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A essência do latinismo no mundo jurídico concluso

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Published by: Jonas Nicácio Veras on Jun 12, 2012
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A essência do latinismo no mundo jurídico

Introdução

Não raramente nos deparamos com expressões latinas no nosso cotidiano, seja ao abrir um livro de ciências, seja nos antigos ritos religiosos, e, principalmente, nos tribunais, onde os operadores do Direito se deleitam com expressões que soam forte, misteriosas e aparentemente agressivas, mas que, por fim, acabam por embelezar as locuções dos seus adeptos. É cediço que, atualmente o latim é considerado uma língua morta, já que comumente não é falado como língua nativa, com exceção do Vaticano que ainda o adota como língua oficial, que podemos dizer, possui um status de secundária, já que é apenas utilizada para documentos e cerimônias, sendo a língua falada, de fato, o italiano. No Brasil, a determinação da exclusão da obrigatoriedade do ensino do latim nas escolas veio em razão da lei 4.024/61 que fixou as diretrizes e bases da educação nacional, hoje revogada pela lei 9.394/96. As nossas raízes linguísticas encontram-se arraigadas ao latim, já que derivamos dele, e junto com o português temos também o francês, italiano, espanhol, catalão, provençal, reto-romano, o sardo e o romeno. denominadas línguas neolatinas. O latim encontra o seu ápice em pleno apogeu do Império Romano, onde diversas obras foram escritas neste idioma, sendo mais tarde, com a conversão de Roma ao Cristianismo, difundido pela igreja católica. Assim, toda a comunicação romana era regida pelo latim, e não poderia ser diferente a comunicação envolta com o Direito, que é de onde o nosso atual alicerce jurídico é derivado, sendo sobremaneira influenciado por expressões da cultura romana, surgindo apartir daí fórmulas eternizadas no nosso Direito hodierno, os brocardos jurídicos. São as

Os brocardos jurídicos

Com a Devida vênia do Professor Antônio Carlos Machado 1, que cita o impresso no Dicionário jurídico brasileiro por Marcos Cláudio Acquaviva , a palavra brocardo embora designe expressões latinas jurídicas, sua etimologia não possui nenhum vínculo com o latim. Trata-se, portanto, da latinização sofrida pelo nome Burckard, nome de um bispo que viveu na cidade de Worms, Inglaterra, durante o século XI, responsável pela compilação de vinte volumes de regras de Direito eclesiástico, vindo a ser considerado como padrão de formulação jurídica do mesmo modo no Direito convencional. Assumem os brocardos, por sua vez, o condão de expressarem máximas consagradas pelo Direito Romano, onde sintetizam toda a influência e poder que outrora foram utilizados pelos juristas da antiga Roma. Os brocardos são, em sua essência, como assinaturas indeléveis de um passado de glória, onde as alternativas ali utilizadas se eternizaram apartir de uma expressão, como, e.g., “Dormientibus non sucurrit jus” (o Direito não socorre aos que dormem), “Alea jacta est” (a sorte está lançada), assim representando um momento histórico, importante para quem as proferiu, sendo hoje utilizadas nas suas mais diversas interpretações conforme o contexto em que se queira utilizar, pois, conforme exemplifica mais uma expressão latina “ubi societas, ibi jus” (onde está a sociedade, está o Direito) proferidas por Ulpiano no “Corpus Iuris Civilis”, o Direito assim como suas fórmulas acompanha a sociedade e não o inverso. Desta forma, conforme bem observa Antônio Carlos Machado, os brocardos são erigidos ao patamar de supressores de lacunas na lei, pois facultam, com todo o seu teor axiológico e teleológico, pois são verdadeiras chaves do Direito material, ao magistrado integrar o seu embasamento com esses instrumentos, que passam a desempenhar papel fundamental

conjuntamente com os costumes, a analogia e os princípios gerais do Direito

O exagero dos brocardos nos processos

O nosso Código de Processo Civil estabelece em seu art. 156 que “em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso do vernáculo”, o que deixa claro que para processos sob a competência da justiça brasileira só será permitido o nosso idioma. Explicamos alhures, que o uso de expressões em latim no Direito pátrio veio em decorrência do nosso Direito ter derivado do Romano, o que, todavia, não significa que deva haver exageros de expressões, que, por sua vez, podem obscurecer o entendimento do processo. Tais vícios podem comprometer a estrutura do processo, já que é válido dizer, nem todos sabem a tradução e uso de alguns brocardos, se aventurando a utiliza-los nas peças processuais. Além desta problemática, enfatize-se que, o que ora pleiteamos em juízo deve ser de conhecimento de todos, e exagerar em brocardos, neologismos, abreviações, não se configura como uma comunicação pragmática, clara, mas sim com um exibicionismo de erudição infundada, até por que quem sabe não precisa provar, principalmente na era em que vivemos, onde experimentamos um processo de Instantaneização da informação.

A importância dos brocardos para o Direito moderno

A moderação da utilização de brocardos possibilita ao operador do Direito suscitar no seu trabalho a importância desse tronco linguístico para o nosso Direito moderno, permitindo que expressões possam dar sentido ao texto, como nenhuma expressão em outra língua melhor se expressaria, pois o latim transparece a sua real intenção, pela sua escrita e singularidade que lhe são inerentes.

Segundo o Professor Máriton Silva Lima, “o latim ajuda as pessoas a raciocinarem”, e mais, in verbis: “A finalidade do latim é aguçar seu intelecto, para desenvolver o espírito de análise, para acostumar-se à calma e à ponderação, para tornarse mais observador, para aperfeiçoar-se no poder de concentração de espírito e para obrigar-se à atenção”.

Pelas sábias palavras do professor em comento, percebemos que o latim não é simples peça de prateleira que serve apenas para embelezar, é, acima de tudo, de onde o nosso vernáculo se originou, é um “idioma universal, possui a literatura mais rica, tanto pela quantidade como pela qualidade”, enaltece o nobre professor Máriton. Por sua fundamental importância para o Direito surge a pergunta que não que calar: por que hoje nos cursos de Direito não se paga mais tal disciplina? Muito difícil a resposta, pois sabemos que se utilizam inúmeras expressões em latim, e muitos alunos não conseguem captar a informação que o texto oferece, pois lhe falta a interpretação do termo. Então, percebe-se que há um contra senso na nossa política educacional, pois cobra-se o que não se dá.

Conclusão

É o Direito em sua majestade uma das mais belas obras do homem sobre esse admirável mundo novo, o que hoje é permitido vislumbrar por mérito dos romanos e o seu legado, do qual merece os louros o latim, os brocardos a nós transmitidos, que representam a marca indelével de um momento de gloria

da humanidade, onde pari passu se construiu todo um império de cultura e superação humana. Não foi em vão que empreguei algumas expressões latinas neste artigo, e sim para mostrar o seu brilhantismo, é claro se usado com moderação, pois conforme a máxima popular “tudo em excesso é veneno”. Palavras conclusas, devemos primar pela boa cultura, pois não é justo deixarmos morrer as nossas origens, e sim lutarmos para que as universidades, sobre tudo as de Direito tragam à tona a disciplina de latim, tão importante para nós. Costumo expressar que o latim não morreu, apenas foi reservado para os mais sábios! É este o nosso idioma originário, não deixemos cair por chão séculos de cultura, que não se confunde com conservadorismo.

Notas:

1 O professor e Mestre Antônio Carlos Machado está ligado à área de Direito do Centro De Ciências Juridicas da UNIFOR (Universidade de Fortaleza). O eminente professor disponibiliza em seu site http://www.acmachado.net/, lições e curiosidades sobre o latim para livre consulta.

Referências bibliográficas:

BRASIL. Lei Federal n° 9.394/96. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação. LATIM. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2011. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Latim&oldid=26071606>. Acesso em: 31 jul. 2011.

VATICANO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2011. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Vaticano&oldid=26308535>. Acesso em: 31 jul. 2011. LIMA, Máriton Silva. Entrevista sobre a importância do Latim no Direito. Rio de Janeiro, site Latim e Direito Constitucional, disponível em: <http://www.latimedireito.adv.br/entrevis.htm> MACHADO, Antônio Carlos. (Janeiro de 2011). O latim jurídico. Acesso em 31 de julho de 2011, disponível em página do latim: http://www.acmachado.net/hplatim/latimjur.html, 06 de abril de 2009. Entrevista concedida a Mariana MACHADO, Antônio Carlos. (Janeiro de 2011). O latim de ontem e de hoje. Acesso em 31 de julho de 2011, disponível em página do latim: http://www.acmachado.net/hplatim/Latim1.html

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