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S3 cola 925 ROLAND BARTHES INEDITOS Vol. 2 - Critica “Tiaduco | Ione Cathe Benede SBD-FFLCH-USP iii Uk} Martins Fontes ‘$20 Paulo 2004 1 Indio | Dois artigos acerca de Proust evidenciam a presenga constante, em sua vida, do escritor de Em: busca do zempo perdido, 20 qual ele dedicaré boa parte de seu tiltimo cur- 0, A preparagio do romance. Proust foi, pata Barthes, 0 homem que escteveu o ultimo grande romance ociden- tal ¢ 0 esctitor que ele desejaria ter sido. Ao ser atropela- do, em fevereito de 1980, no acidente que ocasionou sua morte, Barthes estava se dirigindo ao College de France, para preparar uma sesso em que projetaria forografias de pessoas que inspiraram as personagens proustianas, O iiltimo texto desta coletdnea, “Masculino, femini- no, neutro”, datado de 1967, ¢ 0 primeito esbogo da notével andlise que ele publicaré, em 1976, da novela Sarrasine de Balzac (no livro S/Z). Esse texto preparaté- rio serd de grande utilidade para os leitores que desejarem empreender a leitura de S/Z, ow para aqueles que tenham encontrado alguma dificuldade em acompanhar os in- trincados meandros desse livro, o qual propée um de andlise absolutamente novo, jé “pés-estruturalista’, ‘Assim, se estes textos criticos inéditos nao repre- sentam todos o melhor'da produgio de Barthes, que se encontra em seus livros, tém entretanto o interesse de iluminar de viés os grandes'temas que o ocuparam. Ler Barthes, mesmo em seus textos “menores”, é sempre uma festa para a inteligéncia. LEYLA PERRONE-MOISES NOTAS SOBRE ANDRE GIDE E SEU DIARIO. Contido pelo temor de encerrar Gide num sistema que, eu sabia, nunca poderia me satisfazer, procurava em. refletir, concluo ser melhor apresenté-las como esto, € nao procurar disfargar sua descontinuidade, A incoerén- cia parece-me preferivel & ordem deformadora. O Didrio Duvido que o Didrio desperte grande interesse se a Ieitura da obra néo tiver previamente despertado curio- sidade sobre o homem. i 1 addi | No Didrio de Gide, o leitor encontrara sua ética — a génese ea vida de seus livros -, suas leituras — funda- mentos de uma critica de sua obra -, siléncios ~ tragos exttaordindrios de inteligencia ou bondade -, peque- nas confissdes que fazem dele o homem por exceléncia, como foi Montaigne. Muitas frases do Didrio provavelmente irritario aqueles que tenham algum ressentimento (secreto ou no) contra Gide, Essas mesmas frases seduzitéo aque- Jes que tenham alguma razio (secreta ou néo) pata se acreditarem semelhantes a Gide, E 0 que ocorre com toda personalidade que se compromete. As pessoas de formacio protestante deleitam-se com © Diério ¢ com a autobiogtafia; além de terem obses- so pela natureza moral do homem e de a tomarem como desculpa para chamarem a atengZo sobre si, tais ‘pessoas véen na confisso ptiblica uma espécie de equi- valente da confisséo sacramental, Fazem isso também pela necessidade de amesquinhar, com liberalidade, um ofgulho que identificaram como pecado capital; por fim, porque acreditam sempre ser poss{vel corrigir-se. Rousseau, Amiel, Gide deram-nos trés grandes obras confessionais; a maioria dos romances ingleses so au- | Gee | tobiografias (lembremos o movimento oxfordiano e seu sistema de confiss6es puiblicas). No entanto, 0 Did- rio de Gide contém um matiz préprio; é escrito mais freqlientemente como didlogo do que como monélo- go. E menos uma confissdo que o relato de uma alma que se busca, se responde, conversa consigo (ao modo dos Soliléguios de Agostinho). Eu ditia até que no Did- vio de Gide ha um elemento mistico. O Didrio néo & de modo algum uma obra explica- tiva, exterior, por assim dizer; néo é crénica (ainda que €m sua trama a atualidade muitas vezes transpareca), Nao Jules Renard nem Saint-Simon, ¢ quem procurat nela jufzos importantes sobre a obra deste ou daquele contempordneo (Valéry ou Claudel, de que Gide fala com freqiiéncia) provavelmente ficard frustrado, E uma obra egoista, mesmo quando — e, sobretudo, exatamen- te quando ~ fala dos outros. Embora a marca de Gide scja sempre a grande acuidade, 0 seu grande valor estd na forca de reflexao, de retorno Para o proprio Gide. “O que deve figurar aqui é precisamente o miudis- simo, por ter sido“retido pelo crivo de alguma obra Devo escrever, ¢ sem tebuscamento algum, detalhes” “ind, bas, Soliliguies wide fli Sto Palo, Ps 1 dnldior (Journal, p. 933, ano 1929). Portanto, ndo se deve crer que.o Didrio se opée 4 obra ¢ que nao é, ele também, uma obra de arte. Hi frases que esto a meio-caminho entre a confiss4o'¢ a criagao; sé falta inseri-las num ro- mance, e jé sero menos sinceras (ou melhor: sua sin- ceridade conta menos que uma outra coisa, que € 0 prazer de as ler). Eu até diria o seguinte: nao ¢ 0 Didrio de Edouard que se parece com 0 Didrio de Gide; a0 contrério, muitas enunciagbes do Didrio de Gide ja tém a autonomia do Didrio de Edouard, J4 nao si to- talmente Gide; comecam a.estar fora dele, rumo a al guma obra incerta onde desejam tomar lugar, que elas estéo chamando. Nietasche escreveu: “Apesar de nao set de modo al- gum superficial, um grande francés néo deixa de ter sua superficie, um invélucro natural que envolve seu fun- do. sua profundidade...” (Aurore 192). . A obra de Gide constitui sua profundidade; admi- tamos que seu Didrio é sua superficie; ele se desenha ¢ justapde seus extremos; leituras, reflexdes, narrativas mostram quéo distantes sfo esses extremos, quo vasta a superficie de Gide. 1, bras, So Palo, Companhia das Lets, 2004. 4 1 Gee | Das Schaudern Gotthe citado por Gide (p. 207): "O tremar (das Schaudern) 0 -melbor do hemem.” O “das Schaudern” de Goethe assemelh: te ao “homem maravilhosamente ondulante’ taigne. Nao sei se alguém deu a devida imporcancia 20 lado goethiano de Gide. Assim como as suas afinidades com Montaigne (as predilecdes de Gide nao indicam influéncia, porém identidade); no € por acaso que Gide escreve uma obra critica. Seu preficio a “trechos escolhidos” de Montaigne e a propria escolha dos tex- tos nos dao informagées tanto sobre Gide quanto so- bre Montaigne. Os didlogos — Nada mais préprio & literatura france- sa, nada mais precioso que esscs duetos mantidos, de um século a outro, entre escritores de mesma classe: Pascal ¢ Montaighe, Rousseau e Moliare, Hugo e Voltaire, Valéry ¢ Descartes, Montaigne e Gide. Nada prova mais a pere- nidade dessa literatura, e também, justamente, seu tre- mor, sua ondulaclo, aquilo que a faz escapar 4 esclerose dos sistemas, que faz seu passado mais remoto renovar-se em contato com uma inteligéncia presente. Se os grandes classicos so eternos, ¢ porque estéo sempre se modifi- cando, © rio é mais durdvel que o mérmore. 5 1 inddas | Gide dé vontade de ler os cléssicos. Toda vez que os cica, eles tém uma beleza espantosa, esto vivissimos, bem perto, modernissimos. Bossuet, Fénelon, Mon- tesquieu nunca sio tao belos como quando citados por Gide. Parece até crime conhecé-los tio mal. wee Um critic de Gide nfo deveria pretender fazer um retrato bom ou ruim dele, como costumam os bidgra- fos; seu papel deveria ser convidar a nao julgé-lo mal por ignorincia ou, pios, por preteriglo, voluntéria ou nao, de algumas obras ou palavras suas. Em relago a Gide cabe ser “infinitamente respeitoso para com sua perso- nalidade”, assim como ele o foi para com a personalida- de dos outros. O Didrio, justamente, muitas vezes ¢ escrito para retificar a idéia que se possa ter feito de Gide, por citagbes, relatos, palavras inexatas. E um perpétuo acerto de si mesmo; como um escrupuloso operador de camara, ele est sempre acomodando a imagem & visio preguicosa ou malevolente do puiblico. “Eles querem fa- zet de mim um ser tremendamente preocupado. Minha nica preocupacio ¢ ver meu pensamento ser mal inter- pretado” (Journal, p. 864, ano 1927). ee Gostaria que aqueles que criticam Gide por suas con- tradigGes (sua recusa a escolher como todos) se lembras- 6 1 Gotice 1 sem desta pagina de Hegel: “Para o senso comum, a oposicéo entre verdadeiro ¢ falso € algo fixo; ele espera que se aprove ou que se rejeite em bloco um sistema existente. Nao concebe a diferenca entre os sistemas fi- loséficos como o desenvolvimento Progressivo da verda- de; para ele, diversidade quer dizer unicamente contra- dicio [...] O espitito que apreende a contradigéo nio sabe libertd-la e conservé-la em sua unilateralidade, e reconiecer, na forma daquilo que parece entrechocar-se € contradizer-se, momentos mutuamente necessdrios. tee Gide 6, portanto, um ser simultaneo. E quase como se, no comego, tivesse sido dado completo pela Na- tureza. Depois, foi com calma expondo sucessivamen- te 08 diferentes aspectos de si mesmo, mas é sempre bom lembrar que esses aspectos na realidade sio con- tempordneos uns dos outros, como, alids, suas obras: “Custa-lhes admitir que esses diferentes livros coabita- ram coabitam ainda em meu espitito. Eles s6 se suce- dem no papel e devido a grande impo: deixarem escrever conjuntamente. Seja qual for o livro gue escrevo, nunca a ele me dou por inteiro, e 0 tema que me reclama com mais insisténcia logo depois de- senyolve-se, entretanto, na outra extremidade de mim mesmo” (Journal, p. 275, ano 1909). Donde: fidelida- de contradigées,