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Teoria Geral da Execução - Texto para Resumo - Proc. Civil IV

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1  Esboço de uma teor ia da execução civil 

Fr edie Didier J r . 
Mestre (UFBA) e Doutorando (PUC/SP) em Direito. Professor­mestre de Processo Civil da Universidade Federal da Bahia.  Professor­Coordenador da Pós Graduação em Direito Processual Civil das Faculdades Jorge Amado/JusPodivm. Membro do  Instituto Brasileiro de Direito Processual. Advogado na Bahia e em Pernambuco. 

SUMÁRIO: 1 – A função jurisdicional e  as  diversas  modalidades  de  tutela  dos  direitos  ;  2  –  Direitos  a  uma  prestação  e  direitos  potestativos;  3  ­  Direito  fundamental  à  tutela  executiva;  4  ­  Execução  e  processo  de  execução:  os  módulos  processuais  executivos; 5 – Cognição e atividade executiva; 6 ­ Mérito e coisa  julgada;    7  –  Espécies  de  execução:  7.1.  ­  Execução  por  sub­  rogação  e  execução por  coerção indireta; 7.2.  ­ Execução de título  judicial  e  execução  de  título  extrajudicial;  7.3.  ­  Execução  provisória e execução definitiva; 8 – Princípios: 8.1. ­ Princípio de  que  não  há  execução  sem  título;  8.2.  ­  Responsabilidade  ou  toda  execução  é  real;  8.3.  –  Contraditório;  8.4.  –  Princípio  da  proporcionalidade;  8.5.  ­  Princípio  da  menor  onerosidade  possível  ao executado; 8.6. ­ Princípio da disponibilidade da execução; 8.7. ­  Princípio  da  tipicidade  dos  meios  executivos;  8.8.  –  Princípio  da  utilidade;  8.9.  –  Autonomia;  8.10.  –  Responsabilidade  do  exeqüente; 8.11.  – Maior  coincidência possível; 8.12.  – Dignidade  da pessoa humana. 

1.  A função jurisdicional e as diversas modalidades de tutela dos dir eitos  A  função  jurisdicional  é  aquela  pela  qual  os  órgãos  investidos  de  jurisdição  aplicam o direito objetivo ao caso concreto. Trata­se da função pela qual se tutelam os direitos  subjetivos,  resolvendo­se  as  crises  jurídicas  que  porventura  existam  em  derredor  de  tais  direitos.  A partir do tipo de proteção (tutela) que se pretenda, podem ser identificados  três tipos de tutela jurisdicional: a) de certeza, ou de conhecimento, ou declaratória: busca­se  do Poder Judiciário a certificação, com a coisa julgada, de determinada relação jurídica; b) de  efetivação  ou  executiva:  pretende­se a  efetivação  de  direitos  subjetivos; c)  de  segurança  ou 

Trata­se  da  reprodução  da  prova­escrita  do  concurso  para  provimento  do  cargo  de  Professor­Assistente  (Mestre) de Processo Civil da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), realizada no dia  23 de abril de 2004, que recebeu a nota 10 (dez) de todos os membros da banca examinadora: Wilson Alves de  Souza (UFBA),  Leonardo  Greco (UFRJ) e Vallisney  de Souza Oliveira (UFAM). Manteve­se  o texto  original,  sem referências bibliográficas ou notas de rodapé — o pensamento dos doutrinadores é citado ao longo do texto,  normalmente sem menção à obra.

cautelar:  busca­se  do  Estado­juiz  uma  providência  que  assegure/garanta  a  efetivação  da  prestação  jurisdicional  de  certificação  ou  de  execução,  tendo  em  vista  a  circunstância  inexorável de que todo processo jurisdicional necessita de tempo – e o tempo pode fazer que  direitos sejam lesados ou perdidos.  Nesse rápido painel, pode­se vislumbrar o papel da tutela executiva: promover  a  efetivação  dos  direitos  subjetivos,  garantindo  com  que  o  resultado  prático,  que  o  titular  desse direito pretende almejar, seja, efetivamente, concretizado.  2.  Dir eitos a uma prestação e direitos potestativos  Há uma clássica divisão dos direitos, muito utilizada pelos processualistas  no  estudo da tutela jurisdicional. Trata­se da distinção que se faz entre direitos a uma prestação e  direitos potestativos.  Direito  a  uma  prestação  é  o poder  jurídico, conferido  a alguém, de  exigir  de  outrem o cumprimento de uma prestação – conduta –, que pode ser um fazer, um não­fazer,  ou  um  dar  coisa  –  prestação  essa  que  se  divide  em  dar  dinheiro  e  dar  coisa  distinta  de  dinheiro. O direito a uma prestação precisa ser concretizado no mundo físico; a sua efetivação  é a realização da prestação devida. Quando o sujeito passivo não cumpre a prestação, fala­se  em inadimplemento ou lesão. Como a autotutela é, em regra, proibida, o titular desse direito,  embora tenha a pretensão, não tem como, por si, agir para efetivar o seu direito. Tem, assim,  de  recorrer  ao  Poder  Judiciário,  buscando  essa  efetivação,  que,  como  visto,  ocorrerá  com  a  concretização  da  prestação  devida.  São  direitos  a  uma  prestação.  Por  exemplo:  a)  direitos  absolutos (reais e personalíssimos), que têm sujeito passivo universal e cujo conteúdo é uma  prestação negativa.; b) obrigações, que podem ter por conteúdo qualquer prestação.  Direito  potestativo  é  o poder  jurídico  conferido  a  alguém  de  alterar,  criar  ou  extinguir situações jurídicas. O sujeito passivo de tais direitos nada deve; não há conduta que  precise ser prestada para que o direito potestativo seja efetivado. O direito potestativo efetiva­  se  no  mundo  jurídico das  normas,  não  no  mundo  dos  fatos, como ocorre, de modo diverso,  com  os  direitos  a  uma  prestação.  A  efetivação  de  tais  direitos  consiste  na  alteração/criação/extinção  de  uma  situação  jurídica,  fenômenos  que  só  se  operam  juridicamente, sem a necessidade de qualquer ato material (mundo dos fatos). Exemplifique­  se.  O  direito  de  anular  um  negócio  jurídico  é um  direito  potestativo;  esta anulação  dar­se­á  com  a  simples  decisão  judicial  trânsito  em  julgado,  não  será  necessária  nenhuma  outra  providência  material,  como  destruir  o  contrato,  por  exemplo.  Como  já  disse  um  autor,  a

efetivação, nesses casos, dá­se pelo verbo, não pelo ato concreto, material.  Os direitos a uma prestação relacionam­se aos prazos prescricionais que, como  prevê o art. 189 do CC. 2002, começam a correr da lesão/inadimplemento – não cumprimento  pelo sujeito passivo do seu dever.  Como  nos  direitos  potestativos  não  há  dever,  prestação,  conduta,  a  ser  cumprida  pelo  sujeito  passivo  –  a  doutrina  denomina  de  “estado  de  sujeição”  a  situação  jurídica do sujeito passivo –, não se pode falar de lesão/inadimplemento; assim, a prescrição  não  está  relacionada  a  tais  direitos.  Na  verdade,  os  direitos  formativos  submetem­se,  se  houver previsão legal, a prazos decadenciais.  Pois bem.  O que essa distinção tem a ver com tutela jurisdicional executiva?  Quando se pensa em tutela executiva, pensa­se na efetivação de direitos a uma  prestação;  fala­se  de  um  conjunto  de  meios  para  efetivar  a  prestação  devida;  fala­se  em  execução de fazer/não­fazer/dar, exatamente os três tipos de prestação existentes. Não é por  acaso,  nem  coincidência,  que  a  tutela  executiva  pressupõe  inadimplemento  –  fenômeno  exclusivo dos direitos a uma prestação. Executar é forçar o cumprimento de uma prestação.  Reputamos essa relação entre direito material e processo fundamental para a compreensão do  fenômeno executivo.  A efetivação de um direito potestativo carece de execução, no sentido do termo  aqui  utilizado.  A sentença  que  reconheça  um direito potestativo  já  o  efetiva  com  o  simples  reconhecimento e a implementação da nova situação jurídica almejada. A sentença que acolhe  uma demanda que veicule um direito potestativo é uma sentença constitutiva, que, portanto,  exatamente  por  isso  não  gera  atividade  executiva  posterior,  em  razão  da  absoluta  desnecessidade.  3.  Dir eito fundamental à tutela executiva  A teoria dos direitos fundamentais é considerada por muitos constitucionalistas  a principal contribuição do constitucionalismo do pós Segunda Guerra Mundial.  A processualística, desde muito cedo, apercebeu­se da importância de estudar­  se o processo à luz da Constituição – veja, por exemplo, o trabalho de José Frederico Marques  ainda na década de 50 do século XX.  Mais  recentemente,  os  processualistas  avançaram  no  estudo  do  tema,  agora 3 

para encarar os institutos processuais não só a luz da Constituição, mas, sim, pela perspectiva  de um determinado tipo de norma constitucional, que são aquelas que prescrevem os direitos  fundamentais.  Fala­se, então, do estudo do processo à luz dos direitos fundamentais.  A Constituição Federal de 1988 deu um grande impulso a essa tendência, pois,  no  rol  dos  direitos  e  garantias  fundamentais,  inclui  uma  série  de  dispositivos  de  natureza  processual, em número sem precedente na nossa história constitucional.  São tantos e tão diversos dispositivos que hoje não se pode negar a autonomia  didática da disciplina “Tutela Constitucional do Processo”.  Vários  autores  se  têm  destacado  no  exame  do  processo  à  luz  dos  direitos  fundamentais.  Podemos  citar  aqueles  cujas  contribuições  são  as  mais  relevantes:  NELSON  NERY  JR.,  MARCELO  GUERRA,  WILLIS  SANTIAGO  GUERRA  FILHO,  LEONARDO  GRECO,  JOSÉ  ROGÉRIO  CRUZ  E  TUCCI,  ROGÉRIO  LAURIA  TUCCI,  LUIZ  GUILHERME  MARINONI,  CARLOS  ALBERTO ALVARO DE OLIVEIRA E DELOSMAR MENDONÇA JR.  Dois  dos dispositivos  constitucionais  mencionados  merecem,  neste  momento,  uma atenção especial: a) direito fundamental a um processo devido (due process of law); b) o  direito  fundamental  a  apreciação  pelo  Poder  Judiciário  de  qualquer  alegação  de  lesão  ou  ameaça de leão a direito.  A cláusula do “devido processo legal” é considerada a norma­mãe, aquela que  “gera”  os  demais  dispositivos,  as  demais  regras  constitucionais  do  processo.  Dela  derivam,  por  exemplo,  a  garantia  do  contraditório,  da  proibição  de  provas  ilícitas,  da  motivação  da  sentença etc. Embora sem previsão expressa na Constituição, fala­se que o “devido processo  legal” é um processo efetivo, processo que realize o direito material vindicado.  O Pacto de San José da Costa Rica, ratificado pelo Brasil, prescreve o direito a  um processo com duração razoável, donde se retira o princípio constitucional da efetividade.  Como a cláusula do devido processo legal é aberta e, além disso, o legislador  constituinte deixou claro que o rol dos direitos e garantias fundamentais não é exaustivo (art.  5º, §§ 1º e 2º, CF/88), incluindo outros previstos em tratados internacionais, a doutrina mais  moderna fala, portanto, no direito fundamental à tutela executiva.  Esse  posicionamento  é  reforçado  pela  moderna  compreensão  do  chamado  “princípio da inafastabilidade”, que, conforme célebre lição de KAZUO  WATANABE, deve ser

entendido  não  como  uma  garantia  formal,  uma  garantia  de  pura  e  simplesmente  “bater  às  portas  do  Poder  Judiciário”,  mas,  sim,  como  garantia  de  acesso  à  ordem  jurídica  justa,  consubstanciada em uma prestação jurisdicional célere, adequada e eficaz. Também se pode  retirar  o  direito  fundamental  à  tutela  executiva  desse  princípio  constitucional,  do  qual  seria  corolário.  Firmada  a  existência  de  um  direito  fundamental  à  tutela  executiva,  cumpre  verificar  de  que  modo  isso  repercute  na  atuação  judicial.  Em  primeiro  lugar,  o  magistrado  deve interpretar esse direito como se interpretam os direitos fundamentais, ou seja, de modo a  dar­lhe  o  máximo  de  eficácia.  Em  segundo  lugar,  o  magistrado  poderá  afastar,  aplicado  o  princípio  da  proporcionalidade,  qualquer  regra  que  se  coloque  como  obstáculo  irrazoável/desproporcional à efetivação de todo direito fundamental.  Mais  à  frente,  na  análise  da  tipicidade  dos  meios  executivos,  voltaremos  ao  tema.  4.  Execução e processo de execução: os módulos pr ocessuais executivos  A tutela jurisdicional executiva pode operar­se de duas formas: a) ou no bojo  de uma relação jurídica processual especialmente formada com esse objetivo; b) ou como fase  de  um  processo  já  instaurado  –  fase  complementar,  por  certo.  Fala­se  de  dois  “módulos  processuais executivos”.  No primeiro  caso,  temos  o processo de  execução,  relação  jurídica  processual  com  predominante  função  executiva;  no  segundo  caso,  a  execução  (atividade  executiva)  realiza­se  no  mesmo  processo  em  que  a  certificação  judicial  ocorreu,  sendo  desta  etapa  posterior.  É incorreto, portanto, falar que só existe execução no processo de execução.  A propósito, a autonomia do processo de execução, ao menos quando fundada  em título judicial, vem sendo há muito questionada e as últimas mudanças legislativas parece  que seguem esse caminho.  Antes  de  explicar  o  ponto,  cabe  uma  advertência:  o  que  se  questiona  é  autonomia  do  processo  de  execução,  não  da  função  executiva,  essa  plenamente  diferençada  das outras funções jurisdicionais.  Tradicionalmente,  até  mesmo  como  forma  de  diminuir  os  poderes  do  magistrado,  as  atividades  de  certificação  e  efetivação  eram  reservadas  a  “processos

autônomos”, relações jurídicas processuais que teriam por objetivo, somente, o cumprimento  de  uma  ou  de  outra  das  funções  jurisdicionais.  Nesse  contexto,  surgiu  a  noção  de  sentença  condenatória, que seria aquela sentença que, reconhecendo a existência de um direito a uma  prestação e o respectivo dever de pagar, autorizava o credor, agora munido de um título, a, se  quiser,  promover  a  execução  do  obrigado.  Havia  a  necessidade  de  dois  processos  para  a  obtenção da certificação/efetivação do direito.  O tempo foi mostrando o equívoco dessa concepção.  Havia,  à  época,  vários  procedimentos  que  autorizavam  ou  que  inseriam,  no  bojo  do  processo  de  conhecimento,  atos  executivos,  fato  que  já  compromete  a  pureza  da  distinção e da divisão que se fazia. Citam­se os exemplos da proteção processual da posse e  do mandado de segurança.  A partir da generalização da tutela antecipada, arts. 273 e §3º do art. 461, CPC,  agora  permitida  no  procedimento  ordinário,  o  legislador  deu  um  grande  salto  evolutivo,  permitindo, no procedimento padrão, no bojo de um processo de conhecimento, a prática de  atos  executivos.  O  dogma  da  necessidade  de  um  processo  autônomo  para  a  execução  da  decisão judicial mostrava­se obsoleto e injustificável. A doutrina já pugnava, então, pela idéia  de  que  a  divisão  dos  processos  deveria  dar­se  pela  predominância  da  função,  não  pela  exclusividade.  Mas outro passo havia de ser dado.  A mudança na tutela jurisdicional das obrigações de fazer e não­fazer, iniciada  pelo  CDC  (art.  84)  e  depois  generalizada  no  art.  461  do  CPC,  opera  profunda  alteração  no  sistema  da  tutela  executiva.  É  que,  agora,  as  sentenças  que  reconhecem  a  existência  de  tais  obrigações não precisam, para serem efetivadas, ser submetidas a um processo autônomo de  execução.  Possuem  essas  sentenças  aquilo  que  a  doutrina  mais  antiga  chamava  de  “força  executiva  própria”;  podem  ser  efetivadas  no  mesmo  processo  em  que  foram  proferidas,  independentemente  de  instauração  de  um  novo  processo  e  da  provocação  do  interessado:  o  magistrado,  no  corpo  da  sentença,  já  determinará  quais  as  providências  devem  ser  tomadas  para garantir a efetivação da decisão.  Depois  dessa  alteração,  pode­se  dizer  que  a  execução  das  sentenças,  nessas  hipóteses,  não  ocorrerá  em  processo  autônomo,  mas,  sim,  como  fase  complementar  ao  processo  de  conhecimento.  Por  causa  dessa  característica,  a  doutrina  passou  a  designar  tais  processos  de  “sincréticos”,  “mistos”  ou  “multifuncionais”,  pois  servem  a  mais  de  um

propósito: certificar e efetivar.  Esse mesmo regime jurídico foi estendido, recentemente, às obrigações de dar  coisa distinta de dinheiro — arts. 461­A e 621 do CPC.  Atualmente,  a  única  sentença  judicial  de  certificação  de  um  direito  a  uma  prestação que necessita de um novo processo para ser executada é aquela que condena o réu  ao pagamento de quantia.  Essa situação, no entanto, parece que não vai demorar de ser modificada. É que  tramita  no  Congresso  Nacional  projeto de lei,  elaborado pelo  Instituto  Brasileiro  de  Direito  Processual, que acaba o processo de execução de sentença, ou seja, elimina a última hipótese  em que isso seria possível: a sentença condenatória ao pagamento de quantia. De acordo com  o projeto, essa sentença, à semelhança do que já ocorre com aquelas dos arts. 461 e 461­A,  seria executada em uma fase do mesmo processo em que prolatada, denominada de fase do  “cumprimento da sentença”.  Podemos,  portanto,  estabelecer  o  seguinte  painel  dos  módulos  processuais  executivos:  a)  execução autônoma: fundada em título extrajudicial, fundada em  sentença arbitral ou sentença penal condenatória, e fundada em título judicial que  imponha pagamento de quantia;  b)  execução como fase do processo: fundada em título judicial que  imponha o cumprimento de obrigação de fazer, de não­fazer ou de dar coisa que  não é dinheiro;  Esse  sistema  pode  ser  visualizado  pela  leitura  dos  artigos  287,  461,  461­A,  621, 644 e 744, todos do CPC.  5.  Cognição e atividade executiva  É  lição  velha  a  de  que,  no  cumprimento  da  tarefa  executiva,  a  cognição  judicial,  se  existir,  é  mínima,  “rarefeita”,  em  famosa  adjetivação  de  KAZUO  WATANABE.  Caberia ao magistrado tão­somente cumprir, mecanicamente, aquilo que estiver determinado  no  título.  Talvez  seja  esse  um  dos  motivos  pelos  quais,  em  determinados  países,  a  tarefa  executiva  não  é  dada  ao  Poder  Judiciário,  mas,  sim,  a  um  órgão  da  administração  como  o  xerife.  Sucede que a análise não é tão simples, como se pretende. 7 

Há  cognição,  sim,  na  tarefa  executiva  –  quer  ocorra  em  processo  autônomo,  quer como fase de um mesmo processo.  Inicialmente,  cumpre  ao  magistrado  verificar  o  preenchimento  das  condições  da ação e dos pressupostos processuais. Além disso, o magistrado também deverá conhecer de  questões de mérito, como o pagamento e a prescrição, por provocação do interessado ou, em  certas hipóteses, até mesmo de ofício (art. 194, CC­2002).  É  indiscutível,  ainda,  que,  no  bojo  do  processo  de  execução,  há  inúmeros  incidentes cognitivos, nos quais haverá atividade intelectual do magistrado, chamado que é a  resolver  questões  —  e  a  resolução  das  questões  pressupõe  cognição.  Vejamos  exemplos  do  incidente  de  nomeação  de  bem  à  penhora  ou  de  alienação  antecipada  do  bem  penhorado,  momentos  em  que  o  magistrado  deverá  decidir  determinadas  questões  (qual  o  bem  penhorado?  justifica­se  a  alienação  antecipada?),  tarefa  para  a  qual  a  atividade  cognitiva  é  indispensável.  Mas não é só.  Frustrada  a  execução  para  a  entrega  da  coisa  ou  para  o  cumprimento  de  prestação  de  fazer  ou  não­fazer,  pode  o  exeqüente  optar  pela  conversão  da  obrigação  em  perdas e danos, que precisarão ser apuradas, investigadas, conhecidas.  Não  se  pode  querer  construir  uma  teoria  da  tutela  executiva  expurgando  conceitos, noções e institutos que pertencem, na verdade, à teoria geral do processo; não são  institutos exclusivos de determinado tipo de tutela jurisdicional.  Ousamos dizer que não há atividade judicial que prescinda da cognição. O que  se tem de fazer é adequar o grau de cognição à tarefa que se espera ver cumprida pelo Poder  Judiciário.  Se  se  busca  a  certeza,  a  cognição  tem  de  ser  exauriente,  exaustiva;  se  se  busca  segurança, uma medida que atenue os riscos da demora do processo, a cognição não pode ser  tão  exaustiva,  sob  pena  de  comprometer  a  própria  utilidade  da  medida;  se  se  pretende  a  execução, a cognição judicial não deve abarcar, ao menos inicialmente, questões que disserem  respeito à formação do título, mas, necessariamente, envolverá as questões que dizem respeito  à  efetivação  da obrigação,  ou  seja,  os pressupostos  de  admissibilidade  e  a  sobrevivência  da  obrigação executada.  Essa conclusão é fundamental para o desenvolvimento do item seguinte.  6.  Mérito e coisa julgada

Juízo de admissibilidade e juízo de mérito são noções que pertencem à teoria  geral do processo. Referem­se aos atos postulatórios. Todo ato postulatório submete­se a um  duplo juízo.  Em primeiro lugar, verifica­se se estão presentes os requisitos para que aquilo  que  foi  postulado  possa  ser  examinado.  Empós,  e  sendo  positivo  o  resultado  do  primeiro  juízo,  examina­se  a  postulação  com  o  fito  de  verificar  se  pode  ou  não  ser  acolhida.  No  primeiro caso, estamos diante do juízo de admissibilidade, no segundo, do juízo de mérito.  Por força de uma tendência doutrinária de desprestigiar o processo de execução  e  a  tutela  executiva  –  o  que  é  no  mínimo  curioso  –,  de  modo  a  tirar­lhe  o  status  de  tutela  jurisdicional,  parte  da  doutrina  não  identificava,  na  tutela  executiva,  esses  dois  juízos  mencionados. Cogitavam, até, do juízo de admissibilidade, mas não admitiam falar de mérito  no processo de execução.  Alguns  doutrinadores  passaram  a  demonstrar  o  equívoco  desta  concepção.  Partindo da premissa exposta no primeiro parágrafo — de que as noções de admissibilidade e  mérito  pertencem  à  teoria  geral  do  processo,  mais  especificamente  ao  estudo  dos  atos  postulatórios —, demonstraram esses autores a existência do mérito na execução.  Mérito  é  o  pedido,  a  postulação,  o  objeto  sobre  o  qual  incidirá  a  prestação  jurisdicional. Na execução, o mérito divide­se em dois aspectos: a) pedido imediato, que é a  tomada  das  providências  executivas;  b)  pedido  mediato,  que  é  o  resultado  que  se  espera  a  alcançar, o bem da vida que se pretende conseguir através do processo. Eis o mérito. O que  acontece é que não haverá “julgamento” na execução, pois essa tarefa não lhe cabe, não lhe é  pertinente –  embora, como se viu, há inúmeras situações em que o magistrado é chamado a  decidir/julgar questões no bojo da execução.  Todas  as  vezes  que  o  magistrado decidir  sobre  algum  aspecto da  postulação,  pode­se dizer que haverá uma decisão de mérito.  O objeto do processo (em sentido amplo) envolve a relação jurídica de direito  material  contida  no  processo.  OSKAR  BÜLLOW,  já  em  1870,  dizia  que  a  relação  jurídica  processual contém a relação jurídica material.  Assim,  sempre  que  o  magistrado,  na  execução,  resolver/examinar  algum  aspecto da relação jurídica material – que não é mais  incerta, mas se encontra insatisfeita –,  estará ele proferindo uma decisão de mérito.

Concluímos: a) há mérito no processo de execução; b) o objeto do processo de  execução  é,  no  entanto,  diferente  do  “mérito”  cautelar  e  do  mérito  do  processo  de  conhecimento.  Pois bem.  O que isso tem a ver com a análise da coisa julgada no processo de execução?  A  coisa  julgada  material  é  fenômeno  jurídico  (situação  jurídica)  que  surge  a  partir  da  conjugação  dos  seguintes  elementos:  a)  decisão  judicial;  b)  trânsito  em  julgado  (coisa  julgada  formal);  decisão  de mérito; d)  cognição  exauriente.  A  presença  destes  quatro  elementos  faz  surgir,  no  direito  processual  civil  brasileiro,  ao  menos  como  regra,  a  coisa  julgada material.  Quer porque se entende que na execução não há cognição, quer porque não se  admite a existência de mérito nesses casos, a maior parte dos doutrinadores entende não haver  possibilidade de ocorrência de coisa julgada material no processo de execução.  Tentamos demonstrar  o  equívoco  das  premissas  para,  agora,  criticarmos  essa  conclusão.  É possível que do processo de execução surja a coisa julgada material.  Vejamos:  a)  obviamente,  ao  asseverarmos  isso,  não  queremos  dizer  que  a  obtenção da coisa julgada material seja o fim, o objetivo, a razão de ser da tarefa  executiva, como é da tarefa de certificação;  b)  é  possível  que  a  execução  se  extinga  em  razão  de  fatos  que  dizem  respeito  à  própria  extinção  da  relação  jurídica  material  subjacente  ao  processo executivo, como ocorre em todas as hipóteses do art. 794 do CPC;  c)  não  conseguimos  distinguir  a  decisão  do  magistrado  que  homologa uma transação em um processo de conhecimento (art. 269, III, CPC), e  que está apta a fazer coisa julgada material, da decisão judicial que homologar uma  transação  no  bojo  do  processo  de  execução  (art.  794,  II,  CPC).  Por  acaso  a  topografia  da  decisão  influenciaria  a  resposta  ao problema?  Poderia o  exeqüente,  uma  vez  homologada  a  transação,  executar, de  novo, o  crédito que possuía  antes  do acordo?

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d)  e se a execução se tivesse extinguido por pagamento? Poderia o  exeqüente demandar de novo? E se fosse reconhecida a prescrição?  A  resposta  a  essas  perguntas  é  a  mesma:  não.  Nas  situações  mencionadas  houve decisão de mérito fundada em cognição exauriente, apta, portanto, a, após o trânsito em  julgado, ficar imune com a coisa julgada material.  Posicionamo­nos, assim, ao lado da parcela da doutrina que entende possível o  surgimento  de  coisa  julgada  material  no  processo  de  execução,  de  que  servem  de  exemplo  BARBOSA MOREIRA, DONALDO ARMELIN,  ALBERTO CAMIÑA MOREIRA, dentre outros.  7.  Espécies de execução 

7.1. Execução por sub­rogação e execução por coerção indireta. 
A execução pode ocorrer com ou sem participação do executado.  Chama­se  de  execução  por  sub­rogação  aquela  em  que  o  Poder  Judiciário  prescinde da colaboração do executado para a efetivação da prestação devida. O magistrado  toma  as  providências  que  deveriam  ter  sido  tomadas  pelo  devedor,  sub­rogando­se  na  sua  posição.  Há  substituição  da  conduta  do  devedor  por  outra  do  Estado­juiz,  que  gere  a  efetivação do direito do executado. Alguns autores usam a designação “execução direta” ou  “execução por meio de coerção direta” para designar o fenômeno.  Para  LIEBMAN,  por  exemplo,  só  se  pode  falar  de  execução  direta.  Esse  posicionamento do mestre italiano revelava o preconceito que se tinha em relação às formas  de coerção indireta, vista, à época, com muita má­vontade.  Vejamos o que se entende por execução indireta.  Por vezes, notadamente nos casos de obrigações infungíveis, mas não somente  neles,  a  sub­rogação  ou  se  mostra  impossível,  em  razão  da  infungibilidade,  ou  se  mostra  demais onerosa/demorada, como nos casos de prestação de fazer fungível.  Nestes  casos,  o  Estado­Juiz  pode promover a  execução  com a  “colaboração”  do executado, forçando a que ele próprio cumpra a prestação devida. Em vez de o Estado­juiz  tomar as providências que deveriam ser tomadas pelo executado, o Estado força, por meio de  coerção psicológica, a que o próprio executado cumpra a prestação. Chama­se essa execução  de “execução indireta” ou “execução por coerção indireta”.  Os  meios  executivos  de  coerção  indireta  atuam  na  vontade  do  executado,

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servindo com uma espécie de contra­motivo, “estímulo” ao cumprimento da prestação. Esta  coerção pode se dar por medo (temor), como é o caso da prisão civil e da multa coercitiva,  como  também  pelo  incentivo,  as  chamadas  sanções  premiais,  de  que  serve  de  exemplo  a  isenção de custas e honorários para o réu que cumpra o mandado monitório.  A execução indireta não era muito bem vista antigamente: a) quer porque não  se poderia falar de execução forçada com participação do executado; b) quer porque à época  valia a máxima da intangibilidade da vontade humana, segundo a qual o devedor não poderia  ser obrigado/forçado a colaborar, pois estaria livre para não cumprir o seu dever.  Esse  posicionamento  está  superado,  a  ponto  de  o  Prof.  MICHELLE  TARUFFO,  em  artigo  publicado  na  Revista  de  Processo  n.  59,  ter dito  que  a  tendência  moderna  é  a  de  prestígio aos meios coercitivos indiretos, mais eficazes e menos onerosos.  Cumpre, ainda, esclarecer um ponto. Não se pode restringir a execução indireta  às obrigações infungíveis. O raciocínio não pode se pautar neste tipo de divisão. A forma de  execução  será  aquela  que  for  mais  adequada  para  a  efetivação  do  direito,  seja  fungível  ou  infungível a obrigação, pois não há entre elas qualquer hierarquia.  Há, no entanto, uma tendência legislativa de conferir à tutela das obrigações de  fazer  e  não­fazer  a  técnica  de  execução  indireta,  pela  qual  seriam  efetivadas  por  meio  de  provimentos jurisdicionais que impusessem o cumprimento da prestação, sob pena de multa  ou outra medida coercitiva.  À  tutela  das  obrigações  de  dar  coisa  distinta  de  dinheiro,  inicialmente,  reservava­se  a  execução  por  sub­rogação, que se  dava  pelo  desapossamento. Após  a  última  reforma  processual,  entretanto,  estendeu­se  a  estas  obrigações  a  possibilidade  de  serem  efetivadas  por  coerção  indireta,  conforme  faz  ver  o  art.  461­A  do  CPC.  O  caso  concreto  revelará qual a forma mais adequada de execução.  Normalmente se atribuía às obrigações de pagar quantia a técnica da execução  por sub­rogação, que se daria pela expropriação de bem do executado e a entrega do produto  ao exeqüente. Há, no entanto, hipóteses de execução indireta para pagamento de quantia: a) a  primeira,  de  lege  lata , que é  a  execução por dívida  alimentar,  que  se  pode dar  sob pena  de  prisão  civil;  b)  a  segunda, de lege  ferenda , prevista  no  Projeto de  Reforma da Execução,  já  mencionado,  em  que  se  pretende  que  o  magistrado  comine  uma  multa  fixa  para  o  caso  de  descumprimento  da  sentença  que  impuser  o  pagamento  de  quantia.  A  praxe  forense  revela,  ainda, uma manifestação de execução indireta na execução por quantia certa: muitas vezes o

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magistrado,  ao  fixar  o  valor dos  honorários  advocatícios  devidos  no processo  de  execução,  estabelece um valor menor, para a hipótese de pagamento pelo executado, e um valor maior,  para  o  caso de  ele  embargar.  Ora,  nesses  casos,  incentiva­se  o  adimplemento,  valendo­se o  magistrado de técnica de coerção indireta pelo incentivo.  Por fim, uma observação.  A  distinção  que  se  pretende  fazer  entre  “ação  executiva  lato  sensu”  e  “ação 

mandamental” parte da distinção entre coerção direta e indireta. Ambas as demandas teriam 
por  característica  comum  a  circunstância  de  poderem  gerar  uma  decisão  que  certifique  a  existência  do  direito  e  já  tome  providências  para  efetivá­lo,  independentemente  de  futuro  processo  de  execução.  São,  pois,  ações  sincréticas.  Distinguem­se  na  medida  em  que  a  primeira  visa  à  efetivação  por  sub­rogação/execução  direta,  e  a  segunda  por  coerção  pessoa/execução indireta.  A  terminologia  consagrada  já  revela  o  preconceito  que  existia  em  relação  à  execução  indireta.  “Executiva”  somente  poderia  ser  a  ação  que  levasse  à  “sub­rogação”.  Embora  já  esteja  consagrada,  a  terminologia  merece  reparos;  o  melhor  seria:  a)  ação 

executiva lato sensu por coerção direta ; b) ação executiva lato sensu por coerção indireta.  7.2. Execução de título judicial e execução de título extrajudicial 
A  execução  pode  ser  classificada  de  acordo  com  o  título  executivo  que  a  autoriza/legitima.  Fala­se  em  execução  por  título  executivo  judicial  e  execução  por  título  extrajudicial.  A distinção tem utilidade na medida em que a defesa do executado será mais  ou  menos  ampla,  conforme  se  trate  de  execução  por  título  extrajudicial  (art.  745,  CPC)  ou  judicial (art. 741, CPC), respectivamente.  Conforme já foi  visto, há uma tendência  legislativa de acabar a execução por  título judicial em processo autônomo – continuaria apenas a execução autônoma de sentença  arbitral ou sentença penal condenatória.  Destaquemos os pontos mais importantes de cada um desses títulos executivos.  Títulos judiciais  a)  Costumava­se  dizer  que  o  rol  dos  títulos  executivos  judiciais  seria  exaustivo: fora das hipóteses do art. 584, CPC, não se poderia falar de título executivo.

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Essa  premissa  mostrou­se  equivocada.  Vários  são  os  títulos  executivos  que  estão Fora do rol daquele artigo. Apenas para exemplificar, vejamos:  ­  decisões  interlocutórias  que  antecipam  a  tutela  ou  resolvam  parte  do  litígio,  como  aquela  que  gera  exclusão  do  litisconsorte  com condenação ao pagamento das verbas de sucumbência;  ­  decisões  judiciais  em  ações  dúplices,  normalmente  declaratórias, mas que podem ser executadas pelo réu: oferta de alimentos,  desapropriação e consignação em pagamento, p. ex.;  ­  as  sentenças  previstas  nos  arts.  588  e  811,  que  tornam  certa a obrigação de indenizar;  são sentenças  ilíquidas, como o são tantas  sentenças  condenatórias,  mas  indiscutivelmente  servem  como  título  executivo  para  a  execução  da  obrigação  de  reparar  o  dano,  embora  não  sejam sentenças condenatórias;  ­  o  STJ,  recentemente,  admitiu  a  executividade  de  sentença declaratória, acolhendo a tese do hoje ministro TEORI ZAVASCKI.  b) O rol do art. 584 do CPC prevê como título judicial a sentença arbitral que,  obviamente,  foi  produzida  fora  do  Poder  Judiciário.  Visa­se,  com  isso,  prestigiar  a  decisão  arbitral,  não  mais  submetida  à  homologação  do  Poder  Judiciário.  Frisa­se,  com  isso,  que o  árbitro não dispõe de competência para executar as suas decisões.  c)  O  inciso  III  do  art.  584  foi  recentemente  alterado  para  se  corrigir  uma  desarmonia  legislativa.  Agora,  deixa­se  clara  a  possibilidade  de  o  magistrado  homologar  conciliação  judicial  que  verse  sobre questão  não posta  em  juízo. Esta possibilidade  já havia  sido  alvitrada  na  Reforma  de  94,  mas  a  Lei  de  Arbitragem,  desconsiderando  a  alteração,  revogou o dispositivo que acabara de ser aprimorado, esquecendo­se da inovação.  Correta  e  bem­vinda  a  alteração  legislativa  que  deveria,  a  nosso  ver,  buscar  uma  forma  de  prestigiar  o  disposto  no  art.  57  da  Lei  de  Juizados  Especiais,  que  permite  a  formulação  de  requerimento,  ao  juízo  competente,  de  homologação  de  qualquer  acordo  extrajudicial. Trata­se de dispositivo cuja eficácia transcende o âmbito dos Juizados Especiais  Cíveis. O Projeto de Reforma do CPC corrige este esquecimento e propõe a inserção, no rol  do  art.  584  do  CPC,  do  mesmo  enunciado  normativo  do  art.  57  da  LF  9099/95,  fato  que  certamente  fará  com  que  a  atuação  dos  estudiosos  e  aplicadores  se  dirija  a  esta  benfazeja  regra,  que,  utilizada  corretamente  no  âmbito,  p.  ex.,  da  Justiça  do  Trabalho,  poderia  evitar 14 

demandas  inúteis  e  a  utilização  do  artifício  das  “lides  simuladas”.  Veja,  a  propósito,  a  doutrina de VALTON PESSOA  sobre o tema.  Cumpre  lembrar,  ainda,  que  a  atividade  do  magistrado,  ao  homologar  conciliação sobre questão não posta em juízo, é de jurisdição voluntária.  Título extrajudiciais  Sobre os títulos extrajudiciais, destacamos os seguintes pontos.  a)  Há  uma  tendência  inexorável  e  irreversível  de  ampliação  do  número  de  títulos  executivos  extrajudiciais  conferindo,  ao  titular de direito  inadimplido,  imediatamente  as vias executivas. A alteração do inciso II do art. 585 do CPC indica claramente esta opção  legislativa.  b)  Os  títulos  executivos  extrajudiciais  se  justificam  na  medida  em que  foram  produzidos  com  a participação do próprio  executado.  É por  isso  que o  STJ  entendeu  que o  contrato de abertura de conta corrente não é título executivo, pois a  sua liquidação era feita  com o extrato bancário, documento unilateralmente produzido pelo exeqüente.  Fogem  à  regra  as  certidões de dívida  ativa,  que  aparelham  a  execução  fiscal,  pois,  embora  produzidas  unilateralmente,  pressupõem  a  legitimidade  da  atuação  do  Poder  Público e o respeito ao devido processo legal administrativo.  c)  Após  intensa  divergência,  o  STJ  recentemente  sumulou  o  entendimento  quanto  à  possibilidade  de  execução  por  título  extrajudicial  contra  a  Fazenda  Pública  (enunciado 279 da súmula da jurisprudência predominante).  d)  O  inciso  V  do  art. 585 prevê  hipóteses de  títulos  executivos  extrajudiciais  produzidos pelo juiz: decisão que fixou honorários de perito, por exemplo. Ao nosso ver, com  razão  TEORI  ZAVASCKI,  para  quem  a  inclusão  destas  decisões  no  rol  do  art.  585  não  se  justificaria,  pois  não  se  justifica  ampliar  a  cognição  judicial  em  eventuais  embargos  à  execução. Tudo que o devedor poderá discutir em relação à dívida, ele poderia fazê­lo no bojo  do processo de conhecimento que gerou o título.  e) Dispõe o §1º do art. 585 que a propositura de qualquer ação envolvendo o  título executivo extrajudicial  não inibe a sua execução. Apesar da simplicidade do texto, na  prática inúmeras questões surgem a partir deste enunciado.  Estas ações autônomas de discussão da dívida certificada em título executivo  extrajudicial são chamadas pela doutrina de “defesa heterotópica” do executado, porque feita 15 

fora  do  âmbito  do  processo  de  execução  —  embargos  de  executado  ou  “exceção  de  pré­  executividade”.  A  propositura  de  tais  ações  —  consignação  em  pagamento,  declaratória  de  inexistência da dívida, revisão contratual, etc.— traz as seguintes dúvidas: a) seria possível a  antecipação  da  tutela  para  impedir  a  instauração  ou  suspender  o  processo  de  execução  já  instaurado?; b) haveria conexão entre a ação de conhecimento e a ação executiva?; c) poderia  esta ação autônoma ser recebida como embargos à execução, acaso ajuizada após o prazo de  embargos e mediante caução?; d) poderia esta ação ser convertida em embargos à execução,  mediante garantia, se fosse ajuizada anteriormente ao processo de execução?  São  várias  questões;  nem  a  jurisprudência  nem  a  doutrina  chegaram  a  um  denominador  comum.  Recentemente,  belíssima  obra  abordou  o  tema:  “Ações  prejudiciais  à  execução”, ROSALINA PEREIRA, Saraiva.  Esses, pois, os principais aspectos das execuções fundadas em título judicial e  extrajudicial. 

7.3. Execução provisória e execução definitiva  
Divide­se  a  execução  de  acordo  com  a  estabilidade  da  eficácia  do  título  executivo judicial: se se tratar de título judicial já definitivamente julgado, haveria execução  definitiva;  se  se  tratar  de  título  judicial  que  ainda  pende  de  exame,  a  execução  seria  provisória.  Toda execução de título extrajudicial é definitiva.  Execução definitiva é a execução completa, que vai até a fase final (entrega do  bem da vida), sem peias ou outras exigências para o credor­exeqüente. Execução provisória  ou execução incompleta é aquela que, embora, no atual regramento, possa ir até o final (inciso  II do art. 588), exige alguns condicionamentos extras para o exeqüente.  O  art.  589  diz  que  a  execução  definitiva  far­se­á  nos  autos  principais.  Nem  sempre.  É  possível  execução  definitiva  da  parte  da  sentença  não  apelada;  como  os  autos  subiram com o recurso parcial, a execução haverá de ser feita por carta de sentença ou autos  complementares.  O mesmo art. 589 diz que a execução provisória dar­se­á por carta de sentença  ou  autos  suplementares.  Nem  sempre,  também.  A  execução  de  tutela  antecipada,  conforme  maior  parte  da  doutrina  assevera,  que  é  provisória,  dá­se  nos  próprios  autos  principais.  O

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mesmo ocorre com a execução da sentença cuja apelação não foi recebida, mas ainda pende  agravo de instrumento interposto contra a decisão que não admitiu a apelação.  A  execução  provisória  foi  bastante  alterada  pela  Lei  Federal  10.444/2002,  e  essas alterações induvidosamente a aprimoraram.  Vejamos as principais características da execução provisória.  a)  Corre  por  conta  e  risco  do  credor,  que  responderá,  objetivamente,  pelos  prejuízos causados ao executado, se porventura o seu título for cassado ou alterado.  b)  Independe  de  caução.  Nada  impede,  porém,  que,  no  caso  concreto,  diante  das particularidades, possa o juiz, com base no poder geral de cautela, impor caução. O que se  quis deixar claro, com a nova redação do inciso I do art. 588 do CPC, é que não se trata de  caução exigida por lei para sua simples instauração.  c)  Exige­se,  no  entanto,  a  caução  para  as  hipóteses  de  levantamento  de  dinheiro, alienação  de domínio ou outros que possam  resultar  grave  dano  (inciso  III  do  art.  588). Esse inciso traz a principal novidade da reforma da execução provisória: a possibilidade  de ir­se até a fase final da execução.  Esta caução pode ser dispensada nos casos de crédito alimentar, até 60 salários  mínimos, quando o exeqüente se mostrar em estado de necessidade (§2º do art. 588, CPC).  d) O regime da execução provisória aplica­se totalmente à execução da tutela  antecipada (art. 273, §3º, CPC).  e)  Cumpre  esclarecer  a  seguinte  situação:  iniciada  uma  execução  definitiva,  que se suspende pelo ajuizamento dos embargos do executado, como ela volta a correr, se os  embargos  forem  julgados  improcedentes  e  a  apelação,  eventualmente  interposta  contra  esta  sentença, for recebida apenas no efeito devolutivo (art. 520, V, CPC)? A resposta é a seguinte:  volta  correr  como  parou, ou  seja,  definitivamente.  Caberia  execução  provisória  da  sentença  dos embargos. Eventual modificação de sentença não impede o prosseguimento definitivo da  execução  embargada.  Se  o  exeqüente  afinal  se  mostrar  sem  razão, por  força  do  art. 574 do  CPC deverá indenizar, em responsabilidade objetiva, os prejuízos sofridos pelo executado.  Cumpre lembrar que, na hipótese do art. 2­B da Lei Federal 9494/97, alterada  pela MP 2180­35/2001, não cabe execução provisória contra Fazenda Pública.  8.  Pr incípios

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8.1. Princípio de que não há execução sem título 

Nulla executio sine titulo, trata­se de adágio famoso. Não se pode instaurar a 
execução sem que se tenha um documento a que a lei confira a aptidão para gerar a atividade  executiva do Estado.  As considerações sobre o título executivo já foram feitas.  8.2. Responsabilidade ou toda execução é real  Segundo  este  princípio,  somente  o  patrimônio  do  devedor,  ou  de  terceiro  responsável, pode ser objeto da atividade executiva do Estado.  Houve  época  em  que  se  permitia  que  a  execução  incidisse  sobre  a  própria  pessoa  do  executado,  que  poderia,  por  exemplo,  virar  escravo  do  credor  como  forma  de  pagamento  da  sua  dívida.  Episódio  que  bem  demonstra  o  espírito  desta  época  é  o  célebre  julgamento de PÓRCIA na obra “O Mercador de Veneza” de SHAKESPEARE.  A humanização do direito trouxe consigo este princípio.  A proliferação das técnicas de execução indireta, todavia, parece relativizar um  pouco o princípio.  Alguns  autores  (MARINONI,  PONTES  DE  MIRANDA,  MARCELO  LIMA  GUERRA)  chegam a defender a possibilidade de prisão civil como medida coercitiva para a efetivação de  direitos não­patrimoniais, sob o fundamento de que a vedação constitucional seria apenas a da  prisão civil por dívida, o que, segundo entendem, se restringe às obrigações pecuniárias. 

8.3. Contraditório 
A  doutrina  italiana,  que  não  prestigiava  o  processo  de  execução,  como  já  se  disse, chegou a defender a idéia de que no processo de execução não haveria contraditório.  Esse  posicionamento  impressionou  ALFREDO  BUZAID,  que  no  seu  projeto  previu  um  contraditório  apenas  eventual,  e  por  provocação  do  executado,  no  processo  de  execução.  Este posicionamento, hoje em dia está superado.  a)  Quer porque a redação do texto constitucional é clara ao garantir  o contraditório em qualquer processo jurisdicional;  b)  a atividade executiva é, induvidosamente, jurisdicional;

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c)  a garantia do contraditório nada mais é do que a repercussão, no  processo,  do  regime  democrático,  pois  é  a  garantia  de  participação  na  formação/produção do direito;  d)  a  consagração  doutrinária  e  jurisprudencial  da  exceção  de  pré­  executividade revela a existência  inequívoca da possibilidade da discussão/defesa  interna ao processo de execução;  e)  existem  inúmeros dispositivos  legais  que instrumentalizam  este  princípio no procedimento executivo. Vejam­se, p. ex., as regras sobre a nomeação  de bens à penhora e a da punição por atos atentatórios à dignidade da justiça (art.  599, II, CPC). 

8.4. Princípio da proporcionalidade 
O princípio da proporcionalidade, visto por muitos como a grande ferramenta  hermenêutica  para  a  superação,  com  racionalidade  dogmática,  dos  males  do  positivismo,  e,  por outros, como o fator principal a ser levado em consideração na averiguação do chamado  devido processo legal substancial, tem bastante aplicação no âmbito do processo de execução.  Como mecanismo de solução de conflito entre direitos fundamentais, ajuda o  magistrado a solucionar a admissibilidade ou não da quebra do sigilo bancário.  Auxilia o magistrado, ainda, na tarefa de identificação de bens impenhoráveis,  como os adornos suntuosos no bem de família (LF 8009/90).  Serve,  ainda,  para  que  o  magistrado  aplique  a  regra  do  art.  620  —  menor  onerosidade —, logo abaixo examinada.  Recentemente,  foram  publicados  importantes  trabalhos  que  destacam  as  repercussões,  no  processo  de  execução,  do  princípio  da  proporcionalidade:  MARCELO  LIMA  GUERRA, opúsculo publicado pela Editora RT,  e JOÃO  BATISTA  LOPES, ensaio  publicado  na  Revista Dialética de Direito Processual. 

8.5. Princípio da menor onerosidade possível ao executado 
De acordo com esse princípio, se a execução puder ser efetiva por mais de uma  maneira,  deve­se  escolher  aquela  que  seja  a  menos  onerosa  ao devedor.  Este  princípio  está  consagrado no art. 620 do CPC. Isso não quer dizer que a execução não possa ser gravosa ao  executado – ela sempre o será, e deverá sê­lo, pois é da sua essência. Se só houver um meio  efetivo e adequado para se promover a execução, e este meio for muito gravoso, ele terá de 19 

ser  posto  em  prática.  Nota­se  um  certo  desvirtuamento  na  aplicação  prática  do  dispositivo,  que  tem  sido  aplicado  como  se  a  execução  se  desse  da  forma  que  melhor  aproveitasse  ao  executado.  A aplicação do princípio da proporcionalidade, na exegese deste dispositivo, é  absolutamente fundamental. 

8.6. Princípio da disponibilidade da execução 
A  execução  fica  à  disposição  do  credor.  Não há,  no  processo de  execução,  a  simetria  que  existe,  no  particular,  no  processo  de  conhecimento.  A  execução  é  feita  para  atender aos interesses do exeqüente, e esse é o norte que deve ser observado pelo magistrado,  respeitados, obviamente, os demais princípios.  Esse princípio pode ser exemplificado pelo regime da desistência na execução.  O  credor  pode  desistir  de  toda  execução  ou  de  algum  ato  executivo  independentemente  do  consentimento  do  executado,  ressalvada  a  hipótese  de  existência  de  embargos  de  executado  que  versem  sobre  questões  relacionadas  à  relação  jurídica  material  (mérito da execução), quando a concordância do executado/embargante se impõe. 

8.7. Princípio da tipicidade dos meios executivos 
Durante muito tempo vingou a idéia de que o magistrado só poderia proceder à  execução valendo­se de meios executivos tipicamente previstos na legislação.  A  situação  atual,  no entanto,  revela  uma  tendência  de  ampliação dos poderes  executivos do magistrado, criando­se uma espécie de poder geral de efetivação, que permitiria  ao  magistrado  valer­se dos  meios  executivos  que  reputar  mais  adequados ao caso  concreto,  aplicado, sempre, o princípio da proporcionalidade.  MICHELLE  TARUFFO,  no  estudo  mencionado,  já  apontava  que  o  direito  americano,  diante  da  inefetividade  dos  meios  executivos  at  law,  começou  a  autorizar  o  magistrado a tomar medidas executivas adequadas ao caso concreto. Trata­se, afirma o jurista  italiano, de aplicação do princípio da adequação, segundo o qual as regras processuais devem  ser adaptadas às necessidades do direito material.  No Brasil, há previsão expressa que garante a atipicidade dos meios executivos  na  efetivação das obrigações de fazer, não fazer e dar coisa que não é dinheiro. Trata­se do  art. 461, § 5º, que consagra o mencionado poder geral de efetivação.

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Considerando  a  existência  de  um  direito  fundamental  à  tutela  executiva,  e  a  circunstância de que não há porque prestigiar apenas as mencionadas obrigações, MARCELO  LIMA  GUERRA,  em  estudo  recente,  pugna  pela  extensão  do  §5º  do  art.  461  também  à  efetivação das obrigações de pagar quantia. Cita, como exemplo, a possibilidade de usufruto  judicial do imóvel mesmo sem a concordância do devedor (a despeito da letra do art. 722 do  CPC)  e  a  possibilidade  de  fixação  de  multa  diária  na  decisão  que  ordenar  ao  executado  a  indicação de bens penhoráveis, dever processual previsto no inciso IV do art. 600 do CPC.  No  âmbito  dos  Juizados  Especiais  Cíveis,  consagrou­se  prática  de  execução  indireta  para  pagamento  de  quantia  não­tipificada:  a  inscrição  do  devedor/executado  nos  cadastros  de  proteção  ao  crédito  (Serasa,  SPC  etc.),  como  forma  de  coagir  o  devedor  ao  pagamento da obrigação. Este entendimento, inclusive, encontra­se sumulado nos Enunciados  dos  Coordenadores  de  Juizados  Especiais,  compilada  nos  encontros  que  promovem  anualmente. 

8.8. Princípio da utilidade 
A  jurisdição  somente  pode  ser  acionada  se  houver  alguma  espécie  de  beneficio/proveito/utilidade  que  se  possa  alcançar  pelo  Poder  Judiciário.  Não  é  por  outro  motivo que se impõe o interesse de agir como condição de admissibilidade da demanda.  Não  poderia  ser  diferente  com  a  execução,  que  somente  deve  prosseguir  se  puder resultar algum beneficio para o credor/exeqüente. A execução não pode ser instrumento  de capricho do credor, que deseja apenas ver o executado passar por tal constrangimento.  É  por  isso  que  existe  a  regra  do  §2º  do  art.  659  do  CPC,  que  afirma  peremptoriamente que não se fará penhora quando evidente que o produto da execução será  totalmente absorvido pelo pagamento das custas da execução.  Essa também a justificativa do art. 1º da Lei Federal 9469/97, que autoriza os  advogados dos entes federais a desistirem de execuções de valor igual ou inferior a mil reais,  pois  o  entendimento  é  de  que  a  União  gastará  mais  executando  do  que  o  bem  que,  eventualmente, possa vir a ganhar. 

8.9. Autonomia  
Costumava­se  elencar,  no  rol  dos  princípios  da  execução,  a  autonomia  para  significar  que  a  execução  deveria  ocorrer  em  processo  autônomo.  Já  vimos  o  estádio  de  obsolescência em que se encontra este princípio, ao menos visto sob esta perspectiva.

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Deve­se compreender este princípio, pensamos, como a consagração de que a  função executiva  é autônoma, com peculiaridades próprias, não se trata de uma “anomalia”,  “de  um  corpo  estranho”,  no  qual  o  “vestuário”  da  teoria  geral  do  processo  não  poderia  ser  utilizado. 

8.10.  Responsabilidade do exeqüente 
A execução, seja provisória ou definitiva, corre sob a responsabilidade objetiva  do  exeqüente,  que  deverá  indenizar  o  executado  se,  eventualmente,  ficar  demonstrada  a  injustiça da execução. Para a execução provisória, vale o disposto no art. 588, I, CPC; para a  definitiva, vale a regra do art. 574, do mesmo Código. 

8.11.  Maior coincidência possível 
Trata­se de velha máxima chiovendiana, segundo a qual o processo deve dar a  quem  tenha  razão o  exato bem da  vida  a  que  ele  teria  direito,  se  não precisasse  se  valer  do  processo jurisdicional.  O  processo  de  execução  deve  primar,  na  medida  do  possível,  pela  obtenção  deste resultado (tutela jurisdicional) coincidente com o direito material.  Chama­se esse princípio, atualmente, de primazia da tutela específica.  As últimas reformas processuais deram muita importância a esse princípio, não  satisfatoriamente observado no antigo regramento da efetivação das obrigações de fazer, não  fazer  e  dar  coisa,  cujo  descumprimento  implicava,  quase  sempre,  a  conversão  da  obrigação  em perdas e danos. 

8.12.  Dignidade da pessoa humana  
O  princípio  da  proteção  da  dignidade  da  pessoa  humana  é  considerado,  atualmente,  o  princípio  basilar  de  toda  ordem  jurídica,  que  deve  ser  construída  a  partir  da  observância deste vetor (conferir, por todos, o trabalho de INGO SARLET).  Obviamente, não poderia o processo de execução fugir a esta exigência.  É com base neste princípio que os tribunais têm estendido à impenhorabilidade  de  bem  de  família  ao  único  imóvel  de  um  solteiro  –  no  último  informativo  do  STJ,  os  ministros chegaram a dizer que não se poderia tornar ainda mais insuportável a vida de quem  tinha “escolhido o pior dos caminhos: a solidão”.  Também  é  por  força  deste  princípio,  que  se  têm  considerado  como

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irrenunciáveis  as  regras  do beneficium  competentiae, previstas  nos  incisos  II  e  seguintes  do  art. 649 do CPC. O STJ, por exemplo, invalidou a penhora de uma televisão, oferecida pelo  executado à penhora — que foi em seguida discutida no bojo dos embargos à execução  —,  sob fundamento de que era bem de família e, portanto, a sua impenhorabilidade não poderia  ser renunciada pelo executado.  Em  situações  como  essas,  invocamos,  mais  uma  vez,  a  necessidade  de  aplicação do princípio da proporcionalidade.  Ei­las, assim, as principais características, os principais aspectos de uma teoria  da tutela executiva.

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