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Amilase e Lipase

Amilase e Lipase

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362

ARTIgO ORIgINAl

Margarida Ferreira1, Regina Coelho2, José Luzio2, Paula Coutinho2

Elevação da lipase e amilase no doente crítico. Estudo retrospectivo
Increased lipase and amilase levels in critically ill patients. Retrospective study

1. Acadêmica do Internato Complementar de GastrenterologiaServiço de Gastrenterologia Centro Hospitalar de Coimbra EPE, Portugal. 2. Especialista em Medicina Intensiva, Serviço de Cuidados Intensivos do Centro Hospitalar de Coimbra EPE, Portugal.

RESUMO Objetivos: A elevação da lipase e amilase séricas são frequentemente encontradas em doentes internados em unidade de terapia intensiva sem que exista doença pancreática prévia, constituindo um desafio diagnóstico e terapêutico. Baseados nesta evidência os autores propuseram-se a determinar a incidência de hiperlipasemia assintomática nos doentes críticos, fatores desencadeantes e evolução clínica destes doentes. Métodos: Estudo retrospectivo dos doentes internados na unidade de terapia intensiva de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2006, excluídas internações por pancreatite aguda, história de patologia pancreática, insuficiência renal ou falta de dados. Pacientes foram distribuídos em dois grupos (com e sem hiperlipasemia) e feita comparação considerando diversas variáveis clínicas, laboratoriais, imagiológicas. Análise estatística: SPSS 13; testes t de Student e qui2 (IC 95%), com significância estatística se p<0.05. Resultados: Incluidos 102 doentes, a

hiperlipasemia esteve presente em 39.2% deles. Lipase média de 797U/L. Os doentes com hiperlipasemia tiveram mais dias de internação (p<0.001), nutrição parenteral (p<0.001), ventilação mecânica (p=0.04), temperatura >38 ºC (p<0.001), hiperamilasemia (p<0.05), hiperbilirrubinemia (p=0.003) e elevação das transaminases (p=0.001), sem diferença significativa em diagnósticos, sexo, idade, APACHE II, SOFA, SAPS, mortalidade, hipotensão, fosfatase alcalina, hemoglobina, lactato, tolerância à nutrição enteral e utilização de propofol. O estudo radiológico revelou alterações morfológicas do pâncreas em dois doentes com hiperlipasemia. Conclusões: A elevação da lipase sérica foi frequente, relacionou-se com internação prolongada, mas não se acompanhou de aumento dos índices de gravidade clínica ou mortalidade. Foi mais frequente nos doentes submetidos a nutrição parenteral. Uma minoria preencheu os critérios de pancreatite aguda. Descritores: Pancreatite; Lipase; Amilases; Unidades de terapia intensiva

Recebido do Serviço de Cuidados Intensivos, Departamento de Anestesiologia e Cuidados Intensivos do Centro Hospitalar de Coimbra EPE, Portugal. Submetido em 01 de Julho de 2008 Aceito em 10 de Novembro de 2008 Autor para correspondência: Margarida Ferreira Serviço de Gastrenterologia Centro Hospitalar de Coimbra EPE Quinta dos Vales, São Martinho do Bispo, Coimbra, Portugal Tel: 936488695 E-mail: magaidaferreira@gmail.com

INTRODUÇÃO A amilase e a lipase séricas são largamente utilizadas como marcadores de inflamação pancreática, contudo a sua elevação nem sempre prediz a presença de doença pancreática.(1) Podem estar elevadas em algumas situações que mimetizam a pancreatite aguda (Quadro 1), nomeadamente outras doenças intra-abdomiais como doenças do trato biliar, processos de oclusão ou isquemia intestinal, apendicite aguda, entre outros.(1,2) A especificidade das enzimas está também reduzida na insuficiência renal, doença hepática, abuso de álcool e várias doenças extraabdominais. Por exemplo, em doentes com insuficiência renal sem dor abdominal, encontra-se hiperlipasemia em 80%. Estas elevações começam a ser evidentes com clearance da

Rev Bras Ter Intensiva. 2008; 20(4): 362-369

não recomendando a monitorização por rotina das enzimas nestes doentes. HIV – Virus Imunodeficiância humana A elevação destas enzimas verifica-se com frequência nos doentes críticos internados em unidades de terapia intensiva sem que haja evidência cínica de pancreatite aguda e/ ou outra patologia pancreática. vários meses ou anos após um acidente. fármacos com ação cardiovascular. ocasionalmente. Baillie J. AGA Institute technical review on acute pancreatitis.(3) O diagnóstico de pancreatite. assim como avaliação da gravidade e evolução clínica dos doentes. 5) lama biliar. existindo poucos estudos que esclareçam o seu significado clínico. tumores ou hemorragias intracranianos. 3) alterações metabólicas como hipertrigliceridemia e hipercalcemia provocada ocasionalmente por administração endovenosa de cálcio. 2) fármacos. 2008. Denz et al. doentes com traumatismos abdominais e doentes submetidos a cirurgia cardíaca. colecolangite. o diagnóstico de pancreatite aguda requer a presença de pelo menos duas das seguintes características: 1) dor abdominal típica.. principalmente por lesão do Wirsung a nível do corpo.9) A elevação das enzimas é observada.8.Causas de elevação dos níveis séricos de amilase e lipase Amilase lipase Pancreatite aguda Pancreatite aguda Pseudocisto pâncreas Pseudoquisto pâncreas Pancreatite crónica Pancreatite crónica Carcinoma pâncreas Carcinoma pâncreas Doença trato biliar (colecistite. de alterações radiológicas do pâncreas ou de relevância clínica. e possíveis fatores associados com esta elevação.(3) Liu et al. a avaliação da gravidade do quadro e o uso de exames complementares imagiológicos assenta em critérios e diretrizes cientificamente estabelecidas. AGA Institute Governing Board. grandes cirurgias (bypass cardiopulmonar ou aneurismas toracoabdominais). propofol. os autores propuseramse a efectuar um estudo cujo principal objectivo foi determinar a frequência de hiperlipasemia nos doentes críticos internados numa unidade de terapia intensiva. situação que é frequente nos doentes acamados e naqueles submetidos a nutrição parenteral. (2) MÉTODOS Realizada uma análise retrospectiva de 189 processos clínicos referentes a internações consecutivas na unidade Rev Bras Ter Intensiva.10) Episódios recorrentes de pancreatite aguda podem ocorrer. infecção.(10. ressonância magnética). Com base nesta problemática.7) Estão descritos alguns fatores que podem condicionar alterações inflamatórias a nível pancreático no doente crítico. em doentes com traumatismo. contudo não se acompanhou. como por exemplo alguns antibióticos. Doença trato biliar (colecistite aguda.Elevação da lipase e amilase no doente crítico. Review.132(5):2022-44. verificaram que 15% de um grupo de doentes admitidos por trauma. a elevação das enzimas pancreáticas em doentes críticos constitui um desafio. 363 creatinina inferior a <50 ml/min. verificaram que a presença de hiperlipasemia foi comum. tomografia abdominal computorizada (TAC). 2) amilase e/ou lipase superiores a três vezes o normal e 3) achados característicos nos exames de imagem (ultrasonografia. colangite.(5) Noutro estudo prospectivo com 130 doentes críticos. tumor ou outras lesões intracranianas apresentavam elevação da amilase e lipase. na maioria dos casos. 2007.(4) Quadro 1 . sem nenhuma evidência clínica ou radiológica de pancreatite. não asseguram o diagnóstico definitivo.5. embora podendo suportar o diagnóstico de pancreatite aguda.(7) Em suma.(2.(3. alterar terapêuticas ou fórmulas de alimentação.Gastroenterology.(3. Foram escolhidos os níveis de lipase por serem mais específicos e ligeiramente mais sensíveis que os valores da amilase no diagnóstico de pancreatite aguda.11) A hiperamilasemia no contexto de cirurgia cardíaca deve-se fundamentalmente à diminuição da excreção urinária e não propriamente a lesão pancreática assim como tem sido dada cada vez mais relevância à administração endovenosa de cálcio.6. permanecendo dúvidas quanto à orientação diagnóstica e terapêutica: necessidade de realizar mais exames complementares nomeadamente radiológicos. por exemplo. Esta elevação pode refletir uma produção pancreática ou extrapancreática. AGA Institute Clinical Practice and Economics Committee. que ocorre por exemplo no choque circulatório. Segundo as diretrizes de 2006 do American College of Gastroenterology (ACG).6. Esta falta de especificidade implica que estas duas enzimas. etc. 20(4): 362-369 . tais como: 1) isquemia por hipoperfusão. coledocolitiase) docolitiase) Oclusão/suboclusão intestinal Isquemia intestinal Perfuração intestinal Apendicite aguda Gravidez ectópica Insuficiência renal (<50 ml/min) Parotidite Macroamilasemia Cisto ovário/neoplasia ovário Carcinoma pulmão Cetoacidose diabética Infecção pelo HIV Traumatismo intracraniano Oclusão/suboclusão intestinal Apendicite aguda Doença inflamatória intestinal Insuficiência renal Alcoolismo Bulimia/anorexia nervosa Neoplasias malignas Hepatite C Adaptado de: Forsmark CE.

bacteremia. anemia (hemoglobina<8g/dl). O grupo de Rev Bras Ter Intensiva. com posterior normalização. doentes com antecedentes de patologia pancreática benigna ou maligna.0 de 2007. Luzio J. Os doentes que desenvolveram hiperlipasemia apresentaram uma média de idades mais baixa. coleções líquidas peripancreáticas ou retroperitoneais). teste de Mann-Whitney. médias.8 U/L (min=3. Eram do sexo masculino 65. 2) dados demográficos e clínicos: idade. dias de internamento.05). alterações pancreáticas sugestivas de pancreatite na ecografia abdominal (aumento volume pâncreas. Considerado estatisticamente significativo valores de p>0. diminuição da ecogenicidade. 3) outros dados laboratoriais e imagiológicos: transaminase glutamil oxalacética (TGO) (>2 vezes o valor normal). em média. contudo a relação não apresentou significância estatística. Verificou-se maior percentagem de doentes com história de hábitos etílicos e hepatopatia crónica no grupo com hiperlipasemia. procedemos a uma análise discriminante utilizando o método stepwise.001) nos doentes com lipase elevada. considerados valores alterados quando lipase>300 UI/L e amilase>115U/L. máx -4594). com o objetivo de identificar as variáveis que diferenciam os doentes que não desenvolveram hiperlipasemia dos que a desenvolveram. 37. Posteriormente.5% (n=15) apresentavam valores de lipase superiores a 3 vezes o normal. Excluídos pacientes com <18 anos e internações com menos de 72 horas. RESUlTADOS Dos 102 doentes envolvidos no estudo. mortalidade. não apresentando alterações radiológicas e verificando-se elevação da lipase durante 5 dias. febre (temperatura axilar>38ºC). áreas heterogêneas com alteração da densidade do parênquima. mediana e desvios padrão e amplitude semi-interquartílica) e medidas inferenciais (teste t de Student para diferença de médias. irregularidade de contornos.364 Ferreira M. A tolerância à alimentação enteral foi avaliada pela presença de estase gástrica. tipo de alimentação (enteral e parenteral) e tolerância. Destes. Foram incluídas internações do foro clínico. foi semelhante em ambos os sexos. na versão 16. sendo a média de amilase neste grupo de 64. Os doentes foram subdivididos em 2 grupos: 1) lipase normal. hipotensão arterial (pressáo sistólica<90mmhg). Foram recolhidos do processo clínico as seguintes informações: 1) níveis séricos de amilase e lipase: registados os valores até à normalização e calculado o número de dias de elevação da lipase. presença de coleções peripancreáticas ou retroperitoneais) e tomografia abdominal computorizada (edema localizado ou difuso. transaminase glutamil pirúvica (TGP) (>2 vezes o valor normal). coeficiente Odds Ratio e respectivo intervalo de confiança a 95% e análise descriminante). O valor máximo de lipase sérica (4594 UI/ml) registou-se num doente de 72 anos com falência respiratória no contexto de uma rickettsiose. Foram recrutados para o estudo um total de 102 doentes. Para o tratamento estatístico dos dados do estudo foi utilizado o programa SPSS (Statistical Package for the Social Science). Foram calculadas medidas descritivas (frequências absolutas e percentuais. sexo. 20. fosfatase alcalina (FA) (>2 vezes o valor normal). 6. terapêutica com propofol a 2%. máximo (max)= 30 dias). Foi feita comparação entre os dois grupos nas variáveis estudadas. 2008. 5) terapêutica e nutrição: necessidade de ventilação mecânica.538).6% (n=10) apresentavam valores de lipase superiores a 3 vezes o normal. com ou sem hiperlipasemia.5% (n=24) doentes. hiperglicemia >300mg/dl. Verificou-se diferença estatisticamente significativa nestes dois grupos de doentes (p<0. A média da lipase sérica foi de 797 UI/ml (min -= 13. Sequential Organ Failure Assessment (SOFA). tolerância da alimentação.8% (n=5) não apresentavam hiperlipasemia. após devida autorização do Comite de Ética. 4) Índices de gravidade: Acute Physiological and Chronic Heatlh Evaluation (APACHE) II. teste Quiquadrado.2% desenvolveram hiperlipasemia. Coutinho P de terapia intensiva de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2006. Dos doentes com hiperamilasemia e hiperlipasemia concomitantes. Destes doentes. max=703). máx=345) e 79. hábitos etílicos ou patologia hepática conhecida.05). Coelho R. 52. Verificou-se tempo de internação significativamente superior (p<0. 2) lipase elevada.7% doentes (Tabela 1). 20(4): 362-369 . não se tendo registrado diferenças com significado estatístico nos dois grupos (p=0.15 dias (mínimo (min)=1.1% (n=19) apresentavam concomitantemente hiperlipasemia sendo nestes a média de lipase 140. tendo sido excluídas internações por pancreatite aguda. verificandose que a proporção de casos. doentes com creatinina sérica>2mg/dl ou internações com falta de dados clínicos. Os valores de amilase e lipase foram dosados em todos os doentes admitidos na unidade de terapia intensiva no período considerado. A elevação da amilase sérica observou-se em 23.5mEq/L. apagamento gordura.05. cirúrgico e neurocirúrgico. Simplified Acute Phisiology Score (SAPS) II. verificou-se que 39. Os diagnósticos encontram-se discriminados na tabela 2. considerando-se a lipase a variável dependente. mas a diferença para o grupo dos que não desenvolveu hiperlipasemia não foi estatisticamente significativa (p>0. lactato elevado >2. estando esta elevada. hiperbilirrubinemia >2mg/dl.6 U/L (min=30. contudo sem significância estatística na comparação dos dois grupos como se discrimina na tabela 2.

070 0.146 0.7 ± 20.971 APACHE .8 ± 5. Analisando a tabela 3 podemos constatar que as diferenças estatisticamente significativas ocorrem apenas nas proporções de casos de hipertermia.3 15 (24.8 ± 3.5%) 4 (6.3%) 102 (100%) Rev Bras Ter Intensiva.757 0.3) - Valor de p 0. elevação das transaminases e fosfatase alcalina. 365 doentes com hiperlipasemia apresentou resultados mais elevados nos três índices de gravidade estudados (APACHE II.515 0. hiperglicemia e bacteremia.1%) 32 (31.5%) 2 1 0 2 6 7 6 22 (21.2 18. Em termos de mortalidade.476 0.001 0.2 6.5 13. No tocante às características clínicas e analíticas dos doentes (Tabela 3) verificamos que os que desenvolveram hiperlipasemia tiveram mais frequentemente sintomas. 20(4): 362-369 .9 ± 15.7%) 1 8 0 1 1 1 18 (17.Sequential Organ Failure Assessment.Diagnósticos clínicos Diagnóstico (n) Clínico Choque séptico Falência respiratória Falência cardíaca Sindrome Hellp Tétano Choque anafilático Cirúrgico Cirurgia emergente Cirurgia vascular Cirurgia torácica Cirurgia hepática -Cirurgia gastrointestinal Cirurgia geral Politraumatizado Neurocirúrgico TCE Tumor/lesao expansiva Aneurisma Total* TCE. hipertermia. Em relação ao tipo de alimentação efetuada (Tabela 4) os doentes submetidos a nutrição artificial (parenteral ou Hiperlipasemia Não Sim (n = 62) (n = 40) 40 (64.45%) 4 (10%) 3 (4.83%) 2 (5%) Odds ratio (IC95%) 1.4 ± 5.Traumatismo cranio-encefálico.Elevação da lipase e amilase no doente crítico.3 38.3%) 42 (41.Acute Physiology And Chronic Health Evaluation.5%) 55.7%) Lipase elevada 12 (11.8 ± 18. Tabela 1 . teste de Mann-Whitney Tabela 2 .5 ± 6.2%) 5 (12.6%) 3 0 1 1 3 1 6 10 (9.0 ± 3. SOFA .072 <0.5%) 7 10 5 62 (60.Variáveis demográficas e clínicas Variáveis Sexo masculino Idade (anos) Tempo de internação (dias)* APACHE II SOFA SAPS Mortalidade História de hábito etílico História de hepatopatia crónica como hipotensão.7 5.4 (0.9 19.5%) 27 (67. SAPS .5 48.8 7.3%) Total 28 (27.1 (0.Simplified Acute Physiology Score * Mediana ± amplitude semi-interquartílica. *p=0. também não se verificou diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos. hiperbilirrubinemia. 2008.6) ----------0.2 ± 15.4 41. de elevação das transaminases e hiperbilirrubinemia.538 Lipase normal 16 (15.1 – 1. Em relação à elevação do lactato a proporção é mais elevada no grupo de doentes que não desenvolveu hiperlipasemia .4 ± 3. SOFA e SAPS) mas as diferenças para o grupo de doentes que não desenvolveu hiperlipasemia não foram estatisticamente significativas.8%) 9 1 0 40 (39.6%) 1 14 1 0 0 0 24 (23.5 – 2. anemia.239 0.

6) 2.079 PAS – pressão arterial sistólica.6 (0. 2008.5%) 27 (43.6%) 28 (70.5%) 14 (35. Não se verificou diferença na tolerância á alimentação enteral nos dois grupos.7 – 9.863 0.040 0.6%) dos doentes sem hiperlipasemia.5%) 22 (35.7 – 25.0%) 1 (1.0 (1. tendo sido encontrado um doente com heterogeneidade pancreática.8%) 29 (72.073 Hiperlipasemia Não Sim (n = 62) (n = 40) 5 (8.227 0.001 --< 0.0%) 7 (11.336 <0.6) 2.1 – 25.6 (0.1 – 21.9%) 8 (20.8) 1.003 0. nutrição parenteral e ventilação mecânica.7) 4.1) Valor de p <0.9 – 10.3 – 1.0%) 34 (54.Terapêutica e alimentação Variáveis Nutrição parenteral Nutrição enteral Tolerância à alimentação enteral Ventilação mecânica Propofol 2% Hiperlipasemia Não Sim (n = 62) (n = 40) 12 (19.9 – 5.6%) 25 (89. tempo de internação e febre.2) 2.390 0. Luzio J.6) 1.6 (1. Coelho R.4%) 8 (20.694 Constante -2.001 < 0.3%) 10 (25. FA .070 0.1) 0.667 0.7 – 3.4 – 2.6) 3.6%) 1 (2.175 Febre 0. Dos doentes com hiperlipasemia.2 (0.6 (3. elevação de transaminases. Coutinho P Tabela 3 .074 0.5 – 21.3) Valor de p 0.5%) 19 (47.0%) 21 (33.0%) 12 (19.001 0.1 (0.3%) 50 (80.9) 4. verificando-se significância estatística relativamente à nutrição parenteral quando comparados os dois grupos. Por fim.9 – 7.9%) 28 (70.5 meq/l) Bacteremia Tabela 4 .001 0.001 enteral) apresentaram mais frequentemente hiperlipasemia. na análise discriminante efetuada (Tabela 5) foram utilizadas como variáveis independentes aquelas com associação positiva com a hiperlipasemia.5%) realizaram estudo radiológico tendo sido encontradas alterações ra- diológicas em dois: pseudoquisto pancreático em doente submetido a cirurgia de urgéncia (lipase máxima de 492UI/l) e presença de coleções peripancreáticas num doente politraumatizado (lipase máxima 1069 UI/L). Bt .0%) 3 (4. Também se verificou maior proporção de doentes com hiperlipasemia que foram submetidos a ventilação mecânica e terapêutica com propofol a 2% (Tabela 4).5%) 7 (17.639 Tempo de internamento 1.6 (1.001 0.7) 0.5%) 8 (12. Verificaram-se diferenças com relevância estatística entre grupos em relação à ventilação mecânica (p = 0.000 0.0%) 29 (90.bilirrubina total Tabela 5 .040).Características clínicas e analíticas Variáveis Sintomas PAS (<90 mmHg) Creatinina (>2 mg/dl) Febre (>38 ºC) Transaminases (>2 vezes) FA (>2vezes) Bt (>2 mg/dl) Hemoglobina (<8 g) Glicose (>300) Lactato (>2.Resumo dos resultados da análise discriminante Variáveis Coeficiente Nutrição parenteral 1.001 < 0.5%) Odds ratio (IC95%) 1. Esta análise revelou a existência de uma única função com poder discriminante altamente significativo sendo constituída pelas variáveis nutrição parenteral.6%) 38 (95.936 1.6 (1.4%) 27 (67. ou seja tempo de internação.700 Função discriminante Lambda de Wilk 0.366 Ferreira M.8 – 11. 20(4): 362-369 . Realizaram estudo radiológico (ecografia abdominal ou TAC) 19 (30.7) 1.642 Valor de p < 0.0 (0. Atendendo a estes resultados podemos afirmar que estas são as variáveis que mais significativamente diferen- Rev Bras Ter Intensiva.7) 4.065 0.5%) Odds ratio (IC95%) 8.6 (0. 17 (42.7 (0.8%) 10 (25.4%) 24 (60.5%) 32 (51.6 – 4.9 (0.2 – 4.7 (0.0%) 4 (6.0%) 17 (27.6) 6.766 0.fosfatase alcalina. febre.9 – 5.652 --0.2 (0.2%) 9 (22.

encontraram-se doentes com sintomatologia enquadrável na pancreatite aguda numa minoria de doentes. verificamos também que a hiperlipasemia não se acompanhou de maior gravidade clínica. Tabela 6 . superiores a 3 vezes o normal e associou-se a quadro de pancreatite.20). e segundo alguns autores. A hiperlipasemia nos doentes ventilados poderá relacionada com fenómenos isquémicos na microcirculação pancreática e alterações do tónus vascular da circulação corporal. avaliada pelos índices de prognóstico. (14. 2008.(2) No nosso estudo encontramos alterações morfológicas do pâncreas numa minoria de doentes com hiperlipasemia.Elevação da lipase e amilase no doente crítico. o que corresponde a 73. como já referido. os doentes com hiperlipasemia recebem mais frequentemente nutrição parenteral. quadro de falência respiratória no contexto de rickettsiose.16-18) Nos doentes que fizeram alimentação parenteral encontramos mais frequentemente elevação das enzimas pancreáticas. incluindo pressão craniana. permitindo confirmar o diagnóstico.12) Não registamos diferenças significativas na incidência de hiperlipasemia nos doentes do foro clínico ou cirúrgico. 20(4): 362-369 . na maioria dos doentes a hiperamilasemia acompanhou-se de lipase elevada. em alguns estudos prospectivos realizados com TAC abdominal em grupos de doentes com características idênticas. provocadas por alterações dos gases sanguíneos e alterações de pressão induzidas pela ventilação. excluir diagnósicos alternativos e determinar a gravidade e presença de complicações. por exemplo. Como descrito anteriormente. segundo as diretrizes da ACG. ou seja. com elevação dos triglicerideos séricos ou formação de lama biliar(19. não se verificou maior estase gástrica ou ileo paralítico que impossibilitasse esta forma de alimentação. A ultrasonografia abdominal. e dos dois doentes apenas um apresentava elevação maior que três vezes o valor normal. ou seja. acompanhando-se de elevação concomitante da amilase num menor número de doentes.(7. Na maioria dos casos. De acordo com os resultados da tabela 6.694×febre – 2. neurocirúrgico ou clínico. Claro que realçamos o fato de se tratarem de doentes na maioria dos casos entubados e sedados o que torna o diagnóstico clínico problemático.4%) 8 (20. a percentagem de alterações é pequena e com pouco importância clínica. por isso os autores propuseram-se a efetuar um estudo retrospectivo de uma série de doentes internados numa unidade de terapia intensiva polivalente com internações tanto do foro cirúrgico. Este doente não apresentava elevação concomitante da amilase. Rev Bras Ter Intensiva. apesar de ser um exame inócuo. realçamos o fato de o estudo radiológico ter sido efetuado numa pequena percentagem de doentes e segundo critérios mal esclarecidos.0%) 19 (30. A TAC abdominal é a técnica gold standard no diagnóstico de pancreatite aguda.(13) No nosso estudo. fatores relacionados e gravidade clínica destes doentes.0%) DISCUSSÃO A elevação da lipase e amilase séricas constitui um problema comum na prática clínica de uma unidade de terapia intensiva. apenas em 4 doentes. esta elevação não atingiu níveis diagnósticos (62. em termos globais a função classificou corretamente 75 dos 102 doentes. O doente com o valor de lipase mais elevado apresentava.(2) Apesar de mais sensível apresenta. 367 ciaram os doentes que desenvolveram hiperlipasemia dos doentes que não a desenvolveram.Cruzamento dos resultados observados com os preditos pela função discriminante Resultados preditos com base na função discriminante Hiperlipasemia Não Sim Resultados observados Não Sim 43 (69. Como seria de esperar. Existem poucos estudos neste âmbito. o que poderá estar relacionado. e avaliar a sua incidência.6%) 32 (80. ou de maior mortalidade. coleções fluidas ou necrose. mais riscos nomeadamente. Contudo. Numa revisão da literatura encontram-se descritos poucos relatos de pancreatite aguda nas rickettsioses. nomeadamente baixa sensibilidade no diagnóstico de inflamação peripancreática. não sendo exclusiva da inflamação pancreática (12-15). Nesta série encontramos esta alteração da lipase sérica num número significativo de doentes. agravamento da necrose pancreática por alterações na microcirculação provocada pelo contraste endovenoso. limitações inerentes ao fato de ser um estudo retrospectivo. apresenta limitações no estudo do pâncreas. De fato. Os exames imagiológicos podem nestes doentes desempenhar um papel muito importante no esta- belecimento do diagnóstico. Não verificamos o mesmo em relação à alimentação enteral que mesmo nos doentes com lipase elevada foi bem tolerada.11. contudo. e os valores dos coeficientes permitem escrever a função discriminante do seguinte modo: Hiperlipasemia = 1. Apesar disso relacionou-se com internação mais prolongada e com presença de ventilação mecânica. tendem a apresentar tempo de internação mais elevados e desenvolver quadros febris.5% de classificações corretas.700 De acordo com os coeficientes obtidos.639×nutrição parenteral + 1.175×tempo de internação + 0.5%). dados corroborados pela literatura.

05). 2005. APACHE II.16(12):849-54. Extensive investigation of patients with mild elevations of serum amylase and/or lipase is ‘low yield’. que na maioria dos casos não acrescentou gravidade clínica ou maior mortalidade. 2007. Coelho R.72(3):257-85. Results: 102 patients were included with high serum lipase was present in 39. Pappas TN. constituting a diagnostic and therapeutic challenge. hyperamylasemia (p<0.001). Rev Bras Ter Intensiva. intervenção terapêutica. hypotension. Branch MS. Freeman ML. nomeadamente maior frequência de lama biliar nestes doentes. history of pancreatic disease. e possivelmente poderão ajudarnos a selecionar os doentes em que realmente será importante fazer a dosagem das enzimas. 2006. Gastroenterology.003) and rise of transaminases (p=0. Clinical significance of increased lipase levels on admission to the ICU. 2. 2007.9. 20(4): 362-369 .001).101(10):2379-400. 2006. It was more frequent with parenteral nutrition. excluding admissions for acute pancreatitis. Methods: Retrospective study of patients admitted in an intensive care unit from January 1 to December 31.102(5):1127. AGA Institute techical review on acute pancreatitis. Zein J. a presença de nutrição parenteral e a febre. Forsmark CE. with no significant differences in diagnosis. renal insufficiency or lacking of data. Stiffler H.127(1):7-10. Embora o número da amostra não nos permita tirar conclusões com peso estatístico.001). Jowell PS. Baillie J. alkaline phosphatase. Luzio J. caso estejam presentes. AGA Institute Governing Board. age. it related with longer length of stay but was not accompanied by increased clinical severity or mortality. Manjuck J. ABSTRACT Objectives: Elevated lipase and amylase are commonly found in patients in intensive care unit without a previously recognized pancreatic illness. 3.132(5):2022-44. Uma minoria de doentes preencheu os critérios de diagnóstico de pancreatite aguda. os resultados globais deste estudo retrospectivo eram os esperados e os encontrados na maioria das referência bibliográficas. Keywords: Pancreatitis. tolerance to enteral nutrition and use of propofol. et al. na maioria dos casos. hyperbilirrubinemia (p=0. um epifenómeno de uma doença mais grave. Can J Gastroenterol. Conclusions: Elevated lipase was commonly found in critical patients. Amylases. lactate. hemoglobin. A minority of patients met the criteria of acute pancreatitis. fever (p< 0. Statistical analysis: SPSS 13. author reply 1127-8. Mitchell RM. Comment in: Chest. laboratory and radiological variables. Patients with high serum lipase had longer hospital stay (p< 0. 2005. gender. Student’s t test and Chi-square test (CI 95%) with statistical significance if p< 0.21-23) A elevação da lipase sérica acompanhou-se também de elevação das transaminases e bilirrubina o que poderá estar em relação com fenômenos de colestase. Na análise multivariada efetuada observamos que os fatores que mais frequentemente diferenciaram os doentes com hiperlipasemia foram o elevado tempo de internação. ventilator support (p=0. 4. Não verificamos maior frequência de hiperlipasemia na utilização de propofol o que poderá estar relacionado com o fato deste fármaco na formulação utilizada (a 2%) apresentar um menor teor lipídico relativamente à formulação a 1%. Banks PA. níveis de valores que devem suscitar a nossa atenção e que devem implicar realização de estudos radiológicos. Am J Gastroenterol.127(1):246-50. Imaging study revealed pancreatic alterations in two patients with high serum lipase. Coutinho P Deve-se citar o fato de esta forma de alimentação ser administrada por sonda naso-gastrica em todos os doentes. apesar de se relacionar com internação mais prolongada. mean lipase of 797U/L. AGA Institute Clinical Practice and Economics Committee. involved risk factors and outcome. The authors therefore proposed to determine the frequency of asymptomatic high serum lipase in critically ill patients. mortality.368 Ferreira M. Outros estudos serão necessários para nos ajudarem a interpretar estas alterações e assim responder a questões frequentemente colocadas por quem lida diariamente com esta situação: necessidade de determinação destas enzimas REFERÊNCIAS 1. parenteral nutrition (p< 0. Republished in: por rotina ou só em casos com suspeita clínica mais evidente. nomeadamente a alteração do tipo de alimentação ou suspensão de fármacos. Estes resultados podem-nos indicar que estas elevações poderão constituir. Patients were divided in two groups (with and without high serum lipase) that were compared for clinical. Practice guidelines in acute pancreatitis. Astiz M. Lipase. Comment in: Am J Gastroenterol.05). Estas variáveis colocam-nos em alerta para a existência de hiperlipasemia.001). Intensive care units Rev Gastroenterol Mex. 2007.2% of patients. SAPS. Byrne MF. este estudo alertou-nos para a elevada frequência de hiperlipasemia nos doentes críticos.04).(8. CONClUSÃO Em suma. Practice Parameters Committee of the American College of Gastroenterology. SOFA. Chest. Carpati C. 2002. 2008.

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