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Jean Paul Sartre - A Engrenagem

Jean Paul Sartre - A Engrenagem

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A ENGRENAGEM Na periferia duma grande cidade, uma imensa exploração petrolífera. Poços, reservatórios, torres de , armazéns. Nenhum sinal de actividade. Os arruamentos da instalação estão desertos, as máquinas estão paradas. Nem um homem a trabalhar. Entre a cidade e a instalação, ergue-se um bairro operário. As suas ruas estão desertas. As lojas estão fechadas. Dum bico de gás pende, enforcado, um manequim cujo peito está atravessado por um cartaz de papelão sobre o qual se lê, em l
A ENGRENAGEM Na periferia duma grande cidade, uma imensa exploração petrolífera. Poços, reservatórios, torres de , armazéns. Nenhum sinal de actividade. Os arruamentos da instalação estão desertos, as máquinas estão paradas. Nem um homem a trabalhar. Entre a cidade e a instalação, ergue-se um bairro operário. As suas ruas estão desertas. As lojas estão fechadas. Dum bico de gás pende, enforcado, um manequim cujo peito está atravessado por um cartaz de papelão sobre o qual se lê, em l

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A ENGRENAGEM Na periferia duma grande cidade, uma imensa exploração petrolífera. Poços, reservatórios, torres de <<cracking>>, armazéns.

Nenhum sinal de actividade. Os arruamentos da instalação estão desertos, as máquinas estão paradas. Nem um homem a trabalhar. Entre a cidade e a instalação, ergue-se um bairro operário. As suas ruas estão desertas. As lojas estão fechadas. Dum bico de gás pende, enforcado, um manequim cujo peito está atravessado por um cartaz de papelão sobre o qual se lê, em letras garrafais: Jean Aguerra, tirano. A COZINHA DUMA CASA OPERÁRIA Uma velha está sentada numa cadeira ao lado do fogão de olhos perdidos no vácuo, com um ar angustiado. Em pé diante da janela uma mulher nova, de rosto prematuramente cansado, escova um velho casaco de homem, olhando o manequim enforcado. Ouvem-se ao longe alguns estampidos, seguidos de rajadas de metralhadora. A mulher deixa cair a escova e aproxima-se ainda mais da janela, apurando o ouvido. A velha levantou-se. Diz, com lassidão: - Ainda estão a disparar. Quando acabará isto? Com a escova, a mulher aponta o manequim: - Quando o tiverem enforcado a sério. UMA RUA DA CIDADE Uma grande rua comercial ao fundo da qual se avista um enorme edifício de alvenaria: o palácio do governo. A rua está deserta. As portas onduladas da maior parte das lojas estão descidas. Outras lojas ficaram com os vidros partidos. No meio da rua, um carro eléctrico voltado. Junto duma parede, um cadáver, o dum operário em mangas de camisa, com o tronco cingido por uma cartucheira. Está estendido com os braços em cruz, e a sua espingarda está diante dele. Um tiro; depois, um momento de silêncio. Um insurrecto sai dum portão, de espingarda em punho. Corre, rente às paredes, na direção do Palácio do governo. Disparam contra ele uma rajada de metralhadora. O homem atira-se ao chão, de bruços, atrás do cadáver. O tiro cessa. O homem levanta-se, apanha rapidamente a espingarda do morto e recomeça a correr. Some-se no portal dum prédio. O PÁTIO DUM PRÉDIO Uma vintena de insurrectos, em armas, e algumas mulheres estão agrupadas no pátio. O chefe aproxima-se do insurrecto que já conhecemos e pergunta: - Então? Toda a gente se reúne à volta do insurrecto, que responde: - Apoderámo-nos da Central. Eles ainda ocupam o quartel Yapoul. A guerra não saiu do palácio. Ao longe, rajadas de metralhadora. NO PALÁCIO DO GOVERNO UMA ANTECÂMARA.

Uma grande sala nua. Um banco comprido forrado de veludo. Uma mesa de contínuo entre duas janelas enormes. Está aí reunida uma dúzia de grandes dignitários, de uniforme ou em traje civil. Um deles é o ministro da justiça, Mater. É um homenzinho calvo, com um ar aterrorizado, que está sentado no barco. Os outros estão de pé, rígidos, calmos, e perfeitamente silenciosos. Têm a barba por fazer, as suas caras estão abatidas e os seus fatos amarrotados. Percebe-se que passaram a noite sem dormir. Não está nenhuma luz acessa, apenas o tênue bruxulear da madrugada ilumina a sala. Bruscamente, tiros muito próximos. Uma bala faz estalar um vidro e vai alojarse no teto. Reybaz, O ministro dos negócios estrangeiros, alto, pesado, de forte arcaboiço, vai tranqüilamente à janela e inspeciona o exterior. A porta abriu-se e aparece um oficial esbaforido. Voltam-se todos para ele. Mater levanta-se. O oficial anuncia: - Estão a avançar. É o último assalto. Os dignitários recebem a notícia sem que nada nas suas caras indique o que pensam, como se desconfiassem um dos outros. Reybaz diz simplesmente: - Vou preveni-lo. O QUARTO DE JEAN AGUERRA É um quarto pequeno, duma simplicidade quase monacal: uma cama, duas cadeiras, uma mesa e uma cômoda. Jean está de pé diante de um espelho. É um homem de uns quarenta anos, alto e corpulento. Um dos seus braços está meio paralisado. Calças de oficial e uma camisa escura. Um criado grave vestido de preto está a fazer-lhe o nó da gravata. Batem à porta. - Entre – Diz Jean. É Reybaz. Jean faz um sinal ao criado grave, que sai. Reybaz fecha a porta atrás de si. - É o último assalto – diz. - Bem – diz Jean, calmamente. Vai à janela, olha para fora e acrescenta: - Estamos prontos. - Pode ser que sim – diz Reybaz – mas há de ficar-lhes caro. Há metralhadoras em todas as janelas. Jean volta-se e dirige-se para Reybaz. - Vais dar a Craver ordem de cessar fogo. - Não. - O que? - Não farei isso – diz Reybaz – Talvez fiquem com a minha pele, mas quero que a paguem. - Quem vai fazer o assalto é a rapaziada do petróleo. Reybaz encolhe os ombros e pergunta: - E daí? - São os melhores. Não é necessário mata-los. Como Reybaz não se mexe, Jean muda de tom. - É uma ordem, entendeste? - Reybaz fica parado diante de Jean, fita-o por um momento e baixa a cabeça, sem se mover. Jean dirige-se à campainha colocada à cabeceira da cama, e toca, dizendo Reybaz: - Vai-te embora! Reybaz sai, no momento em que torna a entrar o criado grave.

Jean, que está a olhar pela janela, diz sem se voltar: - Whisky. O criado serve a bebida e traz-lhe um copo que Jean esvazia num trago. Depois, Jean ordena: - O meu grande uniforme. O criado vai abrir o guarda-fato. Enquanto ele está de costas, Jean olha-o e diz negligentemente: - Para mim acabou. Ceder-te-ei ao meu sucessor. A ANTECÂMARA Os dignitários estão às janelas. Silêncio total. De repente, um imenso clamor sob as janelas, depois, novamente, o silêncio. - Entraram – diz Reybaz. A porta do gabinete de trabalho abre-se. O criado grave aparece e inclina-se: - Sua excelência pede o favor de entrarem. O GABINETE DE TRABALHO DE JEAN Uma sala imensa. Uma grande secretaria, maciça, coberta de livros e de pastas. Num canto da secretaria, uma bandeja: whisky, um sifão e copos. Nas paredes, prateleiras carregadas de livros e de pastas. Um divã e poltronas. Jean está sentado à secretaria, de grande uniforme. Os dignitários entram no gabinete com um passo hesitante. Aproximam-se de Jean que se levanta e os olha de sobrolhos franzidos. - Pelo menos metade de vocês são traidores. Vou tentar adivinhar. Daqui a um quarto de hora saberei se me engano. Os dignitários pararam em semicirculo. Jean observa-os cuidadosamente, passeando muito levemente diante deles, como se os passasse em revista. - Tu é garantido... Tu és menos garantido, mas é possível... Tu, com essa cara... Jean passa diante de Reybaz. Ao lado de Reybaz está Darieu. Jean sorri-lhe amavelmente e põe-lhe a mão no ombro. Darieu responde com um sorriso um pouco crispado. - Tu também não, evidentemente. Gostava muito de ti, Darieu. Ouvem-se passos e gritos do lado de lá da porta. Jean volta-se e ocupa o seu lugar à secretária. A porta abre-se bruscamente e um grupo de insurrectos em armas aparece no limiar. Reybaz puxa o seu revólver e atira: um dos insurrectos cai. Outro tiro: Reybaz cai por sua vez. Jean vem colocar-se rapidamente entre os dignitários e os insurrectos. - Que mais ninguém atire. Entrem. Produz-se uma barafunda à porta. As pessoas entram no gabinete. Homens e mulheres, com armas, de camisas rasgadas, caras sujas e braços nus. Jean encara a multidão que se cala a parece hesitar um momento. Um dos dignitários agrupados atrás de Jean começa lentamente a andar para ir juntar-se à multidão. Os outros seguem-se um a um, evitando os olhos de Jean, que os contempla sorrindo e diz: - Todos? É ainda melhor do que eu pensava. - Darieu é o último a juntar-se à multidão. Também tu, Darieu? – Pergunta Jean. Darieu não responde. Jean acrescenta: - Suponha que gostavas de mim. - Sim, gostava de ti – diz Darieu duramente. – E daí?

Jean encolhe os ombros sem nada dizer. Agora enfrenta sozinho a multidão. Há um momento de embaraço: Jean ainda inspira um resto de receio. Depois, repentinamente, um insurrecto atira-se para frente e esbofeteia Jean inteiramente à toa. Jean replica com um soco em cheio na cara. O operário cambaleia e aponta a arma a Jean. Outros revoltosos apontam as armas para Jean. Neste Momento, ouve-se bradar: <<alto!>>: François e Suzanne acabam de entrar no gabinete. François abre caminho por entre a multidão e vem para Jean, gritando: - Alto! Este homem é nosso prisioneiro. Que ninguém lhe toque. Jean virou-se para François. Os dois homens encaram-se. Ao lado de François está Suzanne, que fixa Jean com os olhos cheios de ódio. Jean nem sequer parece vê-la. - Ora cá estás tu, François. Bem pensava que havia de encontrar-te aqui. Foste bem sucedido no teu golpe. François olha para Jean curiosamente e dureza, diz: - Ainda não está tudo acabado. Mas tu já estás em nosso poder. - Não é matar um homem que é difícil – diz Jean quase amigavelmente – é tudo o mais. Hás-de aperceber-te disso. A última vez que te vi foi há cinco anos. Não te tinhas ainda voltado contra mim. Suzanne aproxima-se. Diz-lhe, numa voz cheia de cólera e de ameaças: - E eu, Jean? Lembras-te da última vez que me viste? Jean ignora-a completamente. Mantém os olhos fixos em François e continua: - Sabia onde estava escondido. Poderia ter mandado prender-te. - Por que não o fizeste? – pergunta François. - Demasiado sangue... - Nós seremos menos generosos – diz Suzanne. – O teu sangue não nos mete medo. Far-te-emos pagar! Jean continua a ignora-la. Suzanne prossegue furiosamente: - Estas a ouvir? Não te atreves a olhar para mim? Faço-te medo? Jean volta-se para o criado grave: Whisky, diz. O criado fica imóvel, com um ligeiro sorriso de desdém nos lábios. Jean vai à secretária, enche um copo e bebe. Suzanne seguiu-o, exasperada pelo seu silêncio e pelo seu desprezo. - Afinal respondes ou não? Não queres? Não queres? Hei-de fazer-te ver que existo. Toma! Cospe na cara de Jean, que nada vacila, que nem se quer se limpa. Torna a beber e, de copo na mão, pergunta a François: - Suponho que vocês vão assassinar-me. - Ficarias demasiado contente. Há-de-fazer-se o teu julgamento. - Quem fará o meu julgamento? François faz um gesto circular. - Nós todos. - De acordo com que lei? - Com a nossa. - Não me defenderei. Assassinar-me-ão-diz Jean. Depois pergunta, passado um momento: - Quantos mortos tiveram? - Muitos – diz François. - Duzentos? - Mais. - É demais para terem a minha pele. - Hás de pegar também por eles! – grita Suzanne. - Não é demais para destruir a tua tirania nojenta – diz François.

Jean encolhe ligeiramente os ombros, com um ar cansado. - Vocês serão mais tiranos do que eu. És demasiado abstrato, François, serás terrível. O TRIBUNAL É um tribunal improvisado no salão de festas do Palácio. Sobre o palco, que não é senão um estrado ligeiramente elevado em relação ao salão de festas, duas mesas, colocadas topo a topo. Atrás destas mesas, de frente para o público, estão sentadas vinte pessoas, seis mulheres e quatorze homens: o Júri. Os homens são de espécies muito diversas; quatro deles são dignitários que já conhecemos. Trazem os seus uniformes e as suas condecorações. Outros oito são operários em mangas de camisa ou de blusões de pele. Os outros dois tem ar de pequenos burgueses. Os jurados-inssurectos puseram as suas em cima das mesas. Um dos dignitários tirou o seu dólmã recamado e pendurou-o nas costas da cadeira. A multidão ocupa os acentos reservados ao público, mas é demasiado numerosa e muita gente está de pé ou sentada no chão, nas coxias. Na primeira fila, como espectadores, estão sentados Suzanne, Magnan e Darieu. À direita do estrado, no vão duma janela, Jean, sentado numa cadeira, volta as costas ao júri para significar que se desinteressa do seu julgamento. Um jovem operário está sentado no peitoral da janela. As suas botas pendem ao longo da parede e acham-se assim ao nível dos olhos de Jean. A sola duma das botas está descosida, e Jean fita o pé do jovem operário que vê mexer pela abertura. Depois os seus olhos levantam-se até à cara do jovem operário que o fita, sem ódio, com uma curiosidade ávida. Junto do estrado, quatro insurrectos em armas. Entre o estrado e a primeira fila de espectadores há um espaço livre. É aí que está François, de pé. Fala paixão, dirigindo-se ora ao júri ora à sala. - Temos de ser terríveis, camaradas! Conhecem este homem há quinze anos. Militaram com ele antes da primeira Revolução. Levaram-no ao poder, há sete anos, porque lhe parecia o homem mais apto para realizar a democracia que desejamos. Traiu a confiança que depositamos nele. Hoje, julgamo-lo e pedimos-lhe contas. As audiências serão dirigidas por mim. A multidão aplaude e grita. François pede silêncio com um gesto. Encaminha-se depois para Jean. - Escolhe o teu defensor. Jean não responde. - Estás a ouvir? – pergunta François. Jean mal se volta a encolhe os ombros. Os seus olhos tornam a fixar-se no pé do jovem operário. - Estás bem – diz François – nomearemos um oficioso. François volta-se para a sala, como se procurasse alguém. Os seus olhos pousam em Mater, o Ministro da Justiça, que está sentado na segunda fila de espectadores e tenta passar despercebido. François estende a mão na direção dele. - Tu. Mater fica sobressaltado, com um ar extremamente inquieto. - Mas... Vejo todas as injustiças dele. Vejo-as claramente, não poderei defendelo. - Não eras advogado? – diz imperiosamente François. – Defendê-lo-ás. Anda Cá.

Mater levanta-se, muito pouco à vontade, e aproxima-se do estrado. Abre a boca para tentar ainda um protesto. François repete: - Anda cá! Mater faz um gesto resignado, vem ocupar lugar no espaço livre entre o palco e o público, e diz: - Assim seja, mas defendo-o admitindo a culpabilidade. Jean vira a cabeça, olha para Mater e diz, em voz firme: - Eis o mais porcalhão de todos. Mater mirou Jean dos pés a cabeça com trejeito de velha e volta-lhe as costas. Depois aproxima-se de François. Pergunta a François e ao júri: - De que o acusam? - Não sabes? – grita François. Depois vira-se para o público. - Digam-lhe! Uma espécie de vaga enorme levanta o público que se põe a gritar. Sente-se que o auditório não hesita nem um segundo sobre as razões de queixa que tem contra Jean. No tumulto, sobressaem três palavras. Primeiro, dominando tudo: - Petróleo! Petróleo! A segunda é: - Assassino! E a terceira: - Ditador! Na sala, levanta-se um homem, põe-se de pé em cima do assento e brada: - Escamoteou a Revolução em seu benefício. Substituí os dirigentes do partido por homens seus! Outro homem levanta-se: - Amordaçou a imprensa. Assassinou Lucien Drelitsch. Um camponês sentado na segunda fila levanta-se, agitando as mãos queimadas e torcidas: - Queimou a minha aldeia. Uma camponesa grita: - Deportou o meu marido. Durante um momento há um tumulto enorme na sala. François faz grandes gestos para acalmar, sem o conseguir. Finalmente, um operário sentado na primeira fila levanta-se, volta-se para a sala, de braços estendidos, e berra tão alto que faz calar os outros: - Estamo-nos nas tintas para tudo isso! A grande indecência dele foi ter vendido os campos de petróleo ao estrangeiro. Mater, que nada dissera até então, protesta com indignação: - Isso não é verdade! Isso não é verdade! O operário avança para Mater com uma cólera sanguínea: - Tu, nojento... Um dos insurrectos de guarda ao pé do estrado detém o operário. Mater gesticula a pedir que o ouçam e diz: - Não vendemos nada. Foi o governo precedente. Foi o governo do Regente que vendeu. O operário, sempre seguro pelo guarda, pergunta a Mater: - Então e daí? - O regente concedeu em 1898, e por cento e vinte anos, todos os jazidos petrolíferos a uma sociedade de exploração estrangeira – diz Mater. – Quando

chegamos ao poder, já havia trinta anos que os capitalistas estrangeiros possuíam e exploravam os nossos petróleos. - Ah! E diz-me lá, porcalhão! – grita o operário. – Para que foi que levamos o teu patrão ao poder? Para perder tempo? O operário vira-se para o público e pergunta: - Qual é a nossa maior riqueza, rapaziada? A sala responde com uma só voz: - O petróleo! - Qual é a indústria em que os operários são mais vergonhosamente explorados? - O petróleo! - Quem fez a primeira revolução? Quem foi que se bateu para levar este tirano ao poder? E Quem foi que fez esta? A cada pergunta, a multidão responde gritando: A rapaziada do petróleo! A rapaziada do petróleo! O operário dirige-se agora a Jean: - Estas a ouvir? Pois bem, hoje, a rapaziada do petróleo está aqui para te pedir contas. Por que foi que não nacionalizaste a indústria do petróleo como devias ter feito? Por que ajudaste os patrões estrangeiros a quebrar as greves? O operário volta-se novamente para a multidão que solta gritos de indignação e vaias, e conclui: - É a morte que ele merece! E o seu advogado também! François adianta-se para a multidão, de mãos levantadas: - Silêncio! – grita. Depois, para o teu lugar! O operário volta a sentar-se. François vira-se para o advogado: - Compreendeste? – diz - Três pontos capitais de acusação. Primeiro: atentado às liberdades essenciais. Assassínio de Lucien Drelitsch, diretor do Jornal A Luz. Segundo: política prematura de industrialização da agricultura e deportação maciça dos camponeses rebeldes. Terceiro: cumplicidade com o estrangeiro na questão do petróleo. Manutenção dos operários numa situação intolerável. - Onde estão as testemunhas? – pergunta o advogado. - Toda a gente aqui é testemunha. Não terei senão de as escolher nesta sala. - E as testemunhas de defesa? – pergunta o advogado. - Descobre-as – responde François. Jean não se mexeu. Continua de costas voltada para o júri e mantém os olhos fixos nas botas do jovem operário sentado à janela. Manifesta um certo interesse ao ouvir François anunciar: - Como primeira testemunha, citarei Darieu. Darieu levanta-se. Vem colocar-se diante do público. Fazem-no sentar-se de perfil em relação à sala. François está de pé diante dele e começa a interroga-lo: - Que lugar ocupa a nossa indústria petrolífera na indústria mundial do petróleo? - O terceiro – responde Darieu. – Uma produção de vinte milhões de libras. - Quando e como comprou a sociedade estrangeira a concessão? - Em 1898. Dois pagamentos de cinqüenta milhões de libras. - Quando Jean Aguerra chegou ao poder, já havia bom tempo que o regente gastara essa quantia. Portanto, em cada ano, vinte milhões de libras, que deviam pertencer-nos, vão para o estrangeiro, enquanto os nossos operários morrem de fome. - Vinte milhões de libras – diz Darieu – de que necessitaríamos para pagar os produtos alimentares que temos de importar. François fala para a sala:

- A insuficiência da nossa produção agrícola e a nossa pobreza em divisas estrangeiras é que foram as causas da penúria de há três anos. Depois pergunta a Darieu. - Como tentou Aguerra remediar a situação? - Pela industrialização das culturas – diz Darieu. – tratores, adubos químicos, explorações coletivas, taxação dos produtos. Os camponeses eram hostis a estas medidas. Aguerra mandou-me, com Lucien Drelitsch, fazer um inquérito nos campos. Prevenimo-lo... TESTEMUNHO DE DARIEU (TRÊS ANOS ANTES) O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO DO GOVERNO. Jean está à secretaria, a escrever. Darieu e Lucien Drelitsch são introduzidos pelo criado grave. Atravessam a comprida sala sem dizer uma palavra e param diante da secretaria de Jean. Darieu traz uma pasta volumosa debaixo do braço. Jean pousa a caneta e levanta a cabeça. - Então? - É impossível – diz Lucien. – Os camponeses não estão preparados. Jean mantém-se com uma cara de pau. - Percorremos dez mil quilômetros – diz Darieu. – Vimos todas as aldeias. Interrogamos centenas de pessoas. Jean, os nossos camponeses são os mais atrasados da Europa. - E então? – diz Jean. - Partirão os tratores, deitarão fora os adubos, queimarão as colheitas, se não enforcarem os nossos engenheiros agrônomos. Seriam preciosos vinte anos de educação e propaganda. O resto de Jean tem um ar de angústia cansada e triste. Pergunta simplesmente: - O vosso relatório? Darieu estende-lhe a pasta que tem debaixo do braço. Jean põe-na em cima da secretária, sem a olhar. - Obrigado. Tê-lo-ei consideração na medida do possível. - Darieu olha para Jean com um ardor suplicante: - Tu não podes, Jean. Não estão preparados. Não podes. - Conheço-os melhor do que tu, Darieu – diz Jean. – Nasci no meio deles. Darieu quer protestar. Jean despede-o com um gesto. - Agradeço-lhes. Darieu hesita um momento, depois torna a encontrar os olhos de Jean e preparase para sair. Lucien, que não se moveu, intervém: - Eu fico – diz. – Tenho de falar contigo, Jean. Tu não me despedes como um criador. Vai, Darieu, espera por mim. A ANTECÂMARA Darieu senta-se no banco comprido. Espera. Atrás da porta do gabinete de Jean, ouve um clamor de vozes. Levanta-se, vai à janela e olha sombriamente para a rua. No gabinete, novos clamores de vozes mais violentos. Depois Lucien sai, bruscamente, com um ar fora de si, e dirige-se a Darieu. - Anda daí, Darieu. É um tirano, já não ouve ninguém.

O TRIBUNAL Darieu prossegue no seu depoimento. Repete ao júri a frase que lhe disse Lucien, dois anos antes: - Era já um tirano. Já não ouvia ninguém. Realizou o seu projeto mesmo assim. O que lhe tínhamos predito aconteceu. Os camponeses sublevaram-se por toda a parte. Partiram os primeiros tratores. Aguerra não queria ceder e a repressão foi terrível. No total, quinze aldeias arrasadas, dezessete mil portados. Cento e vinte sete mortos. Rumores na sala. Na segunda fila, o camponês de mãos queimadas levantou-se e grita: - Até queimou Mainek. Conheci-o de pequenino. Já era um rapaz mau... O advogado tenta intervir. - Protesto!... O camponês corta-lhe a palavra e continua: - Antes do seu acidente, quando partiu o braço, queria sempre dar ordens. Depois, passamos bem sem ele. Queria mal a toda gente, por causa do braço. Chamavam-lhe <o torcido>. Tinha jurado que se vingaria. O camponês adiantou-se para o meio da coxia. Estende para o júri as suas mãos deformadas pelo fogo, numa das quais faltam dois dedos. - Olhem! Consegui-o bem. Estava em Mainek quando ela deitou o fogo! O advogado grita com todas as forças para dominar o ruído da multidão. - Protesto! Peço ao júri que recuse o testemunho. Estamos aqui para julgar os atos públicos de Jean Aguerra, não para ouvir bisbilhotices de velha. Quem de nós ousaria dizer que Aguerra mandou queimar quinze aldeias para satisfazer um rancor pessoal? - Suzanne levanta-se bruscamente. - Por que não? – grita ele ao advogado. – Sabes, ao menos, quem ele era? Tu não o conheces, rastejavas diante dele. Dirige-se agora ao Júri: - O braço era o seu rancor, a sua desgraça e a sua vergonha. Eu é que sei. Conheço Aguerra. Fui amante dele dez anos. Ou melhor, fui à ama dele. TESTEMUNHO DE SUZANNE (NOVE ANOS ANTES) A CASA DE JANTAR DE SUZANNE E DE JEAN. Uma divisão pequena, bastante pobre. Jean está sentado a uma mesa coberta com um oleado. Está silencioso e sombrio. De pé a seu lado, Suzanne corta, num prato, a carne para ele. Suzanne empurra o prato para diante de Jean, que nem sequer diz obrigado e começa a picar os bocados de carne com o garfo, com a mão esquerda. Suzanne deita vinho no copo de Jean, a quem olha com paixão. Ele mantém-se obstinadamente silencioso, com os olhos fixos no prato. Ouve-se a voz de Suzanne que se dirige ao Júri: << Tinha necessidade duma ama. Um dia...>> Jean e Suzanne, que caminham por uma rua, despedem-se. Jean corre atrás de um carro elétrico que acaba de pôr-se em andamento. Tenta apanha-lo em andamento, mas, por causa do seu único braço, falha o golpe e estatela-se no chão. Suzanne precipita-se para ele. Estão já dois homens ao lado de Jean e querem ajuda-lo a levantarse. Jean repele-os com furor.

- Não é nada, obrigado – diz, quase grosseiramente. De pé, sacode a poeira que suja o seu fato. Suzanne olha-o com inquietação. Os dois homens que quiseram ajudar Jean mostram-se escandalizados pelo tom em que ele lhes falou. Um deles diz para o outro, bastante alto para que Jean o ouça: - Não lembra a ninguém querer fazer de acrobata quando se é invalido. Jean agarra Suzanne por um braço e leva-a consigo rapidamente, com um ar sombrio. O TRIBUNAL Suzanne, ao falar, foi avançado até ao estrado. Conclui: - Ele detestava todos os homens que tinham os dois braços. - É possível – diz o advogado – mas estamos aqui para julgar os atos e não o homem. - E eu – responde Suzanne – reclamo que julguem o homem, camaradas. Foi por ser maneta que ele quis o poder. Foi por ser maneta que quis ter mulheres. Foi por ser maneta que quis ter mulheres. Foi por ser maneta odiava os homens e que fez correr o sangue. O advogado protesta violentamente. - Persisto em fazer oposição. Suzanne mira-o de alto a baixo com uma maldade tão fria que ele dá um passo atrás. - Tem cuidado com o teu pescoço, tu. Um momento de silêncio absoluto. François vira-se para o Júri: - Compete-lhes decidir. Darieu levanta-se e dirige-se ao Júri. - Vocês não podem, camaradas. - Tu! – diz Suzanne. – Tu defende-lo, Darieu? - Não o defendo, mas se vocês continuam tornar-se-ão ridículos e odiosos, e dar-lhe-ão razão. Isto não será um julgamento, mas um assassínio. Magnan intervém, sem deixar o seu lugar: - Deixa-te de histórias, Darieu. Este que vocês vão julgar é um homem, um homem que amávamos e que levamos ao poder, um homem que nos mentiu e nos traiu. O Júri delibera em voz baixa. Há jurados que se levantam para ir falar a outros jurados. Depois voltam todos para os seus lugares e François pergunta: - Que decidiram? Uma mulher-jurado levanta-se e declara: - Julgaremos os atos e não o homem. - Bem – diz François. – Vai ser demorado. - Temos tempo – responde a mulher. Suzanne lança um olhar de triunfo ao advogado e volta-se depois para o Júri. - Muito bem! Vocês compreenderam. São homens que querem julgar um homem por toda a sua vida. Trata-se de saber com quem estamos a lidar. Vão ter que decidir dentro em pouco as deportações que ele ordenou eram uma necessidade ou um crime. Mas há uma coisa que podemos procurar saber já: que fazia ele enquanto os soldados incendiavam e pilhavam as aldeias? Do auditório, vem uma voz: - Sei-o eu! Suzanne volta-se. Vê o criado grave de Jean, que se levantou do seu lugar no meio da sala. Todos os olhares estão fitos no criado, que acrescenta:

- Ria-se. Estava bêbado e ria. Suzanne tem um risinho seco de triunfo. - Tinha a certeza! Torna a sentar-se, satisfeita, enquanto François faz sinal ao criado grave e dizlhe: - Vem cá! O criado adianta-se e vem tomar lugar entre François e Jean. - O teu nome? – pergunta François. - Carlo Pompiani. Era criado grave de Sua Excel... de Jean Aguerra. Antes disso, era criado grave de Crivelli, o primeiro ministro. O criado faz um gesto na direção de Jean e prossegue: - Quando este se apoderou do poder, foi instalar-se nos aposentos de Crivelli e encontrou-me lá... TESTEMUNHO DO CRIADO (SETE ANOS ANTES) O PALÁCIO DO GOVERNO Uma longa enfiada de salas de portas abertas, com os vidros quebrados. Jean está na primeira delas, que é a sala de entrada do Palácio. Está vestido burguêsmente, mas mal, como um operário endomingado. O seu casaco preto está-lhe apertado. Traz um laço já feito, calças de fantasia, e está calçado com uns sapatos grossos. O seu chapéu mole está muito usado e fora de moda. Alguns amigos rodeiam Jean. Manda-os embora com um gesto e depois caminha, de sala em sala, no Palácio deserto, até ao grande gabinete que já conhecemos e que está, nesse tempo, mobiliado muito luxuosamente. Jean aproximadamente de uma cômoda carregada de objetos de arte e de jarras. Pega numa estatueta e examina-a por um momento, depois volta a pousá-la com respeito. Dá alguns passos no gabinete, pouco à vontade e como que comprometido consigo. Num quadro pendurado na parede, o retrato duma mulher muito elegante que parece segui-lo com os olhos. Jean dá alguns passos voltando-lhe as costas, depois fixa novamente os olhos no quadro. No limiar da porta, o criado grave, muito hirto e imóvel, observa Jean com um ar inexpressivo. Jean senta-se à beira duma poltrona, volta a levantar-se, olha mais uma vez o retrato da mulher, e depois dum velho general de uniforme que está dependurado ao lado. Tira maquinalmente o chapéu e fica com ele na mão. Repara então o que tirou e, furioso por ter tido este gesto de timidez, atira o chapéu à toa para cima da secretária. Um tinteiro volta-se, inundando a mesa. Jean precipita-se, mas o criado grave adiantouse-lhe: tem um esfregão na mão, e enxuga com cuidado a mancha de tinta. Jean sobressaltou-se ao vê-lo. Olha para ele e pergunta: - Que fazes aqui? - Era criado quase grave de Sua Exce..., do anterior primeiro ministro. Um silêncio. Jean observa o criado grave que acaba de enxugar a tinta com gestos preciosos e profissionais. - Conservo-te – diz. Depois faz um gesto na direção dos quadros, e acrescenta: - Hás-de tirar daqui estes quadros. O TRIBUNAL O criado grave, em frente do Júri, continua o seu depoimento.

- Não me afastava dele nem um passo. Nem sabia que eu estava ali. Não me via mais do que a um móvel. Durante sete anos, andei atrás dele, como a sua sombra. Vestia-o... TESTEMUNHO DO CRIADO GRAVE (ESCALONADO POR VÁRIOS ANOS) O QUARTO DE JEAN NO PALÁCIO Jean em mangas de camisa. Umas mãos estendem-lhe um casaco que lhe enfia. Jean em mangas de camisa. Umas mãos estendem-lhe um fraque que ele enfia. Jean em mangas de camisa. Umas mãos estendem-lhe um dólman de oficial que ele enfia. Jean em mangas de camisa. Umas mãos estendem-lhe um dólman de oficial recamado de condecorações. Ao mesmo tempo ouve-se a voz do criado grave, que comenta: - Durante sete anos, não o deixei. Ao princípio bebia duas chávenas de café por hora. Jean, sentado à secretaria, escreve. Diz, sem levantar a cabeça: - Café. Atrás dele, o criado grave tornou-se invisível. Sem ninguém lhe tocar, uma cafeteira levanta-se, deita sozinha o café numa chávena que vem sozinha pôr-se diante de Jean. Este diz, distraidamente: - Obrigado. E bebe o seu café. Ouve-se, enquanto Jean bebe, a voz do criado grave. - Nos dois últimos anos era... - Whisky! – diz Jean. Está sentado à secretária. Tem o rosto sombrio e a mão mais hesitante. Atrás dele, uma garrafa de Whisky enche, sozinha, um copo que vem, sozinho, colocar-se diante de Jean que esvazia num trago, enquanto se ouve o criado dizer: - Nem sequer me dizia obrigado. Eu não existia. Só uma vez pareceu ver-me. Jean, sem deixar de trabalhar sobre um processo, come à secretária. Pára derrepente de trabalhar, põe o prato de lado e passeia um olhar pela sala, como se procurasse uma idéia. Os olhos de Jean pousam sobre o prato colocado à sua esquerda no momento em que ele se eleva sozinho no ar, como se uma mão invisível lhe tivesse pegado. Sob o olhar de Jean, o criado grave aparece bruscamente. Está a levantar o prato para o arrumar. Parece embaraçado pela maneira desacostumada como Jean o olha. - Cá estás tu – diz Jean, como um ar surpreendido e sonhador. – E, no entanto és robusto. Por que diabo escolheste tu ser criado grave! É o último dos ofícios. Jean falou como de si para consigo. Mal acabou de falar, vira a cabeça, retoma a sua meditação e compulsa o processo colocado diante de si. Com o prato na mão, o criado olha para ele com um ar odiento. Sem levantar a cabeça, Jean ordena, bruscamente: - Whisky! O criado grave desaparece imediatamente. O prato vai colocar-se sozinho em cima duma consola, ao lado duma garrafa de whisky que enche sozinha um copo que vem colocar-se em cima da secretária de Jean. O TRIBUNAL

O criado grave, frente ao júri, continua o seu depoimento. Pousa um olhar sonso na nuca de Jean, que continua a manter-se de costas sempre voltadas para o Júri, e prossegue: - Não era só o álcool. Eram também as mulheres, uma por dia, ou quase... François faz um gesto de ligeira irritação. Quer fazer calar o criado e começa: - Não creio... Mas o risco da sala abafa a sua voz e, antes de ter podido tomar a palavra, uma mulher do Júri levantou-se e pergunta: - Uma mulher por dia? Como as obtinha? O advogado intervém vivamente: - Isto não tem nada que ver... - Deixe falar a testemunha – diz a mulher-jurado. François escolhe os ombros com resignação e faz um sinal ao criado grave. - Continua... - Ele recebia cem a cento e cinqüenta cartas de amor por semana. Procedia-se por ordem. Primeiro, exame sumário e classificação... TESTEMUNHO DO CRIADO (ESCALONADO POR VÁRIOS ANOS) (Toda esta parte do depoimento é apresentada tão secamente e tão rapidamente como um documentário sobre a organização dos correios). UM GABINETE PEQUENO NO PALÁCIO Um empregado sentado a uma mesa coberta de pilhas de cartas. O empregado abre as cartas com uma faca de papel, vê a assinatura, toma nota do nome num caderno e arruma as cartas num móvel com divisões, cada uma das quais é encimada por uma letra, como na posta-restante. A voz do criado comenta: - A seguir, inquérito da Polícia... UMA RUA Uma mulher nova sai dum pátio. Um policial à paisana segue-a. A mulher entra num estabelecimento. O policial fica diante da fachada e anota qualquer coisa num cachenho. Ao alto da página do cachenho, um nome em grandes letras: Renée, CARRAS. Por baixo do nome, rubricas diversas. Opiniões políticas, antecedentes. Relações habituais... A voz do criado comenta: - Apresentação das fotografias... GABINETE DE JEAN Jean está sentado á mesa. O criado, de pé atrás dele, estende-lhe três fotografias da mesma mulher: a primeira em vestido de noite, a segunda em traje de cidade, a terceira em fato de banho. Jean olha as fotografias com um ar carrancudo, e depois faz um vago sinal de aprovação. A voz do criado comenta:

- Se a mulher é aprovada, exame médico... CONSULTÓRIO MÉDICO A mulher cujas fotografias vimos é auscultada por um médico de bata branca: A voz do criado comenta: - Finalmente, encontro... GABINETE DE JEAN Ele está sentado à mesa. Desta vez, sentada a uma mesa mais pequena, à direita da de Jean, Helena escreve a máquina. O criado grave entra no gabinete. Vem inclinarse diante de Jean, que está a trabalhar, e entrega-lhe um cartão de visita. Jean vê o nome: Renée Carras. Levanta-se, deita um olhar sorrateiro a Helene, que tem um ar irritado e furioso, e sai do gabinete para entrar numa salinha contígua, mobiliada com grande divâ, duas poltronas e uma mesa. A segunda porta desta sala abre-se e o criado grave faz entra Renèe Carras, que tem um ar amedrontado e provocante. O criado grave fecha a porta e olha para um relógio de sala que marca cinco horas. O mesmo relógio de sala indica cinco horas e trinta e cinco minutos. O criado grave, que está a olhar pela janela da antecâmara, volta-se ao ouvir abrir-se à porta. Jean aparece, irrepreensível mas ligeiramente despenteado. O criado aproxima-se dele sem nada dizer, tira um pente do bolso e dá uma penteadela a Jean. Jean torna a entrar no seu gabinete, deita novamente um relance de olhos prudente e vagamente inquieto a Helene, e depois retoma o trabalho. O TRIBUNAL O criado prossegue no seu depoimento: - Mais ou menos cinco por semana. Meia hora cada uma. O advogado agita os braços furiosamente e exclama: - O tribunal compromete a sua dignidade dando ouvidos oficiosamente a mexericos. Suzanne interrompe-o: - O tribunal deve saber que personagem tem diante de si. - Ainda sei mais coisas lindas a respeito dele – diz o criado. - Isso fica para depois – diz François. – Diz-nos primeiro o que fazia quando lhe anunciaram os resultados da repressão das aldeias rebeldes. Ouve-se, ao mesmo tempo em que o criado grave responde, uma grande gargalhada de Jean. - Já disse. Estava em casa de Schoelcher, o magnata do petróleo, o estrangeiro que nos espoliu, o explorador dos operários. Almoçavam juntos. Era uma orgia. Um oficial veio anunciar-lhe que as suas ordens haviam sido cumpridas. Não disse nada nesse momento, mas dez minutos depois pôr-se a rir como um louco... TESTEMUNHO DO CRIADO (TREZE ANOS DEPOIS) NA SALA DE RECEPÇÃP DA RESIDÊNCIA DE SCHOELCHER

Schoelcher é o diretor da companhia estrangeira que explora os poços de petróleo. É um homem muito alto e muito forte, de rosto duro. Jean está sentado diante de Schoelcher a uma mesa imensa em que estão instalados uns vinte homens e mulheres. A mesa está coberta de iguarias, de garrafas, de pratos e de cristais magníficos. Toda a gente ri às gargalhadas, com um sorriso um pouco alcoólico. As mulheres estão seminuas. Há uma atmosfera de orgia. Acima de enorme gargalhada geral, ouvem duas explosões. O TRIBUNAL Em pé diante do Júri, o criado grave, com um ar muito inquieto, apura o ouvido. Ouve-se mais uma explosão, mais próxima. - O que é? – pergunta o criado. Na sala, algumas pessoas levantaram-se e correm a olhar pelas janelas. Da rua, onde se combate, vêm outras explosões: granadas e tiros. A porta da sala do tribunal abre-se bruscamente. Aparecem dois insurrectos em armas. Um deles grita na direção do estrado: - É a guarnição do Forte Kéroub. - E então? – pergunta François. Conseguiu sair – diz o insurrecto. – Ocupa a praça do povo e os bairros ocidentais. Parece que querem atacar o Palácio. O advogado olha com um sorriso o criado grave, muito perturbado. - Lorentz e Chatrin estão nos seus postos? – pergunta François. - Estão – diz o insurrecto. - Está bem. Podem ir. Os dois insurrectos saem. Os jurados, com um ar sério e tenso fitam François interrogativamente. Jean, meio virado para a sala, ficou impassível. François diz simplesmente: - Continuemos. O advogado, que se aproximou do criado grave, dá um passo para François. - Desejo contra-interrogar a testemunha. - Seja – diz François. O advogado torna a pôr-se diante do criado grave e olha-o nos olhos. O ruído do combate da rua continua. É agora manifesto que se combate quase sob as janelas do Palácio. O criado grave está pálido. - Tens medo! – diz o advogado. – Sabes o que te acontecerá quando os nossos reconquistarem a cidade, se o teu testemunho é inexato. Mantém-no? O criado gagueja: - Eu... - Mantém-no? Bem, procedamos por ordem. Ele ria, não é? Da rua sobe um ruído muito próximo de metralhadora. O criado olha para a janela, depois para o Júri. - Isto é... – começa ele, com uma voz hesitante. TESTEMUNHO DO CRIADO (TRÊS ANOS ANTES) NA SALA DE RECEPÇÃO DA RESIDÊNCIA DE SCHOELCHER É exatamente o mesmo cenário, são as mesmas pessoas que estão à mesa com Jean e Schoelcher. A mesa está coberta com a mesma quantidade de iguarias, as pessoas

estão tão descompostas como na cena de orgia evocada pelo criado, mas é uma orgia silenciosa. Jean tem a boca aberta, como se estivesse a rir, mas não sai nenhum som da boca. Ouve-se o fim duma rajada de metralhadora, depois a voz hesitante do criado: Isto é... e, a seguir a esta voz, Jean, Schoelcher e os outros convivas congelam-se num sorriso imóvel. Uma explosão muito violenta e bem próxima, e a voz do criado grave, precipitadamente: - Não, não ria. Jean, Schoelcher e os convivas retomam fisionomias graves e recomeçam a comer. Ouve-se o advogado perguntar: - Então ria ou não ria? - Quero eu dizer que ria sem rir... – responde o criado. O rosto de Jean exprime bruscamente uma espécie de alegria sorrateira e quase interior. O de Schoelcher igualmente. Ambos parecem divertir-se com lembranças ou pensamentos que se mantém estritamente pessoais Em cima da mesa, dezenas de garrafas, cheias ou vazias, copos entornados. Á volta da mesa, mulheres descompostas que riem ruidosamente. A voz do advogado pergunta: - Era uma orgia? - Eu...eu... - gaguejava o criado. - Era uma orgia? – repete o advogado com insistência. Uma explosão. - Não, não, nada disso – diz o criado precipitadamente. – Era um almoço de negócios. As mulheres desaparecem. A mesa tornou-se mais pequena. O número dos pratos e das garrafas diminuiu sensivelmente. Não há senão Jean, Schoelcher e alguns homens que almoçam tranqüilamente. Têm todos um ar preocupado. O TRIBUNAL O advogado, com um ar discretamente triunfante, inclinou-se sobre o criado muito embaraçado. - Um riso que não é um riso; uma orgia que não é uma orgia. Mas você está a fazer troça do tribunal? Conte-nos o que se passou desde o princípio. De que dia fala você? TESTEMUNHO DO CRIADO (TRÊS ANOS ANTES) UMA RUA Um grande automóvel branco de sereias insolentes passa pelas ruas. Á frente e atrás dele, outros três automóveis e motociclistas de uniforme. NO GRANDE AUTOMÓVEL BRANCO Jean e Darieu estão sentados um ao lado do outro. O criado vai num assento dobradiço. - Schoelcher recusou o aumento de salário – diz Darieu. – A greve anda no ar. - Ah! – diz Jean. – Então é por isso.

- O que? - O almoço. É por isso. Aposto contigo que sei o que Schoelcher me vai pedir. A INSTALAÇÃO PETROLÍFERA DE SCHOELCHER O automóvel branco para diante do portão gradeado da instalação. Uma pequena multidão, contida por um serviço de ordem importante, está apinhada de encontro às grades. Jean e Darieu saem do automóvel. O criado grave segue-os. Elevam-se da multidão alguns gritos sem entusiasmo. - Viva Aguerra! Viva Aguerra! Trata-se visivelmente da brigada das aclamações. A multidão em si não reage. Jean, ao ouvir estes gritos, encolhe os ombros e volta-se para Darieu: - É ridículo. Hás-de dizer ao Magnan que gosto mais do silêncio. Jean e Darieu, sempre seguidos pelo criado, entram no grande pátio da instalação. Schoelcher desce a escada exterior do edifício central, situado em frente do portão da entrada, e vem ao encontro deles. O seu rosto duro tenta sorrir amavelmente, mas sente-se a ameaça e o ódio por trás de cada um destes sorrisos. Operários formam alas do portão à escada. Silenciosos, carrancudos, olham para Jean sem fazerem um gesto. Atmosfera pesada de hostilidade. Schoelcher, chegado ao pé de Jean, inclina-se diante dele. - Excelência, os meus colaboradores e eu sentimo-nos muito felizes por vos receber aqui. Jean aperta a mão de Schoelcher. Depois todos se põem a caminho do edifício central. Enquanto Jean sobe os degraus da escada, um grito isolado na multidão. - Aguerra. Vendido! Jean pára, sem se voltar. Schoelcher olha-o com uma sombra de sorriso. - Como vê – diz – não gostam de ninguém. Não gostam mais de Vossa Excelência do que de mim. Vou... Jean detém-no com um gesto e recomeça a andar. - Deixe. Não tem importância nenhuma. A voz grita novamente: - Morra Aguerra! Vendido! Jean encolhe os ombros, sem se deter. Entra no edifício. O INTERIOR DA INSTALAÇÃO Um pequeno grupo de personagens oficiais e de engenheiros aprecia as instalações dum laboratório. Fizeram-nos visitar as instalações, e é o fim. A alguns passos do grupo, Schoelcher e Jean estão isolados. - Viu o estado de espírito deles? – diz Schoelcher. – É a greve dentro de oito dias. Não lhes concederei este aumento. É um pretexto. O que eles querem é manter a perturbação e criar uma situação revolucionária para nos forçarem a mão. Jean fica impassível. Schoelcher continua, sem desviar os olhos dele: - Peço-lhe que me renove a garantia de que nada fará, aconteça o que acontecer, para tentar desapossar-nos. - Não tentarei nada – diz Jean. – Afirmo-lho. - E se a greve for demasiado... demasiado dura, poderei pedir-lhe o apoio da força armada? - Não. O mais que poderei fazer será arbitrar o conflito. - Tenha cuidado. – diz Schoelcher. – As coisas correm o risco de ir mais longe do que Vossa Excelência pensa.

- Se mando a tropa para quebrar a greve, covo um passo entre mim e os operários do país. Daqui a dois anos, daqui a três anos, estou perdido, e o senhor comigo. - É a sua última palavra? - É. - O seu país é pequeníssimo, excelência, e o meu é muito grande – diz Schoelcher. Depois sorri bruscamente e diz num tom amável: - Vamos almoçar.

O TRIBUNAL O advogado dirige-se ao criado num tom ameaçador: - Não tente fugir aos encartes. Perguntei-lhe se Aguerra ria quando lhe anunciaram a repressão da revolta camponesa. - Já lá vamos – diz o criado. TESTEMUNHO DO CRIADO (TRÊS ANOS ANTES) A SALA DE RECEPÇÃO DE SCHOELCHER É a que já conhecemos. Não há senão homens à mesa: entidades oficiais e engenheiros. A atmosfera é afetada e tensa. Jean come sem pronunciar palavra. É introduzido um oficial. Adianta-se para Jean e inclina-se sobre ele. Os dois homens falam em voz baixa. Observando-os, os outros convivas falam entre si. - Então? – pergunta Jean. - Acabou-se – diz o oficial. - Foi duro? - Resistiram. Tivemos de... Jean interrompe-o com impaciência. - Muito duro? - Dez aldeias destruídas. Dezessete mil pessoas presas. - Está bem – diz Jean. – Falarei consigo daqui a pouco. O oficial retira-se. Jean fica impassível, mas já não come. Olha fixamente a parede à sua frente, por cima da cabeça de Schoelcher. Este segue o seu olhar. Na parede está dependurada uma panóplia de armas antigas, entre as quais um enorme mosquetão. - Gosta das armas antigas, excelência? – pergunta Schoelcher. – Tenho algumas muito belas. Schoelcher levanta-se da mesa, vai à parede e despendura com esforço o enorme mosquetão, que segura com as duas mãos. Voltando a sentar-se, pisca o olho disfarçadamente a um dos engenheiros que sorri imperceptivelmente. - Veja as incrustações de marfim na coronha. – diz Schoelcher. Por cima da mesa, estende os dois braços com o mosquetão a Jean. Este estende o seu braço esquerdo para lhe pegar. Schoelcher diz, com uma irreflexão fingida: - As duas mãos, excelência, são horrivelmente pesadas. Depois, como se tomasse bruscamente consciência de ter cometido um deslize, acrescenta precipitadamente:

- Oh! Perdão... Pegue-lhe o senhor, Darieu. Jean, lívido de raiva, diz imperiosamente: - Fica quieto, Darieu. Depois estende a mão, dizendo: - Dê-mo cá. Schoelcher dá-lhe o mosquetão. Jean pega-lhe com uma só mão, com um esforço terrível. Aproxima-o de si e examina-o com todo o vagar. - Tem razão – diz – é magnífico. Depois o estende a Schoelcher por cima da mesa. - É menos pesado do que diz. Uma mão é suficiente, Schoelcher. Vamos! Uma só mão! Schoelcher levanta um braço e agarra o mosquetão que lhe escapa e cai em cima da mesa, partindo copos, garrafas e louça. Um momento de pasmo e embaraço. Só Jean se recorta na sua cadeira e põe-se a rir nervosa e irresistivelmente. Ao mesmo tempo em que o riso de Jean ouve-se uma longínqua rajada de metralhadora e a voz do criado grave: - Era por isso que ele ria. O TRIBUNAL A audiência parece suspensa por um momento. O público, o Júri, os advogados e as testemunhas ficaram nos seus lugares, mas toda a gente escuta, sem dizer palavra, os ruídos do combate que parecem afastar-se. Os ruídos continuam a diminuir; passam. Novamente um tiro isolado, e depois, novamente, o silêncio. No silêncio, a porta abre-se e vê-se aparecer o insurrecto que viera pouco antes das notícias. Anuncia: - Retiram para o forte. Estão a ser perseguidos. - Bem – diz François. - Rumores na sala. François restabeleceu o silêncio com um gesto e diz: - Continuemos. O advogado, totalmente abatido, olha à sua volta com um ar desvairado, erguendo a cabeça. - Não posso mais... não posso continuar a defender um homem que não fala e que troça do seu advogado. Deixem-me! Comprometo-me por ele e ele ri-se de escárnio na minha cara. Estou convosco! Digo-vos que estou convosco contra ele. - Defendê-lo-ás – diz François. – Ou o defendes ou hás-de arrepender-te. Darieu levanta-se bruscamente, como alguém que lutou muito tempo consigo mesmo e que não pode mais. - Ele tem razão – diz. – Este julgamento é odioso. Estão a assassina-lo! Exclamações diversas no auditório. Uma mulher do Júri diz violentamente: - É culpa nossa se ele não quer defender-se? - É uma vergonha – continua Darieu. – Foi para isto que nos batemos? Para escutarmos mexericos de criado? As questões a debater são duma imensa gravidade! Era necessário industrializar a agricultura no momento em que ele o fez? Podia expropriar Schoelcher e nacionalizar o petróleo? E, em vez disso, vêm-nos com ditos de comadres sobre um braço partido e sobre um complexo de inferioridade. E ele, o único que poderia defender a sua causa, cala-se. A sala cala-se. O Júri fica calado. A intervenção de Darieu impressionou toda a gente. Este adianta-se para Jean, que não se volta, e fala com ele, mesmo de costas voltadas:

- Jean! Suplico-te... Por ti, pela tua memória, defende-te. Não te deixes fuzilar como um cão, Jean. Não tenho ódio contra ti; continuo a estimar-te; era teu amigo. Foi contra os teus atos, contra a tua política, que entrei na Revolução, não contra ti. Falalhes, diz-lhes uma palavra. Tenho vergonha por eles, por ti e por mim. Jean, após as últimas palavras de Darieu, virou a cabeça para ele e olha-o com ironia. Responde: - Vocês ficaram demasiado contentes. Depois torna a voltar as costas e fica imóvel. Desordem na assistência. Alguns aprovam Darieu; outros, irritados pela atitude, vaiam. Gritos diversos: - Porcalhão! - Enforquem-no imediatamente! - Darieu tem razão! - Não se mata homem que não se defende! - Estás a sabotar o teu julgamento! François, fazendo, entretanto grandes gestos para restabelecer o silêncio, aproxima-se de Darieu. - Darieu. Há talvez um meio... François fala ao ouvido de Darieu, que aprova com um sinal de cabeça e diz: - Está bem. Vou lá. Darieu sai da sala do tribunal. François vira-se para o público, que continua a manifestar-se. Grita: - Silêncio! Depois, na calma que se segue, chama. - Menko! Um homem levanta-se na primeira fila, um homem duns sessenta anos, calvo, de lunetas, do gênero velho-sábio-pequeno. É um dos dignitários que vimos ao princípio na antecâmara. Traz umas pastas enormes debaixo do braço, e adianta-se para François. - É engenheiro agrônomo. Estiveste dois anos no ministério da Agricultura. Protestaste sempre contra a industrialização das culturas ordenadas por Aguerra. - Era uma estupidez e um crime – diz Menko. Acrescenta, mostrando as suas pastas: - Tenho aqui com que prova-lo. - Ouvimos-te – diz François. Menko procura onde pousar as suas pastas, passeando em seu redor um olhar de míope. François faz um sinal a um dos guardas que coloca uma mesinha diante de Menko. Este põe-lhe em cima as suas pastas, abre-as e começa numa voz monótona o seu depoimento. - O nosso país produz anualmente... RUAS DA CIDADE Darieu sai do palácio a põe-se a caminho com um passo rápido. Rajada de metralhadora. Darieu cola-se de encontro a uma parede, levanta a cabeça e parece verificar que dispararam dos telhados. Retoma o seu caminho a correr pelas ruas que mostram sinais da insurreição. Darieu chega diante duma pequena casa de aparência bastante pobre. Toca: uma vez, duas vezes, quatro vezes: Ninguém responde. Darieu atravessa a rua, conservando os olhos fixos na casa. Sobe para o passeio do lado oposto e grita com todas as suas forças:

- Helene! Helene! No primeiro andar, uma cortina mexe-se numa janela. - Abra! Sou Darieu! Darieu espera um momento, imóvel. Depois a porta abre-se. Darieu atravessa rapidamente. Uma velha fá-lo entrar sem dizer palavra. Fecha a porta e sobe a escada. Darieu segue-a. CASA DE HELENE A velha faz entrar Darieu numa sala de estar e casa de jantar muito pobre. Faz sinal a Darieu para se sentar. - Ela está doente. Espere um pouco. Sai. Darieu fica de pé. Passeia lentamente pela sala olhando as fotografias. Fotografias de Lucien Drelitsch por todos os lados, nas paredes, em cima dos móveis. Lucien pelo braço de Helene. Lucien sozinho em fato de esqui. Lucien em mangas de camisa numa topografia. Lucien no meio duma dúzia de estudantes. A um canto da sala, quase escondida sobre uma mesinha, uma fotografia de Helene entre Jean e Lucien que a seguram cada um por um braço, rindo. Darieu pega na moldura e olha a fotografia com um ar sombrio. Helene entra. Está de luto. Darieu repõe precipitadamente a moldura em cima da mesinha e volta-se. - Então? – pergunta Helene. – Ele via ser condenado à morte? Darieu encolhe os ombros, com lassidão, como que a dizer: Evidentemente. - Como está ele? – pergunta ainda Helene. - Recusa defender-se. Helene está visivelmente perturbada pela presença de Darieu e pelas notícias que ele lhe dá, mas mantém-se senhora de si e pergunta, para desviar a conversa: - Quantos mortos? - Não se sabe ainda. Darieu olha para Helene que desvia a cabeça e se encaminha para a janela. Darieu alcança-a, pega-lhe nas mãos e força-a a voltar-se. - Helene, este julgamento é uma palhaçada. Somos odiosos e ridículos. Quanto a ele, procuram avilta-lo. Sairemos disto todos humilhados. - Mais valia que ele tivesse que ele tivesse sido morto esta manhã, durante o combate – diz Helene. - É verdade. Darieu hesita um momento; depois diz, com uma espécie de timidez: - Se ele se defendesse... - E daí? - Tudo mudaria. Situar-se-iam os debates no plano em que deveriam ser colocados: a política que ele fez. Helene liberta as mãos. Vai à janela e abre-a. Na extremidade da rua está estendido o cadáver dum insurrecto. Helene contempla aquele corpo e diz, a meia voz, de si para consigo: - Todos estes mortos...Todos estes mortos... E ele, que vão matar. Darieu aproxima-se dela. - Helene ajude-nos. - Em que? Que posso eu fazer? Darieu e Helene olham a rua. Três homens armados passam a correr. Ouvem-se alguns tiros ao longe. Darieu assume um tom mais firma cada vez mais insistente:

- Ninguém o conhece como você. É a única pessoa no mundo que ele amou. Se fosse depor... Os três homens tornam a passar. Trazem com eles um prisioneiro que caminha com dificuldade e a quem obrigava a avançar a pontapés e coronhadas. Helene recua e fecha violentamente a janela. Darieu continua: - Se fosse depor, ele defender-se-ia. Diante de vocês, tenho certeza de que se defenderia. Ouvem-se gritos e tiros na rua. Helene estremece. - Não irei. - Helene... - Não irei. Compreenda-me, Darieu. Ele matou o meu marido. Odeio-o. Devo odiá-lo. Não posso defende-lo. Mas também foi durante dez anos o nosso amigo mais íntimo, o nosso irmão. Não posso acusa-lo. Não quero ser responsável, por pouco que seja, pela morte dele. - Não lhe pedimos isso. Basta que vá e que conte as coisas como as viu. Ele defender-se-á. Explicará por que fez morrer o Lucien. - Tem possibilidade de escapar, se eu for depor? Darieu não responde. - Está a ver, Darieu, é impossível – diz Helene com um ar desvairado. – Não quero meter-me nisso. Assassinarem-no sem mim. - Assassina-lo? - Já não sei onde estão os assassinos. Ele matou Lucien e agora vocês vão matalo. Volta para a janela e contempla o cadáver na rua. Diz, sem se voltar: - Vá-se embora! Vá-se embora! Terei dois mortos para chorar. - Então, Helene, a sua resposta é não? - É não. Deixe-me. O TRIBUNAL Menko continua a falar. É um depoimento preciso, recheado de termos técnicos, de números, de estatísticas, de nomes de aldeias. François ouve. Uma parte do Júri ouve. A sala quase não ouve. Algumas pessoas dormitam nos seus lugares, outros dormem francamente, estendidos no chão. Outros falam entre si, em voz baixa, enquanto Menko continua a falar incansavelmente. Jean boceja. Vira-se para os dois guardas que, fatigados, se sentaram no chão com as espingardas entre as penas. - Já não posso mais com isto – diz Jean. Os dois homens olham-no com uma cara de pau, sem responderem. Jean tira da algibeira uma onça de tabaco e mortalhadas e, com uma só mão, enrola um cigarro. - Estão a ver – diz aos dois guardas – que não sou desajeitado. Silêncio hostil dos dois homens. Jean encolhe os ombros. - Está bem – diz. – Não tenho vontade de os comprar. Vocês são do petróleo? - Somos – diz um dos guardas. - Extração ou refinação? - Refinação. - Pensam que sou um traidor? - Pensamos. Jean faz um gesto com o polegar para designar, atrás de si, o Júri, o advogado, François e as testemunhas.

- E o que é que pensam do julgamento? - Não valia a pena – diz o guarda. – O que era preciso era fuzilar-te imediatamente. - De acordo – diz Jean. – François é demasiado miudinho. Enquanto fala, Jean rebusca as algibeiras: procura os fósforos que não encontra. Pede aos guardas: - Têm fósforos? Estes não se mexem. Jean tirou o cigarro da boca, quando vinda de cima, cai sobre os seus joelhos uma caixa de fósforos. Jean levanta os olhos. Vê sentado no peitoril da janela, o jovem operário de botas descosidas que o olha. Jean contempla-o por um momento sem nada dizer. - Por que é que não mandas arranjar as tuas botas? Silêncio do jovem. Jean insiste: - É muito caro? O jovem continua sem dar resposta. Jean acende o cigarro. Deixa de se ouvir nesse momento a voz de Menko, que continuou a falar durante toda a cena, e ouve-se François dizer. - Agradeço à testemunha. Menko arruma as suas pastas, mete-as debaixo do braço, e torna a ir sentar-se no seu lugar. Suzanne levanta-se. Reclamo autorização para depor – Diz.- Vivi dez anos, dia a dia, ao lado deste homem. Ninguém o conhece melhor do que eu. François tem movimento de recusa. Volta a cabeça para Jean, como para lhe pedir conselho. Mas Jean não se mexeu. François olha a cara odienta e fria de Suzanne. Hesita ainda, vê o seu relógio, e pergunta a um guarda que está perto de si: - Darieu não voltou? - Não. François encolhe os ombros e faz um gesto a Suzanne. - Fala. A CASA DE HELENE Darieu e Helene ficaram na mesma posição diante da janela. Darieu, sem lhe estender a mão, diz a Helene: - Então, adeus. - Adeus. Darieu faz um movimento, como se fosse sair. Depois, ocorre-lhe um uma idéia e pergunta com uma indiferença fingida: - Sabe quem dirige a audiência? - François, suponho. - Em princípio, é. Mas de fato, é Suzanne Terrier. Helene fica sobressaltada. - Suzanne! Ela não tem esse direito. Essa mulher é uma... - Meteu o Júri no bolso – diz Darieu. – Acreditam em tudo quanto ela conta. - Suzanne – diz Helene, com repugnância. - Ela vai testemunhar... - Penso que contará a vida deles em comum. Helene mudou de cara bruscamente. - Falará de Lucien... Falará de mim...

Vai abrir a porta e chama: - Jeanne! Jeanne! Depois se vira para Darieu: - Não tenho que defender Jean. Mas não quero que ela nos emporcalhe. Ela detestava Lucien. Jean entra e Helene dirige-se a ela: - O meu casaco. Vou sair. - Estás doida – diz Jeanne. – Andam aos tiros na rua. - O meu casaco! – diz Helene imperiosamente. – Depressa! O TRIBUNAL Suzanne, de pé, frente ao Júri, fala com violência: - Deixou-me. A última vez que o vi foi no palácio. Foi a sete anos, no dia em que assumiu o poder... TESTEMUNHO DE SUZANNE (SETE ANOS ANTES) NO PALÁCIO Na grande sala de entrada do palácio deserto, está concentrado um grupo. Lá estão Suzanne, Lucien, François, Magnan. Todos olham para Jean que se mantém um pouco à parte. É a mesma cena que o criado grave descreveu, mas vista, desta vez, por Suzanne. Jean, muito senhor de si, aproxima-se duma porta fechada. Com um gesto violento e largo, empurra os dois batentes, descobrindo uma enfiada de salas de portas abertas. Jean faz imperiosamente sinal aos seus amigos para se retirarem, como se fizesse questão de tomar posse sozinho do seu novo domínio. Suzanne tem um impulso para ele, mas Lucien segura-a. Jean começa a avançar com um passo tranqüilo e seguro de si. Lá no fundo, o criado grave aguarda-o com uma expressão obsequiosa no rosto. Suzanne observa Jean com um ar terno e infeliz. Quer mais uma vez lançar-se atrás dele, mas François e Lucien seguram-na. Jean entra no gabinete, saudado pelo criado, que o segue e fecha a porta atrás dele. Suzanne vê com um ar desesperado fechar-se a porta sobre Jean, e ouve-se a sua voz dizer com rancor: - Quando teve um criado, não quis mais saber de mim. Evitava-me cuidadosamente. O PÁTIO DO PALÁCIO Suzanne tenta aproximar-se de Jean que se vê entrar para o seu grande automóvel branco. Um porteiro impede-a. O carro branco põe-se lentamente em andamento. Passa diante de Suzanne que grita: - Jean! Jean! No carro, Jean olha-a com uma cara de pau, como se não desse sequer pela sua presença. O TRIBUNAL

Suzanne, com o rosto flamejante de ódio acaba de concluir uma frase dirigida ao Júri. Olha para Jean sem dizer cousa alguma, com os lábios cerrados, e ouve-se a sua voz, a voz suplicante que tinha no pátio do Palácio: - Jean! Jean! Por que me deixaste? Sem uma palavra, sem um sinal. Não compreendo! Jean tem piedade de mim. Amo-te, Jean! Amo-te! Depois Suzanne volta-se novamente para o Júri e diz, com ódio frio e tranqüilo: - Odeio-o. E continua com a vontade: - Não vim aqui para lhes falar dos meus amores. Se não houvesse senão isso, não seria nada. Mas sucede que vivi anos junto dele e que tive conhecimento dum crime, um crime que cometeu sozinho e que vocês não conhecem. Será necessário incluí-lo também no número dos pontos capitais de acusação... Encontrei Aguerra pela primeira vez em 19... Foi antes da primeira Revolução... TESTEMUNHO DE SUZANNE (DEZ ANOS ANTES) UMA EXPLORAÇÃO PETROLÍFERA Tudo deserto. É a greve. A voz de Suzanne continua: - ...Por ocasião da famosa greve do petróleo, a primeira. Helene Borge, que dizia ser a minha melhor amiga, era enfermeira no dispensário da instalação. Não tinha ainda casado com Lucien Drelitsch, que Aguerra viria a assassinar mais tarde. Uma noite... A CASA DE SUZANNE Suzanne dorme na sua cama. Tocam à porta. Suzanne acorda e apura o ouvido. Tornam a tocar. Suzanne salta da cama, acende a luz, enfia um casaco por cima da camisa de noite, calça umas pantufas e vai à porta. - Quem é? - Abre, sou Helene. Suzanne abre a porta. Helene aparece. Mas é totalmente diferente da Helene que conhecemos. Muito pintada, traz um vestido que a molda de forma provocante, e afeta maneiras de mulher fatal. É Helene, vista por Suzanne. Atrás de Helene, Suzanne distingue os vultos de dois homens. Recua ligeiramente. - Não te inquietes – diz Helene. – São amigos. Empurra a porta com segurança e quase dá um encontrão a Suzanne para entrar. Fala com uma voz quase insolente. Os dois homens entram atrás dela. Estão sujos e fatigados, e os seus fatos estão rasgados. Lucien entra primeiro e depois Jean, que tem um ar sombrio e duro. Lucien cumprimenta Suzanne com um sorriso amável. - Desculpe-nos. - Mas que se passa? – pergunta Suzanne, examinando Jean e Lucien com inquietação. - Tem vizinho? – pergunta Jean secamente, olhando para Suzanne com dureza. - Não. A casa ao lado está vazia. - Bem. Suzanne encara Jean com curiosidade e pergunta mais uma vez: - Mas afinal o que é que se passa? Donde vêm?

Jean não responde. É Helene que toma a palavra, numa voz mudança a que falta sinceridade. Parece excitada, mas não triste. - Oh, Suzanne! É horrível! Conseguiram que mandassem a tropa. A instalação foi tomada de assalto. Querem prender-nos. - Estavas lá? – pergunta Suzanne. Helene faz um sorrisinho fanfarrão e vaidoso: - Estava, naturalmente. E eles também. Ah! Já me esquecia. Lucien Drelitsch e Jean Aguerra. - Esteja calada! – diz Jean, com grosseria. Os olhos dele não deixam Suzanne, que sustenta o seu olhar. - É a minha melhor amiga – diz Helene. Jean encolhe os ombros: - Não tem necessidade de saber quem nós somos. - Então – diz Suzanne – não tem necessidade de ficar em minha casa. - Muito bem – diz Jean. Faz meia volta e vai a sair. Lucien segura-o por um braço, sorrindo. - Ouve Jean. Temos de confiar. Helene responde por ela e, além disso, vê muito bem que não nos trairá. - Apesar de tudo, tanto pior – diz Jean. – Não temos escolha. Suzanne, ferida, mostra-se amuada. Lucien aproxima-se dela. - Estávamos há pouco nas instalações. Fugimos pelos canos, mas a polícia procura-nos. Pode esconder-nos? - Por quanto tempo? Lucien encolhe os ombros em sinal de ignorância. Suzanne olha os dois homens com hesitação. - Aos dois? Helene mete-se entre os dois homens, pega-lhes no braço com uma familiaridade provocante, sorrindo-lhes na cara, e diz: - Aos três. - A amiga que mora comigo volta depois de amanhã. Jean liberta o braço e dá um passo para a porta. - Está bem. Ela recusa. Vamos embora. Suzanne faz um gesto de irritação. - Espere lá! Quem lhe diz que recuso? - Em todo o caso, não tem um ar entusiasmático – diz Jean. Depois acrescenta, para Lucien: - Há mulheres demais nesta história. Tocam à porta. Ficam todos sobressaltados e entreolham-se com inquietação. Suzanne fica calma e assume imediatamente um ar decidido. Põe um dedo sobre os lábios e faz-lhes sinal para a seguirem. Abre a porta que dá para uma grande sala que serve de rouparia e arrecadação. Trouxas de roupa e móveis estão estendidos sobre duas cadeiras. Tocam novamente e batem à porta. Suzanne mostra um canto da sala. - Metam-se ali com o lençol por cima. Depressa. Depois fecha a porta da rouparia e vai ao vestíbulo. - Quem é? - A polícia. Abra. Suzanne abre a porta. Assumiu um ar ensonado e olha os dois policiais com olhos de míope. - Que querem? - Há grevistas em sua casa. - Grevistas? Que horror! – diz Suzanne.

Abre a porta de par em par. - Entrem. Procurem. Não ficarei tranqüila enquanto não tiverem revistado tudo. Os dois policiais seguiram-na e olham à sua volta. Suzanne abre a porta da rouparia. Jean, Lucien e Helene, agachados entre os móveis e tapados com o lençol, estão invisíveis. - Aqui – diz Suzanne – é a minha rouparia. Mas seria preciso que tivessem passado pelo meu quarto. Fecha a porta e dirige-se aos policiais que já se preparam para sair. - Não passam revista? Debaixo da cama, talvez. - Não diga disparates – diz um policial, encolhendo os ombros. E os dois homens saem com uma pequena contingência. Suzanne fecha a porta à chave e depois volta para a rouparia. Helene, Jean e Lucien saem de baixo do lençol e olham para ela. Suzanne olha para Jean, sorrindo: - Então? Continua a achar que há mulheres demais nesta história? O TRIBUNAL Suzanne, em pé diante dos jurados, continua a falar: - Não podia conserva-los em minha casa. Levei-os para a quinta dum tio meu, num sítio isolado. Ninguém podia procura-los lá. Ao princípio, ia tudo bem. Lucien escrevia o seu primeiro romance, Helene enfeitava-se para eles, Jean aborrecia-se de manhã à noite, e eu fazia a lida da casa... TESTEMUNHO DE SUZANNE (DEZ ANOS ANTES) A SALA COMUM NA QUINTA DE SUZANNE Lucien escreve, à cabeceira duma grande mesa. Suzanne põe mais uma acha no lume e deita uma olhada ao conteúdo do grande caldeiro pendurado na gramalheira. Diante dum espelho, Helene retoca a pintura. Em pé diante duma janela, Jean olha para fora. Abre a boca num grande bocejo. Suzanne passa junto dele com os pratos, facas e garfos que vai pôr na mesa. Ao passar, diz a Jean: - Você não tem o ar de gostar do campo. Jean, lança-lhe um olhar sombrio e responde com um grunhido. Suzanne começa a pôr a mesa. Lucien põe os seus papéis em ordem e tapa a caneta. Helene aproxima-se da mesa. - Pobre Lucien! A Suzanne é impiedosa. Nem sequer respeita o teu trabalho! Depois acrescenta, para Suzanne: - É um grande escritor, sabes? Vais fazer-lhe perder o fio das idéias. Suzanne responde secamente: - É possível, mas também precisa comer, por maior escritor que seja. Lucien levantou-se precipitadamente. Tem um ar confundido com as palavras de Helene e sorri muito amavelmente a Suzanne. - Desculpe-me, Suzanne, mas eu, pelo contrário, é que devia ajuda-la. - Não diga isso – diz Suzanne. – Isso é que lhe faria perder o fio das idéias. Lucien pega numa pilha de pratos e ajuda Suzanne a pôr a mesa. - Mas não! Eram umas notas sem importância. Helene volta-se para Lucien com garridice.

- Sem importância? E eu que tinha tanta vontade de falar consigo e não me atrevia a interrompe-lo... - Lucien está agachado diante do apagador, tira os copos e uma garrafa de vinho. Sorri ternamente para Helene e diz-lhe: - Pois bem, fale comigo. - Poderemos regressar dentro em breve? Lucien pousa os copos e a garrafa na mesa. - Não sei. Pergunte ao nosso caro grande homem de ação. Ele é que decidirá. Lucien começa a dispor garfos e facas ao lado dos pratos. Helene olha para Jean, que continua à janela, e depois pergunta a Lucien: - Por que é que lhe chama sempre o nosso homem de ação? Você não o é também? - Não. - Por que? Lucien, ao voltar-se para responder, deixa cair uma faca. Baixando-se para a apanhar, faz cair três garfos. Helene ri um pouco, Lucien também ri e diz, mostrando os garfos que apanhou do chão: - Aqui tem porque não poderia ser um homem de ação. E depois... - E depois?... – pergunta Helene: - Conhece o provérbio: Não se fazem omeletes sem partir os ovos? Pois bem, não gosto de partir os ovos, nem mesmo para fazer uma omelete. Lucien continua a pôr a mesa com Suzanne. Helene olha-os sem nada dizer, e dirige-se depois para junto de Jean. Suzanne segue-a com um olhar duro. Chegando junto de Jean, Helene passa-lhe, muito ao de leve, a mão pela nuca. Ele estremece, volta-se e olha-a com uma expressão de desejo tão manifesta que fica chocada. Tenta gracejar, mas está embaraçada. - Parece que você sabe fazer omeletes? Jean, com um ar ausente tem os olhos fixos na boca de Helene. - Que omeletes? - Estou a dizer tolices. Quando vamos regressar? - Não sei – diz Jean. Depois acrescenta entre dentes: - Não tenho vontade de voltar. Helene, cada vez mais embaraçada, tenta ainda gracejar. - Por que olha assim para mim? Faz-me medo. - Sabe muito bem porque a olho. Suzanne fita-os com um ar sombrio, acabando de pôr a mesa. O TRIBUNAL Jean, sentado na sua cadeira, continua a estar de costas voltadas para o Júri, mas escuta com interesse o depoimento de Suzanne, que se ouve falar atrás dele. - Ele perseguia-a. Não dizia nada; olhava-a. E ela tinha medo. Enfeitou-se para ele, ao princípio, mas depois teve medo. TESTEMUNHO DE SUZANNE (DEZ ANOS ANTES) A SALA COMUM DA QUINTA

Suzanne faz a lida da casa. Helene está sentada à mesa, com um livro aberto diante de si. Jean olha-a fixamente. Helene, embaraçada, acaba por levantar a cabeça. - Fale! Diga qualquer coisa. - Não tenho nada a dizer. Não falo tão bem com o Lucien. - Você sabe muito bem que sim. Fala muito bem quando quer. Suzanne, com balde na mão hesita um momento no limiar da porta. Depois vai à cozinha enche-lo e volta. Helene está nos braços de Jean, que a beija. Não se sabe se é ou não com o seu consentimento, mas liberta-se bruscamente. Helene dá alguns passos, senta-se à mesa e põe-se a soluçar, com a cabeça nos braços. - Estou farta! Estou farta! Quero voltar para a minha casa. Suzanne aproxima-se dela e acaricia-lhe os cabelos com um gesto automático. O seu rosto mantém-se duro. - Tu enfeitas-te para os dois... É preciso escolher! Helene endireita-se bruscamente. - A escolha está feita. Lucien quer casar comigo. - E então? - Disse-lhe que sim. Um ar de triunfo discreto aflora por um segundo ao rosto de Suzanne. - Por que? – pergunta. – Por ele ser mais bem parecido? Helene faz um pequeno trajeto de aprovação cínica. Suzanne continua: - Além disso, tem os seus dois braços... E será um grande escritor... Todas as vantagens, claro! Suzanne fala com um ar indiferente para obrigar Helene, que responde a cada uma das perguntas com um pequeno gesto cínico, a mostrar a sua baixeza. Helene parece ter caído no logro. Enxuga as lágrimas e sorri com um ar frio e calculista. Ouve-se a voz de Suzanne diante do Tribunal: - Helene e Lucien casaram-se na aldeia. Na noite do casamento... Na mesma sala, Suzanne, Helene, Jean e Lucien. É noite. Estão todos quatro sentados diante da lareira onde arde um grande lume. Atmosfera de embaraço. Suzanne observa os outros três com um ar duro, depois acaba por quebrar o silêncio: - Então? Não nos vamos deitar? Os outros três saem com dificuldade do seu torpor. Respondem molemente: Sim... Sim... Sim... – mas não se mexem. Novamente o silêncio e a imobilidade. Lucien fixa as biqueiras dos sapatos. Jean rufa no braço de sua cadeira. Helene, com os olhos muito abertos contempla a chama com um ar ausente. O relógio dá a meia-noite. Estremecem e vêem as horas todos ao mesmo tempo. Helene decide-se. - Meia-noite. Devias ir para a cama, Suzanne. Levantas-te sempre tão cedo. Suzanne não se move, bem decidida a esperar. - Não, não. Vão vocês primeiro. Ainda tenho de arrumar a louça. Lucien levanta-se de má vontade. - Não podemos faze-la estar acordada tanto tempo. Helene levanta-se por sua vez. Está ao lado de Lucien. Ambos fitam a cabeça de Jean, que não se mexeu e continua a tamborilar no braço da cadeira. Desejam boas noites a Suzanne, e depois Helene diz, um pouco embaraçada: - Até logo, Jean: - Até logo – diz ele, sem levantar a cabeça. - Até logo, Jean – diz Lucien.

Jean levanta os olhos para Lucien e sorri-lhe amavelmente. Pega negligentemente num copo posto em cima duma mesinha a aperta-o na sua mão. Lucien e Helene vão até à escada, sobem-na com embaraço, desaparecem, ouvem-se ainda os seus passos por um momento, e depois o silêncio. Neste momento, Jean estende a sua mão válida para Suzanne e diz: - Lave-me isto. - O que? - Isto. Jean abre a mão; está cheia de sangue. Partiu o copo que agarrava. Suzanne dá um grito. - Deixe-se de chiliques. Lave isto. - Nunca tenho chiliques. Suzanne vai ao lavadouro, enche um alguidar de água e volta para junto de Jean com o alguidar, uma rodilha limpa para o teto, sem dar de assoar. Jean olha para o teto, sem dar atenção ao que Suzanne faz. Quando acaba, larga a mão ligada de Jean. - Pronto, já está. Até logo, Jean. - Até logo. - Podia dizer obrigado. - Obrigado. Suzanne levanta-se e sobe para o seu quarto. Olha-se num espelho, sorrindo. Atrás dela, a porta abre-se lentamente. É Jean. Suzanne olha para ele e a sua cara metelhe medo. Recua um pouco, e depois enfrenta-º Ele vem para ela lentamente. Quando está muito perto, para e olha-a. - Está luar – diz, entre dentes. – Um belo tempo para uma noite de núpcias, heim? - Sim, um belo tempo. Bruscamente, Jean toma Suzanne nos seus braços e beija-a na boca. Enquanto a beija, ouve-se a voz irônica do advogado de Jean que pergunta: - E você deixou-o fazer sabendo que ele amava outra? - Não a amava – responde a voz de Suzanne – apenas a desejava. - E você? – pergunta a voz do advogado. – Então o amava? - Eu... Eu... Jean afasta-se de Suzanne, que ergue para ele um rosto iluminado de prazer. Depois se vê Suzanne no pátio do palácio do governo, olhando Jean a sair no seu grande automóvel branco e chamando desesperadamente: - Jean! Jean! A voz de Suzanne diz, secamente: - Não, não o amava. O TRIBUNAL Suzanne fala ao Júri. - Mas dei-lhe a minha vida. Era a criada dele. Não valia de nada. Não gostava de mim, não sei porquê. Houve nessa época a anistia geral e voltamos para a cidade. Puseram de pé uma organização revolucionária. Reuniam-se em minha casa. Jean queria dirigir a Comissão, mas havia um concorrente sério: Benga, o pequeno Benga. Lembram-se dele? TESTEMUNHO DE SUZANNE (NOVE ANOS ANTES) A CASA DE SUZANNE

Jean está sentado numa cadeira de braços. Tem o ar preocupado e não parece ver Suzanne, sentada à sua frente. Diz: - O meu cachimbo. Suzanne dá-lhe um cachimbo já atacado que ele mete na boca. Estende-lhe um fósforo aceso. Acendendo o cachimbo, Jean diz: - A comissão reúne-se aqui, daqui a pouco. Servirás cerveja. - Quantos vão ser? - Oito, como de costume. Tocam à porta. Jean levanta-se. - Aí estão. Põe-te a andar. Trarás a cerveja quando eu te chamar. Suzanne entra na rouparia. Tira garrafas de cerveja dum cesto e coloca-as numa bandeja. Imóvel diante da mesa, tem um movimento de abandono e soluça por um curto instante. Depois recobra o ânimo e recompõe um rosto duro e sólido. Senta-se e espera. Da sala vizinha chegam até ela, repentinamente, violentos clamores de vozes. Suzanne fica sobressaltada, hesita e acaba por ir à porta espreitar pelo buraco da fechadura. Vê os membros da Comissão, entre os quais Lucien e Helene. Jean acaba por agarrar Benga pela banda do casaco e sacode-o com uma cólera louca. Suzanne abre a porta e precipita-se. - Jean! Jean larga Benga e volta-se para Suzanne. - Quem te autorizou a entrar? Todos os membros da comissão olham para Suzanne. Está terrivelmente embaraçada. - Vai buscar cerveja. Suzanne sai. Pega nas garrafas de cerveja e volta. Ao pôr as garrafas na mesa, encontra o olhar de Helene que lhe sorri. Ouve-se a voz de Suzanne dizer com azedume: - Helene era da comissão. Eu não. Suzanne responde muito friamente ao sorriso de Helene, depois volta a sair para a rouparia e ouve-se, enquanto fecha a porta, a voz cortante de Jean declarar: - É a opinião dele ou a minha. Escolham. ALGUMAS HORAS MAIS TARDE A sala onde estava reunida a comissão. Garrafas vazias, copos sujos, cinzeiros cheios. Jean, furioso, dá um murro na mesa. - Será ele ou eu! Isto não pode continuar! Suzanne, que faz malha, sentada numa cadeira de braços, mantém um olhar impassível. Jean repete com furor: - Ou ele ou eu! Hei-de apanha-lo! Suzanne continua a fazer malha. Ouve-se a sua voz dizer secamente: - E apanhou-o. Uma noite... ALGUMAS SEMANAS MAIS TARDE Sempre na mesma sala, Suzanne está sentada e faz malha. Tocam à porta. Suzanne vai abrir. É Helene, que entra na sala como em sua casa. - Onde está o Jean? – pergunta. – Quero ver o Jean.

- Alguma vez te impedi de o ver? – pergunta Suzanne. – Está na rouparia, a trabalhar. Helene, muito pintada, muito agitada, muito provocante e muito vulgar, vai direto à rouparia cuja porta abre, sem bater. Jean, que estava sentado a mesa, diante dos papéis, levanta-se com um sorriso. Helene dirige-se para ele. Suzanne, de pé no limiar da porta, manifesta claramente a sua decisão de ficar. Helene pigarreia para aclamar a voz, e diz com insolência: - Desculpa-me, Suzanne, mas preciso de falar a Jean a sós. - Tens coisas a dizer-lhe que eu não possa ouvir? - Sou da Comissão, Suzanne. - A comissão tem as costas largas. Suzanne sai, fechando violentamente a porta. Anda dum lado para o outro na sala, fazendo barulho de propósito. Depois, pé ante pé, volta para junto da porta. Olha primeiro pelo buraco da fechadura. Depois escuta, de ouvido colado à porta. Ouve Helene. - Estás demasiado comprometido, Jean. Já não podes recuar. - Ganhei, Helene! – responde Jean. – Ganhei! Vai-te-embora, e que o Lucien não saiba da nada. Suzanne volta para a sua cadeira de braços e recomeça a fazer macha com um ar inocente. A porta da rouparia abre-se. Helene sai, com os olhos vermelhos de ter chorado. Vai-se embora precipitadamente, dizendo de passagem: Até mais ver, Suzanne. Suzanne não responde. Olha para Jean, que entra na sala com um passo lento, e pergunta: - Que queria ela? - Nada. - Tenho o direito de saber a razão por que uma mulher vem fechar-se contigo às dez horas da noite, na minha casa, e sai passada meia hora com uma cara de meter medo. - Não queria nada – diz Jean. Vai ao armário, abre-o e remexe numa gaveta. Suzanne levanta-se, muito inquieta. - O que é que procuras? Jean, sem responder, mete qualquer coisa na algibeira. Suzanne verifica o conteúdo da gaveta e pergunta: - Jean, sem responder, mete qualquer coisa na algibeira. Suzanne verifica o conteúdo da gaveta a pergunta: - Jean, para que tiraste o revólver? - Não te exaltes. Suzanne olha para Jean com uns olhos transtornados e suspeitosos. - É para o Lucien? – pergunta. Jean fica sobressaltado. - Para Lucien? Estás doida! Por que para Lucien? - Encaminha-se para a porta. Suzanne corre e impede-lhe a saída. - Não passarás antes de me teres dito para quê. - Tira-te daí – diz Jean, afastando-a. – É para Benga. - Para Benga? - É um denunciante. Forneci a prova à Comissão. Suzanne olha para Jean com uma espécie de abatimento anojado. - Ah!... Forneceste a prova... E daí?

- Tem de pegar – diz Jean, com uma maldade quase sódica, e acrescenta, abrindo a porta: Acabei por apanha-lo, heim? Sai. Suzanne chama-o no momento em que ele começa a descer a escada: - E Helene que tem a ver com isso? - Deixa a Helene em paz – diz Jean sem se voltar. Suzanne fecha lentamente a porta. O TRIBUNAL Suzanne, frente ao Júri, continua o seu depoimento. - Matou Benga nessa noite com as suas próprias mãos. E quinze dias depois toda a gente sabia que Benga estava inocente. Mas era demasiado tarde. Matou Benga porque Benga o incomodava. E mais tarde matou Lucien Drelitsch, porque tinha inveja da sua popularidade e desejava a mulher dele. - Mentes! – grita uma voz de mulher na sala. Suzanne volta-se e todo o público com ela. Helene está ao fundo da sala, de pé, ao lado de Darieu. No momento em que todos os olhares estão fitos nela, Helene diz simplesmente: - Sou Helene Drelitsch, mulher de Lucien Drelitsch, que morreu no degredo, onde estava por ordem de Jean Aguerra. Helene adianta-se para o palco onde se reúne o tribunal. Jean levantou-se e olha-a. Olha-o também e para, transtornada. Nesse momento, instantaneamente, desaparecem todos os assistentes; François, os jurados, os guardas, o advogado, todos desaparecem. Não ficam na imensa sala deserta senão aquele homem e aquela mulher que se entreolham. Depois Helene desvia o olhar do de Jean e recomeça a andar. Então, bruscamente, a sala fica de novo cheia e zumbe com um murmurinho favorável. Visivelmente, Helene conservou junto da multidão um pouco da popularidade de Lucien. François adianta-se para Helene com solicitude e pega-lhe nas mãos, com uma só palavra: - Obrigado. Helene faz-lhe um sinal de cabeça, mas tem os olhos fixos em Suzanne, e dizlhe: - Mentes, Suzanne. Sabes bem que mentes! Não foi por ciúmes que lê fez morrer Lucien. - Então por que foi? - Explicá-lo-ei ao Júri – diz Helene. - Foi para defenderes o assassino do teu marido que vieste? - Vim porque me pediram, e direi a verdade – responde Helene. – Há um momento que te ouço. Deformas tudo. Ouve! Até este fato insignificante. Na noite de Benga não fui a tua casa ás dez horas da noite, mas sim às oito horas. TESTEMUNHO DE HELENE (NOVE ANOS ANTES) A CASA DE SUZANNE Helene está no patamar. Não é a mesma Helene que no testemunho de Suzanne. É muito jovem quase sem pintura, muito modestamente vestida. Tem um ar ansioso e triste, e, embora tenha uma espécie de à vontade, não tem de modo nenhum a segurança insolente que Suzanne lhe atribuía. O próprio som da voz está modificado.

Toca à porta de Suzanne, através da qual se ouve o ruído dum rádio. Enquanto Helene espera, ouve-se a voz dizer: Não estavas a fazer malha, ouvias o rádio. A porta abre-se. Suzanne aparece, pintada como estava Helene e envergando o mesmo vestido provocante que Helene trazia, no seu próprio testemunho. - Suzanne – diz Helene – aconteceu uma coisa horrível. Tenho absoluta necessidade de ver Jean. Suzanne olha-a com aversão. - Ouve, Helene, é um aborrecimento, mas está alguém com ele. A porta da rouparia abre-se. Jean aparece. - Por que disse isso, Suzanne? Sabes muito bem que estou só. Os três personagens ficam imóveis. Ouve-se a voz de Suzanne no Tribunal. - Então e daí? – diz ela – Já estava farta de te ver de volta do meu amante... Ao mesmo tempo que se faz ouvir a voz de Suzanne, as personagens, que não se mexeram, metamorfoseiam-se. Helene torna a ficar provocante e Suzanne modesta. A voz de Suzanne prossegue: - É verdade que menti. É verdade que não queria que visses o Jean. Por que não haveria de defender-me? Helene, sempre provocante, empurra distraidamente Suzanne e aproxima-se de Jean. Ambos se fecham na rouparia. Suzanne dirige-se à porta sem ruído. Ouve-se a voz dizer com rancor: - Tinham as costas largas, a comissão! Supões que eu não sabia o que vocês faziam com a porta fechada? Suzanne inclina-se. Pelo buraco da fechadura, vê Helene e Jean abraçados. A voz de Helene diz tristemente: - És um nojo, Suzanne... O TRIBUNAL Helene em pé diante do júri, cara a cara com Suzanne. Olha-a com mais tristeza do que desprezo, com uma tristeza profunda que lhe cava o rosto. Depois dirige-se ao Júri: - Tinha ido pedir a morada de Benga. A Comissão tinha-o condenado à morte e Lucien tinha sido designado para o executar. No último momento, Lucien disse-me que não mataria Benga. Queria faze-lo no seu lugar, e finalmente foi Jean que o fez. - Porque recusava o Lucien? – pergunta François. - Seria preciso recomeçar tudo desde o princípio. - Também creio – diz François. Depois volta-se para Suzanne: - Não tens mais nada a dizer-nos? - De momento, não – responde Suzanne. Depois, com um gesto, designa Helene ao Júri: - Mas esta era a sua secretária, quando ele estava no poder, e suponho que dormiam juntos. Devia ser acusada com ele. Pela primeira vez, Jean intervem. Ficou de pé depois da entrada de Helene e os seus olhos não a deixaram. - Helene deixou-me há dez anos, no próprio dia da prisão de Lucien Drelitsch – diz. – Era minha secretária, mas nunca foi minha amante. Não é responsável seja em que grau for pela política que vocês me censuram. Jean torna a sentar-se. Helene não o olhou enquanto ele falava. François dirigese ao mesmo tempo a Jean e a Suzanne:

- Sabemos isso. Helene Drelitsch está aqui na qualidade de testemunha e não de acusada. Depois, para Helene: - Ouvimos-te. Helene enfrenta o Júri e começa a falar: - Começou tudo durante a greve dos petroleiros. Era enfermeira no dispensário da instalação. Não me ocupava muito com a política, mas fazia parte do sindicato. Não conhecia ainda Jean, que era um dos seus dirigentes, mas conhecia Lucien Drelitsch, o seu melhor amigo, quase seu irmão. TESTEMUNHO DE HELENE (DEZ ANOS ANTES) A EXPLORAÇÃO PETROLÍFERA É a greve. Ninguém a trabalhar. Nas ruas do bairro operário, os operários circulam ou estão reunidos em pequenos grupos. Ouve-se a voz de Helene: - Schoelcher pagava salários de miséria. A grande greve, iniciada em Maio de 19... durava um mês... UMA ESTRADA NO CAMPO É a noite. Lucien e Helene caminham lada o lado. São ultrapassados por um ciclista, que não leva luz. - É ainda longe? - Cinco minutos. - Afinal onde é? - Numa pedreira abandonada. Helene encolhe os ombros com irritação. - Para que brincar aos conspiradores? - Ora vamos lá, Helene... O sindicato não é reconhecido. Bem sabes que não podemos fazer uma reunião oficial na cidade. - Estou cansada – diz Helene. Para um momento. - Estamos quase a chegar – diz Lucien. – De resto, devias gostar de ir vê-lo. - Quem? - Ora, Jean Aguerra, claro. - Não foi por causa do teu Jean Aguerra que me incomodei. Vou a uma reunião política e não às variedades. - Irrita-te antes de o conheceres – diz Lucien. – A culpa é minha. Mas mudarás de opinião. È tão forte, tão inteligente. Foi ele que organizou o sindicato e que fez tudo. Helene tem um risinho nervoso. - Que tens? Pergunta Lucien. - È mesmo teu, Lucien! Estás a sós numa estrada com uma rapariga e é esse o momento que escolhes para lhe falares de Aguerra. - Mas... Lucien pára e olha para Helene, hesitando. Uma carroça puxada por um cavalo passa junto deles. O condutor faz parar o cavalo e inclina-se, com uma lanterna na mão, iluminando Helene e Lucien. É Jean, que diz alegremente: - És tu, Lucien? Sobe depressa.

- És tu, Jean? – pergunta Lucien. Aproxima-se da carroça e acrescenta: - Mas estou acompanhado. - Subam ambos. Helene e Lucien sobem para a carroça. Lucien fica sentado entre Helene e Jean. Faz as apresentações: - Jean Aguerra, Helene Dargel. - Muito prazer, menina. Helene faz um pequeno cumprimento, seco: - Prazer. Jean dá uma palmada amigável no ombro de Lucien. - Como vai isso, irmãozinho? - Vai bem – diz Lucien, que deita uma olhadela a Helene e acrescenta: - Vai mesmo muito bem. E tu? - Mal. Sabes por que é a reunião? - Não. - Schoelcher obteve autorização de mandar vir cinco mil alemães na segundafeira. Furadores de greve. Trabalharão no nosso lugar. - Meu deus! Então? - Então, aqui tens. É preciso decidir o que vamos fazer. Enquanto Jean e Lucien falam, Helene, vexada por eles a ignorarem, finge ignora-los e vê a paisagem. A carroça chega diante duma grande pedreira abandonada onde já estão reunidas algumas centenas de homens.

O TRIBUNAL Helene fala sem olhar para Jean. Mas ele olha-a. Voltou-se na cadeira para ela e os seus olhos não a deixam. Helene sente o olhar dele. Advinha-se isso pela maneira obstinada por que fixa o Júri e pela maneira um pouco opressa de falar. - Lucien irritava-me – diz. – Não tinha olhos senão para o Jean. E Jean também me irritava. Achava-o muito senhor de si. Então, fiz uma tolice... TESTEMUNHO DE HELENE (DEZ ANOS ANTES) UMA PEDREIRA ABANDONADA Uma espécie de gruta imensa. Lanternas penduradas nas paredes. Uma multidão silenciosa de operários está reunida diante duma plataforma natural sobre a qual Jean, Benga e mais quatro operários tomaram lugar. Na primeira fila da multidão, Helene e Lucien. Jean fala e Lucien não tem olhos senão para ele, o que parece irritar Helene. - Cinco mil alemães – diz Jean. – Chegarão na segunda-feira e ficaram tanto tempo quanto os patrões quiseram, e durante esse tempo podemos estourar de fome. Camaradas, opus-me sempre à tática da sabotagem e das greves. É uma má tática neste momento, porque esgotamos as nossas forças com ela. Vocês foram da opinião de Benga, e votaram a favor da greve. Estão a ver o perigo que apresenta hoje. Peço-lhes que votem pelo regresso ao trabalho. Benga olha para Jean com furor. Toma por sua vez a palavra:

- Camaradas, não vamos ceder depois dum mês de luta e de sacrifício. Não nos deixaremos intimidar pela chegada de cinco mil estrangeiros... - Muito bem – grita Jean. – Então vamos fazer? Repito-lhes que, uma vez que eles tenham começado a trabalhar nas nossas instalações, nunca mais sairão. Tens algum plano, Benga? - Resistir. - Resistir como? Benga não responde. A multidão fica silenciosa. Lucien inclina-se para Helene e segreda-lhe: - Ele agrade-te? - Absolutamente nada. Tem o ar dum bruto e as propostas dele são as dum covarde. Jean volta-se para Benga, de dedo estendido, e repete: - Resistir como? - Covarde! Covarde! – murmura Helene entre dentes. Lucien protesta, com ardor: - Cala-te! Estas doida! É fácil criticar quando se não tem responsabilidade. Jean, sem deixar de fitar Benga, pergunta pela terceira vez: - Como queres resistir? - Temos dinheiro suficiente para agüentar um mês – diz Benga. - E depois? – exclama Jean. – E daqui a um mês? Estão a ouvir, camaradas? Aconselham-lhes a greve mas não lhes indicam o meio de sustentar! Um silêncio. Depois Helene diz, numa voz mal segura: - Por que não ocupar as instalações? Jean volta-se bruscamente para ela: - O que? - Pergunto – diz Helene com uma voz mais forte. – Por que não ocupamos as instalações? Lucien tenta faze-la calar: - Ora vamos, Helene... Estas doida! Sobre a sua plataforma, Jean encolhe os ombros: - A proposta nem sequer merece discussão. Se ocuparmos as instalações, acusar-nos-ão de violarmos o direito de propriedade. Isso servirá de pretexto para meter a tropa no assunto. Agora Helene está completamente furiosa e fala com segurança. - Recuar sempre, ceder sempre. Será preciso voltarmos de cabeça baixa? Vira-se para a multidão e continua: - É disso que vocês tem vontade, camaradas? Querem renunciar à luta ao primeiro obstáculo? Jean, que está mesmo à beira da plataforma, inclina-se para Helene e diz, por trás dela: - Ora esteja lá caladinha, minha menina! Mas Benga, encorajado pela intervenção de Helene, que parece não ser mal recebida pela assembléia, retoma a palavra: - Ela tem razão, camaradas. Se regressarmos vencidos às instalações, ter-nosemos tornado ridículos e nunca mais poderemos fazer greve. Já que nos impõe a prova de força, aceitemo-la. Não ousarão mandar-nos expulsar pela tropa. Todo país aprova o nosso esforço e nos apóia. Vamos ceder como meninos bem comportados? Será preciso que seja uma mulher a incitar-nos à luta? Ponho esta proposta à votação: quem é pela ocupação das instalações?

- É uma loucura e um crime – diz Jean. - Aos votos! – Grita Benga. A multidão hesita um momento. Depois, pouco a pouco, vão-se levantando as mãos. Uma maioria enorme. - Quem é contra? – diz Benga. Levantam-se algumas mãos, entre as quais as de Lucien e de Jean. - Vocês decidiram – diz Benga. – Amanhã, cada um de nós voltará para o seu posto nas instalações. Organizaremos a ocupação no local. Na plataforma, Jean faz um gesto magoado. Salta da plataforma, enquanto a multidão começa a retirar-se. Aproxima-se de Lucien e de Helene, que o encara com um sorrisinho de triunfo: - Então? Não foi demasiado mal para uma menina! - O que fez é imperdoável – diz Jean. Olha-a duramente e mistura-se com a multidão. Helene segue a multidão ao lado de Lucien. Está insolente, mas embaraçada. - Naturalmente, votaste com Aguerra! Lucien, magoado, responde com doçura: - Não foi por causa de Aguerra. Mas não vês, Helene, que quando os alemães chegarem... - E então? - Haverá certamente violências. Não me associarei nunca a um ato de violência. O TRIBUNAL Helene fala, com um ar triste e orgulhoso: - Vocês sabem que manteve a sua palavra. Nunca na sua vida se associou a um ato de violência. - Sabemos – diz François. – Repetiu durante toda a vida: Nenhum triunfo vale a perda duma só vida humana. - Foi por isso que morreu – diz Helene. – Morreu porque quis conservar as mãos limpas até o fim. Quis apesar disso tomar4 parte na ocupação das instalações, porque havia perigo e porque queria ficar com Jean e comigo. Ele amava Jean. Pela primeira vez, volta-se para Jean ao dizer a frase final, que pronunciava sem violência, com uma doçura quase impiedosa. Jean fica profundamente perturbado: cerra os maxilares e as lágrimas vêm-lhe aos olhos. Helene enfrenta novamente o Júri e prossegue: - Nos dois primeiros dias, tudo se passou bem. No terceiro... TESTEMUNHO DE SUZANNE (DEZ ANOS ANTES) A EXPLORAÇÃO PETROLÍFERA A instalação ocupada. O portão fechado. Grevistas de guarda. A um canto da instalação, um edifício comprido e baixo: é a enfermaria. Helene está diante da porta com Lucien. Tem um ar feliz. - É maravilhoso, Lucien. Que disciplina! - Foi Jean que organizou o serviço de ordem, - Naturalmente. Continua furioso comigo, o teu Jean? - Não me disse nada. - Ah, exclama Helene, com um pouco de despeito. De repente, um grito faz-lhe levantar a cabeça.

- Os soldados! Um jovem operário empoleirado no telhado dum dos edifícios grita, de mão estendida para a entrada da instalação: Os soldados! Os soldados! Rumores; movimentos diversos. Alguns homens saem dos edifícios. Outros correm para os portões. Ouve-se gritar: - O que é? - Os soldados! - Os soldados! Os soldados! - Mandam-nos a tropa. Alguns homens subiram aos telhados e fazem grandes gestos, gritando: - Os soldados! Vêm dos dois lados! A agitação começa a transformar-se em desvairo. Jean e Benga saem dum edifício e são imediatamente rodeados por um grupo que aumenta de segundo a segundo. Do meio do grupo, ouve-se a voz de Jean gritar: - Todos ao mesmo tempo, não! Silêncio e calma! Helene, no grupo, agarra-se nervosamente ao braço de Lucien: - Eu estou... tenho... - Domina-te, Helene! – diz Lucien. Jean fala, no silêncio que voltou: - Não tivemos sorte, mas ninguém merece censura. Agora é preciso livrarmonos disto. Não se põe a questão de resistirmos: não temos armas e seria um massacre inútil. Mas também não devemos ficar aqui: prender-nos-iam e meter-nos-iam na cadeia. Ponham-se em filas! Rápido! A multidão hesita, depois o movimento organiza-se e todos os homens alinham em filas de três. - Os velhos à frente! – grita Jean. Obedecem-lhe. Diz ainda: - Agora, abram os portões. Alguns homens vão ao portão e abram-no de par em par. Jean aproximou-se dum velho de cabelos brancos que está n primeira fila da coluna. - Tu, velhote, vai à frente. Dir-lhes-ás que saímos e que, se nos deixarem a passagem livre, retomaremos o trabalho amanhã. Três voluntários para o acompanharem. Três homens saem das fileiras e dirigem-se para o portão, enquadrando o velho. No grande pátio da instalação, todos os operários estão agora alinhados, e Jean aproxima-se de Lucien e de Helene. Sorri para Lucien. - Então Lucien? Como vai isso? - Jean! Crês que atirarão sobre eles? - É uma hipótese em duas – diz Jean, com um sinal de ignorância. Helene contempla Jean com uma espécie de rancor. Os seus lábios tremem. Diz, numa voz estrangulada: - Você triunfa! Jean olha-a em silêncio, durante um longo momento. - Não, não triunfo. Fitam-se ainda um momento, como fascinados um pelo outro. Helene faz um movimento para ele, mas depois, bruscamente, recua e cai chorando nos braços de Lucien.

- Detesto-o! Não quero voltar a vê-lo! Ouvem-se nesse momento um grande rumor e gritos: - Ai vem eles! Aí vem eles! O velho e os três homens que o escoltam regressam à instalação. Jean, Benga, Lucien e Helene vão ao encontro deles. - Aceitam. Mas tem ordem de prender Aguerra, Lucien Drelitsch e a enfermeira. Com esta condição, deixam-nos passar. Murmúrios na multidão, que protesta. Jean levanta a mão a pedir silêncio. - Tem ordem de nos prender, mas podemos escapar-lhes. Sairemos pelos esgotos. Sigam. A coluna põe-se em marcha e passa o portão. Benga aproximou-se de Jean, Helene e Lucien. Jean olha para ele e diz-lhe: - Por que esperas? Não falaram em ti. - Se vocês ficam, também quero ficar – diz Benga. - Estás doido? Se formos apanhados, os camaradas terão necessidade de ti. Enquanto os operários saem da instalação, Jean, Helene e Lucien aproximam-se do portão e vêem marchar o desfile ao encontro da tropa que se avista em redor, imóvel, de armas em descanso. Lucien tem um ar inquieto. - Crês que é uma ratoeira? – pergunta. - Não sei. De qualquer maneira, era a única coisa a fazer. Olham os três em silêncio o longo desfile que continua e Jean diz entre dentes: - Como eu gostaria de ser mais velho dois minutos. A coluna de operários passa agora entre os soldados alinhados em duas colunas. Nenhuma reação da tropa. Os operários afastam-se. Jean pega no braço de Helene e faz sinal a Lucien. Tem um ar louco de alegria. - Deixaram-nos passar! Deixaram-nos passar! Lucien tem um ar tão alegre como ele. Helene tem ainda um ar enervado, mas está aliviada. - Agora para os esgotos! – diz Jean. Arrasta Helene a correr. Lucien corre ao lado deles. O TRIBUNAL Helene fala: Saímos pelos esgotos. Levei-os a casa de Suzanne. Passamos lá uma noite, e ela levou-nos depois para a quinta do tio. TESTEMUNHO DE HELENE (DEZ ANOS ANTES) UM CAMINHO NO CAMPO Lucien, Helene e Jean passeiam no campo. Helene está entre os dois homens e dá um braço a cada um deles. Vê-se atrás deles a quinta de Suzanne. Ouve-se a voz de Helene: Jean e eu tínhamos-nos reconciliado. Íamos muitas vezes passear juntos, ele, Lucien e eu. Suzanne preferia ficar na quinta. Helene, Jean e Lucien descem um caminho estreito que chega à beira duma torrente. Caminham ao longo da torrente seguindo um carrinho. Depois, Lucien pára. - Aqui pode passar-se a vau!

- É fundo? – pergunta Helene. - Teremos água pelos joelhos – diz Lucien. Helene mostra má cara. - Que importância tem isso? – diz Jean. Senta-se, tira os sapatos e as meias e enrola as pernas das calças até acima do joelho. Lucien faz o mesmo. - Deve estar gelada – diz Helene. - Eu levo-te – diz Lucien. - Tu? Ora experimenta lá. Helene fala a Lucien com uma ironia terna, como a um irmão. Lucien toma-a nos braços e levanta-a com esforço. - Ufa! – diz, tornando a pô-la no chão. - Helene ri. - Tanto pior, passarei sozinha. Jean levantou-se. Olha Helene com um ar quase duro. - Eu é que a levo. - Você? – diz Helene. Olha para Jean com uma espécie de desafio. Jean diz, num tom um pouco áspero: - Por não ter senão um braço? Chega. Agarrar-se-á ao meu pescoço. Lucien já chegou à beira da água. Helene e Jean fitam-se mutuamente, e não há senão desafio nos seus olhos. - Então? Vocês vêm? – grita Lucien. - Ai vamos – diz Helene. Depois acrescenta, para Jean: - Por que espera? Aproxima-se dele e passa-lhe os braços em redor do pescoço. Jean passa seu braço esquerdo por baixo da curva das pernas de Helene e levanta-a como uma perna. Entra na água. Estreita o seu aperto. Ela abandona-se um pouco e pousa a cabeça no ombro dele. Levanta-a a seguir bruscamente e olha-o sem amizade. Teve medo de se deixar arrastar. A atração que sobre ela exerce aquele homem duro e forte transformouse numa repulsa de virgem pelo macho. - Largue-me! Largue-me! Jean olha para ela com um rosto irônico e duro. - Larga-la? Tenho água por cima dos joelhos. Helene começa a debater-se. Jean segura-a contra si. Ela dá-lhe socos no peito e nas costas. - Largue-me! Já lhe disse que me largue! Lucien, que chegou à outra margem, olha-os, rindo. - Segura-a bem! – grita. – Segura-a bem! Eu vou ai. Volta a entrar na água, mas Helene, que continua a debater-se, apressa o passo e atinge a outra margem. Põe Helene no chão. Ela afasta-se alguns passos e diz secamente: - Tenho horror de ser levada ao colo. Os dois homens voltam a calçar-se e continuam depois o seu passeio com Helene, subindo a uma colina. Chegados ao cimo, sentam-se e contemplam a paisagem. Ao fundo, muito longe, vêem os fumos da cidade, as instalações e os poços de petróleo. Ouve-se a voz de Helene: - Era mais forte do que eu. Tinha de o desafiar sempre.

Helene, sentada entre Jean e Lucien, observa Jean com uma espécie de rancor; depois diz ironicamente: - Em suma, você não só é corajoso, como é também um fortalhaço. - É forte como um touro – diz Lucien. - Um homem a valer, heim? – diz Helene com um risinho. – Então por que razão é você por uma política de renúncia? - Jean olha-a com tristeza e responde lentamente, como contra vontade: - Não sou por uma política de renúncia. - É contra as greves. - De momento, sim – diz Jean. – E contra a sabotagem. Viu o que isso deu. Não é Schoelcher e os seus esbirros que é preciso atacar. São demasiado fortes e o governo apóia-os com a polícia e o exército. Podem expulsar-nos das instalações e esmagar-nos. - E então? – pergunta Helene. - Então, precisamente, Lucien, queria falar-te a respeito disso. - Estou a mais? – pergunta Helene, ferida. Jean não nota o seu movimento de humor. Diz com indiferença: - Não, deixe-se estar. Depois é novamente a Lucien que se dirige: - Lucien, chegou o momento de mudar de política. Os salários são miseráveis. Os camponeses endividam-se para se manter. As cidade estão mal alimentadas. Estamos numa situação revolucionária. Dentro de cinco, de dez anos, chegará a ocasião. Já não será contra Schoelcher que será então preciso agir, mas contra o nosso próprio governo. - E então? – pergunta Lucien. Dá pancadinhas nos sapatos com uma chibata. Tem um ar absorto e preocupado como se soubesse e temesse o que vai seguir-se. Jean excita-se e anima-se ao falar. Helene, que esqueceu as suas bravatas de há pouco, escuta-o, sem deixar com os olhos. - Então, é preciso mudar de tática – diz Jean. – Nada de greves, nada de perturbações na instalação, mas uma Comissão Central que organize um partido revolucionário com ramificações em todas as instalações. Preparamos uma máquina, compreendes? Uma máquina formidável que possa, quando chegar o dia, fazer ao mesmo tempo a greve geral o dia, fazer ao mesmo tempo a greve geral e a revolução pelas armas. Benga e Torlitz devem cá vir depois de amanhã para falarmos nisso. Daqui a uma quinzena, poderei voltar à cidade e começar o trabalho. De acordo? Lucien continua a bater nos sapatos sem responder. Jean tem um ar surpreendido. Repete: - De acordo? Silêncio de Lucien. - Qual é a dificuldade? – pergunta Jean. Lucien levanta a cabeça. Tem um ar desolado e fala com hesitação: - Jean, eu... eu não posso acompanha-los. - Mas por que, irmãozinho? - Sabes o que dará o teu projeto? – diz Lucien. – Milhares de mortos dum lado e doutro. Eu... eu não poderei suportar a idéia de ser responsável por esses mortos. Eu... eu tenho horror à violência, Jean. - Mas tu estavas de acordo quando às greves. - As greves eram resistência passiva. Nunca houve mortos. Além disso, já era contra a ocupação das instalações. Jean aponta a cidade e as instalações que se vêem ao longe.

- Olha, Lucien. Ali ao longe há milhares de operários reduzidos a miséria. Não são também eles vítimas da violência? E se tu não lutas contra ela, não serás um cúmplice? - Quero lutar contra ela, mas à minha maneira. Não sou um homem de ação, eu, escrevo. Quero denunciá-la com a minha pena. Jean faz chacota, com um pouco de irritação: - O que tu não queres é molhar-te! Lucien olha-o com tristeza, sem responder. Jean, em desespero de causa, dirigese a Helene: - Mas diga-lho você! Não acha que ele não tem razão? Helene olha-os a ambos, vai falar, depois cala-se. Olha ainda para Jean, depois volta-se para Lucien, com um ar hesitante. Por fim, baixa a cabeça e diz em voz baixa, como para si mesma: - Não sei. Jean levanta-se bruscamente, com cólera: - Vocês são uns imbecis! Afasta-se. Helene olha Lucien com ternura. Este põe-se a falar-lhe, como se quisesse convencer Jean. - É verdade. Desejaria tanto ficar limpo. Não se poderia defende-los sem nos sujar? É necessário fazer correr o sangue? Queria... queria fazer o que é justo. - Mas sabemos o que é justo? – diz Helene. Põe um braço à volta dos ombros de Lucien: - És tão frágil. Jean volta para junto deles. Já está calmo e confundido com o seu acesso de cólera. Torna a sentar-se no seu lugar e sorri a Lucien, que lhe sorri: - Ouve. Está bem, admito que sou um regateador, mas vou fazer-te uma proposta. É evidente que nestas tramóias é preciso sujar as mãos. Tu tens razão. Mas há um limite. Por mim, também não gosto da violência... Se pensasse que um dia poderia ter sangue até aos cotovelos... Fita Lucien com um ar quase suplicante e prossegue: - Fica conosco, Lucien. Não te peço senão uma coisa: quando quisermos empregar meios injustos ou sangrentos, que estejas junto de nós para nos dizer <Parem>. Não há ninguém senão tu que possa fazer, porque tu és puro. Helene retomou o seu ar irônico, mas está comovida. - Em suma – diz – será a sua consciência? - Se quiser chamar-lhe assim. Aceitas, Lucien? Lucien olha Jean com um ar aliviado. - Assim, aceito! Jean estende a sua mão aberta a Lucien, por cima dos joelhos de Helene: - Então, está dito! Helene, fascinada, olha as duas mãos que estão quase pousadas nos seus joelhos. A de Lucien é branca, delegada e frágil. A de Jean é espessa, nodosa e cabeluda até ao punho, com dedos grossos e fortes. - Dá cá também a tua mão, Helene – diz Lucien. Helene adianta a mão e pousa-a sobre a de Jean. Depois, bruscamente, retira-a, pega na mão de Lucien e aperta-a. O TRIBUNAL Helene fala como para si mesma:

- Amava-os a ambos, mas Jean metia-me medo: era demasiado duro, a sua presença esmagava-me. Ele sentia-o, suponha que lhe era hostil, e como sabia que Lucien me tinha amor, nunca falou. Amava Lucien ternamente e aceite tornar-me sua mulher. Na noite do casamento... TESTEMUNHO DE HELENE (DEZ ANOS ANTES) A QUINTA DE SUZANNE Suzanne, Helene, Jean e Lucien estão sentados diante do lume. É a cena que Suzanne já contou, mas vista por Helene. Jean tamborila com os dedos no braço da sua cadeira. Helene levanta-se. Olha-o com um ar perturbado. Vai pousar uma das mãos, no seu ombro, mas domina-se, retiraa e diz quase timidamente: - Até logo, Jean... Jean responde sem levantar a cabeça: - Até logo. Lucien aproxima-se por sua vez. Põe a mão no ombro de Jean. - Até logo. Jean levanta a cabeça para Lucien e sorri: - Até logo, irmãozinho. Suzanne olha a cena com um ar tenso, como se estivesse de emboscada. Lucien e Helene começam a subir. A meio da escada, Helene para com um ar de sofrimento. - Que tens? – pergunta Lucien. - Nada. Helene recomeça a subir. Chegando ao corredor, Lucien faz para Helene, sorrindo, mas com uma espécie de inquietação no fundo dos olhos. - Helene, diz-me imediatamente: amas-me por que? Helene ri com embaraço e protesta: - Ora vamos, Lucien, não é conversa para o patamar. - Diz-mo já. - Helene ri ao de leve, pega-lhe no queixo e diz-lhe, como se falasse para si: - Porque és um anjo. - Creio que não poderia nunca amar senão anjos – diz Lucien. Entram ambos no quarto. NA MANHÃ SEGUINTE O QUARTO DE HELENE E DE LUCIEN Helene abre a porta para sair. Tem um ar alegre e quase combativo. Chama Lucien. - Vamos, anda daí! Lucien vem para junto dela, com um ar embaraçado. - Sabes? Embaraça-me descer para irmos ter com eles. Fica-se com um ar de parvo. - É assim em todos os casamentos. Helene arrasta Lucien pela mão. Descem a escada. Na sala de baixo, Suzanne e Jean esperam-nos sorrindo. Na sala de baixo, Suzanne e Jean esperam-nos sorrindo. Helene, quase provocante, adianta-se a Lucien, que tem um ar pouco à vontade. Suzanne sorri com um ar triunfante e pergunta:

- Dormiste bem? - Sim, e tu? – diz Helene. - Dormimos juntos – diz Jean. Também sorri, mas tem um ar provocante e bastante sombrio. Lucien fica encantado com a notícia. Vem a rir para Jean. - Sério? Vocês... vocês também? Então já não temos um ar ridículo. Jean não deixou de fitar Helene. - Foram vocês que nos deram a idéia. Helene já não sorri. Olha para Jean com uma espécie de espanto entorpecido. O TRIBUNAL Helene fita Jean com o mesmo espanto que na quinta. Jean, de cabeça baixa, olha para entre os pés. Helene vira os olhos para o Júri e retorna o fio: - E a vida continuou. Voltamos para a cidade. Jean começou a organizar a atividade clandestina. Havia uma Comissão. Vocês todos a conheceram, sem conhecerem os membros. Era dessa Comissão que lhes vinham às ordens, e foi ela que organizou a Revolução. Jean e Lucien faziam parte dela. Benga também. Havia mais três camaradas que morreram: Barrére, Delpech e Langeias. As reuniões efetuavam-se em casa de Suzanne e Jean. Um dia em que ia para lá com Lucien... TESTEMUNHO DE HELENE (OITO ANOS ANTES) UMA RUA Lucien e Helene caminham de braços dados. Lucien vira para uma rua transversal. Helene fica com um ar admirado. - Onde vais? - Tenho um encontro com Carlier. Deve trazer-me o relatório de Loubick sobre as seções do Sul. - Onde é que ele espera? - Diante do estabelecimento de sapataria da rua Ferdinand. - É uma parvoíce – diz Helene. – A esquina está assinalada. - Bem sei. – diz Lucien. – Foi Benga que marcou o encontro. Lucien e Helene continuam a andar. Á frente deles, um jovem que traz uma maleta de viagem na mão finge ver a montra dum estabelecimento de sapataria. Do outro lado da rua, dois homens vigiam-no discretamente. Lucien dá pelos dois homens. Pega no braço de Helene e força-a a parar diante montra duma joalheria. - Há dois chuis a vigiar. - Tens a certeza? - Absoluta – diz Lucien. – Seria preciso prevenir o nosso companheiro. Nesse momento, os dois policiais atravessam a rua e aproximam-se do homem da maleta. Este vê-os chegar no vidro da montra e larga bruscamente a correr a bom correr. Um dos policiais atira. O jovem cai, largando a maleta que se abre ao cair, e donde saem alguns papéis. Lucien e Helene não se mexeram. Viram a cabeça para o homem abatido. Helene faz um movimento, como para aproximar-se dele. Lucien segura-a. - Não te mexas. Temos de prevenir imediatamente a Comissão.

EM CASA DE SUZANNE Jean, Barrére, Delpech e Langeais estão de pé e falam entre si. Tem todos um ar duro e preocupado. Batem à porta. - Quem é? – pergunta Jean. - Somos nós! – diz Lucien. Jean abre a porta. Lucien e Helene entram, sem fôlego e transtornados. - Apanharam o agente de ligação! – diz Lucien. - Meu Deus! - Tentou salvar-se quando os viu – diz Helene – mas eles liquidaram-no. Precisamente quando nós íamos a chegar. - Vocês não foram assinalados? – pergunta Barrére. - Vi-os a tempo – diz Lucien. – Mais de dez segundos e também estávamos prontos. Delpech sentou-se, com um ar muito sombrio. - São muitos acidentes desde há dois meses. Deve haver fugas. - Não foi Benga que marcou o encontro? – pergunta Jean. - Foi – diz Lucien. – Foi ele. Jean faz um gesto de cólera. - Desta vez parece-me claro. Ouçam. Há dois anos, quando a tropa ocupou as instalações, não prenderam Benga. Quando estivemos aqui escondidos em casa de Suzanne, foi só Benga que nos veio ver: quinze dias mais tarde veio a polícia passar uma busca. Tínhamos partido na véspera. E de há dois meses para cá, é o terceiro agente que é apanhado num encontro marcado por Benga. Finalmente, há mais uma coisa: Barrére encontrou há dois dias em cima da mesa de Benga um bilhete dum tal Launay, que lhe agradecia as informações preciosas que lhe fornecera. Conclusão? Culpado? Jean interroga os seus companheiros com o olhar. Langeais e Berrére fazem um sinal afirmativo. Delpech acende o cachimbo e diz tranqüilamente: - Culpado. Já desconfiava. Jean volta-se para Helene: - E tu, Helene? - Não sei. Penso que é culpado. Lucien tem um ar agitado. Explode bruscamente: - Vocês não podem!... Vocês não podem julgar um homem na sua ausência. Dêem-lhe meios de se defender. - Impossível – diz Jean. – Se o interrogarmos aqui e for culpado, não poderemos solta-lo, porque irá direitinho à polícia. E é demasiado perigoso liquidá-lo aqui. - Esperem um pouco – diz Lucien num tom quase suplicante. – Obriguemo-lo a desmascarar-se sem erro possível. Jean fala num tom cortante: - Creio que temos idéia formada. É a sorte de todo o partido que está em jogo. Quem é partidário da execução imediata? Langeais, Barrére, Delpech e Jean levantam a mão. Helene e Lucien não se mexeram. - Quatro votos em seis – diz Jean. - E se está inocente? – pergunta Lucien. Jean encolhe os ombros. Um momento de silêncio. Depois retoma a palavra: - Lamento, mas é preciso que um de nós se encarregue deste trabalho sujo. Quem?

Silêncio. - Tiramos à sorte – diz Jean. – Salvo Helene, naturalmente. Quanto a Lucien... Helene intervém com irritação: - É preciso que ele tire também. Não podíamos continuar a trabalhar convosco, se não tivéssemos toda a vossa confiança. - Ele é contra a execução – diz Jean. - A comissão votou. Não tem mais nada a fazer senão inclinar-se. - Pois seja. Jean rasga uma folha de papel em cinco bocados. Traça num deles uma cruz a lápis. Dobra os papéis e deita-os numa chávena. - Quatro boletins são brancos. O quinto tem uma crus. O que tira a cruz fica designado. Jean põe a chávena em cima da mesa. Delpech estende a mão e tira um papel que desdobra nervosamente. Exibe-o aberto a mesa. - Branco. Jean e Lucien tiram ao mesmo tempo. Lucien desdobra o seu papel mais rapidamente do que Jean e diz numa voz sem timbre: - É inútil continuarmos. Atira o seu papel para cima da mesa. Helene apanha-o e mostra aos outros: é o papel marcado com uma cruz. As mãos de Helene tremem. O rosto de Lucien endureceu. Diz: - Vou tomar ar. Lucien dirige-se para a porta. Jean faz um movimento para lhe apertar a mão, mas Lucien não o vê ou finge não ver. Abre a porta. Nesse momento, Suzanne abre a outra porta, a da rouparia. Jean volta-se para ela e diz simplesmente: - Não há cerveja. EM CASA DE HELENE E LUCIEN Um interior modesto, mas mais cômodo do que o de Suzanne e de Jean. É noite. Lucien está sentado, com os cotovelos fincados na mesa, de queixo entre as mãos, com um ar fechado. Atrás dele, Helene, muito pálida, tira da gaveta duma secretária um revólver envolto num trapo. Aproxima-se de Lucien que a fita com uma expressão imóvel. Ele diz: - É inútil. Helene fica de pé junto dele, sem ter o ar de compreender. Lucien repete: - É inútil. Não o farei. Levanta-se, tira o revólver das mãos de Helene e vai a pó-lo na gaveta. Depois volta para junto de Helene e agarra-a pelos ombros. A sua cara está torturada. - Não sou um covarde, Helene. Não quero que creias que sou um covarde. - Eu sei que não és um covarde – diz Helene ternamente. - Não sabes a coragem que me é precisa... Apresentarei a minha demissão amanha. - Mas tu tinhas aceitado – diz Helene, transtornada. - Não tinha refletido bastante. Não quero. Não posso disparar contra um tipo que talvez esteja inocente. - Preferes que toda a organização seja denunciada? Lucien dá alguns passos e deixa-se cair numa cadeira - Não sei... Só sei que não matarei Benga.

Helene quer protestar. Lucien corta-lhe a palavra: - Com que olhos me veria, Helene, se matasse esse homem e ele estivesse inocente? Helene fita-o quase duramente: - Com que olhos te verás se o Jean for preso amanhã? Lucien levanta-se e cai, sem responder. Deixa só, Helene vai à secretária e tira o revólver. O TRIBUNAL Helene em frente do Júri. - Foi nesse dia que estive em casa de Jean. Queria ser eu a executar Benga. Jean não quis. Foi por Lucien que matou Benga. Do seu lugar, Suzanne intervém: - Matou-o por matar. E se Lucien se tivesse demitido, tu te-lo-ias seguido. Jean queria ter-te à mão. Helene, transtornada, olha para Suzanne com repugnância. Vai a responder, mas Jean adianta-se-lhe: - Helene! Nem é preciso responder-lhe. Um silêncio. François faz um sinal a Helene: - Continue. - No dia seguinte – diz Helene – Benga foi encontrado morto numa estrada do campo. E depois, uma quinzena mais tarde... TESTEMUNHO DE HELENE (OITO ANOS ANTES) EM CASA DE SUZANNE A Comissão está reunida. De caras acabrunhadas, todos ouvem Delpech que está a acabar de falar: -... e quanto a esse Launay que lhe agradecia, é um economista belga. Benga enviava-lhe informações sobre os orçamentos dos operários do petróleo. - Então – diz Langeais – estava inocente? Delpech faz um sim com um sinal de cabeça. Todos ficam calados por um longo momento. Lucien, com uma indignação dolorosa, olha para Jean que, impassível, enrola um cigarro com sua mão válida. - Nós... – balbucia Lucien. – Nós somos... - Não há que lamentar o que fizemos – diz Jean, olhando Lucien cara a cara. Depois dirige-se aos outros: - Considerando o que sabíamos e o perigo que nos ameaçava, não havia mais nada a fazer e seríamos culpados se agíssemos de outra maneira. Benga morreu na luta. Estão de acordo em considerar o assunto arrumado? - De acordo – diz Barrére. - De acordo – diz Delpech. Langeais faz um sinal de cabeça para aprovar. Jean pergunta: - Helene? Helene hesita por um longo momento, com os olhos de Jean. Vai a dizer qualquer coisa, mas depois domina-se e acaba por dizer: - De acordo.

- Bem – diz Jean. – Resta agora um outro aspecto da questão: quem foi que denunciou o nosso agente de ligação? Enquanto ele fala, Lucien, bruscamente envelhecido e endurecido, olha para Jean com uma mistura de espanto e de acabrunhamento, como se pensasse: Eis ao que ele chegou! O TRIBUNAL Helene prossegue o seu testemunho: - Foi desde esse dia que alguma coisa quebrada entre eles. Continuavam sempre a ver-se, mas tinha a impressão de cada um deles querer mal ao outro. Ao mesmo tempo em que Helene fala, ouve-se lá fora um rumor cada vez mais violento. Depois, um clamor imenso abafa a voz de Helene. Ouve-se bradar: A morte!, A morte!, dirigindo-se a Jean. François tenta ir ao encontro deles, mas a multidão bloqueia as coxias. - Que querem vocês? – grita François. – Evacuem a sala! Um rapagão enorme, comum chapéu de mulher, com uma pluma, na cabeça, grita com todas as forças: - Queremos a cabeça do tirano. - Estamos a julga-lo. Isto aqui é um tribunal. Exijo que se calem ou que evacuem a sala. Depois François inclina-se para Darieu: - Corre a buscar reforços, ou isto acaba mal. Darieu aprova com um sinal de cabeça e sai no meio dos clamores da multidão. - Não há necessidade de julgamento. – Não merece tanto. Matem-no já! - Antes de o matarem – grita François – terão de passar por cima do meu corpo. Ordeno-lhes mais uma vez que evacuem a sala. Os clamores recomeçam, sempre com a mesma violência. O próprio auditório é atingido pelo frenesi dos recém-chegados. Há vozes que gritam de todos os lados: - Eles têm razão! - Enforquem-no! - Estamo-nos nas tinta para o julgamento! - Basta de tagarelices! O insurrecto de chapéu de mulher berra para François: - Não temos de receber ordens tuas. Entrega-nos tirano! Depois faz um gesto largo, brandinho a espingarda: - Deixem-nos passar, camaradas. Vamos busca-lo! A multidão tenta apartar-se para deixar passar os insurrectos armados que ameaçam com dificuldade para o estrado. Alguns jurados levantaram-se. Suzanne olha com um sorriso de triunfo para Helene, que aparece esmagada. O insurrecto de chapéu de mulher chegou a poucos metros do estrado. Num momento de silêncio relativo, Jean levanta-se e diz aos insurrectos: - Vocês querem fazer de mim um mártir? Gritam-lhe: - O que tu tens é língua! Vendido! Façam-no calar! Jean avança para o espaço reservado às testemunhas, frente aos insurrectos e ao auditório. - Vocês supõem que tenho medo de morrer? Perguntem-lhes se me defendo. O insurrecto de chapéu de mulher está a poucos metros de Jean. Mete a espingarda á cara e aponta-a para ele. A multidão afasta-se. Jean não se mexe.

- Vá, atira! Aos olhos do mundo inteiro ter-me-ão assassinado e morrerei contente. O insurrecto hesita. François aproveita para ir tirar-lhe a espingarda. Depois diz: - Ele tem razão. Não podes imaginar o mal que nos farias, camaradas. Não queremos salva-lo, queremos julga-lo como deve ser. Um momento de irresolução na multidão. Pelos dois lados do estrado chegam então os guardas, conduzidos por Darieu, que vêm colocar-se entre Jean e os manifestantes. Estes compreendem que falharam o golpe. Calam-se e começam a refluir para o fundo da sala. O insurrecto de chapéu de mulher diz, resmungando, a François: - Devolve-me a minha espingarda. François entrega-lha. O insurrecto dá uma palmada na espingarda e diz com um ar ameaçador: - Tratem de não o absorver. Ainda temos as nossas armas. Sai da sala atrás dos outros manifestantes. Os guardas trazidos por Darieu alinham aos lados do estrado. François e Jean estão de pé a poucos passos um do outro. - Obrigado – diz François. Depois acrescenta, passado um momento de silêncio: - Suponha que queiras fazer-te assassinar. - Mudei de opinião. Jean volta para o estrado, para o espaço reservado às testemunhas. Avança para o advogado, que olha com terror, e diz, numa voz forte: - Livrem-me deste nojo! Defender-me-ei pessoalmente. François e Darieu trocam um relance de olhos. Têm um ar aliviado. - É bom – diz François. Depois faz um sinal a Helene: - Continue. Helene torna a pôr-se em frente do Júri. Tem um ar comovido e fatigado, e fila com uma voz mais fraca: - Depois, houve a Revolução. Jean utilizou-me como secretária. Tinha confiado a Lucien a direção do jornal A Luz. Ao princípio, tudo foi bem, mas passados alguns meses... TESTEMUNHO DE HELENE (SEIS ANOS ANTES) O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO Ao lado da grande secretária maciça, uma mesinha à qual Helene está sentada. Lucien está de pé diante da secretária. Jean anda de um lado para o outro, com um maço de jornais na mão. Fala numa voz que se esforça por tornar amigável, mas sente-se que está profundamente descontente: - Isto não pode continuar, rapaz. Aborreces-me. Já te pedi cem vezes que não falasses mais nisto. Por que escreves estes artigos? - Por que penso que são justos. - É demasiado cedo! É demasiado cedo! - Nunca é demasiado cedo para dizer a verdade. Jean encolhe os ombros com irritação. Lucien continua: - Confiei em ti, Jean. Toda a gente confiou em ti. Mas hoje já não compreendemos. Não nacionalizaste os petróleos. Não fizeste eleger a Assembléia Constituinte. A imprensa não é livre. Foi para tudo isto que fizeram a Revolução.

- Se elegerem uma constituinte – diz Jean – a primeira lei que ela fará será a da nacionalização dos petróleos. - É o que todo o país deseja – diz Lucien. – Porque não fazes tu? - Arriscar-nos-íamos à guerra. É demasiado cedo! Lucien tem um gesto de impaciência: - Demasiado cedo para a Constituinte! Demasiado cedo para o petróleo! Demasiado cedo para uma imprensa livre! Mas quê, Jean! Não queres com certeza governar contra todo o país! - Por que não? – diz Jean, intratávelmente. - Nessas condições, não contes comigo para te apoiar. Lucien sai rapidamente do gabinete. Jean vê-o partir, encolhe os ombros e deixase cair em uma cadeira, acabrunhado: - Ora ele não poderia ajudar-me? Tenho de fazer tudo sozinho? Helene queria que ele lhes explicasse... - O que? - Que é demasiado cedo! - Bem sabes que não o fará – diz Helene. - Sim, sei. Mas, valha-me Deus, o chefe sou eu. Sou ou não sou? UMA ROTINA QUE DEITA JORNAIS Grandes títulos: A questão do petróleo. Para quando as eleições? Ainda o Petróleo. Petróleo e Democracia. Enquanto os jornais caem, ouve-se a voz de Helene dizer: - Lucien não cedeu. Jean estava furioso contra ele, mas não ousava fazer nada. Foi por essa altura que se pôs a beber. O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO Jean, à sua secretária, lê um exemplar de A Luz. Tem um ar sombrio e furioso. Faz um sinal ao criado grave: - Whisky. O criado serve-o e Jean bebe. Jean, de uniforme, de pé. - Whisky. O criado serve-o e Jean bebe. No mesmo gabinete vê-se Jean com fatos diferentes, em momentos diferentes, que ordena: Whisky! Whisky! E bebe. Jean de grande uniforme levanta-se da secretária, com um copo na mão. Caminha direito, mas sente-se que não está no seu estado normal. Encaminha-se para Helene, para diante dela e pousa com ruído o copo em cima da mesa. Fita-a com intensidade. Dir-se-ia que quer pedir-lhe auxilio, mas não diz nada. Helene desvia a vista, embaraçada. Jean acaba por perguntar: - Queres um whisky? - Não. - Por que não bebes? Helene pergunta-lhe tristemente, com uma grande ternura inquieta:

- E tu, Jean? Por que bebes? Jean não responde. Contenta-se com um riso amargo e silencioso. Depois torna bruscamente a ficar sério e diz quase com maldade: - Se o teu marido continuar, mando pô-lo à sombra, compreendes? O TRIBUNAL Helene fala para o Júri: - Lucien continuou. Quando Jean publicou os decretos sobre a industrialização da agricultura, Lucien acabava de regressar de uma viagem de inquérito no campos. Opunha-se-lhes violentamente... TESTEMUNHO DE HELENE (TRÊS ANOS ANTES) EM CASA DE HELENE E LUCIEN Lucien escreve à sua secretária. Helene aproxima-se e lê por cima do ombro dele. Faz um gesto: - Lucien! Tu não podes! - Por que? Os decretos são injustos e tirânicos, é preciso dize-lo. - Vais publicar este artigo? - Amanhã. - Isso desencadeará uma revolta. - Isso depende de Jean – diz Lucien. Helene afasta-se da secretária de Lucien e põe-se a caminhar na sala de um lado para o outro. Lucien olha-a terna e tristemente e recomeça a escrever. - Lembras-te de Benga? – pergunta bruscamente Helene. - Sim. Por que? - Agimos demasiado cedo. Estava inocente. - Não vejo a relação. - Tomas partido demasiado cedo – diz Helene. – Jean tem as suas razões, talvez tu não saibas tudo. Dá-lhe a oportunidade. Lucien baixa os olhos para o papel, pousando-os depois em Helene. Finalmente, encolhe os ombros e rasga as folhas que estão diante de si. - Esperarei. Mas se as coisas correrem mal... - Farás o que quiseres – diz Helene numa voz lassa e indiferente. UMA ALDEIA Duas casas estão em chamas. Vêm-se os soldados conduzindo uma longa coluna de camponeses prisioneiros. Ao mesmo tempo ouve-se a voz de Helene dizer: As coisas correram muito mal. Muito, mas mesmo muito mal...

O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO Helene trabalha à sua mesa e Jean à sua. Um contínuo introduz Lucien. Helene olha para ele com um ar desesperado. Jean nem sequer levanta a cabeça. Lucien

atravessa a sala a passos lentos e vai pôr-se diante de Jean que consente enfim em olhalo. - Sabes por que te mandei vir? - Sei. - Não escreverás este artigo – diz Jean. - Não condenarás publicamente as medidas disciplinares que fui obrigado a tomar. O teu jornal é o único que não passa pela censura. É uma prova de confiança que te dei. Não podes escrever este artigo no momento mais crítico. Posso ganhar ou perder esta batalha, não sei. Mas sei que a perco se escreveres este artigo. Lucien não responde. Jean pergunta-lhe com uma violência contida: - Já não és meu amigo? - Continuo a ser teu amigo. Lembras-te para que entrei na Comissão? Para os fazer parar a tempo quando fizessem violências inúteis. - Pois bem, diz-mo a mim! Tenta fazer-me parar, mas não escrevas! - Oh, Jean! Diz. Tu não queres ouvir-me. Jean levanta-se. Dá alguns passos e pára diante de Helene. - Helene, diz-lhe! Diz-lhe que não mate a nossa amizade. Helene não diz nada. Fita Jean com ternura e lassidão. - Responde, Helene! - Não lhe direi nada, Jean. É preciso que ele faça o que achar justo. Um silêncio. Lucien está de pé, de cabeça baixa, com uma das mãos pousadas sobre a secretária de Jean. Este se aproxima de Lucien, pousa a mão na secretária, muito perto da de Lucien. - Está bem – diz. – Podes voltar para casa, Lucien. O teu jornal não sairá amanhã. - Podes fazer o que quiseres. O artigo sairá da mesma maneira. Tenho o hábito do trabalho clandestino. - Lucien, se tu fazes isso... - O artigo sairá amanhã. Helene põe-se de pé com um grito: - Lucien! Jean! Vocês estão doidos! Vai postar-se entre eles. Olha para as duas mãos pousadas na secretaria e torna a ver, bruscamente, as duas mãos apertadas por cima dos seus joelhos, como estavam no dia em que, na colina, Lucien aceitara entrar para a Comissão. A visão desaparece. Helene continua a olhar as duas mãos separadas, crispadas sobre a secretária de Jean. Diz: - Vocês não podem... Vocês não podem... Pega nas duas mãos deles e tenta janta-las. - Ele vai publicar o artigo? – pergunta Jean. Silêncio de Lucien. Jean liberta violentamente a sua mão. - Então, já sabe o que o espera. Lucien volta-se sem responder e sai rapidamente. Helene faz um movimento para o seguir. - Fica aqui – diz Jean brutalmente. – Ainda és a minha secretária, creio eu! Helene volta para o seu lugar e deixa-se cair na cadeira. Jean volta lentamente a sentar-se no seu lugar. Diz: Whisky! E o criado serve-lhe de beber. UMA CAVE

Lucien, com outros quatro homens. Imprimem um jornal de formato reduzido num prelo manual. Título do jornal: A Luz, e por baixo: O tirano. Dez aldeias destruídas. UMA RUA DIANTE DA CASA DE HELENE Uma dezena de exemplares de A Luz clandestina está espalhada no passeio. Dois policiais levam consigo, batendo-lhe, o homem que os distribuía. Helene, que saíra de casa, assistiu de longe à cena. Põe-se a caminho do Palácio. Á esquina de uma rua encontra um homem que distribui A Luz. Intervém policiais. O homem foge, correndo a bom correr. A ANTECÂMARA DO PALÁCIO Helene atravessa-a rapidamente para entrar no gabinete de Jean. Á sua passagem, os contínuos, que liam A Luz, escondem o jornal. O GABINETE DE JEAN Ele está sentado à sua secretária. Helene entra e vai para o seu lugar. - Bom dia, Jean. - Bom dia, Helene. Jean escreve, de expressão fechada. Helene compulsa umas folhas datilografadas que estão em cima da sua mesa. Tenta lê-las, mas os seus olhos voltam sempre para Jean, com uma inquietação febril. Jean continua a escrever, sem levantar a cabeça. Helena tenta novamente ler. - Helene! – chama Jean, de repente, numa voz neutra. Ela levanta a cabeça, mas Jean continua mergulhado nos seus papéis. Prossegue: - Recebo o presidente da O.C.R ao meio dia. Vou precisar do relatório de Heudrique. Helene não consegue responder. Faz um simples sinal de cabeça. No silêncio, Jean bebe um copo de whisky. Pousa-o com ruído. Helene estremece e levanta-se bruscamente. - Jean levanta finalmente os olhos para ela. Nesse momento, um contínuo abre a porta e anuncia: - Os senhores ministros Darieu e Magnan. Darieu e Magnan entram e sentam-se diante da secretaria de Jean. Helene deixa-se recair na cadeira, com um ar desvairado. Olha fixamente para o relógio de sala, que marca dez horas. Depois os ponteiros desapareceram e o mostrador é coberto por uma espiral negra que gira rapidamente sobre si mesma. As vozes indistintas de Jean, Magnan e Darieu misturam-se com longas ressonâncias de sinos que se tornam cada vez mais fortes. A espiral acaba por rebentar com um ruído de explosão e Helene cai para frente, sobre a mesa, com a cabeça entre as mãos. Jean levanta-se com um grito: - Helene! Corra para ela. Faz sinal a Darieu e a Magnan para saírem. - Voltem às duas horas. Agarra Helene pelos ombros e endireita-a, enquanto Darieu e Magnan saem. Helene fita Jean nos ombros. - Leste, não é verdade? – pergunta. Jean não responde. Tem o ar de sofrer.

- Que vais fazer a Lucien? Se o mandas prender, não voltará! Mas fala! – grita. – Que vais fazer? Responde! Responde! Jean continua a não responder. Está acabrunhado. Helene compreende subitamente e põe-se a berrar: - Tirano! Tirano! Assassino! Odeio-te! Depois levanta-se e sai a correr do gabinete. O TRIBUNAL Helene está silenciosa. O seu rosto está transtornado pela recordação do que conta. Depois recomeça o seu relato: - Passou um ano. Nunca mais tinha visto Jean e ele nunca mais tentara ver-me. Não consegui saber para onde tinha mandado Lucien. Resolvi céus e terra, mas todas as portas se fecharam diante de mim. Procurei em vão durante um ano. Uma noite... TESTEMUNHO DE HELENE (DOIS ANOS ANTES) EM CASA DE HELENE Helene, cansada e acabrunhada, regressa a casa. Diante da sua porta está parado o grande carro branco de Jean. Olha-o com espanto, sobe rapidamente a escada e entra em casa. Jean está no meio da sala. Olha-a com um ar frio e profundamente triste. - Que vieste cá fazer? – diz Helene. – Causas-me horror. - Lucien está a morrer – diz Jean, após um silêncio. - Helene não diz nada. Apóia-se nas costas de uma cadeira. Jean continua: - O meu carro está lá em baixo. Vai nele. Está no hospital de Tierragues. Hesita um momento, e pergunta com timidez: - Posso acompanhar-te? - Não. Helene endireita-se e o seu rosto transtornado parece ainda mais duro. Passa pela frente de Jean, sem uma palavra, desce a escada e entra no carro. O HOSPITAL Uma enfermeira precede Helene num grande corredor. Helene segue-a com um passo de sonâmbula. A enfermeira abre a porta dum quarto onde Lucien está sozinho. Respira com dificuldade e os seus olhos estão fechados. Helene aproxima-se da cama e pega na mão de Lucien, que abre os olhos e diz numa voz fraca: - És tu? Jean não veio? Helene faz sinal que não. Lucien volta a fechar os olhos.

O TRIBUNAL Helene fala: - Morreu às cinco horas da manhã. Um silêncio. Depois acrescenta: - É tudo quanto tenho a dizer.

O público olha para Helene com uma simpatia comovida. Ela faz meia volta e quer deixar o tribunal. A multidão começa a apartar-se para lhe dar passagem, mas ouve-se Jean que chama: - Helene! Ela volta-se. - Fica – diz Jean. Helene hesita um momento. Depois volta para trás. Jean levanta-se e diz: - Vou... François interrompe-o com um gesto. Um insurrecto que entrou pelo fundo do tribunal fala-lhe ao ouvido. - Onde? – pergunta François. - Não Câmara Municipal – diz o insurrecto. - Quem? - Os delegados sindicais e todas as tropas revolucionárias. As delegações estão aqui e pedem que as receba. - Está bem – diz François. Vira-se para o público e anuncia: - Os representantes do povo, que são, provisoriamente, os delegados sindicais e os insurrectos em armas, acabem de eleger-me chefe do governo provisório. Um enorme grito de entusiasmo na sala. Toda a gente está de pé, toda a gente grita. François levanta os braços e o silêncio volta. - Levarei este julgamento até o fim. É na qualidade de chefe eleito do Governo que me constituo parte civil contra o tirano. Mas tenho de suspender a audiência. O tribunal voltará a reunir-se esta noite às onze horas. A sala grita e aplaude novamente. As pessoas começam a sair. François sobe para o estrado e sai pela porta do fundo. Os guardas vêm enquadrar Jean e fazem-no sair. Jean, saindo, contempla Helene que deixa a sala. O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO François entra com um passo pouco seguro no grande gabinete. Olha à sua volta e tem o ar um ouço intimado que tinha Jean quando tomou posse do palácio. François volta-se para a secretária e vai para se sentar. Nesse momento, vê o criado grave que, muito respeitosamente, lhe adianta a sua cadeira de braços. - Cá estás tu! – diz François com um risinho. – Pois bem, vai à porta e manda entrar as delegações. Mas não todas ao mesmo tempo. O criado inclina-se e vai à porta, atrás da qual se ouve um enorme rumor. O criado sai. Depois reaparece. Atrás dele, na antecâmara, cessou o barulho. Anuncia: - A delegação das fundições de Clenau. François levanta-se. Está pálido e sente-se que está transtornado pela emoção. Os delegados entram e colocam-se em semi-circulo diante da grande secretária. Lá fora, sob as janelas do Palácio, a multidão ri, canta e grita. No gabinete, François, que se sentou, fala aos delegados: - Repito-vos. A nossa política será a mesma que reclamais; a que se impõe. Antes de tudo, fazer cessar o terror, libertar os presos políticos, abolir as medidas de exceção nos campos, restabelecer a liberdade de imprensa. E, o mais cedo possível, chamar o país às urnas para eleger uma Constituinte. - Sei que esperais uma declaração sobre a nossa política quanto aos petroleiros e aos sectores ainda não socializados da nossa indústria. Farei a este respeito uma

comunicação radiodifundida, hoje à meia-noite. Tudo quanto posso dizer-vos agora é que, neste domínio como nos outros, o sangue dos revolucionários não terá sido derramado em vão. Os delegados ouvem com aprovação. Enquanto François falava, o criado aproximou-se dele e diz-lhe qualquer coisa ao ouvido. - Que espere! – diz François, com surpresa. O criado diz ainda algumas palavras. François tem um ar cada vez mais surpreendido e sua cara endurece. Levanta-se e diz ao criado: - Está bem. Depois, aos delegados: - Que o trabalho recomece o mais cedo possível, camaradas. É esse o interesse de nós todos. François saúda os delegados com um gesto. Estes retiram-se. O criado, por outra porta, faz entrar Schoelcher, que está acompanhado por um homem duns cinqüenta anos, seco, franzino, muito distinto, com um rosto polidamente insolente. Schoelcher inclina-se diante de François. - Sou Schoelcher, presidente do Cartel do Petróleo. - Tem a coragem de circular nas ruas – diz François. – Há muita gente que desejaria faze-lo em postas. - Sei defender-me – diz Schoelcher com um sorriso. Depois apresenta o seu companheiro: - O senhor Cotte, embaixador do nosso país. Os três homens trocam cumprimentos glaciais. O embaixador dá um passo para François. - Estou a tratar com o chefe do novo Governo? - Sim. - Não quis esperar a notificação oficial para falar-vos – diz Cotte. – O governo do meu país tem-se mostrado sempre muito preocupado em viver em bom entendimento com o vosso, e desejo transmitir-lhe o mais rapidamente possível a vossa resposta a esta pergunta: é verdade que uma das acusações apresentadas contra Jean Aguerra é a de não ter nacionalizado os petróleos? - É verdade. - Devemos ver nessa acusação uma indicação da política futura do vosso Governo relativamente aos petróleos? François responde com irritação: - O julgamento de Aguerra é um assunto estritamente interno. Quanto á política que o Governo conta adaptar, tereis conhecimento dela, como os meus compatriotas, pela declaração que farei hoje á meia-noite. O embaixador inclina-se. - Perfeitamente. Quando pensa que serão restabelecidas as comunicações telefônicas com o estrangeiro? - A partir desta tarde, espero – diz François. - Nesse caso, receberei ordens do meu Governo, e pode ser que solicite a... Vossa Excelência uma audiência antes da sua alocução. O embaixador acentua com ironia as palavras Vossa Excelência. Quando acaba de falar, inclina-se polidamente diante de François. Schoelcher faz o mesmo. François acompanha-os à porta. Interpela um guarda que está postado na antecâmara. - Três carros e quinze homens armados para acompanharem Sua Excelência à embaixada.

O embaixador e Schoelcher agradecem com um gesto. François não responde, e vê-os partir com um semblante duro onde transparece uma vaga inquietação. OS LUGARES PRÓXIMOS DA SALA DO TRIBUNAL Nos corredores e nos vestíbulos junto à sala do tribunal, a multidão que assistia ao julgamento espera que a audiência recomece. Muitos dormem, estendidos no chão ou sentados de encontro às paredes. Um homem dorme de pé, encostado à sua espingarda. De tempos a tempos, desequilibra-se, acorda, endireita-se e volta a adormecer. Outros comem a sua côdea, sentados no chão, ou discutem. Quando a porta do tribunal volta a abrir-se de par em par, há uma corrida para os lugares. As pessoas acordam-se umas às outras, guardam apressadamente as suas provisões e precipitam-se para a sala do tribunal passando por cima dos que ainda dormem. O TRIBUNAL Voltam a trazer Jean para o seu lugar, enquanto a sala torna a encher-se num enorme tumulto. Os jurados reinstalam-se nos seus lugares, com um ar extenuado. Os fatos estão amarrotados, as caras abatidas, a barba crescida. François vem retomar o seu lugar. Está barbeado e tem um ar fresco. Helene senta-se numa cadeira que puseram para ela no meio de uma coxia, ao nível da primeira fila. A sala fica cheia muito rapidamente, e toda a gente está no seu lugar. François levanta-se, o silêncio faz-se instantaneamente, e ele anuncia: - Tem a palavra a defesa. Jean levanta-se, com um semblante irônico. - A defesa sou eu. Dá alguns passos para ir postar-se no espaço reservado às testemunhas. É ai que ficará durante todo o seu testemunho, a poucos passos de Helene e de François. Dirigese primeiro ao Júri: - Vocês ganharam, tanto melhor para vocês. Não tenho contas a dar-lhes e não me arrependo de nada. Depois volta-se para Helene: - Só a ti, Helene quero dar contas. Amei Lucien. Não podes saber como o amei. - Amava-lo – diz Helene – mas fizeste-o morrer apesar disso. - Sim, fi-lo morrer. E fiz morrer outros. Crês que não tenho horror de mim próprio? Designa o Júri com um gesto: - Estes fizeram a sua Revolução. Agora vão matar-me e eu estou contente por eles me mataram. É um pesado frado tolerar-me a mim mesmo. Mas não me arrependo de nada, Helene, nem de Benga, nem de Lucien, nem das aldeias incendiadas. E se tivesse de fazer tudo novamente, voltaria a faze-lo. O público sente-se desafiado e começa a assobiar e a vaiar Jean. Este endireitase, olha a sala com dureza e grita: - Tudo. Mesmo Lucien! Os gritos e as vais redobram, apesar de François reclamar silêncio com gestos e com a voz. Jean continua e a voz consegue dominar o tumulto, que decresce pouco a pouco.

- Pobres idiotas! Vocês acreditam numa mudança de política, mas não vão ter senão uma mudança de pessoas! Aponta para François, que voltou a sentar-se: - Farás a minha política! Fá-la-ás porque não há duas a fazer. Imaginas que vou justifica-la? Hás-de-ser tu que a justificarás, daqui a três, daqui a seis meses. Depois é novamente a Helene que se dirige. A sala, que está quase aquietada, acalma-se inteiramente à medida que Jean fala, e o silêncio torna-se total. - Ouve, Helene... É uma história de violência. Ao princípio, era a violência por todos ao lados, em mim e fora de mim. O meu avô era um velho ladrão. O meu pai matou um homem com uma forquilha. Na aldeia, via os camponeses bêbados baterem nos filhos e nas mulheres. Sou camponês e violento como todos eles. Mas aos doze anos fiquei com o braço esmagado a golpes de tacão, numa briga entre rapazes, e a violência horrorizou-me. Vim para a cidade logo que pude, e também encontrei aqui a violência. TESTEMUNHO DE JEAN (TREZE ANOS ANTES) UMA RUA Uma rua miserável num bairro pobre. Diante de uma mercenária, uma bicha de mulheres. Caras mal alimentadas, odientas e impacientes. Alguns homens, e em particular Jean. Traz um chapéu mole muito usado. Ouve-se a voz de Jean dizer surdamente: Violência! Miséria! Começa a cair uma chuvinha miúda. Abrem-se alguns guarda-chuvas. Jean levanta a gola do casaco. Algumas mulheres põem os xales pela cabeça. Atrás de Jean, uma mulher que traz um menino no colo. Inclina-se sobre a criança para tentar protege-la da chuva o melhor que pode. Jean toca-lhe no ombro e faz-lhe sinal para lhe dar a criança. Desabotoa o casaco. A mulher estende a criança a Jean, que a segura de encontro a si, abrigada. Nesse momento, o merceeiro aparece no limiar da porta e pendura um letreiro na maçaneta: Esgotada a existência. As pessoas ficam um momento mudas de despeito, mas depois uma mulher põe-se a gritar com furor: - Pouca vergonha! Estão-se nas tintas para nós! Ora vão lá ver à cave se ele não tem mais nada para vender! As pessoas da bicha põem-se a gritar e a protestar: Desavergonhado! Candongueiro! A bicha desmancha-se e toda a gente se amontoa de encontro à fachada da mercearia. Gritos e ameaças. Uma pedra vem partir o vidro da porta atrás da qual se vê a cara amedrontada do merceeiro. Chegam policias a correr, apitando, de bastão em punho. Tentam fazer circular as pessoas. Estas resistem, e os agentes tornam-se imediatamente brutais. Murros e pontapés. Uma mulher é atirada ao chão. Um polícia precipita-se sobre Jean, de bastão em punho. Este o evita e safa-se. Vira a esquina da rua e pára, muito embaraçado com a criança, que continua a segurar com o seu braço válido. Volta para a rua da mercenária e vê a mãe da criança que se debate, berrando, entre dois polícias que a levam brutalmente. Jean vai direto aos policias e mostra-lhes a criança: - O miúdo é dela. Um dos policias olha para a criança com estranheza, sem largar a mãe, que continua a debater-se. - É teu? – pergunta o polícia. - É sim, é meu. É meu menino! O polícia mete a criança debaixo do braço esquerdo, como um embrulho, e continua a arrastar a mulher com o seu colega.

Jean vê-os partir, imóvel, no meio da rua. Ouve-se a sua voz: - Violência. Miséria. Fome. Miséria por todos os lados. Em todas as ruas, diante de todos os lados. Em todas as ruas, diante de todas as lojas, os pobres resmungavam. O descontentamento aumentava. Estão os ricos empregaram os grandes meios... OUTRA RUA Numa parede está afixado um cartaz que representa um judeu caricatural, de nariz adunco, com mãos como garras, no qual se lê: É o judeu que faz a tua miséria. Ouve-se a voz de Jean dizer: Já não podia suporta-lo! Não podia mais! Jean caminha por uma rua miserável. Cruza-se com um velho miserável, vestido com andrajos, que caminha dobrado sobre a sua bengala. Diante dum estabelecimento fechado, está uma menina à espera, tendo pela mão uma cuja criança. À esquina da rua, um rapazinho brinca com uma bola. Traz um aparelho ortopédico que lhe toma a perna até ao joelho. A voz de Jean repete: Violência! Miséria! Contempla o rapazinho por um momento, e a vista turva-se-lhe. Põe-se a correr desesperadamente. É um sonho. Corre, chega a uma rua dos bairros ricos. Passa um carro magnífico, precedido por motociclistas de capacete. É o carro do Regente. Jean tira um revólver da algibeira e dispara contra o Regente, que cai. Os policiais atiram-se a Jean, que lança uma granada, enquanto se ouve a sua voz dizer com raiva: Miséria! Violência! Contra a violência, não via senão uma arma: a violência! Depois o sonho desapareceu. Jean continua na rua, contempla o rapazinho coxo que joga a bola, depois recomeça a andar e entre numa casa. A sua voz diz: Foi por essa altura que aderi a uma organização clandestina. ALGUNS DIAS MAIS TARDE Na mesma rua, diante do mesmo cartaz, Jean e três operários robustos olham para o cartaz. Voltam-se bruscamente ao ouvirem gritar: Morram os Judeus! A poucos metros deles, uma drogaria: Elie Conen. Homens e mulheres manifestam-se berrando diante da loja: Entre a multidão há manifestantes provocadores. Três deles entram na loja e fazem sair brutalmente o droguista judeu, pálido de medo. A multidão vai lincha-lo. Jean e os seus três camaradas aproximam-se. De repente, um homem novo metese entre o judeu e a multidão. É Lucien. Está muito melhor vestido do que todos os outros atores da cena. Grita, de mãos nas algibeiras: - Vocês não tocam neste homem. Um dos homens que entraram na loja escarnece: - Se calhar és tu que impedes? - Impeço – diz Lucien. – Não pela força, mas se deixem enganar, este homem é explorado como vocês, é tão miserável como vocês. Tentam desviar-lhes a cólera. Dois dos provocadores que seguravam o Judeu largam-no e avançam para Lucien. - Já acabaste? – diz um deles. - Não, não acabei. Ouçam camaradas. O homem volta a bater-lhe, desta vez na cara. - Não me defenderei! – diz Lucien. Jean e os três camaradas consultam-se rapidamente com o olhar e atacam. Num momento, os três provocadores estão por terra. Alguns dos homens que seguravam estão por terra. Alguns dos homens que seguravam o Judeu tentam dar-lhes ajuda. Desordem,

que é interrompida rapidamente por um tiro. O Judeu cai. Assombro dos contendores que param e dispersam a toda a pressa. Jean e Lucien ajoelharam-se junto do velho e levantam-no. - Tem a sua conta – diz Jean. - Vocês não deviam ter batido naqueles homens – diz Lucien. - Ora diz lá que não passavas um mau bocado se não nos metêssemos na dança. Falou um tanto secamente, mas sente-se que Lucien lhe interessa. - Eu? Não era nada – diz Lucien. – Mas vocês... - Mas nós o quê? - Foi por vocês lhes terem batido que eles atiraram. A violência atrai a violência. Jean fita Lucien com um olhar impassível. Pergunta: - Levamo-lo para a loja? Ambos levam o morto para a sua loja? A voz de Jean diz: Desde esse dia, ficou meu amigo. UM CANAL Jean e Lucien passeiam no caminho da sirga. Ouve-se a voz de Jean: Meu amigo, meu irmão, mas não meu igual. Lucien pára. Continua com ardor uma conversa começada há muito: - ... meter-lhes isto na cabeça. A todos. A primeira condição para ser um homem é a de recusar toda a participação direta ou indireta num ato de violência. Jean escuta-o, repartindo entre a admiração amigável pela pureza de Lucien e a ironia pela sua inexperiência. - E que meios empregarás? – pergunta. - Todos. Os livros! Os jornais! O teatro! - Apesar de tudo és um burguês, Lucien. O teu pai nunca bateu na tua mãe. Nunca foi sovado pelos chúis nem despedido duma fábrica sem explicação nem préaviso, simplesmente por ela reduzir o seu pessoal. Nunca foste vítima da violência. Não podes senti-la como nós. - Se foste vítima dela – diz Lucien – mais razão tens para a detestar. - Sim, mas faz parte do meu próprio fundo. O TRIBUNAL Jean fala para Helene: - Tu sentiste logo a minha violência. Causava-te horror. Helene não responde. Jean insiste. - Di-lo! Confessa que te horrorizava. Helene hesita, depois diz numa voz muito baixa: - Não sei. - Suponha que te causava horror. Encaram-se. Já não há mais ninguém senão eles na sala. Já não se prendem com François, nem com o Júri, nem com o público, que os ouvem num silêncio total. - Não me causavas horror – diz Helene. – Era o orgulho. Um orgulho de menina. Amava a tua força, mas não queria ceder-lhe. - Amei-te desde o primeiro dia. Amava-te mais do que mim mesmo e dei-te a Lucien porque o amava como a um irmão. Se tu soubesses, Helene, o que havia na minha cabeça na noite do vosso casamento...

TESTEMUNHO DE JEAN (DEZ ANOS ANTES) A QUINTA DE SUZANNE Jean e Suzanne de pé na grande sala, ao pé da escada. Suzanne, inclinada sobre a mão ensangüentada de Jean, acaba de pensa-lo. Jean olha para a escada por onde subiram Helene e Lucien. E de repente a sua vista turva-se. É um sonho. Repele Suzanne, pega numa faca de cima da mesa, sobe a escada, abre a porta do quarto de Lucien; vê Lucien inclinado sobre Helene, deitada na cama, beijando-a. O braço de Jean levanta-se, a sua mão ligada segura a faca, e golpeia Lucien. Depois, o sonho desaparece. Jean continua na grande sala. Suzanne acabou de ligar-lhe a mão e olha-o aproximadamente. Jean, que tinha os olhos fixos na escada, pousa-os em Suzanne e só então repara na sua presença. Ouve-se a sua voz dizer: Estava ali uma mulher... Jean inclina-se sobre Suzanne e abraça-a brutalmente. O TRIBUNAL Jean e Helene frente a frente. Helene baixa os olhos e alisa as pregas do vestido. Jean endireita-se e começa a andar dum lado para o outro. Não se sabe bem para quem fala. Para o Júri? Para Helene? Para si mesmo? Para o público? Não olha ninguém. - Foi por essa altura que compreendi o que havia a fazer. A gente do petróleo era demasiado forte. Tinha atrás deles um grande país, e o nosso é pequeno. Não os atacar de frente. Esperar. A situação era revolucionária. Havia que preparar a Revolução, faze-la e em seguida mantê-la, até ao dia em que pudéssemos ajustar contas com eles. Ao princípio, as minhas mãos estavam puras. Tão puras como as de Lucien. Não era feliz, mas sentia-me forte, e limpo. Mas depois chegou aquele dia em que vieste bater à porta da minha casa... TESTEMUNHO DE JEAN (OITO ANOS ANTES) EM CASA DE SUZANNE Jean está a trabalhar na rouparia. Tocam à porta. Jean apura o ouvido e ouve na sala ao lado de uma mulher. Levanta-se quando ouve Suzanne dizer: - Repito-te que não está só. Jean abre a porta da rouparia e vê Helene e Suzanne frente a frente. Suzanne tem um ar rancoroso. Helene parece transtornada. - O que é que se passa, Suzanne? – diz Jean, com um pouco de censura, mas amigavelmente apesar disso. – Sabes muito bem que não está ninguém comigo e que estou sempre para Helene. - Para Helene, sim, naturalmente. Jean tem um momento de furor imediatamente reprimido. - Para Helene, como para todos os outros membros da Comissão – diz, com calma. - Vem, Helene. Abre a porta da rouparia para a fazer entrar. Helene passa. Suzanne quer consegui-la. Jean fá-la parar e pergunta a Helene: - É de assuntos da Comissão que me queres falar? - É.

Jean faz um gesto de desculpa para Suzanne. - Lamento, Suzanne, mas tens de nos deixar sós. Suzanne, furiosa, fecha a porta sobre eles, sem nada dizer. Jean dirige-se a Helene, que está num estado de agitação extrema. - Que há? Ela não responde. Ele agarra-a pelos ombros e abana-a. - Diz-me o que há. - Onde está Benga? – pergunta Helene. Jean fica pasmado. - Benga? - Onde posso encontra-lo? Jean fita-a por um momento com surpresa. Depois, bruscamente, vai á porta e abre-a. Suzanne está atrás dela; é visível que escutava ou via pelo buraco da fechadura. Recua, olhando Jean com ódio. Jean fecha-lhe a porta na cara e volta para junto de Helen. - Benga? – pergunta. – Foi o Lucien que te mandou? - Não. Jean olha para a malinha que Helene revolve nervosamente entre os dedos. Diz, pensativamente: - Não foi Lucien... Depois, bruscamente: - Dá cá a tua mala. - Não! – grita Helene. Jean apodera-se da mala de Helen. Tira dela um revólver embrulhado num trapo. - Ah! – exclama Jean. – Então Lucien não quer? - Jean, não é por covardia. - Bem sei – diz Jean com amargura. – Não quer sujar as mãos. E então tu... tu queres... - Sim – diz Helene. Baixa a cabeça e acrescenta, numa voz átona: - Somos um só. Ele sou eu. A boca de Jean crispa-se um pouco. Desdobra o trapo, observa o revólver e tem um risinho seco. - Mas é um brinquedo! Que queres tu fazer com isto? - Diz-me onde está Benga. É tudo quanto te peço. Jean encaminha-se para a mesa. Põe o revólver em cima dela, volta-se depois para Helene e diz, com um sorriso amargo: - Crês que é fácil matar um homem? Helene não diz nada. - E depois? – diz Jean. – Crês que se é o mesmo depois? Contempla-a com sofrimento, sem falar, e ouve-se a sua voz baixa e rouca murmurar com uma espécie de desespero: - Por que eu? Por que sempre eu? Não tenho o direito de conversar as mãos limpas? Não quero. Não quero matar. Foi ele que foi designado. Depois Jean move-se. Aproxima-se de Helene e diz-lhe docemente, quase ternamente: - É um assunto de homens, Helene. Além disso, seria muito grave se falhasse o tiro. - Não falharei. - Os teus nervos podem atraiçoar-te. Não tenho o direito de te deixar fazer.

Sorri ternamente a Helene e mais uma vez, sem que mexa os lábios, ouve-se a sua voz febril: - Não quero matar. Odeio a violência. Não quero. Não quero. Jean põe a mão no ombro de Helene. - Agora volta para casa. - Tu vais?... Jean mostra as suas mãos, com um sorriso: - As minhas mãos já estão sujas. Um pouco mais, um pouco menos... - É por mim que vais mata-lo, Jean. É por mim. Olha-o com uma gratidão apaixonada. Ele aproxima-se dela. Sente-se que vão abraçar-se, mas, por fim, Jean afasta-se com esforço e diz: - É por Lucien. O TRIBUNAL Jean diante de Helene. - Foi ainda mais duro do que eu pensava. Benga estivera numa reunião clandestina do que petróleo. Voltava por uma estrada deserta e eu esperava-o. TESTEMUNHO DE JEAN (OITO ANOS ANTES) UMA ESTRADA DO CAMPO A estrada está deserta. Jean está de pé, encostado a uma árvore. Ouve ao longe um assobio alegre, que se aproxima. Jean estremece e espia a pessoa que chega. É benga. Ouve-se a voz de Jean dizer: Melhor seria te-lo abatido à passagem. Mas queria falar-lhe. Não queria atirar sem lhe falar. Benga caminha sem se apressar, continuando sempre a assobiar. Jean sai detrás da árvore. Benga pára. - Quem está ai? Aponta a sua lanterna para Jean. - És tu, Jean? Meteste-me medo. Supus que eram os chúis. Recomeça a andar. Jean continua calado, pergunta: - O que é que tens? Jean decide-se a falar. - És um espião da policia, Benga. Denunciaste Carlier. Benga pára de repente e fita Jean com assombro. Jean também parou. Benga vê o revólver na mão dele e o seu assombro transforma-se quase em alívio. Diz: Ufa! E Jean fita-o com surpresa. - Então é isso! – diz Benga – Há três meses que sinto que suspeitam de mim. Há três meses que sinto que vocês mandam me seguir. Há três meses que já não compreendo. Mas isso vai acabar hoje. Não sou um espião da polícia, Jean. Juro-o sobre a cabeça da minha mulher o dos meus filhos. - Prova-o – diz Jean. - Como queres tu que prove? Olha para Jean e compreende bruscamente que ele vai mata-lo. - Não vivi senão para a Comissão. Hoje condenam-me sem me ouvir. Muito bem. Faz o que quiseres.

Jean não pode responder. O seu rosto exprime uma lassidão adocicada, próxima da repugnância. - Deves estar contente, porcalhão! – diz Benga. – Já não vou estorvar-te mais. Jean levanta o revólver. - Foste tu que transmite isto tudo, hem? E para fechares com chave de ouro fizeste questão de seres tu mesmo a liquidar-me. Jean dispara duas vezes. Benga curva-se bruscamente, mas não cai. Diz, com uma espécie de ironia: - Assassino! Não queria estar na tua pele quando souberes que estavas inocente. Jean dispara mais uma vez e Benga cai. Jean contempla o corpo estendido a seus pés. O TRIBUNAL Jean, em pé, diante de Helene, olha fixamente para o chão, entre os seus pés, e diz numa voz surda: - Um mês depois, soubemos que Benga estava inocente.

TESTEMUNHO DE JEAN (OITO ANOS ANTES) EM CASA DE LUCIEN E HELENE Lucien está sentado numa cadeira de braços. Tem uma expressão fechada. Jean está de pé diante dele, silencioso e triste. Põe a mão no ombro de Lucien, que se desvia. Jean olha-o com um ar de censura dolorosa. - Luciean! Causo-te horror? - Tens sangue nas mãos. - Sim – diz Jean – tenho sangue nas mãos. Mas evitei que o tivesse nas tuas, tomei toda a responsabilidade para mim. Supõe que não gostaria também de ter as mãos puras? - Não te pedi nada. Jean olha Lucien com um ar cansado, sem responder. O TRIBUNAL Jean fala a Helene: - A partir desse momento, nunca mais fui o mesmo. Ao princípio, tinha decidido lutar, pela violência. Mas esperava que não me serviria dela senão contra os nossos inimigos. E depois compreendi que estava metido numa engrenagem e que algumas vezes seria preciso, para salvar a causa, sacrificar mesmo inocentes. - Não conseguia obter o teu amor. Perdera a amizade de Lucien. Suzanne começava a odiar-me. Estava só e tinha horror de mim mesmo. Se tivesses podido ajudar-me... - Não sabia, Jean. Não sabia! – diz Helene, perturbada.

- Lucien disse-te que Suzanne lhe escrevera? - Suzanne? Não. - Alguns dias antes da Revolução rebentar, encontrei um rascunho numa gaveta. Acusava-nos de a enganarmos. Ele nunca me falou nisso. - A mim também nunca falou – diz Helene. – Mas não acreditou nela. Juro-te que não acreditou nela! - Talvez – diz Jean tristemente. – Mas não me disse nada. Depois se volta para Suzanne: - Se queres saber, foi por isso que te deixei e nunca mais quis voltar a ver-te. Suzanne, pálida, de lábios apertados, vai tentar dizer qualquer coisa. Jean continua, sem cólera: - Tiveste-me amor, Suzanne, mas nunca amizade. É verdade que me cortavas a carne. Cuidavas de mim como uma enfermeira. Mas quando estavas junto a ti, senti-me sempre só. Já não te quero mal por isso. Também houve culpa minha sem dúvida. Cala-se por um momento e dirige-se novamente a Helene: - E depois a revolução rebentou. Cedo demais. Muito cedo demais. Somente, uma vez que começara, era absolutamente necessário organiza-la. Vencemos, e expulsamos o Regente.

TESTEMUNHO DE JEAN (SETE ANOS ANTES) O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO Há apenas poucas horas de Jean e os seus camaradas se apossaram do Palácio. Jean, magnan, Darieu e François discutem em pé no meio da sala. A um canto, o criado grave observa-os. Sob as janelas, uma multidão entusiasta dá vivas: Viva a Revolução! Viva Aguerra! Aguerra! Aguerra! Magnan, Darieu e François têm um ar excitado e alegre. Jean, pelo contrário, tem um ar sombrio. Darieu dá-lhe uma palmada nas costas e, com um movimento de cabeça, indica a janela: - Vai lá – diz. - Daqui a pouco – responde Jean. Darieu e Magnan olham-no com surpresa. - Jean – pergunta Magnan – não estás feliz? Jean abana a cabeça. - É cedo demais. Muito cedo demais. O mais duro é o que falta fazer. Agora é preciso salvar a Revolução. A multidão continua a berrar. - Tens de lhe falar – diz Darieu. Jean hesita um momento, um contínuo entra, aproxima-se dele no momento em que se dirige para a janela e fala-lhe ao ouvido. - Já calculava – diz Jean – vamos lá. Segue o contínuo para uma pequena sala contígua onde espera Cotte, o Embaixador. O embaixador inclina-se diante de Jean com uma insolência polida: - É o novo chefe do Governo? - Sou. É o embaixador de...

- Sou. Posso sentar-me? - Desculpe-me diz Jean, inclinando-lhe uma cadeira. O embaixador senta-se e olha à sua volta: - Eram os aposentados privados do Regente? Jean faz um gesto de impaciência. - Vamos ao caso. O embaixador pigarreia para aclamar a voz. - O governo do meu país encarregou-me de vos dizer que não tem a intenção de intervir nos nossos assuntos internos. Por conseqüência, Excelência, reconhece a vossa autoridade. - Perfeitamente. - Há apenas um ponto – prossegue o Embaixador – sobre o qual não transigiremos, porque toca nos interesses dos nossos súbitos. Deve ficar assente que mantereis o status no que se refere às concessões petrolíferas. - Far-lhe-ei saber o que tivermos decidido quando entender. - Qualquer atentado contra a propriedade dos nossos nacionais seria considerado pelo meu Governo como um caus belli. Para apoiar eventualmente o seu pedido, o meu Governo concentrou trinta e cinco divisões ao longo das nossas fronteiras. Jean levanta-se e encara o embaixador com um ar glacial. - Muito me apraz que o seu governo reconheça o novo regime que o nosso país estabeleceu, e peço-lhe que assegure que desejamos viver em perfeita amizade com todos os nossos vizinhos. Inclina-se diante do embaixador, que se levantou, e regressa ao seu gabinete. A multidão continua a berrar sob as janelas. Darieu corre ao encontro de Jean. - Jean, suplico-te, mostra-te á varanda. Jean atravessa o gabinete e vai à varanda. A multidão berra e aclama-o. Jean saúda-a com a mão e volta para dentro do gabinete, com um ar cansado e transtornado. - Jean! – diz Magnan, com censura. – Esperavam que falasses. Por que não o fizeste? - Não tenho nada a dizer-lhes. O TRIBUNAL Jean continua a falar: - Não tinha nada a dizer-lhes. E a ti, François, que tu vieste à cabeça da delegação dos petroleiros, não tinha nada a dizer-te. O Estrangeiro não esperava senão um pretexto para nos esmagar. Era preciso mantermo-nos. Era preciso não tocarmos nos petróleos para salvar a Revolução. François olha para Jean com um interesse frio. - Mantermo-nos durante quanto tempo? – pergunta. – Que esperavas? - Mantermo-nos alguns anos. Daqui a dois anos, talvez três, no máximo, estalará um conflito entre duas grandes potências que vocês conhecem bem. É inevitável. Então, as tropas que ameaçam as nossas fronteiras serão retiradas e teremos as mãos livres. - E se nos invadirem logo no princípio da guerra para se apoderarem dos petróleos? - Não disporão contra nós senão duma parte íntima dos seus efetivos. Poderemos resistir-lhes.

- Mas, entretanto – diz François – devias ter-nos dado um regime democrático e não o fizeste. Jean encolhe ligeiramente os ombros, com lassidão. - A primeira lei votada por uma Constituição teria sido a da nacionalização, o Regente reposto pelo estrangeiro e a Revolução liquidada. Vira-se novamente para Helene e prossegue, numa voz surda: - Começaram a odiar-me. Todos: os operários, os camponeses, todos os meus camaradas, até Lucien. Era preciso mantermo-nos. Todo este ódio! Faz um gesto para o auditório: - Todo este ódio! Olha. Vê-o nos olhos deles. Há cinco anos que me detestam. Sabia-o. Tomei toda a responsabilidade para mim. Era preciso mantermo-nos. Comecei a beber! TESTEMUNHO DE JEAN (TRÊS ANOS ANTES) O GABINETE DE JEAN NO PALÁCIO Jean bebe um copo de whisky e pousa-o. Diante dele Lucien e Darieu, que regressam do seu inquérito nos campos. Helene está à sua mesa de trabalho. - Vai – diz Lucien e Darieu. – A mim não me despedirá ele como um criado. Darieu sai. Jean e Lucien ficam frente a frente. - Suplico-te – diz Lucien. – Não podes impor dum dia para o outro esta mudança inaudita aos nossos camponeses. Serão precisos anos de propaganda e educação para os fazer aceitar... - Então é a penúria dentro de seis meses. - Expropria o petróleo aos estrangeiros. Terás uma moeda de troca para comprar trigo. - Não posso! Jean olha fixamente diante de si. Vê os tanques inimigos avançando em campo aberto. A voz de Lucien implora: - Suplico-te, Jean. Ainda é tempo. Muda de rumo. Jean continua a ver os tanques. Diz, numa voz cansada: - Não posso! Não posso... Os carros desaparecem. Jean vê o rosto inflamado de cólera de Lucien. - Nesse caso – diz Lucien – não contes mais comigo para te apoiar. Sai rapidamente do gabinete. Jean bate na mesa com o copo vazio. O criado grave volta a enche-lo. Jean levanta-se, dá alguns passos e senta-se na borda da secretária, olhando para Helene, como se esperasse o socorro dela. Ouve-se a sua voz que diz surdamente: - A violência! Sempre a violência! Salva-los à força. Industrializar os campos à força. Que fiz eu, meu Deus, para ser condenado à violência? Que posso fazer? O TRIBUNAL Jean, inclinado para Helene, olha-a intensamente. - Que podia eu fazer, Helene? Se tivesses podido ajudar-me! Se me tivesses ajudado! Não compreendeste que te chamava em meu socorro? Não o leste nos meus olhos? - Por que não falaste nunca?

TESTEMUNHO DE JEAN (TRÊS ANOS ANTES) O GABINETE DE JEAN Jean, de copo na mão, sentado à secretária, continua a olhar Helene numa espécie de espera apaixonada. Ouve-se a sua voz: - Porque tinha também a violência do desejo. Tinha vontade de tomar-te nos meus braços e... O criado grave aproxima-se de Jean e fala-lhe ao ouvido, mostrando-lhe o seu relógio. A voz de Jean diz: - Tive outras mulheres... Jean segue o criado para uma salinha contígua ao gabinete, onde espera uma linda rapariga provocante: - Excelência – diz ela – é uma felicidade tão grande aproximar-se de nós... Não atrevia a acreditar, parece-me um sonho... Jean olha-a com um sorriso cínico e doloroso. Aproxima-se enquanto ela continua a falar, e fá-la calar dando-lhe um beijo na boca. A voz de Jean diz: - As mulheres! O whisky! E aquele pesadelo... Os tanques avançam no campo.

O TRIBUNAL Jean diante de Helene. - Sabes a continuação. Os camponeses destruíram os tratores e queimaram as colheitas. Sabia que o fariam. Sabia que seria preciso incendiar as aldeias e prender milhares de pessoas para quebrar a sua revolta. Sempre a engrenagem. Era preciso mantermo-nos seis anos. Depois, Lucien imprimiu o seu panfleto. TESTEMUNHO DE JEAN (TRÊS ANOS ANTES) O GABINETE DE JEAN Jean está á sua secretaria. Diante dele, o Ministro da Justiça, que brande um exemplar de A Luz clandestina, gritando: - Leu? É preciso enforca-lo! Jean dá um murro na mesa e fulmina o Ministro com o olhar. Este vai à janela, fazendo sinal a Jean para o seguir. Olham ambos pela janela. Na esquina duma rua, um garoto distribui o panfleto aos que passam. - É assim por toda a cidade – diz o Ministro. – Os operários do petróleo não esperam senão um sinal para se mexer. É preciso restabelecer a ordem e meter-lhes medo. Jean continua à janela. Tamborila com os dedos no caixilho. Depois acaba por dizer: - Mando-o prender. Um grande clamor hostil. O TRIBUNAL

O auditório assobia e grita. Jean olha para a sala furiosa, sem a ver, e torna a voltar-se para Helene: - Durante um ano, nunca mais preguei olho. Fica imóvel, com os olhos fitos em Helene. Depois a sua vista turva-se. Recorda... TESTEMUNHO DE JEAN (DOIS ANOS ANTES) O QUARTO DE JEAN NO PALÁCIO Jean, deitado, de olhos abertos, dá voltas e reviravoltas na sua cama. A sua voz diz: A violência! A violência! Jean e Lucien levantam o Judeu assassinado na rua. Benga cai na estrada, olhando para Jean com ódio. A violência! Uma cadeia arde. Metralhadoras crepitam. Soldados espancam os camponeses. Tanques avançam no campo. A voz de Jean repete: A violência! Jean senta-se bruscamente na cama. Chama: Carlo! Carlo! E agita uma campainha. O criado grave aparece. - Whisky – diz Jean. - O criado serve-o. - Vai procurar Darieu imediatamente. Jean despeja o copo e serve-se de outro.

ALGUNS INSTANTES MAIS TARDE Jean enfiou um roupão. Está sentado à beira da cama. Darieu entra, introduzido pelo criado. - Foste ver Lucien? – pergunta Jean. - Fui – diz Darieu. – Voltei há duas horas. - Por que não vieste ter comigo? - Suponha que estejas a dormir. - Não durmo nunca. Então? Fizeste-lhe a minha proposta? - Disse-lhe que estava livre amanhã, se quisesse ficar quieto. - Que te respondeu? - Disse que no próprio dia em que o soltassem, recomeçaria a escrever contra ti. Jean olha Darieu com um ar mortiço. Depois o seu rosto fica transtornado por uma cólera desordenada. - Vai-te embora – diz. E como Darieu não se move, Jean põe-se a gritar: - Vai-te embora! Mas vai-te embora, por amor de Deus! Darieu sai lentamente. Jean serve-se dum copo de whisky e bebe-o. O TRIBUNAL Jean diante de Helene. - Um dia, disseram-me que estava doente. Fui vê-lo...

TESTEMUNHO DE JEAN (DOIS ANOS ANTES) CAMPO DE DEPORTADOS O carro branco de Jean pára no pátio central do campo. Jean sai. É cumprimentado por um oficial que o conduz á enfermaria do campo. Lucien está sozinho a um canto, numa cama, emagrecido, de joelhos brilhantes. Jean volta-se para o oficial: - Deixe-nos só. O oficial sai. Jean pega num banco e vem sentar-se à cabeceira de Lucien, que lhe sorri debilmente. - Meu irmãozinho – diz Jean, numa voz estrangulada. - Bem pensava que virias – diz Lucien. - Sentes-te mal? - Não. Mas não vou chegar a velho. Jean segura a mão de Lucien na sua: - Odeias-me? - Não, lamento-te. Se fosse eu, teria conservado as mãos limpas até ao fim. Não me arrependo de nada. Retiro a mão da de Jean e encara-o severamente: - Tens as mãos cheias de sangue. - Eu sei – diz Jean. – Crês que eu também não gostaria de ficar puro? Mas se fosse como tu, o Regente estaria ainda no seu lugar. A pureza é um luxo. Pudeste permitir-to porque eu estava junto a ti e sujava as minhas mãos. A porta da enfermaria abre-se. Jean estremece e vê os dois deportados que entram, trazendo marmitas cheias. Um guarda entrou atrás deles e grita: Lá para fora! Os dois deportados saem, com um ar resignado e embrutecido. - O que é? – pergunta Lucien. - Camaradas – diz Lucien. – Tem de comer lá fora por tu teres vindo ver-me. Jean baixa a cabeça. - Não é por minha causa que te quero mal – diz Lucien – é por causa deles. Jean levanta a cabeça, com uma espécie de cólera: - Digo-te que não me arrependo de nada! Era preciso salvar a Revolução. Se tivesse nacionalizado os petróleos, seria a guerra. - Por que não disseste? – pergunta Lucien com assombro. - Não podia. - Era preciso deportar tanta gente para salvar a Revolução? - Se o estrangeiro tivesse reposto o Regente – diz Jean – crês que não teria havido cem vezes mais deportados? Era preciso escolher. Jean levanta-se e caminha ao longo da cama de Lucien. - Lucien tenho todo o país contra mim. Dentro dum ano, dois anos, serei derrubado e fuzilado. - E então? - Ter-me-ei mantido cinco anos. Os meus sucessores não poderão fazer outra política senão a minha. Somente, a Revolução está salva. Dentro de alguns anos, os deportados regressarão, poderão nacionalizar-se os petróleos, os homens serão felizes. Graças a mim. A mim, ao tirano que amaldiçoaram ainda. E tu, que fizeste? Para que serve falar da justiça se não tentarmos realiza-la? Lucien olha Jean com uma espécie de desespero:

- Por que me dizes isso? Queres que eu morra desesperado? - Não. Não, Lucien. Jean volta a sentar-se no banco, ao pé de Lucien, com a cabeça entre as mãos. - Crês que não estou também desesperado? Todos os assassinos e até a tua morte. E tenho horror de mim mesmo. Lucien levanta a mão e agarra a de Jean na sua. - Jean, creio que te compreendo. Jean volta a levantar a cabeça. Lucien pergunta-lhe, com uma espécie de inquietação: - Fazia mal em querer ficar puro? - Eu... eu não penso assim. Penso que são precisos homens como tu e homens como eu. Lucien, fizemos o que pudemos, fomos um e outro até o fim. Ouve. Um dia invadirão o palácio e condenar-me-ão à morte. Quase que o desejo. Mas há uma única coisa que conta: queria saber se tu... se tu me absolves. Lucien aperta a mão de Jean com força. - Fizeste o que pudeste. Jean passa o seu braço à volta dos ombros de Lucien e aperta-o de encontro a si: - Meu irmãozinho. O TRIBUNAL François levantou-se e pergunta a Jean: - Que nos prova que dizes a verdade? Que nos prova que Lucien te absorveu? - Nada. Podem pensar o que quiserem. Jean dirige-se apaixonadamente a Helene: - Mas tu, Helene, tu acreditas em mim? Acreditas em mim? - Acredito em ti – diz Helene. Depois de Helene falar, ela e Jean olham-se nos olhos, e, como no momento da entrada de Helene no tribunal, todas as pessoas presentes desaparecem. Não há mais ninguém senão Helene e Jean na sala. Depois, a voz de François diz: A audiência é suspensa, e a multidão reaparece, comprimindo-se para as saídas. O Júri retira-se para deliberar. Uma parte dos espectadores ficou no lugar. Circulam guardas e contínuos. Jean ficou no seu lugar, de pé, e Helene aproximou-se dele. Estão relativamente isolados no espaço compreendido entre o estrado e a primeira fila de cadeiras. Helene está perturbada. - Perdoas-me? – pergunta Jean. - Acredito em ti, Jean. Acredito em tudo o que disseste. - Não desejava mais nada antes de morrer. Helene olha para Jean com uma espécie de desespero. - Por que não falaste nunca? Por que não me disseste nunca que me querias? - Suponha que te causava horror. Amava-te tanto, Helene. Desde o primeiro dia, que te amei. As lágrimas vêm aos olhos de Helene. - Também eu, Jean. Amei-te logo. A culpa é minha. Menti a mim mesma por orgulho. Amava-te, mas fazias-me medo. Achava-te demasiado forte e demasiado duro. Lucien era meu igual. Foi um pouco por covardia que casei com ele. Pensava que não tinhas necessidade de ninguém e quis desafiar-te. Também me perdoas? - Helene!

Jean vai para falar, mas os jurados voltam para os seus lugares e a multidão torna a invadir ruidosamente a sala. Jean e Helene são separados e sentam-se, cada um no seu lugar, sem se deixarem com os olhos. A multidão cala-se quando, a um sinal de François, o presidente do Júri se levanta e declara: - O Júri declara o réu culpado de todos os pontos capitais de acusação apresentados contra ele. O presidente volta a sentar-se. François diz simplesmente: - A morte. Alguns aplausos entre o público, alguns gritos, mas depressa extintos. No seu conjunto, o público fica silencioso. Jean levantou-se. Dois guardas colocam-se à sua direita e à sua esquerda e conduzem-no para o fundo da sala. Helene levantou-se e quer precipitar-se para Jean. François segura-a. Jean, quando passa junto dela, dirige-lhe um sorriso. Helene diz-lhe: - Amo-te, Jean. - Obrigado – diz Jean. Vai-se embora entre os guardas. O GABINETE DE JEAN O embaixador está diante de François. Fala polidamente, mas mal velando a ameaça contida nas suas palavras. François escuta-o com um ar feroz. - O nosso Governo não pretende senão ter relações de amizade com o vosso – diz o embaixador. – Estou, no entanto, encarregado de vos prevenir de que, se nacionalizarem os petróleos e desapossarem os nossos nacionais, consideramos isso como um casus belli. - O vosso Governo não tem de intervir nos nossos assuntos internos. – diz François. - Como quiser excelência. Lembro que o vosso país é pequeno e que o nosso é muito grande. Um silêncio. O embaixador insiste polidamente: - O meu Governo aguarda uma resposta precisa. - Não tocaremos no petróleo – diz François. O embaixador inclina-se com um sorriso irônico. - Não esperávamos menos da vossa ponderação, Excelência. Depois retira-se. Da porta, o criado grave volta-se para François: - A delegação dos operários do petróleo está a espera de Vossa Excelência. - Espera – diz François. – Dá-me um copo de whisky. O criado serve-o sem dizer palavra. François bebe e pousa o copo. Depois faz sinal ao criado e diz, com um ar sombrio: - Manda-os entrar.

FIM

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