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ASPECTOS DE INTERESSE PERICIAL EM ASFIXIOLOGIA FORENSE

Camila Garcez Santos * Evely Sartorti da Silva * Marisa Andréia Beltrami Piotto * Nádia Juliana Devides * Nara Tathiane do Amaral Carvalho * Sílvia Helena de Carvalho Sales Peres ** Arsenio Sales Peres ***

Resumo: A asfixia pode ser definida como a supressão da respiração sem que ocorra parada da função circulatória. Na literatura existem diversas classificações propostas, sendo ela basicamente subdividida em enforcamento, estrangulamento, esganadura, sufocação, afogamento e asfixia por gases irrespiráveis. O objetivo desta revisão é fornecer informações práticas que ajudem a elucidar casos de morte por asfixia nos exames periciais, por se tratar de um tema pouco abordado pela literatura e de grande importância médico-legal e jurídica. Não há sinal patognomônico de asfixia, devendo-se levar em consideração todos os detalhes que possam levar a um diagnóstico final, partindo de dados específicos para os mais gerais ao contrário do que normalmente é realizado em um exame pericial. Este exame é fundamental para esclarecer a causa jurídica da morte, devendo o perito detectar se o indivíduo foi submetido a um processo asfíxico ainda em vida ou pós- morte. Palavras-chave: Perícia médica; sistema respiratório; asfixia.

* Cirurgiã-dentista formada pela Faculdade de Odontologia de Bauru – USP. ** Profa. Assistente do Departamento de Ortodontia, Odontopediatria e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru – USP. *** Prof. Dr. do Departamento de Ortodontia, Odontopediatria e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru - USP.

Asfixiologia forense

Abstract: The asphyxiology can be defined as the respiration suppression without circulation standstill. In the literature there are several proposed classification being basically subdivided in hanging, strangulation, throttling, choking, drowning and asphyxiation by irrespirable gases. The aim of this review is to provide practical information to help to elucidate death causes from asphyxia in pericial examination as this is a little discussed topic in the literature and it has a great medicolegal and judicial importance. There is no phatognomonic sign of asphyxia, taking in consideration all details to lead to a final diagnostic, starting from specific to a more generic datas differently to what is done normally in a pericial examination. This exam is essential to explain the judicial death cause by detecting whether the subject was submitted to an asphyxial process in life or post-mortem. Key words: medical inspection; respiratory system; asphyxia.

Introdução

A finalidade desta revisão é fornecer informações

práticas que ajudem a elucidar casos de morte por asfixia nos exames periciais uma vez que se trata de um tema pouco abordado pela literatura e de grande importância médico-legal e jurídica.

A asfixia é definida, do ponto de vista fisiopatológico, pela supressão da respiração sem que ocorra parada da função circulatória, não correspondendo ao significado etimológico da palavra: “falta de pulso” 2, 8, 10 .

As asfixias podem ocorrer através de mecanismos que

alterem as condições normais de respiração tais como:

- Alterações na composição do ar atmosférico como

queda da concentração de oxigênio, aparecimento de gases irrespiráveis ou modificações do ambiente de gasoso para líquido, semilíquido ou sólido;

- Impedimento da permeabilidade das vias respiratórias

ou alvéolos pulmonares por obstáculos mecânicos ou constrição do pescoço;

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- Restrição da expansão da caixa torácica por suas

costelas, músculos e nervos ou pelas situações ambientais;

- Deficiência sangüínea para captação e transporte de

oxigênio podendo ocasionar insuficiência cardíaca congestiva,

anemias hipocrônicas, intoxicação por monóxido de carbono ou produtos metaemoglobinizantes, venenos hemolíticos, etc;

- Não aproveitamento do oxigênio pelas células dos

tecidos devido a alterações enzimáticas, paralisia respiratória celular ou presença de HCN, etc 4, 8, 9 . A finalidade desta revisão é fornecer informações práticas que ajudem a elucidar casos de morte por asfixia nos exames periciais uma vez que se trata de um tema pouco abordado pela literatura e de grande importância médic-legal e jurídica.

Revista da literatura

Simonin,(1966), propôs quatro fases da sintomatologia e fisiopatologia das asfixias: fase cerebral; fase de excitação cortical e medular; fase de morte da respiração; e fase de “parada cardíaca gradual”. Outros autores concordaram em separar em duas fases de irritação, como detalhado abaixo, e que correspondem funcionalmente às quatro fases de Simonin. Fase de Irritação:

Período de dispnéia inspiratória: a vítima mantém plena sua consciência e sorve desordenadamente grandes quantidades de ar, durando cerca de um minuto; Período de dispnéia expiratória: há inconsciência e convulsões tônico-clônicas como peristaltismo exagerado, emissão de fezes e urina, secreção salivar e sudorese, ereção e até ejaculação causadas pela ação excitatória do gás carbônico; pode durar cerca de 30 segundos. Fase de esgotamento:

Período inicial: parada respiratória ou morte aparente, que pode levar alguns minutos;

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Período terminal: irregularidade dos batimentos cardíacos e parada do coração ocorrendo entre um e três minutos

8, 4, 6, 9 .

A duração total do processo gira em torno de sete

minutos podendo variar dependendo da modalidade de asfixia, do treino de resistência respiratória, idade e nutrição da vítima 4 .

Lesões asfíxicas

As lesões ocasionadas pela asfixia, de forma geral, não

são características desse tipo de morte. Para determinar sua existência o perito deve partir do especial para o geral, diagnosticando primeiro a espécie de asfixia. Estas lesões podem ser externas ou internas:

Lesões externas: espuma nos orifícios respiratórios (cogumelo de espuma), protusão da língua, exolftalmia, hipóstases precoces escuras abundantes, cianose do rosto, equimoses da pele e das mucosas, resfriamento demorado, putrefação mais rápida, rigidez precoce e curta, dilatação das pupilas , etc. Lesões internas: equimoses viscerais ou manchas denticulares de Tardieu, sangue de coloração escura e fluído, estase nos órgãos internos como cérebro, coração e principalmente pulmões 2, 8, 5, 6, 9 .

Classificação Existem várias classificações para asfixias. Thoinot considera a maior parte das mesmas como asfixias mecânicas, subdividindo-as da seguinte maneira:

1. Asfixias mecânicas por constrição do pescoço (enforcamento, estrangulamento por mão e por laço);

2. Asfixias mecânicas por oclusão dos orifícios respiratórios externos;

3. Asfixias mecânicas por obstáculo aos movimentos do tórax;

4. Asfixias mecânicas por respiração num meio líquido (submersão) ou num meio sólido pulverulento (soterramento);

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5. Asfixias mecânicas resultantes da oclusão das vias respiratórias 2, 6, 10 ;

A classificação proposta por Afrânio Peixoto é a seguinte:

1.Asfixias puras, que são manifestadas pela anoxemia e hipercapnéia:

- Em ambiente de gases irrespiráveis (ar confinado, óxido de carbono e outros);

- Obstáculos à penetração de ar (corpos estranhos antepostos aos orifícios da boca, nariz, laringe ou penetrações das vias áreas; sufocação e submersão); 2.Asfixias complexas, que são manifestadas pela interrupção primária da circulação cerebral, anoxemia, hipercapnéia:

- Força constritiva passiva, exercida pelo peso do corpo (enforcamento);

- Força constritiva ativa, exercida pelo esforço muscular externo (estrangulamento); 3. Asfixias mistas que se manifestam por graus variados das duas origens: perturbações circulatórias e respiratórias em graus variados 2, 4, 6, ; Oscar Freire propôs sua classificação utilizando critérios médicos legais de acordo com as modificações das condições normais de respiração: modificações físicas do ambiente de forma quantitativa, o que se nota no confinamento; e qualitativas, o que ocorre no soterramento e no afogamento. Obstáculo mecânico no aparelho respiratório está relacionado à sufocação direta, enforcamento, estrangulamento e esganadura. E por fim, a supressão da função da caixa torácica, o que ocorre na sufocação indireta 2, 4 . Hélio Gomes, (1970) propôs uma classificação didática, segundo ele:

1. Asfixias por constrição do pescoço: enforcamento, estrangulamento, esganadura;

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2. Asfixias por sufocação: compressão do tórax, oclusão direta das vias aéreas, oclusão dos orifícios de entrada das vias aéreas, soterramento e permanência forçada em espaço fechado;

3. Introdução do indivíduo em meios diferentes da

atmosfera normal: submersão e asfixias por gases 6 ; Enforcamento Vanrell, (2002), definiu enforcamento como uma forma de asfixia mecânica que consiste na suspensão completa ou incompleta do corpo, com a constrição do pescoço por meio de um laço sujeitado a um ponto fixo. Tal mecanismo é acionado pelo peso da vítima, sendo na maioria das vezes caso de suicídio

2, 3, 4, 6, 10 .

O mecanismo de morte causado pelo enforcamento pode

ser caracterizado pelos seguintes fatores:

- respiratório: bloqueio da passagem de ar;

- circulatório: bloqueio da circulação venosa;

nervoso: perturbações cardíacas e respiratórias 3, 8, 9, . Além disso, existem alguns aspectos a serem analisados, tais como:

- enforcamento pode ser por suspensão completa, quando o corpo fica suspenso por completo, sem qualquer contato ou apoio com o solo 4, 6, 8 .

- enforcamento por suspensão incompleta, quando há qualquer ponto de apoio com o solo 4, 6, 8 .

-

10

A posição do nó também merece atenção:

- simétrico: nó posicionado posteriormente,na linha média do pescoço, caracterizando um enforcamento típico 4, 8 ;

- assimétrico: nó posicionado em qualquer outra parte do pescoço, caracterizando enforcamento 4, 8 ; Quando ocorre um enforcamento, o perito deve observar a presença de alguns sinais particulares externos e internos no corpo da vítima, a fim de determinar a real causa-morte. Entre esses, destacam-se: sinais externos

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Sulco oblíquo, interrompido e de profundidade desigual, geralmente ao nível da laringe, ou acima desta, sendo único ou múltiplo; a cabeça da vítima encontra-se inclinada para o lado oposto ao nó; fácies branca ou cianótica; exoftalmia acompanhada de protusão da língua; hipóstases nas porções inferiores do corpo, explicando a putrefação úmida nessa região, em contraponto à putrefação seca na parte superior, pela diminuição da irrigação sanguínea; líquido seminal, espermático ou prostático no prepúcio ou nas vestes; lesões traumáticas devidas às crises convulsivas agônicas.

Sinais internos Equimoses e infiltração sanguínea da pele e partes moles; equimoses; nasofaríngeas; sulco no platisma e esternocleidomastoídeo; roturas musculares; roturas e/ou luxação dos cornos do hióide; rotura da cartilagem tireóidea; luxação e/ou fratura de vértebras cervicais, com ou sem rotura dos ligamentos intervertebrais 2, 4, 6, 8, 10 .

Estrangulamento Segundo Hélio Gomes, (1970), o estrangulamento é a asfixia mecânica em que a constrição do pescoço se faz por laço, cuja força atuante é a mão humana que o traciona 6 .

Sinais externos Face tumefeita, vultuosa e violácea, língua entre os dentes e com saliência externamente, boca e narinas podem apresentar espuma esbranquiçada ou branco-sanguinolenta, e por fim, pontilhados hemorrágicos que se distribuem sobre a face e conjuntivas externas, otorragia. O sulco característico se apresenta em direção horizontal em todo o pescoço e reproduz o número de voltas que o laço deu, além da presença de nós. A profundidade é uniforme e as bordas apresentam cor violácea que contrasta com a palidez do fundo.

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Sinais internos Espuma rósea proveniente da laringe e da traquéia, congestão pulmonar acompanhada de espuma brônquica, equimoses das meninges e da substância cerebral, e ainda, lesões das cartilagens da laringe e do osso hióide, lesões hemorrágicas das partes moles do pescoço e lesões da carótida 2, 4, 6, 10 .

O mecanismo de morte apresenta um fator respiratório

em que a compressão da laringe fecha a fenda glótica impedindo o trânsito de ar; um fator circulatório que é o mesmo do enforcamento; e um fator nervoso, em que a compressão das terminações nervosas ocasiona fenômenos inibitórios instantâneos 3 . Um indivíduo salvo de estrangulamento apresenta as seguintes características: leve resistência seguida de agitação, angústia, convulsões, espuma sanguinolenta nos lábios, perda de consciência e relaxamento dos esfíncteres. Podem ocorrer complicações como congestão e cianose da face, disfagia, dor cervical e dificuldade de respirar, perturbações psíquicas, amnésia e confusão mental 6 .

Esganadura Segundo Silva, 1997, a esganadura ocorre através da constrição da região anterior do pescoço pelas mãos do agressor 8 . É essencialmente homicida e requer superioridade de forças ou que a vítima não possa opor resistência. Muito comum em casos de estupro, atentado ao pudor e no infanticídio. As formas acidental ou suicida não são reconhecidas juridicamente pela lei

4, 6, 8, 10 .

É muito difícil precisar o tempo e os fenômenos que

ocorrem nesse tipo de morte. Sua tentativa resulta em disfagia, tumefação cervical, disfonia e miocontratura do pescoço 6 . Os

sinais detectados são:

Sinais externos à distância Cianose ou palidez da face; pontilhado escarlitiniforme de Lacassagne; congestão conjuntival; exorbitismo (raro);

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possível otorragia (se o tímpano romper); possível espuma sanguinolenta nas narinas e procidência da língua.

Sinais externos locais Equimoses elípticas ou arredondadas (bilaterais e irregulares); escoriações, estigmas (se o agressor usava luvas ou havia interposição de corpos moles entre a mão e o pescoço pode não se encontrar os rastros escoriativos pericervicais e os estigmas).

Sinais locais profundos Infiltrações hemorrágicas difusas nas partes moles do pescoço; fraturas dos cornos no hióide e das cartilagens cricóide e tireóide; lesões de vasos do pescoço (carótidas e jugulares). Ocorrem as chamadas Marcas da França, soluções de continuidade ou infiltrações hemorrágicas próximas à bifurcação da carótida; lesões da coluna vertebral (no infantocídio); equimoses no pericrânio, congestão do encéfalo e das meninges. Se a morte ocorrer por inibição reflexa dos seios carotídeos, os sinais locais profundos podem não existir. Sinais à distância Os mesmos citados nas asfixias em geral 2, 3, 6 .

Sufocação Segundo Hélio Gomes (1970) é a asfixia que ocorre pelo obstáculo à entrada do ar (não é produzida pela submersão e nem pela constrição do pescoço) 6 . Esse autor subdivide a sufocação em cinco modalidades:

1. Oclusão das narinas e da boca: a oclusão manual nesse tipo de sufocação sugere homicídio e é encontrada, principalmente, no infanticídio. A oclusão por corpos moles pode ocorrer por travesseiros, cobertores e outros objetos flexíveis em volta da face. O diagnóstico médico-legal distingue 4, 6 :

- Oclusão acidental: nos recém-nascidos pode ocorrer a sufocação pelas mães ou por panos que ficam sobre o leito. Nos adultos pode ocorrer por causa das síncopes, ataques epilépticos

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e embriaguez, caindo a vítima com a face sobre os objetos que impeçam a respiração.

- Oclusão criminosa: na Inglaterra, os criminosos

envolviam a cabeça das vítimas em panos até a morte

(“Smothering”) 4, 6, 8 .

- Oclusão suicida: a pessoa coloca sobre o corpo e cabeça panos, cobertores, etc até a asfixia.

Sinais locais Equimoses e escoriações

Sinais externos Pontilhado escarlitiforme, espuma na traquéia e laringe, petéquias pulmonares internas e freqüentes, enfisemas e congestão pulmonares, petéquias do pericárdio e do pericrânio, congestão do encéfalo e das meninges 4, 6, 8 .

2. Oclusão da faringe e da laringe: Deve-se considerar as hipóteses:

- Oclusão criminosa: ocasionada por panos, dedos, papel ou outros objetos introduzidos na boca 4, 6 .

- Oclusão acidental: ocorre em crianças que colocam botões, bolinhas de vidro e outros objetos na boca. Nos adultos essa morte é encontrada nos que ingerem fragmentos grandes de alimentos sem cautelas.

- Oclusão suicida: tipo raro de autocídio. Os sinais externos são inconstantes e discretos; pode ocorrer fratura de dentes, escoriações locais e pequenas hemorragias 4, 6, 8, 10 .

3. Compressão do tórax: esse tipo ocorre por força estranha ou peso excessivo que não permite realizar movimentos de expiração e inspiração. Pode ser homicida ou acidental (mais freqüente e, às vezes, tem caráter coletivo). Aquele que escapa de uma compressão apresenta cor violácea da face, do pescoço e da parte superior do tórax 4, 6, 10 .

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4. Confinamento em espaço fechado: ocorre quando o

indivíduo fica enclausurado num local onde se esgota o oxigênio.

Pode ser:

- Confinamento criminoso: a vítima é colocada dentro de malas ou caixas.

- Confinamento acidental: acontece quando as paredes

desabam, submarinos afundam e quando crianças se trancam em malas e lugares pequenos 2, 6 .

5. Soterramento: no soterramento, a pessoa se encontra

mergulhada num meio pulverulento. As modalidades são:

- Soterramento homicida: consiste em enterrar crianças

vivas ou colocá-las em substâncias como as cinzas, por exemplo.

- Soterramento acidental: comum nas enchentes que

arrastam grandes quantidades de barro e terra dos morros. Nos indivíduos que morrem desse jeito ocorrem fraturas, feridas contusas e outros elementos. O pescoço e a face apresentam cianose e equimoses e o corpo tem vestígios da substância que causou o soterramento. Na traquéia encontram-se espuma e vestígios dos corpos pulvurentos. Depois de soterrado, o indivíduo pode viver algum tempo, dependendo da porosidade das camadas que o recobrem e da circulação do ar 2, 4, 6, 8 .

Afogamento É caracterizado pela inspiração de água, outro líquido ou material semi-líquido causando asfixia. Ocorre quando há submersão do corpo ou em casos onde a vítima esta inconsciente ou incapacitada de reagir e tem seus orifícios respiratórios submersos, impedindo a respiração. Outros casos em que podem ocorrer afogamento são edema agudo de pulmão e hemorragia intratraqueal ou brônquica,chamados de afogamento interno 8 . A morte por afogamento apresenta também sinais externos e internos.

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Sinais externos Pele fria e anserina devido a contração muscular, ainda em vida, salientando os folículos pilosos, dando à pele característica de “pele arrepiada”, retração dos mamilos, escroto e pênis, cogumelos de espuma presentes na boca e narinas, erosão dos dedos e corpos estranhos sob as unhas das mãos, maceração epidérmica, hipóstases róseas (na região ventral do corpo, principalmente na face, no pescoço e na porção superficial do tórax, devido a posição de pronação em que se encontra a vítima), resfriamento do cadáver, rigidez cadavérica precoce, livores cadavéricos geralmente róseos, situados nas posições de declive, a pele da face e crânio, quando se inicia a putrefação, adquire cor esverdeada e escura, quando muito tempo na água a pele se destaca em grandes retalhos, corpo com aspecto gigantesco, procidência e compressão da língua entre os dentes, queda fácil de pelos após algum tempo de permanência em água 8 .

Sinais internos Espuma tranqueobrônquica, devido a mistura de ar e plasma, enfisema aquoso ou hidroaéreo, mancha de Paltauf (característico de rompimento dos capilares), presença de partículas sólidas como areia nas profundezas dos pulmões, fígado e medula óssea dos ossos longos, detecção do líquido de afogamento nas vias digestivas e diluição da concentração sangüínea, presença de líquido no ouvido médio. O mecanismo de morte que envolve este tipo de asfixia inicia-se com o “tragar água” levando ao espasmo da laringe desencadeando anoxia, seguido da anoxemia, anoxia cerebral, perda da consciência e paralisia bulbar, chegando a morte 8 . Este mecanismo pode ser divido em três fases segundo alguns autores. São elas: fase da apnéia (contato com a água e cessação da respiração); fase da dispnéia (dispnéia inspiratória seguida da dispnéia expiratória); fase da asfixia (perda da consciência e reflexos) 3 . Para chegar a morte leva-se em média 4 minutos, e pode ser apressada com a agitação da vítima 3 .

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Os indivíduos que se salvam após submersão, tem tendência a falecer após o socorro, em conseqüência a algo semelhante ao edema agudo. Antes da morte ocorrem convulsões, delírios, pneumonia de deglutição 6 .

Asfixia por gases irrespiráveis São chamadas de oxiprivas as asfixias causadas por baixa

concentração de oxigênio no ambiente. Isto pode ser causado por confinamento ou exposição a gases inertes 8 .

O confinamento acontece em situações nas quais o

indivíduo permanece em local não ventilado até esgotar o oxigênio disponível, aumentando o nível de gás carbônico, temperatura e vapor d’água, que associado aos gases tóxicos da

respiração e sudorese causam a morte 8 . Nesta situações a morte ocorre muito rápido 5 .Um exemplo disto é aquele causado pela colocação homicida ou acidental de um saco plástico na cabeça, como relatado por Ribe, 2001 7 .

Os sinais presentes nos cadáveres decorrentes deste tipo

de morte, mais comum em casos de homicídio e suicídio 5 , são

lesões traumáticas, características da tentativa de fuga 8 .

A morte causada por exposição a gases inertes, como por

exemplo nitrogênio, hidrogênio, gás de cozinha, ocorre devido a alteração da pressão ao nível alveolar. O volume de gás dissolvido no sangue é diretamente proporcional à pressão parcial deste gás a mistura gasosa inspirada.

As alterações que as vítimas desta asfixia apresentam são

hipoxia aguda (alterações cardiovasculares e no sistema nervoso

central) e hipoxia crônica (alterações no sistema nervoso central

e cardiovasculares levam a hipertensão pulmonar com

insuficiência cardíaca direta somada a poliglobulia).

O mecanismo de morte envolvendo este tipo de asfixia

inicia com uma taquipnéia por estímulo do centro respiratório bulbar, excitação psicomotora e sensação de embriagues. Quanto maior a concentração de gás carbônico, surgem depressão, lipotímia, arreflexia, relaxamento muscular, arritmia e hipotensão arterial e o quadro terminal a parada cárdio-respiratório.

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O quadro local se caracteriza por lacrimejamento, tosse, transpiração profusa, mal estar geral, cefaléias, vertigens, náuseas e estado sincopal, logo antes do óbito.

O corpo pode apresentar cianose e no sangue, a

espectroscopia-aumento da carboemoglobina 8 .

Os sinais internos e externos podem ser específicos para

certos tipos de gases, sendo assim uma forma de identificação segundo a causa da morte, sendo que nos indivíduos que apresentaram cefaléia, fadiga, vertigens, emagrecimento, a intoxicação ocorreu geralmente por gases lacrimogêneos; astenia, poliúria, opressão torácica, sudorese e outros por gases esternutários; quando ocorre por gases vesicante, causam úlcera da córnea, destruição da mucosa da traquéia e dos brônquios, infecção brônquica, necrose dos pulmões. Os gases sufocantes causam opressão, dor torácica, dispnéia, cefaléia, taquicardia, hipotensão, edema agudo dos pulmões. Os gases industriais produzem sensação de sufocação e de opressão, estertores, taquicardia irritação intensa da arvore respiratória, dispnéia, etc. Na asfixia causada por gases anestésicos aparecem congestão pulmonar e visceral, espuma brônquica e sangue fluido, sendo que quando é causada por gases das habitações, a vitima é

atacada por tremores, vertigens, perda da consciência e morte 6 .

Os indivíduos que sobrevivem apresentam estado confusional, delírios, amnésia, neurites, paralisias, hiperstesias, nevralgias, xantopsia, amaurose, zumbidos, vertigens, edema e perturbações tróficas da pele, pneumonia de deglutição, anemia vertigens, instabilidade cardíaca enfisemas, bronquites, esclerose pulmonar e seqüelas na laringe, traquéia e brônquios, entre outros 6 .

de

homicídio ou suicídio 5 .

A morte

por

gases

são

mais

comuns

em

casos

Discussão

Na perícia de morte por asfixia, segundo Fávero 4 , deve-

se partir da análise mais específica para uma mais geral, ou seja,

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através da observação das lesões chega-se à espécie e finalmente ao diagnóstico geral da asfixia. O mesmo é confirmado por Croce 2 , Eça 3 , Gomes 6 , Silva 8 , os quais relatam que as asfixias não apresentam sinais patognomônicos, mas que há sinais característicos e inconstantes que, associados, levam ao diagnóstico, devendo assim ser analisada, cuidadosamente, a natureza da violência mecânica que é produzida. Almeida 1 , salienta que sinais, antes considerados patognomônicos, como as petéquias hemorrágicas, descritas por Tardieu, apesar de terem acentuado valor probabilístico no diagnóstico das asfixias, não o são, pois podem ser encontradas em outros tipos de entidades mórbidas, como o infarto do miocárdio, toxemias endógenas, fenômenos alérgicos, discrasias sanguíneas, entre outras. Vanrell 10 e Fávero 4 citam sinais e peculiaridades que podem auxiliar no diagnóstico de cada um dos tipos de asfixia:

No enforcamento, deve ser notada a presença de um sulco único, acima da laringe e carótidas, oblíquo ao redor do pescoço, mais profundo na região da alça, interrompido nas proximidades do nó com indícios de reação vital. Pode ocorrer fratura da laringe e do osso hióide, das vértebras cervicais e rotura dos ligamentos intervertebrais. Se o laço estiver presente, investigar a consistência, o número de voltas, situação do nó, etc, geralmente nos casos de suicídio o laço apresenta várias voltas em torno do pescoço, disposição bizarra e concomitância de outros meios de morte. Nos casos de homicídio, pode haver ausência do laço, presença de impressões e marcas sobre o pescoço da vítima, violências, nós profissionais e laços de certas substâncias. A necropsia pela dissecção das camadas do pescoço, e aspectos internos gerais definirão asfixia mecânica por constrição. O estrangulamento apresenta sulco múltiplo, completo, de profundidade uniforme e perpendicular ao longo eixo do corpo, ao redor do pescoço com vestígios de reação vital. Ao contrário do enforcamento, este sulco geralmente não se pergaminha, assim como, a fratura da laringe, do osso hióide, das

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vértebras e a rotura dos ligamentos são raras, ou mesmo inexistentes. Como no enforcamento, o exame do laço, se presente no local, deve ser realizado indicando se houve um ato suicida ou homicida. A cianose da face, a congestão das meninges e do cérebro, as equimoses das pálpebras e das conjuntivas e as hemorragias das partes moles do pescoço são exceção no enforcamento e freqüente no estrangulamento. A dissecção das partes moles auxilia no diagnóstico final.

São encontrados na esganadura, vestígios da atuação das

mãos e unhas na região anterior do pescoço, que podem ser usados na investigação de indícios do agressor e impressões digitais, a reação vital deve ser positiva, e a dissecção dos tecidos moles também é realizada.

Existem dois tipos de sufocação, com características distintas. Na sufocação direta há a presença de indícios de oclusão das vias respiratórias por corpos estranhos, alimentos,

objetos, etc, associado a presença de reação vital. Já na indireta, notam-se vestígios de compressão do tronco, revelados no exame externo e interno. Pode ser observada no soterramento, a existência de substâncias nocivas nas vias respiratórias e/ou vias digestivas, devendo-se investigar se a morte foi causada por asfixia mecânica ou outros traumatismos (fraturas ósseas, roturas vicerais, hemorragias, bloqueio cardíaco, etc).

No afogamento, devem ser esclarecidas as questões da

permanência do corpo na água, da imersão ainda em vida ou pós- morte e da penetração de líquido nas vias respiratórias através de exames de crioscopia (se realizado até 24 horas após a morte, oferece resultados exatos da penetração do líquido nas vias respiratórias e diluição desse no sangue (Iolando Mirra aput FÁVERO, 1962);

A asfixia por gases é subdividida, pelas suas

características, em:

Ambiente de ar confinado, condição onde lesões não características são encontradas, sendo necessária a dosagem de elementos componentes do ar, como o ácido carbônico, umidade

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Camila Garcez Santos et alii

e mensuração da temperatura ambiente, para a elucidação do caso.

Asfixia por monóxido de carbono é detectada pela análise da composição do ar (verificação química e espectroscópica do monóxido de carbono) e exame do cadáver (órgãos e sangue, que apresenta características de incoagulabilidade e colorido). Para outras viciações do ambiente é pesquisado a dosagem do ar por processos clássicos, indicados pela química toxicológica que evidenciam a presença de gás de iluminação, gás sulfídrico, metano ou gás dos pântanos, cloro e hidrogênio arseniado 4 .

Conclusão

Na perícia de morte por asfixia é necessário considerar todos os fatos presentes, pois nestes casos, como citado, não há sinais patognomônicos que determinem a causa da morte. Visto que a literatura referente a este assunto ainda é pobre, torna-se necessário um conhecimento mais profundo sobre o mesmo para o aprimoramento do técnicas periciais mais eficazes. A perícia é fundamental para elucidar a causa jurídica da morte, devendo o perito detectar se o indivíduo foi submetido a um processo asfíxico ainda em vida ou pós-morte.

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