www.myspace.

com/anadominga s

http://anadomingas.wix.com/cell

Após quinze dias do nascimento da filha Joana a 8 de Agosto de

1965, a família partiu para a cidade Beira onde José Afonso foi
colocado após ter sido de certa forma corrido de Lourenço Marques

por dar aulas nocturnas gratuitas a uma associação local. Quando
chegou, foi logo emitida da direcção da PIDE de Lisboa uma

ordem de apreensão de todos os seus discos que estivessem à
venda. Instalou-se em Ponta Gea, perto da praia e nas traseiras da sua casa ouvia-se música africana que dava na Rádio Pax.

Aos fins-de-semana ia com o irmão João e amigos até ao caniço de Xipangara para filmar, fotografar e recolher músicas populares de pessoas que encontrava. Destas pesquisas guardou influências dos ritmos africanos e fez uma canção que

descreveu como uma «meramente rememorativa - evocativa de personagens e
lugares» intitulada «Lá no Xipangara» (Coro dos

tribunais, 1975). O álbum Coro dos tribunais foi o
seu primeiro trabalho gravado sem censura.

Encontramos

mais

alusões

a

Moçambique na canção «Carta a Miguel Djéjé» (Traz um amigo

também,

1970),

onde

existem

referências ao bairro de Ponta Gea e à Manga na Beira e ao mercado Xipamanine em Lourenço Marques. Quando regressou a Portugal, integrou

nos

acompanhamentos

das

suas

músicas os mais variados instrumentos de percussão de raiz Africana.

O que mais o marcou nas suas estadas em Moçambique foi a realidade colonial, à qual se deve o seu baptismo político. Disse que quando partiu já estava preparado e sabia qual o seu papel como professor e quais os alunos que ia ensinar, intitulando-se como um “veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante”. Era-lhe muito penoso fazer parte do

“meio do branco colonizador” por isso
ia-se infiltrando em alguns meios e através das suas cantigas conseguia passar a mensagem que pretendia. Face a todos os episódios que lá passou, ficou

extremamente ligado àquela realidade
física que era o colonialismo.

A influência da música africana ficou sempre presente na sonoridade de José Afonso. Canções como “Galinhas do mato” (Galinhas do mato, 1985), “Um homem novo veio da mata” e “Eu, o Povo” (Enquanto há força, 1978) têm

claramente influências de estilos musicais Moçambicanos como a kwela e a

marrabenta. A utilização do xilofone, da marimba, do djembe e de vozes de
crianças e mulheres utilizando vocábulos como na canção “Galinhas do mato” remetem-nos automaticamente para África. http://www.youtube.com/watch?v=SjGHOU-k4jY

Ao visualizarmos o DVD do concerto no Coliseu dos Recreios a 29 de Janeiro de 1983, é com grande gozo que nos apercebemos que a sonoridade africana está quase sempre presente. Neste concerto, ele afirma que a música das beiras e os ritmos africanos têm muitas semelhanças.

http://www.youtube.com/watch?v=gh0co2F-Q8c
Para mim, a canção “Galinhas do mato” é dos melhores exemplos da influência que a música africana fruiu sobre Zeca Afonso. Ele considerou-a completamente africana, reflectindo de tal forma a sua passagem por África que o reportava à sua infância no
Planalto do Bié.

Numa primeira audição, fica-mos com uma série de dúvidas, mas
podemos dizer que não é Zeca Afonso porque não é ele a cantar mas

sim música tradicional africana, com timbila e vozes. Todo o álbum Galinhas do mato, de 1985, é constituído por 10 temas e
praticamente todos eles contêm um elemento que nos remete para

África. Seja na letra, no ritmo ou na utilização de instrumentos
tradicionais africanos.

http://www.youtube.com/watch?v=NEdC2t0Hb3Y A canção “Escandinávia Bar – Fuzeta” é a escolhida para o clip de
promoção do álbum, onde, segundo a minha interpretação, Zeca

Afonso tenta inverter os papéis do colonizado e do colonizador,
apresentando os pescadores brancos da Fuzeta a serem fotografados

pelo turista africano negro.

Devido ao avançado estado de doença do cantor, também colaboraram neste
álbum Júlio Pereira, Fausto, Luís Represas, Helena Vieira, Janita Salomé, José Mário Branco, Né Ladeiras, Catarina e Marta Salomé. Zeca só cantou dois temas – “Década de Salomé” e “Escandinávia Bar - Fuzeta” e inclui composições que gravou dispersamente em cassetes e «faixas exclusivamente instrumentais onde combinava experiências sonoras novas e cantigas de temática social e política». Por sua vez, a canção “Tu gitana” foi feita com a letra de uma canção de Vila

Viçosa que José tinha cantado nos tempos de Coimbra e gozava uma tessitura
que só uma voz educada como a de Helena Vieira podia cantar.

Já “Tarkovsky” foi feita com o intuito de transmitir um pouco do ambiente de
África e da Rússia de maneira a homenagear o cineasta russo Andrei Tarkovsky, pois José admirava o seu trabalho devido à «ligação telúrica à “mãe”»-terra dos seus filmes. O Diário de Notícias titulou um artigo sobre este álbum, comentando que o disco remetia para os “dias de maior inspiração do

autor de Cantigas do Maio, no final dos anos 60 e início dos 70”. “A
diversidade e a riqueza deste disco faziam dele uma verdadeira festa onde havia ternura e agressividade (agora doseada com um certo sarcasmo), o surreal e o popular”, sem esquecer os ritmos africanos e sons que remetiam à Europa Oriental.

O crítico Manuel Pedro Ferreira considerou a canção “Década de Salomé” sobre a entrada de Portugal na CEE explicando que era a canção mais sofisticada e de difícil audição e manifestou a ideia de se abordar este trabalho de Zeca Afonso de forma analítica, tarefa raras vezes feita. Considerado o derradeiro disco de originais de José Afonso, valeu-lhe um disco de prata.

Bibliografia
•“José Afonso”, Fotobiografias Século XX, Irene Flunser Pimentel,

Temas e Debates e Autor (Círculo de Leitores), Março de José Afonso/

2010
•“José Afonso – Todas as Canções”, Guilhermino Monteiro, João Lóio, José Mário Branco e Octávio Fonseca,

SPA, 2010, Assírio e Alvim, Novembro 2010
•"Os lugares de Zeca Afonso" artigo de Ana Margarida de Carvalho, Visão nº 729
•“Zeca Afonso e a Malta das Cantigas”, José Jorge Letria, Terramar Abril de 2002

Discografia
•“Traz outro amigo também” – José Afonso, 1970 Orfeu, 1996 Movieplay
•“Coro dos tribunais” – José Afonso, 1974 Orfeu, 1996 Movieplay •“Com as minhas tamanquinhas” – José Afonso, 1976 Orfeu, 1996 Movieplay •“Galinhas do mato” – José Afonso, 1985, mvm records

Videografia
•“José Afonso ao vivo no coliseu – Ao Vivo no Coliseu dos Recreios 29 de Janeiro 1983”, 2010 Companhia Nacional de Música

“Sou, no fundo, fruto de muitas gentes,

de muitos lugares,
de muitos dissabores”. José Afonso

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