FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ DE SANTA CATARINA

LUIZ CLÁUDIO DA ROSA

FUNDAMENTOS LEGAIS DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA

SÃO JOSÉ, 2010.

LUIZ CLAUDIO DA ROSA

FUNDAMENTOS LEGAIS DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA

Trabalho de Conclusão de Curso – TCC apresentado à disciplina de Monografia II do Curso de Direito da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina, como requisito parcial para aprovação na mesma.Orientador de Conteúdo: Prof. MSc. Rafael Peixoto Abal Orientadora Metodológica: Prof. MSc. Edelu Kawahala

SÃO JOSÉ, 2010.

xxxxxxxxxxx Membro .LUIZ CLÁUDIO DA ROSA FUNDAMENTOS LEGAIS DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado e aprovado em sua forma final pela Coordenação <xxxxxx> da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina. Priscila Monteiro Pereira Coordenadora do Curso de Direito Apresentada à Banca Examinadora composta pelos professores __________________________________________ Prof. Rafael Peixoto Abal Orientador __________________________________________ Prof. xxxxxxxxxxx Membro __________________________________________ Prof. em XXXX de XXXXX de 2010. Prof.

A minha querida esposa Gabriela. a minha filha Nicole e a todos que acreditaram no meu potencial. .

que com sua força. que me apoiou e incentivou. que levarei comigo. Everaldo Luis Restanho. Em especial a minha querida mãe. a criar uma família. a amar. A minha amada esposa Gabriela. que acreditou na minha superação. por ter me ensinado a respeitar. uma sociedade composta de amizade. Aos mestres. soube superar tantos desafios. . que me incentivou ainda mais. que com seus apoios. e com sua humildade e dedicação soube educar com benevolência seus filhos. Aos professores e orientadores. conseguem transformar simples alunos em grandes profissionais.AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus. Aos meus colegas do curso. aos amigos que conquistei. e que serei eternamente grato. que me acompanha intensamente nesta jornada. que aqui já completou sua missão. com intuito de melhorar ainda mais meu trabalho. que vulgo “Sócios”. Rafael Peixoto Abal. Seu incentivo foi fundamental para superar tantas dificuldades. aumentando veemente minha paixão pela vida. assim serei com minha filha. lealdade e companheirismo. meu amor por você é incondicional. em meu coração você é eterna. que com sua sabedoria. pela força consistente de superar tantos desafios. Alexandre Brito de Araújo. Aos grandes advogados. Leia Mayer Eyng e Edelu Kawahala. Agradeço muito pela educação. Mãe. A minha filha Nicole. Ao meu pai. em especial ao Renato Souza e Leonardo Longo. deixo aqui registrado meu muito obrigado. Tullo Cavallazzi Filho e Marcos Andrey de Sousa que me apoiaram desde o início. muito obrigado. Aos que compuseram a banca. enfrentei com tranquilidade este trabalho.

dos governos. Rudolf von Ihering . Enquanto o direito estiver sujeito às ameaças da injustiça. ele não poderá prescindir a luta. A vida do direito é a luta: luta dos povos. o meio de que se serve para conseguir-lo é a luta. e isso perdurará enquanto o mundo for mundo. dos indivíduos.O fim do direito é a paz. das classes sociais.

e fraudar seus credores. e para que seja protegida a pessoa jurídica deve-se distinguir a pessoa do sócio. 50. e o seu reconhecimento doutrinário e jurisdicional na sua forma excepcional. tem como finalidade proteger a pessoa jurídica. encontrase a Desconsideração inversa. as sociedades realizam várias operações no mercado.RESUMO A Desconsideração da Personalidade Jurídica é tratada no Código Civil Brasileiro de 2002. Muitos sócios tentam esquivar-se de suas dívidas pessoais. e fugir das suas obrigações. escondendo seus bens pessoais na pessoa jurídica. a importância de utilizar a Teoria Inversa. a autonomia patrimonial desta. proteger a pessoa jurídica. Sabe-se que a Teoria Inversa da Personalidade Jurídica vem ganhando força na esfera jurídica e nos tribunais. no seu art. obtendo a confusão patrimonial e caracterizando a fraude. Sabe-se que na atualidade. Palavras – chave: Pessoa jurídica. teoria pelo qual é fundamental para a mesma função. . Desconsideração da personalidade Jurídica. Nesse mesmo liame. não deixar que seus controladores usem a pessoa jurídica como meio de desvirtuar sua função. Inversa.

......................................................................23 2.....................................27 2.................................................4.......................................................................................................................................................24 2.......28 2.....39 A DESCONSIDERAÇÃO PERSOBALIDADE NO DIREITO BRASILEIRO...............11 2...........4.................................................. 50..................SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................19 2........................3 3..............3 Fundações..............................................................11 2.............2.............30 2.........42 3..................................2 HISTÓRICO.......4..................................................................................................3....2 Classificação das Sociedades Empresárias.............3 NATUREZA JURÍDICA...................................2 Sociedade comandita simples......34 3...................................................3....4 Sociedade anônima.....................4 Teoria da instituição....17 2.......................................................................................26 2.1 Sociedade em nome coletivo................................26 2....2 Sociedades..........2 CONCEITO .1 A Desconsideração no Direito do Consumidor......................................................36 3.............44 3..................................................1.....3 Teoria negativista (equiparação)...............................................................................3 Sociedade comandita por ações...............................................4.......................................................21 2..............................................4 A Desconsideração no Código Civil de 2002 – Art..............................................4..2...........................................................25 2..............................4 TEORIA MAIOR E TEORIA DA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO JURIDICA DA PERSONALIDADE JURÍDICA..........32 3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA......................................................1 CONCEITO........45 3.........................................................................................................4.............................................1.....29 2....................4......................................................3........................................................1 evolução histórica.....3.....................4..........................................................30 2............................................1 Pessoas jurídicas de direito privado...............................................2 Teoria da realidade ou realidade objetiva.........................................................28 2..................................................................2................4..................9 2 PESSOA JURÍDICA.....51 ...........4 CLASSIFICAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA.........4.....................4.....33 3...............................................4.........1 Associações.................................................................................................................................................4......................25 2....................5 Sociedade limitada...................................2........14 2...........1..........................................................................................................................................................................................................2.........2 A Desconsideração no Direito Tributário.....................................1 Teoria da Ficção .49 4 DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA...........................

..................1..............4...1..........................62 5 CONCLUSÃO.....................56 4................................69 REFERÊNCIAS...........................................................1 FUNDAMENTOS LEGAIS DA DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA...................................................................................71 ...2 ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL .........................................58 4.............................................................3 Confusão patrimonial....................................................1 Abuso do Direito...................................................2 Desvio de finalidade.......................................................................................................................................................1.........................................................................................................57 4.................60 4..................

contexto histórico. . a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. observou-se a Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica de origem anglo-americana. buscar fundamentos para a nova interpretação da teoria. doutrinário e jurisprudencial. abordando seu conceito. especificamente no direito brasileiro. objetivando a constrição sobre os bens do sócio que por tais atos abusivos leva a confusão patrimonial. Seu estudo será realizado desde a sua origem. sendo o primeiro dispositivo a tratar da teoria. com base no ordenamento jurídico pátrio. No segundo capítulo. seu contexto histórico e surgimento no direito brasileiro. voltou-se a debater uma nova interpretação do instituto em estudo. É nesse norte. O método de abordagem será utilizado o dedutivo. aspecto histórico e natureza jurídica. Buscar a origem da pessoa jurídica. Entretanto com finalidade de proporcionar conhecimentos possíveis de aplicações práticas. inibindo a confusão patrimonial. na sua forma invertida. partindo de princípios reconhecidos como verdadeiros e indiscutíveis. encontrar soluções para o problema proposto. No entanto. mas sim levantar o véo que a encobre. Será baseado no raciocínio lógico. assim o legislador entende aplicar a teoria no Código Civil de 2002.605/98 (Lei Ambiental). possibilitando chegar a conclusões de maneira puramente formal. a sua aplicação invertida. a fim de elucidar que a teoria busca preservar a sociedade empresária. O primeiro capítulo tem como propósito observar o surgimento da pessoa jurídica. vale ressaltar que no ordenamento jurídico brasileiro. as associações e fundações. Ainda. buscando entender o instituto da Desconsideração da Personalidade Jurídica. na sua forma explícita. discorrer sobre a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. analisar os fundamentos da Teoria da Desconsideração Inversa da Personalidade Jurídica. verificar o entendimento doutrinário e jurisprudencial acerca do tema. assim denominada pesquisa pura. sua natureza e contexto histórico. será examinada a classificação das pessoas jurídicas.9 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objetivo. traz o Código de Defesa do Consumidor. na Lei 9. e desta forma. A teoria nasce com o propósito de coibir a prática da fraude ou abuso através da personalidade jurídica. em virtude de sua lógica. não visa a teoria anular a personificação. diferenciando e caracterizando as sociedades. mediante utilização de métodos científicos. sua origem. coibir o abuso do sócio em relação à pessoa jurídica e terceiros. as teorias existentes a seu respeito. ou seja. e dentre outros ordenamentos que será analisado. Será abordada neste capítulo.

. com base na doutrina e jurisprudência. Destarte. Importante salientar. São requisitos essenciais para a caracterização da teoria da desconsideração. ganha espaço no ordenamento jurídico brasileiro e nos tribunais. com a mesma finalidade da teoria tradicional. esquivando-se assim de suas obrigações. por meio dos seus sócios e administradores. No terceiro e último capítulo. confundindo fraudulentamente com bens da pessoa jurídica. Tramitando na mesma linha de raciocínio. e não é qualquer ato de inadimplemento que servirá para caracterizar de plano a Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica. escondendo seus bens. coibir atos fraudulentos daquele que controla a pessoa jurídica. pois são fontes indispensáveis para o estudo e interpretação do direito.10 Importante salientar que. Assim. surge uma nova interpretação da Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica em sua forma invertida. ou seja. que faça da pessoa jurídica um obstáculo para com as suas responsabilidades perante seus credores. serão analisados para a busca da nova interpretação da Desconsideração da Personalidade Jurídica. É neste entendimento que será abordado todo aspecto legal para sua aplicação. desvio de finalidade e confusão patrimonial. desconsiderar a personalidade jurídica diante dos atos fraudulentos pessoais do sócio. coibindo o sócio administrador. inverter o pólo da teoria. abordará a Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica na sua forma Inversa. sendo estas fontes essenciais como base do estudo. meios esses que se iniciam das suas obrigações pessoais. como fundamentos legais. com base na doutrina e jurisprudência. tais agentes para escapar de outras obrigações. poderá o juiz declarar a desconsideração inversa. não apenas aquelas da própria personalidade jurídica buscam outros meios fraudulentos de esquivar-se dos seus credores. o credor não poderá executar a pessoa jurídica por esta ser distinta da pessoa do sócio. Somente através de provas do desvirtuamento do sócio. No decorrer dos anos a desconsideração da personalidade jurídica. que deverá o magistrado observar os pressupostos da Desconsideração da Personalidade Jurídica. seus fundamentos e pressupostos para aplicação com base na doutrina e jurisprudência pátria. Em princípio. abuso de direito. ou seja. a desconsideração é apenas caracterizada pelo abuso da pessoa jurídica. que se desvirtue dos seus princípios e objetivos. se escondem por trás da pessoa jurídica para desviar seus bens pessoais.

É nesse sentido que surge o instituto da pessoa jurídica. a pessoa jurídica é um produto da ficção jurídica. é necessária sua existência real. ou seja. é de fato que esta seja um ente real. a pessoa jurídica tem gênero de pessoa natural. distinção reconhecida pelo ordenamento jurídico (SILVA. reconhecida pelo ordenamento jurídico. ou seja. 2007). de existência real. Portando. seu reconhecimento positivado. Verifica-se também que a pessoa jurídica é um ente incorpóreo. deve-se observar a concepção de pessoa jurídica. Dessa forma. o homem agrupa-se para diversas finalidades. Como afirma o autor. com o passar do tempo seu propósito aumenta. são distintas. atuando na vida jurídica independentemente dos indivíduos que compõem. ou seja. É neste norte que será estudado por diversos doutrinadores o conceito da pessoa jurídica e seus efeitos perante terceiros. a pessoa jurídica para que seja desconsiderada.11 2 PESSOA JURÍDICA Por razão natural. portanto. 2. 184): . assim como a desconsideração de sua personalidade em casos excepcionais. Dessa forma orienta Silva (2007. mas com responsabilidades. A pessoa jurídica é. a entidade capaz de ser sujeito de direitos e obrigações na órbita social. É importante frisar que a pessoa jurídica é distinta da pessoal natural. p. obrigações e direitos. tal criação deve ser analisada para que seus efeitos jurídicos sejam reais.1 CONCEITO Primeiramente. à qual a lei confere personalidade. sendo esta um fenômeno jurídico. é neste sentido que leciona Martins (2005. p. porquanto só é possível desconsiderar aquilo que existe (JUSTEN FILHO. ela se constitui num centro autônomo de imputação de relações jurídicas. 1985). 39): pessoa jurídica é distinta da pessoa natural. estabelecendo-se ao lado da pessoa natural como outra espécie de gênero pessoa. Todavia. porém adquirente de direitos e obrigações. Assim surge a pessoa jurídica para que o homem diante de sua necessidade de reunir-se a outros criando força para novos objetivos.

agente ou ator do ato jurídico”. dominando um patrimônio próprio. no conceito de pessoa jurídica Requião (2008. ou seja.58) aduz que: trata-se. ao contrário. . para o direito. Percebe-se então o conceito dado pelo autor. nome particular. p. a autonomia patrimonial da pessoa jurídica. p. 387) ensina que: a sociedade transforma-se em um novo ser. as pessoas jurídicas com as pessoas físicas. em obra recente e muito bem aceita. mormente tratando-se de obrigações. Seu patrimônio. delas se distanciam. Os bens sociais. ao passo que o conceito de pessoa. uma verdade que se deve ser aceita pelo direito. possuidor de órgãos de deliberação e execução que ditam e fazem cumprir a sua vontade. pois cada pessoa responde por seu patrimônio. assegura sua responsabilidade direta em relação a terceiros. como demonstrou Tércio Sampaio Ferraz.12 é a pessoa jurídica o ente incorpóreo que. 2005). Ao analisar o assunto da personalidade jurídica. um dogma. no terreno obrigacional. Na verdade. não passava de uma unidade consistente num complexo de deveres jurídicos e de direitos subjetivos imputados por normas jurídicas. como objeto de sua propriedade. Kelsen demonstraria que a personalidade jurídica. estranho à individualidade das pessoas que participam de sua constituição.32) “são distintas as idéias de ser humano e de pessoa. aquele é um conceito biológico. 59) referindo a definição dada por Kelsen: em sentido contrário. sob pena de comprometer-se a decidibilidade que lhe é própria. indica o sujeito com capacidade de titularizar direitos e deveres. as quais deram lugar ao seu nascimento. na verdade de mero conceito jurídico que não é unanimemente aceito. tanto a reconhecida as ser humano como a atribuída a grupamentos distintos. da mesma forma que a pessoa natural. como ocorre com os de qualquer pessoa natural. Não se confundem. como as pessoas físicas. a pessoa jurídica tem vida autônoma. Continua Dantas (1998. pode ser sujeito de direitos. porém. trata-se de um truísmo. adquirindo patrimônio autônomo e exercendo direitos em nome próprio. Ainda. porém seus efeitos e natureza que se diferem (MARTINS. Para Mamede (2008. p. e também a sua preocupação entre a distinção da pessoa jurídica e pessoa natural. Destarte. constituem a garantia dos credores. preservando assim. p. Dantas (1998. assim.

. não os seus membros. o que não é afetado por João se um dos sócios de Zé. Partindo dessa premissa segue-se o conceito de Monteiro (2003. conceitua a pessoa jurídica nos seguintes termos: . inclusive. a pessoa jurídica se desenvolve através da pessoa natural. o sujeito de direitos e deveres. 9) “a pessoa jurídica não preexiste ao direito. que Zé Ltda. proporcionando diversas atividades em proveito da comunidade (MONTEIRO. ou seja. É possível. a capacidade do homem. pessoa jurídica e pessoa natural em relação aos seus direitos e deveres. porém na sua concepção. ocupando juristas de todas as épocas e de todos os campos do direito. Afirma Venosa (2005. será incapaz de realizar certos fins que ultrapassam suas forças e os limites da vida individual. diante do seu conceito e natureza jurídica. José e Pedro constituem regularmente a pessoa jurídica. necessita a união de suas forças. para um estudo mais específico acerca do conceito de pessoa jurídica deve-se analisar estudos no âmbito civil. não se confunde tais agentes. No entanto. dotadas de estrutura própria e de personalidade privativa. cuja existência começa com o registro regular. Para a consecução desses fins. sendo que na criação da personalidade jurídica. p. Assim. a sociedade (a pessoa jurídica). 2003). Mamede (2008. pois na doutrina comercialista é comum evitar a discussão acerca do conceito (COELHO. Fica claro o exemplo do autor. Sociedade Zé Ltda. acrescentando sua atividade à de seus semelhantes. juntando seu poder ao de outros indivíduos. com as quais supera a debilidade de suas forças e a brevidade de sua vida. é uma criação. nos negócios mantidos por Zé será ela. conforme artigo 45 do Código Civil. 120): para o bem compreender a existência de semelhantes entidades as pessoas jurídicas. formando associações. 2004). uma idéia conhecida dos advogados. 34) exemplifica na prática a pessoa jurídica. juízes e demais membros da comunidade jurídica. para que seja concretizado o instituto jurídico da pessoa jurídica. observa-se: se as pessoas João. multiplica-se assim.13 Ao analisar a distinção entre a pessoa jurídica e natural. muitas vezes. p. das pessoas. Negocie com João: serão duas pessoas distintas mantendo relações contratuais. 260) que a conceituação da pessoa jurídica é polêmica. Portanto passa-se a analisar o conceito de pessoa jurídica apresentado pelos grandes doutrinadores civilistas. Para Coelho (2004. p. p. ele tem de unir-se a outros homens. que auxilia a composição de interesses ou a solução de conflitos. por si só.” É de bom alvitre salientar que. é preciso partir da ideia de que o individuo.

companhia. quer se trate de associações. No ius privatum. 2007). p. é que se nota a transformação dos sujeitos. independentes dos membros que as compunham. 2. com a evolução do contexto histórico do sistema jurídico. pode-se dizer que. 2007). o mesmo não era reconhecido por entes coletivos. havia uma nítida distinção entre o regime jurídico do direito público e do direito privado. deriva a criação da pessoa jurídica (SILVA. passando assim a ser vista como outra espécie de sujeitos. Portanto. Ainda Silva (2007. Destarte. esta em sentido coletivo”. e não alcançaram um conceito preciso como sujeitos de direito privado autônomos (SILVA. Nesse diapasão elucida Silva (2007. germânico e canônico. sociedade e empresa. destaca-se delas algo que as transforma em entidades que não se confunde com as pessoas que as constituíram ou as dirigem. (SILVA. nem com as pessoas que são beneficiadas por sua atividade.14 intuitivamente. p. percebemos. 33): certamente. Nessa época. na busca do conceito de pessoa jurídica. assim. 370) impõe-se desde logo. como único sujeito de direito”. de pessoa natural a tais coletividades. “a fixação do precioso sentido jurídico das palavras com que se designa a união de pessoas para o desenvolvimento de atividade econômica: associação. era robusta a idéia de pessoa natural. quer se trate de sociedades. pois eram vistas sob o prisma da existência de pessoas naturais que lhes davam forma e conteúdo. no início da formação desses sistemas. as coletividades não eram compreendidas como unidades autônomas. . 33) apreciando o contexto histórico da pessoa jurídica afirma que “no direito romano. 2007). não interessava ao Direito outro ente que não fosse a pessoa natural. Sua Atividade é distinta. Para Requião (2008.2 HISTÓRICO A moderna concepção de pessoa jurídica derivou da evolução e confluência do direito romano. p. quer se trate de fundações.

” Na síntese histórica buscada por Lopes (2000. o Direito germânico e o canônico. que formavam o grupo. pois as pessoas naturais que integravam nas coletividades eram os verdadeiros sujeitos de direitos. o valor do indivíduo. especialmente do ponto de vista político. mas unidade autônoma e independente. Acerca da origem histórica da pessoa jurídica nos ensina Monteiro (2003. p. certas associações de interesse público. 82). Quer de ordem pública. desaparecendo. Entretanto. a seu turno. as associações e instituições passaram a interessar ao Estado. na confluência desses três fatores históricos: o Direito romano. Por vezes a finalidade que o move . a origem no contexto histórico da pessoa jurídica surge quando: a pessoa jurídica surge para suprir a própria deficiência humana. não se lobrigava senão a entidade na coletividade. uma luta incessante entre o princípio da unidade e o da universalidade. no antigo direito germânico não existia o conceito de pessoa jurídica. p. p. corpora e collegia. como acontecia na universalidade. Acentua ainda Monteiro (2003) que foi o direito canônico que desenvolveu o instituto da pessoa jurídica. p. sodalitattes. para os fins mais diversos. subordinada pela Igreja. elas se multiplicaram de modo impressionante. Monteiro (2003. Na primeira fase do Império Romano. por assim dizer. 29) “as primeiras notícias de formas associativas são provenientes da Idade Média. estabelecendo sociedade com outros homens. Nesse processo genético nota-se. Freqüentemente o homem não encontra em si forças e recursos necessários para uma empresa de maior vulto. de sorte que procura. quer de ordem privada. Nos tempos modernos.15 Para Gonçalves (2004.” Para Rodrigues (2002. enriqueceu-se a pessoa jurídica com o acréscimo das fundações. 121) afirma que “mais recentemente. entretanto. e tinham só objetivo a criação de empresas econômicas pelos comerciantes italianos permitindo a conjugação de esforços em prol de um fim comum. porém. No direito de Justiano. ensina que: toda moderna concepção de pessoa jurídica plasmou-se. como universitates . tornando-se mais tarde independentes. Mas os romanos sempre se mostraram muito sóbrios. constituir um organismo capaz de alcançar o fim almejado. singularmente. e jamais tiveram a mesma idéia a respeito das vastas abstrações metafísicas que os escritores alemães iriam formular séculos mais tarde. muito parcimoniosos nesse tema. de começo outra coisa senão as pessoas humanas. Não se compreendia. conheciam-se. Assim. 357). Somente após uma evolução notável das idéias é que a coletividade se abismou para cristalizar-se na unidade. 121): no antigo direito romano a pessoa jurídica não existia. p. com a criação das fundações denominadas corpus mysticum.

182). passando este a atuar na vida jurídica com personalidade própria. inclusive. p. No início. como se faz com a . 2008). Acerca da necessidade da criação do instituto da pessoa jurídica observando seu traçado histórico Gagliano e Pamplona Filho (2008. No mesmo sentido Gonçalves (2008. ou para se cultivar.183) “nesse contexto a pessoa jurídica. p. que se confundiam com a própria família. juntos. figura moldada a partir de um fato social. que atribui personalidade ao grupo. a assistência social. com o reconhecimento do direito. necessita o direito reconhecer a pessoa jurídica. e. 30) afirma que “a pessoa jurídica é. ressalta que: a razão de ser. conferindo personalidade jurídica ao grupo. que transcendem as possibilidades individuais.16 não tem intuitos econômicos. da pessoa jurídica está na necessidade ou conveniência de os indivíduos unirem esforços e utilizarem recursos coletivos para a realização de objetivos comuns. Portanto para Gagliano e Pamplona Filho (2008. ou para praticar a caridade. como sujeito de direitos e obrigações. tornando assim uma unidade e atuando no comércio. Uma associação nasce ganha vida e personalidade. nasce como contingência de fato associativo. proveniente desse fenômeno histórico e social”. impondo. portanto. portanto. mas com sua capacidade individual (GAGLIANO. o Estado percebeu a importância das formas de associações. a necessidade de o Estado intervir na economia para coibir abusos. ou mesmo para. 182) nos ensina que: também o desenvolvimento econômico dos povos demonstrou a necessidade de o homem formar grupos para atingir as suas metas. e os indivíduos se associam para se recrear. Essa constatação motivou a organização de pessoas e bens. Adequando-se ao contexto. Após as observações. grandes e complexos aglomerados empresariais. constata-se ainda Gonçalves (2004. Contudo. p. motivo este que incorporou a estrutura da pessoa jurídica no sistema econômico para acompanhar o desenvolvimento social (GONCALVES. ganha singular importância”. sendo assim elemento fundamental da economia contemporânea. 2004). p. com o florescer do desenvolvimento tecnológico. PAMPLONA FILHO. sobrelevandose aos indivíduos que a compõem. Destarte. 30): assim a pessoa jurídica que é dotada de uma personalidade e capacidade jurídica por concessão do Estado. simples núcleos primitivos de produção. Gonçalves (2008. posteriormente. cultuar seu deus. distinta da de cada um de seus membros. p.

] o ordenamento jurídico confere à universalidade de uma personalidade jurídica permitindo que se torne uma unidade capaz de exercer direitos e obedecer aos deveres que lhe são pertinentes.3 NATUREZA JURÍDICA . e não um produto do direito. suas teorias e interpretações partindo da premissa dos fundamentos históricos da pessoa jurídica.17 pessoal natural. não se consideravam como pessoas jurídicas. No entanto. são um produto da ciência que descreve o Direito. pois esta somente tem personalidade reconhecida quando o ordenamento jurídico a concede. existindo somente em virtude de seus contratos. p. pois naquele tempo ainda não se compreendia a limitação da responsabilidade do membro da sociedade (SILVA. 2007).318. No esboço do Código Civil brasileiro elaborado por Teixeira de Freitas. 2. buscou-se relacionar as pessoas jurídicas como pessoas de existência ideal públicas. no entanto a sua natureza. não se tratou com o devido rigor técnico o conceito de pessoa jurídica. Por Fim. Destarte. observa-se. estando ele em franca evolução. que.. 36) ressalta que “no Brasil ao tempo da Consolidação das Leis Civis. de 22 de dezembro de 1858. às Ordenações Filipinas e legislação posterior que as modificaram. nada foi regulamentado. a pessoa jurídica somente foi reconhecida em nosso sistema jurídico no Código Civil de 1916. assim. de tal modo que a personificação e o seu resultado. 36) no esboço histórico: essa situação ainda perdurou com o Decreto Imperial de n. o conceito auxiliar de pessoas jurídicas . Vê-se. isto é. p. 2. onde denotava uma visão nitidamente liberal. também no seu esboço não tratou a pessoa jurídica de sujeitos de direito. que o Código comercial de 1850 já derrogado. em que apresente a pessoa jurídica com um espírito social (SILVA. como é sabido. sendo negada quando esse assim o quer. modificado pelo vigente Código Civil brasileiro de 2002.. Silva (2007. 2007). Assim. correspondia ao direito positivo em vigor. [. Prossegue Silva (2007. que autorizou a elaboração do projeto de Código Civil. havia muita confusão quanto ao tema das pessoas jurídicas. ainda nessa época. as sociedades civis ou comerciais. apresentado seus fundamentos históricos. Vale dizer que.

. ansiosos de lhes descobrirem a natureza jurídica. a da realidade e a institucional. p. p. em que tomaram parte civilistas. equiparação orgânica ou da realidade objetiva e da realidade das instituições jurídicas (MONTEIRO 2003). Sua natureza jurídica. a da pessoa jurídica realidade técnica. porém tais teorias são numerosas além das citadas pelo jurista. várias teorias formularam-se a respeito. criminalistas. em maior número (teorias afirmativas). muito debatida pelos juristas. 183) a natureza jurídica da pessoa jurídica classificam-se em dois grupos: malgrado subsistam teorias que negam a existência da pessoa jurídica (teorias negativas). preceitua Rodrigues (2007.18 Portanto. como da ficção. p. as teorias da ficção da propriedade coletiva. a da pessoa jurídica como realidade objetiva. E mais de uma dezena de teorias foram elaboradas. Destarte. com individualidade própria reconhecida pelo Estado e distinta das pessoas que a compõem. romanistas. naturalmente. As diversas teorias afirmativas existentes podem ser reunidas em dois grupos: o das teorias da ficção e o das teorias da realidade. cada qual procurando justificar e explicar a existência de referidas instituições. conforme descrito por Monteiro (2003. surgindo então as teorias interpretativas na concepção da pessoa jurídica. outras. procuram explicar esse fenômeno pelo qual o grupo de pessoas passa a constituir uma unidade orgânica. Ainda na mesma diapasão. não aceitando possa uma associação formada por um grupo de indivíduos ter personalidade própria. a institucionalista. de Hauriou. 86): a existência desses seres provocou. certa perplexidade nos juristas.128) é “campo aberto às mais sutis discussões e às polêmicas mais ardentes. comercialistas e até canonistas”. Para Gonçalves (2009. Para Pereira (2004) as teorias se dividem em quatro categorias. estuda-se aqui as teorias mais debatidas pelos grandes pesquisadores do direito. filósofos do direito. passa-se agora a verificar a natureza da pessoa jurídica. Merecem maior destaque dentre essas teorias: a da ficção legal. Entretanto. e que são divididas por escritores de grande envergadura acerca do tema.

por ficção. desfrutou largo fastígio no século XIX. mas apenas intelectual. a personalidade jurídica somente existe por determinação da lei. uma pessoa. a criação de pessoa jurídica. na concepção de Oliveira (2000. Assim. sustentada por Savigny. por elas não possuírem vontade própria (OLIVEIRA. isto é. aplicando- . b) por não possuir vontade. pelo qual entende que a pessoa jurídica não passa de uma criação legal. Com fundamento na teoria da ficção. resume-se que somente o homem poderá representar as pessoas jurídicas. Em seguimento. Essa idéia se encontra. estabelecidas em estatuto. Partindo Savigny da diferença entre pessoas físicas e jurídicas. porque sua existência só se justifica para atender a fins jurídicos. apesar disso. de certo modo. entende que a pessoa jurídica não é mais do que uma criação legal. repetida na obra de seus afamados adeptos. a pessoa jurídica equipara-se aos absolutamente incapazes. p. também citando como percussor da teoria da ficção Savigny. sustentava que a personalidade jurídica decorria de uma ficção da lei. No entendimento de Rodrigues (2007). Assim. e encontra seu principal defensor Savigny. isto é. mas que. Ainda acerca do tema. 273). devendo ser atribuída. Savigny classificou-as de pessoas fictícias. 87) conceitua que: enquanto a personalidade natural é uma criação da natureza e não do direito. Essa visão de Savigny decorre da sua noção de direito subjetivo como sendo um poder atribuído pelo ordenamento jurídico a uma vontade. observa-se: a teoria da ficção. através de lei. pois temos pessoa físicas que não possuem vontade (menores. para atuarem no mundo jurídico. doentes mentais). sustenta que o ordenamento jurídico conceitua a união de pessoas.19 2. sendo certo que a lei. 2000). lhe atribuiu existência. possuem direitos subjetivos. p. p. ainda Oliveira (2000. foram retidas as seguintes conseqüências: a) a personalidade jurídica depende do Estado. qual seja a de atribuir exclusivamente à vontade psíquica o poder. somente o Estado pode admitir.3.1 Teoria da Ficção A teoria da ficção dentre outras teorias tão debatidas é de maior ênfase entre os estudiosos. argumenta: essa visão padece de um grave vicio. 273). Rodrigues (2007. oriundo da noção mesma de direito subjetivo sustentado por Savigny. Windscheid é categórico ao ensinar que a pessoa jurídica não tem existência real. bem como se fosse um sujeito de direito.

decorre simplesmente da necessidade de atingir seus fins. p. e. ao nosso entender. é considerada pelo ordenamento jurídico. uma abstração que. e não dos seus membros. destino a justificar a atribuição de certos direitos a um grupo de pessoas físicas. 184): para a primeira. p.20 se a essa representação as normas do mandato. assim. que são em grande número. só entendida como uma ficção pode essa capacidade jurídica ser estendida às pessoas jurídicas. ainda para Gonçalves (2009. porem várias.183) “as concepções ficcionais. intelectualmente. pois somente a pessoa natural pode ser sujeito da relação jurídica e titular de direitos subjetivos. Tudo quanto se encontre na esfera jurídica seria. Na conceituação de Pereira (2004. o Estado pode dissolver a pessoa jurídica por motivos políticos. diversa da realidade. atribuída às pessoas jurídicas. Não há uma única teoria ficcionista. d) como são criações do Direito. Dessa forma. Desse modo. desfrutam largo prestígio no século XIX e podem ser divididas em duas categorias: teoria da ficção legal e teoria da ficção doutrinária”. e não tem existência real. Deste ponto de vista verifica-se as categorias segundo Gonçalves (2009. Já na segunda categoria da ficção doutrinária. uma ficção. para fins patrimoniais. “dizer-se que o Estado é uma ficção legal ou doutrinária é o mesmo que dizer que o direito. 302). p. ou seja. Assim. as teorias não mais são aceitas nos dias de hoje. segundo Gonçalves (2009) é uma variação da anterior. Para Gonçalves (2009. desenvolvida por Savigny. concebida dessa forma. não passa de simples conceito. é uma mera ficção criada pela doutrina. e) por outro lado. a crítica feita é de que o próprio Estado não explica sua existência como pessoa jurídica (GONCALVES 2009). . p. portanto. nos ensina que: sob esta epígrafe podem ser agrupadas as que negam a existência real da pessoa jurídica procurando explicá-la como ente fictício. ainda acerca da teoria da ficção. que dele emana. para o campo da ficção devem ser deslocadas doutrinas que comumente são apresentadas como não compreendidas nesta categoria. um ente fictício. inclusive a própria teoria da pessoa jurídica”. também o é. uma ficção jurídica. 184). Constrói-se desse modo. a pessoa jurídica constitui uma criação artificial da lei. sua dissolução também depende da vontade estatal. c) a capacidade de direito. A pessoa jurídica.

pública ou privada. é capaz de dar vida a um organismo. é aquela que tem existência real. real e verdadeiro. explica Venosa (2005). de procedência germânica (Gierke e Zitelmann).21 Monteiro (2003). capaz de tornar-se sujeito de direito. A ideia básica dessa teoria é que as pessoas jurídicas. são uma realidade sociológica. p. como poder de ação. sendo o contrário da teoria já analisada anteriormente. isso se trata de simples criação da mente humana. apenas o homem é concedido as prerrogativas. assim conceituam os juristas. e que os adeptos dessa teoria.Desse raciocínio infere-se que o legislador pode livremente conceder. segundo os críticos. Quando se atribuem direitos a pessoas de outra natureza. na análise da teoria da ficção. p.” No entanto. porque só ele tem existência real e psíquica. estando em franco descrédito. longe de serem mera ficção. observa-se a teoria da realidade ou objetiva. e acrescenta que originou-se do direito canônico e prevaleceu até o século XIX. Venosa (2005). assim. Daí a conclusão de Rodrigues (2007.2 Teoria da realidade ou realidade objetiva Doravante. 88): a teoria da pessoa jurídica como realidade objetiva. o direito. . ensina Venosa (2005. representa uma reação contra a anterior. 2. Por isso. Venosa (2005. negar ou limitar a capacidade desses entes ficticiamente criados. No entanto. afirma que há múltiplas formas de encarar a pessoa jurídica. só o homem pode ser titular de direitos. porém acredita que isso não afasta a contradição da teoria. nas relações com seus semelhantes. o Estado é necessidade primária e fundamental. p. acerca dessa corrente que. 261): tais prerrogativas humanas pressupõem vontade capaz de deliberar. 262) ainda complementa a mais séria crítica feita a esta teoria referente a personalidade do próprio Estado “ se o próprio estado é uma pessoa jurídica. e hoje já não mais aceita. é que se buscam novos entendimentos doutrinários acerca das teorias da natureza jurídica da pessoa jurídica. é de se perguntar quem o investe de tal capacidade. partindo dessa teoria. afirma que a teoria constitui a doutrina tradicional.3. que tem existência natural. Sustenta que a vontade. Neste norte. construindo-se uma ficção jurídica. seres com vida própria que nascem por imposição das forças sociais.

Acerca da teoria da realidade conceitua Venosa (2005. Monteiro (2003. 262). “por outras palavras. no mesmo entendimento do autor supracitado: essas doutrinas consideram as pessoas jurídicas como realidade social. ou pessoas jurídicas. pois elas provem de lei. p. é capaz de crias e dar vida a um organismo. ainda sustenta que “para essa teoria. que passa a ter existência própria. p. que têm vida autônoma e vontade própria. A doutrina normalmente denominada de realidade objetiva ou orgânica.. Junto deste há entes dotados de existência real. 125) ao escrever sobre a teoria da realidade objetiva salienta que: a teoria da realidade objetiva. Por fim. p. desenvolvendo cada um as suas idéias próprias. colocando-se em uma só linha. Assim. abandonando a chamada realidade objetiva (organicismo) para abraçar a teoria da realidade técnica ou realidade jurídica. repudiando assim a teoria objetiva e encarando a natureza da pessoa jurídica como realidade técnica. tornando-se um sujeito de direito. publica ou privada. Venosa (2005. junto à pessoa natural. também chamada de orgânica. sustenta que a vontade. assemelhando com a pessoa natural. há organismos sociais. o ser humano é centro fundamental de interesse e vontade a quem o Direito reconhece personalidade. . O que os une. Pereira (2004. cuja finalidade é a realização do fim social”. argüindo que pessoa não é só o homem (MONTEIRO 2003). p. Acerca o tema.. nem assumir que a capacidade e personalidade são mera ficção. 22). faz importante registro: da leitura de tantos escritores vemos que não se repetem. demonstra que é oposto da ficção. p. 125) salienta que. ao relatar a teoria da realidade. aceitando sua personalidade sem qualquer artifício. 263). Pereira (2004) admite que a realidade jurídica. com existência real e verdadeira. como organismo físico. tal teoria apresentada pelos pesquisadores. tão real quanto a das pessoas física. São as pessoas jurídicas. que constituem realidade vivas. parte de base diametralmente oposta “a da ficção.]”. Como individuo.22 Percebe-se então que. Pessoa não é só o homem. é a idéia da realidade do ente coletivo. distinta da de seus membros. que podemos expressar na exposição dos traços fundamentais da sua conceituação científica. porém não pode cumprir todas as atividades a que se propõe senão unindo-se a outros [. Ainda Monteiro (2003.

p. partindo da negação do conceito de direito subjetivo. Vejamos o que nos ensina ainda Monteiro (2003. ao lado da pessoa natural existe uma pessoa criada pelo Direito. Ainda na mesma linha de raciocínio Venosa (2005. Já para Monteiro (2003). carecendo as denominadas pessoas jurídicas de qualquer atributo de personalidade. estamos diante de uma personalidade fictícia. pode-se dizer que. procurar sobre a pessoa jurídica sua verdadeira realidade. Para eles. reconhece a existência. na grande maioria. a pessoa jurídica (VENOSA 2005). As pessoas jurídicas não passam de meros patrimônios destinados a um fim especifico. ou negatória para Oliveira (2000). pois sua visão é comparativa a teoria da ficção. nega qualquer personalidade jurídica como substância. assim. tão-somente.3 Teoria negativista (equiparação) Outra teoria também muito debatida entre os juristas ganha maior importância a ser analisada. que há certas massas de bens. Portanto. denominada pelo autor como teoria da equiparação. pois a única pessoa existente é o homem. Assim. só existem no direito os seres humanos. pois consideram que é uma visão superficial e insustentável afirmar que. como conseqüência. além do grupo de doutrinas que. ou patrimônios personificados pelo direito. é em certo ponto comum com a da ficção. de uma forma ou de outra. mas. entendido a teoria da equiparação ou negativistas nota-se que não se confunde massas de bens e as pessoas que a mantém. 124): ela admite. Porém Oliveira (2000. ao contrário. tal teoria. no seu tratamento jurídico. p. determinados patrimônios. tendo em vista o objetivo a conseguir. concluem pelo desconhecimento da personalidade. Entretanto. . no que tange a sua existência. 278) alerta que: afastam-se da teoria da ficção.3. às pessoas naturais. traz importante contribuição acerca da teoria negativista: há doutrinas que. somente equiparam-se com o tratamento jurídico as pessoas naturais. 264).23 2. o jurista não deve se satisfazer com a afirmação simplista de que há personalidade ficta. equiparados. Para tais sistemas. A teoria negativista. p.

Rodrigues (2007. segundo Rodrigues (2007) preexiste ao momento que surge a pessoa jurídica. acrescenta acerca da ideia de obra ou empresa: quando a idéia de obra ou empresa se afirma de tal modo na consciência dos indivíduos que estes passam a atuar com plena consciência e responsabilidade dos fins sociais. ou seja. p. organizando-se com o mesmo fim. a instituição adquire personalidade jurídica. o criador da teoria enseja que a instituição é ideia de obra. de uma empresa que se desenvolve.] a idéia da instituição imaginando os entes morais como organizações sociais que. verifica-se que a teoria da instituição. Entretanto. constituindo uma estrutura hierárquica. Corroborando.4 Teoria da instituição Destarte. acrescenta no mesmo sentido segundo a transposição de Hauriou: [. p 265). Além de não oferecer um critério justificativo da atribuição de personalidade. em que. a instituição adquire personalidade moral. por se destinarem a preencher finalidades de cunho socialmente útil. No mesmo entendimento de Venosa (2005). a teoria institucionalista não encontra explicação para a concessão de personalidade jurídica às sociedades que se organizam sem a finalidade de prestar um serviço ou preencher um oficio. de certo modo. unindo indivíduos com o mesmo propósito. são personificadas.24 2. do momento do seu nascimento. onde há realizações e projetos dando formas definidas aos fatos sociais.3. porque me parece que cada qual. oferece um adminículo para melhor compreensão do fenômeno”. p. 307). ainda Venosa (2005.. conceitua a teoria da instituição criada por Hauriou. Como percebemos. existe na realidade social uma séria de realidades institucionais. 262) faz menção a teoria “furto-me de criticá-las. tas doutrina nada aclara sobre a existência da pessoa jurídica. incluindo assim um vínculo social. Quando essa idéia permite unificar a atuação dos indivíduos de tal modo que essa atuação se manifesta como exercício de poder juridicamente reconhecido. Denota-se que Pereira (2004. ou seja.. . que é precisamente o que constitui o ponto fundamental da controvérsia.

as sociedades mercantis (RODRIGUES. constituem as pessoas jurídicas. sendo desenvolvidas por atividades atípicas do Estado. beneficiando assim os seus próprios criadores.1 Pessoas jurídicas de direito privado O Código Civil de 2002 traz no seu art. pois esta é submetida a regime público. onde se aplica excepcionalmente a teoria da desconsideração. coletivamente (PEREIRA. especialmente as de responsabilidade limitada. separadas em dois grupos. as sociedades. pois o presente trabalho será focado nas pessoas jurídicas de direito privado. Assim. observa-se a sua classificação. científicas ou literárias. enunciados no art. pias. pois as diferenças de concepção não influem sobre as soluções positivadas da lei. morais. 2005). do estudo da sua natureza e teorias. as religiosas. diante de varias negociações jurídicas. as pessoas jurídicas de direito privado são de origem do poder público. a validade da natureza jurídica é de menor relevo. de direito público e direito privado.4. ou seja. as fundações e mais breve inseriu-se duas outras entidades. e os costumes da época. as associações de utilidade pública e as fundações. 44 do atual Código Civil. de vontade individual em conformidade com o direito positivado. Adequando-se a doutrina.4 CLASSIFICAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Após todo exposto. e não será tratada a pessoa jurídica de direito público. Portanto. as associações. 2004). as organizações religiosas e os partidos políticos (VENOSA. 44 o rol das sociedades civis. com escopo nos objetivos de natureza particular. 2. 2007). O ordenamento jurídico brasileiro faz menção a duas categorias de pessoas jurídicas. .25 O autor afirma que não há negação da atuação na vida jurídica. verifica-se aqui diante da teoria da desconsideração da personalidade jurídica a ser analisado. a importância de destacar apenas a pessoa jurídica de direito privado. 2.

em que constitui as associações pela união de pessoas que se organizem para fins não econômicos. porém somente para sua mantença. nem há nas associações entre os membros. direitos e obrigações recíprocos (GONÇALVES.26 Passa-se então a verificar cada uma dessas espécies de pessoas jurídicas mencionadas no Código Civil de 2002. conforme regula a lei.4. assim destacando seu aspecto pessoal. aquelas pessoas que celebram contrato de sociedade reciprocamente. organizada no Direito de Empresa.1. ou seja. expressões estas que substituíram a antiga divisão em sociedades civis e comerciais. também previstas no artigo 44 do Código Civil de 2002. As sociedades estão disciplinadas no Código Civil Livro II da Parte Especial. Considera-se que a finalidade das associações é meramente não econômica. compartilhando lucros dos resultados da sociedade (GONÇALVES. são constituídas por pessoas que unem seus esforços para fins não econômicos. portanto que o intuito da associação não é o lucro.2 Sociedades As sociedades. sem partilhar lucros (GAGLIANO.1 Associações As associações. 2008). PAMPLONA FILHO. contraindo direitos e obrigações e contribuindo com bens e serviços. 2004). lúdica. Percebe-se. profissional e religiosa. . em que seu ato constitutivo será por estatuto. sendo esta uma das maiores inovações do direito brasileiro intitulado no Código Civil (PEREIRA. 2. Para Gagliano e Pamplona Filho (2008.4. gerar renda para manter seu quadro funcional regular. pessoas jurídicas de direito privado. podem ser simples e empresárias. formadas pela união de indivíduos com propósito de realizarem fins não-econômicos. 2008). 53 do Código Civil de 2002.) as associações são entidades de direito privado. 2009). sua intenção não é divisão de lucros. podendo assim ser de natureza educacional. assim preceituado no art. Destaca-se também que poderá a associação ter lucro. 2. Assim.1.

) e tem fim econômico ou lucrativo. Mesmo que eventualmente venham a praticar atos próprios de empresários. no entanto que as sociedades têm como fim comum o lucro. e seus objetivos aproxima-se aos sócios com fim econômico. 2. e sim da afetação de um patrimônio a determinadas finalidades. Segundo Rocha Filho (2004. 62. assim. pois o que se considera é a atividade principal por elas exercida. tal fato não altera a sua situação. Observa-se. Assim. reciprocamente. A propósito. reputadas relevantes pelo instituidor (COELHO. em geral. obter renda através de suas atividades empresariais. 967 do Código Civil. a contribuir. instituições de ensino etc. ou seja. p. escritórios de advocacia. 2004). já as particulares são reguladas pelos artigos 62 e 69 do Código Civil. Este é estabelecido pelo instituidor e não pode ser lucrativo. de interesse público. observa-se que a sociedade por ser um ente moral. As fundações podem ser particulares e públicas instituídas pelo Estado. a sociedade conceitua em “contrato consensual por intermédio do qual duas ou mais pessoas se obrigam. para o exercício de atividade econômica e a partilha. morais. 207): a fundação compõe-se. culturais ou de assistência . p. agrupam-se com pretensão de ganhar dinheiro (COELHO. no parágrafo único do supratranscrito art. As sociedades empresárias também visam lucro. entre si dos resultados”. inovou o Código Civil de 2002 ao prescrever. p.1.27 As sociedades podem ser simples e empresárias conforme nos ensina Gonçalves (2009. 2004). que a fundação somente poderá constituir-se para fins religiosos. 262). mas social. de dois elementos: o patrimônio e o fim.3 Fundações Nas fundações destaca-se uma diferenciação das sociedades e associações. Assim preceitua Gonçalves (2009. com bens ou serviços. por profissionais que atuam em uma mesma área ou por prestadores se serviços técnicos (clínicas médicas e dentárias.4. mas distinguem-se das sociedades simples porque tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito ao registro previsto no art. pois a fundação não se resulta da união de pessoas para fins comuns. rege-se por contrato. 206): as sociedades simples são constituídas.

mesmo sendo cinco tipos de sociedades empresárias no direito brasileiro. as que mais importam à economia atual são as sociedades anônimas e sociedades limitadas.1 Sociedade em nome coletivo A sociedade em nome coletivo é a sociedade pelo qual todos os sócios são pessoas físicas. Portanto. pela suas obrigações sociais. criador. a cultura científica. não se encontra na fundação o traço comum às associações e sociedades. 2. as restantes não comportam tanta importância por serem de pouco uso e de menos envergadura. As sociedades empresárias são compostas por cinco tipos. 2005). proporcionando ou estimulando a investigação. portando. sendo seu instituidor. a pessoa natural ou até uma pessoa jurídica. mediante a conjugação de suas ações.2 Classificação das Sociedades Empresárias Depois de verificado a classificação da pessoa jurídica. 13). dentre outras preservando sua finalidade social e moral (PEREIRA. com responsabilidade solidária entre eles.4. Insta salientar que. podem realizar atividades filantrópicas. suas funções e finalidades.4. comandita simples. 478) “a exploração de atividade econômica por esse tipo de associação de esforços. passa-se então a observar a classificação das sociedades empresárias. p. a fundação constitui pela destinação de um patrimônio com um determinado fim específico. alcançarem-nos com menor dificuldade”. p. Coelho (2004. passa-se então a observar as sociedades empresárias classificadas no direito brasileiro. Analisado os tipos de pessoa jurídica de direito privado. artística ou literária. creches. asilos. manter hospitais. não preserva nenhum dos sócios dos riscos inerentes ao investimento empresaria”. sociedades limitadas. Para Coelho (2004. acrescenta que “em outros termos. . 2. anônima e comandita por ações.28 Assim.2. nome coletivo. que é a agregação de pessoas com mesmos objetivos para.

pode o patrimônio dos sócios responder integralmente. 107. Entretanto. 1. Somente pessoas físicas podem tomar parte na sociedade em nome coletivo. pois seu caráter é meramente familiar. citando Hernani Estrella: . p. grifo do autor): Originalmente denominada sociedade geral. 2005). ou seja. está classificada na sociedade em comandita.2. conceitua Almeida (2005.2 Sociedade comandita simples A sociedade comandita simples. afetando assim o patrimônio familiar. Merece destaque Almeida (2005. denominação com que foi acolhida no Código Civil. respondendo todos os sócios. e contrair dívidas. 101) no conceito de sociedade simples.4. foi posteriormente. traça-lhe o perfil: Art. que. ou outro tipo de sociedade. sem sucesso. única e solidária entre os sócios. caso a empresa não venha a ter lucros. p.051 do Código Civil de 2002.045 a 1. os comanditados que correspondem as pessoas da sociedade com responsabilidade solidária e ilimitada e comanditário. 2. Tal dispositivo é claro ao afirmar que o tipo de sociedade constituída tem responsabilidade única solidária dos sócios. o dispositivo legal supracitado. outro apontamento ao dispositivo é que não poderá ser parte da sociedade em nome coletivo a pessoa jurídica. para o pagamento dos seus credores (COELHO. já no Código Comercial francês de 1807. que são as pessoas físicas ou jurídicas com responsabilidade limitada correspondente ao valor das quotas (COELHO. ou seja. já em desuso.29 Assim. Para melhor sistematizar o estudo da sociedade em nome coletivo. solidariamente pelas suas obrigações sociais (ALMEIDA. 2004). embora não o conceitue. 2004). designada como sociedade em nome coletivo.039. é um tipo de sociedade pelo qual está disciplinada nos artigos 1. pelas obrigações sociais. solidária e ilimitadamente. o que caracteriza é o tipo de responsabilidade. Na sociedade em comandita simples os sócios são classificados em duas categorias. nada obsta que os sócios no contrato social limitem suas responsabilidades. uma só categoria de sócios.

Destarte. O regime das sociedades por ações segue a mesmo das anônimas. além. A diferença essencial com a outra sociedade por ações. solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais. os que administram a empresa. assim se manifesta Hernani Estrela: Sociedade em comandita simples é a em que existem sócio de duas categorias.4. 477): a comandita por ações é a sociedade cujo capital social se divide e.30 conceituando a sociedade em comandita simples. sendo solidário com os demais sócios. também encontram-se atualmente em desuso.4. sob regime especial. é que ressalta o desuso.2. 2.404 de 15 de dezembro de 1976 (Lei de Sociedades por Ações). portando. ou seja. aquele acionista que não participa da administração.092 do Código Civil de 2002 (COELHO. Entretanto. são denominadas sociedades contratuais menores tendo em vista a pouca presença na economia brasileira (COELHO.091 e 1. p. é aquela cujo seu capital é dividido por ações. valores imobiliários investido pelo sócio. está na responsabilidade de parte dos sócios. a anônima. porém tem suas peculariedades. e responde subsidiariamente pelas obrigações da própria sociedade. da quota prometida ou entregue. outros que respondem pessoal. 2004). para o fundo social. Acerca desse tipo de sociedade ensina Coelho (2004. . é regida no Brasil por uma legislação especial. onde tem responsabilidade ilimitada. terá responsabilidade limitada. submetendo-se as regras dos artigos 1.3 Sociedade comandita por ações As sociedades por ações. tendo em vista sua grande atuação na economia mundial.4 Sociedade anônima A sociedade anônima.2. diante dos tipos de responsabilidades que comporta a sociedade de comandita simples. pelas obrigações sociais. também classificada nas sociedades em comandita. ao contrário daquele que administra a sociedade. a Lei 6. 2005). valores mobiliários representativos do investimento dos sócios. ações. uns que não respondem além do valor do que foi prometido ou entregue. 2. ao limite das ações que adquiriu ou subscreveu. nela realizado.

Entende-se. dependendo do capital integralizado. leva então a ingerência do Estado na sua formação e nos seus atos. 181) “é uma sociedade de capital. atuando no seio da sociedade. pela responsabilidade dos sócios limitando-se apenas ao preço das ações subscritas ou adquiridas. 171): para Miranda Valverde a sociedade anônima é uma pessoa jurídica de direito privado. aplicando-se-lhe. dependendo da sua participação. de natureza mercantil. ação. sócios ou acionistas ao montante das ações. por eles subscritas ou adquiridas. não respondem pelas aquelas obrigações assumidas pela sociedade. sendo de responsabilidade limitada. Os títulos representativos da participação societária. 2005). A sociedade anônima rege-se por lei especial. nos casos amissos as disposições deste Código. . por sua circulação. denominadas ações. pois envolve todos aqueles que adquirirem ações da sociedade. 1089. A sociedade anônima para Coelho (2005. a divisão do capital social em partes. Na sociedade anônima ou companhia. o capital divide-se em ações. o ingresso de quem quer que seja no quadro associativo”. 1.31 Nosso Código Civil acrescenta em seu esboço. obrigando-se cada sócio ou acionista somente pelo preço das ações que subscrever ou adquirir. p. in verbis: art. em que todo capital se divide em ações. as quais facilitam. e ainda já estabelece sobre a responsabilidade de cada sócio. art. a substituição de todos os sócios ou acionistas . os arts. Caracterizam-se as sociedades anônimas no direito brasileiro. que o próprio Código Civil afirma que o regulamento das sociedades anônimas no Brasil serão reguladas por lei especial.089. Destaca-se também a função social da sociedade anônima.088 e 1. Nenhum dos acionistas pode impedir. tem a liberdade de circulação das ações. em virtude de um acordo privado. tem a possibilidade de subscrição do capital social mediante apelo ao público (MARTINS. são livremente negociáveis. portanto. Para melhor esclarecimento sobre esse tipo de sociedade conceitua Almeida (2005. sócio ou acionista. e livre retirada de qualquer sócio sem afetar sua estrutura. por conseguinte. p. que limitam a responsabilidade dos participantes. distinguindo das demais sociedades. a responsabilidade de cada sócio ou acionista. Destaca-se então. 1088. considerada uma organização jurídica de interesse público.

2. arts. para a formação do capital social.4. somente será integralizado com dinheiro ou bens a serem avaliados em pecúnia. para atender ao interesse de pequenos e médios empreendedores. 143) relata que “se tratando de sociedade empresária e. como dispõe o artigo 1.052 a 1. recente. 2004). por isso.5 Sociedade limitada A sociedade limitada foi criada em razão da complexidade das sociedades por ações e ao inconveniente da solidariedade das sociedades de pessoas. Assim.052 do Código Civil. 2005). foi o incentivo as pessoas que.055 Código Civil (ALMEIDA. perante a sociedade. p. Acerca das obrigações. constituído em seu contrato social. Na omissão de assuntos não regulamentados no Código Civil acerca da sociedade limitada. necessariamente personalizada. Outro ponto importante a destacar. os sócios não respondem. . Sua obrigação. usa-se previamente previsto no contrato social subsidiariamente a lei das sociedades anônimas. nem se sujeitas a prévia autorização governamental. p.32 2. e decorre da iniciativa de parlamentares. em princípio. 1. pelas obrigações sociais”. é que surge a sociedade por quotas de responsabilidade limitada. assim não será permitido prestação de serviços conforme o art. a sociedade limitada possui uma só categoria de sócio. A sociedade limitada está regulada no Código Civil de 2002. contribui: a sociedade limitada anteriormente chamada sociedade por quotas de responsabilidade limitada tem uma história pequena e pobre. Coelho (2004. 1. ou ainda sociedade por quotas (ALMEIDA.087. na exploração de atividade econômica. com autonomia patrimonial. Acerca da criação da sociedade limitada. da limitação da responsabilidade típica das anônimas. Almeida (2005. que queriam beneficiarse. surge então em 1982. ainda não previsto em contrato social e na omissão da lei. a sociedade por quotas de responsabilidade limitada. porém tem responsabilidade solidária pela integralização do capital social. na Alemanha. com receio de criar uma sociedade em razão da sua responsabilidade. 366). mas sem atender às complexas formalidades destas. a de responsabilidade limitada. Sua criação é. observa-se o previsto nas sociedades simples (COELHO. ilimitada. colocando em risco seus bens pessoais e de sua família. sobre a criação das sociedades limitadas. 2005). em relação as demais sociedades.

Portanto. ser absoluta a nulidade. 388) acerca dos pressupostos de existência da sociedade limitada: para que a sociedade exista. Isso porque a falta de um dos pressupostos de existência não conduz à invalidação do contrato social ou de suas cláusulas. definidos em lei. no direito brasileiro. compreender todos os efeitos entre os sócios decorrentes do contrato social. b) a effectio societatis. Porém para ter validade o contrato social deve conter os requisitos de validade dos atos jurídicos. São situações jurídicas diferentes. destaca-se ainda. p. ter objeto lícito e observar a forma legal (COELHO. mas a dissolução da sociedade. a dois pressupostos: a) a pluralidade dos sócios. desconsiderando a personalidade jurídica. anteriormente referidos. foi necessário o legislador encontrar um meio eficaz e legal para combater o sócio mal intencionado. ou seja. ou seja. sócio e sociedade são sujeitos distintos. de primórdio implica a separação patrimonial entre a pessoa jurídica e os sócios. enquanto a dissolução nunca importa a desconstituição de efeitos pretéritos do contrato. devendo ser celebrado por sujeitos capazes. Diferem essas condições dos requisitos de validade. eis que já mencionado anteriormente. o contrato social deve atender. . a responsabilidade pelas obrigações sociais. tem como objeto o contrato social. devidamente arquivado na Junta Comercial. para a constituição de uma sociedade limitada. uma forma de preservar o próprio instituto da pessoa jurídica. já que a invalidação pode. Ainda afirma Coelho (2004. 3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA A Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica tem como finalidade proteger a sociedade e seus credores contra atos abusivos dos seus sócios e administradores.33 Destarte. Assim. 2004).

Salomon. Com o passar dos anos. Os valores não foram pagos. Produtor de sapatos e botas. Mr. e mesmo assim não responsabilizou-o pelo pagamento. valores esses pagos corretamente. a. Na transação foram emitidas debêntures em favor do Sr. sendo que quatro já trabalhavam na sociedade. assim o Sr. exercia o comércio através de uma empresa denominada Salomon & CO. e por pressões queriam participação efetiva na sociedade. considerou a fraude. 3): Aron Salomon era um homem rico. Começando seu comércio em um pequeno capital. gradualmente construiu um próspero negócio. Broderip. a decisão judicial a favor. Pensando na família. ainda não pensava em aposentaria. 2007). onde se originou a teoria no âmbito mundial (BASTOS. sua origem e evolução diante do ordenamento jurídico. Whitechapel. e mostrar que o princípio da autonomia patrimonial não é absoluto. onde consagrou a autonomia patrimonial. Estava no ramo há 30 anos. mesmo Mr. distinguindo a pessoa jurídica da pessoa do Sr. Observa-se o caso Salomom vs Salomom & Co nas palavras de Bastos (2003. em julho de 1882. não participavam do contrato social. alegando que os valores foram fraudados. Eis aí a surpresa. Salomon defendendo sua companhia. Salomom & Co. a sua nova companhia foi transferida. Devaux e Salomom vs. A origem do instituto da Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica deu-se origem com o caso Bank of Unites vs. 2007). Observa-se parte da decisão em fase de apelação. pois Mr. em Higth Street. p. porém o valor documentado foi acima da realidade. Broderip tenta judicialmente receber os valores em face de Mr. Apenas trabalhavam. Salomon. visando solucionar problemas. de responsabilidade limitada (BASTOS. Mr. onde possuía grandes armazéns e o estabelecimento propriamente dito. deve-se observar a evolução do instituto da Desconsideração da Personalidade Jurídica. possuindo bom crédito e boa reputação. Salomon pegaria empréstimo com juros de 8% a. pai de seis filhos. Salomon citada por Bastos (2007. Salomon transforma sua empresa em uma nova companhia limited stock company denominada Aron Salomon Company Limited. sendo este o caso mais famoso. 6): .34 3. p.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA Primeiramente.

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houve a apelação para a House of Lords. Lord Halsbury L.C. entendeu ser indiscutível que, quando a companhia é legalmente incorporada, deve ser tratada como ente diferente, com seus direitos e obrigações e que os motivos daqueles que a constituíram são absolutamente irrelevantes na discussão dos direitos e obrigações. Assim declarou seu voto: “Para mim a lei dá à companhia uma existência legal, com direitos e obrigações , quaisquer que tenham sido as idéias ou esquemas que criaram”. “A companhia limitada era uma entidade legal ou não. Se ela era, o negócio pertence a ela e não ao Sr. Salomon”.

Entretanto, mesmo dando origem a Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica, o caso em tela não foi desconsiderado na época pelo julgador, e sim mantida a distinção entre pessoa jurídica e pessoa física (BASTOS, 2007). Já nos Estados Unidos, o caso Bank of Inited States vs. Deveaux, também de grande repercussão, é mais antigo que o caso inglês Salomon vs Salomon & Co, ou seja, 88 anos mais antigo (SILVA, 2007). O caso Norte Americano, no mesmo sentido de Mr. Salomon, não foi observado o abuso de direito por parte dos seus controladores. Assim nos traz Silva (2007, p. 67):

nesse sentido, o julgado em tela proclama que, essencialmente, as verdadeiras partes do processo judicial são os acionistas, devendo-se, portanto, observar os direitos e deveres das pessoas naturais que se colocam atrás da pessoa jurídica. Muito embora parte da doutrina reconheça nesse julgado a desconsideração da personalidade jurídica, é importante observar que não há qualquer elemento que leve o interprete a verificar o abuso de direito da personalidade jurídica nesse caso. Ademais, como se sabe, é essencial para a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica a manifestação concreta de abuso do direito.

Portanto, no entendimento de Silva, não há de se falar em desconsideração no caso referido, pois para configurar a desconsideração, é preciso haver abuso de direito diante da pessoa jurídica. Somente em 1950 com o grande trabalho de Rolf Serick foi divulgado e assim ganhou impulso nas diversas teorias que admitiam a desconsideração da personalidade jurídica, dentre ele outros grandes trabalhos, objetivando precisão para aplicação da desconsideração da personalidade jurídica (SILVA, 2007). Assim, Requião (2008), referindo-se ao caso de Salomon & Co, acentua que a decisão modificada repercutiu acerca do assunto, dando assim origem a disregard of legal entity, sobretudo nos Estados Unidos, dando origem a grandes decisões, expandido jurisprudência, assim como na Alemanha e em outros países europeus.

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Em seguimento, Requião (2008) acrescenta que há um grande crescimento da teoria, alcançando ainda o terreno do direito tributário, para reprimir a sonegação e evasão de impostos, no uso da personalidade jurídica comercial como anteparo. É de bom alvitre salientar, acerca do crescimento e reconhecimento da teoria, Martins (2005, p. 195) ressalta:

numerosos desses fatos ocorreram nos Estados Unidos e na Inglaterra, sendo freqüentemente levados aos tribunais. Estes passaram, então, quando assim ocorria, a desconhecer a personalidade jurídica das sociedades para responsabilizar os culpados. Nos Estados Unidos chegou a falar em lifting the veil, ou seja, levantar o véu da pessoa jurídica para serem atingidos diretamente os sócios. Na Alemanha, o professor Rolf Serick apresentou, na Universidade de Tubingen, a tese sobre, Aparência e Realidade nas Sociedades Mercantis. Do abuso de direito por intermédio da pessoa jurídica. O assunto interessou grandemente aos círculos europeus, destacando-se, entre os que trataram do mesmo, o Prof. Piero Verrucoli, da Universidade de Pisa, na Itália, que escreveu o livro Superamento da Personalidade Jurídica das Sociedades de Capitas na Common Law e na Civil Law.

Assim, a Teoria da Desconsideração ganha espaço no âmbito jurídico mundial e hoje positivado por muitos países, preservando a personalidade jurídica contra abusos de direto, desvio de finalidade e fraude contra seus credores.

3.2 CONCEITO

É importante, depois de verificado o seu escorço histórico, analisar diante da doutrina o conceito do instituto da Desconsideração da Personalidade Jurídica. Para Coelho (2004, p. 42), “em razão do princípio da autonomia patrimonial, as sociedades empresárias podem ser utilizadas como instrumento para a realização de fraude contra os credores ou mesmo abuso de direito”. Partindo dessa premissa, verifica-se que a Desconsideração da Personalidade Jurídica é aquela em que se desconsidera a autonomia patrimonial quando de fato ocorrem os pressupostos citados, fraude ou abuso de poder. Entretanto, o princípio da autonomia patrimonial não é absoluto, criando-se um mecanismo de superação personificação jurídica. Para que prevaleça o principio devem os membros da sociedade manter a conduta conforme o ordenamento jurídico, assim nada lhe será imputado (GONCALVES, 2004).

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Ainda para melhor entendimento, Gonçalves (2004, p. 45) ensina que:

ao revés, em caso de fraude ou abuso de direito, é possível a desconsideração da personalidade conferida a pessoa jurídica, de modo a atingir os verdadeiros praticantes dos atos danosos, surpreendendo uma realidade que se encontra subjacente, imputando efeitos jurídicos além daquele sujeito a que se destinou originalmente.

Assim, dando continuidade ao raciocínio, a desconsideração é instrumento de aperfeiçoamento da pessoa jurídica, impedindo o seu mau uso contrário ao direito (GONÇALVES, 2004). Contudo, Koch (2005, p. 40) conceitua a desconsideração da personalidade jurídica da seguinte forma:

pode-se conceituar a desconsideração da personalidade jurídica como uma ruptura à regra legal da autonomia da entidade jurídica, com o fito de alcançar o patrimônio particular dos sócios e usá-lo para fazer frente às obrigações da sociedade, quando esta se mostrar hipossuficiente por motivo de fraude e abuso de direito por parte de sócio.

Nessa ordem de idéia pode-se dizer que a desconsideração da personalidade jurídica é uma medida excepcional, nascida então de uma construção jurisprudencial e visa a proteger terceiros contra atos abusivos dos sócios (KOCH, 2005). Para melhor entendimento acerca do conceito da desconsideração da personalidade jurídica, Silva (2007) lembra que a desconsideração seria como arrancar a máscara da pessoa jurídica, com o propósito de revelar a legítima expressão, escondida pelo abuso. Silva (2007, p. 70) melhor ilustrando, continua:
a máscara seria a personalidade jurídica o artista, os sócios. Sua união para a atividade artística, uma sociedade personificada. Assim, quando se abusasse da máscara para a prática de uma interpretação desastrosa, surgiria um direito do público lesado de exigir do Estado uma providência para sanar o ilícito.Perguntarse-ia, então, cui prodest? Ou seja, a quem beneficiaria a máscara, quando de uma interpretação que extrapola os limites do razoável numa peça teatral? Não há outra conclusão, senão o artista, responderia ao público, isto é, no caso de abuso à personalidade jurídica, os sócios seriam levados a responder pelo abuso.

Nesta senda, Ceolin (2002) apresenta a teoria da desconsideração como um remédio jurídico que possibilita aos magistrados prescindirem da estrutura formal da pessoa jurídica para tornar a sua existência autônoma, ou seja, sujeitos de direito, tornando assim ineficaz a uma situação particular.

Simão. e não anular a personalidade existente. ensina Martins (2005. Partindo dessa premissa. vale ressaltar. então. Estes passaram. 194): a admissão. do princípio da personalidade jurídica. porém está sujeito a teoria da fraude contra credores e pela teoria do abuso de direito (REQUIÃO.38 Observa-se atentamente o que ainda ensina Ceolin (2002. No entendimento de Alves (2008. Sob o véu de tal autonomia. utilizam-se abusivamente do princípio segundo o qual a pessoa jurídica não se confunde com os seus membros. deu lugar a indivíduos desonestos que. fazendo com que as pessoas jurídicas respondessem pelos mesmos. a pessoa jurídica deve respeitar seus preceitos legais. Este expediente foi denominado disregard . ter limites para sua existência legal. Destarte. onde o pressuposto era o abuso da forma societária e o privilégio da responsabilidade limitada a ela associada. os tribunais foram. observa-se um conceito através dos casos desenvolvido nos tribunais: nos processos envolvendo desvio na condução da atividade social pelo controlador. sendo frequentemente levados aos tribunais. 2008). 2004). na verdade são de seu direto interesse e não da coletiva. 3). paulatinamente. pelas sociedade. p. e torná-la sem eficácia por um período para que possa levantar o véu que a coberta (SIMÃO. Lucca (2004). p. praticassem. mas para coibir tais atos abusivos. p. pessoa natural. desenvolvendo uma doutrina para atenuar os rigores da teoria da pessoa jurídica e do princípio da autonomia objetiva ou patrimonial. a desconhecer a personalidade jurídica das sociedades para responsabilizar os sócios . utilizando-se da mesma. Numerosos desses fatos ocorreram nos Estados Unidos e na Inglaterra. 1): o mau uso do ente personificado ocorre quando os indivíduos que o integram. acobertados pela garantia de que seu patrimônio pessoal não é alcançado por dívidas da sociedade. de acordo com as regras. para demonstrar que o direito criado diante da personificação não é absoluto. LUCCA. acerca da desconsideração da personalidade jurídica. foi estendida a responsabilidade pelas dívidas da sociedade ao sócio “dominante” – responsabilidade solidária. quando assim ocorria. os sócios procuram se isentar da responsabilidade pessoal por negócios que. atos fraudulentos ou com o abuso de direito. Contudo. nota-se que a teoria de origem anglo-americana construída afim de inibir fraude e abuso do direito através da personalidade jurídica. em proveito próprio. afirma que por ser uma criação legal. Em circunstâncias excepcionais. No mesma diapasão. que a doutrina da personalidade jurídica não constitui em um direito absoluto.

uma análise das teorias mencionadas. e punir a quem a controla. Já. deverá este suportar o prejuízo pela insolvência da devedora (COELHO. acredita que ainda não se permitiu uma formulação exata. seria um instrumento válido para coibir abusos da pessoa jurídica. poucos autores trazem o estudo da teoria. menos densa. 2004). de maior consistência e abstração. ou seja. para indicar a ignorância societária”. duas interpretações para a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica. caso contrário. levantamento do véu societário. 42) que faz menção as duas teorias da desconsideração.. para coibir tais abusos. Conclui Coelho (2004). Sendo esta a mais coerente visão para caracterizar a desconsideração da personalidade jurídica e preservar a pessoa jurídica e sua autonomia. a teoria mais elaborada. assim aquele que pretende rever o dano que sofreu. deverá provar a fraude perpetrada pelo controlador da pessoa jurídica. a maior e a menor. uma mais elaborada e outra mais branda. que condiciona o afastamento episódico da autonomia patrimonial das pessoas jurídicas à . assim o judiciário poderia ignorar a autonomia patrimonial da pessoa jurídica sempre que esta fosse contrário ao seu exercícios e expedientes. p. também conhecida por piercing the corporate veil (doutrina da penetração). p. é a ocorrência de fraude perpetrada com uso da autonomia patrimonial da pessoa jurídica”. que “o pressuposto da desconsideração. utiliza-se a expressão desconsideração da pessoa jurídica ou outra equivalente. assim ressalta-se Coelho (2004. Justen Filho (1985. destarte. inicialmente nos Estados Unidos. visar o mau uso do instituto. precisa de um conceito através dos moldes tradicionais e clássicos dos estudos dogmáticos. a doutrina criou tal teoria.39 of the legal entity doctrine (doutrina da desconsideração da personalidade jurídica). imputando assim o sócio a responsabilidade pelos seus atos.3 TEORIA MAIOR E TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA Insta evidenciar. portanto usa-se uma acepção vocabular para a desconsideração. como superação ou penetração. etc. Far-se-á. já se viu. que no direito brasileiro existem duas teorias da desconsideração. ou seja. através de jurisprudências. ou seja. 38) acentua que “usualmente. Justen Filho (1985). a desconsideração da personalidade jurídica no entendimento do ilustre doutrinador. “de um lado. Para Coelho (2005). no caso o credor. Inglaterra e Alemanha. 3. Destarte.

quando menciona a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. O primeiro argumenta que o juiz diante do abuso da pessoa jurídica poderá desconsiderar o principio que separa o sócio da pessoa jurídica. a maior e o menor. sem qualquer especificação. a elaboração de quatro princípios para o afastamento da autonomia das pessoas jurídicas (COELHO.40 caracterização da manipulação fraudulenta ou abusiva do instituto”. significaria o mesmo que amparar a fraude. como ambígua. está-se referindo à sua versão maior. onde defendeu sua tese de doutorado. p. Isto é. para impedir o ilícito. exigindo-se. Assim tendo resultado de sua pesquisa. Neste sentido. no estudo da matéria. o terceiro princípio aplica-se as normas sobre sua capacidade não havendo contradição entre os objetivos do sócio e a função da sociedade. É nesse cenário que pacificou a doutrina e jurisprudência acerca da aplicação da desconsideração conforme traz Coelho (2004.deixar de aplica-la. 2004). ou seja. 35). firma a importância da distinção entre as teorias. observa-se: a distância entre as duas teorias é tamanha que não se pode deixar tomar. no presente curso. é pacífico na doutrina e jurisprudência que a desconsideração da personalidade jurídica não depende de qualquer alteração legislativa para ser aplicada. e por fim. o segundo afirma que não seria possível desconsiderar a autonomia patrimonial por mera insatisfação por parte do credor. 2004). p. que se observa os princípios formulados pelo doutrinador. caso contrário caberá a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica. afastando a autonomia patrimonial (COELHO. a expressão “desconsideração”. por simples prova. na medida em que se trata de instrumento de repressão a atos fraudulentos. Coelho (2004. anote-se que. Quer dizer. Tendo em vista esse cuidado. 58) a teoria maior segue a seguinte forma: . que a elaboração doutrinária é recente. Imperioso gizar. Nesse sentido. no campo do direito societário brasileiro. 37): de qualquer forma. que esta menos elaborada. sendo o principal sistematizador. o quarto princípio sustenta que não havendo um conceito de que as partes sejam um só sujeito. o simples prejuízo do credor já é possível afastar a autonomia patrimonial. a palavra passou a ter dois significados diferentes. se existe lei que as distingue. deve-se respeita-la. No que concerne a teoria menor menciona Coelho (2004). deve-se desconsiderá-la. No entendimento de Koch (2005. p. Rolf Serick. hoje. pois a interpretação ainda é confusa. o cuidado de prévia definição do tema em exame. a pretexto de inexistência de dispositivo legal expresso.

bem evidenciada por Fabio Ulhoa Coelho. vale ressaltar que a teoria menor é contrária a todo conceito da autonomia patrimonial e não observa nenhum dos pressupostos para a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica. Apregoa Koch (2005). Se um potencial investidor é sabedor de que. seu objetivo principal e coibir as práticas fraudulentas e abusivas daquele que a utiliza (COELHO. 46) conceitua de forma objetiva a teoria: a teoria menor da desconsideração é. Ela reflete. assim faz um alerta Koch ( 2005. Cria insegurança entre os aplicadores. senão em casos excepcionais. sem o estabelecimento de qualquer proporção com o montante investido. p. que poderá. não sendo contrária à personalização das sociedades empresárias. inclusive. Coelho (2004. a manipulação fraudulenta ou abusiva do sócio ou administrador. visa preservar o instituto da pessoa jurídica. basta que ocorra algum obstáculo para que o credor não receba o que é devido. comprando ações ou quotas. Já na teoria menor. ser irrisório. certamente se obsterá de investir. ao investir um certo valor numa empresa. impõe para sua aplicação. O seu pressuposto é simplesmente o . num eventual insucesso terá comprometido todo seu patrimônio particular para saldar dívidas sociais. 2004). é aplicada a desconsideração em qualquer caso. a desconsideração da personalidade jurídica requer requisitos específicos que justifiquem ta medida excepcional. a crise do princípio da autonomia patrimonial. pois assumiria o grande risco de perder o seu patrimônio particular em troca de obter um provável lucro. não se falando em fraude ou abuso de direito. por evidente. rompendo com a regra da separação do patrimônio da pessoa jurídica com relação ao patrimônio dos entes que compõem. mediante o uso da personalidade jurídica. A idéia da teoria maior. na verdade. e dando um seguimento ao estudo. assim. É nesse sentido que a teoria maior da desconsideração da personalidade jurídica. Entretanto. quando referente a sociedades empresárias. portanto. reunindo-os em entidades personalizadas.41 pela concepção da teoria maior. para melhor compreender a teoria menor. Enfatiza-se ainda. bem menos elaborada que a maior. que a teoria menor da desconsideração não considera o elemento fraude e abuso de poder por parte daquele que se acoberta por traz da pessoa jurídica. por outro lado. Preserva-se a autonomia da sociedade e os bens particulares dos sócios não poderão ser chamados a responder pelas obrigações da sociedade. 56): a aplicação da teoria menor representa um desestímulo para a captação de recursos populares. p. para a criação de riquezas. ficando provada a prática de fraude ou abuso de direito.

caracterizando assim a teoria menor. em muitos casos. Fábio Konder Comparato. onde preceitua a relação consumerista. Exemplo clássico é o artigo 28 do CDC. evidencia Silva (2007). 46). onde será visto em momento oportuno. p. em razão da insolvabilidade ou falência desta. De acordo com a teoria menor da desconsideração. ou seja. por um único pressuposto. em momento de descuido. o caráter absoluto do principio da autonomia da pessoa jurídica”. se a sociedade não possui patrimônio.4 A DESCONSIDERAÇÃO BRASILEIRO DA PERSOBALIDADE JURIDICA NO DIREITO O surgimento da teoria tem como pioneiro. sendo que são os pressupostos centrais para justifica a teoria. excepcionalmente. Percebe-se com clareza. desconsideram o princípio da autonomia patrimonial. não está preocupada com abuso ou fraude. afastando. Rubens Requião. em artigo publicado abuso de direito e fraude à lei através da personalidade jurídica. “os juízes brasileiros. Assim entende o doutrinador que os juízes brasileiros. No entanto. e sim a sua insolvência e o não pagamento em favor de terceiros. os pressupostos para desconsiderar a personalidade jurídica e alcançar os bens daquele que a controla. mas o sócio é solvente. não se dedicaram ao prévio e suficiente estudo da matéria e passaram a fazer apressado e inadequado o uso da expressão desconsideração”.42 desatendimento de crédito titularizado perante a sociedade. onde faz menção ao desvio de função e da confusão patrimonial. que teoria menor. 3. “essa obra abriu campo para a doutrina e a jurisprudência aplicarem a desconsideração. assim abrindo portas para outros doutrinadores a discutir o assunto. Ocorre que. a frustração do credor da sociedade. pouco importa o ato praticado. como preceitua Coelho (2004. . isso basta para responsabilizá-lo por obrigações daquela. Para Gonçalves (2004).

No entanto. que prejudicava terceiros e acionistas. Essa desconsideração não redundaria na nulidade ou anulabilidade da pessoa jurídica. quando houvesse a frustração desse centro autônomo de interesses. Sendo assim. enquanto legislador não a fizesse inserir no direito positivo. Esse era o problema na época. até então. Para aclamar as primeiras manifestações. que não contemplava a possibilidade de se desconsiderar a pessoa jurídica. Assim. lamentava os juristas brasileiros a falta de positivação da teoria. A preocupação do legislador. já na época. teve como consagração o artigo 28 do CDC (Código de Defesa do Consumidor. pois nada se poderia fazer acerca das fraudes perpetradas através da pessoa jurídica.078/1990). insta salientar Ceolin (2002): as primeiras manifestações doutrinárias a respeito da teoria em comento foram marcadas. de haver encontrado doutrina nacional ou estudos sobre o uso abusivo ou fraudulento da pessoa jurídica”. Lei n. para assim coibir a fraude e o abuso de direito. não seria possível aplicar a teoria da desconsideração da pessoa jurídica aos casos concretos. preocupava-se com o assunto “não temos lembrança. Esse foi o grande obstáculo para a sua aplicação. 8. que será visto mais adiante. em nossas constantes peregrinações pelas páginas do direito comercial pátrio. Em face da ausência de textos legais que a acolhessem. Assim o instituto da desconsideração da personalidade jurídica no Brasil. comenta ainda Ceolin (2002). para o acolhimento da teoria da desconsideração.078/90.43 Observa ainda Silva (2007. não havia sanção alguma. p. tendo como contribuição os julgados norte-americanos. a personalidade jurídica cumpre sua função quando promove a identificação de um centro autônomo de interesses. invariavelmente. Lei 8. pois não cabe ao Poder Judiciário criar leis. 113) em sua doutrina: segundo ele. era sistematizar tal teoria. Requião (1969). parágrafo 5° do Código de Defesa do Consumidor. a solução seria a desconsideração. pelas críticas tecidas à legislação brasileira. entretanto exigiu muito estudo por parte dos doutrinadores. que na época foi muito debatida. . pois a teoria foi recebida com grande entusiasmo. o dispositivo mais aceito como percussor da superação da personalidade jurídica no Direito positivo brasileiro. mas tão somente na ineficácia da separação patrimonial. no qual aclamava a omissão doutrinária. é o próprio artigo 28 caput. os doutrinadores entendiam a princípio que. embora o sistema jurídico pátrio fosse compatível com a sua adoção.

passa-se então a analisar brevemente a aplicação da teoria da desconsideração em alguns ramos do direito brasileiro. onde se observou a sua aplicação para desconsiderar a personalidade jurídica. § 3° As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste código. Assim. sofre grande intervenção (GONÇALVES. para defender não só o consumidor. em detrimento do consumidor. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.4. sendo certo quem um dos elementos fundamentais para garantir o desenvolvimento econômico é a possibilidade de pessoas unirem-se formando sociedades. 89). § 1° (Vetado). evidente que a proteção ao consumidor não pode inviabilizar a livre iniciativa. excesso de poder. estabelecida pela Constituição Federal de 1998. valendo-se de que o princípio da autonomia patrimonial. § 4° As sociedades coligadas só responderão por culpa. para que o consumidor obtenha a mais ampla reparação por vícios. 2004). voltadas para um fim comum. p. 28. de alguma forma. onde há limitação das responsabilidades de cada um dos sócios.1 A Desconsideração no Direito do Consumidor Para melhor entendimento do artigo supracitado. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. estado de insolvência. mas principalmente o consumo. 3. Para complementar o estudo da desconsideração no CDC observa-se o dispositivo in verbis: art.44 Destarte. § 2° As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. menciona: dessa forma. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. § 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for. houver abuso de direito. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando. antes absoluto. com o propósito de defesa do consumidor. valeu-se o legislador aplicar a teoria da desconsideração da personalidade jurídica no microssistema do CDC. . É neste sentido que Gonçalves (2004. insta evidenciar que sua criação veio através do Código de Defesa do Consumidor. infração da lei. são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste código.

pela chamada ciência da administração. já é suficiente para a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. p. do CDC é a refêrencia à má administração da pessoa jurídica como pressuposto da desconsideração. Assim.então será possível imputar ao administrador a responsabilidade pelos danos sofridos pelos consumidores. caput. 51). a existência. Quando ele desatende às diretrizes fixadas pelas técnicas administrativas. Koch (2005.4. mesmo em contradição com estudo e os pressupostos da desconsideração da personalidade jurídica. Coelho (2005. a referência à sua desconsideração. Assim complementa Koch (2005) que pelo CDC a empresa mesmo praticando uma infração a lei. a insolvência da associação ou fundação ou mesmo o encerramento ou inatividade de qualquer uma delas em decorrência da má administração. Assim. Aqui.66). no caso exemplificou a sonegação de tributos. no seu artigo 28. 2004). Entretanto. por isso. omite-se o principal fundamento da desconsideração. sabe-se que o primeiro dispositivo legal a se referir à desconsideração da personalidade jurídica é o Código de Defesa do Consumidor.. p.se ocorrer falência da sociedade empresária. a fraude (COELHO. por um lado responsabiliza o administrador. deixando de fazer o que elas recomendam ou fazendo o que desaconselham. e disto sobrevêm prejuízos a pessoa jurídica. nota-se também que a simples existência de prejuízo patrimonial. Novamente. Na mesma vertente. 2005). 28. ele administra mal. caracteriza-se a desconsideração. foi o dispositivo pioneiro da introdução da teoria no direito brasileiro (KOCH. e. nota-se também a aplicação da teoria menor da desconsideração. o lesado na qualidade de consumidor.] o dispositivo também não se manteve fiel aos fundamentos da disregard doctrine. faz menção ao aspecto da má administração da pessoa jurídica: outro aspecto do disposto no art. descabendo. afirma que “[. 3. cogita-se de erros do administrador na condução dos negócios sociais.. Entretanto.2 A Desconsideração no Direito Tributário .45 No direito brasileiro. sua aplicação não observa o estudo da teoria da desconsideração. A norma não condiciona o rompimento do véu da personalidade jurídica ao uso desta como instrumento para a prática da fraude ou abuso de direito”. por outro.

somente há a desconsideração se puder concretizar-se um resultado fraudatório ao direito de terceiro. Para melhor entendimento. o resultado fraudulento. comportando esse os elementos centrais da teoria. como aspecto fundamental. mas decorre de uma certa concepção da representação. que incorra risco de resultado fraudatório. a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. mas somente se tal ilicitude ou abuso forem aptos a provocar a fraude a direito alheio. o art. não incidirá a desconsideração em todo e qualquer caso em que o sócio atuar de modo ilícito ou abusivo. . Ou seja. da tipicidade fechada e da reserva do formalismo da lei (SILVA. 2005). que a desconsideração da pessoa jurídica é um remédio para certas distorções derivadas da consagração legal da personificação de sociedade. II . como decorrência de atuação indevida ou ilícita. III . prepostos e empregados. III. existem duas correntes. admitiria a aplicação da teoria. 135. do Código Tributário Nacional. No entanto. incide o art. gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. 111). Para Silva (2007). sem a necessidade da aplicação por via judicial. uma negando sua aplicação sob o argumento da estrita legalidade para definir o fato gerador e do sujeito passivo. vale aqui destacar. 2007). Opostamente. Ou seja.46 A desconsideração no direito tributário vem sendo de grande debate pelos doutrinadores. 135 não se caracteriza como remédio para distorções. Diríamos então. 135 do CTN com o instituto da desconsideração da personalidade jurídica. e outro em que. Por decorrência. que na época já fazia menção ao art. O art.as pessoas referidas no artigo anterior. A desconsideração não é um resultado considerado em si mesmo. 135. . São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei. para entendimento de alguns. Há parte quem entenda que a aplicação da desconsideração no direito tributário só seria possível havendo norma expressa. ainda. destacando pontos importantes a serem analisados: a teoria da desconsideração toma em vista. Assim. a interpretação de Justen Filho (1987.os diretores. p. Observa-se o disposto no artigo 135 do Código Tributário Nacional: art. contrato social ou estatutos: I . insta salientar que no âmbito jurídico não há unanimidade quanto a aplicação da teoria da desconsideração na legislação tributária. pois tal aplicação incorre contra os princípios que regem o direito tributário. sanável exclusivamente pela via da desconsideração.os mandatários. pois argumenta-se também de ser de interesse público (KOCH. fundado no critério econômico da legislação tributária. 135 requer cogita do resultado fraudatório. estaria prevista no art. que consiste em reputar inocorrentes seus efeitos quando houver comportamento abusivo ou ilícito do representante. 135. como o da legalidade.

Rel. 134. por serem de fisionomia jurídica especial.os sócios. O grande problema está no conceito de sociedade de pessoas conforme descrito no inciso VII. e que. a sociedade por cotas de responsabilidade limitada tem acarretado dúvidas. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte. por serem estas sociedades de capital e não de pessoas1. 83) “sociedade de pessoas são aquelas firmadas na affectio societatis em que conta o elemento volitivo das pessoas. com base nas jurisprudências. ou seja. não se aplicaria às regras de atribuições de responsabilidade tributária aos sócios contidos no inciso VII. 134 do CTN trata a responsabilidade de terceiros nos seus respectivos incisos. as sociedades de pessoas.] VII . 135. Há entendimento que o art. só poderia cogitar resultado danoso. Mesmo que. agindo com excesso de poder ou infração de lei. nas sociedades limitadas e as sociedades anônimas. o art. Portanto para Koch (2005. respondem solidariamente com este nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis: [. 133645:PR. (II) sociedade em conta de participações. mas vale aqui destacar o inciso VII: art. que. No mesmo norte. Ainda entende Koch (2005). no caso de liquidação de sociedade de pessoas. pois o patrimônio a todos pertence e as obrigações ficam em torno do sócio. Para Requião (2008). no campo tributário. Ministro José Delgado . 2005). sociedade de pessoas são: (I) em nome coletivo. quando ocorrer frustração de incidência de norma tributária. em que o conjunto dos sócios é o titular das ações e direitos no qual correspondem à sociedade. verificando um resultado danoso. contrato social ou estatutos (KOCH.. são sociedades não personificadas. o relacionamento entre si e a capacidade de escolher com quem se associar”. De acordo com doutrina. assim a doutrina como também a 1 STJ Resp. de responsabilidade direta. seria assim a melhor análise do artigo.. (II) comandita simples. propiciado pela incidência do regime jurídico correspondente à personalidade jurídica. incorre na substituição da responsabilidade tributária. exonerando o contribuinte e estabelecendo nova relação jurídica tributária com os relacionados no art. p. Já a sociedade de capitais. só haveria a incidência da teoria da desconsideração. leva. por estarem desvinculadas aos indivíduos que as compõem.47 No entanto para Justen Filho (1987). 135. no entanto as atribuições da personalidade.

mas. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica vem ganhando novas interpretações. não cabe criticar o legislador por confundir a desconsideração com outras figuras do direito societário. 4°. na composição dos danos à qualidade do meio ambiente.48 jurisprudência entende que seja uma sociedade tipicamente de pessoas. Com a criação da Lei 9. impropriedade em que incorreu ao editar o Código de Defesa do Consumidor e a Lei Antitruste. existe aqueles que entendem que seja sociedade de capital. 2005). os seus controladores constituírem nova sociedade. deixando a primeira minguar paulatinamente (ver exemplo do início do capítulo envolvendo Benedito e Carlos). Assim propôs o legislador a aplicação da teoria no âmbito do Direito Ambiental. será possível. dispõe sobre a responsabilidade por lesões ao meio ambiente. a execução do crédito ressarcitório no patrimônio das duas sociedades.3 A Desconsideração no Direito Ambiental. Contudo. por meio da desconsideração das autonomias patrimoniais. a manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial não poderá impedir a responsabilização de seus agentes.605/98. Mas não se pode. 53). O Direito Ambiental tem merecido maior atenção nos últimos anos. interpretar a norma em tela em descompasso com os fundamentos da teoria maior. Coelho (2004. mas sempre com o intuito de responsabilização daquele que causa um dano. com sede. as regras dos artigos 134 e 135 do CTN. Portando. . recursos e pessoal diversos. 3. não qual passem concentrar seus esforços e investimentos. especificamente no seu art. 4º Poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. argumenta acerca do dispositivo: desta feita. filia-se a tese de que não seria hipótese de desconsideração da personalidade jurídica. mas são formas de responsabilizar o indivíduo que prática os atos que lhe deram origem (KOCH. para tentar escapar à responsabilidade. Que dizer. 2005).4. também. com os grandes movimentos ecológicos em virtude do ecossistema e dos direitos difusos da sociedade em preservar a natureza (KOCH. observa-se: art. Se determinada sociedade provocar sério dano ambiental. em tais casos. p.

49 Por fim. o equilíbrio do ecossistema. destarte exigiu do legislador criar dispositivo para incluir no Código Civil de 2002. foi criação jurisprudencial. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração. p. para servir de instrumento ou cobertura à pratica de atos ilícitos. 50 A teoria da desconsideração da personalidade jurídica. aprendeu-se a valorizar a natureza. ou abusivos.. 75): a pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins que determinaram a sua constituição. porque a sua principal característica é atuar episodicamente sem implicar a extinção da pessoa jurídica”. inimigo da mãe natureza (KOCH. acatado como um depredador. responderão. respeitando sobre tudo a fragilidade da natureza contra agressores e grandes indústrias. trazida por Gonçalves (2004. 2005). conjuntamente com os da pessoa jurídica. na esfera ambiental. a dissolução. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. que antes exibia sua presa como vitória. No entanto. criou-se a primeira redação de um artigo em que trataria da desconsideração. já analisado anteriormente. 151): . Observa-se na doutrina de Gonçalves (2004). como demonstra Justen Filho (1987. além de vários estudos doutrinários. Hoje valores e conceitos mudaram.605/98. a vida sobre a terra. onde Miguel Reale membro Comissão buscou consagrar a disregard doctrine. Assim. a grande preocupação. sob a justificativa de prevenir e repelir os abusos perpetrados à sombra da personalidade jurídica. hoje se esconde na multidão. caso em que caberá ao juiz. Assim surgem muitas críticas acerca da redação do texto sugerido. Gonçalves (2004). hoje é condenado. diante da evolução da nossa civilização. pois seu comportamento que antes era reverenciado. p.. É nesse cenário que nasceu a Lei 9. Neste caso.4. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. e por tais motivos que existe a possibilidade de se desconsiderar a personalidade jurídica em determinados casos. 3. onde faz menção ao anteprojeto do atual código civil. afirma que “[. Parágrafo Único. para abraçar a causa ambiental.] não se trata da teoria da desconsideração. para concluir o raciocínio. o caçador.4 A Desconsideração no Código Civil de 2002 – Art.

da união entre homossexuais. pois a desconsideração não implica a dissolução da sociedade. enfim. com a imensa autoridade não apenas decorrente de seu profundo conhecimento como também propiciada pela introdução da teoria da desconsideração entre nós. 167). como referia a redação do artigo que seria inserido no novo código civil. Assim. 50. em 11/01/2003. que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. Em caso de abuso da personalidade jurídica. diversas propostas foram apresentadas. mesmo tendo o espírito da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. acerca do artigo 50 do CC: assim. caracterizado pelo desvio de finalidade. p. a proposta não tem qualquer filiação à teoria da desconsideração.50 evidentemente. O projeto seria incompatível com o problema ora focado.. Por tudo isso. Entende-se que o artigo 50 do Código Civil de 2002.. ou pela confusão patrimonial. 1987). pode o juiz decidir.] a inexatidão quanto à aplicação da Teoria da Desconsideração continua. foi preciso percorrer um longo caminho. nem total nem parcial (JUSTEN FILHO. . a utilização da pessoa de forma fraudulenta”. 50: art. nem representa a sua adoção. dos produtos transgênicos. do DNA. 2005). Novamente reflete Koch (2005. cada vez mais complexas e variadas. Tantas inovações dão a sensação de que nova reforma do Código deveria iniciar-se imediatamente. O mesmo entendimento sustenta Aguiar (2008). contudo. em que “[. opôs-se frontalmente a tão incompreensível construção. Estamos no mundo da internet. porém nem todas se ajustavam ao conceito clássico da teoria da desconsideração da personalidade jurídica (KOCH. seria desproporcial. e nem ao afastamento do sócio seria a solução mais adequada. para chegar até a redação final. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. ainda carece de melhor redação. Rubens Requião. pois a dissolução da sociedade provocada por conduta abusiva. sem mencionar. é preciso enfatizar que o novo Código Civil. da digitalização. já estava defasado em relação às novas necessidades nas relações interpessoais. no seu art. pois a norma em questão visa somente ao abuso da personalidade jurídica. O próprio Prof. quando finalmente entrou em vigor. somente em janeiro de 2003 que entra em vigor a nova redação do artigo em que trata a desconsideração. de novos conceitos que sequer se cogita existirem lá pelos anos 70. a requerimento da parte.

pois em qualquer hipótese. para preservar os direitos dos credores e garantir a credibilidade da pessoa jurídica. tendo todas elas recebido críticas variadas. no entanto. . o juiz.] a pesquisa da origem desse dispositivo revela que a intenção dos elaboradores do Projeto de Novo Código Civil era a de incorporar. poderia ser mais específico. foi uma tentativa de aplicar a teoria da desconsideração no Código Civil de 2002. Para os doutrinadores. Portanto a aplicação da teoria independe de previsão legal.. combater o desvio de finalidade. porém muitas em desacordo com a teoria. confusão patrimonial e abuso de direito. É nesse sentido. contempla. [. No entendimento de Fábio Ulhoa Coelho. 2004). no direito brasileiro. visa coibir atos fraudulentos daqueles que a utilizam. 53). aos juristas a aplicação da teoria com maior eficácia para desconsiderar os atos fraudulentos ou abusivos daqueles que a controlam. 4 DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA A teoria da desconsideração da personalidade jurídica. será aplicada (COELHO.. porém. excepcionalmente. ocorrendo a confusão patrimonial. a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. p. e de fato. observa-se: o Código Civil de 2002 não contempla nenhum dispositivo com específica referência à desconsideração da personalidade jurídica. havendo os pressupostos da teoria. e a cada dia que passa novas interpretações surgem com o objetivo de preservar a pessoa jurídica. 50. desconsidera em certo momento. ainda deixou a desejar a redação atual do artigo 50 do CC. 2005). desviando bens da sociedade para esquivar-se de suas obrigações sociais contra terceiros. De tal modo.51 Já para Coelho (2004. uma norma destinada a atender às mesmas preocupações que nortearam a elaboração da disregard doctrine. somente com a ajuda de Fábio Konder Comparato houve uma interpretação coerente. com o fim específico de obter recursos para saldar a dívida. que será analisado outras formas de aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. cabendo. atingindo os bens pessoais dos sócios (KOCH. Enquanto tramitou pela Câmara. É o caso do art. como já mencionado. todos os pressupostos legítimos da teoria da desconsideração. o dispositivo recebeu mais de uma redação. o Código Civil de 2002 ainda não contempla especificamente a teoria da desconsideração. a pessoa jurídica.

Porém em algumas situações ocorre a desconsideração na forma inversa ou seja. A jurisprudência americana. mesmo quando não foi a sociedade formalmente parte no negócio. p. o sócio utiliza a sociedade. mas também em sentido inverso. na sua forma invertida. no que tange a garantia de dívidas. Acerca do tema ainda leciona Pinto (2003. atualizada por Calixto Salomão Filho. ou seja. na clássica obra O Poder de Controle da Sociedade Anônima. uma vez demonstrada a confusão patrimonial de facto Nota-se que o doutrinador já abordava a possibilidade da aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Importantes foram as palavras de Comparato. contra terceiros. a sociedade adquire inteira autonomia patrimonial. Requião (2008). em via de regra. porém não aplicada nos tribunais e nem positivada. nova interpretação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Vale gizar que. uma nova aplicação da teoria. 2005).52 Com intuito de preservar a pessoa jurídica. pessoa jurídica. para ocultar seu patrimônio particular.73): . a aquisição da personalidade jurídica. somente seu patrimônio social passa a ser garantia de seus credores. assim Comparato. em benefício da companhia. p. no da responsabilidade desta última por atos do seu controlador. ou seja. para ocasionar prejuízos a terceiros. já firmou o princípio de que os contratos celebrados pelo sócio único. assim não podendo os credores particulares do sócio executar bens da sociedade. um princípio da personalidade jurídica. Percebe-se a distinção da responsabilidade da sociedade e da figura do sócio. busca a doutrina e a jurisprudência. essa desconsideração da personalidade jurídica não atua apenas no sentido da responsabilidade do controlador por dívidas da sociedade controlada. para coibir outros atos que envolvem a pessoa jurídica. credores do sócio na qualidade de pessoa física (KOCH. ou seja.Salomão Filho (2008. obrigam o patrimônio social. outro como pessoa física. ou seja. A desconsideração da personalidade jurídica na sua forma inversa foi tratada primeiramente por Fábio Konder Comparato. por exemplo. ou pelo acionista largamente majoritário. como o patrimônio do sócio responde perante os seus redores particulares. a transmissão fraudulenta de bens do devedor para o capital de uma pessoa jurídica. no que refere ao tema. já mencionou a ocorrência de consumação de fraude por parte dos sócios. um observando a autonomia patrimonial.137) leciona: aliás.

Enquanto a teoria da desconsideração da pessoa jurídica propriamente dita aplica-se às hipóteses em que se pretende responsabilizar pessoalmente os sócios por atos praticados em nome da sociedade. incorporando ao seu acervo patrimonial bens pessoais de sua titularidade. a denominada desconsideração inversa. Destarte. para resgatar os bens pessoais do sócio que. transfere para a sociedade em prejuízo de terceiros (CEOLIN.53 é o caso do devedor que se vale da pessoa jurídica.127). p. ao sócio é atribuída a participação societária. na qual é sócio majoritário ou acionista. quotas ou ações representativas de parcelas do capital . Assim. para responsabilizá-la por obrigação pessoal do sócio. por ato fraudulento. Na mesma linha de entendimento. Como detém absoluto controle nessa sociedade. visa à teoria da desconsideração inversa da personalidade jurídica. Ainda sobre a teoria inversa Ceolin (2002. p. 45). Nota-se que a pessoa jurídica passa a ser um instrumento para que o sócio venha a praticar fraude contra seus credores. Desse modo. verifica-se que basicamente a desconsideração inversa tem como objetivo evitar o desvio de bens: a fraude que a desconsideração invertida coíbe é. O devedor transfere seus bens para a pessoa jurídica sobre a qual detém absoluto controle. o inverso: desconsiderar a autonomia patrimonial da pessoa jurídica para responsabilizá-la por obrigação de sócio. p. Contudo. embora não sejam mais de sua propriedade. isto é. integram o ativo imobilizado da pessoa jurídica que está sob seu controle e administração. Portanto. 2005). 45): em síntese a desconsideração é utilizada como instrumento para responsabilizar sócio por dívida formalmente imputada à sociedade. 2002). alcançar o patrimônio social. continua a usufruí-los. Também é possível. continua a desfrutar desses bens assim transferidos. basicamente. mas da pessoa jurídica de uma sociedade. para Coelho (2004. verifica-se que na ocasião deverá estar presente os pressupostos da teoria da desconsideração da personalidade jurídica (KOCH. apesar de não serem de sua propriedade. define: denomina-se desconsideração inversa o instrumento jurídico que permite prescindir da responsabilidade e da autonomia patrimonial da pessoa jurídica. contudo. onerando o seu patrimônio por dívidas pessoais de seus membros. busca atingir o ente coletivo. ensina Coelho (2004. que. o desvio de bens. a desconsideração inversa é o afastamento do princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica para responsabilizar a sociedade por dívidas atraídas pelo sócio em face de terceiros.

desconsidera-se a autonomia da pessoa jurídica para buscar. No mesmo sentido evidencia Koch (2005. penhoráveis para garantia do cumprimento das obrigações do seu titular. a partilha de bens comuns pode resultar fraudada”. para ordenar a sua partilha no ventre da separação judicial. e responsabilizar a pessoa jurídica pelo devido ao ex-cônjuge ou ex-companheiro COELHO (2004). para a qual faz despejar. No direito de família. será possível desconsiderar a autonomia patrimonial para desfazer o ato fraudulento. No entanto. em que. principalmente frente à constatação nas disputas matrimoniais. “a desconsideração invertida ampara. em regra. Madaleno (1998. se um dos cônjuges ou companheiro. 73): no Brasil. visando esvaziar o patrimônio a ser dividido na hora da partilha dos bens. p. 27). como matrimoniais esses bens. 45). havendo. sendo aplicada a teoria em diversos ramos do direito. em conseqüência. flagrada a fraude ou o abuso. do cônjuge empresário esconder-se sob as vestes da sociedade. Na desconstituição do vínculo de casamento ou de união estável. Para Coelho (2004. em retorno. os direitos de família.. Essas são. e para esquivar-se da meação. de forma especial. sentença final de cunho declaratório haverá de desconsiderar esse negócio específico. que tais atos podem ser praticados por aqueles que mantêm controle total da sociedade. Vale salientar. seria mais fácil de solidificar a fraude e o desvio de bens. p. . o rol mais significativo de seus bens (. já considerados comuns e comunicáveis. O outro cônjuge é enganado com a dilapidação dos bens do casal. Nesse contexto. os bens fraudulentamente transferidos. se não todo.54 social. antes da separação. na fase destinada a sua divisão. acerca da desconsideração inversa no Direito de Família. a fim de desfazer o prejuízo do cônjuge enganado. vem se aplicando a teoria inversa. p. afirma: é larga e procedente a sua aplicação no processo familiar. A teoria vem ganhando espaço doutrinário e jurisprudencial.. registra-os em nome da pessoa jurídica em qual é sócio e controlador. um dos cônjuges transfere os bens do casal para a pessoa jurídica da qual é sócio. como já mencionou Fábio Ulhoa Coelho.) quando o marido transfere para a sua empresa o rol significativo de seus bens matrimoniais. essa prática tem-se verificado em alguns dos processos mais ruidosos de separação judicial de casais. Nesse caso. adquirente de bens de maior valor.

para a aplicação da teoria inversa da desconsideração da personalidade jurídica. existe outra hipótese de desconsideração.76): Deixou. Sobre o tema. Para a Ministra. atualmente. o sujeito casado coloca seu patrimônio em nome da empresa da família. deverá o juiz desconsiderar inversamente a personalidade da sociedade empresária para atingir o próprio patrimônio social.55 Por motivo do uso ilícito da pessoa jurídica. que pertence. à pessoa física fraudadora. melhor explicam Gagliano e Pamplona Filho (2008 p. e o integraliza totalmente na pessoa jurídica”. visando prejudicar terceiros. subdiretora de Cursos Internos da Escola Superior da Magistratura de Sergipe . enquanto pessoa natural." Também é entendimento de Melo (2004)2 que “é possível desconsiderar a personalidade desta para responsabilizá-la por obrigação do sócio. Contudo. que se dá quando o indivíduo coloca em nome da empresa seus próprio bens. assim desconsidera-se a personalidade jurídica da pessoa natural. a desconsideração inversa. É a chamada desconsideração inversa”. ele esvazia o seu patrimônio pessoal. 2 bacharela em Direito. em verdade. Nancy Andrigh (2002) descreve que “nessa modalidade. Assim foi destacado pela Ministra do Superior Tribunal de Justiça Nancy Andrigh. conforme apontamento da doutrina. que terá como efeito. buscam-se os bens que compõem o patrimônio da sociedade para cumprimento de obrigações do sócio. a quebra do princípio da autonomia patrimonial. Tal palestra foi ministrada em 2002. Exemplo: em receio de eventual partilha detrimentosa de bens. a própria Ministra foi relatora de decisão importante. Em tal caso. Percebe-se que o tema vem ganhando espaço no ordenamento jurídico. lamentavelmente. para alcançar o patrimônio da pessoa jurídica em detrimento de dívidas pessoais de quem é sócio. é importante fazer uma análise dos fundamentos legais para a sua incidência. de fazer referência à denominada 'desconsideração inversa'. sendo de grande importância seu apontamento na doutrina jurisprudência e até em palestras. ao invés de o sócio esvaziar o patrimônio da pessoa jurídica para fraudar terceiros. no qual será analisado mais adiante. o alcance dos bens patrimoniais da sociedade e a partilha dos bens do casal. entretanto [o projeto do novo Código Civil]. Ou seja. será aplicada a desconsideração inversa da personalidade jurídica.

É de grande alvitre salientar que. como aqueles estabelecidos no art. ou. mesmo não existindo dispositivo legal previsto no Código Civil. . O autor do enunciado foi Eugênio Rosa de Araújo. nos termos do art. atualmente. com prejuízo a terceiros. quando devidamente comprovada a sua ocorrência. em que pessoa natural divide seu patrimônio de forma que seus ativos situem-se na sociedade e os passivos na pessoa do sócio. No entanto. Muito comum é a situação em que o cônjuge promove o esvaziamento do patrimônio do casal. em grande estágio de amadurecimento. frustrando os legítimos interesses dos credores.1 FUNDAMENTOS LEGAIS DA DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA É importante destacar que não há. vale ressaltar a IV Jornada de Direito Civil. inexistente. e que seja possível o alcance dos bens desviados. passa a esconder ali os seus bens.56 4. 50. ocorrerá a quebra do princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica. no ano de 2007 por grandes juristas do Brasil. ou seja. ainda. fundamentos necessários para a caracterização da teoria em comento. abuso de direito. realizada pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal. que fez sua justificativa acerca da aplicação da desconsideração inversa com base no art. tanto a confusão patrimonial quanto o desvio de finalidade e o abuso de direito. serão observados seus pressupostos específicos. para que o juiz possa levantar o véu da personalidade jurídica. legislação específica que aborde a Desconsideração Inversa da Personalidade Jurídica. na verdade. 50: É cabível a desconsideração da personalidade jurídica denominada “inversa” para alcançar bens de sócio que se valeu da pessoa jurídica para ocultar ou desviar bens pessoais. desvio de finalidade e confusão patrimonial. apenas decisões jurisprudenciais que entendem a sua aplicação. É nesse sentido que. juiz federal. que são eles. dando a entender perante terceiros que possui situação pessoal patrimonial. onde fica evidenciada a desconsideração inversa no enunciado 283: 283 — Art. transferindo bens para uma sociedade. merece registro o fato de que a Desconsideração Inversa encontra-se. 50 do Código Civil para a sua incidência. em nosso ordenamento jurídico. 50 do CC: a classificação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica como inversa se justifica porque. em lugar de o sócio valer-se licitamente da pessoa jurídica como barreira protetiva de seu patrimônio pessoal. Portanto.

haja vista que a pessoa jurídica não é objeto. Ainda . Primeiramente. sob um certo ângulo. Pois através da personificação societária. pois alguns doutrinadores utilizam a expressão a partir da noção de abuso de direito: todavia. deve-se observar com clareza a expressão abuso de direito através da pessoa jurídica. mas sim um sujeito de direitos e obrigações. 2002).57 4. não assumido pelo direito e pela comunidade jurídica. 19). percebe-se que a personificação societária. esse jogo epistemológico pode. ou seja. para que não ocorram equívocos na aplicação da teoria. deve-se analisar se a relação entre abuso de direito e abuso da pessoa jurídica é das mais adequadas. 1987).1. ocorrer ato imoral e antiético nos resultados que perfazem (JUSTEN FILHO. 22) “com apoio a noção de abuso de direito. ensejar dúvidas e incertezas. daria oportunidade inevitável ao abuso por parte daquele que a compõe. com objetivo específico de um fim social positivo. Em raciocínio lógico. p. portanto. a distinção dos patrimônios de cada um. é relevante observar o conceito de abuso de direito através da pessoa jurídica. seria o abuso não permitido. Ainda para Justen Filho (1987) na interpretação de abuso que conduz a desconsideração da personalidade jurídica. esse tido como exercício de direito de modo contrário à sua função ético-jurídica e social. Partindo-se dessa premissa. na mesma forma. o abuso não e propriamente da pessoa jurídica. p. Porém. pode dizer que a desconsideração da personalidade jurídica será aplicada sempre que de fato. Para Ceolin (2002. assim dando maior oportunidade de abuso. Justen Filho (1987).1 Abuso do Direito Primeiramente. cumpre-se fixar o direito a que se refere a teoria da desconsideração. mas do direito à personificação. vez que a responsabilidade pessoal do sócio é limitada (JUSTEN FILHO. carece de uma análise da expressão empregada (CEOLIN. entende que a sociedade daria ensejo ao sócio mal intencionado a praticar atos abusivos. pois ofende os princípios jurídicos. que o limite de todo direito encontra-se no âmbito de sua finalidade”. senão devidamente fixado. que para Ceolin (2002. propiciase a distinção entre a pessoa jurídica e pessoa física. Todavia. por si só. É oportuno anotar. 1987). utilizando a pessoa jurídica como escudo de suas artimanhas.

ou seja.1. é aquele ato perpetrado em desacordo com o exercício normal do direito subjetivo ou que cause dano ou mal-estar a alguém. ou seja. de uso inadequado de uma confiança. descontrolada e insuportável. . está praticando ato fora dos princípios da sociedade. 2008). embora praticado de acordo com os limites objetivos traçados pela norma jurídica. 2005). aquele que age abusivamente. de comportamento não autorizado. Isso porque o Direito foi criado para que o indivíduo tenha uma convivência harmoniosa com os demais membros da sociedade. não prevista e. o abuso do direto pode ter uma aparência de legalidade.2 Desvio de finalidade Outro pressuposto importante a ser analisado é o desvio de finalidade. Acerca do tema. Dessa forma. possuidor deste direito. Assim. em qualquer plano. p. Partindo da idéia de conceito de abuso do direito. ou seja. pode-se dizer que seria o exercício irregular do direito. está relacionado à ideia de excesso. mesmo obedecendo aos ditames da lei. abuso de direito pode ser considerado como o exercício irregular de um direito pelo seu titular. e neste caso deverá haver a aplicação da teoria da desconsideração. fundamento essencial para a aplicação da teoria da desconsideração. Koch (2005. logo. utilizando-se de um direito que supõe ter. imprevisível. constata-se que. e causa um dano a outrem.58 complementa Justen Filho (1987. até mesmo. Para Aguiar (2008) o abuso de direito não consiste somente no ato lesivo. mas também fere o princípio da finalidade econômica e social: já a teoria do abuso de direito é aquela que preceitua a respeito do ato que. 121) que “o abuso da pessoa jurídica indica a atividade atípica. através da qual o titular protege seus atos ilícitos sob o manto da norma positivada (KOCH. exercício com excessos. visando prejudicar terceiros em proveito próprio. 41) leciona: o abuso. pois estará praticando abuso de direito. deve o indivíduo. agir com vigor a finalidade social do Direito que possui. ocorrente na utilização pelo particular desse instrumento”. 4. viola os princípios da finalidade econômica e social desta. p. (AGUIAR. se desvia da destinação social e econômica desta. o seu titular extrapola os limites da licitude.

É. sem a devida autorização ou sem o consentimento de seu senhor e possuidor. O desvio de finalidade está ligado às ideias de desvio e abuso de poder dos sócios. estabilidade e segurança nas suas relações (SILVA. Observa-se que o único propósito do sócio controlador é confundir bens sociais com os bens pessoais. há desvio de finalidade quando são praticados atos incompatíveis com aqueles estabelecidos no contrato ou estatuto. estranho à sua função. em regra. então. caso for comprovado o mau uso da pessoa jurídica por parte do sócio. que acabem por gerar obrigações incompatíveis com a finalidade para a qual foi instituída. Entretanto. caracterizando o abuso na estrutura formal”. 132). . gerentes ou administradores na condução da pessoa jurídica. todo direito tem uma finalidade. para aferir agilidade. que suporta um centro autônomo de direitos e deveres. mas para esconder a identidade dos sócios ou do seu sócio majoritário com o propósito de confundir terceiros.59 O desvio de finalidade para Ceolin (2002. Em análise. distinta dos seus membros que compõem a pessoa jurídica. “o desvio de finalidade fica caracterizado sempre que são praticados atos incompatíveis com os objetos sociais estabelecidos no ato constitutivo da sociedade. emprega seus esforços para dar outro destino à referida personalidade. Observa-se então. configurando de fato o desvio de finalidade. Contudo. acerca do desvio de finalidade: a palavra desvio é freqüentemente empregada pela terminologia jurídica para indicar o uso indevido. p. permitindo a ele a prática de ato que lhe fora vedado por lei ou em contato. haverá desvio de finalidade. p. 171) que. pois a finalidade social foi descumprida. Complementa Koch (2004. p. uma função ou até um fim. Gonçalves (2004. No mesmo sentido é o que ocorre com o caso da pessoa jurídica. ou o destino diferente dado à coisa pertencente a outrem pela pessoa que a detinha a título precário. 14) faz a seguinte exposição: conseqüentemente. com o intuito de acobertar sua identidade pessoal. Aqui. p. deverá este suportar os prejuízos causados a terceiros. o ato abusivo do detentor. a palavra desvio é utilizada apenas na acepção de uso indevido ou anormal. ou inversamente. esta deve ser direcionada a outro fim. para que ocorra o desvio de finalidade no exercício abusivo da personalidade jurídica. com mais clareza o que leciona Silva (2007. 51) é aquele em que “o ente instituído para unir esforços e patrimônios. seja ele contrato ou estatuto”. Assim. Pois sua finalidade principal é distinguir dos membros que a compõem. 2007). pois o sócio que detém a liberdade de iniciativa de se servir de uma personalidade jurídica.

ou seja. enquanto que a ultra vires apenas visa anular o ato praticado em desajuste com a finalidade social da empresa. em conformidade com a lei. Uma sociedade que por força da lei. pelo qual o sócio deverá realizar sua participação desse fundo comum. devidamente . por ser um ente personalizado. tem apenas como objetivo. p. a lavagem de dinheiro. transparece legalmente. 2004). utilizando-se da pessoa jurídica como meio. ou seja. mas seus objetivos reais são outros (KOCH. define seu capital social expressamente. autonomia. Diante desse capital. a sociedade empresária consiste em relações próprias. 2005). e sim deverá desempenhar suas atividades como agente de desenvolvimento social. que não se confundem com as relações dos sócios. quando sociedades são constituídas sob uma fachada idônea. do administrador ou mesmo de outras entidades que tenham relações de fato e de direito (MAMEDE. entende-se que a sociedade deve desempenhar uma atividade produtiva. Não pode a sociedade servir de instrumento com intuito de fraudar terceiros. É sabido que. Esta ignora a autonomia da pessoa jurídica para atingir o patrimônio particular daquele que a praticou fraude contra terceiros. 171): sempre que uma organização desviar suas operações dos limites fixados pelo ato constitutivo. que permite considerar nulo todo ato praticado que se descia da finalidade social prevista no contrato ou estatuto social. não poderá estar a serviço da fraude e de ilicitude. quando. na verdade.3 Confusão patrimonial Diante do contexto dos fundamentos legais para a desconsideração da personalidade jurídica. Contudo. Será então aplicável a teoria ultra vires.1. 4. de concepção anglo-saxônica. Necessário destacar a diferença conceitual entre a teoria denominada ultra vires e a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Pode-se exemplificar o desvio de finalidade. assim leciona Koch (2005. tem-se o desvio de finalidade. torna-se imprescindível relatar acerca da confusão patrimonial.60 É oportuno diferenciar entre a teoria denominada ultra vires e a teoria da desconsideração da personalidade jurídica.

será distinto do patrimônio dos sócios (MAMEDE. ou. detiver idênticos direitos de uso. seja contra o processo executório. por exemplo. p. naturalmente pode ensejar a confusão patrimonial. Nessas hipóteses. Explica. pois. ou mesmo o pagamento de despesas de uma pessoa jurídica por outra. escondendo-se atrás do manto formal desta. A escrituração contábil conjunta. tornando-se sócios. como a confusão patrimonial com o fim de prejudicar terceiros. perde essa qualidade.61 registrado. seja contra credores. que por ser um ente jurídico personificado. A primeira quando terceiros encontram dificuldades em responsabilizar uma empresa de um grupo . 136): em síntese. a mera transferência de bens do sócio para a sociedade ou vice-versa. É preciso. justificando a aplicação da teoria da desconsideração. Segundo Muniz (2003). p. é esta possuir patrimônio distinto dos indivíduos que a integram. 54): a confusão patrimonial só revela o abuso da estrutura formal da pessoa jurídica. pois é a separação patrimonial que revela a formalização de um centro autônomo de interesses. quando o sócio atua de forma a confundir também a sua personalidade com a do ente abstrato. de frustrar o adimplemento de obrigações particulares ou da própria pessoa jurídica encoberta. da confusão entre o patrimônio de uma pessoa jurídica com o patrimônio de outra. Silva (2007). desviando da sua finalidade atribuída. há forte presunção que concordam com a separação patrimonial. caracterizada estará a ocorrência de simulação ou fraude. Pois quando indivíduos decidem pela formação de uma pessoa jurídica. Não se pode entender por confusão patrimonial. ou mesmo. que o patrimônio da pessoa jurídica por lógica da sua própria criação. analisar se a personalidade jurídica foi utilizada para práticas de atos abusivos por parte dos seus sócios. É necessário então. Assim. concebida até então como um centro autônomo de interesses. gozo e disposição dos bens de outra pessoa jurídica. 2004). a pessoa jurídica. enquanto critério de aplicabilidade da desconsideração. jamais abuso da estrutura formal da pessoa jurídica. devendo ser desconsiderada sua personalidade como forma de repressão ao abuso perpetrado. observar de que forma houve a confusão patrimonial. É nessa seara. Assim leciona Ceolin (2002. Observa-se claramente o que anota Silva (2007. que se deve observar o que pretende a teoria da desconsideração com a confusão patrimonial. ocorrerá o abuso de personalidade jurídica pela confusão patrimonial. constitui-se um patrimônio societário. sempre que determinada pessoa natural ou jurídica. a confusão se resume em duas formas distintas. Quando esta surge. devendo os sócios observar este princípio. com o escopo de obter vantagens indevidas. ou seja. a confusão patrimonial decorre da promiscuidade entre o patrimônio pessoal dos sócios e o patrimônio da sociedade.

utilizar o instituto da pessoa jurídica com intuito de fraudar. pesquisando o acervo dos tribunais pátrios. deve nelas permanecerem. para a decretação da superação da personalidade jurídica.. e seus fundamentos para a efetiva aplicação da teoria.198. por uma obrigação. com denominação parecida. Sendo que é comum a ocorrência. Alega que o MM. Caoa Montadora de Veículos S/A. pois há hipóteses de sociedades distintas. sob o mesmo controle. insta evidenciar. desvio de finalidade e confusão patrimonial. caracterizado pelo abuso de direito. a confusão patrimonial. o entendimento jurisprudencial. mesmo na desconsideração inversa. A segunda forma é a mistura de patrimônios. nessa hipótese. Agravo de Instrumento n° 1. Vale aqui expor. nos autos da ação de cobrança de honorários advocatícios que promove contra CARLOS ALBERTO DE OLIVEIRA ANDRADE julgada procedente. caso que repercutiu o tema. observa-se que existem muitas decisões que elegeram a desconsideração inversa.23 das contas ou aplicações bancárias do devedor. Assim foi o voto do Des.103-0/0 interposto por Manuel Affonso Ferreira Advogados. para ocorrer à indicação do art. formar o acervo do patrimônio dos sócios. Não poderá o sócio. 50 do Código Civil. Para Koch (2005). com fim específico cobrança de honorários (SÃO PAULO. com o mesmo endereço e mesmos administradores. alguns julgados acerca do tema da desconsideração inversa da personalidade jurídica. objeto social semelhante. deve-se detectar a prática do abuso da personalidade jurídica. os haveres ou até os créditos societários.62 econômico. Evidentemente. pois dela é peculiar. pressupondo que desta conduta venha a prejudicar terceiros.645.2 ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL Para finalizar. caso contrário será invocado a teoria da desconsideração. Destarte. 2010b): Trata-se de agravo de instrumento manejado por MANUEL ALCEU AFFONSO FERREIRA ADVOGADOS. 4. tendo o Banco Central informado . Juiz deferiu o bloqueio e a penhora eletrônica da quantia de R$ 557. Manoel de Queiroz Pereira Calças do Tribunal de Justiça de São Paulo. não deve os bens.Hyundai Caoa do Brasil Ltda. e em fase de cumprimento de sentença. ou seja. sendo que há duas personalidades jurídicas distintas. as pessoas jurídicas são gerenciadas como se fossem a mesma empresa. a decisão do caso CAOA .

Anápolis... Isto porque. mediante expedientes lícitos ou ilícitos. atualmente sediada na rua 11. o detalhamento e a transferência para conta judicial do Banco Nossa Caixa. [. formais ou informais. a personalidade jurídica de HYUNDAI CAOA DO BRASIL LTDA. Goiás. 1º andar. ainda.344/0001-77. helicópteros) registrados em nome das empresas. posteriormente. multimilionário... freqüentar restaurantes e hotéis. retira da caixa das empresas. s/n. nem um centavo em suas contas bancárias pessoais. sócio-controlador e “dono absoluto” das sociedades Hyundai Caoa do Brasil Ltda.63 que todas as contas bancárias do executado estavam zeradas. CNPJ-MF nº 03. “pode tudo”. Fazenda Barreiro Meio. e satisfazer as dívidas pessoais em favor de terceiros.518. outras do mesmo sentido vem ganhando aceitação pelo magistrado.732/0001-66.471. na condição de “dono” ou “sócio de fato” ou “controlador” das sociedades.822. dirige como senhor de baraço e cutelo.. com sede na Avenida Ibirapuera. A partir dessa decisão. o devedor é empresário de sucesso. com o fim específico de reverter o ato fraudulento do sócio mal intencionado. nº 2.] Por fim. Considerando-se que. ora executado. Prevaleceram na decisão em comento os pressupostos essenciais para de fato configurar a desconsideração inversa. e Caoa Montadora de Veículos S/A. exsurge evidente que. o necessário para a sua manutenção e de sua família (CAOA FAMILY). como Diretor-Presidente das referidas sociedades.103-0/0) Nota-se que. as quais ingressaram nos autos e formularam resistência à constrição de numerário de suas contas bancárias.. Nada impede que. para responsabilizar a pessoa jurídica denominada Hyundai Caoa Brasil Ltda. São Paulo e de CAOA MONTADORA DE VEÍCULOS S/A. pedindo ainda a imposição de encargos sucumbenciais à agravante. providenciando-se. frustradas as diligências realizadas com o escopo de bloquear ativos financeiros do sócio devedor. afastar a assertiva das sociedades no sentido de que a desconsideração inversa só pode ser aplicada se for demonstrada a transferência de bens do patrimônio particular do sócio controlador-devedor para a pessoa jurídica. (Agravo de instrumento n 1. . pode viajar com passagens adquiridas em nome das empresas. em sentido inverso. impetuoso foi o magistrado ao aplicar a teoria da desconsideração inversa. impõe-se. obviamente.. que apresenta suas contas zeradas. em execução da dívida judicial no valor de R$ 669. mostrou-se claramente que o agravado foi buliçoso em seus atos. enfim. não precisando. para esquivar-se de suas obrigações pessoais. efetivamente. nas obrigações de seu sócio.] desconsiderar. para o fim de determinar a penhora virtual (on line) de numerário existente em contas bancárias ou aplicações financeiras de qualquer modalidade em nome das duas sociedades. usando o cartão corporativo da companhia ou da sociedade limitada. e Caoa Montadora de Veículos S/A. [. a confusão patrimonial em evidência. [. aviões.198.27. que. CNPJ-MF nº 03.] Pretende o exeqüente a desconsideração da personalidade jurídica inversa. O magistrado julgou procedente o agravo determinando a penhora de contas existentes em nome das sociedades de controle do agravado. pleiteou a intimação das sociedades empresárias para se manifestarem sobre o bloqueio e penhora virtuais da quantia executada. ter dinheiro de contado no bolso.174. Carlos Alberto de Oliveira Andrade. como é público e notório. utilizar veículos (automóveis.

POSSIBILIDADE. Presente a efetiva comprovação da fraude à execução. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NA FORMA INVERSA.. sustentando em sua decisão que deverá estar presente os pressupostos para a caracterização da desconsideração inversa: AGRAVO DE INSTRUMENTO .. o direito não pode se furtar a aplicar essa teoria de forma inversa quando o devedor cria uma ficção jurídica para defender seu patrimônio ameaçado de alienação judicial por força de dívidas contraídas junto a terceiros. 50 do Código Civil. DECISÃO MANTIDA. de modo que os bens da sociedade respondam pelas obrigações do sócio... ou seja. Conquando na aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica parte-se do pressuposto que o sócio responde com seu patrimônio particular pela obrigação da empresa. uma vez que constitui exceção ao princípio de que a sociedade não se confunde com a pessoa de seus sócios. há de ser deferido o pedido de DESCONSIDERAÇÃO da PERSONALIDADE JURÍDICA INVERSA. EXECUÇÃO DE SENTENÇA.] A desconsideração da personalidade jurídica. e quando presentes os requisitos enumerados no art.64 É nesse norte que se busca o entendimento do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. aplicando a teoria inversa. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NA FORMA INVERSA.IMPROVIMENTO . é medida excepcional. (Apelação Cível nº 117379-9/188) Deste modo.. (Apelação Cível 20070110699577) Nesse sentido.. A teoria da DESCONSIDERAÇÃO da PERSONALIDADE JURÍDICA. EXECUÇÃO. Recurso conhecido e improvido. do desvio de finalidade ou confusão patrimonial e ainda da prática de atos irregulares. SOCIEDADE EMPRESÁRIA.] . [. o desvio de finalidade ou a confusão patrimonial. quando demonstrada a ocorrência da confusão patrimonial com vistas a frustrar o processo executivo. [. direta ou inversa.AÇÃO DE EXECUÇÃO FRAUDE À EXECUÇÃO . quando comprovado um dos seus pressupostos para a desconsideração da personalidade jurídica: AGRAVO DE INSTRUMENTO. devendo ser utilizada quando não houver outra maneira de resolver o caso. [. prevista no art. EMBARGOS DE TERCEIRO. 50 do CC. perpetrados por meio do abuso da estrutura da personificação. encontram-se também julgados no Tribunal de Justiça de Goiás. deve ser aplicada com cautela. Admite-se a aplicação da medida excepcional da desconsideração da personalidade jurídica na forma inversa.] 1. CONFUSÃO PATRIMONIAL. sempre na observância de seus pressupostos: APELAÇÃO CÍVEL. decide o Tribunal de Justiça de Minas Gerais.DESVIO DE FINALIDADE OU CONFUSÃO PATRIMONIAL COMPROVADOS.DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA INVERSA .

abuso de PERSONALIDADE. 2005. sob pena de nulidade. sob pena de vulneração aos arts. O interlocutório que desconsidera inversamente a personalidade jurídica de sociedade comercial. impõe-se a mantença da decisão que declarou a ocorrência de fraude à execução.. dispositivos que transmitem a necessidade de motivação nas decisões judiciais. OCASIONANDO A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA (ART. também. e 165.NULIDADE DECRETADA EX OFFICIO . sobretudo. (Agravo de Instrumento n° 1. discorre sobre a doutrina do Disregard of Legal Entity inspiradora da regra insculpida no art. pela possibilidade de aplicação da teoria inversa.RECURSO PREJUDICADO. no entanto. uma vez que constitui exceção ao princípio da separação entre a pessoa da sociedade e a pessoa dos sócios. é que. seja pelo acolhimento ou rejeição do pedido. Aspecto relevante na decisão. em que pese poder se cogitar a invasão patrimonial da sociedade cujo o devedor é quotista. da CRFB. Além disso. apontar as razões do seu convencimento. Art. sua aplicação não importa em desconstituição da personalidade jurídica. 50 DO CC/2002) – AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO . ampara o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. que autoriza a desconsideração da personalidade jurídica "inversa": É cabível a desconsideração da personalidade jurídica denominada “inversa” para alcançar bens de sócio que se valeu da pessoa jurídica para ocultar ou desviar bens pessoais. .65 Pois bem. do CPC. com prejuízo a terceiros. 50 do CC/2002 e Enunciado n. no Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.. que elege a teoria em comento. está circunscrito aos pressupostos do art. IX. CUJO QUADRO SOCIAL É INTEGRADO PELO DEVEDOR PESSOA FÍSICA. 50 do atual Código Civil. necessário se faz.023535-1/001) No afã de corroborar as teses suscitadas nos tribunais pátrios. cabendo ao juiz.. fundamentadamente. 93. Conheça. o Enunciado n. mas tão-somente na declaração de sua ineficácia. Portanto deverão estar presentes seus pressupostos. 50 do Código Civil (prática de ato irregular. 50 do Código Civil em vigor.. 93. fazendo com que a empresa responda com seu patrimônio pela dívida pessoal do sócio.] Nesse contexto. DA CRFB. [. uma vez presente a comprovação de elementos capazes de ensejar a aplicação do art. E 165 DO CPC . Desconsideração da personalidade jurídica denominada "inversa". 283 da IV Jornada de Direito Civil do CJF. IX.] Portanto. (Agravo de instrumento n. desvio de finalidade ou confusão patrimonial). [. expresse em sua decisão os pressupostos autorizadores dessa medida excepcional. que o julgador a quo vislumbre e.0702. 283 da IV Jornada de Direito Civil do CJF. ainda que concisa. como aclama o enunciado n° 283 da IV Jornada de Direito Civil citado na decisão deste Tribunal: AGRAVO DE INSTRUMENTO – AÇÃO MONITÓRIA CONVERTIDA EM EXECUÇÃO – DECISÃO DETERMINANDO A PENHORA DE DIREITO AFETO À SOCIEDADE LIMITADA. contribuindo para sua aplicação na forma invertida.031945-4) No mesmo sentido já se decidiu.OFENSA AOS ARTS.99. A teoria da Desconsideração da personalidade Jurídica deve ser aplicada com cautela.

pois o sócio que age com intuito de fraudar terceiros. DESCONSTITUIÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA.. revelando que não é mero “expectador”. não possui ativos financeiros em nenhuma das contas-correntes . Observa-se que neste caso o sócio usou do ente jurídico para esquivar-se se suas obrigações pessoais.. mas sim o efetivo proprietário da empresa e dos respectivos bens. pois todos seus bens passíveis de penhora foram fraudulentamente transferidos para a sociedade da qual é titular. MANUTENÇÃO. TRANSFERÊNCIA DO PATRIMÔNIO DA PESSOA FÍSICA PARA A SOCIEDADE. outra possibilidade de aplicar a teoria em comento. é possível alcançar a personalidade jurídica. no caso dos autos. [. EMBARGOS DE TERCEIRO. [. o executado Ênio José Bernardes de Oliveira é quem exerce tal função de fato. entendeu o magistrado a penhora parcial do patrimônio da sociedade empresária para garantir o crédito do credor lesado. desviando de sua finalidade com o abuso de direito. Destarte. 2010a): APELAÇÃO CÍVEL. (Apelação Cível n 70026209627) Percebe-se que o magistrado prestigia a aplicação da teoria inversa da desconsideração da personalidade jurídica. foi usado o nome da pessoa jurídica para esconder e acobertar a existência de bens pessoais de seus sócios aparentes ou nãoaparentes. tanto é que usa os bens registrados em nome da pessoa jurídica. PENHORA.66 mesmo não configurando juridicamente como sócio. [. DE ACORDO COM A CERTIDÃO DO OFICIAL DE JUSTIÇA.] É de ressaltar que. poderá o magistrado desconsiderar a personalidade jurídica. ou seja. UNÂNIME. LOCAÇÃO.. colocando em risco a autonomia patrimonial desta.. assim considerado pelos mais confiáveis veículos de comunicação. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. registra ainda este tribunal. (RIO GRANDE DO SUL.. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA INVERSA. e que nada foi encontrado em seu nome para uma possível execução. QUE FOI USADO O NOME DA PESSOA JURÍDICA PARA ESCONDER E ACOBERTAR A EXISTÊNCIA DE BENS PESSOAIS DE SEUS SÓCIOS APARENTES OU NÃO-APARENTES. com fundamento expressivo. PRELIMINARES. 2010b): AGRAVO DE INSTRUMENTO. DEMONSTRADO NOS AUTOS. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. NEGARAM PROVIMENTO.] O intuito fraudatório fica ainda mais evidente quando se tem em conta o fato de que um notável administrador.] Merece registro que. CONFUSÃO PATRIMONIAL. inclusive portando no bolso o certificado de propriedade do veículo penhorado. ocorreu a chamada “desconsideração da personalidade jurídica inversa”.. embora não figure juridicamente como sócio da empresa na Junta Comercial. revertendo assim a o ato fraudulento daquele que a controla (RIO GRANDE DO SUL. utilizando-se da sociedade empresária. No mesmo sentido.

acerca do tema. (Agravo de Instrumento n° 990. não conservando bens ou ativos financeiros em seu nome e deixando suas posses em nome de uma pessoa jurídica da qual é o único e exclusivo titular.Agravo provido. com o objetivo de "blindar" o patrimônio particular do devedor. bem como da confusão havida entre o patrimônio de um dos sócios e da sociedade que o mesmo integra e da transferência de patrimônio pessoal daquele em favor desta última. para permitir a penhora de bens dessa empresa . para que se proceda à penhora de tantos bens ou ativos financeiros em nome da empresa indicada. Permitindo a desconsideração inversa nos casos de transferência irregular dos bens pessoais do sócio para a sociedade. visto que a empresa individual e o respectivo empresário constituem uma só pessoa natural para efeitos civis. [. pois. transformando-a irregularmente e de fato em empresa individual Circunstância que permite a desconsideração inversa da personalidade jurídica.Pessoa que adquire todas as cotas de uma empresa constituída como sociedade de responsabilidade limitada. o bloqueio via sistema BACEN-JUD.. diante das inúmeras e infrutíferas tentativas de localizar bens em nome dos executados capazes de garantir o juízo executório. mas também no Superior Tribunal de Justiça. reconhecendo o instituto da desconsideração inversa.67 mantidas em instituições financeiras. a r.. o tema vem ganhando espaço não somente nos tribunais regionais.] Reforma-se. presente os pressupostos principais.Confusão patrimonial evidente. cabível a penhora da parte do patrimônio da empresa Lupapar Negócios e Empreendimentos Ltda. fls.] Ficando evidenciada a confusão patrimonial. configurando a confusão patrimonial de fato (SÃO PAULO. inviabilizando. com isso. o Tribunal do Estado de São Paulo assim já decidiu no mesmo sentido. quantos bastem para garantir o crédito. mantendo-se o devedor irregularmente como empresário individual de fato. Logo. desvio de finalidade e confusão patrimonial. não há como deixar de reconhecer que a personalidade jurídica dessa empresa está sendo fraudulentamente utilizada para uma "blindagem" do patrimônio desse seu proprietário. 2010a): EXECUÇÃO .298 ações da Lupatech S/A. o intuito fraudatório fica ainda mais evidente. possível afigurase a desconsideração inversa da personalidade jurídica determinada na origem.321640-7) Verifica-se que o entendimento é unânime quanto à aplicação do instituto. seu único titular. não havendo sequer necessidade de alteração do polo passivo. [. (Agravo de Instrumento n° 70034165084) Contribuindo ainda mais. Pois. em prejuízo de credores . abuso de direito. decisão agravada.Devedor que não mantém bens em seu nome ... Assim. A propósito. detida pelo sócio Nestor Perini e representada por 263. Em recente decisão a Ministra Nancy Andrighi profere seu voto em Recurso Especial.10. em prejuízo de credores particulares dele. 192/193. sendo a primeira decisão deste tribunal a desconsiderar a pessoa jurídica na sua forma inversa: .

que vedam o abuso de direito e a fraude contra credores. a separação dos entes é imprescindível.. ainda que não se considere o teor do art. entendo que a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica em sua modalidade inversa encontra justificativa nos princípios éticos e jurídicos intrínsecos a própria disregard doctrine . que tem como objetivo não somente o lucro. em voto proferido pela Ministra Nancy Andrighi. mediante a constrição do patrimônio de seus sócios ou administradores. como nos casos em que credores de boa-fé vêem seus direitos e expectativas frustrados por uma sociedade em bancarrota. surgiu como uma forma de flexibilização da distinção entre a responsabilidade do ente societário e seus integrantes (societas distat a singulus). cujos sócios permanecem abastados. possibilitar o adimplemento de dívidas assumidas pela sociedade. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica. mas também como um ente funcional. a desconsideração da personalidade jurídica configura-se sempre como medida excepcional.. 2006). de modo a ocultá-los de terceiros. a qual tem servido para acobertar comportamentos fraudulentos e abuso de direito. Destarte. RECURSO ESPECIAL.. para que seja combalido o ato do sócio mal intencionado. Não deverá prevalecer aquele que detêm o controle. [. O Juiz somente está autorizado a “levantar o véu” da personalidade jurídica quando forem atendidos os pressupostos específicos relacionados com a fraude ou abuso de direito estabelecidos no art.. [. EXECUÇÃO DE TÍTULO JUDICIAL. (Recurso Especial n 948. [. desrespeitando a função social da empresa. ART. em ambas as modalidades. . 50 do CC/02 sob a ótica de uma interpretação teleológica.] Dessa forma. impende ressaltar que a desconsideração inversa da personalidade jurídica caracteriza-se pelo afastamento da autonomia patrimonial da sociedade. atingir o ente coletivo e seu patrimônio social. de modo a responsabilizar a pessoa jurídica por obrigações do sócio.] De início. deve-se também congratular o princípio da função social da empresa.] A desconsideração da personalidade jurídica pode ser entendida como o afastamento episódico da autonomia patrimonial da pessoa jurídica com o intuito de... visa o instituto combater o a utilização indevida do ente societário por seus sócios.. com intuito de praticar atos fraudulentos.117) A discussão em tela promove a possibilidade ou não da aplicação do artigo 50 do Código Civil.68 PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. originária do direito anglo-saxão. POSSIBILIDADE. com a finalidade de organização da economia. [. inclusive no caso deste esvaziar o seu patrimônio pessoal. é imperioso analisar os pressupostos específicos que traz o artigo 50 do Código Civil. integralizando-o na pessoa jurídica. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA INVERSA. A luz da discussão. 50 do CC/02. 50 DO CC/02.. pois a empresa privada é um corolário da propriedade privada (CAVALLAZZI FILHO.] Ademais. para. Daí a importância do princípio da autonomia patrimonial. contrariamente do que ocorre na desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita. relata que somente em casos excepcionais poderá aplicar o magistrado tal medida.

para chegar os seus tipos de personalidades. tratou-se da classificação da pessoa jurídica. resguardar a credibilidade da pessoa jurídica. . com base nas doutrinas. pronto para sua aplicação. Buscou-se primeiramente enfatizar a pessoa jurídica. deve ser aplicada quando possível caracterizar seus pressupostos. de direito privado e direito público. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica visa. sendo esta episódica e excepcional. Em seguida. seu contexto histórico.69 Portanto a aplicação da teoria da desconsideração deverá sempre ser aplicada quando ocorrer ato lesivo a terceiro. mormente. mas com o mesmo objetivo de combater o ato leonino do sócio mal intencionado. com objetivo de combater a fraude por parte daquele que a controla. sua natureza jurídica. traçar o instituto da desconsideração da personalidade jurídica e sua aplicação inversa. teve como escopo. Cabe ainda registrar que a autonomia da pessoa jurídica é regra. e sua desconsideração é exceção. não poderá ser vista como um produto acabado. assim aplicando-a na sua forma tradicional ou inversa. 5 CONCLUSÃO O presente estudo. evitando assim que sua autonomia patrimonial seja usada de escudo protetor do sócio. para entender sua existência real. sendo uma pessoa com personalidade própria. Observou-se o conceito de pessoa jurídica. A desconsideração da personalidade jurídica.

50 aplicar a teoria da desconsideração na sua forma inversa. Enfim chega-se a um esboço sobre a teoria da desconsideração inversa. ora positivada. analisou brevemente. alcançar o patrimônio da sociedade por dívidas pessoais do sócio que a controla. desviando seu patrimônio particular. em determinadas sociedades empresárias caberá a desconsideração da personalidade jurídica. Procurou-se demonstrar o que preconiza a doutrina e seus fundamentos para a sua aplicação no judiciário. mas também em outras áreas do direito. a desconsideração inversa da personalidade jurídica. abuso de direito. Assim surge a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. foi estudado duas teorias adotada pelos doutrinadores. quando configurado os pressupostos do artigo 50 do Código Civil. o patrimônio do sócio não se confunde com o patrimônio da sociedade. confundindo seu patrimônio pessoal com o patrimônio da pessoa jurídica. Direito Tributário. juntamente com a jurisprudência pátria tratou de agitar o entendimento com o propósito de atalhar que a pessoa do sócio se apodere do ente jurídico para lograr a lei. Em seguida. no qual. como fundamento legal. desvio de personalidade e confusão patrimonial. Como no Direito do Consumidor. Ficou evidenciado que. Apesar de não haver dispositivo legal que disponha acerca da existência da Desconsideração Inversa da Pessoa Jurídica. ainda no Direito de Família quando verificado a fraude por parte do cônjuge por transferir o patrimônio particular para a sociedade empresária. a teoria maior e a menor. a doutrina. para determinar o grau de responsabilidade. o instituto que visa coibir fraude por parte dos seus sócios. ou seja. resulta a separação patrimonial. evidenciou-se os pressupostos do artigo 50 do Código Civil para a caracterização da teoria da desconsideração. como se. Direito Ambiental e desconsideração no Código Civil no seu artigo 50. mas com força da doutrina e jurisprudência poderá com base nos pressupostos da art. Assim entende a doutrina e jurisprudência à aplicação da teoria inversa. que não fica restritamente na aplicação da clássica teoria da desconsideração. como também no campo do Direito do Consumidor. assim evidenciou situações onde a lei consagra tal teoria. chegou até as espécies de sociedades empresárias. é utilizada não só no Direito Comercial. Aliás. Sobre o instituo da desconsideração. ou seja. com a constituição da personalidade jurídica. da pessoa jurídica fosse. . a desconsideração da personalidade jurídica no direito brasileiro.70 Para melhor compreensão. Assim. são entes distintos que não podem se confundir.

AGUIAR. Eduardo Lessa. Temas de Direito Civil – Empresarial. a teoria inversa vem se mostrando cada vez mais presente nos tribunais. 2008. 15. 2005. GAMA. de fato. Rio de Janeiro: Lumen Júris. Roberta Macedo de Souza: Desconsideração da Personalidade Jurídica no Direito de Família. Amador Paes de. Manual das Sociedades Comerciais: Direito de Empresa. deve prevalecer a idoneidade e autonomia nas suas relações. BASTOS. Desconsideração da Personalidade Jurídica. Rio de Janeiro: Forense. ed. Rio de Janeiro: Renovar. 2003. São Paulo: Saraiva. REFERÊNCIAS ALMEIDA. prevalecem. Afinal o ente jurídico tem sua função social e econômica. 2008.). como uma necessidade para proteger a credibilidade da pessoa jurídica. na aplicação da teoria inversa da desconsideração. Por fim. evitando que da autonomia patrimonial seja usada de forma irregular por parte do sócio. e com ela.71 Observou-se ainda que. pessoa jurídica. e seus pressupostos norteadores da Desconsideração da Personalidade Jurídica delineado no artigo 50 do Código Civil. fontes fundamentais para a interpretação do direito. . ALVES. Alexandre Ferreira de Assumpção. as fontes do direito. doutrina e jurisprudência. Guilherme Calmon Nogueira (Coord.

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