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Família e patrimônio fundiário:

notas para o estudo da economia


doméstica na antiga Mesopotâmia

Marcelo Rede
Professor de História Antiga
da Universidade Federal Fluminense

Resumo
Nos últimos anos, a análise da vida material doméstica revelou-se um dos setores mais dinâmicos e
profícuos do estudo da economia da antiga Mesopotâmia. Neste artigo, procuramos fornecer um panorama
do debate historiográfico sobre o tema e sugerir algumas direções metodológicas para o aproveitamento dos
arquivos familiares na apreciação da economia doméstica.
Abstract
In recent years, the study of domestic material life has become as one of the most dynamic and
fruitful approaches to ancient Mesopotamia economics.The present article aims to offer a panorama of the
historiographical debate on the subject and to suggest some methodological directions for the use of family
archives for considering the domestic economy.
Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

Q ue a interação entre o homem


e a natureza seja uma dimensão
fundamental da realidade social
é uma evidência bastante clara e bem acei-
pela mudança, pela crise e pela possibili-
dade de desaparecer. A segunda vantagem
é que ela permite ver a natureza não como
um elemento passivo da equação, mas
ta, ao menos na maior parte do tempo, pe- como suporte e condutor material por
los historiadores. Entretanto, ainda há todo meio do qual as relações sociais operam.
um caminho a ser percorrido para com-
preender como, em cada sociedade e em Apropriação ou propriedade?
cada época, é estabelecida a relação entre
os agentes sociais e o ambiente físico que Se podemos falar de apropriação
os cerca. A complexidade reside no fato de como uma dimensão, é porque ela não se
que esta relação não se constrói entre um confunde com a totalidade das relações
ator ativo e um quadro físico pacífico, dado entre a sociedade e a natureza. Tal como a
previamente. Ao contrário, trata-se de rela- entendo aqui, a noção de apropriação cor-
ção construída culturalmente. Deste ponto responde ao conjunto de mecanismos que
de vista, a natureza não existe como um permitem o controle de um segmento da
conjunto de traços prévios à sociedade. É a realidade física. A apropriação é, portanto,
sociedade que, apropriando-se da natureza, composta de dispositivos que regem as re-
acaba por modelar uma lações entre os agentes sociais em função de
natureza, historicamente um acesso, material e imaterial, à natureza.
delimitada no espaço e Entre estes dispositivos, encontram-se todas
A sociedade acaba por no tempo. Isto equivale as práticas e regras de aquisição, todos os
a dizer que não existe meios de impor uma forma física aos vários
modelar uma natureza,
um modelo universal segmentos da realidade, toda sorte de em-
historicamente delimitada ou trans-histórico. Com pregos que aferem um uso social, todos os
no espaço e no tempo efeito, a idéia de uma dispositivos de manutenção e defesa da re-
relação entre os homens lação, que servem para definir as inclusões
e a natureza é bastante e exclusões de acesso, todos os mecanismos
simplista, quase inexata: de disposição, como a alienação e a trans-
para ser mais preciso, dever-se-ia falar, an- missão, todas as operações que conferem
tes, de relações sociais entre pessoas, tendo um sentido imaginário à coisa apropriada.
como vetor a natureza1. Esta precisão tem, Assim definida, a noção de apropriação
a meu ver, uma dupla vantagem. A primei- aproxima-se do conceito de propriedade
ra é enfatizar as relações entretidas pelos tal como ele é entendido por certos antro-
homens no processo social: a apropriação pólogos (mas que não se confunde com
de segmentos da natureza aparece, assim, uma definição estritamente jurídica, como
como um fenômeno social entre outros, veremos). A este propósito, em um longo
suscetível de ser influenciado pelas demais artigo sobre a apropriação da natureza, M.
esferas e também de influenciá-las; deste Godelier escreve: “Designa-se por propriedade um
modo, a apropriação caracteriza-se pela conjunto de regras abstratas que determinam o acesso,
duração, pela tendência à formalização e o controle, o uso, a transferência e a transmissão de
pela busca de continuidade, como também qualquer realidade que possa ser objeto de um interesse”

1
Ver, a este propósito, Scott (1988, p. 36) e a noção de ‘tenure’ em T. Ingold (1986, p. 136): “tenure is an aspect of relations
between persons as subjects (…) tenure engages nature in a system of social relations”.

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e acrescenta que “o conceito pode aplicar-se a qualquer abstrato e coerente de propriedade, que
realidade tangível ou intangível”2. defina os direitos de acesso, acaba por ser
A exemplo de todas as ações sociais, a mais importante que o próprio processo
apropriação é composta de práticas e repre- de apropriação. Esta conceitualização
sentações. Uma mentalidade apropriativa formal, quando existe em dada socieda-
é, portanto, uma dimensão indispensável de, é um fenômeno importante e, sem
do processo de apropriação. Não se trata, dúvida, deve ser levada em consideração
porém, de concepções mais ou menos pelo historiador. Entretanto, do ponto de
formalizadas que resultam da prática apro- vista da natureza da apropriação, ela é
priativa como um simples reflexo mecâni- secundária: historicamente, os modos de
co, mas, ao contrário, de um conjunto de acesso ao universo material não tiveram
atitudes mentais, de caráter coletivo, que necessidade de uma formalização para se
orienta e faz parte intrinsecamente das constituírem enquanto sistemas institu-
ações de controle dos segmentos da nature- cionalizados, socialmente reconhecidos
za. A apropriação deve ser definida, então, e eficazes na definição de condutas de
como uma ação que impõe uma forma controle5. A segunda dificuldade reside no
física ao mundo, que estabelece as funções fato de que uma noção integrada de pro-
dos objetos apropriados em uma estrutura priedade não é necessariamente opera-
social e que, enfim, cria sentidos para as cional em todas as socie-
coisas materiais em um sistema cultural3. dades antigas. O direito
Assim, não se pode deixar de reconhecer romano, de fato, proce- A segunda dificuldade reside
que uma abordagem do fenômeno só será deu a tal unificação: o no fato de que uma noção
completa com um estudo da mentalidade jus utendi fruendi et abutendi integrada de propriedade não
apropriativa mesopotâmica4. supõe uma associação, é necessariamente operacional
A noção de apropriação não somen- sob a mesma noção,
em todas as sociedades antigas
te é mais larga do que a de propriedade, entre dimensões muito
no sentido jurídico, como também per- diversas do processo de
mite evitar algumas aporias resultantes da apropriação. Em muitas
aplicação desta última às sociedades que sociedades, porém, as capacidades de
se situam à margem da tradição do direito usar, gozar e dispor de um determinado
romano. Para se limitar ao essencial, as bem não são forçosamente cumulativas e,
dificuldades de utilização de uma noção sobretudo, não foram fundidas em uma
jurídica de propriedade no caso meso- mesma categoria jurídica. E isto ocorre,
potâmico são duplas. Primeiramente, a muito simplesmente, porque, na reali-
tendência predominante entre os juristas dade social, elas podiam corresponder a
confere uma importância excessiva à for- direitos divergentes, que não pertenciam
malização: a formulação de um conceito à mesma pessoa ou ao mesmo grupo6. Se

2
M. Godelier (1978, p. 11), reeditado em Godelier (1984); a mesma noção será apresentada pelo autor em seu artigo “Proprietà” da
Enciclopédia Einaudi, cf. Godelier (1986, p. 367).
3
Para a definição da cultura material a partir do processo de apropriação social, ver U. B. de Meneses (1983).
4
Notemos que isto implicaria uma incursão em domínios muito distantes da história econômica, especialmente nos estudos das mentalidades
coletivas. A este respeito, citemos o artigo seminal, mas imerecidamente esquecido, de Elena Cassin (1952) sobre os símbolos de cessão
imobiliária na Mesopotâmia.Ver, igualmente, M. Malul (1988, sobretudo os capítulos 7 e 8).
5
Por exemplo, a ambigüidade, no pensamento marxista, entre a propriedade como uma relação social de produção e, de outro lado, como uma
expressão legal é derivada, justamente, da influência das formulações do direito romano sobre Marx (cf. CAHAN, 1994-1995).

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tomarmos o caso mesopotâmico, perce- cada um desses fenômenos constitui-se a partir


beremos, justamente, que uma leitura de uma definição de sua espacialidade8.
legalista e teleológica do problema aca- Como as estratégias de apropriação po-
bou por considerar a ausência de uma dem mudar consideravelmente em função dos
noção abstrata de propriedade, forma- objetos implicados, é necessário definir clara-
lizada e unificada, como característica mente o que se entende por patrimônio fundi-
de um sistema legal imperfeito, forjado ário.A tarefa parece-me ainda mais importante
a partir de um nível demasiado fraco de devido a uma grande falta de especificidade
consciência dos fenômenos jurídicos, em que predomina nos estudos sobre a proprie-
uma perspectiva evolucionista na qual dade fundiária na Mesopotâmia, um domínio
o direito romano aparece como o ideal que já conta com longa tradição.As expressões
por excelência7. ‘propriedade fundiária’ e ‘propriedade da
terra’ são, com efeito, demasiadamente vagas
Espaços e, ao mesmo tempo, convidam, ao menos em
princípio, a pensar principalmente nos espaços
Os objetos implicados nas relações de que são objeto de uma apropriação produtiva,
apropriação são múltiplos: os recursos naturais, como os campos agrícolas e os pomares. No
os instrumentos, os artefatos, a produção, mas entanto, a problemática da apropriação do
igualmente os privilégios e espaço não se reduz ao acesso aos meios de
as posições, os papéis má- produção elementares da economia agrária.
gicos e religiosos, o mando Este é, sem dúvida, de enorme importância,
Todo processo de e a autoridade. Portanto, mas, ainda que todos os espaços tenham nor-
apropriação desenrola-se coisas materiais e imateriais. malmente um valor econômico, sua inserção
a partir de uma inserção Neste quadro, pode-se dizer social não se define sempre a partir de critérios
espacial que o espaço é um elemen- prioritariamente econômicos, e menos ainda
to privilegiado, pois todo a partir de sua integração ao circuito de pro-
processo de apropriação dução de riquezas.
desenrola-se a partir de uma A Arqueologia, por sua vez, enfatizou
inserção espacial. De modo um outro tipo de espaço, a habitação. Tradi-
ainda mais geral, é o próprio processo social cionalmente concentrada nas zonas urbanas,
que se ancora no espaço: mobilidade ou fixação a atividade de escavação privilegiou, durante
territorial, habitação, produção, limites geográ- muito tempo, as grandes estruturas arquite-
ficos da identidade do grupo, extensão do poder tônicas dos palácios e templos, assim como
político, vínculo de origem com os ancestrais... os contextos funerários9. Os últimos decênios

6
Este seria, por exemplo, o caso no Egito antigo: ver Menu (1988); no mesmo sentido, cf. Manning (1995, p. 247), mas ver também
Theodoridès (1977), para quem o desmembramento dos direitos não revogaria a noção de propriedade.
7
Ver, por exemplo, Cardascia (1959). Se Szlechter (1958) evita uma comparação tão marcada com o ‘direito moderno’, ele chega a conclusões
similares às de Cardascia, enfatizando o caráter fragmentário da noção mesopotâmica de propriedade. É interessante notar que, como resultado
de uma visão formalista do problema, os dois autores valorizam, em suas argumentações, a ausência de um vocábulo sumério ou acadiano para
indicar a idéia de ‘propriedade’. Malgrado os inconvenientes, a noção romana é o ponto de partida da maior parte dos estudos assiriológicos e
bíblicos sobre a propriedade (ver, por exemplo, o artigo “Propriété” de Maon, 1972).
8
Para a problemática da construção social do espaço, ver, dentre outros: Lawrence e Low (1990) e Gottdiener (1985), que fornecem um quadro
das tendências presentes no estudo da espacialidade em antropologia.Ver, igualmente, Sack (1986), Rapoport (1994) e Kent (1990).
9
Paradoxalmente, essa concentração não facilitou o reconhecimento do caráter verdadeiramente urbano dos sítios mesopotâmicos pela arqueologia
nascente no século 19, cuja ideologia predominante associou o ‘despotismo oriental’ à ausência de verdadeiras cidades (cf. Liverani, 1997, p. 85
s.). A inexistência de quarteirões residenciais nas primeiras capitais assírias escavadas tornava as evidências ainda mais enganadoras (p. 88).

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viram, porém, uma valorização dos espaços mento (ou laços de afinidade). Esta definição
domésticos10. No contexto mesopotâmico, sempre poderá se tornar mais complexa: por
a habitação certamente não é desprovida exemplo, a filiação legítima pode ser real ou
de aspectos produtivos, mas sua natureza é fictícia (por adoção), etc. Por outro lado, o
determinada por ser um espaço de interação grupo pode assumir formas muito variáveis,
social e simbólica do grupo doméstico. A por exemplo, por causa da articulação com
abordagem arqueológica contribuiu bastante os padrões de residência.
para a compreensão dos diversos aspectos da Infelizmente, a situação na Mesopo-
função das residências, para a formação de tâmia do início do segundo milênio não é
uma tipologia arquitetônica, para o estudo da totalmente clara e é objeto de disputa entre
articulação entre as casas e o tecido urbano e os especialistas. No principal debate sobre o
mesmo para o entendimento das implicações assunto, trata-se de saber se a família tinha
simbólicas da presença das caves funerárias nos uma estrutura nuclear ou alargada. A família
subsolos das casas11. No entanto, no que diz nuclear (ou conjugal, restrita, elementar) é,
respeito ao estabelecimento, à manutenção e à normalmente, composta pelo casal e seus
ruptura das relações de apropriação, os dados filhos celibatários, enquanto que a família
arqueológicos são apenas complementares e alargada (extended family, na terminologia in-
o essencial da análise deve ser feito a partir da glesa) é constituída por membros de três ou
documentação escrita12. mais gerações, sendo que
os filhos casados habitam
Família e grupo doméstico No principal debate
geralmente com seus pais.
O grupo doméstico não se confunde As realidades podem ser sobre o assunto, trata-se
com a família, mesmo se esta é a espinha muito mais nuançadas ou de saber se a família tinha
dorsal daquele. Se começamos por tentar complexas: por exemplo, uma estrutura nuclear
caracterizar a família na época babilônica a família nuclear pode ou alargada
antiga, somos confrontados com uma admitir a incorporação
dupla dificuldade. de um outro membro
A família pode ser definida, em senti- (um parente viúvo, um
do amplo, como sendo o grupo de pessoas irmão ou uma irmã celibatários), sem que
relacionadas pelos laços de parentesco, ou isto altere profundamente sua estrutura
seja, pela filiação e pelas alianças de casa- básica13. Por vezes, um dos filhos (em geral,

10
Esse foi, dentre outros, um resultado das abordagens orientadas pela ‘gender archaeology’ e pelos estudos sobre os espaços femininos na
sociedade; ver Matthews (2003, p. 25).
11
Para a época babilônica antiga, além dos trabalhos de Calvet (1993, 1994, 1997, 2003), ver Stone (1981, 1987, 1991); Luby (1990);
Keith (1999); Battini-Villard (1999) e P. Brusasco (1999-2000). Alguns aspectos da dimensão religiosa da casa foram tratados por Van
Der Toorn (1999, p. 143 s.). Para a região Siro-Palestina: Chesson (1997). Para as épocas posteriores, citemos Deblauwe (1994a e 1994b),
M. Chavalas (1988) e Wright (1994) para Larsa neo-babilônica e aquemênida. Para a arquitetura doméstica no terceiro milênio, ver Robert
(1995). Uma primeira tentativa de sistematização tipológica das plantas das residências mesopotâmicas foi feita por Müller (1940).Ver,
ainda, os trabalhos reunidos por K. R.Veenhof (1996, em particular as contribuições de O. Aurenche e J. C. Margueron).
12
Esse caráter complementar da abordagem arqueológica é, contudo, essencial, pois é a arqueologia que tem o potencial de “testar e afinar” as teorias
sobre a propriedade propostas pelas ciências sociais, como afirma Earle (2000). Para a contribuição dos dados arqueológicos na reconstituição de
sistemas de propriedade, ver Gilman (1998). Para a utilização conjunta de dados textuais e arqueológicos, ver Castel e Charpin (1997).
13
Infelizmente, estamos muito mal informados acerca das repercussões da concubinagem sobre a forma da família mesopotâmica. No caso da
incorporação de uma esposa secundária com funções reprodutivas (quando a esposa é uma sacerdotisa a quem seja proibido parir, por exemplo), a
estrutura nuclear não parece ser seriamente afetada. Em todo caso, se a concubinagem é admitida, ela parece ser pouco difundida. Para os aspectos
legais da concubinagem, ver R.Westbrook (1988: 103 ss.). Para a poligamia, na Mesopotâmia, em geral, ver: Friedl (2000).

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o primogênito) permanece no lar paterno tência de formas alargadas, em particular a


mesmo após o casamento, em co-habitação família ramificada. No mesmo sentido, Gelb
(stem family)14. (1979, p. 56 ss. e p. 75 ss.) propõe uma coe-
Certos autores, notadamente os marxis- xistência entre as formas nucleares e as formas
tas, defenderam a existência de uma estrutura alargadas (com variantes como as famílias
familiar alargada na Mesopotâmia do terceiro ramificadas e os grupos formados por irmãos
milênio a.C., mas também durante o milênio e seus respectivos grupos nucleares: fraternal ou
seguinte, em que, contudo, ela apareceria de joint family). Em um trabalho recente, fundado
modo alterado ou residual15. Reconhecendo as em dados arqueológicos relativos às casas, no
dificuldades documentais, Diakonoff (1985, p. estudo de arquivos familiares e na comparação
52; 1996, p. 58) propôs que a família alargada etnográfica, Brusasco (1999-2000) defendeu
fosse ainda presente no reino de Larsa durante que, na cidade de Ur, os dois modelos, nuclear
a época babilônica antiga. Uma opinião dia- e alargado, tenham convivido17. Em Larsa, a
metralmente oposta foi expressa por Leemans impressão que se depreende da observação
(1986), para quem não há traços de tal estru- das transações imobiliárias, dos registros de
tura familiar nessa época16. casamento e das partilhas de herança é de
Certamente, a passagem do terceiro para predomínio de um modelo nuclear de orga-
o segundo milênio conheceu uma atomização nização familiar18. Por vezes, certos elementos
da organização familiar, sugerem formas mais alargadas, sobretudo
porém, uma evolução uní- com a inclusão de um parente secundário ou
Certamente, a passagem voca por etapas, do grupo a presença de filhos de uma segunda esposa.
do terceiro para o segundo alargado para a unidade No mais, também é possível que, por razões
nuclear, é difícil de ser de- documentais, as estruturas nucleares sejam
milênio conheceu
monstrada. Alguns autores mais visíveis que as estruturas alargadas, fal-
uma atomização da alertaram, com efeito, para seando a observação do historiador19.
organização familiar a complexidade do proble- É igualmente difícil estabelecer o padrão
ma. J.-J. Glassner (1986, residencial predominante, mas eu me inclinaria
p. 111 s.), por exemplo, por uma preponderância da habitação neolocal,
sustenta que, na Babilônia, com os filhos partindo do lar para constituir
a forma clássica era, aparentemente, a família uma casa independente, mesmo se as relações
nuclear, mas reconhece igualmente a exis- com a casa paterna possam permanecer muito

14
Para as definições, ver, por exemplo, Laburthe-Tolra e Warnier (1993, p. 82 s.); Deliège (1996, p. 13 ss.); Parkin (1997, p. 28 ss.); Segalen
(2000, p. 36 s.). O estudo assiriológico mais completo é ainda o de Gelb (1979).
15
Ver, em geral: Diakonoff (1969, p. 20 s.; 1982, p. 37 ss.; e 1996). Para o terceiro milênio, ver sobretudo: Diakonoff (1974, p. 8; e também
1971, p. 15 ss.; 1991, p. 80). Para o segundo milênio: Diakonoff (1971, p. 22 ss.; 1972, p. 43 s.; 1975, p. 125 e p. 132; e, sobretudo,
1985, p. 47 ss.) e Jankowska (1969).
16
Van De Mieroop (1992, p. 215) reconhece a existência da família alargada em Ur, nos inícios do segundo milênio, mas sem lhe conferir um
papel econômico relevante na cidade. Charpin (1996, p. 225, n. 17) pensa que não há indicações de cohabitação de famílias extensas em Ur e
que a regra fosse a residência fundada sobre grupos nucleares. Contra essa visão, ver a tese de Brusasco mais adiante.
17
Ver também Stone (1996, p. 234). No mesmo sentido, para o terceiro milênio sírio, ver Pfälzner (1996), que sugere também a presença
de estruturas poligâmicas. O problema da dimensão da família tem atraído a atenção dos arqueólogos nos últimos anos; para um balanço, ver
Matthews (2003, p. 167 ss.).
18
Ver Charpin (1996, p. 225).Tem-se a mesma impressão analisando os ‘códigos’ de leis da época: as realidades que transparecem por trás dos
parágrafos das leis de Eshnunna (§§ 16-18; 25-30; 38 e 59) e do código de Hammu-rabi (§§ 128-195) são mais compatíveis com uma
estrutura familiar nuclear. Por exemplo, a permissão dada à mulher de um marido ausente, em situação de penúria, de tomar um segundo esposo
(CH § 134 s.; ver também LE § 29) sugere a inexistência de mecanismos eficazes de solidariedade próprios aos grupos alargados.
19
Um dos fatores seria o fato de que as estruturas alargadas eram mais importantes na zona rural, muito menos representada nas fontes.

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fortes do ponto de vista econômico, simbólico, tes ou escravos. Ele é fundado sobre a unidade
etc. Outros autores penderam para uma forma familiar, mas é também um empreendimento
patrilocal (por exemplo, GLASSNER, 1986, p. material mais vasto, articulando um conjunto
115). É verdade que se nota uma tendência de patrimonial, meios de produção, instrumen-
um filho retomar à casa paterna, comprando tos, mão-de-obra, etc. E, sobretudo, o grupo
as parcelas dos co-herdeiros, mas é difícil saber doméstico configura-se como uma entidade
se ele havia permanecido na casa paterna após tendo uma lógica própria, autônoma, que nem
o casamento (formando, então, uma família sempre se confunde com a lógica familiar e, por
ramificada patrilocal) ou se partira por ocasião vezes, está em contradição com ela.
do casamento, retornando posteriormente. Em No domínio antropológico, a
todo caso, os demais irmãos teriam constitu- nomenclatura relativa a esta entidade é
ído novas residências com suas esposas20. As freqüentemente instável. O que entendo,
situações de co-habitação e indivisão real do aqui, por grupo doméstico aproxima-se
patrimônio entre os irmãos após a morte dos da noção de ‘household’ da tradição anglo-
pais poderiam indicar uma tendência patrilocal, saxônica, que os franceses traduzem cor-
mas, em geral, não sabemos se era o caso de riqueiramente por ‘ménage’22. Na França,
filhos casados ou celibatários.A única coisa que na esteira dos trabalhos de Lévi-Strauss,
parece segura é que, normalmente, a filha deixa que falava de ‘sociétés à maison’, encon-
a casa de seus pais para se casar21. traremos ‘maisonnée’ ou
O fenômeno da apropriação está intima- simplesmente ‘maison’23.
mente ligado às realidades familiares, mas tam- Em um recente esfor- O fenômeno da apropriação
bém à existência, na sociedade mesopotâmica, ço para estabelecer o está ligado às realidades
de uma instituição que incorpora e supera a vocabulário relativo ao
família. O grupo doméstico é, sem dúvida, parentesco, o glossário familiares, mas também à
ancorado nas relações de parentesco que vin- publicado pela revista existência de uma instituição
culam um certo número de seus membros, L’Homme definia ‘mai- que incorpora a família
aqueles que formam seu núcleo duro, mas ele son’ como sendo uma
integra igualmente pessoas ligadas por outras “pessoa moral detentora de
formas de relação, por exemplo, os dependen- um domínio composto por

20
No código de Hammu-rabi (§ 166), as disposições que prevêem uma parte suplementar para os cadetes celibatários, no momento da partilha,
destinam-na explicitamente ao pagamento do dom nupcial (terhatum); essa parte muito dificilmente poderia ser considerada como um subsídio
para uma instalação neolocal.
21
As informações são, infelizmente, muito fragmentárias. Em um texto encontrado em Ur (UET,5,636), a noiva deixa a casa de seus pais
para viver com seu marido, que habita em Larsa. A transferência é feita depois que os familiares do noivo deslocaram-se até Ur para entregar os
presentes de casamento (biblum) para os pais da noiva. Antes de retornar com sua futura esposa, o noivo morou na casa de seu sogro durante
quatro meses (para a edição do texto, ver Greengus, 1966, a completar com Charpin, 1986b, p. 61 ss.). Para Brusasco (1999-2000, p. 117),
esse caso poderia indicar que o modelo de residência, na época babilônica antiga, fosse patrilocal. O texto não explicita, porém, se, em Larsa, o
casal habitaria na casa dos pais do noivo ou em uma nova residência (o próprio Brusasco havia sugerido um modelo neolocal para o caso de
uma outra família que habitava na mesma rua de Ur, cf. p. 116; essa dualidade está, evidentemente, ligada à presença simultânea de famílias
nucleares e alargadas em Ur: ver quadro 2.5 e figura 2.18). É preciso considerar também que o documento considerado aqui remete a uma
aliança entre duas famílias que habitam cidades diferentes, o que pode ter influenciado a escolha do modo de residência. Por seu lado, o parágrafo
141 do código de Hammu-rabi prevê que, no caso de o marido repudiar legitimamente sua esposa, ele não seria obrigado a pagar-lhe as despesas
de viagem (harrânum), o que parece indicar que, normalmente, era a mulher que se deslocava para o casamento.
22
Para a problemática da ‘household’ e suas relações com a noção de família, ver os artigos reunidos por Netting,Wilk e Arnould (1984)
e por Laslett Wall (1972), em particular o de Goody e a introdução de Laslett (reeditado nos Annales, 27, 1972); ver também Netting
(1993, principalmente o capítulo 2). Para a Mesopotâmia, ver Maisels (1998, p. 171 ss.).
23
Ver inicialmente Lévi-Strauss (1979, 1984). Para uma apreciação do conceito de ‘maison’ em Lévi-Strauss, ver os artigos reunidos por
Carsten e Hugh-Jones (1995) e Joyce e Gillespie (2000).

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bens materiais e imateriais e que se perpetua pela Os sistemas de apropriação


transmissão de seu nome, de seus bens e títulos em doméstica
linha real ou fictícia”. O mesmo glossário
dá uma outra definição para ‘grupo do- Para bem isolar e situar as realidades
méstico’: “unidade social que tem fundamentos de que é questão aqui, é preciso fazer uma
residenciais, econômicos, rituais etc.”. As duas distinção preliminar. O sistema de apropria-
definições parecem-me complemen- ção doméstico não é um bloco monolítico,
tares face à realidade social que quero feito de uma só relação de controle do espa-
exprimir aqui24. ço. Ao contrário, há um acúmulo dos modos
A distinção entre família e grupo do- de acesso, de origem e natureza diversas,
méstico nem sempre é evidente e a tarefa nos quais o grupo doméstico participa a
não é facilitada pela terminologia utilizada diferentes títulos.Três deles são encontrados
pelas próprias sociedades estudadas25. É freqüentemente em toda história da Meso-
exatamente o caso da antiga Mesopotâmia. potâmia, embora com variantes locais mais
Se podemos reivindicar uma oposição de ou menos importantes:
base entre kimtum, família (im-ri-a em a) A primeira fonte de acesso doméstico ao
sumério) e bîtum, casa ou grupo doméstico espaço é o fato de pertencer à comunidade.
(sumério: é), o uso dos termos e a interven- No início do segundo milênio, este era
ção de outros vocábulos apenas um sistema residual, mas que ainda
(nishum, nishûtum, emûtum, exercia influência sobre a distribuição de
etc.) tornam as coisas parte dos campos cerealíferos às famílias.
Neste caso, as regras de transmissão entre
A distinção entre família mais opacas 26. Não se as gerações são mal conhecidas, mas é
e grupo doméstico nem trata, a meu ver, de um
muito provável que a manutenção dos
fenômeno de falta de pre-
sempre é evidente cisão ou de ambivalência
laços com a comunidade constituía con-
dição indispensável para a continuidade
semântica: é preciso con- da ocupação;
siderá-lo, antes, como
b) Certas famílias, das quais um ou mais
parte de uma ambigüida- membros faziam parte da administração
de estrutural da sociedade palaciana, controlavam também terrenos
mesopotâmica, dividida entre as realidades ou imóveis concedidos em troca da pres-
do parentesco e do grupo doméstico. tação de serviços, a título de remuneração.

24
Barry et al. (2000, p. 727); a noção de ‘maison’ apresentada, com efeito, é quase literalmente a de Lévi-Strauss no artigo homônimo do
Dictionnaire de l’Ethnologie et de l’Anthropologie editado por Bonte e Izard (cf. LÉVI-STRAUSS, 1991, p. 434 ss.). Neste
mesmo dicionário, Lenclud (s.v. groupe domestique) faz a distinção entre ‘famille’, ‘maisonnée’ e ‘groupe domestique’. Se estou
de acordo em considerar separadamente a primeira, pois ela “remete aos laços de parentesco”, como afirma o autor, estou menos convencido da
necessidade conceitual e das vantagens analíticas de se operar uma clivagem entre a estrutura “que partilha da habitação e da residência em geral”
(a ‘maisonnée’, na definição do autor) e, de outro lado, “o conjunto de indivíduos que realizam em comum e cotidianamente as tarefas de
produção necessárias a sua subsistência e que consomem juntos os produtos de seu trabalho” (o ‘groupe domestique’).
25
Uma das características reparadas por Lévi-Strauss foi, justamente, que a realidade da ‘maison’ é expressa pela linguagem do parentesco e da
aliança, o que dificultou o reconhecimento desta dimensão pelos analistas (por exemplo, entre os Kwakiutl, que serviram de ponto de partida de
seu estudo). Na Mesopotâmia, um fenômeno análogo é a utilização dos termos do parentesco para exprimir relações políticas entre os soberanos;
ver Liverani (1994, p. 168 s. e p. 178s.; e 2000, p. 18s.) e Schloen (2001, p. 256 s.).
26
Para a terminologia, ver Gelb (1979, p. 2 s.). Para o termo bîtum, o CAD (B, p. 282) registra, entre outros: house, dwelling place, manor,
estate, mas também household, family, aggregate of property of all kinds. A mesma ambigüidade é atestada pelo AHw (1, p. 132 s.):
Haus, Familie, Hausgemeinschaft, etc. Para o termo kimtum, os dicionários tendem a reconhecer somente o sentido estrito de ‘família’ ou de
conjunto de parentes (CAD, K, p. 375; AHw, 1, p. 479), mas vários contextos sugerem um sentido mais abrangente, próximo de ‘grupo doméstido’ (ou
‘maisonnée’). Glassner (1986, p. 109 s.) nos lembra que o primeiro significado de im-ri-a poderia ter sido, justamente,‘espaço’.

78 História e Economia Revista Interdisciplinar


Marcelo Rede

A substituição parcial do sistema de rações variável e não necessária, destas três formas
pela concessão de campos de subsistência elementares de controle27. No entanto, li-
foi uma característica da transição do mitando-se a esse esquema, poder-se-ia ter
terceiro para o segundo milênio e, sem a impressão de que os três sistemas eram
dúvida, foi intensificado com as conquistas
independentes e que o parentesco exercia
de Hammu-rabi. Parece que este sistema
foi freqüentemente fonte de conflito por influência apenas sobre o último. Nada é
causa do estatuto incerto da ocupação mais incorreto: uma vez geridos pela fa-
(sobretudo se o servidor estava ausente) mília, todos os bens imobiliários acabavam
e de confusão com os campos cultivados sendo associados às teias da parentela. Por
diretamente pelo palácio. Em todo caso, a exemplo, no que diz respeito aos terrenos
transmissão à geração seguinte era limitada propriamente familiares, o parentesco
por restrições mais ou menos eficazes por define uma fronteira além da qual alguns
parte do palácio e dependia fundamen- dos membros do grupo doméstico são
talmente da continuidade do exercício da
excluídos das decisões de controle; esse é,
função pelo filho do beneficiário. Neste
caso, a herança (transmissão de bens) manifestamente, o caso dos escravos e de
confundia-se com a sucessão (transmissão todas as pessoas que, embora ligadas ao
de funções e status). empreendimento econômico do grupo,
c) A apropriação propriamente familiar, não pertencem a ele por filiação ou alian-
no sentido de que é fundada sobre relações ça de casamento. Ora,
de parentesco, forma um terceiro modo esta mesma fronteira de
de controle. Este sistema delimita uma parentesco impor-se-á na O parentesco define uma
categoria de bens de que a família pode gestão dos espaços ocu- fronteira além da qual alguns
dispor mais livremente (daí a possibilida- pados a título funcional dos membros do grupo
de de alienação), permanecendo, porém, ou daqueles provenientes doméstico são excluídos
submetida às limitações das relações de da comunidade. Contu-
parentesco: estas servem de vetor do mo-
do, se os limites entre os
das decisões de controle
vimento dos bens; por exemplo, a trans-
missão intergeneracional seguia a filiação, três modos de acesso são,
ao mesmo tempo em que era influenciada por vezes, pouco claros
pelas alianças de casamento. (seja para o historiador,
seja para os próprios mesopotâmios, como
Evidentemente, nem todas as famílias mostram as disputas), as diferenças não se
tomavam parte nos três sistemas ao mesmo apagam completamente e, se os laços de
tempo ou com a mesma intensidade. Ha- parentesco são essenciais para o terceiro,
via diferenças em função do status social para os dois primeiros são apenas secun-
e também entre o meio urbano e rural: a dários. Ao lado da alienação, a herança
elite urbana que participava da estrutura aparece, justamente, como o domínio em
palaciana podia receber mais freqüente- que tais distinções podem ser observadas
mente possessões funcionais, enquanto de modo mais preciso. Como bem notou
que a população aldeã dependia mais Liverani (1984, p.39 s.), mesmo se, na
diretamente de terras providas pela comu- base, as relações de consangüinidade são
nidade rural, por exemplo. A apropriação próprias à esfera familiar, enquanto que os
doméstica era o resultado da composição, critérios funcionais são característicos do

27
Assim, vemos que os controles comunal e familiar não representam dois estágios de uma evolução linear, mas constituem combinações que
variam segundo a inserção da família no complexo quadro da ocupação e da exploração do espaço (ver NETTING, 1993, p. 187 s.).

Vol. 3 - n. 1 - 2º semestre 2007 79


Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

setor palaciano, é possível haver influências ria no terceiro milênio, não será inútil
de um sistema sobre o outro. Por exem- fornecer alguns elementos gerais para
plo, a existência de laços de parentesco entender a trajetória da historiografia
pode alterar as regras de transmissão dos econômica mesopotâmica.
bens palacianos detidos pelos familiares, Por muito tempo, as idéias formu-
sobretudo no caso de uma remuneração ladas por Deimel (1931) e Schneider
por meio de alocação de campos, quando (1920) sobre a estrutura da socieda-
a sucessão de pai para filho termina por se de suméria durante os três primeiros
impor, pois as competências técnicas são quartos do terceiro milênio a.C. (ou
freqüentemente transmitidas no interior período Dinástico Arcaico) dominaram
da família. Uma segunda fonte de confusão o horizonte dos estudos. Elaboradas nos
vem do fato de que uma das características anos 20 e 30, as teorias do Tempelstadt e
do sistema administrativo palaciano na Me- da Templewirtschaft formularam a hipótese
sopotâmia é a apropriação pelos servidores segundo a qual o Templo-Estado – uma
dos meios da administração28: os terrenos instituição central complexa, de nature-
não escapam a esta lógica e constatamos za simultaneamente religiosa, política
a existência de ocupações tipicamente e econômica – exerceria um controle
familiares em terras palacianas29. absoluto dos recursos produtivos natu-
rais (em particular, a terra, mas também
O controle das terras e a os recursos hídricos), da mão-de-obra
natureza da economia: o debate (agrícola ou não) e das atividades agrá-
historiográfico rias, artesanais e mercantis (locais, mas,
sobretudo, o comércio de longa distân-
A problemática da apropriação do espa- cia). Os templos exerceriam, igualmente,
ço encontra-se no cruzamento de dois impor- uma grande influência política e religio-
tantes debates historiográficos com grandes sa sobre o conjunto da sociedade. Na
implicações teóricas e metodológicas. década de 50, com algumas adaptações,
O primeiro desses debates é mais a mesma idéia geral, agora sob o nome
específico aos estudos assiriológicos e de Cidade-Templo, foi retomada por
diz respeito aos modos de acesso aos Falkenstein (1954) 30. Por vezes, esses
bens fundiários na Mesopotâmia. Trata- mesmos postulados de uma economia
se, especialmente, de saber quais eram as altamente centralizada foram aplicados
instâncias que controlavam a terra agrí- nas explicações da situação dos últimos
cola. Como a discussão sobre a situação séculos do terceiro milênio, ou seja,
no início do segundo milênio é bastante para a terceira dinastia de Ur (dita Ur-
ligada àquela acerca da economia sumé- III) e, em menor grau, para o período

28
Essa é uma característica dos sistemas tradicionais, segundo Weber (1968, p. 1028 ss.), por oposição à administração burocrática moderna,
em que os bens administrativos são estritamente separados das prerrogativas dos funcionários e não se confundem com sua propriedade pessoal.
Goody (1962, p. 305 s.) inclina-se, ao contrário, a pensar que os sistemas tradicionais também operavam uma distinção, embora menos
desenvolvida, entre bens pessoais e bens institucionais (do mesmo modo que entre a propriedade ancestral e a adquirida por compra), mas admite
a tendência da lógica familiar em absorver a propriedade corporativa.
29
Problemas semelhantes são também comuns quando da sucessão do patrimônio mobiliário dos funcionários palacianos mortos: as disputas
entre as autoridades e os descendentes são típicas desta situação; ver a este propósito Lafont (2001) e Van Koppen (2002).
30
Para uma avaliação das teorias e das reações contrárias, ver Foster (1981); para as diferentes posições a respeito do controle das
terras, ver Powell (1994).

80 História e Economia Revista Interdisciplinar


Marcelo Rede

sargônico, que a precedeu. A diferença mo tempo em que sugeriram a existência


residia no fato de que, nesses casos, os de um setor comunal (ou privado-co-
templos sumérios haviam cedido lugar munitário), atuando no controle dos
para uma estrutura palaciana fortemente recursos fundiários e na organização da
centralizada. Mas, também aqui, o argu- produção agrícola 32. Por outro lado, um
mento fundamental foi o considerável segundo questionamento, representado
controle das terras pelo Estado, impondo em um primeiro momento pelos estudos
um papel apenas residual, ou mesmo inovadores de Gelb (1969), enfatizava as
inexistente, a outras formas de acesso formas de apropriação privada do solo
fundiário. Assim, para diversos autores, durante o terceiro milênio 33.
a formação sócio-econômica de Ur-III Não se trata, aqui, de detalhar o
seria uma recomposição, adaptada às debate sobre a economia suméria34, mas
novas circunstâncias, dos princípios de de insistir sobre o fato de que os estudos
monopólio centralizado da época dos acerca da economia babilônica, nos inícios
Templos-Estados sumérios anteriores. do segundo milênio foram, de certo modo,
Este modelo explicativo exerceu uma influenciados por essa reação às teorias de
grande influência entre historiadores natureza ‘estatizantes’. Em outros termos, a
de tendências diversas e mesmo franca- historiografia econômica do período babi-
mente opostas 31. A partir dos finais dos lônico antigo nasceu sob
anos 50, entretanto, esta visão foi vigo- o signo do predomínio
rosamente contestada. As novas aborda- da economia privada. Se A historiografia econômica
gens seguiram, basicamente, duas vias, W. F. Leemans não foi o do período babilônico
mais concorrentes que complementares. primeiro a valorizar esta antigo nasceu sob o
Uma primeira contestação da teoria do perspectiva privatista, foi, signo do predomínio da
Templo-Estado surgiu nos trabalhos da certamente, um dos seus
economia privada
chamada escola de Leningrado, reunida representantes mais enfá-
em torno de I. M. Diakonoff. Os his- ticos. Em seu estudo sobre
toriadores soviéticos questionaram o os mercadores babilôni-
monopólio das terras pelas organizações cos, datado de 1950, ele já anunciava uma
complexas (templos e palácios), ao mes- abordagem que iria nortear todos os seus

31
Citando apenas alguns exemplos: Falkenstein (1954); Kraus (1954b); Pettinato (1968, mas ver as posições sensivelmente alteradas do autor
em Pettinato, 1999); Limet (1979);Tyumenev (1969). Outros autores, como P. Koschaker, M. David e B. Landsberger, forjaram expressões
representativas desta tendência e que, ao mesmo tempo, revelam suas claras influências contemporâneas: Staatssozialismus; etatistiche
Wirtschaft; etatistisch organisiertes Stadtstaatentum; state socialism on a sacral basis (cf. GELB, 1969, p. 146 ss.).
32
Entre os trabalhos da escola de Leningrado, ver Diakonoff (1972, 1974, 1975; para as sínteses mais recentes, ver: 1991, p. 21 ss.; e 1999,
p. 80 ss.). Pecirková (1979) oferece um balanço dos estudos soviéticos sobre a história social e econômica mesopotâmica (concentrando-se, no
entanto, sobre o primeiro milênio); ver também Klima (1975).
33
Ver também Leemans (1983). Por sua vez, Komoróczy (1978) sublinhou a importância da propriedade privada na transição entre o terceiro
e o segundo milênios. Gelb coordenou o importante trabalho de reunião e edição da documentação referente às transferências imobiliárias durante
o terceiro milênio (ver: GELB, STEINKELLER e WHITING, 1991).
34
Em um outro domínio, dessa vez arqueológico, ver-se-á com proveito as críticas à tese do Templo-Estado formuladas por Nissen (1982). Para
a questão do controle das terras, além dos trabalhos de Pettinato e o volume organizado por Gelb, Steinkeller e Whiting, citados na nota anterior,
ver também Grégoire (1981); Glassner (1985, 1995); Steinkeller (1988, 1999a, 1999b); Neumann (1988); Driel (1998); Edzard
(1996); Buccellati (1996); e, especificamente para a época de Akkad, Foster (1982) e Bridges (1981). Os dados para a região setentrional
durante o terceiro milênio são raros; ver, entretanto,Wilkinson (2000) e Driel (2000). Para o funcionamento da agricultura, ver sobretudo os
trabalhos de K. Maekawa (1974, 1977, 1986, 1987). Para uma visão panorâmica da economia suméria, ver B. Lafont (1999) e, para os
problemas teóricos, ver Garfinkle (2000, p. 1 ss.).

Vol. 3 - n. 1 - 2º semestre 2007 81


Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

futuros trabalhos: o controle das terras pelos fundado sobre os mesmos mecanismos de
mercadores aparecia, na visão de Leemans, um mercado constituído pela oferta e de-
como um elemento essencial da ascensão de manda. Assim, para nos limitarmos ao que
uma camada de agentes comerciais privados nos interessa aqui, a circulação imobiliária
independentes no início do segundo milênio, nas economias pré-capitalistas seguiria
quando o sistema econômico centralizado os mesmos princípios que governam o
que vigorava durante a terceira dinastia de Ur mercado de imóveis em uma economia
foi substituído por uma nova configuração, de mercado, as diferenças sendo mais uma
na qual o papel econômico dos palácios, nos questão de grau. Conseqüentemente, os ins-
novos reinos semitas que se formam então, trumentos analíticos para compreender es-
é enfraquecido em benefício do empreendi- ses fenômenos seriam os mesmos previstos
mento individual. Individual, e não familiar pela teoria econômica clássica. Em oposição,
ou doméstico35. Os estudos de arquivos pri- encontram-se aqueles que reconhecem uma
vados, desenvolvidos sobretudo a partir dos especificidade histórica às formações eco-
anos 80, foram, em grande parte, tributários nômicas da Antigüidade e a impossibilidade
desta orientação teórica. Se os arquivos eram de operar a sua análise com as ferramentas e
manifestamente familiares, os fenômenos os conceitos tradicionais. Nessa perspectiva,
econômicos que eles revelavam foram con- a economia de mercado aparece como o
siderados como a manifes- resultado de um processo histórico recente,
tação da ação de agentes alheio às sociedades antigas e que tampouco
econômicos individuais. se aplica todas as sociedades atuais. Nesses
A economia seria, assim, Uma das tarefas para a casos, a chave da articulação dos fenôme-
incrustada no social, ao compreensão da apropria- nos econômicos não seria o mecanismo de
ção do espaço deve ser, a oferta e demanda, mas, segundo a situação,
contrário do que ocorre sob meu ver, inserir estes atos fatores ligados ao universo do parentesco,
o regime capitalista aparentemente individuais relações de poder, etc. Em outros termos,
no contexto mais amplo a circulação dos bens se dá no interior de
das estratégias materiais uma rede de relações sociais ou políticas
do grupo doméstico. e o universo do econômico não é provido
O segundo debate diz respeito às ma- de uma autonomia, nem prática nem con-
neiras de conceituar a natureza da economia ceitual. A economia seria, assim, incrustada
mesopotâmica e de definir os instrumentos no social, ao contrário do que ocorre sob o
teóricos e metodológicos mais adequados regime capitalista, em que ela imporia sua
para abordá-la. lógica às demais dimensões da vida.
Correndo o risco de ser excessiva- Embora esta polarização teórica já
mente esquemático, pois há nuances con- seja encontrada no domínio das ciências
sideráveis em cada partido implicado no humanas desde os finais do século 19, é a
debate, a primeira posição reúne os autores partir de meados do século 20 que a obra
que, grosso modo, consideram que as econo- de Karl Polanyi sistematizou, de modo
mias antigas partilham da mesma natureza mais decisivo, as formulações da segunda
das economias modernas e que seu funcio- tendência e terminou por ser a referência
namento é, fundamentalmente, semelhante, incontornável do debate36. A oposição en-

35
Leemans, aliás, procurou negar vivamente qualquer papel da família na vida econômica babilônica (1986) e combateu, com o mesmo vigor, a
existência das comunidades rurais (1983).

82 História e Economia Revista Interdisciplinar


Marcelo Rede

tre ‘modernistas’ e ‘primitivistas’ ou, ainda, gração diferentes da oferta e demanda em


entre ‘formalistas’ e ‘substantivistas’ ope- mercado aberto. Ora, o que se vê atualmente
rou, com efeito, uma secessão em diversos na sociologia é uma espécie de inversão,
domínios de estudo relativos às economias mas sempre em nome dos postulados po-
não capitalistas ou pré-modernas. lanyianos, que visa identificar os elementos
Foi, sem dúvida, na antropologia que não mercantis no interior das próprias
o debate atingiu seu nível mais elevado economias capitalistas contemporâneas. O
de complexidade e ramificação. Trata-se, resultado é considerar estas últimas como
sobretudo, de uma divergência profunda sendo, também elas, incrustadas nas relações
a propósito de métodos e abordagens das sociais, exatamente como Polanyi conside-
economias não capitalistas, na qual se rava as economias não capitalistas. Assim,
confrontam ‘formalistas’, como Herskovits a clivagem polanyiana entre dois tipos de
(1952), LeClair (1962), Burling (1962), economias, com ou sem mercado, vê-se
Firth (1965, 1967), e Cook (1966, 1969, superada ou, ao menos, enfraquecida (sobre
1973), e, de outro lado, Polanyi e seus dis- as conseqüências teóricas desta situação,
cípulos, em particular Dalton (1961, 1969) cf. PRATTIS, 1987, p. 18 s.): por exemplo,
e Bohannan (1962, com Dalton; e 1968, a noção de reciprocidade é utilizada para
com Bohannan), além de Kaplan (1968). As demonstrar a que ponto a compreensão
divergências incidiram também no debate das relações econômicas
acerca da chamada economia ‘primitiva’, modernas depende da
no qual as proposições ‘substantivistas’ de consideração das redes Foi, sem dúvida, na
Sahlins – um discípulo de Polanyi, mas de parentesco e solida- antropologia que o
fortemente influenciado pelo marxismo riedade, das prestações debate atingiu seu
(SAHLINS, 1960 e 1972) – foram severa- desinteressadas, das re- nível mais elevado de
mente atacadas, por exemplo, por autores lações interpessoais, etc.
complexidade e ramificação
como Cook, (1974) e Cooper (1978). Na sociologia econômica
Na sociologia econômica, mais vol- americana, essa tendência
tada para as sociedades contemporâneas, a é bem representada pelos
aplicação das teorias polanyianas revela um trabalhos originais de Mark Granovetter
desenvolvimento interessante e um tanto (2000). Na França, o grupo reunido em
inesperado: a idéia inicial de Polanyi foi torno de Alain Caillé e da revista MAUSS
construir conceitos gerais para explicar a segue um caminho semelhante, procuran-
alocação dos bens nas sociedades em que do desvendar os princípios da construção
um mercado capitalista não existia e foi social do mercado moderno (CAILLÉ, 1989,
este impulso que gerou a formulação das 1994, 2000; GODBOUT e CAILLÉ, 1992;
noções de reciprocidade ou redistribuição, ver, ainda, os artigos reunidos por JACOB
por exemplo, como mecanismos de inte- e VÉRIN, 1995). A influência de Polanyi

36
Em seu livro sobre a emergência do mercado moderno, Polanyi (1944) já enunciava os princípios de sua teoria. O manifesto programático do
grupo ligado a Polanyi e a seu projeto na Universidade de Columbia foi publicado em 1957 (cf. POLANYI, ARENSBERG e PEARSON, 1957;
tradução francesa de 1975, com um importante e alentado prefácio de GODELIER). Nesse volume, o próprio Polanyi escreveu um capítulo
tratando da economia mesopotâmica. Oppenheim foi o único assiriólogo a participar, com um capítulo cuja leitura mostra, porém, a distância
que o separava do grupo. Muito mais próxima das idéias de Polanyi seria a tese de Sweet (1958) sobre os preços e a moeda durante o período
babilônico antigo (orientada, aliás, por Oppenheim). Finley, que participava do grupo de Polanyi e teve, mais tarde, uma importância capital no
debate sobre as economias da Antigüidade clássica, não colaborou no volume. Sobre a obra de Polanyi, ver Stanfield (1986) e os ensaios reunidos
por Servet, Maucourant e Tiran (1998).

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Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

é igualmente marcante nas discussões do Weber (FINLEY, 1973)37. Se Finley influen-


grupo interdisciplinar do Centre Walras ciou toda uma geração de historiadores da
de Lyon, do qual alguns autores procuram economia antiga (para a história romana,
avaliar de modo crítico o potencial das ver os trabalhos de GARNSEY e SALLER e
teorias ‘substantivistas’ para o estudo das HOPKINS), a ‘nova ortodoxia’ estabelecida
economias do antigo Oriente-Próximo e por ele não deixou de suscitar várias críticas,
Egito (MAUCOURANT, 1996, 2000). Entre mais ou menos severas, como as contidas
os esforços para descortinar as ‘estruturas nos estudos de Bresson (2000) sobre o pa-
sociais da economia’, um livro recente de pel da atividade econômica comercial e do
Pierre Bourdieu merece menção, pois o mercado na Grécia ou de Andreau (1999)
autor analisa justamente como os elementos sobre a economia financeira romana.
sociais e políticos ‘constroem’ o mercado Em egiptologia, foi, sobretudo, J. J.
imobiliário em que os grupos domésticos Janssen que introduziu uma perspectiva
constituem seu patrimônio e demonstra francamente substantivista com seus estu-
que esse mercado não decorre de modo dos sobre os preços no período raméssida
automático dos mecanismos de oferta e (JANSSEN, 1975a; em um artigo publicado
demanda, mas, ao contrário, é uma insti- no mesmo ano, o autor sintetizava vários
tuição estabelecida culturalmente, mesmo aspectos de sua visão: 1975b) ou, ainda,
sob regime capitalista sobre os aspectos não-econômicos da vida
(BOURDIEU, 2000). material egípcia, em particular nas trocas
É interessante notar que é No domínio dos es- de dons (JANSSEN, 1982). A influência de
no domínio dos estudos da tudos clássicos, a disputa Polanyi é igualmente notável em Müller-
economia egípcia antiga remonta à controvérsia Wollermann (1985). Uma crítica severa a
que uma nova frente do que opôs a abordagem Janssen, acompanhada de uma defesa da
‘modernista’ de Eduard metodologia formalista, apareceu no livro
debate está se abrindo Meyer às análises ‘primiti- de Barry Kemp (1989; para uma avaliação
vistas’ de Karl Bücher, em do debate, ver BLEIBERG, 1995, p. 1373 ss.;
fins do século 19. Mais e 1996, p. 3 ss.). É interessante notar que
tarde, durante os anos 20 e 30, coube a é no domínio dos estudos da economia
Johannes Hasebroeck, largamente influen- egípcia antiga que uma nova frente do de-
ciado por Max Weber, o mérito de ter colo- bate está se abrindo: os trabalhos de David
cado a economia grega, particularmente as Warburton, recusando as teorias polanyia-
transações comerciais, no quadro das ins- nas, não procuram simplesmente retornar
tituições políticas da polis e recusar as idéias aos princípios da economia clássica, mas
modernistas de Meyer e seus discípulos (ver visam uma aplicação do neoclassicismo de
AUSTIN e VIDAL-NAQUET, 1972; DESCAT, Keynes à vida material egípcia. No centro
1994). Foram, todavia, os trabalhos de M. dos argumentos de Warburton encontram-
I. Finley que estabeleceram um novo para- se a idéia de que o caso egípcio pode ser
digma nos estudos da economia grega e ro- considerado como o de uma economia de
mana, a partir de uma perspectiva tributária mercado pré-capitalista e a recusa de uma
das propostas de Polanyi, mas também de caracterização ‘redistributivista’, como de-

37
Algumas avaliações sobre a influência de Finley e Polanyi no estudo das economias clássicas: S. C. Humphreys (1978, p. 31 ss.); Andreau e
Etienne (1984); Descat (1995); Andreau (2002), além dos trabalhos reunidos por duas coletâneas recentes: Scheidel e Von Reden (2002) e
Manning e Morris (2005). Para um balanço marxista, ver Vegetti (1977, p. 35 ss.) e, em antropologia, Godelier (1974, p. XI ss.; e 1975).

84 História e Economia Revista Interdisciplinar


Marcelo Rede

fendem os ‘primitivistas’ (WARBURTON, mostram a perseverança das divergências


1991, 1995, 1997, 1998)38. entre os especialistas41.
Em assiriologia, mesmo se é possível A problemática do controle do
constatar um debate teórico por vezes acalo- espaço é um dos setores mais sensíveis
rado, como o que opõe M. Silver e J. Renger, às tomadas de posição no interior desta
por exemplo, é preciso reconhecer que a discussão. Parece-me mesmo impossível
maior parte dos estudiosos permaneceu à definir a natureza e as características dos
margem de suas implicações39. A introdução diversos tipos de apropriação, particular-
de uma perspectiva ‘substantivista’ coube, mente da doméstica, sem conferir uma
sobretudo, a J. Renger, cuja interpretação atenção ao modo como se caracteriza gene-
da economia mesopotâmica foi orientada, ricamente a vida econômica e social. Sem
fundamentalmente, pelas formulações de poder aprofundar o tema aqui, eu diria,
Karl Polanyi (seus trabalhos mais teóricos simplesmente, que se as ações econômicas
são: RENGER, 1988b, 1989, 1990, 1994, dos mesopotâmios são freqüentemente to-
2004). Renger conferiu grande importância madas como racionais, isso decorre de uma
à questão do controle das terras, minimi- assimilação com nossas próprias categorias
zando o papel da apropriação privada dos da racionalidade da ação econômica. Isso
campos agrícolas, principalmente no sul, nos dá a confortável impressão de que
e negando a existência de um mercado de nada de estranho existe
terras na Mesopotâmia (RENGER, 1988a, na realidade observada,
1995). É sintomático que a principal que nada escapa ao olhar Isso decorre de uma
resposta a Renger tenha vindo de fora do do historiador, que tudo assimilação com nossas
círculo de assiriólogos, na pluma do econo- pode ser explicado por próprias categorias
mista ultra-formalista Morris Silver (1983, suas noções. Entretanto, da racionalidade da
1985b, 1985a; retomado em 1995, 2004). essa continuidade entre ação econômica
Esse debate suscitou reações, algumas favo- passado e presente nem
ráveis a Polanyi e Renger (MAYHEW, NEALE sempre é confirmada por
e TANDY, 1985; ROBERTSON, 1993; ZAC- uma análise mais apro-
CAGNINI, 1994;VAN DE MIEROOP, 1999a; fundada dos comportamentos dos antigos.
SCHLOEN, 2001, p. 76 ss.), outras que lhes Muito freqüentemente, vários fenômenos
são hostis, sem se alinharem necessaria- apresentaram-se de um modo que, em um
mente a Silver (GLEDHILL e LARSEN, 1982; primeiro olhar, poderia ser considerado
VARGYAS, 1987; e SNELL, 1991, 1997)40. imediatamente compreensível. É preciso,
Em 2004, um colóquio internacional reu- no entanto, resistir à tentação de explicá-
niu-se em Nanterre para avaliar a atualidade los a partir desse primeiro impulso e bus-
da obra de Polanyi, inclusive para a história car propor novas interpretações. Do ponto
econômica mesopotâmica, e as intervenções de vista historiográfico, seria interessante

38
A abordagem de Warburton foi avaliada por diversos autores: ver as resenhas de Wilkinson (1997) e, sobretudo, de Eyre (1999) e Römer (2000).
As reações do autor se encontram em Warburton (2000). Para a oposição entre Polanyi e Keynes no trabalho de Warburton, ver Eichler (1992).
39
Para um panorama, ver Van De Mieroop (2004).
40
Por outro lado, parece-me que a abordagem de North (1977, 1981) sobre as economias antigas é bem mais próxima do ‘substantivismo’ do
que quis admitir Silver (1983), apropriando-se de maneira bastante tendenciosa, é preciso dizê-lo, da noção de ‘custos de transação’ de North;
ver, a este propósito, Zaccagnini (1994, p. 215 ss.). J. Maucourant (2000, p. 11), por seu lado, prefere classificar Silver e North no interior do
mesmo paradigma, mesmo reconhecendo diferenças entre os dois.
41
Clancier et al. (2005); ver, particularmente, as contribuições de Lafont, Michel, Rede e Jursa.Ver também a resenha crítica de Charpin (2005).

Vol. 3 - n. 1 - 2º semestre 2007 85


Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

avaliar o potencial e os limites de certos lônico antigo, os grupos domésticos exer-


postulados mais amplos a partir de estudos cessem um papel significativo no controle
de casos bem circunstanciados, cujas fontes do espaço, mas isso está longe de resolver o
pudessem ser rigorosamente controladas. questionamento. É preciso analisar as diver-
Casos de cidades como Larsa, Sippar ou sas práticas de apropriação e as relações que
Ur, em que há considerável documentação elas entretêm com os demais domínios da
sobre as transferências de terrenos, tiveram vida social; é preciso estabelecer os modos
um papel importante no desenvolvimento de circulação dos terrenos e, caso haja um
de uma visão que eu chamaria de ‘pri- mercado, definir seus mecanismos; é preciso
vatista’ sobre a economia mesopotâmica distinguir os elementos da ação apropriativa
no início do segundo milênio a.C. assim dos agentes econômicos, seus comportamen-
como nas reações a essa interpretação. tos de aquisição e disposição, procurando
Parece-me, então, que seria útil retomar avaliar até que ponto eles indicam modelos,
um exame destes casos prestigiosos para tendências, e em que são representativos de
lhes dar uma nova leitura42. Essa seria, a um verdadeiro sistema doméstico de apro-
meu ver, a melhor maneira de fazer uma priação do espaço.
história econômica teoricamente orientada
e que não seja confundida com uma sim- O estudo dos arquivos
ples enunciação de prin- familiares: questões
cípios preconcebidos,
metodológicas
desatrelados da realidade
O debate concentrou- histórica que eles têm a No domínio da assiriologia, as mo-
se excessivamente na pretensão de explicar. Por nografias sobre arquivos familiares im-
outro lado, essa aborda- puseram-se apenas recentemente. Elas
identificação dos agentes
gem permitiria conferir são o resultado de uma lenta mudança
do controle do espaço um alcance inédito aos de perspectivas da história econômica e
estudos de caso, que social mesopotâmica, do reconhecimento
poderiam, assim, in- de um objeto de estudo e do desenvolvi-
fluenciar decisivamente mento de uma metodologia que permitiu
a construção de uma visão consistente da explorá-lo.
vida econômica mesopotâmica. Quando, em 1952, Goossens apre-
O debate concentrou-se excessivamen- sentou sua ‘Introduction à l’archivéconomie de
te na identificação dos agentes do controle do l’Asie Antérieure’, ele pretendeu chamar a
espaço (ou, mais especificamente, da ‘terra’), atenção dos especialistas sobre o potencial
o que explica a importância em torno da dos arquivos para o estudo da história do
existência, ou não, da ‘propriedade privada’. Oriente-Próximo e, em particular, da Me-
Por vezes, a disputa limitou-se a uma tomada sopotâmia. A noção de arquivos opunha-se,
de posição, favorável ou contrária, acerca de aqui, àquela de biblioteca: em decorrência,
um postulado bastante abstrato. A meu ver, os documentos ordinários, relativos às
o verdadeiro problema situa-se alhures. Está práticas cotidianas, ganhavam destaque
fora de questão, no atual estágio de nosso ao lado dos grandes textos literários, dos
conhecimento, negar que, no período babi- anais palacianos e das narrativas mitológi-

42
Foi o que procurei fazer para o caso de Larsa: Rede (2004). Para Ur, ver o instigante estudo de Brusasco (1999-2000); para o norte babilônico,
particularmente a região de Sippar, ver o recente trabalho de Goddeeris (2002), bem documentado, mas conceitualmente muito precário.

86 História e Economia Revista Interdisciplinar


Marcelo Rede

cas conservados nas bibliotecas dos reis. A renovado dos documentos, agora reagrupa-
tipologia de Goossens destacava os textos dos em arquivos cujo critério de vinculação
produzidos pelas chancelarias (especial- era, sobretudo, o laço de parentesco entre os
mente a correspondência) e a contabilidade personagens individuais. Este procedimento
das organizações complexas, mas pouco contribuiu para inserir o documento em uma
falava dos arquivos familiares, mencionados unidade de análise mais ampla e coerente e
apenas em uma nota (GOOSSENS,1952, p. para visualizar de modo mais aprofundado as
99, n. 6). Diferentemente, em 1999, em relações entre os diversos atores, situando-os
uma obra de Van De Mieroop intitulada em esferas de atividades econômicas, sociais,
‘Cuneiform Texts and the Writing of History’, os religiosas, etc. Podia-se, assim, superar um
arquivos familiares ocupavam um espaço estudo focado nos indivíduos e nos eventos
equivalente ao conferido a outros tipos de singulares, lançando os fundamentos para
documentos, ombreando com cartas ofi- uma abordagem centrada sobre os grupos e as
ciais, documentos administrativos, textos cadeias de ações, em uma maior profundidade
literários, etc. (1999b, p. 17 ss.). temporal (cuja cronologia podia ser, agora,
Entre esses dois momentos, a relação dos controlada de modo mais eficaz).
historiadores com suas fontes transformou-se Nesse esforço, a prosopografia impôs-se
consideravelmente. Não se trata simplesmente como uma ferramenta privilegiada. Identifi-
da assimilação de mais um tipo de documento, cando e coletando todas as
mas de uma nova classificação do corpus docu- informações disponíveis
mental, de uma nova maneira de integrá-lo à sobre os personagens da Não se trata simplesmente
operação historiográfica. Com efeito, os docu- documentação – filiação e da assimilação de mais
mentos epigráficos encontrados no contexto outras informações sobre o um tipo de documento, mas
arqueológico doméstico, cujo conteúdo reme- parentesco, dados relativos de uma nova classificação
tia aos negócios ditos privados, estiveram pre- às ocupações profissionais,
do corpus documental
sentes desde muito cedo no desenvolvimento títulos religiosos, natureza
da disciplina, mesmo se todo o prestígio cabia e freqüência das relações
aos grandes textos literários ou às inscrições com os demais persona-
reais em decorrência da perspectiva historio- gens, etc. – tratava-se, primeiramente, de
gráfica dominante no século 19. No entanto, estabelecer a árvore genealógica das famílias,
os documentos familiares foram, em geral, mas também de identificar os grupos sociais
tratados individualmente, isolados do contexto no interior de uma cidade (o clero, os mer-
arquivístico que lhes conferia um sentido43. É cadores, os artesãos, etc.). Desse modo, os
verdade que, desde as primeiras publicações e dados provenientes da análise prosopográfica
estudos, algumas conexões já eram notadas, constituíam a base dos estudos dos arquivos
o que permitiu reconhecer algumas famílias, familiares44. De maneira complementar, mas
mas, na maior parte do tempo, os conjuntos também importante, a prosopografia foi
permaneciam limitados e sem maior repercus- essencial no estabelecimento da origem dos
são sobre a interpretação. A partir do final dos documentos, especialmente nos numerosos
anos 70, a multiplicação dos estudos sobre os casos em que a proveniência não estava certifi-
arquivos familiares implicou um tratamento cada por escavações oficiais ou quando os lotes

43
O exemplo precoce representado pelo estudo de Gautier (1908) sobre uma família de Dilbat é uma exceção que confirma a regra.
44
Contrariamente ao que se poderia pensar, o procedimento não se limita às situações em que os indivíduos são nominalmente
identificáveis, sendo igualmente útil para a análise de grupos anônimos: ver Van De Mieroop (1999b, p. 89 ss.).

Vol. 3 - n. 1 - 2º semestre 2007 87


Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

tinham sido dispersos ou misturados entre a póstumos, em função das necessidades da


saída do sítio e a entrada no museu45. Por ou- pesquisa, não é menos verdadeiro que os
tro lado, a prosopografia foi um instrumento arquivos derivam dos hábitos de arquiva-
eficaz para compreender o próprio funciona- mento da família e refletem, em maior ou
mento dos arquivos familiares na vida social menor grau, sua visão sobre os fenômenos
mesopotâmica, desde os mecanismos de sua em questão. Em todo caso, esse problema
constituição e de sua transmissão entre as ge- – ou, sobretudo, o desconhecimento de
rações até os procedimentos de arquivamento, suas implicações por parte do especialista
reciclagem, triagem e descarte46. – contribuiu para debilitar o potencial das
A abordagem arquivística, no entanto, monografias familiares para o estudo da his-
também apresenta limitações. A principal tória social e econômica da Mesopotâmia.
delas é derivada de uma espécie de confu- Apesar dessas limitações, a abordagem
são metodológica entre a base heurística prosopográfica e a análise a partir dos arqui-
da análise (os arquivos enquanto conjunto vos continuam sendo a base indispensável
de documentos) e o verdadeiro objeto de e mais eficaz das monografias familiares,
estudo (a família enquanto conjunto de não havendo razões para deixar de apro-
relações). Na verdade, os estudos tenderam veitar seu potencial47. É possível, porém,
excessivamente a dar prioridade às rela- completá-la por intermédio de uma aborda-
ções entre as fontes em gem analítica, visando principalmente um
detrimento das relações alargamento, ao mesmo tempo documental
Na verdade, os estudos sociais. Por outro lado, o e histórico, da perspectiva: os arquivos de
tenderam excessivamente a arquivo impunha limites, uma família devem ser considerados em
por assim dizer, ‘naturais’ conexão com o conjunto dos arquivos fami-
dar prioridade às relações
ao observador: as ativida- liares contemporâneos, mas também com
entre as fontes em detrimento des no interior da família os documentos dispersos de igual natureza
das relações sociais e, sobretudo, o ponto de e que não formam arquivos. Esse proce-
vista de seus membros dimento é o único capaz de assegurar a
sobre as próprias ativida- representatividade dos fatores identificados
des apareceram como o pelo historiador a partir do estudo de uma
enquadramento lógico da pesquisa. Eviden- família em particular. Em outros termos,
temente, em grande parte, essa perspectiva ele permite saber se as práticas espaciais de
a partir do interior tendia a impor-se de um grupo são um bom índice do sistema
modo quase inelutável, pois os próprios de apropriação em geral ou, ainda, se as
arquivos resultavam da atividade dos gru- relações de parentesco nele verificadas são
pos sob observação: se o historiador pode típicas ou, ao contrário, uma idiossincrasia
sempre realizar agrupamentos artificiais e ante as regras da sociedade. Em uma outra

45
Assim, por exemplo, por meio de uma análise prosopográfica e diplomática, Charpin (1980) pôde identificar a origem exata dos documentos
do British Museum, considerados até então como provenientes de Kutalla (Tell Sifr), mas que vinham, na verdade, de Ur (Tell Muqqayar).
É preciso, justamente, notar que o estudo de Ward sobre os mesmos arquivos familiares, terminado em 1973, não havendo reconhecido
corretamente a origem distinta dos dois lotes, encontrou-se consideravelmente enfraquecido em seus desenvolvimentos e conclusões.
46
Ver Saporetti (1979, p. 8); Charpin (1986a, 2000). Evidentemente, a confrontação das informações prosopográficas com os dados
arqueológicos permite afinar a enquete sobre a vida dos arquivos familiares; ver, a esse propósito: Stone (1981, 1987); Charpin (1986b, p.
28 ss.); Postgate (1990); Janssen, Gasche e Tanret (1994); Sauvage (1995); Castel (1995); Castel e Charpin (1997); Zettler (1996);
Pedersen (1987, 1998).
47
Para a importância da abordagem arquivística na superação de uma perspectiva estritamente filológica na história da Mesopotâmia, ver Gelb
(1967, p. 3 ss.) e Steinkeller (1982, p. 639).

88 História e Economia Revista Interdisciplinar


Marcelo Rede

etapa, será necessário considerar também os clássico, ou seja, não serial. A quantificação
arquivos palacianos e dos templos a fim de não é, em si mesma, garantia de maior
estabelecer os modos de inserção da família potencial explicativo.
no ambiente social mais vasto da cidade Assim, parece-me que o mais reco-
e do reino, as relações com as estruturas mendável, no caso mesopotâmico, seria
de poder, as interações econômicas com adotar, com todas as precauções, procedi-
as organizações, etc. Esses complementos mentos estatísticos bastante moderados, em
à abordagem prosopográfica permitirão, particular métodos descritivos, que visam
então, superar um tratamento episódico das organizar as informações em conjuntos
realidades estudadas e construir uma verda- coerentes e torná-las mensuráveis a fim
deira história econômica e social fundada de identificar as características tendenciais
nas monografias familiares. de certos fenômenos. Ao mesmo tempo,
Conhecemos bem os problemas com conviria evitar a aplicação de cálculos de
que se defrontam todas as tentativas de probabilidade com o intuito de preencher as
uma história serial da Antigüidade ou das lacunas dos dados ou fazer projeções49.
sociedades ditas pré-estatísticas. Um trata- Em grande parte, a abordagem serial
mento serial dos dados é, porém, o único implica uma transformação na própria
modo de realizar as proposições sugeridas noção de documento: este deixa de ser
acima. Os especialistas insistem demasia- exclusivamente o texto
damente sobre o caráter lacunar das fontes (contratos, cartas, proces-
mesopotâmicas. Sem dúvida, trata-se de sos, etc.) e seu conteúdo Em grande parte, a
uma carência real48. Entretanto, sem que- para ser, sobretudo, a abordagem serial implica
rer menosprezar os limites impostos pela série de informações. uma transformação na
documentação – limites de quantidade e As séries são, é claro, própria noção
também de qualidade –, é preciso lembrar formadas a partir dos de documento
que a situação inversa, de superabundância conteúdos documentais,
das fontes, também impõe dificuldades mas são construídas em
sérias, pois a consideração da totalidade do função de critérios esta-
corpus documental é igualmente impossível belecidos pelas questões colocadas, ou seja,
(pense-se, por exemplo, em uma história pelo procedimento analítico. Os raciocínios
fiscal ou financeira dos Estados modernos!). fundados sobre séries quantificáveis têm, ao
Nesse quadro, creio que, em um tratamento menos, uma tripla vantagem: elas conferem
serial, o mais importante é definir de modo aos argumentos e às conclusões uma repre-
rigoroso as questões a serem respondidas e sentatividade maior do que aquela derivada
proceder à seleção dos dados em função das de um tratamento individual dos documen-
problemáticas, levando em consideração, tos; em segundo lugar, as séries permitem
obviamente, a natureza e a abrangência das cruzar dados de modo mais ágil e amplo do
fontes. É preciso, em todo caso, reconhecer que uma comparação caso a caso; e, por fim,
os limites do método: uma série imperfeita oferecem a possibilidade de visualizar certos
não deve substituir, sob o disfarce da exati- aspectos dos fenômenos sociais que seriam
dão matemática, as lacunas do tratamento dificilmente perceptíveis de outro modo

48
É preciso, porém, salientar a situação relativamente privilegiada da Mesopotâmia, ao menos em certos domínios, em relação a outras sociedades antigas.
Para nos limitarmos à situação dos arquivos fundiários, lembremos, por exemplo, os graves problemas da história romana; ver: Moatti (1993, p. 79 ss.).
49
Para as diferenças entre as estatísticas descritiva e analítica, ver Saly (1997, p. 5 s.).

Vol. 3 - n. 1 - 2º semestre 2007 89


Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...

(é o caso, por exemplo, das variações dos mentos distintos e são mais ou menos adap-
comportamentos dos agentes econômicos tadas segundo as situações documentais e os
em uma perspectiva diacrônica). problemas históricos a serem enfrentados.
As abordagens arquivística e serial são Nem por isso são excludentes; ao contrário,
de natureza muito diferente, têm funda- são práticas complementares de pesquisa.

90 História e Economia Revista Interdisciplinar


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