia a fértil parceria entre o cineasta Beto Brant e o escritor Marçal Aquino. em Baixio das bestas a história se passa na Zona da Mata. o grupo tem se empenhado em estabelecer um diálogo frutífero entre cinema e '150 Papirus Editora o mito da diversidade Bicho de sete cabeças (2000) é outro título importante Alguns grupos. porém consumido pelas pessoas que se servem dos restos de um lixão. sobre o relacionamento entre um brasileiro e um alemão. de Jorge Furtado. suas opções morais flutuantes . não trabalhavam com a homogerieidade dos Cinema mundial contemporâneo 151 -\ 1- . Outro grupo que pode ser identificado é o da Casa de Cinema de Porto Alegre.seus filmes têm ido a festivais de cinema como os de Cannes e Havana. da fricção entre beleza convulsiva e cenas repugnantes. O homem que copiava (2003). mais imediato. Outro. também pernambucano. com Madame Satã (2002) e O céu de Suely (2006). Crime delicado (de Sérgio Sant'Anna) e Cão sem dono (de Daniel Galera). este co-dirigido por Renato Ciasca. Crime delicado (2005) e Cão sem dono (2007). que tenta incorporar em sua linguagem a rebeldia e a violência. sob o rótulo da "diversidade". O filme foi premiado em Berlim e teve enorme repercussão e influência (há quem o tenha como modelo para o sucesso francês O fabuloso destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre [eunet. característica que também não deixa de espelhar uma tendência da época. como são os "movimentos" cinematográficos.uma constante da sociedade brasileira dos anos 1990 e 2000. é mais corriqueiro os indivíduos produzirem isolados do que se associarem em grupos de afinidade. funcionam como uma espécie de exceção à regra do cinema da retomada que. a sensação dominante em relação ao cinema brasileiro contemporâneo é de isolamento de seus componentes. É um filme de pulsação jovem. no interior dos quais seriam debatidos propósitos. e baseia-se nas relações perversas entre um grupo de agroboys e as prostitutas do local. essa densidade se põe a serviço de uma história de outsiders do centro velho de Recife. A partir de então. Marcelo Gomes. que se destaca tanto pela radicalidade de suas propostas como pela concentração estética que busca em seus trabalhos. sempre. região canavieira decadente. que narra a internação que sofreu por uso de drogas. assinado por Jorge Furtado. é outro nome que vem se impondo pela qualidade de seu trabalho. o produto mais vistoso do grupo foi o curtametragem Ilha das Flores ([989). nem elementos políticos comuns. Da intensidade visual e corporal de Madame Satã à delicadeza e rarefação de Suely. de uma jovem realizadora. Como não existe preocupação dominante. durante a Segunda Guerra. aspirina e urubus (2005). como Ação entre amigos (1998). Formado por laços de afinidades tanto afetivas como políticas. que condensou uma linguagem. dois níveis de leitura. Seus filmes (salvo A. Brant parece um cineasta em franca evolução. revelou-se um diretor que encontrou uma linguagem própria. mas não menos incisiva. adaptação da obra de Austregésilo Carrano. filme de silêncios. No final dos anos 1980. ideológica ou estética a partilhar. Houve wna vez dois verões (2002). Assis foi acusado de misoginia pelas cenas de agressão às prostitutas. Em Amarelo manga (2002). É filme de imagens tão chocantes quanto deslumbrantes e. semelhanças e diferenças entre pares. vive uma espécie de alegre anarquia ternática e de linguagem.ção entre amigos) são adaptações bastante felizes e originais de obras literárias . descartado pela seleção industrial. Meu tio matou um cara (2004) e Saneamento básico (2007). como o dos pernambucanos e o dos gaúchos. 2001). em que se debatem as questões éticas do país. Buscam.

positivo. Em seu livro A ponte clandestina. preferidos. como a recuperação da história nacional em Carlota [oaquina. Pouco reflexivo. as ilusões e as desilusões com a democracia. para o neo-realismo italiano. é possível encontrar linhas de força nessa produção. Fernando Solanas. as crises econômicas. como se isso. mais voltados para chamar a atenção sobre um ou outro filme específico do que para efetivamente discutir questões estéticas. Quer dizer. e nesta época específica. é louvada pela variedade de gêneros. mas talvez seja esse um traço universal e não especificamente brasileiro. Prevalece a abordagem "filme a filme" e evitam-se. no modelo adotado. For ali. textos teóricos. Por parte da crítica. O caso mais óbvio é o sotaque nordestino convenientemente temperado nos laboratórios do Projac. encontros em festivais etc. Quanto à produção cinematográfica propriamente dita. como se esse rótulo resolvesse problemas e impasses. entregue a iniciativas individuais em busca de financiamentos difíceis. pela emissora dominante. Brava gente brasileira (2000). temáticas e linguagens. A idéia subjacente é que uma oferta múltipla seria automaticamente vendável. para atrair públicos distintos pelo que têm de típico. A solução foi apresentá-Ia como dotado de uma qualidade. Cronicamente inviável. Os "manifestos" são mais anedóticos do que realmente refletidos. grandes generalizações. A mesma perspectiva de esquerda num quadro desenvolvimentista. políticas ou mesmo de produção. De fato. e outras prosódias são tidas como variantes toleradas. por imperfeita e limitada que seja. Desmundo (2002). Assim. o que tivemos ultimamente em termos de "movimentos". a releitura dos espaços míticos como o sertão e a favela (Corisco e Dadá. Dogma Feijoada. O invasor. por exemplo. Uma certa cinefilia. que não se acomoda em clichês ou simplificações vazias como a da diversidade. uma exceção que confirma a regra e se resumiu a uma série de preceitos de ascetismo cinematográfico que visava dar ao cinema certa pureza original perdida com o excesso de tecnologia e os altos orçamentos? Rara e rala também é a reflexão (em especial por escrito) sobre o fazer cinematográfico no Brasil. a não ser o breve Dogma 95 dinamarquês. De certa forma. O que é isso. parecia natural que. o acento carioca é adotado como o "oficial" do país. Glauber Rocha. e assim por diante. tais como Dogma 1. a produção dos anos 1990 e começo dos 2000 espelhou um país cheio de contradições. as primeiras trocas de presidentes em eleições livres. companheiro?. Nada parecido com isso pode ser observado no cinema brasileiro con temporàneo. sem contornos definidos. E mesmo em suas vendas no exterior. Como nascem os anjos). Sabe-se também que a ideologia da diversidade pode abrigar outros significados. tudo isso está expresso e retratado. o cinema brasileiro contemporâneo se assemelhasse mesmo a uma massa informe. a "diversidade". por si só. Baile perfumado. os casos de corrupção. à disposição da clientela que sai à procura dos seus produtos Apesar desse discurso da diversidade. O primeiro dia. para o cinema novo brasileiro. esse cinema se concentrou em temas que se revelavam prementes. estabelecida entre diretores como Fernando Birri. o reposicionamento da identidade nacional em um mundo globalizado (Policarpo Quaresma.99. oferecidas nas gõndolas de um bem abastecido supermercado do imaginário. De resto. Orfeu). Estorvo) ete. que trabalha com uma pluralidade diluída de sotaques e culturas para encontrar mercado para seus produtos em todos os rincões de um país de dimensões continentais. Sertão das memórias. Julio García Espinosa. em especial no que se refere aos recortes temáticos. os solavancos de uma redernocratização recente. por perigosas. mas sabemos o que é feito em seu nome. Hans Staden (1999). há também dificuldade de apreender em conjunto essa produção tão informe. Estenda-se o que foi dito sobre a forma de falar a outras características regionais e se terá a fórmula mercadológica da tão decantada "diversidade". os filmes sendo mercadorias bastante diferentes entre si.seus membros. 152 Papirus Editora Cinema mundial contemporâneo 153 . o crítico José Carlos Avellar mostra a "intertextualidade" entre os cineastas do continente. mas de qualquer forma partilhavam alguns interesses. a questão do abismo de classes sociais e a violência urbana (16060. feita por meio de manifestos. Guerra de Canudos (1997). assegurasse sua força. para a nouvelle vague. mas não tão diferentes a ponto de se correr o risco de assustá-los. Amélia. Uma política de esquerda e reconstrução de um país devastado. A "diversidade" aqui não passa de um álibi comercial e as pequenas diferenças comparecem na medida adequada. BOAA (Baixo Orçamento e Alto Astral). a reinterpretação da luta armada (Lamarca.. Cabra cega). difícil de ser apreendida e pensada em conjunto. Jorge Sanjinés e Tomás Gutiérrez Alea (Avellar 1SJ95). Toma-se esse termo como valor em si. ideais e pressupostos comuns. para que não ofenda um natural da região nem cause tanta estranheza a um carioca ou a um gaúcho. Tentativas nesse sentido parecem ainda incipientes.

um padrão naturalista. Mesmo periodizações precárias. a cultura é a regra. Todos esses fatores dispersivos dificultam a apreensão conceitual do cinema feito da época pós-Collor até agora. 154 Papirus Editora Referências bibliográficas São Paulo: Editora 34. quanto aos aspectos temáticos. por exemplo. Mas não é isso que está em pauta. França e Espanha. apesar de todas as dificuldades e carências. No institucional. que se esboçavam os passos para que a já longa etapa da renúncia fiscal via leis de incentivo pudesse ser superada por uma verdadeira política para o setor com a criação da Ancine (Agência Nacional de Cinema). em tese. pouco espaço para a inovação. feitos nestes anos. Cinema brasileiro hoje. de fato. devem se estender à distribuição e à exibição. estaremos condenando filmes a serem jogados de qualquer jeito no circuito. de uma diversidade ativa e não pró-forma ou mercadológica. Em meu livro Cinema de novo (2003) propus que o filme Cidade de Deus encerrasse simbolicamente esse ciclo. nos filmes que foram Avanços possíveis Esses avanços teriam de se dar em vários níveis. já que não só o cinema brasileiro. Quanto às considerações estéticas. do ponto de vista da linguagem cinematográfica. batizada pela mídia de "retomada". CAETANO. concordamos ambos em um ponto: o cinema brasileiro tem ainda muito que avançar antes de estar seguro de que este não será um ciclo. E possivelmen te responsável pela sensação de relativa estagnação estética que. Essas políticas. já alcançara certo patamar que o colocava além da situação emergencial que o termo conota. Céu de Suely. A ponte clandestina. Cinema mundial contemporâneo 155 . a exemplo das que têm países como Argentina. Crime delicado. além disso. Assim. Isso. essa política não pôde se efetivar. Madame Satã. parece também natural que outro grupo de associação se desse melhor na luta pela captação de recursos e conquista do mercado. Redentor. Rio de Janeiro: Contracampo-Azougue.) (2005). Essa talvez seja a mais notável característica atual. é pelas frestas do mercado que alguns artistas conseguem impor filmes realmente destoantes desse mainstream. por exemplo. Periodizações diferentes à parte. com início. Talvez seja interessante observar o que será do relacionamento futuro entre essa indústria incipiente do audiovisual e as obras de exceção que a negam e. mas como processo ainda em curso. que é a das novelas da TV Globo. como esta. com as exceções de praxe. Mas. Amarelo manga. e Cidade de Deus.com suas devidas formações e deformações ideológicas. de Fernando Meirelles. fazem o cinema avançar. como foram os outros. Sobra. no quadro do governo de Luis Inácio Lula da Silva. bastante refratário ao produto nacional. E a regra é que o conservadorismo estético domina amplamente a produção brasileira contemporânea. a ousadia temática. Como vimos. prevalece. cômico ou melodramático já estabilizado pelo mercado. milito longe de ter atingido um patamar ideal. a arte é a exceção. pelo contrário. Caso contrário. de modo geral. obviamente. O constante desafio pelo mercado tende a conduzir a um tipo de expressão banal. BUTCHER. Em falta de grupos conceitualmente mais consistentes. Essa habilidade não impediu que delas saíssem filmes muito interessantes como Eu tu eles e Casa de areia. para aquilo que seria o exercício. em meio à pretensa "diversidade". José Carlos (1995). AVELLAR. Argumentava que uma atividade não pode ficar se retomando eternamente e que o cinema brasileiro. Afora realizações isoladas de maior empenho artístico. Pedra (2005). que se aproxima da linguagem audiovisual dominante de ficção. como a carioca Conspiração e a paulista 02. de empresas vindas da publicidade.i: q I j . Pedro Butcher (2005) propõe que. seria saudável a existência de políticas efetivas para o desenvolvimento do audiovisual. parece prevalecer o desafio da inserção num mercado. de Claudio Torres. meio e fim. quer dizer. parece dominar o cenário atual. dois casos bem-sucedidos de inserção no mercado. ainda está em plena fase de reestruturação. a retomada seja vista não como etapa vencida. revela-se polêmica. e sim a irreflexão do cinema brasileiro contemporâneo. uma produção bastante rotineira. São Paulo: Publifolha. por isso. Cinema brasileiro 1995-2005: Ensaios sobre uma década. ao contrário. não podem se limitar à produção. Estorvo e poucos outros são as exceções que confirmam a regra. de Andrucha Waddington. pode-se dizer que. por pressões diversas. Daniel (org. no entanto. mas o cinema no Brasil. Achava. incluindo a de grupos que se beneficiam desses incentivos fiscais e não parecem dispostos a abrir mão deles. Baixio das bestas. de qualquer modo. E acrescentava que era da natureza da regra desejar a morte da exceção. portanto. sem nenhuma oportunidade concreta' de encontrar seu público potencial. a pesquisa de linguagem. progressista. títulos como Um céu de estrelas. Como dizia Godard. São os casos.

____ São Paulo: Hucitec. SINGH JR. Adeus. Cinema brasileiro. Anos 90. Ensaios sobre o cinema Pazulin. O cinema da retomada. VIEIRA. ator e cineasta mais premiado do cinema brasileiro. São Paulo: Massao Ohno. lsmail (2000). João Luiz (org. (2006). História do cinema brasileiro. Rio de Janeiro: do simulacro. São Paulo: Art Editora. Oséas (1993). XAVIER. Lúcia (2002). Fernão (org. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil-Rio. A utopia no cinema brasileiro.) (1990). cinema: Vida e obra de Anseimo DLwrte. Cinema São Paulo: Estação Liberdade. de novo. São Paulo: Cosac & Naify. Luiz Zanin (2003). NAGIB. André (1998). In: Praga: Estudos (2007). São Paulo: Cosac & Naify.. Eduardo (2005). 9 uuestões.ESCOREL. RAMOS. Um balanço crítico da retomada. lmp ulsos críticos do Latão. Adivinlradores de água. Companhia . São Paulo: Editora 34.u \0 / 156 Papirus Editora . "O cinema Marxistas.). São Paulo: Vintém/ brasileiro dos anos 90". PARENTE. ____ ORICCHIO. do cinema moderno.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->