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As meninas do Metal

Metalheads: heavy metal music and adolescent alienation_ Jeffrey Jensen Arnett, capítulo 8 “Girls of Metal” 1

"A ‘ausência’ de meninas em subculturas masculinizadas não é muito surpreendente. Essas subculturas de uma forma ou de outra, exploram e celebram a masculinidade, e como tal, eventualmente, relegam as meninas para um lugar subordinado dentro delas. Elas refletem o sexismo do mundo exterior”.

- Michael Brake, comparative Youth Culture

Heavy metal em grande parte é um domínio masculino. Os intérpretes 2 assim como os fãs são predominantemente homens e como descrito no Capítulo 1, existem elementos da subcultura que são distintamente relacionados à masculinidade e à virilidade. Em particular, a ocasião do concerto exalta tradicionalmente virtudes masculinas de tenacidade e agressividade (através da música assim como na dança de bater 3 ). De forma mais geral a alta sensação de intensidade da música atrai mais aos homens, com seus apetites mais elevados para a sensação.

No entanto, existem também as adolescentes cujas buscas por sensações tendem a ser elevadas o bastante para o heavy metal atender a elas. Além disso, a alienação que atrai muitos dos meninos ao heavy metal também existe entre algumas meninas, e elas também encontram um abrigo ideológico na subcultura do heavy metal. Neste capítulo

1 Tradução livre feita por Natália Ribeiro editora do blog Rockalogy (rockalogy.blogspot.com) e revisada por Iza Rodrigues, editora do blog Menina Headbanger (meninaheadbanger.blogspot.com), contato

ribeironatalia3@hotmail.com

2 O termo "performers" utilizado aqui foi traduzido como "interpretes".

3 “Slamdancing” no original

sobre as meninas do heavy metal, poderemos perceber que em muitos aspectos elas compartilham semelhanças com os metalheads do sexo masculino. Assim como os meninos, o fascínio presente no heavy metal, para as meninas, não é apenas pelas qualidades de alta sensação da música, mas também sua admiração pela proeza dos músicos de heavy metal e o sonho de se envolverem no mundo da performance do heavy metal de uma forma ou de outra. Além disso, a alienação da família, escola e religião, comum entre os meninos, é também entre as meninas que gostam de heavy metal, e eles são atraídos para o heavy metal pois ele expressa e alivia suas alienações.

No entanto, elas se diferem dos meninos em alguns aspectos importantes. Questões sexuais estão envolvidas na atração pelo heavy metal nas meninas, já que muitas vezes tornam-se envolvidas a partir de um namorado ou por causa da atração sexual que sentem pelos intérpretes ou fãs. Além disso, como meninas, elas têm uma fonte adicional de alienação na exploração e desvalorização das mulheres que às vezes ocorre na sociedade americana e em algumas músicas de heavy metal. Muitas delas estão conscientes de que as meninas são uma pequena e nem sempre respeitada minoria no mundo do heavy metal, e elas lutam para conciliar seu entusiasmo pelo heavy metal com a ideia de não serem muito bem-vindas neste mundo.

O fascínio do heavy metal: a visão das meninas

Para a maior parte, as meninas soam muito similarmente aos meninos quando falam sobre o apelo do heavy metal. Assim como para os meninos, os principais temas são a alta sensação de prazer da música, admiração pelas habilidades dos artistas e seu senso de identificação com a alienação expressa nas canções.

A novidade e a intensidade das músicas atraem as meninas que buscam a alta-sensação, assim como os meninos que sofrem a mesma atração. Holly disse que se interessou na música do Metallica porque "a forma como soavam era diferente de qualquer outra coisa." Ela contrasta isso com "as canções de amor tradicionais," que são "todas iguais, de novo e de novo." Karen disse que gosta de heavy metal por "seu peso, eu gosto de sua sonoridade, basicamente." Christine gosta do jeito do baixo, "se for muito alto, afeta seu batimento cardíaco e outras coisas." Garotas que gostam de heavy metal avaliam

elas mesmas como mais altas na busca de sensações nos termos dos itens descritos na Tabela 4.1 4 , comparada a outras garotas.

Muitas das meninas também admiram o conhecimento especializado dos artistas. "É uma música muito complexa," disse Nina. "É muito difícil. Você realmente tem que praticar para ser bom no que faz. Os músicos são extremamente talentosos." Uma surpreendente alta proporção das meninas (37 por cento) aspiram uma careira que envolva música, seja como artistas ou em algum outro aspecto. Essa proporção é muito maior do que as meninas do grupo de comparação (5 por cento). O que torna isso surpreendentemente alto entre as meninas é que, atualmente, muito poucas mulheres estão empregadas no heavy metal "business". Praticamente todos os artistas são do sexo masculino, e a produção, distribuição e os aspectos administrativos dos negócios, são

4

Tabela 4.1

Amostra de Itens de

“busca de sensação”

 

Percentual respondendo

“sim”

Item

Metalheads

Outros garotos

Eu gosto de experimentar novas comidas que eu nunca experimentei antes.

67

37

Eu gostaria de sair numa viajem sem planejamento prévio ou rumos definidos ou cronograma.

74

51

Eu gostaria de pular de paraquedas.

71

56

Eu prefiro amigos que são instigantemente imprevisíveis.

64

33

As pessoas devem se vestir de forma individual mesmo que os efeitos sejam às vezes estranhos.

79

54

Eu gosto de ter novas e excitantes experiências, mesmo que sejam amedontradoras, nãoconvencionais ou ilegais.

80

58

também dominados pelos homens. Meninas como Shanelle esperam irromper com isto de qualquer forma.

Eu realmente gostaria de trabalhar para uma gravadora fazendo algo sério:

promoção, talvez gerenciando. É um grande sonho, porque as meninas não entram nisso muito fácil, e você precisa ser levada a sério, não há muitas oportunidades abertas. Eu prefiro estar em uma banda, mas isso como coisa de sonho.

Várias das meninas mencionaram outras aspirações artísticas. Connie esperava abrir uma loja de arte. Christine se viu "vivendo em uma fazenda num tipo de comunidade de artistas" em dez anos. Amy acreditava que seu destino era como "artista morto de fome, possivelmente um ilustrador." Holly disse que em dez anos ela "provavelmente estará morta na rua se eu nao estiver fazendo algo relacionado à arte." Portanto, parte do fascínio das meninas pelo heavy metal, pode ser representado como um modo de vida alternativo, uma vez que é mais criativo e não convencional, diferente do modo de vida oferecido pelo mainstream da classe média americana. Isso também está evidente nas aspirações dos meninos (por exemplo, Reggie, cujo perfil precede o Capítulo 7).

No entanto, o que distingue as meninas dos meninos em sua atração pelo heavy metal é que para as meninas, elementos sexuais e românticos estão envolvidos. Várias delas disseram que começaram a se interessar em heavy metal através de um namorado que era metalhead 5 . "Ele era um músico, e estava numa banda," Nina disse sobre seu antigo namorado. "[Heavy metal] era a coisa mais importante para ele, e foi assim que se tornou uma parte muito importante da minha vida." Muitas delas mencionaram a atratividade dos artistas e/ou seus fãs na explicação de por que elas gostavam de heavy metal. Jennifer interessou-se através de vídeos de heavy metal na MTV. "Eu percebi, Deus, esses caras são dos tipos atraentes, numa forma esquisita de ser, e é assim que eu comecei a ouvir isso." Ela conheceu seu atual namorado num show.

Ir a um concerto às colocam em uma situação em que estão cercadas por homens jovens disponíveis. Muitas vezes elas vão com um grupo de homens. Connie disse que o grupo que foi para um show recentemente consistia em "eu e mais cinco rapazes. Eu era a única menina." A razão para isso é não são muitas garotas que gostam de metal. "Mais

5 Mantendo o termo usado originalmente.

frequentemente eu vou com um cara," diz Jean, "porque a maioria das minhas amigas não quer ir nisso." Se elas vão com uma amiga, isso pode ser com a intenção de encontrar meninos. Lynn prefere ir aos shows sem seu namorado, para que ela possa aproveitar e flertar com outros jovens por lá. "Se eu tivesse um namorado, eu não iria aos shows com ele. Tem uns caras muito boa pinta por lá!" diz ela. Sarah tem uma visão parecida: "Às vezes eu vou só com uma amiga minha, especialmente se temos a intenção de procurar por caras quentes." Algumas delas falaram de se vestir para atrair. "Nós experimentamos novos visuais para os concertos," diz Kelly. "Nós ligamos uma para outra e dizemos, 'tenho este novo visual no meu cabelo, podemos tentar isso ou aquilo.'"

É

importante notar, contudo, que as meninas são profundamente divididas no que tange

o

show de heavy metal como um lugar para encontrar homens. Muitas das meninas

gostam de ir aos shows pelo mesmo motivo que os meninos: para desfrutar da alta sensação do espetáculo e admirar a proeza dos músicos. Há algumas que se vestem para

atrair os meninos e vão com a intenção de encontrá-los, e outras que desprezam as meninas que são vistas como muito descaradas em sua exposição de sexualidade. Karen disse que costuma ir a shows com homens porque "as mulheres que se fantasiam de metal, eu não quero andar com elas de forma alguma," Shanelle demonstra isso mais fortemente:

As bimbos 6 [nos shows] são nojentas. Garotas que vão vestidas daquela forma para um show de heavy metal, usam suas pequenas saias curtas ate aqui, quando elas sabem que haverá algum cara atrás dela colocando a mão em sua saia, vocês estão procurando problema. [Por que elas fazem isso?] Atenção. Sério, por atenção. Honestamente, eu acho que um monte de garotas que conheci que se vestem assim, e que em minha opinião são um bando de galinhas, elas não foram criadas de forma apropriada, ou seus pais não as deixaria andar assim fora de casa ou coisa assim. Alguns dos caras são realmente bonitos, então eu posso entender porque elas gostariam de atraí-lo, e isso funciona. Elas são as únicas indo para casa com alguém, e eu não.

6 Bimbo, algo como "pirigueti" no Brasil, ou no contexto do metal "pirigóticas", “Maria palheta”, etc.

Alienação na vida das meninas

A alienação, que é tão presente na vida dos meninos também é presente na vida das

meninas. Ela tem algumas das mesmas fontes para as meninas assim como para os meninos: tênues ou em conflito com a família, escola e religião. As meninas, assim como os meninos, veem o heavy metal como uma expressão de sua alienação, e também como uma forma de aliviar isso. No entanto as meninas tem uma importante fonte de alienação que os garotos não tem: a percepção de que elas podem enfrentar a exploração e a difamação simplesmente por serem mulheres.

As meninas falam da alienação de seus pais em histórias similares aos que os meninos contam. "Eu e meu pai não podemos nos falar sem brigar," diz Lynn. "Nós simplesmente não concordamos com nada. Quero dizer, se é o jantar, nós vamos discutir sobre como deveria ter sido feito. Nós discutimos sobre o tempo que o programa de TV deveria durar.

Em geral, as metalheads declaram relações familiares mais problemáticas em um questionário sobre as relações familiares do que outras meninas. Para elas assim como

os meninos, o divórcio é às vezes uma importante fonte de alienação. "Quando meu pai

se mudou, foi muito difícil; todas as minhas notas caíram," disse Anne. Em consequência disso ela nutre uma grande quantidade de raiva e ressentimento em relação a ele. "Ele é um idiota," ela diz sobre o pai que é Ph.D em química. "Ele é infantil e imaturo. Nós não nos damos bem. Eu não gosto do meu pai e ele não gosta de mim e estamos felizes assim."

Pelo menos, tanto quanto para os meninos, heavy metal é fonte de conflito entre as meninas e seus pais. Parte disso, como para os meninos, resulta do fato de que as qualidades de alta sensação do heavy metal, que tanto atrai alguns adolescentes, são muitas das qualidades que os pais desaprovam. "Meus pais nunca gostaram de qualquer tipo de música alta," disse Kristin. "Eles gritam comigo para baixá-la e outras coisas, porque eles realmente não conseguem ver isso como música; eles só veem como barulho." Hannah diz que a objeção de sua mãe pelo heavy metal é porque "qualquer coisa que não é de Perry Como é demais para ela." Como os pais dos meninos, os pais das meninas são raramente bem sucedidos em seus esforços para desencorajar o

envolvimento de seus filhos com a música ou com a subcultura. Shanelle diz que sua mãe "não está feliz" sobre seu entusiasmo pelo heavy metal, "mas ela aprendeu a conviver com isso depois de um tempo, porque eu disse a ela, 'Esta sou eu, é pegar ou largar.'" Connie diz que seus pais "apenas dão uma olhada, suspiram e vão em frente. Ocasionalmente, meu pai vai chegar e eu vou estar assistindo 'Headbanger's Ball'[na MTV]. Ele vai parar e assistir por um tempo e então ele vai me dar aquele olhar estranho vai embora."

As meninas assim como os meninos e muitos outros estudantes americanos, consideram a escola como um dever monótono. Kristin descreve a escola como "muito confinante, eu penso que é bom aprender, mas isso não é muito realista e às vezes não é muito animador também." Amy diz que ela vai bem na escola, "mas isso é mais como uma obrigação. Normalmente eu acho muito fácil, mas algumas coisas se tornam inúteis. Meus momentos favoritos do dia são antes da escola e depois da escola, porque são quando eu fico com meus amigos." Estar com os amigos é um consolo que a escola fornece. "Eu gosto dela porque meus amigos estão lá," diz Shanon. "E eu odeio porque não estou interessada nos trabalhos escolares." "Eu gosto das aulas por quem está nelas, não pelo que estamos fazendo nelas," diz Tracy. "Eu gosto das aulas que meus amigos estão."

As meninas ecoam com o meninos na rejeição da religião organizada. Eles eram mais propensos que as meninas no grupo de comparação, para descreverem-se como agnósticos ou ateus, e quando se descreviam como religiosos ou "espiritualistas" isto era geralmente de forma pouco ortodoxa. Seus pluralismos e relativismos os fazem considerar todas as religiões organizadas igualmente distantes ou irrelevantes em suas vidas. Shanelle diz, "Eu não tenho uma religião porque eu não sei exatamente o que cada religião acredita." "Eu não digo que é errado," diz Karen, "mas há tantas pessoas que acreditam em tantos deuses diferentes, como pode haver apenas um?" Christine se declara agnóstica. "Eu fui criada numa família judia, mas eu não me considero judia agora porque eu não acredito no judaísmo ou em qualquer outra religião organizada. Eu acho que há verdade em quase todas as religiões, mas eu também acho que há um monte de lições equivocadas em todas elas."

Elas também veem a religião organizada como uma ameaça a restrições intoleráveis ao seu individualismo. Tina diz que acredita em Deus, "mas eu não acredito na religião organizada. Eu acho que você pode adorar a Deus e ser religioso sem ter alguém dizendo o que você tem que fazer isso ou aquilo." Sarah diz que acredita em Deus, "mas eu não gosto de ter regras e regulamentos de 'você pode ou não fazer isso.'" Além disso, elas veem a religião organizada como corrupta e hipócrita. Tracy diz que se considera "uma pessoa espiritual. Eu creio que há um Deus e tudo mais, mas pessoalmente eu prefiro não ir à igreja. Eu acho que isso é um tipo de hipocrisia." Para Nina, embora ela tenha sido criada na religião católica, ela não se considera mais parte disso porque "eu acho que a igreja católica tem corrupção em tudo. Isso realmente me entristece ver que a igreja católica é hipócrita. Há muita corrupção e sujeita lá.

Alienação e heavy metal:

A visão das meninas

Embora o interesse das meninas pelo heavy metal muitas vezes comece com um namorado que gosta da música, ou com a atração sexual por músicos ou fãs de heavy metal, muitas delas também respondem à mensagem de individualismo alienado que se expressa nas canções de heavy metal. Amy, por exemplo, admira a qualidade desafiadoramente individualista dos trabalhos iniciais do Metallica: "é espécie de 'Nós vamos fazer isso do nosso jeito. Você não pode nos dizer o que fazer porque nós sabemos o que é certo para nós.'" Várias das meninas contrastam o heavy metal com outros tipos mais superficiais de música. "As músicas de heavy metal fazem muito mais sentido do que música para dançar," diz Jean. Kristin diz que o heavy metal "tem muitos sentimentos envolvidos, você sabe. Eu não acho isso está cheio de merda." As músicas assumem definitivamente tópicos importantes. "As canções [de heavy metal] tendem a ser mais sobre coisas reais," diz Heidi.

O mesmo efeito paradoxal descrito pelos meninos foi descrito pelas meninas. Músicas de heavy metal reafirmam o seu senso de que o mundo é um caso perdido, mas ao mesmo tempo a música os conforta, confirmando que eles não estão sozinhos em suas

desilusões. "Isso geralmente me faz sentir melhor quando estou me sentindo cética sobre o estado do mundo," diz Christine. "Isso de alguma forma tranquiliza minhas próprias crenças e me faz sentir como se não fosse a única que se sente dessa forma” Eles encontram conforto e consolo em ouvir alguém expressar a alienação e solidão que sentem, que muitas vezes tem dificuldade de expressar. "Isso me faz sentir bem porque eu não sou a única a pensar dessa forma, tem outras pessoas lá fora," diz Karen. "Se eles podem escrever uma canção que diz exatamente o que eu estava tentando pensar, então obviamente eu não sou a única que pensa algo assim."

Heavy metal não só oferece esse consolo para eles, como também expurga sua raiva e tristeza. Sessenta é três por cento deles disseram ouvir heavy metal especialmente quando estão com raiva ou tristes, e quase todas essas meninas - quase metade de todas as mulheres metalheads - dizem que a música tem um efeito catártico, acalmando-as e tranquilizando-as. A linguagem que elas usam para descrever isso é semelhante à usada pelos meninos. "Quando eu estou chateada eu escuto muito isso", disse Sharon. "É a

única maneira de eu liberar minha tensão sem bater alguma

humor melhor se estou louca. Porque eu posso ouvir isso e me acalmar, e eu ficarei OK." Shanelle diz que ouve heavy metal por causa "da agressão. Todo mundo precisa tirá-la. É assim que acho que as crianças fazem, é assim que eu faço." Joanne descreve como o heavy metal intensifica sua raiva e então a leva para fora. "se estou de mau humor, às vezes eu ouço. Isso me deixa mais irritada, mas pelo tempo que eu fico a ouvi-la, isso leva minha raiva embora." Anne listou os humores que a levam a ouvir metal e usa uma analogia criativa para descrever o efeito. "Raiva, medo, tristeza, muita tristeza, tédio. Se eu realmente estou furiosa, isso vai aliviar um pouco dessa raiva. É como o que um massagista faz nas suas costas para soltar os músculos. É como se batesse em cima disso. O que me relaxa. Isso alivia alguma das tensões." Ao invés de ser a causa do comportamento agressivo ou imprudente, heavy metal é mais como uma alternativa a isso, para as meninas assim como para os meninos. "É bom para aliviar a pressão. Em vez de gritar ou arremessar coisas, você pode elevar alguma coisa a algo realmente alto," diz Heidi. "Às vezes se estou muito ansiosa ou coisa assim, ajuda a me

Ele me coloca num

acalmar. Quer dizer, eles podem gritar e praguejar e dizer todas aquelas coisas que eu nunca diria ou nunca faria, mas eles podem fazer isso e eu posso ouvir"

Além das fontes de alienação que elas compartilham com os meninos, as meninas tem uma fonte de alienação que os meninos não possuem: A abordagem das mulheres no que elas veem como um mundo dominado pelos homens. Ironicamente, as meninas veem certas músicas de heavy metal como excelentes exemplos e colaboradoras para o desprezo e desrespeito para com as mulheres. Como observado na análise da canção contida no Capítulo 3, temas masculinos e femininos são relativamente raros nas canções de heavy metal, mas quando o feminino aparece nas canções são

frequentemente descritos com raiva, medo e exploração. No entanto, as bandas que as meninas têm em mente quando criticam a representação das mulheres nas músicas de heavy metal, são bandas que os meninos muitas vezes veem como "pousers," 7 o "glam rock" ou as bandas de "glam metal", como praticantes de hard rock, em qualquer caso, bandas que não são bandas de heavy metal de verdade. Amy faz uma descrição explícita. "Eu realmente não gosto de canções [que retratam mulheres negativamente], mas eu acho que no heavy metal que isso menos acontece, em relação ao rap ou o glam rock. Isso me deixa irada quando é classificado como heavy metal porque há uma

bandas

atitude como o heavy metal

simplesmente não tem isso; elas estão lá fora para fazer dinheiro fácil, ou para pegar

garotas." Karen estava entre várias meninas que deixaram claro que glam metal não é o tipo de metal que elas ouvem. "A maioria das coisas que eu escuto, não tem vídeos com mulheres, não tem música contra as mulheres ou qualquer outra coisa. As bandas assim, eu acho que riem disso, eu tento pensar de onde vem a fonte desse pensamento e pensar bem. 'Bem, olhe para você. Você se parece com uma mulher e você está me xingando e dizendo coisas ruins sobre mim. Obviamente você tem problemas em estar dizendo coisas desse tipo.'"

a

honestidade

e

outras

coisas.

e

essas

Karen poderia desconsiderar, ou mesmo rir disso, mas muitas das outras meninas reagiram com indignação e ressentimento. A veemência de muitas das meninas nesse tópico foi impressionante. Tina disse que achava o Guns N' Roses "francamente

nojento. Eles são vulgares, grosseiros e sujos, e cantam músicas desagradáveis. Eu

não acho que seja bom para

pessoalmente os detesto. Eles são vis e

um garoto crescer nisso, e ainda pior, meninas ouvirem isso. Como elas vão crescer e deixarem-se ser tratadas? A mulher é retratada como um brinquedo sexual, e isso é tudo

Eu

7 Mantendo o termo original

que isso tem." Nina também se preocupa com os efeitos de algumas músicas nos mais jovens. "As mulheres não são levadas a sério entre um monte de bandas de heavy metal. Como as big-hair bands [isto é, glam metal, ou bandas de hard rock], elas

retratam a mulher de forma barata e muito

com medo, quando eu vejo gente vibrando com algumas das letras, principalmente pessoas da minha idade ou mais novas. Eu acho que para os mais novos, isso pode ter um efeito em como eles vão tratar a mulher no futuro." Kristin tem mais raiva que

medo: "qualquer vídeo de metal que eu já vi é só peito e bunda; é como se tudo fosse isso. Os headbangers do ensino médio que estão sentados relaxados, vendo esses vídeos, eles vão provavelmente ficar com alguma imagem distorcida das mulheres, totalmente

idealizada ou

isso me deixa realmente

Alguém

devia atirar em Axl Rose no joelho."

Outras meninas lutam com seu reconhecimento de que algumas canções de heavy metal representam a mulher de forma exploratória, e simultaneamente, criticam tais canções e as perdoam. Jennifer exemplifica esse conflito:

Um monte de bandas [denigrem as mulheres], mas isso é apenas uma parte de como as pessoas pensam por muito tempo, é provável que eles não estejam

pensando nisso. Mas eles não estão ajudando em nada em não pensar sobre isso. Talvez eles contribuam com isso. Eu acho que às vezes eu fico ofendida e

eles botam mulheres em seus vídeos com algum objetivo,

tudo bem, porque essas mulheres não precisam concordar com isso também. Muitas pessoas vão dizer, "Vejam como eles desmoralizam as mulheres colocando-as em seus vídeos." Mas elas não precisam concordar de estar nos vídeos, então são ambos culpados.

outras vezes

Se

Outras meninas tentam explicar a exploração de mulheres em algumas músicas de heavy metal, observando que a exploração da mulher é apenas um fato que permeia as nossas vidas. Sally diz que as músicas de heavy metal não são piores que outras músicas. "Eu penso que toda canção é [antimulher]. Quero dizer, toda maldita canção de rap é." Para Nina, as representações da mulher nas canções de metal são meros reflexos da realidade. "Eu acho que o mundo é antimulher. Está tão no dia-a-dia que se cruza. Eu acho que é um mundo dominado pelos homens e eu acho que vai ser sempre assim."

Para as meninas, então, heavy metal é uma fonte de alienação, bem como a fonte de alívio para isso. Embora o heavy metal alivie sua alienação e forneça uma expressão consoladora para isso, algumas das músicas e bandas à margem do heavy metal, especialmente as de glam metal, que se aproximam mais do hard rock, também aprofundam sua alienação e confirmam seu senso de que o mundo adulto, que estão prestes a entrar, é lúgubre e perigoso.

Meninas e meninos

Meninas tendem a estar na periferia de subculturas juvenis, e isso é uma verdade particularmente na subcultura do heavy metal. Pesquisas em salas de aula, incluindo a usada neste estudo, mostram que menos meninas que meninos gostam de heavy metal. Como apontado aqui no Capítulo 1, shows de heavy metal são frequentados quase que inteiramente por meninos, embora isso possa ser parte da atração para as meninas que assistem. Em parte, o maior apelo do heavy metal para os meninos reflete uma média maior de busca de altas sensações entre eles. Heavy metal atrai apenas às pessoas que tem uma elevada tendência à busca por sensação. Porque meninos, em geral, tem anseios superiores que as meninas na busca por sensações, mais meninos estão nessa categoria e mais meninos gostam de heavy metal.

Pode o maior apelo do heavy metal nos meninos refletir maior alienação em relação às meninas? Não há resposta simples para esta questão. Generalizações sobre gênero normalmente simplificam muito, e obscurecem mais que iluminam. Comparar uma metade da população humana com a outra metade, inevitavelmente trata por alto a enorme variedade que existe em cada metade.

A questão é difícil de responder e talvez não haja um ponto que a responda. Talvez seja o bastante para constatar que a alienação seja difundida entre os americanos adolescentes, meninos e meninas do mesmo modo. Garotos tendem mais a serem atraídos pelo heavy metal, porque eles estão em posição superior na busca por sensações e o heavy metal provê essa experiência e alivia suas alienações. Mas muitas meninas também sofrem com o senso de isolamento e solidão. Muitas meninas, também, são alienadas por instituições de socialização na família, comunidade, escola e religião. Por

causa da natureza radicalmente individual de suas socializações, muitos jovens de todo gênero são empurrados para a vida adulta parcamente preparados para as exigências de controlar o impulso, obrigações comuns e alto-regulação que são inerentes no papel adulto. Esse tópico será explorado mais adiante no capítulo final.

Referência bibliográfica

ARNETT, Jeffrey Jensen _ Metalheads : heavy metal music and adolescent alienation. Boulder: Westview Press, 1996.

BRAKE, M. (1985). Comparative Youth Culture: The Sociology of Youth Cultures and Youth Subcultures in Ameria, Britain, and Canada. London: Routledge and Kegan Paul.

The Sociology of Youth Cultures and Youth Subcultures in Ameria, Britain, and Canada. London: Routledge and