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Neuroapostila

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Published by: Gabriela Camargo on Jul 03, 2012
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Arlete Hilbig

A neuroanatomia refere-se ao estudo da estrutura do sistema nervoso (SN).

O SN é o responsável pelas relações dos seres vivos com o meio externo e pelo controle de seu

meio interno. Tem a função de detectar as variações do meio ambiente (através de diferentes modalidades

sensitivas) e produzir respostas apropriadas através de impulsos nervosos para músculos e glândulas de

secreção. O controle do meio interno é uma função compartilhada com o sistema endócrino e permite a

manutenção de condições favoráveis para funcionamento do organismo (homeostasia).

O estudo da organização e função do SN está baseado no entendimento de sua estrutura e nas

correlações estrutura/função. O SN recebe e interpreta uma grande variedade de informações, bem como

controla comportamentos motores complexos e funções cognitivas (percepções, memória, aprendizado,

emoções). Por essa razão, podemos deduzir que apresenta uma anatomia e fisiologia também complexa.

Embora o objetivo da neuroanatomia seja o estudo da estrutura macroscópica do SN, algumas

considerações sobre o tecido nervoso e sobre o desenvolvimento do SN são importantes para entendimento

de sua estrutura e serão brevemente abordados.

Composição do Tecido Nervoso

É formado por dois tipos principais de células:

1. Neurônios: células que se especializaram em receber e conduzir informações para outras células,

transformando os estímulos em impulsos nervosos.

O neurônio é a unidade estrutural e funcional do SN tendo o papel de um

processador de informações, pois recebe estímulos de diferentes origens e produz sua

própria mensagem que será transmitida. A informação é processada e codificada em uma

sequência de etapas química e elétrica que será estudada com mais detalhes na

disciplina de fisiologia.

Ele é composto de um corpo celular e processos: dendritos e axônios. De uma

forma geral, pode se dizer que os dendritos são os processos que trazem a informação

até o corpo, enquanto os axônios levam informações para outro neurônio ou órgão

efetuador.

O neurônio é, portanto, uma célula polarizada pois a

informação, na maioria das vezes, percorre esse caminho:

dendrito corpo axônio. A comunicação entre os

neurônios se dá principalmente através de sinapses, onde ocorre a liberação

de substâncias químicas, chamados neurotransmissores, que vão produzir

alterações elétricas na célula que as recebe.

Quando observamos o sistema nervoso macroscopicamente, vemos

que ele é constituído de áreas acinzentadas (substância cinzenta) e áreas

brancas (substância branca). Isso ocorre porque a maioria dos axônios (fibra

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nervosa) está envolta por uma bainha lipídica de mielina que determina uma cor esbranquiçada ao tecido

quando predominam os axônios. A coloração torna-se acinzentada quando predominam os corpos de

neurônios, formando as substâncias branca e cinzenta, respectivamente.

As substâncias branca e cinzenta têm distribuição heterogênea ao longo do SN. A camada periférica

de substância cinzenta envolvendo cérebro e cerebelo é denominada, córtex cerebral e córtex cerebelar.

Acúmulos de corpos de neurônio dentro do SNC (no interior do neuroeixo) têm o nome específico de núcleo e

acúmulos de corpos de neurônio fora do SNC são chamados de gânglios.

Existe grande diversidade na forma e tamanho dos neurônios, que será estudado na disciplina de

histologia.

Nos mamíferos, podemos descrever três tipos funcionais de neurônios:

o Neurônios sensitivos ou aferentes: são responsáveis por receber estímulos do meio externo e/ou
interno e possuem um prolongamento que alcança a periferia e outro que vai ao SNC.

o Neurônio motor ou eferente: especializado na condução de estímulos para um efetuador – músculo ou

glândula.

o Neurônio de associação ou interneurônio: fica sempre dentro do SNC fazendo a associação entre
diferentes áreas e modificando a função de outros neurônios. Aumentam em número com a evolução

dos seres vivos, sendo os mais abundantes nos seres humanos.

Utilizamos os termos aferente e eferente também para denominar fibras (axônios) que chegam ou

saem de uma determinada estrutura. Assim, se o corpo de um neurônio está situado no córtex cerebral e

seu axônio vai terminar no cerebelo, ele é eferente ao córtex e aferente ao cerebelo. Isso demonstra que

essa é uma terminologia dinâmica, dependendo das estruturas que estamos considerando no momento. Se

falarmos apenas em aferente e eferente sem especificação, estamos nos referindo ao SNC de uma forma

geral.

2. Neuróglia ou Células Gliais: formam o componente mais abundante do SN. Têm função auxiliar dos

neurônios dando suporte, nutrição, isolamento, ação fagocitária, formanso mielina e participando ativamente

na transmissão das informações. São constituídas pelos astrócitos, oligodendrócitos (células de Schwann na

periferia), células ependimárias e micróglia.

Embriologia Noções Básicas

O embrião, na segunda semana de desenvolvimento, possui três camadas germinativas ou folhetos: o

ectoderma, endoderma e o mesoderma. O SN se origina a partir da camada mais externa, o ectoderma,

durante a quarta semana de gestação.

No início do processo, as células do ectoderma que se

situam junto à linha média, induzidas pela notocorda (que vai

formar a coluna vertebral), começam a proliferar e diferenciar,

formando um espessamento, a placa neural. Como a

proliferação é contínua, começa a haver um aprofundamento

no corpo do embrião formando o sulco neural e posteriormente

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a goteira neural, até que as bordas do ectoderma especializado se fundem e formam um tubo neural. O tubo

neural então perde o contato com o ectoderma não diferenciado, que vai formar a pele do dorso. As bordas da

goteira neural darão origem a crista neural que se separa do tubo neural.

O tubo neural dará origem ao SNC, enquanto a crista neural origina o SNP.

Este tubo não é homogêneo em toda sua extensão sendo sua porção cranial, mais dilatada, o

encéfalo primitivo; a porção distal, mais afilada, é a medula primitiva.

O encéfalo primitivo inicialmente forma duas zonas de

constrição e se divide em três porções dilatadas (vesículas

encefálicas primitivas): uma mais anterior, o prosencéfalo; uma

média, o mesencéfalo; e uma posterior, o rombencéfalo. A

vesícula anterior e posterior sofrem nova divisão e o encéfalo

primitivo passa a ter cinco vesículas: as duas primeiras derivadas

do prosencéfalo: telencéfalo e diencéfalo; a média não se divide

formando o mesencéfalo; e a posterior forma mais duas

vesículas, o metencéfalo e o mielencéfalo. Destas vesículas,

juntamente com a medula primitiva, derivarão todas as estruturas

do SN central.

As cristas neurais darão origem aos nervos periféricos, aos gânglios sensitivos dos nervos cranianos e

espinhais e gânglios do sistema nervoso autônomo, além de tecidos situados à distância do SN (medula da

suprarrenal, melanócitos, paragânglios).

Divisão Embriológica

Divisão Anatômica

Prosencéfalo

Telencéfalo

Telencéfalo

Diencéfalo

Diencéfalo

Encéfalo

primitivo

Mesencéfalo

Mesencéfalo

Mesencéfalo

Rombencéfalo

Metencéfalo

Ponte e Cerebelo

Mielencéfalo

Bulbo

Medula

primitiva

Medula

Espinhal

Se fizermos um corte transversal no tubo neural, observaremos que o

crescimento das paredes não é uniforme e encontramos quatro paredes de

espessuras diferentes, uma posterior, uma anterior e duas laterais.

Sulco
Limitante

Lâmina Alar

Lâmina Basal

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A luz do tubo neural apresenta, na sua superfície interna, um sulco longitudinal muito importante que é

o sulco limitante. Toda a porção do tubo neural adiante do sulco limitante tem o nome de lâmina basal, e a

parede atrás do sulco limitante chama-se lâmina alar. Os neurônios motores se diferenciam da lâmina basal

e os sensitivos da lâmina alar. As áreas situadas próximo ao sulco limitante relacionam-se com a inervação

visceral, tanto sensitiva como motora. Essa disposição e função podem ser identificadas em algumas porções

do SN no indivíduo adulto. As células situadas ao longo das cavidades do tubo neural, futuas cavidades

ventriculares, vão sofrer um processo de migração e formar as diferentes porções (córtex, núcleos) do SNC.

A cavidade central do tubo neural passa por alterações no tamanho e forma e vai dar origem ao

sistema ventricular do adulto, onde encontramos líquor:

Telencéfalo Ventrículos laterais (I e II)

Diencéfalo III ventrículo

Mesencéfalo aqueduto cerebral (de Sylvius)

Ponte e Bulbo (Rombencéfalo) IV ventrículo

Medula espinhal canal central da medula

Divisões do SNC

As divisões do SN sevem para facilitar o entendimento e a comunicação entre os profissionais, mas

na realidade existe uma continuidade estrutural e funcional no SN.

1. Divisão Anatômica: a mais utilizada!

o SN central (SNC): situado dentro do esqueleto axial.
Encéfalo:

Cérebro - Telencéfalo e diencéfalo;
Cerebelo;
Tronco encefálico – Mesencéfalo, ponte e bulbo.

Medula espinhal.

o SN Periférico (SNP): faz a ligação entre SNC e periferia. Compreende os nervos cranianos
e espinais, os gânglios e as terminações nervosas.

2. Divisão Funcional:

o SN somático (SNS) ou da vida de relação;
o SN autônomo (SNA) ou da vida vegetativa, dividido em simpático e parassimpático.
3. De segmentação ou metameria:

o SN segmentar – SN periférico + medula espinhal e tronco encefálico (substância branca
por fora e cinzenta por dentro);

o SN supra-segmentar – cérebro e cerebelo (córtex de substância cinzenta e centro de
substância branca contendo núcleos).

4. Divisão Embriológica:

o Prosencéfalo
o Mesencéfalo
o Rombencéfalo

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Organização Funcional Básica

As informações chegam ao SN central através dos nervos, que são “cordões” contendo várias fibras

nervosas (axônios) envoltas por tecido conjuntivo.

Os neurônios sensitivos, cujos corpos estão localizados em gânglios próximos ao SNC, têm seus

prolongamentos periféricos formando receptores (na pele, músculos, articulações, e vísceras) ou estão

ligados a órgãos sensoriais específicos (olho, orelha, etc.).

Os prolongamentos centrais de nervos espinhais podem ligar-se aos neurônios motores, através de

neurônios de associação, formando um arco reflexo simples. Isso permite que um estímulo periférico gere

uma resposta motora rápida (contração muscular). Dessa forma, tem-se o arco reflexo simples, responsável

pelos reflexos que testamos com martelo, por exemplo. Os reflexos costumam ser mais complexos que este

arco reflexo, e envolvem diferentes áreas do SNC (reflexos supra-segmentares). Além disso, possuímos

movimentos automáticos e voluntários que não são regidos por redes neurais tão simples.

Dessa forma, a maioria das células nervosas que trazem informações da periferia também se

comunicam “em cadeia” dentro do SNC, para levar informação às diferentes regiões (tronco encefálico,

cerebelo, cérebro). As projeções dessas células formam as grandes vias ascendentes do SN e as respostas

trafegam por vias descendentes, permitindo reflexos mais complexos e comportamentos individualizados.

Quando temos várias fibras nervosas (axônios) com aproximadamente a mesma origem, função e destino,

denominamos esse grupo de tracto ou fascículo.

Por outro lado, os estímulos podem partir do córtex cerebral, por exemplo, quando desejamos

realizar um movimento qualquer. O córtex cerebral envia a informação por meio de fibras descendentes aos

neurônios motores do sistema nervoso segmentar para que a ação seja executada, formando as grandes

vias ou tractos descendentes. O conhecimento das vias de condução nervosa forma a base do entendimento

das diferentes alterações neurológicas e são fundamentais para o estudo da semiologia neurológica (exame

clínico em neurologia).

A figura seguinte mostra um esquema do fluxo de informações no SN:

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Sistema Nervoso Periférico

É formado por nervos periféricos e suas terminações nervosas, gânglios sensitivos e gânglios do

SNA. Os nervos periféricos são divididos em:

o Nervos espinhais: Existem 31 pares de nervos que estão ligados à medula espinhal: 8 cervicais, 12
torácicos, 5 lombares, 5 sacrais e 1 coccígeo. Eles têm origem a partir da união de uma raíz anterior

(motora) com uma posterior (sensitiva), que forma um nervo misto. Todos apresentam também fibras do

SNA, em diferentes proporções.

o Nervos cranianos: São 12 pares de nervos ligados ao encéfalo. Apresentam maior complexidade
funcional pela presença de funções sensoriais, além da sensibilidade geral e motricidade. Nem todos os

nervos são mistos como os espinhais, e somente alguns contêm fibras do SNA. Todos os nervos

cranianos deixam o crânio ou chegam até ele através de aberturas (forames) na base do crânio. A seguir

listamos os nervos cranianos e suas funções principais:

I – Olfatório: olfato;

II – Óptico: visão;

III – Oculomotor: movimentação do globo ocular;

IV – Troclear: movimentação do globo ocular;

V - Trigêmio – possui uma raiz sensitiva que dá

sensibilidade para toda a face, sendo dividida

em três porções: oftálmico, maxilar e

mandibular; e uma raiz motora que acompanha

a porção mandibular e é responsável pela

inervação dos músculos da mastigação;

VI - Abducente – movimentação ocular. Inerva o

músculo reto lateral que desvia o olhar para fora

(abdução do olho);

VII - Facial - inerva os músculos da mímica;

VIII - Vestíbulococlear – relacionado com a

audição e o equilíbrio;

IX - Glossofaríngeo – inervação da faringe,

língua e palato, principalmente sensitivo;

X - Vago – é um nervo parassimpático e tem um

amplo território de inervação incluindo vísceras

cervicais, torácicas e abdominais, além da

musculatura do palato, faringe e laringe.

XI - Acessório – inerva o trapézio e o

esternocleidomastóideo (músculos do pescoço).

XII - Hipoglosso – inerva os músculos da língua.

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